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SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO


SUPERINTENDÊNCIA DA EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE DESENVOLVIMENTO EDUCACIONAL – PDE
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA
LURDES THOMAZ

Os Caminhos da Cidadania

PONTA GROSSA
2008
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LURDES THOMAZ

OS CAMINHOS DA CIDADANIA

Material Didático elaborado para definir


diretrizes de ação do Programa de
Desenvolvimento Educacional – PDE
Secretaria de Estado da Educação -
Paraná.

Orientadora UEPG: Profª Drª Rita de


Cássia da Silva de Oliveira

PONTA GROSSA
2008
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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO......................................................................................................03

INTRODUÇÃO...........................................................................................................04

JUSTIFICATIVA .........................................................................................................07

O QUE É CIDADANIA?..............................................................................................08

Conhecendo a história da cidadania .........................................................................09


Entendendo alguns conceitos ...................................................................................12

CONVIVENDO COM A CIDADANIA .........................................................................15


Os direitos humanos e a conquista da cidadania .....................................................16
O voto: um ato de cidadania .....................................................................................19
A cidadania e o povo brasileiro .................................................................................21
Auto-estima X Cidadania ..........................................................................................23
O meio ambiente e a cidadania ................................................................................25

A EDUCAÇÃO E A FORMAÇÃO PARA A CIDADANIA .............................................27


O que estabelece as leis ...........................................................................................28
E a escola como está? ..............................................................................................30
A convivência cidadã na escola ................................................................................33
Gestão Democrática X Convivência democrática ....................................................34
Inclusão, um exercício de cidadania ........................................................................37

CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................................41

SOBRE A AUTORA ...................................................................................................42

REFERÊNCIAS .........................................................................................................43

ANEXOS ...........................................................................................................................45
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APRESENTAÇÃO

O presente Caderno Temático foi pensado e escrito no 2º Semestre de


participação do Plano de Trabalho do Programa de Desenvolvimento Educacional –
PDE, da Secretaria de Estado da Educação do Paraná, em desenvolvimento na sua
segunda edição no ano de 2008.
Neste Caderno, propõe-se uma reflexão sobre nossa atuação como gestora,
professora do Ensino Fundamental e Médio e cidadã participante, que nos
possibilitou verificar como as atitudes cidadãs e anti-cidadãs contribuem
positivamente/negativamente para o bom/mal resultado das ações da escola, assim
como a auto-estima, a ética, a moral e os valores (hoje tão desgastados e com
conotações diferentes de alguns anos atrás) são importantes na formação dos
educandos. Assim sendo, apresentamos uma série de reflexões sobre o tema
“Cidadania” a serem desenvolvidas no ano de 2009 com a direção, pedagogos,
professores, funcionários e em um primeiro momento, com os alunos da 5ª série do
Ensino Fundamental do Colégio Estadual Professora Linda Salamuni Bacila da
cidade de Ponta Grossa, Paraná, podendo posteriormente ou paralelamente serem
trabalhadas com as demais séries do colégio ou outras escolas que comunguem dos
mesmos ideais e acreditem na viabilidade destas ações para a formação de uma geração
mais crítica, autônoma e participativa.
Nesse sentido, os textos aqui apresentados visam estimular a reflexão e a
revisão de valores, atitudes e comportamentos com o intuito de alcançar resultados
que transformem a realidade pessoal e social de todos aqueles que fazem parte da
escola.
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INTRODUÇÃO

Considerando que o espaço escolar não deve apenas preocupar-se com a


formação intelectual do educando, mas também e principalmente, com a sua
formação enquanto ser humano ético, participativo, realizado no campo pessoal e
profissional, o presente trabalho tem por finalidade repensar a questão da
formação para a efetivação do papel do cidadão na sociedade, para isso, a escola
precisa ser organizada como um espaço vivo, onde a cidadania possa ser exercida
a cada momento.
O professor, na ânsia de trabalhar seus conteúdos específicos, muitas
vezes, deixa passar oportunidades únicas para estar trabalhando a formação
para a cidadania. Por outro lado, os cursos de formação acadêmica, dão ênfase
aos conteúdos, ao saber intelectual, isto talvez, por herança da época em que a
cidadania, civismo, patriotismo, bons costumes, eram conteúdos trabalhados em
disciplinas como Organização Social e Política Brasileira (OSPB), Moral e
Civismo. Como estas não mais fazem parte da grade curricular das escolas, por
entender que estas questões devem permear todas as disciplinas, (apesar de que
existem parlamentares e mesmo educadores que defendem a volta das mesmas às
escolas), elas são deixadas em segundo, terceiro ou último plano. Muitos
professores delegam este tipo de formação aos pedagogos, por acreditarem que
estes, em forma de projetos, devem dar conta desta formação. No entanto,
acredita-se que, só quando as atitudes cidadãs começarem a ser uma constante no
espaço escolar e principalmente, na sala de aula, por todos aqueles que fazem
parte do dia a dia do fazer escolar, é que abrem as possibilidades de uma geração
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de cidadãos participativos, envolvidos com o próprio bem estar, assim como de


seus semelhantes.
Nesse sentido, a cidadania deve ser trabalhada a partir do conhecimento
dos direitos e deveres do cidadão, perpassando pela melhoria da auto-estima e a
importância do desenvolvimento de valores como responsabilidade, solidariedade,
companheirismo, amizade, empatia, ética, cuidado com o meio ambiente, que
devem ser refletidos com os alunos para tomada de decisões visando o
estabelecimento e o cumprimento de atitudes cidadãs no cotidiano de todos os
envolvidos.
Na intenção de contribuir para a melhoria do papel formador da escola,
elaborou-se o Caderno Temático “Os Caminhos da Cidadania”, o qual é composto
por três partes: Em “O que é cidadania?”, fez-se um passeio pela história da
cidadania, procurando entender a caminhada que a mesma teve desde a pólis
grega até os nossos dias, assim como analisou-se alguns conceitos de cidadania
para um melhor entendimento do tema trabalhado no caderno; em “Convivendo
com a cidadania”, estabeleceram-se relações entre cidadania e os fatores que
possibilitam e/ou dificultam a sua efetivação e em “A educação e a formação
para a cidadania”, o caminhar foi sobre o papel da escola na formação moral,
ética e cidadã, tão necessária ao bom convívio na sociedade atual. O caderno
consta também de anexos, com uma seleção de textos de diversos autores para
servir de respaldo ao trabalho do professor em sala de aula e ampliar os
conhecimentos sobre cidadania e a participação do cidadão.
Este Caderno não pretende ser um manual pronto e acabado, mas abrir
possibilidades a partir da reflexão de textos e da vivência de uma professora, que
ao longo de sua carreira tem mostrado a todos com os quais conviveu/convive
profissional ou pessoalmente, que as mudanças só serão possíveis através da
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participação, engajamento e respeito; e que só pode-se dizer que valeu a pena ter
vivido, à medida que se deixa marcas positivas por onde se passa. Acredita-se que
só a partir do momento em que a pessoa passe a agir, com ética, com respeito aos
valores humanos, torna-se uma pessoa realizada e feliz (o objetivo maior do ser
humano) e por extensão, o mesmo acontecerá com as pessoas em seu entorno.
Para atender a uma Proposta de Intervenção de trinta e duas horas, será
organizado Grupo de Estudos, envolvendo a direção, pedagogos, professores e
funcionários (podendo também contar com a participação dos pais), quando os
textos do Caderno serão estudados, promovendo reflexões sobre os assuntos
relacionados com a construção da cidadania, nos seus avanços e retrocessos,
visando um repensar na prática de cada um, proporcionando mudanças na forma
de pensar e agir, para que a partir daí, tenham condições de desenvolver um
trabalho sobre os princípios que embasam uma cidadania ativa, autônoma e
participativa, com os alunos das turmas da 5ª série do período da tarde, sob a
nossa coordenação. No decorrer do trabalho, pretende-se construir atitudes
cidadãs, que demonstrem o respeito consigo mesmo, com o outro, com o meio
ambiente.
Este Caderno Temático deve ser usado pelo educador como referência,
podendo ser adaptado à realidade da sala de aula, ou enriquecido com a
criatividade e o conhecimento que cada um possui. Sendo assim, quem dele fizer
uso, tornar-se-á co-autor desta experiência que visa colaborar com a formação de
cidadãos críticos, autônomos e participativos.
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JUSTIFICATIVA

Existe por todos os países um referencial significativo em forma de livros,


artigos publicados, monografias, verdadeiros tratados sobre “cidadania”. No entanto,
muita coisa ainda precisa ser escrita, vista e trabalhada para que as pessoas tomem
consciência de seu papel de cidadão perante a sociedade.
Fala-se em Direitos Humanos, em Constituição Federal, em Estatutos, em
leis trabalhistas, em leis que garantem os direitos do cidadão, no entanto, continua-
se a ver privilégios, o não cumprimento de leis, injustiças com a grande maioria da
população; por outro lado, ouve-se falar que na sociedade brasileira os assaltos, a
delinqüência infantil e juvenil, crianças de rua, gravidez na adolescência, prostituição
de meninas, criminalidade, assassinatos, tráfico e uso de drogas, corrupção,
desemprego, estão crescendo a cada dia, apesar do aumento de policiamento, dos
programas de ordem social e ações visando à melhoria das condições de vida do
povo brasileiro, o que é motivo de indignação nas pessoas que questionam o
cumprimento e o respeito aos direitos do cidadão. Segundo Gilberto Dimenstein
(1999. p.17), a cidadania existe apenas no papel, isto é, somente nas leis, uma vez
que na prática é bem diferente, e as pessoas das classes menos privilegiadas são
as que mais sofrem, fato este que é histórico.
Os educandos do Colégio Linda Bacila, pertencem a uma comunidade da
periferia da cidade de Ponta Grossa, onde os valores como solidariedade,
responsabilidade, afetividade, respeito, honestidade, tolerância, amizade,
companheirismo, entre outros, passaram a ser vistos como defeitos e não como
qualidades a serem cultivadas e expandidas, valores estes, essenciais à formação
do cidadão crítico, autônomo e participativo. Entre eles percebe-se a baixa auto-
estima, comentam que os direitos do cidadão não são respeitados e, por isso, estão
cada vez mais descrentes de mudanças que venham a beneficiá-los.
Educar não é apenas instruir, mas oferecer uma experiência significativa que
prepare para a vida. Portanto, há urgência em fazer da escola um ambiente rico em
práticas e atividades voltadas para a formação do cidadão. Urge propor reflexões no
cotidiano escolar, que possibilite aos professores e alunos vivenciar a cidadania,
transferindo estas ações para outras instâncias da sociedade, firmando-se como
pessoas que fazem a diferença.
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O QUE É CIDADANIA?
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Conhecendo a história da Cidadania

A origem da cidadania é atribuída a polis grega. Os gregos, que eram


pastores nômades, foram pouco a pouco se fixando em alguns locais, passando a
aprimorar técnicas de agricultura e pecuária, iniciando assim as cidades que
chamavam de pólis (cidades-estado na Grécia antiga), sendo que cada cidade,
possuía autonomia política, isto é, cada uma era como se fosse um país e faziam
suas próprias leis. As leis tinham validade só na determinada pólis. Para eles,
política era o envolvimento que o indivíduo tinha com a administração da pólis, se
era apenas um que governava, chamavam de monarquia, se era um grupo,
chamavam de aristocracia. Clístenes no ano 500 a.C., legislador de Atenas, fez uma
reforma na forma de administrar, dividindo a cidade em unidades que chamou
“demos”, de maneira que todos os cidadãos se reuniam em Assembléias, para
aprovar as leis. Assim, todos participavam na administração da pólis. Aí está a
origem da democracia, que significa governo dos demos. Como as decisões eram
tomadas em assembléias, os homens precisavam exercer o seu poder de persuasão
e convencimento, neste momento todos eram iguais, pois quem quisesse podia falar
para a pólis. Portanto, na esfera pública havia a atuação de homens livres com
participação política, cuja vida coletiva era em função dos direitos e deveres. Esta
forma de governar é uma democracia direta ou participativa, isto é, há a participação
direta do cidadão na administração.
Para os gregos, conforme Manzini-Covre (1996, p. 19), não faziam parte dos
homens livres, as mulheres, as crianças, os escravos, e os estrangeiros, os quais
não tinham direito a participação política, apesar de serem a maioria, cerca de
noventa por cento da população. Apesar disso, havia exercício de cidadania porque
as decisões eram tomadas visando o benefício da coletividade.
No período entre o século V e XII, surge a sociedade feudal, que era rural, na
qual, os servos e camponeses, não podiam escolher seus destinos, viviam
submetidos aos desejos do senhor, apesar de terem alguma liberdade. Nesta época,
houve um retrocesso nas questões ligadas a cidadania.
Mazine-Covre (1996, p.23) argumenta que, foi com o desenvolvimento da
sociedade capitalista, século XV, com a ascensão da burguesia em luta contra o
feudalismo, que o exercício da cidadania foi retomado, rompendo-se com o direito
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obtido pelo nascimento da sociedade feudal, isto é, nesta sociedade, não havia a
possibilidade de mudança de classe social, quem nascia servo, seria a vida toda
servo. Foram com as revoluções burguesas que se proclamaram as Cartas
Constitucionais, as quais estabeleciam direitos iguais para todos, colocando um fim
nas desigualdades e, portanto, a valorização do cidadão. A burguesia ao tomar o
poder político, estabeleceu os três poderes, ou seja, o executivo, legislativo e
judiciário, sendo que a maior autoridade era do poder legislativo, desta forma, o
Estado era governado limitado pelas leis que estabeleciam os direitos e deveres do
cidadão. A democracia passa a ser representativa, isto é, as pessoas elegem outras
para representar seus interesses na administração da cidade, estado ou país.
Ao longo da sociedade capitalista, muitos foram os avanços e retrocessos na
construção da cidadania, no entanto, é sabido que as leis são importantes e
imprescindíveis para fazer valer os direitos, o que às vezes só acontece através de
pressões sociais, ocasionando alterações nas mesmas, devido às necessidades do
homem conforme o seu tempo e espaço. E foi neste caminhar que se consolidaram
os direitos políticos, os quais aparecem na Declaração dos Direitos do Homem. É a
partir daí, que a classe trabalhadora ganha um espaço para suas reivindicações,
com o surgimento dos sindicatos e grupos organizados.
O Brasil não teve a transição do feudalismo para o capitalismo, sua história
inicia sob a exploração de Portugal e depois da Inglaterra, que foi a dominação
capitalista. O povo brasileiro, seja branco ou negro é explorado, vivendo na pobreza,
com pouquíssimos direitos, contrapondo-se a elite econômica e política que
possuíam todas as regalias. Foi com a imigração italiana que a luta por igualdade
teve início. Foram nos anos de 1910 e 1920 que aconteceram as lutas operárias,
visando à construção da cidadania.
No entanto, após o golpe militar (1964/85), os direitos sociais do povo
brasileiro e a cidadania deixaram de existir, segundo Manzini-Covre (1996, p. 65) a
população viveu neste período uma 'anticidadania', quando os brasileiros eram
torturados, presos, exilados e mesmos mortos, contrariando os princípios da
Declaração dos Direitos Humanos.
Muitos foram os brasileiros que lutaram contra a tirania da ditadura militar, e
um dos movimentos que contou com a participação em massa dos brasileiros foi a
campanha popular denominada “Diretas Já”, que aconteceu em 1985, exigindo a
eleição direta para a Presidência do país. Com a eleição de Tancredo Neves para
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Presidente do Brasil, acaba a ditadura, abrindo caminho para a Constituinte e a


Constituição da República, promulgada em 1988, com ampla participação do povo
brasileiro.
O Brasil vivenciou outro momento de grande participação popular, quando a
população, principalmente os estudantes com tintas coloridas no rosto, saíram às
ruas, em defesa da moralidade pedindo o afastamento do Presidente Fernando
Collor de Melo por estar envolvido em corrupção. A mobilização popular foi tão
intensa que o Congresso aprovou o Impeachment. Gilberto Dimenstein (1999, p.127)
questiona o fato de o Presidente Collor ter sido retirado do poder, se foi uma questão
de moralidade ou se foram suas decisões econômicas e o aumento da miséria que
impulsionaram os movimentos de rua.
Apesar do Brasil ser um país democrático, do povo ter em suas mãos o poder
do voto, da existência de leis que garantem direitos iguais para todos, da criação e
efetivação de programas sociais por parte do governo federal, estadual e municipal,
como Bolsa Escola/Família, Fome Zero, Comunidade Solidária, Paraná Alfabetizado,
Leite das Crianças, do excelente trabalho de diversas Organizações Não
Governamentais (ONGs) em prol das classes mais necessitadas, de ser um país rico
em terras produtivas, em minérios, em tecnologias, concorda-se com Manzini-Covre
(1996, p. 67) quando argumenta que a existência de cidadania para a maior parte da
população brasileira depende de muita luta social, não só por parte dos políticos que
queiram abraçar a causa, mas da luta de cada brasileiro em particular.
Constata-se em nosso cotidiano, seja através da mídia, entre pessoas da
família ou vizinhos, muita violência, agressividade, corrupção, cada vez mais
crescente e as pessoas precisam encontrar formas de proteção para si e para seus
bens materiais, colocando grades e alarmes em suas residências, pagando seguros
e serviços de proteção, ficando de certa forma presas sem terem cometido nenhum
ato infracional. Continua-se a ver crianças pedindo esmolas nas ruas da cidade,
quando as mesmas deveriam estar estudando, crescendo sadiamente (física e
mentalmente) sendo bem alimentada, tendo um lar, freqüentando uma escola, sendo
que isso lhes é garantido pela Declaração dos Direitos da Criança, aprovada pela
Organização das Nações Unidas (ONU) em 1959 e reforçado no Brasil pelo Estatuto
da Criança e do Adolescente (ECA) – Lei nº 8.069/90.
As questões colocadas mostram a falta de cidadania, a falta de
comprometimento político existente no país, reforçado pelo posicionamento de
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Gilberto Dimenstein (1999, p. 33):

“Um menino de rua é mais do que um ser descalço, magro, ameaçador e mal
vestido. É a prova da carência de cidadania de todo um país, em que uma
imensa quantidade de garantias não saiu do papel da Constituição. É um
espelho ambulante da História do Brasil.”

Por que tantas pessoas estão desempregadas, obrigando-se muitas vezes a


enredar-se para o mundo do crime como forma de alimentar seus entes queridos?
Por que tantas pessoas morrem em filas de hospitais e postos de saúde sem
receber o atendimento médico garantido pela Declaração dos Direitos Humanos
(ONU, 1948)? E no Brasil, a atual Constituição (1988) garante direitos iguais para
todos, no entanto, basta percorrer os bairros afastados de qualquer cidade do país,
para constatar a falta de saneamento básico, de calçamento, de coleta de lixo,
enfim, a pobreza com a qual as pessoas convivem; e mesmo nas áreas centrais, se
vê os flanelinhas e crianças nos semáforos tentando conseguir algum trocadinho
para matar a fome, enquanto outros desfilam carros zero Km. Onde está o direito
igual para todos?
Partindo destes questionamentos observados no dia a dia da sociedade,
concorda-se com Gilberto Dimenstain (1999, p. 17), quando ele argumenta que o
que se tem é uma 'Cidadania de papel', isto é, existe nas leis, mas na prática não. É
muita fome, violência, desrespeito, falta de ética, divisão social, etc. O que não se
pode deixar de considerar, é um certo comodismo por parte da população brasileira,
causado talvez, por se viver numa democracia representativa, deixado-se nas mãos
dos políticos, dos governantes, a incumbência de representar seus interesses, poder
que lhes é dado através do voto. No entanto, a população deve acompanhar as
ações dos seus representantes, fazendo a sua parte, por menor que seja.

Entendendo alguns conceitos

Segundo Maria de Lourdes Manzini-Covre

[...] cidadania é o próprio direito à vida no sentido pleno. Trata-se de um


direito que precisa ser construído coletivamente, não só em termos de
atendimento às necessidades básicas, mas de acesso a todos os níveis de
existência, incluindo o mais abrangente, o papel do(s) homem(s) no
Universo. (1996, p.11).
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A cidadania garante o direito à vida, não apenas a vida física, mas a


amplitude desta vida, isto é, as ações conquistadas pelo homem, envolvendo os
direitos civis, políticos e sociais, os quais, na sua prática, são interligados. Sendo
que os direitos civis são aqueles que o ser humano tem a respeito de seu corpo, isto
é, o direito de ir e vir, é o das liberdades individuais, da liberdade de locomoção,
propriedade, segurança, acesso a justiça, opinião e expressão, integridade física; os
direitos sociais são aqueles que atendem as necessidades básicas do ser humano,
ou seja, alimentação, moradia, saúde, educação, lazer; e os direitos políticos são
aqueles que possibilitam ao ser humano deliberar sobre a sua vida, isto é, o direito
de livre expressão, à escolha política e religiosa. Estes direitos devem ser para toda
a coletividade do estado, do país e do mundo, só assim a cidadania estará
constituída de fato e de direito.
Segundo Professor Dimas Floriani (2002, p. 1) “A cidadania é uma condição
política de direitos e obrigações frente ao coletivo e as pessoas com as quais se
convive. É poder refletir sobre os atos que tenham conseqüências sociais, ter
consciência dos seus resultados (...) sobre a sociedade...”
A cidadania existe na lei, e Floriani questiona se ser cidadão é merecimento
de uns e de outros não, uma vez que, continua-se a conviver com sérios problemas
de exclusão social, fome, desemprego e ainda não se tem a escolarização básica
para todos. E em conseqüência disso, há um aumento do quadro de deterioração
social, da violência e de despolitização. E afirma que as leis existentes na
constituição são insuficientes para a garantia da cidadania plena. É preciso que cada
cidadão tenha compromisso político para a efetivação da cidadania, agindo de forma
a possibilitar melhorias para todos.
Para Gilberto Dimenstein,

Cidadania é o direito de ter uma idéia e poder expressá-la. É poder votar em


quem quiser sem constrangimento. É processar um médico que cometa um
erro. É devolver um produto estragado e receber o dinheiro de volta. É o
direito de ser negro sem ser discriminado, de praticar uma religião sem ser
perseguido. (1999, p. 29)

A cidadania está nas pequenas coisas do dia a dia, as quais permitem


perceber os estágios de cidadania de um povo, o que muitas vezes se considera
insignificantes, mas para que, hoje o homem tenha esses direitos, ao longo da
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história, muitas pessoas lutaram e até foram sacrificadas. Os direitos conquistados


devem estar constantemente revistos e o cidadão não pode ficar quieto se o mesmo
não estiver sendo cumprido. Enfim, cidadania é viver em uma sociedade sem
preconceitos, com dignidade, sem ter medo de mostrar o que é e no que acredita.
Para Dermeval Saviani, “Ser cidadão significa ser sujeito de direitos e
deveres. Cidadão é aquele que está capacitado a participar da vida da cidade e,
extensivamente, da vida da sociedade” (OLIVEIRA, 2002, p. 57).
Para exercer a cidadania, a pessoa precisa conhecer os seus direitos e os
conseqüentes deveres, só assim terá condições de exercer o seu papel de cidadão,
colaborando com o seu bem estar e o bem estar da sociedade como um todo.
Como termo político “Cidadania significa compromisso ativo,
responsabilidade. Significa fazer diferença na sua comunidade, na sua sociedade,
no seu país” (OLIVEIRA, 2002, p. 58).
A cidadania, neste conceito, quer dizer que o cidadão não pode ficar
esperando que os outros façam as coisas por ele, ele tem de participar em todas as
situações da vida da sociedade, não pode e nem deve ser uma pessoa passiva. Se
não concorda com alguma coisa, sugere e busca soluções para melhorias do
coletivo ao qual pertence.
Para Jaime Pinsky (2005, p.9):

Cidadania não é uma definição estanque, mas um conceito histórico, o que


significa que seu sentido varia no tempo e no espaço. É muito diferente ser
cidadão na Alemanha, nos Estados Unidos ou no Brasil (para não falar dos
países em que a palavra é tabu), não apenas pelas regras que define quem é
ou não titular da cidadania (por direito territorial ou de sangue), mas também
pelos direitos e deveres distintos que caracterizam o cidadão em cada um
dos Estados-nacionais contemporâneos.

