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Teoria da Janela Quebrada: Uma análise criminológica perante o

Direito Penal brasileiro


DIREITO PENAL
04 dez 2020, 04:37

POR: PAOLA NOVO DOS SANTOS DE ARAÚJO MATTOS


RESUMO: Este artigo tem por finalidade apresentar a Teoria da Janela
Quebrada diante do Direito Penal brasileiro. Buscando expor as vertentes da
Teoria da Janela Quebrada e sua aplicabilidade no ordenamento americano;
identificar a política criminal brasileira nos crimes de menor potencial ofensivo e
seus institutos “des”penalizadores. Uma janela quebrada sinaliza tanto para os
cumpridores da lei quanto para os criminosos que ninguém se importa. Nesse
sentido, gradualmente outras janelas serão quebradas, até que o prédio seja
completamente destruído, o que, por sua vez, só reforçará o sentimento
daquela comunidade de que a desordem é a regra naquele espaço. Tem-se
que o método de abordagem a ser adotado o dedutivo, que tem como definição
clássica ser aquele que parte do geral para alcançar o particular, ou seja, extrai
o conhecimento a partir de premissas gerais aplicáveis a “hipóteses concretas”.
Tomando ainda por referência será adotada a seguinte técnica de pesquisa
neste projeto: documentação indireta – com observação sistemática,
abrangendo a pesquisa bibliográfica de fontes primárias e secundárias
(doutrinas em geral, artigos científicos, dissertações de mestrado, teses de
doutorado, etc.), além de documentação oficial (projetos de lei, mensagens,
leis, decretos, súmulas, acórdãos, decisões, etc.).
PALAVRAS-CHAVE: Teoria da Janela Quebrada. Institutos
“des”penalizadores. Intervenção mínima. Princípio da Insignificância.
ABSTRACT: This article aims to present the Broken Window Theory and its
applicability in Brazilian Criminal Law. Therefore, it seeks to expose as aspects
of the Broken Window Theory and its applicability in the American order; to
identify a Brazilian criminal policy in the crimes of less offensive potential and its
penalizing “des” institutes; and to evaluate the possible consequences that the
Brazilian criminal legal system would have to face in order to be able to apply it
as a criminal policy to combat criminality against the national criminal. A broken
window signals both law-abiding and criminals that no one cares. In this sense,
gradually other windows will be broken, until the building is completely
destroyed, which, in turn, will only reinforce the feeling associated with the
community that disorder is the rule in that space. For a better understanding of
all the theories resulting from this theory, starting with the theoretical scope it
touches: firstly, criminology, identifying a specific etiology for crime; Second, the
criminal policy centered on policing clinic; And thirdly, criminal law, specifically
in practices performed under a guarantee system. As said, the theory of broken
windows is based on the concept of disorder, which can be subdivided into two
modalities: distinct: physical disorder and social disorder. This theory did not
come out of the blue, despite its clear “common sense” nature, it can be said
that it is also the result of a series of empirical works that had been developed
in the field of criminology for years.
KEYWORDS: Broken Window Theory. Penalizing “institutes”. Minimal
intervention. Principle of Insignificance.
INTRODUÇÃO
A Teoria da Janela Quebrada é, sem dúvida, um dos temas mais
influentes e amplamente divulgados e debatidos na criminologia norte-
americana.

O presente artigo trata de teorias, princípios e correntes doutrinárias da


ciência criminal. Tendo a Teoria da Janela Quebrada, um emergente sistema
de penalização americana, contrapondo aos princípios da insignificância e da
intervenção mínima, aplicados no Código Penal brasileiro, os quais fazem parte
daquilo que se denomina atualmente como direito penal mínimo.

Tal vertente vem ganhando espaço por ser o caminho natural de um


Estado Democrático de Direito, contrário da Teoria da Janela Quebrada que já
tem um viés voltado para o direito penal máximo, que defende e almeja
prevenir a macro delinquência e os crimes mais graves, punindo com
veemência crimes de menor ofensividade.

Diante de todas essas teorias e correntes doutrinárias, que são


propostas de interpretações da realidade elaboradas com métodos científicos,
por apresentar caminhos alternativos para a observação, ou seja, uma
sugestão mais segura de entendimento, apresentando-a de forma objetiva, se
essa teoria serve para o Brasil. A execução da política das “Janelas
Quebradas” tenderia a produzir resultados em ambientes sociais específicos,
onde a população/usuário desse ambiente seria definida.

