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TCC I – REVITALIZAÇÃO URBANA E HABITAÇÃO SOCIAL, ILHAS HABITADAS

NO DELTA DO JACUÍ.

Tainã Luiz Prodorutti¹

Juliane Silveira Freire da Silva

Universidade La Salle

Resumo: As ilhas do Delta do Jacuí são um aglomerado de ilhas que fazem divisa com
muitos municípios do estado do Rio Grande do Sul, mas suas áreas habitadas são
pertencentes, em sua maioria, ao município de Porto Alegre, que tem esse local como o bairro
Arquipélago. Essas áreas são habitadas em grande parte por população de baixa renda e em
locais inapropriados, como áreas próximas a rodovias ou próximas a locais de enchentes e, o
mais preocupante, em áreas de proteção ambiental sem saneamento e moradia digna. A
população se divide entre pescadores, catadores, pessoas que trabalham fora da ilha e
residências de alta renda, geralmente para uso de final de semana.
Palavras-chave: Habitação; Revitalização; Social; Ilhas; Jacuí.

URBAN REVITALIZATION AND SOCIAL HOUSING, ISLANDS DWELLING IN THE


DELTA DO JACUÍ

Abstract: The islands of Delta do Jacuí are a cluster of islands bordering many municipalities
in the state of Rio Grande do Sul, but their inhabited areas are mostly owned, almost entirely
by the municipality of Porto Alegre, which has this location as the Archipelago neighborhood.
These areas are mostly inhabited by low-income populations in inappropriate places, such as
areas close to highways or close to places of flooding, but the most worrying in areas of
environmental protection without sanitation and decent housing. The population is divided
into fishermen, waste pickers, people who work outside the island, and high-income homes,
usually for weekend use.
Keywords: Housing; Revitalization; Social; Islands; Jacuí.

¹Estudante de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Lasalle.


taina.prodorutti@gmail.com
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO......................................................................................................03
1.1 Objetivos...............................................................................................................04
1.1.1 Objetivo Geral....................................................................................................04
1.1.2 Objetivo Específico............................................................................................04
1.2 Justificativa...........................................................................................................05
1.3 Roteiro...................................................................................................................06
2 ÁREA DE ESTUDO..............................................................................................07
2.1 Ilhas habitadas a serem estudadas.........................................................................09
2.2 Legislação.............................................................................................................11
3 HISTÓRIA..............................................................................................................12
4 HABITAÇÃO SOCIAL.........................................................................................15
4.1 Habitação Social no Brasil....................................................................................17
5 REVITALIZAÇÃO URBANA.............................................................................18
6 ESTUDO DE CASO..............................................................................................20
7 CONCLUSÃO........................................................................................................22
REFERÊNCIAS........................................................................................................24

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1 INTRODUÇÃO

Os preceitos para se ter uma vida digna incluem diversos aspectos, como a promoção
de saúde e bem-estar, e são considerados direitos fundamentais de todas as pessoas. O acesso
à habitação de qualidade faz parte dos direitos sociais proclamados pela Declaração Universal
dos Direitos Humanos. No Brasil, a Constituição Federal também reconhece a saúde e a
habitação como direitos sociais fundamentais.
Com o passar dos anos, a industrialização, o aumento da população e o capitalismo
como norteador econômico gerou, principalmente em países menos desenvolvidos, uma
distribuição de renda desigual, levando muitas pessoas à pobreza e à falta de direitos simples
para a vida digna, como a habitação de qualidade.
O direito à moradia consiste no “direito de toda a pessoa ter acesso a um lar e a uma
comunidade seguros para viverem em paz, dignidade e saúde física e mental” (ONU, 2012).
Infelizmente, nos dias atuais, essa questão se tornou rotineira a todos nós que, por
diversas vezes, acabamos nos deparando com a favelização em muitas áreas das cidades, algo
que deveria ser tratado com mais ênfase por governos e até mesmo nas questões privadas.
A habitação, além de ser um direito humano fundamental, é um dos fatores
determinantes para a saúde e a qualidade de vida. Diferentes condições de habitação levam a
distintos níveis de exposição ao risco ambiental (PESSOA, 2014).
A área a ser estudada neste trabalho compreende o bairro Arquipélago, pertencente à
cidade de Porto Alegre e à Área de Proteção Ambiental (APA) Delta do Jacuí, que consiste
em uma área de ilhas, em sua maioria imprópria para moradia.
As áreas ocupadas são compostas por população carente, que vive em condições
precárias, sem acesso à moradia digna e saneamento básico, em áreas de proteção ambiental
não regularizadas para construções e sem condições de vida nem suporte público para isso.
A exceção a isso é a ilha da pintada, que tem uma malha urbana definida inclusive
pelo plano diretor da cidade de Porto Alegre, onde a população é mais estruturada, pois os que
vivem de pesca têm o rio à disposição com fácil acesso e inclusive grupo de pescadores, além
de catadores e pessoas de baixa renda, e, ainda, temos as mansões para uso de lazer da
população de classe média e alta.
O trabalho visa estudar as condições de habitação e acesso à cidade das famílias
carentes e propor uma proposta de intervenção junto a elas com melhorias de moradia e

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urbanização, criando atrativos às pessoas não residentes das ilhas, unindo a pesca a esse
atrativo para quem vive dela nas ilhas e até mesmo núcleos educacionais para facilitar a
população local a ter acesso à educação básica.