Nesta definição, Pinsky deixa claro que a manifestação da cidadania tem


conotações diferentes dependendo da época e do país. Cada povo constrói a sua
cidadania, assim como os seus direitos e deveres. A cidadania não é dada de
graça, precisa de muita luta para se chegar próximo ao ideal. Nos dias atuais, tendo
em vista os grandes avanços conquistados ao longo da história da humanidade, a
cidadania está sofrendo modificações pontuais devido o progresso tecnológico,
quando ser cidadão hoje é bem diferente do que o era no século passado.
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CONVIVENDO COM A CIDADANIA


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Os Direitos Humanos e a conquista da cidadania

A maioria dos países da Organização das Nações Unidas (ONU), inclusive o


Brasil, no dia 10 de dezembro de 1948, adotou uma resolução que ganhou o nome
de Declaração Universal dos Direitos Humanos. Em trinta artigos, o documento
estabelece princípios que reafirmam os direitos de liberdade e igualdade, assim
como as disposições sobre direitos econômicos, sociais e culturais.
Tem-se direito a coisas distintas: a liberdade, ao voto, a educação, a saúde, e
cada um se apresenta sob várias formas, como atribuições de pessoas ou
instituições. Há direitos, que criam obrigações universais, que devem ser
respeitados por todas as pessoas do mundo, a exemplo: o direito à vida.
Assim como se têm direitos, têm-se em contrapartida os deveres. Quem
possui direito está em uma situação mais confortável de quem tem obrigações.
Quando se reivindica um interesse que é protegido por um direito, essa
reivindicação deve prevalecer entre outros interesses que não são protegidos por
direitos. O objetivo de diminuir a criminalidade, não pode ser alcançado por
intermédio de tortura ou eliminação dos suspeitos, pois todas as pessoas têm direito
à integridade física e moral, direito que o Estado tem obrigação de respeitar.
Quando se fala em direitos humanos, não se está falando de quaisquer
direitos, mas de direitos que devem proteger a dignidade de cada um. Só pelo fato
de serem humanas, todas as pessoas devem ser respeitadas. O ser humano tem
um valor em si, uma dignidade que deve ser protegida e respeitada.
A Declaração Universal de Direitos Humanos tem por objetivo fundamental
reconhecer direitos destinados a assegurar a dignidade de todos. A Declaração foi
uma reação a uma das maiores barbáries da História da humanidade, isto é, as
atrocidades praticadas durante a Segunda Guerra Mundial. Estima-se que mais de
45 milhões de pessoas perderam a vida durante esta guerra. Mais da metade destas
mortes não aconteceram em campo de batalha, mas foram de pessoas mortas por
seus próprios Estados, após serem destituídos da nacionalidade, da cidadania, da
condição de sujeitos de direitos. Essas pessoas foram mortas por aqueles que
tinham o dever de protegê-las. Foi o impacto causado pelo holocausto, que, através
da Declaração Universal dos Direitos Humanos, buscou-se estabelecer um novo
horizonte ético para medir o grau de justiça com que os Estados se relacionam com
18

seus cidadãos. O fundamento dos direitos não depende de nacionalidade, classe


social, raça, nem da vontade de quem quer que seja, mas da poderosa idéia de
dignidade humana. Os direitos humanos passaram a ser universais, pois são
inerentes a todo ser humano, não importando onde esteja e a situação em que ele
se encontre.
A Declaração de 1948, por estabelecer que toda e qualquer pessoa é sujeito
de direitos, pelo fato de ser humana, significa que todos, seja individual ou
coletivamente, têm a obrigação de não violar os direitos dos semelhantes e por outro
lado, deve agir para que os direitos sejam concretizados na sua plenitude,
garantindo uma sociedade mais justa e humana. Portanto, aqueles que vivenciam
situações de desigualdades e discriminações, são parceiros na luta em busca da
efetivação dos direitos humanos. Ser parceiro, é ser solidário com o outro, é
participar na luta por uma vida digna para todos. Neste sentido, Candau (1999, p.
99) argumenta.

Na história da humanidade nunca os Direitos Humanos foram respeitados e


implementados socialmente só porque tinham sido previamente afirmados por
uma Declaração. O processo de conquista dos Direitos Humanos está
intimamente relacionado com as lutas de libertação de determinados grupos
sociais que vivenciam na pele a violação de seus direitos.

O Brasil é marcado por discriminações e desigualdades. A grande maioria da


população está à margem da proteção e respeito aos princípios e direitos de
igualdade. Existe um abismo entre o discurso e as atitudes em busca dos princípios
e direitos de igualdade, liberdade, participação, solidariedade e condições humanas
de vida. Há muita demagogia, muitas promessas de melhorias para a classe menos
favorecida, principalmente em época de eleições, as quais, depois acabam caindo
no esquecimento. Com isso, conclui-se que existe o conhecimento da situação real
da população, porém o que falta é ética, comprometimento, para colocar em prática
projetos ousados para mudar a situação que aí está, visando garantir o mínimo de
qualidade de vida a estes cidadãos que nem mais ousam lutar por seus direitos.
Para melhorar a situação social dos brasileiros, se faz necessária reformas
estruturais e que aconteça uma partilha. No entanto, as pessoas de maneira geral,
estão acostumadas a ser gananciosas e individualistas, por este motivo, entende-se
que as mudanças devem partir da excelência que deve ser dada à educação desta
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geração que serão os adultos do amanhã.


Para que a Declaração dos Direitos Humanos seja respeitada é preciso que
as pessoas se conscientizem de seus direitos e da necessidade de respeitar os
direitos dos demais - despertar e desenvolver esta consciência, é papel da
educação.
Para a formação de valores éticos para se viver em sociedade, há
necessidade de se conhecer e entender o conteúdo da Declaração Universal dos
Direitos Humanos e cabe a escola educar seus alunos dentro dos princípios morais
de ética e cidadania que regem a vida democrática. Respeito mútuo, justiça, diálogo
e solidariedade são aprendizados importantes na sua formação, assim como os
conteúdos das diversas disciplinas, os quais colaboram para a formação de
cidadãos conscientes e capazes de discernir, escolher e decidir a respeito dos
deveres e direitos de cidadão.
A escola não pode esquecer que faz parte de uma sociedade, e o que
acontece deve ser observado, discutido, de forma a preparar seus educandos para
um olhar crítico e para a indignação. É através da indignação que as pessoas
superam a indiferença, a passividade diante das violações dos Direitos Humanos.
A efetivação dos direitos humanos exige uma sociedade organizada, de
cidadãos ativos e isso se consegue educando-se para a cidadania, formando
pessoas ativas, capazes de conviver no seu cotidiano de forma consciente, crítica,
participativa e democrática, convicto de que cidadania é para todos e para todo dia,
Vera Maria Candau (1999, p. 115) reforça as palavras acima:

O direito à vida, a uma vida digna e a ter razões para viver, deve ser
defendido e promovido para todas as pessoas, de qualquer raça, sexo,
religião, condição social, em qualquer etapa da vida, assim como para todos
os grupos sociais e culturais. Em qualquer parte do mundo. Esta é uma
afirmação de dimensões planetárias, de raízes antropológicas, éticas,
políticas e transcendentes, que aponta à construção de uma alternativa de um
futuro mais humano em escala mundial.

Não há como fugir, só teremos um mundo melhor, quando os Direitos


Humanos forem de fato uma prática no cotidiano de cada cidadão.

Não basta escrevermos na lei que todos têm direito à vida e que nascem
iguais, e que são livres. É necessário que se garantam verdadeiramente as
condições para o exercício desses direitos enunciados, pois, do contrário, fica
ridículo anunciarmos para o mundo o direito à vida, enquanto milhões morrem
de fome diariamente, morrem de doenças já controladas, enfim, morrem de
20

miséria. (DORNELES, apud. CANDAU et al. 1999, p. 108)

Portanto, cabe a escola conduzir a formação de seus educandos para uma


prática do conhecimento, do respeito e da vivência dos Direitos Humanos.

O Voto: um ato de cidadania

No Brasil, de dois em dois anos, o povo brasileiro se vê envolvido pelas


campanhas políticas, e vão às urnas, em uma verdadeira demonstração de civismo
e cidadania.
Segundo a Constituição Brasileira de 1988, o cadastramento eleitoral, é
obrigatório para os maiores de 18 anos de idade e facultativo para os analfabetos,
para maiores de 70 anos e para maiores de 16 anos e menores de 18 anos.
O direito de votar (cidadania ativa) e ser votado (cidadania passiva) coloca
todos em pé de igualdade. O voto tem o mesmo valor para todos, não importando
sua classe social, sua etnia, seu gênero, sua fé religiosa, sua instrução. Neste
momento, cada um faz a sua escolha, escolhe aquele que vai representá-lo nos
poderes executivo e legislativo, aquele que vai zelar por seus interesses, cuidar para
que seus direitos sejam garantidos e preservados.
No entanto, a prática demonstra que as coisas não são bem assim. Na época
das eleições, há muitas promessas e o discurso acaba levando ao convencimento e
ao sucesso no pleito eleitoral. Depois disso, a maioria dos políticos acaba
esquecendo o que prometeu e o povo continua com os mesmos problemas e
dificuldades. Por outro lado, a atitude dos políticos, tem como causa principal a falta
de envolvimento por parte daqueles que o elegeram. Durante as campanhas as
pessoas discutem, analisam as promessas e a forma de conduzir dos candidatos.
Passada a campanha e a eleição, as promessas caem no esquecimento também
por parte do eleitor. Não há acompanhamento nas ações de seu candidato e nem
cobrança daquilo que ele está ou não fazendo. O povo brasileiro precisa se
conscientizar de que a eleição não se restringe apenas a um dia, mas que a sua
decisão terá reflexos, não só sobre a vida de cada um, mas também na vida de
outras pessoas.
No Brasil, o voto é obrigatório, o eleitor que, por um motivo ou outro, não
21

comparecer em sua zona eleitoral para votar, precisa justificar a sua ausência.
Sendo o terceiro colégio eleitoral do mundo, ficando atrás apenas dos Estados
Unidos e Índia (onde o voto é facultativo), os brasileiros precisam ainda de muita
educação política, para que aprendam a “olhar” com criticidade, comprometimento,
responsabilidade este importante direito que é o voto.
Por outro lado, costuma-se ouvir as pessoas dizer que estão descrentes com
os políticos, com as mudanças que venham a beneficiar os mais humildes, que não
adianta reclamar, que os poderosos só fazem o que eles querem e para o bem
deles, mas será que aí não tem o comodismo daqueles que reclamam, mas nada
fazem, permitindo que as situações se perpetuem? Pinski (2008, p.19) neste
sentido, argumenta:

Exigir direitos é parte da cidadania, mas respeitar os contratos sociais é sua


contrapartida. Talvez por não fazermos a nossa parte ou não termos a
consciência de pertencer a um coletivo é que somos tão condescendentes
com irregularidades que acabam prejudicando todos. E o fato de mantermos a
maioria da população sem os direitos básicos de cidadania nos impede de
construir a Nação-cidadã que arrotamos desejar.

A prática das eleições não é coisa recente entre os brasileiros. Logo após a
chegada dos colonizadores, o exercício do voto surgiu em terras brasileiras, quando
se realizava votações para escolher quem iria governar as vilas e cidades fundadas
pelos colonizadores portugueses, como forma de se estabelecer a lei e a ordem. No
início, o voto era livre e todo o povo votava, com o passar do tempo, passou a ser
privilégio daqueles que tinham um maior poder aquisitivo e a idade mínima era 25
anos. As mulheres, os escravos, os índios e os assalariados não tinham o direito de
votar.
Devido o crescimento econômico de nosso país, a população passou a exigir
que houvesse uma participação de brasileiros nas decisões da corte, então, em
1821 foram realizadas eleições para escolha dos deputados que iriam representar o
Brasil na corte de Lisboa, as quais eram realizadas em quatro graus, isto é, os
cidadãos das províncias votavam em outros eleitores, os compromissários, que
elegiam os eleitores de paróquia, que por sua vez escolhiam os eleitores de
comarca, que finalmente, elegiam os deputados.
Com a Independência, a legislação eleitoral sofreu aperfeiçoamentos, no
entanto, de lá pra cá, muitas foram as alterações, conforme os interesses daqueles
que estavam no comando ou conforme as necessidades e pressões populares, no
22

sentido de garantir a participação nas decisões da Nação.


As primeiras urnas eram feitas de bolas de cera, chamadas de pelouros,
depois foram as de madeira, as de ferro e as de lona. No ano de 2000, o voto foi
informatizado, realizado em urnas eletrônicas, possibilitando a apuração dos votos
em poucas horas.
A mulher brasileira, só adquiriu o direito do voto em 1932.
Durante o regime militar (1964-1985), o Brasil presenciou uma série de
desmandos, em relação à legislação eleitoral e ao respeito aos direitos do cidadão
brasileiro. O manifesto popular “Diretas Já”, foi uma lição de cidadania dos
brasileiros que reivindicavam o direito do voto na escolha de seus dirigentes. Com a
eleição de Tancredo Neves, por meio ainda de um colégio eleitoral, acabou-se o
regime militar, abrindo-se novos caminhos para a democracia e a promulgação da
atual Constituição Brasileira, a qual contou com a ampla participação do povo
brasileiro.
Hoje, todo o patriotismo, toda garra de participação, parece se limitar a
situações pontuais quando estão brasileiros representando o nosso país, como é o
caso das olimpíadas, copa do mundo, fórmula 1, quando acontecem situações de
violência com crianças, jovens e idosos. No entanto, o cidadão brasileiro precisa no
seu cotidiano, ter mais garra e voz nos destinos de sua pátria.

A Cidadania e o povo brasileiro

No Brasil, desde o seu descobrimento, estabeleceu-se uma divisão social,


sendo a maioria da população considerada inferior. Desde então, é o poder de uma
minoria que manipula o capital do trabalho, e que estabelece os direitos e deveres
de cada um.
De acordo com Geaquinto (2002, p. 19) antes eram os senhores de escravos
que dominavam, hoje são os chamados cidadãos de primeira classe (os grandes
proprietários, os empresários, os latifundiários, os usineiros, os políticos) que
comandam o destino da maioria do povo brasileiro, mantendo-se, portanto, a
opressão dos senhores e a condição de oprimidos dos escravos.
Com a Abolição da Escravatura, seguida da Proclamação da República,
houve o início do mercado livre de trabalho. A Constituição de 1891 estabeleceu os
23

direitos e deveres do povo brasileiro, principalmente os civis e políticos. No entanto,


percebe-se que a lei e a prática, já naquela época, não caminharam juntas, uma vez
que, a grande maioria da população vivia em zonas rurais e estava sub-julgada ao
poderio dos grandes proprietários, até porque o analfabetismo era em grande
escala.
Com a instalação das indústrias, surge a classe operária e junto, a inserção
das mulheres e crianças como mão de obra barata, as péssimas condições de
trabalho, os padrões salariais, assim como o surgimento de lideranças entre os
trabalhadores que não aceitavam a exploração a qual os operários eram
submetidos, lutando por condições dignas de trabalho e a distribuição igualitária da
riqueza social. Aí surge a organização dos operários através dos sindicatos, sendo
que de 1917 a 1920 acontecem grandes mobilizações e greves em torno de
reivindicações de alguns direitos aos trabalhadores, como salário, jornada e
condições dignas de trabalho. Com o passar do tempo, a custa de muita luta, outros
benefícios foram conquistados como: salário mínimo, 13º salário, férias, jornada de
trabalho de 8 horas, descanso remunerado, hora extra, auxílio desemprego, enfim,
as leis trabalhistas que garantem os direitos dos trabalhadores brasileiros.
No entanto, durante a ditadura militar, os direitos sociais, assim como a
própria cidadania do povo brasileiro, sofreram um enorme retrocesso quanto às
condições de vida, ao direito de organização e manifestações (os sindicatos foram
proibidos, restringindo-se suas atividades a prestação de serviços e lazer). Nesta
época, as desigualdades sociais e a concentração de renda se acentuaram. Apesar
de toda represália, nos anos de 1970, retornam os movimentos grevistas na
tentativa de conseguir uma nova ordem social. Foi com o movimento denominado
“Diretas Já”, onde o povo exigia eleições diretas para a Presidência da República e
com a eleição de Tancredo Neves (ainda de forma indireta) e José Sarney em 1985,
acaba-se o regime militar iniciando-se assim, uma nova época em relação aos
direitos do cidadão brasileiro, culminando com a promulgação da Constituição
Federativa Brasileira de 1988, conhecida como a “Constituição Cidadã”, por ter sido
construída com a participação da população e dentro dos princípios dos Direitos
Humanos. Os direitos civis, políticos e sociais foram garantidos na Constituição.
No entanto, mesmo com a existência das leis que organizam os direitos e
deveres da sua população, ou seja, a Constituição, os diversos Estatutos,
Declarações, Leis de Trânsito, Leis Trabalhistas, a efetivação, a aplicabilidade
24

destas, são de forma diferente para o rico, aquele que detém o poder do dinheiro e
de seu status social e para o pobre, aquele que não pode contar com nada e nem
com ninguém. Ao humilde, é difícil o pleno exercício da cidadania.
A população está acostumada à submissão e a exploração da classe
dominante. Os governantes, para amenizar os problemas econômicos e sociais,
jogam para cima do povo soluções paternalistas, perpetuando assim as injustiças e
a submissão, quando deveriam, propor ações no sentido de diminuir ou até acabar
com as desigualdades. O grande propulsor das desigualdades e do aumento da
violência em nosso país é o desemprego. Há de se colocar como prioridade políticas
que venham ao encontro do aumento de empregos, amenizando a situação do
trabalhador desempregado, sendo que a pessoa que possui um emprego, com
salário digno, pode propiciar a si e sua família um teto, alimentação, vestuário, lazer,
saúde, com dignidade de cidadão realizado e feliz, sem necessidade de fazer uso de
programas sociais, que por um lado, ajuda a população a não morrer de fome, e por
outro, causa comodismo, submissão e baixa auto-estima. Ter um emprego, nada
mais é do que um direito do ser humano, estabelecido na Declaração dos Direitos
Humanos (ONU, 1948).
Ouve-se a palavra cidadania, na boca do povo, nos discursos de políticos, no
entanto, a grande maioria da população ainda não sabe o que é exercer a cidadania,
o que é ser cidadão, limitando-se a alguns momentos, como por exemplo, os dias de
votação, copa do mundo, ir ao posto de saúde e ser atendido, conseguir uma vaga
em escola pública para seu filho. O que falta à população brasileira é o senso crítico,
que a leve pensar nas discriminações, na falta de liberdade e de oportunidades, na
miséria da maioria, no aumento da violência, na corrupção, nas desigualdades,
enfim, na difícil realidade de seu cotidiano, onde as mínimas condições de uma vida
decente lhes são negadas. É só através do desenvolvimento do senso crítico, que o
povo brasileiro terá condições de exercer a cidadania e aperfeiçoar o regime
democrático, vigente no país.

Auto-estima X Cidadania

A auto-estima é o valor que cada um tem de si, é a medida de quanto cada


25

um se gosta e confia em si mesmo e isto é primordial para a conquista da cidadania.


Se a auto estima é baixa, a pessoa acha que não possui qualidades, se sente
inferior, acha que não faz nada de importante. Se a auto-estima é alta, a pessoa se
valoriza, se sente igual ou melhor que os outros, confia no seu conhecimento, na
sua competência, quer o melhor para si.
Conquistar uma auto-estima de qualidade é exercício de cidadania, pois para
isso a pessoa e mesmo um povo, precisa se livrar das situações de inferioridade,
submissão, de medo, de manipulação que foram impostas pela família, pela
sociedade, por sua própria história, situações que levam a perda do amor próprio, da
noção de valor. A auto-estima está intimamente ligada à valorização do ser humano,
basta observar alguns fatos da história, como bem coloca Willes S. Geaquinto (2002,
p. 34)

Se prestarmos atenção a muitas mudanças ocorridas no mundo nos últimos


tempos como por exemplo, o fim do comunismo na Polônia, a queda do muro
de Berlim, o fim do apartheid na África do Sul, veremos que a auto-estima
desses povos falou mais alto no momento de confrontar a opressão, as
injustiças. É possível concluir, inclusive, que a auto-estima tem papel
preponderante não só na vida particular das pessoas, como também, na
trajetória dos povos. Uma democracia substantiva e plena só se realizará se
expressar no seu conteúdo a auto-estima dos cidadãos.

Se a pessoa não tem amor próprio, não se dá o devido valor, não poderá ir
em busca de coisas boas, nem lutar por seus próprios direitos e de seus
semelhantes. Se a pessoa possui sua auto-estima valorizada ela é uma pessoa feliz
e em conseqüência vai fazer com que o seu semelhante também seja. Quem tem
uma boa auto-estima, jamais fará com que o outro se sinta inferior, subjugado,
também quer que o outro se sinta como ele.
Começa na família o processo de formação da auto-estima. As famílias bem
estruturadas, moral, cultural, financeiramente, terão plenas condições de criar seus
filhos dentro dos princípios que levem esta criança a possuir uma boa auto-estima;
ao contrário, as famílias desestruturadas, àquelas que se deixam levar, muitas
vezes, pela embriagues do álcool como forma de camuflar sua insatisfação e o seu
nada poder fazer para mudar a situação do desemprego, falta de moradia,
condições de saúde, enfim, precária situação de vida, seus filhos serão um reflexo
da auto-estima dos pais, com isso conclui-se que grande parte do povo brasileiro
pode estar com sua auto-estima baixa.
26

Portanto, cabe a escola pública, onde a grande maioria de sua clientela


pertence à classe popular, desenvolver sua ação no sentido de que a auto-estima
seja melhorada, por que só assim o Brasil poderá ser composto de uma população
mais realizada e feliz, com condições de mudar a situação que aí está.

O meio ambiente e a cidadania

Quando se pensa em direitos e deveres, deve-se pensar em questões não


individuais, mas voltadas para toda uma coletividade. Nos dias atuais existe uma
preocupação muito grande com o meio ambiente. A população mundial já está
sentindo os efeitos da ganância e do descaso relacionados com as questões
ambientais.
A Constituição Brasileira de 1988, em seu artigo 225, prescreve:

Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem como o


uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao
Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as
presentes e futuras gerações.

Este artigo da Constituição é de grande importância para o exercício da


cidadania ambiental, pois coloca todos, não só os brasileiros, mas todas as pessoas
que aqui vivem, como responsáveis pelo cuidado e preservação do meio ambiente,
como uma garantia da qualidade de vida. A Constituição se refere, tanto ao meio
ambiente natural, como o artificial, englobando, portanto, além dos recursos
naturais, os espaços culturais, de lazer, locais de trabalho, bens públicos.
Não se pode pensar em meio ambiente, sem pensar também em prevenção,
uma vez que os danos ambientais, na sua grande maioria são irreversíveis. Os
causadores de danos têm o dever de reparar os danos causados, com ou sem
intenção. Isto se aplica ao desmatamento, queimadas, poluição das indústrias e
fábricas.
Muito se tem avançado nas questões ambientais, como reciclagem do lixo,
limpeza dos córregos e bueiros, saneamento básico, reflorestamento, campanhas
contra as queimadas, mas ainda continuam acontecendo verdadeiros crimes contra
o meio ambiente que requer uma ação mais efetiva por parte das autoridades e da
27

ação cidadã de cada um. Faz-se urgente uma ação solidária e coletiva (da criança,
do jovem, do adulto, do idoso) em torno de um objetivo comum que é a preservação
da natureza, desta forma, se está preservando a dignidade humana e do planeta.
Ninguém pode ficar parado, precisa-se iniciar uma correria solidária de quem sai do
seu “mundo” e decide lutar coletivamente, cada um fazendo a sua parte para
organizar e desenvolver a consciência comunitária e desacomodada em prol do
meio ambiente, onde todos serão os ganhadores.
As escolas possuem um papel fundamental na formação das crianças e
jovens para uma consciência ecológica e de preservação do meio ambiente. Sabe-
se que o futuro da humanidade depende do cuidado que hoje é dispensado as
questões ambientais, portanto, na escola os estudantes devem ser ensinados a agir
dentro de princípios éticos com o meio ambiente, como cidadãos que sabem exercer
a sua cidadania, como bem coloca Willes S. Geaquinto (2002, p. 29-30).

(...) acredito ser imprescindível que a causa ambiental seja definitivamente


encarada como uma causa da cidadania humana, universal, assim como o
direito à vida. O cidadão do mundo deve respeito ao meio ambiente, logo o
exercício da cidadania tem que se fazer presente em qualquer situação de
ameaça ao patrimônio ambiental. Educar para a cidadania também é educar
para a preservação da natureza, do seu equilíbrio. (...) Manter o meio
ambiente inteiro e saudável é tarefa de todos.

Parece que o homem teima em não entender, que tudo o que ele faz contra a
natureza, volta-se contra ele mesmo. Muitas campanhas ecológicas, pelos meios de
comunicação e pelos ambientalistas existem pelo mundo, visando reverter o
descaso e a ganância que está acontecendo há muito tempo. Atualmente, já se está
sentindo o desequilíbrio da natureza, que está pedindo socorro. E este socorro só
pode ser dado através das mãos do ser humano, do próprio homem que causou o
atual estrago. Ainda há tempo, basta começar.
28

A EDUCAÇÃO E A FORMAÇÃO
PARA A CIDADANIA
29

O que estabelece as leis

O artigo 26, da Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948),


estabelece:

1. Toda pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo
menos no que se refere à instrução elementar e fundamental. A instrução
elementar será obrigatória. A instrução técnica e profissional deverá ser
generalizada; o acesso aos estudos superiores se dará para todos em plena
igualdade e em função dos respectivos méritos.
(...)
3. Os pais terão direito de preferência na escolha do tipo de educação que
será dada a seus filhos.

Esta Declaração foi assinada pelos países da Organização das Nações


Unidas em 1948, e ainda hoje vemos, não só no Brasil, mas em muitos países do
mundo, crianças sem escola, analfabetas, sendo marginalizadas, sofrendo maus
tratos e discriminações, sendo lhes negando o direito a uma educação que lhes
garanta condições dignas de sobrevivência e participação social.
Na Constituição da República Federativa do Brasil (1988) o artigo 205,
reforçado pelo artigo 2º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBN –
Lei nº 9394 de 20/12/ 1996), prescreve:

A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida


e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno
desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua
qualificação para o trabalho.

Este artigo da Constituição Brasileira e da LDBN coloca a obrigação do


Estado e da família quanto à educação da criança, do jovem e do idoso, para que os
mesmos tenham um desenvolvimento sadio e integral, capazes de exercer o seu
papel de cidadão nesta sociedade que o incentiva a freqüentar uma instituição
educacional. Cabe à escola oportunizar o preparo para o exercício da cidadania. E o
exercício da cidadania requer uma pessoa ética, envolvida com o próprio bem estar
e do seu próximo, capaz de fazer valer os seus direitos e consciente de seus
deveres.
A lei nº 8.069/90, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), reforça o
estabelecido na Constituição, prescrevendo no Artigo 53:
30

A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno


desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e
qualificação para o trabalho, assegurando-lhes:
I- igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
II- direito de ser respeitado por seus educadores;
III- direito de contestar critérios avaliativos, podendo recorrer às instâncias
escolares superiores;
IV- direito de organização e participação em entidades estudantis;
V- acesso à escola pública e gratuita próxima de sua residência.
Parágrafo único: é direito dos pais ou responsáveis ter ciência do processo
pedagógico, bem como participar da definição das propostas educacionais.

O artigo 54, do mesmo Estatuto estabelece:

É dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente:


I- ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não
tiveram acesso na idade própria;
II- progressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio;
III- atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência,
preferencialmente na rede regular de ensino;
IV- atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de
idade;
V acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação
artística, segundo a capacidade de cada um;
VI- oferta do ensino noturno regular, adequado às condições do adolescente
trabalhador;
VII- atendimento no ensino fundamental, através de programas
suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e
assistência à saúde.

