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ARTIGO de revisÃO

Úlcera por pressão em idosos:


a importância do manejo
nutricional no tratamento
Major risk factors for the development of pressure ulcer in the
elderly and the importance of nutrition in the treatment handling

Vanessa Motta Moreira Sakashita1, Maria de Lourdes do Nascimento1

Recebido em 1/8/2011 RESUMO


Aceito em 27/12/2011
As úlceras por pressão (UP) são definidas como “Uma área de lesão localizada da pele e dos tecidos subjacentes,
causados por pressão, tensão tangencial, fricção e/ou uma combinação destes fatores”. As UPs constituem impor-
tante problema de saúde, em particular nos hospitais, gerando aumento de custos e comprometimento à saúde e
prolongamento do tempo de internação, sendo o indivíduo idoso o grupo mais suscetível ao aparecimento da UP.
Este trabalho de revisão teve como objetivo analisar os fatores que levam ao aparecimento das UPs nos idosos
e identificar as estratégias nutricionais adequadas para o tratamento. Diversos trabalhos originais e de revisão,
publicados a partir de 2004, foram pesquisados nas bases de dados Medline, Lilacs e PubMed, sendo utilizados
os seguintes termos: úlcera por pressão, tratamento, idosos, desnutrição e estado nutricional. A maioria dos tra-
balhos publicados evidencia que a grande prevalência dos idosos que apresenta essa lesão é em sua grande parte
desnutrida, estando hospitalizada ou em instituições geriátricas. A desnutrição influencia tanto na formação da
lesão em que se tem redução da massa tecidual quanto no processo de cicatrização. A desnutrição pode predizer
o desenvolvimento da UP, devendo-se ressaltar algumas causas como a persistente falta de apetite, as restrições
alimentares, a dependência de ajuda para comer, o comprometimento cognitivo, o uso de medicações que interfe-
rem no apetite e estado nutricional.
Palavras-chave: Úlceras por pressão, tratamento, desnutrição, idosos, estado nutricional.

ABSTRACT
The pressure ulcers (PU) are defined as “An area of localized lesion of the skin and underlying tissues caused by
pressure, shear stress, friction and / or a combination of factors”. The UP is a major health problem, particularly
in hospitals, resulting in increased costs, commitment to health and prolongation of hospitalization, with the indi-
vidual elder group most susceptible to the onset of PU. This review aimed to analyze the factors that lead to the
onset of UP in the elderly and identify strategies appropriate to the nutritional treatment. Several original papers
and review articles, published since 2004, were searched in the databases Medline, PubMed and Lilacs, and used
the following terms: pressure ulcer, treatment, elderly, malnutrition and nutritional status. Most published studies
shows that the high prevalence of older people presenting this injury is in his most malnourished, or being hospitali­
zed in geriatric institutions. Malnutrition affects both the formation of the lesion where there is a reduction of body
tissue and the healing process. Malnutrition can predict the development of UP, one should note some causes such
as persistent lack of appetite, dietary restrictions, dependence on assistance for eating, cognitive impairment, use
of medications that interfere with appetite and psychosocial factors. Therefore, it is necessary to adopt strategies
for prevention of pressure ulcers, including those related to recovery and maintenance of nutritional status.
Keywords: Pressure ulcers, treatment, elderly, malnutrition, nutritional status.
1
Hospital do Servidor
Público Estadual
(HSPE) – Francisco Endereço para correspondência: Vanessa Motta Moreira Sakashita • Av. José Gomes de Camargo, 300, Condomínio Ouroville, casa
Morato de Oliveira. 114 – 18213-640 – Itapetininga, SP • E-mail: vanessa_nutrisp@yahoo.com.br
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INTRODUÇÃO Para classificar as UPs quanto ao seu grau de pro-


fundidade, foi adotada a classificação publicada pela
As úlceras por pressão (UP) são definidas como: European Pressure Ulcer Advisory Panel (EPUAP) e
“Uma área de lesão localizada da pele e dos tecidos Grupo Nacional para o Estudo e Assessoria em Úlce-
subjacentes, causados por pressão, tensão tangencial, ra por Pressão – Espanha (GNEAUUP)1, que define:
fricção e/ou uma combinação destes fatores”1. grau I – eritema não branqueável em pele intacta, a
lesão precursora da pele. Em pacientes de pele escura,
As UPs são causadas por fatores intrínsecos e ex- o calor, o edema, o endurecimento ou a dureza tam-
trínsecos ao paciente. Os fatores extrínsecos que po- bém podem ser indicadores; grau II – perda parcial
dem levar ao aparecimento dessas lesões são: pressão, da pele, que envolve a epiderme, a derme ou ambas
cisalhamento, fricção, imobilização e umidade. Os (abrasão/flictena); grau III – perda de espessura total
fatores intrínsecos relacionados ao aparecimento das da pele, podendo incluir lesões ou mesmo necrose do
UPs são: alterações cutâneas relacionadas à idade, tecido subcutâneo, com extensão até a fáscia subja-
processos patológicos, diminuição da perfusão teci- cente, mas não através dessa; grau IV – destruição
dual, edema, fator nutricional, idade avançada, hipo- extensa, necrose dos tecidos ou lesão muscular e/ou
tensão arterial, tonicidade muscular, estado mental e exposição óssea ou das estruturas de apoio (neste grau
motricidade involuntária exagerada2. como no III, podem apresentar lesões com caverna,
Em função dos fatores de risco associados à faixa túneis ou trajetos sinuosos)1.
