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Graça e

Livre-Arbítrio

Agostinho de Hipona
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Traduzido do original em Inglês


A Treatise on Grace and Free Will
By Aurelius Augustin, Bishop of Hippo

Extraído de
Pais Nicenos e Pós-Nicenos, Ed. Philip Schaff,
Vol 1-05, (Buffalo, NY: Christian Literature Publishing Co., 1887.) pp. 441-465.
Traduzido por Peter Holmes e Robert Ernest Wallis, revisto por Benjamin B. Warfield.

Versão modernizada e com notas de rodapé por


© William H. Gross, abril de 2014

OEstandarteDeCristo.com © 2016

Tradução por Pedro Lebarch


Revisão por Camila Almeida
Edição Final e Capa por William Teixeira

Texto original via: OnTheWing.org | © William H. Gross, abril de 2014

1ª Edição: Março de 2017

Salvo indicação em contrário, as citações bíblicas usadas nesta tradução são da versão Almeida
Corrigida Fiel | ACF • Copyright © 1994, 1995, 2007, 2011 Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

Traduzido e publicado em Português pelo website oEstandarteDeCristo.com, sob a licença Creative


Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International Public License.

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Sumário

Prefácio ............................................................................................................................................ 6
Nota de Tradução .......................................................................................................................... 8

CAPÍTULO 1 — Ocasião e argumento desta obra. ............................................................. 10


CAPÍTULO 2 — A existência da liberdade da vontade no homem é provada a partir
dos preceitos destinados a ele por Deus. .............................................................................. 10
CAPÍTULO 3 — Os pecadores são condenados quando tentam se desculpar culpando
a Deus, porque eles têm liberdade da vontade. ................................................................... 11
CAPÍTULO 4 — Os comandos Divinos mais adequados para a vontade, eles mesmos
ilustram a sua liberdade. ............................................................................................................ 12
CAPÍTULO 5 — Ignorância não se constitui desculpa suficiente para livrar o infrator da
punição; mas pecar com conhecimento é mais grave do que pecar com ignorância. 14
CAPÍTULO 6 — A graça de Deus deve ser mantida contra os Pelagianos; a heresia
Pelagiana não é antiga............................................................................................................... 15
CAPÍTULO 7 — A graça é necessária, em conjunto com a liberdade da vontade, para
conduzir a uma boa vida. ........................................................................................................... 16
CAPÍTULO 8 — Castidade conjugal é em si dom de Deus............................................... 17
CAPÍTULO 9 — Orar ao entrar em tentação é uma prova da graça............................... 18
CAPÍTULO 10 — Liberdade da vontade e graça de Deus são simultaneamente
elogiadas. ...................................................................................................................................... 18
CAPÍTULO 11 — Outras passagens da Escritura que os Pelagianos abusam. ........... 19
CAPÍTULO 12 — Paulo prova que a graça não é dada de acordo com os méritos dos
homens. ......................................................................................................................................... 20
CAPÍTULO 13 — A graça de Deus não é dada de acordo com o mérito, mas ela mesma
produz todo bom merecimento. ................................................................................................ 21
CAPÍTULO 14 — Paulo primeiro recebeu a graça para que ele pudesse ganhar
a coroa. .......................................................................................................................................... 22
CAPÍTULO 15 — Os Pelagianos professam que a única graça que não é dada de
acordo com nossos méritos, é o perdão de pecados. ........................................................ 23
CAPÍTULO 16 — Paulo lutou, mas Deus deu a vitória: ele correu, mas Deus usou de
misericórdia................................................................................................................................... 24

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CAPÍTULO 17 — A fé que ele guardou era o dom gratuito de Deus. ............................. 25


CAPÍTULO 18 — Fé sem as boas obras não é suficiente para salvação...................... 25
CAPÍTULO 19 — Como a vida eterna é tanto a recompensa pelo serviço, e um dom
gratuito da graça? ........................................................................................................................ 26
CAPÍTULO 20 — A pergunta respondida: justificação é graça simplesmente e
inteiramente; a vida eterna é recompensa e graça. ............................................................ 26
CAPÍTULO 21 — A vida eterna é “graça sobre graça”....................................................... 28
CAPÍTULO 22 — Quem é o transgressor da lei? Antiguidade da sua carta; a novidade
do seu espírito. ............................................................................................................................. 29
CAPÍTULO 23 — Os Pelagianos sustentam que a lei é a graça de Deus que nos ajuda
a não pecar. .................................................................................................................................. 30
CAPÍTULO 24 — Aqueles que desejam estabelecer sua justiça própria: “a justiça de
Deus” é o que o homem tem de Deus. ................................................................................... 31
APÍTULO 25 — A lei não é a graça pela qual somos Cristãos, nem é nossa própria
natureza. ........................................................................................................................................ 32
CAPÍTULO 26 — Pelagianos argumentam que a graça, que não é nem a lei, nem a
nossa natureza, é útil somente para perdoar pecados passados, e não para prevenir
os futuros. ...................................................................................................................................... 33
CAPÍTULO 27 — A graça age sobre o cumprimento da lei, a libertação da natureza, e
a supressão do domínio do pecado. ....................................................................................... 34
CAPÍTULO 28 — A fé é dom de Deus. .................................................................................. 34
CAPÍTULO 29 — Deus é capaz de converter vontades opostas, e tirar do coração a
sua dureza. .................................................................................................................................... 35
CAPÍTULO 30 — A graça pela qual o coração de pedra é removido não é precedido
por bons méritos, mas pelos maus. ......................................................................................... 36
CAPÍTULO 31 — Liberdade da vontade tem sua função na conversão do coração; mas
a graça também tem sua função.............................................................................................. 37
CAPÍTULO 32 — Em que sentido é corretamente dito que, se quisermos, poderemos
guardar os mandamentos de Deus. ........................................................................................ 38
CAPÍTULO 33 — A boa vontade pode ser pequena e fraca; uma vontade plena possui
uma grande operação de amor e graça cooperadora. ....................................................... 40
CAPÍTULO 34 — O elogio do Apóstolo ao amor. Correção deve ser administrada
com amor. ...................................................................................................................................... 41

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CAPÍTULO 35 — Recomendações do amor. ....................................................................... 42


CAPÍTULO 36 — Amor recomendado pelo próprio Nosso Senhor. ................................ 43
CAPÍTULO 37 — O amor que cumpre os mandamentos não é de nós mesmos, mas
de Deus.......................................................................................................................................... 43
CAPÍTULO 38 — Nós não amaríamos a Deus a menos que Ele não nos tivesse amado
primeiro. Os Apóstolos escolheram Cristo, porque eles foram escolhidos; eles não
eram escolhidos porque escolheram Cristo. ......................................................................... 44
CAPÍTULO 39 — O espírito de temor é um grande dom de Deus. ................................. 45
CAPÍTULO 40 — Pelagianos são ignorantes ao defender que o conhecimento da lei
vem de Deus, mas o amor vem de nós mesmos. ................................................................ 46
CAPÍTULO 41 — As vontades dos homens estão tão no poder de Deus, que Ele pode
transformá-las no que Lhe agradar. ........................................................................................ 47
CAPÍTULO 42 — Deus faz o que Ele quer, mesmo nos corações dos homens
maus. .............................................................................................................................................. 49
CAPÍTULO 43 — Deus opera nos corações humanos: inclina as suas vontades ao que
Lhe apraz. ...................................................................................................................................... 51
CAPÍTULO 44 — Graça gratuita exemplificada em crianças............................................ 52
CAPÍTULO 45 — A razão pela qual uma pessoa é assistida pela graça, e outra não,
deve ser remetida aos desígnios secretos de Deus. .......................................................... 54
CAPÍTULO 46 — Entendimento e sabedoria devem ser buscados em Deus. ............. 55

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Graça e Livre-Arbítrio
Um Tratado por Agostinho de Hipona

Um tratado endereçado a Valentino e aos monges de Adrumetum, e concluído em um só


livro. Escrito em 426 ou 427 D.C.

Prefácio

Neste tratado1 Agostinho nos ensina a tomar cuidado em sustentar a graça pela
negação da liberdade da vontade, ou a liberdade da vontade pela negação da graça; pois
é evidente a partir do testemunho da Escritura que há no homem uma livre escolha da
vontade; e também existem nas mesmas Escrituras provas inspiradas dadas daquela
mesma graça de Deus, sem a qual nada podemos fazer de bom. Depois, em oposição aos
Pelagianos2, ele prova que a graça não é concedida de acordo com os nossos méritos. Ele

1 Chamamos a tenção do leitor Cristão Bíblico para o fato de que Agostinho aqui, como em outros lugares, às
vezes, refere como “Escrituras” livros que na verdade são Apócrifos. A respeito dos mesmos reafirmamos a
posição de nossa Confissão: “Os livros comumente chamados Apócrifos, não sendo de inspiração Divina, não
fazem parte do cânon ou regra da Escritura; e, portanto, não são de autoridade para a Igreja de Deus, nem
de modo algum podem ser aprovados ou empregados, senão como escritos humanos (Lucas 24:27, 44;
Romanos 3:2)” (CFB1689, Capítulo 1, parágrafo 3). Por fim, exortamos — e isto é válido para todo este livro
— à observação da seguinte passagem das Sagradas Escrituras (CFB1689 1:1-2) que são a única, suficiente,
correta e infalível regra de todo conhecimento, fé e obediência salvíficos : “Examinai tudo. Retende o bem” (1
Tessalonicenses 5:21) — N.R.

2 Pelágio (354-420 c.) e os seus apoiadores citaram Deuteronômio 24:16 para negar o pecado original: “Os
pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos pelos pais; cada um morrerá pelo seu pecado”. Ele foi declarado
herege pelo Conselho de Cartago (419). Pelágio passou um tempo como um asceta e foi amplamente
admirado, mesmo Agostinho descreveu-o como um “homem santo”. Pelágio tinha sido chocado com o
devasso comportamento dos Cristãos em Roma. Eles, então, abusavam da sua liberdade em Cristo, e
liberdade da lei, de modo que eles trouxeram o nome de Cristo em condenação (Romanos 2:24; 6:1). Para
corrigir essa falta de autocontrole, Pelágio destacou a santificação pela piedade sob a Lei, mais a justif icação
pela graça no âmbito do Evangelho. Isso levou a um mal-entendido geral dos papéis da Lei e do Evangelho
na salvação. O Pelagianismo acrescenta obras para a graça como um meio de justificação, ao invés de obras
sendo a prova indispensável da graça justificadora de Deus. Agostinho prova que somos justificados (salvos)
pela graça de Deus somente, e que também somos santificados (vivemos com Deus) pela graça de Deus,
mesmo que nós cuidamos da nossa salvação com temor e tremor (Filipenses 2:12), é a Deus graça operando
em nós pelo Seu Espírito (Colossenses 1:29; Efésios 3:7; 1 Pedro 1:2), por meio da fé (Efésios 2,8-9; Atos
2:38). Esta é a grande verdade redescoberta na época da Reforma, mas conhecida desde o início.

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explica como a vida eterna, que é concedida para as boas obras, é realmente de graça.
Então, passa a mostrar que a graça que nos é dada por nosso Senhor Jesus Cristo não é
nem o conhecimento da lei, nem natureza, nem simplesmente a remissão dos pecados;
mas que é a graça que nos faz cumprir a lei, e faz com que a natureza seja libertada do
domínio do pecado.

Agostinho demole aquele subterfúgio vão dos Pelagianos, no sentido de que “a graça,
embora não seja concedida de acordo com o mérito das boas obras, ainda é dada de acordo
com o mérito da antecedente boa-vontade do homem que crê e ora”. O autor
incidentalmente toca a questão, por que Deus ordena o que Ele mesmo pretende dar, e se
Ele nos impõe quaisquer comandos que não somos capazes de realizar.

O presente tratado mostra claramente que o amor, que é indispensável para o


cumprimento dos mandamentos, só está dentro de nós vindo do próprio Deus. Ressalta
que Deus opera no coração dos homens para inclinar suas vontades para o que Ele quer,
seja para boas obras segundo a Sua misericórdia, ou más obras em retribuição ao que
merecem — Seu julgamento, na verdade, sendo às vezes manifesto, às vezes escondido,
é sempre justo.

Por fim, Agostinho nos ensina que um exemplo claro da gratuidade da graça, dela não
ser dada em troca de nossos méritos, é o caso de que crianças são salvas, enquanto outras
perecem, sendo tal caso idêntico ao do resto da humanidade.

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Nota de Tradução

Traduzimos a expressão inglesa “free will” (lit. livre vontade), por “liberdade da
vontade”, na grande maioria das vezes que ela aparece neste tratado. Com exceção
apenas do próprio Título e de uma outra ocorrência no Cap. 1.

O motivo para tal é a perversão generalizada do conceito do que é “livre-arbítrio”


prevalecente em nossos dias — mesmo alguns que se dizem Reformados ignoram
completamente o sentido etimológico clássico deste termo. O que hoje, de forma geral, se
entende por “livre-arbítrio”, dentro e fora da Cristandade, é algo completamente diferente
do que é proposto por Agostinho neste tratado; tal termo e conceito teológico foi
completamente pervertido principalmente pelos seguidores da tradição Wesleyana -
Arminiana. Semelhante caso acontece com o termo e conceito bíblico, Agostiniano,
Luterano e Calvinista de “graça preveniente” (veja Cap. 38, inclusive nota de rodapé), que
também foi completamente pervertido.

Assim, para evitar mal-entendidos e para não dar ocasião para tais pervertedores 3 e
para suas perversões, resolvemos usar o termo “liberdade da vontade” como tradução para
“free will”, aliás, esta é a melhor tradução para a expressão e a realidade bíblica-semântica
que nela se encerra, como nos mostrou o genial Jonathan Edwards em seu tratado
magistral sobre o tema, A Freedom of the Will.4

Para encerrar esta breve nota de tradução queremos apenas deixar aqui registrado
qual é o entendimento e definição do conceito clássico que os Cristãos bíblico-ortodoxos
creem acerca do termo teológico, “livre-arbítrio”:

1. Deus dotou a vontade do homem com tal liberdade natural e poder de ação em
escolha, que ela não é nem forçada, nem predeterminada para o bem ou o mal por
qualquer necessidade da natureza (Mateus 17:12; Tiago 1:14; Deuteronômio 30:19).

3Existem pessoas em nossos dias que se atrevem a sugerir que Lutero não era completamente monergista,
ou que os Cinco Solas da Reforma Protestante e a Confissão de Westminster apoiam a posição Arminana.
Estes exemplos são citados apenas para dar uma ideia do que me refiro ao falar de “pervertedores” e para
mostrar o nível de perversão a que alguns chegam.

4Traduzimos este tratado do Edwards. O mesmo está agora está em fase de revisão, esperamos que seja
publicado nas próximas semanas, se nosso Deus quiser.

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2. O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer e


fazer aquilo que é bom e agradável a Deus (Eclesiastes 7:29); mas ainda assim, era
instável, de forma que ele podia cair deste estado (Gênesis 3:6).

3. O homem, por meio de sua queda em um estado de pecado, perdeu completamente


todo o poder da vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação
(Romanos 5:6, 8:7); assim como um homem natural, inteiramente adverso a esse bem
e morto em pecado (Efésios 2:1, 5), não é capaz, por sua própria força, de converter-
se ou preparar-se para isso (Tito 3:3-5; João 6:44).

4. Quando Deus converte um pecador e o transporta para o estado de graça, Ele o


liberta de sua natural escravidão ao pecado (Colossenses 1:13; João 8:36) e, por Sua
graça, o habilita a livremente querer e fazer aquilo que é espiritualmente bom
(Filipenses 2:13); ainda assim, em razão de sua corrupção remanescente, ele não o
faz perfeitamente, nem apenas deseja o que é bom, mas também o que é mau
(Romanos 7:15, 18, 19, 21, 23).

5. A vontade do homem é feita imutável e perfeitamente livre somente para o bem,


apenas no estado de glória (Efésios 4:13)

(Capítulo 9, Sobre o Livre-Arbítrio, A Confissão de Fé Batista de 1689)

Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível,


Ao único Deus sábio, Senhor e Salvador nosso,
Seja glória e majestade, louvor e honra, domínio e poder,
Agora, e para todo o sempre. Amém e Amém!

— William Teixeira,
12 de Maio de 2015.

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CAPÍTULO 1

Ocasião e argumento desta obra.

Com referência às pessoas que assim pregam e defendem o livre-arbítrio do homem,


a ponto de negarem ousadamente e esforçarem-se para abolir a graça de Deus, que nos
chama para Ele, e que nos livra de nossos deméritos, e pela qual obtemos os méritos que
levam para a vida eterna: já dissemos uma boa parte em discussão, e escrevemos, tanto
quanto o Senhor concedeu nos capacitar. Todavia, uma vez que existem algumas pessoas
que defendem a graça de Deus negando a liberdade da vontade do homem, ou que supõem
que a liberdade da vontade é negada quando a graça é defendida, me determinei a escrever
um pouco sobre esse ponto ao meu amado irmão Valentino, e ao restante de vocês que
estão servindo a Deus juntos sob o impulso de um amor mútuo. Pois, me foi dito acerca de
vocês, irmãos, por parte de alguns membros de sua fraternidade que nos visitaram, e que
são os portadores dessa nossa comunicação para vocês, que existem dissensões entre
vocês sobre este assunto. Sendo este o caso, amados, para que vocês não sejam
perturbados pela obscuridade desta questão, eu aconselho primeiro a agradecerem a Deus
pelas coisas que vocês já entendem; mas para tudo que está além do alcance de suas
mentes, orem por compreensão da parte do Senhor, observando, ao mesmo tempo, paz e
amor entre vocês; e até que Ele mesmo os leve a perceber o que no presente está além de
sua compreensão, andem firmemente no fundamento sobre o qual vocês têm segurança.
Este é o conselho do Apóstolo Paulo, que, depois de dizer que ele ainda não era perfeito,
um pouco depois acrescenta: “Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este
sentimento,” (Filipenses 3:15) querendo dizer perfeito até certo ponto, mas não tendo
alcançado uma perfeição suficiente para nós; e então acrescenta imediatamente: “E, se,
porventura, pensais de outro modo, também isto Deus vos esclarecerá. Todavia, andemos
de acordo com o que já alcançamos.” (Filipenses 3:16). Pois, ao andar no que já
alcançamos, seremos capazes de avançar para o que ainda não alcançamos — Deus o
revelando a nós se em algo pensamos diferente — supondo que não desistamos do que
Ele já revelou.

