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com
Liberdade Interior

Jacques Philippe

Traduzido por Helena Scott

Scepter Publishers, Inc.


www.scepterpublishers.org
Originalmente publicado como La Liberté intérieure
Copyright © 2002, Editions des Beatitudes, SCC Burtin,
França
Os textos bíblicos do Novo e do Antigo Testamento foram retirados da edição católica da versão revisada da Bíblia Sagrada,
© 1965 e 1966 pela Divisão de Educação Cristã do Conselho Nacional das Igrejas de Cristo nos Estados Unidos. Todos os
direitos reservados. Todo o material protegido por direitos autorais é usado com a permissão do proprietário dos direitos
autorais. Nenhuma parte dele pode ser reproduzida sem a permissão por escrito do proprietário dos direitos autorais.

Tradução em inglês com copyright © 2007,


Scepter Publishers, Inc.
PO Box 211, Nova York, NY 10018
www.scepterpublishers.orgTodos os
direitos reservados.
A tradução dos textos da contracapa é de Sofia Cabrera
Esta edição está à venda em todos os países, exceto nas Filipinas e na África.
ISBN-13: 978–1–59417–052–2
ISBN-10: 1–59417–052–5
e-book ISBN: 978-1-59417-096-6
IMPRESSO NOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA
Conteúdo

Introdução

I. Liberdade e aceitação

1. A busca pela liberdade


2. Aceitando a nós mesmos
3. Aceitando o sofrimento
4. Aceitar outras pessoas

II. O momento presente

1. Liberdade e o momento presente


2. “To Love” tem apenas um tempo presente
3. Nós podemos sofrer por apenas um momento
4. “Que os próprios problemas do dia sejam suficientes para o dia”
5. O amanhã pode cuidar de si mesmo
6. Viva, em vez de esperar para viver
7. Disponibilidade para outras pessoas
8. Tempo psicológico e tempo interior

III. O dinamismo da fé, esperança e amor

1. As virtudes teológicas
2. Os Três Derramamentos do Espírito Santo
3. Vocação e o dom da fé
4. As Lágrimas de São Pedro e o Dom da Esperança
5. Pentecostes e o Dom da Caridade
6. O fogo que acende, queima e transfigura
7. O dinamismo das virtudes teológicas
8. O amor precisa de esperança; Esperança é baseada na fé
9. O papel fundamental da esperança

10. Dinamismo do Pecado, Dinamismo da Graça


11. Esperança e Pureza de Coração

4. Da Lei à Graça: Amor como um Presente Gratuito

1. Lei e Graça
2. “Onde o Espírito reina, há liberdade.” A diferença entre
liberdade e licenciosidade
3. A armadilha da lei
4. Aprendendo a amar: dar e receber livremente

V. Pobreza Espiritual e Liberdade

1. A necessidade de ser
2. Orgulho e pobreza espiritual
3. Provas espirituais
4. Confiando apenas na misericórdia
5. A pessoa verdadeiramente livre é aquela que não tem mais nada a perder
6. Felizes são os pobres
Introdução

Onde o Espírito do Senhor está, há liberdade.

- São Paulo1

Ofereceremos a Deus a nossa vontade, a nossa razão, a nossa mente, todo o


nosso ser através das mãos e do coração da Santíssima Virgem. Então nosso
espírito possuirá aquela preciosa liberdade de alma, tão distante da tensão,
tristeza, depressão, constrangimento e mesquinhez. Navegaremos no mar do
abandono, libertando-nos de nós mesmos para nos apegarmos a Ele, o Infinito.

- Madre Yvonne-Aimée de Malestroit2

Este livro trata de um tema básico da vida cristã: a liberdade interior. Seu objetivo é
simples. Todo cristão precisa descobrir que mesmo nas circunstâncias exteriores mais
desfavoráveis possuímos em nós um espaço de liberdade que ninguém pode tirar,
porque Deus é sua fonte e garantia. Sem essa descoberta, sempre seremos
restringidos de alguma forma e nunca experimentaremos a verdadeira felicidade. Mas
se aprendemos a deixar esse espaço interior de liberdade se desenvolver, então,
mesmo que muitas coisas possam nos fazer sofrer, nada será realmente capaz de nos
oprimir ou esmagar.
A tese a ser desenvolvida é simples, mas muito importante: adquirimos nossa
liberdade interior na proporção exata de nosso crescimento na fé, na esperança e no
amor. Este livro examinará especificamente como o dinamismo do que é classicamente
chamado de “virtudes teológicas” é o coração da vida espiritual. Também sublinhará o
papel fundamental da virtude da esperança em nosso crescimento interior. A esperança
não pode realmente ser exercida sem a pobreza de coração, para que todo o livro seja
considerado um comentário sobre a primeira bem-aventurança: “Bem-aventurados os
pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. ”3
Voltaremos a certos tópicos que foram abordados em meu
livros4 e olhe para eles mais profundamente: paz interior, vida de oração e docilidade ao
Espírito Santo.
No início do terceiro milênio, espera-se que este livro ajude aqueles
que desejam se abrir à maravilhosa renovação interior que o Espírito
Santo quer realizar no coração das pessoas, e assim alcançar a gloriosa
liberdade dos filhos. de Deus.
eu

Liberdade e Aceitação

1. A busca pela liberdade

A cultura atual e o cristianismo podem, em certo sentido, encontrar um terreno comum no


conceito de liberdade. Afinal, o cristianismo é uma mensagem de liberdade e libertação.
Para perceber isso, precisamos apenas abrir o Novo Testamento, onde as palavras “livre”,
“liberdade”, “libertado” ocorrem regularmente. “A verdade vai te fazer
grátis ”, diz Jesus no Evangelho de São João.1 São Paulo afirma: “Onde está o Espírito do
Senhor, aí há liberdade”,2 e, em outro lugar, "Para a liberdade, Cristo nos colocou
gratuitamente."3 St. James chama a lei do Cristianismo de "lei da liberdade".4 O que
precisamos fazer, e tentaremos fazer no decorrer deste livro, é descobrir a real natureza
dessa liberdade.
A cultura moderna foi marcada nos últimos séculos por uma forte aspiração à
liberdade. Todos percebem, entretanto, como a noção de liberdade pode ser ambígua;
falsas ideias de liberdade alienaram as pessoas da verdade e causaram milhões de
mortes. Acima de tudo, o século XX viu isso acontecer, à sua custa. Mas o desejo de
liberdade permanece observável em todas as esferas: social, política, econômica e
psicológica. A sua urgência provavelmente se deve ao fato de que, apesar de todos os
“avanços” alcançados até o momento, esse desejo ainda não foi realizado.

Na área da moralidade, a liberdade parece quase o único valor sobre o qual


as pessoas ainda concordam unanimemente no início do terceiro milênio.
Todos concordam mais ou menos que o respeito pela liberdade de outras pessoas ainda é
uma norma ética básica. Sem dúvida, isso é mais uma questão de teoria do que prática, à
medida que o liberalismo ocidental se torna progressivamente mais totalitário. Pode ser
apenas uma manifestação do egoísmo subjacente do homem moderno, para quem o
respeito pela liberdade do indivíduo é menos um reconhecimento de uma lei ética do que
uma declaração de individualismo - ninguém pode me impedir de fazer o que quero! No
entanto, essa aspiração de liberdade, tão forte entre as pessoas hoje, embora inclua uma
grande dose de ilusão e às vezes seja realizada de forma equivocada, contém algo muito
verdadeiro e nobre.

Liberdade e felicidade

Os seres humanos não foram criados para a escravidão, mas para serem os senhores da
criação. Isso é declarado explicitamente no livro do Gênesis. Não fomos criados para levar
vidas monótonas, estreitas ou restritas, mas para viver em espaços abertos. Achamos o
confinamento insuportável, simplesmente porque fomos criados à imagem de Deus e
temos dentro de nós uma necessidade insaciável do absoluto e do infinito. Essa é a nossa
grandeza e às vezes nosso infortúnio.
Temos essa grande sede de liberdade porque nossa aspiração mais
fundamental é a felicidade; e sentimos que não há felicidade sem amor e nenhum
amor sem liberdade. Isso é perfeitamente verdade. Os seres humanos foram
criados para amar e só podem encontrar felicidade amando e sendo amados. As St.
Catarina de Siena coloca isso,5 o homem não pode viver sem amar. O problema é que nosso amor
muitas vezes vai na direção errada: amamos a nós mesmos, de forma egoísta, e acabamos
frustrados, porque só o amor genuíno pode nos satisfazer.
Só o amor, então, pode nos satisfazer; e não há amor sem liberdade. O tipo de
amor que é resultado de constrangimento, ou interesse próprio, ou mera
satisfação de uma necessidade, não merece o nome de amor. O amor não é levado
nem comprado. Só existe amor verdadeiro e, portanto, felicidade, entre pessoas
que cedem livremente a posse de si para se darem umas às outras.
Aqui podemos ter uma ideia de como a liberdade é preciosa. A liberdade valoriza o
amor, e o amor é a pré-condição para a felicidade. A razão pela qual as pessoas dão
tanta importância à liberdade deve ser porque elas percebem essa verdade, embora
de forma confusa; e desse ponto de vista, deve-se admitir que eles estão certos.

Mas como alcançamos a liberdade que permitirá que o amor floresça? Para atingir esse
objetivo, examinemos primeiro certas ilusões generalizadas que devem ser postas de lado se
quisermos desfrutar da verdadeira liberdade.
Liberdade: reivindicando autonomia ou aceitando dependência?

Embora a ideia de liberdade, como vimos, possa ser vista como um ponto de encontro
entre o cristianismo e a cultura atual, também parece paradoxalmente ser o ponto em que
eles estão mais distantes. Para o homem moderno, ser livre muitas vezes significa se livrar
de todas as restrições e toda autoridade - "Nem Deus, nem mestre." Para o Cristianismo,
por outro lado, a liberdade só pode ser encontrada submetendo-se a
Deus, na “obediência da fé” de que fala São Paulo.6 A verdadeira liberdade não é
tanto algo que o homem ganha para si mesmo; é um dom gratuito de Deus, um
fruto do Espírito Santo, recebido na medida em que nos colocamos numa relação
de dependência amorosa do nosso Criador e Salvador. É aqui que o paradoxo do
Evangelho é mais aparente: “Quem quiser salvar a sua vida, a perderá, e
quem perder a vida por minha causa, vai encontrá-lo. ”7 Em outras palavras, as pessoas que
desejam preservar e defender sua própria liberdade a qualquer custo irão perdê-la, mas
aqueles que desejam “perdê-la” deixando-a com confiança nas mãos de Deus irão salvá-la. A
liberdade lhes será restituída, infinitamente mais bela, infinitamente mais profunda, como um
dom maravilhoso da ternura de Deus. Nossa liberdade é, de fato, proporcional ao amor e à
confiança infantil que temos por nosso Pai celestial.
A experiência viva dos santos existe para nos encorajar. Eles se
entregaram a Deus sem reservas, querendo apenas fazer sua vontade. Em
troca, recebiam a sensação de gozar de uma liberdade imensa, que nada no
mundo poderia tirar deles e que era fonte de intensa alegria. Como isso é
possível? Podemos tentar entender aos poucos.

Liberdade exterior ou liberdade interior?

Outro erro fundamental sobre a liberdade é transformá-la em algo


externo, dependendo das circunstâncias, e não algo basicamente interno.8 Neste
campo, como em tantos outros, reencenamos o drama vivido por Santo Agostinho:
“Tu estavas dentro de mim e eu estava fora de mim e te procurava
fora de mim! "9
Deixe-me explicar. Na maioria das vezes, sentimos que nossa liberdade é limitada por
nossas circunstâncias: as restrições impostas a nós pela sociedade, as obrigações de todos os
tipos que outras pessoas nos impõem, esta ou aquela limitação física ou de saúde, e assim por
diante. Para encontrar nossa liberdade, imaginamos que temos que nos livrar dessas
restrições e limitações. Quando nos sentimos sufocados ou presos de alguma forma pelas
circunstâncias, ficamos ressentidos com as instituições ou as pessoas que parecem ser seus
causa. Quantas queixas temos de tudo na vida que não acontece como desejamos
e, portanto, nos impede de ser tão livres quanto desejaríamos!
Essa maneira de ver as coisas contém um certo grau de verdade. Às vezes, certas
limitações precisam ser remediadas, restrições superadas, a fim de alcançar a
liberdade. Mas também há muito aqui que está errado e precisa ser desmascarado se
quisermos provar a verdadeira liberdade. Mesmo que tudo o que consideramos
impeditivo de nossa liberdade desaparecesse, isso não seria garantia de que
encontraríamos a plena liberdade que aspiramos. Quando empurramos os limites,
mais limites sempre ficam um pouco mais adiante. Corremos o risco de ficarmos
insatisfeitos para sempre. Sempre encontraremos restrições dolorosas. Podemos
superar um certo número, mas alguns são inflexíveis: as leis físicas, as limitações da
nossa condição humana e da vida em sociedade e muito mais.

Libertação ou suicídio?

O desejo de liberdade que vive no coração de todos os homens e mulheres hoje, portanto,
muitas vezes se manifesta em uma tentativa desesperada de superar as limitações. As
pessoas querem ir mais longe, mais rápido, ter um poder maior de transformar a
realidade. Isso é evidente em todas as esferas. As pessoas pensam que serão mais livres
quando os “avanços” biológicos permitirem que escolham o sexo dos filhos. Eles acham
que encontrarão liberdade sempre que tentarem superar suas capacidades. Não
contentes em fazer o montanhismo “comum”, as pessoas tentam o “montanhismo
extremo” - até o dia em que vão um pouco longe demais e a aventura emocionante
termina em uma queda fatal. Este aspecto suicida de um certo tipo de busca pela
liberdade é representado de forma muito significativa na última cena do filme.The Big Blue
(Le Grand Bleu, dirigido por Luc Besson). O herói, fascinado pela facilidade e liberdade de
movimento dos golfinhos no mar, acaba seguindo-os. O filme omite o óbvio: ele se
condena à morte certa. Quantos jovens foram mortos por excesso de velocidade ou
overdoses de heroína porque aspiravam à liberdade, mas nunca aprenderam o caminho
certo para isso? Isso significa que essa aspiração é apenas um sonho, e devemos renunciar
a ela e nos contentar com uma existência monótona e medíocre? Certamente não! Mas
temos que descobrir a liberdade genuína dentro de nós e em um relacionamento íntimo
com Deus.

“É em seus próprios corações que você é restringido”

Para tentar explicar a natureza desse espaço interior de liberdade que cada um de nós possui
e ninguém pode nos roubar, quero contar-lhes uma pequena experiência minha a
respeito de Santa Teresinha de Lisieux.
Santa Teresa de Lisieux é uma amiga muito querida há muitos anos e
aprendi muito na sua escola de simplicidade e confiança evangélica. Há dois
anos, estive em Lisieux em uma das primeiras ocasiões em que suas relíquias
foram levadas do convento carmelita para uma das cidades que as pediram -
acho que foi Marselha. As carmelitas pediram ajuda aos irmãos da Comunidade
das Bem-aventuranças para transportar o pesado e precioso relicário até o
carro que o levaria ao seu destino. Ofereci-me para este delicioso trabalho e
deu-me a oportunidade inesperada de entrar no recinto do Carmelo de Lisieux
e descobrir, com alegria e emoção, os verdadeiros locais onde Thérèse viveu: a
enfermaria, o claustro, a lavandaria, o jardim com a avenida dos castanheiros -
todos os lugares que conheci pela descrição que a santa fez nos seus escritos
autobiográficos. Uma coisa me surpreendeu: esses lugares eram muito
menores do que eu poderia imaginar. Por exemplo, no final da vida, Thérèse faz
um relato bem-humorado das irmãs que passam para conversar um pouco com
ela a caminho de fazer feno; mas o grande campo de feno que eu havia
imaginado é na realidade um mero lenço de bolso!
Esse fato banal, a pequenez dos lugares onde Thérèse morava, me fez pensar
muito. Percebi que mundo minúsculo, em termos humanos, ela habitava: um pequeno
convento carmelita provinciano, não se destaca pela arquitetura; um jardim minúsculo;
uma pequena comunidade composta de religiosas cuja educação, educação e
maneiras muitas vezes deixavam muito a desejar; um clima onde o sol brilha muito
pouco… E ela passou tão pouco tempo no convento: dez anos! No entanto, e este é o
paradoxo que me surpreendeu, quando você lê os escritos de Thérèse, nunca tem a
impressão de uma vida passada em um mundo restrito, mas exatamente o contrário.
Superando certas limitações de estilo, sua forma de se expressar e sua sensibilidade
espiritual transmitem uma impressão de amplitude, de expansão maravilhosa.
Thérèse vive em horizontes muito amplos, que são aqueles da infinita misericórdia de
Deus e seu desejo ilimitado de amá-lo. Ela se sente uma rainha com o mundo inteiro a
seus pés, porque pode obter tudo de Deus e, por meio do amor, pode viajar a todos os
pontos do globo onde um missionário precisa de suas orações e sacrifícios!

Há todo um estudo à espera de ser feito sobre a importância dos termos usados
por Santa Teresinha para expressar as dimensões ilimitadas do universo espiritual que
ela habita: “horizontes infinitos”, “desejos imensos”, “oceanos de graças”, “abismos de
amor ”,“ torrentes de misericórdia ”e assim por diante. Sobretudo o seu “Manuscrito B”,
que narra a descoberta da sua vocação no seio da Igreja, é muito revelador. Claro que
ela fala do sofrimento, da monotonia do sacrifício, mas
tudo isso é superado e transfigurado pela intensidade de sua vida interior.
Por que o mundo de Thérèse - humanamente falando, um mundo tão estreito e pobre
- dá a sensação de ser tão amplo e espaçoso? Por que essa impressão de
liberdade salta do relato que ela faz de sua vida no Carmelo?
Simplesmente porque Thérèse ama intensamente. Ela está em chamas de
amor a Deus e de caridade para com as irmãs, e leva a Igreja e o mundo inteiro
com ternura materna. Este é o seu segredo: não se fecha no seu pequeno
convento porque ama. O amor tudo transfigura e toca as realidades mais
banais com uma nota de infinito. Todos os santos tiveram a mesma experiência.
Santa Faustina exclama em seu diário espiritual: “O amor é um mistério que
transforma tudo o que toca em coisas belas que agradam a Deus. O amor de
Deus liberta a alma. Então é como uma rainha, sem saber nada de
as restrições da escravidão. ”10
Enquanto refletia sobre isso, uma frase que São Paulo dirigiu aos cristãos em Corinto me
veio à mente: “Vocês não estão restritos por nós, mas estão restritos em seu próprio
corações. ”11
Muitas vezes nos sentimos restritos em nossa situação, nossa família ou ao nosso
redor. Mas talvez o verdadeiro problema esteja em outro lugar: em nossos corações.
Lá somos restringidos e essa é a raiz de nossa falta de liberdade. Se amássemos mais,
o amor daria à nossa vida dimensões infinitas e não nos sentiríamos mais tão
confinados.
Isso não significa que às vezes não existam situações objetivas que precisem ser mudadas,
ou circunstâncias opressivas que precisem ser remediadas antes que o coração possa
experimentar a verdadeira liberdade interior. Mas, muitas vezes, também podemos estar
sofrendo de certa confusão. Culpamos o que está ao nosso redor, enquanto o verdadeiro
problema está em outro lugar: nossa falta de liberdade decorre de uma falta de amor.
Julgamo-nos vítimas de circunstâncias difíceis, quando o problema real (e a sua solução) está
dentro de nós. Nosso coração está aprisionado pelo nosso egoísmo ou medos, e somos nós
que precisamos mudar, aprender a amar, deixando-nos transformar pelo Espírito Santo; essa é
a única maneira de escapar de nossa sensação de confinamento. Pessoas que não aprenderam
a amar sempre se sentirão como vítimas; eles se sentirão restritos onde quer que estejam. Mas
as pessoas que amam nunca se sentem restritas. Foi o que me ensinou a pequena Santa
Teresinha. Ela me fez compreender também outra coisa importante, mas a ser considerada
mais tarde: que nossa incapacidade de amar vem mais freqüentemente de nossa falta de fé e
de nossa falta de esperança.

Uma testemunha do nosso tempo: Etty Hillesum


Quero citar brevemente outro testemunho mais recente sobre a liberdade interior,
muito diferente e muito próximo de Santa Teresinha. Isso me comoveu
profundamente. É o testemunho de Etty Hillesum, uma jovem judia que morreu em
Auschwitz em novembro de 1943 e cujo diário foi publicado em 1981.12 Sua
“história de uma alma” se desenrolou na Holanda em um momento em que
a perseguição aos judeus pelos nazistas estava se intensificando. Quando
Etty começou a escrever seu diário, sua vida moral estava longe de ser
edificante. Ela era emocionalmente vulnerável, não tinha diretrizes morais
fixas e teve vários amantes. Ela foi, no entanto, movida por um forte desejo
pela verdade sobre si mesma. Graças a uma amiga sua, psicóloga e também
judia, descobriu (sem nunca se tornar explicitamente cristã) alguns dos
valores que estão no cerne do cristianismo: a oração, a presença de Deus em
si mesma e o convite evangélico ao abandono ela mesma confiantemente à
Providência. Antes de ser finalmente deportada para Auschwitz, enquanto
prisioneira em um campo de trânsito holandês, ela mostrou fé em Deus,
coragem no sofrimento,
É surpreendente ler como esta jovem se dedicou a viver os valores do Evangelho que
foi descobrindo aos poucos. Justamente quando todas as suas liberdades exteriores iam
sendo progressivamente retiradas, ela descobriu dentro de si uma felicidade e uma
liberdade interior que ninguém poderia roubar dela a partir de então. Há uma passagem
muito significativa em sua experiência espiritual:

Esta manhã pedalei ao longo do Station Quay apreciando a ampla varredura do céu
nos limites da cidade, respirando o ar fresco e sem racionamento. E em todos os
lugares há sinais que impedem os judeus dos caminhos e do campo aberto. Mas
acima do caminho estreito que ainda nos resta, estende-se o céu, intacto. Eles não
podem fazer nada para nós, eles realmente não podem. Eles podem nos assediar,
podem roubar nossos bens materiais, nossa liberdade de movimento, mas nós
mesmos perdemos nossos maiores bens por nossa obediência equivocada. Por
nossos sentimentos de ser perseguido, humilhado, oprimido. Por nosso próprio ódio.
Por nossa arrogância, que esconde nosso medo. É claro que podemos estar tristes e
deprimidos com o que nos foi feito; isso é apenas humano e compreensível. No
entanto, nosso maior dano é aquele que infligimos a nós mesmos. Acho a vida linda
e me sinto livre. O céu dentro de mim é tão amplo quanto o que se estende acima da
minha cabeça. Acredito em Deus e acredito no homem, e digo isso sem
constrangimento. A vida é difícil, mas isso não é ruim. Se alguém começa levando a
sério sua própria importância, o resto se segue. Não é individualismo mórbido
trabalhar sobre si mesmo. A verdadeira paz virá somente quando cada indivíduo
encontrar paz dentro de si; quando todos nós vencemos e transformamos nosso
ódio por nossos semelhantes de qualquer raça - até mesmo um dia no
amor, embora talvez isso seja pedir demais. É, no entanto, a única
solução. Sou uma pessoa feliz e prezo muito pela vida, neste ano de
Nosso Senhor 1942, o enésimo ano da guerra.13

Liberdade interior: liberdade para acreditar, esperar e amar

As experiências de vida de Santa Teresa de Lisieux e Etty Hillesum indicam o próximo


ponto que devemos considerar. A verdadeira liberdade, a liberdade soberana dos cristãos,
reside na possibilidade de acreditar, esperar e amar em todas as circunstâncias,
graças à ajuda do Espírito Santo que “nos ajuda em nossas fraquezas”.14
Ninguém pode nos impedir. “Pois estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem
os principados, nem as coisas presentes, nem as coisas por vir, nem as potestades, nem a altura,
nem a profundidade, nem qualquer outra coisa em toda a criação, será capaz de nos separar
do amor de Deus em Cristo Jesus nosso Senhor. ”15
Nenhuma circunstância do mundo pode nos impedir de acreditar em Deus, de
colocar toda a nossa confiança nele, de amá-lo de todo o coração ou de amar o
nosso próximo. A fé, a esperança e a caridade são absolutamente gratuitas, porque
se estão profundamente enraizadas em nós, podem tirar força de tudo o que se
opõe a elas! Se alguém quisesse nos impedir de crer nos perseguindo, sempre
teríamos a opção de perdoar nossos inimigos e transformar a situação de opressão
em uma de maior amor. Se alguém tentasse silenciar nossa fé nos matando, nossa
morte seria a melhor proclamação possível de nossa fé! O amor, e somente o
amor, pode superar o mal com o bem e tirar o bem do mal.

