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'Fernando Pessoa

Fernando Pessoa Ortónimo


Pessoa parte da negação da ideia romântica do poeta como um confessor, como alguém que se desnu-
da aos olhos do leitor, e filtra tudo através da inteligência. Em Pessoa tudo é inteligência e todo o texto
é produto da imaginação. No momento de produção literária / poética, o poeta finge sentimentos, emo-
ções, não deixando, no entanto, de haver verdade, só que essa verdade, essa sinceridade, é artistica-
mente trabalhada.

- Temáticas Estruturantes
O fingimento artístico
Fernando Pessoa apresenta a sua conceção de arte poética através da temática do fingimento artís-
tico. Para Pessoa "um poema é um produto intelectual". Deste modo, o poeta expõe o seu conceito de poe-
sia enquanto intelectualização da emoção, isto é, o poema é uma construção de sentidos que o trabalho
poético elabora, a partir de sentimentos criados ou recriados. Assim, a sinceridade artística constrói-
-se com base no fingimento, na transfiguração da emoção pela razão, de modo a atingir-se a veracidade
intelectual e a emoção artística.
Nos poemas que abordam esta temática, o verbo "fingir" não é utilizado no sentido tradicional de
"mentir". No universo poético, "fingir" retoma o seu significado clássico (do latim, FINGERE, que significa
imaginar, criar, inventar, modelar, transformar). Por isso, "o poeta é um fingidor". O poeta elabora men-
talmente conceitos ("dor pensada") que exprimem emoções ("dor sentida"). Dito de outro modo, num pro-
cesso de despersonalização, aquando da criação poética, ao construir o poema, o sujeito racionaliza o
que sente. Neste sentido, ele é um fingidor.
A dialética sinceridade / fingimento, que se liga à oposição consciência / inconsciência e à dicotomia
sentir/pensar, transforma o fingimento artístico num trabalho de representar, de exprimir intelectual-
mente as emoções.
O trabalho poético é concebido, assim, como uma união de opostos, como uma arte poética que per-
mite ao leitor experienciar valores atemporais quando lê o poema.
Os poemas "Autopsicografia" e "Isto" instituem a verdadeira arte poética de Pessoa, iniciando uma
aprendizagem do não sentir, que sobrepõe o conhecimento racional ao afetivo. O poema torna-se, assim,
uma construção de sentido e não uma construção sentida, porque se baseia na palavra que é a abstra-
ção suprema, nas palavras do próprio Pessoa, "uma intelectualização da sensibilidade”. O poeta, um ser
que se completa para além da perceção sensorial, é alguém que recorre a truques verbais para a cons-
trução de verdades poéticas.
Autopsicografia
Tese do poema
O poeta fala-nos das duas dores, O poeta é um fingidor Metáfora - associa realidades diferentes
a dor sentida e a dor recriada e
Finge tão completamente
apresenta-nos a sua tese de que o
fingimento é inerente ao ato
Que chega a fingir que é dor O “fingimento” é o intelectual,
Fingimento artístico
criativo. A dor que deveras sente. a racionalização

E os que lêem o que escreve, Perífrase


Confirma-se que o leitor não
Na dor lida sentem bem,
acede à dor do poeta mas à dor
modificada.
Não as duas que ele teve, A dor que sentiu e a que processou / recriou

Mas só a que eles não têm.

Distingue-se o coração da razão para


E assim nas calhas de roda Na vida
evidenciar o engano a que os
Gira, a entreter a razão, Refere-se à dor pensada
sentimentos conduzem e que o poeta
terá de abandonar forçosamente, dado
Esse comboio de corda
ser-lhe exigido o uso da razão. Que se chama coração. Refere-se à dor sentida

Este texto define o processo de criação poética pessoana:


• o sujeito poético parte da asserção / afirmação "O poeta é um fingidor", identificando "poeta" e "fingidor",
transferindo o ato de criar poesia da esfera das emoções reais / vividas para a esfera das emoções fingidas
ou pensadas;
• este fingimento poético é tão extremado que leva o "eu" lírico a "fingir" emoções que realmente "sente" - a
poesia resulta, assim, do fingimento da dor e não da sua vivência (grande revolução na conceção tradicional
de poesia);
• fingir é “fazer um desvio pela inteligência”, submetendo os sentimentos e as emoções ao espírito analítico
• o processo de criação poética não é exclusivo do 'e u" lírico (que apenas finge emoções) mas alarga-se ao leitor
- "os que leem o que escreve";
•o leitor, também ele interveniente no processo de criação, sente, na "dor lida" (poema), uma outra dor: uma
dor que não é nem a vivida nem a fingida pelo sujeito poético, mas uma outra construída por ele próprio -
"Mas só a que eles [leitores] não têm" - esta dor também ela fingida;
• finalmente, o sujeito poético conclui, recorrendo à imagem das "calhas de roda e do "comboio de corda", que
a criação poética resulta de permanente interação entre o coração e a razão, entre o sentir e o pensar;
• torna-se, deste modo, evidente a supremacia da razão sobre as emoções no ato de criar - processo de
intelectualização das emoções assumido por Pessoa.
A dor de pensar
A lucidez de Pessoa, a sua obsessão pela análise e a busca de respostas provocam-lhe sofrimento e
angústia. A tendência excessiva para a intelectualização, para a abstração, leva o poeta a ser incapaz
de apenas sentir e, por isso mesmo, a desejar ser inconsciente para poder atingir a felicidade da "cei-
feira" ou do "gato", cada vez mais utópica e inatingível.
Deste modo, debate-se sempre entre consciência e inconsciência e, consequentemente, entre infeli-
cidade e felicidade, entre "pensar" e "sentir". Assim se explica o paradoxo da aspiração a uma consciên-
cia inconsciente nos versos: "Ter a tua alegre inconsciência, / E a consciência disso!". Na procura cons-
tante da felicidade e perante a dor de pensar, o sujeito deseja conciliar consciência e inconsciência.
A inteligência analítica de Pessoa traduz-se muitas vezes na insatisfação e dúvida. O "eu" conscien-
te e racional coincide com um sujeito que experiencia a dor de pensar.
Na perspetiva do poeta, o pensamento é uma forma de elevação do homem, uma vez que lhe permi-
te ter consciência da sua existência. Todavia, a constante intelectualização provoca no sujeito a dor de
pensar. A angústia resulta da impossibilidade de deixar de racionalizar e da consequente incapacidade
de simplesmente sentir. No entanto, o sujeito considera que aqueles que não pensam não podem ser ver-
dadeiramente felizes, uma vez que não têm consciência da própria felicidade. Pessoa deseja então ser
inconsciente como aqueles que apenas cumprem as leis naturais ou instintivas, mas tendo a consciên-
cia disso.
Este paradoxo resulta da impossibilidade de libertação da dor de pensar e consequente fracasso da
tentativa de alcançar a felicidade.
Assim, a procura constante de racionalidade, por parte do ortónimo, leva, no entanto, o poeta a
viver uma tragédia íntima que o dilacera: o querer sentir de forma racional.

Marinha
Para o sujeito poético, os outros são "ditosos" e "felizes"

I
porque acenam "Um lenço de despedida!" (U. 2), o que
Ditosos a quem acena
significa que podem partir e sentir pena (podem ter Um lenço de despedida!
sentimentos, vivenciá-los). Por seu turno, o "eu" sofre
a vida sem pena, ou seja, não a vive; apenas passa por São felizes: têm pena...
Metáfora - O sujeito poético dá conta da
ela. Isto fá-lo sentir uma espécie de inveja dos outros, Eu sofro sem pena a vida. passagem do tempo e do sofrimento que a
mesmo que sofram a dor da partida. sua vida lhe provoca. Revela, contudo, um
certo masoquismo já que diz sofrer sem

I
Doou-me até onde penso, pena, ou seja, mesmo tendo consciência do
O sujeito poético revela a sua dor de pensar e o sofrimento que a vida lhe traz, não tem
sofrimento causado pelo pensamento e pela E a dor é já de pensar, pena de sofrer. Este recurso está ao serviço
impossibilidade de sonhar ou de poder concretizar o Órfão de um sonho suspenso da descrição do estado de espírito do "eu" que,
sonho que, por isso, ficou "suspenso". mesmo agonizando, não lamenta tal agonia.
Pela maré a vazar...

I
E sobe até mim, já farto
Confirma-se o estado de abatimento e de
agonia, por ver os dias a passarem por ele, De improfícuas agonias,
permanecendo sempre "no cais", sentindo-se
impotente face ao desenrolar da vida.
No cais de onde nunca parto,
A maresia dos dias.
O poema tem como tema "a dor de pensar", tal como se infere do verso "E a dor é já de pensar" (u. 6).
Com efeito, ao longo do texto evidencia-se a reflexão sobre a vida que o "eu" poético expressa, dando con-
ta da sua inércia, da sua incapacidade de sonhar, sentindo que a vida passa e ele nada mais fez se não
pensar.
Ela canta, probre ceifeira
Não consegue

l
Ela canta, pobre ceifeira, Ah, canta, canta sem razão! parar de sentir

O “eu” exprime os efeitos produzidos pelo canto, revelando a sua emoção


Julgando-se feliz talvez; O que em mim sente está pensando.
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia Derrama no meu coração
De alegre e anónima viuvez, A tua incerta voz ondeando!

e o seu desejo de fuga ao pensamento.