etária avançada, os indivíduos idosos são mais sus- Na população idosa, o processo da doença pode
cetíveis ao acometimento dessas entidades clínicas. contribuir com a piora do estado nutricional e sub-
Estudos demonstram que a incidência de UP em in- meter o organismo a diversas alterações anatômicas e
divíduos internados em hospitais, em casas de repou- funcionais, com repercussões nas condições de saúde
so ou ainda sob cuidados nas próprias residências é e nutrição dessa população6.
maior em indivíduos idosos3. Estudos sobre incidên-
cia e prevalência de úlceras por pressão são escassos Diversos fatores estão envolvidos na desnutrição
no Brasil. Rogenski e Santos3, em estudo prospec- do idoso, incluindo aqueles relacionados à diminui-
tivo com 211 pacientes considerados de risco para ção do apetite e prejuízo na função cognitiva e motora
desenvolver úlceras de decúbito, internados em um que leva à dependência de auxílio para alimentar-se,
hospital universitário de São Paulo, observaram uma presença de doenças agudas com perdas gastrointesti-
incidência de 39,8% de úlceras, sendo que, desses, nais, polifarmácia, redução da sensação de sede, disfa-
78,6% apresentavam idade maior que 60 anos. No gia, depressão, monotonia da dieta, doenças crônicas,
âmbito hospitalar, indivíduos idosos podem desen- entre outros7. Portanto, é importante ressaltar que,
volver essas lesões precocemente, até nos primeiros sendo os idosos um dos grupos de risco para desen-
dias de internação4. No processo de envelhecimento, volvimento das UPs, é necessário conhecer as causas
alguns fatores podem estar alterados, e a pele apresen- que afetam essa população para prevenir e tratar de
maneira eficiente as UPs, evitando, assim, o aumento
ta diminuição no processo de formação das células
no tempo de internação e os altos custos hospitalares.
epiteliais, causando desgaste de 20% a 30% na espes-
A nutrição desempenha papel fundamental na cica-
sura da epiderme, diminuição do número, tamanho
trização da ferida, melhora do sistema imune e recu-
e secreção das glândulas sudoríparas, além do escasso
peração do estado nutricional do paciente.
tecido de sustentação. A derme se desidrata perdendo
sua rigidez e elasticidade, assim como ocorre redução
da vascularização2. Esses fatores contribuem para o Fatores de riscos para úlcera por pressão
desencadeamento de fatores físicos locais, facilitando em idosos
a ruptura da pele como a maceração, que é a redução Muito se tem discutido sobre sua causalidade, fisiopa-
da resistência da pele causada pela umidade2. togenia e estratégias de prevenção e tratamento vol-
A combinação desses fatores torna a pele menos tadas, principalmente, para as populações de maior
elástica e mais friável, aumentando as chances de le- risco7.
sões dermatológicas do paciente que se encontra aca- O grupo da população geriátrica concentra 70%
mado. Estudos realizados demonstraram incidência de todas as UPs. Devido ao alto grau de morbida-
de 10% a 20% de UP em idosos acamados e taxa de de associado ao envelhecimento geral da população,
mortalidade de 70% ao ano. Cerca de 3% desses ido- espera-se que aumente a incidência de pacientes com
sos apresentam úlceras por pressão de grau III e IV2-5. UPs8.
