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Conversando sobre Ética e Sociedade


[SILVA, J. C; SUNG, J. M. Conversando sobre Ética e Sociedade. Rio de Janeiro: Ed.
Vozes, 1997]

Capítulo 4

Viver para Enriquecer

“Business is business!” (Negócio é negócio!), ou, “amigos, amigos, negócios à


parte!” são frases que revelam uma das características centrais das nossas sociedades
modernas. Elas mostram a separação que existe entre a amizade (e os valores morais) e
a racionalidade econômica. Não somente a separação, mas a subordinação dos valores
como a amizade à racionalidade econômica. Quando a amizade entra em conflito com
interesse econômico, é este que prevalece em detrimento do primeiro.
Nas sociedades tradicionais não havia essa separação. A economia era vista
como um meio para a reprodução da vida. As pessoas trabalhavam para viver; e não
viviam para trabalhar, como nos nossos dias. E para viver precisavam de amigos e do
trabalho. Ética e atividades econômicas eram inseparáveis. Isso fica mais compreensível
se levarmos em conta que nas sociedades pré-industriais era muito difícil alguém
sobreviver isolado de uma comunidade familiar ou de amigos.
Nas nossas sociedades modernas capitalistas, com o mito do progresso, a
economia passou a ser um fim em si mesmo. As pessoas não trabalham mais para viver,
mas vivem para trabalhar e ganhar dinheiro. A pessoas se perguntam “como ganhar
dinheiro mas dificilmente se perguntam para que ganhar dinheiro”. Diante dessa
pergunta inconveniente, respondem que é para ganhar mais dinheiro ou para poder
comprar muitas coisas. Mas comprar é trocar dinheiro por um outro tipo de riqueza. No
fundo, continua no mesmo objetivo de acumular riquezas. A pergunta “para que
acumular riquezas” é inconveniente e até sem sentido para os que interiorizaram a
cultura capitalista porque é “óbvio” que a acumulação infinita é o que dá sentido à vida.
Dizemos “acumulação infinita”, sem fim, não somente porque os teóricos do sistema
capitalista usam explicitamente essa expressão, mas também porque se a acumulação
tivesse fim, um limite preestabelecido, ela acabaria sendo um meio para um objetivo
mais importante.
Quando a acumulação da riqueza passa a ser o objetivo maior de um grupo
social, a lógica econômica passa a ser o centro da vida e o principal critério de
discernimento para as questões morais.

Racionalidade do Mercado
Esses fatos exigiram a criação da moderna ciência econômica. No início, a
economia foi definida como a ciência que busca a melhor utilização dos recursos
econômicos escassos (terra, matérias-primas, mão-de-obra, máquinas, tecnologia...) em
vista da reprodução da vida humana e dos fatores de produção (natureza, máquinas...).
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Com o passar do tempo, a ciência econômica, nos países capitalistas, passou a ser
entendida como a teoria que busca a utilização ótima dos recursos escassos em vista da
acumulação infinita.
Aqui temos uma contradição importante. Tem-se como objetivo a acumulação
infinita que vai possibilitar a realização de todos os desejos (o Paraíso), ao mesmo
tempo em que se reconhece que os meios que temos para isso são escassos, isto é,
finitos. Busca-se um objetivo infinito com meios finitos. É uma contradição que a
maioria ignora. Existem, é claro, economistas que reconhecem os limites da natureza.
Mas, na medida em que não querem abdicar do objetivo da acumulação infinita, eles
tentam superar essa contradição dizendo que o conhecimento humano é infinito. E que a
infinitude do conhecimento vai “driblar” a finitude da natureza e permitir a acumulação
infinita. Mas se o ser humano é finito, como ele pode ter um conhecimento infinito?
Essa é mais uma das perguntas “inconvenientes” evitadas por esses economistas.
Voltando à racionalidade econômica capitalista, é comum ouvir falar em “leis do
mercado”. Essas leis são apresentadas quase como leis naturais ou divinas, pois elas são
inquestionáveis, e tudo é legitimado em nome delas. Para evitar mal- entendidos é
preciso distinguir o “mercado” de “sistema de mercado”. Mercado é o lugar onde
acontecem trocas econômicas. Ele existe desde que os primeiros grupos humanos
conseguiram produzir determinados bens muito mais do que o necessário e começaram
a trocar por outros produtos com grupos vizinhos. Nas sociedades pré-capitalistas o
mercado ocupa um lugar secundário na economia. A produção está voltada
principalmente para a satisfação das necessidades da comunidade produtora, e somente
o excedente é destinado ao mercado. A simples existência de mercado não caracteriza
uma sociedade como capitalista.
No capitalismo vigora o “sistema de mercado”, isto é, o mercado é o coração da
economia. Tudo gira em torno do mercado. Os produtores não produzem para o seu
consumo, mas sim para trocar no mercado. O mais importante na produção de
mercadorias (produtos feitos para venda no mercado) não é a satisfação de alguma
necessidade das pessoas, mas sim a satisfação dos desejos dos consumidores.

