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UNIVERSIDADE MANDUME YA NDEMUFAYO


FACULDADE DE DIREITO
LUBANGO

MANUAL DE DIREITO DO
COMÉRCIO INTERNACIONAL

2021/2022

Em trabalho
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
ÍNDICE
Plano de Exposição Temático do Curso ............................................................................ 5
Capítulo I – Introdução ....................................................................................................................... 5
1.1. Questões Introdutórias ................................................................................................ 5
1.2. Origem e Evolução Histórica do Direito do Comércio Internacional ........... 7
1.3. Conceito do Direito do Comércio Internacional ................................................15
1.4. Expressão e Designação Adoptada da Disciplina. .............................................16
1.5. Ramos Afins e Autonomia do Direito do Comércio Internacional ..............18
1.6. Autonomia do Direito do Comércio Internacional ...........................................18
1.7. Conceito do Direito do Comércio Internacional ................................................19
1.8. Objecto de Estudo, sua Delimitação no Ãmbito do Curso ..............................19
1.9. Fonte de Direito do Comércio Internacional ......................................................22
Capítulo II – Contratos Internacionais ........................................................................................29
2.1. Conceito Relevante de Tipo Contratual..............................................................................31
2.2. Caracterização dos Contratos Comerciais Internacionais .............................34
2.2.1. Carácter “Comercial” dos Contratos ......................................................................34
2.3. As Fases do Contrato Internacional .......................................................................36
2.3.1. Fase Negocial ..................................................................................................................36
2.3.2. Fase da Conclusão.........................................................................................................37
2.3.3. Fase da Execução ....................................................................................................................38
2.4. As Principais Cláusulas do Contrato Internacional .......................................................38
2.4.1. Objecto do Contrato ...............................................................................................................38
2.4.2. Lei aplicável ou Cláusula do Direito Aplicável .............................................................38
2.2.8. Cláusula de INCOTERMS .............................................................................................43
2.2.9. Cláusula Penal................................................................................................................45
2.2.10. Eleição de Foro ..............................................................................................................45
2.2.11. Cláusula Arbitral ...........................................................................................................46
2.3. Tipos Principais de Contratos Comerciais Internacionais ............................50
2.3.1. Contratos de Distribuição..........................................................................................51
2.3.1.1. Contrato de Concessão Comercial ..........................................................................51
2.3.1.2. Contrato de Agência.....................................................................................................53
2.3.1.3. Contrato de Franquia (Franchising) ......................................................................56
2.4. Contrato de Transferência de Tecnologia (Know-How).................................59
2.5. Contratos de Financiamento ....................................................................................61
2.6. Contratos de Empreendimento Comum (Joint Venture)................................62

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2.7. Contratos de Empreitada e de Subempreitada ..................................................65
2.8. Contrato de Realização de Unidade Industrial ..................................................65
2.9. Contrato de Compra e Venda de Mercadorias Internacional em Especial.
66
2.9.1. Introito .......................................................................................................................................66
9.2.7.1. Meios de que Dispõe o Comprador em Caso de Incumprimento do Vendedor
................................................................................................................................................. 81
9.2.8. Obrigação do Comprador. ....................................................................................... 92
9.2.8.1. Meios de que Dispõe o Vendedor em Caso de Incumprimento do Comprador
................................................................................................................................................. 98
9.2.8.2. Transferência da Propriedade e Passagem do Risco ................................... 102
9.2.8.2. Suspensão e Violação Antecipada do Contrato.............................................. 107
2.10.1. O Transporte Rodoviário Internacional de Mercadorias............................ 111
2.10.2. Estipulações Contrária à Convenção .................................................................. 112
2.10.3. A Declaração de Expedição (CMR). ...................................................................... 113
2.10.4. Declaração de Expedição e Menções Especiais ............................................... 114
2.10.5. Declaração de Expedição de Mercadorias Perigosas .................................... 114
2.10.6. A Declaração d`Expedição Como Título Representativo da
Mercadoria.115
2.10.7. Direito à Disposição da Mercadoria.................................................................... 116
2.10.8. Direitos e Obrigações do Transportador .......................................................... 116
2.10.9. O Check-List ................................................................................................................. 117
2.10.10. O Transitário e o Transporte................................................................................. 118
2.10.11. Os Documentos (FIATA) .......................................................................................... 124
2.10.12. Entrega da Mercadoria. Verificação e Reserva. .............................................. 125
2.10.13. Condições da Entrega. Obrigações das Acessórias ........................................ 126
2.10.14. Carga Completa e em Grupagem. Descarga Directa ...................................... 128
2.10.15. Meios de Pagamentos ............................................................................................... 129
2.10.20. Perda da Mercadoria. Indemnização e seu Limites....................................... 135
2.11. Contrato de Investimento Externo…………………………………………………………………
2.11.1 Noção de Investimento e Investidor Externo no Direito Positivo Angolano….
2.11.2. Natureza Jurídica do Contrato de Investimento…………………………………………..
2.11.3. Convenção Arbitral, Caracterização e Nacionalidade da Arbitragem em
Matéria de Contratos de Investimento…………………………………………………………………..
2.11.4. Determinação do Direito Aplicável ao Mérito da Causa na Arbitragem
Internacional Relativo a Contratos de Internacional………………………………………………

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Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
CAPÍTULO V - ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS DO COMÉRCIO .................................. 175
5.1. O GATT ........................................................................................................................................ 175
5..2. CNUDCI ....................................................................................................................................... 175
5.3. O.M.C…………. .............................................................................................................................. 176
5.4. SADC……… ................................................................................................................................... 176
Referencias Bibliográficas ........................................................................................................... 179
Jurisprudência portuguesa .......................................................................................................... 180
Legislação ……………………………………………………………………………………………………………181

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Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário

Plano de Exposição Temático do Curso

O nosso curso compreende, para além de uma introdução, quatro partes:

Contratos comerciais internacionais em geral, Contrato de Venda Internacional


em Especial e Modos de Resolução das Controvérsias Emergentes dos Contratos
Comerciais Internacionais e as Organizações Internacionais do Comércio.

Na Parte I - sobre questões introdutórias, dogmática, origem e evolução do Direito


Comércio Internacional, conceito, objecto de estudo e delimitação do plano temática,
as fontes, o método, as características e natureza do Direito do Comércio
Internacional.

A parte II - dedicada ao exame dos Contratos do Comércio Internacional em


geral.

A parte III - vai referir os termos internacionais do comércio INCOTERMS e


sobre o Crédito Documentário.

A parte IV - relativa aos Modos de Resolução das Controvérsias Emergentes dos


Contratos Comerciais Internacionais, divide-se num capítulo preliminar e em três
capítulos dedicados a arbitragem em geral, a arbitragem transnacional e ao
reconhecimento de decisões arbitrais, respectivamente.

A parte V - as Organizações Internacionais do Comércio, neste capítulo fá-lo-


emos a menção da SADC.

Capítulo I – Introdução

1.1. Questões Introdutórias

O Direito do Comércio Internacional ou Direito Comercial Internacional, não é


definido de modo uniforme nas obras doutrinais que se dedicam a esse estudo.

Todavia, afirma-se por vezes que o Direito do Comércio Internacional como o


sucessor do ius Mercatorum, configura-se naquele Direito que foi elaborado no
âmbito da comunidade de comerciantes medievais.

Pois, de acordo com este unânime entendimento, o Direito do Comércio


Internacional configurar-se-ia como um Direito Especial, elaborado pela sociedade

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Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
internacional de comerciantes, a margem da soberania estadual e no âmbito do
princípio da autonomia privada.

Entretanto, esta desvinculação relativamente ao poder estadual seria


concretizada não apenas no domínio da produção normativa, mas também no da
composição dos eventuais litígios surgidos entre os comerciantes, através do
recurso á arbitragem comercial internacional.

Ora, de acordo com uma perspectiva puramente conflitualista, o Direito do


Comércio Internacional caracteriza-se como um Direito Internacional Privado
Comercial, ou seja, como um Direito Internacional Privado Especial.

Assim, segundo esta concepção, o objecto do Direito do Comércio Internacional


radica nas matérias tipicamente mercantis que suscitam problemas de conflitos de
leis e sua função consistiria na determinação do Direito aplicável às várias situações
próprias do Direito Comercial (sociedades comerciais, contratos comerciais, títulos
de crédito, falência) e na determinação do Tribunal competente para dirimir os
litígios correspondentes.

O Direito do Comércio Internacional é entendida numa primeira aproximação de


micro análise conceitual da dogmática jurídica, como disciplina jurídica que estuda
o Direito Privado das relações do comércio internacional que estabelece entre
agentes económicos situados em diferentes Estados, ou relações de comércio que
esses entes estabelecem que tem conexão com diversas ordens jurídicas.

Entretanto, o conceito do Direito do Comércio Internacional tem suscitado


alguma controversa de designação por causa dos critérios para aferir sua
autonomia, isto quer dizer, as relações do comércio internacional não se baseiam no
critério de comercialidade do Direito interno, pois é, considerado como um conceito
autónomo que implica obviamente uma referência ao comércio internacional.

Porém, a necessidade de um conceito autónomo decorre de duas ordens de


razões liquidas, designadamente:

Em primeiro lugar, dizer que nem todos sistemas jurídicos autonomizam o


Direito Comercial e, divergem quanto ao critério de comercializações relevantes.

Pelo que, nesta discussão vislumbra a ideia de que o Direito do Comércio


Internacional aspira a unificação internacional e esse ideal implica um
distanciamento do particularismo nacionais.

Em segundo lugar, o conceito relevante tem que ser funcional, pois tem que
abranger um conjunto de relações económicas transaccionais em que se verificam

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Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
os traços específicos que relevem para aplicação dos regimes especiais elaborados
pelo legislador ou formados autonomamente em meios do comércio internacional1.

Conclui-se nesta perspectiva que o Direito do Comércio Internacional é


entendida como disciplina jurídica do Direito Privado que estuda as relações do
comércio internacional que se estabelece entre agentes económicos situados em
diferentes Estados, ou relações de comércio que esses entes estabelecem e que tem
conexão com diversas ordens jurídicas2.

1.2. Origem e Evolução Histórica do Direito do Comércio Internacional

Desde à antiguidade o homem viveu de trocas, pois o comércio internacional


deu-se na troca entre indivíduos de Estados diferentes (trocas de produtos),
nascendo assim o comércio internacional3.

A sua origem é tão complexa e de nota, mas de todo modo curva-se nos períodos
cedidos pela história da humanidade que registou com maior atenção os seguintes
momentos:

- Na antiguidade clássica, na Grécia, na Roma;

- Idade Média;

- Revolução Francesa; e,

- Época Contemporânea.

Na Antiguidade Clássica não havia grandes escritas sobre o comércio surgindo


apenas à “Lex Rodmia’’ - regendo as trocas comerciais entre os fenícios e os outros
povos.

Na Grécia, nesta fase da antiguidade não havia grandes documentos escritos os


navegadores formavam colónias (que eram ponto de paragem à barra da Terra)
fazendo trocas comerciais, trocas estas que não eram escritas. Porém, entre os
gregos havia uma prática bancaria para a importação de trigo, prática essa que
estava virada para o financiamento das operações de importação de trigo.

Portanto, o Banco emprestava o dinheiro a quem quisesse comprar trigo (trigo


que vinha de outros países). O empréstimo, era muito especial e específico, o

1 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 14.
2 Nosso.
3 Sem contar com o homem primitivo na fase do sedentarismo, havia trocas entre os caçadores e os

agricultores, nascendo o comércio. ‘Troca de produtos e objectos’’.

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Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
‘’nauticum foenus’’ era um empréstimo que os armadores ou negociantes tinham
direito.

Todavia, o referido empréstimo externo além da compra da matéria-prima “sic”


o trigo, também servia de algum modo para suportar as despesas da compra de
combustível ou logística para os navegadores.

Porém, estes financiamentos (um para importação outro para exportação)


levam-nos a aludir sobre o comércio internacional, pois as trocas comerciais entre
fenícios, na antiguidade grega fez surgir a “Lex Rodmia”, que regia as trocas
comerciais entre os fenícios e os outros povos.

Em Roma, neste período, não há nada de especial, havia apenas o ‘’jus civile’’ que
era apenas aplicada aos cidadãos romanos, ou nas relações entre eles (os romanos).

Para além de ‘’jus civile’’, que era aplicável aos estrangeiros, também se
aplicavam nas relações de comércio internacional entre os estrangeiros e os
romanos.

Por seu turno na Idade Média todos os autores no seu exame de estudo sobre
estas matérias são unânimes ao afirmarem que o Direito do Comércio Internacional
nasceu nesta época. Porquanto, nesta idade era assinalada por algumas
características peculiares que se predicam nas seguintes salientes notas:

 Era o período do feudalismo, havia por um lado o monarca ou Rei, e por


outro lado os senhores feudais (militares proprietários de trocas),
nobreza, o clero e o Povo.

 O senhor feudal tinha um poder sobre todo o povo que residia no seu
feudo (povo isto que não obedecia o Rei). Neste caso o poder estava
dividida entre o Rei e os senhores feudais (Poder Político).

 A volta das vendas apareciam o povo que faziam as suas produções,


dentre os povos surgiu a classe dos mercadores que faziam as trocas (hoje
chamado de comerciantes), acumulando-se entre as castelhanas.

 O povo estava organizado, e desenvolviam as trocas entre si, e depois


alargou-se ao reino em que pertenciam e alastrando-se entre os diversos
reinos (de feudo a feudo e de feudo a reino e de reino a reinos diferentes)
internacionalizando assim o comércio, por incluir indivíduos de reinos
diferentes.

 Eles organizavam-se e encontravam-se num determinado lugar que


chamava-se ‘’Feira’’ onde apareciam mercados de reinos diferentes como
o objectivo de realizarem as suas trocas.
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Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
 Estas feiras organizavam-se em 6 feiras por ano, e cada feira durava 6
semanas, destas 6 semanas, 2 semanas eram reservadas para trocas
propriamente ditas, e as restantes 4 semanas eram reservadas à
elaboração de regulamentos fundamentalmente financeiro e sobre
transporte (camelo, bois e cavalos).

Por conseguinte, notadamente como se observa, dos referidos regulamentos


constavam não só o movimento desenvolvido na operação de troca entre eles mas
também as dívidas (letras de câmbio) que eram pagos por prestações, os cheques.

Efectivamente, os regulamentos eram produzidos pelos próprios mercadores,


os litígios eram resolvidos pelos consoles, nomeados pelos próprios mercadores.
Qualquer modo, os regulamentos continham todas as regras do comércio
internacional, porém, as feiras eram internacionais porque nela participavam os
indivíduos de todos os reinos.

Portanto, estes regulamentos (tanto financeiro, como de transportes)


elaborados pelos próprios mercadores nas feiras, passaram a chamar-se Jus
Mercatorum, Jus Nundinarum, Lex Mercatoria e Direito das Feiras.

Assim, com proclamação do Direito das Feiras (Jus Mercatorum) dá origem ao


Direito do Comércio Internacional que vai centrar-se na temporalidade jurídica da
Idade Média precisamente na época do Lex Mercatorias até actualidade.

Importa sublinhar que na idade média dois sinopses factores que levaram o
desenvolvimento do Comércio Internacional, designadamente: As Feiras e a Religião
Cristã.

Entretanto, as feiras no entender da doutrina dominante contribuíram para o


desenvolvimento do Direito do Comércio Internacional por duas razões,
designadamente:

a) As feiras congregavam (reunião) mercadores de diversos reinos ou


Estados e por isso, tornavam o comércio em internacional, isto é, as feiras
eram internacionais porque reunia no seu seio mercadores de diversos
Estados ou reinos.

b) Era nas feiras que se elaboravam os regulamentos que constituíam


propriamente o Direito. Estes regulamentos eram fundamentalmente
financeiro e sobre transportes (marítimo basicamente sobre comidas).

Durante as feiras procuravam regulamentar o problema do pagamento das


dívidas surgindo assim as letras de câmbio que é uma espécie de vinculação de
dívida (declaração de devedor) assinando o aceitante (devedor) e o sacador (credor

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que irá tirar o dinheiro). Mais tarde converteu-se como o meio de pagamento e por
conseguinte criou-se os cheeks ou cheques.

Portanto, o Direitos das Feiras – significa nesta plano do Direito Comercial que
nasceu nas feiras, foi elaborado nas feiras e contém regras que regulam a actividade
económica nas feiras.

Por seu turno, nota-se que a Religião Cristã, contribui para o desenvolvimento
do Direito do Comércio Internacional também através de duas formas:

a) Proibição da prática da cobrança de juros (a igreja cristã proibia a


cobrança de juros).

b) A igreja criou o movimento cruzadas.

A igreja proibia a cobrança de juros fazendo surgir uma classe de banqueiros que
não eram cristãos, deixou os cristãos de praticar à cobrança de juros.

Surgem assim, os estrangeiros (judeus e os lombardas) que podiam dar


empréstimos, porém, eles que detinham os meios financeiros, visto que a sua
religião não era cristã.

As cruzadas eram exactamente um movimento que congregava militares


cristãos, e que iam à Jerusalém com pretensões de libertarem o túmulo de JESUS
CRISTO que se diziam estar em poder dos turcos otomanos.

Entretanto, durante o percurso que visava alcançar o Jerusalém, no caminho os


militares faziam as suas trocas, isto é, as cruzadas de soldados de mercadoria e
contribuindo para o desenvolvimento das trocas.

Qualquer modo nesta época histórica, a igreja católica tinha efectivamente a


necessidade de financiar estes movimentos (cruzadas) e por via disso, criou a ordem
dos templários, as despesas inerente aos movimentos das cruzadas, para além disto,
a ordem dos templários fazia empréstimos e excepcionalmente cobrava juros
suaves como forma de combater os judeus Lombardos.

Portanto, como notas conclusivas podemos considerar que de ponto vista


histórico, na idade média os factores que contribuíam para o desenvolvimento do
Direito do Comércio Internacional foram sem dúvidas as feiras e o movimento das
cruzadas da igreja cristã.

Todavia, o Direito das Feiras considera-se nesta sede de análise como um Direito
totalmente privado sem intervenção estatal, isto é, na época os mercadores
elaboravam os seus direitos e aplicavam entre eles “Lex Mercatória”.

Outro factor histórico que deve ser assinalado é precisamente o marco temporal
do Fim da Idade Média – A Revolução Francesa.

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Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Entretanto, com o início do fim da monarquia, os monarcas tiveram a
necessidade de concentrar o poder nas suas mãos, ao invés destes espalharem entre
vários senhores feudais.

Pois, nesse cenário histórico, os senhores feudais não queriam a centralização,


efectivamente lutavam contra absolutismo, acabar com o Rei o detentor do poder
também pertencentes aos senhores feudais, pois, o Rei passou a ser o único
legislador4.

Porém, JEAN-BAPTISTE COLBERT, foi um dos economistas conselheiro do “LUÍS


XIV”, Rei Sol, ou conhecido na expressão francesa por L´etat c’est moi”5. JEAN
COLBERT criou duas leis (Lei do Comércio da Terra e a Lei do Comércio do Mar).

Assim, o renomado economista da época, o senhor COLBERT6, recomendava ao


Rei de que se o Estado quiser progredir economicamente, tem que exportar mais e
importar menos porque, quando o Estado importa ele fica a dever os outros, e
quando vende recebe dos outros, essa ideia foi a causa da estagnação do Comércio
Internacional e consequentemente do Direito do Comércio Internacional, talhava-se
uma doutrina “Proteccionista”.

4 Efectivamente é de lamentar nesta época que o Direito do Comércio Internacional, não evoluiu,
estagnou-se, passou a reger-se através do Direito Internacional Privado.
5 O poder é meu, ou o Estado sou eu, Expressão máxima do absolutismo.
6 JEAN-BAPTISTE COLBERT (Reims, 29 de Agosto de 1619 — Paris, 6 de Setembro de 1683) foi um

político francês que ficou conhecido como Ministro de Estado e da economia do rei Luís XIV. Origem
plebeia e burocrática eficiência atingiu-o como fiel e indispensável para o Rei (que o nomeou
Marquês de SEIGNELAY) e detestado pelo tribunal. Secretário Vindo de uma família de comerciantes,
cliente do serviço da administração real e em 1651 tornou-se de Mazarin pessoal. Foi o próprio
cardeal, que recomendou ao rei, que o nomeou prefeito de Finanças em 1661 Instalou o Colbertismo
na França, onde teve uma grande importância no desenvolvimento do mercantilismo ou da teoria
mercantilista, bem como das práticas de intervenção estatal na economia, que o mercantilismo
adoptava.
Responsável pela administração dos negócios da França e dos bens particulares do rei, COLBERT
incorpora ao Estado a Superintendência das Construções e Manufacturas, submetendo, em 1665,
toda a economia do país ao controle estatal. Mercantilismo COLBERT propiciou a acumulação de bens
preciosos, proibindo a exportação de capital e estimulando a exportação de bens manufacturados,
impondo, ao mesmo tempo, altas tarifas a seus similares estrangeiros. Proporcionou, assim,
incentivos substanciais ao sector manufactureiro, contemplando as corporações com elevados
subsídios e privilégios fiscais. A fim de incrementar a venda de manufacturados, estimulou o
desenvolvimento da marinha mercante... Mas COLBERT também fez grandes erros: não conseguiu
estabelecer a liberdade de comércio interno, sacrificar a agricultura (dos quais vivem a maioria dos
franceses) aos interesses comerciais e da maioria da sociedade crescimento como acabou falhando.
Em excesso de nacionalismo económico (como ver o comércio como dinheiro de guerra), não há
fracasso em trazer rivalidade comercial para o campo de armas, levando LOUIS XIV para a invasão
da Holanda 1672; briga que uma guerra de resistência obstinada dos holandeses e os custos de
financiamento tributados pesadamente aos franceses. Veja mais desenvolvimento.
Vide: https://educacao.uol.com.br/biografias/jean-baptistecolbert.htm?cmpid=copiaecola.

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Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Pelo que, as trocas comerciais internacionais começaram à diminuir, os
monarcas elaboravam leis para a defesa dos seus produtos internos, acabando por
afectar negativamente para o comércio internacional.

Em Angola, no passado recente no regime de Eng. JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS


filiava-se no dirigismo económico proteccionista de acesso ao comércio
internacional e as divisas cambiais as elites do regime, ou seja, político-empresário,
o que significa dizer a Lei do Investimento Privado e outras leis, foram feitas a
medida dos seus interesses, mais ainda assim, o legislador – agente económico
ancorou-se no instituto de “non facere legislatoris” de omissão legislativa de
produzir uma Lei de Concorrência, para que o ambiente de negócio fosse
transparente, pelo que, a opacidade dos negócios com exterior era manifeste
redundando no país de paraíso ou offshore do comércio internacional, adiou a
integração de Angola no mercado do comércio livre, que ao nosso ver atrasou de que
maneira o Direito do Comércio Internacional, tanto na sua prática como na doutrina
do ensino universitário e inibiu a atracção de jovens para esta área jurídica de
formação, tendo por conseguinte hoje poucos especialista dotados com um
conhecimento técnico qualificado tanto na graduação como pós-graduação do
ensino universitário.

Porém, este socialismo festivo, começa ter o seu fim com a subida no poder do
JOÃO MANUEL GONÇALVES LOURENÇO, que rapidamente encetou um diplomacia
económica de comércio internacional criou balizas de um ambiente negócio para
investimento privado estrangeiro, superação de vistos com especial atenção do visto
do investidor, estabeleceu com os tradicionais parceiros do Comércio Internacional
com Angola, o acordo da dupla tributação de bens e serviços e, internamente tomou
algumas medidas legislativas e administrativas que sinalizam a transparência do
comércio, designadamente: Lei da Concorrência, Lei do Investimento Privado, Pauta
Aduaneira, e, eliminação de monopólios sócio-económicos.

Entretanto, desculpem pela despistagem mas importava esclarecer através


desta nota do caso de Angola.

Assim, voltando a colocar a nossa mão de pensamento no corrimão da história


relativo ao fim da idade média e no início da revolução Francesa, é de sublinhar que
houve uma estagnação do Direito do Comércio Internacional, pois, neste período
Direitos das Feiras tinha um carácter costumeiro, não era conhecido como um
Direito do Comércio, mas sim um costume do comércio, porquanto, os Reis eram no
entanto os que elaboravam as suas leis e o Direito do Comércio Internacional passou
a ser nacionalizado deixando de ser dos mercadores, passando a ser incluído nas leis
do Reis, vistos que estes elaboravam leis para a protecção do comércio interno
(proteccionismo).

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Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Revolução francesa aos nossos dias, ou seja, inicialmente o fim da idade
média à revolução francesa houve transformações políticas, saiu-se do feudalismo
para o absolutismo. Porém, com os ditames de JEAN-BAPTISTA COLBERT (importar
menos e exportar mais), possibilitou o surgimento da liberalização, isto é, com o
derrube do absolutismo (politicamente) surge o liberalismo e este aparece também
com a sua frase “igualdade, liberdade e fraternidade”, na linguagem francesa, “egalite,
liberte e fraternite”, isto é, os homens nascem iguais, livres e vivem como irmãos.

Entretanto, surge assim neste período histórico uma outra forma de Estado,
na revolução francesa com maior abertura no comércio. Porém, nesta época
histórica do desenvolvimento do comércio internacional, os homens estavam
organizados em corporações, e dentro de cada uma destas corporações haviam
invenções, ou espírito de criatividade, isto é, com a revolução francesa houve a
necessidade de libertar as pessoas destas regras corporativas, ou seja, libertar os
homens das corporações e, abandonou-se os sistemas das corporações porque os
indivíduos tinham que ser livres7.

Qualquer modo, com abandono do sistema de corporações, democratizou – se


ao acesso a actividade comercial, pois, as regras restritivas corporativas classistas
que eram só dos mercadores agora qualquer pessoa poderia exercer o comércio
livremente. Portanto, surge maiores trocas entre os Estados (na época da revolução
industrial) produzindo bens em quantidades excedentários para consumo interno e
para exportação para outros países estimulando assim o comércio internacional.

Efectivamente, com a revolução francesa, muitas actividades quer industriais,


quer comerciais começaram a movimentar-se livremente, havendo trocas, e
chegando a hora da liberdade comercial (e não já na era das corporações em que só
os mercadores é que poderiam comercializar).

Sublinhar aqui nesta sede que no plano legislativo o Direito do Comércio


Internacional deixou de ser privado (Feiras) passando a ser estatal visto que o
Estado criava as leis para regular a actividade ou as relações comerciais ou de
comércio.

Assim, no absolutismo COLBERT criou duas (2) leis, a “Lei do Comércio de Terra”,
que é hoje chamado de Lei Comercial que teve influência no comércio interno, e; a
“Lei do Comércio do Mar” - que é o Direito do Mar ou do Comércio do Mar, todavia,
teve maior influência no Comércio do Mar que hodiernamente é Direito Marítimo.

O Direito do Comércio Internacional, foi-se desenvolvendo no âmbito do Direito


Internacional Privado e, na época houve necessidade de se autonomiza-se, criou-se
regras próprias como a Lex Mercatoria passou-se reduzir á escrito, mas entretanto,
a escrita era feita pelo Estado, regras estas como cheque (Lei Uniforme Sobre os

7 As corporações surgiram na idade média, foram reprimidas com a revolução francesa.

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Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Créditos Comerciais) regras sobre os transportes marítimos e transportações de
cargas.

Estes instrumentos possibilitou a criação autónoma das regras próprias do


Direito do Comércio Internacional, surgem assim, os tratados, convenções e
protocolos sobre o comércio até que um pouco antes da II guerra mundial, criou-se
o tratado do GATT8, (Lei que só foi aprovada e entrou em vigor depois da II guerra
Mundial, ou seja, foi aprovado em 1947 e entrou em vigor 1948) com o objectivo de
se acabar com todos os acordos bilaterais feitas antes deste tratado (formou
absolutismo), pois que, depois da II guerra mundial houve a necessidade de
reconstruir a economia mundial, criando-se várias instituições, designadamente:

Em 1950, foi criada a CNUDCI “Comissão das Nações Unidas para o Direito do
Comércio Internacional”, tem como principal função legislar sobre várias matérias
de comércio internacional, é uma comissão não permanente, pode ser instante a que
o mesmo.

Em 1994, foi criada a O.M.C. – “Organização Mundial do Comércio”, e, entrou em


vigor em 1995. É uma instituição que aplica os princípios do GATT, trata de
princípios tendentes a uniformizar e a unificar as regras do comércio internacional.
A primeira deu origem ao FMI – Fundo Monetário Internacional e segunda deu
origem ao (BIRD) Bando Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BM)
Banco Mundial.

Por conseguinte, devidos os blocos políticos saídos na II guerra mundial,


predicado como guerra fria, os tratados converteram em tratados militarizados,
designadamente NATO ou OTAN (bloco dos países capitalistas)9 e a O Pacto de
Varsóvia (a Organização do Tratado de Varsóvia (OTV)10.

8 GATT - Acordo Geral, Sobre Tarifas Aduaneiras E Comércio - General Agreement En Tarifs And Trade.

Criado com a iniciativa dos EUA.


9 North Atlantic Treat Organization – Organização Do Tratado Do Atlântico Norte. Constitui a

principal aliança militar capitalista até aos nossos dias, e foi formada no dia 4 de Abril de 1949, na
sequência do clima de Guerra Fria com o bloco socialista. Ela foi a primeira criação da Guerra Fria a
transcender a Europa.
O Pacto do Atlântico, como também é conhecida a NATO, foi assinado em Washington pelos EUA,
Canadá, Portugal, França, Grã-bretanha Islândia, Itália, Noruega, Holanda e Luxemburgo.
Posteriormente juntaram-se ao Pacto do Atlântico a Grécia e a Turquia em 1952, a Alemanha Federal
em 1954 e a Espanha em 1982.
A NATO surge no quadro da Guerra Fria, como principal braço armado do bloco capitalista e tinha
como finalidades a defesa colectiva, assistência mútua bem como a cooperação militar entre os seus
signatários, em caso de agressão, através de um efectivo militar plurinacional, com comando
unificado como prevê o artigo 3º do referido tratado.
10 O Pacto de Varsóvia, é a Organização do Tratado de Varsóvia (OTV), foi um pacto ao qual

subscreveram a URSS e os seus satélites europeus do lado leste da Europa, no dia 14 de Maio de 1955
na capital da Polónia. Este pacto tem a sua origem numa Conferência dos governos comunistas
realizada na mesma cidade de 11 a 13 de Maio do mesmo ano.

14
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
A “Lex Mercatória” inicialmente e praticamente o Direito Comércio Internacional
material que é o conjunto de normas constantes em tratados e acordos, com o
objectivo de uniformizar o Direito do Comércio Internacional, visou a unificação do
comércio internacional visto que cada Estado cobrava ou os Estados praticavam
tarifas exorbitantes na comercialização de vários produtos e sobretudo o custo das
mercadorias de modo ou de maneira diversa.

1.3. Conceito do Direito do Comércio Internacional

Efectivamente, o conceito do Comércio Internacional não tem sido pacífico na


doutrina, pois ele encerra vários sentidos.

Assim, a expressão “Comércio Internacional” é recorrente ser empregue em dois


sentidos distintos, designadamente:

- No primeiro sentido o Comércio Internacional é entendido como um conjunto


de transacções económicas realizadas entre Estados, ou seja, refere-se neste sentido
as relações macro- económicas.

Releva-se as relações económicas entre Estados, nos tratados internacionais


que regulam, nas organizações internacionais que enquadram estas relações e nos
processos de integração económica, no caso flagrante da SADC.

- Noutro sentido, o Comércio Internacional refere-se as relações entre


operadores económicos que entram em contacto com a vida económica de mais de
um Estado. Portanto, trata-se aqui neste sentido de relações micro-económicas11.

Todavia, feitos os excursos telegráficos pode-se entender que o principal


critério da internacionalização destas relações é precisamente a transferência de
valores que transpõem as fronteiras de um país com relevância no Comércio
Internacional.

Fizeram parte deste tratado a Bulgária, Checoslováquia, Hungria, Polónia, Roménia, Alemanha
Oriental, a União Soviética e a Albânia que abandonou em 1968. A excepção foi a Jugoslávia que não
fez parte deste tratado .
A OTV possuía um comando único que tinha o seu Quartel General em Moscovo, assessorado por um
Conselho de Ministros e um Comité Consultivo instituído em Praga em Janeiro de 1956 com a missão
de examinar as questões gerais referentes à consolidação da capacidade de defesa e à organização
das forças armadas unificadas e com competência para tomar decisões apropriadas. Possuía também
um Estado Maior unificado e um comando das forças armadas unificadas que era considerado como
o órgão mais importante do Pacto de Varsóvia e competente para os assuntos estreitamente
militares.
O Pacto de Varsóvia tinha, para além da protecção do espaço geográfico da zona que constituía o
bloco socialista, a missão de fortalecer e desenvolver ainda mais o bloco socialista, desenvolver ainda
mais a amizade, cooperação e assistência mútua entre os seus membros, como resposta comunista
ao bloco capitalista que havia criado em Abril de 1949 a sua aliança militar, a NATO.
11 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 16.

15
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Dizer, o que interessa, aliás, o critério que afeiçoa a internacionalização para o
Direito do Comércio Internacional são as relações económicas que relevam e põem
evidência todo interesse do Comércio Internacional.

Porquanto, a crescente internacionalização da economia vai reflectir nas


relações económicas transaccionais e que tem um peso cada vez maior nas
economias nacionais.

Porém, estas relações económicas são assinaladas pelo tráfego internacional de


mercadoria, serviços, capitais, bens intelectuais e direitos (valores mobiliário,
propriedade intelectual e direitos conexos), bem como os contratos de cooperação
interempresarial transaccional e de contratos internacionais tendo como objecto o
aproveitamento de bens do domínio público.

1.4. Expressão e Designação Adoptada da Disciplina.


A expressão Comércio Internacional apresenta-se numa dimensão
polissémica e, por conseguinte, também pode ser utilizado em várias acepções.

Ora bem, várias denominações que foram ensaiadas durante o


desenvolvimento desta ciência jurídica, assim, por vezes algum sector da doutrina
preferem designar de Direito Internacional do Comércio, outros Direito Económico
Internacional e Direito Comercial Internacional ou Direito do Comércio
Internacional.

Mas só duas acepções soaram o hino na seara jurídica e foram identificadas


no léxico da semântica diacrónica pelos sentidos atribuídos a expressão de
Comércio Internacional.

Todavia, o Direito Económico Internacional, assim, como o Direito do


Comércio Internacional é por vezes empregue no sentido de Direito Internacional
Económico que regula as relações económicas entre Estados (relações macro-
económicas). Trata-se de relações económicas internacionais.

Entretanto, as relações económicas internacionais consiste no seu objecto,


pois, trata-se de um Direito, ou de questões de ajuda internacional. Porém, estas
relações estabelecem-se apenas entre os Estados e as organizações internacionais
(sujeitos).

Também o que não é possível determinar quer os sujeitos quer o objecto, por
ser uma designação limitativa12.

Pelo que, neste sentido acima destacado o Direito do Comércio Internacional


vai ser seguramente identificado com o Direito Económico Internacional, que é,

12Por exemplo, as questões de trocas, ajudas e empréstimos entre Estados por ex: o contrato de
empréstimo financeiro entre os Estados; contrato entre Angola e China.

16
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
contudo, entendido tradicionalmente como um conjunto das regras e princípios do
Direito Internacional Público por regular directamente as transacções económicas
entre sujeitos do Direito Internacional.

Numa segunda acepção o Direito do Comércio Internacional, pode ser


entendido como um conjunto de normas e princípios jurídicos que regulam as
relações entre os operadores económicos (relações micro-económicas) que estão
em contacto com a vida económica de mais de um Estado.

Naturalmente a expressão relações comerciais internacionais, tornam-se


óbvias, pois não trata-se de relações entre Estados, mas de relações entre
operadores económicas que extravasam a esfera social e económica de um Estado.

Entretanto, nesta sede vislumbram duas denominações próximas à esta


excepção, designadamente: Direito Internacional de Comércio e Direito Comercial
Internacional, cujas realidades são sinónimas.

Nesta perspectiva, os sujeitos da relação entre os Estados é de âmbito


internacional, o seu objecto seria de Comércio Internacional, isto é, relações
internacionais de comércio e, por conseguinte, não está limitado nos entes estaduais
ou organizações internacionais, mas sim todos os sujeitos que praticam os actos de
comércio objectivo internacional relevante.

Porquanto, como notadamente se observa, segundo o objecto, qualquer


pessoa pode ser sujeito de Direito de Comércio Internacional como anuncia o nº2 do
art.10º, do CNUCCVIM.

Podemos inferir que o Direito Comércio Internacional, regula as relações de


comércio internacional e tem como sujeitos os indivíduos ou pessoas que estão em
conexão com diferentes ordens jurídicas, cujo objecto é exactamente o comércio
internacional fundado no contrato internacional.

Sendo assim, em última análise este conjunto de normas, princípios e regras


jurídicos são caracterizados exclusivamente pelo seu objecto – relações comerciais
internacionais. Nesta acepção, o Direito do Comércio Internacional engloba
concomitantemente o Direito Privado (Direito Internacional Privado, Direito das
Obrigações, Direito Reais e Sucessório) e Direito Público (Direito Administrativo das
Relações Económicas Transaccionais que poderá designar por Direito Económico
Internacional – Legislação de Investimento Privado, Direito Fiscal Internacional)13.

13 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 17.

17
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Portanto, denominação adoptada à luz de todas acepções acima descritas é
preferencialmente o Direito do Comércio Internacional por militarem nesta
designação duas realidades jurídicas - o Direito Privado e Público.

1.5. Ramos Afins e Autonomia do Direito do Comércio Internacional


O Direito do Comércio Internacional como ciência jurídica tem relações
intrínsecas com as outras ciências dentro dos dois grandes ramos do Direito (Direito
Público e Direito Privado), nomeadamente: Direito Internacional Privado, Direito
Internacional Público e Direito Económico Internacional.

Direito do Comércio Internacional, como ciência jurídica que tem vindo


autonomizar-se face os ramos de Direito já existentes desde o nascimento das feiras
ou lex mercatória como Direito Comercial interno, certas áreas do Direito Civil,
Direito Internacional Privado, mas sem perder de vista uma relação de
interdisciplinaridade, ou sem descurar, como é natural as dificuldades existentes
nas zonas de fronteira mal definidas no âmbito interno, internacional e
recentemente o nível comunitário. Pois bem, conhece-se largamente as afinidades
com o Direito Comercial, Direito Internacional Privado, Direito Processual, Direito
das Obrigações, Direitos Reais, Direito da Economia Internacional e o Direito
Constitucional uma vez que é a Constituição que fixa as balizas da organização
económica.

1.6. Autonomia do Direito do Comércio Internacional


A questão da autonomia do Direito do Comércio Internacional tem sido
analisado na base dos recortes que delimitam as suas características específicas. Por
via disso, o problema da sua autonomia nos obrigará a perspectiva-los, no seguinte:

- Como ramo do Direito autónomo, a semelhança do Direito Internacional


Privado, Direito Económico, Direito de Trabalho, Direito Fiscal, Direito Financeiro,
Direito do Ambiente e etc.

- Como disciplina científica dotada de autonomia, afigurando-se no


curriculum de forma individualizada, a par de outras disciplinas científicas, pois que,
como ramo do Direito autónomo seria aquela cujas normas, pelas suas
características peculiares, lhe imprimem um centro específico afirmando-o como
corpo próprio de regras de direito individualizados e separados, orientadas por
preocupações específicas e reciprocamente relacionadas com as relações comerciais
relevantes de carácter privada que se funda no contrato internacional do comércio.

O Direito do Comércio Internacional e a sua autonomia encontra o seu esteio


nas relações do comércio internacional que os agentes económicos estabelecem
entre eles que transpõem as fronteiras de diferentes Estados. No entretanto, Direito
do Comércio Internacional ao longos anos do seu desenvolvimento ganhou
características específicas, normas e princípios próprios construído desde o direito

18
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
das feiras até actualidade que lhe conferiu uma larga autonomia tanto científica e
pedagógica sem descurar a interdisciplinaridade que ultrapassa o campo jurídico,
querendo com isto sublinhar-se o especial peso que os temas de dimensão
Económicos e do Comércio Internacional, Direito Internacional Privado e Direito das
Obrigações assumem no objecto desta disciplina.

Portanto, o Direito do Comércio Internacional mais do que um ramo de


Direito autónomo é uma diagonal – uma transversal – que corta as várias normas
dos ramos de Direito que regulam a matéria de dimensão do comércio internacional.

1.7. Conceito do Direito do Comércio Internacional


O conceito do Direito do Comércio Internacional sem para tal problematizar
e convocar vários doutrinadores avisados, dizer que ela simplesmente configura-se
no objecto de estudo do Direito do Comércio Internacional, isto é, em resumo filia-
se nas relações comerciais relevantes de carácter privada que se funda no contrato
internacional do comércio.

Porque as relações de comércio por serem estabelecidas por agentes


económicos de Estados diferentes serão relações de comércio internacional, pois
que, os cidadãos, ou assim como queiram entender, estão vinculados às ordens
jurídicas pertencentes a sua nacionalidade, mas por conseguinte, as relações
comerciais que eles estabelecem serão regulados pelo Direito do Comércio
Internacional.

Numa primeira tentativa a aproximação ao conceito o Direito do Comércio


Internacional é definido como um conjunto de regras e princípios de carácter
privado que regulam as relações comerciais internacionais cujo escopo supremo é o
contrato do comércio internacional.

Já na segunda aproximação, o Direito do Comércio Internacional, é tido como


conjunto de normas e princípios jurídicos que regulam as relações de comércio
internacional que tem conexão com ordens jurídicas ou Estados diferentes. Pelo que,
esta ultima asserção nos é familiar e perfilhada na nossa doutrina.

1.8. Objecto de estudo, sua delimitação no âmbito do curso


O objecto de estudo do Direito do Comércio Internacional é, pois, em sinopse
as relações comerciais relevantes de carácter privada que se faça no contrato
internacional do comércio. Porquanto o Direito do Comércio Internacional é
entendida neste curso de licenciatura em Direito como uma disciplina jurídica com
pendor do Direito Privado.

19
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Portanto, como já asseverámos, o Direito do Comércio Internacional é
definido como um conjunto de regras e princípios de carácter privado que regulam
as relações comerciais internacionais cujo desígnio é o contrato do comércio
internacional.

Como disciplina do curso de licenciatura em Direito na opção das ciências


jurídico-económicas, o Direito de Comércio Internacional ocupa-se das regras e
princípios que regulam relações comerciais internacionais.

Trata-se, logo, de relações entre operadores económicos (relações micro-


económicas) e não de relações económica entre Estados (relações macro-
económica). O Direito aplicável as relações económicas interestaduais e às
organizações económicas internacionais aqui fica bem claro que é excluído do
âmbito desta disciplina, pois esta temática é efectivamente abordada em sede do
Direito Económico Internacional ou Relações Económicas Internacionais.

Por este motivo são apenas abrangidos, em princípio, os complexos


normativos de Direito Privado. Visto bem as coisas serão obviamente os complexos
jurídico-públicos que regulam as relações económicas transnacionais (por exemplo,
o Direito Económico Internacional e o Direito Fiscal Internacional) são excluídos do
seu âmbito, pelas razões atrás apresentadas. Por via disso, estes complexos
normativos são normalmente estudadas noutras disciplinas (designadamente o
Direito da Economia e o Direito Fiscal).

O Direito Privado que regula as relações comerciais internacionais é ainda


assim vasto e heterogéneo. Temos, por um lado, o Direito Internacional Privado,
incluindo o Direito de Conflitos e o Direito de Reconhecimentos de Decisões
Estrangeiras em matéria de relações comerciais internacionais, designadamente;
com respeito aos contratos internacionais e as sociedades transnacionais.

Notadamente como se observa, além da conexão com o Direito Internacional


Privado temos ainda o Direito da Competência Internacional, relativamente aos
litígios emergentes de relações comerciais internacionais, e o Direito da Arbitragem
Transnacional, que não se limita ao Direito de Conflitos aplicável na Arbitragem.

Qualquer modo, no que se faz menção ao Direito Material, temos, antes do


mais, numerosas Convenções Internacionais que unificam as regras aplicáveis a
determinados tipos de contratos internacionais.

Em segundo plano, surgem regras e princípios autónomos que se formam


independentemente da acção dos órgãos estaduais e supra-estaduais e que regulam
certos aspectos das relações comerciais internacionais, por conseguinte, as regras e
princípios integram a Lex Mercatória ou Direito Transnacional.

20
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Uma parte importante destas normas resulta da positivação de usos do
comércio internacional, que são privativos de certos ramos de actividade económica
e/ou são limitados a certas área s geográficas.

Um curso semestral não pode abranger todo este corpo normativo e também
não pode deixar de incluir o estudo de outras matérias que tem carácter
introdutório.

No entender do Prof. LUÍS LIMA PINHEIRO14, que nós vamos seguir de


perto a sua sabia doutrina nestes escritos, afirma que não se deve seguir uma via
muito abrangente que conduza a uma abordagem essencialmente informativa e
descritiva do conjunto das matérias, mas antes operar uma selecção rigorosa que
permita um estudo sistemático e com razoável aprofundamento das matérias
seleccionadas.

A disciplina do Direito do Comércio Internacional, segundo o ilustre Prof. de


Lisboa, deve ser orientada ao estudo meticuloso de um núcleo de matérias e aos
exercícios de métodos de análise e de obtenção das soluções que sejam, com as
necessárias adaptações, transponível para outras matérias.

A matéria relativa as fontes e aos modos de regulação dos contratos


internacionais já e, até certo ponto, leccionada em Direito Internacional Privado. A
competência internacional para litígios emergentes de contratos internacionais
também é estudada, por forma resumida, no curso de Direito Internacional Privada
ou na disciplina de Direito Processual Civil.

Por certo que se trata de matérias fundamentais, quer para o


enquadramento e relacionação dos problemas de regulação dos contratos
internacionais, quer para a resolução prática destes problemas. Porém, seria
efectivamente desejável que todas estas matérias fossem tratadas por forma mais
aprofundada no curso de Direito Comércio Internacional.

No entanto, as limitações temporais que condicionam uma disciplina


semestral, aliados ao carácter secundário da jurisdição estadual na resolução de
litígios emergentes das relações comerciais internacionais, justificam a exclusão da
matéria relativa a competência internacional e outros conteúdos temáticos.

Assim, impõe-se uma delimitação de matérias que atenda ao seu carácter


formativo, a sua importância sistemático-científica e prática e as circunstâncias de
serem ou não leccionadas noutras disciplinas do curso.

14 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 32.

21
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
1.9. Fonte de Direito do Comércio Internacional
Os instrumentos por onde poderemos encontrar as matérias referentes ao
Direito do Comércio Internacional (D.C.I.), podem ser os ordenamentos jurídicos
internos e nos ordenamentos jurídicos internacionais.

Enfim, e em especial, na enorme importância prática da arbitragem


transnacional como modo de resolução dos litígios emergentes dos contratos
comerciais internacionais em que a lex mercatória é frequentemente aplicada como
fonte de Direito do Comércio Internacional mais importante, a luz do princípio da
autonomia privada e liberdade contratual.

Por exemplo, uma sociedade regida pela Lei brasileira celebra um contrato
com um sociedade sedeada em Angola em que se estipula que os litígios deles
emergentes serão resolvidos por arbitragem no âmbito do Tribunal Internacional
de Arbitragem da Câmara do Comércio Internacional (CCI), a realizar em Paris. Um
jurisconsulto que seja chamado a dar parecer sobre um litígio relativo à execução
do contrato deverá atender ao Direito de Conflitos aplicável na arbitragem CCI15,
que é em primeira linha de fonte transnacional, e admite a referência a normas e
princípios transnacionais.

O ponto de referência do raciocínio jurídico não é então uma ordem jurídica


estadual, nem ordem jurídica internacional, mas o Direito Transnacional.

Assim, os contratos internacionais também são regulados nos planos do


Direito Internacional Público, do Direito Comunitário e do Direito Autónomo do
Comércio Internacional, independentemente da mediação de uma ordem jurídica
estadual.

No plano da ordem jurídica internacional os contratos internacionais tanto


podem ser regulados por Direito material de fonte supra-estadual como por Direito
material de fonte transnacional ou estadual16.

15CCI, - Câmara do Comércio Internacional sedeada em Paris.


16 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 47 e ss. Neste
sentido, (…) Considerações paralelas se podem tecer sobre as fontes relevantes para a regulação no
plano do Direito Transnacional. Quanto à fontes de regulação das relações comerciais internacionais,
importa distinguir as fontes do Direito objectivo da regulação negocial (que é fonte de direitos
subjectivos).
Começando pelas fontes do Direito objectivo, o contrato internacional é susceptível de ser
regulado por fontes supraestaduais, fontes transnacionais e fontes estaduais. Em princípio, todas as
fontes de Direito Internacional Público podem regular contratos internacionais. Assumem especial
importância as convenções internacionais. Estas convenções internacionais podem conter Direito de
Conflitos ou Direito material.
Por fim, temos as fontes estaduais de regulação dos contratos internacionais. O papel das
fontes estaduais na regulação dos contratos internacionais tem vindo a decrescer inexoravelmente,
não só por causa do massivo recurso à arbitragem transnacional e da sobrelevância da regulação
operada no plano transnacional, mas também porque no plano da ordem jurídica estadual tem
aumentando a importância das fontes supra-estaduais de Direito de Conflitos e Direito material. No

22
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Assim, em matéria de fontes e de Direito do Comércio Internacional pode-se
assinalar as seguintes:

Fontes Internas: são aquelas que são produzidas pelo legislador nacional e
do poder judicial, assim destacam-se a Lei, e Jurisprudência.

entanto, as fontes estaduais continuam a ser importantes na regulação dos contratos dos contratos
internacionais.
Como fonte nacional temos, em primeiro lugar, a lei. Mas também se contam entre as fontes
nacionais os costumes locais, bem como os usos do comércio locais (quando forem positivados por
normas legais ou consuetudinárias). Por exemplo, os costumes e usos dos portos desempenham um
papel de relevo em matéria de venda marítima internacional e de transporte marítimo internacional.
O Direito proveniente destas fontes deixa um campo de actuação variável, mas na maior
parte dos casos muito vasto, à autonomia negocial das partes. Por isso, a auto-regulação negocial
pode desempenhar um papel de grande importância na disciplina das relações comerciais
internacionais. Em muitas destas relações regista-se a tendência para uma regulação negocial
minuciosa dos direitos e obrigações das partes, para que a resposta para os problemas de regulação
jurídica mais assiduamente suscitados por estas relações se encontra no próprio clausulado
contratual.
A disponibilidade de modelos contratuais elaborados por organizações não-governamentais,
bem como de outros modelos de regulação, tais como os INCOTERMS, elaborados pela CCI, e os
Princípios dos Contratos Comerciais Internacionais, adoptados pelo UNIDROIT, facilita a auto-
regulação negocial. Estes modelos oferecem uma regulação cuidadosa, relativamente equilibrada e,
em certos casos (como o dos Princípios UNIDROIT) sistemática da relação contratual.
Na arbitragem transnacional, os modelos de regulação podem contribuir para o
desenvolvimento de costume jurisprudencial arbitral, que constitui justamente uma das fontes da lex
mercatória.
Relativamente ao processo de regulação é entendido aqui o método utilizado para regular
um contrato internacional. Os contratos internacionais podem ser regulados por um processo
indirecto ou conflitual e por um processo directo ou material.
O processo indirecto ou conflitual consiste na determinação do Direito material aplicável
com recurso a uma norma de conflitos ou, mais amplamente, a uma valoração conflitual. Ao passo
que no processo directo ou material se procede directamente à aplicação de Direito material, i.e., sem
a mediação de uma valoração conflitual.
Só em três casos se verifica uma regulação directa de contratos comerciais internacionais no
sei da ordem jurídica estadual.
Primeiro, quando o Direito material comum do foro for aplicado a quaisquer contratos
independentemente de comportarem elementos de estraneidade.
Por exemplo, quando os tribunais do Estado X apliquem todos os contratos internacionais,
incluindo aqueles que não tenham qualquer ligação especialmente significativa com o Estado X, a
mesma lei que disciplina os contratos internos.
É o caso das convenções internacionais que estabelecem um direito material unificado
aplicável a certo tipo de contrato internacional na ordem jurídica dos Estados contratantes mesmo
que o contrato não tenha uma ligação significativa com nenhum Estado contratante.
A regulação directa de contratos comercias internacionais compromete a previsibilidade e a
certeza jurídica e promove o fórum shopping, isto é, a escolha do foro mais conveniente para a
pretensão do autor, conforme assinalei noutro lugar. Por isso, os casos de regulação directa são
excepcionais e tendem a ser abandonados. Em regra, portanto, os contratos comerciais
internacionais são regulados um processo indirecto ou conflitual.
No caso das técnicas de regulação, assim, por exemplo, a regulação dos contratos comerciais
internacionais no plano do Direito estadual pode ser feita com recurso ao sistema de normas de
conflitos (designadamente a Convenção de Roma sobre a Lei Aplicável às obrigações Contratuais) ou
a Direito material especial.
As normas de conflitos da Convenção de Roma são normas gerais bilaterais, que tanto
remetem para o Direito do foro como para o Direito Estrangeiro. As normas materiais para que
remetem são, em regra, normas de Direito comum que são aplicáveis também às relações internas.

23
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Importa assinalar que a Lei não tem grande peso para a fonte do Direito do
Comércio Internacional. Pois, existem leis que não têm influência no comércio
internacional, mas existe outras leis internas (nos Estados mais desenvolvidos E.U.A.
é caso das três AAA)17, que tem leis influentes sobre a matéria de âmbito
internacional sobre o comércio internacional, porquanto, é o caso do boicote que os
Estados Unidos da América apresenta sobre a Cuba. Esta é uma Lei interna dos E.U.A.

A Lei do comércio do Mar também teve influência no comércio do mar


(embora seja uma Lei francesa) mas influenciou no comércio do mar com relação
aos outros Estados.

Falava-se de um Estado (Checo Eslováquia), que tinha um Código do


Comércio Internacional depois da sua divisão e República Checa e a República
Eslovaca, este instrumento dessa pareceu. Portanto neste contexto não existe um
código referente a está matéria.

Por seu turno também são fontes de Direito do Comércio Internacional a


Jurisprudência e é tida como mais importante neste plano. Pois serve de pano de
fundo para a elaboração de normas de conflitos.

A Jurisprudência – é entendida na doutrina das fontes de Direito como sendo


as decisões dos tribunais superiores. Porém, com já enfatizamos a Jurisprudência o
conteúdo tem maior suporte jurídico (na ordem interna) para além de servir de
pano fundo permite a elaboração a nível internacional as decisões serviram de
precedentes para casos futuros, sobre as questões submetidas a tribunal
(julgamento) sobre questões de Direito.

Por via disso é assinalado como sendo a fonte de algum modo mais influente
em relação as leis, pelo facto dos casos sobre as relações de comércio internacional
serem submetidas ao seu julgamento.

Relativamente as Fontes Internacionais: Leis, Jurisprudência, Arbitragem


Internacional, Costume e os Usos.

