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Os efeitos da freqüência na mudança lingüística via

gramaticalização
Sebastião Carlos Leite GONÇALVES1
1
Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas – UNESP – São José do Rio Preto
R. Cristóvão Colombo, 2265 – 15054-000 – São José do Rio Preto – SP – Brasil
scarlos@ibilce.unesp.br

Abstract: This paper deals with the grammaticalization of constructions with


propositional attitude predicates achar, crer and parecer. I defense that, in this
process of changing, matrix clauses dessentencializate themselves and become
non-argumental constituents of an independent clause, and that the textual
frequency of the constructions with these matrix predicates is responsible by
the instanced changes.

Key-words: grammaticalization; subordination; frequency.

Resumo: Neste artigo, trato da gramaticalização de construções com os


predicados de atitude proposicional achar, crer e parecer. Defendo que, nesse
processo de mudança, as orações matrizes se dessentencializam e passam a
funcionar como constituintes não-argumentais de uma oração independente, e
que a freqüência de uso das construções com esses predicados matrizes
responde pelo processo de mudança verificado.

Palavras-chave: gramaticalização; subordinação; freqüência.

Introdução
Sob a crença funcionalista de que o uso da língua motiva, restringe, explica ou
mesmo determina a estrutura gramatical, Thompson (2002) e Bybee (2002) defendem
que a subordinação deve ser tratada não como uma noção estritamente sintática, mas
como uma noção mais pragmática, e é justamente a riqueza pragmática de orações
matrizes que faz delas um domínio propício para o desencadeamento de processos de
gramaticalização, quando comparadas às orações encaixadas, que constituem um
domínio mais resistente à mudança (v. BYBEE, 2002, p. 18).
Assumindo essa crença, tratarei neste artigo da gramaticalização de orações
matrizes com os predicados de atitude proposicional parecer, achar e crer, centrando
minha discussão nos efeitos da freqüência de uso de tais construções. Para tanto, minha
exposição se divide em duas partes principais: na primeira, apresento brevemente
evidências empíricas favoráveis ao tratamento de construções com predicados de
atitudes proposicionais como de casos de gramaticalização; na segunda parte, mostro
diacronicamente, os efeitos da freqüência na mudança de uso dessas construções.
Reservo a última parte às considerações finais.

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A gramaticalização de construções com predicados de atitudes
proposicionais
Em Gonçalves (2003), apresentei evidências diacrônicas de que orações matrizes
com os predicados parecer, achar e crer têm sua origem em orações independentes ou
absolutas, cujos predicados, em seus usos plenos, constituem centro de predicação,
como mostro em (1).1
(1) Verbos plenos
a. ... aque-vos um demo vem, que lhe pareceu em semelhança de um homem (13,
DG, p.50)
(= aparecer)
b. Mas u (=onde) vos achou ele? (13,DG,p.68)
(= encontrou)
c. Seu padre non nos crerá, antes dirá que a matamos (13, DG, p. 75)
(crer em alguém)
Na medida em que se gramaticalizam, esses predicados, como mostro em (2),
deixam de constituir centro de uma predicação simples, e passam a compor um
complexo oracional, dentro do qual funcionam como uma matriz na qual se encaixa
uma predicação de valor proposicional. Sobre essa proposição incide a crença do falante
acerca das condições de verdade do conteúdo informacional aí veiculado – modalidade
epistêmica (ME, daqui em diante) –, podendo ele ser a fonte da evidência ou da
inferência – valor evidencial (EV, daqui em diante).
(2) Construções encaixadoras de proposição
a. Ora parece que meu filho serviu maau senhor. (13,DG,p.57)
(=epistêmico de probabilidade/evidencial)
b. Acho [este lugar] não estar na última perfeição (18,GR,p.8)
(=epistêmico/evidencial)
c. Creo que esto fezerom por que aqueles lugares erom em tal comarca (15,LO,p.26)
(=epistêmico/evidencial)
Importante a destacar é que esses casos apresentados em (2) configuram dois
tipos de predicados matrizes de estrutura argumental diferente. Enquanto parecer é um
predicado monovalente, com a oração encaixada em posição argumental A1, de sujeito,
achar e crer são predicados bivalentes, com a completiva em posição argumental A2,
de objeto.
Em suas trajetórias de mudança, mais tardiamente as orações matrizes, nos
termos de Decat (1991), se “desgarram” de suas encaixadas, e passam a atuar como um
constituinte não argumental, preservando seus valores epistêmico e evidencial, a
exemplo de outros satélites adverbiais atitudinais, como talvez, provavelmente etc (v.
THOMPSON & MULAC, 1991), como mostram as ocorrências em (3).
(3) Satélite atitudinal adverbial (epistêmico/evidencial)
a. ...vindo tão embebidos de suas danças, tendo parece alguma notícia do que se
passava. (16,CJ, p.440)
b. Apenas eu e o Couto achamos a não inclusão do pneumatorax “escandalosa”, como
você fala. Indispensável, achamos (19-20,MA, p.340)
c. Por mais solenidade que ouvesse, tudo creo terião por pouco (16,CJ,p.448)