Descrição da ceifeira e do seu canto

Comparação Paradoxo - contradição

Ondula como um canto de ave Ah, poder ser tu, sendo eu!
No ar limpo como um limiar, Ter a tua alegre inconsciência,
E há cur vas no enredo suave E a consciência disso! Ó céu!
Do som que ela tem a cantar. Ó campo! Ó canção! A ciência
Antítese - sugere o efeito contraditório do Apóstrofe - identifica os destinatários do apelo
canto da ceifeira no sujeito poético do “eu” e o desejo que estes aliviem a sua dor
Ouvi-la alegra e entristece, Pesa tanto e a vida é tão breve!
Na sua voz há o campo e a lida, Entrai por mim dentro! Tornai
E canta como se tivesse Minha alma a vossa sombra leve!
Mais razões para cantar que a vida. Depois, levando-me, passai!

A procura constante de racionalidade, por parte do ortónimo, leva no encanto, o poeta a viver uma
tragédia íntima que o dilacera: o querer sentir de forma racional. Este drama está explicitado em poe-
mas como: - “Ela canta, pobre ceifeira" - O poema caracteriza o drama interior do sujeito poético por
oposição à felicidade da ceifeira, tendo em conta as seguintes dualidades: consciência / inconsciência;
felicidade / infelicidade; euforia / disforia; sentir / pensar.
Num primeiro momento, o sujeito poético evoca o canto da ceifeira, evidenciando a suavidade, o
carácter inconsciente da alegria da voz, a pureza, a harmonia e o contraste entre a dureza da "lida" do
campo e a leveza do canto.

Posteriormente, a partir da quarta quadra, o sujeito poético exprime os sentimentos que o canto
da ceifeira despertam nele, retomando o seu drama interior:
• desejo de permuta com a ceifeira;
• ânsia de ser inconsciente, mas preser vando a consciência de o ser;
• vontade de interseção - "Ah, poder ser tu, sendo eu!":
• desejo de dispersão.

O poema sintetiza, assim, a dor resultante do processo de racionalização permanente: ao contrá-


rio da ceifeira, o sujeito poético não atinge a felicidade, porque, nele, tudo é pensamento.
Sonho e realidade
O tema do sonho foi abordado muitas vezes por Fernando Pessoa. O sujeito, frustrado por não en-
contrar a felicidade, afunda-se no tédio e o sonho surge como uma dimensão idealizada na qual crê a-
tingir a plenitude ou o equilíbrio desejado.
O mundo onírico surge como um universo paralelo onde o "eu" pode ser o que não é ou recuperar uma
experiência passada. O sujeito sente-se assim fragmentado e dividido entre o que é e o que desejava ser
e habita simultaneamente dois mundos: o real e o onírico.
Uma vez que Pessoa ortónimo, subjugado pelo poder do pensamento, vive uma inquietação constan-
te na procura da felicidade, a sua angústia existencial leva-o a procurar viver uma outra realidade
menos amarga através de um espaço imaginário. No entanto, o sonho surge como um projeto falhado,
que só traz a desilusão. No sonho, o "eu torna-se "outro" num universo de perfeição que, todavia, é ilusó-
rio e conclui então que o sonho não é a solução para os seus problemas existenciais.
Na realidade, o sonho não é solução para as inquietações do "eu" porque o sonho é ilusão e não evita o
tédio, a náusea, o vazio, nem a nostalgia da infância perdida.
Assim, insatisfeito com o presente e incapaz de viver em plenitude, porque a fragmentação se ins-
talou, Pessoa anseia por vivências, estados de ilusão, sonhos que possibilitem “coisas impossíveis”. O de-
sejo de viajar, de ser o que não é são expressões da busca da felicidade que julga poder encontrar no so-
nho.

Tudo o que faço ou medito


Oposição entre o fazer e o meditar, o querer fazer, remetendo Tudo que faço ou medito
para a dualidade sonho / realidade. Percebe-se que entre o Fica sempre na metade.
imaginado e o realizado existe um fosso, pois a ação real fica Querendo, quero o infinito.
sempre aquém do que foi sonhado. Fazendo, nada é verdade.

O sujeito poético sente repulsa de si mesmo quando dá conta da


Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço! Metáfora - sugere a grande
sua incapacidade para concretizar o imaginado. Mostra-se confusão interior em que se
Minha alma é lúcida e rica,
confuso, considerando-se “um mar de sargaço”, mas também lúcido. encontra o sujeito poético: o mar
E eu sou um mar de sargaço — remete para a imensidão e o
sargaço para o emaranhado, para
a confusão.
Um mar onde bóiam lentos
A dúvida e a confusão existencial são reforçadas nos dois Fragmentos de um mar de além...
últimos versos, onde se acentua aina mais a ideia de angústia. Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.

"Tudo o que faço ou medito" - o sujeito poético confessa:


• a frustração resultante da dualidade "querer"/"fazer", sonho/realidade;
• o sentimento de náusea diante do real - a metáfora do "mar de sargaço";
• a contradição, o conflito interior entre a alma e o ser;
• a impossibilidade de concretizar os seus anseios, o seu sonho.
Nada sou, nada posso, nada sigo

Nada sou, nada posso, nada sigo. Anáfora e gradação - o poeta assume uma
atitide nihilista, de anulação de si mesmo e de
tudo o que o rodeia
Confirma-se a incerteza em que o “eu” Trago, por ilusão, meu ser comigo.
vive, pois traz o seu ser “por ilusão”,
não sabe se há de ser já que não é nada.
Não compreendo compreender, nem sei

Se hei de ser, sendo nada, o que serei.

