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FACULDADE DE DIREITO DA USP

HISTÓRIA DO DIREITO I – DCV213


HELMUT STEINWASCHER NETO
MONITOR – MESTRANDO.

História e Fontes do Direito Canônico

SUMÁRIO: 1 – Aspectos Preliminares; 2 – O Cristianismo Primitivo; 2.1. Poderes Eclesiais;


2.2. Fontes do Direito; 2.3. Processo; 2.4. Instituições características; 3 – O Cristianismo como
religião oficial do Império Romano; 3.1. Poderes Eclesiais; 3.2. Fontes do Direito; 3.3.
Processo; 3.4. Instituições características; 4 – A influência do Direito Canônico nos Povos
Germânicos; 4.1. Poderes Eclesiais; 4.2 – Fontes do Direito; 4.3. Processo; 4.4. Instituições
características; 5 – A Igreja na Idade Média – Do Decreto de Graciano ao Concílio de Trento;
5.1. Poderes Eclesiais; 5.2. Fontes do Direito; 5.3. Processo; 5.4. Instituições características; 6
– A renovação do Direito canônico – Reforma e Contra-Reforma na Igreja até o Código de
Direito Canônico de 1917; 6.1. Poderes Eclesiais; 6.2. Fontes do Direito; 6.3. Processo; 6.4.
Instituições características; 7 – A Igreja contemporânea – A importância do Concílio Vaticano
II e o Novo Código de Direito Canônico (1983); 7.1. Poderes Eclesiais; 7.2. Fontes do Direito;
7.3. Processo; 7.3.1 – Organização Judiciária Canônica; 7.3.2 – Jurisprudência no Direito
Canônico; 7.4. Instituições características; 8 – Fontes Jurídicas Canônicas e Documentos da
Igreja; 9 – Bibliografia.

1 – ASPECTOS PRELIMINARES

Antes de iniciarmos nossa exposição, são necessários alguns esclarecimentos prévios, relativos
a aspectos conceituais quanto ao assunto tratado.
Conforme o conceito de P. FEDELE1:
“Direito Canônico é o complexo de normas que possuem sua fonte ou na vontade divina (ius
divinum, naturale e positivum) ou na vontade da Igreja Católica (ius humanum), naquilo que concerne
à organização e à atividade desta e dos fiéis, em relação aos fins próprios da sociedade eclesiástica”.2
Para J.R. CRUZ E TUCCI – L. C. AZEVEDO3:
“O Direito Canônico é o conjunto de normas jurídicas, de origem divina e humana (mas
sempre de inspiração divina), reconhecidas ou promulgadas por autoridade da Igreja Católica, que
determina a sua organização e atuação e a de seus fiéis, em relação aos fins que lhes são próprios”.
Segundo E.L.SAMPEL4:
“O Direito Canônico pode ser definido como o conjunto de normas gerais e positivas que
regulam a vida dos fiéis no grêmio da Igreja Católica”.
Para H. VALLADÃO:5
“O Direito Canônico, direito da Igreja Católica, regula a constituição e a atividade da Igreja e
de seus órgãos e dos que a integram, dos fiéis”.

1
Diritto canonico, in ED 12 (1964), p.871.
2
O Direito Canônico também é denominado ius divinum, ius sacrum e ius pontificium.
3
Lições de Processo Civil Canônico (história e direito vigente), São Paulo, RT, 2001, p.15; L.C. AZEVEDO, Introdução à
História do Direito, 2ªed., São Paulo, RT, 2007, p.108.
4
Algumas considerações a respeito do Direito Canônico, in Revista de Cultura Teológica 27 (1999), p.117.
5
História do Direito especialmente do Direito Brasileiro – Parte I, 2ªed., 2ªed., Rio de Janeiro, Freitas Bastos, p.38.
2