Formação das úlceras por pressão em idosos e estratégias nutricionais no tratamento 255

Um estudo transversal envolvendo mais de 3.000 Vale ressaltar que a idade é apontada, pela maio-
pacientes em home care mostrou 9,12% de ocorrência ria dos autores, como um dos mais relevantes fatores
de UPs. Dentre esses pacientes citados, 37,4% apresen- envolvidos na fisiopatogênese das UPs, quando asso-
tavam mais de uma lesão e 14%, três ou mais úlceras. ciada a outros fatores como desnutrição, mobilidade e
A avaliação desses pacientes revelou também que 30% umidade. Em estudo multicêntrico, realizado na Fin-
estavam sob risco de desenvolver novas ulcerações8. lândia, em hospitais gerais e de reabilitação, além de
centros de saúde, os autores verificaram idade média
Os fatores extrínsecos são aqueles relacionados à
de 75 anos para os pacientes com UP, similarmente
tolerância tissular ou ao mecanismo de formação de
aos resultados aqui encontrados14.
úlceras. Há fatores externos que podem causar as UPs
isoladamente ou combinados; são a fricção, cisalha- As alterações morfofisiológicas diretamente rela-
mento, atrito, tensão e umidade9. cionadas com a determinação do estado nutricional e
que surgem naturalmente com a idade avançada in-
Em se tratando de umidade, esta é considera-
cluem aquelas relacionadas ao processo de mastigação
da como sendo um fator de risco significante para
(dentição, salivação e sensibilidade gustativa), deglu-
ocorrência de UP, pois a umidade em excesso na pele
tição, motilidade do trato gastrointestinal, sensação
torna-se mais fragilizada e mais suscetível ao atrito e de sede e digestão (saciedade precoce)11-13.
à maceração9. A umidade como um fator de risco ex-
trínseco para as UPs pode estar associada às alterações Outras alterações também contribuem para o
do nível de consciência, além de outras condições comprometimento da ingestão alimentar e aprovei-
neurológicas periféricas. Na maioria das vezes, ocorre tamento dos nutrientes pelo organismo do idoso.
em consequência das incontinências urinárias e anal, A acuidade visual, bem como a sensibilidade olfativa
drenagem de feridas, transpiração e restos alimenta- diminuída, pode dificultar ou até impedir o acesso ao
res. A exposição da pele à excessiva umidade pode en- alimento e, ainda, constituir-se em fator de desestí-
fraquecer as camadas externas da pele e torná-las mais mulo à iniciativa para a alimentação11. Essas alterações
vulneráveis às lesões8. são parciais e afetam o comportamento alimentar do
idoso. Dentre todas as mudanças sensoriais, o olfato
A diminuição da sensação cutânea interfere na e a gustação interferem mais diretamente na ingestão
percepção da dor. Essas alterações normalmente estão de alimentos, e a visão prejudicada também a influen-
associadas à diminuição do nível de consciência ou a cia negativamente. Não há dúvida de que o apetite
alterações neurológicas, tais como acidente vascular no idoso é influenciado, principalmente, pela palata-
cerebral (AVC) e as para, hemi ou tretaplegias8,9. bilidade dos alimentos15. Com o envelhecimento, os
A população idosa, em geral, apresenta multiplici- hábitos de mastigação mudam, acentuadamente, tan-
dade de doenças e, portanto, consome maior número to nos homens como nas mulheres. Essas alterações
de medicamentos. O uso de diferentes medicamen- na capacidade mastigatória do idoso são devidas ao
tos, nessa época da vida, tem deixado de ser espo- aparecimento frequente de cáries e doenças periodon-
rádico para converter-se em habitual. A polifarmácia tais, às próteses totais ou parciais inadaptadas ou em
em idosos aumenta a incidência de efeitos colaterais e péssimo estado de conservação e à ausência de dentes.
interações medicamentosas, e o seu uso inadequado, Esses fatores interferem no comportamento inicial
frequentemente, provoca complicações graves. Nesse do processo digestivo, favorecendo sua inadequação
sentido, a utilização, em longo prazo, de drogas tera- tanto no processo mecânico como no enzimático15.
pêuticas que interferem na digestão, na absorção e no A perda de apetite em idosos tem sido geralmente
metabolismo de nutrientes pode, também, ocasionar relacionada com ausência de elementos dentários e
desnutrição nos idosos, além de desenvolver anore- com o uso de próteses. As pessoas que usam dentadu-
xia9-11. A polifarmácia aumentou com a progressão da ras mastigam 75% a 85% menos eficientemente que
idade, fenômeno esse que pode ser explicado por uma aquelas com dentes naturais, o que leva à diminuição
série de fatores, incluindo aumento da morbidade9. do consumo de carnes, frutas e vegetais frescos, razão
A interação entre fármacos e alimentos ocorre devi- por que idosos com próteses totais tendem a consumir
do à reciprocidade das características físicas, químicas alimentos macios, facilmente mastigáveis, pobres em
e fisiológicas de ambos no organismo, e o alimento fibras, vitaminas e minerais, fato que pode ocasionar
pode causar alterações farmacológicas e o fármaco, consumo inadequado de energia, ferro e vitaminas15.