A família, a escola, o governo, as políticas educacionais têm procurado dar


conta de fazer cumprir o que determina a Declaração Universal dos Direitos
Humanos, a Constituição Brasileira, o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Lei
de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira. Observa-se que muita coisa melhorou
nos últimos anos. Verifica-se que, no Brasil, aumentou o número de escolas, mesmo
na periferia e nos bairros afastados do centro das cidades, portanto, já não existem
tantas crianças fora da escola. Porém não basta a criança, o jovem, ter garantido o
seu direito de acesso à escola, o que deve ter garantido é a qualidade da educação
ofertada, que ela seja igual para todos, isto é, seja na escola pública ou particular,
deve possibilitar a formação integral, que lhe propicie ferramentas para uma atuação
pessoal, profissional e social de forma crítica, autônoma e participativa.
A escola tem de marcar positivamente todos que por ela passam. Que seja
realmente o local de formação integral, que a preocupação não seja apenas com o
saber acadêmico, mas que vá além e forme realmente o cidadão que irá atuar com
31

plenas condições, que saiba tomar decisões, que seja crítico, que participe da vida
da sociedade, que faça a diferença.
Infelizmente o que se observa, é que as escolas e as famílias, tem sido um
espaço de anti-educação. Onde aos alunos e aos filhos, só cabe aceitar imposições,
sem dar-lhes o direito de questionar, onde é submetido a todo tipo de críticas,
humilhações, sem dar-lhes voz e ouvido. Portanto, as queixas em relação à
sociedade como um todo, em relação ao individualismo das pessoas, o aumento da
criminalidade, a falta de ética, da moral, do respeito, da solidariedade, é o resultado
de uma geração que assim foi educada. É sabido por todos, desde os mais
humildes, até os doutores em sabedoria, que aquilo que se planta colhe-se. A
formação que as crianças e jovens recebem forma a sua personalidade, o seu
caráter e eles vão devolver no futuro para a sociedade aquilo que recebeu no
presente. Portanto, a sociedade do futuro depende do cuidado, da qualidade da
educação que se proporciona no aqui e agora.

E a escola, como está?

A escola é um reflexo da sociedade. Os profissionais da educação estão


convivendo com situações de violência, agressividade, desrespeito, falta de
interesse, indisciplina. Os alunos estão desmotivados para uma postura de
cidadania, pois em suas famílias, sua comunidade, seu país, não vêem melhorias e
nem respeito à condição humana. A escola não pode ficar alheia a essas questões
(e não fica), ela se debate em meio a tudo isso, consciente de seu importante papel
perante a sociedade, ou seja, a formação de gerações para uma sociedade melhor,
mais humana, mais cidadã.
O papel da escola não é só propiciar o conhecimento intelectual que faz parte
de sua grade curricular. Seu papel vai além, cabe-lhe preparar os jovens para um
futuro, para o seu futuro. E, se a pretensão é transformar o futuro para uma
sociedade mais justa e igualitária, urge preparar os educandos para tal, para que
não sejam apenas um cidadão de papel, mas que saibam ser cidadãos de fato e de
direito, em todo tempo e lugar. Ser cidadão não é apenas possuir uma certidão de
nascimento, não é só exercer o direito do voto, ser cidadão é muito mais. É ter
participação ativa na sociedade, é reclamar quando se adquire um produto
32

estragado exigindo a troca ou devolução do valor pago, é ter educação de


qualidade, é ter atendimento médico sempre que precisar, é ter emprego e salário
decente, é ver garantido seus direitos, é também conhecer os deveres inerentes a
cada direito. Para que o jovem passe a agir como um verdadeiro cidadão é
necessário fazer com que a cidadania seja vivenciada no cotidiano escolar. Isso não
é utópico, nem irreal. Muitas práticas precisam ser mudadas, seja pela direção,
professores, funcionários, pais e alunos. Exige-se um novo olhar sobre o papel da
escola.
A sociedade que se quer, perpassa pela escola (ideal) que se quer, o que não
se consegue através de decretos, de determinações vindas de cima, de gabinetes, é
uma tomada de decisões com o envolvimento de todos aqueles que fazem parte do
cotidiano escolar (LIMA, 1991, p. 97). Só se consegue o bem comum e avançar nos
propósitos, quando todos estão imbuídos dos mesmos objetivos. As decisões devem
ser tomadas de forma participativa e democrática. Os professores que argumentam
que não podem perder tempo com coisas sem importância e que tem um programa
a cumprir, precisam mudar a maneira de ver a educação e que não é compromisso
só da direção, dos pedagogos, mas que deve ser vivenciadas pelos professores em
todas as aulas. Cada minuto do aluno na escola deve direcioná-lo para a formação
de uma práxis de cidadão crítico, responsável e transformador. Segundo Paulo
Freire (1998, apud LIMA. 2002 p. 29) a tarefa do professor é 'não apenas ensinar os
conteúdos mas também ensinar a pensar certo'. O professor possui uma
qualificação profissional que lhe dá condições de atuar junto à nova geração, porém
a maior preocupação deve ser com a sua formação enquanto ser, um ser completo,
com bons princípios. Nesta reflexão, concorda-se com Perrenoud (2005, p.139)
quando diz:

Os alunos não precisam de guias espirituais, nem catequizadores. Eles se


constroem encontrando pessoas 'confiáveis', que não se limitam a dar aulas,
mas que se apresentam como seres humanos complexos e como atores
sociais que encarnam interesses, paixões, dúvidas, falhas, contradições,
defeitos e virtudes, engajamentos, atores que se debatem, como todo mundo,
com o sentido da vida e com as vicissitudes da condição humana.

Vê-se que na escola, que deve ser o espaço formador, existem muitos pontos
nevrálgicos, que precisam ser atacados e corrigidos, seja no próprio processo
ensino-aprendizagem, como na forma de ensinar, de aprender e avaliar. Mas a
33

intenção é ir além do conhecimento intelectual que proporciona ao jovem


ferramentas para sua atuação profissional, quer-se que este mesmo jovem seja uma
pessoa feliz, com boa auto-estima, respeitada por sua sensibilidade, solidariedade e
respeito ao seu semelhante, que seja um ser humano convicto de sua
responsabilidade perante a sociedade. O primeiro passo para a formação do
cidadão participativo, consciente de seu papel na sociedade, é fazê-lo um cidadão
cívico, que respeite sua pátria e seja respeitado, que entenda o verdadeiro sentido
de ser cidadão.
Concorda-se com Lima quando argumenta que a Pedagogia da Autonomia de
Paulo Freire, direciona a formação de sujeitos capazes de decisões livres,
conscientes e responsáveis, tornando-se 'pessoas marcantes no mundo' (1997,
apud LIMA, 2002, p. 47). Para isso, a solução não é colocar uma disciplina na grade
curricular de uma, duas ou três horas/aulas semanais para a formação da cidadania,
nem impor a obrigatoriedade da hora cívica, como já o foi em outras épocas e como
pretende alguns parlamentares. Quer-se que a escola vivencie no seu cotidiano a
cidadania como um todo, para que os resultados sejam positivos. Os alunos
precisam conhecer, para aprender a gostar, precisam entender os significados e sua
respectiva importância para praticar.
Concorda-se com Perrenout (2005, p. 34) quando diz que assim como a
língua, a cidadania aprende-se na prática e se a escola favorece a aprendizagem da
cidadania, a primeira coisa a fazer, é tornar possível entre os alunos, o exercício da
cidadania.
Para o exercício da cidadania, se faz necessária a compreensão e o respeito
aos direitos humanos. Só é de fato cidadão, o indivíduo que conhece os seus
direitos, usufrui dos mesmos e em contrapartida, respeita os deveres advindos
destes direitos. Complementando esta linha de pensamento Lima (2002, p. 71)
afirma que “A educação escolar para a cidadania só é possível através de práticas
educativas democráticas, desta forma, promove valores, organiza e regula um
contexto social em que se socializa e se é socializado.”
Cabe à escola formar cidadãos autônomos, que saibam com ética, resolver
seus problemas pessoais e sociais.
34

A convivência cidadã na escola

A cidadania não está fora da pessoa, ela começa na relação que a pessoa faz
consigo mesma e depois vai expandindo-se para o outro e para a sociedade. Neste
sentido, faz-se necessário de que a criança seja educada, a começar pela família e
depois pela escola, dentro dos princípios básicos dos direitos humanos, da
responsabilidade pessoal e coletiva, do respeito, do companheirismo, dos valores
humanos, tão necessários a uma prática cidadã consciente.
A escola que pretende formar seus educandos para o pleno exercício da
cidadania precisa iniciar este aprendizado educando para os Direitos Humanos, não
se limitando ao conhecimento dos trinta artigos da Declaração. Mas que todos da
escola, pratiquem estes direitos, que o discurso, seja coerente com a prática.
Concorda-se com Mosca (1990, apud CANDAU. 1999, p. 26).

Um dos maiores obstáculos para a difusão e educação em Direitos Humanos


é o abismo existente entre o discurso, as palavras e os fatos, as atitudes. Se
um educador, se um sistema escolar, pretende educar para os Direitos
Humanos, não há projeto educativo válido neste campo sem profundo
compromisso social por torná-los realidade. E isso começa ao se descobrir
que o próprio educando, sobretudo ele, possui Direitos inalienáveis e não
manipuláveis.

Para isso, a escola deve oportunizar a sensibilização e a reflexão sobre os


direitos humanos, visando a formação de indivíduos éticos, conscientes de seus
direitos e deveres, preparados para uma convivência social harmoniosa, de respeito
aos direitos do outro.
A escola é um local privilegiado para o exercício da cidadania, é aí que se
formam as bases para a atuação futura na sociedade. O estudante precisa aprender
a ser atuante, e para isso, no espaço escolar ele tem de se perceber co-responsável
em tudo o que acontece no dia a dia, seja no cuidado das dependências da escola,
atenção às aulas, na convivência solidária e respeitosa com colegas e professores e
a participação nas atividades estudantis.
A educação voltada para a cidadania propicia uma formação que promove a
compreensão, a tolerância, à solidariedade e o respeito à diversidade social e
cultural, assim como, a participação nos destinos do meio em que vive. Candau
(1999, p. 112) complementa.

Educar para a cidadania exige educar para a ação político-social e esta, para
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ser eficaz, não pode ser reduzida ao âmbito individual. Educar para a
cidadania é educar para a democracia que dê provas de sua credibilidade de
intervenção na questão social e cultural. É incorporar a preocupação ética em
todas as dimensões da vida pessoal e social.

Neste sentido, Araújo (2007, p. 60) argumenta sobre a necessidade da escola


não trabalhar sozinha, mas contar com a participação da comunidade ao seu redor:

Levar temáticas de ética, convivência democrática, direitos humanos e


inclusão social para dentro da sala de aula, articuladas com os conteúdos
tradicionalmente contemplados pelos currículos e desenvolvidas com a
comunidade, pressupõe uma nova maneira de pensar o papel da escola.
Essa mudança de paradigma implica a revisão dos papéis dos diferentes
atores envolvidos na educação e uma abertura da escola para manter-se
sensível e acolher a diversidade da população que a compõe. Assim
concebida, a escola não se encerrará em si mesma, mas se tornará parte
integrante da vida de seus alunos e da comunidade onde está inserida. [...]
Essa ampliação de espaços, tempos e relações no trabalho sistematizado
com valores de ética, cidadania e direitos humanos deve contribuir para que
estudantes, familiares, profissionais e as demais pessoas que vivem no
entorno escolar se sensibilizem para a importância que tais temáticas têm
para a sociedade.

A cidadania se constrói pelo respeito e reconhecimento das diferenças


individuais, pelo combate aos preconceitos, as discriminações e aos privilégios, e
isto se dá pela participação no grupo, pela consciência dos direitos e deveres e pela
confiança que cada um deve ter de si e do seu poder de transformação para que o
bem comum prevaleça. Na escola, a cidadania não deve existir apenas no discurso,
ela tem de ser vivenciada no cotidiano de todos que dela fazem parte. Neste sentido,
o aluno deve ser formado não só para uma autonomia intelectual, mas
principalmente, para ter uma visão crítica da vida, para que possa formular seus
próprios juízos de valor, discernimento e de ação perante as diferentes
circunstâncias da vida, de forma que possa agir como pessoa responsável e justa.

Gestão democrática X Convivência democrática

Para que no espaço escolar exista uma gestão democrática, há necessidade


de se criar um ambiente estimulador, de forma que todos queiram participar visando
o bem coletivo. Segundo Heloísa Lück (1998, p. 18-19) o processo de uma gestão
participativa se efetiva a partir de ações especiais:
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1. Criar uma visão de conjunto associada a uma ação de


cooperativismo.
2. Promover um clima de confiança.
3. Valorizar as capacidades e aptidões dos participantes.
4. Associar esforços, quebrar arestas, eliminar divisões e integrar
esforços.
5. Estabelecer demanda de trabalho centrada nas idéias e não nas
pessoas.
6. Desenvolver a prática de assumir responsabilidades em conjunto.

Preparar a comunidade escolar para a gestão democrática é a essência da


transformação do sistema de ensino que, sendo assim, será capaz de aprimorar a
qualidade da educação. Heloísa Lück (1998, p. 31) lista as características da gestão
participativa, que pretende dar conta de melhorar a qualidade do processo
educativo:

1. Compartilhamento de autoridade.
2. Delegação de poder.
3. Responsabilidades assumidas em conjunto.
4. Valorização e mobilização da sinergia de equipe.
5. Canalização de talentos e iniciativas em todos os segmentos da
organização.
6. Compartilhamento constante e aberto de informações.

Nos dias atuais, vivendo em um país democrático, as escolas devem ser


democráticas, com líderes que saibam agir com democracia, neste sentido,
concorda-se com Heloísa Lückn (1998, p. 34) quando argumenta:

As escolas atuais necessitam de líderes capazes de trabalhar junto com os


professores e colegas, ajudando-os a identificar suas necessidades de
capacitação e a adquirir as habilidades necessárias e, ainda, serem
capazes de ouvir o que os outros têm a dizer, delegar autoridade e dividir o
poder.

O diretor eficaz consegue motivar as pessoas da escola para a co-


responsabilidade, como forma de garantir o sucesso de toda e qualquer ação. E
para essa motivação, Heloísa Lück (1998, p. 48) relaciona alguns itens que devem
ser observados:

1. Estabelecer na escola um sentido comum, de cumplicidade, de


família, no desenvolvimento dos objetivos educacionais.
2. Criar oportunidades para freqüentes trocas de idéias, de inovações e
criação conjunta no trabalho.
3. Orientar as ações pedagógicas para que, conjuntamente, promovam
a aprendizagem dos alunos e o desenvolvimento profissional do
professor.
4. Dar visibilidade e transparência às ações e seus resultados.
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Não se pode afirmar que as condições para uma atuação democrática


acontecem apenas pelo direito de expressar-se, de falar. Ao contrário, a democracia
garante ao cidadão o direito de ser ouvido e possibilita condições para a realização
da cidadania. Na escola, para que a democracia aconteça, os conceitos de
democracia, participação, cidadania, devem estar bem claros para todos que dela
fazem parte.
A gestão escolar rege o funcionamento da comunidade escolar e compreende
a tomada de decisão conjunta no planejamento, na execução, acompanhamento e
avaliação das questões administrativas e pedagógicas, e deve contar com o
envolvimento, a participação de todos.
A participação é um princípio de democracia que necessita ser trabalhado, é
algo que se aprende e se ensina. A escola é um lugar possível para essa
aprendizagem. O gestor deve promover a convivência democrática no cotidiano de
sua escola onde todos: professores, funcionários, pais, alunos aprendam a
participar, participando. O pensamento de Paulo Freire (apud CANDAU. 1999, p.
114) reforça a importância da prática democrática na escola, onde muitas vezes o
aluno é quem dá lições.

A escola democrática não apenas deve estar permanentemente aberta à


realidade contextual de seus alunos para melhor compreendê-los, para
melhor exercer sua atividade docente, mas também disposta a aprender de
suas relações com o contexto concreto. Daí, a necessidade de, professando-
se democrática, ser realmente humilde para poder reconhecer-se
aprendendo muitas vezes com quem sequer se escolarizou.

A necessidade de todos participarem da gestão escolar é uma preocupação


com a democratização do ensino. A escola não é do diretor, portanto todos têm
responsabilidade co-igual sobre ela. Quando todos buscam soluções o grupo se
fortalece e assim aprende também a explorar possibilidades, respeitar as diferenças
e limites, usar alianças e parcerias, conquistando assim, a cidadania.
No espaço escolar, para que de fato exista o espírito democrático, a
solidariedade tem de ter um lugar de destaque na formação do educando e na forma
de agir de todo o grupo, sendo uma virtude ativa, exige uma ação positiva visando
corrigir as injustiças existentes entre os cidadãos (BENEVIDES. 1998, p. 167). A
solidariedade leva a pessoa a se colocar no lugar de seu semelhante, e não querer
para o outro o que não quer para si, o que precisa estar sendo mais desenvolvido,
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para que mudanças de fato venham a acontecer. A solidariedade leva a indignação,


e é isso que a sociedade precisa, de pessoas que não tolerem as injustiças, a falta
de ética, a pobreza, enfim, o desrespeito aos direitos humanos e que ajam para que
estas situações sejam revertidas. Isso é possível através da educação.
A escola que se diz democrática, deve dar voz e vez para todos que dela
fazem parte, mas principalmente, se quer viabilizar uma educação democrática,
deve formar seus alunos para a solidariedade, liberdade e igualdade, valores estes,
capazes de efetivar as necessárias mudanças na sociedade, as quais só serão
possíveis através da qualidade da educação ofertada para a atual geração, e isso já
foi pensado por Rosseau (apud BENEVIDES. 1998, p. 168), “a pátria não subsiste
em liberdade, nem a liberdade sem a virtude, nem a virtude sem os cidadãos. (...)
Ora, formar cidadãos não é questão de dias; e para tê-los adultos é preciso educá-
los desde crianças”.

Inclusão, um exercício de cidadania

Nos últimos anos, muito se tem discutido sobre a inclusão no ensino regular,
das crianças portadoras de necessidades especiais. Por outro lado, questiona-se
sobre a inclusão daqueles que fracassam com constantes reprovação e evasão,
aqueles que possuem baixa auto-estima, aqueles que não têm o que comer, que
faltam as aulas porque precisam pedir esmolas para ajudar a família a não morrer de
fome, que não tem como tratar seus problemas de saúde. Portanto, precisa-se olhar
sobre todos aqueles que são excluídos, àqueles que são negados os direitos
humanos que lhes cabe.
Percorrendo a história da humanidade, as crianças que nasciam com
qualquer tipo de deficiência, que fugisse ao padrão normal, eram muitas vezes
sacrificadas, quando não, eram marginalizadas da sociedade. Esta discriminação
com os “diferentes” perdurou durante muito tempo e ainda no século XX, os termos
como retardado, tongo, imperfeito, anormal, incapaz, coxo, ceguinho, era comum
para se referir a estas pessoas que possuíam um nome, sensibilidade, sentimentos
e capacidades.
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Convém lembrar alguns termos, carregados de significados ideológicos que


acompanharam estas pessoas diferentes das pessoas ditas “normais”: inválidos, do
latim, sem valor, é um peso, um fardo; incapacitado, após a I e II guerras mundiais,
os sem capacidade; defeituosos, com deformidade, imperfeito; pessoas deficientes,
falho, carente, incompleto, imperfeito; portador de deficiência, a deficiência vista
como particularidade da pessoa; pessoa portadora de necessidade especial,
dificuldades vinculadas à deficiência ou limitação podendo ser temporária ou
permanente.
Foi com a Escola Nova, que se passou a interessar e dar atendimento
especializado as crianças portadoras de necessidades educacionais especiais,
surgindo então instituições que davam atendimento psicológico, fisiológico e
educacional, como é o caso da Sociedade Pestalozzi (BH/MG em 1932), Instituto
Paranaense de Cegos (1939) Congregação de pais de excepcionais e pessoas
interessadas (APAE – RJ, 1954). Porém, foi apenas a partir de 1990, que a
discussão em torno da inclusão dos portadores de necessidades especiais passou a
ser alvo dos educadores, a partir da Conferência Mundial sobre Educação para
todos (UNESCO, 1990 – Tailândia), quando é discutida a erradicação do
analfabetismo e o início do movimento da inclusão educacional. Em 1994 aconteceu
a Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais: Acesso e
Qualidade: Declaração de Salamanca, onde são estabelecidas normas para o
cumprimento da inclusão pelas escolas. A partir daí, foram realizadas convenções,
congressos, seminários, declarações, decretos, leis, para que a inclusão
acontecesse nos diversos países do mundo.
O Brasil fez a opção pela construção de um sistema educacional inclusivo. A
Lei nº 4024/61, nos art. 88 e 89, trata da educação dos excepcionais; a Constituição
de 1967 e 1969 coloca a educação como direito de todos; a Constituição de 1988,
regida pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, estabelece os princípios
fundamentais de liberdade, cidadania, dignidade, valores e respeito à diversidade
humana, além de reconhecer a Educação Especial como modalidade de Educação
Escolar.
A partir daí, os alunos que possuíam necessidades educacionais especiais
passaram a freqüentar as classes especiais, que funcionavam dentro de um prédio
escolar de ensino regular, sendo atendidos por profissionais que possuíam uma
formação acadêmica para este fim. No entanto, estas crianças e jovens,
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continuavam a sofrer preconceitos e discriminações.


Com a inclusão escolar, além de possibilitar que os portadores de
necessidades educacionais especiais recebam um ensino que lhes dê condições de
adquirir os conhecimentos necessários à sua formação, também lhes permite a
socialização necessária ao bom desempenho da pessoa na sociedade. Por outro
lado, questiona-se a forma como esta inclusão foi imposta e vem acontecendo.
Reconhece-se o direito de cidadania, respeito e dignidade de todos, porém, antes
precisaria todo um preparo das escolas, seja na rede física, fazendo-se as
adaptações para atender as diversas necessidades especiais, quanto aos
equipamentos e material didático, assim como a capacitação dos profissionais da
educação, além da conscientização dos demais educandos da escola, para que de
fato e de direito estes alunos fossem incluídos, e não apenas estar sendo
depositados e deixados conforme a consciência dos educadores para um bom ou
mau atendimento.
Incluir no ensino regular os alunos portadores de necessidades especiais é
reconhecer a especificidade de cada indivíduo e fazer cumprir os direitos que cada
um possui perante a lei. Desta forma, vê-se fazer cumprir, pelo menos em parte, os
direitos do ser humano, estabelecidos na Declaração Universal dos Direitos
Humanos, Constituição Brasileira de 1988, Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional, Estatuto da Criança e do Adolescente e tantas outras leis existentes.
O primeiro passo foi a garantia do acesso a estes alunos, o segundo, deve
ser no sentido da qualidade da educação para cada um e para todos, de forma a
efetivar a inclusão e a igualdade de oportunidades, combatendo-se os preconceitos
e estigma social.
Se a escola pretende ser inclusiva, se faz necessário que seus planos sejam
voltados para a cidadania global, plena, livre de preconceitos e que reconhece e
valoriza as diferenças.
Atualmente a escola não está dando conta, de dar uma formação de
qualidade aos alunos ditos “normais”, quanto mais àqueles que precisam de um
atendimento diferenciado e especializado, portanto, muita coisa precisa ser feita e
melhorada, e não só por parte das escolas e seus profissionais, mas por parte dos
governantes e pela sociedade como um todo.
Na escola deve existir espaço para a cooperação, diálogo, solidariedade,
tolerância, criatividade e espírito crítico e que sejam exercitados pela direção,
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professores, funcionários e alunos, pois estas são as habilidades mínimas para o


exercício da cidadania.
Não só a escola precisa ser inclusiva, mas a inclusão deve acontecer também
na sociedade. E uma sociedade é inclusiva quando é constituída de cidadãos que
conhecem e reivindicam seus direitos e cumprem seus deveres, fazendo tudo o que
lhes cabe em prol de um ambiente justo e igualitário para todos, fazendo com que
aconteça a efetivação das leis, modificando estruturas na política e legislação,
educação, ambientes físicos (acessibilidade), artes, cultura, turismo, lazer, mercado
de trabalho e mídia, lutando pelos direitos iguais, proporcionando equiparação de
oportunidades para todos, enfim fazendo cumprir os direitos humanos.
Porém, de nada adianta a escola e a sociedade, fazer tudo para que a
inclusão aconteça, superando todas as barreiras e dificuldades, se a família não
identificar o seu papel primordial e decisivo, uma vez que a inclusão inicia no
ambiente familiar e depende das interações e oportunidades oferecidas no lar. É a
família que cuida e ensina o desempenho de papéis, subsidiando a formação do
caráter, personalidade, auto-imagem, auto-estima, enfim, a maneira de ser e agir
que leve ao exercício da cidadania.
Com isso, percebe-se que a inclusão pressupõe dizer não a exclusão, e
reconhecer que o ser humano é detentor de direitos e deveres, e os esforços devem
ser no sentido da garantia da igualdade e liberdade para todos.
Para concluir, cita-se as palavras de Chico Xavier que “Embora ninguém
possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e
fazer um novo fim”, as quais são aplicáveis à inclusão e tudo ao que foi pensado e
escrito a respeito do exercício para a cidadania.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os textos apresentados neste Caderno Temático, fruto da vivência e observação


atenta de uma mãe e educadora, além da pesquisa bibliográfica desenvolvida durante o
ano de 2008, pretendem chamar para a reflexão os profissionais da educação sobre a
importância da formação dos educandos para uma cidadania consciente, autônoma e
participativa.
Espera-se que nesta reflexão, a maneira de conduzir o processo ensino-
aprendizagem sofra mudanças positivas, melhorando o clima de liberdade, participação,
responsabilidade, sensibilidade e respeito com o outro. Pretende-se, que a formação do
educando dê um salto de qualidade, não só em relação ao saber sistematizado, mas na sua
formação enquanto ser humano, que pensa, se relaciona, interage e busca soluções para os
problemas, visando uma melhor convivência na sociedade atual, tão carente da formação
de autênticos cidadãos, que respeitam os direitos dos outros, que têm boa auto-estima,
que sabem lutar por seus direitos e têm consciencia de seus deveres.
Vale lembrar, que cabe à escola dar continuidade (e as vezes começar) a educação
iniciada nas famílias, portanto, formar para a cidadania deve ser a principal preocupação
da escola. De nada adianta “encher” a cabeça dos alunos com conteúdos das diferentes
disciplinas que compõe a grade curricular dos cursos, se o aluno não aplicar esses
conhecimentos para melhorar a relação com o seu próximo, para indignar-se com as
situações de desrespeito aos direitos humanos, para exigir o cumprimento das leis, para
agir em todo tempo e lugar dentro dos preceitos de respeito e dignidade do ser humano. E
isso só é possível quando a escola como um todo, proporcione a educação integral, que
leve os educandos a agir como cidadão de fato e de direito.
Portanto, este material tem a pretenção de que o educador passe a ter um novo
olhar sobre seus alunos, com consciência de sua importância na formação de pessoas
dignas, comprometidas, felizes, e em conseqüência uma sociedade melhor, mais humana,
mais cidadã.
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SOBRE A AUTORA