1.1 Objetivos

1.1.1 Objetivo geral

Compreender e estudar as ilhas habitadas do Delta do Jacuí, utilizando a arquitetura e


o urbanismo para criar novas moradias e espaços para pessoas de baixa renda, sem
saneamento básico e/ou população ribeirinha que sofre com as cheias do rio, falta de
saneamento e moradia digna.

1.1.2 Objetivos específicos

 Realocação das famílias próximas às rodovias, aos rios ou no interior das ilhas
que vivem em condições precárias de moradia.
 Desenvolvimento de projeto de novas moradias individuais e/ou coletivas para
abrigar essas famílias necessitadas.
 Desenvolvimento de projeto de espaços nas encostas para quem vive da pesca,
espaços para guardar seus objetos de trabalho e mercados para a venda de peixes.
 Novas vias atrativas para que mais pessoas cheguem a esses locais criando
maior mercado à região.
 Desenvolvimento de projeto de espaços públicos de convivência para a
população local.
 Desenvolvimento de projeto de mais espaços educacionais.
 Todas essas criações darão uma qualidade de vida aos habitantes da ilha e um
melhor aspecto à chegada da capital, que é o último objetivo do artigo.

1.2 Justificativa

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O processo de urbanização do Brasil, em sua maioria, é excludente. A população de
baixa renda não tem acesso pleno à cidade em suas áreas centrais e bem localizadas. A
desigualdade social e de renda no país é algo que convivemos no dia a dia de nossas vidas e
está tão presente que acabamos nos acostumando com essa situação.
Segundo o IBGE, o rendimento médio mensal (incluindo, além da renda proveniente do
trabalho, os rendimentos de aposentadoria, pensão, aluguel, programas sociais, etc.) per capita
domiciliar em 2017 foi de R$ 6.629 para a parcela que representa os 10% dos brasileiros mais ricos.
Já entre a parcela dos 40% mais pobres, o rendimento médio foi de apenas R$ 376. Esse dado mostra
a desigualdade que assola nossa atual sociedade. Essa diferença brutal faz com que a população com
menor taxa de renda se instale nas periferias da cidade ou até mesmo em locais impróprios para a
ocupação humana, locais mais afastados e com menor cuidado dos órgão públicos, muitas vezes sem
saneamento e com residências que não estão dignas para se viver.
Essa pesquisa apresenta as Ilhas do Delta do Jacuí, uma zona pertencente à cidade de Porto
Alegre, mais especificamente o bairro Arquipélago, localizado em ilhas e afastado da cidade, por isso
com um certo abandono do poder público. Essas ilhas apresentam uma grande desigualdade social e
de moradia, pois nelas se tem uma parcela de residências de alto padrão utilizadas como casas de final
de semana, mas, em sua maioria, residências simples de baixo padrão ou até mesmo casebres sem
nenhum tipo de saneamento ou condições de moradia.
A população de baixa renda, em geral catadores, pessoas com empregos com baixa
remuneração ou pescadores, tem dificuldade de desenvolvimento de renda e fica largada pelo poder
público, pois mora em um local afastado com um urbanismo defasado e residências impróprias para
viver.
A ideia da pesquisa é apresentar esse local em sua totalidade e apontar seus piores pontos para
propor uma proposta de intervenção futuramente em projeto, tendo como visão uma regularização
fundiária das áreas mais necessitadas, como as próximas aos rios e atingidas por enchentes ou
próximas à Travessia Regis Bitencourt; esses são pontos críticos das áreas, além de zonas internas em
que fica localizada uma população de baixa renda como carroceiros e catadores. A ideia é de uma
revitalização urbana para o local, criando novas vias e espaços públicos para vivência, escolas e
centros de lazer, além de espaços às margens dos rios para pescadores, e, o principal, a criação de
habitações sociais para essas famílias, apresentando novas residências, sendo elas únicas ou
condominiais, fazendo sua remoção e realocação, e, por final, isso ainda acabaria acarretando em uma
melhora na paisagem de acesso à capital, hoje influenciada por esses casebres à beira da via.

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1.3 Roteiro

O trabalho está divido em 7 pontos principais, iniciando com uma introdução ao tema,
seus objetivos e a justificativa. Em seguida, vemos a apresentação da área de estudo como um
geral e, logo após, especificamos a área de atuação, passando por uma breve apresentação da
legislação vigente no local.
Após justificar o tema, colocar seus objetivos e apresentar a área de atuação, conta-se
a história do local, que passou por muitas mudanças com o tempo.
Temos, então, a definição do que é habitação social pela visão de vários autores,
definindo-a da melhor e mais adequada forma, passando para uma história de como a
habitação social se deu no Brasil até seu último programa.
Vemos, também, a definição geral de revitalização urbana, o que é e como melhor
realizá-la - até aqui, toda a pesquisa teórica é feita para poder chegar no estudo de caso.
O estudo de caso se dá com visitas ao local e entrevistas com a população, definindo a
malha urbana, os pontos principais a serem modificados, melhores locais de realocação de
pessoas e um levantamento de famílias e residências, finalizando, então, com as considerações
finais da pesquisa.

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2 ÁREA DE ESTUDO

As ilhas do Delta do Jacuí são formadas pela disposição dos sedimentos trazidos pelos
rios dos Sinos, Caí, Gravataí e o Jacuí e estão localizadas entre os municípios de Porto Alegre,
Canoas, Nova Santa Rita, Triunfo, Eldorado do Sul e Charqueada. As ilhas possuem uma
formação geomorfológica do tipo planície deltaica. O mapa 1 mostra a localização das
principais ilhas do Delta do Jacuí (MOURA e DIAS, 2012; CHIAPPETTI, 2005, p. 26).