implicações na manutenção do estado nutricional10,12. Outro fator relacionado é a redução da secreção
A polifarmácia pode comprometer o estado nutricio- salivar e a sensação de secura na boca, queixa dada
nal dos indivíduos com 60 anos ou mais13. pelos idosos, levando a um efeito negativo na alimen-
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tação, apetite e conforto oral. Em decorrência dessa ao desenvolvimento e à cicatrização de UP. O grupo
redução, podem ocorrer dificuldade de mastigação e controle correspondia aos idosos que não apresen-
deglutição, diminuição e alteração do paladar, difi- tavam úlceras (n = 100) e os outros (n = 75) apre-
culdade para falar, lábios secos e fissurados e, ainda, sentavam UP. A identificação da ingestão alimentar
intolerância a certos alimentos11. foi realizada por meio do recordatório 24 horas e de
um questionário sobre nutrição. A proporção signi-
Desnutrição e úlcera por pressão em ficativamente alta de indivíduos com baixa ingestão
idosos alimentar apresentava UP. Os idosos com feridas tam-
bém foram identificados como os que necessitavam
Estudos demonstram que indivíduos idosos que de- de auxílio para a alimentação, bem como alterações
senvolvem UP ou são classificados como de risco para mais significativas no paladar19.
seu desenvolvimento apresentam estado nutricional
comprometido, que, associado ao maior tempo de A principal causa da desnutrição em idosos é a
hospitalização, pode constituir-se em elemento sina- diminuição do consumo alimentar, que pode ser
lizador da severidade dessas feridas11-17. causada por várias condições, tais como: redução do
apetite, imobilização, depressão, uso de medicamen-
Nos últimos anos, os estudos têm mostrado preva- tos, dentição prejudicada e ingestão de dietas monó-
lências altas de idosos desnutridos. Os valores oscilam tonas20.
de 15% a 60% dependendo do local, de onde o idoso
se encontra (hospitalizado, em casa ou asilos) e da téc- Diferentes estudos têm sugerido que a desnutrição
nica utilizada para diagnóstico18. é um importante precedente de morbidades e mor-
tes em idosos. Atualmente, admite-se que ela influi
A prevalência de desnutrição e a incidência de negativamente sobre o tratamento médico-cirúrgico,
mortalidade são muito altas nos indivíduos idosos aumentando o risco de os pacientes desenvolverem
hospitalizados. Em estudo realizado em 2004, uma complicações graves enquanto hospitalizados e após a
coorte com 105 pacientes idosos, houve incidência alta. Idosos desnutridos são mais propícios a apresen-
de 57,1% de desnutrição e 14,3% de mortalidade. tar alta incidência de infecções, osteoporose, fraturas,
Essa taxa esteve relacionada com o alto nível de de- problemas respiratórios e cardíacos, assim como altas
pendência funcional dos indivíduos, com a diminui- taxas de mortalidade relacionada com a gravidade das
ção dos níveis séricos de transferrina e de contagem deficiências nutricionais20.
de linfócitos16.
Existe uma complexa inter-relação entre estado
A avaliação nutricional pode detectar precocemen- nutricional, severidade da doença e resultados clíni-
te a desnutrição em pacientes idosos, o que atualmen- cos entre idosos hospitalizados. Perda de peso, baixo
te representa crescente preocupação nutricional. Caso índice de massa corporal (IMC) e outros indicadores
não diagnosticada, ela pode resultar em deterioração de depleção de massa corporal gorda e magra indicam
da saúde, levando até mesmo à morte prematura18. aumento do risco de resultados clínicos adversos in-
A elevada prevalência de desvio nutricional na po- dependentemente da severidade da doença21.
pulação idosa vem sendo demonstrada por meio de Por outro lado, a severidade da doença como nos
diferentes estudos, em vários países, em que a desnu- casos de câncer avançado, infecções, UP, demência,
trição, o sobrepeso e a obesidade predominam sobre cirurgias ortopédicas e acidente vascular encefálico,
os indivíduos eutróficos. Esses resultados são decor- que são mais frequentes no idoso mais velho, corres-
rentes das condições peculiares em que os idosos se pondem a fatores de risco significantes para o surgi-
encontram, seja no ambiente familiar, vivendo sozi- mento da desnutrição22.
nhos, ou em residência de terceira idade, agravadas
pelas condições socioeconômicas, pelas alterações fi- Estudo realizado em hospitais e unidades geriá-
tricas em Israel nas primeiras 72 horas de internação
siológicas inerentes à idade e pela progressiva incapaci-
de pacientes idosos coletou dados da Miniavaliação
dade para realizar sozinhos suas atividades cotidianas.
