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O Pastor não é o ungido do Senhor

Por Jesser Medeiros

Quando o assunto é pastor há uma unanimidade quase insana da parte da massa evangélica
ignara, de que o pastor é “o ungido do Senhor” e que sob nenhuma circunstância deve-se questionar a sua
autoridade. Mas o que é unção?

No Velho Testamento a unção era um ato específico dado por Deus a uma pessoa escolhida para a
execução de uma determinada missão, e podia ser retirada a qualquer momento, assim como foi com
Saul, quando o Espírito de Deus afastou-se dele, e sobre ele veio um espírito maligno. 1 Sm. 16:14 “Tendo-
se retirado de Saul o Espírito do SENHOR, da parte deste um espírito maligno o atormentava.” Em Is.
45:1 está escrito: “Assim diz o SENHOR ao seu Ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita, para abater
as nações ante a sua face, e para descingir os lombos dos reis, e para abrir diante dele as portas, que não
se fecharão”.A unção era dada a quem era e a quem não era servo de Deus, conforme vimos no texto de
Isaias. Deus ungia quem bem queria para que sua vontade fosse realizada e a história da salvação
seguisse seu curso normal. Ciro era um rei pagão e nunca adorou ao Senhor. Entretanto foi ungido por
Deus para libertar o povo de Israel para voltarem para sua terra.

Ungir, segundo o Dicionário da Bíblia de Almeida, é: “Pôr azeite na cabeça de uma pessoa”.
Profetas foram ungidos {#1Rs 19.16}, “Também a Jeú, filho de Ninsi, ungirás rei de Israel; e também a
Eliseu, filho de Safate de Abel-Meolá, ungirás profeta em teu lugar”. Sacerdotes também o foram {#Êx
30.30}, “Também ungirás a Arão e seus filhos, e os santificarás para me administrarem o sacerdócio”. E
reis também tiveram o óleo derramado sobre suas cabeças para serem ungidos {#1Sm 16.1-13}, “ENTÃO
disse o SENHOR a Samuel: Até quando terás dó de Saul, havendo-o eu rejeitado, para que não reine sobre
Israel? Enche um chifre de azeite, e vem, enviar-te-ei a Jessé o belemita; porque dentre os seus filhos me
tenho provido de um rei.(1)… (13)Então Samuel tomou o chifre do azeite, e ungiu-o no meio de seus
irmãos; e desde aquele dia em diante o Espírito do SENHOR se apoderou de Davi; então Samuel se
levantou, e voltou a Ramá.”

Eram ungidos, portanto, quem Deus bem queria e entendia.

Tanto “o Cristo” (grego) como “o Messias” (hebraico) querem dizer “o Ungido”, um dos títulos de
Jesus, a quem Deus escolheu para ser o Salvador da humanidade {#Jo 1.41;}, “Este achou primeiro a seu
irmão Simão, e disse-lhe: Achamos o Messias (que, traduzido, é o Cristo)”, {At 4.26-27}, “Levantaram-se
os reis da terra, e os príncipes se ajuntaram a uma, Contra o Senhor e contra o seu Ungido. Porque
verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas
Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel;” O Ungido do Senhor não é outro, senão Jesus Cristo o
filho de Deus.

O Dicionário da Bíblia de Jonh Davis reafirma que as palavras Messias e Cristo significam “o
ungido”. No texto de Lucas 4:18 assim está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me
ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da
vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos.”

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O texto em epígrafe não se aplica ao pastor e sim exclusivamente a Jesus Cristo conforme citação
do Novo Dicionário de teologia do Novo Testamento, vol. IV, pg. 677 onde se lê: “Em passagens como Is
61:1″ O ESPÍRITO do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas
novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a
abertura de prisão aos presos; ” e Ez 16:9, “Então te lavei com água, e te enxuguei do teu sangue, e te ungi
com óleo,” a unção deve ser entendida metaforicamente, sendo que, em Israel, a unção ritual era apenas
disponível para reis e sacerdotes. Is 61:1 deve ser entendido como autoridade. No Novo Testamento (Lc
4:18) este texto é aplicado a Jesus: Ele foi o ungido por Deus para ser o profeta prometido.”

Atos 4:26 “Levantaram-se os reis da terra, e as autoridades ajuntaram-se à uma contra o Senhor
e contra o seu Ungido;” Comentando este versículo, I. Howard Marshall em seu comentário ao livro de
Atos p104, afirma que, “O emprego do termo ungido (i.é Messias) tornou inescapável à aplicação a Jesus”.

