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Considerações sobre

a abordagem de ensino
e aprendizagem do
Alicerce Educação
MATERIAL DESTINADO À CONSULTA DE EQUIPE
DE FORMADORES, ORIENTADORES, COACHES
INSTRUCIONAIS E LÍDERES DO ALICERCE EDUCAÇÃO.

ALICERCE EDUCAÇÃO EQUIPE PEDAGÓGICA


SUPERVISÃO: PROFA. DRA. MÔNICA A. WEINSTEIN
JANEIRO 2020
04
I - Introdução

05
II - Conceitos importantes
para compreender a proposta
pedagógica do Alicerce Educação

26
III - Implicações dos conceitos
apresentados anteriormente para
a metodologia do Alicerce

29
IV - Sobre as trilhas de
conhecimento do Alicerce

36
Referências
Considerações sobre a abordagem de ensino
v e aprendizagem do Alicerce Educação.

I – Introdução
Muito tem sido dito e escrito sobre a necessidade de Nessa perspectiva, o líder do Alicerce assume o papel
mudarmos a educação brasileira. No contexto global, existe de facilitador da aprendizagem transformadora. Ele deve
um claro entendimento de que é preciso preparar crianças constantemente indagar: qual é a forma, a organização

II –
e jovens para um mundo em constante transformação. da aprendizagem que deve guiar minha ação a fim de

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No Brasil, soma-se a esse cenário o desconforto de não promover a aprendizagem como mudança da base de
termos conseguido ensinar gerações de crianças, jovens conhecimentos e, portanto, como transformação pessoal?
e adultos a ler, escrever e calcular. Nossos resultados são

Conceitos importantes
A mudança da base de conhecimentos que propomos
pífios, malgrado esforços sérios de muitos educadores, no Alicerce está ancorada em desenvolver sólidas
organizações e segmentos da sociedade. competências de leitura, escrita e matemática. Essas
O objetivo do presente documento, no entanto, não é refletir competências representam os domínios da aprendizagem
sobre o cenário da educação brasileira, e sim apresentar
pressupostos teóricos que deem sustentação à abordagem
de aprendizagem adotada pelo Alicerce Educação.
formal escolar e, ao mesmo tempo, são necessárias para
que o aluno possa desenvolver sua cognição e uma
compreensão mais abrangente do mundo.
para compreender a
Antes de nos estendermos sobre a questão da
aprendizagem, é importante ressaltar que o resultado
de uma educação de qualidade é a transformação dos
No âmbito da transformação de atitudes e estados mentais,
buscamos desenvolver um rol de habilidades que podem ser
distribuídas em três módulos: “eu comigo mesmo”, “eu com
proposta pedagógica
do Alicerce Educação.
indivíduos. Transformar indivíduos é um desafio de os outros” e “nossos desafios e metas”. Como as atitudes
desenvolvimento humano e, portanto, requer um enfoque e os estados mentais são desenvolvidos ao longo de toda
na integralidade da pessoa. Considerar o ser humano em a vida, as competências relacionadas a eles são abordadas
seu aspecto integral, por sua vez, exige o afastamento dos em espiral, ou seja, são periodicamente retomadas e

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processos reducionistas e a aceitação das contradições aprofundadas conforme a maturidade dos alunos.
existentes em todos os fenômenos, bem como nas No sentido estrito, compreendemos a aprendizagem
relações entre eles. Segundo o filósofo Edgar Morin, como um processo de transformação da informação
requer “assumir o ponto de vista da complexidade”. Aquilo que provém do ambiente e se torna uma representação
que diferencia o todo da soma das partes é o que Morin simbólica, integrando elementos das vertentes cognitivista
denomina “comportamento emergente”. A aprendizagem e construtivista.
é um comportamento emergente, de aí a impossibilidade A seguir, serão apresentados alguns dos pressupostos
de tentarmos reduzi-la. teóricos importantes para entender a abordagem
Aqui, transformação dos indivíduos refere-se ao processo de aprendizagem proposta pelo Alicerce Educação.
que torna possível mudar a base de conhecimento das Aliás, mais do que pressupostos da abordagem de
pessoas e que, muito além disso, viabiliza a emergência de aprendizagem, eles representam o que entendemos por
um conjunto de habilidades, atitudes e estados mentais que educação de qualidade, promotora de uma aprendizagem
lhes permitirão serem autoras de suas próprias histórias de transformadora, que é aquela que permitirá que as
vida: que tenham consciência de si, autoestima e confiança pessoas sejam não apenas autoras, mas, sobretudo,
perante a vida, motivação para aprender ao longo de sua editoras de suas trajetórias de vida.
existência, entre outros.

04
v Conceitos importantes para compreender a
proposta pedagógica do Alicerce Educação.
02.
Neurociência cognitiva senvolvimento estrutural e continua a mudar até a idade
adulta jovem, e cada uma de suas áreas se desenvolve
do desenvolvimento em momentos diferentes. As regiões visual e auditiva se
desenvolvem primeiro, enquanto o lobo frontal tem um
período mais prolongado de desenvolvimento. Pensa-se
A neurociência cognitiva do desenvolvimento é um cam- que o comportamento impulsivo na infância e na ado-
po multidimensional e interdisciplinar que tenta explicar lescência seja resultado de um córtex frontal imaturo;
como o desenvolvimento cognitivo é suportado por mu- conforme essa região se desenvolve, o comportamento
danças na estrutura e na função subjacentes do cérebro, impulsivo e outros aspectos do funcionamento executivo
e como a organização cerebral muda no decorrer do de-

01.
melhoram (JOHNSON, 2011). As mudanças na estrutura
senvolvimento (JOHNSON, 2011). do cérebro – por exemplo, a espessura cortical – também
Do ponto de vista da neurociência cognitiva do desenvol- estão relacionadas a medidas de inteligência; existe uma
vimento, o que garante a aprendizagem por toda a vida é o correlação negativa entre espessura cortical e inteligência

Desenvolvimento
comportamento direcionado a objetivos, que depende da re- na primeira infância, porém positiva no desenvolvimento
presentação de uma recompensa específica esperada para o posterior (SHAW et al., 2006).
humano futuro. O tempo todo e de maneira involuntária, estamos ava-
liando o curso de nossas ações e enumerando suas consequên-
Os sistemas neurais tendem a se tornar cada vez mais
especializados ao longo do tempo, sugerindo que as es-
cias futuras previstas (DAW et al., 2005). Numa grande revisão pecificidades funcionais cognitivas das regiões do cérebro
O desenvolvimento humano é um processo de construção vez que a noção de desenvolvimento, via de regra, é de literatura nessa área, Buckner & Carroll (2007) notaram que resultam de uma trajetória de desenvolvimento. Crianças
contínua que se estende ao longo da vida dos indivíduos, associada ao progresso e ao aumento de complexidade essa “autoprojeção” tem forte dependência de nossas memó- mais novas tendem a mostrar ativação cerebral mais difu-
sendo fruto de uma organização complexa e hierarquizada na estrutura e na organização (VAN GEERT, 2003) –, para rias. Uma característica importante dessa memória episódica sa para uma tarefa específica do que crianças mais velhas
– relacionada com o comportamento dirigido a objetivos – é e adultos (CASEY et al., 1997). Tanto o processamento nu-
que envolve desde os componentes intraorgânicos até as que as condições necessárias ao ganho em complexidade
a flexibilidade representacional, ou seja, a capacidade de recu- mérico quanto o facial são exemplos de funções neurais
relações sociais e a agência humana. O desenvolvimento sejam atendidas, é sempre necessário que algumas
perar, acessar e generalizar o conhecimento aprendido em no- que se especializam continuamente. Evidências conver-
no curso de vida tem sido abordado a partir de uma noção estruturas se mantenham. vos contextos e configurações (COHEN & EICHENBAUM, 1993; gentes sugerem que existem circuitos parietais distintos
epigenética e probabilística (GOTLIEB, 1996). Isto significa Assim, as noções de estágio e transição são vistas EICHENBAUM & COHEN, 2001). O conhecimento declarativo, que se tornam cada vez mais especializados para proces-
que cada indivíduo tem seu desenvolvimento delineado por como processos diretamente interligados, mas, erigidas cobrado na educação escolar formal, é um exemplo marcan- samento e cálculo de magnitude numérica; a ativação no
inúmeras possibilidades vinculadas ao tempo, ao contexto a partir da ciência do desenvolvimento, ganham novo te dessa flexibilidade representacional (FOERDE; KNOWLTON; córtex frontal diminui com a idade, enquanto o córtex pa-
e ao processo (ELDER, 1996; HINDE, 1992), exercendo a significado. O estágio é definido como um conjunto de POLDRACK, 2006; SHOHAMY; WAGNER, 2007). rietal se torna mais envolvido (ANSARI, 2008).
função primordial de agente de mudança e transformação padrões comportamentais e habilidades característicos O cérebro é altamente plástico e passível de mudanças Parece haver períodos sensíveis de desenvolvimento ce-
de sua própria história (BRANCO, 2003; ELDER, 1996; de uma determinada idade ou fase do desenvolvimento; durante o desenvolvimento. Pesquisas em animais e em rebral em que a estimulação ambiental é particularmente
MAGNUSSON & CAIRNS, 1996). A participação do indivíduo a transição, como o período de passagem entre um seres humanos convergem para sugerir que o cérebro é importante para que as habilidades se desenvolvam nor-
na construção do mundo social possibilita a emergência estágio e outro no curso de vida. As tarefas específicas uma estrutura dinâmica que muda com o tempo em res- malmente. Períodos sensíveis foram claramente demons-
de diferentes significações (e novidades) que podem desempenhadas em um dado estágio desencadeiam posta a insumos ambientais, tais como o aprendizado. A trados no desenvolvimento do sistema visual e na aquisi-
transformar o curso de seu desenvolvimento, assim como um processo de transição qualitativa de competências ressonância magnética tornou possível avaliar as altera- ção da linguagem. Determinar como os fatores ambientais
afetar a dinâmica da comunidade em que ele está inserido. ções estruturais do cérebro in vivo, antes mensuráveis a​​ pe- e o aprendizado afetam a estrutura e a função do cérebro
para lidar com as exigências de um novo estágio (ASPESI
Esse desenvolvimento depende, principalmente, do nas através de estudos post-mortem do cérebro animal. tem implicações educacionais importantes. As técnicas de
& cols., 2005). Cada transição é mobilizada pelas forças
Outros avanços na tecnologia de imagem também foram imagem não invasivas possibilitaram determinar que cer-
equilíbrio entre o indivíduo e seus contextos ambientais, de coação que agem no contexto das experiências úteis para medir como o cérebro é acionado, e como a for- tos programas ou intervenções para recuperar a aprendi-
facilitadores e/ou limitadores das mudanças. concretas, as quais, por sua vez, estão no centro da ça das conexões muda ao longo do desenvolvimento. zagem têm efeitos duradouros no comportamento e na
Para a compreensão do desenvolvimento humano, análise do desenvolvimento, englobando desde aspectos Sabe-se que o cérebro é especialmente plástico na pri- estrutura e na função do cérebro, inclusive na função cere-
tanto a mudança quanto a estabilidade são centrais e genotípicos até as influências do fenótipo e os aspectos meira infância. Do nascimento até 2 a 12 meses de idade bral de crianças com desenvolvimento atípico.
devem ser consideradas em uma relação dialética e de ambientais, sejam físicos, sejam sociais, sejam relacionais (dependendo da região do cérebro), ocorre o aumento da De forma sintética, essas evidências indicam que, embo-
equilíbrio dinâmico. Embora haja uma tendência entre os (GOTLIEB, 1996). Logo, o que caracteriza as transições de densidade sináptica, em um processo chamado de sinap- ra existam períodos bastante sensíveis para o desenvol-
pesquisadores do desenvolvimento humano de destacar um estágio a outro durante o curso de vida é a dinâmica togênese. A formação de sinapses é acelerada até o pon- vimento cerebral – como a primeira infância em relação
as mudanças em detrimento das estabilidades – uma entre continuidade e descontinuidade. to em que começa o processo de poda sináptica, quando à linguagem –, fatores ambientais e a aprendizagem for-
as conexões frequentemente usadas são mantidas e as mal afetam a estrutura e a função do cérebro ao longo de
não utilizadas, eliminadas. Então, a densidade sináptica toda a vida. Além disso, as projeções que fazemos sobre
diminui gradualmente para os níveis adultos entre os 2 nosso futuro e as decisões que delas decorrem (self-o-
e 3 anos de idade nas regiões de processamento visual riented projections) são fortemente dependentes de nos-
e, posteriormente, nas regiões multissensoriais associa- sas experiências e memórias prévias. A boa notícia é que
das a funções cognitivas mais altas, como a linguagem e essas memórias – ou essa narrativa, para usar as palavras
o controle cognitivo (HUTTENLOCHER, 2002). Da infância de Bruner (1961) – podem ser atualizadas em qualquer
à idade adulta, em geral, ocorrem reduções na densidade tempo. Esses achados, por si só, representam uma notá-
de substância cinza e aumentos simultâneos na substân- vel evidência do impacto da aprendizagem no desenvol-
cia cortical branca (GIEDD et al., 1999). vimento e, consequentemente, ao longo de toda a exis-
De fato, o cérebro tem um período prolongado de de- tência dos indivíduos.
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v Conceitos importantes para compreender a
proposta pedagógica do Alicerce Educação.