Fora disto, que é nada, sob o azul

Do lato céu um vento vão do sul Inutilidade

Acorda-me e estremece no verdor.


Anáfora gradativa
Ter razão, ter vitória, ter amor.

Murcharam na haste morta da ilusão.


Oposição sonho / realidade, tornando-se
visível a inutilidade do sonho e da própria
Encerra um apelo, traduz a incerteza do
Sonhar é nada e não saber é vão. inconsciência. Destaca-se a importância de
“eu”: o coração é incerto e a sombra remete ter consciência da irrealidade do sonho.
para o sonho, logo para a irrealidade. Dorme na sombra, incerto coração.

Para o poeta, as dúvidas pairam sobre todas as coisas. O não domínio da autêntica significação do
que chamamos realidade é motivo bastante para não se crer em nada. O mistério que envolve o mundo
objetivo se remete, por sua vez, ao espaço do sujeito. Tudo é nada, quando a essência nos foge. Assim, a
vida é nada e o próprio ser é nada, porque não se sabe, não se conhece - primeira estrofe.
A sensação de nada ser por se desconhecer, presente em Pessoa, leva o sujeito a assumir posturas
diante do mistério de “haver ser”, que se lhe afigura, paradoxalmente, como limite e como infinito. Limi-
te por prender o sujeito no espaço da consciência da sua impossibilidade de superação. Infinito por atirá-
-lo, apesar disso, na busca infrutífera de si mesmo, que jamais termina, já que o desejo de ser nunca se
atenua ou alcança a satisfação.
Nostalgia da infância

Face à incapacidade de viver a vida, o "eu" refugia-se numa infância mítica, uma idade de inocência,
uma idade em que ainda não se pensa e, por isso, tudo é possível. Esta felicidade que as crianças experi-
mentam, devido à sua inconsciência e à inconsciência das suas ações, contrasta com a infelicidade pre-
sente vivida pelo sujeito poético. O sonho e a infância são os únicos momentos de felicidade para o su-
jeito lírico que vê neles o paraíso perdido.
A infância constitui assim um espaço de evasão que permite ultrapassar a angústia existencial do
presente constantemente analisado. A nostalgia de uma infância como espaço de felicidade não permi-
te, contudo, ultrapassar a tristeza do presente e o sujeito regressa desencantado e só dessa viagem a
um passado utópico onde "as crianças brincam".
Deste modo, a infância para Pessoa é um tempo idílico que permite ao "eu não pensar sobre a sua con-
dição e a sua circunstância presente. Assim, o tédio existencial, a estranheza e o desconhecimento do
"eu" e o drama da sua identidade perdida encontram momentaneamente refúgio num tempo de pureza,
inconsciência e unidade. No entanto, trata-se de uma saudade intelectual e literariamente trabalhada.
Em síntese, face à decetividade do presente, o "eu" manifesta um sentimento de nostalgia da in-
fância. Contudo, o sujeito está consciente dessa idealização. Dito de outro modo, o "eu" lírico evoca uma
infância idealizada, que não passa de uma tentativa infrutífera de fuga ao tédio existencial em que es-
tá submerso no presente. Assim, este paraíso perdido ilusório não permite ao sujeito libertar-se da an-
gústia e tristeza.
Assim, no caso da infância, é inegável que Pessoa dela sentia uma grande saudade, mas trata-se de
uma recordação, de uma nostalgia, imaginada, intelectualmente trabalhada e literariamente sentida
como “um sabor de infância triste”. Insatisfeito com o presente e incapaz de o viver em plenitude, Pes-
soa refugia-se numa infância, regra geral, desprovida de experiência biográfica e submetida a um pro-
cesso de intelectualização.
Não sei ama, onde era
Apóstrofe

Presente Não sei, ama, onde era, Passado Qualquer dia viria
Nunca o saberei... Futuro Qualquer coisa a fazer
Sei que era Primavera Toda aquela alegria
E o jardim do rei... Mais alegria nascer
(Filha, quem o soubera!...). (Filha, o resto é morrer...). O que resta é aceitar a realidade

Que azul tão azul tinha Conta-me contos, ama...


Cor serena
Ali o azul do céu! simboliza o passado Anáfora Todos os contos são
Se eu não era a rainha, Esse dia, e jardim e a dama
Porque era tudo meu? Interpela a ama Que eu fui nessa solidão...
(Filha, quem o adivinha?). (Filha, Resposta da ama, que se mantem incerta através da
) pergunta retórica, do uso de reticências e da sua hesitação.