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Contrastando as ocorrências dadas em (2) e (3), em (2), é mais provável que a
oração matriz expresse primeiramente uma asserção sobre a crença do falante do que
sobre o conteúdo proposicional. Em (3), funcionando como satélite, a construção
parentética é mais livre que o usual: o “predicado e seu sujeito”, quando é o caso,
podem ser colocados em posição inicial, medial ou final da sentença. Nesses casos, a
função do satélite é “modificar ou enfraquecer a afirmação da verdade que seria
implicada por uma simples asserção” (NOONAN, 1988, p. 86). Não parece demais
chamar a atenção para o fato de que esse funcionamento só se instancia na verificação
do parâmetro marca de subordinação, cuja ausência tem como efeito sintático tornar a
oração complemento uma oração independente.
Tomando por base a concepção mais clássica de gramaticalização, aquela
centrada na alteração categorial de itens, que, na mudança, tornam-se gramaticais ou, se
já gramaticais, têm sua gramaticalidade ampliada (HOPPER & TRAUGOTT, 1993), em
Gonçalves (2003) propus um cline geral explicativo da trajetória de mudança percorrida
por esses predicados, que segue apresentado em (4).
(4) v. encaixador v. encaixador construção Satélite
v. pleno > de predicação > de proposição > encaixadora de > atitudinal
proposição
Pelas ocorrências dadas em (1) a (3), pode-se observar que significados baseados
em uma situação externa passam a significados baseados numa situação interna –
avaliativa, perceptual, cognitiva –, que, por sua vez, passam a significados cada vez
mais assentados na atitude subjetiva do falante.
Justifica essa trajetória de mudança uma integração sintática fraca entre a oração
matriz e a oração encaixada, ou ainda uma fraca dependência entre elas, como também
atesta Bybee (2002, p. 3) para complementos de outros predicados epistêmicos e
evidenciais.
Critérios que se aplicam às construções em análise e que explicitam o elo de
vinculação entre suas orações constituintes são: (i) referência temporal independente,
como em (5); (ii) escopo de negação sempre restrito ao conteúdo da oração encaixada,
como em (6) e suas paráfrases; (iii) perda de complementizador da oração matriz e de
sua posição sintática fixa, com conseqüente redução valencial, como em (7); e, (iv)
restrições flexionais do predicado da oração matriz, tais como de tempo, modo, pessoa e
número do predicado matriz (Lehmann, 1988), como mostrarei mais adiante. Esses
critérios, ao mesmo tempo em que revelam uma integração fraca entre matriz e
encaixada (Bybee, 2002), podem também ser vistos como causas/motivações que levam
ao “desgarramento” e à conseqüente gramaticalização da construção matriz.
(5) a. e parece que screvia a quem as sabia. (15,LO, p. 4)
b. creio que se irá amenhã (16,CJ, p. 449)
(6) a. Acho [este lugar] não estar na última perfeição (18, GR, p.8)
a’ . Não acho este lugar estar na última perfeição
(= este lugar não estar na última perfeição)
b. naquele tempo devia ser presunto e queijo ... parece ... eu não me lembro bem
((risos)) mas devia ser assim. (NURC/RJ-DID-71)
b’. */? naquele tempo devia ser presunto e queijo ... não parece ...