Figura 1 – Identificação das principais ilhas do Delta do Jacuí. Fonte: PESSOA (2014).

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As ilhas do Delta do Jacuí são áreas baixas e planas, com altitudes inferiores a 10
metros e declividades inferiores a 2% (MOURA e DIAS, 2012), e úmidas, formadas por
banhados, campos inundados sazonalmente, canais e matas riparias (RAMOS e BURGUER,
2007).
Segundo Mariana Lisboa Pessoa:

Esse fator contribui para que essas áreas tenham um regime hídrico bastante
peculiar, caracterizado pelas cheias sazonais, o que cria um ambiente natural
adaptado a essas condições de umidade extrema em determinada época do ano. Essa
mesma característica, no entanto, faz com que boa parte da área dessas ilhas não seja
própria para a ocupação humana. (PESSOA, 2014)

Devido às suas características geográficas e de biodiversidade que têm uma grande


relevância ambiental para as áreas a seu redor, foram instauradas pelo poder público no Delta
do Jacuí duas unidades de conservação da natureza: a Área de Proteção Ambiental do Delta
do Jacuí (APADJ) e o Parque Estadual do Delta do Jacuí (PEDJ) (PESSOA, 2014).
Moscarelli (2005) coloca a formação geológica das ilhas como bastante recente,
formada através de sucessivas transgressões e regressões marinhas, os sedimentos trazidos
pelos rios somam-se às ilhas diariamente. Moura e Dias (2012) dizem que as ilhas são áreas
de terras baixas, alagadiças, com canais anastomosados, apresentam areias inconsolidadas de
idade holocênica. Ainda de acordo com as autoras, em seu interior existem banhados,
meandros abandonados e indícios de paleocanais.
Essas características fazem com que grande parte das ilhas não possam ser habitadas.
Apenas 4 delas servem de moradia e, mesmo assim, boa parte ainda não tem condições devido
aos problemas citados acima. As ilhas habitadas são: Ilha do Pavão, Ilha Grande dos
Marinheiros, Ilha das Flores e Ilha da Pintada, que serão as ilhas estudadas e que sofrerão
intervenção projetual.
O parque Delta do Jacuí foi criado por um decreto estadual em 14 de janeiro de 1976,
mas somente a partir de 2006 se tornou uma área de proteção ambiental (APA), sendo
permitida a instalação de serviços púbicos como água e esgoto (MALAGGI, 2018).

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Figura 2 – Ilhas que serão estudadas – Fonte: SOUZA (2015), editado.

2.1 Ilhas habitadas a serem intervidas

Hausman (1961) menciona que a primeira ocupação foi o aterro da ponta da cadeia
para a construção de cárcere (1855), seguindo-se no mesmo ano o aterro para a abertura da
rua 7 de setembro. Segundo o censo do IBGE, a população do bairro Arquipélago vem
crescendo dessa forma: 1970 – 2.183 habitantes, 1980 – 2.270 habitantes, 2000 – 5.061
habitantes, 2010 – 8.330 habitantes (OLIVEIRA, 2002).
A área estudada sofre anualmente com inundações causadas pelas chuvas que fazem as
cheias dos rios. Segundo Reckziegel (2018), as inundações são eventos recorrentes e afetam
elevado número de pessoas e moradias causando principalmente perdas financeiras. Entre
1940-2015, foram registrados 46 eventos de inundação na região, geralmente quando atingem
a cota de 1,78m na estação da ilha da pintada. Apenas 20% das áreas com risco de inundação
são habitadas hoje em dia, estas com níveis abaixo da Travessia Regis Bittencourt.

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A imagem 3 mostra o tipo de mata e solo nas ilhas e mostra que as áreas edificadas se
concentram próximas às margens de rios e na beira da Travessia Regis Bittencourt, isso
porque ficam próximas à mata ciliar ou banhado, geralmente aterrado.

Figura 3 – Tipos de mata – Fonte: ESNAOLA.

O principal ambiente de vegetação e solo onde se encontram edificações:


 Mata ciliar: Acompanha os pequenos cursos d’água assim como as margens de
lago e das ilhas do Delta. Espécies como o branquilho, o chorão e o ingá são
frequentes junto às ilhas. Esse tipo de florestal contém algumas espécies que
perdem suas folhas no inverno (ESNAOLA).
A figura 4 mostra a ligação dos demais bairros de Porto Alegre com o Delta do Jacuí
pela Travessia Regis Bittencourt e também a nova ponte do Guaíba em azul, e ainda as ilhas
estudadas em verde e, em vermelho, as áreas edificadas próximas aos rios e à Travessia Regis
Bittencourt. Quando se trata da Ilha da Pintada e da Ilha Grande dos Marinheiros, grande
parte da costa tem edificações de alto padrão e que não sofrerão intervenção, somente as de
baixa renda.

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Figura 4 – Local de estudo – Fonte: Google Earth, Editado.