CAPÍTULO 2

A existência da liberdade da vontade no homem é provada a partir dos preceitos


destinados a ele por Deus.

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Agora, Ele nos revelou, através de Suas Sagradas Escrituras, que há no homem uma
livre escolha da vontade. Mas como Ele revelou isso eu não conto em linguagem humana,
mas Divina. Há, para começar, o fato de que os preceitos de Deus em si seriam de nenhuma
utilidade para um homem a menos que tivesse livre escolha da vontade, de modo que ao
cumpri-los, ele pode obter as recompensas prometidas. Pois, eles são dados para que
ninguém possa ser capaz de invocar a desculpa da ignorância, como diz o Senhor a
respeito dos judeus no Evangelho: “Se eu não viera, nem lhes houvera falado, pecado não
teriam; mas, agora, não têm desculpa do seu pecado” (João 15:22). De que pecado Ele
fala, senão daquele grande pecado que de antemão conhecia enquanto falava assim, que
eles fariam a sua própria, ou seja, a morte que eles estavam indo Lhe infligir? Porque eles
não tinham “nenhum pecado” antes de Cristo vir a eles em carne. O apóstolo também diz:
“A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm
a verdade pela injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles,
por que Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno
poder, como também sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio
do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por
isso, indesculpáveis” (Romanos 1:18-20) Em que sentido ele afirma serem eles
“indesculpáveis”, exceto com referência a essas desculpas como o orgulho humano está
apto a alegar em palavras como: “Se eu soubesse, eu teria feito isso; não falhei em fazê-lo
por ser eu ignorante disso?”, ou “Eu faria isso se eu soubesse como; mas eu não sei,
portanto, não hei de fazê-lo”? Toda essa desculpa é removida deles quando o preceito lhes
é dado, ou quando o conhecimento lhes é manifestado, como evitar o pecado.

CAPÍTULO 3

Os pecadores são condenados quando tentam se desculpar culpando a Deus,


porque eles têm liberdade da vontade.

Há, no entanto, as pessoas que tentam encontrar desculpas para si até mesmo a partir
de Deus. O Apóstolo Tiago diz a essas pessoas: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou
tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém
tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz.
Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez
consumado, gera a morte” (Tiago 1:13-15). Salomão, também, em seu livro de Provérbios,
tem essa resposta para aqueles que desejam encontrar uma desculpa para si a partir do
próprio Deus: “A estultícia do homem perverte o seu caminho, mas é contra o Senhor que

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o seu coração se ira” (Provérbios 19:3). E no livro de Eclesiástico 5, lemos: “Não digas: ‘É o
Senhor que me faz pecar’, porque Ele não faz aquilo que odeia. Não digas ‘É ele que me
faz errar’, porque Ele não tem necessidade de homem pecador. O Senhor odeia toda
espécie de abominação e nenhuma é amável para os que O temem. Desde o princípio Ele
criou o homem e o deixou nas mãos de Seu próprio conselho. Se quiseres, observarás os
Seus mandamentos para permanecer fiel. Ele colocou diante de ti o fogo e a água; para o
que quiseres estenderás tua mão. Diante dos homens está a vida e a morte, ser-te-á dado
o que preferires”. Observe como mui claramente é definida diante os nossos olhos a livre
escolha da vontade humana.

CAPÍTULO 4

Os comandos Divinos mais adequados para a vontade, eles mesmos ilustram a sua
liberdade.

Qual é o significado do fato de que, em tantas passagens, Deus exige que todos os
Seus mandamentos sejam mantidos e cumpridos? Como é que Ele estabelece este
requisito se não há liberdade da vontade? O que significa “o homem bem-aventurado”, de
quem o salmista diz que seu prazer era a lei do Senhor? (Salmos 1:2)? Será que ele não
mostra claro o suficiente que um homem por sua própria vontade se posiciona pela lei de
Deus? Então, novamente, há tantos mandamentos que de alguma forma estão
expressamente adaptados à vontade humana; por exemplo, há, “Não te deixes vencer do
mal” (Romanos 12:21) e outros de semelhante significado, tais como, “Não sejais como o
cavalo ou a mula, sem entendimento” (Salmos 32:9) e, “Não deixes a instrução de tua mãe”
(Provérbios 1:8) e,” Não sejas sábio aos seus próprios olhos” (Provérbios 3:7) e “Não
rejeites a disciplina do Senhor” (Provérbios 3:11) e, “Não te esqueças dos meus ensinos”
(Provérbios 3:1) e, “Não te furtes a fazer o bem a quem de direito” (Provérbios 3:27) e, “Não
maquines o mal contra o teu próximo” (Provérbios 3:29) e, “não dê atenção a uma mulher
sem valor” (Provérbio 5:2 – Tradução Literal) e, “Ele não está inclinado a entender como
fazer o bem” (Provérbios 2:9 — Tradução Literal) e,” Não quiseram o meu conselho”
(Provérbios 1:30) com inúmeras outras passagens das Escrituras inspiradas do Antigo
Testamento. E o que todas mostram a nós, senão a livre escolha da vontade humana?

5Esta é uma citação de “O Livro da Toda-Virtuosa Sabedoria de Joshua ben Sira”, comumente chamado a
Sabedoria de Sirach, ou simplesmente Siraque. Começando com Cipriano, ele era conhecido como O Livro
do Eclesiástico, não confundir com Eclesiastes.

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Então, novamente, nos livros evangélicos e apostólicos do Novo Testamento, que outra
lição nos é ensinada, como quando se diz: “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre
a terra” (Mateus 6:19) e, “Não temais os que matam o corpo” (Mateus 10:28) e, “Se alguém
quer vir após mim, a si mesmo se negue” (Mateus 16:24) e de novo: “paz na terra aos
homens a quem ele quer bem” (Lucas 2:14). Assim também diz o apóstolo Paulo: “Não
peca, que se casem. Todavia, o que está firme em seu coração, não tendo necessidade,
mas domínio sobre o seu próprio arbítrio, e isto bem firmado no seu ânimo, para conservar
virgem a sua filha, bem fará” (1 Coríntios 7:36-37). E assim de novo, “Se o faço de livre
vontade, tenho galardão” (1 Coríntios 9:17), enquanto em outra passagem ele diz: “Tornai-
vos a sobriedade, como é justo, e não pequeis” (1 Coríntios 15:34) e mais uma vez, “para
que, assim como revelastes prontidão no querer, assim a leveis a termo” (2 Coríntios 8:11).
Então ele comenta a Timóteo sobre as viúvas mais jovens, “Quando se tornam levianas
contra Cristo, querem casar-se” (1 Timóteo 5:11). Assim, em outra passagem: “Ora, todos
quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2 Timóteo 3:12),
enquanto que para o próprio Timóteo ele diz: “Não te faças negligente para com o dom que
há em ti” (1 Timóteo 4:14). Então, a Filemon ele dirige esta explicação: “Para que a tua
bondade não venha a ser como que por obrigação, mas de livre vontade” (Filemon 1:14).
Aos servos também ele aconselha obedecer seus mestres “de boa vontade” (Efésios 6:7).
Em estrita conformidade com isso, Tiago diz:” Não vos enganeis, meus amados irmãos”
(Tiago 1:16) e “Não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus Cristo em acepção de pessoas” 6
(Tiago 2:1) e, “Não faleis mal uns dos outros” (Tiago 4:11). Assim também João em sua
epístola escreve: “Não ameis o mundo” (1 João 2:15) e outras coisas de significado
semelhante.
Agora onde quer que esteja dito, “Não faça isso” e “Não faça aquilo”, e onde quer que
haja qualquer requisito nas admoestações Divinas para que o trabalho da vontade faça
qualquer coisa, ou abstenha-se de fazer qualquer coisa, há, de uma só vez, prova suficiente
da liberdade da vontade. Nenhum homem, por isso, quando pecar, pode em seu coração
culpar a Deus por isso, mas todo homem deve imputar a culpa a si mesmo. Isso também
não diminui de modo algum a própria vontade de um homem quando ele executa qualquer
ato em conformidade com Deus. De fato, uma obra deve ser chamada boa, quando uma
pessoa a faz voluntariamente; então, também, que a recompensa de uma boa obra possa
ser esperada dEle conforme está escrito: “Retribuirá a cada um conforme suas obras”
(Mateus 16:27).

6Tiago 2:1: Meus irmãos, não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, [juntamente] com
parcialidade.

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CAPÍTULO 5

Ignorância não se constitui desculpa suficiente para livrar o infrator da punição;


mas pecar com conhecimento é mais grave do que pecar com ignorância.

A desculpa, como os homens têm o hábito de alegar, da ignorância, é tirada daquelas


pessoas que conhecem os mandamentos de Deus. Mas também não ficarão sem puniç ão
aqueles que não conhecem a lei de Deus. “Assim, pois, todos os que pecaram sem lei
também sem lei perecerão; e todos os que com lei pecaram mediante lei serão julgados”
(Romanos 2:12). Agora, o apóstolo não me parece ter dito isso como se ele quisesse dizer
que eles teriam que sofrer algo pior, aqueles que em seus pecados são ignorantes da lei,
do que aqueles que conhecem. É aparentemente pior, sem dúvida, “perecer” do que “ser
julgado”. Mas na medida em que ele estava falando dos gentios e dos judeus quando usou
estas palavras, e porque o primeiro não tinha a lei, mas o último havia recebido a lei, quem
pode se aventurar a dizer que os judeus que pecam na lei não perecerão, uma vez que eles
se recusaram a acreditar em Cristo, quando era sobre eles que o apóstolo disse: “Eles
serão julgados pela lei”? Pois, sem fé em Cristo, nenhum homem pode ser salvo; e,
portanto, eles serão julgados por isso, então perecerão. Se de fato a condição daqueles
que ignoram a lei de Deus é pior do que a condição daqueles que a conhecem, então como
pode ser verdade o que o Senhor diz no Evangelho: “Aquele servo, porém, que conheceu
a vontade de seu senhor e não se aprontou, nem fez, segundo a sua vontade será punido
com muitos açoites. Aquele, porém, que não soube a vontade do seu senhor e fez coisas
dignas de reprovação levará poucos açoites”? (Lucas 12:47-48). Observe como Ele
claramente mostra aqui que é um problema mais grave para um homem pecar com
conhecimento, do que em ignorância. E, no entanto, não devemos por causa disso procurar
refúgio nas sombras da ignorância, com intenção de encontrar a nossa desculpa nela. Uma
coisa é ser ignorante, e outra coisa é não querer saber. Pois, a vontade é culpada no caso
do homem de quem se diz: “Ele não está inclinado a entender, de modo a fazer o bem”.
Mas mesmo a ignorância que não é deles que se recusam a saber, mas deles que estão
simplesmente ignorantes por assim dizer, não desculpa ninguém a ponto de isentá-lo do
castigo do fogo eterno, ainda que sua falha em crer tenha sido o resultado de não ter ouvido
sobre tudo o que ele deveria acreditar; mas isso provavelmente só vai ao ponto de atenuar
a sua punição. Porque não foi dito sem razão: “Derrama o teu furor sobre as nações que
não te conhecem” (Salmos 79:6), nem ainda em conformidade com o que o apóstolo diz:
“Quando do céu se manifestar o Senhor Jesus com os anjos do seu poder, em chama de
fogo, tomando vingança contra os que não conhecem a Deus” (2 Tessalonicenses 1:7-8).

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No entanto, a fim de que possamos ter esse conhecimento que vai impedir que digamos,
cada um de nós: “Eu não sabia”, “Eu não ouvi”, “Eu não entendi”, a vontade humana é
convocada em palavras como estas: “Não sejais como o cavalo ou a mula, sem
entendimento” (Salmos 32:9), embora possa mostrar-se ainda pior, como está escrito: “O
servo não se emendará com palavras, porque, ainda que entenda, não obedecerá”
(Provérbios 29:19). Mas quando um homem diz: “Eu não posso fazer o que me foi ordenado,
porque estou dominado por minha concupiscência”, ele já não tem qualquer desculpa para
invocar a ignorância, nem razão para culpar a Deus em seu coração; mas ele reconhece e
lamenta seu próprio mal em si mesmo. E ainda o apóstolo diz a essa pessoa: “Não te deixes
vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Romanos 12:21). Claro, o próprio fato de que
a ordem, “não consinta em ser vencido”, é dirigida àquele que, sem dúvida, convoca a
determinação da sua vontade. Pois, consentir e recusar são funções que são próprias da
vontade.

CAPÍTULO 6

A graça de Deus deve ser mantida contra os Pelagianos;


a heresia Pelagiana não é antiga.

No entanto, é de se temer que todos estes e outros semelhantes testemunhos da


Sagrada Escritura (e, sem dúvida, há um grande número deles), sobre a sustentação da
liberdade da vontade, sejam entendidos de forma a não deixar espaço para a assistência e
a graça de Deus para conduzir a uma vida piedosa, e ter uma boa conduta 7, à qual a
recompensa eterna é devida; e para que o homem pobre e miserável, quando leva uma
boa vida e realiza boas obras (ou melhor, pensa que ele leva uma vida boa e realiza boas
obras), não deve ousar gloriar-se em si mesmo e não no Senhor, e colocar a sua esperança
de vida justa só em si mesmo, de forma a ser seguido por maldição do profeta Jeremias
quando ele diz: “Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e
aparta o seu coração do Senhor” (Jeremias 17:5). Compreendam esta passagem do
profeta, meus irmãos, peço a vocês. Porque o profeta não disse: “Maldito o homem que
confia em seu próprio eu”, pode parecer a alguns que a passagem: “Maldito o homem que
confia no homem”, foi falada para impedir o homem de confiar em qualquer outro homem
que não ele mesmo. Portanto, a fim de mostrar que a sua advertência ao homem não era

7 Conduta aqui significa a forma como nos comportamos em sociedade.

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a de confiar em si mesmo, depois de dizer “Maldito o homem que confia no homem”,


imediatamente acrescenta “faz da carne mortal o seu braço”, Ele usou a palavra “braço”
para designar o poder em operação. O termo “carne”, no entanto, deve ser entendida como
a fragilidade humana. E, portanto, aquele que faz da carne mortal seu braço, supõe que um
poder que é frágil e fraco (isto é, humano) é suficiente para que ele realize boas obras; e,
portanto, ele não confia em Deus para ajudá-lo. Esta é a razão pela qual ele adiciona a
próxima frase: “E aparta o seu coração do Senhor”. Este é o caráter da heresia Pelagiana,
que não é antiga, mas só recentemente veio à existência. Contra este sistema de erro,
houve primeiro uma boa dose de discussão; então, como último recurso, ela foi
encaminhada a conselhos episcopais diversos, processos os quais, na verdade não em
todos os casos, mas em alguns, eu expedi a vocês para sua leitura. De modo então a
realizar boas obras, não confiemos no homem, fazendo da carne mortal nosso braço; nem
deixemos que os nossos corações afastem-se do Senhor; mas digamos a ele: “Tu és o meu
auxílio, não me recuses, nem me desampares, ó Deus da minha salvação” (Salmos 27:9).

CAPÍTULO 7

A graça é necessária, em conjunto com a liberdade da vontade,


para conduzir a uma boa vida.

Portanto, meus amados, como agora provamos por nossos antigos testemunhos da
Escritura Sagrada que há no homem uma livre determinação de vontade para viver
corretamente e agir corretamente; então, agora vamos ver quais são os testemunhos
Divinos relativos à graça de Deus, sem a qual não somos capazes de fazer qualquer coisa
boa. E antes de tudo, eu direi algo sobre a própria profissão que vocês fazem em sua
fraternidade. Sua sociedade, na qual vocês estão levando uma vida de continência, não
poderia se manter unida a menos que vocês desprezassem o prazer conjugal. Bem, o
Senhor estava um dia conversando sobre esse mesmo tema, quando Seus discípulos
observaram: “Se essa é a condição do homem relativamente à sua mulher, não convém
casar”. Ele, então, respondeu-lhes: “Nem todos são aptos para receber esta palavra, mas
apenas aqueles a quem é dado” (Mateus 19:10). E não foi à liberdade da vontade de
Timóteo que o apóstolo apelou quando o exortou com estas palavras: “Conserva-te a ti
mesmo puro” (1 Timóteo 5:22)? Ele também explicou o poder da vontade nesta matéria,
quando Ele disse, “o que está firme em seu coração, não tendo necessidade, mas domínio
sobre seu próprio arbítrio. E isto bem firmado no seu ânimo, para conservar virgem a sua
filha, bem fará” (1 Coríntios 7:37). E ainda, “Nem todos são aptos para receber esta palavra,

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mas apenas aqueles a quem é dado”. Agora, aqueles a quem isto não é dado, ou não estão
dispostos ou não cumprem o que querem; enquanto que aqueles a quem isso é dado, tanto
querem quanto cumprem o que querem. Com o fim, portanto, de que esta palavra, que não
é recebida por todos os homens, possa ainda ser recebida por alguns, serão necessários
tanto o dom de Deus e a liberdade da vontade.