Podemos, desde logo, fazer uma descrição sobre este entendimento de


acordo a sua taxinomia jurídica internacional nos seguintes termos: Tratadas,
Regulamentos, Directivas, Convenções e Protocolos.

Os Tratado são instrumentos jurídicos subscritas pelos Estados, por


conseguinte, para vincularem os Estados ou sujeitos do Comércio Internacional,
normalmente devem ser subscritas e assinadas ou ratificadas pelos diversos
Estados, podem ser bilaterais e multilaterais no caso dos tratados.

17 AAA, - Americam arbitracion Association.

24
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
As convenções constituem fontes de Direito do Comércio Internacional a luz
da emanação constitucional dos modelos de recepção típicos (monismo e dualismo),
pois neste sentido o modelo dualista tende considerar os dois domínios de direito
internacional e interno como realidades separadas uma a outra, daí o seu nome de
dualismo.

Pelo que, apesar no antanho ter sido entendido como modelo de protecção
dos regimes totalitários, já no direito internacional contemporânea tem relevado
com maior enfoque na convenções internacionais do comércio, daí hoje falar de um
modelo monista e dualista vertem-se na dimensão da cooperação internacional e de
coordenação substantiva, institucional e processual entre o Direito interno e Direito
internacional.

Assim, art. 13º, da CRA, procura esclarecer o modo como o Direito


internacional se relaciona com o Direito angolano, ou seja, o Direito internacional é
recebida na ordem jurídica angolana de forma automática condicionada ou recepção
semi-plena sob reserva unicamente da observância dos termos constitucionais18.

No mesmo endereço jurídico-legal no inciso do nº 2 do art. 13º, da CRA,


estatui que “ os tratados e acordos internacionais regularmente aprovados ou
ratificados vigoram na ordem jurídica angolana após a sua publicação no diário
oficial da república” (…).

A jurisprudência internacional é muito diminuto no âmbito do Direito do


Comércio Internacional, porque nos tribunais internacionais observa-se muito raro
apesar que os conflitos entre Estados são resolvidos por estes tribunais (visto que
estes casos são muito escassos).

A outra fonte do Direito do Comércio Internacional é efectivamente a


Arbitragem Internacional.

A Arbitragem - é o meio de compor os litígios através das decisões tomadas


pelos árbitros (são juízes nomeados por privados). Para além dos juízes (árbitros) a
sua fonte de provimento serem nomeados pelos privados (tribunais privados) as
suas decisões tem muita influência, servindo de precedente para vários casos.

Por conseguinte, Arbitragem chega a ter maior influência em relação a


Jurisprudência e pelo facto de haver uma certeza, celeridade e os particulares têm
que recorrer a uma justiça estatal burocrática, onerosa e lenta, recorrendo a
arbitragem os factos irão indicar a Lei a aplicar na sua relação.

18 Cfr. JONATÃ MACHADO e PAULO NOGUEIRA DA COSTA, - Direito Constitucional Angolano, Coimbra

editora 2011, p. 316.

25
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Todavia, as convenções têm muita influência, chegando a ser maior que os
tratados, em matéria Comércio Internacional, considerando-se com uma das
notáveis fontes do Direito do Comércio Internacional.

O Direito da Arbitragem constitui outra matéria central no curso graduação


na especialidade das ciências jurídico-económicas. Isto deve-se fundamentalmente
a duas ordens de razões. Por um lado, a Arbitragem é o modo normal de resolução
de litígios no comércio internacional, por outro lado, a Arbitragem não é abrangida
por nenhuma outra disciplina do curso a não ser na Disciplina do Direito do Processo
Civil Declarativo.

Entretanto, a este respeito interessa-nos principalmente a Arbitragem


transnacional. Mas não só há noções gerais sobre Arbitragem que são indispensáveis
a compreensão da matéria relativa a Arbitragem transnacional, como também há, a
face de muitos sistemas nacionais, em que se inclui o português, todo um conjunto
de normas e princípios comuns a Arbitragem interna e a Arbitragem internacional.
Razão por que no nosso curso se procederá a um estudo, ainda que panorâmico, da
Arbitragem em geral.

Assim, dada a importância da Arbitragem para o comércio internacional,


compreende-se que o reconhecimento de decisões arbitrais sejam também objecto
de um exame aprofundado no quadro da presente disciplina. Porém, já não se
justifica a inclusão da matéria relativa ao reconhecimento de decisões judiciais
estrangeiras, visto que é tratada com desenvolvimento na disciplina de Direito
Internacional Privado19.

Relativamente no plano do Costume e os Usos, importa aquilatar que quer o


Costume e aos Usos, são práticas comercias reiteradas que já vem desde os
mercadores da antiguidade até aos nossos dias, porquanto essas práticas não
escritas sendo vinculativas para as partes no comércio internacional. Por exemplo,
a obrigação dos vendedores, de transferirem as coisas, cuida-las e entrega-las ao
comprador, contudo, estas práticas alguns passaram a serem escritas em diplomas
legais.

Pelo que, em termos de fontes de preceitos negociais, bem como os modelos


de regulação que são propostos as partes e ao legislador nacional ou internacional,
podem contribuir para a formação de usos e regras consuetudinárias ou influenciar
a produção legislativa.

A este respeito é de salientar os tipos contratuais do tráfico negocial que por


força do seu sentido ordenador, não podem deixar de incidir sobre o Direito
objectivo, e a elaboração por organização não-governamentais do comércio
internacional e por agências de organizações internacionais, nos termos

19 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 33.

26
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
normalizados, modelos contratuais, cláusulas – modelo e condições gerais que são
propostos aos sujeitos do comércio internacional.

Os contratos internacionais sendo a principal fonte de relações económicas


transnacionais, e, as relações contratuais internacionais as que são objecto de uma
regulação mais intensiva por “Convenções Internacionais” e pelo Direito
Transnacional, justifica-se que não tratemos de outras relações comerciais
transnacionais. Tão-pouco nos ocuparemos do estudo do estatuto dos sujeitos das
relações comerciais internacionais, designadamente das sociedades e dos grupos
transnacionais de empresas.

Portanto, dentre os contratos internacionais mostrou-se necessário destacar


o contrato de venda, que é a modalidade paradigmática de contrato comutativo, e
que é também a modalidade com maior importância prática no comércio
internacional. Daí que o contrato de venda seja o único a ser estudado em especial.

1.10. Método ou Técnicas de Regulação do Direito do Comércio


Internacional

No Direito do Comércio Internacional coexistem varias técnicas de regular as


questões pertinentes relativamente ao seu objecto de estudo. Pois, o como
notadamente se observa, assaca-se que o objecto de estudo do Direito do Comércio
Internacional, são efectivamente as relações comerciais internacionais relevantes
que os agentes económicas estabelecem e que tenha conexão com vários
ordenamentos estaduais que se funda no contrato de comércio internacional.

Ora, o contrato internacional comercial serve de algum modo do conceito


quadro objecto de regulação do D.C.I., com o recurso a normas de conflitos, porque
ao conceito quadro dentro dos elementos estruturais da regra de conflito anuncia
um liame genético: conceito quadro, elemento de conexão e consequência jurídica.

Por conseguinte, a regulação dos contratos comerciais internacionais no


plano do Direito estadual pode ser feita com o recurso a sistema de norma de
conflitos, designadamente: tratados e convenções transaccionais20.

1.10.1. Método Conflitual

O método de conflito configura-se no modo operandi específico, isto é, eleger


dentre os elementos pertencentes à estrutura das situações a regular, aquele por
cujo intermédio haverá pois, de ser encontrada a lei aplicar no âmbito
correspondente a determinado sector ou matéria jurídica, a determinada questão
ou núcleo de questões de Direito.

20Cfr. Convenção de Roma sobre a Lei aplicável às Obrigações Contratuais, Convenção de Montreal
para Unificação, CNUDCI etc.

27
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
As normas de conflitos, tem os elementos estruturais, nomeadamente:
conceito quadro, elemento de conexão e consequência jurídica.

Pelo que, o elemento do conceito quadro refere-se a questão hipotética que


representa o designativo de determinada matéria, instituto ou categoria normativa.
Ex. Contrato de compra e venda, contrato de transporte.

Já o elemento de conexão funciona como elemento de referenciador da lei


cujos preceitos materiais são chamados a intervir, com exclusão de qualquer outros,
no âmbito demarcado pelo conceito quadro. Ex. O Estado em que foi celebrado o
contrato.

Por seu turno, a consequência jurídica – consiste na atribuição da


competência à lei que em concreto for designada pela conexão relevante a lei
aplicável à questão concreta a resolver será aquela com qual a situação sub judice
estiver em contacto através do elemento de conexão considerado decisivo pela regra
de conflito. Ex. Atribuição de competência à lei onde foi celebrado o contrato.

Importa assinalar que esses elementos de regra de conflito no que tange a


competência, existe no Direito Internacional Privado a problemática jurídica,
ancorada no instituto de devolução ou reenvio como expediente de resolução de
concurso de leis. Porém, em sede do exame do Direito Internacional Privado (DIP),
foram escrutinados várias teorias, nomeadamente: teoria da referência material ou
tese anti-devolucionista e teoria da referência global ou devolucionista que pode ser
devolução simples e dupla21.

Contudo, a devolução pode assume duas formas: a forma de retorno de


competência à lex fori e a forma de transmissão de competência a uma terceira ou
quarta lei.

Ora bem, este método de resolução é particularmente aplicável no âmbito do


Direito Internacional Privado, todavia, cumpre notar que o Direito de Comércio
Internacional recorre a este expediente quando as partes escolhem, ou elegem o foro
de resolução conflito a jurisdição estatual, ou quando muito se as partes teria
olvidado mencionar a cláusula da lei aplicável no contrato.

1.10.2. Método da Unificação

21 Devolução Simples – consiste quando o ponto de vista da referência global se aplica só no momento

da partida, isto é, à designação feita pela regra de conflitos do foro à lei para que inicialmente remete,
mas já não se aplica nos momentos subsequentes – mas já não se aplica à regra de conflitos
estrangeiras que devolve a competência à lei do foro. Vide art. 17º, CC.
A Devolução Dupla – consiste naquela situação que acolhe plenamente ideia que está na base da
teoria da referência global, ou seja, o Tribunal do Estado cuja lei é declarada competente pela regra
de conflitos da lex fori. Vide art.16º, da CC.

28
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
O método da unificação ou método material consiste no recurso directo as
normas materiais do Direito do Comércio Internacional. Ex. as partes indicarem a
lei a aplicar no contrato.

Entretanto, as normas materiais do Direito do Comércio Internacional, são


regras escritas contidas geralmente em tratados, acordos ou convenções, protocolos
que visam a unificação do comércio internacional. Ex. Convenção das Nações Unidas
do Direito do Comércio Internacional (CNUDCI), Lei Modelo da UNICITRAL sobre a
Arbitragem Internacional, Princípios UNIDROIT relativos aos Contratos Comerciais
Internacionais.

Portanto, o método material ou unificado é o privilegiado, pois que as partes


podem socorrer-se directamente as normas constantes em Convecções ou tratados
para serem aplicados nas relações de comércio internacional vide art. 1º, do
CNUDCI. Porque o contrato é selado por partes de diferentes Estados.

1.10.3. Método Misto

O método misto - consiste na aplicação simultâneo de método conflito que é


a regra do Direito Internacional Privado e do método material ou unificado que é
regra do Direito do Comércio Internacional.

Porém, no actual contexto e à luz da natureza jurídica do Direito do Comércio


Internacional nada obsta que se equacione o método misto porquanto há situações
eclécticas que merecem atenção cuja resolução passa pelo presente método22.

Capítulo II – Contratos Internacionais

2.1. Contratos Internacionais

O Contrato é um instituto geral do Direito comum nos vários ramos da ciência


jurídica, pois parece o exacto afirmar que os contratos constituem a precípua fonte
das relações obrigacionais, não só pela sua frequência, mas também porque os
direitos e as obrigações deles resultantes são, de modo geral os de maior relevo na
vida de todos os dias. Porém, constituem o seu cavalo de combate os princípios
contratuais, a liberdade contratual, consensualismo, a boa – fé e da força vinculativa.

Porque a justiça que se procura no Direito do Comércio Internacional exige


uma valoração de interesses que radicam em três ordens de interesses,
designadamente: os interesses das partes; os interesses do tráfico do comércio

22 Ex. Geralmente acontece nas questões de arbitragem em que recorrem muitas vezes as normas
processuais e também as regras materiais. No compromisso arbitral indicam-se as regras
processuais e as partes indicam os árbitros para escolherem a lei para solucionar o litígio. Assim,
para os árbitros julgar a causa terão que recorrer ao método de conflito que a regra do Direito
internacional Privado para saber qual a lei aplicar se as partes nada disserem no contrato ou depois.

29
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
jurídico; e, os interesses de ordem (que se exprimem nos pressupostos da harmonia
interna e da harmonia internacional).

Compreende-se, por isso, o interesse pratico e teórico do instituto, bem como


a atenção que os legisladores nacionais e supranacionais, em regra lhe consagram.
Não faltam quem assinale que a contratação ou contratualidade e o progresso
seguem, na história, uma interligação curva ascendente. Em todo caso, talvez seja de
reconhecer que, durante o ciclo que nos procedeu, se hipertrofiou a ideia de
contrato, sobretudo do ponto de vista teórico23.

Todavia, quando a esfera publicística, desse a própria construção do Estado,


baseada no «contrato social» - de que decorria a afirmação dos direitos naturais do
homem e do cidadão -, ou a coordenação do mundo internacional, assente em
tratados, convenções, resoluções contratualistas – imperando o princípio «pacta
sunt servanda»24.

O contrato assume a natureza de pedra angular de todo um sistema – quadro


ao serviço de uma ideologia, pois bastara observar a pujança da actividade
económica do nosso tempo, causa e feito de conquista tecnológicas e do acréscimo
de necessidades, ao lado da dinâmica do intercâmbio de bens ou de serviços, interna
i internacional, para reconhecermos que o contrato continua sendo um esquema
jurídico de primeira linha, ao serviço da colaboração entre as pessoas, da
incentivação económica e, enfim, do progresso.

Pois bem, a generalidade da doutrina lusófona, sustenta que os critérios de


qualificação dos contratos comerciais são os critérios clássicos da comercialidade
dos actos jurídico-privados, consagrados no art. 2º, do C.Com., do qual prevê duas
categorias fundamentais, designadamente: contratos comerciais objectivos e
contratos comerciais subjectivos25.

É bom assinalar que os contratos comerciais decorrem em termos negociais


à luz do princípio da autonomia privada -, que consistente na possibilidade que
alguém tem de estabelecer as suas próprias regras. Como nota tecnicamente, LUÍS
MENESES LEITÃO, que as regras jurídicas caracterizam-se pela generalidade e
abstracção, pelo que elas não podem ser criadas por actos privados. Pois segundo o
expoente da doutrina das obrigações de Lisboa, na sua escola, defende que os
privados não criam regras com carácter geral e abstracto, mas sim, os privados
criam comandos, que só para eles vigoram26.

Seguramente, autonomia privada é assim a possibilidade de alguém


estabelecer os efeitos jurídicos que se irão repercutir na sua esfera jurídica. Por este

23 Cfr. MÁRIO JÚLIO DE ALMEIDA DE COSTA. Direito das Obrigações, almedina, 9ª edição 2001 p. 181.
24 Ob. Cit. 181.
25 Cfr. JOSÉ ENGRÁCIA ANTUNES. – Direito dos Contratos Comerciais. Almedina 2009, p. 29
26 Cfr. MENESES LEITÃO. – Direito das Obrigações, Almedina 2010 9ª edição, p. 21.

30
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
motivo, autonomia privada não se confunde com o direito subjectivo. Porque na
autonomia privada existe uma permissão genérica de conduta, pois que, seguindo o
LUÍS MENESES LEITÃO, todos os sujeitos da ordem jurídica é reconhecida esta
possibilidade de produção de efeitos jurídicos, não havendo nenhum que dela seja
excluído27.

Segundo o MENESES CORDEIRO, a autonomia privada é uma permissão


genérica de actuação jurígena28. Autonomia privada consiste assim num espaço de
liberdade, já que, desde que sejam respeitados certos limites, as partes podem
livremente desencadear os efeitos jurídicos que pretendem. Pelo contrário, no
direito subjectivo existe uma esfera de competência. Já que relativamente a certo
bem, quando ele é objecto de um direito subjectivo, efectua-se a sua atribuição
exclusivamente a uma pessoa, uma vez que todos os outros sujeitos vêm a ser
excluído dessa atribuição. Por isso, no direito subjectivo existe uma permissão de
beneficiar das utilidades que aquele bem produz29.

Assim, serão comerciais objectivos, de acordo aquele preceito, todos aqueles


contratos que preenchem o critério objectivo da comercialidade previsto na
primeira parte do art. 2º, do C.Com. E por conseguinte, serão comerciais subjectivos,
todos aqueles contratos que satisfaçam o critério subjectivo da comercialidade, nos
termos previsto na segunda parte do art. 2º, do C.Com., ou seja, todos contratos e
obrigações dos comerciantes30.

O tipo contratual no Direito do Comércio Internacional é aqui entendido no


sentido de modalidade contratual. Não limita-se às modalidades contratuais
conformadas e sistematicamente reguladas pela Lei (geralmente designadas “tipos
legais”).

Por exemplo, o contrato de concessão comercial. A formação de um tipo de


tráfico negocial pressupõe uma prática negocial reiterada na celebração de
contratos que desempenham uma determinada função económica e apresentam
uma combinação de elementos estruturais, em especial relativos ao conteúdo do
negócio, que permitem a sua individualização no tráfico jurídico.

2.1.1. Conceito Relevante de Tipo Contratual

O Contrato é um instituto geral do Direito comum nos vários ramos da ciência


jurídica, mas, a questão nodal que logo sai a caminho é de saber o que

27 Ob. Cit. p. 21.


28 Cfr. MENESES CORDEIRO. - Tratado de Direito Civil, Almedina 4ª edição 2012, p. 951 e ss.
29
Cfr. MENESES LEITÃO. – Direito das Obrigações, Almedina 2010 9ª edição, p. 22.
30 Vide o Código Comercial no seu título XVI – da compra e venda art. 463º, sob a epígrafe “ Quando é

comercial a compra e venda”.

31
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
contradistingue os contratos comerciais no universo dos contratos em geral, muito
em particular em face dos contratos civis. Dizer quando é que um determinado
contrato jurídico-privado se diz comercial e não civil? Quais são os critérios da
mercantilidade ou da qualificação comercial de um contrato?31. Quais são os
critérios da mercantilidade ou da qualificação comercial de um contrato?32.

Pois bem, como já asseveramos (supra) a generalidade da doutrina lusófona,


sustenta que os critérios de qualificação dos contratos comerciais são os critérios
clássicos da comercialidade dos actos jurídico-privados, consagrados no art. 2º, do
C.Com., do qual prevê duas categorias fundamentais, designadamente: contratos
comerciais objectivos e contratos comerciais subjectivos33.

Assim, serão comerciais objectivos, de acordo aquele preceito, todos aqueles


contratos que preenchem o critério objectivo da comercialidade previsto na
primeira parte do art. 2º, do C.Com. E por conseguinte, serão comerciais subjectivos,
todos aqueles contratos que satisfaçam o critério subjectivo da comercialidade, nos
termos previsto na segunda parte do art. 2º, do C.Com., ou seja, todos contratos e
obrigações dos comerciantes34.

31 Cfr. JOSÉ ENGRÁCIA ANTUNES. – Direito dos Contratos Comerciais. Almedina 2009 p. 28-29.
32 Ob. Cit. p. 28-29.
33 Ob. Cit. p. 29.
34 O Código Comercial no seu título XVI – da compra e venda artigo 463º sob a epígrafe ´´ Quando é

comercial a compra e venda “

- São considerados:
1- As compras de coisas para revender, em bruto ou trabalhadas, ou simplesmente para lhes
alugar o uso;
2- As compras, para revenda, de fundos públicos ou de quaisquer títulos de crédito negociais;
3- As vendas de coisas moveis, em bruto, e as de fundos públicos e de quaisquer títulos de
créditos negociáveis, quando a aquisição houvesse sido feita no intuito de as revender;
4- As compras e vendas de partes ou de acções de sociedades comerciais.
De um lado e de outro lado, o artigo 464º do mesmo diploma legal sob a epígrafe ´´ Quando não é
comercial a compra e venda “.
- Não são considerados comerciais:
1- As compras de quaisquer coisas moveis destinadas ao uso ou consumo do comprador ou da
sua família e as revendas que porventura desses objectos se venham a fazer;
2- As vendas que o proprietário ou explorador rural faça dos produtos de propriedade sua, ou
por ele explorada e de géneros em que lhes houverem sido pagas quaisquer rendas.
3- As compras que os artistas, industriais, mestres e oficiais de ofícios mecânicos que
exercerem directamente a sua arte, industriam ou oficio, fizerem de objectos para transformarem,
ou aperfeiçoarem nos seus estabelecimentos e as vendas de tais objectos que fizerem depois de assim
transformados ou aperfeiçoados;
4- As compras e vendas de animais feitas pelos criadores ou engordadores;
Com estas incursões legislativas, obviamente, nos espelha que o contrato de compra e venda, pode
ser comercial e civil, de acordo com o elencado nos artigos 463º e 464º do código comercial, por
maioria da razão, nos reconduz na classificação dos actos de comércio objectivos e subjectivos
previsto no artigo 2º, do Código Comercial e que é susceptível de ser titulados pelas pessoas
colectivas como sujeitos destas relações jurídicas;
Efectivamente, infere nesta perspectiva a referência de capacidade jurídica de praticar os
actos de comércio e actos civis.

32
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
O tipo contratual no Direito do Comércio Internacional é aqui entendido no
sentido de modalidade contratual. Não limita-se às modalidades contratuais
conformadas e sistematicamente reguladas pela Lei (geralmente designadas “tipos
legais”). Por exemplo, o contrato de concessão comercial.

A formação de um tipo de tráfico negocial pressupõe uma prática negocial


reiterada na celebração de contratos que desempenham uma determinada função
económica e apresentam uma combinação de elementos estruturais, em especial
relativos ao conteúdo do negócio, que permitem a sua individualização no tráfico
jurídico.

A boa doutrina que nós perfilhamos proclamada pelo renomado Prof. Catedrático da Universidade
de Lisboa o ilustre Doutor ANTÓNIO MENESES CORDEIRO:
-Há pois que admitir que pessoas colectivas não societárias, designadamente as associações e
fundações civis, possam praticar actos de comércio (objectivo), de resto, é o que resulta do art. 7º do
código comercial - IN Manual de Direito Comercial 2ª edição – 2007 Almedina editora p. 240;
Com este enunciado doutrinal e de acordo com a interpretação actualista do código
comercial, os actos de comércio objectivos unilaterais estão abertas a todas as pessoas, ou seja, em
penitência legal, todos são iguais perante a lei, descreve o artigo 23º da nossa constituição, isto é,
podem dispor e adquirir bens livremente através de actos jurídicos, ou contratos gratuitos e
onerosos;
A princípio nesta formulação da liberdade, decorre as excepções que se impõe, relativamente
quando a profissão de comerciante e na prática de actos de comércio subjectivo, ou seja, que tem a
ver com a qualidade da pessoa que é o sujeito das relações jurídicas, “intuitu personae” (itálico nosso),
nomeadamente:
- Proibições gerais;
- Incompatibilidade;
- Inibições e;
- Impedimentos;
Concomitantemente, as excepções acima referidas não obstam a prática de actos de
comércio de menor escala, nomeadamente aqueles previstos no art. 464º do Código Comercial, é o
caso dos Magistrados, Membros do Governo e outros titulares de órgão de soberania;
Por via disso, podem adquirir por exemplo, pelo contrato de compra e venda um Imóvel
como seu direito de propriedade para habitação, ou uma viatura para si e depois revender quando
entender, ou ainda uma ONG, adquirir uma viatura por compra e venda a um Stand de automóvel e
depois revender, não há crises sobre a prática destes actos;
Portanto, não é necessário ser exactamente comerciante e licenciar como Profissional de
comércio, são actos de comércio unilateral, ou seja, actos normais da vida de todas pessoas com
capacidade genérica de exercício de direitos e de dispor e adquirir bens e serviços, que é colhida pela
nossa lei civil precisamente nos arts. 160º, nº 1 do Código Civil e art. 7º do Código Comercial – sob
epígrafe ´´ Capacidade para prática de actos de comércio ´´
- Toda pessoa, nacional ou estrangeira, que for civilmente capaz de se obrigar, poderá praticar actos
de comércio em qualquer parte do território angolano, nos termos e salvas as excepções da presente
lei e demais legislação complementar;
As excepções que se referem na última parte do preceito normativo acima destacado, são
efectivamente as proibições de prática de actos de comércio, como actividade profissional previstos
no art. 14º do Código Comercial que prescreve o seguinte:
- É proibido à profissão:
1- As associações ou corporações que não tenham por objecto interesse materiais;
2- Aos que por lei ou disposições especiais não possam comerciar;

33
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
2.2. Caracterização dos Contratos Comerciais Internacionais

2.2.1. Carácter “Comercial” dos Contratos

Consideram-se “comerciais”, em primeiro lugar, os contratos celebrados


entre entes empresariais. Também são considerados “comerciais” os contratos
celebrados no exercício de actividades económicas por profissionais independentes
que não dispõem de uma organização empresarial.

Os contratos comerciais internacionais são principalmente contratos de


Direito Privado. Isto verifica-se não só com os contratos entre particulares, mas
também com os contratos celebrados por um Estado ou ente público autónomo,
quando este não age na qualidade de sujeito público, mas como se de um particular
se tratasse.

Contudo, há inúmeros contratos celebrados por Estados ou entes públicos


autónomo que são indiscutivelmente internacionais, designadamente os contratos
celebrados com sociedades constituídas e sedeadas noutros Estados.

Porém, se pudéssemos dizer que todos os contratos de Direito Público estão


necessariamente submetidos ao Direito do sujeito público e só seriam comerciais os
contratos celebrados por sujeitos públicos que não fossem de Direito Privado. Tudo
se reconduziria à classificação do contrato como relação jurídico-privado ou relação
jurídico-pública. Será assim?

Como é evidente, durante muito tempo o pensamento sobre estes problemas


foi influenciado pela dogmática da absoluta territorialidade do Direito Público.

O Direito Público seria territorial pelo que toca seus órgãos de aplicação: os
órgãos de aplicação de um Estado só aplicariam o Direito Público interno.

O Direito também seria territorial no que concerne às situações com


elementos de estraneidade abrangidas: o Direito Público só se aplicaria às situações
ligadas ao território do Estado de onde emana por um laço de carácter espacial.

Perante este dogma não se colocavam problemas de aplicação no espaço do


Direito Público. Seja como for, com este dogma relacionava-se uma concepção
absoluta da imunidade de jurisdição, assim, um Estado não poderia ser accionado
nos tribunais de outro Estado, salvo em casos verdadeiramente excepcionais, ou
seja, um Estado também não poderia actuar em tribunais de outro Estado
pretensões fundadas no seu Direito Público.

Porém, de onde resulta que os litígios emergentes de um contrato celebrado


por um Estado ao abrigo do seu Direito Público só podiam ser apreciados pelos
tribunais deste Estado, e, por conseguinte, estes tribunais aplicavam
necessariamente o Direito Público interno.

34
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Todavia, estes contratos, ainda que celebrados com um estrangeiro ou
residente no estrangeiro não colocavam um problema de determinação do Direito
aplicável. Mas além dos limites ao territorialismo que porventura sempre existiram,
foram sendo progressivamente alargados e encontram-se hoje definitivamente
superados este dogma.

Pois, em Direito Internacional Privado admite-se hoje que, em princípio, não


há impedimento à aplicação do Direito Público, vigente na ordem jurídica
estrangeira designada pela norma de conflitos, que seja aplicável à situação
“privada” internacionalmente.

Conquanto, também se registou uma evolução no que toca ao entendimento


da imunidade de jurisdição e da admissibilidade de prestações de Estados
estrangeiros. Efectivamente aceita-se hoje que um Estado estrangeiro só goza de
imunidade de jurisdição relativamente aos actos praticados sob a bandeira do iure
imperii (isto é., no exercício de poderes de autoridade pública) e já não
relativamente aos actos praticados iure gestionis (isto é, que também podem ser
praticados por particulares)35.

Entretanto, pode-se examinar a distinção entre actos praticados iure imperri


e actos praticados iure gestionis correspondesse sempre ao carácter jurídico-público
ou jurídico-privado do acto. Efectivamente, pareceria possível dizer que só os
contratos de Direito Privado celebrados por sujeitos públicos de um Estado podem
ser apreciados por tribunais estrangeiros ou transnacionais e colocam um problema
de determinação do Direito aplicável.

Mas não é assim que acontece as coisas, por três ordens de razões:

Os litígios emergentes de contratos públicos são, perante a grande maioria


dos principais sistemas, arbitráveis;

A imunidade de jurisdição relativamente aos actos praticados iure imperri é


renunciável;

A distinção entre actos iure imperii e actos iure gestionis releva do Direito
Internacional Público e não corresponde necessariamente ao critério de
classificação dos actos como sendo de Direito Público ou Direito Privado adoptado
por uma ordem jurídica nacional e, em particular, não corresponde aos critérios
seguidos na ordem jurídica angolana.

Um dos problemas nesta sede é relativamente quando um contrato é


celebrado por um sujeito público independentemente ser estrageiro ou nacional,
portanto, a questão que se coloca é de determinação do Direito aplicável quando
contenha cláusula de arbitragem válida, porquanto a maioria dos principais

35 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 61- 62.

35
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
sistemas jurídicos admitem inclusão da cláusula de arbitragem nos contratos
públicos, com excepção os actos de responsabilidade civil por prejuízos de actos
praticados no exercício da função política, legislativa e jurisdicional36.

Portanto, os contratos em sede do Direito do Comércio Internacional têm um


carácter comercial privado, porque os actos comerciais são praticados sob égide iure
gestionis .

2.3. As Fases do Contrato Internacional


Os contratos internacionais de comércio desde a sua formação até conclusão
e execução obedece um processo ou fases, designadamente: fase negocial, fase da
conclusão e fase de execução.

Portanto, para melhor compreensão vamos descrever a seguir uma das


etapas que corporizam as fases do contrato internacional.

2.3.1. Fase Negocial


Fase negocial é uma das fases muito (e talvez a maior) importante nos
contratos; porque é a fase que se constroem todas as cláusulas que irão fazer parte
do contrato.

Esta fase começa com uma proposta e a outra parte apresenta uma contra-
proposta. Feita a proposta a outra parte a citar ou não aceita a proposta, não
aceitando a outra entrega uma contra - proposta.

A Convenção estabelece que a proposta contratual se torna eficaz quando


chega ao destinatário (art.15º, nº1, da CNUDCI) e que aceitação se torna eficaz
quando chega ao proponente (art. 18º, da CNUDCI). Portanto, a Convenção consagra
precisamente a “Teoria da Recepção” nos termos art. 224º, do CC.

A proposta ou a aceitação podem ser retractadas mediante declaração que


chegue ao destinatário antes ou mesmo tempo que a proposta ou aceitação vide o
art.15º, nº 2 e 22º, da CNUDCI. A mesma solução esta consagrada no art. 230º, nº 2
e 235º, nº 2, do CC.

A proposta contratual pode ser revogado ou não? e qual a solução jurídica da


Convenção?

Ora bem, de acordo o LIMA PINHEIRO, entende que a revogabilidade da


proposta contratual após esta ter chegado à esfera jurídica do destinatário são
passíveis duas soluções diametralmente opostas: a irrevogabilidade – que é regra

36 Ob. Cit. p. 62.

36
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
supletiva contida no art. 230º, nº 1 do CC, e a revogabilidade até o momento da
celebração do contrato37.

Entretanto, a primeira solução protege melhor os interesses do declaratório


e segunda dá prevalência aos interesses do proponente. Portanto, a Convenção dá
uma solução ecléctica, porque segue a via intermédia no art.16º, da CNUDCI. Isto
significa que a proposta contratual é revogável, se a declaração de revogação chegar
ao destinatário antes da emissão da aceitação e não até a recepção da aceitação.

Por seu turno a revogação não é admitida se a proposta for de considerar


irrevogável art. 16º nº 2, da CNUDCI e acontece em duas situações:

- A proposta indica que é irrevogável, por exemplo, através da fixação do


prazo para aceitação.

- O destinatário agiu na convicção de que a proposta contratual é irrevogável,


quando seja razoável que lhe atribuísse este carácter38.

Há quem diga que nesta fase para além da proposta e da contra - proposta
aparecem os protocolos de intenções, pelo que, estes não são documentos
vinculativo, mas é necessário que se as partes estejam a agir de boa-fé negocial, ou
seja, boa-fé pré-contratual ( ex vi lege art. 227º, do CC).

A boa-fé é tão importante e necessária nesta fase, mas nem todos protocolos
são vinculativos, pois não haverá consequências jurídicas, ou seja, nesta fase da
negociação poderá nascer vários documentos escritos, uns vinculativos outros não.

As partes tem que agir de boa-fé e com lealdade que consiste na informação
que cada parte deverá dar quanto ao objecto do seu contrato. O objecto do contrato
se for de compra e venda, a outra parte terá que afirmar a outrem que o contrato
trará benefícios a ambos ou informar devidamente a outrem que este contrato irá
levar benefícios mutuamente vantagens. O que significa dizer, depois da negociação
e as partes chegaram a um entendimento; passar-se-á outra fase.

2.3.2. Fase da Conclusão


A fase da conclusão ou também conhecida por de fase da celebração ou
simplesmente de assinatura o contrato é reduzido à escrito de tudo aquilo que foi
negociado com as respectivas cláusulas neles incluídas, ou seja, a construção das
cláusulas do contrato.

Todavia, reduzir à escrito tudo que foi negociado nos termos da liberdade de
forma não é obrigatório (vide art. 219º, do CC) à luz do princípio do

37 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 271.
38 Ob. Cit. p. 271.

37
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consensualíssimo de acordo o objecto, a forma de pagamento, termos comerciais
dentro da outra cláusula arbitral e etc.

2.3.3. Fase da Execução


A execução é a materialização do contrato, isto é, de todas as cláusulas
incluídas no contrato. Depois das fases precedentes de negociação e da assinatura
do contrato, nos contratos com agentes económicas estaduais ou equivalentes ou
dependentes de autorização de um departamento ministerial ou titular do poder
executivo e o Tribunal de Contas, a execução do contrato (em Angola) só entra
efectivamente em vigor depois da tramitação burocrática administrativa de
aprovação ou autorização dos órgãos do Estado competentes em obediência ao
princípio de legalidade (art. 6º, da CRA)

Já nos contratos comerciais em que as partes são agentes económico do


direito privado, prevalece o princípio de paridade ou da autonomia privada (art.
405º, do CC), não haverá necessidade desta aprovação.

Em qualquer umas destas fases poderão surgir desentendimento entre os


contratantes, é pois, nesta fase da execução onde surgem maiores problemas e
muitos destes litígios são consequência da deficiente negociação ou da má
celebração do contrato.

2.4. As Principais Cláusulas do Contrato Internacional

O objecto do contrato, pagamento e suas modalidades, pagamento a vista,


pagamento a prestações o crédito documentário (crédito documentário revogável,
crédito documentário irrevogável) Lei Aplicável ou Cláusula do Direito Aplicável,
Sentido e Alcance, O Contrato Sem Lei, Força Maior e Hardship, os INCOTERMS,
Eleição de Foro, Cláusula Arbitral.

2.4.1. Objecto do Contrato

O objecto do contrato tem que ser sempre lícito possível e determinável sob
pena de nulidade, assim exprime a lei civil art. 280º, CC. Porém, também deve estar
em conformidade com os bons costumes e usos do comércio internacional, bem
como não atente contra a ordem pública, fraude a lei e normas imperativas.

2.4.2. Lei aplicável ou Cláusula do Direito Aplicável


A cláusula de lei aplicável ou Direito aplicável – é aquela através da qual as
partes designam a lei que vai ou ira reger o seu contrato. Por conseguinte, o

38
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
problema que tem surgido sobre esta matéria prende-se com a escolha da lei
aplicável em caso de litígio, ou seja, tem suscitado dúvidas entre as partes na escolha
ou na designação da lei.

As partes no âmbito do princípio da autonomia da vontade podem escolher


autonomamente a lei aplicável ao contrato. Entretanto, foram ensaiadas e apontadas
algumas teorias (teorias absolutistas e relativistas) devido as divergências de
escolha e de acordo cada ordenamento jurídico.

Assim, a teoria absolutista, entendem os partidários que as partes são livres


de escolher qualquer lei, sem limites de espécie a considerar39. Pois o importante
para os defensores desta tese é a falta de vontade ou ausência de limites.

Portanto, as partes podem escolher qualquer lei, mesmo que esta não tenha
qualquer nenhuma conexão com o contrato, tendo em atenção ao recortado
princípio da autonomia da vontade.

Por seu turno a teoria relativista – percebe-se que as partes são livres de
escolher a lei aplicável condicionado, pois que, devem respeitar certos limites,
designadamente:

 A Ordem Pública;
 A Fraude a Lei; e,
 As Normas Imperativas.

Além disso, a lei escolhida se for uma terceira lei em relação a identidade dos
contraentes, devera ter uma conexão com o negócio jurídico ou representar um
interesse sério das partes “ex vi lege” art. 41º, do CC.

O sistema brasileiro é sui generis, pois o contrato está sujeito a lei do local da sua
celebração (art. 9º, do CCB), por conseguinte, tem suscitado controversas sobre o
exercício do instituto ou princípio da autonomia da vontade. Mas entendem assim
que seguramente a lei brasileira confere a liberdade condicionada com a deslocação
das partes para o país escolhido no contrato.

Porém, ligado ao princípio da autonomia da vontade são os seguintes


situações contratuais:

Contrato Sem Lei – dizer que as partes celebram um contrato e declaram


expressamente que o seu contrato não será regido por alguma lei.

Para os absolutistas entendem que pode haver um contrato sem lei,


porquanto eles gozam do princípio da autonomia da vontade.

39 Ex. Argentina.

39
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Já os teóricos da tese relativistas preferem negar tal ideia dos absolutistas,
justificando para todos efeitos que o contrato não pode ficar sem indicação legal à
aplicar, porque haverá problemas na resolução do litígio e da interpretação e
execução do contrato, mesmo que se submeta a arbitragem porque os árbitros não
podem recorrer a equidade.

O Contrato Omisso - as partes esquecem-se de indicar a lei que ira reger o


seu contrato.

Neste caso, havendo tal lapso de algum modo desculpável, a ideia é de os


juízes ou árbitros para resolução do litígio servirem-se de certos índices para
determinar a vontade hipotética das partes, designadamente:

 Local da celebração do contrato;


 Língua do contrato; e,
 Local da celebração da arbitragem.

2.2.3. Cláusulas de Contratualização da Lei

As cláusulas de contratualização da lei filia-se no sentido e alcance do


contrato em conformidade do postulado na lei escolhida pelas partes.

Qualquer modo e de acordo com os absolutistas, as partes podem escolher da


lei aplicável apenas aqueles artigos ou institutos que lhes interessam para a
resolução de eventuais litígios.

Para os relativistas a contratualização da lei não é suficiente para resolver


todo tipo de litígios que possa surgir e segundo eles, esta cláusula não serve.

2.2.4. Cláusulas de Estabilidade Legislativa

Em conformidade com o pensamento dos absolutistas as partes podem


limitar a aplicação da lei no tempo, podem incluir no seu contrato cláusulas que
digam por exemplo que o seu contrato só e só será regido pela lei que vigorou no
momento da sua celebração, não aceitando por isso qualquer modificação posterior
desta lei. - O que significa dizer que “este contrato será regido pela lei em vigor na
data da sua celebração”40.

Os relativistas não aceitam este tipo de cláusulas, porque, segundo eles, são
atentatórias a soberania do Estado, ou seja, os particulares não podem impedir que
o Estado exerça o seu poder de modificar as leis quando os interesses do Estado
assim o exijam.

40 Cfr. Apontamentos da aula de DCI do professor JOSÉ MANUEL JANOTA, ano lectivo de 2005. FDUAN

– Luanda.

40
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
2.2.5. Cláusula de Força Maior

É aquela através da, qual as partes prevêem uma certa forma de agir por força
de acontecimentos tidos como de força maior. Entretanto, as partes prevêem o certo
comportamento caso surja um acontecimento que impossibilite o cumprimento do
contrato.

Força Maior – é pois um acontecimento geralmente imprevisível, alheio à


vontade das partes inevitável e que torna impossível o cumprimento do contrato, e
que por isso mesmo exonera a responsabilidade de ambas as partes.

Requisitos da Força Maior: Imprevisível; inevitável; e, alheia à vontade das


partes41/42/43.

Consequências da Força Maior: Torna impossível o cumprimento do


contrato, e exonera da responsabilidade de ambas as partes.

Geralmente este acontecimento refere-se: greves, guerras, catástrofes


naturais, terrorismo.

É importante que estes acontecimentos sejam elencados no momento da


elaboração da cláusula. A força maior as partes suspendem o contrato e depois
verificam se está em condição, ou não de continuar (se não) as partes resolvem ou
extinguem o contrato.

Portanto, em quando durar o acontecimento, as partes suspendem o


contrato, terminado o acontecimento, as partes pode decidir ou não continuar o
contrato. Se chegarem a conclusão de que não é possível continuar neste caso
resolve-se o contrato, pagando as dívidas (da parte construída por exemplo) mas
aqui não haverá responsabilidade para ambas as partes44.

2.2.6. Cláusula de Hardship

Os requisitos desta cláusula são idênticos as da cláusula de força maior. É um


acontecimento ou modificação de circunstâncias geralmente imprevisíveis,

41 Imprevisibilidade - no momento da celebração do contrato este acontecimento não podia ser


previsto nem pelas partes nem terceiros.
42 Inevitabilidade - significa que, quer as partes do contrato os terreiros não poderiam evitar a

realizar desse acontecimento, apesar de todo o esforço por elas empregue.


43 Alheia a vontade das partes (exterioridade) - É preciso que as partes não tenham consciência

ou nada possa influir na sua materialização. Se o acontecimento for provocado pelas partes não será
força maior. Este é o acontecimento não poderá ser provocado pelas partes, mesmo que fosse terceiro
a provoca-lo contra a nossa vontade (ex.: a greve dos trabalhadores, isto é contra vontade das partes).
Quando falamos de força maior também temos que falar de uma outra cláusula.
44 Cfr. Apontamentos da aula de DCI do Professor JOSÉ MANUAL JANOTA, ano lectivo de 2005.

FDUAN- Luanda.

41
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
inevitável e alheios a vontade das partes, que tornam o contrato economicamente
desequilibrado e que por isso mesmo levam à renegociação do contrato.

Requisitos da Cláusula Hardship: Imprevisibilidade; Inevitabilidade; e, Alheia


a Vontade das partes.

Consequência da cláusula: Torna o contrato economicamente desequilibrado


e Levam a renegociação do contrato.

Portanto, existem afinidade nos requisitos, mas existem diferenças nas


consequências a assinalar.

Diferenças:

A cláusula de forma maior, torna impossível o cumprimento do contrato.

A Cláusula de Hardship, torna o contrato economicamente desequilibrado.

Na cláusula de força maior, o acontecimento exonera a responsabilidade de


ambas as partes do contrato.

Na Cláusula de Hardship, leva a renegociação do contrato.

O contrato fica economicamente desequilibrado quando a prestação de uma


das partes se tornar mais desvantajosa que a outra.

Para se estabelecer o equilíbrio há que se renegociar o contrato, quer haja ou


não no contrato alguma cláusula de revisão das peças, a outra parte terá que
comunicar a outra de forma a renegociar o contrato. Portanto, esta cláusula por si
só obriga a outra parte a renegociar o contrato.

Porém, o Hardship é efectivamente uma figura diferente da imprevisão


constante no art. 437º, do C. C., porquanto na “Cláusula de Hardship” o que importa
são as prestações desequilibradas, nestas não há a resolução do contrato (mas sim
renegociação) fala-se da boa-fé.

2.2.7. Cláusula do Crédito Documentário

O crédito documentário – é uma forma de pagamento através do qual um


cliente (ordenador) dá instruções ao seu banco (emitente) para que este abra um
crédito à favor de um terceiro (beneficiário) cuja utilização só poderá ser contra –
entrega de documentos, designadamente: facturas, conhecimento de embarque,
certificado de origem, certificado de exame de pré- embarque, certificado
fitossanitária e apólice de seguro.

42
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
O pagamento pode ser a vista (a pronto), ou diferido, este último filia-se no
crédito documentário que encerra várias modalidades, designadamente: revogável,
irrevogável, conformativo e não conformativo em que no capítulo próprio vamos
desenvolver com mais detalhes.

2.2.8. Cláusula de INCOTERMS

Das criações da Câmara de Comércio Internacional de Paris (CCI), uma das que
merece maior destaque são os Incoterms. Tendo sua primeira publicação no ano de
1936, os Incoterms ou Internacional Comercial Terms constituem um conjunto de
regras para a interpretação de termos comerciais, que tem a finalidade de definir,
no âmbito de um contrato internacional de compra e venda, o limite dos direitos e
obrigações de cada parte contratante.

Os termos internacionais do comércio costumam ser agrupados em (4) quatro


grupos ou famílias, identificados pela letra E, F, C e D. entretanto, os do grupo E
supõe um mínimo de obrigações para o vendedor, as do grupo F excluem o
pagamento do transporte principal; as do grupo C incluem esse pagamento; as do
grupo D supõem o máximo de obrigações para o vendedor.

Alguns INCOTERMS são tipicamente marítimos (FAS, FOB, CFR, CIF, DES,
DEQ); outros aplicam-se a todo o tipo de transportes (EXW, FCA, CPT, CIP, DDU e
DDP). O DAF é exclusivamente terrestre. São próprios das vendas à partida, os
INCOTERMS EXW, FCA, FAZ, FOB, CFR, CIF, CPT e CIP. São próprios das vendas à
chegada os INCOTERMS DAF, DES, DEQ, DDU e DDP.

Os termos internacionais de comércio no âmbito da autonomia da vontade


são de aplicação facultativa, porquanto a sua utilização apenas depende da vontade
das partes (art. 405º, do CC), sendo que o sucesso de um negócio internacional
depende efectivamente em grande medida da prévia definição, tão clara e precisa
quando possível, dos diferentes deveres e obrigações que cabe a cada uma das
partes nos termos do contrato45.

No mesmo plano, também não é obrigatório a utilização da expressão “ Made


In”, como rotulagem dos produtos, ou seja, não tem carácter obrigatória devido o
facto de a mesma ser considerada uma informação complementar ao consumidor,
pois nem sempre corresponde a verdadeira origem das mercadorias, a qual é

45Saber por quem correm os custos do transporte, do seguro, do frete; qual o momento em que as
mercadorias passaram a ser da responsabilidade do comprador, quem é o responsável pela perda,
extravio o defeito dos bens etc. ou seja, são estes os objectivos que os INCOTERMS visam alcançar.

43
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
comprovada, normalmente, através dos documentos aduaneiros, ou de certificados
emitidos para o efeito.

Em Angola, a utilização da menção “Made In”, é obrigatória, mas a referida


menção deverá ser sempre traduzida pela correspondente expressão em português
(“ fabricado em”…, feito em…” etc.), nos termos do art. 20º, nº 2, da LC (Lei do
Consumidor).

Portanto, os INCOTERMS não são cláusulas próprias do contrato de


transporte, mas sim das relações comerciais entre exportadores e importadores, ou
seja, das vendas internacionais, porventura sujeitos a regimes jurídicos diferentes.
Através dos INCOTERMS, quando introduzidos nos seus contratos, os vendedores e
os compradores querem vincular-se ao conteúdo dessas cláusulas e ficam a saber
com precisão quais as suas obrigações e os custos do transporte e seguro, taxas e
outras despesas, a suportar por uns e outros. Dai terem passado a designar-se
COMBITERMS.

2.2.8.1. Cláusula de Trade Terms

Nos contratos internacionais, além dos INCOTERMS, também existem a


cláusula de Trade Terms que é usualmente presente nos contratos de compra e
venda, mas todo modo de todo modo de maior aplicabilidade nos contratos de
transporte, mesmo internos.

Ora, a primeira manifestação legislativa foi a versão publicada em 1923, pela


Câmara de Comércio Internacional e segunda foi precisamente a ultima versão
normativa pulicada em 1953.

Portanto, não solidez dos INCOTERMS de 2000 CCI, por via disso, não verifica-
se a existência de diversas versões, algumas de proveniência norte – americana. E
segundo MENESES CORDEIRO, as Trade Terms, correspondem, tecnicamente, a
cláusulas contratuais, que devem ser comunicadas e esclarecidas por quem as
proponha à adesão de outrem, nos termos gerais46.

Os mais utilizados ou aplicados no comércio jurídico e pelos Tribunais


lusófonos são:

CAD – (cash against documets): o comprador só pode receber a mercadoria de


comprovado o pagamento do preço facturado.

COD - (cash on delivery ou collect on delivery) : o comprador deve pagar no acto


de entrega da mercadoria; a cláusula não mostra cumprida se o transportador se
limitar a aceitar u, (mero) cheque.

46 Cfr. MENESES CORDEIRO.- Manual de Direito Comercial, Almedina 2ª edição 2007, p. 708.

44
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
FCL – (full container load): tratando-se do transporte de um contentor selado,
compete ao interessado provar que desaparecimento da carga se deu durante o
transporte.

2.2.9. Cláusula Penal


É aquela através do qual as partes fixam o pagamento de uma quantia em
dinheiro pelo não cumprimento de uma obrigação. Entretanto, as partes podem
fixar o pagamento de uma quantia pecuniária (dinheiro) pelo inadimplemento do
contrato e que, esta quantia será paga a parte em relação a quantia do valor do
contrato pela parte faltosa do cumprimento da obrigação que lhe adstrita.

Como óbvio, a cláusula tem finalidade objectiva (art. 810º, do CC), pois visa à
obrigar a outra parte a cumprir o estipulado, exercendo neste caso uma função
psicológica compulsória de prevenção em termos do cumprimento dos prazos.

Todavia, se estiver sido fixado uma quantia como cláusula penal,


efectivamente não pode exigir uma indeminização, salvo se o valor da
indeminização for superior ao valor fixado da cláusula penal, assim, se pedir a
indeminização pelo incumprimento só será exigido à diferença47.

O valor da cláusula penal não poderá ser excessiva ao valor fixado no contrato,
pois se assim acontecer o juiz pode reduzir o valor a cláusula penal (art. 812º, do
CC).

Portanto, a cláusula penal tem finalidade objectiva, e, por conseguinte, não


serve de garantia mas sim actua como prevenção especial.

2.2.10. Eleição de Foro

É aquele através do qual as partes conferem competências a um determinado


Tribunal para que resolve os seus litígios. Ex...: Todos os litígios serão resolvidos
através do Tribunal Provincial ou (Estrangeiro) de Luanda (ou outra). O importante
é indicar o Tribunal que irá resolver o caso (litígio, pode ser “qualquer” Tribunal
podendo ser nacional ou estrangeiro).

Esta cláusula será importante constar no contrato; se constar no contrato, os


litígios não poderão ser resolvidos por um outro Tribunal. Pode-se ter uma cláusula
arbitral e o mesmo tempo uma cláusula de eleição de foro, ou seja, a cláusula de
eleição de foro refere-se aos Tribunais Judiciais.

47 O Calculo da indemnização vem prevista no art. 564º, do CC.

45
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
E bem de notar que evidencia-se aqui a diferenciação entre a cláusula da lei
aplicável e a cláusula da eleição de foro.

Pois, a cláusula da lei aplicável, ou através da cláusula da lei aplicável, as partes


escolhem a lei que vai ou irá reger o seu contrato, isto é, as escolher o Direito.

Ao passo que, na cláusula de eleição do foro as partes escolhem o Tribunal que


vai, ou irá resolver os seus litígios. Isto é, escolher o Tribunal. Portanto é tudo uma
questão de escolha48.

2.2.11. Cláusula Arbitral

É a cláusula através do qual as partes se comprometem (compromisso) a


submeter os seus litígios (futuros) a Arbitragem. (287º, CPC).

A cláusula arbitral ou compromissória aparece antes do surgimento dos


litígios (futuros). Porque no momento da celebração do contrato não existe litígios,
mas as partes submetem o surgimento dos litígios a Arbitragem.

A cláusula arbitral tem dupla autonomia.

Ela tanto pode estar no contrato ou pode estar a fora dele. Autonomia
(distinta das outras cláusulas ainda que o contrato se anule ela mantem a sua
validade dentro do contrato). Mas há casos em que as partes esquece-se de incluir,
mas se uma delas dar conta poderá propor a outra parte para concluir que possam
incluir a cláusula no contrato, este acordo surge já depois do contrato, isto é, o
acordo esta fora do contrato, mas por ser um acordo relativa a cláusula poderá fugir
parte integrante do contrato. Embora não aparecem como cláusula incluída no
contrato.

Esta cláusula esta fora do contrato, mas constitui uma parte integrante do
contrato. Se estiver fora do contrato será considerada como uma cláusula autónoma
(cláusula fora do contrato).

Esta cláusula é considerada distinta das outra cláusulas, de tal maneira que
nulo o contrato, ou as restantes cláusulas do contrato, ela mantem a sua vitalidade
(validade).

É destinta das outras cláusulas pelas suas características. E só se torna nula


se haver uma razão pertinente vertida nos valores negativos dos actos jurídicos que

48Cfr. Apontamentos da aula de DCI do Professor JOSÉ MANUAL JANOTA, ano lectivo de 2005.
FDUAN- Luanda.

46
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
comprometa a boa execução do contrato no caso da invalidade por “Caducidade”49,
Cuja consequência é nulidade por ferir o interesse público.

Características ou requisitos da Cláusula arbitral

Ela é anterior ao litígio, isto é, é anterior ao surgimento do litígio.

Ela tem sempre a forma escrita.

As partes comprometem-se a Arbitragem caso haja litígio, por ser celebrado


antes do litígio.

Requisitos:

Anterior ao surgimento do litígio art. 7º, nº 1, da Lei – Modelo CNUDCI sobre


Arbitragem comercial internacional.

Forma escrita art. 7º, nº 2, da Lei – Modelo CNUDCI.

Forma Escrita:

Com a forma escrita a cláusula considera-se inexistente. As partes não podem


estabelecer uma cláusula arbitral de forma oral. A forma escrita é exigida para servir
de prova da sua existência, é obrigatória. Se surgir um litígio o primeiro documento
exigido será a cláusula arbitral (documento probatório) é através dela que os
árbitros julgam a sua própria competência, ou seja, “a competência da competência”.
Sem esta cláusula escrita o árbitro não poderá julgar da sua competência50.

Pelo que a forma escrita poderá ser: Cartas; Telefax, Telegrama; Internet,
Correio electrónico; e,

Tem que ser por uma coisa que produza documentos e que poderá ser
apresentado a qualquer individuo.

A cláusula tem que estar sempre reduzida a escrita nos termos como vem
previsto no art. 7º, da Lei – Modelo da CNUDCI. Porém, esta convenção tanto surge
para resolver os litígios surgidos tanto nos casos dos litígios que hão-de surgir.