O restante deste livro visa ilustrar essa bela verdade de diferentes pontos
de vista. Quem o compreende e o põe em prática alcança a liberdade soberana.
O crescimento na fé, esperança e amor é o único caminho para a liberdade.

Antes de investigar isso mais profundamente, vale examinar um ponto importante


que diz respeito às diferentes formas de realmente exercer a liberdade.

Liberdade em ação: escolhendo ou consentindo?

A ideia equivocada de liberdade descrita anteriormente muitas vezes leva as pessoas a


imaginar que a única maneira de exercer a liberdade é escolher o que mais lhes convém
entre várias possibilidades. Quanto maior a gama de opções, eles pensam, maior
será sua liberdade. Eles medem a liberdade pela gama de opções.
Essa ideia de liberdade rapidamente leva a becos sem saída e contradições. É
notavelmente difundido, embora subconscientemente. As pessoas querem ter uma
escolha em todas as circunstâncias da vida. Escolha de destinos de férias, escolha de
empregos, escolha do número de filhos que eles terão e, em breve, escolha do sexo
dos filhos e da cor dos olhos. Sonham com uma vida semelhante a um imenso
supermercado, onde cada corredor oferece um vasto leque de possibilidades e podem
passear à vontade, levando o que quiserem e deixando o resto. Ou, para usar outra
imagem, as pessoas gostariam de selecionar suas vidas ao escolher roupas em um
enorme catálogo de pedidos pelo correio.
Bem, é perfeitamente verdade que o uso da liberdade muitas vezes envolve uma
escolha entre diferentes opções. Isso é uma coisa boa. Mas seria completamente irreal ver
toda a questão apenas desse ângulo. Existem muitos aspectos fundamentais de nossas
vidas que não escolhemos de forma alguma: nosso sexo, nossos pais, a cor de nossos
olhos, certos aspectos de nosso caráter, nossa língua materna. Em alguns aspectos, os
elementos que escolhemos na vida são muito menos importantes do que aqueles sobre os
quais não temos escolha.
Além do mais, quando somos adolescentes, nossas vidas parecem se estender diante de
nós com uma ampla gama de possibilidades para escolher; mas com o passar do tempo, esse
intervalo ficará cada vez mais estreito. Temos que fazer escolhas, e as opções que
selecionamos reduzem o número de possibilidades em aberto. Casar significa escolher um
homem ou uma mulher, excluindo todos os outros. (Também vale a pena perguntar em que
sentido as pessoas realmenteescolher a pessoa com quem se casam - na maioria das vezes,
eles se casam com aquela por quem se apaixonam, o que não é realmente uma escolha, como
a palavra “cair” sugere! Mas não é pior para isso.)
Às vezes digo, brincando, que a escolha do celibato pelo bem do Reino e a escolha
do casamento cristão são basicamente muito semelhantes. Um homem celibatário
opta por renunciar a todas as mulheres, e um homem que se casa renuncia a todas as
mulheres, exceto uma. Essa não é realmente uma diferença tão grande!
Quanto mais velho alguém fica, menos opções se tornam. “Em verdade, em
verdade, eu digo a você, quando você era jovem, você se cingiu e caminhou para onde
queria; mas quando você for velho, você vai estender as mãos, e outro vai cingir você
e carregá-lo onde você não deseja ir. ”16 Então, o que restará de nossa liberdade, se a
virmos nos termos de “supermercado” descritos anteriormente?
Essa falsa ideia de liberdade tem profundas repercussões no comportamento dos
jovens de hoje, incluindo sua abordagem do casamento ou outras formas de
compromisso: eles adiam a escolha final, porque a escolha é percebida como uma perda
de liberdade. Resultado: eles não se atrevem a decidir e nunca realmente vivem! Ainda
a vida escolhe por eles de qualquer maneira, já que o tempo passa inexoravelmente.

Ser livre também significa consentir com o que não escolhemos

O exercício da liberdade como escolha entre opções, evidentemente, é importante. No


entanto, para evitar erros dolorosos, também precisamos entender que existe uma outra
forma de exercer a liberdade: menos imediatamente emocionante, mais pobre, mais
humilde, mas muito mais comum e imensamente fecunda, tanto humana quanto
espiritualmente. Isto éconsentir com o que não escolhemos originalmente.
Vale ressaltar a importância dessa forma de exercer nossa liberdade. A forma mais
elevada e fecunda de liberdade humana é encontrada em aceitar, ainda mais do que
em dominar. Mostramos a grandeza da nossa liberdade quando transformamos a
realidade, mas ainda mais quando a aceitamos com confiança como nos é dada dia
após dia.
É natural e fácil conviver com situações agradáveis que surgem sem que as tenhamos
escolhido. Obviamente, torna-se um problema quando as coisas são desagradáveis, vão
contra nós ou nos fazem sofrer. Mas é precisamente então que, para nos tornarmos
verdadeiramente livres, muitas vezes somos chamados a escolher aceitar o que não
queríamos e até o que não quereríamos a qualquer preço. Há uma paradoxal lei da vida
humana aqui: não se pode tornar-se verdadeiramente livre a menos que aceite nem
sempre ser livre!
Para alcançar a verdadeira liberdade interior devemos treinar-nos para aceitar, com
paz e de boa vontade, muitas coisas que parecem contradizer a nossa liberdade. Isso
significa consentir com nossas limitações pessoais, nossas fraquezas, nossa impotência,
esta ou aquela situação que a vida nos impõe, e assim por diante. Achamos difícil fazer
isso, porque sentimos uma repulsa natural por situações que não podemos controlar. Mas
o fato é queas situações que realmente nos fazem crescer são precisamente
aqueles que não controlamos.17 Existem muitos exemplos.

Rebelião, renúncia, consentimento

Antes de prosseguir, será útil esclarecer nossos termos. Quando nos deparamos com coisas
que achamos desagradáveis ou que consideramos negativas, em nós mesmos ou em nossas
situações, existem três atitudes possíveis.
O primeiro é rebelião. Por exemplo, não nos aceitamos como somos; rebelamo-nos
contra Deus que nos fez assim, contra a vida que permitiu este ou aquele acontecimento,
contra a sociedade e assim por diante. Verdade, a rebelião nem sempre é negativa - é
pode ser uma reação instintiva e necessária em certas situações de sofrimento
desesperado; então é uma reação saudável, desde que não permaneçamos
fixados nela. A rebelião também pode ser positiva como a rejeição de uma
situação inaceitável, contra a qual se age, por motivos justos e por meios
legítimos e proporcionais. O que estamos considerando aqui, no entanto, é a
rebelião como a rejeição da realidade. Essa costuma ser nossa primeira reação
espontânea à dificuldade ou ao sofrimento. Mas isso nunca resolveu nada. Tudo
o que esse tipo de rebelião faz é adicionar outro mal ao existente. É fonte de
desespero, violência e ressentimento. Um certo tipo de romantismo literário
defende a rebelião, mas o bom senso nos diz que nada de grande ou positivo
jamais foi construído sobre a rebelião como uma rejeição da realidade:

A rebelião pode ser seguida por renúncia. Percebemos que não podemos mudar essa
situação, ou não podemos mudar a nós mesmos, e acabamos nos resignando. A
resignação pode representar um certo grau de progresso para além da rebelião, no
sentido de que conduz a uma abordagem menos agressiva e mais realista. Mas não é
suficiente. Pode ser uma virtude para os filósofos, mas não é uma virtude cristã, pois não
inclui a esperança. A resignação é uma declaração de impotência que não vai além. Pode
ser uma etapa necessária, mas se parar por aí também é estéril.
A atitude a ter como objetivo é consentimento. Comparado com a resignação, o
consentimento leva a uma atitude interior completamente diferente. Dizemos sim a uma
realidade que inicialmente vimos como negativa, porque percebemos que dela pode surgir
algo de positivo. Isso sugere esperança. Podemos, por exemplo, dizer sim ao que somos
apesar de nossas falhas, porque sabemos que Deus nos ama; confiamos que, por nossas
deficiências, o Senhor é capaz de fazer coisas esplêndidas. Podemos dizer sim às matérias-
primas humanas mais pobres e decepcionantes, porque acreditamos que “o amor é tão
poderoso nas ações que é capaz de extrair o bem de tudo, tanto o bem
e o mal que encontra em mim ”, disse Santa Teresinha de Lisieux.18
A diferença fundamental entre resignação e consentimento é que com
consentimento, embora a realidade objetiva permaneça a mesma, a atitude de nossos
corações é muito diferente. Eles já contêm as virtudes da fé, esperança e amor em
embrião, por assim dizer. Por exemplo, consentir nas deficiências do nosso próprio ser
significa confiar em Deus, que nos criou como somos. Esse ato de consentimento,
portanto, contém fé em Deus, confiança nele e, portanto, também amor, pois confiar
em alguém já é uma forma de amá-lo. Por causa dessa presença de fé, esperança e
amor, o consentimento adquire grande valor, alcance e fecundidade. Pois onde quer
que haja fé, esperança ou amor, a abertura à graça de Deus, a aceitação da graça e,
mais cedo ou mais tarde, os efeitos positivos da graça estão necessariamente
presentes. Onde a graça é aceita, nunca é em vão,
2. Aceitando a nós mesmos

Deus é realista

Pode ser que em várias partes de nossas vidas tenhamos que seguir o caminho
possivelmente difícil - que leva da rebelião ou resignação ao consentimento e termina
finalmente em “escolher o que não escolhemos”.
Vamos começar com algumas idéias sobre o lento processo de aprender a nos amar
corretamente, aceitando-nos totalmente como somos. Em primeiro lugar, a coisa mais importante
em nossas vidas não é tanto o quenós pode fazer como deixar espaço para o que Deus pode fazer.
O grande segredo de toda fecundidade e crescimento espiritual é aprender a deixar
Deus aja. “Além de mim, você não pode fazer nada,”19 Jesus nos diz. O amor de Deus é
infinitamente mais poderoso do que qualquer coisa que possamos fazer por nossa própria
sabedoria ou força. No entanto, uma das condições mais essenciais para a graça de Deus
agir em nossas vidas é dizer sim ao que somos e às situações em que nos encontramos.

Isso porque Deus é "realista". Sua graça não opera em nossas imaginações, ideais
ou sonhos. Trabalha na realidade, os elementos específicos e concretos de nossas
vidas. Mesmo que o tecido de nossa vida cotidiana não pareça muito glorioso para
nós, somente aí podemos ser tocados pela graça de Deus. A pessoa que Deus ama
com a ternura de um Pai, a pessoa que quer tocar e transformar com o seu amor, não
é a pessoa que gostaríamos ou deveríamos ser. É a pessoa que somos. Deus não ama
"pessoas ideais" ou "seres virtuais". Ele adora pessoas reais. Ele não está interessado
em figuras santas em vitrais, mas em nós, pecadores. Muito tempo pode ser perdido
na vida espiritual reclamando que não somos assim ou não somos assim, lamentando
esse defeito ou aquela limitação, imaginando todo o bem que poderíamos fazer se, em
vez de ser como somos, éramos menos defeituosos, mais dotados com esta ou aquela
qualidade ou virtude, e assim por diante. Aqui está uma perda de tempo e energia que
apenas impede a obra do Espírito Santo em nossos corações.

O que muitas vezes bloqueia a ação da graça de Deus em nossas vidas são menos nossos
pecados ou falhas do que nossa falha em aceitar nossa própria fraqueza - todas aquelas
rejeições, conscientes ou não, do que realmente somos ou de nossa situação real. Para
"libertar a graça" em nossas vidas e abrir caminho para mudanças profundas e espetaculares,
às vezes seria suficiente dizer simplesmente “sim” - um “sim” inspirado pela confiança em
Deus a aspectos de nossas vidas que temos rejeitado. Recusamo-nos a admitir que temos
esse defeito, esse ponto fraco, fomos marcados por esse evento, caímos naquele pecado.
E assim bloqueamos a ação do Espírito Santo, uma vez que ele só pode afetar nossa
realidade na medida em que a aceitamos. O Espírito Santo nunca age a menos que
cooperemos livremente. Devemos nos aceitar como somos, se o Espírito Santo quiser nos
mudar para melhor.
Da mesma forma, se não aceitamos os outros - por exemplo, se estamos com raiva deles por
não serem como queremos - não permitimos que o Espírito Santo aja positivamente em nossos
relacionamentos ou crie uma oportunidade para mudar. Este é um ponto que consideraremos com
mais detalhes posteriormente.
As atitudes descritas são estéreis. São uma recusa da realidade, enraizada na falta de
fé em Deus e na falta de esperança, que produzem falta de amor. Assim, estamos
fechados para a graça e a ação de Deus é impedida.

Desejo de mudança e consente com o que somos

Alguém poderia objetar que essa ideia da necessidade de “consentir com o que
somos”, com todas as nossas deficiências e limitações, significa mera passividade e
preguiça. Não deveríamos desejar mudar, crescer, superar-nos para melhorar? O
Evangelho não nos convida à conversão com as palavras “Seja perfeito,
como o seu Pai celestial é perfeito ”?20
O desejo de melhorar, de se esforçar sempre para nos superar para crescer na
perfeição é obviamente indispensável. Não há como abandoná-lo. Parar de seguir em
frente significa parar de viver. Qualquer um que nãoquer para se tornar santo nunca
será. Em última análise, Deus nos dá o que desejamos, nem mais nem menos. Mas,
para nos tornarmos santos, devemos nos aceitar como somos. Essas duas afirmações
são apenas aparentemente contraditórias: ambas as coisas são igualmente
necessárias, porque se complementam e se equilibram. Precisamos aceitar nossas
limitações, mas sem nunca nos resignarmos à mediocridade. Precisamos desejar
mudar, mas sem nunca nos recusar, mesmo inconscientemente, a reconhecer nossas
limitações ou aceitar a nós mesmos.
O segredo é muito simples. É compreender que só podemos transformar a realidade
de maneira produtiva se primeiro a aceitarmos. Isso também significa ter a humildade de
reconhecer que não podemos nos transformar por nossos próprios esforços, mas que
todo progresso na vida espiritual, toda vitória sobre nós mesmos, é um dom da graça de
Deus. Não receberemos a graça de mudar a menos que desejemos; mas para receber a
graça que nos transformará, devemos "receber" a nós mesmos - para aceitar
nós mesmos como realmente somos.

A mediação dos olhos do outro

Aceitar a nós mesmos é muito mais difícil do que pode parecer. Orgulho, medo de não ser
amado, a convicção de que valemos pouco estão profundamente enraizados em nós.
Pense em como reagimos mal às nossas quedas, erros e fracassos, como ficamos
desmoralizados e perturbados, como eles nos fazem sentir culpados.
Somente sob o olhar de Deus podemos nos aceitar plena e verdadeiramente.
Precisamos ser olhados por alguém que diga, como Deus fez por meio do profeta Isaías:
"Você é precioso aos meus olhos e honrado, e eu te amo."21 Considere uma experiência
muito comum: uma garota que acredita que é simples (como, curiosamente, muitas
garotas, até mesmo as bonitas!) Começa a pensar que ela pode não ser tão assustadora
afinal no dia em que um jovem se apaixona por ela e olha para ela com os olhos ternos de
quem está apaixonado.
Precisamos urgentemente da mediação dos olhos do outro para nos amarmos e
nos aceitarmos. Os olhos podem ser os de um pai, de um amigo, de um diretor
espiritual; mas, acima de tudo, são de Deus nosso Pai. O olhar em seus olhos é o mais
puro, verdadeiro, terno, amoroso e cheio de esperança deste mundo. O maior
presente dado àqueles que buscam a face de Deus perseverando na oração pode ser
que um dia eles percebam algo desse olhar divino sobre si mesmos; eles se sentirão
amados com tanta ternura que receberão a graça de se aceitarem em profundidade.

O que acabamos de dizer tem uma consequência importante. Quando as


pessoas se desligam de Deus, elas se privam de qualquer possibilidade real de
amando a si mesmos.22 Isso também funciona de outra maneira: as pessoas
que odeiam a si mesmas se desligam de Deus. NoDiálogos das Carmelitas de
Georges Bernanos, a idosa prioresa dirige as seguintes palavras à jovem
Blanche de la Force: “Acima de tudo, nunca se despreze. É difícil nos desprezar
sem ofender a Deus em nós. ”23
Para terminar, aqui está um pequeno trecho do belo livro de Henri Nouwen
O retorno do filho pródigo:
Por muito tempo considerei a baixa autoestima uma espécie de virtude. Fui
advertido tantas vezes contra o orgulho e a vaidade que passei a considerar uma
boa coisa me depreciar. Mas agora eu percebo que o verdadeiro pecado é negar
o primeiro amor de Deus por mim, ignorar minha bondade original. Porque sem
reivindicar aquele primeiro amor e aquela bondade original para
eu mesmo, eu perco o contato com meu verdadeiro eu e embarco na busca
destrutiva entre as pessoas erradas e nos lugares errados pelo que só pode ser
encontrado na casa de meu pai.24

Liberdade para ser pecadores, liberdade para se tornarem santos

Quando nos vemos com os olhos de Deus, experimentamos uma liberdade tremenda. Isso
poderia ser chamado de dupla liberdade: ser pecador e tornar-se santo.
A liberdade de ser pecadores não significa que somos livres para pecar sem nos
preocupar com as consequências - isso não seria liberdade, mas irresponsabilidade.
Significa que não somos esmagados pelo fato de sermos pecadores - temos uma espécie
de “direito” de ser pobres, o direito de ser o que somos. Deus conhece nossas fraquezas e
enfermidades, mas não se escandaliza com elas e não nos condena. “Tão ternamente
como um pai trata seus filhos, assim Yahweh trata aqueles que o temem; ele
sabe do que somos feitos, ele se lembra de que somos pó ”.25 É claro que Deus está nos
convidando à santidade, estimulando-nos à conversão e ao progresso. Mas seu olhar
nunca nos angustia só de pensar em não administrar. Não sentimos a “pressão” que às
vezes vem de outras pessoas ou da forma como nos julgamos, nos dizendo que nunca
seremos bons o suficiente, nos deixando permanentemente insatisfeitos conosco mesmos
e sempre culpados por não estarmos à altura de alguma expectativa ou padrão. O fato de
sermos pobres pecadores não significa que devemos nos sentir culpados por existir, como
muitas pessoas podem inconscientemente fazer. O olhar de Deus nos dá plenos direitos
de sermos nós mesmos, com nossas limitações e deficiências. Dá-nos o “direito de cometer
erros” e livra-nos, por assim dizer, da sensação aprisionadora de que devemos ser outra
coisa que não somos. Esse sentimento não se origina na vontade de Deus, mas em nossas
psiques danificadas.
Na vida social, experimentamos uma tensão constante sobre atender às expectativas
das outras pessoas sobre nós (ou o que imaginamos que sejam). Isso pode se tornar um
fardo opressor. O mundo deu as costas ao Cristianismo com seus dogmas e
mandamentos, sob o argumento de que é uma religião de culpa. No entanto, nunca houve
um tempo em que as pessoas estivessem tão sobrecarregadas de culpa como hoje. As
meninas se sentem culpadas por não serem tão bonitas quanto a modelo da última moda.
Os homens se sentem culpados por não serem tão bem-sucedidos quanto o inventor da
Microsoft. E por aí vai. Os padrões de sucesso ditados pela cultura contemporânea pesam
muito mais sobre nós do que o apelo à perfeição feito por Jesus. Ele nos diz no Evangelho:
“Vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tome meu
jugo sobre você e aprenda comigo, pois sou manso
e humilde de coração. Pois meu jugo é fácil e meu fardo é leve. ”26
Sob o olhar de Deus, somos libertos da restrição de ter que ser "os melhores" ou
de ser perpetuamente "vencedores". Temos um profundo senso de liberação, porque
não temos que fazer esforços constantes para nos mostrar em uma luz favorável ou
desperdiçar energia fingindo ser o que não somos. Podemos simplesmente ser o que
somos. Não há melhor forma de “relaxamento” do que descansar como criancinhas na
ternura de um Pai que nos ama como somos.
Achamos muito difícil aceitar nossas próprias deficiências porque imaginamos que
elas nos tornam indesejáveis. Por sermos defeituosos neste ou naquele aspecto, sentimos
que não merecemos ser amados. Viver sob o olhar de Deus nos faz perceber o quão
equivocado isso é. O amor é dado gratuitamente, não é merecido e nossas deficiências
não impedem Deus de nos amar - muito pelo contrário! Assim, ficamos livres da sensação
terrível e desesperadora de que devemos nos tornar “bons o suficiente” para merecer ser
amados.
Mas, embora nos “autorize” a ser nós mesmos, os pobres pecadores que somos, o
olhar de Deus também nos permite ser supremamente ousados em nosso desejo de
santidade. Temos o direito de aspirar ao cume, de aspirar ao mais alto nível de santidade,
porque Deus o quer e pode conceder. Nunca somos aprisionados em nossa própria
mediocridade ou forçados a uma espécie de resignação enfadonha, pois sempre temos a
esperança de progredir no amor. Deus pode fazer de nós, pecadores que somos, em
santos: sua graça pode realizar até mesmo esse milagre, e podemos ter fé ilimitada no
poder de seu amor. Mesmo que caiamos todos os dias, contanto que nos levantemos de
novo e digamos: “Senhor, obrigado, porque tenho certeza que me farás um santo!” damos
imenso prazer a Deus e mais cedo ou mais tarde receberemos dele o que esperamos.

A atitude correta para com Deus, então, é ter uma aceitação muito pacífica e
“relaxada” de nós mesmos e nossas fraquezas, bem como um desejo imenso de
santidade e uma forte determinação de progredir, baseada na confiança ilimitada na
graça de Deus. Essa dupla atitude está bem expressa em uma passagem do diário
espiritual de Santa Faustina:

Desejo amá-lo mais do que qualquer pessoa já amou antes. E apesar da minha
miséria e pequenez, tenho a minha confiança profundamente ancorada no abismo
da Tua misericórdia, meu Deus e meu criador! Apesar da minha grande miséria, não
tenho medo de nada, mas mantenho a esperança de cantar minha canção de louvor
para sempre. Que nenhuma alma duvide, mesmo a mais lamentável, enquanto eles
ainda estão vivos, que eles podem se tornar um grande santo. Para ótimo
é o poder da graça de Deus.27
“Crenças limitantes” e auto-proibições

O que acabamos de dizer nos permitirá evitar o falso entendimento de que aceitar-nos com
nossas deficiências significa fechar-nos dentro de nossas limitações. Por causa de lesões e
experiências passadas (alguém que uma vez nos disse: "Você não vai conseguir", "Você nunca
vai ser bom", etc.), por causa de certas falhas, e também por causa de nossa falta de confiança
em Deus, temos uma forte tendência de carregar todo um conjunto de “crenças limitantes” ou
convicções irreais que nos fazem pensar que nunca seremos capazes de fazer isso ou aquilo,
de enfrentar tal ou tal situação. Existem inúmeros exemplos. Dizemos a nós mesmos: “Nunca
vou conseguir isso, nunca vou resolver isso, as coisas serão sempre as mesmas”. Esses
sentimentos não têm nada a ver com o consentimento para nossas próprias limitações que
estivemos examinando. Eles são apenas o resultado de feridas passadas, nossos medos, ou
nossa falta de confiança em nós mesmos e em Deus. Eles devem ser desmascarados, não
agarrados. Ao consentir em ser o que somos, aceitamos a nós mesmos em nossa pobreza, mas
também em nossa riqueza, e isso permite que todas as nossas capacidades honestas, nossas
verdadeiras habilidades, cresçam e floresçam. Antes de dizer que não podemos fazer isso ou
aquilo, devemos discernir se essa estimativa é fruto de um realismo espiritual saudável ou de
uma convicção puramente psicológica que precisa ser curada.