04.
03. Como aprendemos
Desenvolvimento humano Somos biologicamente preparados para aprender, e esta
base biológica é modulada, ativa e permanentemente, pela
e são de dois tipos gerais: estruturais e funcionais. A
conectividade estrutural garante a conexão física entre as
e aprendizagem experiência e pelo ambiente. A aprendizagem instrucional diferentes regiões do cérebro, enquanto a conectividade
(aquela que resulta do ensino) inclui os processos de funcional é a correlação ou coerência da informação entre
planejar, controlar e refletir, cujo caráter consciente deve as várias regiões do cérebro ao longo do tempo. Além disso,
A aprendizagem só é possível por meio das experiências ser destacado. Na aprendizagem eficiente, o sujeito está acredita-se que a conectividade estrutural exerça influência
a que o sujeito tem acesso ao longo dos ciclos da vida, consciente não só do conhecimento específico, das metas sobre a conectividade funcional (BETZEL et al., 2014), pois
pois é na reflexão da interação entre a vida e a mente, nas que tem que alcançar e das estratégias necessárias para regiões cerebrais requerem conexão física antes de poderem
experiências cotidianas vivenciadas com ou sem a intenção alcançá-las, como também do próprio processo enquanto trabalhar em uma função comum.
de aprender, que a aprendizagem humana acontece. ele ocorre. Essa atividade em tempo real traz como Para que essa estrutura de conexões estruturais e
No âmbito da escolaridade formal, obter conhecimentos consequência o processo autorregulador, que, por sua vez, funcionais seja estimulada a entrar em ação e alcance a
é fundamental. Mas, se quisermos transformar indivíduos, requer o desenvolvimento de funções cognitivas. Como organização do conhecimento que o ensino formal propõe,
precisamos ir além da aprendizagem dos conteúdos e vemos, é necessário aprender para poder aprender mais. é necessário que o indivíduo/aprendiz seja desafiado a
estimular a aprendizagem transformadora (ou autoral). A Do ponto de vista da neurociência cognitiva da pensar, e a pensar de maneira estruturada e reflexiva.
aprendizagem transformadora é aquela que permite que aprendizagem, a cognicão humana é composta por redes A aprendizagem não acontece de maneira linear. Seus
o indivíduo seja autor de sua própria história de vida. Os de larga escala funcionalmente coerentes no repouso e diferentes estágios exigem transformações que dependem
dois tipos de aprendizagem – formal e transformadora coletivamente ativas durante a tarefa cognitiva (DOSENBACH de níveis de funcionamento da atividade mental.
– são interdependentes e complementares: precisamos et al., 2007; POWER et al., 2011). Essas redes consistem em Flavell e Wellman (1977) identificaram quatro níveis de
dominar conhecimentos e desenvolver a cognição para conjuntos de neurônios ou áreas cerebrais e suas conexões, funcionamento da atividade mental na aprendizagem:
alcançar a transformação. Podemos brincar com as

a.
palavras e dizer que saber mais ajuda a saber mais.
Há um primeiro nível, mais elementar, em que os conteúdos da memória organizam-se segundo
Ao assumir a transformação como meta do Alicerce,
regras de associação, nos processos básicos inatos. Nesse nível, acontece a aprendizagem dos
adotamos uma perspectiva de enxergar o aluno na sua condicionamentos e automatismos. Por exemplo, quando o bebê chora porque tem fome e
integralidade. Em decorrência disso, qualquer abordagem recebe o alimento, aprende a associar o choro ao recebimento do alimento.

b.
que pretenda reduzir a aprendizagem será ingênua. Isso
não significa que vamos conseguir avançar em todas as No segundo nível, são adicionados os conhecimentos declarativos/semânticos,
frentes ao mesmo tempo, sobretudo em populações organizados em esquemas mediante os processos básicos da estrutura cognitiva.
socialmente vulneráveis, mas o olhar para a integralidade A aquisição da linguagem é o exemplo mais relevante desse nível.

c.
deve nos orientar a olhar o aluno no contexto longitudinal, No terceiro nível, estão as estratégias e os métodos fracos e fortes utilizados voluntária
com foco na identificação de prioridades para o curto e conscientemente por meio dos processos cognitivos superiores, por exemplo, ao
prazo e também com planos de intervenção pedagógica relacionar os conceitos ou categorizá-los. Nesse nível, podem ser verbalizados conceitos,
contínua e monitorada para o médio e o longo prazos. definições e suas relações, de forma mais reprodutiva ou mais reconstruída, segundo os
Aprender sempre: esta é a meta. métodos fracos ou fortes utilizados na aprendizagem.

d.
O psicólogo americano Robert Kegan (2000), expressando
O quarto nível é o metacognitivo, que envolve o conhecimento, a consciência e o controle
um ponto de vista ancorado na psicologia construtivista do
dos outros níveis. Trata-se da consciência do próprio sujeito como aprendiz ou processador
desenvolvimento, afirmou acreditar que a maior parte dos
de símbolos, como propõe o modelo do processamento de informação.
objetivos desejados pelos educadores para seus alunos
– tais como mudanças na autoconfiança, na autoestima,
na autopercepção e na motivação para aprender – ocorre Esses níveis podem ser utilizados tanto para analisar Indivíduos metacognitivamente hábeis têm a capacidade
dentro de “molduras” de referências já existentes no tanto as etapas de desenvolvimento do indivíduo, como de incorporar e aplicar vários conhecimentos para
indivíduo e, como tal, acontece sem transformação da nos exemplos citados, quanto as etapas de aprendizagem aperfeiçoar o desempenho acadêmico, transformando-se
perspectiva que a pessoa tem de si mesma. A aprendizagem de um conhecimento novo. Dessa maneira, pode-se em aprendizes eficientes. Por exemplo, podem ser capazes
transformadora quer justamente despertar a capacidade diferenciar um aluno que desenvolve habilidades mais de saber o que sabem (conhecimento declarativo), como
Imagem 1: Alunos na nossa Unidade
Osasco II, em São Paulo. de alterar essa perspectiva. Portanto, se almerjarmos o eficientes de aprendizagem, isto é, que reconstrói e utilizar o que sabem (conhecimento procedural) e por
desenvolvimento integral do indivíduo, precisamos ajudá- opera conceitos, daquele que está apenas repetindo ou quê, onde e quando utilizar o que sabem (conhecimento
lo a desenvolver uma mudança epistemológica sobre como reproduzindo conceitos. condicional, contextual), aplicando as estratégias
o conhecimento é construído. relevantes ao objetivo da atividade cognitiva.
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Conceitos importantes para compreender a

06.
v proposta pedagógica do Alicerce Educação.

A aprendizagem
transformadora

05. A aprendizagem transformadora é aquela que permite o


desenvolvimento pleno do self na trajetória de vida da
de ferramentas culturais (os princípios e procedimentos
envolvidos no crescimento específico do domínio) podem
O aluno no centro do processo pessoa. Isso equivale a dizer que a pessoa alcança um
nível de desenvolvimento em que ela pode lidar com a
de fato ter exercido pressões seletivas sobre a evolução
das capacidades humanas.
de ensino e aprendizagem complexidade de diferentes contextos. Essa visão de Bruner é muito compatível com outra
Para alcançarmos a aprendizagem transformadora, tendência que surgiu na análise da inteligência humana e
precisamos de um ambiente contingente, que é aquele da construção da realidade. Introduzida originalmente por
O aluno está no centro do processo de ensino e que nos dá uma noção clara de quem é aquele aluno Vygotsky e defendida por seu círculo de seguidores, essa
aprendizagem porque, embora o ensino formal seja naquele exato momento, mas, ao mesmo tempo, posição é de que produtos culturais, como linguagem e
regido por um princípio dialógico, o ato de aprender consegue promover a evolução do self e a adaptação do outros sistemas simbólicos, podem mediar o pensamento
em si é ativo, autoral. Isso é facilmente explicado aluno. Ou seja, o ambiente contingente representa uma e colocar seu carimbo em nossas representações da
sob a perspectiva tanto da neurociência cognitiva da cultura de transição, uma ponte para a evolução, um realidade. Para Vygotsky, o desenvolvimento consiste
aprendizagem quanto da psicologia cognitiva, incluindo a contexto para a travessia (KEGAN, 1994). Na linguagem num processo de aprendizagem do uso das ferramentas
vertende da psicologia social. Ao assumirmos que o aluno do Alicerce, um ambiente contingente é onde a criança e intelectuais, através da interação social com outros mais
está no centro do processo de ensino e aprendizagem, o jovem se sentem seguros, bem-apreciados, bem-vindos experimentados no uso dessas ferramentas (uma delas é
precisamos compreender o desenvolvimento humano e e respeitados. O respeito ao aprendiz inclui o cuidado a linguagem). Dessa maneira, a aprendizagem precede o
adotar uma perspectiva personalizada desse processo de lhe oferecer desafios que estejam a seu alcance, nem desenvolvimento.
Existem várias implicações importantes de situarmos o fáceis demais nem difíceis demais. É nessa área que Bruner faz uma importante contribuição
aluno no centro do processo de ensino e aprendizagem, mas O psicólogo estadunidense Jerôme Bruner (1915-2016) ao estudar como as narrativas ajudam a construir a
vale destacar três: a primeira, como já mencionado, é que propôs em 1961 que o crescimento do conhecimento da realidade. Ele diz que, diferentemente das construções
se faz necessário entender como ocorre o desenvolvimento realidade– ou dos domínios mentais que permitem esse geradas por métodos lógicos e científicos – procedimentos
humano, pois o aluno torna-se sujeito da aprendizagem. crescimento – não é unilinear. O domínio de uma tarefa que podem ser eliminados por falsificação –, a construção
A segunda é que a metodologia pedagógica torna-se não assegura o domínio de outras que, em sentido formal, de narrativas é uma versão de realidade cuja aceitabilidade
uma ferramenta para desenvolver o aluno, mas não deve são governadas pelos mesmos princípios. Conhecimento é governada por convenções e pela necessidade, e não por
representar uma barreira a sua aprendizagem – se o aluno e habilidade, ao contrário, são específicos do domínio verificação empírica e exigência lógica. Isso é importante
não estiver aprendendo, devemos inovar, buscar novas e, consequentemente, desiguais em seu acréscimo, de porque o Alicerce desempenha uma oportunidade rara para
alternativas. A aprendizagem é a regra, e a métrica de sucesso maneira que princípios e procedimentos aprendidos muitos de nossos alunos desenvolverem narrativas de vida
do Alicerce é a aprendizagem bem-sucedida de nossos alunos, em um domínio não são transferidos automaticamente mais adequadas e integradoras de suas potencialidades.
em qualquer fase do desenvolvimento. A terceira implicação para outros domínios. Com isso, Bruner quer dizer que a A aprendizagem que transforma é aquela que permite
é que o aluno precisa perceber que ele é quem comanda aquisição do conhecimento é específica de cada domínio que o self seja atualizado permanentemente por
sua aprendizagem. Não existe aprendizagem de fato que e não é automaticamente transferível. Isso implica que meio de uma narrativa capaz de integrar um mundo
não seja autoral; mesmo a criança pequena, que ainda não cada maneira particular de usar a inteligência desenvolve com complexidade crescente. É nesse sentido que a
reflete objetivamente sobre isso, engaja-se na descoberta uma integridade própria – um tipo de conhecimento Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
e na aprendizagem quando tem um interesse nessa troca. Imagem 2: Alunos na nossa Unidade decorrente da interação das habilidades, ou seja, das Econômico (OCDE) – que, entre outras atribuições,
Disso decorre a importância de deixarmos claro para o aluno Osasco I, em São paulo.
ferramentas que dispomos para explorar uma certa organiza e analisa periodicamente os dados do Programa
o que ele vai aprender; contextualizar o tema e o processo área do conhecimento e construir sua integridade. É Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em
da aprendizagem, ancorando-a em conhecimentos prévios; como se cada domínio tivesse uma realidade própria, inglês) – adota o termo “aprendizagem das competências
e, por último, sempre fechar o ciclo com uma retomada do constituída pelos princípios e procedimentos que usamos para o século XXI”. O Pisa oferece informações sobre o
que foi ensinado e aprendido. O aluno precisa perceber que dentro dele. Poucas pessoas dominam toda a gama de desempenho dos estudantes na faixa etária dos 15 anos,
aprende um pouco (ou muito!) todos os dias. É esse sucesso ferramentas disponíveis num certo domínio: tornamo- vinculando dados sobre seus backgrounds e suas atitudes
incremental que garantirá seu engajamento de longo prazo. nos inteligentes em certas esferas e permanecemos em relação à aprendizagem e aos principais fatores que
incompetentes em outras em que, por assim dizer, não moldam sua aprendizagem, dentro e fora da escola.
usamos o conjunto correto de ferramentas para suas Desde sua primeira edição, em 2000, o número de países
questões mais relevantes. De fato, é possível ir ainda mais e economias participantes tem aumentado a cada ciclo; o
longe e argumentar, como alguns têm feito, que caixas Brasil participa do Pisa desde o início da avaliação.

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v Conceitos importantes para compreender a
proposta pedagógica do Alicerce Educação.