Cláusula arbitral consiste numa convenção autónomo (vide art. 7º, nº 1, da


Lei Modelo CNUDCI), pelo facto de ela estar fora do contrato.

Por seu turno a cláusula compromissória por ser parte do corpo do contrato,
deve ser inserida no contrato (…) pelo facto de ela constar e ser parte do contrato.

49Cfr. Apontamentos da aula de DCI do Professor JOSÉ MANUAL JANOTA, ano lectivo de 2005.
FDUAN- Luanda.

50Cfr. Apontamentos da aula de DCI do Professor JOSÉ MANUEL JANOTA, ano lectivo de 2005.
FDUAN- Luanda.

47
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Requisitos da Cláusula Arbitral;

É anterior ao litígio;

Tem que assumir a forma escrita.

2.2.10.2. Cláusula Arbitral ou Compromissória

Ainda que o contrato já tenha sido executado a parte que se sentir lesado
poderá recorrer com base nesta cláusula. Também é uma forma de extinção da
instância (art. 287º, do CPC que as partes podem chegar o acordo em qualquer
estado do processo (art. 290º, do CPC):

Essa cláusula existe precisamente antes do surgimento do litígio, visto que ela
é negociada ou incluída antes da negociação do contrato.

Prescreve o art. 7º, da Lei- Modelo, que em caso do litígio as partes tentaram
resolver amigavelmente, caso não se consiga, elas terão que submeter a Arbitragem.

Para todos efeitos entendem-se como Compromisso Arbitral - um documento,


contrato ou acordo que as partes elaboram apôs o surgimento de um litígio concreto,
no qual especificam ou designam o seguinte:

O objectivo do litígio;

Os árbitros;

Os poderes dos árbitros;

O prazo de duração do processo;

O local da arbitragem;

A língua da Arbitragem;

As regras processuais;

O Direito aplicável. Etc.

Para melhor compreensão vamos desde logo passar a descrição de cada uma
delas, assim:

O Objectivo do Litígio - é a situação controvertida que as partes pretendem


ver resolvidas ou pretendem resolver da arbitragem.

Designação dos Árbitros -no documento as partes tem que dizer quais são os
árbitros, ou seja, a designação, é feita sempre em número impar, isto é, 1; 2; 5; 7…
árbitros., por conseguinte, se for 1 este será nomeado por acordo das partes, mas se

48
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
for 3, assim, cada nomearia 1 e, o outro por acordo os árbitros terão que indicar o
outro árbitro. Podendo escolher apenas duas ou três peças processuais51.

2.2.10.3. Cláusula do Direito Aplicável

Aqui vigora o princípio da autonomia da vontade, as partes é que determinam


qual o direito aplicável, podendo ser de qualquer ordenamento jurídico.

Estas são algumas principais regras do compromisso arbitral que levam a


solucionar o litígio.

As partes podem pedir de anulação da sentença e esta deve ser formulada a um


Tribunal, com fundamento da sentença arbitral”, art. 34º a 36º, da Lei – Modelo
CNUDCI.

Pode no mesmo contrato figurar uma cláusula arbitral e uma cláusula de eleição
do foro?

Pode-se ter no mesmo contrato as duas cláusulas, quando surgir o litígio as


partes obrigatoriamente terão que recorrer a Arbitragem.

A cláusula de eleição do foro, só funciona acessoriamente caso uma das partes


não concorde ir Arbitragem, eles terão que ir ao Tribunal comum intentando uma
acção, dizendo que outra parte não quer ir arbitragem para o Tribunal decidir ou
obrigar com que a outra parte possa ir ao “Tribunal Arbitral”, vide art. 8º, da Lei –
Modelo CNUDCI.

Entretanto, quando num contrato contenha uma cláusula arbitral, todo o litígio
será resolvido no Tribunal Arbitral, ainda que a outra parte recorra ao Tribunal
comum (este não poderá resolver uma questão quando no contrato contenha uma
cláusula arbitral). O Tribunal remeterá as partes a Arbitragem, significa que o
Tribunal aconselha as partes a irem resolver o litígio através da Arbitragem, isto não
significa que o Tribunal remeterá o processo, vide art. 8º, da Lei – Modelo CNUDCI.

Por conseguinte, pode-se utilizar o Tribunal comum para o funcionar


acessoriamente, aproveitando os resultados do Tribunal comum, como por
exemplo, as provas para enriquecer o processo no Tribunal Arbitral, Cfr. art. 9º, da
Lei-Modelo CNUDCI.

Portanto, as partes se quiserem submeter estes litígios a Arbitragem, eles


poderão elaborar um acordo.

51Cfr. Apontamentos da aula de DCI do Professor JOSÉ MANUAL JANOTA, ano lectivo de 2005.
FDUAN- Luanda.

49
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
2.2.10.4. Os Poderes dos Árbitros

As partes tem que dizer quais são os poderes atribuída aos árbitros,
normalmente tem sido aqueles poderes necessários para a solução do processo.

São poderes limitados porque eles se limitam ao objecto do processo. Logo que
seja ditada a sentença os poderes dos árbitros cessam, visto que as sentenças
arbitrais não admitem recurso.

Estes poderes são efectivamente de origem privada, embora fala-se em


jurisdição, pelo que, esta jurisdição é precisamente privada. Porém quem atribui
poderes aos árbitros são as partes, se uma das partes não quiser que um dos árbitros
continua a ser, ela terá que ser substituído.

2.2.10.5. O prazo de duração do processo.

As partes é que definem o prazo do processo ou prazo de duração do processo,


por ser de origem privado, visto que eles é que atribuem poderes aos árbitros.

Os árbitros não podem prorrogar o prazo, eles tem que cumprir com o prazo
marcado pelas partes.

2.2.10.6. O local da arbitragem

São as partes que determinam qual o local que será ou por onde será resolvido o
litígio por meio de acordo, podendo ser em qualquer país nos termos previsto no
art. 20º, da Lei -Modelo CNUCCI.

2.2.10.7. A língua da arbitragem

São as partes que devem escolher a língua que será utilizada no decurso do
processo, na sentença. Esta escolha é feita por acordo das partes, art. 2º, da Lei –
Modelo CNUDCI.

2.2.10.8. As regras processuais

O árbitro não é obrigado a escolher as regras processuais (de processo cível) as


partes é que poderão dizer, escolher algumas das regras do processo civil.

2.3. Tipos Principais de Contratos Comerciais Internacionais

A exegese do Direito dos Contratos permite detectar alguns parâmetros que


definem as suas coordenadas básicas que reconduzem-se essencialmente, quatro

50
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
grandes princípios, nomeadamente: a liberdade contratual, consensualismo, a boa –
fé e da força vinculativa52.

Todavia, os contratos comerciais internacionais apresentam diversas


modalidades bastante diferentes entre si no trafego jurídico que a maioria
constituem obrigações de resultado, pelo que, vamos abaixo articular e descrever
cada uma delas as suas características para melhor compreensão.

2.3.1. Contratos de Distribuição

A categoria dos chamados contratos de distribuição é formada essencialmente


com base na sua função económica, ou seja, normalmente são contratos celebrados
por uma empresa fornecedora de bens ou serviços, com outra empresa, ou com um
profissional independente, com vista à colocação no mercado dos seus bens e
serviços53.

Estes contratos apresentam diversas modalidades bastante diferenciados


entre si, cujas principais modalidades são três, designadamente: os contratos
concessão comercial, os contratos de agência e contratos franquia, assim vamos
descrever cada uma delas as suas características para melhor compreensão.

2.3.1.1. Contrato de Concessão Comercial


A Concessão Comercial é um dos contratos de Distribuição Comercial, ao lado
da Agência, e do Franchising.

A Distribuição Comercial, encerra duas formas distintas, designadamente:


distribuição directa, isto é, distribuição é feita do produtor para o destinatário, ainda
que possa ser feita através de filiais ou sucursais.

Por seu turno a distribuição indirecta, consiste na divisão do trabalho entre os


grossistas e retalhistas, mediadores, comissários e agentes.

Entretanto, a concessão surge como modo de Distribuição Comercial, pois que,


o concessionário obriga-se neste tipo de contacto a comprar certa quantidade de
produtos e a revendê-los durante certo período. Pelo que, normalmente, são
produtos comercializados com certa marca, por conseguinte, a respectiva
publicidade não cabe ao concessionário.

Todavia, o concedente no contrato de Concessão Comercial pode ser o


fabricante, o importador, o distribuidor, etc. podemos assinalar alguns exemplos

52 Cfr. MARIO JÚLIO DE ALMEIDA COSTA. Direito das Obrigações, almedina 9ª edição 2001, p. 205.
53 Cfr. LIMA PINHEIRO – p. 39 - 41.

51
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
ilustrativos, revenda de gasolina, gás butano, automóveis, geradores, cerveja,
cimento.

Porém, a opção entre o recurso a retalhistas ou concessionários depende de


vários factores, designadamente: o tipo de produto, procura, armazenamento,
competição, etc. É pois, uma questão de política comercial, podendo haver factores
que justifiquem a opção pela concessão, precisamente no caso de proximidade
geográfico com os consumidores que melhor ficam a conhecer a marca, alta
tecnicidade, etc.

Qualquer contrato tem traços típicos que lhe diferencia dos demais contratos,
assim são frequentes as seguintes características no contrato de concessão
comercial:

1.Finalidade de distribuição de produtos de marca, intermediação de venda;

2.Contrato duradouro (particularidades quanto à concessão);

3.Determinação de zona geográfica;

4.Exclusividade.

Concessão Comercial como tipo de compra e venda, de mandato comercial


entre outros. Portanto, é discutível que a exclusividade do concessionário seja
elemento do tipo (art. 85º, do Tratado de Roma; Lei nº 5/18, de 10 de Maio, Lei de
Defesa da Concorrência).

Efectivamente, o carácter duradouro do contrato entre o concedente


(produtor, etc.) e o concessionário é um elemento do tipo, ou seja, o contrato
duradouro de concessão é um contrato-base, que serve de padrão aos outros
negócios, satélites daquele, como as sucessivas compras e vendas necessárias para
a execução do contrato.

Há pois neste contrato uma obrigação de celebrar sucessivos contratos de


compra e venda entre o concedente e o concessionário; o concedente obriga-se a
vender produtos e o concessionário a adquiri-los. A obrigação de vendas futuras não
é um dever lateral impede sobre o concedente, pois é uma obrigação principal.

Qualquer modo, o concedente (produtor, importador, etc.) transfere para o


concessionário o risco inerente à distribuição e, concessionário age em nome
próprio e por conta própria na distribuição que venha a realizar54.

54 Masdesenvolvimento vide. PEDRO ROMANO MARTINEZ. - Contratos Comerciais, Principia editora


2003, p. 9.

52
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Sublinha-se que o objecto do contrato de concessão é exactamente a
distribuição de bens, pressupondo desde logo, a celebração ou inclusão de outros
contratos que viabilizam essa distribuição, cujo objecto são certamente as coisas e
não serviços.

Contrato de Concessão comercial tem a sua vertebração legal na Lei nº 18/03,


de 12 de Agosto Lei sobre os Contratos de Distribuição, Agencia, Franchising e
Concessão Comercial, sendo que assim o regime jurídico nacional do Contrato. No
entanto, é frequentemente, o concessionário tem de revender os bens numa zona e
em determinadas condições.

O concessionário tem de orientar a actividade empresarial em função da


finalidade do contrato de concessão, o seja segundo o interesse do concedente.

O concedente tem de fornecer ao concessionário os meios necessários para o


exercício da actividade.

2.3.1.2. Contrato de Agência


O Contrato de Agência, produto da autonomia privada e decorre das
deposições jurídico legais do art.14º, da CRA e 405º, do CC, atento o facto de ser
frequentemente utilizado, pela Lei civil regulado na Lei nº 18/03, de 12 de Agosto,
“ex vi” Lei sobre os Contratos de Distribuição, Agencia, Franchising e Concessão
Comercial.

Por via do Contrato de Agência pretende-se obter uma mais eficaz distribuição
dos produtos, superando o método tradicional de colocação directa dos bens no
mercado. De facto, a expansão comercial pode-se conseguir mediante o
estabelecimento de filiais ou, evitando o risco de um grande crescimento
empresarial, por via de celebração de Contratos de Agência. Em termos simplistas,
pode-se afirmar que os agentes substituem as filias ou sucursais.

Podemos entender que há efectivamente uma terceira via, isto é, a empresa no


Contrato de Agência, envia os seus trabalhadores a diferentes localidades para
procederem à venda dos produtos. Importa assinalar que a relação laboral para
estas actividades de promoção de vendas traz, por via de regra, alguns
inconvenientes, designadamente: a estabilidade do emprego, inviabiliza tanto a
modificação de actividade (ius variandi) para além dos limites legais, como a
cessação do contrato de trabalho, de um lado, por outro, o trabalhador, mesmo
quando recebe comissões de venda, não costuma ter o mesmo espírito
empreendedor de quem age por conta própria. Deste modo, o Contrato de Agência
apresenta-se como uma relação jurídica mais flexível e dinâmica do que aquela que
advém do contrato de trabalho.

53
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Daí que, como notadamente se observa, é evidente que muitas vezes, se
recorra ao Contrato de Agência para evitar a aplicação do regime laboral e, por
conseguinte, nem sempre a distinção entre os dois contratos é evidente.

A este propósito cabe referir que o Contrato de Agência, sendo celebrado com
uma pessoa singular, não obsta à aplicação de regras laborais, em particular as que
respeitam a acidentes de trabalho. Nos termos da Lei nº 7/15, de 15 de Junho, Lei
Geral de Trabalho e nas disposições legais da legislação laboral. Porquanto o
conceito de acidente de trabalho a quem não seja trabalhador por conta de outrem,
abrangendo, neste regime, os trabalhadores sem contrato de trabalho que prestem
uma actividade na dependência económica da pessoa servida55.

No Contrato de Agência as partes são o principal (sujeito activo) e o agente


(sujeito passivo); entretanto na relação jurídica contratual o principal é, em
princípio, uma empresa que pretende comercializar produtos ou prestar serviços e,
o agente aquele que promove a celebração dos contratos, angariando clientes, via de
regra numa determinada zona, através de publicidade de informação sobre a
mercadoria, etc. porém, o contrato de agência pode ter uma multiplicidade de
objectos, desde a promoção de vendas de produtos comercializados pelo principal-
situação mais comum-, à angariação de clientes em variados sectores, como sejam
as actividades seguradora, de viagens ou de publicidade56.

O agente celebra um contrato com o principal mediante o qual se obriga a


promover a celebração de contratos a ajustar directamente por aquele. Salvo
convenção em contrário, os contratos não são celebrados pelo agente em seu nome,
mas pode-se acordar que este, na qualidade de representante do principal, ajuste
directamente os contratos com os clientes que angarie e até que proceda às
cobranças dos créditos provenientes dos contratos celebrados. Como se infere, o
agente actua por conta do principal na sua tarefa de angariar clientes, mas com
autonomia. Deste modo, o agente não é um trabalhador do principal, pois ele age por
conta própria; será, antes, um trabalhador independente, podendo, inclusive, ser
uma pessoa colectiva57.

Entretanto, o Contrato de Agência pressupõe a existência de um vínculo


estável; ele não é celebrado para a promoção de um só negócio, protelando-se no
tempo e pressupondo uma relação continuada da actividade de agência58.

55 O regime dos acidentes de trabalho aplica-se aos trabalhadores subordinados e aos autónomos
com dependência económica. Na medida em que o agente, principalmente em regime de
exclusividade, se integra contratualmente na estrutura empresarial do principal, está preenchido o
requisito de dependência económica, pelo que sobre este último impede a responsabilidade objectiva
estabelecida para os acidentes de trabalho.
56 Cfr. PEDRO ROMANO MARTINEZ. - Contratos Comerciais, Principia editora 2003 p.13
57 Ibidem.
58 Para além dos elementos acima elencados, existe aspectos essenciais no que respeita à

caracterização co contrato, designadamente a atribuição ao agente de certa zona ou de determinado

54
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Conclui-se que o Contrato de Agência é realizado mediante retribuição, sendo
um negócio jurídico oneroso; o agente obriga-se a promover a celebração de
contratos mediante uma contraprestação, em princípio, pecuniária e por último, a
retribuição devida ao agente é um elemento do contrato, pois o negócio é
necessariamente oneroso.

Relativamente o conteúdo do Contrato de Agência, dizer que o agente, por


meio do Contrato de Agência, obriga-se à realização de uma prestação de facto
material, que consiste na promoção comercial do principal através, por exemplo, da
publicidade realizada a produtos, do fornecimento de catálogos, de amostra e de
listas de preços ou da oferta de assistência pós-venda aos clientes com base nesta
actuação, o agente angaria clientes para os produtos comercializados pelo principal.

Os contratos não são, em princípio, celebrados pelo agente em nome do


principal, como ocorreria no mandato. O agente promoveria a celebração do
contrato e, depois, o potencial cliente envia uma proposta contratual ao principal,
cabendo a este aceitá-la.

O contrato também poderá ser celebrado mediante uma proposta negocial


enviada pelo principal ao potencial cliente, com base, em lista de pessoas
contactadas fornecida pelo agente, cliente esse que poderá vir a aceitar a proposta.
Pode, deste modo, concluir-se que o agente prepara o contrato, mas não o celebra59.

As obrigações do agente existem duas balizas: por um lado, o facto de o agente


ser um colaborador autónomo, devendo-se preservar a sua independência; e por
outro, tendo em conta que a agência, como negócio de gestão, tem de possibilitar ao
principal a fiscalização da actividade de contraparte. Por outro, a enumeração
exemplificativa dos direitos do agente relacionam-se directa ou indirectamente com
o pagamento da retribuição e comissões, bem como de indeminizações60.

O Contrato de Agência pode ser celebrado por prazo certo, renovável ou não
por igual período, ou por tempo indeterminado. A cessação do contrato pode
revestir quatro modalidades: Revogação, Caducidade, Denúncia e Resolução.

círculo de clientes é frequentemente ajustada, mas não faz parte da essência do contrato de agência.
Do mesmo modo, a exclusividade do agente- não podendo promover negócios para outrem-, bem
como a concessão do direito de exclusivo a favor do agente dependem de acordo das partes.
59 Cfr. PEDRO ROMANO MARTINEZ, Contratos Comerciais, Principia editora 2003 p.13 -18.
60 Atento o facto de o agente promover negócios junto de terceiros, potenciais clientes do principal,

impõem-se-lhe deveres de informação aos interessados sobre os poderes que possui. A Lei pretende
salvaguardar os interesses desses clientes, principalmente quando exista uma situação de
representação aparente para além disso, sabendo-se que, muitas das vezes, os clientes do principal
só conhecem o agente que os contactou, permite-se que estes apresentam as reclamações ou outras
declarações respeitantes aos negócios concluídos não directamente à contraparte (principal), mas
sim ao agente. Vide. PEDRO ROMANO MARTINEZ, Contratos Comerciais, Principia editora 2003 p.13
-18.

55
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário

2.3.1.3. Contrato de Franquia (Franchising)


O Contrato de Franquia é um contrato típico nominado que muitos autores
também consideram a franquia, ou franchising na termologia anglo - sónica, como
uma modalidade de contrato de distribuição.

O Contrato de Franquia - pode ser definido como aquele pelo qual uma
empresa (o franquiador ou franchisador) concede a outra (o franquiado ou
franchisado), mediante uma contrapartida financeira directa ou indirecta, o direito
subjectivo de utilizar uma franquia para comercializar determinado tipo de
produtos e/ ou serviços.

O franchising pressupõe uma situação jurídica mais complexa do que a


proveniente de uma simples concessão de venda. Franquia é o nome pelo qual se
pode denominar o Contrato de Franchising, de molde a evitar uma tradução para o
termo complexo na língua portuguesa.

A Franquia, apesar de apresentar algumas similitudes com contratos de


cooperação interempresarial e de representação, constitui uma fórmula autónoma,
no dizer de FRINGNI61, principalmente ao permitir o surgimento de empresários de
entre potenciais trabalhadores, de certo modo, pode constituir uma alternativa ao
Contrato de Trabalho.

Entretanto, o Contrato de Franquia, constitui um método de colaboração


entre empresas com vista à utilização de marcas, distintivos, patentes, técnicas
empresariais, nomes comerciais, método de produção e serviços.

Contratos de Franquia pode revestir nos seguintes tipos:

1- Distribuição – quando o franchisado se obriga a vender determinado


produto fabricado ou distribuído pelo franchisador, num estabelecimento
com imagem e o nome do franchisador.

2- De Serviços – quando o franchisado presta um serviço com marca e


técnica do franchisador.

3- Produção ou industrial – quando franchisado fabrica, de acordo com as


instruções do franchisador determinados produtos, fabricados sob a
marca do franchisador.

Embora a franquia seja frequentemente apresentada como uma


“organização”, “sistema”, “rede” ou “cadeia”, a sua realidade jurídica assenta, em

61 Apud. ROMANO MARTINEZ, Contratos Comerciais, Principia editora 2003, p.21.

56
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
princípio, num feixe de relações contratuais, individualizadas, que converge num
dos seus sujeitos (o franquiador e franqueado).

A empresa titular designadamente de uma marca, de uma insígnia ou de um


nome comercial, não querendo aumentar, por conta própria, a exploração dessa
vantagem, de molde a evitar riscos próprios dos gigantismos empresarial, contrata
com outra empresa o que passa a explorar a marca, a técnica ou nome comercial da
primeira, mediante uma contrapartida, normalmente designada por royalities.

Por vezes, acorda-se também quanto ao pagamento de uma entrada inicial,


seguida de contrapartidas pecuniárias periódicas.

No Direito do Comercio Internacional constituem exemplos de franchising, a


este, a Coca-Cola, a McDonald’s, Continental, Hertz, na Pizza Hut, nas lojas Benetton,
nos hotéis Holliday, Continental, Telecom.

No contrato de franquia são partes o franquiador ou licenciado e franquiado


ou licenciado. O franquiador é o titular da marca ou insígnia comercial que permite
que a sua exploração seja feita pelo franquiado, mediante o pagamento, por parte
deste, de uma determinada quantia, normalmente calculada em função do seu
volume de negócios, por percentagem62.

Para o franquiado, o contrato de franquia, por um lado, dá-lhe a possibilidade


de ser empresário em vez de emprego e, por outro, ao utilizar uma marca ou nome
alheio, permite-lhe ser facilmente conhecido no mercado, com a inerente maior
possibilidade de sucesso, pois beneficia, designadamente, do aviamento do
franquiado.

Pode-se distinguir dois grandes tipos de contrato de franquia: de distribuição


de produtos e de serviços. Na franquia e distribuição, o franquiado passa a vender
no seu estabelecimento os produtos fabricados ou só comercializados pelo
franquiador.

Na franquia dos serviços, o licenciado passa a dispor de serviços com a marca


e o sistema empresarial do franquiador. Pode-se, no mesmo contrato de franquia,
conjugar distribuição de produtos e prestação de serviços.

As obrigações das partes no contrato de franquia podem ter contornos


variados, até porque o contrato é atípico. O franquiador permite a utilização de uma
marca, nome comercial, etc., facultando a sua experiência e dando indicações sobre

62O contrato de franquia tem como vantagens permitir que uma marca, um nome comercial, etc. se
implante noutro espaço geográfico sem os riscos de gigantismo empresarial- associados ao aumento
de custos de administração -, das dificuldades de controlo dos estabelecimentos à distância e do
problemas inerentes ao desconhecimentos de outras ordens jurídicas. Para além disso, por via do
contrato de franquia garante-se maior sucesso comercial, pois o contacto com o cliente é feita por
pequenas empresas.

57
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
regras de actuação naquele ramo, podendo ficar adstrito, nomeadamente, a decorar
o estabelecimento do franquiando ou a dar instruções técnicas para que este o faça,
a fornecer, de forma periódica, produtos, a dar formação ao franquiado ou ao seu
pessoal, a prestar-lhe serviços de assistência, a dar-lhe exclusividade geográfica ou
a fazer publicidade dos produtos ou serviços63.

Por seu turno, o franquiado, para além do dever de pagar periodicamente a


retribuição acordada (royalities) e percentagem fixadas, pode ser obrigado a manter
certos planos de actividade, prestar contas e ser fiscalizado, ter a loja aberta com
determinado período de funcionamento, fazer propaganda dos produtos ou serviços
comercializados ou comparticipar nas despesas do franquiador para tal
propaganda, manter determinada quantidade de produtos em stock, assegurar
exclusividade na comercialização dos produtos ou serviços do licenciador, etc. tudo
depende do acordo das partes.

O contrato de franquia, apesar de atípico, está sujeito ao regime geral dos


contratos, valendo em relação a ele os princípios comuns, como o da boa-fé, tanto na
celebração como na execução. Dai que os problemas que se costumam suscitar de
abuso por não renovação do contrato, de recusa da retoma de existência pelo
franquiado, de não pagamento da indemnização de clientela, etc., devem ser
entendidos à luz desses princípios.

Entretanto, a este propósito cabe referir que ao contrato de franquia é de


aplicar, nos termos gerais, o regime das cláusulas contratuais gerais, sempre que,
atentos os pressupostos destes regime, estejam preenchidas as condições da sua
aplicabilidade. Assim sendo, a tutela da chamada “parte mais fraca” fica sujeita ao
regime comum.

Nesta sequência, importa esclarecer que a tutela do consumidor não é posta


em causa, pois, para além da responsabilidade do franquiado, nos termos gerais,
pode ser responsabilizado o franquiador em sede de responsabilidade do produtor.

Acresce que, ao contrato da franquia, discute-se se é aplicável, com as


necessárias adaptações, o regime da agência, nomeadamente a indemnização de
clientela em caso de cessação do vínculo. A cessão do vínculo também pode suscitar
dúvidas quanto à eventualidade de uma nova concessão, com alguns efeitos
idênticos ao do trespasse.

No fundo o Contrato de Franquia, em tudo o que não tenha sido licitamente


regulado pelas partes, rege-se pelas regras gerais dos contratos, atentas as suas
particularidades, designadamente o facto de se tratar de um contrato de execução
continuada64.

63 Cfr. PEDRO ROMANO MARTINEZ. - Contratos Comerciais, Principia editora 2003 p. 21 - 27.
64Cfr. PEDRO ROMANO MARTINEZ, Contratos Comerciais, Principia editora 2003 p. 33-35.

58
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Porém, em cada uma destas relações contratuais o franquiador cede o uso de
sinais distintivos do seu comércio – designadamente de marcas dos seus produtos
ou do nome e/ou insígnia do estabelecimento – e comunica conhecimentos práticos
não patenteados, total ou parcialmente secretos; enquanto a outra parte (o
franquiado), assume a obrigação de remunerar e de exercer a sua actividade nos
modelos definidos pelo contrato e com a exibição dos sinais distintivos do
franquiador65.

Também o Contrato de Franquia constitui um tipo do tráfico negocial


nominado e que é legalmente típico na ordem jurídica angolana nos termos da Lei
nº 18/03, de 12 de Agosto.

2.4. Contrato de Transferência de Tecnologia (Know-How)


O Contrato de know-how, segundo MARTINEZ, se poderá designar por
“contrato de transferência de saber-fazer”, está relacionado com fornecimento de
segredos técnicos66.

Também neste caso se trata de um agrupamento de contratos com base na


sua função económica. A função dos contratos de transferência de tecnologia é a de
permitir a transmissão de conhecimentos técnicos.

No Comércio Internacional assumem grande importância as transferências


internacionais de tecnologia, processo através do qual recursos tecnológicos
gerados e/ou utilizados num determinado país são aplicados em países diferentes.
Isto sucede frequentemente não só nas relações entre empresas de países
industrializados e empresas de países em desenvolvimento, mas também entre
empresas situadas em países industrializados.

De entre os contratos de transferência de tecnologia salientam-se certos


contratos de licença (licensing) e transmissão de saber-fazer Know-how).

a) Contrato de Licença - é aquele em que uma das partes cede à outra a


utilização de um direito de propriedade intelectual, por exemplo, direito
de autor, marcas de produtos e patentes de invenção, por um período
determinado e contra o pagamento de uma remuneração (que pode ser
constituída por um montante determinado e/ou por uma percentagem
dos resultados económicos da actividade do licenciado (royalties),
designadamente das vendas).

65 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 42 e 43.
66 Ob.Cit.34.

59
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
A importância dos contratos de licença no comércio internacional também
resulta da sua aplicação aos programas de computador (ex. office, softwere).

É sabido que os produtores de programas de computador facultam


geralmente a sua utilização ao abrigo de contratos de licença. Estes contratos de
licença de programas de computador são internacionais, designadamente, quando o
licenciador e o licenciado têm sede, residência ou estabelecimento em países
diferentes.

b) Contratos de Transferência de Tecnologia (Know-how) - são os que


têm por objecto a transmissão de saber-fazer (know-how), que é
essencialmente formado por conhecimentos práticos não patenteados,
total ou parcialmente secretos, ou que, pelo menos, por não serem fáceis
de obter no seu conjunto, têm um valor económico para o adquirente67.

Quando se fala em segredos não se quer dizer que só estejam em causa


técnicas desconhecidas das pessoas em geral; basta que não possam ser utilizados
em razão, por exemplo, de se tratar de um invenção difícil de pôr em prática ou de
um tipo de organização que carece de ser explicada ou do acompanhamento de
especialistas.

Razão pelo qual o know-how pode apresentar similaridades com a franquia,


principalmente na modalidade de franquia de produção.

Por via do Contrato de Know-how, podem ser fornecidos segredos


tecnológicos, designadamente técnicas industriais, de produção industrial, de
prática comercial ou de organização empresarial. No fundo, faculta-se um conjunto
de conhecimentos técnicos necessários para o funcionamento de uma empresa nos
termos do art. 45º al. d), da Lei nº 19/03, de 12 de Agosto, Lei Sobre os Contratos de
Conta em Participação, Consórcios e Agrupamento de Empresas.

O Direito do Comercio Internacional e o Contrato Know-how tem sido muito


usado na cooperação entre países industrializados e os que se encontram em vias
de desenvolvimento, mas a sua utilização não se circunscreve a este domínio.

No Direito do Comércio Internacional as vantagens do Contrato e Know-how


são, para o transmitente, um proveito económico correspondente à prestação que
lhe é devida e uma eventual maior divulgação do seu nome; para o adquirente,
obtenção de uma melhoria tecnológica imediata sem os gastos de tempo e de
investimento para sua aquisição.

Os dois principais tipos que assume este negócio jurídico são o know-how
técnico, também designado por industrial, e o know-how comercial.

67 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 44 e 45.

60
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
No Comércio Internacional a transferência de tecnologia industrial,
comercial ou outra é naturalmente feita mediante remuneração. Aquele que recebe
a tecnologia paga ao fornecedor uma quantia acordada, muitas das vezes
periodicamente68.

A transferência de saber-fazer (Know-How) pressupõe continuidade na


utilização por parte do adquirente. Por via de regra, o utilizador do know-how
precisa de um continuado acompanhamento por parte dos técnicos do transmitente
– um pouco à imagem do que ocorre na compra e venda de máquinas sofisticadas. A
falta dessa assistência técnica pode inviabilizar a prossecução do contrato.

2.5. Contratos de Financiamento


A categoria dos contratos de financiamento é concebida em termos amplos,
por forma a abranger todos os contratos que se destinam a proporcionar a uma das
partes o aproveitamento de uma quantia pecuniária durante certo tempo. Esta
formulação abrange contratos muito variados.

Os contratos internacionais de financiamento são fundamentais no comércio


internacional. Pode tratar-se desde um empréstimo feito a um Estado por um
consórcio internacional de bancos ao simples financiamento de uma operação de
exportação ou importação, passando pelo financiamento de empreitadas de obras
públicas ou privadas e Leasing.

Em conexão com a venda internacional são especialmente importantes os


créditos documentários, que, geralmente, são créditos à importação.

O banco do comprador, por ordem do comprador, obriga-se a pagar o preço da


venda ao vendedor contra a entrega dos documentos representativos da mercadoria
e/ou outros documentos, e obtém, em seguida, o reembolso do comprador que deu
a ordem. Na maior parte dos casos intervém também um outro banco,
designadamente o banco do vendedor, que pode só notificar o vendedor ou
confirmar o crédito, caso em que, em regra, o banco do vendedor também se obriga
a realizar o pagamento perante o vendedor.

68No contrato e Know-How costuma ser acordada uma duração limitada, permitindo-se a tecnologia
fornecida só possa ser usada por um determinado período, normalmente renovável. Além disso,
também é usual que deste contrato conste um pacto de não- concorrência, por exemplo delimitado
geograficamente o campo de actuação daquele que recebe a tecnologia, mas desenvolvimento vide.
Cfr. PEDRO ROMANO MARTINEZ, Contratos Comerciais, Principia editora 2003 p. 33-35.

61
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Alguns contratos de financiamento são legalmente típicos; é o que se verifica
com o contrato de mútuo na ordem jurídica portuguesa e Leasing. Outros contratos
de financiamento são apenas tipos do tráfico negocial, designadamente os créditos
documentários regulados pelas Regras e Usos uniformes relativos aos Créditos
Documentários da CCI.

Assim, o contrato de Leasing, - consiste em uma pessoa necessitando de


adquirir um bem e não tendo dinheiro para adquirir se dirige a uma instituição
financeira ou uma entidade que possua capital (não necessariamente uma
instituição financeira) e solicita a esta instituição para obter ou adquirir o bem
(poderá ser um imóvel ou equipamentos) comas característica que necessita, com o
objectivo de lhe ser alugado, acorda um determinado tempo para amortização deste
bem durante este tempo (ex.10 anos) o bem fica alugado a pessoa; amortização
inclui geralmente o valor de aluguer e os respectivos juros, no modo geral do tempo
essa pessoa fica com a faculdade de adquirir esse bem a preço residual.

Portanto, Leasing, significa aluguer comercial, com carácter especial e


trilateral e complexo, pois é contrato oneroso de locação financeira ou de aluguer
com opção de compra do qual intervém vários agentes económicos (a pessoa como
locatário financeiro – instituição financeira ou pessoa que possua capital – produtor
ou fornecedor).

Importa sublinhar que a relação estabelecida entre o locatário financeiro e a


instituição financeira consiste no contrato de aluguer. Já a relação entre a instituição
e o produtor é o contrato de compra e venda e, por conseguinte, a relação entre o
produtor e o locatário haverá possibilidade de existir vários contratos,
designadamente: aluguer ou locação financeira, compra e venda, assistência técnica
e contrato promessa. Dai chamar-se como um contrato complexo e com múltiplas
vantagens comercial de adquirir o bem sem capital mínimo, direito a assistência
técnica e de pagar no final um preço residual.

2.6. Contratos de Empreendimento Comum (Joint Venture).


Os contratos de empreendimento comum, que são contratos celebrados entre
entes empresariais jurídica e economicamente independentes entre si, para a
realização de um empreendimento comum, mediante uma concertação das
actividades das suas empresas ou a exploração de uma comum completar.

Um empreendimento comum é uma operação económica concreta ou


actividade económica exercida com certa permanência susceptível de gerar um
resultado económico que, em princípio, beneficia todos os participantes.

Estes contratos são especialmente frequentes na realização de grandes


empreitadas de obras públicas, nos projectos comuns de investigação e

62
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
desenvolvimento e na exploração de recursos naturais, como, por exemplo, os
recursos petrolíferos. Trata-se muitas vezes de contratos internacionais, por
envolverem entes empresariais sedeados em diversos Estados ou por o
empreendimento comum ser realizado num Estado diferente daquele a que as
partes estão ligadas69.

Os contratos de empreendimento comum revestem duas modalidades,


designadamente:

O Contrato de Consórcio – é aquele pelo qual duas ou mais empresas se


obrigam entre si forma de concertada e temporária, realizar certa actividade ou
efectuar certa contribuição, com vista a realização de actos jurídicos materiais
preparatórios, execução, fornecimento de bens e serviços, produção de bens que
possam ser repartidos entre si e pesquisa ou exploração de recursos naturais70.

O contrato de consórcio traduz a associação de duas ou mais empresas,


destinada ao exercício de uma actividade económica. Porém, é uma associação de
duas ou mais pessoas para realizar a una única empresa comercial com fim de obter
lucro71.

O consórcio é um dos contratos de cooperação empresarial, ao lado da


genérica Joint Venture e do agrupamento de empresas assenta nos princípios do
contrato de sociedade, mas, normalmente, para a prossecução de um fim específico
ou delimitado no tempo.

No Direito do Comércio Internacional este contrato é frequentemente usado


como forma de colaboração interempresarial nas mais diversas áreas e com
diferentes contornos. Tem-se recorrido mais ao consórcio como forma de
cooperação entre empresas de países distintos, principalmente quando pretendem
– ambas ou só uma delas – penetrar num espaço geográfico aonde não se encontram
implantadas. Mas muitas outras situações podem enquadrar-se nesta figura
contratual. Assim, quando uma empresa recebe o know-how de outra, essa
transferência de saber-fazer pode fazer-se por via de um contrato de consórcio.

O consórcio não tem personalidade jurídica própria, distinguindo-se da


sociedade, e a organização interna é simples. O contrato está sujeito à forma escrita
e vale um princípio de liberdade quanto à fixação do conteúdo negocial e em relação
às alterações.

69 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 46 e 47.
70 Nossa definição.
71 Cfr. SEBASTIÃO NÓBREGA PIZARRO – Glossário de Termos e Conceitos Contratuais, Coimbra

editora 2012, p. 75 e 76.

63
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Importa distinguir o consórcio interno, em que os consorciados não se
apresentam como tal nas relações com terceiros, do consórcio externo.
Relativamente ao consórcio externo, cabe aludir à figura do chefe do consórcio, ao
conselho de orientação e fiscalização, que é facultativo, à denominação do consórcio
e ao regime de não-solidariedade na responsabilidade.

Na execução do contrato estabelece-se um princípio de não-concorrência e de


informação, determinando-se o regime de repartição de valores no consórcio
externo e de participação de lucros no consórcio interno.

O contrato cessa por exoneração dos membros, por resolução e em caso


extinção do consórcio.

A finalidade do consórcio é a organização e a cooperação entre empresas de


modo simplificado e flexível, sem pôr em causa a autonomia jurídica e a
independência económica de cada um dos consorciados72.

O consórcio é um dos contratos de cooperação empresarial, ao lado da


genérica Joint Venture do agrupamento de empresas e assenta nos princípios do
contrato de sociedade, mas, normalmente, para a prossecução de um fim específico
ou delimitado no tempo cujo regime jurídico é nos termos do art. 405º e 462º, do
CC., e do da Lei nº 19/03, 12 de Agosto, Lei Sobre os Contratos de Conta em
participação, Consorcio e Agrupamento de Empresas.

Contrato de Joint venture - quando duas entidades, em regra duas empresas,


se associam na prossecução de um fim comum, sem que nenhuma delas perca a sua
autonomia jurídica; ou seja, continuando ambas a actuar como pessoas jurídicas
distintas e não como uma nova entidade. Neste caso, a joint venture assume a
situação jurídica usualmente designada por «consórcio».

Numa outra modalidade, o contrato de Joint venture pode dar origem a uma
nova entidade (uma sociedade), com personalidade jurídica distinta, sem, todavia,
se proceder a uma fusão das empresas signatárias, que mantêm a sua personalidade
jurídica autónoma. Esta segunda fórmula tem a vantagem de associar partes numa
actividade a desempenhar em comum sem grandes riscos.

Entretanto, para além do investimento na constituição dessa entidade


autónoma, nesta modalidade podem constituir-se dois tipos de Joint Venture.

72 Cfr. PEDRO ROMANO MARTINEZ, Contratos Comerciais, Principia editora 2003 p. 37-39.

64
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
- Joint Venture como nova entidade, configurado na dimensão de uma sucursal,
assim ele actua com o nome das sociedades que a constituíram; e,

- Joint Venture um tipo mediante o qual as partes mantêm o anonimato,


actuando a nova entidade com outro nome.

O Contrato de Joint Venture costuma ser realizado para prossecução de fins


específicos ou delimitados no tempo. Por exemplo, quando dois construtores de
automóveis, se associam para lançarem um protótipo novo. Mas também se recorre
a este contrato para estabelecer uma filial comum. Pode, assim, ocorrer, que duas
empresas, ao pretenderem comercializar produtos ou serviços em determinado
país, constituem uma Joint Venture para abrirem uma filial comum.

A finalidade do consórcio é a organização e a cooperação entre empresas de


modo simplificando e flexível, sem pôr em causa a autonomia jurídica e a
independência económica de cada um dos consorciados.

2.7. Contratos de Empreitada e de Subempreitada


Nos contratos de comércio internacional afigura-se tipo contrato internacional
que é a empreitada. A empreitada é o contrato típico e nominado pelo qual uma das
partes se obriga em relação à outra a realizar certa obra, mediante um preço.

Os principais exemplos ilustrativos de contratos de empreitadas


internacionais são aqueles em que uma ou várias empresas associadas se obrigam a
realizar uma obra num país diferente daquele em que têm a sede da sua
administração. São especialmente importantes as empreitadas de grandes obras
públicas, que frequentemente são adjudicadas a consórcios internacionais formados
por empresas de construção civil de diferentes países.

Porém, a subempreitada é o tipo de contrato pelo qual um terceiro se obriga


para com o empreiteiro a realizar a obra, ou uma parte da obra, a que este se
encontra vinculado perante o dono da obra.

Todavia, no comércio internacional a subempreitada é muito frequente na


realização de grandes obras, em que o empreiteiro (main contractor) recorre a
subempreiteiros (subcontractors) para a realização de partes da obra.

2.8. Contrato de Realização de Unidade Industrial


Nos tempos mais recentes surgiram certas modalidades de contratos para
realização de unidades industriais (Turnkey contracts) que são, assiduamente,
contratos internacionais e tendem a conformar tipos de tráfico negocial.

65
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Estes contratos não são simples contratos de empreitada, porque o
“empreiteiro” se obriga não só a realizar uma obra mas também a garantir a aptidão
funcional da unidade industrial, para além de também obrigar-se, em certos casos,
a prestar serviços e a transferir tecnologia.

O principal campo de aplicação destes contratos tem sido mesmo as relações


entre empresas dos países mais industrializados e empresas de países em
desenvolvimento ou do Leste da Europa, América e de África.

No contrato “chave na mão” o “empreiteiro” obriga-se a entregar uma unidade


de produção funcionalmente apta. As obrigações do “empreiteiro” consideram-se
integralmente cumpridas com a realização de um ensaio que demonstre a
funcionalidade da unidade industrial, é caso ilustrativo das unidades industriais da
zona económica exclusiva (ZEE) Luanda-Bengo, as unidades fabris de pesca no
Município do Tômbwa as unidades agro-industriais no Município da Matala,
Moçâmedes (fabrica de massa tomate).

Os contratos para a realização de unidades contratuais são, em geral,


legalmente típicos, sendo possível que com base nos modelos contratuais
anteriormente referidos se tenham individualizado tipos do tráfico negocial.

2.9. Contrato de Compra e Venda de Mercadorias Internacional em


Especial.

2.9.1. Intróito
O Código Comercial no seu título XVI – da compra e venda art. 463º sob a
epígrafe “Quando é comercial a compra e venda”:

- São considerados:

As compras de coisas para revender, em bruto ou trabalhadas, ou


simplesmente para lhes alugar o uso;

As compras, para revenda, de fundos públicos ou de quaisquer títulos de


crédito negociais;

As vendas de coisas moveis, em bruto, e as de fundos públicos e de quaisquer


títulos de créditos negociáveis, quando a aquisição houvesse sido feita no intuito de
as revender;

As compras e vendas de partes ou de acções de sociedades comerciais.

De um lado e de outro lado, o artigo 464º, do mesmo diploma legal sob a


epígrafe ´´ Quando não é comercial a compra e venda ´´

66
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
- Não são considerados comerciais:

As compras de quaisquer coisas moveis destinadas ao uso ou consumo do


comprador ou da sua família e as revendas que porventura desses objectos se
venham a fazer;

As vendas que o proprietário ou explorador rural faça dos produtos de


propriedade sua, ou por ele explorada e de géneros em que lhes houverem sido
pagas quaisquer rendas.

As compras que os artistas, industriais, mestres e oficiais de ofícios mecânicos


que exercerem directamente a sua arte, industriam ou oficio, fizerem de objectos
para transformarem, ou aperfeiçoarem nos seus estabelecimentos e as vendas de
tais objectos que fizerem depois de assim transformados ou aperfeiçoados;

As compras e vendas de animais feitas pelos criadores ou engordadores;

Com estas incursões legislativas, obviamente, nos espelha que o contrato de


compra e venda, pode ser comercial e civil, de acordo com o elencado nos artigos
463º e 464º do Código Comercial, por maioria da razão, nos reconduz no esquema
de classificação dos actos de comércio objectivos e subjectivos previsto no artigo 2º
do Código Comercial e que é susceptível de ser titulados pelas pessoas colectivas
como sujeitos destas relações jurídicas;

Efectivamente, infere nesta perspectiva a referência de capacidade jurídica de


praticar os actos de comércio e actos civis.

A boa doutrina que nós perfilhamos proclamada pelo renomado Prof.


Catedrático da Universidade de Lisboa o ilustre Doutor ANTÓNIO MENESES
CORDEIRO73, densifica o seguinte:

-Há pois que admitir que pessoas colectivas não societárias, designadamente as
associações e fundações civis, possam praticar actos de comércio (objectivo), de resto,
é o que resulta do art. 7º, do Código Comercial.

O contrato internacional mais corrente é a venda internacional em especial. Os


principais exemplos de venda internacional são aquelas em que a troca de uma
mercadoria por um quantitativo pecuniário surge economicamente ligada a um
transporte da mercadoria de um país para outro país.

Esta conexão entre venda e transporte permite falar, por exemplo, de venda
marítima. Não quer isto dizer que não possa haver venda internacional sem uma

73Cfr. ANTÓNIO MENESES CORDEIRO - In Manual de Direito Comercial 2ª edição – 2007 Almedina
editora p. 240.

67
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
deslocação internacional de bens. Mercadorias: Toda a espécie de bens que possam
ser transportados em veículos automóveis ou conjuntos de veículos74.

O Contrato de Venda é um contrato típico na generalidade dos principais


sistemas. A venda internacional de mercadorias é objecto de várias convenções
internacionais de unificação do Direito material aplicável, a mais importante das
quais é a Convenção de Viena Sobre a Venda internacional de Mercadorias (1980).
Estas convenções estão em vigor na ordem jurídica angolana por via da recepção
semi-plena.

Regras Consuetudinárias. É o que sucede, por exemplo, na venda marítima de


cereais a granel.

2.9.2. Direito Unificado. A Convenção de Viena Sobre a Venda


Internacional de Mercadorias e o Direito Material Angolano.

A conferência das Nações Unidas sobre a Venda Internacional de Mercadorias


foi aprovado em 11 de Abril de 1980 em Viena. A Convenção de Viena é o resultado
de longo processo de unificação legislativa sobre o Direito da Venda Internacional
de Mercadorias que teve início em 1929 através da UNIDROIT que deu lugar a Lei-
Modelo CNUDCI.

2.9.3. Características Gerais da Convenção de Viena

A Convenção de Viena de 1980, representa um compromisso entre sistema


jurídicos, atento que existe além d outros sistemas periféricos, os sistemas centrais,
designadamente: os sistemas Romano – Germânico e Sistema Anglo-Saxónico ou
Common Law que são efectivamente diferentes entre si no plano de construção
dogmática e conceitual e de cultura jurídica. Por via disso, com a Convenção de Viena
foram introduzidas novos conceitos estranho a cultura jurídica tradicional dos
sistemas acima referenciados.

Assim, a Convenção ilustra bem alguns exemplos como a utilização de um


critério de “razoabilidade”, pelo que o art. 25º, da CNUDCI, sobre a “pessoa razoável”,
para aferir o carácter “ fundamental” de violação de um contrato, por seu turno o lei
também utiliza o conceito de “prazo razoável” no art. 39º, nº 1, da CNUDCI para
determinar e definir o prazo em que o comprador deve denunciar ao vendedor a
falta de conformidade da mercadoria com o contrato75.

Ora bem, importar destacar desde logo que coexiste razões justificativas de
circunstância casuísticas nos contratos de venda internacional de mercadorias que

74 O que exclui, por exemplo, o transporte de energia eléctrica de um país para outro.
75 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 260.

68
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
podem assumir configurações diversas que alude o art. 39º, da CNUDCI, pois que,
permite aos órgãos de aplicação um ajustamento do regime aplicável às exigências
dos diversos sectores económicos, ou as particularidades da transacção em causa.
Com efeito, nota-se que a lei civil angolana fixa trinta (30) dias depois de
conhecimento do defeito da mercadoria e seis (6) meses após a entrega, vide art.
916º, nº 2, do CC, que poder demasiado longo, mas por seu turno para denúncia do
defeito, é fixado no prazo de oito (8) dias nos termos da lei comercial angolana (art.
471º, do C.Com.) que poder ser demasiado curto.

Portanto, como já dissemos a Convenção ao utilizar conceitos


indeterminados permite ao aplicador do Direito e de algum modo a jurisprudência
desenvolva efectivamente as soluções diferenciadas que poderão representar um
desenvolvimento concretizações do regime convencional.

Em sinopse podemos inferir as seguintes características da Convenção de


Viena de 1980:

Primo – a Convenção de Viena representa um compromisso entre sistemas


romano-germânico e sistemas anglo-saxónico que exige o intérprete uma atitude de
especial abertura e livre dos condicionalismos da sua própria cultura jurídica.

Secundo – a Convenção de Viena deve sublinhar-se o recurso frequentíssimo


a conceitos indeterminados para definição dos direitos e obrigações das partes.

Trenio – a Convenção de Viena refere-se a cláusula de favorecimento do


comprador, por causa da pressão dos países em via de desenvolvimento para que
exista um equilíbrio entre os países industrializados e países em via de
desenvolvimento e para que a Convenção tenha mais membros.

Portanto, a Convenção atribui carácter vinculativo aos usos do comércio vide


art. 9º, nº2, da CNUDCI.

2.9.4. Âmbito Espacial e Material de Aplicação da Convenção

Nos termos do art. 1º, da CNUDCI, a Convenção aplica-se aos contratos de


venda de mercadoria celebrado entre partes que tenham o seu estabelecimento em
Estados diferentes, que desde se verifique o seguinte:

a) Estes Estados são Estados contratantes; ou

b) As regras de Direito Internacional Privado do Estado do foro conduzem à


aplicação da lei de um Estado contratante.

69
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Entretanto, não são tomados em consideração para a aplicação da Convenção
nem a nacionalidade das partes nem o carácter civil ou comercial das partes. Vide
art. 1º, nº 3, da CNUDCI.

Por conseguinte, a Convenção de Viena, não se aplica ou não regula a compra


e venda de mercadorias adquiridas para fins de uso pessoal ou doméstico
(consumidores), salvo os adquirentes de boa-fé. Isto significa dizer que antes da
conclusão do contrato ou no momento da conclusão não soubesse nem devesse
saber que as mercadorias eram compradas para tal fim. Por via disso, também
excluem-se as mercadorias em situação de leilão, processo executivo, electricidade,
barcos, navios e aeronaves, valores mobiliários e títulos de créditos (art. 2º, da
CNUDCI), bem como os contratos que combinem com os elementos de prestação de
serviço, ou contrato de trabalho e, em última análise exclui-se também a
responsabilidade do vendedor pela morte ou lesões corporais causadas pela
mercadoria (art. 3º, nº 2, da CNUDCI).

O critério de internacionalidade relevante é, portanto o estabelecimento das


partes em Estados diferentes, todavia é necessário que cada uma das partes tenha
conhecimento no momento de celebração do contrato que outra parte tenha
estabelecimento num Estado diferente (art. 1º, nº 2, da CNUDCI). Se um dos
contraentes tenha mais de um estabelecimento vigora o que tiver melhor conexão
do negócio (art. 10º, al. a), da CNUDCI). Mas se as partes não tiverem
estabelecimento num Estado contratante a Convenção, todo modo aplica-se
obviamente nos termos do art. 10º, al. b), da CNUDCI.

Contudo, a Convenção de Viena, admite uma reserva de não aplicação do


disposto na alínea b), nº 1, do art. 1º, da CNUDCI, através de declaração de vontade
feita no momento de depósito do instrumento de ratificação de aceitação de
aprovação ou de adesão nos termos do art. 95º, da CNUDCI76.

9.2.5. Forma do Contrato de Venda de Mercadoria Internacional

O contrato de venda de mercadoria internacional nos termos da Convenção


perfilha a orientação legislativa da lei civil angolana que consagra o princípio do
consensualidade art. 219º, do CC, pelo que esta sintonia entre a lei angolana e
Convenção está prevista no art. 11º, da CNUDCI quanto a venda de coisas móveis,
mas se as partes entenderem reduzir a escrito vale para todos os efeitos o escrito
particular como as comunicações por telex, e-mail, telegrama, watsap, viber etc. vide
art. 12º, 13º e 96º, do CNUDCI.

9.2.6. Os Direitos e Obrigações das Partes

76Mais desenvolvimento vide LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora
2005, p. 263 e ss.

70
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Entretanto as obrigações das partes no contrato filia-se na violação
fundamental do contrato que assume especial no art. 25º, da CNUDCI que contem a
definição de “violação fundamental” do contrato.

A definição prevista no art. 25º, da CNUDCI, permite traçar fronteiras entre


as formas de incumprimento contratual menos gravosa – que não põem em causa a
subsistência do contrato e, por seu turno a situação mais gravosa permitem que à
parte lesada a rescisão do contrato (art. 802º, nº 2 e 808º, do CC).

Portanto, são dois pressupostos de uma violação fundamental,


designadamente:

Primeiro pressuposto quando a violação cause à outra parte prejuízo que a


prive substancialmente daquilo que lhe era legítimo esperar do contrato. “Prejuízo”
não é aqui entendido em sentido técnico, mas como desvantagem resultante do
incumprimento à luz do interesse do credor. Estes pressupostos segundo algum
sector da doutrina lusófona baseia-se num critério muito próximo do consagrado no
art. 808º, do CC, para conversão da mora em incumprimento definitivo, que é perda
do interesse da contraparte na prestação77.

Pois bem, não constitui uma violação fundamental conforme a avisada


doutrina referenciada a existência de defeitos de conformidade numa pequena parte
da mercadoria, ou que não excluam uma utilização alternativa sem fazer incorrer o
comprador em despesas elevadas.

Entretanto o instituto de “violação fundamental” não visa especialmente a


obrigação principal adstrito ao devedor, ou seja, não só visa o incumprimento da
obrigação principal, mas também o incumprimento de obrigações acessórias, pode
sim, ser considerado uma violação fundamental se tiver suficiente importância para
outra parte.

Segundo pressuposto da violação fundamental quando a parte faltosa tenha


previsto a produção de um prejuízo substancial ou ele fosse previsível por uma
pessoa razoável, com idêntica qualificação e colocada na mesma situação. Nesta caso
incumbe a parte faltosa provar que o prejuízo substancial causado à outra parte não
foi previsto nem seria previsível (vide al. b), do art. 49º, do CNUDCI)78.