Às vezes, tendemos a nos proibir de alguma aspiração saudável, alguma


realização ou felicidade legítima. Um mecanismo psicológico subconsciente nos
faz negar a felicidade por um sentimento de culpa ou pode vir de uma falsa
ideia da vontade de Deus, como se devêssemos nos privar sistematicamente de
tudo de bom na vida! Em qualquer caso, não tem nada a ver com realismo
espiritual genuíno e aceitação de nossas próprias limitações. Deus às vezes nos
chama para fazer sacrifícios, mas também nos liberta de medos e do falso
senso de culpa aprisionadora. Ele nos devolve a liberdade de acolher o que quer
de bom e agradável que queira nos dar para nos encorajar e mostrar sua
ternura.
Se há uma área onde nada nos será proibido, é a santidade, desde que não seja
confundida com perfeição externa, feitos extraordinários ou uma incapacidade
permanente de pecar. Se entendermos a santidade de maneira adequada, como a
possibilidade de crescer indefinidamente no amor a Deus e aos irmãos, podemos ter
certeza de que nada estará fora de nosso alcance. Tudo o que precisamos fazer é nunca
desanimar e nunca resistir, mas confiar completamente na ação da graça de Deus.
Nem todos temos em nós matéria de sábios ou heróis. Mas, pela graça de
Deus, temos coisas de santos. Esse é o manto batismal que vestimos quando
recebemos o sacramento que nos tornou filhos de Deus.
Aceitar a nós mesmos para aceitar outras pessoas

Um outro ponto precisa ser considerado: a profunda conexão bidirecional entre a


aceitação de nós mesmos e a aceitação de outras pessoas. Cada um fortalece o outro.

Freqüentemente, deixamos de aceitar os outros porque, no fundo, não aceitamos a


nós mesmos. Se não estivermos em paz conosco, necessariamente nos encontraremos em
guerra com outras pessoas. A não aceitação de si mesmo cria uma tensão interna, uma
sensação de insatisfação e frustração que é então descontada nos outros, que se tornam
bodes expiatórios para nosso conflito interno. Então, por exemplo, quando estamos de
mau humor com as pessoas ao nosso redor, muitas vezes é porque estamos descontentes
conosco! Etty Hillesum escreveu: "Aos poucos, percebi que, naqueles dias em que você
está em desacordo com seus vizinhos, você está realmente em conflito com
você mesma. 'Amarás o teu próximo como a ti mesmo.' ”28
Por outro lado, se fecharmos nossos corações contra as outras pessoas, não fizermos
nenhum esforço para amá-las como são, nunca aprendermos a nos reconciliar com elas, nunca
teremos a graça de praticar a reconciliação profunda com nós mesmos de que todos
precisamos. Em vez disso, seremos vítimas perpétuas de nossa mesquinhez e julgamentos
severos para com o próximo. Este é um ponto importante a ser desenvolvido posteriormente.

3. Aceitando o sofrimento

Consentindo com as dificuldades

Depois de examinar a autoaceitação, podemos agora considerar a aceitação dos eventos. O


princípio básico é o mesmo: não podemos mudar nossas vidas de forma eficaz, a menos que
comecemos por aceitá-los, acolhê-los totalmente e, assim, consentir com todos os eventos
externos que nos confrontam.
Isso não é difícil no caso do que percebemos como bom, agradável e positivo. Mas é
difícil quando envolve qualquer tipo de contratempo ou sofrimento. A seguir, as coisas que
consideramos negativas são genericamente chamadas de "dificuldades".
O assunto precisa ser tratado com cuidado. Não se trata de ficar passivo e
aprender a suportar tudo, sem reagir. Mas sejam quais forem os projetos que
tenhamos e por mais que os planejemos bem, muitas vezes situações que são
além do nosso controle e envolvem uma série de eventos contrários às nossas
expectativas, esperanças e desejos ocorrem, e devemos aceitá-lo.
Não devemos nos limitar a aceitar as coisas com relutância, mas devemos realmente
consentir com elas - não suportá-las, mas em certo sentido “escolhê-las” (mesmo que na
verdade não tenhamos escolha, e isso é o que mais nos irrita). Escolher aqui significa fazer
um ato livre pelo qual não apenas nos resignamos, mas também acolhemos a situação.
Isso não é fácil, especialmente no caso de provações realmente dolorosas, mas é a
abordagem certa e devemos seguir o máximo possível com fé e esperança. Se tivermos fé
suficiente em Deus para acreditar que ele é capaz de tirar o bem de tudo o que nos
acontecer, ele o fará. “Como você acreditou, então que seja feito para
você ”, diz ele repetidamente no Evangelho.29
Esta é uma verdade absolutamente fundamental: Deus pode extrair o bem de
tudo, bom e mau, positivo e negativo. Pois ele é Deus, o “Pai Todo-Poderoso” que
professamos no Credo. Tirar o bem do bem não é tão difícil. Mas somente Deus,
em sua onipotência, seu amor e sua sabedoria, pode tirar o bem do mal. Como?
Nenhuma filosofia ou argumento teológico pode explicá-lo completamente. Nosso
trabalho é acreditar na palavra da Escritura que nos convida a esta
grau de confiança: “Em tudo Deus trabalha para o bem daqueles que o amam.”30
Se acreditarmos nisso, nós o experimentaremos. Santa Teresa de Lisieux, relendo sua
autobiografia alguns dias antes de sua morte, disse: “Tudo é graça”.
A seguir, algumas sugestões para entrar nessa atitude.

O sofrimento mais doloroso é o sofrimento que rejeitamos

A pior dor do sofrimento está em rejeitá-lo. À própria dor, adicionamos então rebelião,
ressentimento e a perturbação que esse sofrimento desperta em nós. A tensão dentro de
nós aumenta nossa dor. Mas quando temos a graça de aceitar um sofrimento e consentir
com ele, ele se torna imediatamente muito menos doloroso. “O sofrimento pacífico não é
mais sofrimento”, disse o Cura d'Ars, São João Maria Vianney.
A coisa natural a fazer em face do sofrimento é remediá-lo tanto quanto pudermos. Se
tivermos dor de cabeça, devemos tomar aspirina. Mas sempre haverá sofrimentos sem
remédio, e devemos nos esforçar para aceitá-los em paz. Isso não é masoquismo ou amor
ao sofrimento pelo sofrimento, mas exatamente o contrário, uma vez que consentir no
sofrimento o torna muito mais suportável do que nos tensionar contra ele. Isso é verdade
no que diz respeito ao sofrimento físico: um golpe recebido com uma atitude dura e tensa
causa muito mais danos do que um golpe recebido com uma atitude relaxada. Querer
eliminar o sofrimento a todo custo às vezes pode produzir mais sofrimentos ainda mais
difíceis de suportar. A noção de nossa sociedade hedonista
que todo sofrimento é um mal a ser evitado a qualquer preço leva as pessoas a se
tornarem infelizes. Aqueles que procuram evitar toda a dor e experimentar apenas o
que é agradável e confortável, mais cedo ou mais tarde se verão carregando cruzes
muito mais pesadas do que aqueles que tentam consentir em sofrimentos que seria
irreal tentar eliminar.
Ao aceitar o sofrimento, encontramos uma nova força. A Escritura fala de “o pão
de lágrimas. ”31 Deus é fiel e sempre nos dá a força necessária para suportar, dia
após dia, o que é pesado e difícil em nossa vida. Etty Hillesum disse: “Agora
percebo, Deus, o quanto o Senhor me deu. Tanto isso era lindo e tanto que era
difícil de suportar. No entanto, sempre que me mostrei pronto para suportar
nele, o duro foi diretamente transformado no belo. ”32
Em contraste, a graça nos escapará quando tentarmos suportar os sofrimentos adicionais que
acumulamos sobre nós mesmos ao nos recusarmos a consentir nas provações normais da vida.
Mais um ponto: O que realmente dói não é tanto o próprio sofrimento, mas o
medo de sofrer. Se acolhido com confiança e paz, o sofrimento nos faz crescer.
Amadurece e nos treina, nos purifica, nos ensina a amar com altruísmo, nos torna
pobres de coração, humildes, gentis e compassivos para com o próximo. O medo do
sofrimento, por outro lado, endurece-nos em atitudes de autoproteção e defesa, e
muitas vezes nos leva a fazer escolhas irracionais com consequências desastrosas. “O
homem sofre mais com o medo de sofrer”, disse Etty Hillesum. O pior tipo de
sofrimento não é aquele que experimentamos; isto érepresentado sofrimento que
domina a imaginação e nos faz adotar falsas atitudes. Não é a realidade (basicamente
positiva, mesmo com sua parcela de sofrimento) que causa problemas, mas a maneira
como a imaginamos e a retratamos.

Recusar-se a sofrer significa recusar-se a viver

A cultura atual, por meio da publicidade e da mídia, nos faz serenatas sem parar com
seu “evangelho”: evite o sofrimento a todo custo, busque só o prazer. Deixa de dizer
que não há maneira mais segura de se tornar infeliz do que fazer exatamente isso. O
sofrimento deve ser remediado sempre que possível, mas faz parte da vida, e tentar se
livrar dele completamente significa suprimir a vida, recusar-se a viver e, em última
análise, rejeitar a beleza e a bondade que a vida pode nos trazer. “Quem busca ganhar
sua vida vai perdê-la, mas quem perde sua vida vai
preservá-lo, ”33 Jesus nos diz, e seu Evangelho é muito mais confiável do que o evangelho
da propaganda. O prazer é bom e também faz parte da vida. Se não existisse, não
poderíamos “dar prazer”, que é a melhor maneira de mostrar aos outros que os amamos.
Mas o prazer não deve ser “obtido” de forma egoísta. É para ser dado e
aceitaram. Ao fugir de um pouco de sofrimento (o tipo comum que seria fácil de
aceitar), as pessoas freqüentemente infligem a si mesmas sofrimentos muito piores.
Por exemplo, já vi pais que se atormentaram durante anos simplesmente porque não
podiam aceitar a vocação de um filho. Rejeitando o sofrimento da separação
ocasionado por uma escolha de vida diferente do que haviam imaginado, eles
infligiram anos de infelicidade a si mesmos. Tais exemplos mostram que a aceitação
do sofrimento e do sacrifício (quando eles são legítimos, é claro) não é uma atitude
masoquista e autodestrutiva, mas apenas o oposto. Aceitando os sofrimentos
“oferecidos” pela vida e permitidos por Deus para o nosso progresso e purificação,
poupamos-nos de outros muito mais difíceis. Precisamos desenvolver esse tipo de
realismo e, de uma vez por todas, parar de sonhar com uma vida sem sofrimento ou
conflito. Essa é a vida do céu, não da terra. Devemos tomar nossa cruz e seguir a Cristo
corajosamente todos os dias; o amargor daquela cruz mais cedo ou mais tarde se
transformará em doçura.
As consequências de longo prazo das atitudes internas são mais importantes do
que parecem. Diante do sofrimento diário, do “fardo do dia e do calor” e do cansaço,
não devemos perder tempo amaldiçoando interiormente ou dizendo a nós mesmos
que não podemos esperar até que acabe ou sonhar com uma vida diferente. Devemos
aceitar as coisas como são. A vida é boa e bela exatamente como é, incluindo seu fardo
de sofrimento. Quando Deus criou o homem e a mulher, Ele deu uma bênção imensa a
cada vida humana, e essa bênção nunca foi retirada, apesar do pecado e de todas as
suas consequências: “Porque os dons e o chamado de Deus são
irrevogável"34—Especialmente o primeiro presente e o primeiro chamado, o da própria vida. Cada
vida, mesmo quando sujeita à dor, é infinitamente abençoada e valiosa.
Essa atitude nos coloca firmemente dentro da realidade e conserva a energia que de outra
forma seria desperdiçada reclamando, desejando que as coisas fossem diferentes, sonhando
com um mundo impossível. Como cristãos, podemos ter certeza de que uma eternidade de
felicidade nos aguarda: "Alegria eterna estará em seus rostos", "e a noite não será
mais; eles não precisam de luz de lâmpada ou sol, pois o Senhor Deus será sua luz ... ”35
Não temos nenhum motivo verdadeiro para reclamar das dificuldades da vida. Levemos a
sério as palavras de São Paulo: “Esta leve e momentânea aflição nos prepara uma
peso eterno de glória além de qualquer comparação. ”36

A maldade não é de todo ruim: o lado positivo das dificuldades

Temos também de admitir que as dificuldades, por mais difíceis que sejam, trazem não apenas
desvantagens, mas também vantagens.
A primeira vantagem é que eles nos impedem de assumir
propriedade de nossas vidas e nosso tempo. Eles nos impedem de nos fecharmos em
nossos programas, nossos planos, nossa sabedoria. Eles nos libertam da prisão de nós
mesmos: nossa estreiteza mental e estreiteza de julgamento. “Assim como os céus são
mais altos do que a terra, meus caminhos são mais altos do que os seus, e minha
pensamentos do que seus pensamentos, diz o Senhor. ”37 O pior que poderia acontecer
seria tudo correr exatamente como a gente queria, pois isso seria o fim de qualquer
crescimento. Para poder entrar aos poucos na sabedoria de Deus, infinitamente
mais bonita, mais rica, mais fecunda e mais misericordiosa que a nossa,38 nossa sabedoria
humana precisa de uma reformulação muito completa. Não para destruí-lo, mas para elevá-lo
e purificá-lo e libertá-lo de suas limitações. É sempre marcado por uma certa medida de
egoísmo e orgulho, e por falta de fé e amor. Nossa visão estreita precisa se abrir para a
sabedoria de Deus; exigimos uma renovação profunda. O pecado, por sua natureza, está se
estreitando: santidade é abertura de espírito e grandeza de alma.

Da maestria ao abandono: purificando a mente

Em situações de provação, não saber por que estamos sendo testados com frequência é mais difícil
de suportar do que o próprio teste. "Qual é o significado?" as pessoas perguntam. "Por que?" E eles
não obtêm resposta. Quando, ao contrário, a razão está satisfeita, o sofrimento é muito mais fácil
de aceitar. É como o médico que nos magoa - não ficamos com raiva dele porque entendemos que
ele faz isso para nos deixar melhores.
Vamos refletir sobre o papel da razão e da mente na vida espiritual.
Como todas as faculdades que Deus nos dotou, a inteligência é profundamente boa e útil.
O homem tem sede de verdade, uma necessidade de compreender, isso faz parte da dignidade
e da grandeza humanas. Desprezar a inteligência, suas capacidades e seu papel
na vida humana e espiritual seria injusto.39 A fé não pode viver sem razão; e nada é mais
belo do que a possibilidade dada ao homem de cooperar na obra de Deus pela liberdade,
compreensão e todas as nossas outras faculdades. Aqueles momentos de nossas vidas em
que nossas mentes compreendem o que Deus está fazendo, para o que ele nos chama,
como nos ensina a crescer, permitem-nos cooperar plenamente com a obra da graça.

É assim que Deus quer. Ele não nos criou como fantoches, mas como pessoas livres e
responsáveis, chamadas a abraçar o seu amor com a nossa inteligência e a aderir a ele
com a nossa liberdade. Portanto, é bom e certo que queiramos compreender o significado
de tudo em nossas vidas.
Mas esse desejo de entender tudo inclui certas ambigüidades e precisa ser
purificado. Os motivos por trás de nosso desejo de compreender podem nem
sempre ser corretos. A sede de conhecer a verdade para acolhê-la e
conformar nossas vidas a isso está completamente em ordem. Mas também há um desejo
de entender que é um desejo de poder: assumir o controle, agarrar, dominar a situação.

O desejo também pode surgir de outra fonte que está longe de ser pura: a
insegurança. Nesse caso, compreender significa tranquilizar-se, buscar segurança
no sentido de que podemos controlar a situação se a entendermos. Essa segurança
é muito humana, frágil, enganosa - pode ser destruída de um dia para o outro. A
única verdadeira segurança nesta vida está na certeza de que Deus é fiel e nunca
nos pode abandonar, porque a sua ternura paterna é irrevogável.
A necessidade de entender o que está acontecendo quando estamos passando por alguma
provação é, às vezes, simplesmente uma expressão de uma incapacidade de nos abandonarmos
com confiança a Deus e de uma busca pela segurança humana. Devemos ser purificados disso. A
plena liberdade interior vem de nos libertarmos progressivamente da necessidade de segurança
humana por meio da compreensão de que somente Deus é nossa “rocha”, como dizem as
Escrituras.
A liberação da inteligência do desejo de controle e da necessidade de buscar
segurança em vez de nos abandonarmos a Deus requer que passemos por certas
fases em nossas vidas - sem dúvida a mais dolorosa de todas - nas quais simplesmente
não podemos entender as razões do que é acontecendo. O que então? Em seguida,
devemos buscar a iluminação refletindo, orando e pedindo o conselho de pessoas
adequadas; graças a essa luz, e cooperando com o que aprendemos, vamos progredir.
No entanto, também há períodos em que devemos renunciar a todos os esforços para
decifrar o mistério. Chegou a hora de parar nossa atividade e nos abandonarmos a
Deus com confiança cega. A luz virá mais tarde. “O que eu estou fazendo você não
entende agora, mas depois você vai entender,” nosso Senhor
diz São Pedro.40 Nesse estágio, tentar entender a todo custo nos faria mais mal do
que bem. Isso aumentaria nosso sofrimento em vez de acalmá-lo e exacerbar
nossas dúvidas, inseguranças, medos e perguntas sem fornecer qualquer resposta.
Então devemos fazer atos de fé. A única coisa que pode nos trazer paz é a oração
humilde e confiante - a atitude expressa pelo profeta Jeremias:
“É bom esperar calmamente pela salvação do Senhor.”41

Compreendendo a vontade de Deus

Precisando nos sentir seguros, gostaríamos de estar sempre seguros de fazer a vontade de Deus.
Esse desejo de conhecer a vontade de Deus, para que possamos nos conformar com ela, é normal.
E geralmente, se buscarmos a vontade de Deus com um coração sincero, receberemos a luz para
entendê-la. Mas não sempre. Mesmo se fizermos tudo o que pudermos para descobrir
A vontade de Deus nesta ou naquela situação pela oração, reflexão e orientação espiritual, nem
sempre obteremos uma resposta muito clara, pelo menos não imediatamente.
Há duas razões para isso: primeiro, Deus nos trata como adultos e, em muitas
situações, quer que decidamos por nós mesmos. A segunda razão é a purificação. Se
estivéssemos sempre certos de estar fazendo a vontade de Deus e andando na verdade,
logo nos tornaríamos perigosamente presunçosos e correríamos o risco de ter orgulho
espiritual. Nem sempre ter certeza absoluta de que estamos fazendo a vontade de Deus é
humilhante e doloroso, mas nos protege. Ela nos preserva em uma atitude de busca
constante e evita o tipo de falsa segurança que nos dispensaria de nos abandonarmos a
Deus.
Na dúvida sobre a vontade de Deus, é muito importante dizermos a nós
mesmos: “Mesmo que haja aspectos da vontade de Deus que me escapem,
sempre há outros que conheço com certeza e posso investir sem nenhum risco,
sabendo que esse investimento sempre paga dividendos. ” Essas certezas
incluem o cumprimento dos deveres de nosso estado de vida e a prática dos
pontos essenciais de toda vocação cristã. Há um defeito aqui que precisa ser
reconhecido e evitado: nos encontrando nas trevas sobre a vontade de Deus em
uma questão importante - uma escolha vocacional em grande escala ou alguma
outra decisão séria - passamos tanto tempo procurando e duvidando ou
desanimando, que negligenciamos as coisas que são a vontade de Deus para
nós todos os dias, como ser fiéis à oração, manter a confiança em Deus, amar
as pessoas ao nosso redor aqui e agora.