CAPÍTULO 8

Castidade conjugal é em si dom de Deus.

Preocupando-se com a castidade conjugal em si é que o apóstolo trata quando ele


diz: “... que faça o tal o que quiser; não peca; casem-se” (1 Coríntios 7:36), e ainda assim
isso também é dom de Deus, pois a Escritura diz: “É pelo Senhor que a mulher se une ao
marido”. Assim o doutor dos gentios, em um de seus discursos, elogia tanto a castidade
conjugal, na qual os adultérios são evitados, e a continência ainda mais perfeita que
renuncia a toda coabitação, e ele mostra como tanto um como o outro são cada um o dom
de Deus. Escrevendo aos Coríntios, ele advertiu as pessoas casadas a não defraudar uns
aos outros; e, em seguida, após a sua advertência a estes, ele acrescentou: “Quero que
todos os homens sejam tais como eu sou” (1 Coríntios 7:7), dizendo, é claro, que ele se
absteve de toda coabitação; e, em seguida, passou a dizer: “no entanto, cada um tem de
Deus o seu próprio dom; um, na verdade, de um modo, outro, de outro” (1 Coríntios 7:7).
Agora, os muitos preceitos que estão escritos na lei de Deus, proibindo toda a fornicação e
adultério, indicam qualquer outra coisa além de liberdade da vontade? Certamente tais
preceitos não seriam dados a menos que um homem tivesse uma vontade própria com a
qual obedecesse aos mandamentos Divinos. E ainda assim é um dom de Deus que é
indispensável para a observância dos preceitos da castidade. Assim, diz-se no livro da
Sabedoria: “mas, consciente de não poder possuir a sabedoria, a não ser por dom de Deus,
(e já era inteligência o saber de onde vem o dom)...” (Sabedoria de Salomão 8:21). “Cada
um”, no entanto, “é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e o seduz” (Tiago
1,14) a não observar e manter estes preceitos sagrados de castidade. Se ele dissesse em
relação a estes mandamentos: “Eu gostaria de mantê-los, mas eu estou dominado por
minha concupiscência”, então a Escritura responde à sua liberdade da vontade, como eu já
disse: “Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Romanos 12:21). Para
que esta vitória possa ser obtida, no entanto, a graça concede a sua ajuda; e não fosse
dada esta ajuda, a lei não seria nada senão a força do pecado. Pois, a concupiscência é

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aumentada e recebe poderes maiores da proibição da lei, a menos que o espírito de graça
ajude. Isso explica a declaração do grande doutor dos gentios, quando ele diz: “O aguilhão
da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” (1 Coríntios 15:56). Vejam, então, peço a
vocês, onde esta confissão de fraqueza se origina quando um homem diz: “Eu desejo
manter o que a lei ordena, mas eu sou superado pela força da minha concupiscência”. E
quando sua vontade é dirigida, e é dito, “Não te deixes vencer do mal”, de que vale qualquer
coisa além do socorro da graça de Deus para o cumprimento do preceito? O próprio
apóstolo depois afirmou isso; pois depois de dizer “A força do pecado é a lei”, ele
imediatamente adicionou, “graças a Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor
Jesus Cristo” (1 Coríntios 15:57). Segue-se então, que a vitória em que o pecado é vencido
nada mais é do que o dom de Deus, que ajuda a liberdade da vontade nesta batalha.

CAPÍTULO 9

Orar ao entrar em tentação é uma prova da graça.

É por isso que o nosso Mestre Celestial também diz: “Vigiai e orai, para que não entreis
em tentação” (Mateus 26:41). Que cada homem, portanto, ao lutar contra sua própria
concupiscência, ore para que não entre em tentação; isto é, que ele não seja desviado e
seduzido por ela. Mas ele não entra em tentação se ele conquista sua vil concupiscência
pela boa vontade. E ainda, a determinação da vontade humana é insuficiente, a menos que
o Senhor conceda vitória em resposta à oração, para que não entre em tentação. O que de
fato constitui prova mais clara da graça de Deus, do que a aceitação da oração em qualquer
petição? Se nosso Salvador tivesse apenas dito: “Vigiai para que não entreis em tentação”,
Ele pareceria ter feito nada além de admoestar a vontade do homem; mas uma vez que Ele
acrescentou as palavras “e orai”, Ele mostrou que Deus nos ajuda a não entrar em tentação.
É para a liberdade da vontade do homem que essas palavras são dirigidas: “Filho meu, não
rejeites a disciplina do Senhor” (Provérbios 3.11). E o Senhor disse: “Eu, porém, roguei por
ti, para que a tua fé não desfaleça” (Lucas 22.32). Assim o homem é assistido pela graça,
a fim de que a sua vontade não seja inutilmente ordenada.

CAPÍTULO 10

Liberdade da vontade e graça de Deus são simultaneamente elogiadas.

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Quando Deus diz: “Tornai-vos para mim, diz o Senhor dos Exércitos, e eu me tornarei
para vós outros”, (Zacarias 1:3) uma dessas frases, a que convida o nosso retorno a Deus,
evidentemente pertence à nossa vontade; enquanto a outra, que promete Seu retorno para
nós, pertence à Sua graça. Aqui, possivelmente, os Pelagianos acham que têm uma
justificativa para a opinião na qual de forma tão proeminente avançam: que a graça de Deus
é dada de acordo com os nossos méritos. No Oriente, de fato, isto é, na província da
Palestina em que a cidade de Jerusalém está, Pelágio, quando examinado em pessoa pelo
bispo, não se aventurou a afirmar isso. Pois, aconteceu que entre as acusações que foram
levantadas contra ele, esta em particular foi objetada: ele afirmou que a graça de Deus era
dada de acordo com os nossos méritos, uma opinião que era tão diferente da doutrina
católica, e tão hostil à graça de Cristo, que a menos que ele a tenha amaldiçoado, como
estava a seu cargo, ele mesmo deve ter sido amaldiçoado por conta dela. Ele declarou, de
fato, a maldição requerida sobre o dogma, mas quão não sinceramente seus livros
posteriores claramente se mostram; porque neles ele mantém absolutamente nenhuma
outra opinião além de que a graça de Deus é dada de acordo com os nossos méritos. Eles
reúnem tais passagens das Escrituras, como a que eu agora citei, “Tornai-vos para mim,
diz o Senhor dos Exércitos, e eu me tornarei para vós outros”, como se fosse devido ao
mérito de nosso retorno para Deus que a Sua graça nos foi dada, e que Ele mesmo Se
volta para nós. Agora, as pessoas que sustentam este parecer deixam de observar que, a
menos que a nossa volta para Deus fosse em si o dom de Deus, não seria dito a Ele em
oração, “Restaura-nos, ó Deus” (Salmos 80:3) e, “Faze-nos voltar, ó Deus dos Exércitos, e
faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos” (Salmos 80:7), e novamente: “Torna-nos
a trazer, ó Deus da nossa salvação (Salmos 85:4), com outras passagens de significado
semelhante, numerosas demais para mencionar aqui. Pois a respeito do nosso vir a Cristo,
o que mais isso significa além de nosso ser voltado para Ele pela fé? E ainda Ele diz:
“Ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido” (João 6:65).

CAPÍTULO 11

Outras passagens da Escritura que os Pelagianos abusam.

Então, novamente, há contido na Escritura no segundo livro das Crônicas: “O Senhor


está convosco, enquanto vós estais com ele, e, se o buscardes, o achareis; porém, se o
deixardes, vos deixará” (2 Crônicas 15:2). Esta passagem, sem dúvida, manifesta
claramente a escolha da vontade. Mas aqueles que sustentam que a graça de Deus é dada

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de acordo com os nossos méritos, recebem estes testemunhos da Escritura de tal forma a
ponto de acreditar que nosso mérito reside na circunstância do nosso “estar com Deus”,
enquanto a Sua graça é dada de acordo com este mérito, de modo que Ele também possa
estar conosco. De igual modo, que o nosso mérito reside na “nossa busca por Deus”, e, em
seguida, Sua graça é dada de acordo com este mérito, a fim de que possamos encontrá -
lO. Mais uma vez, há uma passagem no mesmo primeiro livro das Crônicas, que declara a
escolha da vontade: “Tu, meu filho Salomão, conhece o Deus de teu pai e serve-o de
coração íntegro e alma voluntária; porque o Senhor esquadrinha todos os corações e
penetra todos os desígnios do pensamento. Se o buscardes, ele deixará achar-se por ti; se
o deixares, ele te rejeitará para sempre” (1 Crônicas 28:9). Mas essas pessoas encontram
algum espaço para o mérito humano na frase, “Se o buscardes”, e então pensa-se que a
graça é dada de acordo com este mérito a partir do que é dito nas palavras seguintes, “Ele
deixará achar-se por ti”. E assim eles trabalham com todas as suas forças para mostrar que
a graça de Deus é dada de acordo com os nossos méritos, em outras palavras, que a graça
não é graça. Pois, como diz o apóstolo mais expressamente, para aqueles que recebem
galardão segundo o mérito “o salário não é considerado como favor, e sim como dívida”
(Romanos 4:4).

CAPÍTULO 12

Paulo prova que a graça não é dada de acordo com os méritos dos homens.

Ora, havia, sem dúvida, um mérito nítido no apóstolo Paulo, mas era um demérito,
enquanto ele perseguia a Igreja; e ele diz sobre isso: “Porque eu sou o menor dos apóstolos,
que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus” (1
Coríntios 15:9). E foi quando ele teve esse demérito que um mérito lhe foi prestado em vez
do demérito; e, portanto, ele passou de uma vez a dizer: “Mas, pela graça de Deus, sou o
que sou.” (1 Coríntios 15:10). Então, a fim de apresentar também a liberdade da sua
vontade, acrescentou na frase seguinte: “E Sua graça, que me foi concedida, não se tornou
vã, antes, trabalhei muito mais do que todos eles”. Ele apela para essa liberdade da vontade
do homem para o caso de outros também, como quando ele diz:” também vos exortamos
a que não recebais em vão a graça de Deus” (2 Coríntios 6:1). Agora, como ele poderia
assim ordenar-lhes se eles receberam a graça de Deus de tal maneira a ponto de perder
sua própria vontade? No entanto, ele afirma que a vontade em si não deve ser considerada
capaz de fazer qualquer coisa boa sem a graça de Deus, depois de dizer: “E Sua graça,

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que me foi concedida, não se tornou vã, antes, trabalhei muito mais do que todos eles”, e
de acrescentar logo em seguida a frase restritiva, “Todavia, não eu, mas a graça de Deus
comigo” (1 Coríntios 15:10). Em outras palavras, não só eu, mas a graça de Deus comigo.
E assim nem foi a graça de Deus sozinha, nem foi ele mesmo sozinho, mas foi a graça de
Deus com ele. Apesar de seu chamado do céu, e sua conversão por meio deste grande e
eficaz chamado, a graça de Deus estava sozinha; isso é porque os seus méritos, embora
grandes, eram ainda maus. Então, para citar mais uma passagem, ele diz a Timóteo: “Não
te envergonhes, portanto, do testemunho de nosso Senhor, nem do seu encarcerado, que
sou eu; pelo contrário, participa comigo dos sofrimentos, a favor do evangelho, segundo o
poder de Deus, que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas
obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus,
antes dos tempos eternos” (2 Timóteo 1:8-9). Em seguida, em outro lugar, ele enumera os
seus méritos, e ele nos dá esta descrição de seu caráter vil: “Pois nós também, outrora,
éramos néscios, desobedientes, desgarrados, escravos de toda sorte de paixões e
prazeres, vivendo em malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros” (Tito 3:3).
Para ter certeza, nada além da punição foi devido a um tal curso do mal mérito! Deus, no
entanto, que paga o mal com o bem pela Sua graça, que não é dada de acordo com os
nossos méritos, permitiu ao apóstolo concluir sua declaração e dizer: “Quando, porém, se
manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com todos, não por
obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante
o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente,
por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que, justificados por graça, nos tornemos
seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna” (Tito 3:4-7).

CAPÍTULO 13

A graça de Deus não é dada de acordo com o mérito, mas ela mesma produz todo
bom merecimento.

A partir dessas e de outras passagens das Escrituras, nós reunimos a prova de que a
graça de Deus não é dada de acordo com os nossos méritos. A verdade é que vemos que
ela é dada não somente onde não existem bons méritos, mas, mesmo onde existem muitos
deméritos precedentes: e nós a vemos ser dada assim diariamente. Mas é claro que quando
ela foi dada, também nossos bons méritos começam a existir — ainda que somente por
meio da graça; pois se ela se retirasse, o homem falharia — não ressuscitado, mas

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precipitado pela liberdade da vontade. É por isso que, mesmo quando ele começa a possuir
bons méritos, nenhum homem deve atribuí-los a si mesmo, mas a Deus a quem é, portanto,
dirigido pelo salmista: “Não me desampares, Senhor; Deus meu, não te ausentes de mim”
(Salmos 38:21). Ao dizer “Não me desampares”, ele mostra que se fosse desamparado, ele
seria incapaz por si mesmo de fazer qualquer coisa boa. Portanto, ele também diz: “Dizia
eu em minha prosperidade: jamais serei abalado”, (Salmos 30:6), pois pensava que ele
tinha uma tal abundância do bem para chamar de sua, que ele não seria abalado. Mas, a
fim de que ele pudesse ser ensinado sobre a quem aquilo pertencia, aquele bem do qual
havia começado a se vangloriar como se fosse seu próprio, ele foi advertido pela deserção
gradual da graça de Deus; e ele diz: “Tu, Senhor, por teu favor fizeste permanecer forte a
minha montanha; apenas voltaste o rosto, fiquei logo conturbado”. Assim, é necessário que
um homem seja não só justificado pela graça de Deus quando injusto, isto é, ser
transformado de ímpio para justo, quando lhe é pago bem para o seu mal; mas que, mesmo
depois que ele se torna justificado pela fé, a graça deve acompanhá-lo em seu caminho, e
ele deve descansar nela, para que não caia. Relativamente a isto está escrito a respeito da
própria Igreja no livro dos Cânticos: “Quem é esta que sobe do deserto, e vem encostada
ao seu amado?” (Cânticos 8:5). Ela é feita alva, pois por si só não poderia ser branca. E
por quem ela teria sido feita alva, exceto por aquele que diz pelo profeta: “Ainda que os
vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve”? (Isaías
1:18). No momento depois que ela foi feita alva, ela não merecia nada de bom; mas agora
que ela é feita alva, ela anda bem; mas é só por ela continuar a sempre descansar nAquele
por quem ela foi feita alva. Por isso, o próprio Jesus, em quem ela descansa para ser feita
alva, disse aos Seus discípulos: “Sem mim nada podeis fazer” (João 15:5).

CAPÍTULO 14

Paulo primeiro recebeu a graça para que ele pudesse ganhar a coroa.

Voltemos agora ao Apóstolo Paulo, que, como descobrimos, obteve a graça de Deus,
que paga o bem pelo mal, que é sem quaisquer méritos de si próprio, mas sim com muitos
deméritos. Vamos ver o que ele diz quando seus sofrimentos finais foram se aproximando.
Escrevendo a Timóteo: “Quanto a mim, estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da
minha partida é chegado. Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé” (2
Timóteo 4:6-7). Ele enumera estes, naturalmente, como seus méritos; de modo que, assim
como ele obteve a graça após seus deméritos, então agora, depois de seus méritos, ele

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poderá receber a coroa. Observe, portanto, o que se segue: “Já agora a coroa da Justiça
me está guardada”, diz ele, “a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia” (2 Timóteo
4:8). Agora, a quem deve o justo Juiz premiar com a coroa, exceto àquele a quem o Pai
misericordioso havia concedido a graça? E como poderia ela ser uma coroa “da justiça”, a
menos que a graça a houvesse precedido, a qual “justifica o ímpio” (Romanos 4:5)? Além
disso, como poderiam essas coisas agora ser premiadas como dívida, a menos que a outra
antes não tivesse sido dada como um livre dom?

CAPÍTULO 15

Os Pelagianos professam que a única graça que não é dada de acordo com nossos
méritos, é o perdão de pecados.