77 Apud. BENTO SOARES/MOURA RAMOS – Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional,
Almedina editora 2005, p. 278.
78 Por exemplo, o retardamento da entrega da mercadoria só constituirá uma violação fundamental

se causar um prejuízo substancial ao comprador e se o vendedor puder aperceber-se da sua


gravidade. No entanto, na hipótese de retardamento da entrega, resulta do art. 49º, do nº 1, al. b), do
CNUDCI que o comprador pode fixar um prazo suplementar ao vendedor e resolver o contrato se a
entrega não tiver lugar dentro deste prazo, sem ter de demonstrar que o retardamento da prestação
constitui uma violação fundamental.

71
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Ora, partes podem evitar as incertezas inerentes à noção de violação
fundamental mediante a indicação no contrato dos direitos ou obrigações que são
considerados fundamentais.

Portanto, os pressupostos do instituto da violação fundamental exigem do


aplicador do Direito a empreender uma taxa de esforço de actividade interpretativa
do contrato à luz do critério dos usos do comércio e do círculo dos interesses do país
do vendedor ou do país do comprador, com a observância as exigências formuladas
por normas jurídicos - públicas (direito do consumidor e ambiente) do Estado onde
está estabelecido o vendedor (art. 22º e 280º, do CC).

LUÍS LIMA PINHEIRO que estamos a seguir de perto a sua saborosa doutrina
porque nos é particamente familiar as indicações da sua tese e sublinhamos aqui e
noutros lugares com muito apreço -, afirma quanto aos casos em que a Convenção
confere a uma das partes a faculdade de exigir da outra o cumprimento de uma
obrigação, o art. 28º, da CNUDCI, estabelece que o Tribunal só está vinculado a
condenar no cumprimento se fizesse por força do seu próprio Direito relativamente
a contratos de venda semelhantes não regulados pela Convenção, porquanto sabe-
se que o processo civil é das partes79.

Para compreender o disposto neste preceito é importante ter em conta as


diferenças que se verificam entre os sistemas da família Romano-Germânica e os do
Cammon Law quanto a questão de saber se, em caso de incumprimento, o credor
pode actuar uma pretensão de cumprimento, ou tem de limitar-se a uma pretensão
indemnizatória.

Pelo que, os sistemas da família Romano-Germânica partem do princípio que


o credor pode accionar uma prestação de cumprimento, ao passo que o Direito
inglês, bem como, mais atenuadamente, o Direito dos EUA, apenas concedem na
maior parte dos casos uma pretensão de indemnizatória, só em hipóteses especiais
admitindo a specific performance. Porém, o art. 28º, da CNUDCI representa um
compromisso entre estas soluções opostas.

Qualquer modo, a Convenção de Viena, precisamente no art. 29º, nº 1, da


CNUDI, determina que o contrato pode ser modificado ou extinto por “simples
acordo das partes”. Com este preceito o legislador internacional visou não só
eliminar quaisquer dúvidas sobre a possibilidade de modificação ou extinto do
contrato por acordo das partes que em sistemas lusófonos como o angolano e
português com mesma lei civil vigente constitui uma decorrência evidente do
princípio da autonomia da vontade e da liberdade contratual (art. 405º, do CC), mas
também afastar qualquer limite à autonomia das partes na modificação do contrato,

79 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 280.

72
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
designadamente as exigências decorrentes da teoria da consideration consagrada
pelo Cammon Law80.

9. 2.7. As Obrigações do Vendedor

Nos termos da Convenção de Viena de 1980, constitui uma das obrigações


principais do vendedor entregar a mercadoria conforme o contrato (Cfr. art. 30º, 35º
a 40º, da CNUDCI) e livre de direitos ou prestação de terceiros (Cfr. art. 41º e 42º,
CNUDCI) no lugar e data convencionado (art. 31º a 33º, da CNUDCI).

Portanto, esta obrigação inclui ainda a obrigação de entregar os documentos


relativos à mercadorias (art. 34º, da CNUDCI).

A Convenção inclui, como obrigação principal do vendedor, a transferência


da propriedade da mercadoria (art. 30º, da CNUDCI). Isto, porém, só faz sentido
perante aqueles sistemas em que a propriedade não se transfere por mero efeito do
contrato (como é o caso do Direito alemão).

Já em sistemas como o Direito angolano e português com idêntica cultura


jurídica nesta matéria do contrato de compra e venda, a única obrigação principal
do vendedor é, em regra, a de entrega da mercadoria (art. 879º, al. b), do CC),
conjugado com as regras gerais sobre o cumprimento (art. 892º e ss; 905º e ss e,
913º e ss., do CC), e quanto à entrega dos documentos, vide o estabelecido no art.
882º, nº 2 e 3, do CC.

Quanto à conformidade da mercadoria com o contrato, o art. 35º, da CNUDCI


exige, em primeiro lugar, que a quantidade, qualidade e tipo da mercadoria
correspondam às previstas no contrato e que a mercadoria tenha sido embalada ou
condicionada no modo previsto no contrato (nº 1, do art. 35º, do CNUDCI). O mesmo
decorre do dever geral de cumprimento pontual do contrato estabelecido pelo art.
406º, nº 1, do CC81.

Portanto, além disso exige-se, na falta de convenção em contrário, que a


mercadoria (nº 2, art. 35º, da CNUDCI):

 Seja adequada às finalidades para as quais usadas habitualmente


mercadoria do mesmo tipo (nº 2, al. a), do art. 35º, da CNUDCI);

 Seja adequada a qualquer finalidade especial expressa ou tacitamente


levada ao conhecimento do vendedor no momento da celebração do
contrato, a não ser que resulte das circunstância que o comprador não

80 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 280.
81 Ob. Cit. p. 281.

73
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
confiou na competência ou na capacidade de avaliação do vendedor,
ou que não era razoável da sua parte fazê-lo (nº 2, al. b), do art. 35º,
da CNUDCI);

 Possua as qualidades da mercadoria que o vendedor apresentou ao


comprador como amostra ou modelo (nº 2, al. c), do art. 35º, da
CNUDCI); e,

 Seja embalada ou acondicionada na forma habitual para as


mercadorias do mesmo tipo ou, na falta desta, de um modo adequado
a conservá-la e a protege-la (nº 2, al. d), do art. 35º, da CNUDCI).

Porém, estas exigências caem se o comprador conhecia ou não podia ignorar


o momento da celebração do contrato a falta de conformidade da mercadoria como
reza o nº 3, do art. 35º, da CNUDCI82.

O Código Civil de 1967 de PIRES DE LIMA e ANTUNES DE LIMA, configurou a


venda de coisas defeituosas determinadas (art. 913º e ss., do CC) e de bens onerados
(art. 905º e ss., do CC) como casos de erros. Nesta base atribui ao comprador a
faculdade de anular o contrato (art. 905º e 913º, nº1, do CC).

Por seu turno BAPTISTA MACHADO, demonstrou este enquadramento como


equivocado, porquanto se trata, em princípio, de casos de cumprimento defeituoso
do contrato. Isto é demonstrado pela imposição ao vendedor do dever de sanar a
dita anulabilidade do contrato, mediante a expurgação dos ónus ou limitação
existentes, na venda de bens onerados (art. 907º, do CC), e, dentro de certos limites,
o dever de reparar ou substituir a coisa, na venda de coisas defeituosas (art. 914º,
do CC)83.

Ora bem, esta verificação, porém, diz respeito ao enquadramento dogmático


(isto é, à construção ou “natureza jurídica”) do instituto e não permite resolver
directamente problemas de regime. Subsistem assim várias questões fundamentais
para a determinação do regime aplicável, numa parte comuns à venda de bens
onerados e à venda de coisas defeituosas, noutra parte específica da venda coisas
defeituosas.

Porquanto:

82 Em princípio, cabe ao comprador preocupar-se com a conformidade da mercadoria com as normas


jurídico-públicas do Estado de utilização e fazer incluir no contrato as características da mercadoria
necessárias para o feito. Mas o vendedor já terá a obrigação de fornecer uma mercadoria que satisfaça
as exigências das normas jurídico-públicas do Estado de utilização se estiver familiarizado com estas
exigências.
83 Apud. LIMA PINHEIRO. Ob. Cit. 283.

74
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Em primeiro lugar, o alcance da remissão operada pelo art. 905º, do CC para
o regime do erro é controverso. Segundo uma interpretação, decorre daí que o
contrato é anulável desde que o vendedor conhecesse ou não devesse ignorar a
essencialidade para o comprador do “elemento sobre que incidiu o erro” (art. 247º,
ex vi art. 251º, do CC), isto é, da plenitude do direito ou da conformidade da
mercadoria.

BENTO SOARES/MOURA RAMOS entendem que esta exigência é equiparável


à de uma violação fundamental. De acordo com outra posição, esta “anulação”
depende essencialmente dos pressupostos do incumprimento definitivo, à
semelhança do que ocorre com a rescisão84.

Segundo, relativamente à venda de coisas defeituosas, coloca-se a questão de


saber se o regime aplicável é diferenciado ou unitário. A sistemática legal sugeres
uma diferenciação conforme se trata de coisa determinada defeituosa à data da
venda, por um lado, ou, por outro, de coisa determinada com defeito superveniente
à venda mas anterior entrega, de coisa futura ou de coisa genérica (art. 918º, do CC).

Assim, no primeiro caso seriam aplicáveis os art. 913º, ao art. 917º, do CC,
seguindo-se designadamente o regime da anulabilidade por erro (por remissão para
o art. 905º, do CC);

No segundo caso estaríamos perante uma situação de cumprimento


defeituoso e aplicar-se-ia o regime do não cumprimento das obrigações.

Contudo, de acordo abordagem temática acima referenciada, há sim razões


fortes para uniformizar pelo menos certos aspectos do regime aplicável à venda de
coisas defeituosas, designadamente no que toca ao direito de exigir a reparação ou
substituição da coisa (art. 914º, do CC) e à denúncia do defeito (art. 916º, do CC).

Apesar disso, algum sector da doutrina defendem posição de favorecem a


aplicação do regime dos arts. 913º e ss., a todos ou a alguns dos casos abrangidos
pelo art. 918º, do CC.

Uma tomada de posição nesta controvérsia exigiria um aprofundamento do


tema que não é possível realizar nesta sede. Dir-se-á apenas que, numa primeira
aproximação:

 Embora o regime do erro não se figure ser o mais adequado para estes
casos, não parece razoável interpretar o art. 905.º CC no sentido de
fazer depender a anulação dos pressupostos de incumprimento
definitivo;

84 Apud. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 284.

75
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
 Isto não obsta a que na determinação do regime aplicável à anulação
do contrato possam até certo ponto ser tidas em conta as
circunstâncias específicas da venda de bens onerados;

 O art. 913º, do CC, ao remeter para o regime da venda de bens


onerados “com as devidas adaptações”, permite uma maior
flexibilidade na determinação do regime aplicável à “anulação” do
contrato de venda de coisas defeituosas; e,

 O art. 918º, do CC deve ser interpretado no sentido de não resolver


todos os problemas de regulação jurídica suscitados pelos casos nele
previsto e, por conseguinte, não exclui globalmente aplicação, pelo
menos analógica, das regras contidas nos arts. 913º a 917º, do CC.

Daí que me pareça defensável que:

 A anulação da venda de bem onerado tem de depender da


essencialidade do erro e da sua cognoscibilidade pelo vendedor, mas
já é admissível uma adaptação das regras do ónus da prova;

 A “anulação” da venda de coisa defeituosa com base no art. 913º, do


CC não segue necessariamente o regime do erro;

 O art. 913º, do CC revela na determinação dos efeitos que constituem


pressuposto de aplicação do art. 918º, do CC;

 Os art. 914º, do CC são aplicáveis nos casos previstos no art. 918º, do


CC.

Por outro, dentro desta ordem de ideias, parece igualmente defensável que,
para actuar os meios que lhe são conferidos, o comprador só tem, em regra, de fazer
a prova do efeito da coisa, cabendo à contraparte a demonstração de que ele
conhecia a antemão o vício do direito ou da coisa. Relativamente aos requisitos do
erro ou à culpa do vendedor o ónus da prova incide sobre o vendedor85.

Qua tale do art. 913º, do CC, também resulta que a coisa deve ser adequada à
função normal das coisas da mesma categoria ou ao fim especial que resulte do
contrato e deve ter as qualidades asseguradas pelo vendedor; de um lado de outro,
do art. 919º, do CC e do art. 469º, do C.Com. – relativos à venda sobre amostra –
decorre que, em princípio, o vendedor assegura a existência, na coisa vendida, de
qualidades iguais às da amostra.

85 Apud . LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 285.

76
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Quanto ao dever de embalar ou acondicionar na forma habitual ou de modo
adequado, deve entender-se que o mesmo resulta, no Direito angolano e português,
que comungam a mesma realidade jurídica através do princípio da boa-fé no
cumprimento das obrigações (art. 762º, nº 2, do CC).

Outro ponto de convergência se regista no caso de o comprador conhecer


defeito no momento da celebração do contrato: quer se aplique o regime do
incumprimento o comprador não pode invocar neste caso regime do
incumprimento o comprador não pode invocar neste caso o regime da venda de
coisas defeituosas. Já é questão duvidosa a de saber se o comprador fica privado da
protecção do regime da venda de coisas defeituosas quando não conheça mas
devesse conhecer o defeito.

Perante a Convenção de Viena de 1980, o comprador perde o direito de


invocar uma falta de conformidade da mercadoria se não a denunciar ao vendedor,
especificamente a natureza do vício de padece a mercadoria, num prazo razoável a
partir do momento em que a descobriu ou deveria ter descoberto (art. 39º, nº 1, da
CNUDCI)86.

A determinação do prazo razoável depende do conjunto das circunstâncias


do caso concreto. Alguns autores sugerem que relativamente a mercadorias
duradouras será, em princípio, razoável o prazo de um mês.

Considerando que o comprador deve examinar a mercadoria num prazo tão


breve quanto possível (art. 38º, nº 1, do CNUDCI), deve entender-se que o prazo para
a denúncia se conta a partir:

 Do exame da mercadoria (ou do fim do prazo de exame, quando este


não se verifique tempestivamente) caso se trate de vícios aparentes,
que o comprador deveria ter descoberto se tivesse examinado a
mercadoria;

 Da descoberta do defeito no caso de vícios ocultos.

Note-se que se o conjunto implicar um transporte da mercadoria, o exame


pode ser diferido até à chegada da mercadoria ao destino (art. 38º, nº 2, da CNUDCI).

Com estas regras visa-se garantir um rápido esclarecimento dos factos,


porquanto com a passagem do tempo pode tornar-se difícil a determinação das
causas do efeito. Para tornear estas regras os compradores recorrem por vezes a
denúncias genéricas que não indicam com precisão os defeitos ou não

86Assim por exemplo, já se entendeu que uma denúncia feita quatro meses depois da descoberta do
efeito é tarde

77
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
individualizam os bens defeituosos com a clareza exigível nas circunstâncias do caso
concreto. A jurisprudência tende a considerar estas denúncias ineficazes87.

Em qualquer caso, o comprador perde o direito de invocar uma falta de


conformidade se não a denunciar ao vendedor até dois anos a partir da data em que
a mercadoria lhe foi efectivamente entregue, a não ser que este prazo seja
incompatível com a duração de uma garantia contratual (art. 39º, nº 2, da CNUDCI).

De acordo a ordem jurídica angolana, a denúncia deve ser feita até trinta (30)
dias depois de conhecido o defeito dentro de seis (6) meses após a entrega da coisa
(art. 916º, nº 2, do CC).

Portanto, apesar do art. 916º, do CC surgir no contexto da venda de coisas


defeituosas determinadas, decorre do anteriormente exposto que é defensável a sua
aplicação à responsabilidade por venda de coisas defeituosas genéricas (art. 918º,
do CC).

Na venda de coisa que devam ser transportadas de um lugar para o outro, o


prazo de seis (6) meses referido no art. 916º, nº 2, do CC, conta-se a partir da
recepção material das coisas pelo comprador e não cumprimento da obrigação de
entrega pelo vendedor (art. 922º, do CC). Porém, este preceito tem sentido útil
principalmente na venda de expedição simples em que o alienante deve remeter a
coisa para local diferente do lugar de cumprimento, visto que na venda com
expedição qualificada o vendedor só cumpre a obrigação de entrega no lugar de
destino88.

A intenção legislativa é claramente a de só iniciar a contagem do prazo de


denúncia quando o comprador está em posição de examinar a mercadoria. A essa
luz, parece que o preceito deve ser entendido no sentido da contagem do prazo a
partir do momento em que, no lugar do destino, a mercadoria está à disposição do
comprador. Com efeito, não seria aceitável que o comprador, mediante a dilação de
recepção material, pudesse manipular a contagem do prazo.

Para venda comercial, o Código Comercial estabelece um prazo de


reclamação de oito (8) dias, a contar do exame das coisas compradas no acto da
entrega (art. 471º, do C.Com.), acrescentado que o “vendedor pode exigir que o
comprador proceda ao exame das fazendas no acto da entrega, salvo caso de
impossibilidade, sob pena de se haver para todos os efeitos como verificado”89.

Pelo que, de acordo o estabelecido na Convenção de Viena, precisamente no


art. 40º, da CNUDCI, prescreve que vendedor não pode prevalecer-se destas
disposições da Convenção quando a falta de conformidade incida sobre factos que

87Apud. Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 285
88 Cfr. Ob. Cit. p. 288.
89 Apud. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 288.

78
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
ele conhecia ou não podia ignorar e que não revelou ao comprador. Porém, a ordem
jurídica material angolana e também a portuguesa como já assinalamos partilham a
mesmo “Código Civil” por questões históricas, o art. 916º, nº 1, do CC., não protege
tanto o comprador, visto que só dispensa a denúncia se o vendedor tiver usado
alguma de maledicência (dolo).

Isto significa dizer que o vendedor deve entregar mercadoria livre de


qualquer direito ou pretensão de terceiro, a menos que o comprador aceite ficar com
ela nessas condições (art. 41º, da CNUDCI), aliás, a mesma orientação jurídico - legal
decorre, no Direito angolano material, nos termos das disposições combinadas
previstas nos arts. 892º e ss., 905º e ss., do CC e art. 467º, do C.Com. Também o
CNUDCI contém um preceito especial para os direitos ou pretensões baseadas na
propriedade intelectual (art. 42º, CNUDCI).

Uma outra questão diz ao respeito de denúncia por parte do comprador, nos
termos a Convenção art. 43º, nº 1, da CNUDCI, sublinha que comprador perde o
direito de invocar estas disposições da Convenção se não denunciar ao vendedor o
direito ou a pretensão, num prazo razoável a partir do momento em que teve ou
deveria ter tido conhecimento deles.

Porquanto, a denúncia é, porém dispensável nos termos doa art. 43º, nº 2, da


CNUDCI, se o vendedor conhecia o direito ou a pretensão de terceiro e a sua
natureza. Pois que, a lei material angolana, não exige denúncia pelo comprador no
caso de venda de bens alheios ou onerados.

Destarte, o comprador que tenha uma desculpa razoável para não ter
procedido à denúncia em prazo razoável dos efeitos ou do direito ou pretensão de
terceiro nos termos do disposto no art. 44º, da CNUDCI, conserva as faculdades de
reduzir o preço ou pedir indeminização, salvo quanto ao lucro cessante. Porém, O
Direito material angolano não contém uma disposição paralela, suscitando dúvida
sobre a relevância da falta de denúncia do efeito para a atribuição do direito a
indeminização.

O que vale dizer de acordo aquela disposição da Convenção (art. 31º, da


CNUDCI que a mercadoria deve ser entregue no lugar convencionado pelas partes.
Porque na eventual falta de convenção das partes, a obrigação de entrega considera-
se cumprida no seguintes casos:

 No contrato que implique um transporte de mercadoria, com a


entrega ao primeiro dos transportadores para transmissão ao
comprador;

 No contrato que, não implicando um transporte da mercadoria, incide


sobre uma coisa determinada, ou sobre uma coisa genérica que deva
ser retirada de uma massa determinada, ou que deva ser fabricada ou

79
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
produzida, e sabendo as partes no momento da celebração do
contrato que a mercadoria se encontrava ou devia ser fabricada ou
produzida num certo lugar, com a colocação da mercadoria à
disposição do comprador neste lugar;

 Nos restantes casos, com a colocação da mercadoria à disposição do


comprador no lugar onde o vendedor tinha o seu estabelecimento no
momento da celebração do contrato.

Entretanto, como notadamente se observa, no Direito material angolano,


dispõe como regra geral o cumprimento no lugar do domicílio do devedor (art. 772º,
nº 1, do CC) e contém uma regra especial para entrega de coisa móvel determinada,
de coisa genérica que deva ser escolhida de um conjunto determinado ou de coisa
que deva se produzida em certo lugar (art. 773º, do CC), semelhança à que consta da
Convenção, mas que exige, pelo menos expressamente, que as partes soubessem que
a mercadoria se encontrava ou devia ser produzida em certo lugar.

A Convenção estabelece que no contrato que implique um transporte da


mercadoria, a obrigação de entrega se considera cumprida com a entrega ao
primeiro dos transportadores. Trata-se de uma venda com expedição simples –
modalidade de venda em que o alienante deve remeter a coisa para o local diferente
do lugar do cumprimento.

O Direito material angolano não contém uma regra especial sobre a


obrigação de entrega nestas modalidades de venda (embora a sujeite a uma regra
especial quanto à transferência do risco – art. 797º, do CC). Mas deve seguir-se o
mesmo entendimento, se outra coisa não resulta do contrato90.

Com efeito, a regra geral prevista no art. 772º, nº 1, da CNUDCI levaria a


considerar como lugar de cumprimento da obrigação da entrega um lugar em que o
vendedor não realiza qualquer acto de execução; como a entrega ao transportador
constitui um acto de execução do contrato deve entender-se, caso não resulte outra
coisa do contrato, que a obrigação de entrega se cumpre no lugar em que este acto é
praticado.

Segundo a Convenção, o vendedor deve entregar a mercadoria na data fixada


no contrato ou determinável por referência ao contrato (art. 33º, da CNUDCI). Se
tiver sido fixado ou for determinável um prazo, a não ser que resulte das
circunstâncias que compete ao comprador a escolha de uma data (art. 33º, al. b), da
CNUDCI). Regime semelhante decorre do art. 799º, do CC91.

90 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 290.
91 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 291.

80
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
A Convenção estabelece que nos restantes casos a mercadoria deve ser
entregue num prazo razoável (art. 33º, al. c), da CNUDCI)). Porém, no Direito
material angolano trata-se de uma obrigação pura, em que o comprador tem o
direito de exigir a todo tempo o cumprimento da obrigação em que o vendedor pode
a todo o tempo cumprir (art. 777º, nº 1, do CC). Se, porém, se tornar necessário o
estabelecimento de um prazo, quer pela própria natureza da prestação, quer por
virtude das circunstâncias que a determinaram, quer por força dos usos, e as partes
não acordaram na sua determinação, a fixação dele é deferida ao Tribunal vide o art.
777º, nº 2, do CC.

Tratando-se de venda comercial, as coisas compradas à vista devem ser


postas à disposição do comprador no prazo de 24 horas (art. 473º, do C.Com.). Nos
restantes casos, se o prazo de entrega se não foi convencionado, o comprador pode
requerer ao Tribunal a sua fixação (art. 473º, do C.Com). Os contratos de venda a
contado celebrados em feiras, ou mercado devem ser cumpridos no dia da sua
celebração ou, o mais tardar, no dia seguinte (art. 475º, C.Com)92.

Portanto, a solução convencional tem a vantagem de dispensar, em princípio,


o recurso ao Tribunal quando não foi fixada uma data ou prazo de cumprimento.

9.2.7.1. Meios de que Dispõe o Comprador em Caso de Incumprimento do


Vendedor
A Convenção regula os meios de que o comprador dispõe no caso de
inexecução pelo vendedor de alguma das obrigações que decorrem do contrato ou
da Convenção.

Em caso de incumprimento do vendedor, o comprador pode exigir do


vendedor a execução das suas obrigações, resolver o contrato, reduzir o preço ou
pedir indeminização pelo prejuízo sofrido.

Em primeiro lugar, o comprador pode exigir do vendedor a execução das suas


obrigações, a menos que tenha recorrido a um meio incompatível com esta exigência
(art. 46º, nº 1, CNUDCI).

A pretensão de cumprimento é incompatível com a resolução do contrato, a


redução do preço e o pedido de indeminização pelo prejuízo sofrido. Porém, de
acordo nosso Direito material, perante incumprimento definitivo, credor tem duas
soluções que lei lhe faculta, designadamente:

a) Escolher entre a rescisão (art. 801º, nº 2, do CC); ou,

92 Ob. Cit. p. 291.

81
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
b) A execução do contrato (art. 817º, do CC).

Em caso de falta de conformidade da mercadoria, a Convenção determina


(art. (art. 46º, nº 2, da CNUDCI), que o comprador só pode exigir a sua substituição
se a falta de conformidade constituir uma violação fundamental do contrato e se a
substituição for exigida em conjunto com a denúncia da falta de conformidade ou
num prazo razoável a contar desta denúncia. A pretensão de substituição depende
ainda de outro pressuposto, enunciado no art. 82º, da CNUDCI e comum à faculdade
de resolução: que o comprador possa restituir a mercadoria num estado
substancialmente idêntico àquele em que a recebeu (nº 1, do art. 82º, da CNUDCI)93.

No entanto, este pressuposto é dispensado nas seguintes hipóteses (nº 2, 82º,


da CNUDCI):

 Se a impossibilidade de restituir a mercadoria, ou de a restituir num


estado substancialmente idêntico àquele em que o comprador a
recebeu, não for devida a um acto ou omissão seus;

 Se a mercadoria perecer ou se deteriorar, no todo ou em parte, em


consequência do exame da mercadoria pelo comprador; ou,

 Se o comprador, antes do momento em que descobriu ou deveria ter


descoberto a falta de conformidade, vendeu toda parte da mercadoria
no curso normal dos seus negócios, ou consumiu ou transformou
todas ou parte delas em conformidade com o uso normal.

Deste modo o nosso Direito material, o art. 432º, nº 2, do CC é menos


favorável ao comprador, visto que nega a faculdade de resolução da parte que, por
circunstâncias não imputáveis ao outro contraente, não estiver em condições de
restituir o que houver recebido.

Ora bem, se eventualmente a mercadoria se perdeu ou deteriorou por causa


fortuito ou de força maior, o comprador pode resolver o contrato em sede da
Convenção, mas não é líquido ao Direito angolano. Porquanto que solução
convencional parece de preferir, uma vez que põe a cargo da parte faltosa as
consequência da impossibilidade de restituição não imputável à parte lesada94.

No entanto, de harmonia com o anteriormente exposto, é desde logo


duvidoso que o art. 432º, nº 2 CC seja aplicável à venda de coisas defeituosas
determinadas no art. 905º e art. 913º, nº 1 CC. Para quem aplica o regime da
anulabilidade à venda de coisas defeituosas determinadas a anulação do contrato
não depende da possibilidade de restituição em espécie (art. 289º, nº 1, do CC).

93 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 292.
94Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 294.

82
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Na venda de coisas defeituosas genéricas, por seu turno, só haverá lugar para
resolução quando o cumprimento defeituoso conduzir a uma situação de
incumprimento definitivo (art. 918º, do CC).

Em conformidade com a Convenção ex vi lege art. 46º, nº 3, da CNUDCI)., o


comprador também pode exigir a reparação da falta de conformidade, salvo se isso
for irrazoável, tendo em conta todas as circunstâncias. A reparação deve ser exigida
em conjunto com a denúncia da falta de conformidade, ou num prazo razoável a
contar desta denúncia (O comprador tem esta faculdade mesmo que a violação do
contrato não seja fundamental; é pois em todo o caso necessário que a pretensão de
reparação seja razoável perante o conjunto das circunstâncias do caso concreto. Não
será, designadamente, quando for desproporcionadamente onerosa para o
vendedor95.

Assim, no nosso Direito material, o vendedor também tem a faculdade de


exigir a reparação, ou a substituição da coisa, mas os pressupostos desta faculdade
são diversos. O art. 914º, do CC faz depender esta faculdade do conhecimento ou
dever de conhecimento do vício ou da falta de qualidade por parte do vendedor.
Além disso, a pretensão de substituição pressupõe ainda que ela seja necessária e
que a coisa tenha natureza fungível.

Já doutrina é defendido que, com base no princípio da boa-fé, a reparação ou


substituição da coisa não é exigível se implicar uma actuação excessivamente
onerosa para o vendedor. Alguns autores deste sector da doutrina do Prof. ROMANO
MARTINEZ, com apoio jurisprudencial, defendem que o prazo de caducidade
estabelecido no art. 917º, do CC para a acção de anulação por simples erro, adiante
referido, deve valer igualmente para as acções que visem obter a reparação ou a
substituição da coisa96.

Segundo, o comprador pode resolver o contrato se o incumprimento pelo


vendedor constitui uma “violação fundamental” do contrato (art. 49º n º1, al. a), da
CNUDCI. Em caso de falta de entrega da mercadoria, o comprador pode resolver o
contrato se a entrega não tiver sido realizada no prazo suplementar de duração
razoável por ele fixado, ou se o vendedor declarar que não entregará a mercadoria
neste prazo (art. 49º, nº 1, al. b) e 47º, nº 1).

A lei angolana permite a resolução do contrato em caso de impossibilidade


culposa de cumprimento e de incumprimento definitivo (art. 801º, nº 1, do CC). A
mora converte-se em incumprimento definitivo se o credor perder o interesse que
tinha na prestação ou esta não for realizada no prazo razoavelmente fixado pelo

95 Por exemplo, quando for se trate de pequenas reparações que o vendedor pode conseguir com
facilidade no país de utilização quando o vendedor só dispõe dos meios para proceder à reparação
num país distante.
96 Apud. Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 293.

83
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
credor (art. 808º, nº 1, do CC). A declaração de não cumprimento feita pelo devedor
é pela doutrina equiparada ao incumprimento definitivo.

Apesar da semelhança do ponto de partida, a lei angolana diverge do regime


convencional em diversos aspectos do regime da venda. Por um lado, de acordo com
o anteriormente exposto, na venda de bens onerados e de coisas defeituosas
específicas, a lei angolana não faculta a resolução mas a anulação do contrato (art.
905º e 913º, nº 1, do CC). Já na venda de coisas defeituosas genéricas aplica-se o
regime do não cumprimento das obrigações.

A doutrina não é inteiramente concordante, mas parece que sendo o defeito


imputável ao vendedor, assiste ao comprador a faculdade de resolução se a
reparação do defeito ou a substituição da coisa já não for possível ou se a reparação,
ou a substituição não forem feitos no prazo razoável fixado pelo comprador, a menos
que o cumprimento defeituoso tenha escassa importância para o comprador. A
resolução também será possível se, em virtude do cumprimento defeituoso, o
comprador perder o interesse na prestação97.

Por outro lado, no caso de venda de coisa alheia, o regime contido no Código
Civil diverge do regime convencional, uma vez que determina a nulidade do contrato
(art. 892º, do CC). O comprador de boa-fé pode opor-se a nulidade ao vendedor. No
entanto, o vendedor tem a obrigação de adquirir a prioridade da coisa e o contrato
torna-se válido com esta aquisição (art. 897º e 895º, do CC).

Caso se trate de venda comercial, o contrato é valido e o vendedor fica


igualmente obrigado a adquirir a propriedade da coisa (art. 467º, do CC). Se o
vendedor não cumprir esta obrigação, parece que o comprador pode resolver o
contrato. Assim, o regime da venda comercial aproxima-se do regime convencional.

Voltando à Convenção de Viena, após a entrega da mercadoria pelo vendedor,


a resolução pelo comprador é limitada (art. 49º, nº 2, da CNUDCI).

Em caso de entrega tardia, o comprador só pode resolver num prazo razoável


a partir do momento em que soube que a entrega tinha sido efectuada. Em caso de
outra violação do contrato, o comprador só pode resolver num prazo razoável:

 A partir do momento em que teve ou deveria ter tido conhecimento


da violação do contrato;

 Após o decurso do prazo suplementar indicado pelo vendedor para


executar as suas obrigações neste prazo suplementar; ou

97 Cfr. Ob. Cit. p. 293.

84
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
 Após o decurso do prazo suplementar indicado pelo vendedor para
executar as suas obrigações (nos termos do art. 48º, nº 2, da CNUDCI),
depois de o comprador ter declarado que não aceitaria a execução.

O Direito angolano segue uma técnica diferente relativamente à resolução.


Assim, o prazo para a resolução é a favor convencionalmente e, na falta de
convenção, a outra parte pode fixar ao titular da faculdade de resolução um prazo
razoável para que o exerça, sob pena de caducidade (art. 436º, nº 2, do CC).

Todavia, nos casos de venda de bens onerados ou de coisa defeituosa


especifica a acção por simples erro caduca na falta de denúncia tempestiva ou
decorridos sobre esta seis meses (art. 917º, do CC); enquanto o negócio não estiver
cumprido, porém, a anulabilidade pode ser arguida sem dependência de prazo (art.
287º, nº 2 e 917º, do CC). Parece que a acção de anulação fundada em dolo pode ser
proposta enquanto o vício não for sanado e dentro de um ano subsequentemente à
cessação do vício (art. 281º, nº 1, do CC)98.

Em terceiro lugar, se a mercadoria não for conforme ao contrato, a Convenção


confere ao comprador a faculdade de reduzir o preço proporcionalmente à diferença
entre o valor que a mercadoria efectivamente entregue tinha no momento da
entrega e o valor que mercadoria conforme teria tido nesse momento (art. 50º, nº 1
parte da CNUDCI).

Contudo, o comprador não pode reduzir o preço se o vendedor sanar


qualquer incumprimento das suas obrigações nos termos dos art. 37º e 48º, da
CNUDCI, ou se o comprador se recusar a aceitar o cumprimento nos termos destes
preceitos (art. 50º, nº 2 parte da CNUDCI).

Portanto, no Direito angolana, como se observa no art. 911º, do CC, é aplicável


à venda de coisa defeituosa especifica por força do art. 913º, do CC, circunscreve que
o comprador só terá direito à redução do preço (e, portanto, não poderá pedir a
anulação do contrato), se “as circunstâncias mostrarem que, sem erro ou dolo, o
comprador teria igualmente adquirido os bens, mas por preço inferior”99.

Parece que há aqui uma divergência importante com o regime convencional.

Porque na Convenção de Viena, o comprador tem a faculdade de rescindir o


contrato se a falta de conformidade o privar substancialmente daquilo que lhe era
legítimo esperar do contrato. Isto pode verificar-se mesmo que as circunstâncias
mostrem que o comprador, se tivesse conhecimento prévio da falta de
conformidade, estaria disposto a adquirir os bens por preço inferior. Ao passo que,
neste caso, a lei portuguesa só admite a redução do preço.

98 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 296.
9999 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 296.

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Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Na mesma linha verifica-se, perante a lei angolana, no caso da venda de bens
onerados. Pelo que, parece nos termos da Convenção, deve-se entender que não
confere ao comprador a faculdade de redução do preço, mas atribui-lhe a faculdade
de resolução sempre que se trate de uma “violação fundamental”100.

Observa-se, porém, que não é certo que o art. 991º, do CC seja aplicável ao
caso previstos no art. 918º, do CC e, designadamente, à venda defeituosa de coisa
genérica.

Quarto, em cumulação com os meios anteriormente referidos, a Convenção


permite que o comprador peça uma indeminização pelo prejuízo sofrido com o
incumprimento (art. 45º, nº 1, al. b) e nº 2, da CNUDCI).

O prejuízo indemnizável compreende os danos emergentes e os lucros


cessantes (art. 74º, da CNUDCI). Trata-se, pois, de uma indeminização dos danos
positivos (também dita indeminização pelo interesse contratual positivo), que visa
colocar o lesado na situação patrimonial que teria caso o contrato tivesse sido
cumprido.

Isto pode incluir os chamados danos indirectos (consequential damages) –


danos que não são consequência directa do incumprimento, o que inclui não só os
lucros cessantes, mas também, por exemplo, a interrupção da produção, os custos
envolvidos na remoção dos produtos defeituosos e a responsabilidade incorrida
pelo incumprimento de obrigações contraídas com terceiros. Todavia, a Convenção
não obsta a que as partes estipulem uma limitação de responsabilidade, uma vez que
o art. 74º, da CNUDCI é supletivo.

A validade das cláusulas sobre a responsabilidade depende do Direito


estadual aplicável ao contrato. Ora, o Direito angolano, à semelhança das principais
legislações próximas como a portuguesa e estrangeiras, admitem a cláusula de
limitação de responsabilidade que exclua a responsabilidade por danos deste tipo.
Estas cláusulas são usuais na venda de certo tipo de bens. Por exemplo, na venda de
máquinas e instalações industriais é usual excluir-se a ressarcibilidade de danos por
perda de produção, lucros cessantes e danos similares101.

Entretanto, o dano indemnizável nos termos do art, 74º, nº 2 2ª parte da


CNUDCI, não pode exceder o prejuízo que o vendedor previu ou devia ter previsto
no momento da celebração do contrato como consequência possível da violação
deste, tomando em consideração os factos de que ele tinha ou deveria ter tido
conhecimento. Portanto, nos termos legais da CNUDCI, nada obsta, porém, a que as

100 Ob. Cit. 296.


101 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 298.

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Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
partes estabeleçam um regime diferente, por exemplo, estipulando uma cláusula
penal ou uma “indemnização punitiva” (punitive demages)102.

Na lei angolana, no art. 563º, do CC, estabelece que a “obrigação de


indemnização só existe em relação aos danos que o lesado provavelmente não teria
sofrido se não fosse a lesão”, é tradicionalmente entendido de acordo com a
chamada teoria da causalidade adequada, o que poderia sugerir uma convergência
com aquele preceito convencional. O que significa dizer que não há que ressarcir
todos e quaisquer danos que sobrevenham ao facto ilícito, mas tão-só os que ele
tenha na realidade ocasionado, os que possam considerar-se pelo mesmo produzido.
O nexo de causalidade entre o facto e o dano desempenha consequentemente a
dupla função de pressupostos da responsabilidade civil e de medida da obrigação de
indemnizar103.

Existem três teorias que concorrem para justiça da indeminização à luz da


condição sociais (condição adequado) contra a condição naturalista,
designadamente:

1 – Doutrina da equivalência das condições ou da «conditio sine qua


non». Parte do princípio filosófico da causa, entendida como conjunto das condições
que concretamente produzem o efeito que é transposto para responsabilidade civil
ao considerar os prejuízos causados por um facto se houvesse sido praticado.

Ora, aqui releva o facto danoso resultar daquele condição do incumprimento,


“conditio sine qua non”, que facilmente é afastada por manifeste injustiça, pode
conduzir resultados chocantes em arrepio aos pressupostos da responsabilidade
civil que funda na culpa (vide art. 483º, do CC).

2 – Doutrinas selectivas, dada as consequências insatisfatórias da doutrina


da equivalência das condições, que propõe um conceito demasiado amplo de causa,
desenvolveu-se um esforço no sentido de seleccionar entre as várias condições
(«conditio sine quibus») a que deveria considerar-se verdadeira e única causa do
dano. Intentou-se, numa palavra, restringir o conceito de causa efeitos jurídicos.

Pelo que, nesta linha de pensamento algum sector da doutrina sustentam duas
modalidades das doutrinas selectivas, designadamente:

a) Doutrina da última condição ou da causa próxima – nesta perspectiva será


causa a condição mais próxima do resultado a ultima posta.

b) Doutrina da condição eficiente – entendem por causa de indeminização a


condição que na verdade foi eficaz ou proeminente em relação as restantes.

102 Ob. Cit. p. 298.


103 Ibidem.

87
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
1- Doutrina da causalidade adequada – considera-se causa de um
prejuízo a condição que, em abstracto, se mostra adequada para produzir
danos susceptível de indeminização104.

Todavia, além de esta teoria não ser específica na doutrina mais recente, não
é entendida no sentido de exigir a previsibilidade do dano pelo agente, mas antes no
de excluir a relevância da causa que não aumente o risco da verificação do dano
segundo as regras da experiência ou que só produziu o dano em virtude de
circunstâncias extraordinárias, fortuitas ou excepcionais, razão por que o dano, à luz
das regras da experiência comum e das particularidades do caso, não constitui o
resultado normal do facto que o originou105.

Embora, na grande maioria dos casos, estes critérios levem ao mesmos


resultados que a fórmula convencional, não são excluir hipóteses em que um dano
imprevisível para o agente seja indemnizável perante a lei angolana, mas não
segundo o regime convencional. Porém, a Convenção contém ainda regras especiais
sobre o cálculo da indemnização em algumas situações típicas.

Todavia, se o contrato for resolvido e se, de maneira razoável e dentro de um


prazo razoável após a resolução, o comprador procedeu a uma compra de
substituição, o comprador pode obter a diferença entre o preço do contrato e o preço
da compra de substituição, sem prejuízo do direito a ser indemnização por outros
prejuízos (art. 75º, da CNUDCI). Por outa abanda jurídica, se o contrato for resolvido
e a mercadoria tiver um preço corrente, o comprador, se não procedeu a uma
compra de substituição, pode obter a diferença entre o preço fixo no contrato e o
preço corrente no momento da resolução, sem prejuízo do direito a ser indemnizado
por outros prejuízos. No entanto, se o comprador resolveu o contrato depois de ter
recebido a mercadoria, é o preço corrente no momento em que a recebeu que é o
aplicável e não o preço corrente no momento da resolução (art. 76º, nº 1, da
CNUDCI)106.

Relativamente ao preço corrente, aqui é o preço praticado no lugar onde a


entrega da mercadoria deveria ter sido efectuada, ou na falta de preço corrente
nesse lugar, o preço corrente praticado noutro lugar que se afigure razoável tomar
como ponto de referência, tendo em devida conta as diferenças no custo do
transporte da mercadoria (art. 76 º, nº 2, da CNUDCI)107.

Estes preceitos acima referenciados demonstram que nos termos da


Convenção de Viena, há lugar a indemnização dos danos positivos mesmo em caso
de resolução. Diferente é a posição assumida pela doutrina dominante entre nós que

104 Cfr. MÁRIO JÚLIO DE ALMEIDA COSTA. Direito das Obrigações, Almedina 2001, 9ª edição p. 705-
707.
105 Ibidem.
106 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 298
107 Ob. Cit. p. 298.

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Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
entende que, neste caso, se trata de uma indemnização dos danos negativos
(também dita indemnização pelo interesse contratual negativo), destinada a colocar
o lesado na situação patrimonial que teria caso o contrato não tivesse sido
celebrado108.

Também na hipótese de anulação do contrato de venda de bens onerados ou


defeituosos (coisas específica), a indemnização concedida pelo Direito material se
limita aos danos negativos (quer danos emergentes quer lucros cessantes), em caso
de dolo (art. 908º e 913º, nº 1, do CC). Porém, no caso de anulação fundada em
simples erro, o vendedor responde independentemente de culpa mas apenas pelos
danos negativos emergentes do contrato (art. 909º e 913º, nº 1, do CC); na venda de
coisas defeituosas específicas, porém, não há lugar a indemnização se o vendedor
desconhecia sem culpa o vício ou falta de qualidade da coisa (art. 915º, do CC)109.

A esta indemnização acresce, na venda de bens onerados, a indemnização


pelo não cumprimento da obrigação de fazer convalescer o contrato, salvo na parte
em que o prejuízo for comum (art. 910º, nº 1, do CC). O mesmo se deve entender
com respeito à indemnização pelo não cumprimento da obrigação de reparação ou
substituição da coisa.

Parece que se deve que se deve entender que o regime estabelecido nos art.
908º e 909º ex vi art. 913º, nº 1, do CC, não vale para a venda de coisa defeituosa
genérica (vide o art. 918º, do CC). Neste caso, é aplicável o regime do não
cumprimento das obrigações e, por conseguinte, o comprador tem direito a
indemnização pelos danos causados pelo cumprimento defeituoso110.

O comprador tem o dever de minimizar o prejuízo sofrido. Com efeito o art.


77º, da CNUDCI, determina que a parte que invoca a violação do contrato deve tomar
as medidas que sejam razoáveis, face às circunstâncias, para minorar o prejuízo,
incluindo o lucro cessante, resultante da violação contratual. Se não o fizer, a parte
faltosa pode pedir uma redução da indemnização, no montante do prejuízo que
deveria ter sido minorado.

A nossa lei material angolana parece apontar em sentido convergente


quando determina que, se facto culposo do lesado tiver concorrido para o
agravamento dos danos, cabe ao tribunal determinar, com base na gravidade das
culpas de ambas as partes e nas consequências que delas resultaram, se a
indemnização deve ser reduzida ou mesmo excluída (art. 570º, do CC). Na doutrina
defende-se que o lesado tem um dever de atenuar ou minorar o dano111.

108 Ibidem.
109 Ibidem.
110 Ibidem.
111 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 300.

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Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
A Convenção nos termos do art. 79º, nº 1, da CNUDCI, exonera o vendedor da
obrigação de indemnizar caso prove que a inexecução se ficou a dever a um
impedimento fora do seu controlo e que não era razoável esperar que ele o tomasse
em consideração no momento da celebração do contrato, que o evitasse ou
superasse, ou que evitasse ou superasse as suas consequências.

Pois bem, a propósito da cláusula de força maior já fiz alusão à situação à face
do Direito angolano, o art. 790º, nº 1, do CC, densifica a extinção da obrigação
quando a prestação se torna impossível por causa não imputável ao devedor, o que
exclui a responsabilidade por incumprimento. Assinalou-se, porém, que este
preceito suscita problemas de interpretação que não estão dilucidados112.

Ora, o art. 79º, nº 2, da CNUDCI, contempla a possibilidade de inexecução


devida ao incumprimento de terceiro que se tenha obrigado a executar total ou
parcialmente o contrato (máxime mediante um subcontrato). Nesta conjectura, o
vendedor só é exonerado decorrer do art. 79º, nº 1, da CNUDCI e se o terceiro
também ficasse exonerado caso este preceito lhe fosse aplicado113.

Portanto, a regra é a da responsabilidade do vendedor pela conduta de


terceiros que tenha utilizado como “auxiliares de cumprimentos”. Os terceiros aqui
visado são somente os que não pertencem nem estão subordinados à organização
empresarial do vendedor. Portanto, a exoneração da responsabilidade por actos de
auxiliares de cumprimento subordinados depende exclusivamente do disposto no
art. 79º, nº 1, da CNUDCI. A aplicação do art. 79º, nº 2, da CNUDCI, pressupõe ainda
que os terceiros tenham consciência de que se obrigaram perante o vendedor a
executar obrigações por ele contraídas. Segundo a opinião dominante, a exoneração
do vendedor pelo incumprimento devido à conduta de meros fornecedores deverá
ser apreciada exclusivamente face ao art. 79º, nº 1, da CNUDCI.

Para que o vendedor se exonere de responsabilidade pela conduta de


terceiros, na acepção referida, é necessário que demonstre que o impedimento está
fora do seu controlo e que o terceiro, se fosse o devedor, também ficaria exonerada
perante o disposto art. 79º, nº 1, da CNUDCI114.

112 Ibidem.
113 Ibidem.
114 Por exemplo, o vendedor A obrigou-se a fornecer uma máquina a ser fabricada segundo as

especificações indicadas pelo comprador B e contratou com a empresa C o fabrico da máquina. A


empresa C tem uma boa reputação em termos de eficiência e cumprimento dos contratos mas, neste
caso, foi incapaz de fabricar a máquina no prazo convencionado devido a uma deficiente gestão da
produção. Embora o impedimento esteja fora do controlo do vendedor, este não é exonerado de
responsabilidade porque C não ficara exonerado de responsabilidade perante o disposto no art. 79º,
nº 1, da CNUDCI. A solução já seria diferente caso o incumprimento de C se ficasse a dever a um
impedimento que esteja fora do seu controlo, por exemplo, a destruição da fábrica por um incêndio
que não pudesse ter sido evitado ou superado.

90
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Ao mesmo resultado parece conduzir o art. 800º, nº 1, do CC. A doutrina tem
entendido que a responsabilidade do devedor pelos actos das pessoas que utilize
para o cumprimento da obrigação não pressupõe culpa na escolha, fiscalização ou
instrução dos auxiliares nem uma relação de subordinação ou dependência; essa
responsabilidade já cessa caso, não havendo culpa na escolha, fiscalização ou
instrução dos auxiliares, se demonstrar que o auxiliar, se fosse devedor, beneficiária
de uma causa de exoneração de responsabilidade115.

No caso de incumprimento parcial (falta de entrega ou falta de conformidade


de uma parte da mercadoria) o regime dos art. 46º a 50º, da CNUDCI, anteriormente
exposto, aplica-se com respeito à parte em falta ou não conforme (art. 51º, nº 1, da
CNUDCI). Isto é atendido, designadamente, no sentido de o comprador poder
resolver parcialmente o contrato. A consequência da resolução parcial é que o preço
da venda é reduzido à proporção da quota de mercadoria fornecida em relação ao
conjunto da mercadoria116.

Destarte, o comprador apenas pode declarar a resolução do contrato na sua


totalidade se a inexecução parcial ou a falta de conformidade constituir uma
violação fundamental do contrato (art. 51º, nº 2, da CNUDCI). Contudo, destes
preceitos resulta que o comprador não pode recusar um fornecimento parcial, a
menos que tal constitua uma “violação fundamental” do contrato. Portanto, o art.
73º, da CNUDCI, contém uma regra especial para incumprimento parcial de
contratos de fornecimento sucessivo.

Pelo seu turno, no Direito angolano, o incumprimento parcial só é objecto de


um regime especial em caso de impossibilidade da prestação, distinguindo – se
conforme a impossibilidade é ou não imputável ao devedor. Pois, se for imputável
ao vendedor o comprador tem a faculdade de resolver o contrato a não ser que o
incumprimento parcial, atendendo ao seu interesse, tenha escassa importância ou
de exigir o cumprimento do que for possível, reduzindo a sua contraprestação (art.
802º, do CC). Ora, se não for imputável ao vendedor, o comprador só pode resolver
o contrato se não tiver, justificadamente, interesse no cumprimento parcial; em
regra, o comprador tem de aceitar o cumprimento parcial, com redução
proporcional da sua contraprestação (art. 793º, do CC).

Noutros casos de incumprimento parcial, o comprador pode recusar um


fornecimento parcial por força da regra da integralidade do cumprimento (art. 763º,
nº 1, do CC, com ressalva da convenção das partes e dos usos); daí pode resultar a
constituição do vendedor em mora (susceptível de ser convertida em
incumprimento definitivo nos termos gerais) ou, desde logo, em incumprimento
definitivo. Se o comprador aceitar o cumprimento parcial e vendedor não cumprir a
parte restante, é definido que os efeitos deste não cumprimento dependerão do

115 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 301.
116 Ob. Cit. p. 301

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Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
interesse que possa ter ou não ter para o comprador a prestação parcial que lhe foi
entregue117.

Assim, revisitando à Convenção de Viena, propugna a ideia de que se o


vendedor entregar a mercadoria antes da data fixada, o comprador tem a faculdade
de aceitar ou recusar a entrega (art. 52º, da CNUDCI). Se o comprador recusar a
entrega antecipada, o vendedor tem de realizar a entrega no momento devido.

Pelo que, se efectivamente o vendedor entregar uma quantidade superior à


prevista no contrato, o comprador pode aceitar ou recusar a entrega da quantidade
excedente. O comprador só pode recusar a entrega de toda a mercadoria quando for
legalmente impossível receber apenas a quantidade estipulada. Se o comprador
aceitar toda ou parte da quantidade excedente, deve pagá-la à taxa estipulada no
contrato (art. 52º, nº 2, da CNUDCI). Porém, se tiver sido fixado apenas um preço
global, este preço deve ser aumentado na proporção da quantidade excedente
aceite.

Cumpre-nos notar, que nosso Direito material não contém uma disposição
desta natureza, mas é defendido que soluções semelhantes decorrem da regra do
cumprimento pontual do contrato (art. 406º, nº 1, do CC).

Em última análise Convenção impede literalmente que um Tribunal conceda


ao vendedor um “prazo de graça” (prazo suplementar para o cumprimento) quando
o comprador recorrer a um dos meios de que dispõe em caso de inexecução do
contrato (art. 45º, nº 3, da CNUDCI).

Por “Tribunal” nesta matéria, entende-se tanto a jurisdição estadual como


jurisdição arbitral. Parece que este preceito constitui a manifestação de um
princípio geral segundo o qual só o comprador, tenha ou não actuado um dos meios
ao seu dispor, pode conceder ao vendedor um prazo suplementar para o
cumprimento. No mesmo sentido aponta, o Direito material, o art. 808º, nº 1, do CC.

9.2.8. Obrigação do Comprador.

Em conformidade com as penitências da Convenção de Viena, as principais


obrigações do comprador são obviamente as de pagar o preço e de receber a
mercadoria ao comprador, como estabelece no art. 53º, da CNUDCI).

Ora, relativamente o montante a pagar, lugar e data de pagamento do preço


são os que forem estipulados pelas partes. Pelo que, na falta de estipulação, a
Convenção dispõe nos termos do art. (art. 55º, da CNUDCI) de regras sobre a

117 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 303.

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Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
determinação do preço, bem como o lugar de pagamento (art. 57º, da CNUDCI) e,
assim como o prazo de pagamento (art. 58º, da CNUDCI).

Contudo, a obrigação de pagar o preço compreende a de tomar as medidas e


cumprir as formalidades que sejam exigidas pelo contrato ou por quaisquer leis e
regulamentos para permitir o pagamento de preço (art. 54º, da CNUDCI). Isto inclui,
por exemplo, abertura de um crédito documentário ou a prestação de uma garantia
bancária idónea exigidas pelo contrato e a obtenção de uma autorização para a
transferência de divisas destinadas ao pagamento exigida pela lei do país do
comprador118.

Por conseguinte, importa sublinhar que no Direito material, entende-se de


concretização do dever de pagamento do preço, ou deveres de concretizações do
dever do pagamento do preço ou deveres acessórios que decorrem do princípio da
boa-fé no cumprimento da obrigação como tipifica a lei civil no art. 762º, nº 2, do CC.

Mas contudo, se eventualmente o contrato for validamente concluído mas


não fixar expressa ou tacitamente o preço da mercadoria vendida nem contiver
disposição que permita determiná-lo, o art. 55º, da CNUDCI, assim, estabelece e
considera-se que as partes, salvo indicação em contrário, se refiram tacitamente ao
preço habitualmente praticado no momento da celebração do contrato para tal
mercadoria, vendida em circunstâncias comparáveis, no ramo comercial em causa.

Seja como for, o disposto neste preceito parece entrar em contradição com o
disposto no texto do art. 14º, nº 1, da CNUDCI, porquanto este determina que só
constitui proposta contratual a declaração que, expressa ou implicitamente, fixa a
quantidade e o preço, ou dá indicações que permitam determina-los. Porém, esta
contradição, pelo menos aparente, suscita grandes divergências de interpretação119.

118Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 304-305.
119 O ponto foi muito discutido na preparação da Convenção em virtude de profundas divergências
entre os sistemas nacionais. Não possível dar aqui conta da vasta e complexa controvérsia doutrinal.
Em traços largos, pode dizer-se que são principalmente duas as posições defendidas na doutrina.
Para uns o art. 14º, nº 1, da CNUDCI deve prevalecer sobre o art. 55º, da CNUDCI. Neste sentido faz-
se valer que o art. 55º, da CNUDCI só é subsidiariamente aplicável visto que pressupõe que o contrato
tenha sido validamente concluído. A ser assim, o art. 55º, da CNUDCI terá sentido útil quando uma
das partes tenha o seu estabelecimento num Estado contratante que não seja vinculado pela segunda
parte da Convenção (nos termos do art. 91º, nº 1, da CNUDCI e desde que a lei deste Estado admita a
válida celebração do contrato apesar de este não fixar o preço nem dar indicações sobre a sua
determinação. Segundo uma variante deste entendimento, o art. 55º, da CNUDCI será aplicável pelos
Tribunais dos Estados contratantes que não sejam vinculados pela segunda parte da Convenção e
também quando o art. 14º, da CNUDCI for derrogado pelas partes ou pelos usos.
Segundo outros, o art. 55º, da CNUDCI deve prevalecer sobre o art. 14º, nº,1 da CNUDCI a partir do
momento em que o contrato seja considerado validamente celebrado perante a lei estadual aplicável
ao contrato. Argumenta-se, a favor desta posição, que os trabalhos preparatórios apontam no sentido
de o art. 55º, da CNUDCI pressupor apenas que o contrato tenha sido validamente celebrado segundo
a lex contractus ou, mais em geral, que o contrato se pode considerar celebrado mesmo que a
proposta não permita a determinação do preço.

93
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Estas divergências tiveram grandes debates nos trabalhos preparatórios bem
como na doutrina, cuja solução deste imbróglio deve – se, na visão do Prof. LUÍS
LIMA PINHEIRO passar pela preservação do sentido útil de ambos os preceitos
mesmos nos estados contratantes que se tenham vinculado integralmente à
Convenção de Viena de 1980. Pesa também a consideração de que o art. 55º,
consagra um critério para a determinação do preço que foi amplamente aceite pelos
delegados nacionais120.

Daí, segundo o já citado autor, dizer que pareça preferível entender que o art.
55º, da CNUDCI, vem criar uma nova possibilidade relativamente ao art. 14º, nº 1,
da CNUDCI: a de o contrato, apesar de não fixar o preço nem dar indicações para a
sua fixação, se considerar validamente celebrado por aplicação para a sua fixação,
se considerar validamente celebrado por aplicação da lei designada pelo Direito de
Conflitos do foro para reger os aspectos do contrato não regulados pela Convenção.
Todavia, o art. 14º, nº 1, da CNUDCI, continua a ter um efeito útil quando a lex
contractus não permita a celebração de um contrato de venda sem que o preço seja
determinado ou determinável121.

Ora bem, o Direito civil angolano, nos termos do art. 883º, nº 1, do CC.,
também admite o contrato de venda com preço indeterminável, estabelecendo que
“vale como preço contratual o que o vendedor normalmente praticar à data da
conclusão do contrato ou, na falta dele, o do mercado ou bolsa no momento do
contrato e no lugar em que o comprador deva cumprir; na insuficiência destas regras,
preço é determinado pelo Tribunal, segundo juízos de equidade”.

Cumpre-nos notar na lei comercial angolana ex vi lege art. 466º, do C.Com.,


que pode oferecer dúvida se o regime da venda comercial exige que o preço seja,
pelo menos, determinável. Pelo que entende-se por maioria da razão que o regime
jurídico- legal da lei civil previsto no art. 883º, do CC é efectivamente ajustado às
necessidades do comércio e, por via disso, o art. 466º, do CC deve ser interpretado
objectivamente no sentido de não exigir que o preço seja determinável.

Os trabalhos preparatórios revelam uma grande divisão entre os delegados nacionais e que foram
formuladas, e rejeitadas propostas que visam resolver o problema através quer da eliminação do
segundo período do art. 14º, nº 1, da CNUDCI quer do art. 55º, da CNUDCI. Estes trabalhos não
permitem concluir pela prevalência de qualquer uma destas disposições em relação à outra e, em
particular, não suportam o entendimento segundo ao qual o contrato só se considera validamente
celebrado, perante o art. 55.º, quando a proposta obedeça aos requisitos formulados pelo art. 14º, nº
1, da CNUDCI. A circunstância de o critério para a determinação do preço adoptado na versão final
do art. 55º, da CNUDCI ser o do preço habitualmente praticado pelo vendedor, inicialmente
consagrado – pode explicar a mudança de atitude de muitos delegados nacionais ao votarem a favor
deste preceito quando anteriormente tinham votado contra a eliminação do segundo período do art.
14º, nº 1, da CNUDCI. Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005,
p. 305-306.
120 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p.306 e ss.
121 Ob. Cit. p.307.

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Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
De todo o modo, o critério de determinação do preço acolhido no art. 55º, da
CNUDCI (preço habitualmente praticado no mercado relevante) afigura-se-nos mais
equilibrado relativamente ao critério consagrado pela lei civil angolana (preço
normalmente praticado pelo vendedor). Pois a Convenção de Viena evidência de
algum modo uma regra interpretada do negócio para o caso de o preço deve ser
determinado com referência ao peso líquido (art. 56º, da CNUDCI).

Todavia, na falta de convenção das partes, preço deve ser pago no


estabelecimento do vendedor ou, se o pagamento tiver de ser feito contra a entrega
da mercadoria ou dos documentos, no lugar onde esta se verificar (art. 57º, nº 1, da
CNUDCI). O vendedor deve suportar qualquer aumento das despesas acessórias do
pagamento que resultem da mudança do seu estabelecimento subsequente a
celebração do contrato (art. 57º, nº 2, da CNUDCI).

Porém, no Direito civil, precisamente no art. 885º, do CC estabelece que o


preço deve ser pago no momento e lugar da entrega da coisa vendida (nº 1, do art.
885º, do CC). Regra geral, a coisa deve ser entregue no lugar do domicílio do
vendedor, que é devedor da obrigação de entrega vide art. 772º, nº 1, do CC), razão
por que há convergência com o regime convencional. Pois que, o art. 772º, nº 2, do
CC descreve a possibilidade de o devedor mudar de domicílio depois de constituída
a obrigação, mas é óbvio que este preceito não pode ser aplicado com respeito ao
pagamento do preço, visto que neste caso o vendedor é o credor e não o devedor.
Evidencia-se antes analogicamente o disposto no art. 775º, do CC para o caso de o
cumprimento se dever efectuar ao domicílio do credor.

Por conseguinte, se o vendedor mudar de domicílio depois da celebração do


contrato, o comprador pode realizar o pagamento no lugar do seu próprio domicílio,
salvo se o vendedor se comprometer a indemnizar o comprador do prejuízo que
sofrer com esta mudança. Chega-se assim a uma solução próxima da Convenção.

Entretanto, se, por estipulação das partes, ou por força dos usos, o preço não
tiver de ser pago no momento da entrega, o pagamento deve ser feito no lugar do
domicílio que o vendedor tiver ao tempo do cumprimento (art. 885º, nº 2, do CC).
Neste caso não afigurar-se haver lugar para a aplicação da regra do art. 775.º CC,
uma vez que se fixa o momento relevante para a determinação do domicílio. Parece
preferível a solução convencional que põe a cargo do vendedor as despesas
acessórias resultantes da mudança de estabelecimento.

Pois bem, perante a Convenção, nos termos do art. 59º, da CNUDCI,


estabelece que o comprador deve pagar o preço na data fixada no contrato ou
determinável com base no contrato e na Convenção, sem que seja necessária
qualquer interpelação ou o cumprimento de qualquer outra formalidade por parte
do vendedor. Assim, na falta de estipulação das partes, o preço deve ser pago quando

95
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
o vendedor põe à disposição do comprador quer a mercadoria quer os documentos
representativos desta, nos termos do contrato e da Convenção.

A luz da Convenção, art. 58º, nº 1, da CNUDCI, o vendedor tem a faculdade de


realizar a prestação de pagamento do preço sob uma condição da entrega da
mercadoria ou dos documentos. Por conseguinte, no Direito angolano, nos termos
do art. 885º, nº 1, do CC, também estabelece peremptoriamente no mesmo sentido
de que o preço deve ser pago no momento da entrega. Quando o vendedor se obriga
a entregar ao comprador ou ao banco por lei indicado um título representativo da
mercadoria, trata-se de uma venda sobre documentos, em que a entrega da coisa é
substituída pela entrega do seu título representativo e dos outros documentos
previstos no contrato (art. 937º, do CC). Ora, deve entender-se que nesta
modalidade de venda o preço deve ser pago no momento da entrega dos
documentos representativos.

Entretanto, se o contrato implicar um transporte da mercadoria, a Convenção


determina nos termos do art. 58º, nº 2, da CNUDCI, que o vendedor pode expedi-lo
com a condição de a mercadoria, ou os documentos representativos desta, apenas
serem entregues ao comprador contra o pagamento do preço. Porém, importa
assinalar em sede da Convenção do nº 3, do art. 58º, da CNUDCI, que o comprador
não esta obrigado a pagar o preço antes de ter tido a possibilidade de examinar a
mercadoria, salvo se as modalidades de entrega ou de pagamento estipuladas forem
incompatíveis com essa possibilidade122.

A obrigação de aceitar a entrega da mercadoria consiste em dois elementos:

 Primeiro, em realizar todos os actos que sejam razoavelmente de


esperar dele com vista a permitir ao vendedor efectuar a entrega e o
comprador tem celebrar o contrato de transporte e de indicar ao
vendedor, designadamente, o nome do navio e o período de
carregamento123.

 Segundo, em tomar conta da mercadoria, isto é, entrar na detenção


material da mercadoria. Este segundo elemento cobra relevância
quando o comprador deve levantar a mercadoria no estabelecimento
do vendedor ou noutro lugar me que a mercadoria é colocada à sua
disposição124.

122 Assim, por exemplo, se as partes tiverem estipulado que o preço deve ser pago contra a entrega
dos documentos representativos da mercadoria, não há possibilidade de um exame prévio da
mercadoria.
123 Assim, nas vendas à distância em que incumbe ao comprador o transporte da mercadoria (por

exemplo, em princípio, nas vendas FOB)


124 Neste caso, se não tiver sido fixada data ou prazo para o levantamento, deve entender-se que o

comprador deve levantar a mercadoria num prazo razoável, vide o art. 60º, da CNUDCI.

96
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
A tomada em conta da mercadoria não prejudica, em princípio, o direito
subjectivo que o comprador possa ter de rejeitar a mercadoria no quadro dos meios
de que dispõe em caso de incumprimento do vendedor, de um lado por outro, a
tomada em conta da mercadoria é então relevante designadamente para efeitos do
dever de conservar a mercadoria. Com efeito, o comprador que já tenha recebido a
mercadoria e queira exercer o direito de a rejeitar tem um dever de conservação da
mercadoria e pode retê-la até ser reembolsado das suas despesas razoáveis (art.
86º, nº 1, da CNUDCI).

Portanto, se por ventura a mercadoria tiver sido expedida e colocada à sua


disposição no destino, o comprador tem mesmo, em princípio, o dever de tomar
conta da mercadoria. Com efeito, o art. 86º, nº 2, da CNUDCI, determina que se a
mercadoria expedida para o comprador tiver sido colocada à sua disposição no
destino, o comprador que exerça o direito subjectivo de recusa deve tomar posse da
mercadoria por conta do vendedor desde que o passa fazer sem o pagamento do
preço se sem inconveniente desrazoável ou despesas desrazoáveis e desde que não
esteja presente no destino o vendedor ou uma pessoa autorizada a tomar conta da
mercadoria por sua conta.

Por conseguinte, também no Direito material (art. 813º, do CC), o comprador


tem os deveres de aceitar a entrega e de praticar os actos necessários ao
cumprimento da obrigação do vendedor. Isto decorre do regime geral da mora do
credor.

No entanto, de acordo o estabelecido na Convenção de Viena (art. 52º, da


CNUDCI)., o comprador pode ter o direito de recusar a mercadoria com base no
contrato ou no regime convencional. Assim, o comprador pode recusar tomar conta
da mercadoria que lhe for entregue antes da data fixada ou em quantidade superior
à prevista no contrato (no que se refere à parte excedentária).

Mas também comprador pode recusar a mercadoria nos casos em que


conserve o direito de resolução após a entrega (art. 46.º /2) e em que possa exigir a
substituição da mercadoria (art. 46º, nº 2, da CNUDCI)125. Sendo certo que no Direito
angolano, decorre do art. 813º, do CC, determina que o comprador também pode
recusar a prestação do vendedor quando tenha motivo justificado ou a prestação
não seja oferecida nos termos legais. Mas também BENTOS SOARES/MOURA
RAMOS, entendem que o dever de conservação da mercadoria recebida, nas
situações referidas pelo texto convencional, decorre do princípio da boa-fé
consagrada no art. 762º, nº 2, do CC126.

125 Pois é o que se verifica, por exemplo, quando a falta de conformidade da mercadoria constitua
uma violação fundamental do contrato.
126 Apud. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 311.

97
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
9.2.8.1. Meios de Que Dispõe o Vendedor em Caso de Incumprimento
do Comprador

A secção III do Capítulo III da Convenção disciplina os meios de que dispõe o


vendedor em caso de violação do contrato pelo comprador. Perante o
incumprimento do comprador, o vendedor pode exigir o cumprimento ou, sob
certas condições, resolver o contrato. Pelo seu turno, é do domínio geral dos
avisados em direito que também o Direito angolano o credor, perante
incumprimento definitivo, pode optar entre a pretensão de cumprimento (art. 817º,
do CC) e a resolução do contrato (art. 801º, nº 2, do CC).

Pois em termos da Convenção de Viena é perceptível em primeiro lugar, nos


termos do proemio do art. 62º, da CNUDCI, que o vendedor pode exigir o pagamento
do preço, a recepção da mercadoria ou a execução das outras obrigações do
comprador, a não ser que tenha recorrido a um meio incompatível com esta
exigência.

Numa segunda possibilidade face o normativo da Convenção, o vendedor dó


pode resolver o contrato se o incumprimento constituir uma violação fundamental
do contrato ou se o comprador não executar sua obrigação de pagar o preço ou não
receber a mercadoria no prazo suplementar concedido pelo vendedor, de acordo
com o nº 1, do art. 63º, da CNUDCI, ou se declara que não fará no prazo assim
concedido (art. 64º, da CNUDCI).

Ora bem, o Código Civil angolano estabelece efectivamente um regime não


muito diferente, no art. 808º, pelo qual a mora se converte em incumprimento
definitivo se o credor perder o interesse que tinha na prestação ou se esta não for
realizada dentro do prazo que razoavelmente for fixado pelo credor. Já a semelhança
do que se verifica com a resolução pelo comprador, a faculdade de resolução pelo
vendedor é exercida mediante declaração à outra parte.

Todavia, se o comprador pagou o preço, o vendedor perde o direito de


declarar o contacto resolvido, se não o fez (art. 64º, nº 2, da CNUDCI).

 Em caso de execução tardia pelo comprador, antes de ter


conhecimento de que a execução teve lugar; ou,

 Em caso de outra inexecução pelo comprador, num prazo razoável a


partir do momento em que o vendedor teve ou deveria ter tido
conhecimento da inexecução do contrato ou após o decurso do prazo
suplementar concedido pelo vendedor ou depois de o comprador ter
declarado que não executaria as suas obrigações neste prazo
suplementar.

98
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
A rescisão do contrato confere à parte que o tenha executado total ou
parcialmente uma pretensão de restituição de tudo o que tenha prestado (art. 81º,
nº 2, da CNUDCI). Como o regime convencional não abarca os efeitos reais, dele
apenas decorrem obrigações de restituição e, porventura, de indemnização, pelo
que, a eficácia real da rescisão depende do sistema local competente127.

O nosso Direito apresenta duas diferenças importantes com respeito à


resolução do contrato pelo vendedor. Por um lado, do pagamento do preço não
decorre nenhuma limitação à resolução do contrato pelo vendedor. Por outro lado,
por força do art. 886º, do CC, salvo convenção em contrário, o vendedor não pode
resolver o contrato por falta de pagamento do preço se a propriedade tiver sido
transferida e a coisa entregue.

Portanto, neste caso, em particular, o vendedor só pode resolver o contrato


se tiver acordado com o comprador a reserva da propriedade ou uma reserva de
resolução.

Voltando à Convenção, em cúmulo com os outros meios de que dispõe, o


vendedor pode pedir uma indemnização pelo prejuízo sofrido (art. 61º, nº 1, da al.
b) e nº 2, da CNUDCI). Relativamente ao cálculo da indemnização aplica-se o
disposto no art. 74º, já examinado com respeito aos meios de que dispõe o
comprador em caso de incumprimento do vendedor. Se por ventura o contrato for
resolvido e se, de modo e num prazo razoáveis após a resolução, o vendedor
procedeu uma venda compensatória, o vendedor pode obter a diferença entre o
preço do contrato e preço da venda compensatória, bem como qualquer outra
indemnização que possa ser devida por força do artigo 74º, (art. 75º), da CNUDCI.

Agora se o contrato for resolvido e a mercadoria tiver um preço corrente, o


vendedor, se não procedeu a uma venda compensatória nos termos do artigo. 75º,
da CNUDCI, pode obter a diferença ente preço fixado no contrato e o preço corrente
no momento da resolução, bem como qualquer outra indemnização que seja devida
por força do art. 74º, (art. 76º, nº 1, do CNUDCI). O preço corrente é um dos meios
de que dispõe o comprador em caso de incumprimento do devedor.

O vendedor também tem o dever de minimizar o prejuízo sofrido, nos termos


já expostos com respeito ao comprador (art. 77º, da CNUDCI)., e por via disso, o art.
78º, da CNUDCI, atribui ao vendedor o direito a receber juros sobre o preço em
divida, sem prejuízo da indemnização por outros danos.

A lei angolana, além de atribuir o direito de percepção de juros sobre o preço,


também atribui o direito a juros ao credor de obrigação pecuniária em caso de mora
do devedor nos termos das disposições combinadas previstas no art. 804º e 806º,
do CC e art. 102º, do C.Com. No entanto, configura os juros como indemnização

127 Apud. LIMA PINHEIRO. p. 312.

99
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
devida no caso da mora do devedor da obrigação pecuniária, só admitindo pretensão
de indemnização suplementar quando se trata de responsabilidade por facto ilícito
ou pelo risco.

Como é comummente preferível a solução convencional, visto que o credor e,


designadamente, o devedor, pode sofrer um dano adicional em consequência da
mora. Pois que, o art. 78º, da CNUDCI, não fixa o montante dos juros nem estabelece
um método para o seu cálculo128.

O entendimento mais corrente favorece o recurso à lei competente segundo


o Direito de Conflitos. Mas suscitam-se então dificuldades quando se trata de uma
obrigação em moeda estrangeira em face da lei competente, visto que, a taxa de juro
fixada pela lei competente tem normalmente em conta a taxa de inflação que se
verifica na economia nacional.

A Convenção de Roma sobre a Lei Aplicável às Obrigações Contratuais


submete a “avaliação do dano, na medida em que for indemnizável” à lei aplicável
ao contrato (art. 10º, al. c), da 2ª parte, da CRLAOC).

Para entender este trecho importa cotejá-lo com o que resulta de outras
versões da Convenção. Nas versões alemãs, francesa e inglesa lê-se antes “na medida
em que é regulado por regras jurídicas”. Há aqui um compromisso com a concepção
inglesa da qualificação processual da avaliação do dano na medida em que esta
suscita questões de Direito. Portanto, em princípio, são aplicáveis as regras da lex
contractus que fixam os juros de mora129.

Mas, quando se trate de obrigações em moeda estrangeira, só podem ser


aplicadas aquelas regras que fixem juros de mora para estas obrigações, e não
aquelas regras legais que se reportem apenas às obrigações em moeda nacional. As
normas legais sobre juros de mora têm frequentemente uma dupla função: a de
compensar o credor pelos prejuízos sofridos e a de cobrir a depreciação monetária.
Quanto a esta segunda função que se verifica na economia nacional. Por conseguinte,
as normas gerais que estabelecem taxas de juros de mora não são, em princípio,
aplicáveis às obrigações em moeda estrangeira130.

Assim, quando o Direito regulador do contrato for o Direito angolano, o


melhor entendimento, que encontra apoio nos trabalhos preparatórios do Código

128Ora esta incompreensão, ficou-se a dever à impossibilidade de alcançar um acordo na conferência


diplomática. Coloca-se a questão de sabe se a determinação da taxa de juro é matéria não regulada
pela convenção, que se deve ser disciplina pela lei competente segundo o Direito de Conflitos dos
Estados contratantes, ou uma lacuna da Convenção que deve ser integrada com base nos princípios
gerias que a inspiram.
129 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 314.
130 Ob. Cit. p. 314.

100
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Civil realizados por VAZ SERRA, é o de que o nº 2 do art. 806º, da CNUDCI, que
remete para os juros legais, não é aplicável às obrigações em moeda estrangeira.

Há uma lacuna que, não podendo ser integrada mediante analogia, tem de ser
preenchida pelo intérprete mediante a criação de uma solução “dentro do espírito
do sistema”. De acordo com os princípios que regem a compensação do credor de
obrigação pecuniária, o credor deve ser indemnizado por meio da concessão de
juros. Com as taxas de depreciação das moedas em causa são as mais variáveis, tem
de se remeter para o órgão de aplicação a fixação da taxa no caso concreto131.

Segundo outra orientação, a determinação da taxa de juro constitui uma


lacuna da Convenção, que deve ser integrada com base nos princípios que a
inspiram. Pode invocar-se o princípio da compensação integral do prejuízo,
consagrado no art. 74º, da CNUDCI, para atribuir ao vendedor o direito a de
pagamento com respeito à moeda de pagamento em causa.

Esta orientação é de preferir: juros não são uma matéria excluída da


Convenção. Uma solução autónoma, baseada no princípio da compensação integral
do prejuízo, permite o desenvolvimento pela jurisprudência de uma regra uniforme.
Uma regra uniforme tem importantes vantagens relativamente à determinação da
lei competente e às especiais dificuldades que a sua aplicação suscita quanto às
obrigações em moeda estrangeira132.

Ora, o art. 79º, da CNUDCI, dos princípios do UNIDROIT constitui uma boa
base para a formulação desta regra uniforme. O nº 2, do art. 79, da CNUDCI
estabelece o que a “taxa de juros é a taxa media bancaria de empréstimos de curto
prazo a clientes preferências que vigora para a moeda do pagamento do contrato no
lugar em que o pagamento deve ser efectuado ou, caso essa taxa não exista nesse
lugar, esta mesma taxa no Estado da moeda de pagamento. Na falta dessa taxa num
outro lugar destes lugar, a taxa de juro é a taxa adequada de juro fixada pela lei do
Estado da moeda de pagamento”133.

O comprador é exonerado da obrigação de indemnizar nas mesmas


circunstâncias que o vendedor (art. 79º, da CNUDCI). A Convenção de Viena, dispõe
ainda que o Tribunal não pode conceder ao comprador um “prazo de graça” (prazo
suplementar para o cumprimento) quando o vendedor recorrer a um dos meios de
que dispõe em caso de inexecução do contrato (art. 61º, nº 3, da CNUDCI). É uma
disposição paralela à que encontramos com respeito aos meios de que dispõe o
comprador em caso de incumprimento do vendedor, aplicando-se aqui as
considerações então formuladas134.

131 Ibidem.
132 Ibidem.
133Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 315.
134 Ibidem.

101
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
9.2.8.2. Transferência da Propriedade e Passagem do R isco

Com se assinalou, a Convenção de Viena, não regula o efeito real que o


contrato de venda possa produzir. Portanto, a transferência da propriedade fica
submetida à lei competente segundo o Direito de Conflitos. Isto não significa que as
cláusulas de reserva da propriedade se encontrem globalmente excluídas do âmbito
material da Convenção. A cláusula de reserva da propriedade anda, em regra,
intimamente ligada à rescisão do contrato e produz importantes efeitos
obrigacionais.

Assim, parece que as disposições sobre a formação do contrato se deverão


aplicar à estipulação da reserva da propriedade. Dai ser defensável que uma
declaração unilateral do vendedor não é suficiente para estabelecer a reserva da
propriedade mesmo que a lei aplicável à transferência da propriedade o admita135.

Cumpre notar o principal efeito obrigacional que a reserva da propriedade


simples desencadeia em sede dos sistemas como o angolano, português e alemão - a
manutenção da faculdade de rescisão do contrato por falta de pagamento do preço
depois da tradição da coisa- já se produz ope legis face ao regime convencional. A
eficácia real da reserva da propriedade – designadamente a oponibilidade da
posição do vendedor a terceiros – depende da lei competente segundo o Direito de
Conflitos para reger os direitos reais.

A lei reguladora dos direitos reais é, regra geral, a da situação da coisa (art.
46º, nº 1, do CC).

A Convenção, apesar de não regular a transferência de propriedade,


disciplina autonomamente um efeito obrigacional que é frequentemente ligado à
transferência da propriedade: a passagem do risco do preço. Trata-se de saber a
partir de que momento é que o comprador suporta o risco da perda ou deterioração
da mercadoria, para que esta perda ou deterioração não exonera da obrigação de
pagar o preço136.

Nos termos do art. 66º, da CNUDCI, “na perda ou a deterioração da


mercadoria ocorrida após a transferência do risco para o comprador não libera este
da obrigação de pagar o preço, salvo se a perda a deterioração se ficarem a dever a
acto ou omissão do vendedor”. Da última parte do preceito resulta que o comprador
fica exonerado da obrigação do preço se a perda ou a deterioração se ficar a dever
ao incumprimento pelo vendedor de uma obrigação contratual ou
extracontratual137.

135 Ibidem.
136 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 316.
137 Ibidem.

102
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
A grande maioria das vendas internacionais de mercadorias implica um
transporte da mercadoria. Na maior parte dos casos o vendedor obriga-se a entregar
a mercadoria ao transportador (venda com expedição simples) ou vende
mercadoria em curso de transporte (venda de mercadoria em trânsito). As
principais regras convencionais sobre transferência do risco constam por isso do
art. 67º e 68º, da CNUDCI, que se reportam, respectivamente, à venda com expedição
simples e à venda de mercadoria em trânsito. As regras do art. 69.º aplicáveis aos
casos em que comprador deve receber a mercadoria no estabelecimento do
vendedor ou noutro lugar (designadamente no lugar do destino) são mais regras
residuais que verdadeiras regras gerais138.

Na venda com expedição simples a regra é a transferência do risco para o


comprador com a entrega ao transportador. Assim, o art. 67º, nº 1, da CNUDCI,
determina que se o contrato de venda implicar um transporte da mercadoria e o
vendedor não estiver obrigado a fazer a sua entrega num lugar determinado, o risco
transfere-se para o comprador quando a mercadoria é entregue ao primeiro
transportador para transmissão ao comprador de acordo com o contrato de venda.
Se o vendedor estiver obrigado a fazer a entrega da mercadoria a um transportador
num lugar determinado, o risco não se transfere para o comprador enquanto a
mercadoria não for entregue ao transportador nesse lugar. O facto de o vendedor
estar autorizado a conservar os documentos representativos da mercadoria não
afecta a transferência do risco (art. 67º, da CNUDCI)139.

Nos termos da primeira parte do art. 67º, nº 1, da CNUDCI, deve entender-se que o
risco só se transfere quando a mercadoria é entregue a um transportador
independente do vendedor, de um lado por outro, o n º 2, do art. 67º, da CNUDCI,
ressalva que o risco não se transfere para o comprador enquanto a mercadoria não
for claramente identificada para efeitos do contrato, pela aposição de um sinal
distintivo na mercadoria, pelos documentos de transporte, por um aviso dado ao
comprador, ou por qualquer outro meio140.

A lei angolana reporta-se à venda com expedição simples no art. 797º, do CC,
quando se refere à venda em que o vendedor deve enviar a coisa para local diferente
do lugar de cumprimento. Neste caso, a transferência do risco opera-se com a
entrega do transportador ou expedir da coisa ou à pessoa indicada para a execução
do envio (art. 797º, do CC).

Com efeito, tanto o art. 67º, da Convenção como art. 797º, do CC excluem a
hipótese em que o contrato de venda envolve um transporte da mercadoria e em
que o vendedor se obriga a entregar a mercadoria no lugar de destino (venda com

138 Ibidem.
139 Ibidem.
140 Apud. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 317

103
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
expedição qualificada). Esta hipótese fica sujeita à regra residual do art. 69.º da
Convenção.

Em conformidade com o Direito material, por argumento de maioria de razão


relativamente ao art. 797º, do CC, esta conjectura não pode ficar sujeita à regra geral
do art. 796º, do CC, devendo entender-se que a transferência do risco só se opera
com entrega da coisa. Também de acordo o disposto no art. 797º, do CC, deve-se
entender que o risco só passa com a entrega a um transportador independente do
vendedor. Portanto, o efeito prático do art. 797º, do CC tanto pode ser o de protelar
a passagem do risco como o de antecipar a passagem do risco.

Já na venda de coisa determinada, regra geral do art. 796º, do CC, conjugada


com a do art. 408º, nº 1, do CC, leva à passagem do risco no momento da celebração
do contrato. Neste caso, tratando-se de venda com expedição simples, o art. 797º, do
CC, leva ao protelamento da passagem do risco.

Por seu turno, na venda de coisa indeterminada, da regra geral do art. 796º,
do CC, conjugada com o art. 408º, nº 2, do CC, resulta que o risco se transfere quando
a coisa for determinada com conhecimento de ambas as partes, sem prejuízo do
disposto da matéria de obrigações genéricas (no art. 541º, do CC)141.

Porém, na venda com expedição simples – como é o caso das vendas CFR e
CIF (com excepção das que tenham objecto das coisas em viagem) – a
individualização verifica-se “com a entrega ao transportador ou expedidor da coisa
ou à pessoa indicada para a execução do envio” (art. 797º, CC, ex vi art. 541º, do CC).
Agora, se o transportador ou expedidor puder ser considerado, para este feito, como
representante do comprador, há uma coincidência entre o momento da
individualização e a entrega ao comprador (e, obviamente, o conhecimento da
individualização pelo comprador).

Na questão acima referenciada, o art. 797º, do CC, não introduz qualquer


desvio relativamente à regra geral contida no art. 796º, do CC. Mas nas vendas CFR
e CIF o transportador ou expedidor não pode ser considerado como representante
do comprador, uma vez que o vendedor contrata o transporte por sua conta e que o
comprador não confere ao transportador qualquer poder para actuar em sua
representação. Nestas vendas a propriedade só se transfere com o conhecimento da
individualização pelo comprador, que ocorrerá normalmente mediante o aviso do
vendedor de que a mercadoria foi entregue a bordo do navio. Portanto neste, o art.
797º, do CC conduz a uma antecipação da passagem do risco142.

Relativamente a Convenção, nos termos do art. 68º, da CNUDCI, orienta que


se “a mercadoria for vendida em trânsito, o risco transfere-se para o comprador no

141 Ibidem.
142 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 319-320.

104
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
momento da conclusão do contrato. Contudo, se as circunstâncias assim o
indicarem, o risco fica a cargo do comprador a partir do momento em que a
mercadoria for entregue ao transportador que emitiu os documentos que constam
o contrato de transporte.

No entanto, se, no momento da conclusão do contrato de venda, o vendedor


sabia ou deveria saber que a mercadoria tinha parecido ou se tinha deteriorado e
disso não informou o comprador, a perda ou deterioração fica a cargo do vendedor.

Portanto, se a mercadoria é vendida em trânsito quando está em curso o seu


transporte, a regra geral, com respeito à venda de mercadoria em trânsito, é a
passagem do risco no momento da celebração do contrato. No entanto, as partes
podem convencionar que o risco se considere transferido desde a entrega ao
transportador e esta convenção tanto pode ser expressa como inferida das
circunstâncias. Uma convenção neste sentido pode, em especial, ser inferida de ter
sido celebrado pelo vendedor um seguro da mercadoria e de a respectiva apólice ter
sido transferida para o comprador, como sucede na venda CIF143.

Neste caso, porém, o efeito retroactivo da passagem do risco no momento da


entrega ao transportador só ópera a favor do vendedor que estava de boa-fé, isto é,
que não sabia nem deveria saber que a mercadoria tinha perecido ou se tinha
deteriorado antes da celebração do contrato.

Pelo andar das coisas tudo indica que o art. 68º, da CNUDCI, também se aplica
só quando o vendedor não tem a obrigação de entregar a mercadoria no lugar do
destino. O mesmo se diga do art. 938º, do CC, que se reporta à venda de mercadoria
em trânsito que seja uma venda sobre documentos (o que é a regra com respeito à
venda de mercadoria em trânsito) e em que figure, entre os documentos entregues,
a apólice de seguro contra os riscos do transporte144.

Como justamente assinalam BENTO SOARES/MOURA RAMOS, o art. 938º CC


é algo contraditório, pois que a al. a), do nº 1, do art. 938º, do CC, determina que o
preço deve ser pago ainda que a coisa se tivesse perdido casualmente durante o
transporte, antes da celebração do contrato, bem como a al. b), do nº 1, do art. 938º,
do CC, estabelece que o contrato não é anulável com fundamento em defeitos da
coisa produzida casualmente após a entrega ao transportador, só podem a meu ver
significar que o risco se transfere com a entrega ao transportador. É a solução que
decorre, nesta hipótese da Convenção, bem como do art. 1529º, do CC italiano, que
inspirou, até certo ponto, a referida disposição portuguesa que vigora em Angola,
porque a boa-fé do vendedor também é exigida pelo nº 2, do art. 938º, do CC145.

143 Ob. Cit. 320.


144 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 3320.
145 Apud. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 3320

105
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Porém, o disposto na al. c) do nº 1, do art. 938º, do CC, estabelece que o risco
fica seguro a cargo do comprador desde a data da compra. Este preceito só parece
ter sentido útil nos casos em que o vendedor já sabia, ao tempo do contrato, que a
coisa estava perdida ou deteriorada (art. 938º, nº 2, do CC).

Quando o comprador não beneficie do seguro feito pelo vendedor, a solução


que resulta da aplicação da regra geral do art. 796º, do CC à venda de mercadoria
em trânsito coincide, na maior parte dos casos, com a da Convenção (passagem do
risco no momento da celebração do contrato).

No entanto, foi atrás assinalado que as regras do art. 69º, da CNUDCI, são
mais regras residuais que verdadeiras regras gerais. Vejamos em que consistem
estas regras:

 Quando o comprador deve receber a mercadoria no estabelecimento


do vendedor, o risco transfere-se no momento em que recebe a
mercadoria ou, se não o fizer em tempo devido, a partir do momento
em que a mercadoria é posta à sua disposição e em que ele incorre em
incumprimento do contrato ao recusar a recepção (art. 69º, nº 1, da
CNUDCI).

 Se o comprador estiver obrigado a receber a mercadoria noutro lugar,


o risco transfere-se no momento em que a entrega deva ser feita e o
comprador saiba que a mercadoria é posta à sua disposição nesse
lugar (art. 69º, nº 2, da CNUDCI). Este preceito aplica-se,
designadamente, à venda com expedição qualificada, em que a coisa
deve ser entregue no lugar do destino.

 O nº 3, do art. 69º, da CNUDCI, acrescenta que se o contrato recair


sobre mercadoria ainda não individualizada, considera-se que a
mercadoria não está colocada à disposição do comprador até que seja
claramente identificada para efeitos de contrato.

Pelo que estas regras residuais, que atendem ao momento em que o


comprador entra ou deveria entrar na detenção material da mercadoria, parecem
claramente superiores à solução retida pelo Direito material no art. 796º, nº1, do CC,
pois que liga a passagem do risco à transferência da propriedade. Porém, as regras
sobre a passagem do risco contidas quer na Convenção que na lei angolana são
efectivamente normas supletivas e, por isso, são afastadas por convenção das partes
em contrário.

Porquanto, como notadamente se observa, esta convenção resulta muito


frequentemente da utilização dos INCOTERMS.

106
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
9.2.8.2. Suspensão e violação Antecipada do Contrato

A Convenção admite a suspensão da execução do contrato (art. 71º, da


CNUDCI) e mesmo a resolução antes da data fixada para o cumprimento (art. 72º, da
CNUDCI), quando se verifiquem circunstância que façam prever com certeza o
futuro incumprimento da outra parte.

Assim, o art. 71º, nº 1, da CNUDCI, determina que uma parte pode suspender
execução das suas obrigações quando tornar claro, depois da celebração do
contrato, que a outra não executará uma parte essencial das suas obrigações, em
resultado de:

a) Uma grave insuficiência quanto à sua capacidade de cumprir o


contrato ou quanto à sua solvabilidade; ou

b) Da sua conduta na preparação do cumprimento ou no cumprimento


do contrato.

O vendedor que já tenha expedido a mercadoria antes dos fundamentos das


suspensão da execução se tornarem evidentes, pode opor-se à entrega da
mercadoria ao comprador, ainda que este possua um documento que lhe confira o
direito de a obter (art. 71º, nº 2, da CNUDCI)146.

A parte que suspender o cumprimento, antes ou depois da expedição da


mercadoria, deve imediatamente notificar a suspensão à outra parte e deve
prosseguir com cumprimento se esta garantia suficiente do cumprimento das suas
obrigações (nº 3, do art. 71º, da CNUDCI).

Trata-se, portanto, de uma aplicação da excepção de não cumprimento,


parcialmente contemplada, na lei portuguesa, pelo art. 429º, do CC. Porque segundo
este preceito (conjugado com o art. 780º, nº 1, do CC), uma das partes tem a
faculdade de recusar a respectiva prestação enquanto a outra não cumprir ou não
der garantias de cumprimento se, posteriormente ao contrato, esta parte se tornar
insolvente ou se, por causa imputável a esta parte, diminuírem as garantias do
crédito ou não forem prestadas as garantias prometidas. Porém, o art. 71º, da
CNUDCI é mais abrangente, permitindo a suspensão da execução perante outras
circunstâncias, relativas à capacidade de cumprimento e ao modo como a outra
parte cumpre ou prepara o cumprimento do contrato, que permitam concluir que
esta parte não executará uma parte essencial das suas obrigações147.

No caso de uma das partes declarar que não executará o contrato deve
entender-se que a outra parte pode suspender a execução à face do art. 71º, da
CNUDCI. O mesmo se deve entender perante o Direito angolano.

146 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 322.
147 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 322

107
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
A faculdade de oposição à entrega da mercadoria já expedida, prevista na
Convenção, suscita questões muito complexa que não é possível examinar nesta
sede. Creio que o preceito não visa, ou pelo menos não visa apenas, as vendas com
expedição qualificava em que o transportador é auxiliar de cumprimento do
vendedor, pois neste caso o preceito seria desnecessário. O dever de notificar a
suspensão do cumprimento à outra parte não consta expressamente do art. 429º, do
CC, mas deve entender-se que ele decorre do princípio da boa-fé148.

Enfim, o art. 72º, nº 1, da CNUDCI, estabelece que se, antes da data do


cumprimento do contrato, for manifestado que uma parte cometerá uma violação
fundamental do contrato, a outra parte pode declarar a resolução deste. Contudo, se
dispuser do tempo necessário, a parte que pretende declarar a resolução do contrato
deve notificar a outra parte em condição razoáveis para lhe permitir dar garantias
suficientes da boa execução das suas obrigações (nº 2, do art. 72º, do CNUDCI). Isto
não se aplica se a outra parte declarou que não executaria as suas obrigações (nº 3,
do art. 72º, da CNUDCI)149.

A lei angolana não contém preceito paralelo. Afora a hipótese de a prestação


da outra se tornar impossível, contempla no art. 795º, nº 1, do CC, parece que só
haverá convergência com o disposto na Convenção quando uma das partes declare
que não executará o contrato. Neste caso deve entender-se que a outra parte pode
resolver o contrato150.

2.10. Contrato de Transporte

O Código de HAMURABI (XXIII séc. A.C.), rei da 1ª dinastia da Babilónia, já estipulava


normas sobre responsabilidade do afretador, abalroação e construção naval.

Quando se fala de transporte internacional tem-se principalmente em vista uma


deslocação de pessoas ou mercadorias de um país para outro tendo em
contrapartida o pagamento de uma taxa, bilhete ou de um frete151.

O transporte pode ser marítimo, aéreo, ferroviário, rodoviário, fluvial e, ainda,


multimodal152. Portanto, o Direito do Transporte Internacional fixa regras próprias
através de Convenções de especialidade da área dos transportes, destas regras
temos:

148 Ibidem.
149 Ibidem.
150 Apud. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 324.
151 Diz-se “frete” o preço do transporte, ou seja a contraprestação a pagar ao transportador pelo

transporte. Segundo o acordado, será pago à partida, pelo expedidor, ou no destino, pelo destinatário
da mercadoria, devendo este fazê-lo contra a entrega desta, vide AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA
PROENÇA, – Transporte de Mercadorias, Almedina 2004 p. 16.
152 Cfr. LIMA PINHEIRO – Direito Comercial Internacional, Almedina editora 2005, p. 37 - 39.

108
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
-Transporte Aéreo Internacional – Convenção de Varsóvia de 12 de Outubro de 1929
e a Convenção de Montreal de 1999;

- Transporte Marítimo Internacional – Convenção de Bruxelas de 25 de Agosto de


1924.

- Transporte Rodoviário Internacional (TIR) - A convenção CMR de Genebra


19.5.1956 (assim designada a convention de Transport Internacional de
Marchandises par Route).

Porém, no ordenamento jurídico angolano vigora dentre outra legislação dos


transportes a Lei nº 20/03, de 19 de Agosto, Lei de Bases dos Transportes Terrestre
a par da Legislação do transporte marítimo e aérea.

O contrato de transporte é comercial, bilateral, oneroso, consensual e de resultado.


A sua perfeição não depende da entrega simultânea ao transportador da coisa ao
transportar.

É um contrato de resultado, porque a prestação principal do transportador consiste


na colocação no local do destino da coisa a transportar, sendo de sua
responsabilidade os meios humanos e materiais a utilizar na sua execução, assim
como a responsabilidade pela sua boa execução.

O Contrato de Transporte – é pois, um acordo de vontade que as partes se vinculam


mutuamente em prestar um serviço de transporte de mercadoria de um país para
outro mediante uma contraprestação de pagamento em dinheiro normalmente em
moeda divisionária.

Por seu turno o JOSÉ ENGRÁCIA ANTUNES define o contrato de transporte como
sendo um contrato pelo qual umas das partes (transportador) se obriga perante a
outra (passageiro ou carregador), mediante a retribuição, a deslocar determinadas
pessoas ou coisas e a colocar aquelas ou entregar estas pontualmente, ao próprio ou
terceiro (destinatário), no local de destino153.

Portanto, o contrato de transporte propugna-se no tipo de contrato de prestação de


serviços, é pois, aquele em que uma das partes se obriga a proporcionar à outra certo
resultado do seu trabalho intelectual ou manual, com ou sem retribuição, nos termos
avisados pelo perímetro que adensa o território normativo do art. 1154º, do CC.

Todavia, são parte iniciais do contrato o expedidor e o transportador, quando o


transporte é contratado por aquele, ou entre o transportador e o destinatário
(importador), quando é este que contrata o transporte.

153 Cfr. JOSÉ ENGRÁCIA ANTUNES, - Direito dos Contratos Comerciais, Almedina, 2009, p. 725.

109
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Mas entende-se que o destinatário passa ser parte do contrato a partir do momento
em que a ele adere pela posse do título que lhe permite reclamar a mercadoria do
transportador, a que acresce o direito a eventual indeminização por perdas e danos.

Parte na fase executiva, como diz GARRIGUES154. Por isso, o contrato de transporte
é visto como uma figura contratual triangular, em que os direitos e obrigações
podem estar repartidos pelo expedidor, transportador e destinatário, ou seja, uma
relação triangular, que justificará a necessidade de explicar a posição d terceiro –
destinatário.

A questão colocar-se-á, com especial relevo, quando a legitimidade do destinatário


– designadamente, para exigir do transportador a entrega da mercadoria
transportada – não decorra da qualidade de portador do título de transporte, à
ordem ou ao portador.

Embora com alguns desvios, quanto ao regime, o transporte apresentar-se-á, então,


como um contrato a favor de terceiros nos termos do art. 443º, do CC, pese embora
se trate de uma orientação, entre nós, como noutros ordenamentos, está longe de
ser pacífica, mas curiosamente parece ser figura jurídica aqui escrutinada que
melhor explica o transporte dirigido para a entrega da mercadoria a um terceiro –
destinatário. Porém, naturalmente que o contrato de transporte (a favor de terceiro)
não poderá constituir qualquer obrigação para terceiro com reza o art, 406º, nº 2,
do CC155.

Contrato e suas condições poderá provar-se pela guia de transporte, a carta de porte,
conforme o Estado em que é emitida.

A lei comercial angolana refere-se ao valor jurídico da guia de transporte (art. 373º,
do C.Com.), pois será a luz desta instrumento jurídico de natureza comercial que se
decidirão todas as questões relativas ao transporte, não sendo contra ela
admissíveis excepções , salvo em caso de falsidade ou de erro involuntário de
redação.

Entretanto, são meios privilegiados de prova de existência do contrato e das suas


condições, mas a sua falta não invalida o contrato, cuja prova poderá fazer-se por
qualquer outro meio. Mas, havendo título, não poderá ser-lhe oposta prova
testemunhal contrária ao seu conteúdo, nos termos do art. 393º, do CC.

Em suma o Contrato de Transporte pode ser caracterizado:

154 Apud. AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA PROENÇA, – Transporte de Mercadorias, Almedina
2004 p. 15.
155 Cfr. AVV. CARLOS LACERDA BARATA. – Contratos de Transporte Terrestre Formação e Conclusão.

Revista da Ordem dos Ordem de Portugal. p. 625 -627.

110
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
O Contrato de Transporte de mercadorias é aquele pelo qual uma das partes se
obriga, perante a outra, a fazer a transferência material de uma coisa de um local
para outro, mediante retribuição.

O contrato é de natureza consensual, sinalagmático genético e funcional, oneroso e


de resultado. Ao receber a mercadoria, o transportador deve emitir título de
transporte (guia, carta de porte, lettre de voiture, conhecimento de carga, air way
bill) em que se identifiquem as partes e se especifiquem as mercadorias a
transportar.

O contrato tem fisionomia triangular. Às partes primitivas junta-se, na fase


executiva, o destinatário da mercadoria, a partir do momento em que ele adere ao
contrato e se torna credor do direito à mercadoria;

Ao receber as mercadorias, o transportador deve verificar se correspondem às


declarações prestadas pelo expedidor e o seu estado aparente e das suas
embalagens, anotando no título as reservas que tiver por bem; e o destinatário deve
verificar se as mercadorias entregues correspondem às especificações constantes
do título e anotar no recibo que der as reservas que tiver por bem sobre o seu estado
aparente e das suas embalagens. Na falta de reservas, presume-se que as
mercadorias foram recebidas no estado e quantidades especificadas no título e sem
vícios aparentes.

O expedidor é responsável, perante o transportador e terceiros para com os quais


ele seja responsável, pelos danos causados pela omissão, insuficiência ou
inexactidão das declarações por ele prestados sobre a natureza da mercadoria
transportada.

São nulas as cláusulas que contrariem disposições legais imperativas, tais como as
que visem excluir ou reduzir a responsabilidade legal do transportador ou inverter
o ónus da prova.

A obrigação de indemnizar assenta no princípio da responsabilidade do


transportador, apenas com exclusão dos casos estabelecidos na lei, mas com o limite
indemnizatório especificado na lei ou convenção, a não ser que tenha havido
declaração especial do valor da mercadoria ou de interesse especial na entrega, ou
nos casos de dolo ou falta grave do transportador ou seus propostos156.

2.10.1. O Transporte Rodoviário Internacional de Mercadorias


O transporte de mercadoria por via rodoviária consiste o contrato de
transporte no acordo pelo qual uma das partes se obriga perante a outrem, mediante

156Cfr. AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA PROENÇA, – Transporte de Mercadorias, Almedina2004


p.18 e 19.

111
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
o preço ajustado, à transferência (déplacement) de uma dada mercadoria de um local
para outro e a sua entrega ao destinatário nomeado. Porém, se o ponto de partida e
o de chegada se situam em países diferentes, o transporte diz-se internacional
rodoviário.

Nos termos do Direito dos Transportes Terrestres de Angola, considera-se


transporte internacional, os que impliquem a travessia de fronteiras e se
desenvolvem parcialmente em território nacional, Lei nº 20/03, de 19 de Agosto, Lei
de Bases dos Transportes Terrestre, nº 3, al. a), do art. 3º, do citado diploma legal.

A convenção CMR (assim designada a convention de Transport Internacional


de Marchandises par Route) foi assinada em Genebra em 19.5.1956 e aprovada em
Portugal pelo D.L. 46.235, de 18.03.65, publicado no Diário do Governo I Série, nº
65. enquanto Angola colónia portuguesa.

CMR, Aplica-se a todos os transportes de mercadorias por estrada, a título


oneroso, que tenham como ponto de partida e de entrega países diferentes, sendo
um deles pelo menos país constante (art. 1.º). Aplica-se ainda que o veículo não
chegue a transpor a fronteira do país do ponto de partida.

O contrato é consensual e de resultado, mas geralmente ele e as suas


condições provam-se pelo título de transporte conhecido por declaração de
expedição. A sua falta, irregularidade ou perda não prejudicam nem a existência nem
a validade do contrato de transporte, que continua sujeito às disposições da
Convenção (art. 4º).

2.10.2. Estipulações Contrária à Convenção

Importa frisar, salvo a possibilidade de os transportadores sucessivos alterem


as regras sobre repartição entre eles da indeminização paga ou devida por
incumprimento do contrato.

Porém, é nula e sem efeito qualquer estipulação que, directa ou


indirectamente, modifique as disposições da Convenção, as quais são de carácter
imperativo157.

A nulidade referida não implica a nulidade das outras disposições do contrato.


São em especial nula as cláusulas pelas quais;

a) O transportador se atribuísse o benefício do seguro da mercadoria ou


cláusula análoga;
b) Transfira o encargo da prova.

157 Vide o Jurisprudência portuguesa (Ac. do S.T.J. de 10.11.93, in CJ/AST I.III.118).

112
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
2.10.3. A Declaração de Expedição (CMR).
A declaração de expedição é vulgarmente conhecida por CMR. Deve ser
emitida em três originais, todos eles assinados pelo expedidor e pelo transportador.
O exemplar 1 destina-se ao expedidor; o 2 acompanha a mercadoria e será entregue
com ela ao destinatário; o 3 ficará em poder do transportador (art. 5º, 1). Ao receber
a mercadoria, o destinatário assina o exemplar 2 e nele inscreverá as reservas que
tiver por bem. Por decalque, a assinatura e as reservas ficarão a constar do exemplar

Geralmente os exemplares 1, 2 e 3 são emitidos nas cores vermelha, azul e


verde, respectivamente, sendo ainda emitido mais um exemplar para o processo do
transportador. As reservas feitas pelo transportador no original 1 passam, por
decalque, para os restantes.

Se a mercadoria a transportar for objectivo de vários carregamentos ou de


espécie ou de lotes diferentes, tanto o expedidor como o transportador podem exigir
seja passado um CMR por cada carregamento, espécie ou lote (art. 5º,2).

Desempenha tripla função: - de prova do contrato e suas condições, de recibo


da mercadoria nele descrita, de título de crédito representativo da mercadoria e de
consequente legitimação do seu portador à sua entrega, e de circulação da
mercadoria pelo endosso ou tradição do CMR.

Como meio de prova, a declaração de expedição, até prova em contrário, faz fé


das condições do contrato e da recepção da mercadoria pelo transportador (art. 9º,
1). Na falta de reserva, faz prova de que a mercadoria e a embalagem se encontravam
em bom estado aparente quando o transportador as tomou a seu cargo e que a
quantidade de volumes, marca e seus números estavam conformes com o título (art.
9º, 2).

O CMR poderá ser emitido pelo expedidor ou pelo transportador.


Habitualmente é emitido pelo transitário que organizou e contratou o transporte e
nele aparece como expedidor. O exportador ficará, neste caso, de posse do FCR
emitido pelo transitário, o qual certifica que este recebeu a mercadoria nele descrita
para fim nele mencionado. Os transportadores sucessivos devem passar recibo da
mercadoria e anotar o seu nome, morada e reservas no exemplar 2 do CMR e no
recibo (art. 35º).

O CMR deverá conter as indicações referidas no art. 6º, da Convenção, em


especial o valor da quantia a receber no momento da entrega da mercadoria ao
destinatário e quaisquer outras que sejam consideradas úteis.

A descrição dos volumes carregados, sua quantidade, marcas e pesos e outros


detalhes, é feita na Packing List, que deverá acompanhar o CMR, quer para o controlo

113
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
da mercadoria à descarga, quer para a sua apresentação nas estâncias aduaneiras.
Por isso, ela deverá ser o mais exacta possível158.

2.10.4. Declaração de Expedição e Menções Especiais

O expedidor poderá mencionar no CMR, contra o pagamento de um


suplemento do preço do transporte, o valor da mercadoria que exceda o limite de
indemnização estabelecido no art. 23º, nº 3. Caso em que este valor substituirá o
limite ali estabelecido (art. 24.º). Nas mesmas condições, o expedidor pode fixar o
valor de um juro (ou interesse) especial na entrega para o caso de perda ou avaria
ou de atraso na entrega da mercadoria. Caso em que, às indemnizações previstas nos
arts. 23º e 25º, acrescerá uma indeminização igual ao dano suplementar de que seja
apresentada prova (art. 26º). Estas declarações terão a vantagem de proporcionar
ao credor da mercadoria uma indemnização que não fique sujeita aos limites
estabelecidos nos arts. 23º, nº 3, e 25º, e deverão constar do CMR (art. 6º, nº 2, al.
d)).

Portanto, deve também mencionar-se no CMR o valor da quantia a receber no


momento da entrega da mercadoria, sendo caso disso, nos termos do disposto art.
21º, da Convenção (art. 6º, nº 2, al. c)).

2.10.5. Declaração de Expedição de Mercadorias Perigosas


A Lei angolana densifica nº 3, do art. 19º, da Lei nº 20/03 de 19 de Agosto,
LBTT, bem como o disposto no art. 17º, do Decreto Presidencial nº 160/10, de 30 de
Julho, Regulamento de Transporte Rodoviário de Mercadorias, que o transporte de
mercadorias que revistam especial perigosidade deve ser objecto de
regulamentação própria. Assim, nos termos do cumprimento dessa recomendação
legislativa, foi produzido o regulamento para efeito com desígnio de disciplinar a
referida matéria “sic” Decreto Presidencial nº 195/12, de 29 de Agosto.

Entretanto, o expedidor deve mencionar o CMR a denominação por que são


geralmente conhecidas as mercadorias perigosas, assinalando-lhe a natureza exacta
do perigo que representam (produto explosivo, tóxico, corrosivo, inflamável,
radioactivo, etc.) e indicar-lhe-á as precauções eventualmente a tomar (art. 6º, nº 1,
al. f)). Habitualmente, o expedidor fará a indicação da natureza perigosa do produto
pela referência à classe, número e letra a que pertence (espaço ADR).