Ademais, o maior impasse é se “a aplicação da política de segurança


pública adotada pela Teoria da Janela Quebrada no enfrentamento e combate
ao crime, tendo como visão fundamental a desordem como fator de elevação
dos índices da criminalidade, é eficaz no Direito Penal brasileiro?”

Ressalta-se que o entendimento da Suprema Corte brasileira é


divergente em relação à aplicabilidade da teoria em tese, uma vez que não há
esclarecimentos acerca do momento que esta poderia ser compatível com o
ordenamento jurídico. Porquanto se leva em consideração a conduta do
agente, e não a situação pessoal, que, confrontaria o princípio da
insignificância, em consonância com o princípio da intervenção mínima, o qual
preconiza que o Direito Penal só deverá ser aplicado quando o for estritamente
imprescindível.

1 JANELAS QUEBRADAS: UMA ANÁLISE CRIMINOLÓGICA E A


DESORDEM SOCIAL.
“Broken Windows” (Janela quebrada) é, sem dúvida, um dos artigos
mais influentes e amplamente divulgados e debatidos na criminologia norte-
americana, mas, ao contrário do que muitos imaginam, sua primeira publicação
não aconteceu em uma revista cientifica apresentando dados empírico,
estatísticos ou conceitos teóricos complexos, ele foi, na verdade, publicado em
uma revista mensal “The Atlantic” em março de 1982. Nesse texto, os autores
James Q. Wilson, cientista político e George Kelling, psicólogo criminologista,
usaram uma simples metáfora para apresentar os seus pensamentos sobre o
crime: uma janela quebrada.

O argumento apresentado é muito claro: quando vemos algo que já está


quebrado, sentimos que as pessoas simplesmente não se importam
genuinamente com aquilo. Qual é o problema de quebrar mais uma janela de
um prédio abandonado? Ou de furar mais um pneu de um carro abandonado e
destruído? Ou, de um modo mais corriqueiro, jogar uma “bituca” de cigarro em
um chão que já está cheio de lixo? Intuitivamente, presumimos que não há
problema ou, se houver ninguém se importa. Inclusive, pesquisas posteriores
acreditam que foi justamente essa simplicidade que acabou auxiliando o
processo de divulgação e captação do apoio popular.

Essa imagem das “janelas quebradas” foi invocada pelos autores para
explicar como bairros e ruas acabam se tornando espaços completamente
incivilizados, marcados pela desordem e pela criminalidade. Uma janela
quebrada sinaliza tanto para os cumpridores da lei quanto para os criminosos
que ninguém se importa. Nesse sentido, gradualmente outras janelas serão
quebradas, até que o prédio seja completamente destruído, o que, por sua vez,
só reforçará o sentimento daquela comunidade de que a desordem é a regra
naquele espaço.

Os doutrinadores penais Pacelli e Callegari entendem que:

A ordem social seria destruída a partir de pequenos delitos e


condutas desordeiras, daí a necessidade de tipos vagos e genéricos
como “vadiagem” e outros do gênero. Configuraria, portanto, apenas
mais uma justificativa para o sistema afastar esses indivíduos
problemáticos da comunidade temporariamente, restaurando a paz
social. (PACELLI; CALLEGARI, 2016).

Como essa teoria acabou tornando-se extremamente popular, é muito


comum se ver muitas citações a respeito, de todos os lados do mundo. Para
melhor compreensão de todas as implicações dessa teoria, a começar pelo
âmbito teórico que ela toca: em primeiro lugar a criminologia, identificando uma
etiologia específica para o crime; em segundo a política criminal centrada em
estratégias de policiamento; e em terceiro lugar o direito penal, especificamente
nas implicações das práticas descritas em um sistema de garantias.

Como dito, a teoria das janelas quebradas se baseia no conceito de


desordem, que pode ser subdividido em duas modalidades distintas: a
desordem física e a desordem social. Quando se fala em desordem física, os
autores estão se referindo as calçadas sujas de lixo, edifícios abandonados,
fachadas mal cuidadas, pichações e outras situações estruturais
desagradáveis; a desordem social, por sua vez, tem a ver com pedidos de
esmola, prostituição, tráfico de drogas nas ruas, vadiagem, por exemplo, ou
seja, qualquer ação que torne as pessoas desconfortáveis ou traga medo.
Essa desordem seria a responsável por passar uma impressão de que
os membros da comunidade local não teriam interesse, ou não seriam
capazes, de exercitar controle social informal naquela área, e que a polícia
seria tolerante com o comportamento desviante ou criminoso. Essa percepção
de uma falta de controle na comunidade traria as pessoas mais medo de serem
vitimadas, afinal de contas se coisas tão pequenas e simples como as descritas
não conseguem ser prevenidas, então não existe absolutamente nada que
consiga impedir os verdadeiros bandidos.