E o jardim tinha flores


De que não me sei lembrar...
Felicidade
Flores de tantas cores... do passado

Penso e fico a chorar... Presente de racionalização

(Filha, os sonhos são dores...). Percebe que no presente já não tem a felicidade do passado, o que o atormenta.

"Não sei, ama, onde era," - O sujeito poético evoca o universo simbólico dos contos infantis, dos reis e
das princesas para, a partir dele, expressar a saudade de um tempo de felicidade:
• a simbologia do tempo e do espaço referidos - "Sei que era primavera / E o jardim do rei...";
• a estrutura dramática e o desdobramento do sujeito poético presente no diálogo entre um "eu" femi-
nino e a ama:
• os lamentos presentes no discurso parentético das quatro primeiras estrofes, reveladores da dor
de crescer e pensar - "(Filha, os sonhos são dores…)" - e da inevitabilidade da morte - "(Filha, o resto
é morrer...)."
• a dor de pensar - "Penso e fico a chorar.....=
• a identificação entre as narrativas infantis e a felicidade - "Conta-me contos, ama... / Todos os
contos são / Esse dia, e jardim e a dama / Que eu fui nessa solidão...
- Linguagem, estilo e estrutura
A linguagem utilizada na poesia ortónima é simples, mas extremamente expressiva. Caracteriza-se
pelo recurso à linguagem corrente, ao léxico do quotidiano e a símbolos reconhecíveis, como a água ou os
animais.
À musicalidade do verso é explorada quer através da seleção do vocabulário quer do recurso à pontu-
ação emotiva. Os símbolos são recorrentes na poesia ortónima, assim como os recursos expressivos.
Formalmente, recorre-se à versificação de inspiração tradicional com a utilização da quadra ou da quin-
tilha e do verso de redondilha maior ou menor.
Deste modo, na poesia do ortónimo reconhece-se um lirismo tradicional português em formas poéti-
cas regulares, no recurso à rima, no verso de redondilha e no ritmo melodioso.
Por outro lado, e na linha das vanguardas de início do século XX, encontram-se na poesia ortónima
marcas do Modernismo literário, associadas a estéticas cultivadas por Pessoa, como o Simbolismo, o
Intersecionismo ou o Paulismo.
Assim, surgem poemas que assumem uma rutura com a tradição, quer a nível da forma quer a nível
temático. Relativamente ao conteúdo, são desenvolvidos temas e ideias modernistas, como a desperso-
nalização poética, a intelectualização das sensações e as inquietações existenciais. Verifica-se ainda
uma tendência para a irregularidade formal, com estrofes e versos irregulares.
Poesia dos Heterónimos
Fernando Pessoa distinguiu heterónimo de pseudónimo. Os heterónimos, uma multiplicidade de “eus”,
são partes diferentes de uma totalidade que se fragmenta. Esta fragmentação dá lugar à criação dos
“inúmeros outros” de Pessoa, que, no entanto, não podem ser lidos individualmente. A proliferação de
poetas é a base da criação literária pessoana.

- Alberto Caeiro
Caracterização do heterónimo
Alberto Caeiro nasce em Lisboa, em 1889, e morre tuberculoso em 1915, vivendo a maior parte da
sua vida no campo. Apresenta estatura média e um aspeto frágil, louro sem cor, cara rapada e olhos
azuis. Não tem profisssão, apenas fez a instrução primária; fica orfão de pais muito jovem e vive com
uma velha tia-avó, de pequenos rendimentos.

O fingimento artístico: o poeta “bucólico”

Alberto Caeiro, o primeiro dos três heterónimos a aparecer, escreveu um conjunto de poemas intitu-
lados “O Guardador de Rebanhos”. Pessoa chamou-lhe o "Mestre" por não procurar um sentido para a vi-
da, uma vez que se contenta com aquilo que vê e sente em cada momento. Constitui, assim, uma espécie
de "grau zero", de ponto original, a partir do qual todos os outros eus existem. Era um poeta do campo,
sem estudos, que vivia em plena comunhão com a Natureza. Este poeta bucólico deslumbrava-se com as
coisas simples e naturais percecionadas pelo seu olhar.
A poesia de Caeiro é clara, com uma linguagem simples, aproximando-se da prosa. Não respeita re-
gras poéticas. Os seus poemas assemelham-se à expressão instintiva de pensamentos.
Dizia-se o único poeta da natureza, mas a sua visão era idealizada, e o seu aparente bucolismo ape-
nas esconde apreciações abstratas.
Caeiro, um poeta fingidor, opõe o seu fazer poético, simples e ingénuo, ao dos outros poetas, que tra-
balham os versos de forma artificial. O seu fingimento artístico consiste em fazer crer que não há lugar
para a intelectualização das emoções, surgindo a criação artística de forma espontanea. No entanto,
esta poesia aparentemente instintiva, ao sabor das estações, é quase pura filosofia.
Exemplo: "Não me importo com as rimas. Raras vezes"
Reflexão existencial: o primado das sensações
Alberto Cairo define-se pela totalidade das sensações, mas sobretudo pela visão, que lhe permite cap-
tar a essência da realidade, tal como o olhar ingénuo da criança. Tal como a Natureza, não pensa, não crê
em nada, apenas existe. É assim o criador do Sensacionismo, não procurando conhecer o que está para lá
do que vê e sente.
Os seus poemas expressam a aceitação natural da realidade, sem recordar o passado ou pensar no fu-
turo. O seu objetivismo permite-lhe recusar um envolvimento emocional e, por isso, "os seus poemas são
"o que houve nele de vida".
Exprime, através de uma linguagem simples e concreta, sensações aparentemente espontâneas, mas
que, na verdade, são produto de uma reflexão. Caeiro finge ser o mais sensacionista dos heterónimos, mas
é cerebral e a sua poesia é pensada e trabalhada.
Exemplo: "Eu nunca guardei rebanhos"