07.
Linguagem, cognição
e a construção da 08.
aprendizagem em espiral Metacognição
A linguagem é importante para o aumento da capacidade Essa ideia da aprendizagem em espiral pode ser A metacognição é a capacidade do ser humano de declarativo), como utilizar o que sabe (conhecimento
de lidar com conceitos abstratos. Bruner (1961) exemplificada na aprendizagem da matemática. Um aluno monitorar e autorregular os processos cognitivos procedural) e por quê, onde e quando utilizar o que sabe
argumenta que a linguagem pode codificar estímulos que aprende a somar vai progressivamente adotando (FLAVELL, 1987; NELSON & NARENS, 1996; STERNBERG, (conhecimento condicional, contextual), aplicando as
e libertar um indivíduo das restrições de lidar apenas estratégias mais eficientes e, com isso, ganha fluência e 2000). A essência do processo metacognitivo parece estar estratégias relevantes ao objetivo da atividade cognitiva.
com as aparências, para fornecer uma cognição mais velocidade para a solução dos problemas. Como exemplo, no próprio conceito de self, ou seja, na capacidade do ser Como vimos, a metacognição é um fator determinante da
complexa, porém flexível. O uso de palavras pode podemos observar o estágio de contagem e analisar humano de ter consciência de seus atos e pensamentos. aprendizagem formal. Por exemplo, em relação à leitura,
ajudar no desenvolvimento dos conceitos que eles uma estratégia precoce e comum para a resolução de Em poucas palavras, podemos dizer que a metacognição sabemos que, quanto mais intenso for o hábito de leitura
representam e pode remover as restrições do conceito problemas de adição: a contagem de dois adendos. Esse exerce a função autorregulatória do sistema cognitivo. do aluno, maior será sua capacidade de avaliar sua própria
“aqui e agora”. Para Bruner, o objetivo da educação não é procedimento às vezes é executado com apoio digital (a Por exemplo, no estudo acadêmico, à medida que os compreensão e, consequentemente, de utilizar estratégias
apenas transmitir conhecimento, mas também facilitar as estratégia de contagem nos dedos) e, em outras, sem alunos adquirem mais experiência, podem fazer melhor de leitura mais adequadas. Segundo Flavell (1987), as
habilidades de pensamento e resolução de problemas de ele (contagem verbal). A contagem dos adendos pode uso do tempo de estudo, selecionando os tópicos estratégias metacognitivas específicas desenvolvem-se ao
uma criança, jovem ou adulto que podem ser transferidas ser feita de diversas formas: dizer o adendo maior e relevantes e ignorando os irrelevantes. Com o passar mesmo tempo em que aumenta a experiência na área em
para uma variedade de situações. Especificamente, a contar o número referente ao adendo menor até chegar do tempo, os estudantes aumentam consideravelmente questão. Outra importante consideração é que a instrução
educação também deve desenvolver um pensamento ao maior; ou (com menos frequência) dizer o adendo o controle das estratégias que utilizam e de outros influencia o desenvolvimento metacognitivo, isto é,
simbólico em crianças. menor e contar o número referente ao adendo maior. processos cognitivos. quando a criança é exposta a um programa sistemático de
Foi Bruner quem introduziu o conceito de currículo Uma alternativa é contar os dois adendos a partir do Blakey e Spence (2000) indicaram três estratégias monitoramento de leitura compreensiva, sua habilidade
espiral. Isso envolve a estruturação de informações para número 1. A contagem contribui para o desenvolvimento metacognitivas básicas: (a) saber relacionar novas de leitura melhora.
que ideias complexas possam ser ensinadas em um nível de representações de fatos numéricos na memória de informações às já existentes; (b) saber selecionar estratégias Ainda sobre o tema da metacognição e da leitura, Leffa
simplificado primeiro e, depois, visitadas novamente em longo prazo, o que, por sua vez, dá suporte ao uso de de pensamento com um propósito; e (c) saber planejar, (1996) lembra-nos de que leituras que exigem maior esforço
níveis mais complexos. Portanto, as disciplinas seriam outros processos envolvendo a memória. Crianças com monitorar e avaliar os processos de pensamento. Nessa para serem compreendidas induzem ao aparecimento
ensinadas em níveis gradualmente crescentes e mais dificuldade para aprender matemática apoiam-se em perspectiva, segundo os autores, alunos que souberem de estratégias de maior comprometimento cognitivo,
difíceis (daí a analogia em espiral). Bruner propõe que os contagem digital por mais anos, adotam o procedimento utilizar com eficiência essas estratégias metacognitivas são levando a uma compreensão mais profunda do texto. Essa
alunos construam seu próprio conhecimento e que façam de contar do menor adendo para o maior até uma idade aprendizes eficientes. observação relaciona-se a uma das premissas básicas da
isso organizando e categorizando as informações com o uso mais tardia e cometem mais erros de contagem (GEARY, Psicologia Cognitiva: a de que, no funcionamento cognitivo,
Na aprendizagem eficiente, o indivíduo tem consciência
de um sistema de codificação. O papel do professor não 1993), ou seja, empregam estratégias mais primitivas do há uma estreita relação entre os objetivos e as estratégias
de seu processo de aprendizagem, da construção do
deve ser ensinar informações por meio de aprendizagem que seus pares. empregadas. Quanto mais difíceis forem os objetivos
conhecimento específico, das metas que deve alcançar e
mecânica, mas facilitar o processo de aprendizagem. Isso Do ponto de vista de um currículo espiral, o aluno com cognitivos, mais desenvolvidas devem ser as estratégias
das estratégias necessárias para alcançá-las, assim como
significa que um bom professor cria lições que ajudem essa dificuldade deveria continuar sendo desafiado a utilizadas para atingi-los, exigindo processamentos de alto
do próprio processo no momento em que ele ocorre.
o aluno a descobrir a relação entre as informações adquirir estratégias mais maduras, independentemente nível. De acordo com Stillings et al. (1995), aloca-se mais
Essa atividade em tempo real traz como consequência
apresentadas. O uso do currículo em espiral pode ajudar da obrigação curricular de partir para novos conteúdos. O energia mental, ou seja, um maior esforço cognitivo, nos
o processo autorregulatório, ou seja, o aluno passa
no processo de aprendizado por meio da descoberta, amadurecimento dos processos cognitivos e a aquisição processos cognitivos de alto nível. A leitura compreensiva
a incorporar e aplicar vários conhecimentos para
e qualquer matéria pode ser ensinada efetivamente, de novos conteúdos acontecem de maneira integrada, é um desses processos de alto nível.
aperfeiçoar seu desempenho acadêmico – por exemplo,
de alguma forma intelectualmente honesta, a qualquer pois para “aprender mais precisamos saber mais”. sendo capaz de saber o que sabe (conhecimento
criança em qualquer estágio do desenvolvimento.

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v Conceitos importantes para compreender a
proposta pedagógica do Alicerce Educação.

10.
Estratégias individuais de aprendizagem enfatizam as
qualidades construtivistas no processamento do conhecimento,
cujo objetivo final é desenvolver e aplicar conhecimentos para
resolver problemas, bem como gerar novos conhecimentos
Aprendizagem ativa usando processos cognitivos. A qualidade da aprendizagem
individual está relacionada à capacidade dos alunos de orientar
sua aprendizagem à investigação e ao controle de seus
Agora que já sabemos que a educação visa ao desenvolvimento processos de aprendizagem. A metacognição é um elemento
integral do aluno e que, por isso, o aluno deve estar no centro essencial da aprendizagem individual.
do processo de ensino e aprendizagem, podemos adentrar a A aprendizagem cooperativa, por sua vez, pode ser
questão da aprendizagem ativa. definida como uma estratégia de ensino para o trabalho em
A aprendizagem ativa pode ser definida como o processo de equipe, estruturado em grupos compostos por três ou mais
aquisição de conhecimentos, habilidades, valores e atitudes participantes, visando a objetivos comuns – os alunos trabalham
por qualquer estratégia educacional que envolva os alunos no juntos para alcançar um objetivo comum. Ao contrário do

09.
processo, levando-os a atividades e debates em vez de apenas trabalho em equipe simples, quando não há garantia de que
colocá-los na posição de ouvir passivamente as informações todos participem, o aprendizado cooperativo é uma base
fornecidas pelo professor (ANASTASIOU & ALVES, 2004). Essas com condições de aprendizagem altamente estruturadas,
estratégias são idealmente usadas para concluir aulas discursivas definidas de forma que um aluno não possa tirar proveito dos
A intencionalidade e ajudar os alunos a pensar de forma crítica ou criativa,
conversar com colegas ou com toda a turma, expressar ideias
esforços empenhados por outro. Entre as tarefas propostas
nessa metodologia, estão os exercícios realizados em etapas,
do ato de ensinar por escrito, explorar informações pessoais, atitudes e valores, os projetos de pesquisa, as apresentações e as simulações. Um
fornecer e receber feedback ou refletir sobre seu processo de dos modelos de aprendizagem cooperativa mais reconhecidos
aprendizagem. O conceito também inclui todas as práticas que e clássicos foi descrito por Johnson, Johnson e Smith (1998). Seu
Independentemente da metodologia pedagógica, a in- ajudam os alunos a aumentar a retenção de informações, como modelo incorpora cinco premissas consideradas críticas para a
tencionalidade do ato de ensinar é fundamental. a realização de pequenos exercícios escritos relacionados ao cooperação real: interdependência positiva, responsabilidade
Agir com intencionalidade pedagógica é organizar a aula conteúdo ou atividades mais complexas e em grupo aplicadas individual, interação promotora, habilidades sociais e
de maneira consciente, planejada e criativa, tornando-a a situações da vida real e/ou a novos problemas. Portanto, a processamento em grupo.
capaz de produzir um efeito positivo na aprendizagem dos aprendizagem ativa abrange um amplo e variado conjunto Recentemente, o Ministério da Educação de Singapura (2015)
alunos. Convém lembrar também que a intencionalidade de técnicas e métodos que geralmente exigem que os alunos introduziu o conceito de “ensinar menos, aprender mais” em
pedagógica vai além do ritual de planejamento de realizem atividades proativas significativas, estando cientes e seu currículo nacional. No Brasil, a Base Nacional Comum
conteúdo, incidindo principalmente na postura do responsáveis ​​pelo que está sendo feito (PRINCE, 2004). Curricular (BNCC, 2017) também enfatizou a importância
educador (o líder do Alicerce, em nosso caso), que deve Para além do engajamento dos educandos, Bruner (1961) de desenvolvermos competências de aprendizagem. Essa
buscar o tempo todo um diálogo franco, elucidativo, considera necessário que as metodologias ativas acionem perspectiva reforça a importância de a aprendizagem ser mais
formativo e proativo com seus alunos, ajustando representações que construímos sobre o mundo. Quando eficiente quando processos e competências são reforçados
precisamente seu discurso na tentativa de construir neles exploradas por meio de narrativas, essas representações em todas as disciplinas e atividades, ou seja, mais vale a pena
algo maior que a transmissão de conceitos e teorias. traduzem a interface entre o indivíduo e o social, e permitem garantir que o aluno aprenda menos disciplinas, mas de
Entendemos que, para uma aula estar didaticamente correta, um maior acesso sobre o modo de pensar, os desejos e os forma profunda e integrada, do que ensinar mecanicamente
sua execução deve passar por três fases fundamentais: (a) interesses das pessoas em uma determinada cultura. muitas disciplinas de forma descontextualizada, desintegrada
fase inicial, em que são apresentados os objetivos da aula; (b) Os elementos-chave da estratégia de aprendizado ativo são a e superficial. Na proposta do Alicerce, buscamos envolver o
fase intermediária, de execução das atividades programadas; participação e o envolvimento direto dos alunos nos processos aluno no processo de ensino e aprendizagem para que se torne
e (c) fase final, ou de síntese. de aprendizado. Quando o professor decide por uma estratégia progressivamente autônomo na busca do conhecimento.
A adoção de metodologias ativas, como fazemos no de aprendizado ativa, ela deve ser frequentemente usada para Ao mesmo tempo, garantimos foco nos domínios de leitura,
Alicerce, não exclui a necessidade das práticas de instrução ajudar os alunos a desenvolver tanto uma melhor compreensão escrita (língua portuguesa) e matemática, pois sua progressão
explícita, sempre que pertinentes. do assunto como habilidades e atitudes (competências para contínua permite o desenvolvimento aprofundado das
A leitura, a escrita e a matemática precisam ser promover a aprendizagem profunda). Apenas uma menor habilidades cognitivas específicas.
formalmente ensinadas. A instrução explícita facilita parte da atividade deve ser usada para transmitir informações Para os alunos que frequentam o Alicerce todos os dias,
Imagem 3: Aluno com um líder na o pensamento de ordem superior e a aprendizagem (para promover aprendizado superficial). Alguns estudos têm acrescentamos as trilhas de inglês e programação, que
Unidade Butantã, em São Paulo. mostrado que a chave para uma aprendizagem bem-sucedida são conhecimentos importantes no mundo do trabalho
problematizadora. Ela fornece aos alunos que costumam
ficar de fora do aprendizado ativo as informações e e significativa parece ser a combinação de aspectos positivos contemporâneo.
habilidades necessárias para se envolver. E mais: não das três abordagens: melhorar a compreensão sobre o assunto As habilidades de vida são desenvolvidas como uma trilha
serve apenas para habilidades acadêmicas básicas; os ensinado, desenvolver habilidades cognitivas e desenvolver exclusiva, para que possamos monitorá-la e orientar a
alunos geralmente precisam de modelagem explícita e atitudes positivas e proativas face à aprendizagem (COIL, 2010). intencionalidade da proposta. A trilha prevê três frentes de
feedback também sobre habilidades de ordem superior, A atividade dos alunos pode se manifestar por meio de desenvolvimento: “eu comigo mesmo”, “eu e o outro”, e “meus
como tomada de decisão e habilidades sociais. estratégias de aprendizado individuais ou cooperativas. planos e metas”.
14 15
v Conceitos importantes para compreender a
proposta pedagógica do Alicerce Educação.