Nutricional (MAN) e exames laboratoriais (função
Nesse contexto, os efeitos da alimentação inadequada,
renal e tireoidiana, vitamina B12, transferrina, co-
tanto por excesso como por déficit de nutrientes, têm
lesterol, triglicerídeos, eletrólitos, albumina, conta-
expressiva representação, o que reflete num quadro
gem total de linfócitos e proteína C reativa) para a
latente de má nutrição em maior ou menor grau15.
avaliação do estado nutricional. A idade dos indiví­
Em um estudo com 175 idosos (79 ± 6 anos), duos era de 75 a 103 anos, aproximadamente metade
estes foram avaliados quanto ao estado nutricional, deles vivia acamada ou em cadeiras e ¼ apresenta-
Formação das úlceras por pressão em idosos e estratégias nutricionais no tratamento 257

va declínio c­ ognitivo moderado a severo. Havia alta Estratégias nutricionais para o tratamento
prevalência de doenças crônicas não degenerativas das úlceras por pressão em idosos
(diabetes mellitus, insuficiência cardíaca congestiva
O estado nutricional tem sido citado como influen-
e outras doenças cardiovasculares). Com relação ao
te na incidência, progressão e gravidade da UP e um
estado nutricional, somente 17,6% estavam nutri-
dos mais importantes fatores de contribuição para a
dos, 33,2% estavam em risco nutricional e 49,4%
reparação tecidual e o seu bom estado. Muitos estu-
eram desnutridos. Análises estatísticas indicaram que
dos relatam ser a hipoalbuminemia, a anemia, a lin-
os indivíduos em risco ou desnutridos eram signi-
fopenia, a redução do zinco sérico e do peso corporal,
ficativamente mais velhos que os bem nutridos. Os
coadjuvantes nos indivíduos com UP8. Vários estudos
exames laboratoriais mostraram boa correlação com
sugerem que a ingestão de nutrientes, especialmen-
a MAN. Baixa concentração de albumina e fósforo,
te de proteínas, é importante na cicatrização de UP.
demência e AVC foram significantes fatores de risco
A hipoalbuminemia tem sido descrita como fator de
para desnutrição23.
risco para UP. Em pessoas idosas, o catabolismo das
A utilização de triagem nutricional ou de instru- doenças é capaz de induzir uma queda na albumi-
mentos de avaliação deve prevalecer no tratamento na sérica, entretanto, é provável que estes dois fato-
de pacientes em risco ou com UP. Esses instrumentos res estejam associados8. O aporte calórico-proteico
necessitam ser válidos e fidedignos e não devem subs- reduzido pode predizer o desenvolvimento de UP,
tituir, por outro lado, a avaliação clínica22. devendo-se ressaltar algumas causas dessa diminui-
ção como a persistente falta de apetite e as restrições
Técnicas convencionais de avaliação de desnutri-
alimentares impostas pelo tratamento da doença de
ção incluem antropometria, recordatório alimentar e
base13. A desnutrição proteico-calórica grave altera a
investigação laboratorial, entretanto constituem fer-
regeneração tissular, a reação inflamatória e a função
ramentas lentas e caras para serem usadas para uma
imune, tornando os indivíduos mais vulneráveis ao
extensa quantidade de idosos frágeis, os quais consti-
desenvolvimento de UP8-25. Um estudo com pacien-
tuem risco de desnutrição. Diversas ferramentas sim-
tes em terapia de nutrição enteral evidenciou que
ples e rápidas têm sido criadas para triagem de idosos
65% deles apresentavam UP e que, apesar de as fór-
em risco, como a MAN19.
mulas serem aparentemente adequadas, deficiências
A MAN é um método validado em diversos paí­ de micronutrientes e desnutrição marasmática foram
ses com variados tipos de estado nutricional como evidenciadas, destacando a necessidade de terapia nu-
desnutrição, saudáveis, fragilizados ou hospitalizados. tricional focada nas características dessa população.