O Direito Canônico difere do denominado Direito Eclesiástico, pois este último


tem por objetivo reger o relacionamento da Igreja considerada como um “Estado”, tanto
em seus assuntos externos, com entes dotados de personalidade internacional, seja a
Santa Sé, seja outros Estados (direito público externo), quanto em suas relações
jurídicas com os habitantes do Vaticano (direito público interno).6
A finalidade e o princípio norteador do Direito Canônico é a salus animarum,7 a
salvação das almas, baseado na fraternidade e na harmonia visando o “bem comum” de
toda a sociedade em conjunto com o direito do Estado (direito laico).8
Sob o aspecto histórico, o Direito Canônico teve na Idade Média uma relação de
dependência recíproca com o Direito Romano, formando progressivamente o
denominado “Direito Comum”. Tal influência não se revelou apenas pelo valor ético e
moral do Cristianismo sobre as legislações dos povos europeus, mas caracterizou-se
como verdadeira técnica promovida pelo Direito da Igreja no desenvolvimento e
consolidação de inúmeros institutos do Direito Civil, do Processo Civil e do Processo
Penal.9
Como observação final, alguns autores10 adotam a divisão da História do Direito
Canônico de acordo com a evolução de suas fontes:
1) Período de Formação, do século I ao IX;
2) Período de Estabilização, entre os séculos XI e XII;
3) Período de Consolidação do ordenamento jurídico canônico, do século XIII
ao XV; e
4) Período de Renovação, do século XVI até os dias atuais.

A.S. CUNHA LOBO11 divide a evolução do Direito Canônico em três fases:


1) Ius antiquum, do nascimento de Cristo até o Decreto de Graciano (1150);
2) Ius novum, do Decreto de Graciano até o Concílio de Trento (1563); e
3) Ius novissimum, do Concílio de Trento até nossos dias.

6
A.S. CUNHA LOBO, Curso de Direito Romano, Brasília, Senado Federal, 2006, p.519, afirma que a
legislação que a Igreja formulou para orientar e promover seu governo e administração, sempre
consoantes com as necessidades sociais de cada período, pode ser dividido em dois ramos: o Direito
Eclesiástico (direito público da Igreja) e o Direito Canônico (direito privado eclesiástico). Veja-se C.
CORRAL SALVADOR, v. Direito Eclesiástico in Diccionario de Derecho Canonico, Madrid, Tecnos, 1989,
trad. port. de Jesús Hortal, Dicionário de Direito Canônico, São Paulo, Loyola, 1997, p.265.
7
Código de Direito Canônico – Codex Iuris Canonici, trad. port. Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil, 11ªed., São Paulo, Loyola, 1998. Cân. 1752 do Código de Direito Canônico: “Nas causas de
transferência, apliquem-se as prescrições do cân.1747, respeitando-se a eqüidade canônica e tendo diante
dos olhos a salvação das almas que, na Igreja, deve ser sempre a lei suprema”; Cân.747, §2: “Compete à
Igreja anunciar sempre e por toda a parte os princípios morais, mesmo referentes à ordem social, e
pronunciar-se a respeito de qualquer questão humana, enquanto o exigirem os direitos fundamentais da
pessoa humana ou a salvação das almas”.
8
E.L. SAMPEL, Algumas considerações a respeito do Direito Canônico, in Revista de Cultura Teológica
27 (1999), p.119. Veja-se L. VERA SÁNCHEZ, v. Direito Canônico (Ius Canonicum) in Diccionario de
Derecho Canonico, Madrid, Tecnos, 1989, trad. port. de Jesús Hortal, Dicionário de Direito Canônico,
São Paulo, Loyola, 1997, p.255: “O Direito Canônico é, pois um meio que, baseado no direito divino
natural e positivo, organiza racionalmente todos os elementos eclesiais, segundo a justiça, para que a
Igreja possa cumprir mais eficazmente os fins que o seu divino Fundador lhe confiou e que estão
definitivamente ordenados à salvação dos homens, “que na Igreja deve ser sempre a lei suprema” (cân.
1752).
9
G. CAVIGIOLI , Manuale di diritto canonico, 3ªed., Torino, Internazionale, 1946, p.5.
10
J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), pp.22-23;
A.V. LIMA FILHO, Graciano e o Processo Medieval, in Revista da Faculdade de Direito da USP 91 (1996),
pp.450.
11
Curso de Direito Romano cit. (nota 6 supra), p.522.
3