Linhas Temáticas de Alberto Caeiro

• “Mestre” de Pessoa e dos outros heterónimos


• Apologista da simplicidade total
• Preconizador do objetivismo absoluto
• Recusa do pensamento metafisico
• Defensor de que o pensamento deturpa a compreensão
• Criador do Sensacionismo:
- multiplicidade das sensações
- realismo sensorial (perceção da cor e das formas)
- privilégio da visão (melhor forma de conhecer o real)
- reconhecimento da existência das coisas
• Identificação com a Natureza (constante renovação)
• Poeta deambulante
• Existência no presente
• Poeta lírico e ingénuo
• Pastor por metáfora
• Espontaneidade da escrita
Sou um guardador de rebanhos - IX

l
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos Anulação da oposição entre sentir e pensar, dando primazia ao
sentir e à apreensão da realidade das sensações
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
Percebe-se uma hierarquização das sensações, de acordo com o grau de
E com as mãos e os pés conhecimento que elas permitem atingir. Assim, segundo o sujeito poético,
Anáfora a realidade é primeiro apreendida pela visão e pela audição, depois pelo
tato e, por fim, pelo olfato e o paladar.
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la Reforça que o sentido das coisas
se obtem pelas sensações
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
 
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
A tristeza do sujeito poético resulta do gozo excessivo
E me deito ao comprido na erva, proporcionado pelas sensações e pelo contacto com a natureza.
Porém, o “eu” aceita essa trizteza com naturalidade, uma vez
E fecho os olhos quentes, que provém do excesso de felicidade, a qual resulta da relação
direta com a realidade.
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Poema IX - Neste poema, o sujeito poético assume-se um pastor por metáfora - "Sou um guardador de
rebanhos. / O rebanho é os meus pensamentos" - o que determina:
• a transformação / redução do pensamento às sensações - "O rebanho é os meus pensamentos / E os
meus pensamentos são todos sensações";
• a convocação de todas as sensações, sem interferência do pensamento "Pensar uma flor é vê-la e chei-
rá-la".
• o real como único meio de atingir a verdade e a felicidade "Sinto todo o meu corpo deitado na realida-
de, / Sei a verdade e sou feliz":
• a existência da realidade sem necessidade do pensamento.
Ah querem uma luz melhor que a do sol!
Ah querem uma luz melhor que a do sol! Exclamação - exprimem
indignação e revolta por Neste poema, o sujeito poético revela a sua
Querem campos mais verdes que estes! o homem não se filosofia de vida, mostrando que lhe basta o
contentar com o que a que vê na Natureza para ser feliz. Por isso,
Querem flores mais belas que estas que vejo! Natureza lhe oferece. parece expressar alguma indignação face
àqueles que não se contentam com o sol,
A mim este sol, estes campos, estas flores contentam-me. com os prados e com as flores que veem,
afirmando mesmo: "A mim este sol, estes
Mas, se acaso me descontento, campos, estas flores contentam-me". Depois,
Anáfora - tradutora da convicção
continua a reafirmar a primazia da
O que quero é um sol mais sol que o sol, e do desejo do “eu” se
Natureza quando diz que caso esses
contentar com o
elementos o descontentassem, aquilo que
O que quero é campos mais campos que estes prados, que a Natureza ele desejaria era mais sol, mais campos,
oferece.
mais flores só deseja o que há de concreto,
O que quero é flores mais estas flores que estas flores — porque o resto "são os sonhos dos homens /
A miopia de quem vê pouco" (Uv. 13-14).
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!

Aquela coisa que está ali estava mais ali que ali está!
Sim, choro às vezes o corpo perfeito que não existe.
Mas o corpo perfeito é o corpo mais corpo que pode haver,
E o resto são os sonhos dos homens,
Nestes versos, o sujeito poético deixa antever a recusa do
A miopia de quem vê pouco, pensamento e o privilégio dos sentidos, em particular da visão.

