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CAPÍTULO IV

Da Imputação do Pagamento

Entende-se a imputação do pagamento como a “determinação feita pelo devedor, dentre


dois ou mais débitos da mesma natureza, positivos e vencidos, devidos a um só credor,
indicativa de qual dessas dívidas quer solver”

Vale dizer, trata-se muito mais de um meio indicativo de pagamento, do que propriamente
de um modo satisfativo de adimplemento. (Pablo Stolze Gagliane)

Segundo Lacerda de Almeida, quando o pagamento é insuficiente para salvar todas as


dividas do mesmo devedor ao mesmo credor, surge a dificuldade de saber a qual ou quais
delas deve aplicar se o pagamento. Esta aplicação do pagamento a extinção de uma
ou mais dividas é o que se chama em direito de imputação do pagamento.

Requisitos para Imputação:

a) Pluralidade dos débitos: Carvalho de Mendonca diz que esta seria icogitavel se houvesse
apenas um debito, antes de tudo é essencial a mutiplicidade da divida.

b) identidade das partes: as diversas relações obrigaçoes relacionais devem vincular o


mesmo devedor (Art 352)

c) igual natureza das dividas

d) possibilidade de o pagamento resgatar mais de um debito

IMPUTAÇÃO POR VONTADE DO DEVEDOR =>

Art. 352. A pessoa obrigada por dois ou mais débitos da mesma natureza, a um só credor,
tem o direito de indicar a qual deles oferece pagamento, se todos forem líquidos e
vencidos.

EX: É o caso de o sujeito dever R$ 5,00, R$ 10,00 e R$ 15,00 ao mesmo credor, sendo todas
as dívidas líquidas e vencidas. Não discordando o credor em receber parcialmente o
pagamento, cabe ao devedor (em regra a escolha é dele) imputar o valor pago em qualquer
das dívidas. Da mesma forma, tendo todas as dívidas o mesmo valor, urge especificar qual
dos débitos deverá ser solvido em primeiro lugar.

Extraem-se os dois requisitos legais indispensáveis:

a) igualdade de sujeitos (credor e devedor);

b) liquidez e vencimento de dívidas da mesma natureza.

IMPUTAÇÃO POR VONTADE DO CREDOR =>

Art. 353. Não tendo o devedor declarado em qual das dívidas líquidas e vencidas quer

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imputar o pagamento, se aceitar a quitação de uma delas, não terá direito a reclamar contra
a imputação feita pelo credor, salvo provando haver ele cometido violência ou dolo.

IMPUTAÇÃO EM VIRTUDE DE LEI =>

Art. 354. Havendo capital e juros, o pagamento imputar-se-á primeiro nos juros vencidos, e
depois no capital, salvo estipulação em contrário, ou se o credor passar a quitação por conta
do capital.

Art. 355. Se o devedor não fizer a indicação do art. 352, e a quitação for omissa quanto à
imputação, esta se fará nas dívidas líquidas e vencidas em primeiro lugar. Se as dívidas
forem todas líquidas e vencidas ao mesmo tempo, a imputação far-se-á na mais onerosa.

Se nehyma das partes exerce, no momento adequado, a prerrogativa de indicar em qual


debito a oferta deve ser imputada, a propia lei determina.

CAPÍTULO V

Da Dação em Pagamento

Seguindo ANTUNES VARELA, “a dação em um primento (datio in solutum), vulgarmente


chamada pelos autores de dação em pagamento, consiste na realização de uma prestação
diferente da que é devida, com o fim de, mediante acordo do credor, extinguir
imediatamente a obrigação”

“datio in solutum”, ou seja, a entrega, pelo devedor, de coisa diversa daquela que fora
anteriormente convencionada pelas partes.

Trata-se, pois, de forma de extinção obrigacional, disciplinada pelos arts. 356 a 359 do
CC/2002, por força da qual o credor consente em receber prestação diversa da que fora
inicialmente pactuada.

Assim, se o devedor obriga-se a pagar a quantia de R$ 1.000,00, poderá solver a dívida por
meio da dação, entregando um automóvel ou prestando um serviço, desde que o credor
consinta com a substituição das prestações. Aliás, cumpre-nos registrar que a obrigação
primitiva não precisa ser, necessariamente, pecuniária. Pouco importa se fora inicialmente
pactuada obrigação de dar, de fazer ou de não fazer. O que realmente interessa é a
natureza diversa da nova prestação.