Os Pelagianos dizem que a única graça que não é dada de acordo com os nossos
méritos, é aquela graça pela qual os pecados dos homens são perdoados; mas essa graça
que é dada no final, isto é, a vida eterna, é concedida de acordo com os nossos méritos
precedentes. Isto não pode passar sem uma resposta. Se, de fato, assim entendem nossos
méritos como a reconhecer que eles sejam também dons de Deus, então a sua opinião não
merece reprovação. Mas na medida em que pregam os méritos humanos como a declarar
que um homem os tem de si mesmo, em seguida, com exatidão o apóstolo responde: “Pois
quem é que te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste,
por que te vanglorias, como se não o tiveras recebido?” (1 Coríntios 4:7). Para um homem
que possui tais pontos de vista, é perfeitamente verdade dizer que são os próprios dons
Divinos que Deus coroa, e não seus méritos — ao menos, se os seus méritos são de si
mesmo, e não de Deus. Se, de fato, eles são tais méritos, eles são deméritos 8, e Deus não
os coroa; mas se eles são bons, então eles são dons de Deus, porque, como diz o Apóstolo
Tiago: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes”
(Tiago 1:17). De acordo com isto, João Batista, precursor do Senhor, também declara: “o
homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada” (João 3:27) — do céu,
claro, porque o Espírito Santo também veio de lá, quando Jesus subiu às alturas, levou
cativo o cativeiro, e deu dons aos homens (Efésios 4:8). Se, então, seus méritos são dons

8São obras más, porque estão contaminadas pela corrupção remanescente de nossa carne. Romanos 7:18:
Porque eu sei que em mim (isto é, na minha carne) não habita bem algum; com efeito o querer está em mim,
mas quanto ao fazer o que é bom, isso não faço.

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de Deus, Deus não coroa os seus méritos como seus méritos, mas como Seus próprios
dons.

CAPÍTULO 16

Paulo lutou, mas Deus deu a vitória: ele correu, mas Deus usou de misericórdia.

Vamos, portanto, considerar esses mesmos méritos do Apóstolo Paulo, que disse que
o Justo Juiz iria recompensar com a coroa da justiça; e vamos ver se esses méritos eram
propriamente seus, quero dizer, se eles foram obtidos por ele de si mesmo, ou se foram os
dons de Deus. “Eu lutei”, diz ele, “o bom combate; completei a carreira, guardei a fé” (2
Timóteo 4:7). Agora, em primeiro lugar, estas boas obras não eram nada, a não ser que
tenham sido precedidas por bons pensamentos. Observe, portanto, o que ele diz sobre
esses mesmos pensamentos. Suas palavras ao escrever aos Coríntios são: “Não que
sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa
capacidade vem de Deus” (2 Coríntios 3:5). Então, vamos olhar para cada mérito
singularmente. “Combati o bom combate”. Bem, agora, eu quero saber por meio de qual
poder ele lutou. Foi por um poder que ele possuía de si mesmo, ou pela força dada a ele
desde o alto? É impossível supor que tão grande mestre como o apóstolo fosse ignorante
da lei de Deus, que proclama o seguinte em Deuteronômio: “Para não suceder que... digas
no teu coração: A minha força, e a fortaleza da minha mão, me adquiriu este poder. Antes
te lembrarás do Senhor teu Deus, que ele é o que te dá força para adquirires riqueza”
(Deuteronômio 8:12, 17-18). E que proveito tem “o bom combate”, a menos que seja
seguido pela vitória? E quem dá a vitória, além dAquele de quem o apóstolo diz: “Graças a
Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Coríntios 15:57).
Depois, em outra passagem, depois de ter citado estas palavras do Salmo: “Porque por sua
causa somos entregues à morte o dia todo; fomos considerados como ovelhas para o
matadouro” (Salmos 44:22) ele passou a declarar: “Mas em todas estas coisas somos mais
do que vencedores, por meio daquele que nos amou” (Romanos 8:37). Portanto, a vitória
não é concluída por nós mesmos, mas por Aquele que nos amou. Na segunda frase, ele
diz, “Eu completei a carreira” (2 Timóteo 4:7). Agora, quem é que diz isso, se não aquele
que declara em outra passagem: “Assim, pois, não depende do que quer, nem daquele que
corre, mas de Deus que usa de misericórdia” (Romanos 9:16). E esta sentença de modo
algum pode ser transposta, de modo a dizer: Não é de Deus, que demonstra misericórdia,
mas do homem que quer e acontece. Se alguma pessoa é ousada o suficiente para

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expressar a questão dessa forma, ela mui claramente mostra-se em desacordo com o
apóstolo.

CAPÍTULO 17

A fé que ele guardou era o dom gratuito de Deus.

Sua última frase segue assim: “Eu guardei a fé” (2 Timóteo 4:7). Mas aquele que diz
isso é o mesmo que declara em outra passagem, “como quem tem alcançado misericórdia
do Senhor para ser fiel” (1 Coríntios 7:25). Ele não diz “Eu alcancei misericórdia, porque eu
era fiel”, mas “para ser fiel”, mostrando assim que até mesmo a própria fé não pode ser
possuída sem a misericórdia de Deus, e que ela é o dom Deus. Isso ele expressamente
nos ensina quando diz: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de
vós; é dom de Deus” (Efésios 2:8). Eles podem possivelmente dizer: “Nós recebemos a
graça porque acreditamos”, como se eles atribuíssem a fé a si mesmos, e [atribuíssem]
graça a Deus. Por isso, o apóstolo, tendo dito: “Vocês são salvos por meio da fé”,
acrescentou, “e isto não vem de vós, mas é dom de Deus”. E mais uma vez, para que eles
não dissessem que mereceram tão grande dom por meio de suas obras, ele imediatamente
acrescentou: “Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:9). Não é que ele
tenha negado boas obras, ou esvaziado-as do seu valor, quando ele diz que “Deus
recompensa a cada um segundo as suas obras” (Romanos 2:6), mas é porque obras
procedem da fé, e não a fé de obras. Por isso, é dEle que temos obras de justiça, de quem
também vem a própria fé, sobre o que está escrito: “O justo viverá pela fé” (Habacuque
2:4).

CAPÍTULO 18

Fé sem as boas obras não é suficiente para salvação.

No entanto, as pessoas pouco inteligentes, no que diz respeito à declaração do


apóstolo: “Concluímos que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei” (Romanos
3:28) pensaram que ele quis dizer que a fé é suficiente para um homem, mesmo que ele
leve uma vida reprovável, e não tenha boas obras. É impossível que tal personagem deva
ser considerada “um vaso de eleição” pelo apóstolo que, depois de declarar que “em Cristo

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Jesus nem a circuncisão aproveita nada, nem a incircuncisão”, acrescenta imediatamente:


“mas a fé que opera pelo amor” (Gálatas 5:6). É essa fé que separa os fiéis a Deus dos
imundos demônios, pois mesmo esses demônios “creem e estremecem” (Tiago 2:19), como
diz o Apóstolo Tiago; mas eles não “fazem bem”. Deste modo, eles não possuem a fé pela
qual o justo vive, a fé que opera pelo amor de tal maneira que Deus recompensa com a
vida eterna, de acordo com as suas obras. Mas na medida em que temos até mesmo
nossas boas obras de Deus, de quem vêm do mesmo modo a nossa fé e o nosso amor,
assim, o mesmíssimo grande mestre dos gentios designou “vida eterna” como o gracioso
“dom” de Deus.

CAPÍTULO 19

Como a vida eterna é tanto a recompensa pelo serviço,


e um dom gratuito da graça?

E daí surge uma questão não pequena que deve ser resolvida pelo dom do Senhor.
A vida eterna é concedida por boas obras, como a Escritura declara abertamente: “Então,
Ele dará a cada um segundo as suas obras” (Mateus 16:27). Se assim for, então como pode
a vida eterna ser uma questão de graça, vendo que a graça não é concedida pelas obras,
mas é dada gratuitamente, como o próprio apóstolo nos diz: “Ao que trabalha, o salário não
é contado de graça, mas segundo a dívida” (Romanos 4:4) e outra vez: “Há um remanes-
cente salvo de acordo com a eleição de graça”, com estas palavras imediatamente afirma:”
E se de graça, já não é mais pelas obras; contrário, a graça já não é graça” (Romanos 11:5-
6). Como, então, é a vida eterna obtida pela graça, se é recebida pelas obras? Será que
talvez o apóstolo não disse que a vida eterna é uma graça? Não, ele assim a chamou, com
uma clareza que talvez ninguém possa disputar. Não requer-se inteligência perspicaz, mas
apenas um leitor atento, para se descobrir isso. Pois, depois de dizer: “O salário do pecado
é a morte”, ele imediatamente acrescentou, “mas a graça [ou dom] de Deus é a vida eterna
em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 6:23).

CAPÍTULO 20

A pergunta respondida: justificação é graça simplesmente e inteiramente; a vida


eterna é recompensa e graça.

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Esta questão, então, parece-me ser de modo algum passível de solução, a menos que
entendamos que mesmo as nossas boas obras, que são recompensadas com a vida eterna,
pertencem à graça de Deus, por causa do que é dito pelo Senhor Jesus: “Sem mim nada
podeis fazer” (João 15:5). E o apóstolo mesmo disse: “Porque pela graça sois salvos,
mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que
ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9). Ele viu, é claro, a possibilidade de que os homens
pensariam a partir dessa declaração que as boas obras não são necessárias para os que
creem, mas que somente a fé é suficiente para eles; e novamente, ele viu a possibilidade
dos homens se gabarem de suas boas obras, como se fossem capazes de executá-las a
partir de si mesmos. Portanto, para se opor a essas opiniões de ambos os lados, ele
imediatamente acrescentou: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas
obras, as quais Deus antes ordenado que andássemos nelas” (Efésios 2:10). Qual é o
significado9 do que diz: “Não vem das obras, para que ninguém se glorie”, enquanto exalta
a graça de Deus? E então por que ele depois, ao dar uma razão para usar tais palavras,
diz: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras”? Por que, então,
segue-se, “Não vem das obras, para que ninguém se glorie”?

Agora, ouça e entenda: “Não vem das obras” é dito sobre as obras que você acha que
têm a sua origem somente em si mesmo; mas você precisa pensar em obras para as quais
Deus tem preparou você (ou seja, formou e criou você). Pois sobre elas, ele diz: “Nós somos
feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras”. Agora ele não fala aqui da criação
que nos fez seres humanos; mas ele fala disso em referência ao que disse alguém que já
estava em plena maturidade, “Cria em mim um coração puro, ó Deus” (Salmos 51:10).
Quanto a isso, o apóstolo também diz: “Portanto, se alguém está em Cristo, ele é uma nova
criatura; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”, e “todas as coisas são de
Deus” (2 Coríntios 5:17-18). Fomos, portanto, concebidos (isto é, formados e criados), “nas
boas obras que” nós mesmos não preparamos, mas que “Deus de antemão preparou para
que andássemos nelas”. Segue-se então, amados, além de qualquer dúvida, que, como a
sua vida benigna não é nada mais do que a graça de Deus, assim também a vida eterna -
que é a recompensa de uma boa vida é nada mais do que a graça de Deus; além disso, ela
[a vida eterna] é dada gratuitamente, até mesmo como aquela [boa vida] é dada
gratuitamente, pela qual [a vida eterna] é dada. Mas aquilo pelo qual isso é dado é única e
simplesmente por graça. Esta, portanto, é também aquela que é dada, porque ela é a sua

9São obras más, porque estão contaminadas pela corrupção remanescente de nossa carne. Romanos 7:18:
Porque eu sei que em mim (isto é, na minha carne) não habita bem algum; com efeito o querer está em mim,
mas quanto ao fazer o que é bom, isso não faço.

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própria recompensa: graça é sobre graça, como se fosse remuneração pela justiça; a fim
de que possa ser verdade, porque é verdade que Deus “retribuirá a cada um segundo as
suas obras”.

CAPÍTULO 21

A vida eterna é “graça sobre graça”.

Talvez você pergunte se alguma vez lemos nas Sagradas Escrituras sobre “graça
sobre graça”. Bem, vocês possuem o Evangelho segundo João, que é perfeitamente claro
na sua grande luz. Aqui João Batista diz de Cristo: “De sua plenitude todos nós recebemos,
mesmo graça sobre graça” (João 1:16). Assim da sua plenitude recebemos, de acordo com
nossa humilde medida, as nossas porções de capacidade, por assim dizer, para levar boa
vida, “de acordo como Deus repartiu a cada um a sua medida da fé” (Romanos 12:3),
porque “todo homem tem seu próprio dom de Deus; um de uma maneira e outro de outra”
(1 Coríntios 7:7). E isso é graça. Mas, além disso, vamos também receber “graça sobre
graça” quando tivermos a vida eterna concedida a nós, de que o apóstolo disse: “A graça
de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Romanos 6:23) — tendo acabado
de dizer que “o salário do pecado é a morte”. Ele apropriadamente chamou de “salário”,
porque a morte eterna é premiada como o seu correto débito pelo serviço diabólico. Agora,
quando estava em seu poder dizer, e dizer com razão: “Mas o salário de justiça é a vida
eterna”, ele, no entanto, preferiu dizer: “A graça de Deus é a vida eterna”. Ele fez isso para
que nós pudéssemos entender a partir disso que Deus, não por qualquer mérito nosso, mas
a partir de Sua própria compaixão Divina, estende a nossa existência à vida eterna, mesmo
como diz o salmista à sua alma: “Quem te coroa de misericórdia e compaixão” (Salmos
103:4). Bem, agora, não é uma coroa dada como recompensa por boas ações? No entanto,
é só porque Ele opera boas obras em bons homens, de quem se diz: “É Deus quem efetua
em vós tanto o querer e o efetuar segundo a Sua boa vontade” (Filipenses 2:13), que o
Salmo tem isso como acabou de ser citado: “Ele te coroa com misericórdia e compaixão”,
uma vez que é através da Sua misericórdia que realizamos as boas ações pelas quais a
coroa é concedida. No entanto, não deve-se supor, por um momento, por ele ter dito: “É
Deus quem efetua em vós tanto o querer e fazer a sua própria boa vontade”, que a liberdade
da vontade é tirada. Se isso de fato tivesse sido o seu significado, ele não teria dito pouco
antes, “operai a vossa salvação com temor e tremor” (Filipenses 2:12). Porque, quando é
dada a ordem “operai”, sua liberdade da vontade é convocada; e quando é adicionado,

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“com temor e tremor”, eles são advertidos contra vangloriarem-se de suas boas ações como
se fossem de si mesmos, atribuindo a si o desempenho de qualquer coisa boa. É
praticamente como se o apóstolo tivesse a seguinte questão colocada: “Por que você usa
a frase, ‘com temor e tremor’”? E é como se ele respondesse à pergunta de seus
examinadores, dizendo-lhes: “Porque Deus é quem efetua em vós”. Porque se você temer
e tremer, então você não se orgulha de suas boas obras como se fossem suas, uma vez
que Deus é quem as efetua em você.

CAPÍTULO 22

Quem é o transgressor da lei? Antiguidade da sua carta; a novidade do seu espírito.

Portanto, irmãos, por liberdade da vontade vocês não devem fazer o mal, mas o bem;
esta é de fato a lição ensinada a nós na lei de Deus nas Sagradas Escrituras, tanto Antigo
e Novo [testamentos]. Vamos, no entanto, ler, e com a ajuda do Senhor entender, o que o
apóstolo nos diz: “Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei,
porque pela lei vem o conhecimento do pecado” (Romanos 3:20). Observe, ele diz “ o
conhecimento”, não “a destruição”, do pecado. Mas quando um homem conhece o pecado,
e graça não o ajuda a evitar o que ele conhece, sem dúvida, a lei opera a ira. E o apóstolo
diz explicitamente isso em outra passagem. Suas palavras são: “A lei opera a ira” (Romanos
4:15). A razão para esta afirmação está no fato de que a ira de Deus é maior no caso do
transgressor que pela lei conhece o pecado, e ainda assim o comete; tal homem é, portanto,
um transgressor da lei, como diz o apóstolo em outra frase: “Porque onde não há lei, não
há transgressão” (Romanos 4:15). É de acordo com este princípio que ele diz em outro
lugar: “sirvamos em novidade de espírito, e não na caducidade da letra” (Romanos 7:6),
desejando que a lei deve ser entendida aqui pela “caducidade da letra”, e o que mais é para
ser entendido por “novidade de espírito”, senão a graça?

Então, para que não pudesse ser pensado que ele havia trazido alguma acusação ou
sugerido alguma culpa contra a lei, ele imediatamente repreende este inquérito: “Que
diremos, pois? É a lei pecado? De modo nenhum”. Ele, então, acrescenta a declaração:
“Mas eu não conheci o pecado senão pela lei” (Romanos 7:6-7), que tem o mesmo sentido
que a passagem citada acima:” Pela lei vem o pleno conhecimento do pecado”, em seguida,
“porque eu não conheceria a concupiscência”, diz ele, “se a lei não dissesse: Não
cobiçarás”. Mas o pecado, tomando ocasião no mandamento, operou em mim todo modo

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de concupiscência. Pois, sem a lei, o pecado estava morto. Porque eu vivi sem a lei uma
vez; mas quando veio o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri. E o mandamento, que
fora ordenado para a vida, eu encontrei para ser a morte. Porque o pecado, tomando
ocasião, pelo mandamento me enganou, e por ele me matou. Portanto, a lei é santa; e o
mandamento é santo, justo e bom. Foi, então, que o que é bom feito morte para mim? Deus
me livre! Mas o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte por aquilo
que é bom, de modo que o pecador, ou o pecado, pode tornar-se pelo mandamento além
da medida” (Romanos 7:7-13). E aos Gálatas ele escreve: “Sabendo que o homem não é
justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus
Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas
obras da lei nenhuma carne será justificada” (Gálatas 2:16).

CAPÍTULO 23

Os Pelagianos sustentam que a lei é a graça de Deus que nos ajuda a não pecar.