12.
Diferenciação da instrução
11. e rotação por estações
de aprendizagem
A mediação da
aprendizagem por
meio do scaffolding A expressão “diferenciação da instrução” refere-se a uma
abordagem de intervenção pedagógica que antecipa
forem 45 minutos, por exemplo, uma estratégia é definir
três módulos, para que os estudantes tenham 15 minutos
(patamares de suporte) a diversidade de níveis de aprendizagem num grupo em cada um.
de alunos e, portanto, oferece diferentes maneiras de No planejamento, o educador também deve considerar
engajamento na atividade, diferentes propostas para o pelo menos um momento individual, outro em grupo e
desenvolvimento da atividade e diferentes opções de outro usando alguma tecnologia.
Na educação, o termo inglês “scaffolding” refere-se a uma Em resumo, quando planejamos uma atividade, temos
apresentação dos resultados. Enfim, a diferenciação é Nos casos em que o grupo é muito heterogêneo, o
variedade de técnicas instrucionais usadas para ajudar que considerar também os apoios que serão oferecidos
uma forma de garantir maior equidade para um grupo educador pode optar por não fazer o rodízio entre as
os alunos a se moverem progressivamente em direção para que todos os alunos possam finalizá-la. Esses apoios
sempre diverso de alunos. estações e apenas distribuir os alunos em estações
à compreensão mais profunda de um conhecimento e, podem variar em função do nível do desafio proposto,
Para oferecer atividades diferenciadas, no entanto, que ofereçam desafios com diferentes níveis de
finalmente, a uma maior independência no processo de da extensão da atividade, do formato de entrega, do
é importante que o educador planeje e prepare as complexidade. Essa é uma maneira eficiente de conseguir
aprendizagem. O próprio termo “scaffolding” – traduzido tempo para finalização etc. Isso não significa eleger
atividades antecipadamente e conhecendo os diferentes atender a alunos que estejam em pontos diferentes do
como “andaime” ou “patamar” em português – oferece alunos e colocá-los à parte do processo instrucional; pelo
níveis de desenvolvimento de seus alunos. Por exemplo, processo de aprendizagem. Por exemplo, no caso do
uma metáfora descritiva relevante: os professores contrário, o que queremos é que eles sejam encorajados
em uma atividade de matemática, pode haver alunos que ensino de aritmética, podemos ter alunos trabalhando
fornecem níveis sucessivos de apoio temporário, a assumir o desafio de concluir com sucesso a tarefa que
ainda precisem de apoio concreto para realizar adição, em subtração e adição, enquanto outros já se dedicam
que ajudam os alunos a alcançar níveis mais altos de lhes foi proposta, mesmo que isso demande intervenções
outros que precisem de lápis e papel ou de contagem nos à multiplicação ou à divisão. Novamente, o importante
compreensão e aquisição de habilidades que não seriam do líder (educador).
dedos, e um grupo com estratégias mais amadurecidas é recorrer à observação da aprendizagem de cada aluno
capazes de alcançar sem assistência. Assim como os Por exemplo, para a leitura bem-sucedida de um texto,
que já pode usar apenas cálculo mental. Se quisermos e aos resultados da avaliação adaptativa para fazer a
andaimes físicos, as estratégias de suporte são removidas podemos prever que parte dos alunos conseguirá lê-
que todos se engajem e se desenvolvam, devemos distribuição mais adequada em estações. Não obstante,
gradualmente quando não são mais necessárias, e lo em toda a sua extensão e responder às questões de
oferecer estratégias para esses diferentes grupos. se uma atividade estiver fácil ou difícil demais para
o professor gradualmente transfere ao aluno mais interpretação depois de aplicar estratégias de leitura.
responsabilidade sobre o processo de aprendizagem. Uma maneira eficiente de organizar grupos para diferenciar determinado aluno ou grupo de alunos, interfira no
E o que fazer com os alunos que não conseguem ler
a instrução é a distribuição dos alunos em estações de decorrer da aula e reorganize a distribuição das estações
Essa assistência é amplamente considerada como todo o texto, ou que não tiverem recursos estratégicos
aprendizagem. Cada estação é uma “base” com uma ou, ainda, as propostas desenvolvidas em cada uma.
um elemento essencial do ensino eficaz, e todos desenvolvidos para extrair todas as informações do
proposta de atividade específica, podendo estar organizada Um fator importante a ser considerado é a maneira
os professores – em maior ou menor grau – quase texto lido? Temos que prever que parte dos alunos
em uma mesa, em um conjunto de mesas, em um cantinho como o educador organiza o espaço físico da sala de aula,
certamente usam várias formas de apoio instrucional não conseguirá ler com compreensão e, para tanto,
no chão da sala, em bancadas com computadores, enfim, pois ele pode – ou não – promover a interação dos alunos
em seu ensino. Além disso, o apoio é frequentemente devemos ter atividades diversificadas ou diferenciadas
existe uma gama enorme de possibilidades que podem ser e influenciar os papéis de todos os envolvidos no processo
usado para preencher as lacunas do aprendizado, ou para oferecer-lhes: podemos usar uma versão mais
exploradas para a criação das estações. de aprendizagem. Salas com carteiras enfileiradas
seja, a diferença entre o que os alunos aprenderam e o simplificada do texto, selecionar apenas um trecho do
que se espera que eles saibam e possam fazer em um texto, apresentar imagens ou ler o texto em voz alta O modelo de rotação por estações de aprendizagem prioriza indicam uma proposta de aula diferente da que possui
determinado momento de sua educação. Por exemplo, para facilitar a compreensão, inserir um glossário com uma espécie de circuito. Ou seja, os alunos podem ser divididos carteiras organizadas em semicírculo ou em pequenos
se os alunos não estiverem no nível de leitura necessário vocábulos desconhecidos ou pouco usuais, ou elaborar em grupos e, por um tempo previamente determinado pelo grupos. Da mesma maneira, é possível alcançar objetivos
para entender um texto, o professor poderá usar suportes questões em etapas... Enfim, existem inúmeras variações professor, revezam-se em atividades distintas. pedagógicos diferentes a partir do uso inteligente das
instrucionais para melhorar gradualmente sua capacidade possíveis. O importante é entender até onde o aluno Ao planejar, pense a aula definindo missões para cada possibilidades que o ambiente proporciona.
de leitura até que consiga ler o texto com autonomia e consegue fazer sozinho e a partir de que ponto ele só estação. Quantas estações de aprendizagem serão Por isso, o educador deve considerar que há momentos
sem assistência. Um dos principais objetivos do apoio é consegue fazer com apoio ou mediação. Um exemplo criadas? Qual tema será tratado em cada uma? Como o em que o estudante pode aprender melhor em grupos
reduzir as emoções e autopercepções negativas que os de apoio ou mediação é a famosa dica para facilitar o assunto será tratado em cada uma? Uma forma comum grandes; em outros, será mais adequado optar por dividir
alunos podem experimentar quando ficam frustrados, entendimento. É exatamente nesse intervalo, cunhado de estruturar a aula é dedicar cada estação a partir da a classe em grupos menores; há também situações em
intimidados ou desencorajados ao tentar uma tarefa pelo psicólogo russo Lev Vygotsky (1896-1934) de zona forma como os alunos aprenderão – reflexão em grupo, que o aluno vai refletir melhor se estiver sozinho; e há
difícil sem a assistência, a direção ou o entendimento de desenvolvimento proximal, que vamos conduzir o exercícios ou mentoria. Também é possível definir a momentos em que, na mesma turma, mais de uma
necessário para concluí-la. aluno pelo scaffolding. quantidade de estações a partir da duração da aula. Se dessas possíveis configurações pode ser adotada.
16 17
v Conceitos importantes para compreender a
proposta pedagógica do Alicerce Educação.

14.
13. Aprendizagem ao
Sala de aula invertida longo da vida

A sala de aula invertida, ou flipped classroom, é uma A proposta da aprendizagem ao longo da vida relaciona-se
metodologia que busca valorizar o tempo do encontro não apenas com o ensino do adulto, mas, sobretudo, com
presencial de alunos e educadores para atividades mais a ideia de que o processo de aprendizagem é permanente
criativas, como estudos de caso, debates e resoluções e deve permitir que o indivíduo tenha o interesse, a
de problemas em grupo. Para prolongar a interação motivação e a emoção que o levam a aprender sempre,
dos alunos e professores, precisamos que os alunos assim como o desenvolvimento pessoal que ela promove.
dediquem algum tempo, antes da aula e fora da classe, Na educação de jovens e adultos, precisamos identificar
para se familiarizar com o tema ou tópico da aula. quais cenários de aprendizagem podem estimular mais
A sala de aula invertida é uma boa aliada do chamado a aprendizagem autodeterminada, que se desencadearia
ensino híbrido, ou blended learning, um tipo de quando as esferas privada (suas necessidades individuais)
metodologia ativa que combina atividades on-line e off- e pública (as necessidades da comunidade, da sociedade)
line. A sala de aula invertida encaixa-se nesse conceito, são conjuntamente pensadas pelo aprendiz.
já que o advento das novas tecnologias para a educação Além disso, é necessário que as instituições de ensino
― como os ambientes virtuais de aprendizagem ― valorizem a experiência prática do conteúdo, de forma a
possibilitou que conteúdos passassem a ser apresentados levar a uma aprendizagem que possa ser adjetivada como
aos alunos por meio de recursos digitais, que podem ser autêntica e transformadora. Essa perspectiva biográfica
usados no estudo a distância ou presencial, como forma (narrativa) da aprendizagem torna o sujeito consciente
de preparação para os encontros presenciais. de sua história de vida e, por meio da metacognição, o
Entre esses recursos, podemos destacar: faz tomar conhecimento das especificidades de seus pró-
vídeos; prios processos de aprendizagem. Ou seja, ele passa a
v v v v v v v v

postagens de blog; saber identificar suas próprias estratégias de aprendiza-


e-books (livros eletrônicos); gem, quais fatores o motivam e quais representam obs-
podcasts; táculos. Essa análise resulta, idealmente, em um cenário
games; de aprendizagem autodirigida. O britânico John Heron
exercícios on-line; (1992) afirmou que “a aprendizagem é necessariamente
webinars; Imagem 4: Alunos com um líder na Unidade autodirigida: ninguém pode aprender por você. O inte-
fóruns e grupos de discussão. Vila Matilde, em São Paulo. resse, o comprometimento, o entendimento e a retenção
No Alicerce, dada a estrutura multisseriada de são todos autônomos, autogerados e autossustentáveis”.
nossas turmas, a sala de aula invertida é um recurso
importante porque permite que diferentes tópicos sejam
encaminhados para determinados alunos, a partir dos
dados de seus assessments e monitoramentos. Trata-se
de uma maneira de alcançar alunos em diferentes níveis
de desenvolvimento. O momento do encontro presencial
na sala de aula é quando a mediação (scaffolding) ocorre,
e os líderes podem ajudar alunos que estejam estudando
tópicos diferentes. Isso evita que seja reproduzido o
modelo de um professor dando uma aula expositiva
o tempo todo, para alunos com interesses, níveis e
necessidades instrucionais diferentes. Aproveitar bem
essa dinâmica da sala de aula invertida, considerando a
variedade de alunos em uma turma, é um grande trunfo Imagem 5: Aluna durante a aula de Robótica na
no modelo do Alicerce. Unidade Guarulhos, em São Paulo.
18 19
v Conceitos importantes para compreender a
proposta pedagógica do Alicerce Educação.