A autora, Professora Lurdes Thomaz, é formada no Curso de Pedagogia,


nas Habilitações de Orientação Educacional e Administração Escolar, pela
Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), onde também concluiu o
Curso de Especialização em Psicologia da Educação.
Na Rede Municipal de Ensino da cidade de Ponta Grossa, iniciou em
1971, desenvolvendo atividades em classes multisseriadas na zona rural,
professora de 1ª à 4ª séries em escolas da zona urbana, orientadora educacional,
diretora, militante do Sindicato dos Servidores Municipais, de 1996 a 1998,
como Presidente da entidade e Secretária Municipal de Educação em 2000,
aposentando-se no início do ano de 2002, enquanto exercia a função de Diretora
na Escola Municipal Dr. Plauto Miró Guimarães.
Na Rede Estadual de Educação do Estado do Paraná, admitida em 01 de
março de 1988, através de Concurso Público, atuou como Professora de 1ª à 8ª
séries do Ensino Fundamental e Ensino Médio, Pedagoga, Secretária de escola e
Diretora - auxiliar. Em 2008, participou do processo seletivo do Plano de
Desenvolvimento Educacional (PDE) do Governo do Estado do Paraná, na área
de Gestão Escolar, sendo aprovada, ficando liberada de suas atividades na
escola, participando da capacitação que possibilitará o avanço para o Nível III,
do Plano de Carreira do Professor da Rede Estadual.
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REFERÊNCIAS

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Http://www1.uol.com.br/cyberdiet/colunas/021129_psy_auto_estima.htm
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ANEXOS
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O QUE É:
Amizade
afeição; amor; boas relações; laço cordial entre duas ou mais entidades.
(www.diaadiaeducacao/educadores/Dicionário da Língua Portuguesa)

Auto-estima
É a opinião e o sentimento que cada um tem de si mesmo. É ter consciência de seu
valor pessoal, acreditar, respeitar e confiar em si. (ZAGO, Rosemeire)

Autonomia
Faculdade de governar por si mesmo. Direito ou faculdade de se reger (uma Nação)
por leis próprias. Liberdade ou independência moral ou intelectual. Propriedade pela
qual o homem pretende poder escolher as leis que regem sua conduta. (Dicionário
Aurélio)

do gr. Autonomia, autós, próprio + nómos, lei


Estado do que é autônomo; liberdade moral ou intelectual; independência
administrativa ou financeira; liberdade que tem um país, uma região, de se
administrar segundo as suas leis. (www.diaadiaeducacao/educadores/Dicionário da
Língua Portuguesa)

Cidadania
É a qualidade ou estado de cidadão. (Dicionário Aurélio)

É a expressão concreta do exercício da democracia. (PINSKY. 2005, p. 10)

Cidadão
É o indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado, ou no desempenho
de seus deveres para com este. (Dicionário Aurélio)

Civilidade
É o respeito pelas normas de convívio entre os membros duma sociedade. O
indivíduo que tem como prerrogativas a civilidade é, e deve ser, cordial, ético e
principalmente educado, tanto nas ações quanto no comportamento. (HOLANDA,
Sérgio Buarque de)

Civismo
É o respeito pela sociedade organizada, pelas instituições e pelas leis. (HOLANDA,
Sérgio Buarque de)

Companheirismo
É a lealdade entre companheiros. (www.diaadiaeducacao/educadores/Dicionário da
Língua Portuguesa)

Crítico
do lat. Criticu e Gr. Kritikós, capaz de julgar
É aquele que faz crítica; que distingue prontamente o verdadeiro do falso, que
analisa; decisivo. (www.diaadiaeducacao/educadores/Dicionário da Língua
Portuguesa)
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Democracia
É o regime político fundado na soberania popular e no respeito integral aos direitos
humanos. (BENEVIDES. 1998, p. 157)

É o governo do povo. Doutrina ou regime político baseado nos princípios da


soberania popular e da distribuição eqüitativa do poder, ou seja, regime do ato
eleitoral, pela divisão dos poderes e pela liberdade do ato eleitoral, pela divisão dos
poderes e pelo controle da autoridade. País cujo regime é democrático. (Dicionário
Aurélio)

Direitos Humanos
São aqueles direitos comuns a todos os seres humanos, sem distinção alguma de
raça, etnia, nacionalidade, sexo, classe social, religião, instrução, ou julgamento
moral. Os direitos humanos vão além das condições legais e as fronteiras.
(BENEVIDES. 1998, p. 163)

Educação
É a formação do ser humano para desenvolver suas potencialidades de
conhecimento, julgamento e escolha para viver conscientemente em sociedade, o
que inclui também a noção de que o processo educacional, em si, contribui tanto
para conservar quanto para mudar valores, crenças, mentalidades, costumes e
práticas. (BENEVIDES. 1998, p. 157)

Educação para a Democracia


É a formação para os valores republicanos e democráticos, bem como a formação
para a tomada de decisões políticas em todos os níveis. A educação para a
cidadania exige conhecimentos básicos da vida social e uma correspondente
formação ética.
- Por virtudes republicanas entendem-se:
a. respeito às leis, acima da vontade dos homens; as leis vistas como “educadoras”.
b. respeito ao bem público, acima do interesse privado.
c. o sentido da responsabilidade no exercício do poder.
- Por virtudes democráticas entendem-se:
a. o amor à igualdade e o conseqüente horror aos privilégios.
b. a aceitação da vontade da maioria, legalmente formada, decorrente de eleições
ou de outro processo democrático, porém com constante respeito aos direitos das
minorias.
c. o respeito integral aos direitos humanos. BENEVIDES. (1998, p. 157, 158, 162 e
163)

Empatia
É a capacidade psicológica para se identificar com o eu do outro, conseguindo sentir
o mesmo que este nas situações e circunstâncias por esse outro vivenciadas.
(www.diaadiaeducacao/educadores/Dicionário da Língua Portuguesa)

Ética
É o estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana suscetível de
qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada
sociedade, seja de modo absoluto. (Dicionário Aurélio)
49

Nacionalismo
Preferência, por vezes exclusiva, por tudo o que diz respeito à nação de que se
faz parte; doutrina política (ou do partido político) que faz desta preferência o seu
programa de ação; patriotismo. (www.diaadiaeducacao/educadores/Dicionário da
Língua Portuguesa)

Patriotismo
Amor à pátria, qualidade de patriota. (www.diaadiaeducacao/educadores/Dicionário
da Língua Portuguesa)

Responsabilidade
Qualidade do que é responsável; obrigação de responder por certos atos próprios ou
alheios ou por alguma coisa que lhe foi confiada.
- responsabilidade civil: obrigação, imposta pela lei, pela qual se tem de responder
perante um terceiro pelos prejuízos que se lhe tenha causado;
- responsabilidade penal: obrigação imposta pela lei de alguém responder por certos
atos (delitos, crimes, etc.) sofrendo as sanções nelas estatuídas, caso se prove que
os praticou. (www.diaadiaeducacao/educadores/Dicionário da Língua Portuguesa)

Sensibilidade
Qualidade ou faculdade de sentir as excitações externas e internas transmitidas pelo
sistema nervoso; impressionabilidade; susceptibilidade; afetividade.
(www.diaadiaeducacao/educadores/Dicionário da Língua Portuguesa)

Solidariedade
Qualidade do que é solidário; responsabilidade mútua; reciprocidade de interesses e
obrigações. (www.diaadiaeducacao/educadores/Dicionário da Língua Portuguesa)

Solidário
Designativo de pessoas que, de certo modo e dentro de alguns limites, respondem
umas pelas outras; que se sente do mesmo modo; que dá apoio ou auxílio a;
recíproco. (www.diaadiaeducacao/educadores/Dicionário da Língua Portuguesa)

Tolerância
Qualidade de tolerante; ato ou efeito de tolerar; atitude de admitir a outrem uma
maneira de pensar ou agir diferente da adotada por si mesmo; paciência.
(www.diaadiaeducacao/educadores/Dicionário da Língua Portuguesa)
50

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS

PREÂMBULO

Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os


membros da família e de seus Direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da
liberdade, da justiça e da paz no mundo;
Considerando que o menosprezo e o desrespeito pelos Direitos Humanos
levaram a atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade, e que o
advento de um mundo no qual os seres Humanos gozem de liberdade de
palavra e de crença, livres de viverem a salvo do temor e da necessidade, foi
proclamado como a mais alta aspiração humana;
Considerando ser essencial que os Direitos Humanos sejam protegidos
pelo império da lei, para que o ser humano não seja compelido, como último
recurso, à rebelião contra a tirania e a opressão;
Considerando ser essencial promover o desenvolvimento de relações
amistosas entre as nações;
Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta,
sua fé nos Direitos Humanos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa
humana e na igualdade de Direitos do homem e da mulher, e que decidiram
promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade
mais ampla;
Considerando que os Estados Membros se comprometeram a promover,
em cooperação com a Organização das Nações Unidas, o respeito universal e
efetivo dos Direitos Humanos e liberdades fundamentais;
Considerando que uma compreensão comum desses Direitos e
liberdades é da mais alta importância para o pleno cumprimento desse
compromisso:

A ASSEMBLÉIA GERAL PROCLAMA

A PRESENTE DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS,


como um ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com
o objetivo de que todo indivíduo e todo órgão da sociedade, tendo sempre em
mente esta Declaração, se empenha através do ensino e da educação, em
promover o respeito a esses Direitos e liberdades e, pela adoção de medidas
progressivas de caráter nacional e internacional, em assegurar seu
reconhecimento e sua observância universais e afetivos, tanto entre os povos
dos próprios Estados Membros quanto entre os povos dos territórios sob sua
jurisdição.

Art. 1º Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.


São dotados de razão e consciência, por isso devem agir fraternalmente uns
com os outros.

Art. 2º
1. Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades
estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja
raça, cor, sexo, língua, religião, opinião pública ou de outra natureza,
origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra
51

condição.
2. Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política,
jurídica ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa,
quer se trate de um território independente, sob tutela, sem governo
próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania.

Art. 3º Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Art. 4º Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o


tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas.

Art. 5º Ninguém será submetido a torturas, penalidades ou tratamentos cruéis,


desumanos ou degradantes.

Art. 6º Todo ser humano tem direito, em toda parte, a seu reconhecimento como
pessoa perante a lei.

Art. 7º Todos são iguais perante a lei e têm, sem distinção, direito de igual
proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra toda discriminação que
infrinja esta Declaração e contra toda provocação a tal discriminação.

Art. 8º Toda pessoa tem direito a um recurso efetivo ante os tribunais nacionais
competentes, que a amparem contra atos que violem seus Direitos fundamentais
reconhecidos pela constituição ou pela lei.

Art. 9º Ninguém poderá ser arbitrariamente detido, preso ou desterrado.

Art. 10º Toda pessoa tem direito, em condições de plena igualdade, de ser
ouvida publicamente e com justiça por um tribunal independente e imparcial,
para a determinação de seus Direitos e deveres ou do fundamento de qualquer
acusação penal contra ela.

Art. 11
1. Toda pessoa acusada de delito tem direito a que se presuma sua
inocência, enquanto não se provar sua culpabilidade, conforme a lei e em
julgamento público no qual se hajam assegurado todas as garantias
necessárias à sua defesa.
2. Ninguém será condenado por atos e omissões que, no momento em que
foram cometidos, não tenham sido delituosos segundo o Direito nacional
ou internacional. Tampouco será imposta penalidade mais grave do que a
aplicável no momento em que foi cometido o delito.

Art. 12 Ninguém será objeto de ingerências arbitrárias em sua vida privada, sua
família, seu domicílio ou correspondência, nem de ataques à sua honra ou
reputação. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais ingerências ou
ataques.

Art. 13
1. Toda pessoa tem direito a circular livremente e a escolher sua residência
no território de um país.
52

2. Toda pessoa tem direito de sair de qualquer país, inclusive do próprio, e a


regressar a seu país.

Art. 14
1. Em caso de perseguição, toda pessoa tem direito de procurar asilo, e a
desfrutar dele, em qualquer país.
2. Este direito não poderá ser invocado contra uma ação judicial realmente
originada em delitos comuns ou em atos opostos aos propósitos e
princípios das Nações Unidas.

Art. 15
1. Toda pessoa tem direito a uma nacionalidade.
2. Não se privará ninguém arbitrariamente de sua nacionalidade nem do
direito de mudar de nacionalidade.

Art. 16
1. Os homens e mulheres, a partir da idade núbil, têm direito, sem restrição
alguma por motivo de raça, nacionalidade ou religião, de casar e constituir
família, e desfrutarão de iguais Direitos quanto ao matrimônio, durante o
matrimônio e no caso de dissolução.
2. Só mediante livre e pleno consentimento dos futuros esposos poderá o
matrimônio ser contraído.
3. A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito à
proteção da sociedade e do Estado.

Art. 17
1. Toda pessoa tem direito à propriedade, individual ou coletivamente.
2. Ninguém será privado arbitrariamente de sua propriedade.

Art. 18 Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de


religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença, assim
como a liberdade de manifestar essa religião ou crença, individual ou
coletivamente, tanto em público como em particular, por meio de ensino, prática,
culto e observância.

Art. 19 Todo indivíduo tem direito à liberdade de opinião e expressão; esse


direito inclui o de não ser molestado por causa de suas opiniões, e o de difundi-
las, sem limitação de fronteiras, por qualquer meio de expressão.

Art. 20
1. Toda pessoa tem direito à liberdade de reunião e de associação pacíficas.
2. Ninguém poderá ser obrigado a pertencer a uma associação.

Art. 21
1. Toda pessoa tem direito de participar do governo de seu país, diretamente
ou por meio de representantes livremente escolhidos.
2. Toda pessoa tem direito de acesso, em condições de igualdade, às
funções públicas de seu país.
3. A vontade do povo é a base da autoridade do poder publico; essa vontade
deverá ser expressa mediante eleições autênticas que deverão realizar-se
53

periodicamente, por sufrágio universal e igual e por voto secreto ou outro


procedimento equivalente que garanta a liberdade do voto.

Art. 22 Toda pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança


social, e a obter, por meio do esforço nacional e da cooperação internacional, a
devida conta da organização e dos recursos de cada Estado, a satisfação dos
direitos econômicos, sociais e culturais, indispensáveis à sua dignidade e ao livre
desenvolvimento de sua personalidade.

Art. 23
1. Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de seu trabalho, a
condições eqüitativas e satisfatórias de trabalho e à proteção contra o
desemprego.
2. Toda pessoa tem direito, sem discriminação alguma, a igual salário por
trabalho igual.
3. Toda pessoa que trabalha tem direito a uma remuneração eqüitativa e
satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência
de acordo com a dignidade humana e que seja completada, caso seja
necessário, por quaisquer outros meios de proteção social.
4. Toda pessoa tem direito de fundar sindicatos e de sindicalizar-se para a
defesa de seus interesses.

Art. 24 Toda pessoa tem direito ao descanso, a fruir do tempo livre, a uma
limitação razoável da duração do trabalho e a férias periódicas e remuneradas.

Art. 25
1. Toda pessoa tem direito a um nível de vida adequado que lhe assegure,
assim como à sua família, a saúde e o bem-estar e, de modo especial, a
alimentação, o vestuário, a habitação, a assistência médica e os serviços
sociais necessários; tem, ademais, direito aos seguros em caso de
desemprego, enfermidade, invalidez, viuvez, velhice e outros casos de
perda de seus meios de subsistência por circunstâncias independentes de
sua vontade.
2. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais.
Todas as crianças, nascidas de matrimônio ou fora do matrimônio, têm
direito a igual proteção social.

Art. 26
1. Toda pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo
menos no que se refere à instrução elementar e fundamental. A instrução
elementar será obrigatória. A instrução técnica e profissional deverá ser
generalizada; o acesso aos estudos superiores se dará para todos em
plena igualdade e em função dos respectivos méritos.
2. A educação terá por finalidade o pleno desenvolvimento da personalidade
humana e o fortalecimento do respeito aos Direitos Humanos e às
liberdades fundamentais; favorecerá a compreensão, a tolerância e a
amizade entre todas as nações e todos os grupos étnicos ou religiosos; e
promoverá o desenvolvimento das atividades das Nações Unidas para a
manutenção da paz.
3. Os pais terão direito de preferência na escolha do tipo de educação que
54

será dada a seus filhos.

Art. 27
1. Toda pessoa tem direito de participar livremente da vida cultural da
comunidade, de fruir das artes e de participar do progresso científico e
dos benefícios que dele advenham.
2. Toda pessoa tem direito à proteção dos interesses morais e materiais que
lhe correspondam por motivo das produções científicas, literárias ou
artísticas de que seja autor.

Art. 28 Toda pessoa tem direito a que se estabeleça uma ordem social e
internacional na qual os Direitos e as liberdade proclamados nesta Declaração
se tornem plenamente efetivos.

Art. 29
1. Toda pessoa tem deveres para com a comunidade, posto que só ela pode
desenvolver livre e plenamente sua personalidade.
2. No exercício de seus Direitos e no usufruto de suas liberdades, toda
pessoa estará sujeita apenas às limitações estabelecidas pela lei, com o
único fim de assegurar o reconhecimento e o respeito dos Direitos e
liberdades dos demais, e de satisfazer as justas exigências da moral, da
ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.
3. Estes Direitos e liberdades não poderão, em caso algum, ser exercidos
em oposição aos propósitos e princípios das Nações Unidas.

Art. 30 Nada poderá ser interpretado, na presente Declaração, no sentido de que


se confere direito algum ao Estado, a um grupo ou a uma pessoa, para
empreender e desenvolver atividades ou realizar atos tendentes à supressão de
qualquer dos Direitos e liberdades proclamados nesta Declaração.

Fonte: CANDAU, Vera Maria, et al. Oficinas pedagógicas de direitos


humanos. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 1999, p. 43-50.
55

OS DIREITOS DA CRIANÇA

A Declaração dos Direitos da Criança foi proclamada pela Assembléia Geral das
Nações Unidas, em 20 de novembro de 1959.

Princípio 1
A criança deve gozar de todos os direitos constantes desta Declaração. Toda e qualquer
criança, sem exceção, deve ter estes direitos sem distinção ou discriminação de raça, cor,
sexo, língua, religião, opinião política ou outras, propriedade, nacionalidade ou origem
social, quer seja dela própria ou de sua família.
Princípio 2
A criança deve ter proteção especial e devem ser-lhe dadas oportunidades e facilidades, por
lei e por outros meios, para capacitá-la a se desenvolver física, mental, espiritual e
socialmente, de um modo natural e saudável e em condições de liberdade e dignidade. Na
aprovação dessas leis, o interesse da criança deve estar acima de tudo.
Princípio 3
A criança deve ter direito a um nome e nacionalidade desde seu nascimento.
Princípio 4
A criança deve gozar dos benefícios do seguro social. Ela deve ter o direito de crescer e se
desenvolver com saúde. Para que isso seja possível, tanto ela quanto a mãe deverão ter
proteção e cuidados especiais, incluindo os cuidados pré e pós-natais adequados. A criança
deve ter o direito a alimentação, moradia, recreação e atendimento médico adequados.
Princípio 5
A criança deficiente física ou mental deve receber cuidados, tratamento e educação
especiais, em razão de suas condições especiais.
Princípio 6
A criança precisa de amor e compreensão para o desenvolvimento pleno e harmonioso de
sua personalidade. Ela deve, onde possível crescer sob os cuidados e responsabilidade de
seus pais, num clima de afeição e segurança moral e material; uma criança de tenra idade
não deve ser separada de sua mãe, exceto em circunstâncias excepcionais. A sociedade e
as autoridades públicas têm o dever de dispensar cuidados especiais às crianças sem
família ou sem os meios de subsistência. Recomenda-se que se ofereça ajuda de custo e
outras formas de auxílio para o sustento de crianças de famílias numerosas.
Princípio 7
A criança tem o direito de receber educação livre e obrigatória, pelo menos em seus
estágios básicos. Deve ser-lhe dada uma educação que desenvolva sua cultura geral e lhe
dê oportunidade de desenvolver seu senso crítico e seu senso de responsabilidade social e
moral, para que possa tornar-se um cidadão útil.
Princípio 8
Em qualquer circunstância, a criança deve ser a primeira a receber proteção e ajuda.
Princípio 9
A criança deve ser protegida contra todas as formas de abandono, crueldade e exploração.
Ela não deve ser objeto de tráfico de forma alguma. A criança não deve ser empregada
antes da idade mínima adequada; ela não deve ter empregos ou ocupações que
prejudiquem sua saúde, educação ou interfiram em seu desenvolvimento mental ou moral.
Princípio 10
A criança deve ser protegida de práticas que possam favorecer discriminação racial,
religiosa ou qualquer outra. Ela deve ser educada dentro de princípios de compreensão,
tolerância, amizade entre os povos, paz e fraternidade universal e plena consciência de que
sua energia e talento devem ser dedicados a seus semelhantes.

Fonte: CANDAU, Vera Maria, et al. Oficinas pedagógicas de direitos humanos. 3 ed.
Petrópolis: Vozes, 1999, p. 79-80.
56

LEI GARANTE DIREITOS ESPECIAIS AOS IDOSOS

A lei 10.741/03, conhecida como Estatuto do Idoso, entrou em vigor


em janeiro de 2004. Mais abrangente que a Política Nacional do Idoso (Lei
8.842/94), o estatuto prevê inúmeros benefícios e garantias à terceira
idade, além de instituir penas severas para quem desrespeitar ou
abandonar cidadãos idosos.
Principais pontos do Estatuto do Idoso
Lazer, cultura e esporte – Assegura desconto de pelo menos 50% nas
atividades culturais, de lazer e esportivas. Os meios de comunicação
deverão manter espaços (ou horários especiais) de programação
educativa, informativa, artística e cultural sobre o processo de
envelhecimento.
Transporte – É garantida a gratuidade nos transportes coletivos públicos
para maiores de 65 anos. A legislação local poderá dispor sobre
gratuidade também para as pessoas na faixa etária de 60 a 65 anos. No
caso de transporte coletivo intermunicipal e interestadual, ficam
reservadas duas vagas gratuitas por veículo para idosos com renda igual
ou inferior a dois salários mínimos e garantido desconto de 50% para os
idosos de mesma renda que excedam essa reserva.
Previdência – Reajuste dos benefícios da Previdência Social deve ser na
mesma data do reajuste do salário mínimo, porém com percentual definido
em legislação complementar.
Assistência – É garantido o recebimento de um salário mínimo, como
benefício da Previdência, para pessoas a partir de 65 anos, consideradas
incapazes de prover sua subsistência ou cujas famílias não tenham renda
para tal.
Justiça – Prioridade na tramitação dos processos e procedimentos
judiciais nos quais pessoas acima de 60 anos figurem como parte.
Saúde – Atendimento preferencial no Sistema Único de Saúde (SUS). A
distribuição de remédios, principalmente os de uso continuado, deve ser
gratuita, assim como próteses e outros recursos para tratamento e
reabilitação. Os planos de saúde estão proibidos de discriminar o idoso
com a cobrança de valores diferenciados em razão da idade.
Educação – Currículos escolares deverão prever conteúdos voltados ao
processo de envelhecimento, a fim de contribuir para a eliminação do
preconceito. O poder público apoiará a criação de universidade aberta
para as pessoas idosas e incentivará a publicação de livros e periódicos
em padrão editorial que facilite a leitura.
Habitação – Prioridade para a aquisição de moradia própria nos
programas habitacionais, mediante reserva de 3% das unidades, além de
critérios de financiamento da casa própria compatíveis com os
rendimentos de aposentadoria ou pensão.
Crimes previstos pelo estatuto
* Expor pessoa idosa a perigo de vida, submetendo-a a condições
desumanas ou degradantes ou privando-a de alimentos e cuidados
57

indispensáveis: dois meses a doze anos de prisão e multa.


* Deixar de prestar assistência a idoso sem justa causa: seis meses a um
ano de prisão e multa.
* Abandonar idoso em hospitais ou casas de saúde: seis meses a três
anos de prisão e multa.
* Coagir o idoso a doar, contratar, testar ou outorgar procuração: dois a
cinco anos de prisão.
* Exibir, em qualquer meio de comunicação, informações ou imagens
depreciativas ou injuriosas à pessoa do idoso: um ano a três anos de
prisão e multa.
* Reter cartão magnético de conta bancária para assegurar recebimento
de dívida: seis meses a dois anos de prisão e multa.
* Agravamento de pena para homicídio culposo: um terço a mais quando a
vítima tiver mais de 60 anos.
* Agravamento de pena para abandono: um terço a mais quando pessoa
acima de 60 anos estiver sob guarda, cuidado ou vigilância de autoridade.
Legislação
Assim como o estatuto, outras leis também asseguram benefícios aos
idosos: Constituição Federal; Lei 8.842/94; Lei 10.173/01; Lei 10.048/00;
Decreto 1.744/95; Decreto 2.170/97; Lei 8.926/94; Portaria 280/99, do
Ministério da Saúde; Decreto 1.948/96; Lei 9.656/98; Lei 5.478/68; e
Decreto 1.948/96.

