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A INDUÇÃO NA FILOSOFIA :LÓGICA E PSI-

COLOGIA EM HUME E A CRÍTICA DE POPPER


Ac. Manuela Carraro Leão (Iniciciação Científica FAPEMIG-DIEPG/UFSJ))
Orientadora:Marilúze Ferreira de A e Silva (Depto das Filosofias e Métodos – DFIME)

Resumo Desde a antigüidade, os filósofos empregam métodos dedutivos e indutivos para o estu-
do da realidade. Donald Williams em The Ground of Induction (1947), considerou que resolver o
problema da indução seria resolver o maior problema da Filosofia que é o da analítica e o da crítica
teórica do conhecimento e propôs para a indução, um lugar no mundo do conhecimento capaz de
solucionar muitos problemas filosóficos. Popper, em sua obra Conhecimento Objetivo (1975), se
declarou com essa competência e apresentou a proposta conjectural como solução partindo da
crítica aos problemas lógico e psicológico da indução instaurados por David Hume em Investiga-
ção acerca do entendimento humano (1972). Tendo isso em vista, fez-se necessário dividir o tra-
balho em duas partes: na primeira foi abordado o conceito de indução em Filosofia e, na segunda,
foram tratadas as questões da lógica e da psicologia do conhecimento indutivo em David Hume e a
crítica de Popper que promoveu discussões trazendo novas contribuições para o conhecimento
científico. O método de abordagem foi o lógico e o epistemológico tendo em vista a investigação
lógica de Popper no que diz respeito à problemática humeana, bem como a instauração de um
novo tipo de conhecimento como sendo a solução para as inferências indutivas. O método de pro-
cedimento foi o bibliográfico tomando como referências as obras de Donald Williams The Ground of
Induction. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 1947, para esclarecer o conceito
de Indução em Filosofia, a de David Hume Investigação acerca do entendimento humano. São
Paulo: Nacional, 1972 e a de Karl Popper Conhecimento objetivo. São Paulo: Perspectiva,1998. A
questão do conhecimento indutivo reporta à indagação se agimos ou não de acordo com a razão. A
partir de tal pressuposto, a análise dos dados permitiu identificar que as respostas de Hume e de
Popper a esta indagação foram divergentes. O primeiro não acredita na capacidade da razão hu-
mana em relação ao conhecimento indutivo. Já o segundo, defende a racionalidade e a considera o
fundamento do saber, destacando a indução genuína como sendo um raciocínio hipotético (con-
jectural). Em síntese, a análise indicou que existe um conflito entre os problemas lógico e psicológi-
co da indução instaurados por Hume. Este fato acarretou um ceticismo e um certo irracionalismo
humeano, uma vez que o filósofo reduz a razão a um papel menor no entendimento humano. Ao
contrário de Hume, Popper faz um apelo à racionalidade e ao emprego do método crítico-hipotético
(conjectural), como sendo a base da verdadeira indução e do conhecimento científico, solucionando
a problemática instaurada por Hume.

Palavras- chave: Indução. Ceticismo. Razão.

Lógica e Psicologia em Hume


e a Crítica de Popper

avid Hume (1711-1776) en- acreditando que só podemos conhe-

D quadra-se na categoria dos


filósofos empiristas ingleses,
cer a partir da experiência. Deste
modo, a sua teoria do conhecimento,

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Metavnoia. São João del-Rei, n. 4, p. 33-38, jul. 2002
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no que diz respeito a associação das Deste modo, segundo ele, as idéias
idéias e a conexão necessária, é a simples são associadas e transfor-
base da sua concepção sobre as mam em complexas. Um exemplo
inferências indutivas. A partir de tais desta associação de idéias está nas
teorias, expressas em sua obra de- qualidades da maçã, onde Hume
nominada Investigação acerca do demonstra que as idéias simples de
entendimento humano1, Hume instau- cor, gosto e odor quando associadas
ra duas problemáticas a respeito da formam a idéia complexa de maçã.
indução que serão a chave da inves- Além disso, para ele, o princípio de
tigação do filósofo da ciência Karl associação de idéias baseia-se na
Popper em Conhecimento Objetivo experiência que temos de que as
(1975). idéias simples transformam-se regu-
lamente em complexas. Desta manei-
Tendo em vista tais pressupostos, ra, Hume destaca que
pretende-se demonstrar a importân-
cia das considerações de Hume no A associação de idéias é fortalecida
que diz respeito ao conhecimento pela repetição, sendo a força que guia
indutivo, bem como a investigação e todos os nossos pensamentos e
conclusão de Popper em relação a ações. As idéias são associadas por
tais considerações humeana. Sendo princípios de conexão que unem os
assim, o ponto de partida de Popper diferentes pensamentos do espírito
será a contradição entre os proble- humano e os introduzem com certo
mas lógico e psicológico da indução método e regularidade na memória.
instaurados por Hume. Isto é tão visível em nossos pensa-
mentos ou conversas que, qualquer
Neste contexto, é importante ressal- pensamento que interrompe a seqüên-
tar que a crítica de Popper em rela- cia regular ou o encadeamento das
ção ao método indutivo de Hume, foi idéias, é imediatamente notado e re-
de extrema importância para o des- jeitado 2
envolvimento do método crítico da
ciência e para a formação do verda- Segundo ele, esta associação de
deiro conhecimento científico. idéias é a responsável pelas inúme-
ras operações do espírito humano,
A teoria da associação de sendo que estes princípios de cone-
idéias humeana xão são expressos por ele de três
maneiras, a saber: 1- princípio de
Hume formula a sua teoria da associ- semelhança (quando por exemplo um
ação de idéias, como sendo uma das quadro conduz nossos pensamentos
principais bases para a sua concep- para o original, ou seja, a idéia ex-
ção sobre a indução, classificando as pressa pelo quadro está associada à
idéias em simples e complexas. idéia original); 2- princípio de conti-
1
guidade no espaço e no tempo
HUME, David. Investigação acerca do entendi-
mento humano. São Paulo: Editora Nacional, 1972. 2
Id. Ibid. p. 20.
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(quando um historiador escreve a não possuírem suas respectivas im-