Princípios do Desenho
Universal da Aprendizagem

15.
Desenho universal para
a aprendizagem (DUA)
1 2 3
Proporcionar múltiplos Proporcionar múltiplos Proporcionar múltiplos
meios de envolvimento meios de representação meios de ação e expressão
O conceito de Desenho Universal para a Aprendizagem Na perspectiva do CAST (2011), a abordagem do DUA
(DUA, em inglês Universal Design for Learning – UDL) é relaciona-se, ainda, com conceitos descritos por autores
atribuído a David Rose, Anne Mayer e seus colegas como Piaget, Vygotsky, Bruner e Bloom, que se preocupa-
do Center for Applied Special Technology, nos Estados ram com o processo de ensino e aprendizagem, ajudando
Unidos (CAST) (EDYBURN, 2010; ALVES, RIBEIRO e a compreender o modo como se aprende, as diferenças
SIMÕES, 2013) e corresponde a um conjunto de princípios individuais e a pedagogia necessária para enfrentar essas
e estratégias relacionados com o desenvolvimento diferenças. A importância de se estabelecerem “andaimes”
curricular (CAST, 2014) que procura reduzir as barreiras que favoreçam a aprendizagem, sublinhada por Vygotsky

v v v
ao ensino e à aprendizagem (DOMINGS, CREVECOEUR e Bruner, constitui um dos pontos-chave a serem conside-
e RALABATE, 2014; RAPP, 2014). rados na abordagem curricular do DUA. Essa abordagem
Tais princípios e estratégias permitem ao educador é também influenciada pelos conhecimentos resultantes
definir objetivos de ensino e criar materiais e formas de das neurociências, nomeadamente os sistemas envolvidos
avaliação que se adequem a todos os alunos, de modo na aprendizagem. Segundo vários autores (cf. CAST, 2011;
que todos possam aprender na via comum de educação COUREY et al., 2012; ROSE & MEYER, 2002), as neuroci- Estimular o interesse dos Apresentar a informação Permitir formas alternativas de
(CAST, 2014; KING-SEARS, 2014). Esse conjunto de ências fornecem uma base sólida para a compreensão de alunos e motivá-los para a e o conteúdo em múltiplos expressão e de demonstração
princípios procura também manter “altas expetativas como o cérebro aprende e como se pode proporcionar aprendizagem recorrendo formatos para que todos das aprendizagens, por parte
para todos os alunos, incluindo os que apresentam algum um ensino eficaz. Esses conhecimentos evidenciam que a
a múltiplas formas tenham acesso dos alunos
tipo de deficiência” (RAPP, 2014, p.2). Trata-se, portanto, aprendizagem é um processo multifacetado, que envolve
de uma abordagem que se propõe a pensar o currículo o uso de três sistemas básicos, a saber: as redes afetivas,
de forma a reduzir os fatores de natureza pedagógica que as redes de reconhecimento e as redes estratégicas (ver
podem dificultar o processo de ensino e aprendizagem, figura 1, a seguir).
assegurando o acesso, a participação e o sucesso de As redes afetivas relacionam-se com a motivação para
todos os alunos. a aprendizagem e ajudam o sujeito a determinar o que
Com abordagens flexíveis, personalizadas e adequadas é importante aprender; as redes de reconhecimento
às necessidades individuais, o DUA permite definir referem-se ao que aprendemos; e, por último, as redes Figura 1. Princípios básicos do Desenho Universal da Aprendizagem
objetivos educativos e equacionar estratégias, materiais estratégicas são relativas a como aprendemos e nos (baseado no National Center on Universal Design for Learning, 2014,
e formas de avaliação pertinentes para todos os alunos, indicam como fazer as coisas (COUREY et al., 2012; MEYER acessível em www.uldcenter.org)
e não apenas para alguns (CAST, 2014; RAPP, 2014). et al., 2014). De acordo com as neurociência cognitiva, as
Como afirma Edyburn (2010), nessa abordagem os três redes não funcionam exatamente da mesma forma Em poucas palavras, o Desenho Universal da Aprendizagem mendamos que sejam propostos: (a) múltiplos meios de
ambientes de ensino, os materiais e as estratégias são em todas as pessoas – por exemplo, algumas podem ter é uma abordagem que prevê que se pense antecipadamente engajar os alunos nas atividades, por meio de propostas
equacionados de modo a responder às características e mais capacidades no nível da rede de reconhecimento, nas possíveis barreiras de acesso à aprendizagem para que que sejam interessantes e estejam dentro de suas habi-
necessidades de todos os alunos. Para que isso aconteça, outras podem ter mais fragilidades na rede afetiva (ROSE sejam evitadas no ambiente de ensino. As barreiras de lidades, nem muito fáceis nem muito difíceis; (b) múlti-
os docentes deverão demostrar flexibilidade: (a) na & MEYER, 2002). Com base nessa ideia de que cada acesso à aprendizagem, de acordo com o DUA, podem ser plos meios de apresentação dos conteúdos, garantindo
forma como envolvem/motivam os alunos nas situações aprendiz é diferente e tendo como finalidade facilitar o de três categorias: falta de interesse do aluno; informação variedade de estímulos sensório-motores – movimento,
de aprendizagem; (b) no modo como apresentam acesso de todos os alunos ao currículo comum, o CAST apresentada em formato que o aluno não compreende ritmo, recursos auditivos, recursos visuais, recursos mul-
a informação; e (c) na forma como avaliam os alunos, desenvolveu três princípios (ver Figura 2), que procuram bem; e falta de oportunidade para o aluno expressar o timodais –; e (c) múltiplos meios para o aluno experimen-
permitindo que as competências e os conhecimentos orientar os docentes sobre como podem tornar suas que está aprendendo. tar e expressar o que está aprendendo, garantindo que
adquiridos possam ser manifestados diversificadamente aulas mais acessíveis (CAST, 2012, 2014; DOMINGS et al., A diferenciação da instrução é uma maneira de colocar as entregas possam ser realizadas por meio de expressão
(KATZ, 2014). 2014; MEYER et al., 2014). o desenho universal em prática, e é por isso que reco- corporal e artística, expressão oral, expressão escrita etc.
20 21
v Conceitos importantes para compreender a
proposta pedagógica do Alicerce Educação.

16.
c. Como controlar o comportamento d. Posso ajudar os alunos a realizar b. A turma acha que toda regra
dos alunos? suas atividades? é negociável.
É necessário estabelecer regras e rotinas que devem ser Sim, o educador/líder é um facilitador da aprendizagem Os combinados são uma maneira eficiente de fazer a gestão
do aluno e, como tal, deve concentrar esforços para democrática da sala. Eles podem se referir, por exemplo, à
Gestão da sala de aula
cumpridas por todos para que a sala de aula se torne um
ambiente mais seguro e previsível. Assim, alunos e líderes tornar os alunos mais ativos e participantes da organização da classe e dos materiais. Porém, em pontos
se sentem mais confortáveis, e todos se envolvem em construção da aula e do conhecimento. Para assumir como horários das aulas e não tolerância a agressões, não
interações produtivas. As normas de comportamento são esse papel, o líder com frequência deixa de ser existe negociação. Com relação a questões dessa natureza,
Gerir a sala de aula é realizar ações para estabelecer e fundamentais para o bom desenvolvimento do trabalho aquele que detém o conhecimento e o transmite ao o educador precisa se valer de sua autoridade, mas sem ser
manter um ambiente ordenado e atencioso, onde os alunos em grupo, pois permitem que docentes e estudantes se estudante, e passa a ser um mediador nos processos autoritário. Converse com as crianças e explique o motivo
possam se engajar em aprendizado significativo e onde o concentrem no ensino e na aprendizagem. O ideal é que de ensino e de aprendizagem. Retomando o conceito de a regra existir, para que todas percebam a necessidade
crescimento emocional e social da turma seja estimulado. as regras e rotinas sejam construídas colaborativamente, da zona de desenvolvimento proximal, o líder deve dela. Aproveite para explicar o que acontece quando uma
Essas ações são como uma caixinha de ferramentas resultando no que chamamos de combinados. Esses orientar o aluno sempre que ele tiver dúvida na norma desse tipo é quebrada.
que podem ser usadas pelo educador/líder em situações combinados precisam ser retomados no início de cada resolução de suas atividades. Em algumas situações, o c. O aluno só responde quando tem certeza.
específicas. A partir do que sabe sobre a turma que será sprint pedagógica para que todos os novos alunos e líder também pode pedir que alunos que já dominam Incentive a criança a dar resposta também quando tiver
montada, ele deve planejar com antecedência como novos líderes possam se familiarizar com eles. A lista certos conhecimentos expliquem a atividades a seus dúvidas, pois, mesmo que sua conclusão esteja errada,
organizará os alunos para que suas aulas fluam bem. desses combinados deve ser apresentada por escrito, se colegas – implementando a aprendizagem entre pares alguns colegas podem ter feito o mesmo raciocínio. Peça
Naturalmente acontecerão imprevistos, mas, com o possível com ilustrações (para o caso de alunos ainda não (peer-learning), uma prática bastante produtiva por que ela explique o que pensou; para ajudá-la a reconstruir
planejamento adequado dos conteúdos e das atividades alfabetizados), e disponibilizada em local visível e à altura facilitar o entrosamento entre os alunos e melhorar esse caminho, faça perguntas. Também não se contente
didáticas e com a experiência que se adquire com o dos olhos dos alunos. o entendimento tanto daquele que explica quanto quando um estudante acertar: ele vai aprender mais se você
tempo, o educador/líder conseguirá retomar o equilíbrio No entanto, toda organização também tem regras que não daquele que recebe a explicação. pedir que justifique sua conclusão. Quando temos de contar
da situação com mais facilidade. são negociáveis e que garantem seu bom funcionamento e. As atividades devem ser feitas em aos outros algo que sabemos, desenvolvemos outra valiosa
A seguir, comentamos algumas das dúvidas que e o atingimento das metas propostas. No caso do Alicerce grupo ou individualmente? habilidade, que é a metacognição. Por fim, instigue os
podem surgir no dia a dia do líder do Alicerce (alguns não é diferente, e gestores e líderes devem observar as O trabalho em grupo (três ou mais alunos) e o traba- demais a dizer se e por que concordam com a opinião dada.
exemplos foram adaptados a partir do site Nova Escola regras de ouro – normas para todos que frequentam o lho independente (aluno sozinho) são complementa- d. Algumas crianças não interagem.
– www.novaescola.org.br): polo. O coach instrucional desenvolve importante papel res. A escolha de uma ou outra modalidade depende- Passe sempre pelas carteiras para verificar se todos estão
ao orientar e ajudar na implementação dessas regras nos rá do objetivo. O trabalho em grupo tem o benefício participando das atividades realizadas em duplas ou em
a. Os grupos de trabalho serão
polos. No entanto, o coach é responsável por uma tribo de motivar mais os alunos, fortalecer o desempenho grupos. Cabe a você ensinar os alunos a produzir de forma
homogêneos ou heterogêneos? da turma, impulsionar mais envolvimento no aprendi-
A opção por um ou outro formato de grupo dependerá com até oito polos e, dessa forma, não é diretamente cooperativa. Peça que expliquem qual é a função de cada
responsável pela implementação das regras de ouro zado e promover maior interação entre a diversidade um no grupo e como estruturam o trabalho. Com o tempo,
do objetivo da atividade. As turmas do Alicerce são
e da rotina nos polos. Sua função é orientar gestores e de alunos, além de melhorar a relação entre os es- isso os ajudará a se organizar com mais autonomia. Sempre
multisseriadas, o que já lhes confere uma característica
heterogênea do ponto de vista do desenvolvimento. líderes para que alcancem seus objetivos pedagógicos em tudantes e deixá-los menos tempo ociosos, esperan- que necessário, auxilie na organização e na distribuição das
Apesar de estarem em faixas etárias distintas, muitos seus respectivos polos. Quando houver dificuldades ou do pela ajuda do professor. O trabalho independente funções. Nas atividades em grupo, é importante assumir a
dos alunos em uma mesma turma podem ter nível imprevistos que atrapalhem o bom desenvolvimento das permite ao educador/líder observar o desempenho postura cooperativa, em que cada aluno tem uma parte a
de conhecimento similar. Então, no momento do aulas ou do polo, o gestor e seu grupo de líderes se reúnem de cada um dos estudantes, fornecer apoio e feedba- cumprir, assim evita-se que alguns alunos sejam excluídos
ensalamento – que é a distribuição dos alunos nas turmas para discutir o problema e sugerir um encaminhamento ck individualmente, conversar e orientar de forma (ou se excluam) da atividade.
e acontece a cada dois meses no Alicerce, ou seja, após do assunto ao respectivo diretor regional. O diretor mais personalizada.
e. Há muita conversa durante as atividades.
cada assessment –, o gestor do polo e o líder consideram regional, por sua vez, deliberará sobre o assunto com o A maneira de conduzir a relação entre os alunos,
qual é a melhor maneira de organizar a classe. Devem ser Interação não tem nada a ver com indisciplina. Uma aula
diretor geral e com a diretoria pedagógica, e retornará interagir com eles e propor as atividades interfere na
levados em consideração aspectos como desempenho no que valoriza a troca de ideias é ruidosa porque as crianças
ao grupo. Já o monitor do polo do Alicerce desempenha aprendizagem. Veja, nos exemplos a seguir, como você
assessment, aptidões, interesses e capacidade linguística, falam, argumentam, compartilham e questionam soluções
papel de assistente para o bom funcionamento do pode atuar nas situações em que há problemas de
entre outros. e hipóteses, e esse diálogo favorece o desenvolvimento
polo. É atribuição do monitor supervisionar os alunos comunicação (exemplos extraídos e adaptados do site
cognitivo. Para que a aula não vire bagunça, observe se a
b. Como promover o entrosamento e nos intervalos, antes e após as aulas, além de cuidar de Nova Escola – www.novaescola.org.br).
discussão gira em torno do tema proposto para a atividade.
a colaboração entre os alunos? questões gerais da rotina do polo, como organização e a. Os estudantes não entendem
Caso a conversa seja sobre outra coisa qualquer, ajude os
Crie situações para que os estudantes sintam a ne- limpeza do ambiente, e segurança na entrada e saída de as orientações.
alunos a retomar o foco de onde pararam; uma maneira de
cessidade de trabalhar com seus colegas e, conse- alunos e seus responsáveis. O monitor não exerce papel Ao apresentar uma atividade, use exemplos e explique de
fazer isso é lançar algumas perguntas que estimulem todos a
quentemente, percebam que o outro é importante pedagógico específico, mas, sem dúvida, deve cuidar várias maneiras o que deve ser feito. Peça para que os alunos
refletir com você sobre o assunto que está sendo estudado.
para o sucesso de todos na realização das tarefas. A do ambiente Alicerce e assegurar que as regras de ouro digam o que entenderam sobre a orientação que receberam.
interdependência positiva é uma das principais carac- sejam respeitadas, afinal todos que frequentam o polo Circule pela sala e observe como as crianças estão realizando
terísticas que faz com que o trabalho em grupo se são educadores de nossos alunos e precisam ser bons a tarefa. Nesse momento, você pode intervir caso ainda haja
transforme em aprendizado. modelos daquilo que pretendemos alcançar. dúvida e garantir que todos trabalhem bem.
22 23
v Conceitos importantes para compreender a
proposta pedagógica do Alicerce Educação.