Em casos de abuso físico, psicológico, financeiro, sexual ou de


negligência, denuncie ao atendimento especializado aos idosos ou a
delegacia de polícia.

Fonte: JORNAL DO SENADO. Especial Cidadania. Brasília: 2004, p 19-21.


58

DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS SOBRE A TOLERÂNCIA

Os Estados membros da Organização das Nações Unidas para a Educação, a


Ciência e a Cultura reunidos em Paris em virtude da 28ª reunião da Conferência
Geral, de 25 de outubro de 1995.
[...]
Decididos a tomar todas as medidas positivas necessárias para promover a
tolerância nas nossas sociedades, pois a tolerância é não somente um princípio
relevante, mas igualmente uma condição necessária para a paz e para o
progresso econômico e social de todos os povos,
Declaramos o seguinte:

Art. 1º Significado da tolerância


1.1. A tolerância é o respeito, a aceitação e o apreço da riqueza e da
diversidade das culturas de nosso mundo, de nossos modos de expressão e
de nossas maneiras de exprimir nossa qualidade de seres humanos. É
fomentada pelo conhecimento, a abertura de espírito, a comunicação e a
liberdade de pensamento, de consciência e de crença. A tolerância é a
harmonia na diferença. Não só é um dever de ordem ética; é igualmente uma
necessidade política e jurídica. A tolerância é uma virtude que torna a paz
possível e contribui para substituir uma cultura de guerra por uma cultura de
paz.
1.2. A tolerância não é concessão, condescendência, indulgência. A tolerância
é, antes de tudo, uma atitude ativa, fundada no reconhecimento dos direitos
universais da pessoa humana e das liberdades fundamentais do outro. Em
nenhum caso a tolerância poderia ser invocada para justificar lesões a esses
valores fundamentais. A tolerância deve ser praticada pelos indivíduos, pelos
grupos e pelo Estado.
1.3. A tolerância é o sustentáculo dos direitos humanos, do pluralismo
(inclusive o pluralismo cultural), da democracia e do Estado de Direito.
Implica a rejeição do dogmatismo e do absolutismo e fortalece as normas
enunciadas nos instrumentos internacionais relativos aos direitos humanos.
1.4. Em consonância a respeito aos direitos humanos, praticar a tolerância
não significa tolerar a injustiça social, nem renunciar às próprias convicções,
nem fazer concessões a respeito. A prática da tolerância significa que toda
pessoa tem a livre escolha de suas convicções e aceita que o outro desfrute
da mesma liberdade. Significa aceitar o fato de que os seres humanos, que
se caracterizam naturalmente pela diversidade de seu aspecto físico, de sua
situação, de seu modo de expressar-se, de seus comportamentos e de seus
valores, têm o direito de viver em paz e de ser tal como são. Significa
também que ninguém deve impor suas opiniões a outrem.

Art. 2º O papel do Estado


2.1. No âmbito do Estado, a tolerância exige justiça e imparcialidade na
legislação, na aplicação da lei e no exercício dos poderes judiciário e
administrativo. Exige também que todos possam desfrutar de oportunidades
econômicas e sociais sem nenhuma discriminação. A exclusão e a
marginalização podem conduzir à frustração, à hostilidade e ao fanatismo.
2.2. A fim de instaurar uma sociedade mais tolerante, os Estados devem
59

ratificar as convenções internacionais relativas aos direitos humanos e, se for


necessário, elaborar uma nova legislação a fim de garantir igualdade de
tratamento e de oportunidades aos diferentes grupos e indivíduos da
sociedade.
2.3. Para a harmonia internacional, torna-se essencial que os indivíduos, as
comunidades e as Nações aceitem e respeitem o caráter multicultural da
família humana. Sem tolerância não pode haver paz e sem paz não pode
haver nem desenvolvimento nem democracia.
2.4. A intolerância pode ter a forma de marginalização dos grupos vulneráveis
e de sua exclusão de toda participação na vida social e política também a da
violência e da discriminação contra os mesmos. Como afirma a Declaração
sobre a Raça e os Preconceitos Raciais, “Todos os indivíduos e todos os
grupos têm o direito de ser diferentes” (Artigo 1.2).

Art. 3º Dimensões sociais


3.1. No mundo moderno, a tolerância é mais necessária do que nunca.
Vivemos uma época marcada pela mundialização da economia e pela
aceleração da mobilidade, da comunicação, da integração e da
interdependência, das migrações e dos deslocamentos de populações, da
urbanização e da transformação das formas de organização social. Visto que
inexiste uma única parte do mundo que não seja caracterizada pela
diversidade, a intensificação da intolerância e dos confrontos constituí
ameaça potencial para cada região. Não se trata de ameaça limitada a esse
ou aquele país, mas de ameaça universal.
3.2. A tolerância é necessária entre os indivíduos e também no âmbito da
família e da comunidade. A promoção da tolerância e o aprendizado da
abertura do espírito, da ouvida mútua e da solidariedade devem se realizar
nas escolas e nas universidades, por meio da educação não-formal, nos lares
e nos locais de trabalho. Os meios de comunicação devem desempenhar um
papel construtivo, favorecendo o diálogo e o debate livres e abertos,
propagando os valores da tolerância e ressaltando os riscos da indiferença à
expansão das ideologias e dos grupos intolerantes.
3.3. Como afirma a Declaração da Unesco sobre a Raça e os Preconceitos
Raciais, medidas devem ser tomadas para assegurar a igualdade na
dignidade e nos direitos dos indivíduos e dos grupos humanos em todo lugar
onde isso seja necessário. Para tanto, deve ser dada atenção especial aos
grupos vulneráveis social ou economicamente desfavorecidos, a fim e lhes
assegurar a proteção das leis e regulamentos em vigor, sobretudo em matéria
de moradia, de emprego e de saúde, de respeitar a autenticidade de sua
cultura e de seus valores e de facilitar, em especial pela educação, sua
promoção e sua integração social e profissional.
3.4. A fim de coordenar a resposta da comunidade internacional a esse
desafio universal, convém realizar estudos científicos apropriados e criar
redes, incluindo a análise, pelos métodos das ciências sociais, das causas
profundas desses fenômenos e das medidas para enfrentá-las, e também a
pesquisa e a observação, a fim de apoiar as decisões dos Estados membros
em matéria de formulação política geral e de ação normativa.

Art. 4º Educação
4.1. A educação é o meio mais eficaz de prevenir a intolerância. A primeira
60

etapa da educação para a tolerância consiste em ensinar aos indivíduos


quais são os seus direitos e suas liberdades a fim de assegurar seu respeito
e de incentivar a vontade de proteger os direitos e as liberdades dos outros.
A educação para a tolerância deve ser considerada como imperativo
prioritário; por isso é necessário promover métodos sistemáticos e racionais
de ensino de tolerância centrados nas fontes culturais, sociais, econômicas,
políticas e religiosas da intolerância, que expressam as causas profundas da
violência e da exclusão. As políticas e os programas de educação devem
contribuir para o desenvolvimento da compreensão, da solidariedade e da
tolerância entre os indivíduos, entre os grupos étnicos, sociais, culturais,
religiosos, lingüísticos e as nações.
4.3. A educação para a tolerância deve visar contrariar as influências que
levam ao medo e à exclusão do outro e deve ajudar os jovens a desenvolver
sua capacidade de exercer um juízo autônomo, de realizar uma reflexão
crítica e de raciocinar em termos éticos.
4.4. Comprometemo-nos a apoiar e a executar programas de pesquisa em
ciências sociais e de educação para a tolerância, para os direitos humanos e
para a não violência. Por conseguinte, torna-se necessário dar atenção
especial à melhoria da formação dos docentes, dos programas de ensino, do
conteúdo dos manuais e cursos e de outros tipos de material pedagógico,
inclusive as novas tecnologias educacionais, a fim de formar cidadãos
solidários e responsáveis, abertos a outras culturas, capazes de apreciar o
valor da liberdade, respeitadores da dignidade dos seres humanos e de suas
diferenças e capazes de prevenir os conflitos ou de resolvê-los por meios
não-violentos.

Art. 5º Compromisso de agir


Comprometemo-nos a fomentar a tolerância e não-violência por meio de
programas e de instituições no campo da educação, da ciência, da cultura e
da comunicação.

Art. 6º Dia Internacional da Tolerância


A fim de mobilizar a opinião pública, de ressaltar os perigos da intolerância e
de reafirmar nosso compromisso e nossa determinação de agir em favor do
fomento da tolerância e da educação para a tolerância, nós proclamamos
solenemente o dia 16 de novembro de cada ano como o Dia Internacional da
Tolerância.

Fonte: CADERNOS DA TV ESCOLA. Direitos humanos. Ministério da


Educação. N. 1/1999. p. 83-88.
61

DECLARAÇÃO DO RIO OU CARTA DA TERRA


Reunião da ONU – ECO 92 – Brasil

Princípio 1
Os seres humanos estão no centro das preocupações com o desenvolvimento
sustentável. Têm direito a uma vida saudável e produtiva, em harmonia com a
natureza.
Princípio 2
Os Estados, em conformidade com a Carta das Nações Unidas e com os princípios
do Direito Internacional, têm o direito soberano de explorar seus recursos segundo
suas próprias políticas de meio ambiente e desenvolvimento, e a responsabilidade
de assegurar que atividades sob sua jurisdição ou controle não causem danos ao
meio ambiente de outros Estados ou de áreas além dos limites da jurisdição
nacional.
Princípio 3
O direito ao desenvolvimento deve ser exercido, de modo a permitir que sejam
atendidas, eqüitativamente, as necessidades de gerações presentes e futuras.
Princípio 4
Para alcançar o desenvolvimento sustentável, a proteção ambiental deve constituir
parte integrante do processo de desenvolvimento, e não pode ser considerada
isoladamente deste.
Princípio 5
Todos os Estados e todos os indivíduos, como requisito indispensável para o
desenvolvimento sustentável, devem cooperar na tarefa essencial de erradicar a
pobreza, de forma a reduzir as disparidades nos padrões de vida e melhor atender
as necessidades da maioria da população do mundo.
Princípio 6
A situação e necessidades especiais dos países de menor desenvolvimento relativo,
e daqueles ambientalmente mais vulneráveis, devem receber prioridade especial.
Ações internacionais no campo do meio ambiente e do desenvolvimento devem
atender os interesses e necessidades de todos os países.
Princípio 7
Os Estados devem cooperar, em um espírito de parceria global, para a conservação,
proteção e restauração da saúde e da integridade do ecossistema terrestre.
Considerando as distintas contribuições para a degradação ambiental global, os
Estados têm responsabilidade comuns, porém diferenciadas. Os países
desenvolvidos reconhecem a responsabilidade que têm na busca internacional do
desenvolvimento sustentável, em vista das pressões exercidas por suas sociedades
sobre o meio ambiente global e das tecnologias e recursos financeiros que
controlam.
Princípio 8
Para atingir o desenvolvimento sustentável e mais alta qualidade de vida para todos,
os Estados devem reduzir e eliminar padrões insustentáveis de produção e consumo
e promover políticas demográficas adequadas.
Princípio 9
Os Estados devem cooperar com vistas ao fortalecimento da capacidade endógena
para o desenvolvimento sustentável, pelo aprimoramento da compreensão científica
por meio do intercâmbio de conhecimento científico e tecnológico, e pela
intensificação do desenvolvimento, adaptação, difusão e transferência de
tecnologias, inclusive tecnologias novas e inovadoras.
Princípio 10
A melhor maneira de tratar questões ambientais é assegurar a participação, no nível
62

apropriado, de todos os cidadãos interessados. No nível nacional, cada indivíduo


deve ter acesso adequado a informações relativas ao meio ambiente de que
dispunham as autoridades públicas, inclusive informações sobre materiais e
atividades perigosas em suas comunidades, bem como a oportunidade de participar
em processos de tomada de decisões. Os Estados devem facilitar e estimular a
conscientização e a participação pública, colocando a informação à disposição de
todos. Deve ser propiciado acesso efetivo a mecanismos judiciais e administrativos,
inclusive no que diz respeito à compensação e reparação de danos.
Princípio 11
Os Estados devem adotar legislação ambiental eficaz. Padrões ambientais e
objetivos e prioridades em matéria de ordenação do meio ambiente devem refletir o
contexto ambiental e de desenvolvimento a que se aplicam. Padrões utilizados por
alguns países podem resultar inadequados para outros, em especial países em
desenvolvimento, acarretando custos sociais e econômicos injustificados.
Princípio 12
Os Estados devem cooperar para o estabelecimento de um sistema econômico
internacional aberto e favorável, propício ao crescimento econômico e ao
desenvolvimento sustentável em todos os países, de modo a possibilitar o
tratamento mais adequado dos problemas da degradação ambiental. Medidas de
política comercial para propósitos ambientais não devem constituir-se em meios
para a imposição de discriminações arbitrárias, ou injustificáveis, ou em barreiras
disfarçadas ao comércio internacional. Devem ser evitadas ações unilaterais para o
tratamento de questões ambientais fora da jurisdição do país importador. Medidas
destinadas a tratar de problemas ambientais transfronteiriços ou globais devem, na
medida do possível, basear-se em um consenso internacional.
Princípio 13
Os Estados devem desenvolver legislação nacional relativa à responsabilidade e
indenização das vítimas de poluição e outros danos ambientais. Os Estados devem
ainda cooperar, de forma expedita e determinada, para o desenvolvimento de
normas de direito internacional ambiental relativas à responsabilidade e indenização
por efeitos adversos de danos ambientais causados, em áreas fora de sua
jurisdição, por atividades dentro de sua jurisdição ou sob seu controle.
Princípio 14
Os Estados devem cooperar, de modo efetivo, para desestimular ou prevenir a
realocação ou transferência para outros Estados de quaisquer atividades ou
substâncias que causem degradação ambiental grave ou que sejam prejudiciais à
saúde humana.
Princípio 15
De modo a proteger o meio ambiente, o princípio da precaução deve ser
amplamente observado pelos Estados, de acordo com suas capacidades. Quando
houver ameaça de danos sérios ou irreversíveis, a ausência de absoluta certeza
científica não deve ser utilizada como razão para postergar medidas eficazes e
economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental.
Princípio 16
Tendo em vista que o poluidor deve, em princípio, arcar com o custo decorrente da
poluição, as autoridades nacionais devem procurar promover a internacionalização
dos custos ambientais e o uso de instrumentos econômicos, levando na devida
conta o interesse público, sem distorcer o comércio e os investimentos
internacionais.
Princípio 17
A avaliação de impacto ambiental, como instrumento nacional, deve ser
empreendida para atividades planejadas que possam gerar efeitos nocivos súbitos
63

sobre o meio ambiente destes últimos. Todos os esforços devem ser empreendidos
pela comunidade internacional para auxiliar os Estados afetados.
Princípio 18
Os Estados devem prover oportunamente, a Estados que possam ser afetados,
notificação prévia e informações relevantes sobre atividades potencialmente
causadoras de considerável impacto transfronteiriço negativo sobre o meio
ambiente, e devem consultar-se com estes tão logo quanto possível e de boa-fé.
Princípio 19
As mulheres desempenham papel fundamental na gestão do meio ambiente e no
desenvolvimento. Sua participação plena é, portanto, essencial para a promoção do
desenvolvimento sustentável.
Princípio 20
A criatividade, os ideais e a coragem dos jovens do mundo devem ser mobilizados
para forjar uma parceria global com vistas a alcançar o desenvolvimento sustentável
e assegurar um futuro melhor para todos.
Princípio 21
As populações indígenas e suas comunidades, bem como outras comunidades
locais, têm papel fundamental na gestão do meio ambiente e no desenvolvimento,
em virtude de seus conhecimentos e prática tradicionais. Os Estados devem
reconhecer e apoiar de forma apropriada a identidade cultural e interesses dessas
populações e comunidades, bem como habilitá-las a participar efetivamente da
promoção do desenvolvimento sustentável.
Princípio 22
O meio ambiente e os recursos naturais dos povos submetidos à opressão,
dominação e ocupação devem ser protegidos.
Princípio 23
A guerra é, por definição, contrária ao desenvolvimento sustentável. Os Estados
devem, por conseguinte, respeitar o Direito Internacional aplicável à proteção do
meio ambiente em tempos de conflitos armados, e cooperar para seu
desenvolvimento progressivo, quando necessário.
Princípio 24
A paz, o desenvolvimento e a proteção ambiental são interdependentes e
indivisíveis.
Princípio 25
Os Estados devem solucionar todas as suas controvérsias ambientais de forma
pacífica, utilizando-se dos meios apropriados, de conformidade com a Carta das
Nações Unidas.
Princípio 26
Os Estados e os povos devem cooperar de boa-fé e imbuídos de um espírito de
parceria para a realização dos princípios consubstanciados nesta declaração, e para
o desenvolvimento progressivo do Direito Internacional no campo do
desenvolvimento sustentável.

Fonte: CANDAU, Vera Maria; et al. Oficinas pedagógicas de direitos humanos. 3


ed. Petrópolis: Vozes, 1999, p. 56-61.
64

NASCIMENTO DE UM CIDADÃO

Para renascer, e às vezes para nascer, é preciso morrer, e ele


começou morrendo. Foi uma morte até certo ponto anunciada, precedida de
uma lenta e ignominiosa agonia. Que teve início numa sexta-feira. O patrão
chamou-o e disse, num tom quase casual, que ele estava despedido:
contenção de custos, você sabe como é, a situação não está boa, tenho que
dispensar gente.
Por mais que esperasse esse anúncio – que na verdade até tardara um
pouco, muitos outros já haviam sido postos na rua – foi um choque. Afinal,
fazia cinco anos que trabalhava na empresa. Um cargo modesto, de
empacotador, mas ele nunca pretendera mais: afinal, mal sabia ler e escrever.
O salário não era grande coisa, mas permitia-lhe, com muito esforço,
sustentar a família, esposa e dois filhos pequenos. Mas já não tinha salário,
não tinha emprego – não tinha nada.
Passou no departamento pessoal, assinou os papéis que lhe
apresentaram, recebeu seu derradeiro pagamento, e, de repente, estava na
rua. Uma rua movimentada, cheia de gente apressada. Gente que vinha de
lugares e que ia para outros lugares. Gente que sabia o que fazer.
Ele não, Ele não sabia o que fazer. Habitualmente iria para casa,
contente com a perspectiva do fim de semana, o passeio no parque com os
filhos, a conversa com os amigos. Agora, a situação era outra. Como poderia
chegar em casa e contar à mulher que estava desempregado? À mulher, que
se sacrificava tanto, que fazia das tripas coração para manter a casa
funcionando? Para criar coragem, entrou num bar, pediu um martelo de
cachaça, depois outro e mais outro. A bebida não o reconfortava; ao contrário,
sentia-se cada vez pior. Sem alternativa, tomou o ônibus para o humilde
bairro em que morava.
A reação da mulher foi ainda pior do que ele esperava. Transtornada;
torcia as mãos e gritava angustiada, o que é que vamos fazer, o que é que
vamos fazer. Ele tentou encorajá-la, disse que de imediato procuraria
emprego. De imediato significava, naturalmente, segunda-feira; mas antes
disto havia o sábado e o domingo, muitas horas penosas que ele teria de
suportar. E só havia um jeito de fazê-lo: bebendo. Passou o fim de semana
embriagado. Embriagado e brigando com a mulher.
Quando, na segunda-feira, saiu de casa para procurar trabalho, sentia-
se de antemão derrotado. Foi a outras empresas, procurou conhecidos,
esteve no sindicato; como antecipara, as respostas eram negativas. Terça foi
a mesma coisa, quarta também, e quinta, e sexta. O dinheiro esgotava-se
rapidamente, tanto mais que o filho menor, de um ano e meio, estava doente
e precisava ser medicado. E assim chegou o fim de semana. Na sexta à noite
ele tomou uma decisão: não voltaria para casa.
Não tinha como fazê-lo. Não poderia ver os filhos chorando, a mulher a
mirá-lo com ar acusador. Ficou no bar até que o dono o expulsou, e depois
saiu a caminhar, cambaleante. Era muito tarde, mas ele não estava sozinho.
Nas ruas havia muitos como ele, gente que não tinha onde morar, ou que não
queria um lugar para morar. Havia um grupo deitado sob uma marquise,
homens, mulheres e crianças. Perguntou se podia ficar com eles. Ninguém
65

lhe respondeu e ele tomou o silêncio como concordância. Passou a noite ali,
dormindo sobre jornais. Um sono inquieto, cheio de pesadelos. De qualquer
modo, clareou o dia e quando isto aconteceu ele sentiu um inexplicável alívio:
era como se tivesse ultrapassado uma barreira, como se tivesse se livrado de
um peso. Como se tivesse morrido? Sim, como se tivesse morrido. Morrer
não lhe parecia tão ruim, muitas vezes pensara em imitar o gesto do pai que,
ele ainda criança, se atirara sob um trem. Muitas vezes pensava nesse
homem, com quem nunca tivera muito contato e imaginava-o sempre sorrindo
(coisa que na realidade raramente acontecia) e feliz. Se ele próprio não se
matara, fora por causa da família; agora, que a família era coisa do passado,
nada mais o prendia à vida.
Mas também nada o empurrava para a morte. Porque, num certo
sentido, era um morto-vivo. Não tinha passado e também não tinha futuro. O
futuro era uma incógnita que não se preocupava em desvendar. Se
aparecesse a comida, comeria; se aparecesse bebida, beberia (e bebida
nunca faltava; comprava-a com as esmolas. Quando não tinha dinheiro
sempre havia alguém para alcançar-lhe uma garrafa). Quanto ao passado,
começava a sumir na espessa névoa de um olvido que o surpreendia – como
esqueço rápido as coisas, meu Deus – mas que não recusava; ao contrário,
recebia-o como uma benção. Como uma absolvição. A primeira coisa que
esqueceu foi o rosto do filho maior, garoto chato, sempre a reclamar, sempre
a pedir coisas. Depois, foi o filho mais novo, que também chorava muito, mas
que não pedia nada – ainda não falava. Por último, foi-se a face devastada da
mulher, aquela face que um dia achara bela, que lhe aquecera o coração.
Junto com os rostos, foram os nomes. Não lembrava mais como se
chamavam.
E aí começou a esquecer coisas a respeito de si próprio. A empresa
em que trabalhara. O endereço da casa onde morava. A sua idade – para que
precisava saber a idade? Por fim, esqueceu o próprio nome.
Aquilo foi mais difícil. É verdade que, havia muito tempo, ninguém lhe
chamava pelo nome. Vagando de um lado para outro, de bairro em bairro, de
cidade em cidade, todos lhe eram desconhecidos e ninguém exigia
apresentação. Mesmo assim foi com certa inquietação que pela primeira vez
se perguntou: como é mesmo o meu nome? Tentou, por algum tempo se
lembrar. Era um nome comum, sem nenhuma peculiaridade algo como José
da Silva (mas não era José da Silva); mas isto, ao invés de facilitar só lhe
dificultava a tarefa. Em algum momento tivera uma carteira de identidade que
sempre carregara consigo; mas perdera esse documento. Não se preocupara
- não lhe fazia falta. Agora esquecia o nome... Ficou aborrecido, mas não por
muito tempo. É alguma doença, concluiu, e esta explicação o absolvia: um
doente não é obrigado a lembrar nada.
De qualquer modo, aquilo mexeu com ele. Pela primeira vez em muito
tempo - quanto tempo? Meses, anos? - decidiu fazer alguma coisa. Resolveu
tomar um banho. O que não era habitual em sua vida, pelo contrário: já não
sabia mais há quanto tempo não se lavava. A sujeira formava nele uma crosta
- que de certo modo o protegia. Agora, porém, trataria de lavar-se, de
aparecer como fora no passado.
Conhecia um lugar, um abrigo mantido por uma ordem religiosa. Foi
66

recebido por um silencioso padre, que lhe deu uma toalha, um pedaço de
sabão e conduziu até o chuveiro. Ali ficou, muito tempo, olhando a água que
corria para o ralo - escura no início, depois mais clara. Fez a barba, também.
E um empregado lhe cortou o cabelo, que lhe chegara aos ombros. Enrolado
na toalha, foi buscar as roupas. Surpresa:
- Joguei fora - disse o padre - fediam demais.
Antes que lhe pudesse protestar, o padre entregou-lhe um pacote:
- Tome. É uma roupa decente.
Ele entrou no vestiário. O pacote continha cuecas, camisa, uma calça,
meias, sapatos. Tudo usado, ma em bom estado. Limpo. Ele vestiu-se, olhou
no espelho. E ficou encantado: não reconhecia o homem que via ali. Ao sair,
o padre, de trás de um balcão, interpelou-o:
- Como é mesmo o seu nome?
Ele não teve coragem de confessar que esquecera como se chamava.
- José da Silva.
O padre lançou-lhe um olhar penetrante - provavelmente todos ali eram
José da Silva- mas não disse nada. Limitou-se a fazer uma anotação num
grande caderno.
Ele saiu. E sentia-se outro. Sentia-se como que – embriagado? - sim, como
que embriagado. Mas embriagado pelo céu, pela luz do sol, pelas árvores,
pela multidão que enchia as ruas. Tão arrebatado estava que, ao atravessar a
avenida, não viu o ônibus. O choque, tremendo, jogou-o à distância. Ali ficou,
imóvel, caído sobre o asfalto, as pessoas rodeando-o. Curiosamente, não
tinha dor; ao contrário, sentia-se leve, quase que como flutuando. Deve ser o
banho, pensou.
Alguém se inclinou sobre ele, um policial. Que lhe perguntou:
- Como que está, cidadão? Dá para agüentar, cidadão?
Isso ele não sabia. Nem tinha importância. Agora sabia quem era. Era
um cidadão. Não tinha nome, mas tinha um título: cidadão. Ser cidadão era,
para ele, o começo de tudo. Ou o fim de tudo. Seus olhos se fecharam. Mas
seu rosto se abriu um sorriso. O último sorriso do desconhecido, o primeiro
sorriso do cidadão.

Fonte: SCLIAR, Moacir in PINSKY, Jaime, PINSKY, Carla Bassanezi (Org.).


