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Disciplina: Antropologia IV

Aluno: Udnilson Soares da Silva Pereira.


Questão 01 - Exponha qual o projeto conjunto que conferiu à escola Sociológica Francesa e
exemplifique a sua realização por meio dos trabalhos de Marcel Mauss estudados ao longo da
disciplina.
As dificuldades que encontro para elaborar este texto são marcas mentais resultantes do contato com
o conhecimento da vida não acadêmica, que se apresentam como lentes de pseudomoralismo
relativista construída por gerações e em mim manifestada. As contribuições indiretas do pensamento
sociológico fomentaram e fomentam o saber não acadêmico de tal forma que nos leva crê que somos
todos cientistas sociais de alta capacidade relativista e de alteridade e críticos de qualquer
aproximação com evolucionismo sociocultural ou outras “deficiências” da visão de mundo dos
séculos passados. Por outro lado, também marcas mentais resultantes da vida acadêmica trazem
dificuldades. Estas apresentam-se como lentes de pseudoconhecimento acadêmico, baseado na
sociologia durkheimiana, tal como apresentada pela dicotomia metodológica do ensino acadêmico e
sua perseguição dos modelos epistemológicos “sociedade x indivíduo”. Confunde-se sistematização
do conhecimento, como sendo o conhecimento em si, reificando teorias e autores em cristalizações
que atendem a essa classificação dicotômica. Ou isso, ou minha deficiência em realizar o que estudei
nesse curso. Tenho dificuldade de ver o conhecimento e os autores dessa forma, engessada nas
classificações e sistematizações didáticas. Talvez por isso, vejo o indivíduo e sociedade contemplados
nos estudos de Durkheime, e ainda mais intensamente nos estudos de Mauss.
Buscar o indivíduo autônomo, “conscientes de seus interesses particulares” e agindo mediado por
uma visão de mundo construída em função de seus interesses particulares ou em função de
características inatas ao ser humano é tarefa sem sentido ao se estudar estes autores. Por outro lado,
negar a consideração do indivíduo em formação e ação nos trabalhos destes autores, arrisco dizer,
que não é razoável.
Diria até que estas considerações corroboram para compreender um dos elementos do projeto da
escola Sociológica Francesa. Isto porque a máxima “O todo é mais do que a soma das partes”, não
nega as partes. Pelo contrário ela afirma “a parte”, buscando aproximasse ao máximo do que
realmente é essa parte, enquanto produto e produtor do todo. Nega o indivíduo construído pelo
observador ou pesquisador, tendo como referência a universalidade humana ocidental (o qualquer
outra), imaginando-o como bom ou mau, como selvagem ou civilizado, interessado ou altruísta,
segmentando-o em aspectos “espirituais”, psicológicos, econômicos, domésticos e públicos, e outras
individualizações imaginarias ou universalizantes utilizadas como mediadoras para compreensão do
indivíduo e do pensamento e ação humana. Buscando assim, compreender o movimento de indivíduos
“reais” movimentando-se em sociedades “reais”, em conformidade com a compreensão singular de
realidade de um determinado grupo. Realidade essa que só se exprime como tal, em função do
interagir social entre homens e coisas, que constrói as realidades “verdadeiras a seu modo”, pois todas
correspondem a “condições dadas da existência humana”. Dessa forma a escola contrapõe o
pragmatismo utilitarista e economicista, e ao mesmo tempo o idealismo Kantiano, e as noções de
ação individualista ou de ação universal derivada destas formas de pensar o homem e sociedades.
Além da contraposição as teorias idealistas, naturalistas e individualistas que citamos acima, a
contraposição de perspectivas metodológica e epistemológica que era dominante nas ciências sociais
em formação, faziam parte do projeto da escola francesa. O método sociológico proposto por Auguste
Comte opunha ao racionalismo e ao idealismo, porém partia de epistemologia evolucionista da
formação do pensamento humano. Elementos históricos de uma sociedade, ou elementos
comparativos entre sociedades que poderiam auxiliar na compreensão sociológica era acessado à
partir dessa perspectiva. Até mesmo os registros etnográficos, eventualmente consultados pelos
autores desta escola, traziam na sua estrutura linguística e metodológica esta epistemologia. No
entanto os autores buscam penetrar nos estudos históricos e etnográficos superando essa visão.