f. Nem todos são ouvidos no decorrer da aula. k. Há crianças com deficiência na sala. n. Falta tempo para terminar a atividade. de castigá-los, mas de ensiná-los que as regras existem
Dentro da diversidade de alunos, existem aqueles que têm Mesmo com todo o planejamento, a aula às vezes não é para serem cumpridas. Esta é uma importante habilidade
Muitas vezes, é difícil prestar atenção em todos os alunos
alguma deficiência. As deficiências podem ser motoras suficiente para concluir a proposta. Se isso acontecer, é social, e devemos aproveitar as oportunidades para de-
e você pode acabar interagindo só com alguns. É impor-
(paralisias, amputações etc), sensoriais (deficiência auditiva, necessário ter clareza do que são atividades estruturantes senvolvê-la. O clima de sala de aula é responsabilidade
tante, porém, assegurar que cada um tenha a oportuni-
visual) ou intelectuais (rebaixamento cognitivo isolado – essenciais para o desenvolvimento do conhecimento do líder/educador.
dade de ser ouvido, inclusive aqueles mais quietos, que
se esquivam. Uma estratégia é, em cada momento da ou em decorrência de alguma síndrome ou adquirida – e complementares. No primeiro caso, reveja o que foi s. Você é surpreendido por uma pergunta.
aula, priorizar a participação de alguns estudantes. pós-trauma). Para possibilitar que esses alunos façam previsto e dê continuidade ao trabalho no outro dia. Se Não dá para deixar o aluno sem resposta, pois, se isso
as atividades, providencie com antecedência recursos a proposta interrompida for complementar, uma opção é acontece, ele se sente desvalorizado e não vê a escola
g. A turma se mostra desmotivada.
e materiais adaptados de acordo com a dificuldade de pedir que a turma termine no ambiente Alicerce, fora do como um lugar para aprender. No entanto, a sinceridade
Situações instigantes e projetos bem elaborados são o que
cada um deles. O primeiro passo é identificar o que pode horário da aula. De todo modo, reserve uns minutos na aula é um ponto básico. No caso de não saber responder
costuma motivar os estudantes. O que você propõe deve
ajudá-los a aprender. Converse com os responsáveis pela seguinte para dar um fechamento à proposta. Isso evita a uma questão, diga a verdade, pergunte o que o aluno
fazer sentido para eles. Esteja sempre atento aos pontos
criança e verifique se ela já conta com algum atendimento que as crianças deixem de dar atenção à complementação conhece sobre aquilo e comprometa-se a buscar mais
de vista e aos interesses da turma. Dê oportunidade
educacional especializado (AEE) que você possa consultar. que foi pedida. informações sobre o assunto. Se a dúvida desencadear
para os alunos mostrarem suas opiniões, reservando
Se essa estrutura não estiver disponível, compartilhe suas o. Uma criança se nega a participar da aula. um debate produtivo na turma, anote-a para incluí-la em
momentos para que argumentem. Outras dicas básicas:
dúvidas e o planejamento com o coach, para pensarem Converse com ela para saber o motivo, como ter discutido seu planejamento. Essa atitude mostra como é ampla a
variar sempre as atividades, usar diferentes recursos
juntos a solução mais adequada. com um colega, ou não ter compreendido o conteúdo. dinâmica do conhecimento.
(como os tecnológicos e os jogos) e estimulá-los a querer
saber mais (a curiosidade é uma ferramenta poderosa). l. A turma resiste a uma atividade nova. Por exemplo, pode ser que determinado aluno se recuse a
A falta de familiaridade com uma proposta ainda participar de uma atividade de leitura por não se interessar
h. Um aluno termina a tarefa
desconhecida pode deixar os alunos apreensivos e pelo material; nesse caso, procure adaptar o planejamento
antes dos demais.
receosos, o que não deve impedi-lo de apresentar novas e utilizar outros textos para incentivá-lo a ler.
Para evitar que os alunos mais rapidinhos fiquem ociosos,
sem aprender e, ainda, atrapalhando os colegas, tenha
situações a eles. Se os objetivos estiverem claros, persista p. Alguns estudantes se desentendem.
na ideia, mas tenha paciência para ajudar o grupo a se Conflitos sempre vão surgir durante as aulas. Além de parar a
sempre uma atividade extra preparada. Crie alguns
adequar ao que foi pedido. Muitas vezes, um período de briga, você tem de ajudar a resolvê-la. A solução não é punir,
cantos de atividades; quando alguém terminar o que
adaptação é necessário. Por isso é importante conhecer mas ouvir o agredido e o agressor e mediar o diálogo, assim
foi pedido, sugira que escolha um canto e se engaje nas
bem o desempenho dos alunos no assessment: para podem refletir sobre o que levou ao desentendimento, como
atividades. Os temas para os cantos podem ser decididos
partir daquilo que eles já conhecem. Algumas crianças, lidaram com ele e as consequências. Isso evita que o mal-
com a turma toda semana, podendo incluir desde jogos,
por exemplo, podem se negar a escrever acharem que estar se mantenha e interfira na dinâmica da sala. Se achar
ilustrações, pinturas, quebra-cabeças até livros, gibis e
não sabem. Incentive-as a fazer do jeito que conseguirem conveniente, peça que todos debatam a questão, focando
revistas. Procure selecionar parte dos materiais de acordo
e ajude-as a perceber os pequenos incrementos dia a dia. sempre o problema, e não uma ou outra criança. Solicite
com os assuntos vistos naquela sprint pedagógica.
Isso dará autoconfiança para que sigam avançando. orientação ao coach instrucional se o problema persistir.
i. Alguns estudantes não sabem o conteúdo.
m. Os alunos já sabem o que eu q. Os agrupamentos não funcionam.
Considere que o nível dos alunos em uma turma sempre
estou ensinando. Nem sempre é possível saber como duas ou mais crianças
será heterogêneo. Planeje atividades paralelas de acordo
com os diferentes níveis de conhecimento dos alunos, Pode acontecer de o planejamento incluir conteúdos agirão juntas, mas cabe a você ensinar todas a trabalhar
e acompanhe-os individualmente. Se a maioria tem que os alunos já conhecem. Por isso as avaliações em conjunto, até mesmo com quem não se dão bem.
a mesma dificuldade, reserve um tempo para revisar diagnósticas são tão importantes. O assessment que Na hora de montar duplas ou grupos, você pode deixar
o conteúdo coletivamente e elabore uma estratégia nossos alunos realizam a cada início de sprint pedagógica a escolha de parceiros livre para identificar os círculos
alternativa para ajudar quem precisa avançar. tem a função de orientar o desenvolvimento adequado sociais, mas procure intervir na formação sempre que
do planejamento. Ainda assim, tenha em mente que houver necessidade. As informações sobre os círculos
j. Os alunos só respondem “sim” e “não”. todo processo de avaliação é incompleto e, muitas vezes, sociais são úteis para pensar nas intervenções que fará
Quando isso ocorre, a razão provavelmente está na pergunta. precisamos reorganizar nossos planejamentos e até os visando a tornar os próximos grupos produtivos, mesmo
É importante sempre lançar para a turma questões abertas, próprios planos diários de aula. Esses eventuais ajustes, se compostos por alunos que não têm afinidade entre si.
que exijam reflexão e posicionamento para responder a que podem ser para maior ou menor complexidade, r. Um aluno tem uma atitude inadequada.
elas, pois isso estimula os alunos a sair da zona de conforto são esperados e apenas indicam que a aprendizagem é Ouvir os alunos e valorizar suas opiniões minimiza pro-
e desenvolver o raciocínio. Além disso, respostas mais dinâmica e que o educador/líder deve estar atento às blemas de indisciplina. Em momentos de desrespeito, no
completas favorecem a articulação de pensamentos e respostas que seus alunos dão aos desafios propostos. entanto, é preciso conversar individualmente com cada
a oralidade. Mas não espere, de imediato, um discurso Lembre-se de que nossa meta é que todos os alunos envolvido, retomando as regras e os combinados. Lem-
pronto e articulado; muitas vezes, você precisará construir a aprendam sempre, portanto, se tivermos que decidir bre-se de que os combinados foram feitos para servirem
resposta com a criança, o que pode ser feito comentando o entre sacrificar o planejamento versus a aprendizagem como guia e que é importante deixar claro para os alunos
que algum colega já falou sobre o tema para que ela elabore dos alunos, ficamos com a primeira opção. quais são as consequências de suas ações. Não se trata
suas ideias com base nisso.
24 25
a. Acreditamos que, como seres humanos em permanente processo de desen-
volvimento, todos os alunos podem aprender.
b. A aprendizagem é um constructo complexo, pois resulta de múltiplas interações
de nível genético, epigenético, ambiental e sociocultural. Por isso, ter convicção
de que todos podem aprender não nos exime de aplicar uma intencionalidade
clara e baseada em evidência ao processo de ensino e aprendizagem.
c. A intencionalidade do ato pedagógico tem um princípio básico: o aluno quer e
precisa aprender para se desenvolver cognitivamente e, sobretudo, para alcançar
a aprendizagem transformadora – ou seja, exercer, progressivamente e ao longo
de toda a vida, o controle sobre suas escolhas e sua trajetória de vida. Quando a
v
v
v aprendizagem é bem-sucedida, o indivíduo pode fazer escolhas e ajustes em sua

III – trajetória de vida, e essa é a verdadeira expressão do pleno desenvolvimento indi-


vidual e social.
d. A aprendizagem transformadora que almejamos depende, em grande

Implicações dos parte, de uma sólida aprendizagem dos conhecimentos formais organizados
em disciplinas, hoje ensinados pela escola. No Alicerce, orientamos nossos
esforços para que nossos alunos aprendam a ler, escrever e usar a matemática

conceitos apresentados de maneira competente, profunda e proficiente.


e. Para alcançar equidade na educação, adotamos a perspectiva da personalização

anteriormente para a
do ensino e da aprendizagem. Isso significa que identificamos o que cada aluno
já sabe em cada domínio a ser desenvolvido e, a partir dessa avaliação inicial,
definimos os passos seguintes para o que ele precisa aprender. Evidências de
sucesso na educação indicam que essa tem sido a forma mais eficaz de perso-

metodologia do Alicerce nalizar a aprendizagem.


f. A aprendizagem não ocorre de maneira passiva. É necessário que o aluno se
engaje nesse processo, que, se bem-sucedido, resultará em seu desenvolvimento
integral. A necessidade do engajamento afetivo e cognitivo do aprendiz é unânime
v
v
v tanto na vertente construtivista quanto na perspectiva da neurociência cognitiva da
aprendizagem. É por isso que utilizamos o termo aprendizagem ativa, ou metodologias
ativas de ensino e aprendizagem. Nesse contexto, surgiram as diversas abordagens de
organização e distribuição do currículo, do conteúdo e das práticas pedagógicas que se
complementam na oferta de oportunidades dinâmicas e autênticas de aprendiza-
gem: a sala de aula invertida, a diferenciação da instrução, o desenho universal
da aprendizagem, a aprendizagem mediada etc.
g. Nossa perspectiva de abordagem integral do aluno exige que nossos esforços
sejam dirigidos à aprendizagem de conteúdos e conhecimentos formais, mas
também à aprendizagem de atitudes e mentalidades que promovam o desenvol-
vimento humano pleno. Isso inclui um ambiente promotor do desenvolvimento
de habilidades sociais e emocionais, assim como a integração de competências
importantes para a vida e o trabalho, como o inglês e a programação.