2 – O CRISTIANISMO PRIMITIVO

2.1 – PODERES ECLESIAIS

Os apóstolos estabeleceram primeiramente um colégio de presbíteros,


encarregado da jurisdição, com poderes episcopais que exerciam durante as contínuas
viagens missionárias. Com o aumento do número de fiéis, foi necessário o
estabelecimento de bispos com residência fixa.
O bispo exercia a universalidade das funções pastorais, auxiliado pelos
presbíteros especialmente nos ministérios do culto, muitas vezes celebrados em
cemitérios subterrâneos denominados “catacumbas”. Participava da sua eleição outros
bispos co-provinciais, o clero e o povo. Os diáconos estavam encarregados do socorro
aos pobres.12
Na Igreja primitiva, os bispos reunidos escolhiam o sucessor de Pedro, o Papa.
Este primado de Pedro garante seu poder disciplinar de admitir ou excluir quem ele
julgar pertinente e a administração da comunidade através de decisões norteadas pela
doutrina católica e pela moral.13 O sucessor de Pedro ocupa o posto mais alto na
estrutura hierárquica da Igreja.14
Os discípulos de Jesus Cristo eram, em sua maioria, de origem galiléia. Porém,
foi na cidade de Jerusalém que a Igreja primitiva teve a sua sede e primeiro crescimento
numérico. Os cristãos colocavam os seus bens em comum e auxiliavam-se
mutuamente.15
Nestas primeiras comunidades, quando alguém queria tornar-se cristão, devia
cumprir um itinerário de formação, que se chamava “Catecumenato”, do grego catekeo,
que significa “faço ressoar” e no passivo, “ouço”. Geralmente, os aspirantes a
catecúmeno eram apresentados por outros cristãos. Só após esta formação, era batizado
na vigília Pascal e tornava-se membro da Igreja.16
12
S. MINGUIJÓN ADRIÁN , Historia del Derecho Español, 3ªed., Barcelona-Madrid, Labor, 1943, p.38.
Afirma o autor, na p.39, que em meados do século III, data dos documentos mais antigos da Igreja na
Espanha, a hierarquia eclesiástica estava dividida em bispos, presbíteros, diáconos e ministros. Existiam
Igrejas particulares dirigidas por presbíteros e afiliadas à Igreja episcopal. Os bispos realizavam reuniões
denominadas conventus clericorum para tratar de questões paroquiais que julgavam importantes.
13
O próprio Cristo indicou este papel a Pedro como “chefe dos apóstolos”, denominando-o Petros
(Pedra), em aramaico Kepha (rocha): Mt.16, 18-19: “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta
pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves
do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado
nos céus”.
14
J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), p.17.
15
Veja-se esta passagem do livro dos Atos dos Apóstolos, At. 2,42-47: “Eles mostravam-se assíduos ao
ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações. Apossava-se de todos o
temor, pois numerosos eram os prodígios e sinais que se realizavam por meio dos apóstolos. Todos os que
tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum: vendiam suas propriedades e bens, e
dividiam-nos entre todos, segundo as necessidades de cada um. Dia após dia, unânimes, mostravam-se
assíduos no Templo e partiam o pão pelas casas, tomando o alimento com alegria e simplicidade de
coração. Louvavam a Deus e gozavam de simpatia de todo o povo. E o Senhor acrescentava cada dia ao
seu número os que seriam salvos”.
16
K. ARGÜELLO , Il cammino neocatecumenale secondo Paolo VI e Giovanni Paolo II, Paoline, 1993, trad.
port. de Orlando Soares Moreira, Breve comentário para a sala de Imprensa Vaticana à Carta do Santo
Padre sobre o Caminho Neocatecumenal, in O Caminho Neocatecumenal segundo Paulo VI e João
Paulo II, São Paulo, Loyola, 1999, p.23. Complementa o autor: “Na Igreja primitiva, o Catecumenato era
formado por uma síntese entre a Palavra (Kerygma), Liturgia e Moral. A Igreja antiga tinha antes de mais
nada um Kerygma, ou seja, um “anúncio de salvação”. Esse anúncio do Evangelho era feito por apóstolos
itinerantes, como Paulo e Silas e provocava em todos os que os escutavam uma mudança de vida,
4

A partir do século IV, com o fim das perseguições e com a entrada de grande
número de fiéis na Igreja, o catecumenato perdeu muito de seu significado, bastando
praticamente a conversão do catecúmeno para este receber o batismo de modo
praticamente automático.17