Se o não fizer, competir-lhe-á, a ele ou a destinatário, apresentar de que o


transportador teve conhecimento da natureza exacta do perigo que representa o

158AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA PROENÇA, – Transporte de Mercadorias, Almedina 2004 p.


87 à 89.

114
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
transporte da mercadoria (art. 22º, nº1), sob pena de ficarem expostos às sanções
estabelecidas no nº 2, adiante referidas. O expedidor deve ser rigoroso na
identificação de mercadorias cuja circulação esteja interdita ou condicionada.

Portanto, são consideradas mercadorias perigosas as matérias, objectos, as


soluções e misturas de matérias considerados como tais nos referidos
regulamentos.

2.10.6. A Declaração de Expedição Como Título Representativo da Mercadoria.


O CMR não diz respeito à propriedade da coisa transportada. O transportador
não tem que averiguar ou saber a que título o expedidor lha entrega ou o
destinatário a vai receber159. Por isso, quando se dizer que o CMR é título
representativo da mercadoria quer-se apenas significar que ela titula o direito à
disposição e à entrega da mercadoria durante e no termo do transporte
independentemente de o titular desse direito ser ou não o seu proprietário. Nessa
medida, pode o CMR ser negociado e servir de base ao penhor da mercadoria (Cfr.
Art. 398º, único, nº 2, do Cód. Comercial).

Mas só o exemplar destinado ao expedidor é título representativos da


mercadoria, pois que, doutro modo, haveria três títulos representativos do mesmo
crédito. Os outros dois exemplares servem de prova contra as suas condições e
eventualmente de recibo da entrega da mercadoria. Será o exemplar 1 que instruirá
uma eventual “Carta de Crédito”.

Por isso, o destinatário só adquire à disposição da mercadoria no decurso da


viagem se o expedidor inscrever essa indicação no CMR (art. 12º, 3) e o exercício
desse direito, seja por ele, seja pelo destinatário, pressupõe a apresentação ao
transportador do exemplar 1 (art. 12º, nº 5).

As Empresas de transporte internacional estão obrigadas a justificar,


nomeadamente perante as autoridades aduaneiras, a carga que transportam pela
apresentação do manifesto de carga, a fim de que possam obter autorização para
descarga. A descrição da mercadoria embalada e os respectivos volumes devem
constar do Packing List, que deve igualmente acompanhar a mercadoria, por ele se
fazendo a sua conferência160.

159 La posición jurídica del remitente dentro del contrato de transporte está totalmente desligada del
título jurídico que le permite disponer de la casa. AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA PROENÇA, –
Transporte de Mercadorias, Almedina 2004, GARRIGUES, p. 207.
160 AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA PROENÇA, – Transporte de Mercadorias, Almedina 2004 p.90

e 92.

115
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
2.10.7. Direito à Disposição da Mercadoria
Consiste este direito no poder de dispor da mercadoria depois de entregue ao
transportador mas antes de por este entregue ao destinatário, fazendo-a retornar
ao ponto de partida, mandando-a descarregar em ponto diferente do previsto no
CMR ou fazer a sua entrega a outro destinatário. Esse poder cabe ao expedidor,
enquanto não passar ao destinatário. Pertencerá desde o início ao destinatário se
ele lhe tiver sido logo atribuído pelo expedidor por declaração no CMR (art. 12º, nº
3).

O poder de dispor da mercadoria passará ao destinatário a partir do momento


em que lhe for remetido o exemplar 2 do CMR (art. 12º, nº 2) e logo que, chegada a
mercadoria ao local do destino, ele se apresentará e a reclamá-la (art. 12º, nº 2).
Como é evidente, os INCOTERMS na venda FOB/FOT/CIP, o expedidor perde o poder
de disposição da mercadoria a partir do momento da sua entrega ao transportador,
que faz o transporte por conta e ordem do importador.

Pelo que, o exercício do poder de disposição implica o poder de dar contra


ordens ao transportador, poder que se considera implícito desde o início no contrato
de transporte161. O exercício desse direito implica a apresentação, pelo ordenante,
do exemplar 1 do CMR e a obrigação de indemnizar o transportador das despesas e
dos prejuízos decorrentes da execução das novas instruções.

Pois, o transportador está obrigado ao cumprimento das novas instruções


desde que a sua execução ainda seja possível e esta não dificulte a exploração normal
da sua empresa nem prejudique os expedidores ou destinatários de outras
mercadorias.

Portanto, as novas instruções não podem ter por fim a divisão da carga e por
via disso, não podendo o transportador dar execução às instruções recebidas, disso
deve avisar imediatamente a pessoas que lhas transmitiu.

2.10.8. Direitos e Obrigações do Transportador


O transporte da mercadoria pressupõe a entrega e aceitação da mercadoria
pelo transportador (prise em charge) e constitui o primeiro acto de transporte. Ao
tomar contar da mercadoria, o transportador tem o direito e deve fazer o seu
reconhecimento (medidas, pesos, números de volumes, marcas e outros sinais) em
função das menções constantes do CMR. Se não o puder fazer, inscreverá reservas
fundamentadas no CMR e pedirá ao expedidor que as assine (art. 8º).

161Cette modification du contrat est considérée como acceptée à l’avance par le transporteur sous la
condition du paiement du prix qui sera évidemment modifié . Apud. AAV, ALFREDO PROENÇA
ESPANHA PROENÇA, – Transporte de Mercadorias, Almedina 2004,RIPERT, p. 556.

116
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Do mesmo modo, tem o direito e deve inscrever no CMR reservas
fundamentadas sobre o estado aparente da mercadoria e da embalagem, as quais
devem ser aceites expressamente pelo expedidor, por ex. rubricando-as. Mas terá de
presumir-se que as aceitou ao aceitar e ao assinar sem reservas e exemplar da
declaração e expedição com essas reservas (art. 9º).

O expedidor pode exigir-lhe que confira o peso bruto da mercadoria e verifique


o conteúdo dos volumes, cujo resultado deve ser mencionado no CMR (art. 8º, parte
final). Designadamente:

- O transportador tem o dever de custódia da mercadoria e de tomar os outros


cuidados impostos pela natureza das coisas transportadas e pelos percalços de
viagem;

- Tem o dever de atacar as contra-ordens que lhe sejam dadas


tempestivamente por quem tiver poder de disposição da mercadoria, mas tem o
direito de ser indemnizado das respectivas despesas.

- Tem o dever de fazer sem demora a entrega da mercadoria ao destinatário


logo que ela chegar ao destino e lhe for reclamada, contra o pagamento do frete e do
mais que for devido.

- Deve pedir instruções a quem tiver o poder de disposições da mercadoria se


não puder executar o transporte nas condições previstas na declaração de expedição
(art. 14º, 1). Não podendo obter a tempo essas instruções e o transporte for possível
em condições diferentes, fá-lo-á tomando as medidas que melhor se lhe afigurem
para a pessoa que tiver esse poder de disposição (art. 14º, 2). Deve ser portador dos
documentos relativos à carga e ao transporte, sendo responsável pela sua perda ou
mau uso162.

2.10.9. O Check-list

Ao tomar conta da mercadoria (prise en charge) o transportador deve verificar,


pelo menos, a exactidão das menções constates do CMR relativas ao número de
volumes, às marcas e seus números, bem como o estado aparente da mercadoria e
sua embalagem, anotando as reservas que tiver por bem e seus motivos (art. 8º, nº
1 e 2). Por vezes não será fácil ao motorista que recebe a mercadoria para o
transporte fazer reservas numa língua que não domina, assim como entender as que
já constam no CMR. E também não será fácil fazer compreender ao expedidor que
não corresponde a língua do motorista o que este quis escrever no CMR.

Para obviar a estas e outras dificuldades, a IRU (International Road Transport


Union) elaborou um formulário em que as diversas situações possíveis sobre o

162 Cfr. AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA PROENÇA, – Transporte de Mercadorias, Almedina 2004
p. 92 e 95.

117
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
estado da mercadoria e da embalagem, o veículo utilizado, as quantidades, marcas,
número de volumes, condições de carga e descarga, estiva e manutenção, são
traduzidas através de números, que vão de 1 a 18 do CMR o número ou números
correspondentes à situação ou situações concretas e acrescentar Check-list CMR
(Modelo IRU). Só assim, diz-se, essas anotações serão vinculativas.

Que saibamos, este formulário ainda não teve consagração legal. Por outro
lado, nos temos do art. 8º, 2, parte final, da convenção CMR, as reservas devem ser
movidas e só vinculam o expedidor se expressamente aceites por este no CMR. Nada
garante que o expedidor conheça o CHECK LIST e o significado de cada um dos seus
itens. Não parece, pois, que os simples números apostos pelo motorista no CMR
valham como reservas para efeitos das Convenção, nomeadamente se o expedidor
não as confirmou expressamente através da sua assinatura.

2.10.10. O Transitário e o Transporte


O transitário é um operador económico sua intervenção no mundo dos
transportes é hoje uma trave mestra e imprescindível na circulação de mercadorias
entre pontos distantes, em especial na organização do seu transporte em grupagem,
por transportadores sucessivos ou na forma de transportes combinados ou
multimodal.

Com efeito, não é fácil imaginar o mundo do transporte de mercadorias sem a


qualificada intervenção dos transitários. Hoje há transporte para todos os cantos do
mundo, por vezes na modalidade multimodal (diversos meios de transporte ou por
transportadores sucessivos), sendo indispensável uma rede de operadores que lhes
dêem sequência e apoio logístico ao longo do percurso ou se incumba, de uma forma
organizada, da expedição, recepção e distribuição das mercadorias pelos seus
destinatários, nomeadamente: quando transportadas em grupagem. É esse o papel
que o transitário vem preenchendo, com a sua rede de “correspondentes”.

Por isso, é ao transitário que o empresário se dirige para o transporte


internacional das suas mercadorias, certo de que ele lhe tratará de tudo… até do
transporte! No domínio da jurisprudência era praticamente unânime no sentido de
que o transitário que se incumbia do transporte das mercadorias que lhe eram
confiadas para execução assumia a qualidade de transportador e nessa qualidade
respondia pelas perdas e danos a ela acontecidos.

Mais recentemente a jurisprudência portuguesa, pronunciou-se no sentido dos


transitários que celebrem com os expedidores contratos de transporte de
mercadorias, directamente ou sob o recurso a terceiros, caso em que desenvolvem
a dupla e paralela actividade de transitários e de transportadores, realização por
terceiros transportadores. (…) Por outro lado, no quadro formal da sua actividade
de empresas transitárias, elas ultrapassam o respectivo objecto social e assumem

118
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
perante os seus clientes a obrigação do transporte de mercadorias, tornando-se,
assim, parte de contrato de transporte163.

Os transitários protestavam, mas de nada lhes valia. Se lhe vestiram a pele,


responderão como transportadores. E estava certo, já que se tratava de actividade
económicas distintas, aliás hoje sujeitas a licenciamentos diferentes. Porém, no
Acórdão da Relação de Lisboa de 5.4.2001, citando COSTEIRA DA ROCHA164,
reconheceu-se que, no contrato de trânsito ou expedição, o transitário assume a
obrigação de celebrar um contrato de transporte com um transportador, em nome
próprio ou do expedidor, mas sempre por conta deste165.

Pelo que, acrescenta-se, o transitário não é responsável pela boa execução do


contrato de transporte, salvo se houver convenção “del credere” . A verdade é que,
como acima se referiu, muitas vezes o transitário assumia ele próprio perante o
expedidor a obrigação do transporte da mercadoria, dele cobrando o frete e
contratando depois, com um transportador, a execução material do mesmo.

Portanto, ficou claro que o transitário pode contratar com terceiros o


transporte das mercadorias. Mas ele ficará responsável, perante o cliente, pelo
incumprimento das suas obrigações, bem como pelas obrigações contraídas por
terceiros com quem haja contratado, embora com os mesmos limites legais ou
convenção, sem prejuízo do direito de regresso (art. 723º, do CC). O que se
compreende, uma vez que o transitário deverá ter o cuidado de contratar empresas
fiáveis. A responsabilidade do transitário deverá estar coberto por seguro de
responsabilidade civil166.

O transitário desenvolverá a sua actividade nos seguintes domínios de intervenção:


a) Gestão dos fluxos de bens e mercadorias;
b) Mediação entre expedidor e destinatários, nomeadamente através de
transportadores com quem celebre os respectivos contratos de
transporte;
c) Execução dos trâmites ou formalidades legalmente exigidos, inclusive no
que se refere à emissão do documento de transporte unimodal ou
multimodal.

É uma figura cada vez mais internacional. No acordo assinado em Bruxelas em


6.12.2002, entre a Comunidade Europeia e a China sobre transporte marítimos, os

163 O acórdão do S.T.J., no Proc. nº 2370/03.7, No mesmo sentido, os Ac. S. de 14.1.93, ASTJ.I. 1-44;
17.11.94, no BMJ 441-333; de 20.5.97, in ASTJ V.2.84.
164 Apud. AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA PROENÇA, – Transporte de Mercadorias, Almedina

2004 p. 96 à 102.
165 Col.Jur.XXVI.II.102). No mesmo sentido PIRES DE LIMA E ANTUNES VARELA, no Cod. Civil. Anot.,

II, p. 704.
166 Cfr. AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA PROENÇA, – Transporte de Mercadorias, Almedina 2004

p. 96 à 102.

119
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Serviços de Transitários é definida como a actividade que consiste na organização e
controlo das operações de transporte em nome dos carregadores, através da
contratação de serviços conexos, preparação da documentação, e fornecimento de
informações comerciais.

O transportador pode receber as mercadorias a transportar nas instalações do


exportador ou nas do transitário que se incumbiu de organizar o transporte e
demais formalidades, em especial as relativas ao despacho aduaneiro. Em tais
situações, o transitário emite o F.C.R. (Forwarders Certificate of Receipt) a favor do
seu cliente, “certificando” que recebeu a mercadoria para o seu transporte (ou outro
fim) nas condições nele referidas. Contratando o transporte, ele figura geralmente
no C.M.R. (ou título correspondente ao meio de transporte concretamente utilizado),
como expedidor, sendo o transportador “identificado” por vezes apenas pela
matrícula do veículo! Como destinatário, nomeadamente no transporte em
grupagem, aparece o seu “correspondente” para a área do destino da mercadoria.
Outras vezes o transitário intervém a meio do percurso de mercadoria em trânsito,
para a receber do transportador e a reexpedir a seguir por outro meio de transporte
para o seu destino.

O transitário opera nos dois sentidos. Pode incumbir-se de promover


transporte no ponto de partida e encarregar um seu “correspondente” das
operações e formalidades de entrega da mercadoria no local do destino, ou actuar
simplesmente como “correspondente” de um transitário estrangeiro, limitando-se,
por isso, a recepcionar de um transportador a mercadoria que lhe vem consignada
e a entregá-la ou fazê-la chegar aos seus destinatários.

Entretanto, pode ainda limitar-se, à pedido do expedidor, ou do transitário


estrangeiro que contratou o transporte com o importador (venda FOB ou FOT, sigla
esta utilizada para o transporte por camião, mas hoje substituída pela FCA – Free
Carrier, segundo os INCOTERMS 2000), a tratar da expedição da mercadoria e a
fazer a sua entrega ao transportador incumbido do transporte, cessando aí as suas
funções e responsabilidades.

O transitário, agindo por conta do expedidor, mas em nome próprio, desde a


recepção à reexpedição das mercadorias, cobra uma comissão e despesas, assume o
papel de destinatário na recepção e verificação de mercadorias, cumprindo ainda as
formalidades alfandegárias, como depositário das mercadorias, com as respectivas
consequências, enquanto não forem reexpedidas167.

Ao receber a mercadoria, seja do exportador seja de um transportador, o


transitário deve verificar o estado aparente da mercadoria ou sua embalagem e
anotar as reservas que tiver por bem, sob pena de poder vir a ser responsabilizado
pelas faltas e avarias que a mercadoria acusar à descarga. Deverá ter o cuidado de

167 Vide Ac. da Relação de Lisboa de 15.10.92, in col. Jur: XVII.IV.178.

120
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
transmitir ao transportador e de fazer inserir no CMR (ou outro título) as condições
em que deverá fazer-se a entrega da mercadoria ao destinatário e demais instruções
que tiver recebido do exportador, sob pena de poder vir a ser responsabilizado pelos
prejuízos decorrentes dessa omissão168.

As mercadorias podem sair das instalações do exportador directamente para


as instalações do importador (descarga directa) ou serem dirigidas a um
“correspondente” do transitário na zona do destino. É o que geralmente acontece
nas mercadorias transportadas em regime de grupagem (agrupada no veículo
transportador, embora destinadas a vários destinatários).

Neste caso, as mercadorias passam pelas instalações do transitário ou do


correspondente, que se incumbe do fraccionamento da carga e da sua entrega aos
respectivos destinatários. O transitário deverá anotar as reservas acontecidas às
mercadorias a partir do momento em que forem por ele recebidas e ficarem à sua
guarda. Embora o transitário não seja o “dono” do transporte, isso não significa que
ele não possa encarregar-se, perante o seu cliente, da entrega da mercadoria no seu
destino, nomeadamente das que vão dirigidas ao seu correspondente. Caso em que
ele será responsável, perante o seu cliente, pelas faltas cometidas pelo seu agente ou
correspondente, designadamente pela sua entrega ao destinatário com violação das
condições estabelecidas. O que acontece com frequência.

Com efeito, ele será responsável pelos actos e omissões das pessoas de quem
se serviu para a execução da obrigação contratual assumida. Aliás, os transitários
costumam estabelecer relações comerciais duradouras ente si, operando
reciprocamente nas áreas em que ambos actuam como
mandante/correspondente/mandante. Assim, o transitário é responsável pelos
prejuízos decorrentes da entrega à transportadora da mercadoria vendida segundo
a cláusula FOB, se não cobrou o preço em conformidade com a cláusula COD
constante do FCR por ele emitido com efeito, na venda FOB, a entrega da mercadoria
ao destinatário opera-se pela sua entrega ao transportador por si contratado para o
transporte169.

A FIATA (Federação Internacional das Associações de Transitários e Similares)


tem vindo a criar e colocar à disposição dos seus associados documentos aprovados
pela Câmara de Comércio Internacional, com sede em Paris, segundo o tipo de
serviços prestados pelo transitário.

Esses documentos são o FCR (Certificado de Recepção do Transitário), pelo


qual o transitário certifica ter recebido em consignamento determinada remessa

168 Cfr. AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA PROENÇA, – Transporte de Mercadorias, Almedina 2004
p. 96 à 102.

169 Vide. Ac. da Relação do Porto, de 8.02.96, in Col. Jur., XXI.I.213.

121
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
para o fim nele especificado; o FCT (Forwarders Certificat of Transport) pelo qual o
transitário certifica ter recebido a remessa nele especificado para expedição e
entrega ao destinatário nele identificado. É um título de transporte negociável; o
FBL (Combined Transport Bill of Lading) pelo qual o transitário se incumbe e
responsabiliza pela totalidade de um transporte multimodal, ainda que acabe por
fazer-se apenas num só meio de transporte. É título negociável; o SDT (Shippers
Declartion dor the Transport of Dangerous Goods), documento destinado no seu
verso listas de produtos perigosos segundo o meio de transporte a utilizar –
classificação ADR para o CMR170.

Apresentam-se adiante o “rosto” de cada um daqueles documentos assim


como esquemas através dos quais se pretende transmitir uma ideia rápida do
desenvolvimento do transitário nas operações do transporte, segundo os
documentos por ele emitidos, se bem que estes possam não traduzir fielmente a
realidade dos factos. Assim, por trás de um FCR pode estar um verdadeiro contrato
de transporte.

Levanta-se muitas questões de Direito sobre a natureza jurídica que assume o


transitário no contrato de transporte, pois existe três orientações, tradicionais
plasmados no Código Civil, designadamente: contrato a favor de terceiro (art. 443º,
do CC), contrato para a pessoa a nomear (art. 452º, do CC) e o contrato de prestação
de serviços (art. 1154º, do CC).

Sendo certo que, existe um unânime entendimento de que o transitário assume


no contrato de transporte a figura de contrato de prestação de serviço no de termos
visado do art. 1154º, do CC. Pois não é o serviço em si que interessa ao contratante
(obrigações de meios), releva para este apenas o resultado (obrigações de
resultado), isto é, a colocação da pessoa íntegro.

Como primeira linha surge o contrato de expedição ou de trânsito, celebrado


pelo interessado ou expedidor com um transitário.

Em termos conceituais actividade transitária consiste na prestação de serviços


de natureza logística e operacional que inclui o planeamento, controlo, a
coordenação e a direcção das operações relacionadas com a expedição, recepção,
armazenamento e circulação de bens ou mercadorias171.

170 Cfr. AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA PROENÇA, – Transporte de Mercadorias, Almedina 2004
p. 96 à 102.
171 Desenvolvendo-se nos seguintes domínios de intervenção: Gestão dos fluxos de bens ou

mercadorias; Mediação entre expedidores e destinatários, nomeadamente através de


transportadores com quem celebre os respectivos contratos de transporte; e a execução dos tramites
ou formalidades legalmente exigidos, inclusive no se refere a emissão do documento de transporte
unimodal ou multimodal.

122
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Destarte, a figura do contrato desenhado na definição tem natureza mista, pois
envolve neste amplo alguns elementos de organização, de mediação, de agência e de
prestação de serviço.

Já sentido estrito, o contrato de trânsito é efectivamente um contrato de


expedição que consiste simplesmente, num mandato pelo qual o transitário se
obriga a celebrar uns (ou mais) contratos de transporte172. Todavia, a saída mais
indicada, de acordo a doutrina de MENESES CORDEIRO, reside na conclusão, com
um especialista – transitário – de um contrato especial de mandato (art. 1157º, do
CC) pelo qual, por conta do interessado, ele conclua os necessários contratos de
transporte173.

Portanto, por causa do interesse público, essa actividade torna-se uma


profissão titulada, ou actividade formalmente titulada porque o Estado intervém
neste domínio, assegurando-se de que a competente actividade só possa ser
exercida por empresas detentoras de alvará emitido pelo Ministério dos
Transportes (art. 5º, e ss., do Decreto Presidencial nº 160/10, de 30 Julho).

Pelo que, o mantado especial subjacente ao contrato de expedição pode, nos


termos gerais, ser concluído com ou sem representação (art. 258º e 262º, do CC),
pois que, as próprias empresas transitárias podem celebrar contratos de transporte
devendo, então observar devidamente as competentes cláusulas.

Porém, em sede do Direito do Comércio Internacional no plano dos


transportes, também existem duas orientações básicas nesta matéria,
designadamente:

1º - Teoria do contrato trilateral;

2º- Teoria do contrato a favor de terceiro.

A teoria do contrato trilateral, defendia pelo COSTEIRA DA ROCHA, reporta o


contrato de transporte como sendo um negócio jurídico a três, cujos sujeitos que
intervém na relação jurídica são precisamente: o expedidor, o transportador e o
destinatário. No mesmo sentido se pronunciou a generalidade da doutrina alemã, do
qual descobre no transportador, um contrato a favor do destinatário, ao qual pode
aderir, nos termos gerais do Código Civil (art. 443º, do CC)174.

172 Compreende-se a utilidade da figura, pois o interessado em determinado transporte poderá


desconhecer os operadores. Muitas vezes será necessário associar vários contratos: transporte por
terra até ao porto de embarque; transporte marítimo; transporte ferroviário; transporte rodoviário
e todas as inerentes operações de transbordo. Neste sentido vide: MENESES CORDEIRO. – Manual de
Direito Comercial, Almedina 2ª edição 2007, p. 721.
173 Ob. Cit. p. 723. E nos mesmo sentido vide JOSÉ ENGRÁCIA ANTUNES. – Direito dos Contratos

Comerciais, Almedina 2009731 e ss.


174 Apud. MENESES CORDEIRO. Manual de Direito Comercial, Almedina 2ª edição 2007, p. 724.

123
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Seja como for, neste exame existem opiniões que afastam o regime previsto
no art. 443º, do CC, mas notas a considerar, devemos concluir e de acordo os
sintomas naturais que mantem a estrutura da lei civil, propendemos na ideia de que
o transitário é um contrato de prestação de serviços tipo empreitada em regra a
favor de terceiro e dotado de um regime mercantil especializado.

Portanto, o transitário em ultima análise, tem direito de retenção sobre as


mercadorias que lhe sejam sido confiadas em consequência dos respectivos
contratos, pelo créditos deles resultantes, salvo estipulações expressas, em
contrário, e a sua responsabilidade sem prejuízo das prescrições legais (no prazo de
10 meses) a contar da data da conclusão da prestação dos serviços contratada175.

2.10.11. Os Documentos (FIATA)


Conforme tem sido objecto de referência ao longo do presente texto, a
actividade transitória está fortemente associada ao transporte internacional.

Nesse sentido, uma análise da forma do contrato de expedição não pode


conviver sem uma análise dos documentos FIATA. Assim, nos contratos de
expedição relativos a transporte internacionais, estes documentos assumem
especial destaque. Vejamos, pois, sumariamente o conteúdo dos mesmos.

FIATA FCR (Forwarders Certificate of Receipt)

Neste documento negociável, o transitário certifica ter recebido determinada


mercadoria com instruções para fazer chegar ao destinatário determinado no
documento ou para a colocar à sua disposição. Este documento tem relevo
especialmente quando tenha subjacente um contrato de compra e venda e a
obrigação de entrega da mercadoria seja concebida como obrigação de colocação
(Holschulden, detts quérables). Isto é, quando o expedidor (vendedor) apenas se
obriga a colocar à disposição do destinatário (comprador) num lugar determinado
contratualmente sendo para esse efeito contratado um transporte. Nestes casos, o
transitário age como mandatário do expedidor praticando um ato jurídico – a
entrega da mercadoria objecto de contrato de compra e venda.

FIATA FCT (Forwardes Certificate of Transport)

Este documento negociável certifica que o transitário recebeu a mercadoria


especificada naquele para, depois, a reexpedir e fazer entregar de acordo com as
instruções que nele constem. Distingue-se do FIATA FCR porque estabelece que o

175 Cfr. AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA PROENÇA, – Transporte de Mercadorias, Almedina 2004
p. 96 à 102.

124
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
transitário se encarrega de encontrar um transportador e com ele contratar a
deslocação das mercadorias.

FIATA FWR (Warehouse Receipt)

Este documento corresponde a um certificado de depósito emitido pelo


transitário quando tenha a seu cargo operações de depósito, tal como inclui uma
regulação dos direitos dos portadores por endosso do mesmo, da transmissão da
propriedade e as condições mediante as quais a apresentação deste certificado dá
direito à expedição das mercadorias.

FIAT SDT (Shippers Declaration for the Transport of Dangerous Goods)

O FIATA SDT não é emitido pelo transitário e é utilizado quando


esteja subjacente ao contrato de expedição um transporte de mercadorias perigosas.
Nestes casos, o expedidor ou carregador efectua uma declaração pela qual informa
da natureza das mercadorias para que o transitário as possa classificar segundo as
normas internacionais de transporte ferroviário, marítimo e rodoviário como
mercadoria perigosas.

FIATA SIC (Shipper Intermodal Weigth Certification)

O Shippers Internacional Weight Certification foi criado no sentido


de adaptar as actuações de transitários e expedidores ou carregadores para que
estas cumpram as exigências da legislação norte-americana, mais concretamente, o
Intermodal Safe Container Act.

FIATA FFI (Forwarding Intructions)

Este documento foi elaborado pela FIATA de modo a prosseguir uma


uniformidade entre as várias condições gerais, em especial, no que toca às
instruções do expedidor ou carregador ou transitários. Assim, é emitido por aqueles
com as instruções relativas às actividades transitárias contratadas e, eventualmente,
a forma como os actos que constituem aquelas devem ser praticados.

2.10.12. Entrega da Mercadoria. Verificação e Reserva.

A entrega de mercadoria ao destinatário é a última operação material do


transporte. Entretanto, é com a entrega da mercadoria ao destinatário no local do
destino que se considera cumprido o transporte, cessando a partir daí a
responsabilidade do transportador pela mercadoria.
Ao receber a mercadoria, o destinatário tem o direito e o dever de fazer o seu
reconhecimento com base no exemplar 2 da declaração de expedição, que lhe deve

125
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
ser entregue juntamente com a mercadoria. O destinatário deve verificar
contraditoriamente com o transportador o estado da mercadoria e anotar na
declaração da expedição ou no recibo que der as reservas sobre a natureza geral da
perda ou avaria (art. 30º, 1).

Se o destinatário não tiver feito essa verificação ou não tiver anotado reservas
sobre a natureza geral da perda ou avaria, presumir-se-á, até prova em contrário,
que a mercadoria foi recebida no estado descrito na declaração de expedição (art.
30º, 1).

O mesmo se presumirá em relação às perdas ou avarias não aparentes, se o


destinatário não comunicar as reservas por escrito ao transportador nos sete dias a
contar da entrega, não incluídos domingos e feriados (art. 30º,1). Se não tiver havido
verificação mas havido reservas, aplicar-se-á o estabelecido nos antecedentes nº 4 e
5, salvo no tocante às perdas ou avarias objecto das reservas feitas.

Se tiver sido feita a verificação contraditória da mercadoria, a prova do


contrário do resultado só poderá fazer-se em relação às perdas ou avarias não
aparentes e desde que o destinatário as tenha comunicado por escrito ao
transportador dentro de sete dias, não incluídos domingos e feriados (art. 30º, 2).

Ao acto da entrega da mercadoria pelo transportador corresponde o acto de


percepção pelo destinatário. Mas os dois actos podem não coexistir, como quando o
destinatário recusa a mercadoria e ela é validamente depositada. Caso em que
haverá entrega (depósito) sem recepção176.

Oferecendo dúvidas sobre reservas à carga os exemplares do CMR de que o


motorista é portador, deve fazer-se a sua verificação através do exemplar que ficou
em poder do expedidor177.

2.10.13. Condições da Entrega. Obrigações das Acessórias


A entrega (delivery/livraison) da mercadoria ao destinatário pode ser livre ou
condicionada.

Assim é considerada livre a entrega de mercadoria se o acto de entrega não


está condicionada pelo expedidor a quaisquer formalidades. Por seu turno é tida
como entrega condicionada de mercadoria se o acto da entrega (delivery/livraison)
estiver condicionada a instruções recebidas do expedidor, constantes de declaração
de expedição.

176 Apud. AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA PROENÇA. Ob. Cit. P.96 -102.
177 Cfr. AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA PROENÇA, – Transporte de Mercadorias, Almedina 2004
p. 104 e 105.

126
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Por essa via, o expedidor/vendedor pretende garantir o pagamento das
mercadorias vendidas. As partes geralmente convencionam essas condições de
entrega através das siglas CAD ou COD. Porém, o CAD (Cash Against Documents)
significa que foi convencionado entre o exportador e o importador o pagamento da
mercadoria através da apresentação dos documentos comprovativos da expedição
da mercadoria.

Os referidos documentos são remetidos por intermédio de um Banco a um seu


correspondente na área do destino da mercadoria, onde o importador os deverá
resgatar mediante o pagamento do preço e apresentados ao transportador contra a
entrega da mercadoria. Portanto devem ser dadas ordens expressas ao
transportador para estas condições de entrega da mercadoria.

Já o COD (Cash On Delivery), significa que foram cordado entre o exportador e


o importador que o preço da mercadoria será pago contra a entrega desta. Para que
esta cláusula vincule o transportador deverá a mesma constar do CMR, nos termos
do art. 6º, 2 da al. c), da Convenção, pelo que se por ventura o transportador
desrespeitar estas instruções, responderá nos termos do seu art. 21º, da Convenção.

Ao fazer a entrega com observância dessas condições, o transportador está


ainda a actuar no cumprimento das suas obrigações como tal. Nessa qualidade de
constitui em responsabilidade se fizer a entrega da mercadoria com desrespeito das
instruções recebidas do expedidor178.

Outra questão a ter atenção prende no momento de prestar-se a receber o


preço e a entrega-lo ao expedidor, o transportador, nesta caso particular esta
prestar um serviço acessório que a Convenção ainda situa no âmbito do contrato de
transporte (que deveria ter sido percebido pelo transportador em virtude das
disposições do contrato de transporte).

Não o faz pois no cumprimento de um “mandato” e a sua obrigação de


indemnizar situa-se ainda no incumprimento do contrato de transporte, se bem que
às obrigações do transportador possam aplicar-se, subsidiariamente, as disposições
relativas ao mandato previsto no art. 1157º, e ss., do CC.

Para que o transportador esteja obrigado, em razão do contrato, à observância


daquelas cláusulas, não basta que elas constem da factura ou dos demais
documentos relativos ao contrato determinante do transporte, a que o
transportador é e deve manter-se estranho. É necessário que isso conste
expressamente das instruções dadas ao transportador e, havendo declaração de
expedição, que dela constem (art. 6º, nº 2-c).

178Vide. Ac. da Relação do Porto, de 27.11.95, in Col. Jur. XX.V.2010; ac. do S.T.J., de 23.3.93, in CJ/ASTJ
I.II.16).

127
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
A entrega da mercadoria com desrespeito das instruções recebidas do
expedidor para entrega constitui o transportador em responsabilidades, por
incumprimento do contrato de transporte, nos termos gerais ou do art. 21.º referido
quanto à obrigação do reembolso. A obrigação do transportador tem como o limite
o montante reembolso que ele devia ter recebido do destinatário, não se lhe
aplicando o disposto no art. 23º, da Convenção179.

O pagamento efectuar-se-á contra o resgate dos documentos no Banco


correspondente da mercadoria. Ao transportador incumbe apenas verificar se os
documentos apresentados são os que constam do CMR, ou aqueles que lhes foram
referidos pelo expedidor, sem cuidar de saber se o pagamento foi, ou não
efectivamente feito.

Aliás, em vez do pagamento, pode ter sido simplesmente acordada a prestação


de uma garantia. Há portanto o incumprimento contratual do transportador que
aceita, para pagamento de mercadoria, um cheque particular, sacado pelo
importador, quando se estipulara no contrato com o exportador que a mercadoria
só seriam entregues contra cheque bancário. Os cheques bancários são aqueles em
que o sacador é também um banqueiro, tendo, por isso, a cobertura garantida pela
própria solvabilidade de emitente180.

2.10.14. Carga Completa e em Grupagem. Descarga Directa

Na carga completa o transportador coloca à disposição de um único expedidor


a totalidade da capacidade do veículo. No transporte em grupagem, as mercadorias
destinadas a vários destinatários são agrupadas, geralmente por um transitário,
numa só carga. Depois, são “desagrupadas” nas instalações do transitário de destino

179(ac. da Relação do Porto, de 5.03.91, in Col. Jur. XVI.II.233. Importa referir que, a prepósito do art.
21.º, da Convenção que há erro de tradução na versão portuguesa, ao escrever-se “salvo se proceder
contra o destinatário” em vez de “sem prejuízo da sua acção contra o destinatário” (without prejudice
to his right of action against the consigner”. Acção do expedidor, que não do transportador (cf. ac. da
relação do Porto, de 4.5.92, in Col. Jur. XVII.III.277). veja a jurisprudência portuguesa: Ao vender as
mercadorias à (…) a autora apôs a esse contrato a cláusula C.A.D (Cash against documents) o que
significa o pagamento contra a apresentação dos documentos. A mesma autora procedeu ao desconto
da remessa documentária (os originais das facturas e dos títulos de transporte) no Banco (…) e, por
sua vez, este enviou esses documentos para o Banco correspondente (…), por seu lado, a autora
recomendara expressamente à ré que esta só entregaria a mercadoria (…) contra a apresentação por
esta dos referidos originais da facturas e dos títulos de transporte (os C.M.R.) (…) essa cláusula está
implicitamente inserta no contrato de transporte internacional rodoviário, pois, estabelecendo o art.
21.º da referida Convenção a obrigação do transportador só entregar as mercadorias contra o seu
pagamento (…), se assim não fosse ficaria frustrada a inclusão daquela cláusula C.A.D. – lê-se no ac.
de 3.3.93 do Supremo Tribunal de Justiça, in Col. Jur./ASTJ, I-II, p 18.
180Cfr. AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA PROENÇA, – Transporte de Mercadorias, Almedina 2004

p.105 - 08 . Vide também o Ac. da Relação do Porto, in Col. Jur. XX.III.208). Var, a propósito, a rubrica
meios de pagamentos.

128
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
e por ele entregues aos seus destinatários. É óbvio que o transporte será contratado
pelo transitário.

Na descarga directa, a mercadoria é carregada na fábrica do expedidor e segue


directamente para o destinatário, sem interferência de outros operadores. Mas pode
acontecer que, não se tratando de carga completa, o camião passe pelas instalações
do transitário para ai descarregar outra mercadoria. Neste caso, o camião terá de
ser desselado sob a responsabilidade do transitário.

2.10.15. Meios de Pagamentos


Os operadores envolvidos na execução do transporte nem sempre têm ideias
claras sobre os meios de pagamentos utilizados nas transacções internacionais,
acabando por vezes por aceitar cheques pessoais do importador na convicção de
tratar-se de cheques bancários ou internacionais. Razão de lhes fazermos uma breve
referência.

Se assim estiver acordado entre o vendedor e o comprador, o pagamento


poderá ser feito através de cheque pessoal do comprador, por ele emitido sobre o seu
banco.

O cheque traduz uma ordem dirigida ao Banco para que pague ao seu portador
a quantia nela mencionada. A menos que se trate de cheque visado, com retenção de
fundos, o cheque não garante só por si o pagamento. Para tanto, necessário é que o
sacador tenha provisão na sua conta bancária no momento da apresentação a
pagamento. E pode haver a surpresa de uma contra-ordem ao banco.

O cheque bancário é emitido, a pedido do importador/devedor, pelo seu banco


sobre si mesmo ou uma sua sucursal ou dependência noutra praça. (cheque directo)
ou sobre outra entidade financeira onde ele tenha fundos (cheque directo). Salvo a
sua perda ou falsificação, é um meio seguro de pagamento. Se o cheque é emitido
sobre um Banco estrangeiro, o cheque diz-se internacional.

Outras formas de pagamento consistirão na transferência bancária de fundos.


A pedido do importador, o seu Banco solicita ao seu correspondente a transferência
de fundos para a conta do credor/exportador. Ou na ordem de pagamento
documentário ou simples, pela qual o importador dá instruções ao seu Banco para
que ele, ou através de um seu correspondente, pague ao exportador o seu crédito,
mediante a apresentação ou não de algum documento… No crédito documentário, o
importador negocia com seu Banco a abertura de um crédito a favor do exportador
e que o mesmo se obriga a pagar-lhe, por si ou por um seu correspondente, ante a
apresentação dos documentos comerciais relativos à operação, no prazo e na forma
estabelecidos no contrato. Por esta via, o Banco garante ao importador a certeza
documental de que o exportador cumpriu as suas obrigações contratuais e ao
exportador a certeza de que receberá o seu crédito.

129
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário

2.10.16. Direito à Entrega e Direito à Indemnização

Entretanto, como se já viu o credor do direito à entrega da mercadoria é o


destinatário mencionado na declaração de expedição. O destinatário é aquele que
mencionado no título. Todavia, no contrato de transporte internacional de
mercadorias por estrada, submetido à convenção C.M.R., o destinatário tem
legitimidade para exercer duas acções contra o transportador, designadamente:
acção de execução específica referente à entrega da mercadoria (art. 839º, CC e a
acção declarativa de à indeminização por perda e danos (total ou parcial) das
mercadorias (art. 798º, CC)181.

Com efeito, o art. 13º, 1, da Convenção CMR estabelece que, no caso de perda
da mercadoria ou depois de expirado o prazo a sua entrega, o destinatário fica
autorizado a fazer valer em seu próprio nome, para com o transportador, os direitos
que resultam do contrato de transporte. Portanto também o direito à indemnização.

Quanto ao direito à entrega da mercadoria, não oferece dúvidas que o


consignatário ou destinatário é “el acreedor” e, portanto, é ele quem o poderá
exercer, legitimado pelo título. E, em princípio, sendo ele “o credor” da mercadoria,
terá ele direito às acções que decorram de perdas, extravios ou avarias.

Na verdade, com a entrega da mercadoria por parte do transportador e a sua


recepção pelo destinatário (ou o seu depósito, nos casos em que isso for possível)
conclui-se a fase executiva do contrato de transporte. Mas não se esgotam aí, pois,
as suas responsabilidades por inexecução, ou execução defeituosa do contrato. Caso
em que o titular do direito à indemnização será o “lesado” por aqueles actos ou
factos do transportador, ou seja a pessoa em cuja esfera jurídica se projectaram
directamente os efeitos danosos da inexecução.

O simples consignatário, que não é simultaneamente o dono da coisa


transportadora, carece de legitimidade, porque não é o titular do direito à
indemnização, para exercer a correspondente acção. Na base da referida disposição
está o pressuposto de que o destinatário reúne as duas qualidades182.

Nem doutro modo poderia ser no transporte em grupagem, em que as


diversas mercadorias vêm dirigidas a um único consignatário, regra geral um
transitário ou um agente do transportador e que não têm outro interesse que não
seja o de receberem a mercadoria e dela fazerem entrega aos seus donos. Sendo que
ao transportador é indiferente a pessoa do demandante, desde que seja o titular do

181 Vide Ac. de 19.05.87, in col. Jur., XII, 3 pp. 209.


182 Neste sentido pode invocar-se o Ac. da Relação do Porto de 23.06.87, na col. Jur: XII.3, p. 209, assim

como o da mesma Relação no Proc. 24.135 da 1ª Secção ( ao que supomos inédito), segundo o qual
“ser-se tão somente destinatário, nos termos da Convenção CMR, despido da veste de dono da
mercadoria, não absorve nem esgota toda a relevância jurídica dessa circunstância provinda.”

130
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
direito lesado e portanto o credor do direito de indemnização por incumprimento
contratual.

Porém, em virtude dos poderes de legitimação que lhe são conferidos o


transitário ou destinatário poderá exercer em seu nome os direitos que couberam
aos donos das mercadorias, assim com tomar outras providências no interesse dos
mesmos183.

2.10.17. Causas de Incumprimento, a Perda, a Avaria e o Atraso

Como asseveramos de ponto de vista histórico que Código de Hamurabi


(XXIII séc. A.C.), rei da 1ª dinastia da Babilónia, já estipulava normas sobre
responsabilidade do afretador, abalroação e construção naval, enquanto o Código de
Manu (XIII séc. A.C.), elaborado por hindus, continha normas sobre câmbio
marítimo. Cite-se, outrossim, as Leis de Rodes, as quais já abordavam questões
relacionadas à naufrágios, espécies de fretamento, dentre outras, e exerceram
grande influência na Antiguidade, inclusive sobrepondo-se eventualmente à “leis”
de imperadores arbitrários.

Todavia, o transportador é responsável pela mercadoria desde que a recebeu


para o transporte (prise en charge) até à sua entrega no local do destino, no mesmo
estado e quantidade em que a recebeu. Ao interesse (expedidor ou destinatário)
bastará a prova de que fez a entrega da mercadoria ao transportador e que este não
a entregou no destino ou que a entregou com avarias. Ao transportador incumbirá
a prova de qualquer circunstância que o isente de responsabilidade pelo acontecido
ou seja limitativa da sua responsabilidade.

Configuram-se no instituto de incumprimento ou comprimentos defeituoso


das obrigações pelo transportador a não entrega da mercadoria, a entrega com
avarias, a entrega com atraso. A não entrega pode ser devida a perda, destruição,
morte do animal, extravio, retenção, arresto, penhora ou por qualquer outro acto da
autoridade ou de terceiro. Ao transportador incumbirá a prova de que a não entrega
aconteceu por facto estranho à sua vontade e por qualquer dos motivos referidos no
art. 17º, da Convenção. Ora bem, do disposto nos arts. 17º e 18º da Convenção,
resulta que o transportador pode ficar isento de responsabilidade nos casos de
perda ou avaria ali previstos ou ver a sua responsabilidade limitada ao montante
estabelecido no nº 3 do art. 23º, da Convenção.

Todavia, como obviamente se destaca nos termos do nº 2 do art. 17º, da


Convenção enumera causas de perdas, avarias ou demora exonerativas da
responsabilidade do transportador, ou porque são imputáveis ao expedidor ou ao

183Cfr. AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA PROENÇA, – Transporte de Mercadorias, Almedina 2004
p.117 a 119.

131
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
destinatário, ou a vício próprio da mercadoria ou a circunstâncias insuperáveis na
suas causas ou efeitos.

Por seu turno, o nº 4 do já citado preceito do art. 17º, da Convenção prevê


casos particulares de risco e o seu nº 5 causas só em parte imputáveis ao
transportador.

A perda consiste no desaparecimento físico da coisa transportada, seja por


evaporação, derrame, troca com outra, esquecimento em local desconhecido,
desaparecimento no decurso da viagem, ou a sua destruição por acidente ou
incêndio, raio, explosão, etc. A não entrega da mercadoria por extravio ou
descaminho pelo exportador ou pessoas utilizadas no transporte não se enquadra
na figura da perda ou terá de haver-se como perda dolosa para efeitos de
indemnização. Doutro modo, estaria a fomentar-se o extravio da mercadoria sempre
que disso o transportador pudesse tirar vantagem económica. Aliás, ao
transportador incumbirá a prova da perda e das circunstâncias em que ela
ocorreu184.

Na verdade, nos termos do art. 29º, da Convenção, o transportador só não


poderá prevalecer-se das disposições que excluem ou limitam a sua
responsabilidade ou que transferem o encargo da prova se o dano provier de dolo
seu ou do pessoal a que recorreu para a execução do transporte, ou de falta que lhe
seja imputável e que, de acordo com a lei da jurisdição chamada a julgar o acaso, seja
equivalente ao dolo.

Trata-se de uma norma de evidente protecção do transportador, no âmbito


do princípio, dominante em matéria de transportes internacionais de mercadorias,
da responsabilidade do transportador, temperando pelo da sua exclusão ou
limitação nos caos previstos185.

Ao alargar a “perda” a todas as situações de falta ou não entrega da


mercadoria no seu destino e ainda sobre o “credor” o encargo da sua prova, cai-se
numa presunção de perda para toda e qualquer situação, dispensando o
transportador de fazer a prova de que isso mesmo aconteceu. O que é errado e

184 Não é esta a jurisprudência do STJ, que entende que o conceito de perda da mercadoria é
heterogéneo, abrangendo as situações de destruição por acção interna (evaporação e combustão) ou
externa (incêndio, furto), substituição por outra ou entregue em lugar diverso ou falta de entrega
dentro dos 30 dias seguintes ao prazo convencionado, recaindo sobre o credor o dever de mostrar
que essa perda ocorreu (ac. de 11.3.99, in revista 97/99 da 2ª Secção, que remete para o de 3.20.94,
in ASTJ de 1994.III.80; ac. de 17.5.2001, in ASTJ IX.II.91).
185 Mas este princípio vem sendo contestado e já não enforma as Regras de Hamburgo (transportes

marítimo), que certamente por isso, ainda não entraram em vigor por falta das indispensáveis
ratificações. Como salienta Carlos Oliveira Coelho, a verdadeira normativa da Convenção de
Hamburgo consiste na afirmação da responsabilidade plena do transportador com base na ideia de
presunção de culpa da sua parte ou, noutra designação equivalente, responsabilidade de pleno
direito por parte do transportador marítimo (Jurisprudência e Direito Marítimo), p.101.

132
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
perigoso, porque estimula a fraude e nas mais das vezes o destinatário não tem
qualquer possibilidade de fazer a prova do contrário.

Quer dizer, pois, que esta interpretação deve ser mitigada sob dois aspectos:

a) Fazendo recair sobre o transportador o ónus de provar a perda efectiva


da mercadoria e as respectivas circunstâncias, se essa é a razão por ele
invocada para não cumprir o contrato;

b) Equiparando ao dolo a negligência grosseira (faute lourde, de que falam


os franceses), como seja o caso do furto da mercadoria do camião
deixando abandonado na via pública durante todo um fim-de-
semana186.

Com efeito, nos termos do seu nº 2, do art. 17º, da Convenção, o transportador


não responderá pela perda, avaria ou atraso se tiveram por causa uma falta do
interessado, uma ordem deste que não resulte de falta do transportador, um vício
próprio da mercadoria ou circunstâncias que o transportador não podia evitar e
cujas consequências que o transportador não podia evitar e obviar.

Contempla-se, nesta parte final, a situação de caso fortuito ou de força maior


para o qual o transportador não haja contribuído culposamente. Competirá ao
transportador a prova do facto exonerativo da sua responsabilidade e do respectivo
nexo de causalidade. Nos termos do seu nº 3, o transportador não pode alegar, para
se desobrigar da sua responsabilidade, nem defeitos do veículo de que se serviu para
efectuar o transporte, nem faltas da pessoa a quem alugou o veículo ou dos agentes
desta.

O interessando poderá considerar a mercadoria como perdida quando a


mesma não tiver sido entregue dentro dos 30 dias seguintes ao termo do prazo
convencionado, ou, na sua falta, dentro dos 60 dias seguintes à entrega da
mercadoria ao cuidado do transportador (art. 20º, n.º 1).

A Convenção equipara à perda a não entrega nos ditos prazos. Fá-lo em


benefício do destinatário da mercadoria, que poderá ou não socorrer-se dessa
faculdade. Esta faculdade pressupõe que não foram dadas contra-ordens ao
transportador sobre o destino ou o destinatário da mercadoria, pois que, doutro
modo, haveria colisão de direitos.

Neste caso, o interessado deverá ser imediatamente indemnizado e terá o


direito de reclamar a mercadoria se ela aparecer no decurso do ano seguinte ao

Cfr.. Ac. do STJ de 3.05.2001, no Proc. 1142/016; Cfr. Ac. do mesmo STJ de 17.5.1984, in Bol. 337-
186

373.

133
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
pagamento, contra o pagamento dos créditos resultantes da declaração de
expedição e a restituição da indemnização recebida e pagamento de outras
despesas, mas com reservas do direito à indemnização pela demora na entrega, nos
termos dos arts. 23º e 26º nº 2 a 4, da Convenção187.

3.10.18. Outras Causas de Exclusão

Tal como prescreve o nosso Código Civil sobre esta matéria de exclusão da
culpa pela responsabilidade pelo risco (art. 505º, do CC), dispõe o nº 4 do art. 17º,
da Convenção que o transportador não responderá pela perda ou avaria que resultar
dos riscos particulares inerentes a um ou mais factos seguintes:

a) Uso de veículos abertos e não cobertos com encerado, quando este uso foi ajustado
de maneira expressa e mencionada na declaração de expedição.
b) Falta ou defeito de embalagem quando às mercadorias que, pela sua natureza,
estão sujeitas a perdas ou avarias quando não estão embaladas ou são mal
embaladas;
c) Manutenção, carga, arrumação ou descarga da mercadoria pelo expedidor ou pelo
destinatário ou por pessoas que actuem por conta do expedidor ou do destinatário;

Natureza de certas mercadorias, sujeitas, por causas inerentes a essa própria


natureza, quer a perda total ou parcial, quer a avaria, especialmente por fractura,
ferrugem, deterioração interna e espontânea, secagem, derramamento, quebra
normal ou acção de bicharia e dos roedores.

Insuficiência ou imperfeição das marcas ou dos números dos volumes.

Transporte de animais vivos.

O nº 5, prevê a situação de os danos terem contribuído factores atributivos da


responsabilidade do transportador e factores exoneractivos, estabelecendo-se que
a responsabilidade será repartida na proporção da contribuição de uns e outros. As
causas de irresponsabilidade do transportador, enumeradas no nº4 do art.17º, têm
de ser “lidas” em conjunto com o disposto no art. 18º, da Convenção.

2.10.19. Ónus da Prova, Presunções e Contraprova

Compete ao transportador a prova da ocorrência, no caso concreto, de um ou


mais dos referidos riscos particulares. Por ex., a falta ou defeito de embalagem.

Mas essa prova não chega. Terá ainda de estabelecer uma forte probabilidade
de um nexo de causalidade entre o risco invocado e a perda ou avaria, ou seja que,

187Cfr. AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA PROENÇA, – Transporte de Mercadorias, Almedina 2004
p.119 - 123.

134
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
ante as circunstâncias do caso concreto, a perda ou avaria podia ter resultado desse
risco. Feita essa dupla prova, presumir-se-á que assim foi, ou seja, que a perda ou
avaria teve por causa o risco invocado. Mas o interessado poderá fazer a prova do
contrário. Importa ainda referir que:

a) A presunção não se aplicará ao caso previsto na alínea a) do nº4 do art.17º,


se houver falta de uma importância anormal ou perda de volumes.

b) Não haverá isenção da responsabilidade do transportador previsto no art.


17º, nº 4, alínea d), se o transporte for efectuado por meio de veículo
equipado de maneira a subtrair as mercadorias aos efeitos da alteração do
meio ambiente, a não ser que prove que foram tomadas todas as medidas
que lhe competiam quanto à escolha, manutenção e uso do equipamento e
acatou as instruções especiais que lhe foram dadas. Ou seja o vício próprio
não é exonerado da responsabilidade do transportador, se o transporte foi
feito em veículo equipado para o efeito (carnes frescas, produtos congelados
e outros que poderão ser alterados pela varação da temperatura ou
humidade ambiente). O uso de um veículo nessas circunstanciais importará
certamente um custo mais elevado e terá sido escolhido em atenção a essas
circunstâncias (um veículo Isotérmico, por ex.). Não se justificaria, pois que
não obstante, o transportador continuasse a beneficiar de uma isenção que
é concedida em função do risco particular que se pretendeu acautelar
através de um veículo equipado para o efeito. Todavia, o transportador
ficará isento de responsabilidade se provar que tomou as medidas
adequadas à escolha, manutenção e uso do equipamento e que acatou as
instruções especiais que lhe tiveram sido dadas. O princípio será aplicável,
por analogia, aos casos de veículos especialmente adaptados ao transporte
de produtos delicados (vidros, cerâmicas finas, obras de arte) cujos riscos se
pretenderam acautelar por essa via.

c) No tocante ao transporte de animais vivos, o transportador só beneficiará


da isenção estabelecida na alínea f) do art. 17º, se provar que tomou todas
as medidas que normalmente lhe competiam e que acatou as instruções
especiais que lhe tenham sido dadas.

2.10.20. Perda da Mercadoria. Indemnização e seu Limites

A indemnização por perda, total ou parcial da mercadoria, será calculada


segundo o valor da mercadoria no lugar e época em que foi aceite para transporte
(art. 23º, nº 1). O valor da mercadoria será determinado pela cotação na bolsa, na
sua falta pelo preço corrente no mercado e, na falta de um e outro, pelo valor usual
das mercadorias da mesma natureza e qualidade (art. 23º, nº 2).

135
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Todavia, a indemnização não poderá ultrapassar 8,33 unidades de conta por
quilograma de peso bruto em falta, sendo esse valor convertido na moeda nacional
do Estado onde se situe o tribunal onde pender o litígio com base no valor dessa
moeda na data do julgamento ou na adoptada de comum acordo pelas partes. A
unidade de conta correspondente ao Direito de Saque Especial (D.S.E) instituído
pelo F.M.I., com cotação no Banco Nacional de Angola.