O Consumidor e a Ética
O conceito de “consumidor” é fundamental na economia capitalista. Tudo está
em função dele. As modernas teorias de administração de empresas dizem que o
negócio de todas as empresas é a satisfação de clientes, Supermercado, siderurgia,
farmácia, etc. são vistos como ramos desse único negócio.
O que não podemos esquecer é que “consumidor” não é sinônimo de cidadão ou
de ser humano. Consumidor é o ser humano que tem dinheiro para entrar no mercado.
Aqueles que não têm não são consumidores e estão fora do mercado. As mercadorias
não são destinadas à satisfação das necessidades e desejos da população, mas sim dos
consumidores.
Paul A. Samuelson, Prêmio Nobel de Economia, num livro clássico, Introdução
à Análise Econômica, disse que, como as mercadorias vão para onde há maior número
de votos, isto é, para aqueles que têm maior poder aquisitivo. “o cachorro pertencente a
J. D. Rockfeller pode receber o leite que uma criança pobre necessita para evitar o
raquitismo” (Rio de Janeiro, Ed. Agir, 8ª ed. 1977, vol. 1, p. 45). Essa é uma situação
que interpela a todos, não importando se se é favorável ou não ao sistema capitalista.
Samuelson se pergunta se é resultado de um mau funcionamento da lei básica do
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sistema de mercado, a oferta e a procura. A sua resposta é exemplar: “É possível que


estejam funcionando de uma maneira terrível, do ponto de vista ético, mas não do ponto
de vista daquilo que só o mecanismo do mercado é preparado para realizar” (idem).
Essa inversão, onde um cachorro saudável tem mais direito ao leite do que uma
criança raquítica, é justificada em nome das leis do mercado. É claro que, como o
próprio Samuelson reconhece, essa legitimação entra em contradição com qualquer
postura ética. Por isso, ele simplesmente descarta a ética da discussão econômica.
Quando se coloca o mercado como o centro da vida econômica e social e
absolutiza as suas leis, não há nenhum espaço para indignação ética diante de um fato
desumano. Do ponto de vista da racionalidade econômica capitalista, a defesa do direito
de sobrevivência dessa criança pobre é irracional.

A Concorrência e o Cinismo
Uma outra característica central do sistema de mercado capitalista é a
concorrência, a sobrevivência do mais forte/competente. Hoje é muito comum ouvir
ardorosas defesas da “livre concorrência” por aqueles que acreditam que o mercado tem
solução para todos os nossos problemas econômicos e sociais. Essa defesa
incondicional da livre concorrência faz parte do mito do progresso. Como vimos acima,
segundo esse mito a humanidade conseguirá chegar ao paraíso, à acumulação infinita
que possibilitará a satisfação de todos os desejos, através do progresso tecnológico.
Quanto mais progresso técnico, mais perto do paraíso. O segredo está na maximização
do progresso.
Para se obter o máximo de progresso é preciso que os mais competentes estejam
à frente dos negócios. Pois os menos competentes só atrasariam o ritmo do progresso. E
a concorrência é exatamente o processo de seleção dos mais competentes ou fortes. A
concorrência também tem uma outra função. Como o mundo é finito de bens escassos,
não é possível que todos satisfaçam seu desejo de acumulação infinita. À primeira vista,
um indivíduo pode realizar esse seu desejo na medida em que ele derrota os seus
concorrentes nessa corrida sem fim. Assim, a concorrência nasce desse conflito de
interesses. Na verdade, ninguém vai poder satisfazer o desejo de posse infinita. Mas,
enquanto não se chega a essa conclusão, a concorrência é vista como o caminho natural
para a realização de todos os desejos.
Essa lógica da concorrência gera uma contínua ansiedade e tensão nos que ainda
estão lutando dentro do mercado, e dificuldades de sobrevivência para aqueles que são
expulsos do mercado. Pois, numa sociedade em que toda a produção está voltada para o
mercado, estar fora do mercado significa não ter acesso aos bens necessários para a
sobrevivência.
Mas na medida em que essa realidade social é aceita como “a” realidade, como a
única possível, isso acaba gerando conformidade nas pessoas e um certo sentimento de
segurança. E o sofrimento, a miséria e a morte dos excluídos do mercado são vistos e
legitimados como “sacrifícios necessários” para o progresso econômico da sociedade.
A sensação de “normalidade” diante da realidade social leva, muitas vezes, a
uma atitude de cinismo, de pensar que as coisas são assim mesmo que “eu não tenho
nada a ver com isso”, diante dos graves problemas sociais gerados pela lógica do
mercado. Problemas esses que não se pode esconder ou negar, por mais que se
construam muros em torno dos condomínios fechados ou de outros espaços “privés”.
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Pois os pobres que nunca puderam participar dos benefícios e chances proporcionados
pelo mercado e os mais “fracos” que foram sendo expulsos do mercado continuam
ainda a fazer parte da sociedade. Só que sem possibilidades de uma vida digna.
Postura de cinismo ou indiferença frente aos problemas sociais e às dificuldades
de sobrevivência dos que estão fora do mercado, é o outro lado da moeda da expulsão
da ética das discussões econômicas, ou da substituição da ética pela técnica econômica.