Como consequência desse receio, as “pessoas de bem” deixariam de


ocupar esses espaços públicos, optando, por exemplo, por ficar em casa ou em
lugares “protegidos” como, por exemplo, os shoppings centers.

Com essa fuga dos seguidores da lei, as ruas estariam prontas para
uma invasão criminal, isto é, a ocupação do espaço público por desviantes, e
com o passar do tempo, verdadeiros criminosos. Aqueles que praticaram ações
questionáveis, mas não passavam de meras contravenções sentir-se-iam
empoderadas pela falta de controle social, podendo cometer atos cada vez
mais graves; e aqueles que já estavam no mundo do crime, começariam a ver
nesses locais oportunidades para a expansão de suas atividades.

Essa teoria não surgiu do nada, apesar da sua clara natureza de “senso-
comum”, pode-se dizer que ela também é fruto de uma série de trabalhos
empíricos que vinham sendo desenvolvidos no campo da criminologia por
anos; e aqui vale a pena mencionar duas importantes influencias nessa forma
de pensamento; a teoria da desorganização social, de Clifford Shaw e Henri
McKay, e a psicologia social de Phillip Zimbardo.

O fato de a teoria das janelas quebradas ter sido construída sob as


fundações dessas outras concepções não garante, entretanto, que ela seja
válida, pois para isso, ela precisava ser testada e comprovada.

Uma das análises mais citadas por defensores da teoria é o feito por
Wesley Skogan, do departamento de ciência política dos EUA, cuja análise
estatística teria demonstrado uma conexão entre desordem e o roubo no
âmbito dos bairros analisados. O problema é que esses mesmos dados foram
reavaliados posteriormente por Berbard Harcourt, cientista político, com
resultados drasticamente diferentes. De acordo com o seu estudo, a desordem
não afetava nenhum outro crime além do roubo e que mesmo essa relação era
válida para apenas alguns bairros, não podendo ser generalizada.

Em 1999, Robert J. Sampson, professor de ciências sociais, sugeriu


uma interpretação diferente dos dados expostos até então, de acordo com ele,
ao invés de ser a causa do crime, tanto a desordem quanto o crime são
produtos do mesmo problema, a baixa eficácia coletiva, uma evolução das
nações de Shaw e McKay que supera contradições empíricas da teoria original.

Ao contrário do proposto por G. Kelling e Wilson, a ideia de que a


desordem seria um fator independente na causação do crime, Sampson,
Harcourt e outros pesquisadores demonstraram que tal determinação não pode
ser divorciada do seu ambiente social e econômico. Em outras palavras, a
teoria não se sustenta, porque embora a desordem funcione em algum nível
como determinação do crime, ela não pode ser vista dissociada da pobreza,
instabilidade residencial, segregação racial e de outros fatores sistêmicos e
socioeconômicos que marginalizam segmentos da sociedade, ou seja, não vale
efetivamente enquanto teoria criminológica.

Como exposto anteriormente, porém, essa aqui não é só uma teoria


criminológica, ela também apresenta uma clara política criminal identificando
em formas especificas de policiamento como resposta para a prevenção do
crime.

A utilização da janela, e não do prédio inteiro, por exemplo, se dá em


função da estratégia de política criminal advogada pelos autores: são os
pequenos atos desordeiros, não necessariamente criminosos, que dariam início
a uma reação em cadeia, que no fim das contas acabaria por destruir
completamente a segurança de uma determinada comunidade e deixaria o
caminho aberto para a prática dos mais graves crimes.

Nesse sentido, o foco central de uma política criminal efetivamente


deveria ser o combate a essas condutas aparentemente pouco ofensivas e
frequentemente toleradas; a polícia deveria estar constantemente presente na
comunidade, exercendo papel de controle social não só formal, mas também
informal.

O caso mais famoso de aplicação da teoria das janelas quebradas é,


provavelmente, a Nova York dos anos 1990, que a época tinha Rudolph
Giulianni como prefeito, e William Bratton como comissário de polícia. A partir
de uma interpretação específica da política criminal proposta por Kelling e
Wilson, popularizada como “Tolerância Zero”, Bratton e Giulianni viram uma
diminuição significativa das taxas de homicídio da cidade, e rapidamente,
tomaram crédito por sua política criminal que efetivamente funcionava no
combate ao crime.