Havendo, tal caso, lugar ao reembolso do preço do transporte, dos direitos


aduaneiros e de outras provenientes do transporte, na totalidade ou na proporção
da perda ocorrida (nº 4, do art. 23º).

Não serão devidas outras indemnizações de perdas e danos, a menos que


tenha havido declaração do valor da mercadoria no CMR ou de juros especial na
entrega, nos termos dos art. 24º e 26º, da Convenção. Em caso de perda da
mercadoria, por mera culpa do transportador, e não tendo havido declaração do
valor da mercadoria ou do juro especial na entrega, a indemnização devida pelo
transportador tem os limites fixados no art. 23º, da Convenção e o juro de mora é o
previsto no art. 27º, nº 1, da Convenção188.

Trata-se, a nosso ver, de caso de perdas não imputáveis ao transportador a


título de dolo ou negligência grosseira (faute lourde). Se as perdas lhe for imputável,
ou no caso de extravio, não se justificariam tais limites, pois que isso representaria
um estímulo ao não cumprimento do contrato pelo transportador e à entrega da
mercadoria só quando lhe conviesse189.

2.10.21. Avaria, Indemnização e Limite

Consiste a avaria numa deterioração da coisa transportada, seja na sua forma


ou substância, seja na alteração das suas qualidades ou propriedades. Não é havida
como perda a avaria que fez perder à coisa a utilidade económica a que se destinava
ou todo seu valor comercial, se bem que, para efeitos de indemnização, as situações
sejam equiparadas.

A indemnização corresponderá ao valor da depreciação segundo o valor da


mercadoria no lugar e época em que for aceite pelo transportador, calculado pela
cotação na bolsa, pelo valor corrente ou pelo valor usual das mercadorias da mesma
natureza e qualidade (art. 23º, 1 e 2).

Haverá ainda lugar ao reembolso do preço do transporte e demais despesas,


nos termos acima referidos para a perda da mercadoria (art. 23º, 4). A indemnização

188 Vide Ac. do STJ de 17.5.2001, in ASTJ IX.II.91.


189Cfr. AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA PROENÇA, – Transporte de Mercadorias, Almedina 2004
p.123 - 126 . vide. Ac. do S.T.J. de 25.10.93, considerou não abrangido pelo limite do n.º5 do art. 23º
a retenção ilícita da mercadoria, sendo “problemático” que pudesse beneficiar mesmo que tivesse
agido apenas com culpa (CJ/ASTJ I.III.88).

136
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
tem como limites a que seria devida em caso de perda, total ou parcial, da
mercadoria, nos termos do art. 25º, 2, da Convenção.

2.10.22. Atraso na entrega. Indemnização

O atraso na entrega da mercadoria pode causar danos à mesma (por ex. a sua
deterioração por fermentação), pelos quais o transportador será responsável, nos
termos do art. 25º, nº 5. E importar outros prejuízos para o destinatário, como seja
a de não ter podido dar à mercadoria o uso, ou feita a reparação a que se destinava.

É a estes prejuízos que se refere o nº 5 do art. 23º da Convenção, ao quais


terão como limite indemnizatório o preço do transporte, salvo se, no CMR, tiver sido
declarado juros especial na entrega, nos termos do art. 26º, da Convenção. Este
limite não se aplica ao caso de retenção ilícita da mercadoria190. Aliás, o interessado
poderá dar a mercadoria como perdida se a mesma não lhe tiver sido entregue nos
30 dias seguintes ao termo do prazo convencionado ou, na sua falta, dentro dos 60
dias seguintes à entrega da mercadoria ao transportador (art. 20º).

A indemnização será calculada nos termos estabelecidos no art. 23º da


Convenção. Já se viu que o destinatário poderá reclamar a mercadoria se a mesma
aparecer durante o ano seguinte ao pagamento da indemnização e ele tiver pedido
por escrito para ser avisado disso. A mercadoria deverá ser reclamada nos 30 dias
seguintes ao aviso, contra o pagamento dos créditos resultantes da declaração de
expedição e a devolução da indemnização que tiver recebido, mas com direito a ser
indemnizado nos termos previstos nos arts. 23º e 26º, se for caso disso (art. 19º, 2 e
3). Na falta daquele pedido ou de reclamação da mercadoria nos 30 dias seguintes
ao aviso ou se esta só aparecer decorrido mais de um ano, o transportador poderá
dispor dela em conformidade com a lei do lugar onde ela se encontrar (art. 19º, nº,
4).

Para que haja lugar a indemnização, terá de haver reservas escritas no prazo
de 21 dias a contar da colocação da mercadoria à disposição do destinatário (art.
30º, 3). Uma Empresa especializada em transportes rápidos internacionais, tendo
assumido o compromisso de entrega de mercadoria em certo prazo, não pode
justificar o atraso invocando dificuldades provenientes do peso ou da inexistência
de entregas ao fim de semana no local do destino191.

2.10.23. Impossibilidade de Execução do Transporte de Venda da Mercadoria

190Vide o Ac. do STJ de 25.10.93, in CJ/ASTJ I.III.88.


191Cfr. AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA PROENÇA, – Transporte de Mercadorias, Almedina 2004
p.126 -128. Vide. O Ac. da Relação de Lisboa, de 14.3.96, in col. Jur XXI.II.81.

137
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Pode acontecer que, por circunstância supervenientes, a execução do
transporte se torne impossível. Essa impossibilidade pode ser absoluta ou relativa,
consoante o não possa ser nas condições acordadas no contrato ou noutras ou possa
ser noutras condições. A impossibilidade pode surgir antes ou depois de mercadoria
ter chagado ao seu destino. Essa impossibilidade pode justificar a venda da
mercadoria pelo transportador.

2.10.24. Juros Moratórios

Nos termos do art. 27º da Convenção, o interessado pode pedir os juros da


indemnização. Estes juros, calculados à taxa de 5 por cento ao ano, contam-se desde
o dia em que a reclamação for dirigida por escrito ao transportador, ou seja, se houve
reclamação, desde o dia em que intentou acção judicial. Contrariando este preceito
da Convenção, alguma jurisprudência vem decidindo que, entre nacionais, será de
aplicar o direito interno (angolano) e não a Convenção CMR no respeitante à taxa de
juros moratórias192. No sentido de que, por ser imperativa a taxa de juros de 5%
estabelecida no nº1 do art. 27º e ser especial em relação à disposição do art. 559º,
do CC, só pode ser reclamado juro àquela taxa193.

2.10.25. Matérias Perigosas. Transporte

Já vimos que o expedidor deve, na declaração da expedição, mencionar as


mercadorias perigosas pela sua denominação corrente, assinalando ao
transportador a natureza exacta do perigo que apresenta e as precauções. Ora bem,
se o transportador não o fizer, ele ficará responsável pelas despesas e prejuízos
decorrentes da sua entrega ao transportador ou do seu transporte e as mercadorias
poderão ser descarregadas, destruídas ou tornadas inofensivas pelo transportador,
em qualquer momento e lugar, sem nenhuma indemnização (art. 22º,2).

Assim, competirá ao expedidor ou ao destinatário apresentar prova de que,


não obstante omissão, o transportador teve conhecimento da natureza exacta do
perigo que apresentava o transporte da mercadoria (art. 22º,1).

2.10.26. Transportadores Sucessivos e Combinados. Sub-contrato

Em relação ao expedidor e ao destinatário, consideram-se uma só o transporte


que for executado sob o mesmo contrato por transportadores sucessivos, caso em
que, nas suas relações, tomam a posição de expedidor/ transportador subsequente.
Cada um dos transportadores sucessivos deve dar recibo datado e assinado àquele

192Vide. Ac. da Relação de Lisboa, de 16.6.92, in Col. Jur., XVII, III. 209 e 211.
193Pode ver-se o Ac. da Relação do Porto, de 04.05.92, in Col. Jur. XVII.III.277 e 279. O ac. do S.T.J. de
23.3.93, in CJ/ASTJ. I.II.16, decidiu que é devida apenas a taxa de 5% nas indemnizações e moeda
estrangeira, mas que, quando em moeda portuguesa, o princípio rebus sic stantibus justifica a
aplicação da taxa em vigor no direito interno no caso kwanza..

138
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
de quem recebe a mercadorias e indicar no 2º exemplar do CMR o seu nome e
morada, anotado neste e no recibo as reservas que competem ao transportador (art.
35º).

Os transportadores sucessivos assumem individualmente a responsabilidade


total pelo transporte e o interesse poderá demandar, em conjunto ou
separadamente, o primeiro e o último transportador e aquele em cujo transporte se
produziu a causa da parada, da avaria ou demora (art. 36º).

Sem prejuízo de, nas relações internas, responder o responsável pelo facto
determinante da indemnização. Se for mais que um, cada um deles responde
proporcionalmente à sua responsabilidade no acontecido ou, não sendo possível
essa avaliação, em função da parte da remuneração do transporte que a cada couber
(art. 37º).

Não se considera sucessivo o transporte que é efectuado em camião carregado


que é transportado em parte do trajecto noutro meio de transporte: - ex. carregando
um ferry boat ou em caminho de ferro, sans rupture de charge, ou seja sem o seu
fraccionamento ou descontinuidade. Se a perda, avaria ou demora tiver sido
provocada durante essa parte do trajecto, a responsabilidade do transportador será
determinada segundo as regras aplicáveis ao respectivo meio de transporte (art. 2º)

Se foram múltiplos os transportadores não subordinados ao mesmo contrato,


cada qual responderá individualmente segundo as responsabilidades que lhe
couber e de acordo com as regras aplicáveis ao respectivo meio de transporte.

Questiona-se quem responde para com o destinatário, por incumprimento do


contrato, no caso de o transporte ter sido subcontratado por quem o contratou com
o expedidor ou o destinatário. Há decisões no sentido de que os subcontratados são
estranhos à relação de transporte estabelecida com o expedidor ou o destinatário e
respondem apenas para com quem os subcontratou.

Celebrado com uma empresa um contrato de transporte de mercadorias do


estrageiros para Portugal e tendo esta subcontratado com outra realização de frete,
não tem autora (destinatária da mercadoria) acção directa contra a empresa
subcontratada que falhou ao cumprimento do contrato. Ao aceitar executar o
transporte, o subcontratado assume (adere a) uma obrigação alheia e fica obrigado
a cumpri-la nos mesmos termos que a entidade que contratou o transporte,
designadamente a entregar a mercadoria no local de destino nos mesmo termos em
que a recebeu e com direito a cobrar do destinatário o frete que for devido e demais
despesas causadas pelo transporte. Porém, fá-lo ao abrigo de outro contrato, a que
o expedidor foi alheio. Diferentemente já poderá pôr-se o problema em relação ao
destinatário, perante quem está obrigado a fazer a entrega da mercadoria recebida
e, eventualmente, a receber deste o respectivo frete. Para além disso e se for o caso,
sempre o expedidor poderá lançar mão da acção sub-rogatória, para fazer valer

139
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
contra os subcontratado os direitos de indemnização do transportador com quem
contratou o transporte194.

Pode configurar um caso de subcontrato a situação em que o semi-reboque


(trailer) em que a mercadoria foi carregada e é transportada não pertencer à mesma
entidade do veículo tractor. Um contratou e carregou e outro, por mando daquele,
fez o transporte. Caso em que ambos intervieram na execução do contrato. Diferente
será o caso de o responsável pelo veículo tractor fazer o transporte de sua conta e
responsabilidade em reboque ou semi-reboque por el tomado de aluguer para
efeito.

Com vista ao descongestionamento das estradas, a CEE tem estimulado o


desenvolvimento dos transportes combinados entre os seus Estados-membros, de
forma a integrar no transporte combinado por via marítima os percursos iniciais e
finais do trajecto rodoviário195.

2.10.27. Reclamações e Acções

O destinatário deve, ao ser-lhe entregue a mercadoria, fazer a verificação


contraditória com transportador do estado aparente da mercadoria, anotando no
CMR (ou no recibo que delas der ao transportador) as reservas que tiver por bem.
Se o não fizer, presumir-se-á que a mercadoria lhe foi entregue no estado aparente
em que o transportador a recebeu. Feita a verificação contraditória, não será
possível a qualquer das partes fazer posteriormente prova contrário do resultado
da verificação. Por conseguinte, se não houver verificação contraditória mas houver
reservas escritas, a referida presunção não se verificará.

Relativamente aos danos não aparentes, o destinatário dispõe de sete dias, não
incluído os domingos e feriados, para comunicar por escrito ao transportador as

194 Vide. Ac. Relação de Coimbra, de 10.11.92, in Col. Jur. XVII. V. 46). O acórdão anterior veio a ser
revogado pelo do S.T.J. de 21.10.93, em que se decidiu que Em contrato de transporte seguindo de
subcontrato, o primeiro contraente não pode valer-se da acção directa para exigir a responsabilidade
extracontratual ao sub-contraente. Mas já pode agir contra este, ao abrigo do princípio da eficácia
externa das obrigações, desde que se verifiquem todos os pressupostos da responsabilidade civil exigidos
por lei (CJ/ASTJ, I.III.86).
195 Nos termos de sua Directa 92/106/CEE do Conselho, de 7/12, entende-se por transporte

combinados os transporte de mercadorias entre Estado-membros, para os quais o camião, reboque,


o semi-reboque, com ou sem tractor, a caixa móvel ou o contentor de 20 pés e mais utilizam a estrada
para parte inicial ou final do trajecto e, para outra parte, o caminho-de-ferro, uma via navegável ou
um percurso marítimo que exceda 100 kms em linha recta, e efectuam o trajecto inicial ou final por
via rodoviária.
Ainda nos termos da mesma Directiva, em caso de transporte combinado por conta de outrem, o
documento de transporte deve ser completado com a indicação das estações ferroviárias, dos portos
fluviais ou dos portos marítimos de embarque e desembarque. Os transportadores rodoviários
estabelecidos num Estado-membro que satisfaçam as condições de acesso à profissão e ao mercado
de transporte de mercadorias entre Estados-membros têm o direito de efectuar, no âmbito de um
transporte combinado entre Estados-membros, trajectos rodoviários iniciais e/ou finais que façam
parte integrante do transporte combinado, incluam ou não a passagem de uma fronteira.

140
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
reservas que tiver por bem. Se o não fizer, presumir-se-á que recebeu a mercadoria
no estado em que foi entregue ao transportador. Porém, o destinatário tem interesse
em verificar contraditoriamente o estado e qualidade da mercadoria recebida
quando houver sinais aparentes de violação das respectivas embalagens (cartões
rotos ou recolados, por ex.), pois que as reservas só por si não serão prova suficiente
das faltas ou avarias constatadas posteriormente.

Quando ao atraso na entrega da mercadoria, só haverá lugar a indemnização


se tiver havido uma reserva escrita no prazo de 21 dias a contar da colocação da
mercadoria à disposição do destinatário. O depósito justificado da mercadoria
valerá como sua colocação à disposição do destinatário.

2.10.28. Prescrição

As acções originadas pelos transportes sujeitos à Convenção, prescrevem no


prazo: de um ano; ou de três anos, nos casos de dolo ou fala que a lei da jurisdição a
que se recorreu considere equivalente ao dolo.

O prazo de prescrição conta-se:

a) No caso de perda parcial, avaria ou demora, a partir do dia em que a


mercadoria foi entregue:
b) No caso de perda total, a partir do 30.º dia do termo do prazo convencionado
ou, não tendo sido convencionado, do 60.º dia da entrega da mercadoria ao
transportador;
c) Em todos os outros casos, decorridos três meses a conta da conclusão do
contrato.

Uma reclamação escrita suspende o prazo de prescrição até ao dia em que o


transportador rejeitar a reclamação e reunir os documentos que a ela se juntarem.

No caso se aceitação parcial da reclamação, a prescrição só retoma o seu curso


em relação à parte que continuar litigiosa.

Compete à parte que invocar a reclamação ou a resposta e restituição dos


documentos a respectiva prova. Cremos todavia que a restituição dos documentos a
respectiva prova. Cremos todavia que a não restituição dos documentos enviados é
irrelevante se foram simples cópia dos originais que ficaram em poder do
demandante, já que elas não têm para o demandante qualquer utilidade processual.

As reclamações ulteriores com a mesma finalidade não suspendem a


prescrição. Todavia, a suspensão e s interrupção da prescrição regulam-se pela lei

141
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
da jurisdição a que se recorreu. A acção que prescreveu não mais pode ser exercida,
mesmo sob forma reconvenção ou excepção196.

2.10.29. Litispendência, Caso Julgado e Conexão

Havendo pendência de acção sobre litígio decorrente do contrato de


transporte ou se houver sido proferida sentença, nenhuma outra acção poderá ser
instaurada entre as mesmas partes sobre o mesmo litígio. Exceptua-se o caso de a
decisão não pode ser executado no país onde é intentada a nova acção.

Uma sentença proferida pela jurisdição de um país contratante tornam-se


também executória em cada um dos outros países contratantes imediatamente após
o cumprimento das formalidades prescritas para esse efeito no país interessado,
sem que possam comportar revisão do caso.

Sobre litispendência e conexão de causas, ver os arts. 21.º a 23.º da Convenção


de Bruxelas.

2.10.30. Caução

Não pode ser imposta caução a nacionais de países contratantes, com domicílio
ou estabelecimento num destes países, para garantir o pagamento das despesas
causadas por acções judiciais originadas pelos transportes sujeitos à Convenção
CMR.

2.10.31. Jurisdição

Nos termos do art. 31.º da Convenção, para os litígios provocados pelos


transportes sujeitos à Convenção, as partes poderão recorrer:

a) À jurisdição dos países contratantes escolhida de comum acordo;


b) À jurisdição do país onde o réu tiver a residência habitual, a sede principal
ou a sucursal ou agência por intermédio da qual se estabeleceu o contrato
de transporte;

196Vide No seu Ac. de 10.11.93, o S.T.J. reafirmou ser de prescrição e não de caducidade o prazo
estabelecido no art.32.º da Convenção CMR (CJ/ASTJ I.III.118). Sendo de prescrição, importa ter
presente que ele só se interrompe com a citação do demandado ou decorridos cinco dias sobre a
propositura da acção. O prazo de prescrição no art. 32.º da Convenção CMR refere-se à acção cuja
causa de pedir seja o incumprimento do contrato de transporte e não à acção por falta de pagamento
do preço ou falta de qualidade da mercadoria transportada (ac. da Relação de Lisboa, de 2.06.92, in
Col. Jur. XVII.III.196).
É de 10 meses a prescrição da responsabilidade do transitário

142
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
c) À jurisdição do país onde estiver situado o lugar da aceitação da mercadoria
pelo transportador ou o lugar previsto para a sua entrega.

Haverá que ter presente o que dispõe as Convenções de Bruxelas de 27.9.68 e


de Lugano de 16.9.88 (D.R. de 30.10.91), sobre competência judiciária,
reconhecimento e execução de decisões, segundo as quais será competente:

a) Exclusivamente a jurisdição do Estado contratante designado pelas parte


por pacto atributivo de jurisdição (art. 17,º);
b) A jurisdição da sede ou domicílio do demando (art. 2º,1, e art. 3º) ou a do
lugar do Estado contratante onde a obrigação que serve de fundamento ao
pedido foi ou deva se cumprida;
c) Para a execução de decisões judiciais será (exclusivamente) competente a
jurisdição do Estado contratante do lugar onde a execução deva ser
cumprida (art. 16º, n.º 5);
d) Sendo vários os demandados, perante o tribunal do Estado contratante do
domicílio de qualquer deles (art. 6º,1);
e) No caso de chamamento de garante ou de intervenção de terceiros, perante
o tribunal onde foi instaurada a acção (art. 6º, 2);
f) Para o pedido reconvencional, o da acção (art. 6º, 3).
g) O tribunal territorialmente competente será determinada pela lei nacional
do Estado contratante cuja jurisdição for a competente;
h) Para determinar se a parte tem domicílio no Estado contratante a cuja
jurisdição se recorreu, o tribunal aplicará a sua lei interna (art. 52º, 1). Para
determinar se o tem noutro Estado contratante, será aplicada a lei interna
desse Estado;
i) Se o demandado não tiver domicílio em qualquer Estado contratante, a
competência será regulada, em cada Estado, pela lei desse Estado, sem
prejuízo da competência exclusiva para execução de decisão judicial (art. 4º,
1).

Quando o demandado domiciliado no território de um Estado contratante for


demandado perante um órgão jurisdicional de outro Estado contratante e não
compareça, o juiz declarar-se-á oficialmente não competente, se a sua competência
não se fundamentar nos termos da Convenção. Entretanto, se a sua competência se
fundamentar no disposto na Convenção, o juiz deve sobrestar a decisão até verificar
que o demandado foi regularmente citado e em tempo útil para sua defesa.
Observar-se-á o disposto no art. 15º da Convenção de Haia, no caso de o acto para a
citação tiver sido necessariamente transmitido em execução desta Convenção.

As decisões proferidas por um órgão jurisdicional de um Estado contratante


são automaticamente reconhecidas noutro Estado contratante. Se for impugnada,
poderá o interessado pedir o seu reconhecimento (art. 26º, da Convenção). Em caso
algum haverá lugar ao seu reconhecimento de mérito. Não pode ser reconhecida a

143
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
decisão se o acto que iniciou a instância ou acto equivalente não tiver sido
comunicado ou notificado ao requerido revel, regularmente e em tempo útil, em
termos de lhe permitir defesa.

Relativamente as decisões proferidas num Estado contratante e que ai tenham


força executiva podem ser executadas em outro Estado contratante depois de nele
terem sido declarantes executórias, segundo as formalidades aí previstas e à
entidade estabelecida para o efeito em cada Estado (art. 30º, 31º e 33º). O tribunal
territorialmente competente para execução será o domicílio do executado, ou, na
sua falta, o do lugar a execução (art. 32º, 2).

Importa, todavia, salientar que, nos termos do seu art. 57º, “A presente
Convenção (de Lugano) não prejudica as Convenções de que os Estados Contratantes
sejam ou venham a ser parte e que, em matérias especiais, regulem a competência
jurídica, o reconhecimento ou a execução de decisões.” Será o caso da Convenção CMR.

2.10.32. Competência Territorial do Tribunal Arbitral

A competência territorial nesta sede será definida em função das regras


estabelecidas no direito processual do país cuja jurisdição for a competente para o
litígio. Assim, o contrato de transporte pode conter cláusula que atribua
competência a um tribunal arbitral, desde que estipule que será aplicada a
Convenção.

Porém, a ausência desta cláusula não impedirá as partes de conferirem a


decisão do litígio a um tribunal arbitral que aplique a Convenção à decisão a proferir.

Capítulo III - Termos Internacionais do Comércio “INCOTERMS “

3.1. Introdução

Os termos internacionais do comércio foram elaborados pela câmara de


Comércio Internacional de Paris (CCI) e, fazem parte dos usos comerciais, em
especial na compra e venda à distância, siglas que correspondem a cláusulas
contratuais por essa forma convencionadas entre as partes.

Pretende-se que elas constituam uma linguagem internacional, de forma a


obviar os erros de interpretação de cláusulas escritas em línguas diferentes. Importa
referir que os INCOTERMS são redigidos na língua inglesa, e é, portanto, nessa
língua, que se apoia a sua interpretação. Elas aplicam-se ao transporte principal, ou
seja, ao transporte internacional propriamente dito.

3.2. Objecto, Natureza e Classificação dos ICONTERMS

Os INCOTERMS tem como objecto definir, em termos de linguagem comercial


internacional, quais são as obrigações do vendedor e do comprador, bem como quais

144
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
os encargos e despesas a suportar por um e por outro relativamente ao transporte
da mercadoria (COMBITERMS).

Costumam ser agrupados em 4 grupos ou famílias, identificados pela letra E, F,


C e D. As do grupo E supõe um mínimo de obrigações para o vendedor, as do grupo
F excluem o pagamento do transporte principal; as do grupo C incluem esse
pagamento; as do grupo D supõem o máximo de obrigações para o vendedor.

Alguns INCOTERMS são tipicamente marítimos (FAS, FOB, CFR, CIF, DES, DEQ);
outros aplicam-se a todo o tipo de transportes (EXW, FCA, CPT, CIP, DDU e DDP). O
DAF é exclusivamente terrestre. São próprios das vendas à partida, os INCOTERMS
EXW, FCA, FAZ, FOB, CFR, CIF, CPT e CIP. São próprios das vendas à chegada os
INCOTERMS DAF, DES, DEQ, DDU e DDP.

Em primeiro lugar, os INCOTERMS revestem a natureza de cláusulas


contratuais com o significado ou conteúdo que lhes foi atribuído pala CCI e só
obrigam se adoptadas pelas partes. Em segundo lugar, não são os INCOTERMS que
definem o momento da transferência do risco, mas sim facto de se tratar de uma
venda à partida ou de uma venda à chegada, a que podem estar associados
INCOTERMS.

Os INCOTERMS não são cláusulas próprias do contrato de transporte, mas sim


das relações comerciais entre exportadores e importadores, ou seja das vendas
internacionais, porventura sujeitos a regimes jurídicos diferentes. Através dos
INCOTERMS, quando introduzidos nos seus contratos, os vendedores e os
compradores querem vincular-se ao conteúdo dessas cláusulas e ficam a saber com
precisão quais as suas obrigações e os custos do transporte e seguro, taxas e outras
despesas, a suportar por uns e outros. Dai terem passado a designar-se
COMBITERMS.

Nas vendas à distância, envolvendo o transporte das mercadorias, coloca-se o


problema de saber por conta de quem corre o risco do transporte principal. Entende-
se que res perit domino (a coisa perece por conta do seu dono). Portanto, importa
saber quem é o dono da mercadoria no momento da perda ou avaria, ou seja em que
momento, nas vendas à distância, a propriedade da coisa se transmite ao computador.
A partir desse momento, o risco correrá por sua conta.

Como já foi dito nas vendas à distância, podem figurar-se três situações no que
toca à entrega da mercadoria ao comprador:

a) A entrega far-se-á nas instalações (fábrica ou armazém) do vendedor,


ou no porto de partida designado. Essas situações são definidas pelas
siglas EXW (Ex-works) e FOB (por ex. FOB-Luanda).

145
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
b) Á entrega da mercadoria ao comprador acresce, para o vendedor, a
obrigação acessória de a enviar para o local acordado o vendedor
cumpre a sua obrigação contratando o transporte e expedindo a
mercadoria, para o local do destino (por ex. CIF – Moçâmedes).

c) A mercadoria será entregue ao comprador no local acordado, por ex.


na fronteira X, sendo da conta e risco do vendedor o transporte
(principal) até esse local. A venda considera-se feita nesse local, com
as consequências dai decorrentes.

Nas vendas à partida, os ricos transporte correm por conta do comprador.


São os casos das vendas197 EXW, FCA, FAZ, FOB, CFR, CIF, CPT e CIP. Nas vendas à
chegada (à l’arrivée), os riscos do transporte correm por conta do vendedor.
Respeitem-lhes os INCOTERMS DAF, DES, DEQ, DDU e DDP.

As siglas FOB e CIF são típicas do transporte marítimo, mas são por vezes
utilizadas noutros meios de transporte, inclusive no rodoviário, em que em vez de
FOB se escreve FOT (Free On Truck).

Entende-se comummente que nas vendas à partida (FOB, CIF, por ex.), a
propriedade da mercadoria e os riscos do transporte se transferem para o
adquirente/importador no momento da sua entrega ao transportador no local
combinado198.

Nos termos do art. 66º, da Convenção de Viena de 1980, sobre Contrato de


Compra e Venda Internacional de Mercadorias, a perda ou a detioração das
mercadorias ocorridas após a transferência do risco para o comprador não libera este
de pagar o preço, salvo se a perda ou a detioração se ficaram a dever a acto ou omissão
do vendedor. Haverá, todavia, que conciliar estes princípios com os casos em que,
por assim ter sido acordado, a entrega da mercadoria nas vendas CIF fica
condicionada às cláusulas CAD ou COD, através das quais o vendedor pretende
garantir o recebimento do preço. Casos em que haverá uma espécie de venda sob
condição ou com reserva e a perda ou avaria correrá por conta dele, uma vez que, se
não fizer a entrega, o comprador não lhe pagará o preço.

3.3. Conteúdo contratual dos “INCOTERMS”

197 Não é, assim rigorosa a afirmação produzidas no Ac. do STJ de 27.9.2001, no sentido de que Nos
contratos de compra e venda internacional, as regras que determinam a transferência do risco
revestem carácter supletivo, sendo substituídas por fórmulas, com a CIF, através da qual as partes
pretendem que o risco passa do vendedor para o comprador no momento em que as mercadorias
entram no navio (ASTJ IX.III.38).
198 Vide. Ac. STJ; de 28.6.83, in Bol. 328, p. 612; ANTUNES VARELA, in das Obrigações em Geral, I, pp

819 e 824.

146
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Os INCOTERMS vão sendo reajustados às necessidades e complexidades e à
evolução do comércio internacional, pelo que, o seu conteúdo não se mantém
estável, sendo objecto de revisões periódicas. E as partes podem acrescentar-lhes
expressões que modifiquem as suas obrigações. De acordo com as revisões de 1990
e 2000, eles valem com o seguinte conteúdo contratual:

EXW (+ instalações do exportador) (venda à partida) (polivalente).

O vendedor cumpre a sua obrigação colocando a mercadoria, devidamente


embalada, nas suas instalações à disposição do comprador. O carregamento é de
conta deste, salvo estipulação em contrário. Tudo o mais, inclusive os direitos
aduaneiros de exportação, é da responsabilidade do comprador.

FCA (+ local da entrega) (Free Carrier) (venda à partida) (Polivalente)

O vendedor fará entrega da mercadoria ao transportador ou ao transitário


indicado pelo comprador e por si contratado, no local combinado. A partir desse
momento, correm por conta do comprador o risco e as despesas. Tratando-se de
camião completo, vagão completo ou contentor completo, o carregamento é da conta
do vendedor e a descarga de conta do comprador. Os direitos aduaneiros à
exportação são a cargo do vendedor.

FAZ (+ porto de carregamento) (Free Along Side Ship) (Venda à partida)


(marítimo).

O vendedor cumpre a sua obrigação colocando a mercadoria sobre o cais, junto


ao costado do navio indicado pelo comprador ou na barcaça. A partir daí as despesas
e riscos correm por conta do comprador. As formalidades aduaneiras à exportação
são a cargo do vendedor. O frete marítimo é pago pelo comprador, que escolhe o
navio.

FOB (+ porto de carregamento) (Free on Board) (venda à partida)


(marítimo).

O vendedor deverá entregar a mercadoria a bordo do navio, no porto de


embarque designado no contrato. As despesas e os ricos transferem-se para o
comprador a partir do momento em que a mercadoria passa a amurada do navio. O
comprador escolhe o navio e paga o frete. As formalidades de exportação são a cargo
do vendedor.

CFR (+ porto do destino) (Cost and Freight) (venda à partida) (marítimo)

O vendedor escolhe o navio e paga o frente até ao ponto de destino


convencionado. Carregamento e formalidades de exportação a seu cargo. As
despesas e os riscos transferem-se para o comprador como em FOB.

147
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
CIF (+ porto de destino) (Cost, Insurance and Freight) (venda à partida)
(marítimo)

O mesmo que em CFR, mas o vendedor tem ainda de contratar o seguro


marítimo da mercadoria (FAP – franco de avarias particulares) contra perdas e
danos, sobre o valor CIF + 10%, paga o prémio. As despesas e os riscos transferem-
se para o comprador como em FOB.

CPT (+ porto de destino) (Carriage Paid to) (venda à partida) (polivalente).

O vendedor cumpre a sua obrigação colocando a mercadoria, devidamente


embalada, nas suas instalações à disposição do comprador. O carregamento é de
conta deste, salvo estipulação em contrário. Tudo o mais, inclusive os direitos
aduaneiros de exportação, é da responsabilidade do comprador.

CIP (+ ponto de destino) (Carriage and Insurance Paid to) (venda à partida)
(polivalente).

O mesmo que em CPT, mais a obrigação de o vendedor fazer o seguro da


mercadoria e pagar o prémio.

DAF (+ nome da fronteira) (Delivered at Frontier) (venda à chegada)


(terreste).

O vendedor cumpre a sua obrigação de entrega colocando a mercadoria à


disposição do comprador na passagem da fronteira devidamente identificada. Até aí
as despesas, o transporte e os riscos são da sua responsabilidade, bem como as
formalidades aduaneiras de exportação. A partir daí as despesas e os riscos e o
transporte passam para o comprador, sendo da sua responsabilidade as
formalidades aduaneiras de importação e o pagamento das taxas e direitos de
importação. Poderão ter interesse acordarem num seguro que cubra todo o
percurso.

DES (+ porto de destino) (Delivered ex Ship) (venda à chegada) (marítima).

O vendedor escolhe o navio, paga o frete e suporta os riscos, do transporte


marítimo. As despesas e os riscos transferem-se para comprador a bordo do navio
no ponto de descarga do porto de destino, de modo a permitir o levantamento da
mercadoria pelos meios de descarga apropriados.

DEQ (+ porto de destino) (Delivered Duty Unpaid) (venda à chegada)


(polivalente).

O transporte, as despesas e os riscos correm por conta do vendedor até ao local


da entrega. As despesas e os riscos transferem-se para o comprador logo que as
mercadorias forem colocadas no molhe à sua disposição, desalfandegadas, sobre o
cais do porto de destino. As formalidades alfandegárias no país de importação e o

148
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
pagamento dos direitos e taxas exigíveis à importação, são da responsabilidade do
comprador (INCOTERMS 2000).

DDU (+ local convencionado) (Delivered Duty Unpaid) (venda à chegada)


(polivalente).

O vendedor colocará, de sua conta e risco, as mercadorias nas instalações do


comprador, sendo de responsabilidade deste o seu desalfandegamento e o
pagamento dos direitos aduaneiros. É uma venda à chegada, com os direitos
aduaneiros por conta do comprador. Salvo estipulação em contrário, compete a este
a descarga da mercadoria. As despesas e os riscos até esse momento correm por
conta do vendedor.

DDP (+ local convencionado) (Delivered Duty Paid) (venda à chegada)


(polivalente).

Como anterior, mas com os direitos aduaneiros pagos pelo vendedor. É o


extremo oposto da venda EXW. Se as partes quiseram excluir das obrigações a cargo
do vendedor quaisquer impostos, por ex. do IVA (VAT), deverão declará-lo
expressamente.

Contrariamente ao que por vezes se pensa, os INCOTERMS FOB e CIF não se


opõem, no que toca à transferência do risco. Acontece apenas que, na venda FOB, o
transporte e o seguro são da responsabilidade do comprador e são por ele
contratados e pagos, enquanto na venda CIF compete ao vendedor contratar o
transporte e o seguro até ao local do destino, embora incorporando os custos no
preço da venda. Em qualquer dos casos, o risco transfere-se para o comprador no
momento da entrega da mercadoria ao transportador199.

Os COMBITERMS associam aos INCOTERMS a responsabilidade do vendedor


ou do comprador pelas despesas acessórias do transporte – despesas com o
carregamento, com o contrato, documentos e despachos, taxas aduaneiras, de cais,
do terminal e outras200.

Por conseguinte a partir de 2011, entrou nova versão de INCOTERMS -2010


(Termos Internacionais de Comércio) – Deveres e obrigações do exportador e
importador que veio de algum modo alterar o figuro anterior do INCOTERMS 2000.

Ora, como já sublinhamos a partir de 1º de Janeiro de 2011 entrou em vigor


a versão INCOTERMS 2010, que não incorpora quatro termos da versão 2000 e
inclui dois novos termos, reduzindo de treze para onze o número de INCOTERMS.

199 Cfr. LIGIA MAURA COSTA.- Comércio Exterior – Campus editora Rio de Janeiro 2005, p.214-222.
200 Cfr. AAV, ALFREDO PROENÇA ESPANHA PROENÇA, – Transporte de Mercadorias, Almedina 2004
p. 108 - 117.

149
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Observe-se, entretanto, que as versões 2000 e anteriores continuam valendo, e
podem ser aplicadas desde que haja vontade manifesta das partes envolvidas.

INCOTERMS não recepcionados pela versão 2010:

DAF (Delivered At Frontier)

DES (Delivered Ex-Ship)

DEQ (Delivered Ex-Quay)

DDU (Delivered Duty Unpaid)

INCOTERMS incluídos na versão 2010:

DAT (Delivered at Terminal)

DAP (Delivered at Place)

Nos dois novos termos (DAT e DAP) pode ser adoptada qualquer modalidade
de transporte. Pois que, para os termos FOB (Free on Board), CFR (Cost and Freight)
e CIF (Cost, Insurance and Freight) há uma mudança importante dos INCOTERMS
2000 para os INCOTERMS 2010: a entrega da mercadoria deixa de ser na amurada
do navio para ser a bordo do navio, o que evita erros de interpretação das regras.

Os INCOTERMS o seu objectivo primeiro é, a partir da interpretação precisa


dos termos utilizados nos contratos de compra e venda, promover a harmonia nos
negócios internacionais. No entanto é importante assinalar que os INCOTERMS
regulam apenas a relação entre comprador e vendedor, devendo pois, ser utilizados
como cláusula contratual do contrato de compra e venda. Destaque-se que são
apenas uma cláusula do contrato, e não o próprio contrato. Limitam-se a regular a
entrega do bem, definindo o seu ponto ou local e, por extensão, seus custos e riscos.
Assim, quando uma oferta é efectuada na condição ‘FOB/Porto do Namibe, por
exemplo, está estabelecendo simplesmente:

a) Divisão de custos: indicando exactamente o preço que o comprador deverá


pagar ao vendedor e, por conseguinte, o que está contido neste preço;

b) Onde os bens serão entregues: indicando exactamente o ponto de


transferência de riscos por perdas e danos do vendedor para o comprador.

Nestes contesto, os custos normalmente poder aferido nos seguintes critérios,


designadamente:

150
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Custos de exportação; despachante aduaneiro, taxas
portuárias/aeroportuárias, fumigação, transporte interno ;
201

Frete internacional (quando há longo curso); e,

Seguro Internacional.

Nestes termos, da nova versão de 2010, os INCOTERMS são agrupados em


quatro categorias:

Grupo “E” (Partida).

EXW - Na fábrica (local designado).

O produto e a factura devem estar à disposição do importador no


estabelecimento do exportador. Todas as despesas e quaisquer perdas e danos a
partir da entrega da mercadoria, inclusive o despacho da mercadoria para o exterior,
são da responsabilidade do importador.

O exportador não possui nenhum custo. Quando solicitado, o exportador


deverá prestar ao importador assistência na obtenção de documentos para o
despacho do produto. Esta modalidade pode ser utilizada com relação a qualquer
via de transporte (modal) Seguro Facultativo.

Grupo “F” (Transporte principal não pago).

FCA - Franco transportador (local designado).

O exportador entrega as mercadorias, desembaraçadas para exportação, à


custódia do transportador, no local indicado pelo importador, cessando aí todas as
responsabilidades do exportador. Essa condição pode ser utilizada em qualquer tipo
de transporte, inclusive o multimodal. Seguro Facultativo.

FAZ- Franco ao longo do navio (porto de embarque designado).

As obrigações do exportador encerram-se ao colocar a mercadoria, já


desembaraçada para exportação, no cais, livre junto ao costado do navio. A partir
desse momento, o importador assume todos os riscos, devendo pagar inclusive as
despesas de colocação da mercadoria dentro do navio. O termo é utilizado para
transporte marítimo ou hidroviário interior. Seguro Facultativo.

FOB - Franco a bordo (porto de embarque designado).

201
Retira contentor, ovação, retomas ao terminal, armazém de terceiros.

151
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
O exportador deve entregar a mercadoria, desembaraçada, a bordo do navio
indicado pelo importador, no porto de embarque. Esta modalidade é válida para o
transporte marítimo ou hidroviário interior. Todas as despesas, até o momento em
que o produto é colocado a bordo do veículo transportador, são da responsabilidade
do exportador. Ao importador cabem as despesas e os riscos de perda ou dano do
produto a partir do momento que este transpuser a amurada do navio. Seguro
Facultativo.

Grupo “C” (Transporte principal pago).

CFR - Custo e frete (porto de destino designado).

O exportador deve entregar a mercadoria no porto de destino escolhido pelo


importador. As despesas de transporte ficam, portanto, a cargo do exportador. O
importador deve arcar com as despesas de seguro e de desembarque da mercadoria.
A utilização desse termo obriga o exportador a desembaraçar a mercadoria para
exportação e utilizar apenas o transporte marítimo ou hidroviário interior. Seguro
Facultativo.

CIF - Custo, seguro e frete (porto de destino designado).

Modalidade equivalente ao CFR, com a diferença de que as despesas de seguro


ficam a cargo do exportador. O exportador deve entregar a mercadoria a bordo do
navio, no porto de embarque, com frete e seguro pagos. A responsabilidade do
exportador cessa no momento em que o produto cruza a amurada do navio no porto
de destino. Esta modalidade só pode ser utilizada para transporte marítimo ou
hidroviário interior. Seguro Internacional Obrigatório.

CPT - Porte pago até (local de destino designado).

Como o CFR, esta condição estipula que o exportador deverá pagar as despesas
de embarque da mercadoria e seu frete internacional até o local de destino
designado. Dessa forma, o risco de perda ou dano dos bens, assim como quaisquer
aumentos de custos são transferidos do exportador para o importador, quando as
mercadorias forem entregues à custódia do transportador. Este INCOTERM pode ser
utilizado com relação a qualquer meio de transporte.

CIP - Porte e seguro pagos até (local de destino designado).

Portanto, o CIP, adopta princípio semelhante ao CPT. O exportador, além de


pagar as despesas de embarque da mercadoria e do frete até o local de destino,
também arca com as despesas do seguro de transporte da mercadoria até o local de
destino indicado. O CIP pode ser utilizado com qualquer modalidade de transporte,
inclusive multimodal.

Grupo “D” (Chegada)

152
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
DDP - Entregue com direitos pagos (local de destino designado).

O exportador assume o compromisso de entregar a mercadoria,


desembaraçada para importação, no local designado pelo importador, pagando
todas as despesas, inclusive impostos e outros encargos de importação. Não é de
responsabilidade do exportador, porém, o desembarque da mercadoria. O
exportador é responsável também pelo frete interno do local de desembarque até o
local designado pelo importador. Este termo pode ser utilizado com qualquer
modalidade de transporte. Trata-se do INCOTERM que estabelece o maior grau de
compromissos para o exportador.

DAT - Entregue no terminal (terminal designado no porto ou local de destino).

Estabelece que as mercadorias podem ser colocadas a disposição do


comprador (importador) não desembaraçado para importação num terminal
portuária, ou em um galpão fora do porto destino. O vendedor (exportador) termina
com as suas responsabilidades quando coloca a mercadorias a disposição do
comprador.

DAP - Entregue no local (local de destino designado).

As mercadorias poderão ser postas à disposição do comprador (importador)


no porto de destino ainda no interior do navio transportador e antes do
desembaraço para a importação.

153
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário

CAPÍTULO IV – CRÉDITO DOCUMENTÁRIO

4.1. Conceito e a origem dos créditos documentários.

O crédito documentário – é uma forma de pagamento através do qual um


cliente (ordenador) dá instruções ao seu banco (emitente) para que este abra um
crédito à favor de um terceiro (beneficiário) cuja utilização só poderá ser contra –
entrega de documentos, designadamente: facturas, conhecimento de embarque,
certificado de origem, certificado de exame de pré- embarque, certificado
fitossanitária e apólice de seguro.

Relativamente a origem vamos nos ater as prelações de CARLOS DA COSTA


PINA, segundo este doutrinador português, diz que a indicação de uma data precisa
que permite identificar a origem da utilização dos créditos documentários é tarefa
extraordinariamente difícil, o que leva os autores a optarem, normalmente, pela
indicação de um contexto histórico no qual era já detectada a sua utilização. Nesta
perspectiva, tende-se a associar a sua origem às características históricas do
comércio internacional e à função de que, por reacção a essas características, era
dotado o crédito documentário202.

Identifica-se, assim, a sua natureza como sendo determinada pelas


características do sistema comercial internacional derivado do individualismo
liberal emergente nos finais do século XVIII, uma vez que no âmbito da anterior
economia de exclusivismo estatal ou de natureza monopolista, em que grandes
companhias comerciais detinham representações nos países de abastecimento e de
destino e controlavam igualmente o seu transporte, a necessidade de financiamento

202 Cfr. CARLOS COSTA PINA - Créditos Documentários, Coimbra Editora, 2000,p. 15 - 20

154
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
das transacções e de articulação financeira entre as partes não apresentavam a
mesma acuidade.

É, pois, com a ultrapassagem, a nível económico, da fase mercantilista de


acentuada iniciativa estatal, e com o progressivo predomínio da perspectiva liberal
a nível comercial, que o recurso ao crédito documentário aparece justificado e apto
a resolver os específicos problemas ligados aos pagamentos devidos nas trocas
internacionais.

Dada a distância a que se encontram os agentes do comércio internacional uns


dos outros, e o tempo requerido pelo transporte das mercadorias desde a sua
expedição pelo vendedor até à sua recepção pelo comprador, respectivas operações
comerciais levantavam problemas delicados, cuja ocorrência se verifica muito mais
raramente numa operação puramente interna, ou em que exista proximidade entre
as partes. Se o vendedor ao expedir a mercadoria, entregando-a ao transportador,
tem interesse em ver o seu crédito imediatamente satisfeito, já o comprador, não
tendo ainda recebido a mercadoria que se encontra em «viagem», e cuja
conformidade com o acordo estabelecido desconhece igualmente, não terá interesse
em proceder ao pagamento imediato. Por outro lado, e também nem consequência
da distância, as relações de confiança recíproca entre as partes contratantes não são
tão evidentes, sendo, pelo contrário, frequente que nem se quer se conheçam.

Neste quadro, aparece então a figura do crédito documentário a desempenhar


várias funções, entre as quais se destacam quer a função de segurança e de crédito
às partes envolvidas na transacção comercial, quer a função de financiamento da
operação.

Contudo, antes de analisarmos em que consistem, concretamente, estas


funções, vejamos, primeiro, o modo prático, e mais elementar, de funcionamento do
crédito documentário. Raciocinando, por razões de simplicidade, com base num
mero contrato de compra e venda de mercadorias estabelecido entre duas partes, o
vendedor e o comprador, do mesmo resultam duas obrigações essenciais: a entrega
da mercadoria, a cargo do vendedor, e a de pagamento de preço, a cargo do
comprador.

Como vimos, se o vendedor tem, após a expedição, interesse em ver satisfeito


o seu crédito, ao passo que o comprador pretende primeiro receber a mercadoria e
só nesse momento, ou mesmo depois proceder ao pagamento do preço, deparamos
então com um obstáculo às trocas em tais condicionalismos. É, por isso aqui, que o
recurso ao crédito documentário permite uma intervenção conciliadora desta
divergência de interesses.

Assim, pode a figura do crédito documentário funcionar como parte do próprio


contrato de compra e venda, nos termos do qual convencionam as partes a sua
utilização como forma de pagamento do preço devido. Para efeito, o comprador

155
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
deverá solicitar a uma instituição bancária a abertura de um crédito a favor do
vendedor, a satisfazer mediante a apresentação de determinados documentos, que
expressamente indicará, que comprovem a expedição da mercadoria adquirida. O
banco, por sua vez, informará o vendedor da abertura do crédito efectuada e dos
documentos exigidos para proceder ao pagamento do respectivo montante203.

O vendedor, por seu lado, após ter expedido a mercadoria e recebido do


transportador os respectivos documentos comprovativos, apresentá-los-á ao banco
respectivo, juntamente com outros que sejam requeridos, e verá então satisfeito o
seu crédito sobre o montante correspondente ao preço.

Posteriormente, ao banco entregará esses mesmos documentos ao adquirente


da mercadoria, para que este possa proceder ao levantamento da mesma no local de
destino, sendo agora reembolsado, contra a sua entrega, do montante anteriormente
entregue ao vendedor, eventualmente acrescido, conforme tenha sido acordado, de
uma comissão pelo serviço prestado ou de juros relativos ao período de tempo
decorrido entre o pagamento do preço ao vendedor e a recepção do respectivo
montante da parte do comprador.

Visto em termos necessariamente superficiais o funcionamento prático do


mecanismo do crédito documentário, são, agora, facilmente perceptíveis as funções
que o mesmo desempenha, tal como assinalámos acima. Começando pela função de
segurança por ele desempenhada, verificamos que a mesma se apresenta de forma
bilateral, aproveitando, quer ao vendedor, quer ao comprador, em relação ao
primeiro, enquanto lhe permite tratar das questões ligadas ao pagamento
directamente com uma instituição bancária que conheça e na qual confie, logo que
detenha os documentos relevantes em seu poder, e em relação ao adquirente porque
terá a garantia de que o banco, ao qual solicitou a abertura do crédito, só procederá
ao pagamento se os documentos que tenham sido apresentados estiverem em
«perfeita» conformidade com os termos constantes da solicitação de abertura do
crédito. Esta garantia, por sua vez, é ainda reforçada pelo grau de confiança
resultante da utilização de um sistema bancário internacional assente em
instituições dotadas de experiência e especializadas no apoio a operação com estas
características204.

No que se refere à função creditícia a mesma apresenta-se igualmente com


características bilaterais. Aproveita ao vendedor permitindo-lhe satisfazer do valor
a que tem direito, e ao comprador, de forma mais significativa, permitindo-lhe
ultrapassar o período de tempo requerido pelo transporte sem que tenha de
desembolsar de imediato a quantia correspondente ao preço em divida.

203 Cfr. CARLOS COSTA PINA - Créditos Documentários, Coimbra Editora, 2000, p. 15 - 20
204 Cfr. CARLOS COSTA PINA - Créditos Documentários, Coimbra Editora, 2000, p. 15 - 20

156
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
A função de financiamento apontada também ao crédito documentário
prende-se, no respeita ao comprador, com o que vimos de afirmar, na medida em
que funciona, na sua perspectiva, como uma pagamento adiantado do preço,
realizado por outrem, que o liberará face ao vendedor.

Já no tocante ao vendedor, a função de financiamento não deriva da forma


simples de utilização do crédito documentário que acima expusemos, mas antes de
uma forma de utilização específica consistente no recurso ao mecanismo da
transferência do crédito documentário a favor de um outro beneficiário, que será,
normalmente, o fornecedor do vendedor205.

4.2. Os Vários Tipos de Créditos Documentários

4.2.1. Créditos revogáveis e irrevogáveis

A distinção entre créditos documentários revogáveis e irrevogáveis resulta


do disposto no art. 6º, das RUU. Da sua alínea c) resulta, supletivamente, na ausência
de indicação clara no seu próprio texto, a regra da irrevogabilidade.

Anterior regra da revogabilidade, funcionando em benefício, óbvio, do


respectivo banco emitente, não deixou de ser objecto de fortes críticas, podendo-se
em causa, desde logo, a sua própria justificação.

Um crédito irrevogável significa, pois, que o mesmo não pode ser objecto de
nenhum acto jurídico que, unilateralmente, faça cessar os seus efeitos ou alterar o
seu conteúdo. Em vincula, quer o banco que emitiu o crédito, quer o banco que tenha
confirmado.

De qualquer forma, a irrevogabilidade de um crédito não significa, nem


impõe, a sua imutabilidade. Pelo contrário, o mesmo pode ser alterado ou cancelado
por acordo entre o banco emitente, o beneficiário e, eventualmente, o banco
confirmador (art. 9º, al. d), da RUU). E este acordo pode resultar mesmo de uma
declaração de vontade tácita do destinatário da proposta de alteração. Com efeito se
se estipula (art. 9º, al. d) iii, da RUU) que o beneficiário deve “comunicar a aceitação
ou rejeição das(s) alteração(ões)”, mais adiante estabelece-se que um
comportamento consubstanciado na apresentação de documentos conformes a
essas alterações considerar-se-á como “comunicação da aceitação”. Assim, ficando o

205 Cfr. CARLOS COSTA PINA – p.15 e ss.

157
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
banco emitente ou o banco confirmador vinculados as propostas de alteração que
emitem, sempre caberá ao beneficiário a ultima palavra no sentido da manutenção
ou da alteração do crédito documentário, através da aceitação pura e simples da
perspectiva proposta (art. 9º, al. d) iv da RUU).

Quanto aos créditos revogáveis, estabelece o art. 8º, al. a), da RUU que os
mesmos podem ser alterados ou cancelados “pelo banco emitente, qualquer
momento, e sem necessidade de aviso prévio ao beneficiário”. No entanto, se o
beneficiário já tiver utilizado o crédito através de um outro banco, terá o banco
emitente de o reembolsar por quaisquer pagamentos efectuados ou a efectuar por
aquele (art. 8º, al. b i) e ii), da RUU).

Apesar da sua aparente clareza, a revogabilidade do crédito levanta, ainda


assim, alguns problemas. Em primeiro lugar, ao referir-se apenas à revogação pelo
banco emitente, parece não permitir a hipótese de uma revogação da confirmação
pelo banco confirmador, o que será, aliás, consistente com o teor do art. 9º, al. d) ii),
2ª parte, da RUU. Na verdade, nesta disposição não se refere a hipótese de uma
revogação da confirmação, mas apenas de alteração desta por consequência da
alteração efectuada pelo banco emitente.

Em segundo lugar, o que é mais importante, parece rejeitar-se a hipótese de


existência da figura de um crédito revogável confirmado, o que é uma solução
também consistente com o teor do disposto no art. 8º, al. b), da RUU, que apenas se
refere à confirmação de créditos irrevogáveis, e com a natureza da confirmação
enquanto compromisso “a juntar ao banco do emitente”.

Este terceiro lugar, coloca-se a questão de saber até que momento é possível
a revogação, sendo certo que a expressão “em qualquer momento”, não pode ser
tomada à letra. Se a obrigação de reembolso, que acima referimos, parece ser uma
consequência da revogação, o que é certo, é que tal obrigação se verificaria mesmo
se, em circunstanciais normais, os documentos fossem apresentados ao banco
emitente, pelo que poderemos concluir que o momento decisivo que define a
possibilidade de apresentação dos documentos, desde que anterior, obviamente,
para sua utilização.

Assim, se o banco emitente incorre na obrigação de reembolso no caso de o


aviso de alteração ser recebido pelo banco designado depois dos documentos
relativos ao crédito, então não pode deixar de estar obrigado a pagar directamente
ao beneficiário, se este lhe apresentar documentos antes de ser avisado de qualquer
revogação206.

206 Cfr. CARLOS COSTA PINA - Créditos Documentários, Coimbra Editora, 2000,p. 15 - 20

158
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
4.2.2. Créditos confirmados e não confirmados (meramente
notificados)

A distinção entre créditos documentários apenas notificados e confirmados


decorre do disposto nos art. 7º e 9º, al. b), da RUU.

Apesar da estreita correlação desta classificação com a distinção entre


créditos documentários revogáveis e irrevogáveis existem, ainda assim, diferenças
importantes, sendo relevante o facto de a revogabilidade dizer respeito ao crédito
em si, enquanto a notificação ou confirmação tem que ver antes com qualidade da
intervenção de um segundo banco, que se denominará, respectivamente, de banco
notificador ou banco confirmador.