2.2 Legislação

Mullich (2011) diz que, para abordar as legislações, é importante salientar que as ilhas
aparecem intrinsecamente na legislação federal como unidade de conservação sustentável
responsável pelas APPs, na legislação estadual enquanto Área de Proteção Ambiental
Estadual Delta do Jacuí (APAEDJ) e municipal como pertencente ao bairro Arquipélago.
O plano diretor divide o município em macrozonas com características semelhantes
nas questões socioeconômicas, paisagísticas e ambientais. O bairro Arquipélago pertence à
macrozona 9, que é uma área de ocupação rarefeita (AORs), com baixa densidade
populacional (MULLICH, 2011). A PDDUA estabelece o regime urbanístico da região, mas
apenas a Ilha da Pintada recebe reconhecimento para zona residencial.
Pessoa (2014) afirma que boa parte dos terrenos não possui registro de propriedade
(nem os públicos), e mesmo aqueles que possuem têm sua legitimidade discutida porque a
jurisprudência entende que as ilhas pluviais e lacustres são bens pertencentes aos estados ou à
União, conforme Constituição Federal Art. 26, inciso III.
Em resumo, Mullich (2011) separa LEGISLAÇÃO FEDERAL como responsável pelas
águas públicas de uso comum, terrenos costeiros e áreas de conservação. LEGISLAÇÃO
ESTADUAL está focada nas unidades de conservação, sendo essas inúmeras unidades como a

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APAEDJ e FEPAM. E LEGISLAÇÃO MUNICIPAL como responsável pelo Plano Diretor de
Desenvolvimento Urbano e Ambiental (PDDUA), áreas de interesse cultural e instituto de
planejamento urbano.

Tabela 1 – Plano diretor referente ao bairro Arquipélago. Fonte: PDDUA (2010).

Segundo SOUZA (2014), a área das ilhas tem um plano de manejo que contempla a
ação de tornar adequadas as formas de ocupação urbana da APA, a regularização das áreas de
APP e remoção das áreas impróprias de moradia, diminuição da pesca, fortalecimento da
identidade e cultura local através do fortalecimento da atividade da pesca, controle de
empreendimentos, visando atividades voltadas à mineração e agricultura, e, por fim, propõe
uma gestão íntegra entre as duas unidades, APAEDJ e PEDJ.

3 HISTÓRIA

Segundo a prefeitura de Porto Alegre:

A presença humana no Delta remonta ao início do século passado nas ilhas da


Pintada e Flores, estendendo-se, após, pelas demais ilhas de forma mais ou menos
uniforme. Até os anos 50, sua importância econômica deveu-se ao conjunto de
atividades pesqueiras, agrícolas, industriais e comerciais, desenvolvidas em todas as
ilhas, suprindo as necessidades da Porto Alegre de então. Modificações
circunstanciais às áreas do Delta e outros aspectos ligados ao crescimento de Porto
Alegre fizeram com que aquele tipo de economia fosse perdendo, ao longo dos anos,
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sua importância e até desaparecendo como forma de exploração econômica. (Site
Prefeitura de Porto Alegre. As caras da cidade)

As facilidades de acesso pela Travessia Regis Bitencourt propiciaram e intensificaram


a ocupação atual das ilhas do Delta do Jacuí. Esta ligação das ilhas com o continente
possibilitou a essa população exercer atividades no mercado de trabalho na cidade de Porto
Alegre, mas também trouxe vários problemas ambientais por uma habitação desordenada em
áreas impróprias geologicamente (Prefeitura de Porto Alegre, 2020).
Nas Ilhas Grande dos Marinheiros, das Flores e Pavão, as vilas populares apresentam
uma precariedade de infraestrutura urbana por sua maioria ser de população de baixa renda,
exceto na ilha das Flores, onde se apresentam residências de alto padrão junto à encosta do
rio, muito isoladas. Já a ilha da Pintada foi originada de uma ilha de pescadores e hoje
constitui a menor baixa densidade populacional de Porto Alegre, dando um agradável
grupamento urbano a se viver, ainda que hoje em dia apresente população de baixa renda
próxima à rodovia da Travessia Regis Bitencourt (Prefeitura de Porto Alegre, 2020).
Conforme Plandel (1979), a Ilha Grande dos Marinheiros passou a apresentar
favelização no final da década de 1970 com o surgimento de pequenas vielas de traçado
irregular, com pequenos espaços para passagem de carroças, falta de saneamento básico, rede
de esgoto e depósito de lixo. O estudo de Devos (2007) permite compreender que a ocupação
histórica do bairro Arquipélago pode ser classificada em cinco etapas, partindo da presença
dos índios, negros, pescadores, marceneiros, moradores sazonais até a chegada dos moradores
de alta e média renda.

Figura 5 – Ocupação Histórica – Fonte: Devos (2007).


O Parque Estadual Delta do Jacuí foi fundado em 1976 para preservar as áreas verdes
próximas aos centros urbanos e garantir a função das ilhas, que é filtrar a água dos rios e
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preservar a qualidade do pescado e fauna e flora das ilhas. Dentro da cidade de Porto Alegre,
as Ilhas do Delta estão representadas pelo bairro Arquipélago, com 8.330 habitantes segundo
senso de 2010 (MALAGGI, 2018).
Segundo Pessoa (2014), os moradores da ilha se definem em dois grupos, os que
nasceram na ilha, e quase sempre são pescadores, e os que foram morar na ilha por diversos
motivos, isso inclui programas de reassentamento do governo. Conforme uma entrevista de
uma moradora, quem nasceu na ilha é denominado de ilhéus e quem foi morar na ilha, de
ilheiros.
Segundo Souza (2015):

De acordo com o histórico dos bairros de Porto Alegre (PMPA, 2014), o bairro
Arquipélago é formado por 16 ilhas e considerado um dos bairros mais peculiares do
município. A peculiaridade, atribui-se à extensa área de UC, correspondente à APA,
ao parque e à cultura de ilhéus, desenvolvida pelos seus habitantes. Neste
documento é também mencionada a ocupação antiga de índios guaranis e de negros
nas ilhas, sendo encontrados elementos que fazem referências à presença de
quilombos no bairro (PMPA, 2014).