1.1 Operação Tolerância Zero


A tolerância zero é o nome que designa a estratégia de política criminal
que se caracteriza por um policiamento ostensivo de aplicação proativa
máxima, melhor dizendo, ela basicamente exige que os policiais reprimam até
as menores ofensas com o mesmo rigor dedicado às formas mais graves de
criminalidade. Com isso, uma clara mensagem seria enviada aos criminosos: a
polícia está ali, com a capacidade de motivação necessária para lidar com tudo
aquilo que você possa fazer com que os outros se sintam inseguros.

A diminuição dos índices de homicídios em Nova York é um dado


inegável, e normalmente é rebatida quando tentam criticar as fundamentações
teóricas e empíricas da tolerância zero. Mas uma questão principal precisa ser
colocada nessa história, será que essa diminuição se deu por causa das
políticas de tolerância zero? Para se ter certeza de que esse é o fator
determinante na redução dos homicídios, poderia então comparar esses
índices de Nova York com outras cidades similares nos Estados Unidos.
Contudo, os índices de homicídios começaram a cair vertiginosamente em
todas as cidades analisadas do EUA, inclusive em cidades que não adotaram
nenhuma forma de política criminal baseada em tolerância zero.

Ademais, outros estudos, especificamente em relação à cidade de Nova


York, concluíram que, embora o programa tenha tido influência em algumas
contravenções penais, o impacto em crimes graves foi mínimo.

Portanto, muitos foram os estudos que comprovaram que a política de


Tolerância Zero aplicada em Nova York era, na verdade, uma legitimação de
intervenções racistas por parte do corpo policial, abordando de forma
completamente desproporcional, negros e hispânicos, e depois sendo forçado
a liberá-los, sem evidências do cometimento de nenhuma infração.

Ressalta-se em um primeiro momento que a tese de James Wilson e


George Kelling é ao menos aceitável na teoria, no entanto recebe inúmeras
críticas quando comparado ao Direito Penal brasileiro, Edward Carvalho,
advogado e professor brasileiro de direito processual penal e Jacinto Nelson de
Miranda Coutinho escreveram um artigo com o provocativo subtítulo: “E se a
pedra vem de dentro?”, os dois autores apresentaram uma respeitável síntese
das críticas criminológicas dirigidas à Teoria das Janelas Quebradas.

Eles lembram como qualquer aplicação de programas de tolerância zero


seria absolutamente inconstitucional no ordenamento jurídico brasileiro. Como
a Constituição da República, para além do próprio princípio da
proporcionalidade, há uma clara distinção entre infrações de menor potencial
ofensivo e de efetivos crimes. Não devendo assim se passar uma “tábua rasa”
sobre todas as infrações, passando a considerar a mendicância igual ao
homicídio, ou pior, a causa dele.

Concepções como as mostradas anteriormente vão ao sentido contrário


de qualquer concepção do Direito Penal brasileiro como ele deve funcionar.

Consequentemente a Teoria das Janelas quebradas não se sustenta,


nem como explicação do crime, nem como política criminal: seja por sua
ineficiência, ou por incompatibilidade com qualquer regime democrático de
Direito.

2 PRINCÍPIOS NORTEADORES DO DIREITO PENAL BRASILEIRO


O Direito penal brasileiro caracteriza-se por ser um instrumento
opressivo em defesa do aparelho estatal, mas vai além disso, exerce uma
função de ordenação dos contatos sociais, estimulando práticas positivas e
evitando condutas desautorizantes das normas que regem a sociedade,
principalmente protegendo bens jurídicos. Para tanto, é necessário respeitar
os princípios e as garantias individuais que fundamentam o Estado
Democrático de Direito previsto na nossa Carta Magna. Tendo o princípio
da dignidade da pessoa humana, dentre outros, legalidade, insignificância,
alteridade, confiança adequação social, intervenção mínima,
fragmentariedade, proporcionalidade, humanidade, necessidade e
ofensividade, como balizadores da criação, bem como da aplicação e
verificação de constitucionalidade.
Os Princípios constitucionais e as garantias individuais devem atuar
como balizas para a correta interpretação e a justa aplicação das
normas penais, não se podendo cogitar de uma aplicação meramente
robotizada dos tipos incriminadores, ditada pela verificação
rudimentar da adequação típica formal, descurando-se de qualquer
apreciação ontológica do injusto. (CAPEZ, 2017).

Dos quais merecem destaques os que se seguem nos tópicos seguintes


em virtude da importância do tema abordado, qual seja: Teoria da “Janela
Quebrada”.