Esse é o pensamento, aliás, do Mestre CAIO MÁRIO:

“Também em nada afeta a essência da dação em pagamento que a coisa entregue seja
móvel ou imóvel, corpórea ou incorpórea, um bem jurídico qualquer, uma coisa ou um
direito, como o usufruto. É mister, contudo, que seja diferente da devida”

Art. 356. O credor pode consentir em receber prestação diversa da que lhe é devida.

Art. 357. Determinado o preço da coisa dada em pagamento, as relações entre as partes

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regular-se-ão pelas normas do contrato de compra e venda.

Se for estipulado o preço da coisa dada em pagamento (o que ocorre ordinariamente com
os imóveis), as relações entre as partes serão reguladas pelas normas concernentes à
compra e venda, nos termos do art. 357 do CC/2002. Assim, as regras gerais referentes aos
riscos da coisa, à invalidade do negócio, e tudo o mais que for compatível com o contrato de
compra e venda, será aplicado, no caso, à dação em pagamento.

Art. 358. Se for título de crédito a coisa dada em pagamento, a transferência importará em
cessão.

Ainda segundo a nossa legislação em vigor, não existirá propriamente dação quando a coisa
dada em pagamento consistir em título de crédito, visto que, no caso, haverá mera cessão
de crédito (art. 358 do CC/2002), com extinção da obrigação originária por um meio de
pagamento.

Art. 359. Se o credor for evicto da coisa recebida em pagamento, restabelecer-se-á a


obrigação primitiva, ficando sem efeito a quitação dada, ressalvados os direitos de terceiros.

Ocorre a evicção — que traduz a ideia de “perda” —, quando o adquirente de um bem vem
a perder a sua propriedade ou posse em virtude de decisão judicial que reconhece direito
anterior de terceiro sobre o mesmo. Em tal situação, delineiam-se, nitidamente, três
sujeitos:

a) o alienante — que responderá pelos riscos da evicção, ou seja, que deverá ser
responsabilizado pelo prejuízo causado ao adquirente;

b) o evicto — o adquirente, que sucumbe à pretensão reivindicatória do terceiro;

c) o evictor — o terceiro que prova o seu direito anterior sobre a coisa.

Vamos imaginar que o credor aceite, ao invés dos dez mil reais, a entrega de um imóvel pelo
devedor.

O que fazer, então, se um terceiro, após a dação ser efetuada, reivindicar o domínio do
bem, provando ter direito anterior sobre ele?

Neste caso, se o credor for evicto da coisa recebida em pagamento — ou seja, perdê-la para
o terceiro que prove ser o verdadeiro dono, desde antes da sua entrega —, a obrigação
primitiva (de dar os dez mil reais) será restabelecida, ficando sem efeito a quitação dada ao
devedor.

Apenas deverão ser ressalvados os direitos de terceiros de boa-fé, a exemplo do que


ocorreria se a prestação originária fosse a entrega de um veículo, e este já estivesse
alienado a terceiro. No caso, havendo sido perdido o imóvel, objeto da dação em
pagamento, por força da evicção, as

partes não poderão pretender restabelecer a obrigação primitiva, mantendo o mesmo

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objeto (a entrega do carro), que já se encontra em poder de um terceiro de boa-fé.
Deverão, pois, na falta de solução melhor, resolver a obrigação em termos pecuniários.

É óbvio que este nosso posicionamento se limita à existência do elemento boa-fé, pois, no
mesmo exemplo, demonstrado o conluio entre o devedor e o terceiro/adquirente do
automóvel, deve a situação retornar ao status quo ante, evitando-se que se faça tábula rasa
da boa-fé alheia (no caso, do credor, que aceitou espontaneamente a dação).

Ressalvada, portanto, a boa-fé de terceiros, é possível ainda se enunciar a regra de que a


invalidade da dação em pagamento importará sempre no restabelecimento da obrigação
primitiva, perdendo efeito a quitação dada.

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