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(7) a. vinhão tão embebidos em suas danças, tendo parece alguma notícia do que se
passava, supitamente se callarão. (16, CJ, p. 440)
b. tudo creo terião por pouco (16, CJ, p. 448)
c. Apenas eu e o Couto achamos a não inclusão do Pneumatorax “escandalosa”,
como você fala. (...) Indispensável, achamos. (19, MA, p. 340)
Levando em conta as mudanças que afetam a relação entre a oração matriz e a
completiva, interessa-me, aqui, discutir apenas os usos mais gramaticalizados das
construções com predicados de atitude proposicional, representadas, no cline de dado
em (4), pela mudança verbo pleno > construção encaixadora de proposição > satélites
atitudinais.2 Esse objetivo pede, então, uma concepção mais ampla de gramaticalização,
como, por exemplo, a oferecida por Bybee (2003, p. 602), que transcrevo abaixo:3
Na literatura recente sobre gramaticalização parece consenso que não é suficiente
definir gramaticalização como o processo pelo qual um item lexical torna-se
morfema gramatical, mas, ao contrário, é importante dizer que esse processo ocorre
em contexto de uma construção particular (...). De fato, parece mais adequado dizer
que é a construção com seus itens lexicais particulares que se torna gramaticalizada
do que dizer que é o item lexical que se gramaticaliza. (grifos meus).
Importante na comprovação da gramaticalização de construções, sobretudo
aquelas identificadas com processos de subjetivização (TRAUGOTT, 1989, 2000), é a
apuração da freqüência das formas que a facultam, assunto que passo a tratar de agora
em diante.

Os efeitos da freqüência de uso: um percurso diacrônico


Dois métodos de apurar a freqüência são relevantes nos estudos lingüísticos: um
que conduz à freqüência token e outro à freqüência type. Token ou freqüência textual é o
número de ocorrências de uma unidade, geralmente uma palavra ou morfema,
independentemente do significado que ela veicula. A freqüência type refere-se à
freqüência de um padrão particular de dicionário (BYBEE, 2003).
Tem sido tendência associar o crescimento de freqüência type – aqui entendida
como deslizamentos funcionais ou diversidade de funções verificadas na
gramaticalização – ao aumento de freqüência token. Entretanto, adverte Bybee que a
alta freqüência não resulta em gramaticalização, mas apenas indicia sua identificação.
Discutindo conseqüências de aspectos da ritualização, Bybee argumenta que a
repetição freqüente de construções desempenha importante papel nas seguintes
mudanças associadas à gramaticalização: (i) enfraquecimento de forças semânticas pelo
hábito, que faz que um organismo deixe de responder, com mesma eficácia, a estímulos
repetidos; (ii) mudanças fonológicas de redução e de fusão de formas; (iii) menor autonomia
da forma, que propicia a neutralização de componentes individuais (flexão, estrutura
argumental etc) presentes em usos menos gramaticalizados; (iv) extensão de uso da forma a
novos contextos com novas associações pragmáticas; (v) preservação de algumas marcas
morfológicas originais.
Para explicitar o papel da freqüência na gramaticalização das construções com
parecer, achar e crer, considero suas freqüências de uso, ao longo dos séculos XIII a
XX, também como um dos parâmetros responsáveis pelo reconhecimento de

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construções com significados cada vez mais assentados nas atitudes subjetivas do
falante.
As alterações qualitativas já apontadas para os diferentes tipos de construções
com parecer, achar e crer (v. (1) a (3) acima) são mais bem esclarecidas pela suas
freqüências token e type (em números absolutos) mostradas na tabela 1 abaixo.
Tab. 1: Freqüência token e type na evolução diacrônica de construções com parecer, achar e crer
Períodos (século) XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX Total
Tipos sintático/semânticos
Construção com v. pleno (apresentativo /
5 1 5 11 7 5 5 4 43
PARECER

comparativo)
(types)

Construção encaixadora de proposição 1 3 20 33 21 32 17 19 146

Construção como satélite atitudinal (ME/EV) 0 0 0 2 2 3 0 3 10

TOTAL (tokens) 6 4 25 46 30 40 22 26 199

Construção com v. pleno (encontrar) 27 26 23 42 40 83 20 9 270


ACHAR
(types)

Construção encaixadora de proposição (ME) 0 0 0 0 0 2 1 16 19

Construção como satélite atitudinal (ME) 0 0 0 0 0 0 0 1 1

TOTAL(tokens) 27 26 23 42 40 85 21 26 290

Construção com v. pleno (crer em alguém) 1 5 0 0 0 0 3 0 9


CRER
(types)