2.1 Princípio da Intervenção Mínima


O princípio da intervenção mínima preconiza que o Direito Penal só
deverá ser aplicado quando o for estritamente imprescindível, não devendo ser
aplicado a qualquer caso, ou seja, o Direito penal só poderá ser invocado após
o fracasso ou quando os não couberem nos demais ramos do direito, isto é,
quando o direito civil, direito administrativo, trabalhista, tributário e outros não
puderem regular tal fato, então consiste que o Estado de direito utilize a lei
penal como seu último recurso, ou melhor, “ultima ratio”. O princípio em debate
expressa que essa medida é uma forma de disciplinar a conduta do indivíduo,
pois se pune a conduta e não o agente.
Nesse sentido o doutrinador penalista brasileiro, preceitua:

Procurando restringir ou impedir o arbítrio do legislador, no sentido de


evitar a definição desnecessária de crimes e a imposição de penas
injustas, desumanas ou cruéis, a criação de tipos delituosos deve
obedecer à imprescindibilidade, só devendo intervir o Estado, por
intermédio do Direito Penal, quando os outros ramos do direito não
conseguirem prevenir a conduta ilícita (JESUS, 2012).

O Direito penal só deve ser aplicado quando se houver efetiva lesão ou


ainda perigo ao bem jurídico tutelado, característica fragmentária, a partir desta
especialidade que surgem outros princípios, como princípio da lesividade, por
exemplo.

2.2 Princípio da Insignificância
A doutrina mundial considera como incontroverso o fato de o princípio da
insignificância ser sistematizado em caráter científico pela primeira vez em
1964, por meio dos ensinamentos de Claus Roxin, baseado no brocardo
latino “minimis non curat praetor”, embora que o desacordo seja intenso no que
diz respeito à origem histórica do princípio em tela, especialmente se tal
instituto derivou, ou não, diretamente do direito romano.
O princípio da insignificância é uma causa de excludente de tipicidade
caracterizada pela ausência de tipicidade material do fato praticado pelo
agente, ou seja, o princípio tem a finalidade de tutelar um bem jurídico, sempre
que a lesão for insignificante, a ponto de se tornar incapaz de lesar o interesse
protegido, dito isso não haverá adequação típica, como bem preceitua Capez,
2017 “a tipicidade penal exige um mínimo de lesividade ao bem jurídico
protegido, pois é inconcebível que o legislador tenha imaginado inserir em um
tipo penal condutas totalmente inofensivas ou incapazes de lesar o interesse
protegido”.
Desde então o poder judiciário e os ordenamentos jurídicos dos países
procuram entender o princípio da insignificância para depois concretizá-lo, seja
no plano legal, seja nas decisões administrativas ou judiciais, proferidas pelas
autoridades competentes. 

2.2.1 Requisitos (Vetores de Aplicação do Princípio da Insignificância)

Para que seja reconhecida a aplicação do princípio da insignificância ou


crime de bagatela, que é causa supralegal de exclusão de tipicidade material
do fato, tornando-se atípico, uma vez, que na análise de relevância do objeto
em questão, este é insignificante para a vítima.

Ademais, o Superior Tribunal Federal assentou quatro vetores


necessários para a aplicação de tal princípio, todos presentes nos casos, quais
sejam: nenhuma periculosidade social da ação, reduzidíssimo grau de
reprovabilidade do comportamento, a mínima ofensividade da conduta e a
inexpressividade da lesão jurídica provocada. O que leva o sujeito/infrator a
absolvição sumaria por encontrar-se excluída a tipicidade do fato.

EMENTA Habeas corpus. Penal. Crime de furto (art. 155, caput, do


CP). Princípio da insignificância. Hipótese de não-aplicação.
Precedentes. 1. A jurisprudência deste Supremo Tribunal Federal
assentou algumas circunstâncias que devem orientar a aferição do
relevo material da tipicidade penal, tais como: (a) a mínima
ofensividade da conduta do agente, (b) a nenhuma periculosidade
social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do
comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada.
2. No presente caso, a pretensão deduzida no sentido de que seria
possível a aplicação do princípio da insignificância ou do princípio da
"irrelevância penal do fato" à espécie não encontra respaldo suficiente
para suspender os efeitos do acórdão ora questionado e obstar o
andamento da ação penal. 3. Habeas corpus denegado. (STF – HC
94439 RS, Relator MENEZES DIREITO, Data de julgamento:
03/03/2009. Primeira Turma, Data de Publicação: DJe-064
DIVULG02-04-2009 PUBLIC 03-04-2009 EMENT VOL – 02355-03
PP-00476)

Portanto, quando se aplicado o princípio, ora em voga, deverá ser


verificado cada caso concreto, conforme suas especificidades, uma vez que
não se pode “afirmar que todas as contravenções penais são insignificantes”,
CAPEZ, 2017.