Por que, então, esses vãos e perversos Pelagianos dizem que a lei é a graça de Deus,
pela qual somos ajudados a não pecar? Será que eles, ao fazer tal alegação, infelizmente
e sem qualquer dúvida não contradizem o grande apóstolo? Ele diz na verdade que, pela
lei, o pecado recebeu força contra o homem; e que o homem, pelo mandamento, embora
seja o mandamento santo, justo e bom, no entanto, morre; e que a morte opera nele através
daquilo que é bom; não há libertação dessa morte, a menos que o Espírito o vivifique, a
quem a letra havia matado. Como ele diz em outra passagem: “A letra mata, mas o Espírito
vivifica” (2 Coríntios 3:6). E ainda assim essas pessoas obstinadas, cegas para a luz de
Deus e surdas para Sua voz, sustentam que a letra que mata dá a vida, e, portanto, eles
contestam o Espírito vivificante. “Portanto, irmãos” (para que eu possa avisá-los com melhor
efeito pelas palavras do próprio apóstolo), “somos devedores não à carne para viver
segundo a carne; para se viver segundo a carne morrereis; mas se você, por meio do
Espírito, mortificar as obras do corpo, vivereis” (Romanos 8:12-13). Eu já disse isso para
dissuadir do mal a sua liberdade da vontade, e exortá-los ao bem pelas palavras
apostólicas. No entanto, vocês não devem, portanto, gloriarem-se no homem, ou seja, em
si mesmos, ao invés de no Senhor, quando vocês não vivem segundo a carne, mas pelo
Espírito devem mortificam as obras da carne. Pois, para que aqueles a quem o apóstolo
endereçou esta linguagem pudessem não exaltarem a si mesmos, pensando que fossem
capazes de fazer tais boas obras por seu próprio espírito, e não pelo Espírito de Deus,

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depois de dizer-lhes: “Se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis”, ele
imediatamente acrescentou: “Pois, todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses
são filhos de Deus” (Romanos 8:14). Portanto, quando você mortificar a obras da carne
pelo Espírito — para que vocês possam ter vida — glorifiquem-nO, louvem-nO, deem
graças Àquele por cujo Espírito vocês estão sendo conduzidos a serem capazes de fazer
essas coisas que mostram serem os filhos de Deus; “Pois todos os que são guiados pelo
Espírito de Deus, esses são filhos de Deus”.

CAPÍTULO 24

Aqueles que desejam estabelecer sua justiça própria: “a justiça de Deus” é o que o
homem tem de Deus.

Como muitos, portanto, que são guiados pelo seu próprio espírito, confiando em sua
própria força, com a mera adição da assistência da lei, sem a ajuda da graça, não são os
filhos de Deus. Eles são aqueles de quem o mesmo apóstolo fala como, “porquanto, não
conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se
sujeitaram à justiça de Deus” (Romanos 10:3). Ele disse isso dos judeus, que em sua
presunção rejeitaram a graça, e, portanto, não creram em Cristo. Na verdade, eles desejam
estabelecer a sua própria justiça, diz ele; e esta é a justiça da lei — não que a lei foi criada
por eles, mas que eles haviam constituído sua justiça na lei que é de Deus. [Eles fizeram
isso] quando eles supuseram-se capazes de cumprir essa lei por sua própria força,
ignorantes da justiça de Deus — não de fato aquela lei pela qual Deus é Ele mesmo justo,
mas aquela que o homem tem de Deus. E assim, para que você possa saber que ele
designou como deles a justiça que vem da lei, e, como de Deus a que o homem recebe de
Deus, ouça o que ele diz em outra passagem, quando fala de Cristo: “Segundo o zelo,
perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim
era ganho reputei-o perda por Cristo E, na verdade, tenho também por perda todas as
coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a
perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo,
E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em
Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé” (Filipenses 3:6-9).

Agora, o que ele quer dizer com “não tendo a minha justiça que vem da lei”, quando a
lei não é realmente sua, mas de Deus? É apenas isso: ele chamou de sua própria justiça,

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embora fosse da lei, porque ele pensou que poderia cumprir a lei por sua própria vontade,
sem o auxílio da graça que vem pela fé em Cristo. É por isso que, depois de dizer, “ não
tendo a minha justiça que vem da lei”, ele imediatamente diz, “mas a que vem pela fé em
Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé”. Isto é o que eles ignoravam, aqueles
de quem ele diz, “não conhecendo a justiça de Deus”, ou seja, eles eram ignorantes da
justiça que é de Deus, pois não é dada pela letra que mata, mas pelo Espírito que dá vida.
“E que pretenda estabelecer a sua própria justiça”, que ele expressamente descreveu como
a justiça da lei, quando disse: “ não tendo a minha justiça que vem da lei”, eles não estavam
sujeitos à justiça de Deus. Em outras palavras, eles não se submeteram à graça de Deus.
Pois, eles estavam sob a lei, e não sob a graça, e, portanto, o pecado tinha domínio sobre
eles, do qual um homem não é libertado pela lei, mas pela graça. Nesta consideração, ele
diz em outro lugar: “Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo
da lei, mas debaixo da graça” (Romanos 6:14), não que a lei seja má, mas porque eles
estão sob seu poder, o que os faz culpados, por impor mandamentos, não por auxiliar 10. É
pela graça que alguém é um cumpridor da lei; e sem esta graça, aquele que é colocado sob
a lei será apenas um ouvinte da lei (Tiago 1:23-25). Para essas pessoas, ele dirige estas
palavras: “Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes
caído” (Gálatas 5:4).

APÍTULO 25

A lei não é a graça pela qual somos Cristãos, nem é nossa própria natureza.

Agora, quem pode ser tão insensível às palavras do apóstolo, de modo insensato,
não, tão insanamente ignorante do significado de sua declaração, como para se aventurar
a afirmar que a lei é graça, quando aquele que sabia muito bem o que estava dizendo
declara enfaticamente: “vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído”. Bem, se
a lei não é graça — vendo que a fim de que a própria lei seja mantida, não é a lei, mas
somente graça que pode ajudar — não será a nossa natureza, de qualquer maneira, graça?
Para isso também os Pelagianos foram ousados o suficiente para afirmar: que a graça é a
natureza em que fomos criados de forma a possuir uma mente racional pela qual somos
capacitados a entender, formados como somos à imagem de Deus, de modo a termos
“domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja

10 Em outras palavras, se a lei poderia ajudá-los a obedecer à lei, então seria de graça, e não da lei.

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sobre a terra” (Gênesis 1:28). Essa, no entanto, não é a graça que o apóstolo recomenda
a nós através da fé em Jesus Cristo. Pois, é certo que possuímos esta natureza em comum
com os homens ímpios e incrédulos; ao passo que a graça que vem mediante a fé em Jesus
Cristo pertence somente àqueles a quem pertence a própria fé. “Para todos os homens não
têm fé” (2 Tessalonicenses 3:2). Ora, o apóstolo diz com perfeita verdade àqueles que por
desejarem ser justificados pela lei decaíram da graça: “Se a justiça vem mediante a lei, logo
Cristo morreu em vão” (Gálatas 2:21). Assim também, para aqueles que pensam que a
graça que ele recomenda, e que a fé em Cristo recebe, é a natureza, ele pode usar a mesma
linguagem, com o mesmo grau de verdade aplicável: se a justiça vem da natureza, então
Cristo morreu em vão. Mas a lei já existia naquele momento, e ela não justificou; e natureza
existia também, mas ela não justificou. Não foi, portanto, em vão que Cristo morreu, para
que a lei pudesse ser cumprida por meio dAquele que disse: “Eu não vim destruir a lei, mas
para cumpri-la” (Mateus 5:17) e para que a nossa natureza, que se perdeu em Adão,
pudesse ser recuperada por meio dAquele que disse que “veio buscar e salvar o que estava
perdido” (Lucas 19:10), em cuja vinda os antigos patriarcas que amavam a Deus igualmente
creram.

CAPÍTULO 26

Pelagianos argumentam que a graça, que não é nem a lei, nem a nossa natureza, é
útil somente para perdoar pecados passados, e não para prevenir os futuros.

Eles também sustentam que a graça de Deus, que é dada pela fé em Jesus Cristo, e
que não é nem a lei nem a natureza, é útil apenas para a remissão dos pecados que foram
cometidos, e não para prevenir pecados futuros, ou a subjugação daqueles que agora estão
nos atacando. Agora, se tudo isso fosse verdade, certamente depois de oferecer a petição
da Oração do Senhor: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos
nossos devedores”, dificilmente poderíamos dizer: “E não nos deixeis cair em tentação”
(Mateus 6:12-13). Apresentamos a primeira petição para que os nossos pecados sejam
perdoados; apresentamos a última a fim de que possam ser evitados ou subjugados; este
é um favor que nós de modo algum imploraríamos ao nosso Pai que está nos céus, se
fôssemos capazes de realizá-lo pela força da nossa vontade humana. Agora eu recomendo
fortemente e sinceramente exijo o seu amor para ler com atenção o livro que o bem-
aventurado Cipriano escreveu, “Sobre a Oração do Senhor”. Na medida que o Senhor vos
ajudar, compreendam-no e guardem-no na memória. Nesta obra vocês verão como ele

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tanto apela à liberdade da vontade daqueles a quem ele edifica neste tratado, quanto
mostra-lhes que tudo o que precisam para cumprir a lei, eles devem pedir em oração. Mas
isso, claro, seria totalmente vão se a vontade humana fosse suficiente para realizá-las sem
a ajuda de Deus.

CAPÍTULO 27

A graça age sobre o cumprimento da lei, a libertação da natureza, e a supressão do


domínio do pecado.

Foi, no entanto, demonstrado que, em vez de realmente manter a liberdade da


vontade, eles só inflaram uma teoria que, não tendo estabilidade, caiu no chão. Nem o
conhecimento da lei de Deus, nem a natureza, nem a mera remissão dos pecados, são a
graça que a nos é dada por nosso Senhor Jesus Cristo; mas é essa mesma graça que
realiza o cumprimento da lei, e a libertação da natureza, e a remoção do domínio do pecado.
Estando, portanto, condenados por esses pontos, eles recorrem a outro recurso, e se
esforçam para mostrar de uma maneira ou outra que a graça de Deus nos é dada de acordo
com os nossos méritos. Porque eles dizem: “Admitido que não nos é dada de acordo com
os méritos de boas obras, na medida em que é através de [graça] que fazemos qualquer
coisa boa; ainda assim, é dada a nós de acordo com os méritos de uma boa vontade; pois,
dizem eles, ‘a boa vontade de quem ora precede a oração, assim como a vontade do crente
precedeu a sua fé; de modo que de acordo com esses méritos, a graça do Deus que ouve,
segue-se”.

CAPÍTULO 28

A fé é dom de Deus.

Já discuti o ponto concernente à fé, ou seja, concernente à vontade de quem crê,


mesmo até o ponto de mostrar que se refere à graça, de modo que o apóstolo não nos
disse: “Eu alcancei misericórdia, porque eu era fiel”, mas ele disse: “como quem tem
alcançado misericórdia do Senhor para ser fiel” (1 Coríntios 7:25). E há muitas outras
passagens de semelhante significado, entre elas aquela em que ele nos convida a “pense
com moderação, conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um” (Romanos 12:3)

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e aquela que eu já citei: “Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é
dom de Deus” (Efésios 2:8), e novamente outra na mesma Epístola aos Efésios: “Paz seja
com os irmãos, e amor com fé, da parte de Deus Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (Efésios
6:23) e para o mesmo efeito, aquela passagem em que ele diz: “Porque a vós vos foi
concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele”
(Filipenses 1:29). Ambas são igualmente, portanto, vindas da graça de Deus, a fé daqueles
que creem e a paciência daqueles que sofrem, porque o apóstolo falou das duas como
concedidas. Então, novamente, há a passagem, especialmente notável, em que ele diz:
“Ora, temos o mesmo espírito de fé” (2 Coríntios 4:13), pois sua frase não é “o
conhecimento da fé”, mas “o espírito de fé”, e ele se expressou desta forma a fim de que
pudéssemos entender como essa fé é dada a nós, mesmo quando ela não é buscada, para
que outras bênçãos possam ser concedidas, ao seu pedido. Pois, “como”, diz ele, “clamarão
a aquele em quem não creram?” (Romanos 10:14). O espírito da graça, portanto, faz com
que tenhamos fé, a fim de que pela fé nós possamos, ao orar por graça, obter a capacidade
de fazer o que somos ordenados. Nesta consideração, o próprio apóstolo constantemente
coloca a fé antes da lei, uma vez que não somos capazes de fazer o que a lei ordena, a
menos que obtenhamos a força para fazê-lo pela oração da fé.

CAPÍTULO 29

Deus é capaz de converter vontades opostas, e tirar do coração a sua dureza.

Agora, se a fé é simplesmente a partir da liberdade da vontade, e não é dada por


Deus, então por que nós oramos por aqueles que não creram, para que creiam? Seria
absolutamente inútil fazer isso a menos que acreditemos, com perfeita propriedade, que o
Deus Todo-Poderoso é capaz de levar à crença aquelas vontades que são perversas e
contrárias à fé. A liberdade da vontade do homem é evocada quando se diz: “Hoje, se
ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações” (Hebreus 3:15). Mas se Deus não
fosse capaz de remover do coração humano mesmo a sua obstinação e dureza, então Ele
não diria através do profeta: “Eu vou tirar-lhes o coração de pedra e lhes darei um coração
de carne” (Ezequiel 11:19). Que tudo isso fora predito em referência ao Novo Testamento
é mostrado de forma suficientemente clara pelo apóstolo quando ele diz: “Vós sois a nossa
carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens. Porque já é
manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas
com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração”

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(2 Coríntios 3:2-3). Não devemos, naturalmente, supor que uma frase como esta é usada
como se aqueles que devem viver espiritualmente pudessem viver de uma maneira carnal.
Mas na medida em que uma pedra não tem sentimento — ao que o coração duro do homem
é comparado — o que haveria sobrado para Ele comparar o coração inteligente do homem,
senão à carne, a qual possui sentimento? Pois, isso é o que é dito pelo profeta Ezequiel:
“E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o
coração de pedra, e lhes darei um coração de carne; para que andem nos meus estatutos,
e guardem os meus juízos, e os cumpram; e eles me serão por povo, e eu lhes serei por
Deus” (Ezequiel 11:19-20). Agora, será que possivelmente podemos manter (sem extremo
absurdo) que existia anteriormente em qualquer homem o bom mérito de uma boa vontade,
para dar-lhe direito à remoção de seu coração de pedra, quando ao mesmo tempo esse
coração de pedra significa nada mais do que um desejo do tipo mais difícil, e de tal forma
que é absolutamente inflexível contra Deus? Pois, onde uma boa vontade precede, não há
mais, naturalmente, um coração de pedra.

CAPÍTULO 30

A graça pela qual o coração de pedra é removido não é precedido por bons méritos,
mas pelos maus.

Em outra passagem, também, pelo mesmo profeta [Ezequiel], Deus, na linguagem


mais clara, mostra-nos que não é devido a qualquer bom mérito por parte dos homens,
mas, por causa de Seu próprio nome, que Ele faz essas coisas. Esta é a sua linguagem:
“Dize portanto à casa de Israel: Assim diz o Senhor DEUS: Não é por respeito a vós que eu
faço isto, ó casa de Israel, mas pelo meu santo nome, que profanastes entre as nações
para onde fostes. E eu santificarei o meu grande nome, que foi profanado entre os gentios,
o qual profanastes no meio deles; e os gentios saberão que eu sou o SENHOR, diz o
Senhor DEUS, quando eu for santificado aos seus olhos. E vos tomarei dentre os gentios,
e vos congregarei de todas as terras, e vos trarei para a vossa terra. Então aspergirei água
pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos
ídolos vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo;
e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei
dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus
juízos, e os observeis” (Ezequiel 36:22-27). Agora quem é tão cego para não ver, e que é
tão duro como pedra para não sentir, que esta graça não é dada de acordo com o mérito

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de uma boa vontade, quando o Senhor declara e testifica “ Não é por respeito a vós que eu
faço isto, ó casa de Israel, mas pelo meu santo nome”? Agora, por que Ele disse “Eu faço
isto... pelo meu santo nome”, se não fosse para que eles não devessem pensar que era
devido aos seus próprios bons méritos que essas coisas estavam acontecendo, como os
Pelagianos não hesitam em dizer despudoradamente? Mas não havia só ausência de bons
méritos deles, mas o Senhor mostra que os maus méritos na verdade precediam; pois Ele
diz: “Mas pelo meu santo nome, que profanastes entre as nações para onde fostes”. Quem
pode deixar de observar quão terrível é o mal de profanar próprio santo nome do Senhor?
E, no entanto, por amor do Meu próprio nome, Ele diz, que tendes profanado, Eu, mesmo
Eu te tornarei bom, mas não por sua própria causa; e como Ele acrescenta “E eu santificarei
o meu grande nome, que foi profanado entre os gentios, o qual profanastes no meio deles”.
Ele diz que Ele santifica Seu nome, que Ele já havia declarado ser santo. Portanto, isto é
exatamente o que nós oramos na Oração do Senhor “Santificado seja o Teu nome”. Nós
pedimos para a santificação entre os homens daquilo que, em si mesmo, é, sem dúvida,
sempre santo. Então, segue-se: “e os gentios saberão que eu sou o SENHOR, diz o Senhor
DEUS, quando eu for santificado aos seus olhos”. Embora Ele próprio seja sempre santo,
Ele é, no entanto, santificado naqueles em quem Ele concede Sua graça: ao remover deles
o coração de pedra com o qual profanaram o nome do Senhor.

CAPÍTULO 31

Liberdade da vontade tem sua função na conversão do coração; mas a graça


também tem sua função.