“Ninguém tira minha vida de mim, mas eu a dou por conta própria”

Como foi dito antes, é benéfico para nós treinarmos não apenas para suportar as
dificuldades, mas em certo sentido para escolhê-las. Isso não significa provocá-los!
Mas significa que, quando surgem, nós os aceitamos de todo o coração, por um
ato positivo de liberdade, impelindo-nos a passar rapidamente da decepção à
aquiescência baseada na confiança.
Santa Teresinha de Lisieux não gostava que seus trabalhos fossem interrompidos. Às
vezes, ela era convidada a fazer um trabalho que exigia bastante concentração, como
pintar algo ou escrever um esboço dramático para a comunidade. A agenda da
comunidade carmelita era tão intensa que ela tinha muito pouco tempo à sua disposição.
Quando ela finalmente encontrou uma ou duas horas para se dedicar ao trabalho, ela se
dedicou com o seguinte espírito: “Eu escolho ser interrompida”. Se uma boa Irmã então
aparecia para pedir-lhe um pequeno serviço, em vez de mandá-la embora com frieza,
Thérèse esforçava-se por aceitar de boa vontade a interrupção. E se ninguém
a interrompeu, ela considerou aquele um presente encantador do seu Deus amoroso e
estava muito grata a ele. O que quer que tenha acontecido, ela passou o dia em paz e
nunca ficou chateada. Em tudo ela podia fazer a sua vontade, porque a sua vontade era
aceitar tudo.
Considere as palavras de Jesus: “Ninguém tira a minha vida, mas eu a dou de
meu próprio acordo. "42 Aqui está um paradoxo. Sua vida certamente lhe foi tirada: ele foi
acorrentado, condenado, conduzido ao Calvário e crucificado. Mas, como diz a liturgia,
esta foi "uma morte que ele aceitou livremente". Em seu coração havia uma aceitação
profunda do que seu pai queria. Jesus permaneceu supremamente livre em sua morte,
porque a fez uma oferta de amor. Por seu consentimento livre e amoroso, a vida tirada
tornou-se uma vida doada.
Há um exemplo brilhante disso no testemunho de Jacques Fesch. Preso por
assassinar um policial enquanto perseguia um sonho bastante louco (ele tentou um
assalto para que pudesse comprar um barco e navegar pelo oceano), ele passou três
anos na prisão antes de ser executado em 1º de outubro de 1957, aos 27 anos Em sua
cela de prisão, ele descobriu Cristo e embarcou em uma jornada espiritual
maravilhosa. Poucos dias antes de morrer, ele escreveu: “Felizes aqueles a quem Deus
honra com o martírio! O sangue que flui é sempre de grande valor aos olhos de Deus,
especialmente o sangue que é oferecido gratuitamente. Não sou livre, mas se hoje me
oferecessem minha liberdade em troca de ofender a Deus, recusaria e preferiria
morrer. Eu coopero com esta execução, aceitando-a com toda a minha alma, e
oferecendo-o ao Senhor, e assim eu morro um pouco menos indignamente. ”43
Nossa liberdade sempre tem esse poder maravilhoso de fazer o que é tirado de nós
- pela vida, eventos ou outras pessoas - em algo oferecido. Externamente não há
diferença visível, mas internamente tudo se transfigura: destino em livre escolha,
constrangimento em amor, perda em fecundidade. A liberdade humana é de uma
grandeza absolutamente inédita. Não confere o poder de mudar tudo, mas nos
capacita a dar sentido a tudo, mesmo às coisas sem sentido; e isso é muito melhor.
Nem sempre somos mestres do desenrolar de nossas vidas, mas podemos sempre
ser mestres do significado que damos a elas. Nossa liberdade pode transformar
qualquer evento em nossas vidas em uma expressão de amor, abandono,
confiança, esperança e oferta. Os atos mais importantes e frutíferos de nossa
liberdade não são aqueles pelos quais transformamos o mundo exterior como
aqueles pelos quais mudamos nossa atitude interior à luz da fé de que Deus pode
trazer o bem de tudo, sem exceção. Aqui está uma fonte infalível de riquezas
ilimitadas. Nossas vidas não contêm mais nada de negativo, comum ou indiferente.
As coisas positivas se tornam motivo de gratidão e alegria, as coisas negativas e
oportunidade de abandono, fé e oferta: tudo se torna graça.
Desamparo nas provações e na prova do desamparo: A liberdade de
acreditar, esperar e amar

Há momentos em todas as vidas em que nos encontramos em situações de provação e dificuldade, que afetam a nós ou a alguém que amamos. Não podemos fazer nada. Por mais

que reviremos as coisas e as examinemos de todos os ângulos, não há solução. O sentimento de desamparo e impotência é uma prova dolorosa, especialmente quando se trata de

alguém próximo: ver alguém que amamos em dificuldades sem poder ajudar é um dos sofrimentos mais amargos que existe. Muitos pais vivenciam isso. Quando as crianças são

pequenas, sempre existe uma forma de intervir, ajudá-las. Quando os filhos são mais velhos e não dão mais ouvidos aos conselhos, pode ser terrível para os pais ver seus filhos ou

filhas se voltando para as drogas ou iniciando casos de amor destrutivos. Por mais que queiram ajudar, não podem. Nessas ocasiões, devemos dizer a nós mesmos que, mesmo que

aparentemente não tenhamos como intervir, ainda assim, apesar de tudo, podemos continuar a acreditar, a ter esperança e a amar. Podemos acreditar que Deus não abandonará

nosso filho e nossa oração dará frutos no devido tempo. Podemos esperar na fidelidade e poder do Senhor para tudo. Podemos amar continuando a levar essa pessoa em nosso

coração e em oração, perdoando-a e perdoando o mal que lhe foi feito; e expressar amor de todas as maneiras disponíveis para nós, incluindo confiança, abandono de si mesmo e

perdão. Quanto mais desprovido de meios for o nosso amor, mais puro e maior ele será. Mesmo quando, externamente, não há nada a ser feito, ainda temos liberdade interior para

continuar a amar. Nenhuma circunstância, por mais trágica que seja, pode nos roubar isso. Podemos acreditar que Deus não abandonará nosso filho e nossa oração dará frutos no

devido tempo. Podemos esperar na fidelidade e poder do Senhor para tudo. Podemos amar continuando a levar essa pessoa em nosso coração e em oração, perdoando-a e

perdoando o mal que lhe foi feito; e expressar amor de todas as maneiras disponíveis para nós, incluindo confiança, abandono de si mesmo e perdão. Quanto mais desprovido de

meios for o nosso amor, mais puro e maior ele será. Mesmo quando, externamente, não há nada a ser feito, ainda temos liberdade interior para continuar a amar. Nenhuma

circunstância, por mais trágica que seja, pode nos privar disso. Podemos acreditar que Deus não abandonará nosso filho e nossa oração dará frutos no devido tempo. Podemos

esperar na fidelidade e poder do Senhor para tudo. Podemos amar continuando a levar essa pessoa em nosso coração e em oração, perdoando-a e perdoando o mal que lhe foi

feito; e expressar amor de todas as maneiras disponíveis para nós, incluindo confiança, abandono de si mesmo e perdão. Quanto mais desprovido de meios for o nosso amor, mais

puro e maior ele será. Mesmo quando, externamente, não há nada a ser feito, ainda temos liberdade interior para continuar a amar. Nenhuma circunstância, por mais trágica que

seja, pode nos roubar isso. perdoando-o e perdoando o mal feito a ele; e expressar amor de todas as maneiras disponíveis para nós, incluindo confiança, abandono de si mesmo e

perdão. Quanto mais desprovido de meios for o nosso amor, mais puro e maior ele será. Mesmo quando, externamente, não há nada a ser feito, ainda temos liberdade interior para

continuar a amar. Nenhuma circunstância, por mais trágica que seja, pode nos roubar isso. perdoando-o e perdoando o mal feito a ele; e expressar amor de todas as maneiras disponíveis para nós, incluindo co

Para nós, esta deve ser uma certeza libertadora e consoladora em meio à prova de
impotência. Mesmo que não possamos fazer nada, enquanto acreditarmos, esperarmos e
amarmos, algo está acontecendo cujos frutos aparecerão mais cedo ou mais tarde, no tempo
da misericórdia de Deus. O amor, embora carente de meios e aparentemente impotente, é
sempre fecundo. Não pode ser diferente, porque é uma participação no ser e na vida de Deus.
“A esperança não nos decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em
nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. ”44

4. Aceitar outras pessoas

Consentindo com os sofrimentos causados por outros


Anteriormente, falamos em aceitar as dificuldades com boa vontade, em vez de nos endurecer
contra elas. Essa ideia pode ser aplicada às dificuldades que surgem por culpa de outra pessoa.
Como devemos reagir a todos os sofrimentos causados pelas pessoas ao nosso redor? Nossa
linha de conduta deve ser exatamente a mesma: consentir com eles.
Mais uma vez, não se trata de ser apenas passivo. Às vezes, devemos
confrontar alguém cujas ações nos fizeram sofrer e ajudá-lo a perceber o que foi
feito e consertar. Às vezes, também temos o dever de reagir com firmeza contra
situações injustas e proteger a nós mesmos ou a outros de ações prejudiciais. Mas
sempre permanecerá uma certa quantidade de sofrimento que vem daqueles ao
nosso redor e que não podemos evitar nem corrigir. Então, somos convidados a
aceitá-lo com esperança e perdão.
É mais difícil aceitar esse tipo de sofrimento do que as dificuldades materiais. Um
homem pode aceitar mais facilmente faltar a um compromisso porque seu carro quebrou
do que porque sua esposa passou uma hora no telefone com um amigo. Vemos a
liberdade das pessoas em ação em suas falhas e reconhecemos que poderiam ter agido de
maneira diferente se quisessem.
Por mais difícil que seja, precisamos aprender a perdoar as outras pessoas por nos
fazerem sofrer ou nos decepcionar, e até mesmo aceitar os problemas que elas nos
criam como graças e bênçãos. A atitude não é espontânea nem natural, mas é a única
para alcançar a paz e a liberdade interior.

Fazendo concessões às diferenças de temperamento

Quando outras pessoas nos causam sofrimento, não devemos ver automaticamente a má
vontade da parte delas, embora isso seja o que tendemos a fazer. Muitos problemas
interpessoais, que rapidamente julgamos moralmente errados, são simplesmente
dificuldades de comunicação e mal-entendidos. Nossas diferentes maneiras de nos
expressarmos e diferentes filtros psicológicos tornam difícil perceber as reais intenções
uns dos outros.
As pessoas têm temperamentos e maneiras de ver as coisas muito diferentes e às
vezes conflitantes, e isso é algo a ser reconhecido e aceito com alegria. Alguns adoram
ter tudo em ordem e se incomodam com a menor desordem. Outros se sentem
sufocados quando tudo é excessivamente organizado e regulado. Quem ama a ordem
se sente ameaçado por quem deixa o menor objeto fora do lugar; aqueles com
temperamento oposto sentem que estão sendo atacados por qualquer um que insista
na limpeza perfeita. Somos rápidos em anexar julgamentos morais a tal
comportamento, chamando o que nos agrada de "bom" e o que não é de "ruim".
Os exemplos não faltam. Devemos ter cuidado para não transformar nossas famílias e
comunidades em zonas de guerra permanentes divididas entre defensores da ordem e
defensores da liberdade, partidários da pontualidade e partidários da tranquilidade, amantes
da paz e tranquilidade e amantes da exuberância, madrugadores e noctívagos, tagarelas e
tipos taciturnos ... e assim por diante. Precisamos aceitar as outras pessoas como elas são,
entender que sua abordagem e valores não são os mesmos que os nossos, e
ampliar nossas mentes e suavizar nossos corações em relação a eles.45
Isso não é fácil. Significa ver nossa própria sabedoria em termos relativos e nos
tornarmos pequenos e humildes. Devemos aprender a renunciar ao orgulho que
temos de estar certos, que muitas vezes nos impede de entrar nos pensamentos dos
outros; e essa renúncia às vezes exige uma morte extremamente difícil para nós
mesmos.
Mas temos a ganhar tudo com isso. É uma sorte que a visão de outras pessoas entre
em conflito com a nossa, pois então temos a chance de escapar de nossa estreiteza e nos
abrir para outros valores. Vivo em uma comunidade há vinte e cinco anos e posso ter
recebido mais de pessoas com quem achei difícil conviver do que daquelas que
considerava adequadas. Aqueles com os quais achei difícil conviver abriram meus
horizontes para outros valores, mas se eu apenas tivesse conhecido pessoas que
concordassem comigo, talvez nunca tivesse vislumbrado novos horizontes.

Algumas reflexões sobre o perdão

Claro que há casos em que o sofrimento que outras pessoas nos causam é devido a
uma falha real de sua parte. A atitude adequada, então, não é a compreensão para
aceitar as diferenças, mas algo mais exigente e difícil: o perdão.
A cultura moderna não dá muito valor ao perdão. Mais frequentemente, justifica
ressentimento e vingança. Mas isso reduz a quantidade de mal no mundo? A única
maneira de diminuir o sofrimento que pesa sobre a humanidade é pelo perdão.

Ao proclamar o perdão e o amor aos inimigos, a Igreja tem consciência de


acrescentar à herança espiritual de toda a humanidade um novo modo de
relações humanas; um modo árduo, com certeza, mas também rico em
esperança. Nisto, a Igreja sabe que pode contar com a ajuda do Senhor, que
nunca abandona quem se dirige a ele nos momentos de dificuldade. “O amor
não é ressentido” (1 Cor 13, 5). Com estas palavras da Primeira Carta aos
Coríntios, o Apóstolo Paulo recorda que o perdão é um dos mais elevados
formas de prática da caridade.46
Este não é o lugar para desenvolver o tema do perdão, que é fundamental, mas
complexo. Vale a pena repetir, entretanto, que a menos que entendamos a importância do
perdão e o praticemos em nossas relações com os outros, nunca alcançaremos a liberdade
interior, mas sempre seremos prisioneiros de nossa própria amargura.
Quando nos recusamos a perdoar alguém pelo mal que nos fez, estamos
adicionando outro erro ao primeiro. Isso não resolve nada. Estamos aumentando a
quantidade de mal no mundo, que já é o bastante. Não vamos nos juntar à
propagação do mal. São Paulo nos diz: “Não te deixes vencer pelo mal, mas
supere o mal com o bem. ”47
Certas coisas devem ser levadas em consideração se quisermos remover os obstáculos que
tornam o perdão difícil, até mesmo impossível.

Perdoar não é o mesmo que tolerar um erro

Às vezes pensamos, consciente ou inconscientemente, que perdoar alguém que


nos injustiçou significaria fingir que não fez nada de errado - chamar o mal de
bom ou tolerar um ato de injustiça.
Mas perdoar não significa isso. A verdade não deve ser zombada. Perdoar
significa dizer: “Esta pessoa me ofendeu, mas não quero condená-la; Não quero
identificá-lo com sua culpa; Eu não quero fazer justiça em mim mesmo
mãos. Deus é o único que 'perscruta a mente e o coração,'48 e 'juízes
justamente,'49 e deixo para ele pesar as ações dessa pessoa e pronunciar o
julgamento. Essa é uma tarefa difícil e delicada que pertence a Deus, e não quero
carregar o fardo dela sobre mim. Além do mais, não quero fazer um julgamento final
sem apelação sobre a pessoa que me feriu. Quero olhar para ele com olhos de
esperança, porque acredito que algo pode crescer e mudar nele, e continuo a querer o
seu bem. Também acredito que do mal que me fez, mesmo que pareça irremediável
do ponto de vista humano, Deus pode tirar o bem ... ”Em última análise, só podemos
realmente perdoar as pessoas porque Cristo ressuscitou dos mortos; sua ressurreição
é a garantia de que Deus pode curar todos os males e todas as feridas.

As correntes do ressentimento

Quando perdoamos alguém, embora de certa forma estejamos fazendo bem a essa pessoa
cancelando uma dívida, estamos fazendo muito bem a nós mesmos. Redescobrimos uma
liberdade que corríamos o risco de perder devido ao ressentimento e mágoa.
A liberdade pode ser diminuída por apegos excessivamente fortes, por uma dependência
em alguém que amamos demais (e da maneira errada), que se torna tão indispensável para
nós que perdemos parcialmente nossa autonomia. Mas a recusa em perdoar também nos liga
à pessoa de quem nos ressentimos e diminui ou destrói nossa liberdade. Dependemos tanto
das pessoas que odiamos quanto das pessoas que amamos de maneira desproporcional.
Quando criamos ressentimento em relação a alguém, não podemos parar de pensar nela.
Estamos cheios de sentimentos negativos que absorvem grande parte de nossa energia, e por
isso há um “investimento” nessa relação que não nos deixa disponíveis, psicológica e
espiritualmente, para o que deveríamos nos concentrar. O ressentimento ataca nossas forças
vitais e nos prejudica muito. Quando alguém nos faz sofrer, nossa tendência é manter a
memória do mal viva em nossas mentes, como uma “conta” que iremos produzir no tempo
devido para exigir o pagamento. Essas contas acumuladas acabam envenenando nossas vidas.
É mais sensato cancelar todas as dívidas, como o Evangelho nos convida a fazer. Em troca,
seremos perdoados de tudo e nossos corações serão libertados, ao passo que alimentar o
ressentimento para com os outros nos fecha para as coisas positivas com que eles poderiam
contribuir para nós.

“A medida que você dá será a medida que você receberá de volta”

Uma das passagens mais bonitas do Evangelho é Lucas, capítulo 6, versículos 27–38. É um
texto básico que deve nos guiar em nossa atitude para com os outros.

Amem seus inimigos, façam o bem a aqueles que os odeiam ... [E] fim, nada
esperando em troca; e sua recompensa será grande e vocês serão filhos do
Altíssimo; pois ele é gentil com os ingratos e egoístas. Seja misericordioso,
assim como seu Pai é misericordioso. Não julgue, e você não será julgado; não
condene, e você não será condenado; Perdoem, e serão perdoados; dê, e será
dado a você; boa medida, pressionada, sacudida, transbordando, será
colocada em seu colo. Pois a medida que você dá será a medida que você
receberá de volta.

Essas palavras são muito exigentes, mas precisamos entender a demanda como um
magnífico “presente” que Deus quer nos dar. Deus dá o que manda, e este texto contém
uma promessa: Deus pode transformar nossos corações a ponto de se tornarem capazes
de amar com um amor tão puro, dado gratuitamente e desinteressado quanto o próprio
Amor de Deus. Deus quer nos dar o dom de perdoar como só ele pode fazer, e assim nos
tornar semelhantes a ele.
Poderíamos dizer que todo o mistério da nossa redenção em Cristo, por sua
encarnação, sua morte e sua ressurreição, consiste nesta troca maravilhosa: no
coração de Cristo, Deus nos amou humanamente, de modo a tornar nosso humano
corações capazes de amar divinamente. Deus se fez homem para que o homem pudesse se
tornar Deus - pudesse amar como só Deus é capaz de amar, com a pureza, intensidade,
poder, ternura e paciência inesgotável que pertencem ao amor divino.50 É uma fonte
extraordinária de esperança e um grande consolo saber que, em virtude da graça de
Deus operando em nós (se permanecermos abertos a ela perseverando na fé, na
oração e nos sacramentos), o Espírito Santo transformará e expandirá nossa corações
a ponto de um dia torná-los capazes de amar como Deus ama.
Observe que a passagem do Evangelho que acabamos de citar termina com uma das
leis fundamentais da vida espiritual - na verdade da vida humana: “A medida que você dá
será a medida que você receberá de volta”. Diante disso, isso poderia simplesmente
significar que Deus será generoso em recompensar aqueles que são generosos em amar e
perdoar, e dará uma recompensa menor para aqueles cuja atitude para com os outros foi
mesquinha. Mas a frase tem um sentido mais profundo. Deus não pune ninguém: as
pessoas se punem. O Evangelho exprime uma “lei” que é parte integrante do ser humano:
quem se recusa a perdoar, quem se recusa a amar, cedo ou tarde será vítima da sua
própria falta de amor. O mal que fazemos ou desejamos aos outros acabará se voltando
contra nós. Aqueles que são severos com o próximo sofrerão tal severidade. Nossos
julgamentos, desconfiança, rejeição, ou o ressentimento nos aprisiona em uma rede que
vai nos estrangular. Nossas aspirações mais profundas pelo absoluto, o infinito, serão
bloqueadas e não serão realizadas, porque a falta de misericórdia para com o outro nos
encerrou em um mundo de cálculo e interesse próprio. Esta é uma lei inexorável: “Você
nunca vai sair antes de você pagar o último centavo. ”51
O perdão nos liberta dessa maldição. A anulação das dívidas que acarreta
possibilita uma relação com o outro baseada no dar e receber gratuito, o que é
essencial para o amor genuíno. E nenhum de nós pode viver sem amor genuíno.
Quando nossos corações se sentem apertados, muitas vezes não precisamos
buscar outro motivo senão este: nos recusamos a amar e perdoar generosamente. A
generosidade no amor e no perdão nos torna “filhos do Altíssimo” e nos liberta para
explorar os oceanos ilimitados do amor e da vida de Deus, onde as aspirações mais
profundas de nossos próprios corações um dia serão satisfeitas. Se você ama o seu
próximo, Isaías nos diz, “então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura brotará
rapidamente ... serás como um jardim regado, como uma fonte de água, cujo
as águas não falham. ”52

Como as falhas de outras pessoas podem ser boas para nós

“A maldade não é de todo ruim.” O mau comportamento das pessoas ao nosso redor, que nos
causa sofrimento, traz alguns benefícios!
Em nossas relações com outras pessoas, buscamos naturalmente o que nos falta,
e principalmente o que nos faltou na infância. As imperfeições alheias e as decepções
que nos causam obrigam-nos a estabelecer com elas uma relação que não se limite a
uma busca inconsciente pela satisfação das nossas necessidades, mas tenda a tornar-
se pura e desinteressada, como o amor de Deus: “Seja perfeito como o seu
o pai celestial é perfeito. ”53
Essas imperfeições também nos ajudam a não buscar nos outros felicidade,
plenitude e realização que só podemos encontrar em Deus. Assim, eles nos
convidam a “criar raízes” em Deus. A decepção no relacionamento com alguém de
quem esperávamos muito (talvez demais) pode nos ensinar a ir mais fundo na
oração, em nosso relacionamento com Deus, e a olhar nele para aquela plenitude,
aquela paz e segurança, que só sua o amor infinito pode garantir. As decepções no
relacionamento com outras pessoas nos obrigam a passar do amor “idólatra” a um
amor realista, livre e feliz. O amor romântico sempre será ameaçado com
decepções. A caridade nunca é, porque “não insiste no seu próprio caminho”54
ou buscar seu próprio interesse.

As ofensas de outras pessoas não roubam nada de nós

Um dos maiores obstáculos para perdoar é a sensação de que o comportamento da


outra parte nos privou de algo importante, até mesmo vital. Esse sentimento confuso
alimenta o ressentimento. A coisa em questão pode ser material, ou afetiva ou moral
(não conseguir o amor a que eu tinha direito, ou a estima, etc.), ou ainda espiritual (o
comportamento da pessoa à frente da minha comunidade mantém minha vida
espiritual de desenvolver como deveria ...).
Para viver em paz, mesmo quando são as pessoas ao nosso redor que nos causam
sofrimento, devemos dar uma olhada nova e radical em nossa frustração. Não
corresponde à realidade. Falhas de outras pessoasnão nos prive de nada. Não temos
nenhum motivo válido para nos ressentir deles ou de suas ações.
No plano material, é claro, outras pessoas podem nos privar de muitas coisas. Mas
não do essencial, o único bem verdadeiro e duradouro: o amor de Deus por nós e o
amor que podemos ter por ele, com o crescimento interior que produz. Ninguém pode
nos impedir de acreditar em Deus, esperar nele e amá-lo, em qualquer lugar e em
todas as circunstâncias. A fé, a esperança e o amor tornam os seres humanos
totalmente humanos. Tudo o mais é secundário e relativo; mesmo que sejamos
privados dele, isso não é um mal absoluto. Existe dentro de nós algo indestrutível que
é garantido pela fidelidade e pelo amor de Deus. “O Senhor é o meu pastor, nada me
faltará ... Embora eu ande pelo vale da sombra da morte, não temo o mal: pois tu
arte comigo; A tua vara eo teu cajado me consolam."55
Em vez de perder tempo e energia culpando os outros pelo que não está dando certo
ou censurando-os pelo que pensamos que estão nos privando, devemos nos esforçar para
adquirir autonomia espiritual aprofundando nosso relacionamento com Deus, a única
fonte infalível de todo o bem e crescendo na fé, esperança e amor desinteressado. O fato
de outros serem pecadores não pode nos impedir de nos tornarmos santos. Ninguém
realmente nos priva de nada. No final de nossas vidas, quando ficamos cara a cara com
Deus, seria infantil culpar os outros por nossa falta de progresso espiritual.

A armadilha da indiferença

Às vezes, estamos particularmente preocupados com coisas que não estão indo bem
ao nosso redor, em nossa comunidade, nossa família ou nosso círculo de igreja. Somos
tentados a desanimar e desistir. É quando temos que dizer a nós mesmos: aconteça o
que acontecer, quaisquer erros e falhas cometidos por esta ou aquela pessoa,não nos
rouba exatamente nada. Mesmo que vivêssemos entre pessoas que cometiam
pecados mortais de manhã à noite, isso não poderia nos impedir de amar a Deus e
servir ao próximo, ou nos privar de qualquer dom espiritual, ou nos impedir de tender
para a plenitude do amor. O mundo poderia desabar ao nosso redor, mas não nos
privaria da possibilidade de orar, colocar toda a nossa confiança em Deus e amar.