História da cidadania. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2005, p. 555-588.
67

ÉTICA E CIDADANIA

Dentre as definições que se tem de ética podemos dizer que ela é uma
teoria ou ciência do comportamento moral das pessoas em sociedade, ou
seja, é a vivência moral com o outro, é a expressão do comportamento
humano, é a concretização do conviver, do agir, do exercício humano e
cidadão.
A condição social dos humanos demanda a formulação de princípios e
padrões de conduta como elementos norteadores da convivência social,
pautados em valores éticos que devem ser sustentadores das nossas
relações sociais, nas atitudes de respeito, de solidariedade, de tolerância, de
justiça e de busca constante pela igualdade.
Ética e responsabilidade
Ser cidadão é ter direitos. Ter direitos civis, como o direito à vida, à
igualdade perante as leis, à propriedade; ter direitos políticos, como participar
nos destinos da sociedade, e ter direitos sociais, que são aqueles que
garantem a participação de todos, sem distinção de classe, raça, credo, na
distribuição da riqueza, no direito à educação, ao trabalho, à saúde, a uma
vida digna. Exercer a cidadania é pois, usufruir de todos esses direitos, como
também cumprir com seus deveres.
Leonardo Boff nos diz que “assim como a estrela não brilha se não
houver aura, assim também uma ética não emerge se não houver
previamente uma ambiência que permita sua formulação. Essa ambiência é
formada pela ternura e pelo cuidado”. Portanto não existe vivência ética se
todos não cuidarem e trabalharem para que ela aconteça. Não viveremos
ética enquanto cada um de nós não assumir o seu compromisso para que ela
se expresse. Não viveremos ética enquanto não vivenciarmos nossa
cidadania que, afinal, é um direito e um dever de todos os seres humanos em
sua manifestação diária de seres políticos que vivem e convivem com o
outro. Fredéric Rauh, filósofo francês, disse que o maior perigo para a vida
moral e ética, não provém do egoísmo consciente do indivíduo, mas do
egoísmo coletivo, muitas vezes sancionado pelas instituições e pelos
códigos, que constituem a atmosfera social, que se manifestam através da
falta de dignidade de vida, do racismo e preconceito, do não acesso aos
direitos básicos, do desamor...
No exercício da cidadania vivemos e expressamos nossa conduta
ética, sendo ela a única via para nos tornarmos seres genuinamente
políticos. Isto é, seres responsáveis, atuantes e comprometidos, não só com
o nosso destino, mas com o destino de todos os nossos semelhantes.
Aristóteles, na Idade Antiga, foi enfático ao dizer que não existe exercício
político desvinculado da ética. A política é uma extensão da ética, uma
expressão concreta daquilo que queremos viver em sociedade, não podemos
“levar uma vida moral como indivíduo isolado, mas como membro de uma
comunidade”.
Papel social
Acreditamos que somente através do exercício da dimensão ética, do
68

compromisso, poderemos superar os desafios que rondam nosso tempo


histórico, como a intolerância, a guerra, as diversas formas de violência, o
terrorismo, a exploração de homens por outros homens, a falta de dignidade,
o individualismo.
Quando falamos em falta de dignidade não podemos nos esquecer de
um grande problema que assola o nosso país – a dificuldade da formação
qualificada e, como conseqüências, o aumento do desemprego e do
subemprego.
Quantas pessoas, e de modo especial, quantos jovens, sabem da
necessidade de uma boa formação, mas precisam abrir mão desse sonho,
que é um direito seu como cidadão, para trabalhar e garantir sua
sobrevivência. Olhando por outro lado, quantos jovens que tiveram acesso a
uma boa formação e quando, no exercício da profissão, agem com total falta
de ética, num claro exemplo de egoísmo e individualismo.
Tudo isso nos faz pensar que não existe prática cidadã desvinculada
da vivência ética. Essa idéia de responsabilidade que se encontra articulada
com a liberdade é o conceito que melhor representa o eixo central da
reflexão ética... Pois responsabilidade está ligada à noção de compromisso.
Ética que é prática consciente e responsável, que se expressa em nosso dia-
a-dia, e que, como seres políticos, devemos ter esse compromisso no
exercício de nossa cidadania, cientes do nosso papel social, sem nunca
deixar de exigir que nossos direitos sejam respeitados e cumpridos, como
também da responsabilidade de cumprir com nossos deveres.

Fonte: LODI, Ivana G. A cidadania constrói a ética. Mundo Jovem, ano XLII,
n. 355, abril/2005, p. 16
69

A LEI É IGUAL PARA TODOS?

Morreu um brasileiro. Seu nome: Galdino Jesus dos Santos. Sua


origem: tribo dos Pataxós, na Bahia.
Morreu queimado porque cinco garotos de Brasília se viram no direito
de se divertirem com sua vida. Vendo-o deitado, acharam que “era um
mendigo” (mendigo pode?), foram até um posto de gasolina, onde
compraram dois litros de álcool, alguns espalharam o líquido em seu
corpo, os outros acenderam e atiraram o fósforo, e fugiram todos juntos
quando a tocha humana começou a se agitar desesperadamente.
Um dos garotos, menor de idade, ficará até por três anos internado. Os
quatro maiores, filhos de família de classe média, estão detidos no
Presídio da Papuda, aguardando decisão judicial. A primeira já saiu: a
juíza Sandra de Santis Mello, “avaliando os autos e sua consciência”,
decidiu não aceitar o pedido da promotora Maria José Miranda para que os
suspeitos fossem levados a júri popular como responsáveis por
assassinato intencional (como pena até 30 anos de reclusão), mas apenas
por assassinato não-intencional (como pena máxima até 12 anos, mas
com possibilidade de ser reduzida há alguns meses). A promotora decidiu
recorrer. Acha que os suspeitos tinham condições de discernir que
embeber uma pessoa em álcool e incendiá-la pode levar a vítima à morte.
Não é a mesma coisa que um atropelamento, exemplo clássico de morte
não-intencional. De resto, afirma, há três agravantes: o crime foi
premeditado (os rapazes saíram de carro para comprar álcool num posto,
após terem encontrado sua vítima), houve divisão de tarefas objetivando
maior eficácia e a vítima não foi socorrida.
Teria sido muito rígida a promotora ou muito condescendente a juíza?
A imprensa escreveu laudas sobre o assunto, grupos de defesa dos índios
se manifestaram, brilhantes advogados deram seu parecer. Curiosamente,
dez entre cada dez defensores da posição da juíza eram advogados
criminais, acostumados, por dever de ofício, a procurar fatores atenuantes
para os crimes em julgamento, e, não menos curiosamente, se não me
falha a memória, nenhum promotor foi ouvido. Mas nem é esta a questão.
Talvez a questão seja discutir a nossa justiça de classe. Sim, pois se
a sociedade não acha justo o fato de os crimes policiais militares serem
julgados pelos próprios policiais militares, será justo os crimes da classe
média serem julgados pela própria classe média? Possivelmente os crimes
dentro do próprio grupo sejam mais bem compreendidos e, portanto,
julgados com maior condescendência. Fico curioso em imaginar o parecer
sobre o julgamento dos garotos por juiz pataxó . Ou se, em vez de um
pataxó, fosse a vítima um juiz e os acusados, alguns garotos de periferia...
Por outro lado, julgar a partir de uma perspectiva de classe não é,
necessariamente, um mal. Em última instância, significa compreender
melhor as motivações e as ações do criminoso, avaliá-lo como indivíduo
dentro de um grupo e não como um ser isolado, e somente a partir daí
julgá-lo. O problema, insisto, é julgar os nossos iguais de uma forma e os
70

demais de outra, uns com condescendência máxima e outros com rigidez


suprema. Tenho a desagradável impressão de que um importante corrente
de apoio à decisão da juíza Sandra de Mello partiu de pessoas
preocupadas em compreender a “travessura” dos rapazes.
O que discute, portando, não é uma manifestação isolada de uma
juíza, mas de uma mentalidade que apresenta como normais, ou a menos
toleráveis, as atitudes de nossos iguais e como intoleráveis e
inadmissíveis as de nossos diferentes. Lembro-me do sorriso de
compreensão que um importante advogado de São Paulo abriu quando
seu filho irrompeu em casa, na nossa presença, com algumas placas de
trânsito (PARE) que ele, com alguns amigos, haviam arrancado de
esquinas do bairro para ver “se rolava alguma trombada” .O triste é que o
tema da reunião era encontrar providências adequadas contra “hunos da
periferia” que destruíam os orelhões... Que erudito parecer esse ilustre
advogado daria para uns e outros se fosse juiz e tivesse de julgar os
“hunos” dos orelhões e os “brincalhões” das placas?
Os juristas gostam de dizer que o Direito é uma ciência social, o que
me parece muito sábio. Hamurábi tinha leis diferentes para sumérios e
estrangeiros, assim como os hebreus. Em Atenas, leis diferentes atendiam
cidadãos, estrangeiros e escravos. Durante o período colonial
discriminávamos a população de forma quase estamental, colocando leis
específicas para os escravos. Ainda a pouco, durante a ditadura, criou-se
informalmente a pena de morte pra os suspeitos de subversão, pena que
continua em vigor para muitos, principalmente se forem negros e pobres.
Mas agora, em plena vigência da democracia, não terá chegado o
momento de estabelecer critérios claros e universais para o julgamento de
determinados crimes, qualquer que seja a origem social ou racial do
criminoso? Mesmo que a vítima seja um mendigo ou índio pataxó?

Fonte: PINSKY, Jaime. Cidadania e educação. 9 ed. São Paulo:


Contexto, 2008, p. 20-22.
71

ATITUDES CIDADÃS

O pressuposto da existência de leis é o de que elas sejam


aplicadas. Pensar em leis que “não pegam” é tão sem sentido quanto
imaginar automóveis fabricados para ficarem parados, lojas montadas
para nunca abrirem, ou escolas criadas para não oferecerem ensino.
Assim como o automóvel necessita de um motorista habilitado, a loja
demanda um administrador e a escola um professor, a lei, para ser
colocada em funcionamento, precisa de pessoas habilitadas e
interessadas em seu cumprimento. Até aqui, diria o conselheiro Acácio,
tudo bem. Onde está o problema? De um lado, no buraco –
aparentemente intransponível – existente entre a formulação e a
publicação de leis, decretos, portarias e regulamentos, e, de outro, em
sua aplicação. Às vezes, até, tem-se a desagradável sensação de que
a legislação existe como simples justificativa da existência de
legisladores, que pouco se importam, no geral, com sua aplicação. E
que os agentes concretos da lei tampouco se importam com aquela que
deveriam aplicar.
Tomemos um exemplo banal de aplicador da legislação: o policial
rodoviário. Com a evidente exceção dos meus incorruptíveis leitores,
sabe-se que muitos motoristas trocam uma multa por uma gorjeta. Sem
entrar nos aspectos puramente morais da transação, é interessante
desnudar o mecanismo envolvido nessa ação.
Aceitemos, por hipótese, a idéia de que uma lei seja a
codificação do pensamento e das experiências do conjunto da
sociedade. Aceitemos também a idéia de que, representados por meio
de legisladores democraticamente eleitos, os cidadãos descontentes
com uma lei teriam poder de modificá-la. É evidente que parcela da
população, maior ou menor, poderá não ter força política para alterar a
legislação, tendo que se submeter aos interesses da maioria, mas isso
é do regime democrático. O fato é que a legislação deve, pelo menos
em tese, refletir o estágio atual de uma sociedade e não o contrário,
razão pela qual deve ser acatada (mesmo que questionada) por todos,
porque uma sociedade sem leis é uma sociedade inviável. Voltando à
questão do policial rodoviário, já virou um consenso entre motoristas a
idéia de que alta velocidade flagrada por um grupo de policiais é multa
certa, mas constatada por um policial isolado é situação de
“negociação”. Isso significa que o agente concreto da aplicação da
legislação (o policial) se permite, a seu juízo e por discernimento,
aplicar a multa, exigir uma caixinha, ou liberar o infrator, caso a caso.
Significa, por outro lado, que o “Gerson”, por trás do volante, se permite
romper uma decisão consensual da sociedade em que vive (a lei) e se
colocar à margem e acima dela.
72

Claro que infringir a lei tem inúmeras justificativas: “meu carro é


seguro”, “a estrada estava vazia”, “o acostamento estava subutilizado”,
“minha mulher está com enxaqueca, tem que ser hospitalizada”, “o
cachorro só faz xixi em casa, eu tinha que chegar logo”, são algumas
pérolas que saem da boca de maus motoristas. O grave, porém, não é
o caso em si, mas o atentado que se comete contra a organização
social como um todo: o agente concreto se arroga o direito de legislar,
julgar e executar (os três poderes empalmados), e o infrator se permite
romper, digamos assim, o contrato social do qual ele, afinal de contas, é
signatário.
A corrupção é apenas o aspecto mais evidente desse verdadeiro
distrato social e se apresenta de forma generosa na sociedade.
Exemplos? À vontade. Existe um zoneamento na cidade? Existe. São
proibidos barzinhos noturnos em várias regiões da cidade? São. Para
fechá-los, entretanto, há que se passar por cima de possíveis fiscais
interessados na manutenção de estabelecimentos irregulares, fonte
interminável de “complementação salarial”. Multas pesadas e
fechamento dos irregulares seria matar a vaca leiteira, a galinha dos
ovos de ouro, o que transforma infratores e supostos aplicadores da lei
em aliados contra a lei e a sociedade. Mesmo quando a corrupção não
ocorre, e o fiscal simplesmente decide que “tudo bem, você fica aberto,
mas não faça muito barulho”, temos o caso do agente que se
transforma em legislador, julgador e executor da lei.
O fiscal que atua contra a lei não difere, em essência, do policial
que executa o bandido (num país em que não existe a pena de morte),
que aceita dinheiro para libertá-lo, que se une, informalmente, ao crime,
ou que faz vistas grossas a ações criminosas. Seria um exagero afirmar
que esse tipo execrável exista só no Brasil. O problema é que aqui ele
é tolerado, socialmente respeitado e freqüentemente invejado pelo seu
sucesso material. Temos que abandonar a dupla e falsa moral que nos
transforma em críticos do poder, mas coniventes com aquilo que ele
tem de pior. Toda sociedade necessita de estruturas que dissuadam
atitudes anti-sociais. Elas, porém, nunca funcionarão a contento se
conivência e interesses imediatos não forem substituídos por atitudes
cidadãs.

Fonte: PINSKY, Jaime. Cidadania e educação. 9 ed. São Paulo:


Contexto, 2008, p. 41-43.
73

EDUCAR PARA A CIDADANIA


Carlos Francisco Signorelli

O conceito de cidadania tem um histórico que o ligou, durante mais de


século, à classe burguesa. Afinal, cidadania vem de “cidade”, e cidadão era o
homem que, livre da gleba feudal, habitava a cidade. Assim “cidadão” e “burguês”
eram, a grosso modo, entendidos como conceitos sinônimos. Da mesma maneira,
como cidade era o símbolo de liberdade, em contraposição à servidão feudal, e
como seus habitantes não eram nobres aristocráticos de “sangue azul”, a palavra
chave que exigiam era igualdade. Quando a burguesia assume o poder, na
Revolução Francesa de 1789, as palavras igualdade e liberdade ganham
conteúdo ideológico. E com elas, o conceito de cidadania. Assim, cidadania é um
conceito que adere ao conceito de classe burguesa, não interessando, portanto,
às classes antagônicas a ela. Os conceitos de liberdade e igualdade, no ideário
burguês, só subsistem acoplados à propriedade. Assim, para a burguesia, é a
propriedade que constitui o homem livre, é a propriedade que constitui os iguais
(ou, em contraposição, os que não podem ser tidos e tratados como iguais).
Somente na década de 70 do século XX a intelectualidade e os chamados
intelectuais orgânicos das classes subalternas vão reconstituir o conceito de
cidadania, ampliar sua abrangência e reinterpretar os conceitos burgueses de
liberdade e igualdade. Foi necessária uma reinterpretação para recolocar o
conceito de cidadania como conceito universal e como conceito-base para a
reconstituição da estrutura social e política. Cidadania passou a ser entendida
como o ato de o homem constituir-se como homem entre outros homens e como
homem que, com os outros homens, constrói o mundo humano, material e
simbólico em que subsiste. Ser cidadão é ser sujeito do processo histórico, em
contraposição ao ser objeto, sobre o qual incide a ação do sujeito; é ser agente,
produtor do espaço cultural em que deverá viver. Constituir-se como cidadão é
assumir-se protagonista do processo histórico. Assim sendo, o cidadão desloca
responsabilidades, não deixa parte de si para outrem. Ele luta pelo bairro onde
está, participa politicamente, não aceita perder conquistas já efetuadas, exige
salário digno para aquilo que faz, exige justiça para si e para os outros. No
processo político o cidadão busca construir a democracia participativa, pois sabe
que a democracia representativa é alienante e redutora de seu ser.
Sobre o Homem
Para refletir sobre a educação é necessário conceituar o homem, que no
processo educacional é, ao mesmo tempo, educador e educando, num
acontecimento que poderíamos dizer, com Paulo Freire, dialético. O homem é um
ser inacabado, inconcluso, em construção. Dizemos, retirando o conceito da
matemática, que o homem é um espaço aberto. É um ser finito que teima em não
se aceitar como tal, buscando, pois, a infinitude. Como inacabado, busca
completar-se, num processo ao mesmo tempo infinito e impossível. Por outro lado,
o homem, como dizia Aristóteles, é um ser social, ou, dizemos nós, é um ser-com.
O homem se constrói, constrói o mundo material e simbólico, constrói a verdade
no encontro com o outro. É no rosto do outro, no apelo que este rosto nos faz, na
interiorização que este rosto nos leva a fazer que, em resposta, construímos o
mundo. Nada existe em mim que não seja, queira eu ou não, partilha com o outro.
Sobre a Educação
A partir desta concepção de homem não é difícil que entendamos a
educação como o processo pelo qual o homem se constrói, na sua relação com o
74

outro, com o mundo, e com o saber acumulado de sua espécie, de sua cultura, de
sua localidade.
Mas ainda baseado nesta concepção de homem, o processo educacional
não é um ato de introjeção, ou seja, de preencher algum espaço vazio. Não existe
espaço vazio para ser preenchido, mas uma estrada infinita, com infinitos
entroncamentos e cruzamentos. O outro, o mundo material, o saber acumulado, o
processo educativo, ao contrário de segurar a construção do homem em
parâmetros estabelecidos, abre-se horizontes a partir do saber acumulado, não
lhe dá certezas, a não ser a de que ele precisa se construir. Desta forma, o
homem não é uma tábula rasa, onde se escreve o que se quer, mas um ponto no
infinito, um ponto em expansão. Negar-lhe esta expansão é negar-lhe o ser.
Sobre Educação e Cidadania
Estabelecido, pois, o conceito de cidadania; assumido, então, estes
conceitos de homem e de educação, juntar as partes é simplesmente um
processo de conexão natural. Não existe educação senão para a constituição da
cidadania plena, quer seja do indivíduo, quer seja da coletividade. Só pode haver
processo educacional pleno se os sujeitos desse processo se entendem como
cidadãos, como espaços abertos, inconclusos, inacabados, mas com a irrefreável
tendência ao infinito: finitos loucos pelo infinito. Educador e educando só podem
sê-lo em plenitude quando se entendem cidadãos plenos de direitos e deveres;
quando se confundem na beleza da abertura plena, e não na confusão dos
papéis, educando sendo educador e educador sendo educando.
Educar para a cidadania é nunca permitir que o dado seja aceito sem a
necessária reflexão, sem consciência crítica; educar para a cidadania é ensinar a
nunca permitir ser objeto, mas sim, construtor de seu próprio ser, de sua própria
identidade, do seu próprio mundo; educar para a cidadania é mostrar a presença
do outro, do rosto que apela por relação, do rosto que apela por verdade, justiça,
igualdade e solidariedade; educar para a cidadania é mostrar a vida como dom,
como construção, como tarefa inconclusa mas bela, trabalhosa mas necessária.
Educar para a cidadania é fazer pensar nos últimos minutos quando, antes do
último passo, pudermos olhar para trás e, na areia fofa da vida, vislumbrarmos
nossos rastros ora firmes, ora indecisos, ora trôpegos, mas sinais de nossa
caminhada.

Fonte: pesquisa Google


http://www.sefaz.ce.gov.br/Content/aplicacao/internet/programas_campanhas/educ
arparacidadania.pdf – acesso em 05/05/2008
75

POR UMA ESCOLA DE CIDADÃOS

A escola brasileira depara-se com uma série de desafios que, se forem


devidamente enfrentados, podem colaborar decisivamente para romper a
barreira do subdesenvolvimento e transformar o país que temos no país que
queremos. Se é uma ingenuidade tocante imaginar uma escola todo-poderosa
como fator fundamental de transformações sociais, é de um derrotismo irreal
considerar a educação formal apenas caixa de ressonância acrítica da
sociedade.
Otimizar as verbas da educação; definir uma política educacional
coerente e de longo prazo e mantê-la durante diferentes governos; adequar o
ensino à era da informática; manter os professores atualizados; integrar o
saber universal ao universo regional sem descaracterizar suas especificidades;
manter aceso o interesse do aluno na escola, quando saberes mais
estimulantes entram em sua casa pela televisão: estes e muitos outros são
problemas que cabem ao educador e aos políticos conscientes considerar. Os
problemas são tamanhos que algumas questões são freqüentemente
relegadas a um plano secundário, como se fossem periféricas ou superficiais.
É o caso da cidadania, que só há muito pouco tempo tem merecido alguma
atenção das autoridades responsáveis pelo ensino, especialmente o
elementar.
Afinal, qual é o objetivo da escola senão formar cidadãos? Todos
sabemos que a escola enquadra, ajusta, integra, desestimula atitudes anti-
sociais, ajuda a transformar o educando num ser social. Ao passar valores
específicos de uma região ou de um país, passa também comportamentos e
permite ao aluno acesso ao patrimônio cultural da humanidade. E os direitos e
obrigações da cidadania são partes integrantes desse patrimônio.
A cidadania não é, contudo, uma concepção abstrata, mas uma prática
cotidiana. Ser cidadão não é simplesmente conhecer, mas, sim, viver. Não há
possibilidade de ser cidadão num regime totalitário, como a Alemanha de
Hitler, a Itália de Mussolini ou uma nação latino-americana submetida a
governos militares. Isso significa, contudo, que a democratização formal
transforme, automaticamente, todos os habitantes do país em cidadãos.
Costuma-se dizer que a cidadania, como a liberdade, não pode ser outorgada,
mas, sim, conquistada. Se isso é verdadeiro, não é menos verdadeiro que
cabe a nós, educadores, um papel fundamental no sentido de ampliar o debate
sobre a questão da cidadania e os limites impostos à sua prática. Uma boa
maneira de fazê-lo seria meditarmos um pouco sobre a dificuldade que
encontramos para exercer plenamente a nossa cidadania e sobre as barreiras
que impedem a sua prática. Podemos dizer que muitas das dificuldades têm a
ver com a nossa própria História, com a maneira como a Nação brasileira
surgiu e como ela se articula com o Estado. De fato, em nosso país, o Estado
precedeu a Nação, ao contrário do que ocorreu em outros países. Em 1822,
estabeleceu-se como instituição jurídica o Estado brasileiro sem que houvesse
ainda uma Nação brasileira. Em outras palavras, cria-se uma instituição
jurídica sem a existência da correspondente base social.
Imposto sobre o povo e não criado por ele, o Estado brasileiro não o tem
representado. Isso pode ser percebido até na forma como nos referimos ao
76

nosso governo. Enquanto cidadãos europeus ou norte-americanos se referem


a atitudes de seus governos na primeira pessoa do plural (nós invadimos, nós
erramos etc.), nós falamos do nosso governo na terceira pessoa do plural (eles
invadiram, eles erraram etc.).
Por conta desse divórcio entre governo e sociedade, “eles” não nos
respeitam e “nós” não lhes damos legitimidade. Não nos sentimos
responsáveis pelos atos do governo, portanto não nos consideramos com
obrigações diante das leis. Burlar a lei, sonegar impostos, atravessar sinais
vermelhos, jogar lixo nas ruas, depredar escolas, arrancar páginas de livros
tirados de bibliotecas são atos que creditamos, freqüentemente, a nossa
esperteza e rebeldia, nunca os considerando lesivos à sociedade de cidadãos
da qual nós mesmos fazemos ou devíamos fazer parte. A democracia brasileira
só se consolidará quando todos nós nos percebermos cidadãos, com direitos e
deveres, e não como um bando desarrumado e irresponsável de indivíduos.
Como se vê, o problema da cidadania tem várias facetas. Devemos,
porém, dar atenção especial a uma questão que está presente nas relações
cotidianas de todos nós e que deve ser cuidadosamente tratada na escola,
onde se manifesta com mais freqüência do que gostaríamos de confessar.
Além disso, a escola é um local privilegiado, não só para discuti-la, mas para
iniciar um trabalho de atenuação da sua força. Estamos falando da questão do
preconceito e da discriminação, em suas mais variadas formas.
No passado gostaríamos de dizer que no Brasil não existia preconceito,
éramos uma ilha de tolerância, o brasileiro era cordial por natureza.
Importantes autores chegaram a afirmar que até nossa escravidão foi mais
amena, como se ser escravo pudesse ser algo ameno...
Hoje, não só não temos mais essa ilusão como percebemos que o
monstro da intolerância pode estar mais perto do que imaginávamos...
Identificá-lo, desmistificá-lo, enfrentá-lo com determinação, definir estratégias
para combatê-lo: essas são as metas que temos pela frente.
Raramente admitimos que temos preconceitos ou que discriminamos
alguém. Preconceito, nunca. Temos opiniões bem definidas sobre as coisas.
Preconceito é outro que (m) tem... Mas se prestarmos atenção certamente nos
lembraremos de certas afirmações que já fizemos ou costumamos fazer.
Falamos sobre “as mulheres”, a partir de experiências pontuais; conhecemos
“os políticos” porque o síndico do nosso prédio é um sargento aposentado.
Mas discorremos de maneira especial sobre raças e nacionalidades e, por
extensão, sobre atributos inerentes a pessoas nascidas em determinados
países. O mecanismo funciona mais ou menos assim: estabelecemos uma
expectativa de comportamento coletivo (nacional, regional, racial) a partir de
umas poucas impressões sobre esses grupos e seus componentes, ou mesmo
sem conhecermos pessoalmente nenhum membro do grupo sobre o qual
pontificamos. Enfim, uma noção que formamos a partir de um exemplo ou de
uma informação é transplantada para toda uma categoria.
Há necessidade de se envidar esforços para que as contribuições
daqueles que refletem sobre esses temas, pesquisadores, participantes de
movimentos destinados a defender categorias discriminadas, integrem os
estudos sobre a educação, evasão, repetência, relação professor/aluno,
conteúdos curriculares, livros didáticos, formação de professores.
77

(...)
Há necessidade de que os responsáveis pela elaboração dos currículos
se empenhem para que as diferentes disciplinas estimulem, à luz dos seus
conhecimentos, discussões sobre conceitos como “raça”, etnia, nação,
racismo, preconceito, estereótipo, etnocentrismo, bem como de todos os tipos
de viéses e generalizações que levam a deturpações, concepções errôneas e
levianas de outras culturas, “raças”, etnias, povos e religiões. Para além dos
significados, é importante enfatizar as conseqüências que o uso leviano que
todos nós fazemos desses conceitos no nosso cotidiano pode ter, tanto para
aqueles que são afetados como para aqueles que os utilizam, acabando por
sedimentá-los.
Os autores e editores de livros didáticos, por sua vez, precisam estar
mais atentos para evitar que os textos e as ilustrações discriminem categorias
sociais, seja por omissão, seja por veicularem sobre elas imagens negativas e
estereotipadas.
Esses seriam os primeiros passos. Depois, seria importante criar um
ambiente estimulante e acolhedor, para todas as crianças independentemente
das suas diferenças, sejam elas raciais, culturais, religiosas, físicas; incentivar
e dar oportunidade a todas se manifestarem, de tomarem posição; aproveitar
todas as ocasiões para evidenciar de modo positivo o grupo de origem dos
alunos pertencentes às minorias sociais, seja no relacionamento com os
mesmos, no desenvolvimento da matéria, na postura que adota perante
acontecimentos em que estiveram envolvidos, seja no próprio ambiente
escolar. Nesse sentido, é importante que pessoas de diferentes origens
apareçam nos materiais visuais que enfeitam as salas de aula, tanto em cenas
do cotidiano como em cenas que mostrem a sua participação nos
acontecimentos históricos e a sua contribuição para o nosso desenvolvimento.
Não se pode esquecer que tais providências não vão só beneficiar aqueles que
são discriminados, que são vítimas de preconceitos. Todos se beneficiarão, na
medida em que estarão tomando conhecimento de outras culturas, outras
visões de mundo e, sobretudo, estarão aprendendo uma postura de respeito
ao seu semelhante, mesmo que ele seja diferente ou considerado como tal.