Egoísmo como Altruísmo


Adam Smith (1723-1790) foi o grande economista e filósofo moral que
fundamentou teoricamente essa separação entre ética e economia. Na sua obra clássica,
A Riqueza das Nações (1776), ele expôs uma teoria ética e antropológica que serviu de
base para toda economia liberal e neoliberal.
Segundo essa teoria, uma das características do ser humano que o diferencia dos
outros animais é a propensão para trocar uma coisa pela outra. Dessa propensão surge
como uma conseqüência necessária a divisão do trabalho, da qual derivam vantagens e
riquezas. Uma outra diferença entre seres humanos e outros animais consiste no fato de
que quase todos os animais se tornam independentes e auto-suficientes quando atingem
a maturidade, enquanto que nós humanos precisamos quase constantemente da ajuda de
nossos semelhantes.
A divisão do trabalho e a necessidade de ajuda de outros estão na base dos
problemas de convivência humana em grupos e, portanto, na base dos problemas
morais. Como vimos anteriormente, a necessidade de uma moral surge exatamente do
fato de que não é possível uma convivência social sem um mínimo de espírito de
solidariedade com outros. Não se pode organizar e viver num grupo social baseado
somente no egoísmo, na defesa do interesse pessoal e imediato. Pois, a sobrevivência do
indivíduo depende em parte da sobrevivência do próprio grupo. Mas, como os impulsos
egoístas são mais fortes do que os altruístas, as sociedades elaboram e impõem leis
morais para regular essas relações.
A novidade do capitalismo e da teoria de Adam Smith consiste exatamente em
propor uma nova solução para os problemas da convivência em grupo. Adam Smith
parte do pressuposto de que, numa sociedade civilizada, o ser humano necessita da
ajuda e cooperação de grandes multidões e é impossível fazer amizade com todas elas
para esperar delas benevolência. Então ele defendeu a tese de que, se mostrarmos ao
outro que lhe é vantajoso nos dar o que precisamos, teremos muito mais probabilidade
de obter o que queremos. No fundo ele defende a idéia de que o bem-estar da
coletividade é mais facilmente alcançado se apelarmos, não para o altruísmo dos
indivíduos, mas se incentivarmos a defesa de seus próprios interesses econômicos nas
relações de mercado. Isto é, não é apelando à benevolência do padeiro e do açougueiro
que teremos melhores produtos para nossas refeições, mas sim aos seus interesses
econômicos.
Essa tese tem como pressuposto a idéia de que o interesse individual é a
motivação fundamental da divisão social do trabalho e da acumulação de riqueza,
causas últimas do crescimento econômico e, portanto, do bem-estar coletivo. Assim, o
interesse particular (a maximização do lucro) de uma classe (a capitalista) passa a ser
identificado com o interesse geral, da coletividade.
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Aqui temos uma grande transformação. O egoísmo (a defesa do interesse