Para que não se deva pensar, no entanto, que os próprios homens nesta matéria não
fazem nada por liberdade da vontade, é dito no Salmo: “Não endureçais os vossos
corações” (Salmos 95:8) e no próprio [livro de] Ezequiel, “Lançai de vós todas as vossas
transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo;
pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel? Porque não tenho prazer na morte do que
morre, diz o Senhor DEUS; convertei-vos, pois, e vivei” (Ezequiel 18:31-32). Devemos
lembrar que é Ele quem diz: “convertei-vos, pois, e vivei”, a Quem é dito na oração: “Faze-
nos voltar, ó Deus”. Devemos lembrar que Ele diz: “Lançai de vós todas as vossas
transgressões”, quando é ainda Ele quem justifica o ímpio. Devemos lembrar que Ele diz:
“fazei-vos um coração novo e um espírito novo”, e que também promete: “E dar-vos-ei um
coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo” (Ezequiel 36:26). Como é, então,

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que Aquele que diz: “Faça você”, também diz: “Eu te darei”? Por que Ele ordena, se Ele
deve dar? Por que Ele dá, se o homem deve fazer, a menos que seja que Ele dá o que Ele
ordena, enquanto Ele ajuda a obedecer aquele a quem Ele ordena? Há, no entanto, sempre
dentro de nós uma liberdade da vontade, mas nem sempre ela é boa; pois é tanto livre da
justiça quando serve ao pecado, e assim é má; ou então ela está livre do pecado quando
serve à justiça, e assim é boa. Mas a graça de Deus é sempre boa; e por meio dela passa
a acontecer que um homem seja de uma boa vontade, embora ele antes fosse de uma
vontade vil. Por ela também passa a acontecer que a mesma boa vontade que já começou
a existir seja ampliada, e feita tão grande que será capaz de cumprir os mandamentos
Divinos que deseja, uma vez que firme e perfeitamente os deseja. Este é o significado do
que a Escritura diz: “Se quiseres guardar os mandamentos”, de modo que o homem que
quer, mas não é capaz, sabe que ele ainda não quer completamente; e ele ora para que
ele tenha tão grande vontade que possa ser suficiente para cumprir os mandamentos. E,
assim, de fato, ele recebe ajuda para executar aquilo que lhe é ordenado. Logo, a vontade
é útil quando temos capacidade; assim como a capacidade também é útil quando temos a
vontade. Para que nos aproveita se desejamos o que somos incapazes de fazer, ou então
não quisermos o que somos capazes de fazer?

CAPÍTULO 32

Em que sentido é corretamente dito que, se quisermos, poderemos guardar os


mandamentos de Deus.

Os Pelagianos pensam que eles sabem algo grande quando afirmam que “Deus não
ordenaria o que Ele sabia que não poderia ser feito pelo homem”. Quem pode ser ignorante
disto? Mas Deus ordena algumas coisas que não podemos fazer, a fim de que possamos
saber o que devemos pedir a Ele. Pois, isso é a própria fé, que obtém através da oração o
que a lei ordena. De fato, aquele que disse: “Se quiseres guardar os mandamentos”, no
mesmo livro de Eclesiástico depois disse: “Quem porá uma guarda à minha boca, e um selo
inviolável nos meus lábios, para que eu não caia por sua causa, e para que minha língua
não me perca?”. Agora, ele certamente tinha ouvido e recebido estes mandamentos:
“Guarda a tua língua do mal, e os teus lábios de falarem o engano” (Salmos 34:13).
Portanto, então, como o que ele disse é verdade: “Se quiseres guardar os mandamentos”,
por que ele demanda vigilância a ser dada perante sua boca, como quem diz no Salmo: “
Quem porá uma guarda à minha boca”? (Salmo 141:3). Por que ele não está satisfeito com

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o mandamento de Deus e sua própria vontade, uma vez que se tem a vontade, ele deve
guardar os mandamentos? Quantos dos mandamentos de Deus são dirigidos contra o
orgulho! Ele é bastante consciente deles: se ele quer, ele pode cumpri-los. Por que, então,
ele pouco depois diz: “não me deis olhos altivos e preservai-me da cobiça!”. A lei tinha há
muito tempo lhe dito: “Não cobiçarás”? Deixem-no, então, apenas desejar e fazer o que lhe
está disposto, porque se ele tem a vontade, ele deve guardar os mandamentos. Por que,
então, ele mais tarde diz: “Afasta de mim a intemperança”?

Contra a luxúria também, quantos mandamentos Deus ordenou! Deixe um homem


observá-los; porque, se ele quiser, ele pode guardar os mandamentos. Mas, então, o que
quer dizer aquele clamor a Deus, “Que a paixão da volúpia não se apodere de mim”. Agora,
se fosse para colocar esta pergunta a ele pessoalmente, ele muito acertadamente nos
responderia e diria: daquela minha oração, em que eu ofereço esta petição especial a Deus,
vocês podem entender em que sentido eu disse: “Se quiseres guardar os mandamentos”.
Pois é certo que guardamos os mandamentos se quisermos; mas porque a vontade é
preparada pelo Senhor, devemos pedir a Ele por tal força de vontade como o suficiente
para nos fazer agir pela vontade. É certo que somos nós que desejamos, quando
desejamos; mas é Ele quem nos faz querer o que é bom. (Como ele agora acaba de
expressar), “A vontade é preparada pelo Senhor”, é dito sobre o mesmo Senhor, “Os passos
de um homem bom são confirmados pelo Senhor, e deleita-se no seu caminho” (Salmos
37:23). Do mesmo Senhor novamente, é dito: “Porque Deus é o que opera em vós tanto o
querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2:13).

É certo que somos nós que agimos, quando agimos; mas é Ele quem nos faz agir,
através da aplicação de poderes eficazes à nossa vontade. Ele disse: “E porei dentro de
vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os
observeis” (Ezequiel 36:27). Quando Ele diz: “ farei que... guardeis”, o que mais Ele de fato
diz do que, “tirarei de vós o coração de pedra”, do qual surgia a sua incapacidade de agir
“e vos darei um coração de carne” (Ezequiel 36:26), a fim de que vocês possam agir? E a
que esta promessa equivale além desta: tirarei o seu coração duro, a partir do qual você
não agia, e Eu lhe darei um coração obediente, a partir do qual você agirá? É Ele que nos
leva a agir, a quem o humano suplicante diz: “Quem porá uma guarda à minha boca”, ou
seja, faça-me ou permita-me, ó Senhor, vigiar a minha boca — um benefício que ele já tinha
obtido de Deus, que descreveu sua influência desta forma: “guardarei a boca com um freio”
(Salmos 39:1).

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CAPÍTULO 33

A boa vontade pode ser pequena e fraca; uma vontade plena possui uma grande
operação de amor e graça cooperadora.

Aquele, portanto, que deseja cumprir o mandamento de Deus, mas é incapaz, já


possui uma boa vontade, mas ainda é pequena e fraca; no entanto, ele se tornará capaz,
quando ele tiver adquirido uma grande e robusta vontade. Quando os mártires cumpriram
os grandes mandamentos que eles obedeceram, eles agiram por uma grande vontade, isto
é, com grande amor. O próprio Senhor fala deste amor: “Ninguém tem maior amor do que
este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” (João 15:13). Em concordância com
isso, o apóstolo diz: “porque quem ama aos outros cumpriu a lei. Com efeito: Não
adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás; e se há
algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti
mesmo. “O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor”
(Romanos 13:8-10). O apóstolo Pedro ainda não possuía esse amor quando, por medo, ele
três vezes negou o Senhor. No amor não há temor, diz o evangelista João em sua primeira
Epístola, mas o perfeito amor lança fora o temor (1 João 4:18). Contudo, por menor e
imperfeito que tenha sido o amor de Pedro, ele não era totalmente ausente quando ele
disse ao Senhor: “Eu darei a minha vida por amor de ti” (João 13:37), pois ele supôs-se
capaz de realizar o que ele sentiu que estava disposto a fazer. E quem foi que tinha
começado a dar-lhe o seu amor, ainda que pequeno, senão Aquele que prepara a vontade,
e aperfeiçoa pela sua cooperação o que Ele inicia por Sua operação? Porquanto, em
princípio, Ele opera em nós, para que possamos ter a vontade, e no aperfeiçoamento,
trabalha com a gente quando temos a vontade. Por esta razão o apóstolo diz: “Estou
confiante isto mesmo, que aquele que começou a boa obra em vocês, vai completá-la até
o dia de Cristo Jesus.” Phil 1,6 Portanto, Ele opera sem nós, para que possamos querer,
mas quando queremos, e queremos de tal modo que possamos agir, Ele coopera conosco.
No entanto, não podemos fazer nada por nós mesmos para realizar boas obras de piedade
sem Ele, seja trabalhando para que possamos querer, ou cooperando quando nós
queremos. Agora, acerca de Sua obra para que possamos querer, é dito: “É Deus quem
opera em vós o querer” (Filipenses 2:13). Enquanto o apóstolo diz de sua cooperação
conosco, quando queremos e agimos pela vontade, “Sabemos que todas as coisas
cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”. 11 O que essa frase “todas as coisas”

11 Romanos 8:28. O indefinido Latino co-operatur provoca esse modo de uso da passagem.

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significa, se não os sofrimentos terríveis e cruéis que afetam nossa condição? Na verdade,
esse fardo de Cristo, que é pesado pela nossa fraqueza, torna-se leve para o amor. Pois,
o Senhor disse que Seu fardo era leve (Mateus 11:30) para aqueles como Pedro quando
sofreu por Cristo, não como ele era quando O negou.

CAPÍTULO 34

O elogio do Apóstolo ao amor. Correção deve ser administrada com amor.

O apóstolo elogia esta caridade, isto é, esta vontade brilhando com o mais intenso
amor, usando estas palavras: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a
angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está
escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; Somos reputados como ovelhas
para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele
que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem
os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a
profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está
em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 8:35-39). E em outra passagem ele diz:
“Portanto, procurai com zelo os melhores dons; e eu vos mostrarei um caminho mais
excelente. Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor,
seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia,
e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira
tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse
toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para
ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria. O amor é sofredor, é
benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.
Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;
não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo
suporta. O amor nunca falha...” (1 Coríntios 12:31; 13:1-8). E um pouco depois ele diz:
“Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o
amor. Segui o amor...” (1 Coríntios 13:13; 14:1). Ele também diz aos gálatas: Porque vós,
irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis então da liberdade para dar ocasião à
carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor. Porque toda a lei se cumpre numa só
palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Gálatas 5:13-14). Isto tem o
mesmo efeito do que ele escreve aos Romanos, “Aquele que ama o próximo cumpriu a lei”

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(Romanos 13:8). Da mesma forma, ele diz aos Colossenses: “E, sobre tudo isto, revesti-
vos de amor, que é o vínculo da perfeição” (Colossenses 3:14). E a Timóteo ele escreve:
“Ora, o fim do mandamento é o amor”; e ele passa a descrever a qualidade desta graça,
dizendo: “De um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida” (1
Timóteo 1:5). Além disso, quando ele diz aos coríntios: “Que todas as vossas coisas sejam
feitas com amor” (1 Coríntios 16:14), ele mostra claro o suficiente que mesmo aqueles
castigos considerados afiados e amargos por aqueles que são corrigidos por eles, devem
ser administrados com amor. Assim, em outra passagem, depois de dizer: “Rogamo-vos,
também, irmãos, que admoesteis os desordeiros, consoleis os de pouco ânimo, sustenteis
os fracos, e sejais pacientes para com todos”, ele imediatamente acrescentou, “vede que
ninguém dê a outrem mal por mal, mas segui sempre o bem, tanto uns para com os outros,
como para com todos” (1 Tessalonicenses 5:14-15). Portanto, mesmo quando os
insubordinados são corrigidos, não se trata de pagar mal por mal, mas, pelo contrário, bem
por mal. No entanto, o que, além do amor, faz todas estas coisas?

CAPÍTULO 35

Recomendações do amor.

O Apóstolo Pedro da mesma forma, diz, “Mas, sobretudo, tende ardente amor uns
para com os outros; porque o amor cobrirá a multidão de pecados” (1 Pedro 4:8). O apóstolo
Tiago também diz: “Todavia, se cumprirdes, conforme a Escritura, a lei real: Amarás a teu
próximo como a ti mesmo, bem fazeis” (Tiago 2:8). Assim também o apóstolo João diz:
“Aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há escândalo”, e novamente, em outra
passagem, “ Qualquer que não pratica a justiça, e não ama a seu irmão, não é de Deus.
Porque esta é a mensagem que ouvistes desde o princípio: que nos amemos uns aos
outros” (1 João 3:10-11). Então, ele diz novamente: “E o seu mandamento é este: que
creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu
mandamento” (1 João 3:23). Uma vez mais, “E dele temos este mandamento: que quem
ama a Deus, ame também a seu irmão” (1 João 4:21). Então, pouco depois, ele acrescenta:
“Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos
os seus mandamentos. Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus
mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 João 5:2-3). Enquanto, em
sua segunda epístola, está escrito: “E agora, senhora, rogo-te, não como escrevendo-te um

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novo mandamento, mas aquele mesmo que desde o princípio tivemos: que nos amemos
uns aos outros” (2 João 1:5).

CAPÍTULO 36

Amor recomendado pelo próprio Nosso Senhor.

Além disso, o próprio Senhor Jesus nos ensina que toda a lei e os profetas se apoiam
sobre os dois preceitos do amor a Deus e amor ao próximo. Relativamente a estes dois
mandamentos o seguinte está escrito no Evangelho segundo São Marcos: “Aproximou-se
dele um dos escribas que os tinha ouvido disputar, e sabendo que lhes tinha respondido
bem, perguntou-lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos? E Jesus respondeu-lhe:
O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único
Senhor. Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e
de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o
segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro
mandamento maior do que estes” (Marcos 12:28-31). Além disso, no Evangelho segundo
São João, Ele diz: “Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como
eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. Nisto todos conhecerão que
sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (João 13:34-35).

CAPÍTULO 37

O amor que cumpre os mandamentos não é de nós mesmos, mas de Deus.

Todos estes mandamentos, no entanto, a respeito do amor ou da caridade (que são


tão grandes, e de tal forma que qualquer ação que um homem possa pensar que faz bem,
não é de forma alguma bem feita se for feita sem amor) seriam dados aos homens em vão,
se eles não tivessem a liberdade da vontade. Mas na medida em que estes preceitos são
dados na lei, tanto antiga quanto nova12, de qual fonte vem aos homens, o amor a Deus e
ao próximo, se não do próprio Deus? Porque, na verdade, se não é de Deus, mas dos

12Embora no novo, veio a graça que foi prometida no Antigo; mas a lei sem a graça é a letra que mata; mas
na graça é o Espírito que dá vida.

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homens, os Pelagianos ganharam a vitória. Mas se isso vem de Deus, então, vencemos os
Pelagianos. Deixemos, então, o apóstolo João julgar entre nós; e deixe-o dizer-nos:
“Amados, amemo-nos uns aos outros” (1 João 4:7). Agora, quando eles começam a exaltar-
se sobre estas palavras de João, e a perguntar o motivo, então, pelo qual este preceito é
dirigido a nós, se não temos o amor em nós mesmos para amar um ao outro, o mesmo
apóstolo passa de uma vez (para a confusão deles) a adicionar isto: “Porque o amor é de
Deus!”. Ele não vem de nós e, portanto, é apenas de Deus. Por que, então, se diz: “Amados,
amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus”, a menos que seja dito como um
preceito de nossa liberdade da vontade, admoestando-a a buscar o dom de Deus? Agora,
essa seria uma admoestação completamente infrutífera, de fato, se a vontade não
recebesse previamente uma doação de amor, que pudesse tentar ser ampliada de modo a
cumprir qualquer ordem que foi colocada sobre ele. Quando se diz: “Amemo-nos uns aos
outros”, isto é lei; quando se diz: “Porque o amor é de Deus”, isto é a graça. Pois, quanto à
sabedoria de Deus, “Abre a sua boca com sabedoria, e a lei da beneficência está na sua
língua” (Provérbios 31:26). Assim, está escrito no Salmo: “Pois, Aquele que deu a lei dará
bênçãos”.13

CAPÍTULO 38

Nós não amaríamos a Deus a menos que Ele não nos tivesse amado primeiro. Os
Apóstolos escolheram Cristo, porque eles foram escolhidos; eles não eram
escolhidos porque escolheram Cristo.

Não deixem que ninguém, então, vos engane, meus irmãos, pois não poderíamos
amar a Deus, a menos que Ele nos tivesse amado primeiro. João novamente nos dá a prova
mais clara disso quando diz: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1João 4:19). A
graça nos torna amantes da lei; mas a própria lei, sem a graça, nos torna nada além de
violadores da lei. E nada além disso nos é mostrado pelas palavras de nosso Senhor
quando Ele diz aos Seus discípulos: “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi
a vós” (João 15:16). Pois, se primeiro O tivéssemos amado, a fim de que por esse mérito
Ele pudesse nos amar, então nós O escolheríamos primeiro para que merecêssemos ser

13Esta é uma referência obscura. Pode ser Salmos 94:12 “Bem-aventurado é o homem a quem tu castigas,
ó Senhor, e a quem ensinas a tua lei”. Na Exposição do Salmo 119:11 de Agostinho, ele diz: “como se lê em
outro Salmo: “Ele dará a bênção, aquele que deu a lei” — mas o número Salmo não está incluído — WHG.