Esse método de avaliação mostrou boa correlação Confirmando esses dados, o estudo de Rojas e Phillips
com parâmetros laboratoriais (albumina plasmática apresentou pacientes idosos com úlceras crônicas em
e pré-albumina) e outros parâmetros nutricionais, membros inferiores e baixos níveis de vitamina A e E,
sendo de fácil administração, sem custos, apresentan- caroteno e zinco, mostrando que as deficiências des-
do alta sensibilidade e especificidade. A classificação ses elementos podem influenciar a cicatrização8.
do estado nutricional é estabelecida de acordo com
A deficiência de vitaminas interfere no processo
o escore obtido com a aplicação do questionário. Os
de cicatrização, além de haver diminuição na síntese
indivíduos que alcançam 12 pontos ou mais, na etapa
de colágeno e elastina, ocasionando maior prejuízo
de triagem, são classificados como nutridos. Os que
aos portadores de doenças crônicas6. Muitos minerais
alcançam pontuação inferior a 12 seguem em avalia-
também são importantes no processo de cicatrização
ção até completar o questionário, com classificação de
da UP. Alguns minerais como o zinco são necessários
risco de desnutrição quando a pontuação estiver na
para síntese proteica, reaplicação celular e síntese de
faixa de 17 a 23,5 ou é classificado como desnutrido
colágeno. O cobre, juntamente com o ferro, é essen-
com pontuação menor que 1719.
cial para a formação dos eritrócitos e é importante
A desnutrição em pacientes idosos é muito co- na polimerização do colágeno e no fortalecimento da
mum nos hospitais e, dependendo dos grupos de pa- cicatriz8. O processo de cicatrização é um dos muitos
cientes considerados, a prevalência dela pode chegar processos metabólicos que consomem energia. A gli-
a até 60% deles. Um trabalho realizado recentemente cose é o principal carboidrato do organismo e supre a
com uma população japonesa apontou, de acordo maior parte da energia necessária para a cicatrização.
com a aplicação da MAN, 39,9%, 51,2% e 8,9% de Os carboidratos são fontes de energia para leucóci-
pacientes com eutrofia, risco de desnutrição e desnu- tos, proliferação celular, atividade fagocitária e fun-
trição, respectivamente24. ção fibroblástica. O fornecimento inadequado desse
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nutriente leva à degradação muscular, à diminuição nutrientes para preservar o tecido cutâneo, fortalecer
do tecido adiposo e à falha na cicatrização13. Um ma- a resistência tecidual e promover a reparação dos te-
cronutriente de grande importância são os lipídeos cidos. Neste estudo, os pacientes do grupo contro-
componentes das membranas celulares; além de fon- le receberam dieta-padrão com 1.800 kcal em três
tes de energia celular, são necessários para a síntese de refeições diárias, enquanto o grupo de intervenção
prostaglandinas que regulam o metabolismo celular, recebeu, além dessas refeições, dois suplementos nu-
processo inflamatório e vascular. A deficiência de áci- tricionais de 200 ml e 200 kcal cada. Esses suplemen-
dos graxos essenciais prejudica a cicatrização13. tos continham 30% de proteína e eram enriquecidos
com vitaminas e minerais, como zinco e vitamina C.
As proteínas são componentes básicos das células
A intervenção ocorreu pelo período de 15 dias ou
e os aminoácidos são constituintes básicos da pro-
até a alta. Além da intervenção nutricional, os pa-
teína corpórea. Os aminoácidos são essenciais para
cientes de ambos os grupos foram submetidos a um
neovascularização, síntese de colágeno, proliferação
programa de prevenção de UP que incluía mudança
fibroblástica e produção de linfócitos. A depleção
de decúbito, colchão especial e cuidados de higiene.
proteica, por sua vez, inibe a proliferação fibroblásti-
O risco para o desenvolvimento de úlceras era alto
ca e prolonga o tempo da fase inflamatória, diminui a
para os dois grupos avaliados. A incidência cumulati-
síntese de colágeno, reduz a força tênsil da ferida, li-
va dessas feridas no quinto dia foi de 16% no grupo
mita a capacidade fagocitária dos leucócitos e aumen- de intervenção nutricional e 25% no grupo controle.
ta a taxa de infecção da ferida8. Sendo as proteínas No décimo dia, a incidência foi de 27% versus 37%,
nutrientes relacionados com o sistema imunológico e respectivamente. No final do estudo, 40% dos indi-
integrantes dos tecidos corporais, a presença de des- víduos do grupo de intervenção nutricional e 48%
nutrição proteica por deficiência nutricional acarreta dos indivíduos do grupo controle apresentaram UP.