Quando se fala de créditos notificados estão em causa créditos


documentários, revogáveis ou irrevogáveis, que depois de terem sido emitidos pelo
banco emitente são transmitidos por um segundo banco ao seu beneficiário.

Este banco limita-se apenas a transmitir a abertura do crédito, sem assumir


com isso qualquer compromisso perante o beneficiário (art. 7º, da RUU).

Contudo, dadas, por um lado, as função se segurança que o crédito


documentário desempenha e, por outro, a necessidade de garantir a credibilidade
das instituições bancárias no exercício da respectiva actividade, deve o banco
notificador averiguar a aparente autenticidade do crédito.

Já os créditos documentários confirmados, implicando a assunção de um


compromisso por parte do banco confirmador perante o beneficiário, que acresce
ao compromisso do banco emitente, só são possíveis, como vimos acima, caso
tenham natureza irrevogável (art. 9º, al. a) e b), da RUU).

Assim, se pela confirmação o banco que a emite fica vinculado perante o


beneficiário e com uma posição idêntica à do banco emitente, já pela notificação o
banco que a efectue só ficará em posição idêntica à do banco emitente se estivermos
em presença de um crédito revogável.

4.2.3. Créditos com pagamentos à vista; diferido; por aceite ou


negociação

As várias modalidades que um crédito pode assumir em função da sua forma


e tempo de utilização constam do art. 2º, da RUU.

Nos créditos utilizáveis por pagamento à vista ou diferido está em causa o


seu prazo de vencimento que pode dar-se pela prazo estipulado. É pois patente a sua
semelhança como o regime da letra de câmbio constante dos arts. 33º e seguintes da
Lei Uniforme relativa às Letras e Livranças (“LULLiv.”).

159
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Nos créditos utilizáveis por aceite pode ainda distinguir-se entre aceite
principal e o aceite subsidiário efectuados pelos bancos, emitente ou confirmador,
que tenham assumido um compromisso. No primeiro caso o banco compromete-se
a aceitar, a título principal, aos saques caracteriza-se por este se realizar apenas no
caso de falta de aceite por um outro banco (art. 9º, al. a iii) e b iii), da RUU).

Nos créditos utilizáveis por negociação, o banco obriga-se (arts. 9º , al. a) iv)
e 10º, al. b), da RUU) a pagar os documentos apresentados ou os saques sacados pelo
beneficiário mas, neste caso, “sem recurso aos sacadores e/ou portadores de boa fé”.

Trata-se de um requisito da maior importância, pois, se assim não fosse


contrariar-se-ia o próprio escopo do crédito documentário, retirando-lhe a
segurança, confiança e certeza que visa conceder.

Resulta do que temos vindo expor, v.g. da referência à utilização dos créditos
documentários por aceite ou por negociação, que os mesmos podem compreender
no seu seio outros títulos de crédito, como é o caso da letra, o que poderá levantar
diversos problemas de articulação do regime do crédito documentário com o regime
da circulação cartular. Basta pensar, por exemplo, na hipótese em que um banco,
após ter aceite um saque, inserido no crédito documentário, que deverá pegar no
vencimento, veja depois o mesmo ser-lhe apresentado por outrem que
legitimamente o detenha, por via de um endosso regular do sacador (beneficiário no
crédito documentário), ou já doutro endossado. Daí que possa levantar-se a questão
de saber se o banco deverá, neste caso, pagar o respectivo saque, mesmo que o seu
portador não apresente documentos que porventura devessem ser apresentados
após o aceite, ou na data do vencimento207.

Outra questão, esta já mais evidente, prende-se com tratamento a dar às


situações em que seja emitido um crédito a ser utilizado através de um saque sobre
o ordenador. Esta situação foi objecto de previsão expressa no art. 9º, al. a) iv e al.
b) iv, da RUU, onde se estabelece a não emissão de um crédito documentário com
essas características sob pena de tal saque ser considerado como mero documento
adicional que, embora devendo ser apresentado, não obriga à negociação.

É esta uma solução perfeitamente justificável no quadro da figura do crédito


documentário. Uma vez que este já constitui para o beneficiário, credor no contrato
base, garantia suficiente da satisfação do seu crédito, não se vislumbra qual seja a
utilidade suplementar de tal saque.

Em relação com estas modalidades que o crédito documentário pode assumir


está outra questão importante que é a de saber, face à pluralidade possível de bancos

207 Cfr. CARLOS COSTA PINA - Créditos Documentários, Coimbra Editora, 2000,p. 15 - 20

160
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
através dos quais o crédito pode ser utilizado (bancos designados), perante qual
deles o será efectivamente.

Nos termos do art. 10º, al. b) i, da RUU ao estipular-se o dever de identificar


o banco designado, a não ser que se estipule que o crédito seja utilizado apenas
perante o banco emitente, acaba por não se formular nenhuma regra supletiva que
permita solucionar o problema. Nem se invoque, contra esta solução, o facto de
qualquer banco ser um banco designado no caso dos créditos livremente
negociáveis dado que também esse pressuposto, da livre negociabilidade, tem de ser
demonstrado.

Assim, a solução passara por considerar como bancos designados, na falta de


estipulação, os bancos, emitente e confirmador, que tenham assumido um
compromisso perante o beneficiário208.

4.2.4. Créditos livremente negociáveis e créditos não livremente


negociáveis

Esta distinção, que foi já indirectamente aflorada acima, resulta do disposto


no art. 10º b i) e ii), da RUU. Dentro dos créditos utilizáveis por negociação, que
também já referirmos, estes poderão ser livremente ou não livremente negociáveis,
sendo que a utilidade da adopção de uma outra modalidade tem que ver,
basicamente, com a identificação dos bancos designados. Assim, um crédito
livremente negociável é um crédito que pode ser utilizado mediante a apresentação
dos documentos perante qualquer banco, dado que qualquer deles é um banco
designado. Diferentemente, um crédito não livremente negociável requer a
identificação do (s) banco (s) designado (s), sob pena de, como acima concluímos,
se considerar como bancos designados apenas aqueles que tenham assumido
compromisso209.

4.2.5. Créditos transferíveis e créditos não transferíveis

A natureza transferível ou não do crédito documentário é uma das


características mais importantes que o mesmo pode apresentar, permitindo
conferir-lhe uma maior flexibilidade na sua utilização na medida em que, potenciado
o aumento do número de intervenientes, caso seja transferível, expressa a sua
vocação para a circulação.

Um crédito documentário transferível é, em termos simples, um crédito


susceptível de, por determinação do beneficiário. Esta técnica de utilização do
crédito documentário revela-se particularmente útil nos casos em que esteja em

208 Cfr. CARLOS COSTA PINA - Créditos Documentários, Coimbra Editora, 2000,p. 15 - 20
209 Ob. Cit. p.15 e ss.

161
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
causa a realização da função de financiamento em favor do credor do contrato base.
Por esta via, um vendedor num contrato de compra e venda, que para proceder à
exportação da mercadoria vendida tenha, previamente, de a adquirir ao seu
fornecedor, pode, na falta de um suporte financeiro específico para esta aquisição,
transferir o seu crédito sobre o comprador para o seu fornecedor, eventualmente
por um valor inferior, reduzindo assim as sucessivas operações de pagamento às
várias partes através da sua integração no funcionamento do esquema único do
crédito documentário.

Adicionalmente, o que constitui uma resposta eficaz às necessidades


comerciais, poderá o beneficiário (vendedor no contrato base) optar pela
substituição das suas facturas, ou saques, pelas do segundo beneficiário (seu
fornecedor), ou pela apresentação das suas próprias facturas (art. 48º, al. i), da
RUU); pela substituição da identificação do ordenador do crédito documentário pela
sua própria identificação (art. 48º, al. h), e 4.º parágrafo, da RUU); ou pelo
pagamento do valor do crédito na praça para aonde for transferido (art. 48º, al. j),
da RUU). Sem prejuízo destas facilidades, permita-se-nos ainda formular a
existência de três regras fundamentais que, derivando da disposição que temos
estado a analisar, delimitam negativamente a transferibilidade do crédito
documentário são elas:

 A transferência expressa;
 A transferência única; e,
 A transferência limitada ao crédito original.
Quanto à primeira, a mesma justifica-se em função da necessidade da sua
clara qualificação como tal, através da utilização do termo “transferível”, sob pena
de a transferência não ser possível (art. 48º al. b), da RUU ). Contudo, a expressa
previsão da transferibilidade tem, ainda assim, um valor meramente relativo, dado
que não se poderá falar propriamente de um direito do beneficiário de
transferibilidade, mas apenas de uma faculdade de solicitar, cabendo depois ao
banco que realizará a transferência decidir da sua efectivação (art. 48º, als. a) e c),
da RUU)210.

Por transferibilidade única pretende-se evidenciar que, salvo estipulação em


contrário, se é permitida a transferência do primeiro para o segundo beneficiário, já
não o é deste para um terceiro, com excepção de uma situação de retro transferência,
do segundo para o primeiro beneficiário, que será admitida (art. 48º al. g), da RUU).
Não obstante, estas limitações, uma vez que é possível, como vimos, a transferência
parcial, entende-se ainda que a transferência em fracções do montante total do
crédito constitui para todos os efeitos uma única transferência.

210 Cfr. CARLOS COSTA PINA - Créditos Documentários, Coimbra Editora, 2000, p. 15 - 20

162
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
A transferência única pode analisar-se, assim, em duas dimensões. Numa
dimensão subjectiva ao impedir a transferência do segundo para o terceiro
beneficiário, e numa dimensão objectiva ao consolidar numa única transferência as
várias transferências parciais.

A regra da transferibilidade limitada ao crédito original reflecte, por seu


turno, o imperativo lógico de não ser possível transmitir mais do que aquilo que se
detém (“nemo plus iuris transfert quam habet”). Assim, a transferência deverá
respeitar os termos do crédito original, como excepção dos elementos respeitantes
aos montantes e aos prazos estipulados, que apenas poderão ser “reduzidos ou
encurtados” (art. 48º, al. h), 1.º parágrafo).

Por fim, caberá ainda salientar que, como de resto já resulta do que temos
vindo a dizer, sendo a transferência um instrumento inserido na própria lógica do
crédito documentário, estando ainda em causa a sua utilização, não se impede,
portanto, uma comum cessão obrigacional, que poderá ser feita mesmo na
impossibilidade da transferência documentaria. Tratar-se-á então daquilo a que, na
terminologia das Regras Usos Uniforme, se denomina de “cessão do produto do
crédito” (art. 49º, da RUU)211

4.3. Os Intervenientes na “Relação” do Crédito Documentário

Sem prestações de qualificação jurídica, por ora, e apenas com o objectivo de


traçar, em termos práticos, a componente subjectiva do crédito documentário, deve
dizer-se que a doutrina costuma apontar como requisito mínimo, para que de um
crédito documentário se possa falar, a existência de um ralação triangular que
envolva o credor e o devedor de um contrato base e um banco ao qual é feita a
solicitação do ordenador (devedor) para que pague ao beneficiário (credor) contra
a apresentação, por este, dos documentos estipulados.

Embora esta hipótese corresponda às situações normais, e encontre, por isso,


perfeita correspondência no disposto no art. 2º, das RUU, pensamos, não obstante,
poder encontrar um crédito documentário apenas com dois intervenientes. Basta
pensar, por exemplo, na hipótese de um banco que, tendo celebrado um contrato
com outrem, nos termos do qual seja devedor, pretenda efectuar o pagamento
devido com recuso ao esquema do crédito documentário e, para efeito, notifique o
seu credor no sentido de que, contra a apresentação de certos documentos, satisfará
o seu crédito. É certo que, nesta situação, o banco assume a posição devedora no
contrato base. Contudo, será já ficção vê-lo na posição simultânea de ordenador e de
banco emitente.

211 Ob. Cit. p. 15 e 20.

163
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Mas se a situação a que nos referimos inicialmente corresponde às situações
normais ou de complexidade mínima, deve dizer-se que, na sua estruturação, a
utilização do crédito documentário pode tornar-se mais sofisticada, aparecendo,
para além do ordenador, do banco emitente e do beneficiário, também um banco
notificador, que apenas informa o beneficiário a abertura de um crédito
documentário sem se vincular perante este ao pagamento do valor do crédito, ou
um banco confirmador, que assume um compromisso idêntico ao do banco emitente
de um crédito documentário irrevogável.

Sobre a posição jurídica de cada um destes intervenientes teremos, adiante,


oportunidade de fazer algumas considerações específicas, pelo que aproveitamos
este ponto para apontar também a existência de outras figuras que por vezes
passam despercebidas. Assim, ultrapassando a possibilidade de existência de um
segundo beneficiário, que vimos a propósito da transferibilidade do crédito
documentário, refiram-se apenas as figuras, possíveis, do banco designado e do
banco reembolsador.

O banco designado é, nos termos do art. 10º, al. b), da RUU, um banco perante
qual o crédito (art. 10º, al. a) da RUU) de que se trate. Assim, tanto pode estar em
causa o banco emitente, o banco confirmador (na medida que assumem ambos um
compromisso), ou outro banco que esteja identificado no crédito documentário
mesmo que dai não resulte qualquer vinculação da sua parte.

O banco reembolsar é, nos termos do art. 19º, das RUU aquele perante o qual
um outro banco que tenha satisfeito o crédito documentário pode exigir o
pagamento dos valores previamente entregues ao seu beneficiário. Trata-se, pois,
de um mecanismo que permite ao banco emitente conferir um carácter subsidiário
à sua obrigação de pagamento ao banco designado aquando da entrega por este dos
documentos relevantes. No entanto, atreves da indicação de um banco
reembolsador, o banco emitente não deixa se exonera da sua obrigação, podendo o
banco designado exercer o seu direito de regresso contra ele, caso se verifique o não
pagamento por parte do banco reembolsar212.

2.11. Contrato de Investimento Externo

O contrato de investimento externo tem sido estudado de algum modo no


direito económico por se apresentar com afinidade dos contratos económicos na
medida que são objecto de regulação devido interesse económico nacional.

Qualquer modo, ao longo dos anos essa matéria foi abordado em sede público
atento a qualidade de agentes económicos que intervinham no processo e bem como
o modelo de contrato que não se compaginava com o figurino dos contratos

212 Cfr. CARLOS COSTA PINA - Créditos Documentários, Coimbra Editora, 2000, p. 15 – 20.

164
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
internacionais do direito privado. Daí ser sido apelidado de investimento
estrangeiro213.

Com desenvolvimento das relações económicas e das transacções comerciais,


o Estado angolano para se adaptar o contexto daquele realidade teria sido forçado
gorar a típica de investimento estrangeiro para cunhar o modelo de investimento
privado cujo conceito veio ser utilizado tanto na lei nº 11/03, 13 de Maio, bem como
na Lei nº 10/18, de 26 de Junho.

2.11.1. Noção de investimento e investidor externo no Direito positivo


angolano

O Investimento Privado, pode ser definido como a utilização de recursos por


empresas de direito privado, nacionais, estrangeiras, mediante alocação de capital
tecnológico e conhecimento, bens de equipamentos e outros, destinados a
manutenção ou ao aumento de stok de capital. Porém o Investimento que refere
pode ser interno, externo e misto, desde logo, que nos importa sublinhar em sede do
direito do comércio internacional é efectivamente o investimento privado externo.

Portanto, no direito material angolano ou se quisermos dizer direito positivo


angolano, encontra a sua consagração na Constituição art. 13º, da CRA, bem como
na legislação ordinária Lei nº 10/18, de 26 de Junho, na qual estabelece bases
jurídicos legais para efeitos.

2.12. Natureza jurídica do Contrato de Investimento

O Investimento privado realiza-se através de instrumentos contratuais sob


vigilância do direito internacional cujo método de resolução é de conflito.

O LINO DIAMVUTU214, entende que o contrato de investimento privado tem


natureza administrativa, pois, segundo este autor, sustenta que a LIP prevê, para
acesso aos incentivos e facilidades às operações de investimento privado, dois
regimes processuais: o regime de declaração prévia e o regime contratual (art. 35º,
da LIP). Ora, o regime contratual está sujeitas ao mesmo tempo as propostas de
investimento de qualquer valor nos termos do art. 2º, da LIP.

O contrato de investimento privado visa definir os direitos e obrigações das


partes, pois de acordo o dispositivo legal previsto na LIP, estabelece que o contrato
de investimento privado tem natureza administrativa, porquanto que ele distingue-
se co contrato do direito privado pela suas finalidades a que se destina no
atendimento do interesse público, ressalvadas porém, as suas peculiaridades, são
relações bilateral que tem como características essenciais a natureza comutativa
(equivalência entre as prestações das partes) e o caracter sinalagmático

213
Cfr. Lei nº 15/94, de 23 de Setembro, Lei do Investimento Estrangeiro.
214
Cfr. LINO DIAMVUTU. – Estudo do Direito Comercial Internacional, Caxinde 2008 p. 26.

165
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
(reciprocidade das obrigações)215. Pois que o contrato investimento é celebrado
entre o investidor e o estado angolano, no caso, AGÊNCIA DE INVESTIMENTO
PRIVADO E PROMOÇÃO DAS EXPORTAÇÕES (AIPEX).

A questão que levante nesta sede é saber se o Contrato de investimento


Externo é um contrato internacional?

Ora bem, em conformidade com a concepção tradicional o contrato


internacional é aquele que efectivamente vincula mais de um sistema jurídico, ou
seja, aquele atravessa a fronteira de outro um Estado. A vinculação pode ser
observado em razão de conexão da nacionalidade das partes, domicilio, o lugar da
celebração e da execução do contrato, bem como as operações financeiras em
moedas diferentes ou convertíveis.

Entretanto, em caso de litígios das partes, a luz da natureza do contrato de


investimento externo em Angola, a indicção da cláusula compromissória da lei
angolana como como competente, entender-se-á que a lei aplicável para resolução
dos litígio ser afectivamente os tribunais comuns angolanos, isso se pro ventura
inexista qualquer cláusula que submeta o litígio à arbitragem.

No entanto, de acordo com a jurisprudência francesa, entende que a


internacionalização do contrato por referência a um critério económico, isto é, a
operação económica formalizada através do contrato há – de entender – se para
determinar o seu carácter internacional. Pelo que nestes termos, o contrato será
internacional porque põe em jogo os interesses do comércio internacional,
porquanto, afigura-se numa transacção económica que envolve a circulação de
capitais, bens e serviços que atravessa fronteiras de distintos Estados. Daí que ser
natural que se inclua a cláusula de arbitragem em caso de litigio.

2.11. 3. Convenção Arbitral em Matéria de Contratos de Investimento

A Convenção de arbitragem pode revestir duas formas, designadamente:


compromisso arbitral e cláusula compressória. Porquanto, no âmbito do princípio
da autonomia da vontade que preside o direito privado pois consiste na faculdade
reconhecida as partes de designarem a lei por que hão –de reger –se as relações
jurídico – privada internacionais estabelecidas entre si.

A convenção arbitral é o acordo pelo qual as partes decidem submeter a


arbitragem todos ou alguns dos litígios surgidos ou surgir entre elas com respeito a
uma determinada relação jurídica, contratual ou extrancontratual.

215
Ob. Cit. p. 27.

166
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Na indústria académica tem havido alguma confusão dos dois institutos, -
Compromisso Arbitral e Cláusula Compromissória que precisam ser alinhados para
sua compreensão.

A Cláusula Compromissória – consiste na convenção segundo a qual as partes


se obrigam a dirimir através de árbitros os litígios que vem a decorrer de uma
determinada relação jurídica contratual ou extracontratual. Portanto, visa dirimir
um litígio futuro que posso surgir na execução do contrato.

Já o Compromisso Arbitral - e a convenção segundo a qual as partes se


obrigam dirimir através de árbitros, um litígio actual, quer ele se encontre afecto,
quer não au tribunal judicial. Portanto visa dirimir o litígio actual e concreto, ou seja
um litígio já emergente, contemporâneo e conhecido pelas partes.

Nos contratos de investimento, a convenção de arbitragem configura-se na


modalidade cláusula compromissória, visto que é inserido no contrato de
investimento antes de surgir o litígio. Portanto, é regido pela regra da CNUDCI e
UNICITRAL216.

Nos contratos de investimento entre o Estado angolano e o investidor


externo a lei aplicável é sempre angolana a ser legalmente pré-determinada através
da cláusula compromissória de as partes mencionar no contrato.

A Arbitragem organizada em Angola é uma arbitragem interna por oposição


à arbitragem estrangeira. Porém, havendo acordos bilaterais sobre a protecção
reciproco de investimentos assinados por Angola rementem a resolução de
diferendos para os mecanismos internacionais previstos entre outros pela CIRDI217,
os quais devem prevalecer sobre o mecanismo previsto pelo contrato de
investimento, a eles o investidor recorrer. Pois as partes não tem outra opção, alias,
limita-se aceitar ou não assinar o contrato, por causa da conexão da execução (rei
loci sito) e que tal determinação obedece ao princípio de proximidade, atento que os
contratos de investimento privado são selados e executados no território
angolano218.

Pelo que, dia 25 de Junho de 2021, foi aprovado pela Assembleia Nacional da
República de Angola o projecto da Resolução que aprova para adesão da República
de Angola à Convenção para a Resolução de Diferendos Relativos a Investimentos
entre Estados e Nacionais de outros Estados (CIRDI).

216
Mas desenvolvimento vide LINO DIAMVUTU. – Estudo do Direito Comercial Internacional, Caxinde
2008 p. 33 e ss. DÁRIO MOURA VICENTE – Direito Aplicável aos Contratos Públicos Internacionais, In
Estudos em homenagem ao Professor Doutor Marcello Caetano- Vol. I, Coimbra editora 2006, p. 303
217
CIRDI – O Centro Internacional para Resolução de Controvérsias sobre Investimentos, também
conhecido para a Resolução de Diferendos relativos a Investimentos.
218
LINO DIAMVUTU. – Estudo do Direito Comercial Internacional, Caxinde 2008 p. 50.

167
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Entretanto, com este passo a ser dado agora, a República de Angola vem
consolidar o recurso à arbitragem como meio de resolução extrajudicial de
diferendos relativos a investimentos. É sabido que o mecanismo do CIRDI é
concebido à partida para disputas em matéria de investimentos internacionais entre
Estados e investidores estrangeiros. Daí a sua diferenciação com as arbitragens “ad
hoc” ou com as arbitragens conduzidas por outras instituições arbitrais privadas. A
especialização é a garantia da celeridade, gera uma expectativa de “expertise” na
condução dos casos, e consequentemente na resolução adequada e efectiva dos
diferendos. As decisões arbitrais proferidas em arbitragens envolvendo Estados
membros são exequíveis sem necessidade de qualquer reconhecimento pelos
Tribunais desses Estados. O reconhecimento das referidas decisões é automático em
qualquer dos Estados signatários da Convenção. Deste ponto de vista, a Convenção
constitui um passo em frente no sentido da integração económica do país aderente.
Aguarda-se agora pelo depósito do instrumento de adesão da República de Angola à
Convenção CIRDI junto do Banco Mundial. Refira-se que a República de Angola já
ratificou, em 2017, a Convenção de Nova Iorque sobre o Reconhecimento e a
Execução de Sentenças Arbitrais Estrangeiras de 1958219.

CAPÍTULO V- OS MODOS DE RESOLUÇÃO DE CONTROVÉRSIAS

5.1. Conciliação e Mediação (remissão)


5.2. Renegociação (remissão)
5.3. Acção Judicial (remissão)
5.4. Arbitragem

A arbitragem é um modelo de solução de litígios ou diferendos, através de


árbitros designados pelas partes.

Há vários modos de solução de litígios no comércio internacional, mas as


outras defendem que arbitragem é o melhor modo.

Há 3 razões que justificam a preferência pela arbitragem:

1. O sigilo do Processo (carácter confidencial), pelo seu sigilo a


arbitragem não é pública mas sim é um processo sigiloso. Não é
pública porque não é assistida por várias pessoas, no processo arbitral
não existe assistência; só as partes é que podem participar.

2. Celeridade do Processo, a arbitragem é um processo muito rápido,


as partes é que determinam o prazo que os árbitros devem resolver o

219
Cfr. LINO DIAMVUTU.

168
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
litígio. É um processo rápido (deve ser resolvido o litígio no prazo
determinado pelas partes).

3. Baixo Preço, esta característica é pública, discutível. Uns consideram


que a arbitragem é de baixo preço outras dizem que não. Se
conjugarem os anteriores requisitos, pode-se pagar mais do que nos
Tribunais do estado, embora que em certas circunstâncias, se o preço
da arbitragem seja elevado, pelo facto da sua celeridade haverá
preferência a arbitragem.

A arbitragem pode ser de 2 tipos:

 Ad Hoc.
 Institucional.

Arbitragem Ad hoc - é aquela em que as partes nomeiam directamente os


árbitros, segundo as regras de indicações (ex: 1, 3, 5, 7…). Isto é, os árbitros
nomeados pelas partes. Indicando os árbitros eles terão que seguir o que constar no
compromisso arbitral.

Arbitragem Institucional - É aquele que se realiza através de uma instituição


de arbitragem (instituições próprias destinadas as organismos já constituídos), ex.:
A Câmara de Comércio Internacional de Paris (CCI), Tribunal de Arbitragem de HAIA
(TAAH) que ocupa-se também de resolução de arbitragem. Neste Tribunal vão só os
Estado, havendo assim poucos processos neste Tribunal, o mas frequente é a
arbitragem Ad Hoc.

Mesmo que a arbitragem seja institucional, esta é muito mas barata do que a
arbitragem, ad hoc, visto que, as partes terás que arcar com todas as despesas
(quanto aos árbitros, os processos).

Quem pode ser arbitro? O que é um árbitro?

Arbitro, é um juiz nomeado pelas partes de um contrato em conflito. O árbitro


tem que ser imparcial, pessoa conhecedora da matéria em questão (um arbitro não
tem que ser qualquer uma pessoa, mas sim, conhecedora da matéria em questão)
(mas quanto a organização de processo necessariamente tem que ser um jurista), o
facto de ser nomeado por uma das partes não impede ser defensor da qual foi
nomeado). Se for um árbitro ele será escolhido por acordo as partes, quanto a
decisão será proferida por ele, se forem três ou mais árbitros a decisão será por
votação e por acordo.

5.4.1. O Processo Arbitral

169
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Quando uma das partes sentem-se lesada, ela dirige-se a um Tribunal e
apresentar uma petição inicial e que indicará tudo o que tiver que alegar, nos termos
do art. 10º, da Lei – Modelo CNUDCI, relativamente a composição do Tribunal
arbitral, compete as partes decidir (Liberdade de escolha) os árbitros, na sua falta
recorre-se a regra geral na arbitragem aos regulamentos da instituição.

A Arbitragem Institucional é mais barata do que a arbitragem Ad hoc, visto que


esta instituição não pratica ou a sua actividade não é só a arbitragem elas tem outras
actividades que as possibilitam suportar as suas despesas.

Na arbitragem Ad hoc, são as partes que pagam os honorários, as despesas com


os árbitros, apesar de esta arbitragem ter a tempo muito curto nesta a sua celeridade
e baixo custo, alguns autores dizem que este é mais barato em relação a arbitragem
institucional.

Relativamente a questão de nomeação dos árbitros (art. 11º Lei -Modelo), as


partes podem escolher livremente o processo de nomeação dos árbitros em que por
exemplo na nomeação de 3 árbitros, cada um terá que nomear 1 e o 3 será nomeado
pelo dois árbitros ou podendo ser ambos as partes mas por acordo. Se não for
designado por acordo vai-se ao Tribunal comum para nomear o árbitro.

Qualquer pessoa poderá exercer, a função de árbitro, mas como dissemos tem
que ser uma pessoa que conheça a matéria em causa (não necessariamente um
jurista). Se não for nomeado os árbitros por um Tribunal, ou pelas partes seu acordo,
ou a sentença já for proferida a parte lesada poderá intentar uma acção de anulação
da sentença.

Para todos efeitos, a regra é as partes por acordo devem nomear os árbitros.
Porém, a outra parte tem ónus de indicar no prazo de 30 dias o seu árbitro, se o não
fazer a outra parte poderá recorrer ao Tribunal comum, propor uma acção para que
a outra parte nomeia o árbitro para se prosseguir com o processo de arbitragem;
(neste caso o Tribunal poderá nomear o arbitro, é os dois árbitros eram nomear o
terceiro arbitro). Se for um só árbitro, se as partes não estiveram de acordo a parte
que estiver terá que recorrer ao Tribunal para este nomear o árbitro (caso a parte
não nomear o arbitro).

Qualquer modo, quando o Tribunal nomear um árbitro, esta nomeação não


será susceptível de recurso. Ele terá que fazer a nomeação mas de acordo com o
processo de nomeação em que as partes pretendem.

A decisão do Tribunal na nomeação de árbitros não pode ser recorrível por


nenhuma das partes. Início do processo arbitral, nos termos do art. 21º, da Lei –
Modelo da CNUDCI, começa no momento, ou a partir do momento em que chega a
comunicação a outra parte de que a parte lesada esta interessada a submeter o litígio
a arbitragem.

170
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
O processo começa a partir desse momento em que a outra parte comunica
(art. 21º, da Lei – Modelo CNUDCI), que ira recorrer a arbitragem e comunica na
língua que as partes acordarem e na falta de tal acordo o Tribunal se encarregara
suprir tal inópia com as respectiva tradução fiel na língua comunicável de algum das
partes, vide art. 22º, da Lei – Modelo CNUDI.

Portanto, quando as partes querem ir a arbitragem eles terão que assinar um


compromisso; o lugar ou o local da arbitragem.

As peças processuais, ou seja, os articulados do demandante e do demandado


- cada parte pode dirigir os articulados que são dois (2) por questões de economia
processual, designadamente:

 Petição Inicial, O demandante devera apresentar tudo o que for


necessário.
 Contestação, o demandado terá também que contradizer tudo que for
necessário.

Portanto, cada parte só tem direito a um articulado e depois da entrega dos


articulados dá-se a oportunidade de as partes modificarem (no decorre do processo)
qualquer situação em sua defesa (art. 23º, nº 2, da Lei – Modelo CNUDCI).

O processo arbitral obedece o procedimento oral e escrito, ou, seja, pode ser
oral ou escrito, porém é um processo cível, mas a oralidade não modifica nada que
estiver na petição inicial e na contestação. A oralidade é uma coisa acessória o
tribunal é que deve decidir se será por decisão oral, mas o processo é conduzido a
base de documentos. Só se uma das partes o requerem é que o Tribunal o poderá
proceder e se haver necessidade de examinar as mercadorias as partes devera ser
notificadas com antecedência.

O Tribunal arbitral poderá por fim ao processo arbitral se o demandante não


saber alegar bem o seu pedido. Isto é quando o pedido for inelegível, o Tribunal põe
fim ao processo, se o demandante não fizer devidamente sua contestação por forma
a fazer a sua defesa, neste caso o processo será julgado conforme como está (art. 25º,
da Lei – Modelo CNUDCI, todavia, os árbitros não poderá arrumar o processo,
julgando de acordo com aquilo que entenderem, pois o Tribunal poderá julgar de
acordo com o processo que tiver em mão (com base naquilo que ele tem).

As peças processuais tem que estar bem-feita, o processo estará pronto, neste
caso conhecerá aos juízes decidiram com base o previsto no art. 28º, nº1, da Lei-
Modelo CNUDCI. As partes no documento terão que indicar o Direito Aplicável (o
direito matéria que irá servir de base ao julgamento).

171
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Quando as partes designam o direito eles farão uma referência que pode ser
global ou material. Material- apenas ser a referência para o Direito Material. Global
– inclui –se o direito material e o direito aplicável.

Quando se aponta para um determinado Direito, faz-se uma referência do


Direito Material com excepção do DIP para se evitar um círculo vicioso. Qualquer
modo se as partes não designarem o Direito Aplicável caberá aos árbitros (através
de determinados índices),escolher o Direito de conformidade com o interesse das
partes.

Entretanto, os árbitros atreves do DIP irão procurar a Lei aplicável ao caso, se


for um caso que tem a ver com a herança neste caso será a lei da situação dos bens.
O Tribunal Arbitral decidira “ex aequo et bono ou amiable compositeur “(é muna
coisa) isto significa Equidade.

Os árbitros só podem julgar “ex. aequo et bono”, se as partes assim o


solicitarem, se não os solicitar não haverá equidade. Os árbitros por sua livre
iniciativa não podem julgar segundo a equidade, eles devem julgar segundo as
regras de Direito. Eles podem sim é solicitarem as partes para julgar segundo a
equidade.

Os usos, costumes, cláusulas do contrato são as partes importante, para os


árbitros decidirem, os árbitros não podem decidir ou julgar de maneira diversa os
que estiver na cláusula do contrato.

A forma e o conteúdo da sentença, efectivamente há semelhança entre a


sentença, de um tribunal comum e de um tribunal arbitral, pois ela deve ter a forma
escrita e assinada pelos árbitros (art. 31º, da Lei-Modelo CNUDCI). Tem também que
haver declaração de voto no caso de a outro arbitro não assinar a sentença.

A sentença, tem ser obrigatoriamente fundamentada (art. 31º, nº 2 da Lei-


Modelo, salvo se houver um acordo das partes nos termos do art. 30º, da Lei-Modelo
da CNUDCI.

Geralmente onde ocorrer a arbitragem é que será proferida a sentença. Mas


não será obrigatório que seja no mesmo local e sentença será enviada a cada parte
uma cópia assinada pelos árbitros.

Os poderes dos árbitros dura enquanto dura o processo; proferindo a sentença


o processo termina (art. 32º, da Lei-Modelo da CNUDCI. Dado por encerrado o
processo também o processo termina e não há necessidade de levantar questão.

Entretanto, o encerramento do processo não significa fim do processo (que é


o caso da sentença) mais se o facto de o processo não poder contar. Pode-se
abandonar o encerramento do processo se o demandante retirar o pedido de queixa
ou no caso de eles pedirem para continuar (neste caso os árbitros terão de averiguar

172
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
a situação) e quando haja acordo para encerrar o processo neste caso os árbitros
não poderão ocupar-se.

Encerra-se o processo se o tribunal nota que o processo não ira chegar a uma
decisão querente ou chegar a conclusão de que a continuação do processo não
haverá a um resultado. O encerramento do processo significa a parte final do
processo.

Assim, o processo arbitral termina com;

 A sentença.
 O encerramento do processo.

5.4.2. Interpretação da Sentença

a) Rectificação da Sentença

A sentença pode não estar bem clara para o âmbito ou para uma das partes. A
parte que não estiver bem clara poderá pedir para aclarar um explicação ou uma
parte do processo, de modo a que a sentença seja bem esclarecida, pedindo para
rectificar. art. 33º, da Lei-Modelo da CNUDCI.

b) Recurso da Sentença.

A sentença não pode ser recorrida, porque proferida a sentença os poderes e


as funções dos árbitros cessão, visto que, a instância superior é o Tribunal Arbitral,
não havendo neste caso outro órgão para recorrer. Se uma das partes se sentir
lesado, ela deverá dirigir-se a um Tribunal comum, declarando os motivos de modo
a que o tribunal anule a sentença (art. 34º, da Lei-Modelo da CNUDCI).

c) O Recurso de Anulação,

É um pedido de anulação da sentença, e que uma das partes recorre ao


Tribunal comum. Se o Tribunal comum achar que deve enviar de novo para o
Tribunal Arbitral ela poderá enviar ou não, isto é, o Tribunal comum pode remeter
ao Tribunal Arbitral para que reveja a sua sentença ou pode ele mesmo apreciar a
questão (art.34º. da CNUDCI).

d) Reconhecimento e execução da sentença.

Este tem que ser reconhecido pelo Estado. A sentença deve ser reconhecida
pelo estado que vai executar de modo a ter força a executar (art. 33º nº 3, da Lei-
Modelo da CNUDCI). A outra parte poderá pedir ao Tribunal para proferir uma outra
sentença adicional no caso de ela não for total, mas não pode ser para além do
objecto.

173
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
A sentença adicional também tem que ser escrita assinada pelo árbitro e com
os fundamentos do pedido de anulação da sentença (art. 34º, da Lei-Modelo da
CNUDCI). O pedido de anulação, tem que ser interposto no Tribunal comum e não
no Tribunal Arbitral, salvo anular-se todo processo e constituir outros árbitros.

Este pedido é exclusivo, e é única forma que se pode lançar mão para que a
sentença ser revista ou anulada. Porém, se uma das partes for incapaz poder-se-á
fazer um pedido de anulação e se a convenção arbitral não for valida (visto que esta
deve ser sempre escrita) a sentença proferida ainda que bem conduzida poderá
merecer um pedido de anulação.

Por hipótese, se a sentença contrariar os preceitos imperativas de um


determinado Estado, a sentença poderá ser anulado, ou se não tiver conhecimento
da nomeação dos árbitros, nem ter participado no processo, ou não exercer ao seu
direito ser ouvido, a sentença neste caso poderá também ser anulado. Se o Tribunal
julgar causas que não se previa ou não fora pedido pelas partes, ou se não julgar toda
a causa, poderá também uma das partes fazer pedido de anulação. Agora se o
processo arbitral não estiver conforme a convenção das partes, isto é, se os árbitros
não seguirem aquilo que as partes convencionarem ou julgar com base no direito
que as partes não pedirão.

O Tribunal comum poderá enviar ao Tribunal Arbitral para corrigir o erro ou


que complete a sentença para evitar que se anule a sentença (se for questão de
excesso) se um das partes o recorrer. O pedido de anulação é o único recurso para
que as partes tem para recorrer, com o fundamento constante no art. 34º; no
tribunal comum.

A sentença para ser executada terá que ser reconhecida (este


reconhecimento que que ser feito por um tribunal competente) art. 35º, da Lei-
Modelo da CNUDCI). Ela será reconhecida como tendo força obrigatória. O Tribunal
competente para reconhecimento as sentenças estrangeiras (antes dela ser
executada) é o Tribunal Supremo “ em Angola”. Para que uma sentença seja
executada, e necessário que ela seja reconhecida, art. 36º, da Lei Modelo da CNUDCI,
cujos fundamentos de reconhecimento ou recurso da execução são as mesmas que
os fundamentadas pedido de anulação da sentença.

174
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário

CAPÍTULO V - ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS DO COMÉRCIO


1. O GATT

Numa perspectiva histórica, a OMC é fruto da iniciativa pioneira do Acordo


Geral de Tarifas e Comércio, celebrado em 1947 (GATT). O GATT está na origem do
sistema da OMC e, por seu turno, surgiu para atender o anseio dos Estados
signatários em promover a redução das tarifas ou barreiras ao comércio
internacional, bem como o tratamento discriminatório no fluxo do comércio
multilateral.

Depois da segunda guerra mundial intensificou-se o movimento de criação


vários tratados, convenções e protocolos sobre o comércio Visto que o capitalismo
liberal não se compadecia com os acordos bilaterais. Criou-se assim em 1947 o GATT
- Acordo Geral, Sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio, (General Agreement en Tarifs
and Trade),criado sob auspício iniciativa dos EUA220. Cujo objectivo foi de acabar
com todos os acordos bilaterais feitas antes deste tratado (formou absolutismo), isto
é, de algum modo veio traçar os objectivos de militarização do comércio
internacional e fazem parte desde acordo cerca de 190 países.

Importa sublinhar que no âmbito do GATT, foi convencionado entre o


Estados membros a “Cláusula da nação mais favorecida”, constante tratado que
criou o GATT, o que significa qualquer benefício que se concentra a um Estado,
transmite-se automaticamente a todos os Estados membros221.

Função do GATT também era entendida como de militarização dos tratados


e liberalização do comércio internacional que funda na multilarização ou nos
acordos entre os Estados sobre comércio internacional.

1. CNUDCI

Em 1950 foi criada a Comissão das Nações Unidas para o Direito do Comércio
Internacional (sigla CNUDCI) e tem como principal função legislar sobre varias
matérias de comércio internacional, é uma comissão (não permanente).

220 Até que um pouco antes da II guerra mundial criou o tratado do GATT (leis que só foi aprovada e
entrou em vigor depois da guerra) e, foi aprovado em 1947 e entrou em vigor 1948.
221 Ex: A venda ou o acordo liberal entre um Estado membro do GATT e um terceiro Estado beneficia

outros Estados membro do GATT.

175
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Esta comissão elaborou várias convenções para a uniformização e unificação
do comércio internacional222, visto que, cada Estado elaborava as suas tarifas, ou os
Estados praticavam tarifas exorbitantes na comercialização de vários produtos e
sobre o custo das mercadorias de modo ou de maneira diversa.

2. O.M.C .

O.M.C. - Organização Mundial do Comércio, foi criada em 1994, e que entrou


em vigor em 1995. É uma instituição que aplica os princípios do GATT (trata de
princípios tendentes a uniformizar e a unificar as regras do comércio internacional).

4. SADC.

Instituída inicialmente em 1992, a região da SADC conta actualmente com 15


países, nomeadamente: Angola, Botswana, Lesoto, Ilhas Maurícias, Namíbia,
Seychelles, África do Sul, Swazilândia, Zâmbia, Moçambique, Tanzânia, República
Democrática do Congo, Madagáscar, Malawi, e Zimbabué, com uma população acima
dos 200 milhões de habitantes e um PIB médio per capita avaliado em cerca de 7.500
USD.

Os objectivos primordiais da criação da zona de comércio livre foi de


estimular o crescimento económico através da livre circulação de capitais, de bens
e serviços, da redução e unificação das tarifas alfandegárias de importação e
exportação nas relações comerciais bem como a diminuição da pobreza e uma
melhor qualidade de vida para os cidadãos dos países membros.

A criação da zona de comércio livre faz parte de um conjunto de etapas a


percorrer para efectiva integração dos países membros. Teve seu ponto de partida
em 2008, onde 12 dos 15 países membros decidiram aderir de imediato, porém
Angola ainda receia até hoje a sua integração à zona de comércio livre por razões de
desvantagens competitivas, sendo apenas membro da SADC em outros domínios.

A África do Sul é a maior economia da região, ao passo que Angola goza de


uma posição privilegiada, pois assume a presidência relativa a política de defesa e
segurança. Há uma necessidade gritante de diversificar as exportações de Angola de
modos a permitir que haja outras alternativas para entrada de divisas no país e não
ficar muito dependente da exportação de petróleo, pois este é muito volátil à
choques externos.

Angola é um país caracterizado por um fraco desenvolvimento industrial, por


um lado fruto de um longo período de guerra e por outro lado fruto de políticas

222 Lei-Modelo CNUDCI (arbitragem, regras de usos uniforme, venda de mercadorias, UNICITRAL
etc.)

176
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
públicas pouco eficientes. Infelizmente, a prioridade tem sido dada à exportação de
recursos minerais como o petróleo e os diamantes em detrimento do
desenvolvimento da indústria transformadora, demonstrando um caso típico de
“Doença Holandesa ou Dutch disease em inglês”.

Diante deste cenário económico actual, que vantagens competitivas poderá


ter Angola aderindo a Zona de Comércio Livre da SADC liderada pela África do Sul?

Angola mantém boas relações com os países membros do bloco em variados


domínios, porém, no que concerne à Zona de Comércio Livre, ainda existe um certo
receio em abrir as fronteiras para um comércio mais alargado, pelo que prefere
adiar para 2020 a sua entrada na zona ou antecipar para 2019.

A efectiva integração à Zona de Comércio Livre, está muito dependente do


evoluir do processo de industrialização em vigor de modos a que os produtos
angolano possam competir de igual forma com as indústrias robustas como às da
África do Sul e demais países da região que já produzem um leque diversificados de
produtos transaccionáveis bastante competitivos; caso contrário, Angola será
engolida por seus concorrentes e verá fracassado ainda mais o seu processo de
industrialização.

O sector industrial angolano ainda se depara com elevados custos de


produção tornando o país pouco competitivo. Por outro lado, há ainda fragilidades
do ponto de vista do capital humano e do progresso tecnológico. Estes factores de
desvantagens competitivas adicionado à políticas públicas pouco eficientes têm
prejudicado imensamente a produção nacional e está na base dos constantes
adiamento a adesão de Angola à Zona de Comércio Livre da SADC. Mas contudo
recentemente há notícias de sinais de adesão ao comércio livre em 2020.

África do Sul, Namíbia, Botswana, e outros países da região, já transaccionam


os seus produtos livremente na zona, pois fizeram grandes investimentos nas suas
capacidades produtivas, e adoptaram políticas voltada à exportação, o que tornou
as suas indústrias bastante fortes e são capazes de fornecer um conjunto de bens e
serviços competitivos ao bloco.

Angola, pelo contrário, não aproveitou ao máximo dos anos de forte


crescimento económico (2002/2013) para alargar o seu stock de capital físico
desenvolvendo os sectores primários e secundários da economia e desta forma criar
condições para efectivamente integrar à zona com vantagens competitivas.

Este facto, fez com que Angola mergulhasse num fraco desenvolvimento
industrial mantendo-se refém de importações e dependente unicamente de
exportações de apenas duas principais commodities (petróleo e diamantes).

177
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Algumas medidas de políticas macroeconómicas tanto no âmbito fiscal,
monetário como outras de carácter estrutural, devem ser tomadas para que Angola
possa efectivamente integrar à zona em 2020 como está previsto, tais como:

- Potenciar a iniciativa privada que actuam nos sectores primários e


secundários com visão voltada à exportação através de incentivos fiscais e abertura
de linhas de crédito com juros bonificados.

- Diminuir a burocracia facilitando o investimento privado nacional e


estrangeiro;

- Melhorar o sistema de abastecimento de energia eléctrica, água,


saneamento básico e controlo da inflação, de modos a atrair novos investimentos,
pois estes factores têm agravado os custos de produção e comprometido a
competitividade.

- Combater a corrupção, adoptando boas políticas públicas, etc.

Mas apesar deste mar de dificuldades que enfrenta para efectiva integração
à zona, Angola possui condições para se tornar competitiva, pois o país tem grandes
potencialidades agrícolas e uma vasta riqueza hidrográfica que já tem sido usada na
construção de grandes aproveitamentos hidroeléctricos capaz de gerar energia
eléctrica limpa e dinamizar o processo de industrialização em curso e até mesmo
exportar o excedente de energia para os países da região, tirando vantagens
competitivas e comparativas disto.

Do ponto de vista do desenvolvimento industrial, deve-se reconhecer que


alguns passos já foram dados, como por exemplo a criação do Pólo Industrial
Angola-Bengo designada ZEE (Zona Económica Especial), e o projecto ANGOLA
INVEST, que visam diversificar e relançar a produção nacional com visão voltada à
exportação.

Concernente as vantagens que poderão advir com adesão de Angola à Zona


de Comercio Livre da SADC, pode-se destacar o alargamento da produção nacional
à outros mercados, diversificação na arrecadação de receitas fiscais e entrada de
divisas, criação de novos postos de trabalho directo e indirecto, aumento do
investimento, da renda, do consumo e consequentemente o crescimento económico.

Assim sendo, pode-se concluir que integrando à Zona de Comércio Livre,


Angola poderá maximizar os seus ganhos de produção, pelo que basta apenas que
se acelere o processo de industrialização.

178
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário

Referencias Bibliográficas

ALFREDO PROENÇA/J. ESPANHA PROENÇA

– Transporte de Mercadorias, Almedina, 2004.

ANTÓNIO MENESES CORDEIRO

- In Manual de Direito Comercial 2ª edição Almedina 2007.

CARLOS COSTA PINA

- Créditos Documentários, Coimbra Editora, 2000.

DÁRIO MOURA VICENTE

- Direito Aplicável aos Contratos Públicos Internacionais, In Estudos em


homenagem ao Professor Doutor Marcello Caetano- Vol. I, Coimbra editora 2006.

FRANCISCO COSTEIRA DA ROCHA

– O Contrato de Transporte de Mercadoria, Almedina 2000.

LÍGIA MAURA DA COSTA

– Comercio Exterior, Negociação e Aspectos Legais, editora Campus 1996.

LUÍS DE LIMA PINHEIRO

- Direito Comercial Internacional, Almedina 2005.

- Da Arbitragem Comercial Internacional, Coimbra Editora, 2005.

LUÍS DA COSTA DIOGO RUI JANUÁRIO

- Direito Comercial Marítimo, Quid Iuris. Sociedade editora 2008.

LINO DIAMVUTU

– Estudo do Direito Comercial Internacional, Caxinde 2008.

JOSÉ ENGRÁCIA ANTUNES.

– Direito dos Contratos Comerciais. Almedina 2009.

JONATÃ MACHADO e PAULO NOGUEIRA DA COSTA,

179
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
- Direito Constitucional Angolano, Coimbra editora 2011.

JOSÉ MANUAL JANOTA

- Apontamentos da aula de DCI, ano lectivo de 2005. FDUAN- Luanda.

MARIA GABRIELA DE OLIVEIRA FIGUEIREDO

-A Assistência Técnica nos Contratos de KNOW- HOW, Coimbra Editora


2003..

M. JANUÁRIO DA COSTA GOMES( Coord.)

– Temas de Direito de Transporte, Almedina 2013.

NUNO MANUEL CASTELLO- BRANCO BASTOS

– Direito dos Transportes , Almedina, 2004.

PEDRO ROMANO MARTINEZ

- Contratos Comerciais, Principia editora 2003.

STRENGER IRINEU

Contratos Internacionais do Comércio, 4º Edição, L TR. São Paulo 1996..

ROBERTO KAMBOVO

– Direito Marítimo, Transporte Marítimo de Mercadorias, mayamba editora


2010.

Jurisprudência portuguesa

Ac. do S.T.J. de 10.11.93, in CJ/AST I.III.118.

Ac, do S.T.J., no Proc.2370/03.

Ac. da Relação de Lisboa de 15.10.92, in col. Jur: XVII.IV.178.

Ac. da Relação do Porto, de 8.02.96, in Col. Jur., XXI.I.213.

Ac. da Relação do Porto, de 27.11.95, in Col. Jur. XX.V.2010.

Ac. do S.T.J., de 23.3.93, in CJ/ASTJ I.II.16).

Ac. da Relação do Porto, de 5.03.91, in Col. Jur. XVI.II.233.

Ac. da relação do Porto, de 4.5.92, in Col. Jur. XVII.III.277).

Ac. de 3.3.93 do Supremo Tribunal de Justiça, in Col. Jur./ASTJ, I-II, p 18.

180
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Ac. da Relação do Porto, in Col. Jur. XX.III.208.

Ac. de 19.05.87, in col. Jur., XII, 3 pp. 209.

Ac. da Relação do Porto de 23.06.87, na col. Jur: XII. 3, p. 209.

Ac. de 11.3.99, in revista 97/99 da 2ª Secção, que remete para o de 3.20.94,


in ASTJ de 1994.III.80;

Ac. de 17.5.2001, in ASTJ IX.II.91).

Ac. do STJ de 3.05.2001, no Proc. 1142/016

Ac. do mesmo STJ de 17.5.1984, in Bol. 337-373.

Ac. do STJ de 25.10.93, in CJ/ASTJ I.III.88.

Ac. da Relação de Lisboa, de 14.3.96, in col. Jur XXI.II.81.

Ac. da Relação de Lisboa, de 16.6.92, in Col. Jur., XVII, III. 209 e 211.

Ac. da Relação do Porto, de 04.05.92, in Col. Jur. XVII.III.277 e 279.

Ac. do S.T.J. de 23.3.93, in CJ/ASTJ. I.II.16.

Ac. Relação de Coimbra, de 10.11.92, in Col. Jur. XVII. V. 46.

Ac. de 10.11.93, o S.T.J.

Ac. STJ; de 28.6.83, in Bol. 328.

Legislação
-CRA

-Código Civil

-Lei Sobre Arbitragem Voluntária nº 16/2003, de 25 de Julho.

-Lei Modelo da CNUDCI sobre a Arbitragem Voluntária (Viena 1985).

-Convenção das Nações Unidas Sobre os Contratos de Compra e Venda de


Mercadorias (Viena 1980).

-Acordo Geral Sobre Pautas Aduaneiras e Comércio 1994”Acordo do OMC.

-Acordo Geral de Comércio de Serviços.

- Regras de Bruxelas Sobre Regras Relacionadas Com o Conhecimento de


Carga, de 25 de Agosto de 1924.

181
Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
-Convenção Sobre o Seguro Marítimo de 1906.

-Convenção das Nações Unidas Sobre o Transporte Marítimo de Mercadorias,


Hamburg 1978.

-Convenção das Nações de 1991, Sobre a Responsabilidade Objectiva dos


Operadores de Terminais de Transporte no Comercio Internacional (Convenção
OTT).

-Convenção das Nações Sobre o Transporte Multimodal Internacional de


Mercadorias (Genebra 1980).

-Convenção de Roma sobre Lei Aplicável as Obrigações Contratuais de

Francisco Mário - nasceu no Camucuio Província do Namibe, estudou o


ensino primário na escola nº 58 do Mapango – Camucuio e o ensino geral nas escolas
do II e III Nível “11 de Novembro” (anexa ao IMNE) e “Gabriel Kwanhama” e o Ensino
Médio no Instituto Médio Normal de Educação (IMNE) no curso de especialidade de
Geografia-História - cidade de Moçâmedes.

Licenciado em Direito pela Universidade Agostinho Neto – Luanda e Pós –


Graduado em Direito Bancário pela Universidade Agostinho Neto com a colaboração
com a Universidade Clássica de Lisboa e Ciências Jurídico-Civis conducentes ao
Mestrado pela UNM- Lubango.

Mestre em Direito (Ciências Jurídico – Económicas especialidade de Direito


Financeiro e Finanças Públicas – Privadas) pela Faculdade de Direito da
Universidade de Lisboa.

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Manual de Direito do Comércio Internacional Francisco Mário
Frequência: Doutoramento em Direito (Finanças - Direito Financeiro e
Económico Global) pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

2009 Começou como docente estagiário de Direito no Núcleo do Lubango da


Faculdade de Direito da Universidade “Agostinho Neto”.

Actualmente é docente efectivo de Direito da Faculdade de Direito da


Universidade Mandume ya Ndemufayo – Lubango tem estado a leccionar as cadeiras
de Introdução ao Estudo do Direito, Finanças Públicas e Direito Financeiro, Direito
Económico, Direito do Comércio Internacional, Direito dos Recursos Naturais,
Direito da Moeda, Crédito e Bancos e Direito Fiscal).

Trabalhos científicos relevantes apresentados:

1- Supervisão Bancário, Relatório UAN – Luanda 2010 (não publicado).


2- Fundo Soberano Angolano, Relatório de Mestrado, FDUL, 2013, (não
Publicado)
3- Supervisão Bancário no Sistema Financeiro Angolano, Relatório de Mestrado,
FDUL, 2013. Publicado em Portugal, almedina editora revista científica do
IDEF, nº21/ 2015.
4- Direito do Ambiente Como Direito Fundamental na Constituição
Angolana/Portuguesa, Relatório de Mestrado, FDUL, 2013 (não publicado).
5- Os Bens do Domínio Ferroviário – Conferência CFM - Lubango 2014.
6- Controlo Jurisdicional dos Dinheiros Públicos em Angola 2015 (Dissertação).
7- Manual de Direito Económico 2021 (Fascículo).
8- Manual de Direito do Comércio Internacional 2021. (Fascículo).
9- Manual de Direito dos Recursos Naturais 2021 (Fascículo).

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