2.3 Princípio da Insignificância Versus Teoria da Janela Quebrada


O princípio da insignificância é uma causa de excludente de tipicidade
caracterizada pela ausência de tipicidade material do fato praticado pelo
agente, ou seja, o princípio tem a finalidade de tutelar um bem jurídico, sempre
que a lesão for insignificante, a ponto de se tornar incapaz de lesar o interesse
protegido, não haverá adequação típica.

A doutrina mundial considera como incontroverso o fato de o princípio da


insignificância ser sistematizado em caráter científico pela primeira vez em
1964, por meio dos ensinamentos de Claus Roxin, baseado no brocardo latino
“minimis non curat praetor”, entretanto o descordo é intenso no que diz respeito
à origem histórica do princípio em tela, especialmente se tal instituto derivou,
ou não, diretamente do direito romano.

Os autores que defendem a tese da origem romana do princípio da


insignificância pensam sobre a natureza dos delitos, ou seja, infrações sob as
normas vigentes, dividindo-os em privados e públicos; Por delitos privados
entendia-se que eram aqueles praticados sem violência, desta forma o
representante estatal romano funcionaria como julgador para o caso, o qual
seria avaliado de acordo com as leis civis, uma vez que somente foram
violados interesses privados, nesses casos cabia as partes a instrução do feito,
pois o aparato imperial não investigaria o ocorrido; Já nos delitos públicos o
representante estatal romano agiria com as tarefas próprias de um magistrado
podendo ordenar a realização de qualquer diligência que julgasse necessária
para elucidação do caso.

Ademais, o referido representante era titular do ius puniende romano,


como se observa o direito romano somente se preocupa com a persecução dos
delitos públicos, portanto delitos de menor relevância deveriam ser
solucionados pelos próprios envolvidos sem a ingerência do poder público,
gerando o brocado “de minimis non curat praetor”, ou seja, o pretor não deve
se ocupar de irrelevâncias.

Por outro lado, os autores que rebatem a origem romana do princípio da


insignificância, argumentam que o direito romano era altamente adiantado em
seu aspecto privado, ou seja, no relacionamento dos cidadãos entre si,
sobretudo nos temas de direito de família, direito das sucessões e no direito
contratual. Dessa forma o brocardo latino “de minimis non curat praetore”
referia-se aos casos privados banais ou frequentes, os quais em razão da
irrelevância do ocorrido não mereciam tomar o tempo do pretor. Como se
observa, não existe relação alguma com o direito penal da Roma Antiga. O
autor Guzmán Dalbora é ainda mais radical ao defender a inexistência do
princípio da insignificância no direito romano, chegando a negar que o brocado
“de minimis non curat praetore” sequer foi criado pelos juristas da antiguidade,
haja vista que não é possível localizar no texto do Corpus Juris Civilis ou na
Magna Glosa, escrita por Acúrcio.
Encerrada a polêmica acerca da origem no princípio da insignificância, é
importante destacar que a primeira legislação a prevê expressamente foi a
Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão promulgada na França em
1789, conforme se observa em seu artigo 5º que diz que “a lei não proíbe
senão as ações nocivas à sociedade. Tudo que não é vedado pela lei não pode
ser obstado e ninguém pode ser constrangido a fazer o que ela não ordene.”

Em seguida, em 1896, o jurista alemão Frank Von Liszt sugeriu a


retomada do conceito expresso pela máxima “minimis non curat praetore” como
uma forma de brecar o avanço da legislação penal germânica no período. O
autor entendia que o direito penal era usado em demasia pelo poder legislativo,
sendo necessária a criação de um mecanismo de conteúdo axiológico
relacionado as práticas dos indivíduos que faziam os seus resultados
naturalísticos. Contudo, a referida necessidade tornou-se crucial durante o
período pós segunda guerra, uma vez que milhares de alemães, com fome e
sem possibilidade de desfrutar da dignidade da pessoa humana, cometiam
pequenos furtos, para poderem ter o que vestir e comer.