26 27
v Implicações dos conceitos apresentados
anteriormente para a metodologia do Alicerce

h. Para permitir o monitoramento do desenvolvimento dos conhecimentos,


atitudes e modelos mentais que queremos que nossos alunos desenvolvam,
organizamos nossa proposta pedagógica em trilhas, que orientaram tanto
a criação de nossa avaliação inicial e de monitoramento (que chamamos de
assessment), como a indicação e a seleção de recursos e práticas instrucionais
usados no Alicerce. Dada a natureza complexa da aprendizagem, o assessment
ou avaliação de nossos alunos é realizada de maneira integrada e complementar.
Compõe-se de:
uma avaliação adaptativa1 de conhecimentos formais em leitura e
v

matemática feita no computador, com questões de múltipla escolha;


um ditado de palavras2 e uma redação3 para monitoramento
v

v
v
v
do desenvolvimento da expressão escrita, também feitos no

IV –
computador, no mesmo momento da avaliação adaptativa;
um formulário com questões de múltipla escolha preenchido por
v

um observador externo – preferencialmente pelo(s) líder(es) que

Sobre as trilhas
acompanha(m) o aluno –, com informações sobre o comportamento
do aluno, suas atitudes e suas disposições mentais (mindset)4;
um formulário com questões de múltipla escolha preenchido

de conhecimento
v

pelos responsáveis, com informações sobre o desempenho


escolar do aluno e seu comportamento em casa e na escola5;
um formulário de autorrelato (self-report), em que o aluno

do Alicerce
v

avalia seu próprio processo de aprendizagem, suas emoções


e sua autoeficácia em uma escala6.
De posse desse conjunto de informações, podemos ter uma visão integral e
integradora do desenvolvimento de nossos alunos e tomar decisões mais acer-
tadas para ajudá-los a serem bem-sucedidos.

v
v
v
1Avaliação adaptativa é uma modalidade de avaliação em que as questões respondidas não são as mesmas para todos
os alunos, pois o sistema indica questões mais fáceis ou mais difíceis dependendo das respostas anteriores. É uma forma
bastante eficiente de avaliar conhecimento e propor intervenções pedagógicas personalizadas.
2O ditado de palavras tem o objetivo de verificar se o aluno já adquiriu a escrita ortográfica da língua portuguesa, assim
como monitorar o desenvolvimento das diferentes fases da aquisição da escrita, em função das respostas do aluno. O
ditado é corrigido pelo computador, e a palavra tem que ter sido grafada de acordo com a norma ortográfica culta para
ser considerada correta.
3A redação propõe um tema para ser desenvolvido por meio da produção de texto escrito narrativo (para G1) ou
argumentativo (para G2). A correção da redação é realizada por um profissional da equipe pedagógica, de acordo com
rubrica alinhada às competências da trilha de escrita. É importante garantir que, durante a sprint pedagógica, o aluno
tenha oportunidade de desenvolver a escrita tanto no papel quanto no computador, para não enfrentar dificuldades de
digitação no momento do assessment. Outro aspecto importante é o respeito ao número mínimo de linhas: 10 para G1 e
15 para G2. Textos com número de linhas escritas inferior ao pedido na proposta terão sua pontuação reduzida. Se o aluno
produzir menos da metade do número de linhas proposto, terá a redação zerada. O objetivo aqui não é penalizar o aluno,
mas estimular a produção de textos cada vez mais elaborados para que possamos avaliar a evolução das competências
da trilha de escrita. Em uma produção curta demais, não temos amostragem para investigar se as diversas competências
da escrita estão sendo desenvolvidas.
4 5 6Esses formulários compõem um dos instrumentos da métrica da avaliação das habilidades de vida. Para as
habilidades de vida, integramos informações de diferentes formulários preenchidos pelos líderes, pelos responsáveis e
pelo próprio aluno. Essa modalidade de avaliação tem sido chamada de triangulação e, inclusive, tem sido testada pela
OCDE como uma importante estratégia para a avaliação de habilidades socioemocionais (OCDE, 2019). A triangulação
permite um olhar mais abrangente e integral das áreas que já estão desenvolvidas e daquelas que ainda precisam ser
estimuladas, do ponto de vista tanto emocional como social. Além disso, integrar informações de diferentes observadores
permite que sejam identificadas situações em que existe divergência entre o comportamento do aluno em ambientes
distintos, bem como entre a percepção que o aluno tem de si mesmo e a percepção daqueles com quem convive. No
contexto complexo da construção de uma narrativa saudável do self e do desenvolvimento integral das habilidades de
vida que almejamos que nossos alunos dominem, é fundamental que esses múltiplos aspectos sejam identificados e
considerados no monitoramento das crianças.

28
v Sobre as trilhas de
conhecimento do Alicerce

O conteúdo a ser desenvolvido pelo aluno que frequenta Consciência a influência decisiva da linguagem no desenvolvimento

v
v
cognitivo de uma criança, uma vez que esta última permite
o Alicerce está organizado em trilhas de conhecimento. fonêmica a utilização de técnicas de elaboração da informação com o
Há quatro trilhas-base para alunos que vão ao Alicerce
três vezes por semana: leitura, escrita, matemática e Refere-se ao conhecimento dos fonemas e a capacidade propósito de codificar a experiência adquirida, utilizando os
habilidades de vida. Adicionalmente, os alunos que de um indivíduo detectar, misturar, segmentar e manipular diversos sistemas de representação da realidade que possam
frequentam o Alicerce cinco vezes por semana também sons isolados em palavras. Inclui o conhecimento de que estar a seu alcance.
seguem as trilhas de inglês e programação. as letras do alfabeto representam fonemas e de que esses Para ser leitor eficaz, o aluno precisa ter desenvolvido
As trilhas são compostas por uma sequência de sons são combinados para formar palavras escritas. Os habilidades de linguagem que lhe permitam dar sentido ao
competências, que, no caso de leitura, escrita e matemática, leitores com habilidades fonêmicas bem desenvolvidas que está sendo lido, tanto do ponto de vista da intenção
estão orientadas pela Base Nacional Comum Curricular podem emitir (ler) palavras que nunca viram antes, sem de quem produziu o texto, como do ponto de vista de sua
(BNCC). Para a construção dessas trilhas, também foram precisar memorizá-las. narrativa de self.
consultados os currículos do Município e do Estado de As habilidades de consciência fonológica incluem: No Alicerce, buscamos oferecer oportunidades diárias
São Paulo, ambos de 2019 (já com as versões atualizadas
Sobre a trilha Mistura de fonemas (colocar sons juntos de ampliação da linguagem de nossos alunos, na forma de

v
após a publicação da BNCC). Além disso, para a confecção de leitura para fazer uma palavra falada); linguagem oral, escrita ou multimidiática.
das trilhas, foram incluídos critérios adotados pelo Segmentação de fonemas (quando é Segundo Westberg et al., (2006), o desenvolvimento da

v
Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, dada uma palavra falada, um aluno pode leitura pode ser distribuído em algumas grandes etapas:
A trilha de leitura compreende sete níveis com desafios
do inglês Program for International Student Assessment), segmentá-la em fonemas isolados);
distintos e complexidade crescente. Essa trilha tem Decodificação, ou aprendizagem da relação entre
da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Manipulação de fonemas (para fazer uma

v
início com o processo de alfabetização e segue até a letras e sons, e entre palavras impressas e faladas. Lê
Econômico (OCDE), e pelo Sistema de Avaliação do Ensino nova palavra em uma família de palavras).
leitura e interpretação de textos complexos. Embora textos curtos com palavras conhecidas e com relação
Básico (SAEB, antiga Prova Brasil, 2019).
a alfabetização seja um tema polêmico, há evidências • Fluência – trata-se da capacidade de reconhecer pala-
Para a construção da trilha de habilidades de vida, foram grafo-fonêmica direta, ou seja, cada letra representa
científicas suficientes indicando que uma combinação de vras facilmente, ler com velocidade, precisão e expressão, e
consideradas as diretrizes do Centro para Aprendizagem apenas um determinado som, como BOLA, MEDO,
técnicas é eficaz para ensinar as crianças a ler. A seguir, entender melhor o que é lido. As crianças ganham fluência
Acadêmica de Habilidades Sociais e Emocionais (CASEL, CAVALO, OVO etc (geralmente no último ano do ensino
listamos alguns conceitos importantes para a aquisição praticando a leitura até que o processo se torne automático.
sigla de Center for Academic Social Emotional Learning, infantil ou no primeiro ano do ensino fundamental);
da leitura e escrita: • Leitura oral guiada – a prática da leitura em voz alta por
2015) e da OCDE (2016). Fluência ou consolidação dos elementos básicos de
um leitor qualificado é uma boa abordagem para ajudar
As trilhas completas podem ser consultadas nos anexos Consciência as crianças a se tornarem leitoras fluentes. A criança lê decodificação, o que inclui a leitura automática de
v
v

ao final deste documento. A seguir, alguns comentários fonológica em voz alta enquanto obtém orientação e feedback de palavras familiares e de textos curtos, familiares e cujos
sobre nossas trilhas: leitores qualificados. A combinação de prática e feedback temas sejam contextualizados previamente (geralmente
Refere-se ao desenvolvimento de diferentes componentes entre o 2º e 3º anos do ensino fundamental);
fonológicos da linguagem falada (LANE & PULLEN, 2004). promove a fluência da leitura.
• Ensinar vocabulário – ensine novas palavras conforme Leitura para aprender, ou seja, utilizada para adquirir
As crianças habituadas a ouvir histórias lidas antes
aparecerem no texto ou introduzindo-as separadamente. conhecimentos e experiências (inclusive novos pontos
da alfabetização – especialmente textos com rimas –
Esse tipo de instrução também ajuda a capacidade de leitura. de vista). Nesta etapa, os educadores devem ensinar
geralmente desenvolvem a base da consciência fonológica
• Estratégias de compreensão de leitura – as técnicas estratégias específicas de compreensão de leitura, como
espontaneamente. Algumas, no entanto, antes precisam
para ajudar os alunos a entender o que leem incluem monitorar a compreensão, usar organizadores gráficos
aprender que as palavras podem ser divididas em unidades
pedir que sintetizem o que leram. e semânticos, responder a dúvidas, gerar perguntas,
sonoras menores. Para evitar que alguns alunos fiquem
O desenvolvimento de leitura também depende fortemen- reconhecer estruturas textuais, resumir e identificar
atrás no processo de alfabetização, nossa indicação é que
te do domínio de linguagem do aluno. Por linguagem no ideias principais e detalhes importantes (geralmente
todos os alunos sejam formalmente expostos à experiência
sentido amplo, entendemos o conjunto de representações entre o 4º e 5º anos do ensino fundamental);
sensorial de que uma palavra pode ser dividida em
unidades menores. simbólicas que nos permitem dar sentido a nossa experiên- Leitura para criticar, etapa em que os alunos já
As habilidades de consciência fonológica incluem: cia objetiva e subjetiva. A fala, por exemplo, é um sistema de leem uma ampla variedade de materiais complexos,
linguagem oral. expositivos e narrativos, e são solicitados a aplicar
Rima (finais de palavras semelhantes);
v v v

Segundo Bruner (1961), a linguagem possui um papel uma variedade de pontos de vista. Os alunos precisam
Aliteração (começos de palavras semelhantes); amplificador das competências cognitivas de uma criança e acessar, reter, criticar e aplicar conhecimentos e
Segmentação de sílaba, palavra e pode ajudá-la a ter uma interação mais abrangente com seu conceitos. Os alunos estão consolidando estratégias
sentença (separando uma da outra); meio cultural. A partir das contribuições do seu processo de gerais de leitura, escrita e aprendizagem, enquanto
Partida (início) e Ritmo (começo desenvolvimento e da estimulação decorrente dos atributos precisam desenvolver conhecimentos e perspectivas
v

e término de palavras); do ambiente em que está inserida, a criança organiza diversos disciplinares mais sofisticados (geralmente a partir
modos de representar a realidade. É importante ressaltar do 6º ano do ensino fundamental).
Fonemas (sons individuais).
v

30 31
v Sobre as trilhas de
conhecimento do Alicerce

socioculturais. Afinal, se o êxito na leitura e na escrita habilidades primárias envolvem uma compreensão implícita governam como e por que a contagem funciona). Gelman and
Sobre a trilha depende da linguagem, muitas de nossas crianças já de numerosidade, ordinalidade, início da contagem e Galistel (1978) descreveram três princípios essenciais para o
de escrita chegam ao primeiro ano escolar em grande desvantagem. aritmética simples, de origem biológica e que se desenvolve
gradualmente durante os anos pré-escolares, juntamente com
domínio correto da contagem (correspondência um a um,
estabilidade da ordem e cardinalidade) e dois princípios não
Quando estão aprendendo a escrever, crianças precisam
de ajuda com ideias, organização e engajamento com a a linguagem. Já as habilidades secundárias são determinadas essenciais (abstração e irrelevância da ordem de contagem).
A escrita demanda grande esforço de metacognição. É um tarefa. Algumas formas de ajudá-las são: culturalmente, pelo sistema de ensino, e envolvem o conceito Os componentes específicos da contagem conceitual
processo mais difícil do que a leitura e também precisa ser de número, a contagem, a aritmética, o cálculo e a resolução estão relacionados aos resultados matemáticos em idades
Compartilhar oralmente ideias em grupos antes

v
formalmente ensinado. A criança precisa ser estimulada a de problemas escritos. Nessa perspectiva, entende-se que precoces. Por exemplo, Stock et al. (2009) observaram que,
de os alunos escreverem; na educação infantil, os princípios essenciais da contagem
produzir textos que, com o incentivo e orientação de um a denominada cognição numérica seja influenciada por
Pedir que os alunos escrevam em colaboração;