Isso não significa fechar-nos em uma torre de marfim e ser indiferentes ao que
está acontecendo ao nosso redor, ou permanecer passivos. Quando há problemas,
devemos querer resolvê-los e tentar ver o que Deus está pedindo de nós. Devemos
intervir? Podemos fazer algo positivo? Se a resposta for sim, seria um pecado por
omissão não fazer nada.
Mas se tudo parece dar errado ao nosso redor, é ainda mais necessário
preservar nossa liberdade de esperar em Deus e servi-lo com alegria e entusiasmo.
O diabo muitas vezes tenta nos desencorajar e nos fazer perder a alegria de servir
a Deus. Um dos meios que ele usa especialmente é para nos preocupar com tudo o
que não está indo bem ao nosso redor. Suponha, por exemplo, que estejamos
vivendo em comunidade. Para nos fazer perder dinamismo e energia espiritual, o
diabo nos levará a notar uma série de coisas negativas - as atitudes injustas dos
responsáveis, os erros e a falta de fervor de nossos irmãos e irmãs, seus defeitos
(às vezes até graves ), e assim por diante. O peso da preocupação, insegurança,
tristeza e desânimo enfraquecerá nossa verve espiritual. De que serve fazer tanto
esforço para orar e ser generoso, quando existem todos esses problemas?
É um pequeno passo para a mornidão. Devemos desmascarar essa tentação e
dizer: “Não importa o que aconteça, não tenho nada a perder. Preciso manter meu
fervor, continuar a amar a Deus e orar de todo o coração, e amar as pessoas com
quem vivo, mesmo que não saiba como as coisas vão acabar. Não perderei meu
tempo e não é errado tentar amar. O amor nunca será em vão. ” São João da
Cross disse: “Onde não há amor, coloque amor e você colherá amor”.56
Se os problemas nos deixam tristes e perdemos nosso fervor, não resolvemos nada,
apenas adicionamos outro problema ao resto. Se os pecados das pessoas ao nosso redor
nos deixam chateados e desanimados, estamos ajudando a espalhar o mal mais
rapidamente. O mal só é superado pelo bem, e só podemos impedir a propagação do
pecado pelo fervor, alegria e esperança, fazendo todo o bem que podemos hoje, sem nos
preocupar com o amanhã.

O verdadeiro dano não está fora de nós, mas dentro de nós

Nos momentos de luta, precisamos também lembrar que a conversão com a qual devemos
nos preocupar não é a do próximo, mas a nossa. Somente se levarmos a sério nossa
própria conversão, teremos alguma chance de ver nosso próximo convertido também.
Este ponto de vista é realista e encorajador. Temos pouca influência real sobre outras
pessoas, e nossas tentativas de mudá-las têm apenas uma chance muito pequena de
sucesso, já que na maioria das vezes queremos que mudem de acordo com nossos
critérios e objetivos mais do que os de Deus. Se nos preocupamos primeiro com nossa
própria conversão, no entanto, temos mais esperança de fazer a diferença. É mais bom
buscar reformar nossos corações do que reformar o mundo ou a Igreja. Todos serão
beneficiados.
Vamos nos fazer esta pergunta: "Até que ponto o mal ao meu redor pode me
afetar?" Com desculpas para aqueles que vou escandalizar, digo que o mal que nos
rodeia - os pecados dos outros, das pessoas na Igreja, da sociedade não se torna um
mal para nós, a menos que o deixemos penetrar em nossos corações.
A questão não é que devemos nos tornar indiferentes. Exatamente o oposto. Quanto
mais santos somos, mais sofreremos devido ao mal e ao pecado no mundo. Mas o mal
externo só nos prejudica na medida em que reagimos mal a ele, por medo, preocupação,
desânimo, tristeza, desistência, correndo para aplicar soluções precipitadas que não
resolvem nada, julgando, fomentando amargura e ressentimento, recusando-se a perdoar,
e assim por diante. Jesus diz no Evangelho de São Marcos: “Não há nada fora do homem
que, entrando nele, possa contaminá-lo; mas as coisas que saem de um homem
são o que o contaminam! ”57 O dano não vem de circunstâncias externas, mas de
como reagimos a elas interiormente. “O que arruína nossas almas não é o que
acontece fora, mas o eco que isso desperta dentro de nós. ”58 O mal que outras
pessoas me fazem nunca vem deles, vem de mim. O dano é apenas auto-infligido,
os Padres da Igreja disseram há muito tempo.

Nossa cumplicidade aumenta o dano

Quando nos concentramos demais em algo que não está certo e o tornamos nosso
principal tópico de conversa, acabamos dando ao mal mais substância do que tem.
Deplorar o mal às vezes apenas o fortalece. Recentemente, ouvi um padre dizer: “Não
vou passar a vida denunciando pecados. Isso seria uma honra demais. Prefiro
encorajar o bem do que condenar o mal. ” E acho que ele estava certo. Esta não é uma
atitude de cabeça na areia, mas o otimismo da caridade. “O amor não é irritável ou
ressentido; não se alegra com o errado, mas se alegra com o certo.
O amor suporta todas as coisas, acredita em todas as coisas, espera todas as coisas, suporta todas as coisas. ”59
À medida que avançamos com mais segurança e eficácia, entregando-nos
totalmente ao bem, apesar de nossos defeitos, também fazemos mais para ajudar
os outros a experimentar a conversão e progredir, encorajando-os nos aspectos
positivos de suas vidas do que condenando seus erros. O bem é mais real do que o
mal e pode superar o mal.
Às vezes, sentimos uma satisfação selvagem em detectar e mostrar algo
errado. O ressentimento e a amargura que sentimos surgem de um vazio espiritual
dentro de nós e da sensação de insatisfação que ele produz. Freqüentemente, as
pessoas mais críticas são aquelas com maior vazio espiritual. Alguém se pergunta
se eles devem criar inimigos para si mesmos para existir.

O mal vem para preencher uma lacuna

Jesus foi cercado por um mar de maldade, ódio, violência e mentiras. Seu coração
estava partido e traspassado, e ele sofreu mais do que qualquer pessoa jamais sofreu,
mas o mal que lhe foi feito não o penetrou, porque seu coração estava cheio de
confiança em seu Pai, abandono e amor-oferta. Devemos “seguir seus passos (…)
quando ele foi injuriado, ele não o injuriou em troca; quando ele sofreu, ele
não ameaçou. ”60 O mesmo acontece com Nossa Senhora aos pés da Cruz. Ela bebeu a taça do
sofrimento, mas seu coração permaneceu puro. Não continha nenhum medo, nenhuma rebelião,
nenhum ódio, nenhum desespero, mas apenas aceitação, perdão e esperança.
Se os erros que as pessoas cometem penetram em nosso coração, é porque ali
encontram lugar. Se o sofrimento nos torna amargos e mal-humorados, é porque nosso
os corações estão desprovidos de fé, esperança e amor. Mas se nossos corações estão
cheios de total confiança em Deus e amor a ele e ao nosso próximo, não há lugar para o
mal, a mágoa e o dano. São Maximiliano Kolbe morreu no bunker de fome em Auschwitz,
mas seu coração permaneceu puro e intacto naquele lugar infernal, porque ele não sentia
ódio por seus algozes e consentiu em dar sua vida por amor. Ele e seus companheiros
cantaram oMagnificat enquanto eles estavam morrendo. Eles venceram o mal com o bem.

A capacidade de permanecer intocado pelo mal não é adquirida de uma só vez. É


fruto de um longo processo de autoconquista e graça que nos faz crescer nas virtudes
teológicas. É um aspecto da maturidade espiritual, mais uma dádiva de Deus do que o
resultado de nossos esforços. Mas esse dom nos será dado com mais rapidez e
segurança, quanto mais nos empenharmos, desejarmos e tentarmos praticar as
atitudes aqui descritas: enraizar-nos em Deus por meio da fé e da oração; não culpar
as pessoas e coisas ao nosso redor pelo que não está indo bem em nossas vidas e
deixar de nos ver como vítimas; assumindo responsabilidades resolutamente e
aceitando nossas vidas como são; e usando nossa capacidade atual de acreditar,
esperar e amar ao máximo a cada momento.

A liberdade real dos filhos de Deus

No batismo, somos ungidos com óleo perfumado como sinal de nosso novo caráter:
por nossa união com Cristo, cada um de nós é sacerdote, profeta e rei. Somos reis
porque somos filhos e herdeiros do Rei do céu e da terra. Mas também no sentido de
que não estamos sujeitos a nada e tudo está sujeito a nós. Isso é o que acontece
conosco quando deixamos a graça do batismo operar em nós, vivendo como filhos de
Deus na fé, esperança e amor. Sim, conhecemos o sofrimento e a dor, mas tudo o que
acontece serve para nos fazer crescer no amor e no fato de sermos filhos de Deus. O
que acontece e como os outros se comportam não pode mais nos afetar
negativamente; eles só podem promover nosso verdadeiro bem, que é amar.
São Paulo expressa esse sentimento de liberdade real, o privilégio dos cristãos que
vivem nos braços de Deus nosso Pai, dizendo: “Todas as coisas são suas”. E ele
acrescenta: “E vocês são de Cristo; e Cristo é de Deus. ”61 Isso também é lindamente
expresso por São João da Cruz em sua “Oração da Alma em Amor”.

Por que você hesita? Por que você espera? Pois você pode, a partir deste
instante, amar a Deus em seu coração. Meus são os céus e minha a terra, e
meus são os povos, meus são os justos e os pecadores; os anjos são meus,
e a Mãe de Deus, e todas as coisas são minhas, e o próprio Deus é
meu e para mim, porque Cristo é meu e totalmente para mim. O que você
pede, então, e o que você busca, minha alma? Tudo isso é seu, e por
tu.62
II

O momento presente

1. Liberdade e o momento presente

Uma das condições essenciais da liberdade interior é a capacidade de viver o


momento presente. Por um lado, só então podemos exercer a liberdade. Não temos
controle sobre o passado - não podemos mudar nem um pouquinho dele. As pessoas às
vezes tentam reviver eventos passados considerados fracassos (“Eu deveria ter feito
isso ... deveria ter dito aquilo ...”), mas esses cenários imaginários são apenas sonhos: não
é possível voltar atrás. O único ato livre que podemos fazer em relação ao passado é
aceitá-lo exatamente como ele era e deixá-lo com confiança nas mãos de Deus.
Também temos muito pouco controle sobre o futuro. Apesar de todas as nossas previsões,
planos e promessas, é preciso muito pouco para mudar tudo completamente. Não podemos
programar a vida com antecedência, mas só podemos recebê-la a cada momento.
Tudo o que temos é o momento presente. Aqui é o único lugar onde podemos praticar atos
livres. Somente no momento presente estamos verdadeiramente em contato com a realidade.
Alguém pode pensar que é trágico que o presente seja tão fugaz e nem o
passado nem o futuro realmente nos pertençam. Mas, abordado do ponto de vista
da fé e esperança cristãs, o momento presente é rico em graça e contém imensa
segurança.
É aqui que Deus está presente. “Estou sempre com você, até o fim do
era."1 Deus é o eterno presente. Cada momento, seja o que for que aconteça, é
preenchido com a presença de Deus, rico com a possibilidade de comunhão com Deus.
Não comungamos com Deus no passado ou no futuro, mas acolhendo cada instante
como o lugar onde Ele se doa a nós. Devemos aprender a viver em cada momento
como suficiente para si mesmo, pois Deus está lá; e se Deus está lá, nos falta
nada. Sentimos que estamos perdendo isso ou aquilo, simplesmente porque estamos
vivendo no passado ou no futuro, em vez de habitar cada segundo. O Salmo 145 diz: “Os
olhos de todos olham para ti, e tu lhes dás o seu alimento a seu tempo. Porém
abres tua mão, tu satisfazes o desejo de todos os seres vivos. ”2
Há algo muito libertador nessa compreensão da graça do momento presente.
Mesmo que todo o nosso passado tenha sido um desastre, mesmo que o nosso futuro
pareça um beco sem saída,agora podemos estabelecer comunhão com Deus por meio
de um ato de fé, confiança e abandono. Deus está eternamente presente, eternamente
jovem, eternamente novo, e nosso passado e futuro são dele. Ele pode perdoar tudo,
purificar tudo, renovar tudo. “Ele vai renovar você em seu
amar."3 No momento presente, por causa de seu amor infinitamente misericordioso,
sempre temos a possibilidade de recomeçar, não impedidos pelo passado, nem
atormentados pelo futuro. O passado está nas mãos de Deus Misericordioso, que de tudo
pode tirar proveito: o futuro está nas mãos da Providência de Deus que nunca nos
esquecerá. A fé nos impede de viver como muitas pessoas, oprimidas por um passado
pesado e um futuro preocupante. Viver no presente permite que nosso coração se
expanda.

2. “To Love” tem apenas um tempo presente

Os tratados sobre espiritualidade falam das etapas da vida espiritual. Eles


listam três, sete, doze ou qualquer número que o autor particular preferir. Há
muito a aprender com esses relatos, sejam as sete mansões da alma retratadas
por Santa Teresa de Ávila ou os doze graus de humildade da Regra de São
Bento.
Mas a experiência me ensinou uma abordagem diferente. Costumo dizer brincando que a
escada da perfeição tem apenas um degrau: o degrau que damoshoje. Sem nos preocuparmos
com o passado ou com o futuro, podemos decidir acreditar hoje, colocar toda a nossa
confiança em Deus hoje, amar a Deus e ao próximo hoje. Quer nossas boas resoluções
produzam sucesso ou fracasso, no dia seguinte podemos começar de novo, não confiando em
nossa força, mas apenas na fidelidade de Deus.
Essa atitude é fundamental na vida espiritual. São Paulo o descreve: “Esquecendo o
que está para trás e avançando para o que está por vir, prossigo em direção à meta
pelo prêmio do chamado ascendente de Deus em Cristo Jesus ... Somente
vamos nos manter fiéis ao que alcançamos. ”4 É uma nota básica da espiritualidade
monástica. Santo Antônio do Egito (o Pai do Monasticismo, que morreu no
105 anos e que, aos 100, costumava dizer: “Ainda não comecei a me converter!”)
repetia incessantemente as palavras de São Paulo. Seu biógrafo, Santo Atanásio,
acrescenta: “Ele também se lembrou das palavras de Elias: 'Vive o Senhor diante de
quem estou hoje.' Santo Antônio destacou que, quando Elias disse 'hoje', ele não levou
em consideração o passado. E assim, como se ainda estivesse no começo, todos os
dias se esforçou para viver como desejava aparecer diante de Deus: puro
de coração e pronto para obedecer a vontade de Deus e nenhuma outra. ”5 A mesma atitude foi
praticada por todos os santos, sendo Santa Teresinha de Lisieux um exemplo brilhante. Ela
escreveu: “Para te amar, ó Jesus, só tenho hoje.”6

3. Nós podemos sofrer por apenas um momento

Este esforço para viver a realidade de cada momento é da maior importância em


tempos de sofrimento. Santa Teresa de Lisieux disse durante sua doença: “Eu só sofro por
um momento. É porque as pessoas pensam sobre o passado e o futuro que elas
fique desanimado e desesperado. ”7 Ninguém tem capacidade para sofrer por dez ou
vinte anos; mas temos a graça de suportar hoje o sofrimento que é nosso agora.
Projetar coisas no futuro nos esmaga - não experimentando sofrimento, mas
antecipando-o.

… A realidade é algo que se carrega junto com todo o sofrimento que a acompanha…
Mas a ideia de sofrimento (que não é a realidade, pois o sofrimento real é sempre
fecundo e pode transformar a vida em algo precioso) deve ser destruída. E se você
destruir as ideias por trás das quais a vida está aprisionada como atrás das grades,
então você liberta sua verdadeira vida, suas verdadeiras molas principais, e você
também terá a força para suportar o sofrimento real, o seu próprio e o de
os mundos.8

4. “Que os próprios problemas do dia sejam suficientes para o


Dia"

Uma das palavras mais sábias do Evangelho é "Deixe que os próprios problemas do dia sejam
suficientes para o dia."9 Vamos absorver essa lição que Jesus ensina. Nós frequentemente
reclamar do quanto estamos sofrendo, sem perceber que a culpa é nossa. Como se o sofrimento de hoje
não bastasse, acrescentamos arrependimentos sobre o passado e preocupações com o futuro! Não é
nenhuma surpresa que nos sintamos oprimidos. Para que a vida seja suportável, devemos praticar
apenas suportar os problemas de hoje.
O passado lança sua sombra sobre o presente sempre que meditamos sobre velhos
fracassos e escolhas de ontem. É claro que devemos pedir perdão a Deus por nossas faltas
e devemos aprender com elas quando apropriado. Mas uma vez que pedimos desculpas e
falamos sério, isso é o suficiente. Enquanto procuramos reparar o dano que causamos,
sempre que possível, na maioria das vezes devemos simplesmente deixar as coisas nas
mãos de Deus, confiando que Ele fará tudo certo. Devemos acabar com atitudes ou
pensamentos que nos impedem de viver com confiança no momento presente.
Às vezes, sentimos que perdemos muito tempo e perdemos muitas oportunidades
de amar e crescer. Se o sentimento leva ao arrependimento real e a um recomeço com
coragem e confiança, então é algo positivo. Mas se a sensação de tempo desperdiçado
nos desanima e nos faz sentir que arruinamos nossas vidas, devemos rejeitá-la.
Trancar-nos no passado só acrescentaria outro pecado aos já cometidos. Seria uma
grave falta de confiança na infinita misericórdia e na força de Deus, que nos ama e
quer sempre nos oferecer uma nova chance de nos tornarmos santos, apesar do
passado. Quando o pensamento de quão pouco progresso fizemos ameaça nos
oprimir, devemos fazer um ato de fé e esperança, como: “Obrigado, meu Deus, por
tudo meu passado. Acredito firmemente que você pode tirar proveito de tudo o que
vivi. Não quero me arrepender e resolvo hoje começar do zero, exatamente com a
mesma confiança como se toda a minha história passada fosse composta apenas de
fidelidade e santidade ”. Nada poderia agradar mais a Deus do que isso!

5. O amanhã pode cuidar de si mesmo

Se é um erro adicionar o peso do passado ao peso do presente, é um erro ainda


pior sobrecarregar o presente com o futuro. O remédio para essa tendência é meditar
na lição contida no Evangelho sobre o abandono à Providência de Deus e pedir a graça
de Deus para praticá-la. “Não te preocupes com a tua vida, com o que deves comer ou
com o que bebes, nem com o teu corpo, com o que deves vestir. Não é a vida mais
importante do que o alimento, e o corpo mais importante do que a roupa? Olhe para
os pássaros do ar; eles não semeiam, nem colhem, nem juntam em celeiros, mas seu
Pai celestial os alimenta. Você não tem mais valor do que eles? E qual de vocês, por
estar ansioso, pode adicionar um côvado à sua extensão de
vida? (…) Portanto, não fique ansioso, dizendo 'O que vamos comer?' ou 'O que deve
nós bebemos? ' ou 'O que devemos vestir?' ”10
Novamente, isso não significa ser imprudente e irresponsável. Temos a
obrigação de planejar o futuro e pensar no amanhã. Mas devemos fazer issosem
se preocupar, sem os cuidados que corrói o coração, mas não resolve nada - e
muitas vezes nos impede de colocar nosso coração no que temos que fazer aqui e
agora. Corações ansiosos pelo amanhã não podem estar abertos à graça do
momento presente.
Como o maná que alimentou o povo hebreu no deserto, a graça não pode ser
armazenada. Não podemos acumular reservas de graça, mas apenas recebê-la a cada
momento, como parte do “pão de cada dia” que pedimos no Pai Nosso. Para estarmos
livres do fardo do futuro e também do passado, precisamos de “reeducação”. Aqui estão
alguns pontos de bom senso que podem ajudar.
As coisas raramente acontecem como esperamos. A maioria de nossos medos e
apreensões acaba sendo completamente imaginária. As dificuldades que prevíamos tornam-se
muito simples na realidade; e as verdadeiras dificuldades são coisas que não nos ocorreram. É
melhor aceitar as coisas como elas vêm, uma após a outra, confiando que teremos a graça de
lidar com elas no momento certo, do que inventar uma série de cenários sobre o que pode
acontecer - cenários que normalmente acabam sendo errados. A melhor maneira de nos
prepararmos para o futuro é colocar nossos corações no presente. No Evangelho, Jesus diz aos
seus discípulos que eles serão levados aos tribunais e depois acrescenta: “Decidam, pois, em
vossas mentes, não meditar de antemão como responder; porque eu te darei boca e
sabedoria, que nenhum dos teus adversários será capaz
resistir ou contradizer. ”11
Projetar nossos medos no futuro nos afasta da realidade e nos impede de lidar com a
situação presente como deveríamos. Isso drena nossas melhores energias. Em outra
passagem de seu diário, Etty Hillesum diz: “Se alguém sobrecarrega o futuro com suas
preocupações, ele não pode crescer organicamente. Estou cheio de confiança, não de que vou
ter sucesso nas coisas do mundo, mas que mesmo quando as coisas vão mal para mim
Eu ainda vou achar a vida boa e digna de ser vivida. ”12
O medo do sofrimento, como vimos, causa mais dor do que o sofrimento.
Precisamos viver de acordo.

Temos que lutar contra eles diariamente, como pulgas, aquelas muitas pequenas
preocupações com o amanhã, pois elas sugam nossas energias. Tomamos
providências mentais para os dias que virão e tudo será diferente, muito diferente.
Suficiente até o dia. As coisas que devem ser feitas devem ser feitas e, quanto ao
resto, não devemos permitir que nos infestemos com milhares de medos e
preocupações mesquinhos, tantos movimentos de não confiança em Deus. Tudo
vai dar tudo certo ... Em última análise, temos apenas um dever moral:
reivindicar grandes áreas de paz em nós mesmos, cada vez mais paz, e refleti-
la para os outros. E quanto mais paz houver em nós, mais paz haverá
também estar em nosso mundo conturbado.13

6. Viva, em vez de esperar para viver

Nossa vida presente é sempre algo bom, pois o Criador a dotou com uma
bênção que ele nunca cancelará, embora o pecado tenha complicado as coisas.
“Deus viu que era bom”, diz o livro de Gênesis. Para Deus, “ver” significa não
apenas tomar nota, mas realmente conferir a realidade. Esta bondade fundamental
da vida também é expressa por Jesus: “A vida não é mais do que comida, e a
corpo mais do que roupa? ”14
Às vezes, porém, não é a preocupação que nos faz focar no futuro, mas a esperança de
algo melhor ou mais feliz. Pode ser um evento muito específico, como um reencontro com
alguém que amamos ou voltar para casa depois de uma viagem longa e cansativa. Ou pode ser
menos bem definido: o momento em que as coisas vão melhorar, as circunstâncias vão mudar,
a vida vai ser mais interessante. No momento, dizemos a nós mesmos, não temos realmente
uma vida, mas mais tarde iremos “viver a vida plenamente”. Não há nada de errado nisso, mas
contém um certo perigo. Podemos passar nossas vidas inteirasesperando para viver. Assim,
corremos o risco de não aceitar totalmente a realidade de nossas vidas presentes. Porém, que
garantia há de que não nos decepcionaremos quando chegar o tempo tão esperado? Enquanto
isso, não colocamos nossos corações suficientemente no dia de hoje, e por isso perdemos as
graças que deveríamos estar recebendo. Vivamos cada momento ao máximo, sem nos
preocupar se o tempo está passando rápido ou devagar, mas acolhendo tudo o que nos é
dado a cada momento.
Para viver bem hoje, também devemos lembrar que Deus só pede uma coisa de cada
vez, nunca duas. Não importa se o trabalho que temos em mãos é varrer o chão da
cozinha ou fazer um discurso para quarenta mil pessoas. Devemos colocar nossos
corações nisso, de forma simples e calma, e não tentar resolver mais de um problema ao
mesmo tempo. Mesmo quando o que estamos fazendo é genuinamente insignificante, é
um erro nos apressarmos como se estivéssemos perdendo nosso tempo. Se alguma coisa,
por mais comum que seja, precisa ser feita e faz parte de nossas vidas, vale a pena fazer
por si mesma e colocar nosso coração nela.
7. Disponibilidade para outras pessoas

A disponibilidade é fundamental em nossas relações com os outros. Em cada encontro


com outra pessoa, por longo ou curto, devemos fazê-lo sentir que estamos cem por cento lá
para ele naquele momento, sem nada mais a fazer a não ser estar com ele e fazer o que quer
que seja necessário por ele. Boas maneiras, sim, mas também disponibilidade real e sincera.
Isso é muito difícil, pois temos um forte senso de direitos de propriedade sobre nosso tempo e
facilmente tendemos a ficar chateados se não pudermos organizá-lo como escolhemos. Mas
esse é o preço do amor genuíno. Se Jesus nos pede que não nos preocupemos, é
principalmente para salvaguardar a qualidade das nossas relações com as outras pessoas. Um
coração preocupado com preocupações e preocupações não está disponível para outras
pessoas. Os pais devem se lembrar disso: os filhos podem se dar bem sem exigir
constantemente a atenção dos pais, contanto que haja horários regulares em que papai ou
mamãe não se preocupem, exceto estar com eles. Se estivermos crivados de ansiedade em vez
de deixá-los nas mãos de Deus, não podemos oferecer a nossos filhos esse tipo de tempo, e
eles nunca se sentirão seguros em nosso amor, não importa quantos presentes caros dermos
a eles.