próprio) é apresentado como a melhor forma de solucionar problemas antes resolvidos
pelo altruísmo e espírito de solidariedade entre os membros do grupo. O egoísmo é
apresentado como a nova forma de altruísmo ou amor ao próximo.
Se o bem-estar da coletividade — o objetivo da moral numa sociedade — é
obtido pela defesa do interesse próprio, não há mais necessidade nem sentido em falar
da ética. Pois só tem sentido falar da ética quando se assumem valores que estão acima
das regras econômicas vigentes. Como no capitalismo as leis do mercado (a defesa do
próprio interesse econômico, a livre iniciativa e a livre concorrência) são apresentadas
como o melhor e único caminho para a convivência social e o progresso, não há mais
sentido falar da ética. Principalmente em éticas que questionam a dinâmica da economia
de mercado, como vimos acima, no caso do leite do cachorro e a criança pobre.
O resultado prático de tudo isso é que a eficácia econômica do sistema de
mercado passou a ser critério supremo para todos os juízos morais. Com a identificação
da eficácia — um critério técnico — como o critério ético supremo, a discussão ética foi
reduzida a uma questão técnica.
Essa nova visão sobre o ser humano, a economia e a ética tornou-se hegemônica
na nossa sociedade e a interiorizamos no nosso processo de socialização. E os meios de
comunicação de massa a reforçam apresentando a nossa realidade e dinâmica social
como “a” realidade, e criticando como irracionais ou sem sentido todas as propostas
alternativas.

Retorno da Ética na Economia


Contudo, o debate sobre a ética na política e nas questões sociais e econômicas
ressurgiu com força nos últimos tempos. Isso se deve a alguns fatores.
Em primeiro lugar, a promessa da solução de problemas econômicos e sociais
pelos mecanismos de mercado não foi cumprida, não só nos países do Terceiro Mundo,
mas também nos países ricos. Hoje é cada vez maior o número de pobres e miseráveis
também nos Estados Unidos. O alto número de desempregados sem nenhuma
perspectiva de emprego, pobres que nunca tiveram chance de se integrar no mercado,
menores de rua, corrupção e outros graves problemas sociais ainda despertam em
muitos uma indignação ética. É a manifestação da nossa liberdade, da nossa capacidade
de imaginar um mundo diferente e melhor, da nossa rebeldia diante do que é, mas que
não deveria ser.
O desejo de acumulação infinita e de consumo sem limites exige uma
exploração desenfreada dos recursos naturais escassos. Por mais que se queira esquecer
que o meio ambiente é finito, limitado, não se pode esconder esse fato por muito tempo.
A destruição de toda uma floresta, na ânsia de maximizar o lucro, tem custos ecológicos
que ameaçam não somente a empresa devastadora mas toda a população. O interesse
imediato desse tipo de empresa entra em conflito com os interesses da coletividade. O
debate sobre esse conflito e o controle social sobre a agressão ao meio ambiente é uma
questão ética fundamental nos dias de hoje.
O interessante nesse retorno da ética à esfera pública é que ela não ficou
reduzida aos contestadores da atual ordem social. Também no meio empresarial se
discute muito a questão ética. Já existe uma grande bibliografia sobre “ética na
empresa”, e a maioria de importantes faculdades de administração de empresas está
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adotando nos seus currículos a disciplina “ética”. O que era impensável até o final da
década de 1980.
Os próprios ardorosos defensores da cultura capitalista perceberam que não se
pode levar muito a sério a tese de que a defesa do interesse individual gera o bem-estar
da coletividade. Com a difusão e aceitação generalizada dessa tese na sociedade, os
indivíduos que trabalham nas empresas começaram também a defender os seus
interesses particulares sem levar em consideração o interesse da coletividade em
questão, a empresa. Com isso, os executivos passaram a defender mais os seus
interesses particulares do que os dos acionistas, gerando sérios problemas de corrupção
e investimentos “duvidosos” de dinheiro das empresas privadas.
Além disso, quando o espírito da defesa do interesse próprio é o mais forte numa
empresa, é impossível criar o espírito de equipe, um item fundamental para aumentar a
produtividade da empresa, tão necessária num mercado competitivo.
Basicamente esses dois problemas levaram os executivos e os teóricos da
administração a voltar a se debruçar sobre questões éticas. Perceberam que a ausência
de ética e a simples defesa do interesse próprio põem em perigo a sobrevivência das
empresas e, portanto, dos seus próprios empregos. É o instinto de sobrevivência falando
mais alto que teorias aprendidas nas escolas.