2.2 – FONTES DO DIREITO

Quanto à classificação das fontes de revelação do direito neste primeiro período,


dividem-se em fontes de natureza divina (Sagradas Escrituras, tradição da Igreja) e
fontes de natureza humana (normas conciliares e aquelas provenientes do “Estado”
romano).
Algumas fontes poderiam ser classificadas como literárias: os escritos dos
Padres Apostólicos; escritos dos Apologistas, Atos dos Mártires, escritos apócrifos e
literatura herética.18
Os Apologistas procuravam defender a fé cristã de interpretações errôneas
através da demonstração da falsidade do politeísmo e de muitas obras denominadas
“Apologias” que sob a forma de um documento legal, eram enviadas às autoridades da
Res Publica romana para que conhecessem verdadeiramente a fé cristã. Dentre seus
principais autores está Justino (103-163) nascido em Flavia Neapolis e que, após estudar
profundamente obras de diversas escolas filosóficas (estóica, peripatética, pitagórica,
platônica), converteu-se ao Cristianismo, pois particularmente considerou que a simples
filosofia não atendia aos seus anseios metafísicos e transcendentais.19
Os “Atos dos Mártires” eram documentos que descreviam a vida e a maneira
como foram executados os primeiros mártires. Eram lidos aos fiéis no dia da
comemoração, realizada anualmente, em honra àqueles que deram suas vidas pelo
Cristianismo. Destacam-se as obras O martírio de S. Policarpo (115) e os Atos de S.
Justino e seus Companheiros (163-167). Podem ser úteis ao Direito, pois muitos deles
descrevem as formas de pena de morte e as minutas oficiais do julgamento.20
Os escritos apócrifos formaram um gênero literário que imitava o Novo
Testamento, surgindo inúmeros Evangelhos, Atos, Epístolas e Apocalipses. Narravam
principalmente os anos da vida de Jesus Cristo que não existem nos registros canônicos
e foram utilizadas pelos heréticos como forma de propagarem diversas interpretações
distorcidas da fé cristã.21
Em relação às principais fontes do direito deste período, podemos mencionar o
Antigo e o Novo Testamento, os cânones conciliares e os escritos de patrologia, v.g., a
Didaqué (escrita entre os anos 50 e 70 d.C.) e a Didascalia (escrita em 250 d.C.),
também denominados escritos “pseudo-apostólicos”.
O Antigo Testamento com preceitos e leis do direito hebreu é a base do Novo
Testamento, que tem início com os relatos da vida pública de Jesus por Mateus, um dos
doze apóstolos. Ao conjunto dos 70 livros que formam o Antigo e o Novo Testamento
dá-se o nome de “Sagradas Escrituras”.22
confirmada e apoiada pelos sacramentos”.
17
A. GARCYA Y GARCIA , Historia del Derecho Canonico – El Primer Milenio, vol.1, Salamanca,
Salamanca, 1967, pp.128-129.
18
J.G. DAVIES, The Early Christian Church, London, Weidenfeld and Nicolson, s.d., trad. port. de Jorge
Feio, As Origens do Cristianismo, Lisboa, Arcadia, 1967, p.113.
19
J.G. DAVIES, The Early Christian Church cit. (nota 18 supra), pp.116-117.
20
J.G. DAVIES, The Early Christian Church cit. (nota 18 supra), p.118. Policarpo foi bispo de Esmirna e
sofreu o martírio em 155, quando foi queimado vivo no estádio da cidade.
21
J.G. DAVIES, The Early Christian Church cit. (nota 18 supra), pp.118-119.
22
Jesus Cristo não suprime a Lei antiga (Dt.4,8) mas, pelo seu ensinamento e comportamento, dá-lhe uma
forma nova. Mt.5,17-18: “Não penseis que vim revogar a Lei e os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-
5