A situação social alemã já era difícil, caso o argumento da lei fosse


aplicado às penitenciárias, não suportariam a quantidade de reclusos.
Precavido a esse fator, Claus Roxin inaugura em 1965, o princípio da
insignificância como causa de excludente de tipicidade, a qual atuaria no
âmbito da tipicidade material, afastando a incidência da norma penal de
comportamentos mínimos.

Desde então o poder judiciário e os ordenamentos jurídicos dos países


procuram entender o princípio da insignificância para depois concretizá-lo, seja
no plano legal, seja nas decisões administrativas ou judiciais, proferidas pelas
autoridades competentes. 

3.CRIMES DE MENOR POTENCIAL OFENSIVO


São infrações de menor potencial ofensivo todos os crimes a que a lei
comine pena não superior a 2 (dois) anos, todas as contravenções penais e os
crimes, bem como aduz o artigo 61 da Lei 9.099 de 26 de setembro de 1995.

Os crime de menor potencial ofensivo preconiza o Direito Penal Mínimo,


que se encontra representado pela política de descriminalização,
desencarceramento e despenalização, apresentando-se mais recentemente
por meio da Lei 9.099/1995 ("Juizados Especiais"), em seguida pela Lei
9.714/1998 ("Penas Alternativas") e agora a Lei 10.259/2001 (Juizados
Especiais Federais), em que os legisladores se guiaram nas duas últimas
políticas supracitadas.

A admissibilidade das infrações de menor potencial ofensivo decorre dos


princípios da isonomia e proporcionalidade, onde a noção de bem jurídico,
torna-se de extrema relevância, como um dos critérios principais da
individualização e delimitação da matéria a ser objeto de tutela penal.

3.1 Institutos “Des”Penalizadores


A Lei 9.099/1995, traz alguns institutos “des”penalizadores, institutos que
evitarão a aplicação da lei penal ao final do processo, as vezes até mesmo a
instauração do mesmo, como é o caso da transação penal. A lei tem como
institutos o a composição dos danos civis, a transação penal e a suspensão
condicional do processo, evitando que o sujeito responda o processo ou que ao
menos o processo termine e que ao sujeito seja aplicada a pena.

Segundo a Lei 9.099/1995 dos juizados especiais criminal, infração


penal consiste nas contravenções penais, e é independentemente das
penalidades, toda contravenção penal, é uma infração penal de menor
potencial ofensivo, tendo a pena máxima até dois anos.

Após a criação dos Juizados Especiais Criminas, percebe-se que pelo


menos na seara dos crimes de menor potencial ofensivo, a Justiça conseguiu
ser mais célere e eficaz, pois a fim não é apenas de punir os infratores
encarcerando-os, mas punindo-os de forma mais ativa, ou seja, através de
penas que restringirão seus direitos e/ou através de multas, viabilizando a sua
socialização e evitando muitas vezes a reincidência.

A composição civil, a transação penal e a suspensão condicional do


processo são institutos criminais de natureza “des”penalizadora, que surgiram
com a criação da Lei nº 10.259/2001, que precisam ser mais utilizados e
estimulados, uma vez que visam prevenir ou extinguir o litígio através da
composição, a qual pode acontecer por vontade das partes ou por intervenção
do juiz, além do que, permite a resolução de conflitos de forma rápida e com
consenso, evitando também o desgaste de uma persecução penal e o acúmulo
de processos de crimes de ofensividade mínima na Justiça.

Com isso, destaca-se o conceito:

Medidas despenalizadoras são aquelas que afastam a pena, logo


incidem na punibilidade. A Lei nº 9.099/95, que regulamentou os
Juizados Especiais no âmbito estadual, dispõe sobre algumas medidas
despenalizadoras para as infrações penais de menor potencial
ofensivo, quais sejam: a) composição civil (reparação de dano e
consequente extinção da punibilidade) b) transação penal c) suspensão
condicional do processo d) exigência de representação para a lesão
leve e culposa São medidas despenalizadoras porque uma vez
concretizadas (ou na ausência, no caso da representação) afastam a
punibilidade do acusado. (GOMES, 2011).

CONCLUSÃO
Conclui-se que toda vez que é mostrado à sociedade que não há
intolerância para infrações pequenas, se dar margens para crimes maiores,
ademais alimentando a cultura da impunidade, ou seja, com base nos estudos
empíricos apresentados há uma tendência de que a ausência do estado em
reprimir determinadas condutas acaba estimulando de certa forma o sujeito a
cometer infrações mais graves, uma vez que na maioria dos casos não se
começam praticando latrocínio, homicídio, estupro, entre outros, o infrator
começa com furto, dano ao patrimônio, furto qualificado, roubo, roubo
majorado, até chegar ao latrocínio e etc., com tudo isso o violador vai
“crescendo” cometendo cada vez delitos mais graves, pois a sensação da
impunidade, a sensação de ausência do estado estimula o mesmo a continuar
a praticar condutas incriminadoras, uma vez que a sensação da impunidade faz
com que sejam praticados novos delitos.