história da Europa durante um deter- pressões.
minado século, apesar da diversidade
dos fatos, todos aconteceram em um Tais idéias são as de poder, força,
mesmo espaço geográfico [Europa] e energia ou conexão necessária entre
em um mesmo período de tempo dois eventos sucessivos.
[determinado século], ocorrendo uma
certa unidade entre as diferentes Visto que Hume afirma não haver
idéias) e 3- princípio de causa e conhecimento quando não há uma
efeito (quando pensamos em um fe- impressão correspondente a uma
rimento e somos conduzidos a refletir idéia, torna-se impossível descobrir a
acerca da dor que o acompanha, conexão necessária existente entre
sendo que percebemos através da uma relação de causa e efeito atra-
experiência que este evento está em vés da razão. Neste contexto, O filó-
constante conjunção. Assim, ao pen- sofo demonstra que de um único
sarmos a idéia da causa “ferimento”, evento jamais poderemos descobrir o
inferimos imediatamente a idéia do poder ou a conexão necessária que
seu efeito “dor”). Segundo Hume, ligue a causa ao efeito, pois a partir
estes três princípios de conexão ou da experiência sabemos que um ob-
de associação são os únicos laços jeto acompanha o outro em sucessão
que unem os nossos pensamentos. ininterrupta, porém não podemos
conhecer a conexão responsável por
De modo geral, o terceiro princípio de este evento. Assim, Hume exemplifi-
associação de idéias de Hume, ou ca este fato dizendo que o calor é um
seja, o princípio de causa e efeito, é acompanhante constante do fogo e
um dos vetores que permite a sua que podemos perceber esta conjun-
visão sobre as inferências indutivas, ção entre eles, mas jamais podere-
uma vez que o filósofo não acredita mos imaginar a conexão entre tal
haver racionalidade humana capaz evento.
de descobrir uma conexão na relação
causal que permita inferir indutiva- Hume admite a ignorância humana
mente. A seu ver, a indução não é em relação à conexão entre sucessi-
um procedimento racional, mas sim vos objetos ou eventos mas, segundo
uma transição costumeira. ele, os homens não encontram obs-
táculos para explicar tal conexão,
A idéia de conexão neces- afirmando perceber com exatidão a
sária de Hume força da causa que a põe em cone-
xão com o seu efeito. Entretanto, os
Sabendo-se que todas as idéias deri- filósofos percebem que a energia da
vam de impressões externas ou in- causa é inteligível e admitem que
ternas correspondentes, ou seja, to- apreendemos da experiência apenas
dos os nossos pensamentos derivam a conjunção entre os objetos, sem
das sensações, Hume demonstra que que sejamos capazes de compreen-
existem idéias que são abstratas por
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der a conexão entre eles. Assim, futuro a ocorrência dos eventos do