Existem duas possibilidades a serem tomadas no estudo do Evangelho: o da sua


redação final, em sua apresentação dos fatos, a seleção e a formulação das palavras de
Cristo ditadas pelas perspectivas doutrinais de cada um dos autores (Mateus, Marcos,
Lucas e João) e aquele da tradição apostólica, ou seja, o conjunto de fontes e
documentos que, já pré-estabelecidos literariamente, foram utilizados pelos
evangelistas.23
As epístolas, publicadas em sua maioria pelo apóstolo Paulo, são escritos
norteados pela ação pastoral, ou seja, pela pregação e catequese dos apóstolos e de seus
discípulos imediatos, não podendo ser interpretadas simplesmente como meras
exposições de teologia abstrata e sistemática.24
Dentre os denominados escritos “pseudo-apostólicos”, destacam-se a Didaqué e
a Didascália.
A Didaché (do grego δίδαχή) ou Doutrina dos Doze Apóstolos (Doctrina
Apostolorum) de autor desconhecido, é o mais antigo manual de religião da comunidade
cristã que contém preceitos de ordem moral, litúrgica e hierárquica. Sua função
principal é interpretar os dogmas essenciais da Igreja. O manuscrito que continha seu
texto foi descoberto em Istambul, onde fora outrora Constantinopla, em 1875, pelo
metropolita da Nicomédia, Teófilo Bryennios.25
Este manual dedicado à instrução moral e à ordem da Igreja está dividido em
quatro partes: 1) Preceitos de catequese moral26(caps. 1-6); 2) Preceitos de instrução
litúrgica, v.g., administração do batismo, jejum e oração, celebração eucarística (7-10);
3) Hierarquia e Disciplina, com instruções relativas à vida comunitária, v.g. a
hospitalidade para com apóstolos e profetas, santificação do domingo, qualidades
requeridas do bispo (11-15) e 4) Escatologia, ou seja, a segunda vinda de Cristo
(Parusia), disposto no capítulo 16.27
Neste nítido ambiente em que se encontram elementos judaico-cristãos e pagãos,
a Didaqué inicia a reflexão teológica pós-apostólica, importante para a constituição do
cânon neo-testamentário, as origens da liturgia e as estruturas eclesiais.28

lhes pleno cumprimento, porque em verdade vos digo que, até que passem o céu e a terra, não será
omitido nem um só “i”, uma só vírgula da Lei, sem que tudo seja realizado”. É importante lembrar que a
Sagrada Escritura é palavra de Deus ao homem, diferentemente da Teologia, que é a opinião, a palavra do
homem sobre Deus. Veja-se P. GRELOT, Vocabulaire de Théologie Biblique, 2ªed., Paris, Du Cerf, 1970,
trad. port. de Simão Voigt, Vocabulário de Teologia Bíblica, Xavier Léon-Dufour (org.), 5ªed.,
Petrópolis, Vozes, 1992, p.XVI.
23
P. GRELOT, Vocabulaire de Théologie Biblique cit. (nota 22 supra), p.XXV. Acrescenta o autor nas
pp.XXV e XXVI: “Os mais antigos documentos cristãos que temos são as epístolas apostólicas. Mas
essas epístolas supõem a existência de uma tradição evangélica anterior, sendo o primeiro evangelho
compilado o de Mateus, praticamente em aramaico e o último o de João. Ademais, tendo sido a
comunidade cristã de Jerusalém desde muito cedo bilíngüe, deve nela ter sido feita de dupla forma, em
aramaico e em grego, a transmissão dos materiais do Evangelho”. Sobre a comunidade cristã de
Jerusalém ser bilíngüe, comprova o livro dos “Atos dos Apóstolos”, apresentando membros “helenistas”,
ou seja, judeus que haviam adotado a cultura grega e os “hebreus”, judeus autóctones que falavam o
aramaico. At.6,1: “Naqueles dias, aumentando o número dos discípulos, surgiram murmurações dos
helenistas contra os hebreus”.
24
P. GRELOT, Vocabulaire de Théologie Biblique cit. (nota 22 supra), p.XXVI.
25
J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico (história e direito vigente), São
Paulo, RT, 2001, p.26. J.G. DAVIES, The Early Christian Church cit. (nota 18 supra), p.115.
26
Did. 2,2: “Não matarás, não cometerás adultério; não te entregarás à pederastia, não fornicarás, não
furtarás, não exercerás magia, nem bruxaria (charlatanice). Não matarás criança por aborto, nem criança
já nascida; não cobiçarás os bens do próximo”. Veja-se Didaqué ou Doutrina dos Apóstolos – Catecismo
dos primeiros cristãos, trad. port. de Urbano Zilles, 5ªed., Petrópolis, Vozes, 1986, p.23.
27
Veja-se Didaqué ou Doutrina dos Apóstolos cit. (nota 26 supra), 1986, p.16; J.G. DAVIES, The Early
Christian Church (nota 18 supra), p.115.
28
Veja-se Didaqué ou Doutrina dos Apóstolos cit. (nota 26 supra), p.17.
6