Então, como fica o pastor nesta história?

A unção de Deus é universal, ou seja, recai sobre todos. Em I João 2:20 lemos: “E vós possuís
unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento.” No versículo 27 assim escreve o apóstolo: “Quanto
a vós outros, a unção que dele recebestes permanece em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos
ensine; mas, como a sua unção vos ensina a respeito de todas as coisas, e é verdadeira, e não é falsa,
permanecei nele, como também ela vos ensinou.” O texto é mais do que explícito. Todos somos ungidos e
todos nós somos sacerdotes do Senhor conforme está escrito na 1 de Pedro 2:5 “também vós mesmos,
como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes
sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo.” No verso :9: “Vós, porém, sois
raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes
as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;”

Portanto, Pastor, Bispo, Presbítero e etc., não é unção com a conotação dada pelos
reverendíssimos e, sim, dom do Espírito Santo de Deus. É comissionamento, é chamado. Diante do
exposto, não vejo onde está esta unção especial defendida e requerida pela maioria dos pastores,
principalmente os da linha pentecostal e neopentecostal.

Na carta escrita aos Efésios 4:11 o apóstolo Paulo diz que “ele mesmo concedeu uns para
apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao
aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, Até
que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à
medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um
lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia
com que induzem ao erro.”Notaram no início do versículo o “ele mesmo concedeu”? Em Mateus 22:29,
Jesus diz: “Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus.” e ainda em Marcos 12:24
“Respondeu-lhes Jesus: Não provém o vosso erro de não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de
Deus?”

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Defender portanto esta doutrina esdrúxula de que o pastor é o ungido do Senhor, e que é um ser
inatacável, e intocável é induzir o irmão ao erro. Não defendo aqui a desobediência ou rebeldia contra o
pastor. Não é esse o objetivo deste artigo, mas sim o de demonstrar que nós os cristãos devemos seguir o
exemplo dos crentes de Beréia que conferiam se tudo que lhes estava sendo ensinado se coadunava com os
ensinos bíblicos.

A palavra de Deus nos ensina que qualquer um que comete erro é digno de repreensão. Paulo em
sua carta aos Gálatas no capítulo 2:11-14 repreendeu a Pedro publicamente por estar se portando de
maneira errada.”E, chegando Pedro à Antioquia, lhe resisti na cara, porque era repreensível. Porque,
antes que alguns tivessem chegado da parte de Tiago, comia com os gentios; mas, depois que chegaram,
se foi retirando, e se apartou deles, temendo os que eram da circuncisão. E os outros judeus também
dissimulavam com ele, de maneira que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação. Mas, quando
vi que não andavam bem e direitamente conforme a verdade do evangelho, disse a Pedro na presença de
todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem
como judeus?” O ensino bíblico coloca a todos em pé de igualdade. Ninguém é superior a ninguém. Jesus
ensinou que aquele que quisesse ser o maior, fosse o menor. Não permitamos que teologias canhestras
venham minar o nosso relacionamento com Deus, a igreja e nossos irmãos.

Todo pastor que anda consoante os ensinos neotestamentário é digno de honra bem como
qualquer membro comum da igreja. Todos são dignos de honra. O membro não pode nem deve se colocar
contra o pastor por discordar de algum pensamento seu, pois o pensar é livre e direito de todos. De igual
modo o pastor não pode e nem deve perseguir o membro de sua congregação, chegando às vezes a
expulsa-lo por discordar de um pensamento seu. Somos livres para tomar nossas decisões e libertos por
Jesus para sermos realmente livres com o conhecimento da verdade. “E conhecereis a verdade e a verdade
vos libertará.”(Jo 8:32)

Há que se ter bom senso, tolerância e acima de tudo amor uns com os outros.

Em sua primeira carta aos Coríntios o apóstolo Paulo afirma: “AINDA que eu falasse as línguas
dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.” O amor é
a solução para toda sorte de problemas que enfrentamos nas nossas igrejas. O apóstolo Paulo em sua I
carta aos Coríntios 13:13 diz: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o
maior destes é o amor.” Recomendo a leitura de todo o capítulo 13 desta carta com o firme desejo de que
essa leitura surta efeito na vida de , todos nós. Certamente que este assunto não se esgota nestas poucas
linhas, mas com certeza servirá para trazer um pouco de luz sobre o assunto. Assim espero!

E Deus me ajude que eu não seja excomungado pelo que escrevi!