A ocupação de negros nas ilhas é possivelmente anterior à data de 1810. Isto se


verifica por um registro de compra de terras datada desse ano, já utilizando a denominação de
Ilha do Quilombo (GOMES, ib.)
De acordo com Souza (2015):

Segundo os moradores antigos do Arquipélago, no século XVIII as ilhas Saco do


Quilombo, Maria Conga, também chamada Ilha do Quilombo (atual Ilha das Flores),
e Maria Majolla abrigaram ancestrais escravos. A presença de quilombo nas Ilhas é
assunto ainda pendente de estudo aprofundado, porém documentos da Câmara do
século XIX comprovam a presença de população negra na Ilha em 1810 e dá
indícios de que sua ocupação seja anterior a esta data.

Mullich (2011) coloca a ocupação histórica do bairro com a presença de índios,


negros, pescadores e demais moradores. Sendo assim, a presença de negros no bairro
Arquipélago remete ao século XVIII.

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Figura 6 – Ocupação histórica, bairro Arquipélago. Fonte: Mullich 2012.

A figura abaixo mostra fatos históricos e as principais enchentes na região.

Figura 7 Fatos Históricos 1. Fonte: Ana Caroline Thomé Lutz (2018).

A imagem abaixo mostra os principais fatos marcantes que aconteceram nas ilhas do
Delta do Jacuí.

Figura 8 – Fatos marcantes. Fonte: Ana Caroline Thomé Lutz (2018).

Pode-se, ainda, acrescentar que, em 1999, foi criada a Secretaria Nacional do Meio
Ambiente (SEMA), e a divisão do parque foi transferida para a divisão de unidades de
conservação (DUC). Em 2010, foi criado o plano de ações emergenciais (PAE-APAEDJ),
visto que o plano de manejo ainda não havia sido feito. Em 2014, foi criado o plano de
manejo do PEDJ, e, em 2017, foi criado o plano de manejo do APAEDJ.

4 HABITAÇÃO SOCIAL

Segundo Farinon e Becker (2013):

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Ao conceitualizar a relevância da habitação, evidencia que a função primordial desta
é a de abrigo, a qual desempenha três funções: social, ambiental e econômica. Como
função social, segundo o autor, ter de abrigar a família é um dos fatores de seu
desenvolvimento e deve atender os princípios de habitabilidade, segurança e
salubridade. Na função ambiental, a inserção no ambiente urbano é fundamental
para que estejam assegurados os princípios básicos de infraestrutura, saúde,
educação, transportes, trabalho, etc. Já a função econômica oferece oportunidades de
geração de emprego e renda, mobiliza vários setores da economia local e influencia
os mercados imobiliários e de bens de serviços. Com a promulgação do Estatuto da
Cidade (Lei Nº 10.257), a habitação assumiu a condição de direito básico da
população, em que é financiada pelo poder público, mas pode ser executada por
qualquer entidade. Destina-se a famílias com renda de até três salários mínimos e
objetiva a inclusão social e a preservação ambiental.

Em 2005, foi instituído pela Lei Federal nº 11.124 o Sistema Nacional de Interesse
Social (SNHIS), este tem por objetivo executar programas destinados à Habitação de Interesse
Social (HIS) e levar a população mais pobre a moradias dignas. O programa determina um
conjunto de soluções para facilitar o consentimento de financiamentos dos imóveis e
estabelece normas que devem oferecer infraestrutura básica, serviços urbanos e equipamentos
sociais nos conjuntos habitacionais (Farinon e Becker 2013).
Segundo Abiko (1995), habitação popular é definida como sinônimo de abrigo, e são
qualificadas como moradias direcionadas para a população de baixa renda, construídas de
modo a assegurar condições necessárias sem que haja a necessidade de altos custos na
produção.
Abiko (1995) denomina habitações de baixa renda em diferentes termos:
 Habitação Subnormal: Aquelas onde há condições mínimas de habitabilidade
como segurança, durabilidade e dimensionamento.
 Habitação de Baixo Custo: São habitações baratas sem que signifique
necessariamente habitação para população de baixa renda.
 Habitação de Interesse Social ou Habitação Social: É um termo que envolve
programas habitacionais para faixas de menor renda.
 Habitação para População de Baixa Renda: Esta tem a mesma conotação de
habitação social, mas é definida a renda máxima das famílias situadas nesse
atendimento.

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As habitações populares surgiram para minimizar o déficit de moradia, mas além de a
demanda não atingir o necessário para beneficiar todas as famílias, as moradias não cumpriam
as condições mínimas de adaptabilidade. Além disso, nas habitações sociais os problemas se
estendem a mais pontos, como ausência de condições adequadas de adaptabilidade, conforto,
estética, em sua maioria qualidade inferior, dimensões inadequadas e segregadas dos centros
urbanos (ABIKO 1995).
Bonduki (1999) define habitação social pelo modo de produção, que pode advir por
diferentes setores: Setor privado: Cortiços, vilas e correr de casa. Estatal: Habitações
produzidas pelo estado. Habitação produzida pelo próprio morador: Favela e/ou periferia.