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escolhidos por Ele. Ele, no entanto, que é a Verdade diz o contrário, e contradiz
frontalmente esta presunção dos homens. “ Não me escolhestes vós a mim”, Ele diz. Se,
portanto, vocês não Me escolheram, sem dúvida, vocês não Me amaram (pois, como eles
poderiam escolher alguém a quem não amavam?). “Mas Eu,” Ele diz: “vos escolhi a vós”.
E, então, poderiam eles escolhê-lO depois, e preferi-lO a todas as bênçãos deste mundo?
Mas foi porque eles tinham sido escolhidos que eles O escolheram; não porque eles O
escolheram é que eles foram escolhidos. Não poderia haver mérito algum na escolha de
Cristo por parte dos homens, se não fosse a graça de Deus preveniente 14 em Sua escolha
deles. É por isso que o apóstolo Paulo declara essa bênção em Tessalonicenses: “E o
Senhor vos aumente, e faça crescer em amor uns para com os outros, e para com todos,
como também o fazemos para convosco” (1 Tessalonicenses 3:12). Ele nos deu essa
bênção para amarmos uns aos outros, quem também tinha dado a nós uma lei que diz que
nos amemos uns aos outros. Em seguida, em outra passagem dirigida à mesma igreja,
vendo que agora existia em alguns de seus membros a disposição que ele desejava que
eles cultivassem, ele diz: “Sempre devemos, irmãos, dar graças a Deus por vós, como é
justo, porque a vossa fé cresce muitíssimo e o amor de cada um de vós aumenta de uns
para com os outros” (2 Tessalonicenses 1:3). Isso ele disse para que eles não se
orgulhassem do grande bem que eles estavam gozando de Deus, como se o tivessem de
seu mero próprio ser.

Este é o significado de suas palavras: “Porque a vossa fé cresce muitíssimo e o amor


de cada um de vós aumenta de uns para com os outros, devemos agradecer a Deus a
vosso respeito, mas não para elogiá-los, como se possuísseis esses dons de vós mesmos”.

CAPÍTULO 39

O espírito de temor é um grande dom de Deus.

O apóstolo também diz a Timóteo: “Porque Deus não nos deu o espírito de temor,
mas de fortaleza, e de amor, e de moderação” (2 Timóteo 1:7). Agora em relação a esta
passagem do apóstolo, devemos estar vigilantes contra a suposição de que nós não
recebemos o espírito de temor a Deus, o que sem dúvida é um grande dom de Deus, e em

14 Preveniente significa simplesmente antecipatória; mas no uso de John Wesley da palavra isso significava
que Deus antecipou o que os homens fariam no futuro, na medida do mérito ou fé, e Ele, então, elegeu os
conformemente. Mas Agostinho aqui significa que Deus antecipou o que Ele faria, e não o que os homens
fariam. É a graça precedente (veja o Capítulo 44).

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relação ao qual o profeta Isaías diz: “E repousará sobre ele o Espírito do Senhor, o espírito
de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de
conhecimento e de temor do Senhor” (Isaías 11:2). Nós não recebemos o espírito de temor
com que Pedro negou a Cristo, mas aquele temor concernente ao que o próprio Cristo diz:
“temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno; sim, vos digo, a esse
temei” (Lucas 12:5). Isto Ele diz de fato, para que não O neguemos a partir do mesmo temor
que abalou Pedro; pois ele claramente desejava que tal covardia fosse removida de nós
quando, na passagem precedente, Ele disse: “Não temais os que matam o corpo e, depois,
não têm mais que fazer” (Lucas 12:4). Não é desse temor que temos recebido o espírito;
mas o espírito “de fortaleza, e de amor, e de moderação”. E sobre esse espírito o mesmo
Apóstolo Paulo discorre aos Romanos: “E a paciência a experiência, e a experiência a
esperança. E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado
em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Romanos 5:4-5). Portanto, não
é por nós mesmos, mas pelo Espírito Santo que nos foi dado, que acontece que, através
do próprio amor que ele nos mostra ser o dom de Deus, a tribulação não acaba com a
paciência, mas sim a produz. Mais uma vez, ele diz aos Efésios: “Paz seja com os irmãos,
e amor com fé” (Efésios 6:23). Estas são grandes bênçãos! Deixe-o dizer-nos, no entanto,
de onde vêm: “da parte de Deus Pai”, diz ele logo em seguida, “e da do Senhor Jesus
Cristo”. Estas grandes bênçãos são, portanto, nada mais do que dons de Deus para nós.

CAPÍTULO 40

Pelagianos são ignorantes ao defender que o conhecimento da lei vem de Deus,


mas o amor vem de nós mesmos.

Não é de se admirar que “E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a


compreenderam” (João 1:5). Na Epístola de João, a Luz declara: “Vede quão grande amor
nos tem concedido o Pai, que fôssemos chamados filhos de Deus. Por isso o mundo não
nos conhece; porque não o conhece a ele” (1 João 3:1). E nos escritos Pelagianos, a
escuridão diz: “O amor vem-nos de nós mesmos”. Agora, se eles apenas possuíssem o
amor verdadeiro, isto é, o amor Cristão, eles também saberiam onde obtiveram posse dele;
mesmo como o apóstolo sabia quando ele disse: “Mas nós não recebemos o espírito do
mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é
dado gratuitamente por Deus” (1 Coríntios 2:12). João diz: “Deus é amor” (1 João 4:16). E,
assim, os Pelagianos afirmam que eles realmente têm o próprio Deus, e não de Deus, mas

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de si mesmos! E, embora eles aceitem que temos o conhecimento da lei de Deus, eles
ainda sustentam que o amor vem de nosso próprio ser. Eles não ouvem o apóstolo quando
diz: “A ciência incha, mas o amor edifica” (1 Coríntios 8:1). Agora, o que pode ser mais
absurdo, não, o que pode ser mais louco e mais alheio à própria santidade do amor em si,
do que sustentar que procede de Deus o conhecimento que, separado do amor, incha-nos;
enquanto o amor, que impede a possibilidade do inchar do conhecimento, brota de nós
mesmos? E, novamente, quando o apóstolo fala do amor de Cristo como excedendo o
conhecimento (Efésios 3:19), o que pode ser mais louco do que supor que o conhecimento
que deve ser subordinado ao amor vem de Deus, enquanto o amor que excede o
conhecimento vem do homem? A verdadeira fé, no entanto, e sã doutrina, declara que
ambas as graças são de Deus. A Escritura diz: “Porque o Senhor dá a sabedoria; da sua
boca é que vem o conhecimento e o entendimento” (Provérbios 2:6), e outra Escritura diz
“O amor é de Deus” (1 João 4:7). Lemos sobre o “Espírito de sabedoria e de entendimento”
(Isaías 11:2) e também sobre o “Espírito de fortaleza, e de amor, e de moderação” (2
Timóteo 1:7). Mas o amor é um dom maior do que o conhecimento; pois quando um homem
tem o dom do conhecimento, o amor é necessário ao lado dele, para que ele não se
ensoberbeça. Pois, “o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se
ensoberbece” (1 Coríntios 13:4).

CAPÍTULO 41

As vontades dos homens estão tão no poder de Deus, que Ele pode transformá-las
no que Lhe agradar.

Eu acho que eu agora discuti o ponto o suficiente, em oposição àqueles que se opõem
veementemente à graça de Deus, pela qual a vontade humana não é tirada, mas mudada
de má para boa, e auxiliada quando é boa. Acho, também, que discuti tanto o assunto que
não é tanto eu mesmo que tem falado convosco, quanto é a Escritura inspirada, nos
testemunhos mais claros de verdade. E se esse registro Divino for analisado
cuidadosamente, ele nos mostra que não é apenas o bom desejo dos homens que o próprio
Deus converte do mau, e quando convertido por Ele, Ele os direciona para as boas ações
e para a vida eterna; mas também aqueles desejos que seguem o mundo estão tão
inteiramente à disposição de Deus, que Ele os transforma no que Lhe apraz, e quando quer
que Lhe agrade, de modo a conceder bondade a alguns, e acumular punição sobre outros,
já que Ele mesmo julga retamente por um conselho que certamente é mui secreto a Ele,

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mas sem qualquer dúvida, mui justo. Pois, nós encontramos que alguns pecados são ainda
a punição de outros pecados, como são esses “vasos da ira”, que o apóstolo descreve
como “preparados para a perdição” (Romanos 9:22), como também é o endurecimento de
Faraó, cujo objetivo é estabelecer diante dele o poder de Deus, como é, novamente, a fuga
dos israelitas do rosto do inimigo diante da cidade de Ai, pois o medo surgiu em seus
corações, de modo que fugiram (Josué 7:4) e isso foi feito para que o seu pecado fosse
punido da maneira certa, como deveria ser. Por esta razão o Senhor disse a Josué, filho de
Num, “Por isso os filhos de Israel não puderam subsistir perante os seus inimigos”. Qual é
o significado de: “não puderam subsistir”? Ora, por que eles não subsistiram pela liberdade
da vontade, mas em vez disso, com um arbítrio perplexo pelo medo, se puseram em fuga?
Não foi porque Deus tem senhorio mesmo sobre o arbítrio dos homens? E quando Ele está
irado, leva ao medo quem Ele quiser? Não foi por vontade própria que os inimigos dos filho s
de Israel lutaram contra o povo de Deus, liderado por Josué, filho de Num? No entanto, a
Escritura diz: “Porquanto do Senhor vinha o endurecimento de seus corações, para saírem
à guerra contra Israel, para que fossem totalmente destruídos...” (Josué 11:20).

E não foi da mesma forma da Sua vontade que o filho ímpio de Gera amaldiçoou o rei
Davi? E no entanto o que diz Davi, cheio de verdade, e profundo, e com piedosa sabedoria?
O que ele disse para a pessoa que queria matar o maldizente? “Que tenho”, disse ele, “ eu
convosco, filhos de Zeruia? Ora deixai-o amaldiçoar; pois o Senhor lhe disse: Amaldiçoa a
Davi; quem pois diria: Por que assim fizeste?” (2 Samuel 16:9-10). E então a Escritura
inspirada, como se ele fosse confirmar o enunciado profundo do rei, repetindo mais uma
vez, nos diz: “Disse mais Davi a Abisai, e a todos os seus servos: Eis que meu filho, que
saiu das minhas entranhas, procura a minha morte; quanto mais ainda este benjamita?
Deixai-o, que amaldiçoe; porque o Senhor lho disse. Porventura o Senhor olhará para a
minha miséria; e o Senhor me pagará com bem a sua maldição deste dia” (2 Samuel 16:11-
12). Agora qual leitor prudente não consegue compreender de que maneira o Senhor
ordena este homem profano amaldiçoar Davi? Não foi por um comando que Ele o ordenou,
caso em que a sua obediência seria louvável; mas Ele inclinou a vontade do homem, que
havia se tornado adulterada por sua própria perversidade, a cometer esse pecado pelo Seu
próprio justo e secreto julgamento. Por isso se diz: “O Senhor disse a ele”. Agora, se essa
pessoa tivesse obedecido uma ordem de Deus, ele teria merecido ser elogiado em vez de
punido, como sabemos que ele foi posteriormente punido por isso. Também não é a razão
obscura o porquê do Senhor o dizer para amaldiçoar Davi desta forma. “Porventura”, disse
o rei humilhado, “o Senhor olhará para a minha miséria; e o Senhor me pagará com bem a
sua maldição deste dia”. Veja, então, que prova temos aqui que Deus usa os corações até
mesmo dos homens ímpios para o louvor e auxílio do bem.

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Assim, Ele fez uso de Judas quando traiu Cristo; Ele assim fez uso dos judeus quando
crucificaram a Cristo. E quão grandes as bênçãos que, a partir desses exemplos, Ele tem
derramado sobre as nações que creriam nEle! Ele também usa o nosso pior inimigo, o
próprio Diabo, mas da melhor forma, para exercitar e testar a fé e a piedade dos homens
de bem — não para Ele mesmo, de fato, que conhece todas as coisas antes de
acontecerem, mas por nossa causa, para quem era necessário passar por tal disciplina.
Não escolheu Absalão por sua própria vontade o conselho que foi prejudicial para ele? E
no entanto a razão de tal feito foi que o Senhor tinha ouvido a oração de seu pai para que
pudesse ser assim. Por isso a Escritura diz que “porém assim o Senhor o ordenara, para
aniquilar o bom conselho de Aitofel, para que o Senhor trouxesse o mal sobre Absalão” (2
Samuel 17:14). Ele chamou o conselho de Aitofel “bom” porque era para o momento de
vantagem para Seu propósito. Foi em favor do filho contra o pai, contra quem o filho tinha
se rebelado; e que poderia ter esmagado Davi, se o Senhor não tivesse derrotado o
conselho que Aitofel dera, agindo sobre o coração de Absalão, para que ele rejeitasse esse
conselho, e escolhesse outro que não era conveniente para ele.

CAPÍTULO 42

Deus faz o que Ele quer, mesmo nos corações dos homens maus.

Quem pode evitar o tremor naqueles julgamentos de Deus pelos quais Ele faz o que
Ele quer nos corações, mesmo dos homens ímpios, ao mesmo tempo retribuindo-lhes
segundo as suas obras? Roboão, filho de Salomão, rejeitou o conselho salutar dos anciãos
para não lidar duramente com o povo, e preferiu ouvir as palavras dos jovens de sua idade,
dando uma resposta áspera àqueles a quem deveria falar suavemente. Agora de onde tal
conduta surgiu, senão de sua própria vontade? Sobre isso, no entanto, as dez tribos de
Israel se rebelaram contra ele, e escolheram para si um outro rei, mesmo Jeroboão, para
que a vontade de Deus na Sua ira pudesse ser cumprida, o que Ele predisse que
aconteceria. Pois, o que diz a Escritura? “O rei, pois, não deu ouvidos ao povo; porque esta
revolta vinha do Senhor, para confirmar a palavra que o Senhor tinha falado pelo ministério
de Aías, o silonita, a Jeroboão, filho de Nebate” (1 Reis 12:15). Tudo isso de fato foi feito
pela vontade do homem, embora a mudança foi do Senhor.

Leia os livros das Crônicas, e você encontrará a seguinte passagem no segundo livro:
“Despertou, pois, o Senhor, contra Jeorão o espírito dos filisteus e dos árabes, que estavam

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do lado dos etíopes. Estes subiram a Judá, e deram sobre ela, e levaram todos os bens
que se achou na casa do rei, como também a seus filhos e a suas mulheres; de modo que
não lhe deixaram filho algum, senão a Jeoacaz, o mais moço de seus filhos” (2 Crônicas
21:16-17). Aqui é mostrado que Deus desperta inimigos para devastar os países que Ele
julga merecedores de tal castigo. Ainda assim, esses filisteus e árabes invadiram a terra de
Judá para assolá-la sem vontade própria? Ou foram os seus movimentos de tal modo
dirigidos por sua própria vontade, que a Escritura mente ao dizer-nos que “despertou, pois,
o Senhor... o espírito...”? Ambas as declarações, tenha certeza, são verdadeiras, porque
tonto eles vieram por sua própria vontade, e ainda assim, despertou o Senhor o espírito; e
isso também pode ser afirmado com igual verdade de outro modo: O Senhor tanto
despertou o seu espírito, quanto ainda assim eles vieram por sua própria vontade. Pois, o
Todo-Poderoso põe em ação, mesmo no mais íntimo do coração dos homens, o movimento
de sua vontade, de modo que Ele faz através de seu agir tudo o que Ele deseja realizar
através deles, mesmo Ele que deseje nada em iniquidade.

Qual é, mais uma vez, o significado daquilo que o homem de Deus disse ao rei
Amazias: “Ó rei, não deixes ir contigo o exército de Israel; porque o Senhor não é com
Israel, a saber com os filhos de Efraim. Se quiseres ir, faze-o assim, esforça-te para a peleja.
Deus, porém, te fará cair diante do inimigo; porque força há em Deus para ajudar e para
fazer cair” (2 Crônicas 25:7-8). Agora, como é que o poder de Deus ajuda alguns na guerra
dando-lhes confiança, e coloca outros em fuga através da injeção de medo neles, a não ser
que Aquele que fez todas as coisas nos céus e na terra, de acordo com Sua própria
vontade, também opere no coração dos homens?

Nós também lemos o que Jeoás, rei de Israel, disse quando ele enviou uma
mensagem a Amazias, rei de Judá, que queria lutar com ele. Após outras palavras, ele
acrescentou, “Na verdade feriste os moabitas, e o teu coração se ensoberbeceu; gloria-te
disso, e fica em tua casa; e por que te entremeterias no mal, para caíres tu, e Judá contigo?”
(2 Reis 14:10). Então a Escritura tem esta sequência acrescentada, “Porém Amazias não
lhe deu ouvidos, porque isto vinha de Deus, para entregá-los na mão dos seus inimigos;
porquanto buscaram os deuses dos edomitas” (2 Crônicas 25:20). Observe que agora,
como Deus, querendo punir o pecado da idolatria, operou isso no coração deste homem,
com quem Ele de fato estava justamente irado, para que ele não ouvisse o bom conselho,
mas que o desprezasse, e fosse para a batalha em que ele, com seu exército, foi derrotado.
Deus diz pelo profeta Ezequiel: “E se o profeta for enganado, e falar alguma coisa, eu, o
Senhor, terei enganado esse profeta; e estenderei a minha mão contra ele, e destruí-lo-ei
do meio do meu povo Israel” (Ezequiel 14:9).