lesão de pele e músculo, além de dificultar o processo As análises estatísticas desse estudo indicaram que,
de reparação de tecidos lesados6. entre outros fatores, os indivíduos que pertenciam ao
Em indivíduos idosos, que apresentam frequen- grupo controle apresentavam maior risco de desen-
temente deficiências nutricionais, a suplementação volver essas lesões, por outro lado, pertencer ao grupo
nutricional promove melhora na função imunológica de intervenção indicou ser um fator de proteção21,23.
desses indivíduos. Por outro lado, não há benefícios A intervenção nutricional tem como objetivo pri-
bem estabelecidos nos casos de suplementação em in- mário corrigir a desnutrição proteica energética pre-
divíduos idosos saudáveis22. Pacientes que receberam ferencialmente por via oral e, caso não seja suficiente,
maior aporte proteico e energético na dieta, assim os suplementos nutricionais ricos em proteína e ener-
como nutrientes específicos, desenvolveram menos gia devem ser introduzidos. Nos casos de persistência
úlcera por pressão e apresentaram melhor cicatrização. da insuficiência da ingestão alimentar oral, outras vias
Estudos mais recentes ressaltaram a importância de al- de alimentação devem ser utilizadas15.
guns nutrientes em cada etapa do processo de cicatri-
zação: inflamatória, proliferativa e de remodelação14. Indivíduos idosos requerem cuidado especial, sen-
do necessário observar que a baixa ingestão alimen-
Em uma revisão sistemática e metanálise, consta- tar muitas vezes se deve à inadequação das refeições
tou-se que a terapia nutricional, particularmente a su- servidas a esses indivíduos quando estão internados.
plementação nutricional oral com alto teor proteico, A quantidade de alimentos servidos em uma refeição
pode diminuir significativamente o risco de desenvol- é considerada grande para os idosos que não con-
vimento das UPs26. seguem realmente ingerir todo o alimento servido.
Houwing et al. verificaram que os pacientes que Assim, a redução da porção servida e a utilização de
receberam suplemento dietético enriquecido com alimentos com maior densidade de energia podem
proteína, arginina, zinco e antioxidantes apresen- minimizar significativamente a perda em termos de
taram menor índice de UP em estágio II, compa- ingestão. Além disso, a identificação das deficiências
rativamente ao grupo controle. Em outro estudo, a nutricionais dos idosos pode requerer a introdução de
suplementação nutricional oral específica resultou em estratégias não somente da redução da porção servida,
diminuição significativa na área da ferida e em me- mas também a introdução de pequenos lanches entre
lhoria das condições das UPs em estágio III e IV13. as refeições em que podem ser introduzidos os suple-
Desse modo, o suplemento nutricional parece ser mentos nutricionais15-20.
uma maneira eficiente de repor deficiências de macro Conforme as recomendações de diretrizes inter-
e micronutrientes no organismo e de fornecer outros nacionais quanto ao manuseio nutricional para pre-
Formação das úlceras por pressão em idosos e estratégias nutricionais no tratamento 259

venção e tratamento de úlceras por pressão, é preciso a visão de prevenção e tratamento das úlceras fique
assegurar a ingestão de uma dieta adequada que pre- limitada, tornando a atuação de determinados profis-
vina a desnutrição, desde que seja compatível com as sionais secundária.
expectativas ou condições individuais. Dessa forma,
são imprescindíveis o rastreamento e a avaliação do
estado nutricional por meio de instrumentos válidos REFERÊNCIAS
e fidedignos, bem como a realização de avaliação clí-
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2005;13(4):474-80.
tância para o desenvolvimento da UP, visto que as
4. Blames L, Duarte IS, Calil JA, Ferreira LM. Avaliação clíni-
comorbidades que os atingem acabam limitando-os, ca e epidemiológica das úlceras por pressão em pacientes
fazendo que permaneçam na maior parte do dia aca- internados no Hospital São Paulo. Rev Assoc Med Bras.
mados ou impossibilitados de se mover. As doenças 2004;50(2):182-7.
predominantes do envelhecimento, como demência, 5. Freitas EV, Py L, Neri AL, Cançado FAXC, Gorzoni ML, Doll J.
acidente vascular cerebral, derrames ou para, hemi ou Tratado de geriatria e gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara
Koogan; 2002. p. 645-7, 654-8.
tetraplegias, contribuem para imobilização, tornan-
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do-se o principal fator para o desenvolvimento da UP. revisão da literatura. Res Bras Enferm. 2005;58(5):597-601.