Contudo, a escola francesa não nega a existência de aspectos universais do pensamento humano. Nem
tão pouco ignora a diferença entre a visão de mundo mágica, religiosa e cientifica. O que ela questiona
é o entendimento de que existe uma escala universal e ascendente na organização do pensamento
humano, que partindo da visão de mundo mágica, evolui para visão religiosa e finalmente culmina
com a visão cientifica. A universalidade não está na evolução do pensamento e na diferenciação entre
supostas fases evolutivas. A universalidade está nas categorias que oferecem as bases para construção
do pensar humano. Isto independe se este pensamento desenvolve-se com predominância de visão
mágicas, religiosas ou cientificas.
Por outro lado, as categorias do pensamento não são universais por serem inatas aos seres humanos,
ou por apresentarem a mesma forma moral, psicológicas ou utilitária em todas sociedades. A
universalidade das categorias do pensamento está na sua gênese. A condição humana, como ser social,
e seu interagir com meio e com os outros homens são o berço que gesta as categorias do pensamento.
Por ser estas condições diferentes em cada época e lugar, as formas estruturais que apresenta as
categorias do pensamento são múltiplas. Universal na sua gênese (gestação social) e singular na sua
forma (instituições e relações sociais).
A compreensão durkheimiana de que em “sociedades primitivas”, ou com menor multiplicidade de
funções sociais, bases morais de pensamento e instituições sociais, existe maior uniformidade
intelectual e moral, assim como a noção de consciência coletiva influenciou os trabalhos de Mauss
na sua busca pela gênese social das categorias do espírito humano. Ele busca em vários estudos
identificar categorias do entendimento humano, que apresentam aspecto universal, apesar da
singularidade das formas sociais delas derivadas.
O contato com os fenômenos, coisas e seres, a partir da condição existencial humana em sociedade
desperta os seres a compreender o “mundo perceptível” em sua volta e a constante mudança que nele
opera. Homens e outros seres nascem, adoecem, curam-se, se relacionam de forma diversa com outros
seres e com as coisas, causam mudanças nas coisas e são modificados por elas, vivem e morrem em
um ciclo infinito. A necessidade de expressar essas coisas de maneira compartilhada socialmente e
que esteja “fundada na natureza das coisas”, oferece o terreno para construção dos fundamentos da
vida em sociedade e ao mesmo tempo já é expressão de sociedade. Arrisco dizer que as categorias do
entendimento humano são ao mesmo tempo trilhos, motor e locomotiva que constrói o pensamento
humano e sua emanação em sociedade. A noção de causalidade por exemplo: “ela é”, “se faz”, oferece
as “possibilidades do fazer” e se movimenta “no fazer” ao mesmo tempo.
O estudo sobre a magia de Mauss revela a universalidade da noção de causalidade e as expressões
sociais delas derivadas. Ao que atribuímos a ideia universal de pensamento mágico, se revelou em
formas singulares de explicar os fenômenos naturais e relacionais humanos com base em uma noção
da causalidade que associa o movimentar dos homens e das coisas como causas para constante
mudança da realidade perceptível. A não separatividade entre homens e homens, homens e coisas,
coisas e coisas, e a aceitação do movimento de forças não visíveis que a tudo unia, oferecia a linha e
agulha, enquanto a noção de causalidade oferecia o impulso para tecer sociedades. Estas sociedades
reforçam a visão de não separatividade a partir da visão mágica de mundo, ao mesmo tempo reforçam
a visão mágica de mundo a partir da visão de não separatividade. Sendo que ambas são construção
social.
Fica claro que só na eficácia entre causa e resultado socialmente aceita, que se ampara a estrutura de
pensamento mágico e as relações sociais delas derivadas, assim se percebe que uma eventual
inexistência da noção de causalidade implicaria na inexistência do pensar e observar eficácia entre
causa e resultado. Esses fundamentos estão presentes no entendimento humano, seja ele mágico,
religioso ou cientifico, por outro lado esses fundamentos não são inatos ao ser humano, e sim
construções sociais.