8. Tempo psicológico e tempo interior

Se tentarmos viver assim e aprofundar nossa relação com Deus e nossa vida de
oração, para que possamos perceber sua presença dentro de nós e viver tanto quanto
possível em comunhão com sua morada, descobriremos algo maravilhoso: o ritmo
interior da graça que nossa vida segue em seu nível mais profundo.
Pode-se dizer que existem dois modos de tempo: o tempo da cabeça e o tempo do
coração. O primeiro é o tempo psicológico, o tempo em nossas mentes, sobre o qual
fazemos cálculos e dividimos em horas e dias a serem administrados e planejados.
Esse tipo de tempo sempre passa muito rápido ou muito devagar.
Mas há outro tipo de tempo, experimentado em certos momentos de felicidade ou graça,
embora sempre exista. Este é o tempo de Deus, o tempo dos ritmos profundos da graça em
nossas vidas. É composto por uma sucessão de momentos harmoniosamente ligados. Cada
um desses momentos é completo em si mesmo, pleno, porque nele fazemos o que devemos
fazer, em comunhão com a vontade de Deus. Esse tempo é comunhão com a eternidade. É
hora de recebermos como um presente.
Se sempre vivêssemos nessa época, teríamos muito menos oportunidades para
danos e transgressões. O diabo desliza no tempo em que vivemos mal porque estamos
recusando algo ou nos agarrando com muita ansiedade em outra coisa.
Os santos habitualmente viviam nesse tempo interior. Para fazer isso, era necessária
grande liberdade interior, total desapego de nossos próprios planos, programas e inclinações.
Devemos estar prontos para fazer em um instante exatamente o que não esperávamos, viver
em abandono total, sem nenhuma outra preocupação a não ser fazer a vontade de Deus e
estar totalmente disponíveis para as pessoas e eventos. Precisamos também experimentar na
oração a presença de Deus em nós e ouvir interiormente o Espírito Santo para seguir suas
sugestões.
Então, nada é deixado ao acaso. Muitas vezes podemos viajar nas trevas, mas sentimos
que nossas vidas estão se desenvolvendo em um ritmo que não controlamos, mas ao qual
ficamos felizes em nos abandonar e pelo qual todos os eventos são organizados com infinita
sabedoria.
III

O dinamismo da fé, esperança e amor

1. As virtudes teológicas

A importância da fé, esperança e amor surgiu com freqüência nos capítulos anteriores.
Elas são classicamente chamadas de “virtudes teológicas”, em outras palavras, as virtudes
que nos conectam a Deus. Só podemos adquirir liberdade interior na medida em que
desenvolvemos essas três virtudes.
Hoje, “virtude” perdeu muito de seu significado. Sua derivação é a palavra
latinavirtus, significando força ou poder. A virtude teológica da fé é força para
nós. A Carta aos Romanos diz de Abraão: “Nenhuma desconfiança o fez vacilar
quanto à promessa de Deus, mas ele se fortaleceu na fé ao dar glória
a Deus, totalmente convencido de que Deus era capaz de fazer o que havia prometido. ”1 A
esperança, da mesma forma, não é vaga e onírica, mas a confiança na fidelidade de Deus
que cumprirá suas promessas - confiança que nos dá grande força. E a caridade teológica
poderia ser chamada de coragem de amar a Deus e ao próximo.
Essas três virtudes teológicas constituem a dinâmica essencial da vida cristã. É
crucial compreender seu papel e centralizar toda a nossa vida espiritual neles, em
vez de, como às vezes acontece, em aspectos secundários. Para os cristãos,
maturidade significa a capacidade de viver pela fé, esperança e amor. Os cristãos
não são pessoas que seguem um conjunto de regras. Os cristãos são, antes de
mais nada, pessoas que acreditam em Deus, esperam tudo dele e querem amá-lo
de todo o coração e ao próximo. Os mandamentos, a oração, os sacramentos e
todas as graças que vêm de Deus (incluindo as experiências místicas mais
elevadas) têm apenas um propósito: aumentar nossa fé, esperança e amor.
O Novo Testamento, especialmente nas Cartas de São Paulo, descreve a fé, a
esperança e o amor no centro da vida cristã. “Damos graças a Deus… lembrando
diante de nosso Deus e Pai sua obra de fé e obra de amor e perseverança
de esperança em nosso Senhor Jesus Cristo. ”2 No combate espiritual, as armas do
cristão são essencialmente as virtudes teológicas: “Vamos… colocar a couraça da fé
e amor, e como capacete, a esperança de salvação. ”3
As virtudes teológicas têm um papel fundamental na vida espiritual porque aqui
cooperam a nossa liberdade e a graça de Deus. Tudo em nossas vidas que é positivo e
bom vem da graça de Deus, a ação imerecida e gratuita do Espírito Santo em nossos
corações; ainda assim, a graça não pode ser totalmente frutífera em nós, a menos que
cooperemos totalmente. “Eu te criei sem ti, mas não te salvarei sem ti”, disse nosso
Senhor a Santa Catarina de Siena.
As virtudes teológicas, então, são misteriosamente, mas realmente um dom de Deus e
nossa ação. A fé é um dom gratuito de Deus: ninguém pode dizer “Jesus é o Senhor” a
menos que seja concedido a ele pelo Espírito Santo. Mas é ao mesmo tempo um ato de
consentimento voluntário de uma pessoa à verdade proposta pela Escritura e pela
Tradição da Igreja. Seu lado voluntário é mais claro em tempos de tentação ou dúvida: “Eu
acredito no que eu quero acreditar”, disse Santa Teresinha de Lisieux em meio às
provações que ela suportou no final de sua vida. Acreditar nem sempre é algo natural e, às
vezes, exige que tomemos as duas mãos na coragem para acabar com a hesitação e a
dúvida. Ainda assim, quando fazemos um ato de fé, só é possível
porque “o Espírito Santo nos ajuda em nossas fraquezas”.4
Da mesma forma, a esperança é uma escolha que muitas vezes exige um esforço. É mais fácil
se preocupar, desanimar, ter medo. Esperando significaconfiante. Quando esperamos não ser
passivos: estamos agindo.
O amor também é uma decisão. Às vezes, vem espontaneamente, mas muitas
vezes amar as pessoas significará escolher amá-las. Do contrário, o amor não seria
mais do que emoção, até mesmo egoísmo, e não algo que envolva nossa
liberdade.
Mas sempre é por meio de um ato de Deus, oculto ou aberto, que a fé, a esperança e
caridade são possíveis.5 As virtudes teológicas despertam e crescem nos corações
humanos pela obra e ensino do Espírito Santo. Esse ensinamento divino às vezes é
bastante desconcertante. Vejamos como o Espírito Santo age em nós.

2. Os Três Derramamentos do Espírito Santo


Não há como mapear tudo o que o Espírito faz em qualquer vida. Não podemos
definir regras ou planejá-lo. "O vento sopra onde quer, e você ouve o som dele, mas
você não sabe de onde vem ou para onde vai. ”6 No entanto, certas constantes podem ser
rastreadas. Os mistérios do Rosário podem nos ajudar a ver isso.
O Rosário é uma oração muito bonita, pela qual nos confiamos a Nossa
Senhora para entrar em comunhão com os acontecimentos da vida de Cristo. Mas
também é uma espécie de símbolo de cada vida humana. Assim como o Rosário
contém mistérios alegres, dolorosos e finalmente gloriosos, pode-se dizer da obra
do Espírito Santo em nossas vidas que há “derramamentos” que são alegres,
dolorosos e gloriosos. (Essa é a ordem de importância, mas ocorrem de forma
cíclica.)
Alguns derramamentos do Espírito Santo iluminam e revelam, alguns despojam e
empobrecem, e alguns confirmam e fortalecem. Todos os três tipos são necessários: o
primeiro para dar à luz a fé, o segundo para nos ensinar a esperança e o terceiro para nos dar
a coragem de amar.
Tomemos o exemplo da vida de São Pedro. Às vezes pergunto às pessoas da
Renovação Carismática: “Quando São Pedro recebeu o derramamento do Espírito
Santo?” Eles geralmente respondem: “No Pentecostes!” Claro que isso é verdade, mas
acrescento que não foi a única vez. Em minha opinião, Pedro experimentou outros
“derramamentos do Espírito Santo” antes daquele em Atos. Há pelo menos dois que
adoro lembrar.

3. Vocação e o dom da fé

A primeira efusão do Espírito Santo na vida de São Pedro ocorreu no momento de


sua vocação, quando ele se sentiu impelido a deixar tudo - emprego, redes, barco e
família - para seguir Jesus. Pedro ficou profundamente comovido com Jesus
mensagem e, sobretudo, pelo próprio Jesus. "Nenhum homem jamais falou como este homem!"7
Ele foi tomado de entusiasmo pelo profeta da Galiléia, sentindo que suas palavras
eram palavras de vida eterna. Ao mesmo tempo, ele adivinhou que, ao responder
ao chamado de Jesus: “Vem, segue-me”, sua vida estava destinada a dar uma
guinada completamente nova e seria a partir de então dedicada a uma aventura
extraordinária. O Espírito Santo revelou a Pedro quem era Jesus e o novo
significado de sua própria existência, despertando nele grande alegria e felicidade.
Foi o início de uma maravilhosa aventura espiritual.
Estas foram “efusões alegres” do Espírito Santo. O Espírito nos enriquece,
também, com uma nova presença de Cristo e uma nova compreensão do significado de
nossas vidas. Nessas horas, o papel principal do Espírito é nos iluminar e despertar uma
resposta defé.

4. As Lágrimas de São Pedro e o Dom da Esperança

Mas o Espírito Santo às vezes nos empobrece. A experiência suprema de Pedro desse tipo
ocorreu no ponto mais terrível de sua vida: sua negação de Jesus. Mas, por meio da
misericórdia de Deus, essa negação se tornou a ocasião para um profundo derramamento do
Espírito Santo. O Príncipe dos Apóstolos chorou por sua própria baixeza e pecado, mas em
suas lágrimas recebeu a esperança do perdão.
A negação de Pedro de seu Senhor foi uma queda terrível para ele. Ele era o cabeça
dos apóstolos. Jesus o escolheu para isso. Mas todos os seus nobres sentimentos e agudo
senso de responsabilidade para com os outros discípulos desmoronaram em apenas
alguns segundos. Bastou uma criada no pátio do Sumo Sacerdote que perguntou: “Não
você também é um dos discípulos deste homem? ”8 Pedro negou três vezes seu Mestre,
jurando que não tinha nada a ver com ele. Mas o Espírito Santo, Pai dos pobres, aproveitou
esta queda terrível para tocar novamente o coração do Apóstolo, muito profundamente.
Pedro encontrou os olhos de Jesus e entendeu todo o horror de sua traição. Mas, ao
mesmo tempo, viu que não estava sendo condenado, mas amado com mais ternura do
que nunca. Para ele ainda havia a esperança de ser elevado novamente, a esperança de
salvação. E Pedro desabou em lágrimas, nas quais seu coração foi purificado naquele
momento. Judas, por que você evitou os olhos de Jesus e se prendeu em seu próprio
desespero? Até o final, a esperança de salvação e perdão poderia ter sido sua. Seu pecado
não foi pior do que o de Pedro….
No olhar de Jesus, Pedro recebeu uma efusão do Espírito Santo. Uma daquelas
efusões dolorosas que nos empobrecem, mas no final das contas são infinitamente
proveitosas porque nos mostram nossa impotência e nos obrigam a partir daí a confiar
exclusivamente na misericórdia e na fidelidade de Deus.
“Alguém que vê seu próprio pecado é maior do que alguém que ressuscita os mortos”,
disseram os Padres do Deserto. Pedro passou da presunção paraesperança. A esperança é a virtude
das pessoas que sabem que são infinitamente fracas e facilmente quebrantadas, e confiam
firmemente em Deus com total confiança. Peter, pela primeira vez em sua vida, fez um verdadeiro
ato de esperança: “O que não sou capaz de fazer com as minhas próprias forças, espero de ti, ó
meu Deus. Não em virtude de meus méritos, porque não tenho nenhum, mas em virtude somente
de sua misericórdia. ”
A esperança teológica só pode provir de uma experiência radical de nossa pobreza. Enquanto
formos ricos, dependemos de nossas riquezas. Para aprender a ter esperança, temos que passar
pelo empobrecimento. Essas experiências são o prelúdio para experimentar a bondade, fidelidade e
poder de Deus de uma forma bastante extraordinária. “Bem-aventurados os pobres de espírito” —
aqueles despojados de tudo pelo Espírito— “porque deles é
o reino dos céus. ”9

5. Pentecostes e o dom da caridade

Voltando aos gloriosos mistérios, descobrimos que o Pentecostes foi claramente um


“derramamento glorioso” do Espírito Santo para Pedro e os outros discípulos. Ele
preencheu o mundo e nos preenche - com a presença de Deus e os uniu intimamente a
Cristo; sua fruta mais bonita é acoragem de amar. No Cenáculo, Pedro recebeu o poder de
no alto como Jesus havia prometido.10 Esta foi a força da caridade, o fogo do amor, a coragem
de amar a Deus mais do que qualquer pessoa ou qualquer outra coisa e de consagrar a sua
vida ao serviço do próximo através da pregação do Evangelho. Ardendo com a caridade
derramada em seu coração pelo Espírito Santo, Pedro a partir de então foi um
Apóstolo incansável, regozijando-se em suas oportunidades de sofrer pelo nome de Jesus,11
e totalmente dedicado a “cuidar do rebanho de Deus que estava sob seu comando
de boa vontade."12

6. O fogo que acende, queima e transfigura

Esses três aspectos da vida espiritual - as efusões alegres, dolorosas e


gloriosas do Espírito Santo - lembram a imagem do fogo e a lenha usada por
São João da Cruz.13
Quando o fogo se aproxima do tronco, ele primeiro o ilumina e aquece. Isso
corresponde a um mistério alegre. Somos aquecidos pelo amor de Deus que nos é
revelado. Quando o fogo se aproxima, a madeira começa a escurecer, fumegar,
cheirar mal e liberar alcatrão e outras substâncias desagradáveis. Este é o
derramamento doloroso: a alma tem a dolorosa experiência de sua própria miséria.
Esta fase dura até que o fogo purificador termine seu trabalho e a alma se transforme
totalmente em fogo de amor. Aqui está o derramamento glorioso, no qual a alma
é fortalecido na caridade, o fogo que Jesus veio acender na terra.
A lição desse imaginário é muito otimista: não devemos temer os momentos em
que nos sentimos esmagados por nossa miséria. Devemos nos entregar confiando em
Deus, certos de que, mais cedo ou mais tarde, a miséria se transformará em caridade
ardente. Santa Teresinha de Lisieux escreveu à sua irmã, Marie du Sacré-Coeur:
“Afastemo-nos de tudo o que brilha, amemos a nossa pequenez… então seremos
pobres de espírito e Jesus virá nos procurar. Por mais longe que nós
são, ele vai nos transformar em chamas de amor. ”14

7. O dinamismo das virtudes teológicas

São Serafim de Sarov disse que o objetivo da vida cristã é a aquisição do Espírito
Santo. A isso se poderia acrescentar - e os acontecimentos da vida de São Pedro o
demonstram - que o objetivo do Espírito Santo em nossa vida é despertar em nós as
virtudes teológicas da fé, esperança e caridade e fazê-las crescer. Todos os outros
carismas, dons ou operações da graça são apenas meios que ele usa para aumentar a fé, a
esperança e o amor.
As três virtudes teológicas não podem ser separadas. Nenhum pode realmente
existir sem os outros dois. O mais importante é obviamente a caridade ou o amor.
“Na noite de nossas vidas, seremos julgados pelo amor”, disse São João da Cruz.
Devemos reler o maravilhoso hino à caridade na Primeira Carta aos Coríntios: “Se
tenho toda a fé, para remover montanhas, mas não tenho amor, eu
não sou nada. ”15 Mais tarde, São Paulo acrescenta: “Portanto, a fé, a esperança e o amor permanecem, estes três; mas

o maior deles é o amor ”.16 A fé e a esperança são provisórias; eles existem apenas
para esta terra e passarão. No céu, a fé será substituída pela visão e a esperança
pela posse; só o amor nunca passará. Nunca será substituído por nada mais,
porque é o objetivo de todos. Nesta terra, o amor é a participação mais plena na
vida do céu, e a fé e a esperança existem por causa dele.
Mas o amor não pode existir sem seus dois “servos”, fé e esperança. Precisa que eles
sejam capazes de crescer e se desenvolver. A seguir, veremos por quê.

8. O amor precisa de esperança; Esperança é baseada na fé

Não pode haver caridade sem esperança. O amor precisa de espaço para crescer e
florescer; é uma coisa maravilhosa, mas em certo sentido frágil. O “ambiente” especial
de que necessita é feito de esperança. Se o amor não cresce ou esfria, muitas vezes é
porque é sufocado por preocupações, medos, preocupações ou desânimos. Jesus disse
a Santa Faustina: “Os maiores obstáculos à santidade são o desânimo
e se preocupe. ”17
Fomos criados para amar. Estejamos ou não cientes disso, uma de nossas aspirações
mais profundas é nos doarmos ao outro. Uma parábola do Evangelho representa o amor
crescendo em nossos corações como o trigo que, tendo sido semeado, brota e
cresce por si só, quer o fazendeiro observe ou durma.18 No entanto, o amor muitas vezes não
cresce. Seu desenvolvimento é bloqueado pelo egoísmo, orgulho, "os cuidados do mundo
e o deleite nas riquezas, ”19 como Jesus diz, ou outras barreiras. Na maioria das vezes, a raiz do
problema é a falta de esperança.
Sem esperança, não acreditamos realmente que Deus pode nos fazer felizes e, portanto,
construímos nossa felicidade a partir da cobiça e da luxúria. Não esperamos encontrar a
plenitude de nossa existência em Deus e, portanto, moldamos uma identidade artificial
baseada no orgulho. Ou então - a condição mais comum entre as pessoas de boa vontade -
gostaríamos de amar e ser generosos em nos amar e doar, mas somos retidos por medos,
hesitações e preocupações. A falta de confiança no que a graça de Deus pode fazer em nossas
vidas, e no que podemos fazer com sua ajuda, leva a um encolhimento do coração, uma
diminuição da caridade. Mas, como dizia Santa Teresinha de Lisieux, a confiança leva ao amor.

Quando perdemos fervor, entusiasmo, generosidade em amar a Deus e ao próximo, é


muitas vezes por desânimo ou mesmo por uma espécie de desespero secreto. O remédio é
reacenda nossa esperança, para redescobrir uma nova confiança no que Deus pode fazer por
nós (não importa quão fracos e miseráveis sejamos) e o que podemos realizar com a ajuda de
sua graça.
“O desânimo é o que destrói as almas”, costumava dizer a Venerável Francis Mary
Paul Libermann. Portanto, o melhor tratamento é descobrir a raiz do desânimo e
aprender novamente a olhar para aquele aspecto particular da vida com olhos de
esperança.
Para que a vontade seja forte e empreendedora, ela precisa ser animada pelo desejo. O
desejo só pode ser forte se o desejado for percebido como acessível, possível. Não podemos
querer algo efetivamente se tivermos a sensação de que “nunca vamos conseguir”. Quando a
vontade é fraca, devemos apresentar novamente o objeto para que seja novamente visto como
acessível. A esperança é a virtude que efetua. Por meio da esperança, sabemos que podemos
esperar tudo de Deus com segurança. “Eu posso fazer todas as coisas naquele que
me fortalece, ”20 diz São Paulo. A esperança permite que o amor se expanda e prospere.
Mas para que a esperança seja uma força real em nossas vidas, é necessária uma base sólida,
alicerce da verdade. Esse fundamento sólido é dado pela fé: podemos "ter esperança contra
esperança"21 porque "sabemos em quem cremos".22 A fé nos faz agarrar-nos firmemente
à verdade transmitida pela Escritura, que fala da bondade de Deus, de sua misericórdia e
de sua fidelidade absoluta às suas promessas. A Epístola aos Hebreus diz: “Nós, que
fugimos em busca de refúgio, podemos ter forte encorajamento para agarrar a esperança
que nos é proposta. Temos isso como uma âncora segura e constante da alma, uma
esperança que entra no santuário interno por trás da cortina, onde Jesus
foi um precursor em nosso nome. ”23
A Escritura revela o amor absolutamente incondicional e irrevogável de Deus por
seus filhos, demonstrado em Cristo que nasceu, morreu e ressuscitou por nós.
Ele “me amou e se entregou por mim”.24 Pela fé, nossos corações se apegam a essa
verdade e encontram nela uma esperança imensa e indestrutível. “Faith é a mãe de
amor e esperança, bem como confiança e segurança. ”25

9. O papel fundamental da esperança

Essas considerações mostram o papel fundamental da esperança na vida cristã. Pode-


se dizer que, embora a caridade seja a maior das três virtudes teológicas, na prática a
esperança é a mais importante. Enquanto a esperança permanecer, o amor se
desenvolverá. Se a esperança se extingue, o amor esfria. Um mundo sem esperança logo
se torna um mundo sem amor. Mas a esperança precisa de fé, da qual brota. São João
Clímaco, um padre da Igreja do século VII, diz que “a fé traz o que parecia impossível ao
nosso alcance”. Ele acrescenta: “Um homem de fé não é aquele que acredita que Deus
pode fazer tudo, mas aquele que acredita que pode obter tudo de Deus”.
Meditemos nestas palavras de S. João da Cruz, que foram decisivas para encorajar
Teresa de Lisieux no seu “pequeno caminho de confiança e de amor”: “Nós
obtenha de Deus tanto quanto esperamos dele. ”26 Deus não dá de acordo com nossos
méritos, mas de acordo com nossa esperança.
Mas a esperança só pode nascer na pobreza. É por isso que a pobreza de espírito é a chave para
todo verdadeiro crescimento no amor. “Bem-aventurados os pobres de espírito, pois deles é o
Reino dos céus."27

10. Dinamismo do Pecado, Dinamismo da Graça


A fé, então, produz esperança, e a esperança torna o amor possível e o ajuda a
crescer. Este dinamismo das virtudes teológicas é fruto da graça, obra do Espírito
Santo, mas passa pela cooperação da nossa vontade. Este dinamismo positivo se
opõe, ponto por ponto, ao dinamismo negativo do pecado:

fé >> esperança >> amor

dúvida >> desconfiança >> pecado

Como o pecado toma posse do coração pode ser visto na história da queda de
Adão e Eva no segundo capítulo de Gênesis. Na raiz do pecado estádúvida, suspeita de
Deus. Deus é realmente tão bom quanto diz? Pode-se confiar em sua palavra? Ele é
realmente pai? A dúvida dá origem adesconfiança: não acreditamos que Deus pode
nos cumprir e nos fazer felizes. Então tentamos nos virar sozinhos, em desobediência.
Este é o nascimento do egoísmo, cobiça, luxúria, ciúme, medo, conflito, violência e
toda a rede do mal.
A fé é a raiz da nossa cura e da nossa libertação, o início de um processo de
vivificação que cura a morte engendrada pelo pecado. É por isso que Jesus dá tanta
ênfase à fé. “Se você tem fé como um grão de mostarda, você dirá a este
montanha, 'Mova-se daqui para aquele lugar', e ela se moverá. ”28 “A fé é a
certeza das coisas que se esperam,”29 diz a Carta aos Hebreus.