Outrossim, a Teoria das “Janelas Quebradas” traz em seu conteúdo


que  quando o Estado mostra à sociedade que está presente para aplicar a lei,
os rigores da lei, mesmo nas infrações menores, esse sujeito que cometeu
contravenções penais, ele terá consigo um efeito de prevenção geral, uma vez
que ele terá o senso de que se o Estado o repreende em crimes de menor
potencial ofensivo, por exemplo, irá repreende-lo em crimes mais graves,
fazendo-o não cometer condutadas incriminadoras.

Ademais, foi o que ocorreu no estudo desenvolvido na cidade de Nova


Iorque, no bairro rico de Palo Alto e no bairro pobre Bronx, enquanto o carro
estava intacto, ninguém mexeu, após uma semana, até o momento em que se
teve uma janela quebrada do veículo em seguida o carro foi destruído e
depenado como o ocorrido no bairro pobre. E o objetivo da teoria é justamente
demonstrar a relação de causalidade entre a criminalidade e outros fatores
sociais, tais como a pobreza, e a semelhança entre a desordem e a
criminalidade. Uma vez que não seriam somente fatores ambientais ou
pessoais que teriam influência na formação da personalidade criminosa.

Deste modo, vejamos o quão oposto é a política criminal do Estados


Unidos à do Brasil, uma vez que o Brasil de certa forma desestimula a
aplicação dos rigores da lei penal com a aplicabilidade dos institutos
“des”penalizadores, acarretando a impunidade, o que estimula a pratica de
crimes.

No entanto, a tentativa de importação da referida Teoria para o Brasil é


um problema, pois esbarra no princípio da intervenção mínima, que orienta e
limita o poder incriminador do Estado, estabelecendo a proteção de bens
jurídicos mais relevantes. Assim, entende-se que no Brasil há condutas ilícitas
ausentes de sanções penais, sendo aplicada no máximo restrições de direito
para o agente.

Portanto, a redução da criminalidade não deve estar condicionada a uma


política de tolerância zero que possa levar a um autoritarismo, uma vez que o
Brasil é um pais democrático de direito devendo precipuamente implantar
políticas sociais que garantam direitos fundamentais em interface com a
aplicação de sanções razoáveis, proporcionais e efetivas para reduzir a
desordem e juntamente com outros fatores que dão formação ao crime,
reduzir-se-ia também os índices da criminalidade no Brasil.

REFERÊNCIAS
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<http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-
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at%C3%A9-1919/declaracao-de-direitos-do-homem-e-do-cidadao-1789.html>
Acesso em 31 de maio de 2020.

BRASIL, Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995. Disponível:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9099.htm> Acesso em 31 de maio

de 2020.

CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal. Parte geral: Artigo 1ª a 120 /


Fernando Capez. – 21 ed. – São Paulo: Saraiva, 2017.
GOMES, Luiz Flávio. Qual a diferença entre medidas despenalizadoras e

medidas descriminalizadoras? Disponível:

<https://professorlfg.jusbrasil.com.br/artigos/12192 4870/qual-a-diferenca-entre-

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junho de 2020.
MORAES, Alexandre de; SMANIO, Gianpaolo Poggio. Legislação Penal

Especial. São Paulo: Atlas, 2006.

NORONHA, Edgard Magalhães. Direito Penal. 35ª ed. Atualizada por

Adalberto Q. T. de Camargo Aranha. São Paulo: Saraiva, 2000. v. 1.

PACELLI, Eugênio; CALLEGARI, André. Manual de direito penal. Parte

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PAIVA, Mario Antônio Lobato de. Juizados Especiais Criminais – A Revolução

Copérnica do Sistema Penal Vigente.

REJUR | n. 1 | p. 60-69 | jan.-jun./2012.

STF – HC 94439 RS, Relator MENEZES DIREITO, Data de julgamento:


03/03/2009. Primeira Turma, Data de Publicação: DJe-064 DIVULG02-04-2009
PUBLIC03-04-2009 EMENT VOL – 02355-03 PP-
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CYberbulling: quando a violência virtual ultrapassa a liberdade de expressão.

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