Os estudos de Mauss contribui com o projeto da escola francesa trazendo também a noção de
reciprocidade e o tecer das formas de dádivas construindo instituições, relações de alianças sociais
internas e externas a determinado povo. A noção de obrigatoriedade de “dar, receber e retribuir”,
surge nesse vasto estudo como impulso da ação humana de produzir e fazer circular bens, coisas,
serviços e pessoas, totalmente desprovido de valores mercantis ou individualistas. A dádiva surge
como propulsor de um “sistema de prestações totais”, oferecendo sentido, normas e liga social para
construção de instituições diversas no interior e nas relações exteriores de grupos sociais diversos. A
teorias utilitaristas e contratualistas e sua universalização do indivíduo autocentrado e agindo em
função de seus interesses, e em função disto criando alianças e contratos de mútuos benefícios
pragmáticos e individuais é trucidada por este estudo.
A naturalidade do ser humano, suas técnicas e forma, até mesmo corporais são questionadas e postas
em chegue no estudo “As técnicas do corpo” de Mauss.
Por fim a noção de individualidade e de pessoa quanto algo inato ao pensar humano é criticado e
revelado na sua gênese através do estudo sobre “A noção de pessoa, a de ´eu´”. Nele, aquilo que
parece está posto deste sempre, a individualidade e a noção do Eu, é demonstrada como elemento de
construção social que em conformidade com a cosmologia de uma determinada sociedade pode tomar
várias aparências e formas, ou até mesmo inexistir enquanto expressão de separatividade entre o
homem e os demais homens, seres e coisas.
Questão 02 - Identifique e comente dois deslocamentos analítico promovido por Marcel Mauss
que evidencia o modo como ele se afastou do projeto sociológico de Durkheim e se tornou um
dos fundadores da moderna Antropologia.
Os estudos sobre as categorias do espirito humano realizados por Mauss, amplia e traz maior
profundidade ao método comparativo e investigativo das causas que sustentam determinado
fenômeno social. A exterioridade do fato social é investigada para além do seu poder coercitivo,
enquanto consciência coletiva, do todo social sobre os indivíduos, oferecendo elementos causais para
o fato social em estudo. A investigação de elementos de sociedades primitivas, encontra não fatores
que traz relação de causalidade com determinado fenômeno, mas sistemas de prestações totais, que
interagem construindo causas e condições e ao mesmo tempo possibilitando o impulso e o sentido,
que constrói e mantêm formas e fatos sociais. Arrisco dizer que são causas, circunstancias e
resultantes que só se exprimem como tal em sua totalidade, tanto para a sociedade investigada como
para o investigador. A comparação então se dá para além das expressões culturais, das relações
grosseiras entre homens e coisas, para além das estruturas e formas, se dá em um campo simbólico
que traz sentido e fundamenta as relações. Então não se trata de proximidade ou afastamento de léxico
linguístico, de técnicas, de rituais, formas de parentesco ou outras expressões socioculturais, e sim de
sentido último, que torna real, factível, incontestável, eficaz e reproduzível certo fenômeno social
para um determinado grupo de indivíduos.
A realidade perceptível é resultante da própria construção dos elementos de percepção dos sujeitos
sociais. A percepção humana é objeto de estudo interdisciplinar. Acredito que Durkheim já
conversava com outras áreas do saber. Talvez pela necessidade de estabelecer a sociologia como
ciência, ele deu maior ênfase ao estudo dos fatos sociais centrado nos métodos e sistemas de
conhecimento da sociologia. Porém utilizando elementos antropologia, filosofia e história.
Aparentemente Mauss, aprofundou a interdisciplinaridade no investigar sociológico que de forma
mais ampla introduziu elementos conceituais dessas ciências e mesmo propôs mudança de
perspectivas cientificas, como é notado no estudo sobre as técnicas do corpo e sobre a noção de eu.
Elementos de linguística e construção do mundo simbólico, relacionando homens e coisas,
organizando o pensamento e a realidade de tal forma a dar sentido ao ser e ao agir são notadamente
trazidos em seus estudos.
Penso que estas contribuições ampliam as contribuições de Durkheim para a antropologia e desloca
Mauss da condição de discípulo metodológico durkheimiano e o coloca como um dos fundadores da
moderna Antropologia.

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