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Depois, há o livro de Ester, que era uma mulher do povo de Israel, e na terra do seu
cativeiro, ela se tornou a esposa do rei estrangeiro Assuero. Neste livro está escrito que
tendo sido impulsionada pela necessidade de se interpor em favor de seu povo, a quem o
rei havia ordenado ser assassinado em todas as partes de seus domínios, ela orou ao
Senhor (Ester 4:17) tão fortemente ela foi impelida pela necessidade do caso, que ela até
se aventurou a ir na presença real sem a ordem do rei, e de forma contrária ao seu próprio
costume. Agora observe o que a Escritura diz15: “Logo que o rei levantou a cabeça radiante
de esplendor e dirigiu seu olhar cheio de cólera, a rainha, mudando de cor, desfaleceu e se
deixou cair sobre os ombros da criada que a acompanhava. Deus mudou, então, em doçura
a cólera do rei...” (Ester 15:10-11). A Escritura diz nos Provérbios de Salomão, “Como
ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR, que o inclina a todo o seu
querer” (Provérbios 21:1). Mais uma vez, no Salmo 105, em referência aos egípcios, lê-se
que Deus “virou o coração deles para que odiassem o seu povo, para que tratassem
astutamente aos seus servos” (Salmos 105:25). Observe-se, de igual modo, o que está
escrito nas cartas dos apóstolos. Na Epístola do Apóstolo Paulo aos Romanos, estas
palavras aparecem: “Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus
corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si” (Romanos 1:24), e um pouco
mais a frente: “Por isso Deus os abandonou às paixões infames” (v. 26), novamente, na
passagem seguinte: “E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim
Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm”
(Romanos 1:28). Assim também em sua segunda epístola aos Tessalonicenses, o apóstolo
diz sobre várias pessoas, “E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam
a mentira; para que sejam julgados todos os que não creram a verdade, antes tiveram
prazer na iniquidade” (2 Tessalonicenses 2:11-12).

CAPÍTULO 43

Deus opera nos corações humanos: inclina as suas vontades ao que Lhe apraz.

A partir desses depoimentos da Palavra inspirada, e de passagens semelhantes que


levaria muito tempo para citá-las na íntegra, eu acho que está suficientemente claro que
Deus opera nos corações dos homens para inclinar suas vontades para o que Ele quiser,

15Esta passagem não está no cânon moderno; mas é encontrada na versão Douay Rheims, uma tradução
em Inglês da Vulgata Latina, tradução de Jerônimo que foi concluída c. 405, e disponível para Agostinho.

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tanto para boas obras de acordo a Sua misericórdia, ou para más obras, segundo os seus
próprios méritos — Seu próprio julgamento sendo às vezes manifesto, às vezes secreto,
mas sempre justo. Esta deve ser a convicção fixa e imóvel de seu coração, de que não há
injustiça da parte de Deus. Portanto, sempre que você lê nas Escrituras da Verdade, que
os homens são deixados, ou que seus corações são cegados e endurecidos por Deus,
nunca duvide que alguns deméritos vis do seu próprio ser tenham ocorrido em primeiro
lugar, para que eles sofram justamente essas coisas. Assim, você não irá contra aquele
provérbio de Salomão: “A estultícia do homem perverterá o seu caminho, e o seu coração
se irará contra o Senhor” (Provérbios 19:3). A Graça, no entanto, não é concedida de acordo
com o mérito dos homens; de outra forma a graça já não seria graça (Romanos 11:6). Pois,
a graça é assim chamada porque é dada gratuitamente. Agora, se Deus é capaz, quer por
intermédio de anjos (se bons ou maus), ou de qualquer outra forma que seja, de operar nos
corações até mesmo dos ímpios, em retribuição a seus méritos, cuja maldade não foi feita
por Deus, mas foi tanto derivada originalmente de Adão, como aumentada por sua própria
vontade, o que há para ser admirado se, através do Espírito Santo, Deus opera o bem nos
corações dos eleitos, tendo operado de modo que seus corações se tornam bons em vez
de maus?

CAPÍTULO 44

Graça gratuita exemplificada em crianças.

Os homens, porém, podem supor que há certos bons méritos que eles acham que são
anteriores à justificação por meio da graça de Deus; todo o tempo deixando de ver que,
quando expressam tal opinião, eles não fazem nada mais do que negar a graça. Mas, como
já observei, deixe-os supor o que eles quiserem a respeito do caso dos adultos. No caso
de crianças, de qualquer modo, os Pelagianos não encontram nenhum meio de responder
à dificuldade. [...]. Às vezes, também, esta graça é derramada sobre os filhos dos incrédulos
quando acontece, de alguma maneira, deles caírem nas mãos de pessoas piedosas, em
razão da secreta providência de Deus. Por outro lado, os filhos dos crentes podem não
conseguir obter a graça, porque algum impedimento ocorre para evitar a aproximação de
ajuda para resgatá-los em seu perigo. Essas coisas acontecem, sem dúvida, através da
secreta providência de Deus, cujos julgamentos são insondáveis, e Seus caminhos
inescrutáveis (Romanos 11:33). Estas são as palavras do apóstolo; e você deve observar
o que ele havia dito anteriormente para levá-lo a adicionar tal observação. Ele estava

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discursando sobre os judeus e gentios quando ele escreveu aos Romanos — que eram
eles mesmos gentios — para este efeito: “Porque assim como vós também antigamente
fostes desobedientes a Deus, mas agora alcançastes misericórdia pela desobediência
deles, assim também estes agora foram desobedientes, para também alcançare m
misericórdia pela misericórdia a vós demonstrada. Porque Deus encerrou a todos debaixo
da desobediência, para com todos usar de misericórdia” (Romanos 11:30-32).

Agora, depois que ele tinha pensado sobre o que ele disse, cheio de admiração pela
segura verdade de sua própria afirmação, de fato, mas atônito pela sua grande
profundidade, como Deus encerrou tudo na incredulidade que Ele possa ter misericórdia
para com todos, como se fazendo o mal para que o bem pudesse vir de uma só vez, ele
exclamou, e disse: Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria e do conhecimento de
Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e inescrutáveis os seus caminhos! (Romanos
11:33). Homens perversos que não refletem sobre esses juízos insondáveis e caminhos de
fato inescrutáveis, mas que estão sempre propensas a censurar, sendo incapazes de
entender, supuseram que o apóstolo disse, e severamente gloriaram-se nele por dizer isso,
“Façamos o mal para que venha o bem!” (Romanos 3:8). Deus não permita que o apóstolo
o tenha dito! Mas os homens sem entendimento pensaram que isto foi de fato dito, quando
ouviram estas palavras do apóstolo: “Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas,
onde o pecado abundou, superabundou a graça” (Romanos 5:20). Mas a graça de fato
produz essa finalidade: que as boas obras devem agora ser feitas por aqueles que
anteriormente fizeram o mal; não que eles devam perseverar em caminhos maus e supor
que eles serão recompensados com o bem. Sua linguagem, portanto, não deveria ser:
“Façamos o mal, para que venha o bem”, mas: “Pecamos, e o bem veio; façamos de agora
em diante o bem, para que no mundo futuro possamos receber o bem pelo bem, os quais
na vida presente estão recebendo o bem pelo mal”. É por isso que está escrito no Salmo:
“Cantarei a misericórdia e o juízo; a ti, SENHOR, cantarei” (Salmos 101:1). Quando o Filho
do homem, portanto, veio primeiro ao mundo, não foi “para julgar o mundo, mas para que
o mundo seja salvo por Ele” (João 3.17). E nesta dispensação foi por misericórdia. Aos
poucos, no entanto, Ele virá para o julgamento, para julgar os vivos e os mortos 16. E, no
entanto, mesmo neste tempo presente, a própria salvação não acontece sem julgamento
— embora este seja secreto. Portanto Ele diz: E disse-lhe Jesus: “Eu vim a este mundo
para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem sejam cegos” (João 9:39).

16 Atos 10:42; 2 Timóteo 4:1; 1 Pedro 4:5.

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CAPÍTULO 45

A razão pela qual uma pessoa é assistida pela graça, e outra não, deve ser remetida
aos desígnios secretos de Deus.

Você deve submeter a questão, em seguida, para as determinações ocultas de Deus


quando você vê todas as crianças em um mesmo estado, assim como todos, sem dúvida,
obtêm seu mal hereditário de Adão. [...]. Certifique- em tais casos, que você não atribui
injustiça ou estultícia a Deus, em quem está a própria fonte da justiça e sabedoria; mas
como eu vos exortei a partir do início deste tratado, “Mas, naquilo a que já chegamos,
andemos segundo a mesma regra, e sintamos o mesmo” (Filipenses 3:16), “e, se sentis
alguma coisa de outra maneira, também Deus vo-lo revelará” (v. 15), se não nesta vida,
mas certamente na próxima, “pois não há nada encoberto que não venha a ser revelado”
(Mateus 10:26). Quando, pois, você ouvir o Senhor dizer: “eu o Senhor, terei enganado
esse profeta” (Ezequiel 14:9), também ouça o que o apóstolo diz: “Logo, pois, compadece-
se de quem quer, e endurece a quem quer” (Romanos 9:18), creia que no caso daquele a
quem Deus permite ser enganado e endurecido, seus atos malignos mereceram o
julgamento; enquanto no caso daquele a quem Deus mostra misericórdia, você deve, de
modo leal e sem hesitação, reconhecer a graça de Deus, que “Não tornando mal por mal,
ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo” (1 Pedro 3:9). Nem você deve tirar
de Faraó sua liberdade da vontade; porque em várias passagens Deus diz: “tenho
endurecido a Faraó”, ou, “tenho endurecido, ou endurecerei o coração de Faraó”, mas disso
não segue de modo algum que Faraó não tenha por conta própria endurecido o próprio
coração. Pois, isso também é dito sobre ele após a remoção da praga das moscas dentre
os egípcios, nestas palavras da Escritura: “Mas endureceu Faraó ainda esta vez seu
coração, e não deixou ir o povo” (Êxodo 8:32). Assim foi tanto Deus que o endureceu por
Seu julgamento justo, e Faraó [endureceu-se] por sua própria vontade. Esteja, então, bem
certo de que seu trabalho nunca será em vão se, definido diante de ti um bom propósito,
você perseverar nele até o fim. Pois, Deus que não retribui de acordo com as suas obras,
apenas àqueles a quem Ele liberta, Ele depois “recompensa a cada um segundo as suas
obras” (Mateus 16:27). Deus, portanto, certamente retribuirá tanto mal por mal, porque Ele
é justo; e bem por mal, porque Ele é bom; e bem por bem, porque Ele é bom e justo; mas
Ele nunca retribuirá o mal pelo bem, porque Ele não é injusto. Ele retribuirá, portanto, mal
por mal — castigo pela injustiça; e Ele retribuirá mal por bem — graça pela injustiça; e Ele
retribuirá bem por bem — graça sobre graça.

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CAPÍTULO 46

Entendimento e sabedoria devem ser buscados em Deus.

Leia atentamente este tratado, e se você o entender, dê glória a Deus; mas onde você
não o compreender, ore por compreensão, pois Deus lhe dará compreensão. Lembre-se
de que as Escrituras dizem: “E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus,
que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada” (Tiago 1:5), a própria
sabedoria vem do alto (Tiago 3:17), como o próprio apóstolo Tiago nos diz. Há, no entanto,
outra sabedoria, que deve repelir de você, e orar contra a sua permanência em você; a isto
o mesmo apóstolo expressou seu ódio quando ele disse: “Mas, se tendes amarga inveja, e
sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade.
Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica. Porque onde
há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa. Mas a sabedoria que
do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de
misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia” (Tiago 3:14-17). Que
bênção, então, não terá este homem, que tem orado por esta sabedoria, e a obteve do
Senhor? E a partir disso você pode entender o que é a graça; porque se esta sabedoria
fosse de nós, não seria do alto; nem seria um objeto a ser solicitado do Deus que nos criou.
Irmãos, orai também por nós, para que possamos viver “sóbria, e justa, e piamente,
aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e
nosso Senhor Jesus Cristo” (Tito 2:12-13), a quem pertence a honra, e a glória, e o reino,
com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos.

Amém.

Sola Scriptura!
Sola Gratia!
Sola Fide!
Solus Christus!
Soli Deo Gloria!

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Doutrina da Eleição  Paixão de Cristo, A — Thomas Adams
 Cessacionismo, Provando que os Dons Carismáticos  Pecadores nas Mãos de Um Deus Irado — J. Edwards
Cessaram — Peter Masters  Pecaminosidade do Homem em Seu Estado Natural —
 Como Saber se Sou um Eleito? ou A Percepção da Thomas Boston
Eleição — A. W. Pink  Plenitude do Mediador, A — John Gill
 Como Ser uma Mulher de Deus? — Paul Washer  Porção do Ímpios, A — J. Edwards
 Como Toda a Doutrina da Predestinação é corrompida  Pregação Chocante — Paul Washer
pelos Arminianos — J. Owen  Prerrogativa Real, A — C. H. Spurgeon
 Confissão de Fé Batista de 1689  Queda, a Depravação Total do Homem em seu Estado
 Conversão — John Gill Natural..., A, Edição Comemorativa de Nº 200
 Cristo É Tudo Em Todos — Jeremiah Burroughs  Quem Deve Ser Batizado? — C. H. Spurgeon
 Cristo, Totalmente Desejável — John Flavel  Quem São Os Eleitos? — C. H. Spurgeon
 Defesa do Calvinismo, Uma — C. H. Spurgeon  Reformação Pessoal & na Oração Secreta — R. M.
 Deus Salva Quem Ele Quer! — J. Edwards M'Cheyne
 Discipulado no T empo dos Puritanos, O — W. Bevins  Regeneração ou Decisionismo? — Paul Washer
 Doutrina da Eleição, A — A. W. Pink  Salvação Pertence Ao Senhor, A — C. H. Spurgeon
 Eleição & Vocação — R. M. M’Cheyne  Sangue, O — C. H. Spurgeon
 Eleição Particular — C. H. Spurgeon  Semper Idem — Thomas Adams
 Especial Origem da Instituição da Igreja Evangélica, A —  Sermões de Páscoa — Adams, Pink, Spurgeon, Gill,
J. Owen Owen e Charnock
 Evangelismo Moderno — A. W. Pink  Sermões Graciosos (15 Sermões sobre a Graça de
 Excelência de Cristo, A — J. Edwards Deus) — C. H. Spurgeon
 Gloriosa Predestinação, A — C. H. Spurgeon  Soberania da Deus na Salvação dos Homens, A — J.
 Guia Para a Oração Fervorosa, Um — A. W. Pink Edwards
 Igrejas do Novo Testamento — A. W. Pink  Sobre a Nossa Conversão a Deus e Como Essa Doutrina
 In Memoriam, a Canção dos Suspiros — Susannah é Totalmente Corrompida Pelos Arminianos — J. Owen
Spurgeon  Somente as Igrejas Congregacionais se Adequam aos
 Incomparável Excelência e Santidade de Deus, A — Propósitos de Cristo na Instituição de Sua Igreja — J.
Jeremiah Burroughs Owen
 Infinita Sabedoria de Deus Demonstrada na Salvação  Supremacia e o Poder de Deus, A — A. W. Pink
dos Pecadores, A — A. W. Pink  Teologia Pactual e Dispensacionalismo — William R.
 Jesus! – C. H. Spurgeon Downing
 Justificação, Propiciação e Declaração — C. H. Spurgeon  Tratado Sobre a Oração, Um — John Bunyan
 Livre Graça, A — C. H. Spurgeon  Tratado Sobre o Amor de Deus, Um — Bernardo de
 Marcas de Uma Verdadeira Conversão — G. Whitefield Claraval
 Mito do Livre-Arbítrio, O — Walter J. Chantry  Um Cordão de Pérolas Soltas, Uma Jornada Teológica
 Natureza da Igreja Evangélica, A — John Gill no Batismo de Crentes — Fred Malone
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2 Coríntios 4
1
Por isso, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos;
2
Antes, rejeitamos as coisas que por vergonha se ocultam, não andando com astúcia nem
falsificando a palavra de Deus; e assim nos recomendamos à consciência de todo o homem,
3
na presença de Deus, pela manifestação da verdade. Mas, se ainda o nosso evangelho está
4
encoberto, para os que se perdem está encoberto. Nos quais o deus deste século cegou os
entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória
5
de Cristo, que é a imagem de Deus. Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo
6
Jesus, o Senhor; e nós mesmos somos vossos servos por amor de Jesus. Porque Deus,
que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações,
7
para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo. Temos, porém,
este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós.
8
Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados.
9 10
Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; Trazendo sempre
por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus
11
se manifeste também nos nossos corpos; E assim nós, que vivemos, estamos sempre
entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também na
12 13
nossa carne mortal. De maneira que em nós opera a morte, mas em vós a vida. E temos
portanto o mesmo espírito de fé, como está escrito: Cri, por isso falei; nós cremos também,
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por isso também falamos. Sabendo que o que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará
15
também por Jesus, e nos apresentará convosco. Porque tudo isto é por amor de vós, para
que a graça, multiplicada por meio de muitos, faça abundar a ação de graças para glória de
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Deus. Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o
17
interior, contudo, se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação
18
produz para nós um peso eterno de glória mui excelente; Não atentando nós nas coisas
que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se
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não veem são eternas. Issuu.com/oEstandarteDeCristo