Hume constata que passado, ou seja, podemos inferir
indutivamente. Assim, segundo ele, o
Temos procurado em vão uma idéia de procedimento indutivo é obra do
poder ou de conexão necessária em costume e não da razão.
todas as fontes de onde pudesse origi-
nar. Em toda a natureza não aparece A questão da indução e o ceti-
um único exemplo de conexão passí- cismo de Hume do ponto de
vel de nossa concepção. Todos os vista de Popper.
eventos parecem inteiramente soltos e
separados. Um evento segue o outro, Popper observa que Hume instaura
porém jamais podemos observar um dois problemas de indução ao for-
laço entre eles. Parecem estar em mular a sua teoria da conexão ne-
conjunção, mas jamais em conexão. 3 cessária, a saber: 1- problema lógico
e 2- problema psicológico. Deste
Neste contexto, Hume afirma que a modo, ele demonstra que quando
indução por repetição não tem ne- Hume procura a base da idéia de
nhum fundamento racional, uma vez conexão necessária, inseri-se o pro-
que a conexão entre os sucessivos blema lógico da indução uma vez
eventos nos é desconhecida. Mas, que, se a sucessão regular entre dois
de onde surge a idéia de conexão eventos fosse necessária, então ela
necessária que permite inferir induti- ocorreria não só entre os exemplos
vamente? Hume responde que após observados, mas também entre os
a repetição de casos semelhantes, o não observados. Assim, Popper
espírito é impelido pelo hábito ou destaca que o problema lógico de
costume a aguardar um evento Hume, que se baseia em saber se
quando surge o outro, sendo que somos justificados em raciocinar par-
esta transição costumeira de um ob- tindo de exemplos repetidos que te-
jeto ao outro é a impressão que origi- mos experiência para outros exem-
na a idéia de conexão necessária e plos (conclusões) dos quais não te-
que permite inferir indutivamente. mos experiência, recebeu resposta
Deste modo, quando um grande nú- negativa.
mero de inspeções afluem sobre num
único evento, elas o fortificam e o Contudo, segundo Popper, Hume
confirmam na imaginação, engen- acredita que as pessoas crêem na
drando um sentimento de crença que validade indutiva e esperam que o
confere a tal evento maior preferência futuro seja igual ao passado. Sendo
e confiabilidade. assim, instaura-se o problema psico-
lógico da indução, indagando o por-
Para Hume, o costume ou hábito é o quê da crença de tais pessoas nas
grande guia da vida humana, pois a inferências indutivas. Neste contexto,
partir dele podemos esperar para o Hume responde que o mecanismo
3
psicológico da associação força as
Idem.p.71.
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pessoas a acreditarem, por costume se agimos ou não de acordo com a


ou hábito, que aquilo que aconteceu razão. A resposta de Popper é afir-
no passado acontecerá no futuro. mativa. Segundo ele, a indução ge-
Popper observa que isto levou Hume, nuína por repetição não existe, mas o
um dos pensadores mais racionais de que lhe parece indução é raciocínio
todos os tempos, a abandonar o raci- hipotético, bem testado, bem corrobo-
onalismo e a encarar o homem não rado e de acordo com a razão. Deste
como dotado de razão, mas como modo, Popper resolve o paradoxo de
produto de cego hábito. Hume, afirmando que ele estava
certo em sua crítica lógica, mas errou
A partir de tais pressupostos, Popper
no contexto psicológico referente à
observa que houve um choque entre
sua crença de que agíamos com
a resposta negativa dada por Hume
base no costume e de que este era
ao problema lógico da indução e sua
resultado da repetição. Segundo Po-
resposta positiva ao problema psico-
pper, as pessoas acreditam em repe-
lógico, ocorrendo uma destruição
tições não pelo costume, mas porque
tanto do racionalismo quanto do em-
necessitam de tais regularidades,
pirismo. A seu ver, Hume tornou-se
experimentando-as mesmo onde não
cético ao afirmar que a conexão en-
há nenhuma. Sendo assim, ao resol-
tre dois eventos inseri-se em nossa
ver o paradoxo de Hume, Popper
imaginação através de uma transição
deixa claro que não há conflito entre
costumeira, sendo a indução obra do
a racionalidade e a ação prática em
costume e não da razão. Desta ma-
nossa constituição humana, instau-
neira, Popper acredita que
rando o método crítico da ciência e o
verdadeiro conhecimento científico.
Hume está errado quando pensa que,
na prática, fazemos tais inferências Considerações finais
com base na repetição ou hábito. As-
A partir desta pesquisa ampliam-se
severo que sua psicologia é primitiva.
os horizontes do processo de conhe-
O que fazemos na prática é saltar para
cimento, uma vez que Popper critica
hipóteses inteiramente inconclusivas
o problema psicológico da indução de
que podemos corrigir se forem subme-
Hume e conseqüente destruição da
tidas à crítica. A asserção de que te-
razão, instaurando um novo tipo de
mos uma inclinação irracional para im-
conhecimento, o conjectural ou hipo-
pressionarmos com o hábito e a repe-
tético, como sendo a base do verda-
tição é algo inteiramente diferente da
deiro método crítico da ciência. Além
asserção de que temos tendência para
disso, é importante destacar que Po-
experimentar hipóteses ousadas que
pper é anti-indutivista, anti-positivista
podem ser corrigidas.4
e contra a lógica categóri-ca de Aris-
Neste contexto, Popper afirma que a tóteles, fato que contribuiu para as
questão central de Hume era saber suas teorias hipotéticas e para a sua
4
crítica à indução de Hume.
POPPER, Karl. Conhecimento Objetivo. p. 98.
Referências Bibliográficas
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HUME, David. Hume. São Paulo: Nova Cultural, 1999.


HUME, David. Investigação acerca do entendimento humano. São Paulo: Editora Nacio-
nal, 1972.
POPPER, Karl. Conhecimento Objetivo. São Paulo: Editora da universidade de São
Paulo, 1975.
WILLIAMS, Donald. The Ground of Induction. Cambridge, Massachusetts: Harvard Uni-
versity Press, 1947.

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