Fonte: PINSKY, Jaime. Cidadania e educação. 9 ed. São Paulo: Contexto,


2008, p. 95-100.
78

PARTICIPAÇÃO DE TODOS

Reivindicar ações culturais e educação de nível num país como o nosso é


sempre perigoso. Haverá sempre quem levante, mais alto a bandeira da luta
contra a fome e a favor da saúde como prioridades inadiáveis e para onde
deverão ser canalizados todos os recursos. Nessa mesma linha, com relação à
educação, durante muito tempo prevaleceu a idéia de que qualquer escola seria
melhor do que nenhuma escola, qualquer professor melhor do que nenhum
professor e qualquer livro melhor do que nenhum livro. Deu no que deu...
A falha não é, apenas, de execução, mas de formulação: a idéia de que, se
é para ser para todo mundo, tem que ser ruim (“qualquer” escola, “qualquer” livro
etc.). Vários países tão ou mais pobres do que o nosso atingiram, em poucos
anos, resultados excelentes após terem feito um investimento importante na
educação. A receita, mais conhecida do que a de pudim de leite condensado,
todo mundo sabe: professores bem-formados, motivados, adequadamente
remunerados e com possibilidades de se reciclarem periodicamente. Bibliotecas
abertas e razoavelmente completas contendo obras acessíveis e atualizadas.
Livro didático de boa qualidade.
Pode-se dizer que custa caro formar um bom professor. Errado. Um mau
professor é que sai caro, por ser ineficiente e ineficaz. Um mau professor ajuda a
provocar a repetência (embora, às vezes, não seja culpa sua, mas dos que
aprovaram, indevidamente, os alunos em séries anteriores). Um mau professor
não segura o aluno na escola; não prepara alunos para a vida profissional. É
curioso que nos obriguem a usar cinto de segurança (mesmo sabendo que ao
não usá-lo atentamos apenas contra nossa própria vida), sob o argumento de
que o custo hospitalar de nossa internação será pago por toda a sociedade, e
convivamos com professores malformados mesmo sabendo que sua ação será
deletéria contra todos os que estiverem em sua área de ação. Não há
necessidade de se fazer cálculos profundos para se chegar à conclusão de que
um bom professor, decentemente pago, sai mais barato.
Outro sofisma que tem sido veiculado pela imprensa diz respeito à baixa
qualidade do livro didático existente no Brasil. Longe de mim defender certas
obras que não passam de colagens mal costuradas de autores inexistentes. A
CBL tem dado prêmios a livros que passaram pelo crivo de exigentes comissões
julgadoras – e isso não tem constituído notícia para a imprensa. De resto, o
professor tem o direito de escolher, em cada escola, o livro que julgar mais
adequado aos seus alunos. Se especialistas julgam que o professor não fez uma
escolha adequada, não seria mais razoável colocar a seu alcance obras de apoio
que lhe permitissem fazer escolhas melhores (na ótica dos especialistas) do que
achar que o livro didático é culpado?
De uma forma ou de outra, o importante é saber que a educação não pode
ser um projeto do governo. Ou de uma meia dúzia de iluminados. Tem que ser
um projeto do e para todo o Brasil. Exige a participação de todos.

Fonte: PINSKY, Jaime. Cidadania e educação. 9 ed. São Paulo: Contexto,


2008, p. 110-111.
79

A construção da cidadania e de relações democráticas no cotidiano escolar


Ulisses F. Araújo

Um dos objetivos centrais da educação deve ser o de promover a construção


de personalidades morais autônomas, críticas, que almejem o exercício competente
da cidadania, embasada nos princípios democráticos da justiça, da igualdade, da
equidade e da participação ativa de todos os membros da sociedade na vida pública
e política.
Será que a escola que hoje conhecemos permite, de fato, que tais objetivos
sejam alcançados? Os projetos pedagógicos da grande maioria das escolas,
públicas e privadas, explicitam que almejam levar seus alunos e suas alunas a
compreensão dos princípios democráticos que devem reger a sociedade e à
construção da cidadania, mas nos parece que suas práticas não são coerentes com
os objetivos propostos. Na realidade concreta das escolas e das salas de aula o que
vemos é uma preocupação quase que exclusiva com a transmissão de alguns dos
conteúdos científicos acumulados pelas diferentes culturas e pela humanidade. A
preocupação dos currículos é com o ensino da língua, das matemáticas, das
ciências, da natureza sócio-política-econômica da humanidade e das artes. Em
outras palavras, o que se privilegia é o desenvolvimento da dimensão cognitiva das
pessoas, a partir de conteúdos muitas vezes descontextualizados e dissociados da
realidade e dos interesses da maioria dos educandos, negligenciando outras
dimensões constitutivas do ser humano e suas necessidades básicas. Nos parece
que este modelo de escola não conseguirá atingir os objetivos de construção da
cidadania e da democracia social.
ESCOLA E DEMOCRACIA
Se a origem e uso do termo democracia tradicionalmente refere-se à "forma
de governo", ou a "governo da maioria", será que uma escola democrática é aquela
em que sua forma de organização está pautada no princípio de que deve ser
governada pelos interesses da maioria, que são os alunos e as alunas?
Puig, em um primeiro momento de seu livro Democracia e participação
escolar (2000), nos lembra que, embora o termo democracia seja útil para definir um
modelo desejável de relações políticas na sociedade, ele não necessariamente é
adequado para caracterizar instituições como a família, a escola e os hospitais.
Isto porque tais instituições sociais são constituídas por agentes que possuem
interesses e responsabilidades diferentes. De acordo com ele:

"Essas instituições foram pensadas para satisfazer algumas necessidades


humanas que, de maneira inevitável, implicam a ação de sujeitos com
capacidades, papéis e responsabilidades muito diferentes. São alheios à idéia
de participação igualitária. Os pais e as mães têm um papel assimétrico com
respeito aos filhos e às filhas, da mesma maneira que os professores e as
professoras o têm com respeito aos seus alunos e às suas alunas...”.

Assim, além de considerar o papel da igualdade entre todos os seres


humanos na construção de relações democráticas, é necessário trazer um outro
princípio para compreendermos a justiça e a democracia: a equidade, que
reconhece o princípio da diferença dentro da igualdade. Ou seja, se pensamos a
democracia somente a partir do ideal de igualdade, acabamos por destruir a
liberdade. Se todos forem concebidos como iguais, onde ficará o direito democrático
da diferença, a possibilidade de se pensar de maneira diferente e de ser diferente?
Para que o modelo de democracia seja justo e almeje a liberdade individual e
80

coletiva é necessário que a igualdade e a equidade sejam compreendidas como


complementares. Ao mesmo tempo que a igualdade de direitos e deveres deve ser
objetivada nas instituições sociais, não deve-se perder de vista o direito e o respeito
a diversidade, ao pensamento divergente.
Voltando a escola, esta concepção de que a democracia e a justiça
pressupõe a igualdade e a equidade nos ajuda a compreender como a democracia
pode ser concebida no âmbito educacional. Ou seja, parte-se, em primeiro lugar, da
assimetria dos papéis de estudantes e docentes entendendo sua diferenciação
natural a partir do princípio da equidade. Isso, porém, não quer dizer que em alguns
aspectos ambos os coletivos não sejam iguais perante a sociedade, tendo os
mesmos direitos e deveres de todos os seres humanos. Esta é uma relação
complexa que solicita um raciocínio dialético para sua compreensão.
Aos professores e as professoras são destinados papéis diferenciados dentro
da instituição escolar, devido a seus conhecimentos e sua experiência. A sociedade
lhes atribui responsabilidades e deveres que lhes permitem, inclusive, avaliar alunos
e alunas e utilizar da autoridade da função para exigir o cumprimento das regras e
normas sociais. Por outro lado, tais poderes não lhes garante o direito de agir de
maneira injusta, desconsiderando, por exemplo, os direitos relativos a cidadania de
seus alunos e suas alunas.
Nesse sentido, se queremos falar de democracia na escola, devemos, ao
mesmo tempo, reconhecer a diferença nos papéis sociais e nos deveres e buscar
aqueles aspectos em que todos os membros da comunidade escolar têm os
mesmos direitos. Estou falando, por exemplo, do direito ao diálogo, a livre expressão
de seus sentimentos e idéias, ao tratamento respeitoso, a dignidade, etc. Tanto nas
escolas quanto nos hospitais e nas famílias. Estou me referindo, afinal, a igualdade
de direitos que configura a cidadania.
Retomando as idéias de Puig (2000), embora exista uma assimetria natural
nas relações adulto-criança na escola, compete às escolas conseguir um bom
equilíbrio entre a assimetria funcional e a simetria democrática. Seu papel, neste
sentido, é preparar os estudantes para a convivência democrática da sociedade
adulta, propiciando práticas pedagógicas que respeitem os princípios e valores da
democracia e por meio da participação ativa de toda a comunidade escolar nas
decisões relativas ao trabalho, aos conteúdos e à convivência coletiva. Desta
maneira, embora a assimetria e uma certa hierarquia nas relações dentro da escola
devam ser preservadas, pela responsabilidade inerente às funções de ensino e
administração, é possível a democracia ser construída e trabalhada a partir da
participação das pessoas nos processos decisórios possíveis de serem
compartilhados. É assim que alunos e alunas, professores e professoras, poderão
compreender durante o processo educativo, na prática e não somente na teoria, os
princípios que regulam o exercício da cidadania em uma sociedade democrática.
PROMOVENDO A CONSTRUÇÃO DA DEMOCRACIA E DA CIDADANIA NA
ESCOLA
Uma escola democrática e participativa possui um papel mais amplo na tarefa
educativa do que aquele que normalmente é desenvolvido na maioria das
instituições. Considero que para se atingir esses objetivos necessitamos promover
uma reorganização dos espaços, dos tempos, dos conteúdos e das relações
interpessoais hoje existentes dentro das instituições escolares.
Assim, pensar na construção de escolas democráticas que almejem a
construção de valores de democracia e de cidadania e a construção de
personalidades morais autônomas nos leva a buscar compreender alguns dos
81

diversos fatores que interferem neste processo e a buscar formas mais realistas de
reorganização do trabalho escolar. Nos leva a almejar uma escola diferente daquela
que conhecemos, criada no Século XIX para atender a uma pequena parcela da
população.
Vejamos, a seguir, alguns aspectos que precisam ser enfrentados no
cotidiano das escolas, visando a superação dos obstáculos à democratização e a
construção de valores de cidadania.
OS CONTEÚDOS ESCOLARES:
Propostas de contextualizar na realidade dos estudantes os conteúdos
escolares e de trabalhar outros como a ética, a sexualidade, os sentimentos, etc.,
vêm sendo implementadas em muitos lugares e estão presentes, inclusive, nos
pressupostos das recentes reformas dos referenciais curriculares do sistema de
ensino brasileiro. As mudanças, porém, têm sido muito lentas.
Entendo que uma escola que almeje a democracia e a formação de sujeitos
éticos competentes para o exercício da cidadania precisa ter coragem e desejo
político de reorganizar sua estrutura curricular.
Uma das formas propostas de reorganização da escola, sem abrir mão dos
conteúdos curriculares tradicionais, é por meio da inserção transversal na estrutura
curricular de temas como: saúde, ética, meio ambiente, o respeito às diferenças, os
direitos do consumidor, as relações capital-trabalho, a igualdade de oportunidades,
as drogas e a educação de sentimentos. Essa incorporação não se dá por meio de
novas disciplinas, mas com novos conteúdos que devem ser trabalhados de maneira
interdisciplinar e transversal aos conteúdos tradicionais.
Dessa maneira, não se abre mão de conteúdos como a matemática, a língua
portuguesa, as ciências e as artes, mas tais conteúdos deixam de ser vistos como a
"finalidade" da educação e passam a ser encarados como "meio" para se alcançar
sua real finalidade: a construção da cidadania e de personalidades morais
autônomas e críticas.
A METODOLOGIA DAS AULAS:
Por outro lado, de que adianta reorganizar os conteúdos escolares sem
efetuar mudanças na própria lógica de organização do ensino? De que adianta
inserir conteúdos de ética ou sobre sentimentos na escola, por exemplo, se ela
seguir presa a um modelo transmissivo e autoritário de conhecimento? Será que
aulas em que o sujeito da aprendizagem, alunos e alunas, exercem um papel
passivo diante dos conteúdos que lhes são transmitidos, formará o cidadão e a
cidadã competentes? As respostas, mais uma vez, são negativas, de que não se
constrói a cidadania a partir de relações autoritárias e com base em metodologias de
mera transmissão e reprodução do conhecimento.
Essa construção pressupõe um sujeito ativo, que participa de maneira intensa
e reflexiva das aulas. Um sujeito que constrói sua inteligência e sua personalidade
através do diálogo estabelecido com seus pares e com os professores, na própria
realidade cotidiana do mundo em que vive.
Desta maneira, relacionado à reestruturação curricular, um projeto educativo
que almeje a construção da democracia e da cidadania deve prever maneiras de se
trabalhar o conhecimento privilegiando o desenvolvimento da competência dialógica
e reflexiva dos educandos.
OS VALORES DOS MEMBROS DA COMUNIDADE ESCOLAR:
Parto do princípio de que os valores morais não são nem ensinados e nem
nascem com as pessoas. Eles são construídos na experiência significativa que o
sujeito estabelece com o mundo. Essa construção depende diretamente dos valores
82

implícitos nos conteúdos com que o sujeito interage no dia a dia, e da qualidade das
relações interpessoais estabelecidas entre o sujeito e a fonte dos valores.
Entendo que a escola, consciente de seu papel formativo e instrutivo, não
pode trabalhar com qualquer valor. Se almeja a educação para a cidadania sua
responsabilidade encontra-se em propiciar a oportunidade para que seus alunos e
alunas interajam reflexivamente sobre valores e virtudes vinculados a justiça, ao
altruísmo, a cidadania e a busca virtuosa da felicidade.
E quais seriam estes valores a serem trabalhados nas escolas? A premissa
que utilizamos é a da existência de alguns valores definidos como valores
universalmente desejáveis. Vivemos hoje numa cultura que almeja a democracia, ou
seja, uma ordem social pautada em valores como a justiça, a igualdade, a eqüidade
e a participação coletiva na vida pública e política de todos os membros da
sociedade, e estes são os valores basais da Declaração Universal dos Direitos
Humanos (1948). Dessa maneira, os princípios presentes na referida Declaração
devem ser guias de referência para a elaboração de projetos educativos que
objetivem a educação para a cidadania e para a construção de personalidades
morais autônomas.
AS RELAÇÕES INTERPESSOAIS:
A construção da cidadania pressupõe a instrumentalização das pessoas para
a participação motivada e competente na vida política e pública da sociedade. Ao
mesmo tempo, essa formação deve visar o desenvolvimento de competências para
lidar com a diversidade e o conflito de idéias, com as influências da cultura e com os
sentimentos e emoções presentes nas relações do sujeito consigo mesmo e com o
mundo à sua volta. Necessitamos de uma escola cujas relações entre seus
membros se assente sobre outras bases: a democracia e o respeito mútuo.
A impressão que tenho é que boa parte dos problemas disciplinares que as
escolas vêm enfrentando ultimamente decorrem do fato de que as relações ali
estabelecidas, contrariando a visão da maioria dos docentes, não é de respeito e,
sim, de obediência. À medida que a sociedade se democratiza e que os
instrumentos autoritários colocados por ela à serviço da escola vão sendo
eliminados, as relações de obediência transparecem, porque não estão, de fato,
baseadas no respeito e os sujeitos não se sentem mais obrigados a cumprir as
regras.
O outro eixo que apontamos é o da democratização das relações
interpessoais. Uma forma de operacionalizar o espaço para a participação efetiva
de alunos e professores nesse processo de democratização das relações e na
construção das regras é por meio das "assembléias de classe".
De acordo com Puig (2000) e Araújo (2004), as assembléias são o momento
institucional da palavra e do diálogo. O momento em que o coletivo se reúne para
refletir, para tomar consciência de si mesmo e para transformar tudo aquilo que os
seus membros consideram oportuno. É um momento organizado para que alunos e
alunas professores e professoras possam falar de tudo que lhes pareça pertinente
para melhorar o trabalho e a convivência escolar.
A GESTÃO ESCOLAR:
Uma escola gerida de maneira autoritária não contribuirá para a formação de
personalidades morais e para a construção do cidadão e da cidadã que acreditam
plenamente na democracia.
De que maneira promover um ambiente escolar não autoritário?
Retomamos aqui o conceito de assembléia. Um dos caminhos que
visualizamos passa pela instituição das assembléias em dois níveis distintos: o
83

primeiro é o de assembléia escolar, com a participação representativa de direção,


docentes, estudantes e funcionários; o segundo é o de assembléia docente, com a
participação de todos os professores e professoras e da direção da escola.
A responsabilidade da assembléia escolar é regular e regulamentar as
relações interpessoais e a convivência no âmbito dos espaços coletivos. A
responsabilidade da assembléia docente é regular e regulamentar temáticas
relacionadas: ao convívio entre docentes e entre esses e a direção; o projeto
político-pedagógico da instituição; a conteúdos que envolvam a vida funcional e
administrativa da escola.
Com isso, atinge-se a dupla finalidade de promover a participação das
pessoas nos espaços de tomada de decisão e de democratizar a convivência
coletiva e as relações interpessoais. Uma escola que consegue promover a
participação de toda a comunidade nos processos decisórios, por meio dos diversos
tipos de assembléia que aqui discutimos, seguramente estará caminhando para sua
democratização efetiva. Penso que a implementação de tais procedimentos
promoverá a mudança nas relações de poder e a conseqüente construção da
cidadania.
CONCLUINDO…
Concluindo este pequeno texto, a partir dos procedimentos educativos aqui
citados e os princípios abordados, entendo que a educação democrática para a
cidadania deve promover o desenvolvimento das competências necessárias para a
participação efetiva das pessoas na vida pública e política, tendo como objetivo a
construção de personalidades morais que busquem de forma consciente e virtuosa
a felicidade e o Bem, pessoal e coletivo. Para isso, dentre inúmeras outras coisas,
ela deve visar o desenvolvimento de competências para lidar com a diversidade e o
conflito de idéias, com as influências da cultura e com os sentimentos e emoções
presentes nas relações do sujeito consigo mesmo e com o mundo à sua volta. Por
fim, entendo que tais processos passam pela busca por sensibilizar os professores e
professoras sobre a importância de construção de uma escola pública democrática,
justa, não discriminatória e que garanta qualidade para todos os alunos e alunas.
Esse é um pressuposto de ética docente e social que deve pautar todos os
processos educativos no cotidiano de nossas escolas.

www.redhbrasil.net/documentos/bilbioteca_on_line/modulo4/mod_4_ulisses.pdf –
capturado em 12/05/2009.
84

VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO

Você vive isolado do mundo e das pessoas, fazendo o que quer, na hora em
que bem entende? Provavelmente não. Mesmo sem perceber, você já sabe o que é
cidadania: todo mundo que vive em sociedade tem deveres para cumprir e direitos
para serem respeitados.
Cidadania é justamente essa relação de respeito com o meio em que a gente
vive e as pessoas que fazem parte dela. Os deveres existem para organizar a vida
em comunidade. Em casa, na escola, na rua, no shopping – em qualquer lugar a
gente vai encontrar regrinhas, o que pode ser feito e o que não pode. As vezes você
perde a paciência com tudo isso... Mas, se não fosse desse jeito, a convivência
ficaria impossível.
Os direitos existem para que cada um de nós tenha uma vida digna e
decente, ainda que nem sempre eles sejam respeitados. Como cidadão, todo ser
humano já nasce com uma série de direitos: direito à vida, ao trabalho, à liberdade.
Também as crianças têm direitos só para elas, assim como os consumidores, e até
mesmo os animais. Ser cidadão também é bater o pé para que os direitos não sejam
só leis no papel.
Mas cidadania não é só esse monte de definições bonitas... Sabe por quê?
Ser cidadão é também sair da toca e participar da vida da comunidade. Você
pode achar que esse papo não tem nada a ver, com o seu dia-a-dia... mas tem sim!
Cada vez que você agir pensando não só em si mesmo, mas também no
bem-estar de todos, estará exercendo a cidadania. Porque cidadania não é só
direitos e deveres, mas também a consciência de que devemos nos esforçar para
construir um mundo melhor, mesmo com pequenas ações.
Toda vez que você jogar o lixo no lixo, fechar a torneira para não desperdiçar
água, respeitar quem é diferente de você, ajudar quem precisa – seja auxiliando
uma pessoa idosa a atravessar a rua ou doando roupas e brinquedos que você não
usa mais – praticar atos que protejam o meio ambiente, você estará contribuindo
para um mundo melhor. E fazendo parte dessa coisa tão importante chamada
cidadania.
Cada pequena ação que realizamos transforma nossas vidas e as vidas de
outras pessoas.
Para ser um bom cidadão basta perceber que não estamos sozinhos:
vivemos em comunidade, seja em casa, na escola, na nossa cidade, no nosso país
e no planeta Terra.

Modificado
Fonte: http://www.canalkids.com.br/cidadania/genteboa/imagens/cidadania2.gif –
acesso em 03/08/2008.
85

O QUE É AUTO-ESTIMA?
Sandra Marilize Mainardi

Auto-estima é a capacidade de sentirmos a vida, estando de bem com ela.


É : a confiança em nosso modo de pensar e enfrentar os problemas e o direito de
ser feliz, precisamos ter a sensação de que somos merecedores de nossas
necessidades, desejos e desfrutar os resultados de nossos esforços.
É preciso ter autoconhecimento e autoconfiança.
Se um indivíduo se sente inseguro para enfrentar os problemas da vida, se
não tem autoconfiança e confiança em suas próprias idéias, veremos nele uma
auto-estima baixa. Ou, então, se falta ao indivíduo respeito por si mesmo, se ele
se desvaloriza e não se sente merecedor de amor e respeito por parte dos
outros, se acha que não tem direito à felicidade, se tem medo de expor suas
idéias, vontades e necessidades, novamente veremos uma auto-estima baixa,
não importa que outros atributos positivos ele venha a exibir.
Muitas vezes a auto-estima é confundida com egoísmo. Egoísta é aquela
pessoa que quer o melhor, e quase sempre no sentido material, somente para si,
não importando os outros. Quem possui uma auto-estima elevada, tem como
conseqüência amor e estima aos outros. Ela quer o melhor para si, e para os
outros também.
A auto-estima fortalece, dá energia e motivação.
Quanto maior a nossa auto-estima, mais queremos crescer, não
necessariamente no sentido profissional e financeiro, mas dentro daquilo que
esperamos viver durante nossa vida... Como o emocional, criativo e espiritual.
Quanto mais baixa nossa auto-estima, menos desejamos fazer e é provável que
menos possamos realizar.
A pessoa com auto-estima saudável não se envergonha de dizer, “Eu estava
errado”.
É mais provável encontrarmos simpatia e compaixão, em pessoas com auto-
estima elevada do que nas de baixa auto-estima; meu relacionamento com os
outros tende a espelhar e refletir meu relacionamento comigo mesmo.
Algumas práticas para se construir uma auto-estima elevada:
1. A prática de viver conscientemente. Participar intensamente daquilo que
fazemos enquanto o fazemos, buscar e estar totalmente aberto a qualquer
informação, conhecimento que afirme nossos interesses, valores, metas e
planos.
2. A prática da auto-aceitação. Conseguir ouvir críticas ou idéias diferentes sem
nos tornarmos hostis ou competitivos.
3. A prática do senso de responsabilidade. Cada um de nós é responsável
pela própria vida, pelo próprio bem-estar; que, se precisamos de cooperação de
outras pessoas para atingir nossos objetivos, devemos oferecer algo em troca; e
que a pergunta não é “De quem é a culpa?”, mas sempre “O que precisa ser
feito?”
4. A prática da auto-afirmação. Respeitar os próprios valores e as outras
pessoas.
5. A prática de viver objetivamente. Estabelecer nossos objetivos ou planos de
curto e longo prazo.
6. A prática da integridade pessoal. É dizer a verdade, honrar nossos
compromissos e servir de exemplo dos valores que declaramos admirar, é tratar
86

os outros de maneira justa.