4.1 A Habitação Social no Brasil

Rubin e Bolfe (2014) colocam que os problemas de moradia no Brasil começam no


início do século XIX, influenciados pela ampliação dos espaços urbanos no país. Esse fato foi
acarretado pelo fim da escravidão e as atividades do complexo cafeeiro. A consequência disso
é a migração dos que eram escravos para as cidades e o aumento do mercado de tralho à
procura de emprego. Na década de 1980, devido à grande massa de imigrantes europeus que
chegaram no Brasil à procura de emprego, esse aumento populacional é intensificado ainda
mais.
Com esses dois eventos, vieram os primeiros problemas de moradia, transportes e
serviços públicos. É nesse período que se desencadeia a primeira crise habitacional. Surgiram,
então, as construções de diversos tipos de locais informais, originando os cortiços e
estalagens, em sua maioria em condições precárias (BONDUKI, 1999).
Strohmeier (2017) ressalta que a principal forma de abrigo a ser desenvolvida a partir
desse momento é o cortiço. Ele descreve como: “O cortiço é uma solução de mercado, é uma
moradia alugada, é um produto de iniciativa privada”. Do início do século XX até a década de
1930, o governo agiu de maneira ineficiente frente ao problema de habitação, fazendo com
que o mesmo fosse agravado em diversas cidades brasileiras. Essa condição passou a mudar
com a revolução de 30, a industrialização e a urbanização começaram a se destacar e uma
política de habitação foi iniciada. Nesse momento, nota-se que o setor privado não resolveria
o problema de habitação, sendo assim o estado assume essa tarefa (STROHMEIER, 2017).

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No período pós anos 30, houve a criação dos Institutos de Aposentadoria e Pensão
(IAPS) pelo governo Vargas, que foram de grande importância para que incorporações
imobiliárias fossem viabilizadas (RUBIN, 2013). Em 1946, foi criada a Fundação da Casa
Popular (FCP), composta por financiamento de casas e de infraestrutura urbana, além de
pesquisas e estudos (VILLAÇA, 2001). Bonduki (1999) considerou a FCP como um símbolo
de ineficiência do governo que não se organizou para o problema habitacional.
Em 1964, foi criado o Banco Nacional de Habitação (BNH), que também não teve um
bom aproveitamento, foi criado para dar a casa própria para classes baixas, mas determinadas
medidas de custo e distanciamento das cidades não geraram as melhores soluções
(BONDUKI, 1999).
Em 2003, foi criado o ministério das cidades, fazendo a política habitacional brasileira
passar novamente por ajustes institucionais, tendo como base habitação, serviços básicos à
cidadania e a inclusão de setores excluídos do direito à cidade (RUBIN e BOLFE, 2014). Em
2004, foi desenvolvida a Política Nacional de Habitação (PNH), que tem como princípio o
direito à moradia (firmado na Constituição Federal de 1988), tendo um padrão mínimo de
habitabilidade, acesso a saneamento, transporte e infraestrutura (SOUZA, DEMALDI e
ROSSA, 2017).
Em 2009, foi lançado o programa Minha Casa Minha Vida (MCMV), criado para
atender a população de baixa renda e diminuir o déficit habitacional. Para poder ter acesso ao
programa, é necessário se encaixar em inúmeros critérios, ainda que com problemas e ajustes
para serem realizados. Até o ano de 2014, eram 1,7 milhões de moradias entregues. As
grandes críticas ao programa vêm da questão de se olhar somente números e não pensar na
habitação (MARICATO, 2007). Outra crítica é a da monotonia estética da repetição em
grande escala, em alguns casos burlando o sistema e aumentando ainda mais essa repetição
(RUBANO, 2015).

5 REVITALIZAÇÃO URBANA

Segundo Vivian (2016), o processo de revitalização urbana é um fenômeno


contemporâneo (político, econômico, social e jurídico) presente em diversas cidades. O termo
“revitalização urbana” pode-se entender como a transformação de determinado lugar na

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cidade, a partir da elaboração de novas configurações espaciais, arquitetônicas e paisagísticas
de determinado local.
Revitalização urbana engloba operações destinadas a relançar a vida econômica e
social de uma parte da cidade em decadência. Esta noção, próxima de reabilitação urbana,
aplica-se a todas as zonas da cidade, sem ou com identidade e características marcadas
(CARTA DE LISBOA, 1995).
Portas (1998) destaca alguns objetivos nos modelos de projeto, como: renovação e/ou
ampliação de espaços coletivos com infraestrutura e embelezamento; transformações de
conexões, redes e interfaces; revitalização de atividades urbanas; fundação de novas
centralidades; e instalação de parques temáticos e de sistemas ambientais. Os projetos urbanos
geralmente são utilizados em locais importantes para a cidade, mas também em circunstâncias
como catástrofes, investimentos privados e decisões públicas setoriais.
Segundo Januzzi (2006):

O novo modelo de projeto urbano procura sobretudo responder aos problemas de


abandono e decadência, buscando atingir os objetivos com eficácia na sua execução.
Mas, para a viabilização dos programas de revitalização, existe necessidade de
criação de agentes catalizadores de desenvolvimento, ou seja, que acelerem o
movimento das ações, proporcionando a continuidade do projeto na criação de uma
nova imagem.
Os agentes catalizadores seriam um dos fatores essenciais para o início da
revitalização, servindo muitas vezes como base de sustentação de um projeto, ainda
que somente eles não garantissem o sucesso. Os programas de revitalização
foram adotados em diversos países, com variados tipos de agentes catalizadores.