Construção encaixadora de proposição (ME) 0 0 3 10 2 11 18 16 60

Construção como satélite atitudinal (ME) 0 0 0 2 0 1 5 4 12


TOTAL (tokens) 1 5 3 12 2 12 26 20 81
O que se pode observar nesta tabela é que o aumento de types (deslizamentos
funcionais) ocorre gradualmente, ao longo do período investigado, como mostram os
números destacados em negrito, sendo o último de cada type representativo das
construções mais gramaticalizadas.
Do período de comprovação até a fixação na língua, é possível propor que os
diferentes usos de cada uma das construções se desenvolvem das respectivas
construções em que figura um verbo pleno, tipos mais freqüente no período mais inicial.
As construções mais recorrentes com parecer e achar apresentam um aumento
crescente de freqüência token até o século XVI, momento a partir do qual mais
freqüentemente passam a compartilhar suas funções com crer, que aumenta em
freqüência type.
Dos três tipos de predicados considerados, as construções com achar se mostram
mais resistente à mudança, quando se verifica sua alta freqüência type em construções
com o verbo pleno original, em quase todos os séculos, situação não partilhada pelos
outros dois predicados.

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Há uma clara diferença no quadro evolutivo das construções com esses
predicados. Como predicados que, epistemicamente, promovem o descomprometimento
do falante em relação ao conteúdo proposicional nelas encaixado, a construção com
parecer é pioneira (século XIII), seguida das construções com crer (século XV), função
que construções com achar experimentará somente no século XVIII. A completa
alteração funcional, de predicados plenos a satélites parentéticos, emerge no mesmo
período para as construções com parecer e crer (século XVI), e só mais tardiamente, no
século XX, para as construções com achar. Importa enfatizar, contudo, que, na
coexistência de diferentes types para cada predicado, é reconhecido um estatuto mais
gramaticalizado da oração matriz (satélites atitudinais), ou mais dessentencializado do
complexo oracional como um todo, em relação às construções com verbos plenos,
convergência que se explica pelos valores semântico-pragmáticos que tais construções
passam a veicular à medida que se gramaticalizam.
A perspectiva histórica é sempre o melhor recurso para se reconhecer numa língua a
emergência de significados que tendem a se ampliar para codificar o estado de crença do
usuário (TRAUGOTT, 1989, 2000), possível de ser verificado por recurso às marcas formais
de subjetividade (BENVENISTE, 1995). Assim é que os resultados que mostro a seguir
evidenciam a forte correlação entre a mudança de estatuto gramatical das construções em
análise e suas alterações morfológicas referentes à expressão de pessoa e de tempo.4
Observem-se, inicialmente, as figuras de 1 a 3, dadas a seguir. A linha em
destaque revela, como tendência geral, o crescimento das marcas de 1P, oscilante nas
construções com parecer, até o século XVII, mas contínuo para as construções com
achar e crer, a partir do século XIV, comportamento que leva ao conseqüente
decréscimo do uso da 3P (linha com triângulos).
Não ultrapassando os limites dos 20%, os picos para 2P (linha com losângulos),
nos séculos XVI e XIX, explicam-se pelo gênero epistolar dos textos históricos
investigados.

100 100
90 90
80 80
70 70
60 60
em %
em %

50
50
40
40
30
30
20
20
10
10
0
0
XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX
XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX
1P 2P 3P+SN-pleno Ausência
1P 2P 3P+SN-pleno Indeterminada
Fig. 1. Expressão de forma dativa de
'parecer' (século XIII a XX) Fig. 2: Expressão de pessoa do SN-sujeito
de 'achar' (século XIII a XX)

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100 É do século XVII para o XVIII que
90 a 1P começa a se fixar nas construções
80 com parecer e achar, mais para aquela do
70 que para esta, constatação que identifica
60 estratégias de subjetivização
em %

50 primeiramente mais para as construções


40 com parecer e crer do que com achar.
30 Com crer, são até mesmo mais anteriores,
20 já no século XIV, justificadas pelo valor
10 de crença inerente ao predicado.
0
XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX
A ausência de marca de dativo nas
1P 2P 3P+SN-pleno
construções com parecer (linha com “x”)
é a mais forte concorrente da 1P, em todos
Fig. 3: Expressão de pessoa do SN-sujeito
os séculos.
de 'crer' (século XIII a XX)

No século XX, entretanto, a marca de pessoa tende a se neutralizar,


prevalecendo a sua ausência, constatação importante para afirmar o caráter mais
gramatical das construções com parecer sobre as demais construções, que ainda
expressam marca de pessoa.
Sob esse mesmo prisma, vejamos agora as figuras de 4 a 6, que revelam o
comportamento da expressão de tempo.