E o desejo de estar sentado de quem não sabe estar de pé.


Todo o cristianismo é um sonho de cadeiras.

E como a alma é aquilo que não aparece,


Para o sujeito poético, a alma é invisível e, por isso, mais perfeita,
A alma mais perfeita é aquela que não apareça nunca — até porque está fundida no corpo. Ou seja, tem uma existência real
sem precisar de se autonomizar do corpo a que pertence,
A alma que está feita com o corpo coincidindo com o próprio corpo. Assim, não pode ser questionada.

O absoluto corpo das coisas,


A existência absolutamente real sem sombras nem erros
A coincidência exacta (e inteira) de uma coisa consigo mesma.

Este é mais um dos muitos poemas em que o mestre dá conta dos seus princípios orientadores. Com
efeito, Caeiro é o heterónimo que se rege pelas sensações e que acredita apenas naquilo que tem existên-
cia concreta. Por isso, todo aquele que se deixa conduzir pelos sonhos, pelo irreal, na sua opinião, fá-lo
porque não sabe ver, pelo menos como ele vê. Na verdade, saber ver, para este heterónimo, é ser capaz
de descobrir continuamente a novidade das coisas. Estas nunca são as mesmas e, para ver as diferenças,
basta olhar de outro ângulo. Neste sentido, compreende-se o porquê de Caeiro dizer que os filósofos são
homens doentes dos olhos e defender que, para ser feliz, basta saber ver e aceitar a ordem natural das
coisas.
- Ricardo Reis
Caracterização do heterónimo
Ricardo Reis nasce em 1887, no Porto, é educado num colégio de jesuítas, recebendo uma educação
latinista e tornando-se, por autodidatismo, um amante da cultura helénica. É mais baixo, mais forte e
mais seco que Caeiro, e, tal como ele, de cara rapada. Forma-se em Medicina e exila-se voluntaria-
mente no Brasil, a partir de 1919, por ser monárquico.

O fingimento artístico: o poeta “clássico”

Ricardo Reis nasceu no Porto e foi educado num colégio de Jesuítas, tendo recebido uma educação
clássica. Esta educação criou nele o gosto pelo Classicismo, de onde retira todas as alusões mitológicas,
e colhe nos poetas greco-latinos a ideia de disciplina. Revela-se, então, o poeta da auto-disciplina, cuja
poesia não apresenta qualquer traço de espontaneidade.
Expressa o desejo de contemplação da Natureza, aprendendo a viver com ela.
Privilegia a ode, composição poética de exaltação, dotada de um esquema rígido, com origem na poe-
sia clássica grega, divulgada à modernidade através do poeta romano Horácio. Por isso, utiliza uma lin-
guagem culta, com latinismos e sintaxe com inversão da ordem natural dos elementos da frase.
Exemplo: "Não tenhas nada nas mãos"

Reflexão existencial: o primado das sensações

Ricardo Reis, atormentado pela passagem do tempo, consciente da morte iminente, escolhe viver
de forma tranquila e equilibrada, sem afetos nem emoções, para evitar o sofrimento.
Para enfrentar a efemeridade da vida e a inevitabilidade da morte, recorre a uma encenação da
mortalidade: defende que se deve fruir o momento com moderação, sem pensar no futuro, numa pers-
petiva do carpe dier da filosofia epicurista. No entanto, a vivência de cada instante tem de ser discipli-
nada e contida, aceitando com elevação a determinação do Destino inflexível, numa clara alusão ao es-
toicismo. O homem não escolhe, daí não valer a pena nenhum desejo forte, perturbador, porque só con-
duz à dor. Defende, portanto, a intelectualização das emoções e a contenção dos impulsos, das paixões.
Exemplo: "Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio."
Linhas Temáticas de Ricardo Reis
• Influência dos poetas clássicos: os Gregos como modelo de sabedoria
• Serenidade na aceitação da efemeridade das coisas
• Supremacia do Fado em relação aos deuses
• Busca do autodomínio
• Pensamento equilibrado
• Emoções controladas pela razão
• Defesa do epicurismo:
- prazer do momento
- carpe diem horaciano (expressão latina que significa "aproveitar o momento presente")
• Elogio do estoicismo:
- aceitação da fugacidade e da efemeridade da vida humana;
- aceitação das leis do Destino
- disciplina da razão
- esforço lúcido
- busca da ataraxia (tranquilidade sem qualquer perturbação)
• Elogio da vida campestre (aurea mediocritas, expressão latina que significa procura de felicidade num
ideal de vida simples)