Ética e Qualidade de Vida

É uma pena que a atual discussão sobre a ética nas empresas e nos negócios
esteja reduzida ao objetivo de maximizar o lucro da empresa. É preciso ir mais a fundo,
tirar todas as lições possíveis dessa situação. Se é verdade que um empregado não
mantém o seu emprego com a falência da sua empresa, também é verdade que uma
empresa terá muitas dificuldades com a “falência econômica e social” do país. Sem
falar no fato de que nenhuma empresa pode sobreviver após a destruição total do meio
ambiente,
Assumir a importância do debate da ética na economia significa levar em conta a
existência de conflitos entre a necessidade e o direito a uma vida digna na sociedade e o
desejo de maximização do lucro do indivíduo ou de uma empresa. Conflito que não
pode ser negado com a simples eliminação de uma das partes, pois isso resultaria
também na eliminação da outra.
Todos nós fazemos parte de uma sociedade e também da natureza. Crise na
sociedade ou na natureza significa também problemas em nossas vidas. E a solução de
problemas sociais não se dá com a absolutização dos interesses pessoais. Necessitamos
recuperar o sentido da vida em coletividade e, portanto, da ética. Para isso precisamos
“desinverter” a equação “viver para trabalhar ou acumular riqueza”; e redescobrir que a
economia deve estar em função da qualidade de vida dos seres humanos.
Para isso precisamos também superar o mito do progresso infinito e o desejo de
acumulação infinita. Nós somos seres finitos, vivendo num mundo com seus limites.
Assim podemos descobrir que a quantidade de consumo e de riqueza não é
necessariamente sinônimo de qualidade de vida. E que a sociedade é mais humana, não
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porque acumula muita riqueza nas mãos de poucos, mas sim porque possibilita a todos
uma vida digna e, portanto, uma convivência social mais harmoniosa, fraterna e justa.
Devemos estabelecer um debate na sociedade para definir se o objetivo principal
da nossa economia hoje deve ser a acumulação de riqueza, que possibilita a grupos
minoritários níveis de consumo semelhantes aos dos ricos dos países ricos, ou a
superação da pobreza e dos nossos graves problemas sociais. Pois a organização da
economia para acumular riqueza é diferente da organização da economia para superar a
pobreza.
Estabelecer esse tipo de debate ético a respeito dos rumos da nossa economia
não significa acabar com o mercado, pois não se pode organizar uma economia nas
sociedades modernas sem relações de mercado. Significa, sim, introduzir a ética na
economia, tentar estabelecer um certo controle da sociedade sobre os objetivos e as
dinâmicas de atividades econômicas.

Texto Suplementar
“Com o desemprego ou baixo salário dos pais e sem acesso ao mercado de
trabalho ou algum tipo de ajuda, esses menores só podem sobreviver de modo ‘ilegal’:
de atividades marginais (limpar pára-brisas de carros nas esquinas, tomar conta de caros
nas ruas...) ou de pequenos furtos. São atividades que atrapalham a vida das pessoas ‘de
bem’, das pessoas integradas no mercado. Não somente atrapalham, mas essas pessoas
se sentem ameaçadas por essas crianças.
Se elas são ameaças (reais ou ilusórias, não importa), não são mais vítimas
inocentes. São culpadas. Não importa se ainda não cometeram algum delito. São
culpadas por delitos que por certo irão cometer. São condenadas antecipadamente. Por
isso, nem os assassinatos de crianças pobres chocam mais a consciência social. (...) A
insensibilidade dos integrados no mercado (na vida econômico-social) diante dos
sofrimentos dos pobres (65% da população brasileira é excluída do mercado) é hoje
uma marca da nossa sociedade. Adultos ou crianças, não importa. Se são pobres, são
culpados. Do quê? Não importa!
Vivemos um estranho paradoxo: as pessoas integradas no mercado têm uma
consciência tranqüila diante da atual crise social, diante da intranqüilidade social. A
maioria dessas pessoas — incluindo a maioria dos cristãos — não se sente mais
interpelada pelo sofrimento dos pobres. É como se ela não tivesse nada a ver com isso.
E como aprendeu que ter consciência tranquila é a prova da sua inocência, a prova de
que ‘está de bem com Deus’, ela se sente duplamente tranquila.
A única intranquilidade diante da crise social é a preocupação de não ser
atingido por essa crise e de não sofrer violência por parte dos pobres e marginalizados.
As pessoas integradas ao mercado se sentem vítimas dos pobres. (...) Os beneficiados do
nosso sistema econômico iníquo tornaram-se vitimas, e as vitimas desse sistema
tornaram-se culpadas’.
— Jung Mo Sung. Se Deus existe, por que há pobreza? São Paulo:
Paulinas, 1995.

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