v v v v v v v v v vv
mediador, serão progressivamente desenvolvidos. fatores biológicos, cognitivos, educacionais e culturais, sendo eram preditivos do desempenho em aritmética e em fatos
Dar uma frase inicial para que eles continuem; composta de um sistema primário – o senso numérico – e de numéricos no 1º ano do ensino fundamental.
Assim como proposto por Vygotsky, acreditamos que a
escrita não está separada da linguagem e é constituída Organizar o passo a passo, incluindo recursos visuais; sistemas secundários – como o processamento numérico, o Processamento ordinal dos números.
por um sistema de símbolos e signos (que atribuem Quebrar a escrita em pequenos trechos estruturados, qual se subdivide em compreensão numérica (entendimento Os números ordinais são aqueles números usados para
significados) que determinam os sons e as palavras da em vez de exigir longos desenvolvimentos sem estrutura; dos símbolos numéricos), produção numérica (leitura, escrita se referir a um lugar ou a posição ocupada por alguém ou
linguagem oral. Para dominar esse sistema simbólico, Fornecer modelos de boa escrita; e contagem de números) e cálculo (operações matemáticas) alguma coisa dentro de uma determinada série numérica.
é necessário que a criança desenvolva certas funções Treinar a escrita de frases principais (MOLINA et al., 2015). Esses números denotam ordem e quase sempre são
mentais superiores, especificamente a abstração. e de frases transitórias; Naturalmente, existe uma relação entre essas habilidades escritos de forma abreviada, 1º., 2º., 3º, etc.
A função da abstração é fazer com que a fala desapareça Oferecer uma lista de palavras de apoio; iniciais e a aprendizagem formal da matemática. Os símbolos Valor posicional, introduzido pelos numerais indo-a-
gradualmente, sendo substituída pela escrita. Vygotsky básicos da aprendizagem formal inicial – as palavras- rábicos: o valor de um dígito individual é determi-
Oferecer uma lista de palavras a serem evitadas;
nos mostra que a escrita é uma linguagem que se constitui número e os numerais arábicos – apenas têm significado nado por sua posição dentro do número, e o valor
Oferecer uma folha com dicas gramaticais; se estiverem associados às quantidades que representam,
primeiro no pensamento, para depois ser registrada. A do número é determinado pela soma de cada um
Permitir que o aluno escolha o tópico favorito, e são justamente as habilidades iniciais do senso numérico
abstração é uma das maiores dificuldades que a criança desses valores. Então, para 642, o 6 equivale a 600,
de uma lista de tópicos, sobre qual irá escrever; que proveem as bases para essas associações.
apresenta no processo de aprendizagem da linguagem o 4 equivale a 40, e o valor é 600+40+2. A falta de
escrita, já que, antes de registrar ou grafar o sistema Oferecer atribuições ou objetivos maiores para Para que os alunos evoluam na aprendizagem formal da entendimento do valor posicional limita a aprendiza-
simbólico, ela precisa representá-lo no pensamento. É a escrita, como uma postagem em um blog da matemática, precisamos garantir que desenvolvam bem gem da matemática (FUSON, 1990; MOELLER et al.,
comum observarmos em alunos que estão iniciando o turma ou uma crítica de um filme, animação o conhecimento sobre os números, suas representações 2009) e é uma barreira para muitas crianças em anos
processo de desenvolvimento da escrita a transposição ou game do gosto do aluno; e as relações entre elas. Quando um aluno não estiver escolares mais tardios. O sistema de valor posicional
direta da língua oral para a escrita, sem o respeito às Observar a escrita de cada aluno e identificar suas evoluindo na aprendizagem da matemática, investigue se está implícito em números falados (“cento e sessen-
v

normas que regem a língua escrita. dificuldades, para então oferecer mentoria com ele domina as seguintes áreas: ta e seis”), no entanto o mapeamento dos números
O processo de elaboração mental da criança na estratégias para evolução do texto. Representação simbólica da magnitude ou falados para os números escritos não é direto (FU-
construção do conhecimento sobre a escrita, que numerosidade – qual é o “tamanho” do número?). SON, 1990; TOLCHINSKY, 2003).
inicialmente passa pela linguagem falada, fica
terrivelmente dificultado porque a escrita apresentada
Sobre a trilha Subitizing ou estimativa súbita – habilidade de apreender
rapidamente a numerosidade de quantidades pequenas,
Transcodificação numérica – Benoit et al. (2013)
sugeriram, a partir de seus estudos, que as crianças
na escola é completamente distanciada da fala das de matemática geralmente de um a quatro, sem a necessidade de primeiro aprendem a mapear numerais falados em pontos
crianças – na maioria das vezes, é o que não se pensa, o contar (STARKEY & COOPER, 1980). para, depois, aprenderem a mapear dígitos em pontos e,
que não se fala. Ou seja, a defasagem não é apenas uma É importante que a matemática desempenhe, equilibrada e Contagem – particularmente importante para a finalmente, a mapear palavras faladas em dígitos. Esses
contingência da forma escrita de linguagem, mas também indissociavelmente, seu papel na formação de capacidades matemática mais tardia (CARRASUMADA et al., 2006), achados ressaltam a importância de explorar exatamente
produto das condições de ensino (SMOLKA, 2012). intelectuais, na estruturação do pensamento, na agilização em parte devido a seu papel explícito na transição para quando elas adquiriram os dígitos, ao invés de assumir
O sistema simbólico da escrita é considerado um do raciocínio dedutivo, em sua aplicação a problemas, a aritmética formal, na qual a contagem é usada no que os adquirem diretamente a partir dos numerais
dos instrumentos culturais mais bem elaborados pela situações da vida cotidiana e atividades do mundo do início do cálculo (GEARY, 2004a). A contagem também falados. Xenidou-Dervou et al., (2014) reforçaram que
humanidade. Ele é um produto e, ao mesmo tempo, um trabalho e no apoio à construção de conhecimentos de permite o uso automático de informações relacionadas a habilidade de nomear números de dois dígitos está
elemento importante do desenvolvimento do ser humano. outras áreas curriculares. à matemática que possibilitam que outros recursos fortemente relacionada com o sistema simbólico de
Uma dica importante, dada pelo neuropsicólogo Frequentemente, quando falamos sobre desempenho em cognitivos sejam dirigidos a tarefas mais complexas aproximação numérica, não tendo relação com o sistema
russo Alexander R. Luria (1902-1977), é lembrar que o alfabetização, fazemos referência à leitura e à escrita. Mas, (GERSTEN & CHARD, 1999; RESNICK, 1989). A contagem não simbólico. Seus experimentos também demonstram
conhecimento daquilo que a criança era capaz de fazer no ciclo de alfabetização, também deve ocorrer o processo pode ser dividida em dois componentes separados, que o sistema simbólico de numeração é modulado
antes de entrar na escola é o conhecimento a partir do de numeramento e de alfabetização matemática. Espera-se porém relacionando o procedimental e o conceitual. mais pelo desenvolvimento e pela educação do que o
qual os professores poderão ensinar seus alunos a escrever que os alunos do 3º ano do ensino fundamental concluam o A contagem procedimental é a habilidade de colocar sistema não simbólico. Moura et al. (2014) encontraram
(LURIA, 2012). Isso assume uma proporção dramática se ciclo conhecendo o sistema de numeração decimal, além dos números em sequências orais (com ou sem referência evidências de que a ampliação do léxico numérico é um
consideramos a quantidade de crianças que chegam aos conceitos e algoritmos das quatro operações aritméticas. a um estímulo visual externo), enquanto a conceitual processo que acontece intuitivamente, ao passo que a
anos iniciais do ensino fundamental com defasagem em Segundo Geary (2000), as habilidades matemáticas refere-se à compreensão que a criança tem dos aprendizagem da sintaxe numérica demanda educação
sua linguagem oral, além de privações de experiências humanas são divididas em primárias e secundárias. As procedimentos de contagem (os conhecimentos que formal específica para isso.

32 33
v Sobre as trilhas de
conhecimento do Alicerce

Outro domínio importante para garantir a aprendizagem resolução de problemas com enunciados. A primeira é a Cumprir as regras de ouro do Alicerce;
matemática é a evocação fluente dos fatos numéricos, ou competência geral de linguagem, que se aplica a todas Manter o ambiente seguro, organizado e receptivo;
seja, a combinação de números, que são memorizados a as competências acadêmicas (tanto problemas com Manter a gestão da sala de aula, ou seja, garantir que o
partir da observação de sua regularidade – por exemplo, enunciados quanto outras formas de compreensão de líder tenha controle sobre o que está acontecendo com
3+1=4; 8-1=7; 5+5=10; etc. texto). A segunda é a linguagem específica dos problemas o grupo de alunos;
No Alicerce, nossa recomendação é que alunos sejam com enunciados, cujo vocabulário as crianças precisam Manter um ambiente pró-social, onde o respeito a
apresentados aos conceitos, aos procedimentos e aprender a empregar de forma orientada a uma tarefa – todos que frequentam o polo seja evidente e onde
ao treino da fluência dos fatos básicos matemáticos. incluindo as extensões de termos de uso ordinário, como as trocas afetivas construtivas são estimuladas e a
Dentro de nossa perspectiva de desenho universal “todos” ou “mais”, para construções mais complicadas violência, desestimulada.
da aprendizagem, devemos lançar mão de todas as envolvendo itens, como “em todos” e “mais do que”. Dentre as estratégias que adotamos para favorecer o
estratégias que se integram e se complementam para autoconhecimento e o autocontrole, estão as práticas diárias
garantir equidade entre os diversos perfis de aprendizes. Sobre a trilha de mindfulness.
Outro aspecto importante a ser considerado é a resolução habilidades de vida A atenção plena, ou mindfulness, é uma prática mental baseada
de problemas com enunciados (palavras), pois envolvem em focar as sensações da respiração e do corpo, mantendo um
conhecimento da construção semântica e das relações Quando falamos em ensino integral, fazemos referência estado relaxado de mente. Durante a prática formal de meditação,
matemáticas, assim como das habilidades numéricas a uma maneira de organizar a educação de forma a surgem distrações, e o meditador é ensinado a reconhecer os
básicas e estratégias. Algumas crianças enfrentarão propiciar o desenvolvimento pleno dos seres humanos. pensamentos intrusivos sem julgá-los e recobrar sua atenção à
dificuldades para solucionar problemas com enunciados Esse conceito é muito mais amplo do que passar o respiração (WALLACE, 2006).
em consequência de dificuldades de linguagem. dia todo imerso no ambiente escolar. O conceito de O treinamento da atenção plena cultiva a percepção,
Portanto, faz-se necessário verificar se as dificuldades se educação integral que adotamos no Alicerce entende momento a momento, de si mesmo e do ambiente. Nesse
concentram apenas nos enunciados ou se são extensivas que o desenvolvimento pleno do aluno decorrerá sentido, a atenção plena aumenta o processamento
aos conhecimentos e estratégias matemáticos. da combinação entre a aprendizagem de conteúdos metacognitivo (AUSTIN, 1998). A metacognição é a consciência
Até que ponto as competências numéricas básicas, formais e o desenvolvimento emocional e social. Afinal, dos processos de controle cognitivo (FERNANDEZ-DUQUE,
a linguagem e/ou a memória de trabalho contribuem em nossa forma de enxergar a educação, o sucesso é BAIRD e POSNER, 2000). Melhorias na metacognição estão
para as dificuldades de aprendizagem da matemática formarmos indivíduos que possam fazer suas escolhas relacionadas à capacidade de restringir o processamento
varia de acordo com a presença ou não de dificuldades de maneira autônoma, com liberdade e segurança. No de informações irrelevantes (POSNER & ROTHBART, 1998).
de leitura (ROBINSON, MECHETTI e TORGESEN, 2002). Alicerce, a trilha de habilidades de vida foi criada para Adicionalmente, a prática constante de mindfulness reduz a
A associação de dificuldades de leitura e de matemática garantir que tenhamos foco permanente e intencional fadiga e a ansiedade mesmo em indivíduos ainda iniciantes
pode resultar de dois fatores independentes (por em um grupo de habilidades e competências que na prática (ANDREASEN et al., 2009).
exemplo, competências numéricas fundamentais para a permitam o desenvolvimento integral de nossos alunos. Além disso, verificou-se que o treinamento em atenção plena
matemática versus competências de linguagem para a Para alcançar tal integralidade, precisamos garantir melhora o estado de alerta e o monitoramento de conflitos
leitura); de fatores compartilhados, como a linguagem que o desenvolvimento das habilidades emocionais (CAHN & POLICH, 2006; JHA et al., 2007). A sustentação da
e memória de trabalho; ou da combinação dos dois, e sociais seja contemplado no dia a dia do Alicerce. atenção, o controle regulatório e a habilidade de restringir
como um déficit especifico para estimar quantidades Essas habilidades, por sua vez, permitirão não apenas informações irrelevantes são muito benéficos à aprendizagem
na matemática e processos compartilhados afetando a a aprendizagem formal plena, mas principalmente uma e ao desenvolvimento das habilidades de vida em geral. No
leitura com sintomas comórbidos em matemática. melhor adaptação à transição para a vida adulta, nos Alicerce, os alunos realizam práticas de meditação para atenção
Estudos (FUCHS et al., 2012; SWANSON, 2006) indicam aspectos tanto da inserção no mercado de trabalho como plena (mindfullness) todos os dias.
que, embora o raciocínio lógico e a memória de trabalho da construção de uma narrativa pessoal que promova a Lembre-se de que os comportamentos são aprendidos
deem suporte à aritmética e ao desenvolvimento da autonomia e a significação da trajetória de vida. e de que crianças costumam imitar comportamentos que
habilidade de solucionar problemas com enunciados, a Mas a simples aplicação da trilha não garante que o aluno observam no dia a dia. Disso decorre nossa responsabilidade
velocidade de processamento da informação tem um desenvolva suas habilidades emocionais e sociais, pois, em lhes oferecer um ambiente onde se sintam seguras,
papel único na aritmética, enquanto que a compreensão para esse objetivo, é necessário um trabalho permanente, protegidas, estimuladas cognitivamente e apreciadas dentro
de linguagem é unicamente preditiva da resolução de intencional e transversal. Precisamos inculcar uma de suas características únicas. Se a criança estiver engajada
problemas com enunciados. atitude pró-social e positiva em todos e em tudo o que afetiva e cognitivamente no desenvolver de suas atividades,
Por último, é importante lembrar que existem duas desenvolvemos nos polos do Alicerce. Para conseguir fazer metade do caminho da aprendizagem bem-sucedida já
formas de compreensão de linguagem envolvidas na isso, alguns cuidados têm que nos acompanhar diariamente: estará percorrido.
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