Existe uma grande diversidade de temas, localização e objetivos a ser considerada nas
intervenções urbanas do tipo projeto urbano de revitalização, mas que não dificultam o
reconhecimento das características mais importantes e nem a compreensão dos agentes mais
significativos que atuam nas políticas urbanas (JANUZZI, 2006). Busquets (1999) destaca
que os novos planos e projetos de intervenção das cidades devem ser conduzidos de forma
mais articulada, obedecendo sempre uma certa ordem e coerência do planejamento,
respeitando o passado histórico e admitindo os diferentes níveis de complexidade existentes.
Botelho (2006) diz que a necessidade de “revitalização” de determinada região de uma
cidade é geralmente referida a um quadro de deterioração, abandono. Por “revitalizar”,

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compreende-se fazer florescer algo que não tem vitalidade.

6 ESTUDO DE CASO

O estudo de caso se deu através de visitas às ilhas como um todo, para compreender
sua malha urbana e como se distribuem as residências e famílias nas ilhas. Com isso, pudemos
compreender as áreas de proteção ambiental e os terrenos para realocação das famílias
necessitadas, que vivem em moradias sem sanemento ou em pontos de enchentes e ainda
moradias sem a devida estrutura digna de habitação. Por fim, uma quantificação de
residências e famílias além de uma pesquisa com as mesmas para identificar se gostariam de
uma realocação para um conjunto de habitação social com uma revitalização urbana
adequada.
A primeira ilha que se chega ao passar pelo vão móvel da ponte do Guaíba é a Ilha do
Pavão, que tem, a sua esquerda, um posto de polícia abandonado e, a sua direita, uma
instituição de ensino infantil. Logo à frente, encontramos as primeiras moradias em estado
crítico, entre essas um acesso à Sociedade Navegantes São João. A Ilha do Pavão não
apresenta uma malha urbana nem mesmo a possibilidade de ocupação segundo o plano diretor
de Porto Alegre, as moradias ali encontradas estão em um princípio de favelização,
apresentam estado crítico e com condições de vida precárias.
Os moradores têm uma faixa de renda bem básica, catadores, desempregados,
pescadores, pequenos comerciantes locais e poucos que trabalham fora da ilha. A ilha
apresenta em seu território uma estimativa de 160 famílias, não necessariamente tendo esse
número de residências. Na porção norte, há a passagem do novo acesso à nova ponte do
Guaíba, mas nesse caso ela não interfere nas residências nem em uma possível realocação
projetual. Dentre todas as ilhas, é a que menos sofre com a questão de cheias, pois está em
uma cota mais elevada em relação às demais.
Logo à frente, temos a Ilha Grande dos Marinheiros, com cerca de 850 famílias. Essa é
a primeira ilha com uma diferença social visível, dividida pela Travessia Regis Bittencout
entre lado sul e norte. Nessa ilha também não temos uma malha urbana definida e também
não consta no plano diretor da cidade, mas há uma população muito superior à Ilha do Pavão
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até mesmo por ter uma extensão maior de terra.
Logo que passamos a ponte, temos o acesso à ilha e podemos ver uma favelização em
ambos os lados da rodovia, com moradias muito precárias, sem saneamento ou qualidade para
viver. Ao lado sul, vemos que essas moradias ficam apenas na faixa que costeia a rodovia e
logo encontramos uma única via calçada com mansões nas duas faces, essa tipologia de casas
de alto padrão se dá até o final dessa via, deixando as moradias de baixa renda apenas
próximas à rodovia.
Já no lado norte da ilha temos essa favelização estendida a pontos mais críticos e com
maior número de residências e famílias nessa condição. Mais ainda ao norte, vemos que isso
não fica somente às margens da rodovia. Essa favelização se dá em uma extensão maior, mas
somente às margens do rio, tendo, além do problema de moradia, o problema das cheias,
sendo muito presente nesse ponto.
Um fato novo aos moradores do norte da ilha é a nova ponte do Guaíba, que interfere
diretamente na vida dos mesmos, a licitação da ponte prevê a realocação dos moradoes a uma
nova área residencial. A implantação da ponte será uma problemática de projeto a ser tratada
em TCC II, mas não utilizando o reassentamento previsto pela concessão da ponte, e sim
sendo proposto como habitação social e revitalização urbana a todos os moradores
necessitados, não somente aos que sofrerão pela implantação da nova ponte do Guaíba.
Seguindo mais à frente, ainda na mesma ilha, temos, às margens da via, no lado norte,
mais residências precárias sem saneamento ou condições de vida digna. Outro problema
recorrente da ilha são os lixões que se acumulam por conta dos catadores e carroceiros. As
famílias de baixa renda sofrem com algumas cheias por suas moradias estarem muito abaixo
da cota da via e ao nível do rio praticamente.
A próxima ilha seguindo no sentido Porto Alegre – Zona Sul do estado é a Ilha das
Flores, com cerca de 300 famílias. A forma de distribuição da população não muda muito em
comparação com as demais ilhas. Quando se passa a próxima ponte, vê-se em um nível bem
abaixo da via uma distribuição de residências simples; à direita ou ao norte, uma concentração
menor de residências; e à esquerda ou sul da ilha, uma concentração maior de residências,
também muito abaixo do nível da via e sujeito a enchentes. Até que chegamos aos acessos que
vão às extremidades sul e norte da ilha.
Há aí uma peculiaridade em relação às outras vistas, pois a população de baixa renda
concentra-se inteiramente às margens da rodovia. Ao norte da ilha, temos um acesso