11. Esperança e Pureza de Coração

Isso, por sua vez, destaca o papel fundamental da esperança, que permite que o
amor cresça e floresça. A essência do combate espiritual cristão é, com a força da fé,
manter uma visão esperançosa de cada situação, de nós mesmos, das outras pessoas,
da Igreja e do mundo. Tal perspectiva nos permite reagir a todas as situações com
amor.
A bem-aventurança “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”30
contém uma das mais belas promessas do Evangelho. São João faz uma ligação
notável entre esperança e pureza de coração. “Vede que amor o Pai nos deu,
para que sejamos chamados filhos de Deus; e assim nós somos. A razão pela
qual o mundo não nos conhece é que não o conheceu. Amado, somos filhos de
Deus agora; ainda não parece o que seremos, mas sabemos que
quando ele aparecer, seremos como ele, pois o veremos como ele é. ” E o
Apóstolo continua: “E todo aquele que assim espera nele se purifica como ele
é puro. ”31
Esta declaração surpreendente está perfeitamente alinhada com a grande tradição
profética do Antigo Testamento, onde as pessoas de coração puro não são tanto aquelas livres
de todos os defeitos e de todas as feridas, mas aqueles que colocam toda a sua esperança em
Deus e estão certos de que as suas promessas irão. ser preenchidas. O coração puro espera
tudo de Deus; eles esperam nele enele sozinho. A impureza do coração é a duplicidade que os
profetas tantas vezes denunciaram: a de pessoas que, sem plena confiança em Deus, rezam
aos ídolos, procurando a salvação.
Os puros de coração verão a Deus na eternidade. Mas mesmo agora, nesta vida,
eles serão capazes de ver Deus agindo. Deus responderá à esperança que colocam
nele e intervirá em seu favor.
O maior poeta da esperança é Charles Péguy. NoO Portal do Mistério de
Esperança,32 Deus diz:
Se fosse de dias límpidos que ela fez dias límpidos.
Se fosse com almas, com água limpa que ela fez suas
nascentes. De água limpa que ela fez água limpa.
Se fosse de almas puras que ela fez almas puras,
Céus, isso não seria nada. Qualquer um poderia fazer o mesmo. E lá
não seria nenhum segredo para isso.
Mas é de água suja, velha, velha.
Mas é de uma alma impura que ela faz uma alma pura e essa é a
mais belo segredo em todo o jardim do mundo.
4

Da lei à graça: amor como um presente grátis

1. Lei e Graça

São Paulo fala freqüentemente sobre a liberdade cristã. Ele é um ardente defensor de
a “gloriosa liberdade dos filhos de Deus”.1
Assim, na Carta aos Gálatas, lemos: “Para a liberdade Cristo nos colocou
gratuitamente; fique firme, portanto, e não se submeta novamente ao jugo da escravidão. ”2 Paulo está muito
preocupado com a possibilidade de os crentes perderem a preciosa liberdade conquistada para eles por Cristo.
"Estou surpreso que você esteja abandonando tão rapidamente aquele que o chamou no

graça de Cristo, e voltando-se para um Evangelho diferente. ”3 “Ó tolos gálatas! Quem


te enfeitiçou, ante cujos olhos Jesus Cristo foi publicamente retratado como
crucificado? "4
Mas como os cristãos são ameaçados de perder sua liberdade? No capítulo 5, o
apóstolo denuncia as duas “armadilhas” que podem causar essa perda: alei e acarne.

2. “Onde o Espírito reina, há liberdade.” o


Diferença entre liberdade e licenciosidade

A armadilha da carne5 é discutido nos versículos 13–25. É fácil de entender. Em vez


de seguir os impulsos do Espírito, as pessoas se entregam, sob o pretexto da
liberdade, às suas paixões, ao egoísmo e ao pecado em todas as suas formas:
"Imoralidade, impureza, licenciosidade, idolatria, feitiçaria, inimizade, contenda, ciúme, raiva,
egoísmo, dissensão, espírito de festa, inveja, embriaguez, farra e assim por diante." São Paulo
nos lembra um ensino clássico que vale a pena repetir nestes tempos confusos: licenciosidade
não é liberdade. É a escravidão, na qual as pessoas ficam presas ao que há de mais superficial
na humanidade: desejos egoístas, medos, fraquezas e assim por diante. Devemos travar uma
luta incessante contra as tendências descritas por São Paulo e devemos permanecer
permanentemente abertos às graças curativas que vêm da Cruz de Cristo. Então nos tornamos
verdadeiramente capazes de realizar o bem.
O tema básico subjacente ao ensino de São Paulo é a rejeição da idolatria. Aqueles que
desejam ser fiéis ao Senhor são convidados a guardar sua liberdade e não se entregar à
adoração de ídolos: em outras palavras, não olhar para as coisas deste mundo - prazeres
dos sentidos, poder, fama, trabalho ou um determinado relacionamento para a plenitude,
paz, felicidade e segurança que só Deus pode dar. Do contrário, seremos vítimas de
amargas decepções e prejudicaremos seriamente a nós mesmos e a outras pessoas.

Para o leitor de hoje, é necessário acrescentar que há duas coisas a serem observadas
para que a luta contra as más inclinações tenha alguma chance de sucesso. Primeiro,
nossos esforços nunca serão suficientes por conta própria. Somente a graça de Cristo
pode nos dar a vitória. Portanto, nossas principais armas são oração, paciência e
esperança. Em segundo lugar, uma paixão só pode ser curada por outra - um amor mal
colocado por um amor maior, comportamento errado por comportamento correto que faz
provisões para o desejo subjacente à transgressão, reconhece as necessidades conscientes
ou inconscientes que buscam satisfação e lhes oferece satisfação legítima ou transfere-os
para algo compatível com a chamada da pessoa.

3. A armadilha da lei

São Paulo quer que compreendamos que existe outra armadilha para a
liberdade cristã que é mais sutil, mais difícil de ver e, portanto, talvez em última
instância mais perigosa: a armadilha da lei. Esta é outra manifestação da “carne”,
embora não expressa em comportamento imoral (pode parecer a moralidade mais
estrita). Ele substitui a regra degraça com a regra de lei. Esta é uma perversão do
Evangelho.
As circunstâncias históricas que impeliram São Paulo a escrever sobre este tema
são bem conhecidas. Depois que ele pregou o Evangelho, outros “corrigiram” seu
ensino, dizendo a seus convertidos cristãos recentes que eles não poderiam ser salvos
sem aceitar a circuncisão e obedecer às muitas prescrições da lei de Moisés.
São Paulo reagiu energicamente, dizendo-lhes que ao seguir este conselho eles
seria "separado de Cristo ... caído da graça."6 A lei em si é boa, mas a armadilha é esta: se
tomarmos a obediência à lei como condição para a salvação, estamos dizendo que a
salvação vem, não do amor livremente dado por Deus, mas de nossas próprias obras. Os
dois modos de pensamento são diretamente opostos um ao outro. De acordo com a graça,
recebemos a salvação e o amor de Deus gratuitamente por meio de Cristo,
independentemente de nossos méritos, e respondemos livremente a esse amor pelas boas
obras que o Espírito Santo nos capacita a realizar. De acordo com a lei, merecemos a
salvação e o amor de Deus por nossas boas obras. Uma abordagem é baseada no amor
livre e incondicional de Deus, e a outra em nossas capacidades e em nós mesmos.
São Paulo está profundamente convencido de que a salvação recebida em Cristo é
gratuita e imerecida. Ele freqüentemente sublinha isso, como em sua carta a Tito: “Pois
nós mesmos éramos uma vez tolos, desobedientes, desviados, escravos de várias paixões
e prazeres, passando nossos dias em malícia e inveja, odiados pelos homens e odiados uns
aos outros; mas quando a bondade e amorosa bondade de Deus nosso Salvador apareceu,
ele nos salvou, não por causa de obras feitas por nós em justiça, mas em virtude de sua
própria misericórdia, pela lavagem da regeneração e renovação no Santo.
Espírito."7 Ele escreve aos Efésios: “Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande
amor com que nos amou, ainda quando estávamos mortos pelas nossas ofensas,
nos deu vida juntamente com Cristo (pela graça fostes salvos), e nos criou
com ele, e nos fez sentar com ele nos lugares celestiais em Cristo Jesus. ”8
O que a lei nos diz para fazer é bom. Mas tomar a lei como base para nosso
relacionamento com Deus contradiz a verdade de que a salvação é dada gratuitamente e
acaba matando o amor.
Isso pode levar ao orgulho. Podemos pensar que podemos cumprir tudo o que a lei
prescreve, considerar-nos justos e desprezar as outras pessoas por não fazerem o mesmo.
Esse foi o pecado dos fariseus, que Jesus denunciou com tanta veemência. Nada mata mais
efetivamente o amor e a compaixão para com o próximo. Mas a lei também pode levar ao
desespero, ao sentimento de que, se não pudermos cumprir perfeitamente todas as suas
ordenanças, estaremos irremediavelmente condenados. É certo que as pessoas que começam
por se orgulhar de seus “sucessos” espirituais cairão em desespero mais cedo ou mais tarde.

O processo tem variações. Uma é a devoção rígida de pessoas que em tudo agem
por dever, como se tivessem uma dívida a pagar a Deus. Na realidade, Cristo pagou
todas as dívidas da humanidade a Deus na Cruz; ele nos chama para dar tudo em troca
de amor e gratidão, não como pagamento de uma dívida. Existem pessoas motivadas
pelo medo, sempre culpadas e incapazes de fazer o suficiente para satisfazer a Deus.
Existe a visão mercenária de quem está sempre calculando sua
seus próprios méritos, medindo seu progresso, esperando que Deus os
recompense por seus esforços e reclamando quando as coisas não vão
como eles acham que deveriam. Existe a atitude superficial de quem
pensa ter feito tudo tão logo faz um pouquinho de bem, e desanima ou se
rebela diante de suas limitações. Ou a estreiteza de quem mede tudo
de acordo com regras estritas, "espíritos elementais fracos e miseráveis",9 "humano
preceitos e doutrinas, ”10 “Não manuseie, não prove, não toque,”11 e tornar a vida
impossível para os outros por seu legalismo implacável ou perfeccionismo.
Assumir nossa posição contra a lei leva à morte, porque orgulho, desespero,
legalismo, cálculo e o resto matam o amor. Assumir nossa posição na graça leva à vida,
porque permite que o amor cresça, se expanda e floresça. A graça é dada gratuitamente, e
essa dádiva gratuita é a única lei sob a qual o amor pode existir. Jesus diz: “Você recebeu
sem pagamento, dê sem pagamento. ”12 O amor de Deus é absolutamente gratuito: não temos que
merecê-lo ou conquistá-lo, temos apenas que recebê-lo e recebê-lo pela fé. Este é o único caminho
para a salvação, segundo São Paulo.
Viver de acordo com a graça é o remédio para o orgulho. Percebemos que nossos trabalhos
não são nossos, mas são o que Deus nos dá a graça de fazer.13 Este também é o remédio para o
desespero, porque não importa o quão terríveis sejam nossos fracassos, nunca estamos
condenados à condenação inevitável - podemos sempre retornar ao amor absolutamente livre e
incondicional de Deus.
Ao contrário, o nosso posicionamento na lei impede-nos de saborear a gloriosa
liberdade dos filhos de Deus, que sabem que são amados incondicionalmente,
independentemente dos seus méritos e das suas boas ou más notas.

4. Aprendendo a amar: dar e receber livremente

Fomos colocados na terra para aprender a amar na escola de Jesus. Aprender a amar é
extremamente simples: significa aprender adar livremente e receba gratuitamente. Mas essa
lição simples também é muito difícil para nós aprendermos, por causa do pecado.
Não é natural para nós dar livremente. Temos uma forte tendência de dar para
receber em troca. O dom de nós mesmos é sempre motivado, até certo ponto, pela
autogratificação. Jesus nos convida a escapar dessa limitação e praticar um amor
tão puro e desinteressado quanto o amor de Deus. “Ame seus inimigos, faça o bem
e empreste, sem esperar nada em troca; e sua recompensa será grande e vocês
serão filhos do Altíssimo; pois ele é gentil com os ingratos e
o egoísta. Seja misericordioso, assim como seu Pai é misericordioso ... ”14
Nem achamos fácil receba gratuitamente. Ficamos felizes em receber algo visto como uma
recompensa por nossos méritos, algo que nos é devido. Receber livremente significa confiar no
doador, com o coração aberto. Também significa abandonar a nós mesmos! E isso requer
muita humildade. Podemos reivindicar as coisas como um direito, exigir coisas, mas raramente
podemos receber e aceitar livremente.
Cometemos uma falha contra esse dar e receber gratuitamente, em nosso relacionamento
com Deus ou com outras pessoas, toda vez que fazemos do bem que fizemos uma desculpa
para reivindicar um direito, exigindo gratidão ou recompensa. Mas também fazemos isso de
forma mais sutil cada vez que temos medo de não receber amor devido a esta ou aquela
limitação ou deficiência pessoal. Jesus no Evangelho faz tudo o que pode para destruir
essa maneira de pensar.15 Achamos difícil aceitar essa reversão de nossos valores, mas
nunca encontraremos a felicidade sem ela.
Aprender a dar e receber gratuitamente requer um longo e laborioso processo de
reeducação de nossas mentes, que foram condicionadas por milhares de anos de
luta pela sobrevivência.16 A entrada violenta da revelação divina e do Evangelho
no mundo é como um fermento evolutivo, destinado a fazer nossa psicologia
“evoluir” para uma atitude de dar e receber gratuitamente - a atitude do Reino
porque é a atitude de amor. Este é um processo de divinização, cujo objetivo
final é amar como Deus ama: “Você deve ser perfeito, como seu Pai em
o céu é perfeito. ”17 E esta divinização, este tornar-se semelhante a Deus, significa tornar-
se humano no sentido mais verdadeiro! É uma evolução maravilhosa e libertadora: mas só
podemos entrar no novo modo de ser por meio da destruição de muitos de nossos
comportamentos naturais, uma espécie de agonia de morte. Tendo entrado pela “porta
estreita” desta conversão de olhares, entretanto, nos encontramos em um lugar
esplêndido: o Reino, o mundo onde o amor é a única lei, um paraíso do dar e receber
gratuitamente. Aqui não há mais “direitos” e “deveres”, nada para defender ou ganhar, não
há mais oposição entre “seu” e “meu”. Aqui, o coração pode se expandir infinitamente.
V

Pobreza espiritual e liberdade

1. A necessidade de ser

Uma das necessidades mais profundas do homem é a necessidade de identidade.1


Precisamos saber quem somos; precisamos existir aos nossos próprios olhos e aos dos outros.
Essa necessidade de identidade é tão forte que pode levar a aberrações. Vemos isso
principalmente hoje, quando homens e mulheres, principalmente os jovens, podem adaptar o
“look” mais bizarro ditado pelos modismos atuais, simplesmente como uma forma de afirmar
que são quem são. A mídia oferece muitos modelos diferentes: o executivo jovem e dinâmico,
a estrela do esporte, a supermodelo, o garoto esperto ...
No nível mais superficial, essa necessidade de identidade muitas vezes busca
satisfação nas posses materiais e um certo estilo de vida externo: nos identificamos com
nossas riquezas, nossa aparência física, nossa motocicleta ou iate. Isso é terrivelmente
confuso: estamos tentando satisfazer uma necessidade deser por tendo. Pode nos deixar
felizes por um tempo, mas não dura e logo vêm as decepções. Percebendo que a única
coisa em que os outros estavam interessados era no dinheiro, não em si mesmas, as
pessoas vivenciam uma terrível solidão.
Em um nível ligeiramente superior, a necessidade de ser busca satisfação por meio da
aquisição e exercício de certos talentos, sejam esportivos, artísticos ou intelectuais. Existe
então o risco de confundirser com fazendo. Mas e se alguém perder sua coleção de
talentos e habilidades? Suponha que o jogador de futebol mundial acabe em uma cadeira
de rodas? Suponha que o homem que conhece a literatura francesa de trás para a frente
perde a memória em um acidente? Quem são eles então?
É normal e bom descobrir que se pode fazer tal e tal coisa, atualizar seu
potencial e, assim, aprender quem é. Assim, adquirimos a nós mesmos
confiança e experimentar a alegria de expressar os talentos que nos foram confiados. Nossa
educação e educação são, como deveriam ser, amplamente baseadas nesta tendência.
Mas a identidade não está enraizada na soma das aptidões de alguém. Os
indivíduos têm um valor e dignidade únicos, independentemente do que podemFaz.
Quem não percebe isso corre o risco de ter uma verdadeira “crise de identidade” no
dia em que experimenta o fracasso ou de desprezar os outros diante de suas
limitações. Onde há espaço para os pobres e deficientes em um mundo onde as
pessoas são avaliadas por sua eficiência e pelo lucro que podem produzir?

2. Orgulho e pobreza espiritual

Aqui vale a pena refletir sobre o problema do orgulho.2Todos nascemos com uma
ferida profunda, vivida como falta de ser. Procuramos compensar construindo um self
diferente de nosso self real. Esse eu artificial requer grande quantidade de energia
para mantê-lo; sendo frágil, precisa de proteção. Ai de quem o contradizer, ameaçar,
questionar ou inibir sua expansão. Quando o Evangelho diz que devemos “morrer para
nós mesmos”, isso significa que esse ego artificial, esse eu construído, deve morrer,
para que o verdadeiro “eu” dado a nós por Deus possa emergir.

Essa mesma tendência também existe em nossa vida espiritual. É normal e


positivo, fonte de crescimento humano e espiritual, pois nos motiva a progredir, a
adquirir dons e talentos, a imitar este ou aquele modelo. Querer ser alguém como
São Francisco de Assis ou Madre Teresa pode nos lançar no caminho da santidade.

Mas isso se torna um problema perigoso se pararmos nesse ponto.


Obviamente, é excelente fazer coisas boas como orar, jejuar, dedicar-se ao serviço
ao próximo, evangelizar e assim por diante. Mas é extremamente perigoso para
nos identificamos com o bem espiritual que somos capazes de fazer. Pois essa
identidade ainda é artificial e frágil, e entrará em colapso no dia em que uma de
nossas virtudes falhar ou um talento espiritual particular no qual colocamos todo o
nosso ser for tirado de nós. Como podemos suportar as falhas, se nos
identificamos com nossos sucessos espirituais? Encontrei religiosos que deram
tudo de si no apostolado, dedicando-se de corpo e alma a uma boa causa, e que,
no dia a dia a doença ou a decisão de um superior os obrigava a cessar, viveram
uma crise profunda a ponto de não mais sabendo quem eles eram.
A identificação de si mesmo com o que é bom é capaz de realizar leva a
orgulho espiritual: conscientemente ou não, nos consideramos a fonte desse bem, ao
invés de reconhecer que todo bem que podemos fazer é um dom gratuito de Deus. “O
que você tem que não recebeu? Se então você recebeu, por que você
gabar-se como se não fosse um presente? "3 Esse orgulho nos leva a julgar aqueles que
não realizam tanto quanto nós, a ficarmos impacientes com aqueles que nos impedem de
realizar um determinado projeto, e assim por diante.
Orgulho, dureza de coração, desprezo pelo próximo, junto com medo e desânimo
são os resultados inevitáveis de confundir meu auto com minha talentos. As falhas
são insuportáveis porque, em vez de serem vistas como normais, até benéficas, são
percebidas como um ataque ao nosso ser.
Os seres humanos são mais do que a soma do bem que podem realizar. Eles
são filhos de Deus, quer façam o bem ou ainda não consigam fazer nada. Nosso
Pai celestial não nos ama por causa do bem que fazemos. Ele nos ama
para nós, porque ele nos adotou como seus filhos para sempre.4
É por isso que a humildade, a pobreza espiritual, são tão preciosas: ela localiza nossa
identidade com segurança no único lugar onde estará a salvo de todos os perigos. Se
nosso tesouro está em Deus, ninguém pode tirá-lo de nós. Humildade é verdade. Eu sou o
que sou aos olhos de Deus: uma pobre criança que não possui absolutamente nada, que
tudo recebe, infinitamente amada e totalmente livre. Tudo recebi de antemão do amor
livremente concedido por meu Pai, que me disse definitivamente: “Tudo o que é meu
é seu."5
Nosso tesouro não é do tipo que mariposas ou vermes podem devorar.6 Está no céu
nas mãos de Deus. Depende somente de Deus, de sua boa vontade e bondade infalível
para conosco. A nossa identidade tem origem no amor criador de Deus, que nos fez à sua
imagem e nos destina a viver com ele para sempre.

O amor é o que resta quando nada permanece. Todos carregamos dentro de nós
esta memória quando, para além dos nossos fracassos, das nossas separações, das
palavras que sobrevivemos, surge das profundezas da noite, como uma canção que
mal se ouve, a certeza de que para além dos desastres das nossas vidas, mesmo
além alegria, sofrimento, nascimento, morte, existe um espaço onde nada ameaça,
que nada jamais ameaçou e que não corre risco de destruição, um intacto
espaço, o do amor que foi a base do nosso ser.7

Isso não significa que não importa se nos comportamos bem ou mal. Devemos fazer o
bem e evitar o mal o máximo que pudermos, porque o pecado fere a Deus, nos prejudica e
prejudica outras pessoas, e o dano que ele causa muitas vezes é difícil de corrigir. Mas não
temos o direito de identificar as pessoas com os erros que cometem. Isso seria aprisioná-los e
perder todas as esperanças em relação a eles. Nem podemos identificar ninguém -
especialmente não nós mesmos - com o bem que eles fazem.