7. Harmonize seu lar. Abra portas e janelas e comece uma limpeza. Faça isso
em todas as dependências da casa ou escritório. Lembre-se, só fica o
necessário!
8. Coma bem. Respeite os momentos das refeições. Evite falar sobre problemas.
Acalme-se.
9. Preste atenção em você. Perceba os seus pensamentos os negativos e os
positivos. Você não é os seus pensamentos, mas eles têm uma enorme força
sobre a sua vida. Se você tem mais pensamentos negativos, isto demonstra que
você é uma pessoa negativa. Você pode mudar a sua vida, mudando a qualidade
de seus pensamentos. Cultivando os positivos e os elevados. Quando o
pensamento negativo lhe assaltar a mente, repita por sete vezes: “este
pensamento não tem força sobre mim”. Com o tempo você perceberá que no
jardim existem rosas e espinhos e que a felicidade é um presente para quem
observa as rosas e a tristeza os espinhos.
10. Tenha objetivos. Materiais e espirituais. O verdadeiro Bem-Estar só é
alcançado por meio dos objetivos espirituais. Procure se tornar uma pessoa mais
paciente, bondosa, serena, confiável e amiga, além de humilde, aberta, sincera e
simples e, principalmente, uma pessoa que tenha fé e confiança na vida.
11. Faça exercícios. Escolha um exercício que lhe agrade, caminhar, dançar e
nadar são os mais recomendados. O mais difícil é tomar a decisão de começar.
12. Utilize seus talentos. Todos têm dons e talentos. Descubra quais são eles e
comece a colocar em prática.
13. Medite, medite e medite. Além de terapêutica é a melhor ferramenta para o
crescimento pessoal e espiritual. Cada um deve praticar da maneira que se sentir
melhor. Procure um livro, um curso ou um mestre, pois vai fazer você encontrar a
pessoa mais importante do mundo: você mesmo.
14. Aceite a vida. Pare já de reclamar. Volte sua mente para o que a vida oferece
de bom. Ajude ao próximo, seja uma pessoa sincera, alegre e procure trabalhar
com amor. Aceite sua casa e seus bens. Aceite as pessoas como elas são e,
principalmente, se aceite como você é, seu corpo, sua personalidade. Mas
aceitar não significa se acomodar com os problemas e dificuldades da vida.
Devemos buscar a força para mudar o que podemos mudar, e a aceitação para o
que não se pode ser diferente.
15. Visite a natureza. Pelo menos uma vez por mês, faça uma visita à mãe
natureza. Pisar descalço na terra descarrega as energias negativas. E não se
esqueça, você é parte da natureza e deve estar em harmonia com ela se quiser
manter ou recuperar a qualidade de sua vida.
16. Converse com Deus. Deus está ao seu redor e, principalmente, dentro do
seu coração. A melhor forma? Fica a seu critério, o importante é desejar que isso
aconteça.

Fonte:
http://www.ilv.com.br/notícias/2004/11novembro/portal/autoestima/oquee.html –
acesso em 15/05/2008.
87

INCLUSÃO SOCIAL: POR QUÊ?


Maria Teresa Eglér

A escola brasileira é marcada pelo fracasso e pela evasão de uma parte significativa dos
seus alunos, que são marginalizados pelo insucesso, por privações constantes e pela baixa
auto-estima resultante da exclusão escolar e da social – alunos que são vítimas de seus pais,
de seus professores e, sobretudo, das condições de pobreza em que vivem, em todos os seus
sentidos. Esses alunos são sobejamente conhecidos das escolas, pois repetem as suas séries
várias vezes, são expulsos, evadem e ainda são rotulados como malnascido e com hábitos que
fogem ao protótipo da educação formal.
As soluções sugeridas para se reverter esse quadro parecem reprisar as mesmas
medidas que o criaram. Em outras palavras, pretende-se resolver a situação a partir de ações
que não recorrem a outros meios, que não buscam novas saídas e que não vão a fundo nas
causas geradoras do fracasso escolar. Esse fracasso continua sendo do aluno, pois a escola
reluta em admiti-lo como sendo seu.
A inclusão total e irrestrita é uma oportunidade que temos para reverter a situação da
maioria de nossas escolas. As quais atribuem aos alunos as deficiências que são do próprio
ensino ministrado por elas – sempre se avalia o que o aluno aprendeu, o que ele não sabe,
mas raramente se analisa “o que” e “como” a escola ensina, de modo que os alunos não sejam
penalizados pela repetência, evasão, discriminação, exclusão, enfim.
Estou convicta de que todos nós, professores, sabemos que é preciso expulsar a
exclusão de nossas escolas e mesmo de fora delas e que os desafios são necessários, a fim de
que possamos avançar, progredir, evoluir em nossos empreendimentos. É fácil receber “os
alunos que aprendem apesar da escola” e é mais fácil ainda encaminhar, para as classes e
escolas especiais, os que têm dificuldades de aprendizagem e, sendo ou não deficientes, para
os programas de reforço e aceleração. Por meio dessas válvulas de escape, continuamos a
discriminar os alunos que não damos conta de ensinar. Estamos habituados a repassar nossos
problemas para outros colegas, os “especializados” e, assim, não recai sobre nossos ombros o
peso de nossas limitações profissionais.
(...)
A questão da identidade X diferença
Embora a inclusão seja uma prática recente e ainda incipiente nas nossas escolas, para
que possamos entendê-la com maior rigor e precisão, considero-a suficiente para questionar
que ética ilumina as nossas ações na direção de uma escola para todos. Ou, mais
precisamente: as propostas e políticas educacionais que proclamam a inclusão estão realmente
considerando as diferenças na escola, ou seja, alunos com deficiências e todos os demais
excluídos e que são as sementes da sua transformação? Essas propostas reconhecem e
valorizam as diferenças como condição para que haja avanço, mudanças, desenvolvimento e
aperfeiçoamento da educação escolar?
Ao avaliarmos propostas de ação educacional que visão à inclusão, encontramos
habitualmente, nas orientações, dessas ações, dimensões éticas conservadoras. Essas
orientações, no geral, expressam-se pela tolerância e pelo respeito ao outro, que são
sentimentos que precisamos analisar com mais cuidado, para entender o que podem esconder
em suas entranhas.
A tolerância, como um sentimento aparentemente generoso, pode marcar uma certa
superioridade de quem tolera. O respeito, como conceito, implica um certo essencialismo, uma
generalização, que vem da compreensão de que as diferenças são fixas, definitivamente
estabelecidas, de tal modo que só nos resta respeitá-las.
Nessas orientações, entendem-se as deficiências como “fixadas” no indivíduo, como se
fossem marcas indeléveis, as quais só nos cabe aceitá-las, passivamente, pois pensa-se que
nada poderá evoluir, além do previsto no quadro geral das suas especificalçoes estáticas: os
níveis de comprometimento, as categorias educacionais, os quocientes de inteligência, as
predisposições para o trabalho e outras tantas mais.
Consoante esses pressupostos é que criamos espaços educacionais protegidos, à parte,
restritos a determinadas pessoas, ou seja, àquelas que eufemisticamente denominamos
Portadoras de Necessidades Educacionais Especiais (PNEE).
88

A diferença, nesses espaços, “é o que o outro é” - ele é branco, ele é religioso, ele é
deficiente, como nos afirma Silva (2000), é o que está sempre no outro, que está separado de
nós para ser protegido ou para nos protegermos dele. Em ambos os casos, somos impedidos
de realizar e de conhecer a riqueza da experiência da diversidade e da inclusão. A identidade “é
o que se é”, como afirma o mesmo autor – sou brasileiro, sou negro, sou estudante...
A ética, em sua dimensão crítica e transformadora, é que referenda nossa luta pela
inclusão escolar. A posição é oposta à conservadora, porque entende que as diferenças estão
sendo constantemente feitas e refeitas, já que vão diferindo, infinitamente. Elas são produzidas
e não podem ser naturalizadas, como pensamos, habitualmente. Essa produção merece ser
compreendida, e não apenas respeitada e tolerada.
Nossas ações educativas têm como eixos o convívio com as diferenças e a
aprendizagem como experiência relacional, participativa, que produz sentido para o aluno, pois
contempla sua subjetividade, embora construída no coletivo das salas de aula.
É certo que as relações de poder presidem a produção das diferenças na escola, mas a
partir de uma lógica que não mais se baseia na igualdade como categoria assegurada por
princípios liberais, inventada e decretada, a priori, e que trata a realidade escolar com a ilusão
da homogeneidade, promovendo e justificando a fragmentação do ensino em disciplinas,
modalidades de ensino regular o especial, seriações, classificações, hierarquia de
conhecimentos.
Por tudo isso, a inclusão é produto de uma educação plural, democrática e transgressora.
Ela provoca uma crise escolar, ou melhor, uma crise de identidade institucional, que, por sua
vez, abala a identidade dos professores e faz com que seja ressignificada a identidade do
aluno. O aluno da escola inclusiva é outro sujeito, que não tem uma identidade fixada em
modelos ideais, permanentes, essenciais.
O direito à diferença nas escolas desconstrói, portanto, o sistema anual de significação
escolar excludente, normativo, elitista, com suas medidas e seus mecanismos de produção da
identidade e da diferença.
Se a igualdade é referência, podemos inventar o que quisermos para agrupar e rotular
os alunos como PNEE, como deficientes,. Mas se a diferença é tomada como parâmetro, não
fixamos mais a igualdade como norma e fazemos cair toda uma hierarquia das igualdades e
diferenças que sustentam a “normalização”. Esse processo – a normalização – pelo qual a
educação especial tem proclamado o seu poder propõe sutilmente, com base em
características devidamente selecionadas como positivas, a eleição arbitrária de sua identidade
“normal” como um padrão de hierarquização e de avaliação de alunos, de pessoas. Contrariar a
perspectiva de uma escola que se pauta pela igualdade de oportunidades é fazer a diferença,
reconhecê-la e valorizá-la.
Temos, então, de reconhecer as diferentes culturas, a pluralidade das manifestações
intelectuais, sociais e afetivas; enfim, precisamos construir uma nova ética escolar, que advém
de uma consciência ao mesmo tempo individual, social e, por que não, planetária.
No desejo da homogeneidade, que tem muito em comum com a democracia de massas,
destruíram-se muitas diferenças que nós hoje consideramos valiosas e importantes,
Ao nos referirmos, hoje, a uma cltura global e à globalização, parece contraditória a luta
de grupos minoritários por uma política identitária, pelo reconhecimento de suas raízes (como
fazem os surdos, os deficientes, os hispânicos, os negros, as mulheres, os homossexuais). Há,
pois, um sentimento de busca de raízes e de afirmação das diferenças. Devido a isso, contesta-
se hoje a modernidade nessa aversão pela diferença.
Nem todas as diferenças necessariamente inferiorizam as pessoas. Há diferenças e há
igualdades – nem tudo deve ser igual, assim como nem tudo deve ser diferente. Então, como
conclui Santos (1995), é preciso que tenhamos o direito de sermos diferentes quando a
igualdade nos descaracteriza e o direito de sermos iguais quando a diferença nos inferioriza.

PROGRAMA ÉTICA E CIDADANIA: Construindo valores na escola e na sociedade: inclusão e


exclusão social. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2007. 4 v.,
p. 14-16.
89

VIOLÊNCIA QUE ROLA

Desde cedo aprendemos na escola que entre as principais características do


brasileiro está a cordialidade. Muitos estrangeiros que visitam o Brasil confirmam
esta impressão. Talvez seja verdade que o brasileiro tem uma doçura a mais, mas
certamente essa não é toda a verdade.
Como explicar que o Brasil, com toda essa cordialidade, seja um dos países
mais violentos do mundo, com mais de 45 mil homicídios nos últimos anos? E esse
número não inclui as milhares de mortes no trânsito, ou por acidentes de trabalho,
nem outras formas de violência que marcam nosso cotidiano
Se prestarmos atenção e observarmos com um olhar crítico, veremos que
todos os dias somos vítimas de alguma forma de violência – ou mesmo cometemos
alguma -, ainda que não seja física.
Humilhação, falta de respeito e arbitrariedade costumam atingir justamente
aqueles que se encontram em posição de maior vulnerabilidade. Certamente isto
explica por que um grande número de crianças tem sido vítima de inúmeras
agressões todos os dias, violências que vão do homicídio ao destrato, passando
pelo trabalho e pela prostituição infantil; ou por que a maioria dos homicídios se
concentra nas regiões mais pobres das grandes cidades, nas quais há em geral
menor número de escolas, menos ruas asfaltadas, iluminação pública precária e,
inclusive, menos polícia.
A violência, no entanto, não afeta apenas os mais frágeis; ela se encontra
presente em quase todas as relações. São patrões que humilham seus
empregados, maridos e mulheres que se agridem mutuamente e, muitas vezes,
maltratam seus filhos, irmãos e amigos que se desrespeitam. A violência também
permeia as relações no trânsito, na escola e na vizinhança.
Talvez quem tenha melhor explicado esse paradoxo de nos vermos como um
povo cordial e ao mesmo tempo termos uma imensa dificuldade em respeitar o
outro tenha sido Sérgio Buarque de Holanda.
Cordial é aquilo que vem do coração. Assim, o povo cordial privilegia os que
ama e trata de forma arbitrária e violenta os que odeia. Na cordialidade não há
espaço para agir racionalmente e em conformidade com as leis, nem respeitar o
outro como igual.
Por isso, antes de nos deixarmos levar pela emoção e muitas vezes agredir,
humilhar e maltratar as pessoas, é fundamental parar, respirar e pensar que a outra
pessoa é digna do mesmo respeito que também exigimos para nós.
A violência só gera violência; está em poder de cada um buscar reduzir esse
círculo perverso que, mais tempo, menos tempo, a todos atinge.

Fonte: Caderno da TV ESCOLA. Direitos Humanos. 1999, p. 21-22


90

TRABALHO INFANTIL

O trabalho realizado por crianças menores de 14 anos é uma prática


recorrente em nosso país. De acordo com o IBGE, há no Brasil quase 3 milhões de
crianças nessas condições. Os dados mundiais registram 250 milhões de
trabalhadores infantis.
A miséria e o desemprego, além da impunidade, fazem com que, no Brasil,
uma em cada seis crianças de 10 a 14 anos realize algum tipo de trabalho. Trata-se
de um dado extremamente preocupante, pois essa é a idade em que as crianças
deveriam estar na escola – e não servindo como mão-de-obra quase escrava. Esses
pequenos trabalhadores são explorados, tanto na indústria quanto na agricultura,
atuando como mão-de-obra extremamente barata, sem nenhum direito assegurado.
Mesmo diante dessa situação alarmante, o Brasil não assinou a Convenção
138 da Organização Internacional do Trabalho, destinada a acabar com o trabalho
infantil no mundo. Entre as propostas da Convenção está o aumento gradativo da
idade mínima para a entrada no mercado de trabalho, e a garantia do
desenvolvimento de trabalhos por adolescentes, desde que não prejudiquem seu
pleno desenvolvimento físico e mental. Estabelece-se também que a idade mínima
não pode ser inferior ao fim do ensino obrigatório.
Na legislação nacional, a Emenda Constitucional nº 20, de dezembro de 1998,
proibiu o trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de 18 anos, e também
qualquer forma de trabalho a menores de 16 anos. A única exceção admissível é a
atividade na condição de aprendiz, para qual a idade mínima é 14 anos.
No mundo todo, diversas iniciativas vêm sendo tomadas para pôr fim ao
trabalho infantil. No ano de 1998 houve a “Marcha global contra o trabalho infantil”,
que percorreu dezenas de países. Em 1999, o Brasil sediou sessão do Tribunal
Internacional Contra o Trabalho Infantil, formado por uma série de organizações não-
governamentais que colheram assinaturas pela erradicação dessa violação dos
direitos humanos em nosso país.
Mesmo assim, a exploração do trabalho infantil ainda é um problema a ser
enfrentado. Para isso, é fundamental desenvolver um amplo trabalho de
conscientização das famílias mais carentes, demonstrando os problemas decorrentes
da colocação de uma criança no mercado de trabalho.
Projetos de incentivo à manutenção de crianças na escola, como o bolsa
escola (família) ou projetos de renda mínima vinculados à educação, certamente
servem como alternativa à renda obtida pela criança.
Uma medida importante, que sem dúvida está ao alcance de cada cidadão, é a
denúncia, às autoridades competentes, de empresas ou pessoas que empregam
ilegalmente meninos e meninas. É uma forma de pelo menos tentar tornar mais
freqüente a punição de empregadores.

Fonte: Cadernos da TV ESCOLA. Direitos Humanos. 1999, p. 36-37


91

APROVEITAMENTO DO LIXO GERA RENDA E


PRESERVA O MEIO AMBIENTE

Produtos e materiais descartados e enviados para o lixo podem ser


reaproveitados ou transformados em matéria-prima para a indústria da
reciclagem, gerando renda para milhares de pessoas e trazendo economia de
recursos como a água, energias e matérias-primas retiradas da natureza. O
descarte inapropriado dos rejeitos é uma ameaça ao meio ambiente, à saúde à
qualidade de vida da população, pois contamina rios e o lençol freático, além de
disseminar doenças e provocar mau cheiro.
Cada brasileiro produz, em média, 800 gramas de lixo doméstico por dia,
volume que cresce cerca 30% há cinco anos. Em 80% das cidades, esse rejeito
vai parar nos lixões a céu aberto, e o restante dividido entre aterros sanitários,
depósitos clandestinos e incineradores, ou é recolhido por catadores e sucateiros
para reciclagem. Do total que vai para o lixo, 35% poderiam ser reutilizados ou
reciclados, como vidro, alumínio e plástico, e outros 35% transformados em
adubo orgânico.
A responsabilidade pela coleta e destinação do lixo é da administração
municipal, mas segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), 40 milhões de brasileiros ainda não são beneficiados pela coleta pública.
Além disso, segundo a mesma pesquisa, realizada em 2000, apenas 6,4% dos
municípios possuíam serviço de reciclagem.
Para ajudar a resolver o problema, é necessário também que o volume de
lixo produzido seja reduzido e que haja a reutilização de objetos e materiais e
maior aproveitamento pra reciclagem.
Para não desperdiçar...
* aproveite as duas faces das folhas de papel para escrever ou fazer
impressões, ou transforme-as em bloco de rascunho
* recuse folhas de propaganda que não forem do seu interesse
* evite embalagens supérfulas e substitua as descartáveis, como copos e
talheres, por similares duráveis
* dê preferência a embalagens reaproveitáveis, deixando de comprar as que não
podem ou são mais difíceis de serem recicladas, como as de isopor
* reutilize embalagem de presente que não podem ser recicladas
* reutilize potes de vidro para guardar produtos em casa, como pregos e velas
* compre apenas o que for necessário, principalmente alimentos, para que não
tenha que jogar fora depois
Não jogue fora, doe...
* roupas, utensílios domésticos, celulares, peças de informática, entre diversos
outros materiais que podem ser doados a escolas, artesãos, associações e
igrejas, por exemplo
O que pode ser reciclado
* muitos municípios brasileiros já adotaram a coleta seletiva de lixo. Se for o caso
de sua cidade, separe o lixo orgânico do inorgânico, esteja atento ao dia da
coleta e participe do programa
* quando não há coleta específica, procure pontos de entrega de recicláveis
* identifique os sucateiros e catadores que recolhem materiais recicláveis em sua
região, como alumínio, papel e garrafas pet. Ajude-os selecionando e entregando
o material. Há cerca de 200 mil pessoas nessa atividade no país
* entre em contato com cooperativas, organizações não-governamentais (ONGs)
92

e associações que trabalham com produtos recicláveis para entregar ou buscar o


que pode ser reaproveitado
Organize-se
* em locais onde há grande produção de lixo, como empresas, condomínios e
escolas, por exemplo, é possível implantar a coleta seletiva e dar a ele outra
destinação.
Legislação- A Constituição determina a competência comum da União, Estados,
Distrito Federal e Municípios para proteger o meio ambiente e combater a
poluição em qualquer de suas formas (art.23,inciso VI). No art. 225, afirma que
“todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso
comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder
público e à coletividade e o dever de defendê-lo e preservá-lo para os presentes
e futuras gerações”.
Conforme o parágrafo 3º do mesmo artigo, “as condutas e atividades
consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas
ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da
obrigação de reparar os danos causados”.
No que se refere à legislação ordinária, pode-se mencionar a Lei 6.938/81,
que instituiu a Política Nacional do Meio Ambiente. É obrigatório, por exemplo, o
licenciamento ambiental junto a órgão estadual para a construção, instalação,
ampliação e funcionamento de estabelecimentos e atividades utilizadoras de
recursos ambientais, bem como os capazes, sob qualquer forma, de causar
degradação ambiental.
A Lei 9.605/98, que estabelece as sanções penais a administrativas para
atividades lesivas ao meio ambiente, tipificam, nos artigos 54, 60 e 68, as
condutas criminosas contra o meio ambiente. Já a Lei 9.974/00 obriga que o
usuário devolva as embalagens de agrotóxicos vazias e responsabiliza as
empresas pela sua destinação.
Também as normas para reciclagem, definidas pelo Conselho Nacional do
Meio Ambiente (Conama), avançaram na última década. A Resolução 257/99
regulamenta a coleta, transporte e armazenamento de pilhas e baterias e trata
da sua reutilização, reciclagem de destino final. Já a Resolução 258/99 obriga as
empresas fabricantes e importadores de pneumáticos “a coletar e dar destinação
final, ambientalmente adequada, aos pneus inservíveis”. Mas a reciclagem de
resíduos sólidos domiciliares ainda sofre entraves pela falta de programas de
coleta seletiva nos municípios brasileiros.

Fonte: JORNAL DO SENADO. Especial Cidadania. Brasília: 2004, p. 54-56


93

EU SOU BRASILEIRO

A chave para a solução dos problemas atuais do Brasil pode ser esses
mandamentos:
01. Você acha um absurdo a corrupção da polícia?
Solução: NUNCA suborne nem aceite suborno!
02. Você acha um absurdo o roubo de carga, até mesmo com assassinatos dos
Motoristas?
Solução: EXIJA a nota fiscal em TODAS as suas compras!
03. Você acha um absurdo a desordem causada pelos camelôs?
Solução: NUNCA compre nada com eles! A maior parte de suas mercadorias são
p produtos roubados, falsificados ou sonegados.
04. Você acha um absurdo o poder dos marginais das favelas?
Solução: NÃO compre nem consuma drogas!
05. Você acha um absurdo o enriquecimento ilícito?
Solução:Denuncie à Receita Federal aquele vizinho que enriquece
repentinamente. Não o admire, repudie-o.
06. Você acha um absurdo a quantidade de pedintes no sinal ou de flanelinhas
nas ruas?
Solução: NUNCA dê nada.
07. Você acha um absurdo que qualquer chuva alague a cidade?
Solução: Só jogue o LIXO no LIXO.
08. Você acha um absurdo a existência de cambistas para shows e espetáculos?
Solução: NÃO compre deles, nem que não assista o evento.
09. Você acha um absurdo o trânsito de sua cidade?
Solução: NUNCA feche o cruzamento.
10. Você acha um absurdo o poder econômico e militar dos Estados Unidos da
América?
Solução: Prestigie a indústria brasileira, dentro do que lhe seja possível.
11. Você está indignado com o desempenho de seus representantes na política?
Solução: Nunca mais vote neles e espalhe aos seus amigos seu desalento e o
nome dos eleitos que o decepcionam.
Estamos passando por uma fase de falta de cidadania e
patriotismo,apesar do excesso de nacionalismo. Precisamos mudar nosso
comportamento para que possamos viver num país onde tenhamos orgulho de
dizer:

EU SOU BRASILEIRO!

Ficando parado, você não contribui com nada; portanto não pode reclamar.
Pratique os pontos com os quais você concordou e tente praticar também os que
você não concordou.
Divulgue esta mensagem, pois estará contribuindo para um Brasil melhor,
precisamos melhorar este país.
Vamos viver com ética.

Autor desconhecido.
94

Ser Cidadão
Ninguém é cidadão na individualidade, enquanto seres
humanos, o homem se realiza no coletivo, na socialização,
sendo portanto, construtor da sua história e da história da
sua comunidade, do seu país. E para isso, o indivíduo precisa
conhecer os seus direitos, deveres e responsabilidades.
Para ter condições de viver em uma prática consciente
da cidadania, há necessidade de se efetuar leituras que
subsidie esta prática, como:
- Declaração Universal dos Direitos Humanos (consta neste
caderno);
- Declaração Universal dos Direitos da Criança (consta neste
caderno);
- Constituição Federativa do Brasil;
- Constituição Estadual do Paraná;
- Lei Orgânica do seu Município;
- Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT);
- Estatuto da Criança e do Adolescente;
- Código de Defesa do Consumidor;
- Declaração de Salamanca;
- Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN).
Além de outras tantas declarações, leis, decretos,
portarias, que determinam os procedimentos, cuidados,
direitos e deveres da população, e desta forma, estar
sempre atento ao que está acontecendo ao seu entorno,
enfim, vivendo como um cidadão que participa, interage e
que faz a diferença!

Lurdes Thomaz
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