As alterações morfofisiológicas próprias do en- 7. Pancobo-Hidalgo PL, Garcia-Fernandez FP, Lopez-Medina IM,
velhecimento (mastigação, deglutição, absorção, Alvarez-Nieto C. Risk assessment scales for pressure ulcer pre-
vention: a systematic review. J Adv Nurs. 2006;54(1):94-110.
xerostomia, acuidade visual, olfato, paladar), a poli-
farmácia e as doenças frequentes na idade avançada, 8. Cássia R, Oliveira PA. Úlcera por pressão. In: Magnoni D, et al. Nu-
trição na terceira idade. 1ª ed. São Paulo: Sarvier: 2007. p. 121-9.
além do isolamento social, são as principais causas de
9. Silva MS, Garcia TR. Fatores de risco para úlcera de pressão em
desnutrição no idoso, aumentando o risco do desen- pacientes acamados. Res Bras Enferm. 1998;51(4):615-28.
volvimento da lesão, tornando o processo de cicatri- 10. Carvalho MFC. A polifarmácia em idoso no município de São Pau-
zação prejudicado. É preciso assegurar a ingestão de lo – Estudo SABE – Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento [disser-
uma dieta adequada que previna a desnutrição, desde tação]. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública da Universidade
que seja compatível com as expectativas ou condições de São Paulo; 2007.
individuais. O uso de suplemento nutricional parece 11. Flores LZ, Mengue SS. Uso de medicamentos por idosos em re-
gião sul do Brasil. Rev Saude Publica. 2005;39(6):924-9.
ser uma forma eficiente de diminuir o desenvolvi-
mento da UP e contribuir para melhor cicatrização. 12. Donini LM, Savina C, Canella C. Eating habits and appetite
control in the elderly: the anorexia of aging. Int Psychogeriatr.
Portanto, lançar mão de estratégias nutricionais 2003;15(1):73-87.
como o uso de suplemento nutricional para preven- 13. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. De-
partamento de Atenção Básica. Envelhecimento e saúde da pes-
ção e/ou tratamento das UPs e recuperação do estado soa idosa. Brasília: Ministério da Saúde; 2006. (Série A. Normas
nutricional parece ser uma estratégia eficaz e eficiente. e Manuais Técnicos) (Cadernos de Atenção Básica nº 19).
Por outro lado, sem a abordagem terapêutica, como 14. Silva MLT. Geriatria. In: Waitzberg DL, et al. Nutrição oral, enteral
a intervenção da enfermagem que inclui a mudança e parenteral na prática clínica. 3ª ed. São Paulo: Atheneu; 2006.
de decúbito, o uso do colchão piramidal, de loções p. 997-1008, 415-7.
hidratantes e o tratamento local (conservador e cirúr- 15. Campos MTFS, Monteiro JBR, Ornelas APRC. Fatores que
gico), o resultado não é eficaz, visto que a atuação da afetam o consumo alimentar e a nutrição do idoso. Rev Nutr.
2000;13(3):157-65.
equipe multidisciplinar é imprescindível na preven-
16. Asensio A, Ramos A, Núñez S. Fatores prognósticos de mortali-
ção e/ou no tratamento. dad relacionados con el estado nutricional en ancianos hospitali-
zados. Med Clin (Barc). 2004;123(10):370-3.
No entanto, as publicações nacionais enfocam
predominantemente pacientes hospitalizados e a vi- 17. Harris CL, Fraser C. Malnutrition in the institutionalized el-
derly: the effects on wound healing. Ostomy Wound Manage.
são da enfermagem. A ausência de publicações que 2004;50(10):54-63.
focalizam a atuação da equipe multidisciplinar e a 18. Emed TC, Kronbauer A, Magnoni D. Miniavaliação nutricional
assistência preventiva, prestadas nos ambulatórios ou como indicador de diagnóstico em idosos em asilos. Rev Bras
nas unidades de saúde ou domicílios, fazem com que Nutr Clin. 2006;21(3):219-23.
260 Geriatria & Gerontologia. 2011;5(4):253-60

19. Vellas B, Lauque S, Andrieu S, Nourhashemi, Rolland Y, et al. 23. Kagansk N, Berner Y, Koren-Morag N, Perelman L, Knobler H,
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Fenilli M, et al. Relação entre padrão alimentar e estado nutricio- zados: estado nutricional, dieta, doença e tempo de internação.
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Disponível em: http://www.epuac.org/gltreatment.html. Acesso
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