3. Provas espirituais

Essas considerações lançam luz sobre a maneira como Deus nos ensina e nos treina
individualmente e sobre o significado das provações na vida espiritual.
As provações ou “purificações” tão freqüentemente referidas pelos místicos existem para
destruir tudo o que é artificial em nosso caráter, para que nosso verdadeiro ser possa emergir
- isto é, o que somos para Deus. A noite da alma poderia ser chamada de uma série de
empobrecimentos, às vezes violentos, que privam os crentes de qualquer possibilidade de
confiar em si mesmos. Essas provações são benéficas porque nos levam a localizar nossa
identidade onde ela realmente pertence. A experiência pode ser muito dolorosa quando
alguém que ama a Deus passa por uma fase sem um átomo de fervor e até mesmo com uma
aversão profunda pelas coisas espirituais. As pessoas não perdem o amor a Deus, pois todo o
seu ser permanece totalmente orientado para Deus; mas eles perdem o sentimento de amor.
O benefício desta provação é que nos priva de qualquer possibilidade de contar com o bem
que podemos fazer. A misericórdia de Deus é tudo. Certa vez, um padre me disse em
confissão: “Quando você não acreditar mais no que pode fazer por Deus, continue acreditando
no que Deus pode fazer por você”.
Progressivamente, e de uma forma paralela ao seu terrível empobrecimento, aqueles
que passam por tais provações enquanto ainda esperam no Senhor, começam a perceber
a verdade de algo que até então era apenas uma expressão piedosa: Deus nos ama de
forma absolutamente incondicional , em virtude de si mesmo, sua misericórdia e sua
infinita ternura, em virtude de sua paternidade para conosco.
Essa experiência produz uma mudança fundamental em nossa vida cristã. É uma graça
imensa. A base de nosso relacionamento com Deus não está mais em nós, mas total e
exclusivamente em Deus. Agora nos tornamos totalmente livres. Quando nosso
relacionamento com Deus tem a paternidade de Deus como seu único fundamento, está a
salvo de todos os perigos.
As pessoas que passaram por esse tipo de provação estão mais do que nunca
apaixonadas por Deus e desejam agradá-lo com boas obras, mas o bem que fazem é
feito de maneira pura, livre e desinteressada. Não surge da necessidade de criar uma
identidade ou da sede de sucesso. Nem tem o motivo oculto de querer uma
recompensa. Sua fonte é Deus.
Esta conversão espiritual é bem descrita pelo monge egípcio Matta El-Maskeen ou
el Maskine (Mateus, o Pobre) em seu trabalho sobre a oração.
Quando os cristãos se dedicam ao combate espiritual, à assiduidade na
oração e à observância cuidadosa de outras práticas espirituais, podem vir
a sentir que esta atividade e esta assiduidade condicionam a sua relação
com Deus. Parece-lhes então que é por causa de sua perseverança e
fidelidade às orações que eles merecem ser amados por Deus e se
tornarem Seus filhos. Mas Deus não quer que as almas se desviem por
esse caminho falso, que, de fato, as separaria para o bem do amor
livremente concedido por Deus e da vida com Ele. Então, Ele tira a energia
e a assiduidade que os ameaçam com essa perda.
Uma vez que Deus tirou as habilidades que Ele ofereceu gratuitamente em
prova de Seu amor, essas almas ficam sem forças, incapazes de realizar
qualquer ação espiritual, e são confrontadas com a verdade estupefaciente de
que resistem em acreditar e persistem em ver como altamente improvável :
Deus em sua paternidade não precisa de nossas orações e nossas boas obras.
No início, eles se apegam à idéia de que Deus retirou Seu cuidado paternal
deles depois que pararam de orar; e que Deus os abandonou e os negligencia
porque suas obras e perseverança não foram à medida de seu amor. Eles
tentam em vão se levantar de sua prostração e luto e retomar sua atividade
anterior, mas todas as suas resoluções vão em vão. E então, aos poucos, eles
começam a entender que a grandeza de Deus não deve ser medida pelo
padrão da futilidade do homem, que Sua paternidade eminentemente
superior escolheu adotar os filhos do pó por causa de Sua infinita ternura e a
imensidão de Sua graça, e não em troca das obras do homem ou de nossos
esforços; que nossa adoção por Deus é uma verdade que tem sua fonte em
Deus e não em nós mesmos, uma verdade que está sempre presente, que
persiste - apesar de nossa impotência e nosso pecado - em testemunhar a
bondade de Deus e Sua generosidade. Desta forma, sua mornidão espiritual
leva essas almas a reverem fundamentalmente seu conceito de Deus, e
também sua avaliação das relações espirituais entre a alma e Deus. Isso
modifica profundamente seu conceito de esforço e assiduidade nos trabalhos
espirituais.
como respostas ao Seu amor e cuidado paternal.8

O que Deus faz na alma de certas pessoas, mergulhando-as nessa espécie


de “mornidão espiritual”, é algo que ele gostaria de fazer a todos, embora talvez
de uma forma menos extraordinária e mais gradual, por meio de seus
sofrimentos: fracasso, desamparo , quedas de todo tipo, doenças, depressões,
debilidades psicológicas e afetivas, ainda que por nossa própria culpa. Há
nenhuma grande diferença entre as provações espirituais e outras provações. Deus faz uso de
tudo, até das consequências dos nossos pecados! É consolador saber que podemos tirar
grande proveito espiritual de uma provação sem nada de espiritual nisso.

4. Confiando apenas na misericórdia

Os cristãos “maduros”, que se tornaram verdadeiramente filhos de Deus,


são aqueles que experimentaram o seu nada radical, a sua pobreza absoluta,
reduzida a nada. No fundo desse nada, eles finalmente descobriram a ternura
inexprimível, o amor absolutamente incondicional de Deus. Doravante, seu
único apoio e esperança é a misericórdia sem limites de seu Deus Pai. Para eles,
as palavras que Deus fala ao povo de Israel por meio do profeta Sofonias se
tornaram realidade: “Deixarei no meio de vocês um povo humilde e
humilde. Eles buscarão refúgio no nome do Senhor. ”9 Eles fazem todo o bem que
podem. Eles recebem o que o próximo pode fazer por eles com alegria e gratidão, mas
com grande liberdade, porque seu apoio está somente em Deus. Eles não se
incomodam com suas próprias fraquezas, nem culpam os outros por nem sempre
atenderem às suas expectativas. A confiança somente em Deus os protege de todo
desapontamento. Dá-lhes uma grande liberdade interior, que colocam inteiramente ao
serviço de Deus e do próximo, respondendo ao amor com amor.

5. A pessoa verdadeiramente livre é aquela que não tem nada


Da esquerda para perder

O mundo busca a liberdade no acúmulo de posses e poder. Esquece que as


únicas pessoas verdadeiramente livres são aquelas que não têm mais nada a
perder. Despojados de tudo, separados de tudo, eles estão “livres de tudo
homens"10 e todas as coisas. Pode-se dizer que sua morte já ficou para trás, porque todo o
seu “tesouro” está agora em Deus e somente nele. As pessoas que são supremamente
livres não desejam nada e não têm medo de nada. Todo o bem que importa para eles já
lhes está garantido por Deus. Eles não têm nada a perder e nada a defender. Estes são os
“pobres de espírito” das Bem-aventuranças, desapegados, humildes, misericordiosos,
mansos, pacificadores.
Há uma parábola que expressa essa verdade no livro de Solzhenitsyn O Primeiro
Círculo, que se passa na era da ditadura de Stalin. Um alto funcionário do partido
precisa dos serviços de um “zek”, que é um cientista, para um projeto que o
encarregou e no qual está arriscando a carreira. Ele apresenta todos os argumentos
possíveis para persuadi-lo a colaborar. Solzhenitsyn mostra perceptivelmente como o
homem realmente livre nesta troca não é o oficial poderoso, mas o prisioneiro, porque
ele não tem mais nada a perder. Ele está pronto para voltar à Sibéria se necessário:
mesmo nessas condições terríveis, ainda se pode ser um homem.
Gulags e campos de concentração foram um dos maiores traumas do século
XX, mas forneceram numerosos casos de pessoas que encontraram a verdadeira
liberdade atrás das grades. Em seu livro, Etty Hillesum, presa no campo de
Westerbork, reflete:

O arame farpado é mais uma questão de atitude.

- Nós atrás de arame farpado? um velho indestrutível disse certa vez com um
aceno melancólico de sua mão. 'Eles são os que vivem atrás de arame farpado' - e
ele apontou para as vilas altas que se erguem como sentinelas no outro
lado da cerca.11

Ela também escreve: “Se você tem uma vida interior rica, eu teria dito,
provavelmente não há tanta diferença entre o interior e o exterior de um
[campo de prisioneiros."12

6. Felizes são os pobres

Com o passar dos anos, encontro pessoas com quem compartilho coisas em um nível
profundo e experimento a ação silenciosa, misteriosa, mas muito real de Deus em minha vida
e na deles. Cada vez mais fico impressionado com a sabedoria do Evangelho e com a maneira
como a Palavra lança uma luz surpreendentemente precisa sobre a condição humana. Este
Evangelho paradoxal e inesgotável tem um poder inédito de nos “humanizar”.
No centro do Evangelho estão as Bem-aventuranças. O primeiro resume todos os
outros: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus”. Espero
que este livro tenha ajudado o leitor a entender essa surpreendente declaração de Jesus e
a começar a colocá-la em prática. A pobreza espiritual, a dependência absoluta de Deus e
de sua misericórdia, é a condição para a liberdade interior. Precisamos nos tornar filhos e
“consentir em esperar tudo como um presente de Deus nosso Pai:
absolutamente tudo, momento a momento. ”13
Não sabemos que eventos marcarão o terceiro milênio, mas uma coisa é
certa: quem aprendeu a descobrir e a expandir o espaço inalienável de
liberdade que Deus colocou em seus corações ao torná-los seus filhos, jamais
será surpreendido .
Para concluir, ofereço para a meditação do leitor um belo diálogo entre
Jesus e um escritor espiritual espanhol contemporâneo, que tem uma
relação estreita com Nossa Senhora desde a infância e que optou pelo
anonimato.
“Você nunca se perguntou qual de todas as coisas que você experimenta me
causa a maior alegria?”
“Não”, eu disse a Jesus.
Ele respondeu: “Quando, em lúcida liberdade, você diz sim aos chamados de
Deus”. E então ele continuou: “Lembre-se do que diz o Evangelho: 'A verdade os
libertará'. Você só pode responder livremente aos chamados da graça quando
sua própria verdade se torna clara, quando você a aceita humildemente e
quando, com base nisso, mantém uma conversa com Deus, percebendo que tudo
o que aconteceu e acontece com você faz parte de um projeto amoroso e
providencial de seu Deus Pai.
“Sim, muitas coisas irão causar-lhe perplexidade. Eles até o mergulharão em
escuridão intensa e, ainda mais, no sofrimento que o fere e o paralisa. Mas se
você recorrer à sua fé, ela será o seu escudo. Deus não se revela como seu
Abba? Não assumi eu, o Filho, a sua condição da forma mais miserável? O
Paráclito não te defende? Acredite em tudo isso de coração e alma, e isso o
encherá de confiança e segurança. “Não tenham medo de si mesmos! Não
tenha medo de tudo o que você é, em sua realidade humana, onde Deus
arma sua tenda para habitar com você. Deus é encarnação. O novo nome de
Deus é Emanuel, Deus conosco: Deus com sua realidade. Abra-se para isso
sem medo. Somente na medida em que você se descobrir, descobrirá as
profundezas de seu amor. Nas profundezas do que você é, você vai sentir que
não está sozinho. Alguém, com amor e misericórdia, entrou no mistério da
tua humanidade, não como espectador, não como juiz, mas como alguém que
te ama, que se oferece a ti, que te desposa para te libertar, te salvar e te
curar ... Para ficar com você para sempre, te amando, te amando! ”

Páscoa, 2002
Notas

Introdução

1 2 Coríntios 3:17.
2 Citado em Paul Labutte, Une amitié voulue par Dieu (Paris: François-Xavier de Guibert, 1999).
3 Mateus 5: 3.
4 Procurando e Mantendo a Paz: Um Pequeno Tratado sobre Paz de Coração (Nova York: Alba
House, 2002); Na Escola do Espírito Santo (Nova York: Scepter, 2007); Hora de deus (Nova
York: Scepter, 2008).

Capítulo 1

1 João 8:32.
2 2 Coríntios 3:17.
3 Gálatas 5: 1.
4 Tiago 2:12.
5 “A alma não pode viver sem amor, ela sempre precisa de algo para amar: porque é feita de amor, e foi para
o amor que eu a criei.” Diálogos de Santa Catarina de Sena, capítulo 51.
6 Romanos 1: 5.
7 Mateus 16:25.
8 Há uma prova muito simples disso, que leva tempo para ser entendida. Enquanto nossa sensação de maior ou
menor liberdade depender de circunstâncias externas, isso significa que ainda não somos verdadeiramente
livres.
9 Santo Agostinho, Confissões, livro 10, cap. 27
10 Santa Faustina Kowalska, Jornal petit (Marquain, Bélgica: Jules Hovine), p. 319; Edição em inglês:Diário:
Divina Misericórdia em Minha Alma (Stockbridge, Mass .: Marians of the Imaculate Conception, 1999).

11 2 Coríntios 6:12.
12 Etty Hillesum, Uma vida interrompida: Diários e cartas de Etty Hillesum 1941–43, trad. UMA.
J. Pomerans (Londres: Persephone Books, 1999).
13 Hillesum, Vida Interrompida, pp. 176–77.
14 Romanos 8:26.
15 Romanos 8: 38–39.
16 João 21:18.
17 “A maior ilusão do homem é querer ter domínio sobre sua vida ... Mas a vida é um dom que por sua
própria natureza escapa a qualquer tentativa de dominá-la.” Jean-Claude Sagne,Viens vers le Père:
L'Enfance spirituelle, chemin de guérison (Neuilly: Editions de l'Emmanuel, 1998), p. 172
18 Santa Teresinha de Lisieux, Manuscrit Autobiographique A, 53 reto.
19 João 15: 5.
20 Mateus 5:48.
21 Isaías 43: 4.
22 Isso é facilmente visto no desenvolvimento da cultura moderna. Quando se desligam de Deus, as
pessoas acabam perdendo o senso de dignidade humana e se odiando. É impressionante, por
exemplo, ver como o humor na mídia é cada vez menos o humor da ternura e da compaixão e, em
vez disso, o humor do escárnio. A arte, também, muitas vezes é incapaz de representar a beleza do
rosto humano.
23 Georges Bernanos, Dialogues des Carmélites (1949).
24 Henri JM Nouwen, O retorno do filho pródigo: uma história de volta ao lar (Londres: Darton
Longman e Todd, 1992), p. 107
25 Salmo 103 [102]: 14.
26 Mateus 11: 28-30.
27 Irmã Faustina, Jornal petit, p. 140
28 Hillesum, Vida Interrompida, p. 79
29 Por exemplo, Mateus 8:13.
30 Romanos 8:28.
31 Salmo 80 [79]: 5.
32 Hillesum, Vida Interrompida, p. 241.
33 Lucas 17:33.
34 Romanos 11:29.
35 Isaías 35:10; Apocalipse 22: 5.
36 2 Coríntios 4:17.
37 Isaías 55: 8–9.
38 Veja o hino à sabedoria de Deus em Romanos 11: 33-36.
39 O Papa João Paulo II nos lembra deste fato em sua Encíclica Fé e Razão (14 de setembro de
1998).
40 João 13: 7.
41 Lamentações 3:26.
42 João 10:18.
43 Jacques Fesch, Dans cinq heures je verrai Jésus. Diário de prisão(Em cinco horas, verei Jesus. Jornal
da prisão) (Paris: Le Sarment-Fayard, 1989), p. 296.
44 Romanos 5: 5.
45 Isso é especialmente importante nas relações entre homens e mulheres. Depois de várias décadas de uma
ideologia dominante que confundia igualdade com mesmice e pretendia que homens e mulheres fossem
vistos como absolutamente intercambiáveis, as pessoas felizmente estão redescobrindo as profundas
diferenças psicológicas entre os sexos. Veja, por exemplo, o livro útil de John GrayHomens são de Marte, as
mulheres são de Vênus (HarperCollins, 1993).
46 João Paulo II, Mensagem para a Quaresma 2001, pp. 4-5.
47 Romanos 12:21.
48 Apocalipse 2:23.
49. 1 Pedro 2:23.
50 Há um belo texto de São João da Cruz sobre as “qualidades” do amor divino, como a alma pode
experimentá-las quando transformada em amor e unida a Deus: “Pois quando um homem
ama o outro e lhe faz bem, ele o faz bom e o ama de acordo com seus próprios atributos e
propriedades. E assim o teu esposo, sendo quem Ele é dentro de ti, te concede favores; pois,
visto que Ele é onipotente, Ele te faz bem e te ama com onipotência; e visto que Ele é sábio, tu
percebes que Ele te faz bem e te ama com sabedoria; já que ele é bom, tu
percebe que Ele te ama com bondade; visto que Ele é santo, tu percebes que Ele te ama e te
concede favores com santidade; visto que Ele é justo, tu percebes que Ele te ama e te concede
favores justamente; visto que Ele é misericordioso, compassivo e clemente, você percebe Sua
misericórdia, compaixão e clemência; e, visto que Seu Ser é forte, sublime e delicado, você percebe
que Ele te ama com força, sublimidade e delicadeza; e visto que Ele é limpo e puro, tu percebes
que Ele te ama com limpeza e pureza; e visto que Ele é verdadeiro, tu percebes que Ele te ama
verdadeiramente; e visto que Ele é liberal, tu sabes que Ele te ama e te concede favores com
liberalidade, sem interesse próprio, somente para que Ele possa te fazer o bem; como Ele é a
virtude da maior humildade, Ele te ama com a maior humildade, e com a maior estima, fazendo-te
igual a ele, revelando-se alegremente a ti, por estas formas, que são o Seu conhecimento, por
meio deste Seu semblante, cheio de graças, e te dizendo em esta Sua união, não sem grande
alegria de tua parte: Eu sou teu e para ti, e me deleito em ser tal como sou para que eu possa ser
teu e Me dar a ti. ” São João da Cruz,Chama Viva do Amor, Stanza III, primeira linha, não. 6
(traduzido por E. Allison Peers, London: Burns & Oates, 1935 [1977], p. 165).

51 Mateus 5:26.
52 Isaías 58: 8, 11.
53 Mateus 5:48.
54 1 Coríntios 13: 5.
55 Salmo 23 [22]: 1, 4.
56 São João da Cruz, Carta 26, À Madre María de la Encarnación, Carmelita descalça em Segóvia, 6
de julho de 1591.
57 Marcos 7:14.
58 Christiane Singer, Du bon usage des crises (Sobre o bom uso das crises) (Paris: Albin Michel,
2001), p. 102
59. 1 Coríntios 13: 5-7.
60 1 Pedro 2:21, 23.
61 1 Coríntios 3:21, 23.
62 São João da Cruz, “Oração da Alma Enamorada”, Provérbios de luz e amor.

Capítulo 2

1 Mateus 28:20.
2 Salmo 145 [144]: 15-16.
3 Sofonias 3:17.
4 Filipenses 3: 13–16.
5 Santo Atanásio de Alexandria, Vida de santo antônio, Capítulo 2.
6 Santa Teresinha de Lisieux, Poésie PN5.
7 Santa Teresinha de Lisieux, “Caderno Amarelo”, 19 de agosto.
8 Hillesum, Vida Interrompida, p. 269.
9 Mateus 6:34.
10 Mateus 6: 25–34.
11 Lucas 21: 14-15.
12 Hillesum, Vida Interrompida, pp. 212–213.
13 Ibid., Pp. 266-267.
14 Mateus 6:25.
Capítulo 3

1 Romanos 4:20.
2 1 Tessalonicenses 1: 2-3.
3 1 Tessalonicenses 5: 8.
4 Romanos 8:26.
5 Há uma pergunta difícil aqui. Como pode um ato humano (o ato de crer, esperar ou amar) ser um ato
plenamente humano, livre e voluntário e, ao mesmo tempo, um dom de Deus, fruto da ação do Espírito
Santo no coração de uma pessoa? Isso toca no profundo mistério da “interação” entre os atos de Deus e
nossa liberdade; sofrer aqui para dizer que não há contradição entre as ações de Deus e a liberdade
humana: Deus é o criador de nossa liberdade, e quanto mais Deus influencia nossos corações, mais
livres ele nos torna. Os atos que fazemos sob a influência do Espírito Santo vêm de Deus, mas também
são totalmente livres, totalmente voluntários, totalmente nossos.
6 João 3: 8.
7 João 7:46.
8 João 18:17.
9 Mateus 5: 3.
10 Lucas 24:40; Atos 1: 8.
11 Atos 5:41.
12 Compare sua exortação aos presbíteros da Igreja em sua epístola: 1 Pedro 5: 2-3.
13 São João da Cruz, A noite escura da alma, livro 2, cap. 19
14 Carta 197, 17 de setembro de 1896.
15 1 Coríntios 13: 2.
16 1 Coríntios 13:13.
17 Santa Faustina, Jornal petit, p. 480
18 Marcos 4:26.
19 Mateus 13:22.
20 Filipenses 4:13.
21 Veja Romanos 4:18.
22 Veja 2 Timóteo 1:12.
23 Hebreus 6: 18–20.
24 Gálatas 2:20.
25 Catherine de Hueck Doherty, Poustinia: Espiritualidade Cristã do Oriente para o Homem Ocidental (Notre
Dame, Ind .: Ave Maria Press, 1975); edição revisada com novo subtítulo:Poustinia: Encontrando Deus em
Silêncio, Solidão e Oração (Combermere, Ont .: Madonna House, 2000).
26 São João da Cruz, A noite escura da alma, livro 2, cap. 10
27 Mateus 5: 3.
28 Mateus 17:20.
29 Hebreus 11: 1.
30 Mateus 5: 8.
31 1 João 3: 1-3.
32 Charles Péguy, O Portal do Mistério da Esperança, trad. DL Schindler (Grand Rapids, Mich .:
Eerdmans; Edimburgo: T & T Clark, 1996), pp. 107-109.

Capítulo 4
1 Romanos 8:21.
2 Gálatas 5: 1.
3 Gálatas 1: 6.
4 Gálatas 3: 1.
5 “Carne” aqui não significa o corpo, mas a natureza humana ferida e pecadora: aquela no homem que resiste
a Deus.
6 Gálatas 5: 4.
7 Tito 3: 3-4. Veja também 2 Timóteo 1: 9.
8 Efésios 2: 4-6.
9 Gálatas 4: 9.
10 Colossenses 2:22.
11 Colossenses 2:21.
12 Mateus 10: 8.
13 São Paulo fala de “boas obras que Deus preparou de antemão para que nelas andássemos”,
Efésios 2:10.
14 Lucas 6: 35–36.
15 Por exemplo, ele nos lembra que somos servos inúteis (Lucas 17:10), mas também diz que os
trabalhadores da décima primeira hora recebem o mesmo pagamento que os da primeira hora (Mateus
20: 1-6).
16 Na verdade, apesar de nosso progresso tecnológico, nossa constituição psicológica ainda poderia ser
denominada de homem pré-histórico, ou seja, é amplamente estruturada em torno de sobrevivência,
defesa e outros mecanismos, por isso se adapta com dificuldade às relações de confiança e desinteresse,
amor dado gratuitamente. A operação do Espírito Santo pode ser descrita como uma obra que visa
reestruturar nossa psicologia para torná-la capaz de funcionar neste novo modo. A oposição que São
Paulo faz entre o homem “natural” e o homem espiritual, o “velho” homem e o novo homem pode ser
interpretada nestes termos.
17 Mateus 5:48.

capítulo 5

1 No nível psicológico e espiritual, a necessidade mais profunda do homem é a necessidade de amor: a necessidade de amar
e de ser amado. Duas outras necessidades básicas estão necessariamente ligadas a esta necessidade de amor e de
comunhão: a necessidade de verdade (para amar é preciso saber); e a necessidade de identidade (para amar,
precisamos ser). Essas três necessidades básicas correspondem às três faculdades espirituais que a teologia
tradicionalmente identifica no homem: vontade, intelecto e memória. As virtudes teológicas permitem-nos encontrar a
satisfação última dessas necessidades no próprio Deus: a fé dá-nos acesso à verdade, a esperança permite-nos
encontrar a nossa segurança e identidade em Deus e a caridade nos faz viver em comunhão de amor com Deus e com
o nosso. vizinho.
2 Essas reflexões foram tiradas de um artigo do irmão Ephraïm em Ressources d'eau vive, um
jornal de psicologia cristã produzido sob os auspícios da Communauté des Béatitudes,
Nouan-le-Fuzelier, França.
3 1 Coríntios 4: 7.
4 Aqui está a chave para a conhecida “crise da meia-idade”. As pessoas descobrem na casa dos cinquenta anos que têm um
grande vazio interior, porque queriam viver fazendo, esquecendo-se do seu verdadeiro e inalienável
identidade de filhos de Deus, amados não pelo que fazem, mas pelo que são.
5 Lucas 15:31.
6 Mateus 6:19.
7 Christiane Singer, Du bon usage des crises, p. 79
8 Matta el Maskine, L'Expérience de Dieu dans la vie de prière (na edição Le Cerf, p. 295).
9 Sofonias 3:12.
10 São Paulo usa essa expressão em 1 Coríntios 9:19.
11 Hillesum, Vida Interrompida, p. 299.
12 Hillesum, Vida Interrompida, p. 107
13 Jean-Claude Sagne, Viens vers le Père, p. 172

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