100 100
90 90
80 80
70 70
60 60
em %

em %

50 50
40
40
30
30
20
20
10
0 10

XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX 0


Presente Pretéritos XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX
Presente Pretéritos
Futuro Formas nominais
Futuro Formas nominais

Fig. 4: Expressão de tempo de 'parecer' Fig. 5: Expressão de tempo de 'achar'


(séc. XIII a XX) (séc. XIII a XX)

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100 Nessas três figuras, verifica-se,
90 também, como tendência geral, o emprego
80 crescente do presente nas construções (linha
70
em destaque), que se acentua e, tudo indica,
60
leva, no período final, à fixação dessa marca
em %

50
40 para as construções com parecer e crer, mas
30 não para as com achar, que ainda permite
20 uma distribuição entre as formas de pretérito
10
0
(linha com triângulo) e de presente.
XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX O século XVII marca o declínio
Presente
Futuro
Pretéritos
Formas nominais
do tempo pretérito nas construções com
achar e parecer, a exemplo do que
Fig. 6: Expressão de tempo
morfológico de 'crer' (séc. XIII a XX) também ocorreu com a expressão de 3P
no mesmo período.
Assim, no processo de subjetivização das construções com achar e crer, a expressão de 1P
acompanha a expressão do tempo presente. Reafirma essa tendência o cotejo entre as figuras 3
e 6, cujas trajetórias apresentam um traçado muito semelhante para a 1P e para o presente.

Considerações finais
Na gramaticalização de construções com predicados de atitudes proposicionais,
apresentei evidências empíricas favoráveis à existência de uma integração fraca entre as
respectivas orações matrizes e encaixadas, fato que propicia o desencadeamento de um
processo de gramaticalização. Sob tal interpretação, advogo que, ao mesmo tempo em
que as construções com predicados atitudinais se recategorizam como satélites
atitudinais (gramaticalização, portanto), elas também se dessentencializam,
incorporando-se como constituinte não-argumental de uma oração independente,
anteriormente com estatuto categorial de oração encaixada.
Na medida em que aumenta a freqüência de uso desses predicados,
independentemente de seus valores semântico-pragmáticos, tokens, portanto, cresce a
sua multifuncionalidade, type, portanto. Nesse percurso de mudança, processos de
subjetivização se implementam pelo recrutamento de formas que, em contextos
específicos, fornecem traços semântico e gramatical para a codificação das perspectivas
e das atitudes do falante. O espaço egodêitico do evento comunicativo parece assim
explicar a crescente freqüência do emprego da 1P e do tempo presente. Diante desses
resultados, é possível sugerir, então, que a qualificação de um conteúdo proposicional
por parte do usuário (1P), envolvendo suas crenças e julgamentos, é sempre
concomitante ao momento presente do ato comunicativo.
Como entendimento mais geral para o modo funcionalista de conceber a
linguagem, resultados convergentes para construções com predicados matrizes de
comportamentos sintáticos diferentes legitimam a premissa da prevalência da
pragmática sobre a semântica e da semântica sobre a sintaxe.

NOTAS
1
No parêntese, após cada ocorrência, indico o período de reconhecimento desses predicados, seguido da
fonte diacrônica de onde a ocorrência foi extraída (TARALLO, 1991). Em alguns momentos, valho-me

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de ocorrências do português moderno, extraídas de Gonçalves (2003), mais ilustrativas do processo de
mudança.
2
Por questão de espaço, não enfocarei aqui a gradualidade da mudança mostrada no cline em (4), a qual
pode ser conferida em Gonçalves (2003).
3
The recente literature on grammaticalization seems to agree that it is not enough to define
grammaticalization as the process by which a lexical item becomes a grammatical morpheme, but rather it
is important to say that this process occurs in the context of a particular construction (…). In fact, it may
be more accurate to say that a construction with particular lexical items in it becomes grammaticized,
instead of saying that a lexical item becomes grammaticized.(tradução minha).
4
Daqui em diante, primeira pessoa será referenciada como 1P, segunda pessoa, como 2P, e terceira
pessoa, como 3P.

Referências bibliográficas
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