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controlado por portão e guarda com uma via de terra que dará acesso a residências de classe
média e alta e espaços para eventos. Ao sul da ilha, temos também um acesso controlado, com
algumas residências de classe alta e uma grande concentração de marinas.
Por fim, temos a Ilha da Pintada, com um número de famílias a serem intervidas
abaixo de 100, esta fica bem mais à frente das demais ilhas com um acesso muito discreto e se
dá pela cidade de Eldorado. Entre todas as ilhas, esta é a única com uma malha urbana bem
definida e que consta no plano diretor da cidade com definições para construções. O acesso à
ilha se dá por uma ponte e, logo ao entrar, podemos ver a clara diferença em relação às
demais, com ruas pavimentadas e residências consolidadas, sem favelização ou casebres, além
de um comércio concretizado e uma comunidade de pescadores bem organizada.
A Ilha da Pintada não necessitaria de nenhuma intervenção, mas há residências muito
próximas ao rio que sofrem com as cheias e acabam roubando espaços que poderiam ser
melhor utilizados pela comunidade e por pescadores.
Devido ao atual momento de pandemia, não se pode fazer entrevista com os
moradores, e a contagem de famílias se deu por visitas de carro no interior do veículo,
fazendo uma comparação com base nos números pesquisados de habitantes.

7 CONCLUSÃO

De acordo com todo o estudo realizado, vemos que as ilhas historicamente têm uma
ocupação que vem crescendo e se alterando com a industrialização e a facilidade de acesso a
elas, começando com índios, negros e escravos, passando aos pescadores que se encontram
até os dias atuais, e, por fim, a favelização, decorrente da industrialização e do acesso dado às
ilhas pela Travessia Regis Bittencourt. Essa favelização se deu pelo abandono e descaso das
ilhas que são um bairro da cidade de Porto Alegre, mas que acabam não tendo a mesma
atenção.
As Ilhas do Delta do Jacuí ou bairro Arquipélago são uma área de proteção ambiental
(APA) onde a maioria de seu território é inabitável por se tratar de banhados ou Áreas de
Proteção Permanente (APP). Sendo assim, a maioria de seus habitantes vive ilegalmente,
tendo como característica famílias de baixa renda que vivem da pesca ou catadores e
carroceiros, com residências sem saneamento básico e sem qualidade para se ter uma vida
digna. Exceto as grandes mansões com altos muros, que ficam às margens dos rios, muito

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bem protegidas e utilizadas, em sua maioria, como residências de lazer para pessoas que não
vivem nas ilhas.
A exceção a essa condição de vida muito simples e precária é a Ilha da Pintada, que
tem malha urbana definida, casas bem consolidadas e consta no plano diretor da cidade.
A intervenção deve se dar em todas as ilhas com um plano de uma malha urbana
definida da melhor forma, remoção das famílias necessitadas e realocação das mesmas, com
projeto de revitalização urbana, utilizando as áreas onde as famílias já estão implantadas e
novas áreas para implantação do projeto, tendo em vista que sua maioria necessitará de aterro
para que se possa chegar mais próximo ao nível da via e o mais distante dos níveis das cheias.
A habitação social das famílias será definida após a revitalização urbana estar
consolidada. Essa habitação terá tipologias residenciais e tecnologias construtivas diferentes,
visando utilizar um maior número de empresas na implantação das residências, agilizando o
processo construtivo. Melhoras nas poucas instituições de ensino serão previstas junto à
revitalização urbana.
E, por fim, serão criados novos espaços para os pescadores em todas as ilhas para que
os mesmos tenham uma melhor condição de trabalho e locais para que possam guardar seus
materiais. Junto a esses espaços serão implantados mercados para pesca e agricultura com
fácil e convidativo acesso à população de fora das ilhas, trazendo novos visitantes aos locais,
influenciando e melhorando o comércio e a vida.
Sendo assim, todas as famílias necessitadas por falta de saneamento e/ou residências
críticas para moradia serão contabilizadas para a habitação social e revitalização urbana das
ilhas, isso criará uma melhor forma de vida, digna para essas pessoas. A implantação de novas
áreas de educação facilitará o acesso à educação às crianças e a criação de espaços aos
pescadores e produtores rurais aumentará o comércio e as visita às ilhas, que hoje se
encontram abandonadas em relação à cidade de Porto Alegre.
O número de famílias contabilizado foi feito pelo estudo de que, em média, se tem 4
habitantes por residência, além dos números e habitantes divulgados pelo IBGE e prefeitura
de Porto Alegre. Por fim, visitas de carro foram feitas para conhecer as áreas e fazer uma
contagem de residências necessitadas. Chegamos, assim, a 160 famílias na Ilha do Pavão, 850
famílias na Ilha Grande dos Marinheiros, 300 famílias na Ilha das Flores e, na Ilha da Pintada,
um número abaixo de 100 famílias, por ser optado por uma proposta de intervenção apenas na
costa do rio, em função de a ilha ser bem estruturada.

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REFERÊNCIAS

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