O poema "Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio" pode ser considerado um paradigma dos aspe-
tos temáticos estruturantes da poética de Reis.
Assim, o sujeito poético convida Lídia a olhar o rio e a compreender:
• a precariedade, fugacidade da vida;
• a metáfora do rio e do correr da água como exemplificação da passagem inexorável do tempo;
• a inutilidade de qualquer compromisso;
• a necessidade do predomínio da razão sobre a emoção, como uma defesa contra o sofrimento;
• o enlaçar e desenlaçar as mãos como símbolo da recusa de qualquer compromisso:
• a recusa consciente de todo e qualquer excesso (amores, ódios, paixões, invejas, cuidados);
• o desejo de fruir momentos fugazes;
• a morte como inevitável no percurso existencial - “o rio sempre correria,/E sempre iria ter ao mar."
• o fatalismo:
• a procura da serenidade:
• o estabelecer de um programa de vida: a vida deve ser vivida de forma serena e calma, devemos
deixá-la "passar" à nossa frente, controlando emoções e sentimentos;
• a recusa do amor sensual, porque ele é motivo de sobressaltos;
• a aceitação pacífica da morte, encarada como consequência da "demissão" do eu perante a vida;
• a atitude de quase indiferença;
• o desejo de ataraxia (tranquilidade da alma, ausência de perturbação).
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio
Apóstrofe - destaca o apelo do “eu” a
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Lídia, sendo reforçado pelo imperativo
(“Vem”) e pelo conjuntivo com valor
O sujeito poético manifesta Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos exortativo (“Aprendamos”)
o desejo de gozar o Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
momento presente na                 (Enlacemos as mãos). Aparte no qual o sujeito poético parece
intensificar o pedido que dirige a Lídia,
companhia da sua amada, embora tente banir, depois, esse mesmo
desejo de união. Com efeito, o “eu” tem
sentando-se à beira do rio e Depois pensemos, crianças adultas, que a vida consciência da inutilidade desses momentos
fitando-o de mãos Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, pontuais, dada a fugacidade da vida e o seu
fim inexorável, condição que afeta todos os
enlaçadas.
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, mortais.

                Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.


Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
                E sem desassossegos grandes.
Momento em que o “eu”
pede à amada para
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
desenlaçarem as mãos, Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
porque devem evitar-se Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
as grandes paixões (amor                 E sempre iria ter ao mar.
ou ódio), permanecendo
simplesmente sentados Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
“ao pé um do outro”, Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e caricias,
amando-se Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
tranquilamente.                 Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as


No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
                Pagãos inocentes da decadência.

O sujeito poético justifica a


Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois pretende Gradação e enumeração -
realçar os efeitos
renúncia aos fugazes prazeres
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, cada vez mais intensos que
decorrerão da morte do
da vida, afirmando que, não
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos sujeito
                Nem fomos mais do que crianças. Metáfora - sugere a inocência ou a pureza de
sendo “mais do que crianças”
comportamentos.
(v. 28), os dois evitarão o
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
sofrimento causado pela
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
antevisão da morte,
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
conservando a serenidade.
                Pagã triste e com flores no regaço.
Da nossa semelhança com os deuses
Da nossa semelhança com os deuses A vida, na opinião do sujeito poético, foi concedida aos humanos
Por nosso bem tiremos por Jove, o pai dos deuses, também designado de Júpiter, na

Julgarmo-nos deidades exiladas mitologia romana, ou Zeus na grega. Assim, os humanos devem
viver imitando os deuses, julgando-se "deidades exiladas", porque
E possuindo a Vida
não vivem no Olimpo, mas na terra. Contudo, considera que devem
Por uma autoridade primitiva
ser "donos" deles próprios, isto é, responsáveis pela sua vida.
E coeva de Jove.

Altivamente donos de nós-mesmos,


Usemos a existência
Como a vila que os deuses nos concedem A vivência humana deve ser tranquila, esquecendo o "estio"
'símbolo de uma vida intensa e dedicada ao máximo prazer, uma
Para esquecer o Estio.
vez que de nada vale o esforço numa existência "indecisa e
afluente", cujo fim é o rio fatal e escuro, a morte. No fundo, deve
Não de outra forma mais apoquentada aproveitar-se a vida, porque esta caminha inexoravelmente
Nos vale o esforço usarmos para a morte, aceitando-se o Destino que nos é oferecido.

A existência indecisa e afluente


Fatal do rio escuro.

Como acima dos deuses o Destino


É calmo e inexorável,
Acima de nós-mesmos construamos Segundo o ponto de vista do sujeito poético, acima dos deuses está o
Destino, que "É calmo e inexorável". E, se o Destino controla os deuses,
Um fado voluntário
também controla os humanos. Assim, devemos ter sempre presente esse
Que quando nos oprima nós sejamos
"fado involuntário" cuja opressão que sobre nós exerce é da nossa inteira
Esse que nos oprime, responsabilidade, que deve estar presente na hora da partida.
E quando entremos pela noite dentro
Por nosso pé entremos.

Os dois termos destacados são usados metafórica e eufemisticamente, uma vez que ambos remetem
para a morte, para o fim que inevitavelmente nos aguarda - e do qual ninguém pode fugir, independen-
temente de o aceitarmos ou não. Desta forma, é preferível acatar o nosso fado e viver a liberdade que
os deuses nos concederam.

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