A Didascalia apostolorum syriace (do grego διδασχαλία) ou Ensinamento dos


Apóstolos é um manual prático da disciplina da religião cristã e da sua ordem e liturgia
eclesiástica, escrita na primeira metade do século III com grande possibilidade, na Síria.
A autoria é desconhecida. Foi descoberta em 1852, num manuscrito siríaco, pelo alemão
Paul Anton De Lagarde (1827-1881), em Paris.29
Seu conteúdo salienta princípios basilares da vida em comunidade, a base da
Igreja primitiva, sempre buscando a concórdia e a paz entre os fiéis. Fornece instruções
completas sobre como um bispo deve apreciar um caso, como devem realizar-se os
interrogatórios e a forma como a disputa deve ser resolvida, sempre às segundas-feiras,
para que as partes estejam aptas ao sacramento da Eucaristia no domingo.30
Na Didascalia faz-se a distinção entre o clero e os leigos, subdividindo o clero
hierarquicamente em: Bispos, Presbíteros, Diáconos, Diaconisas e viúvas com funções
eclesiásticas. A penitência é pública.31
O texto da Didascalia foi posteriormente inserido nas denominadas
“Constituições Apostólicas” nos seis primeiros livros, do total de oito livros (livro 7,
Didaché e livro 8, Tradição Apostólica), compiladas por Clemente “Romano”. É de
grande importância este manual, pois auxilia na compreensão e interpretação de muitas
passagens do Novo Testamento (Epístolas Apostólicas e o livro dos Atos dos
Apóstolos).32
Por fim, a doutrina Patrística, os relatos dos “Pais da Igreja” são fontes literárias
de direito canônico, que ressaltam especialmente a unidade da Igreja, dentre os quais
destacam-se, v.g., os escritos de Santo Irineu de Lião (130-202), considerado o primeiro
teólogo da Igreja, fazendo uma síntese do pensamento cristão, principalmente na sua
obra principal “Tratado contra as heresias”33; São Cipriano (200-258), famoso orador,
Bispo de Cartago, deixou inúmeras epístolas e obras, v.g., Catholicae Ecclesiae Unitate
(A Unidade da Igreja Católica) e o “Tratado sobre a Oração do Senhor”; e Tertuliano

29
Veja-se o texto completo em espanhol, em La Didascalia de los Apóstoles – Doctrina católica de los
doce apóstoles y de los santos discipulos de nuestro Salvador, Barcelona, Centre de Pastoral Litúrgica,
2003. J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), p.26.
30
L.C. AZEVEDO, Introdução à História do Direito, 2ªed., São Paulo, RT, 2007, p.108. A Didascalia
sempre indica o caminho da misericórdia, do perdão do culpado. Veja-se Mt.18,12-14. J.G. DAVIES, The
Early Christian Church cit. (nota 18 supra), p.256. Já estava disposto na Didaqué, Did. 14,2: “Mas todo
aquele que vive em discórdia com o outro, não se junte a vós antes de se ter reconciliado, a fim de que o
vosso sacrifício não seja profanado”. Veja-se Didaqué ou Doutrina dos Apóstolos, cit. (nota 26 supra),
p.39. Na Disdascália, no capítulo XI destinado a regulamentar as funções de bispos e diáconos,
encontramos a seguinte disposição relativa às lides entre os cristãos: Didasc. 2,11,47,1: “Se, apesar de
tudo, algo acontece e chegar a este ponto, por obra demônio, serão julgados diante de vós, porque
também vós sois juízes. Em primeiro lugar, que vossos juízos ocorram no segundo dia da semana (a
segunda-feira), porque, se acontecer que alguém resista à sentença que pronunciastes, tereis tempo, até o
sábado, de resolver a questão e de conseguir que os litigantes façam as pazes entre eles e possais, assim,
reconciliá-los no domingo. Que os presbíteros e os diáconos estejam presentes em todos os juízos,
juntamente com os bispos, julgando sem fazer acepção de pessoas”. Veja-se La Didascalia de los
Apóstoles cit. (nota 29 supra), pp.54-55.
31
M. PIACENTINI, Didascalia Apostolorum, in NNDI 5 (1964), p.602.
32
M. PIACENTINI, Didascalia Apostolorum cit. (nota 31 supra), p.602.
33
A unidade da Igreja é realçada por Irineu nesta obra, como se observa neste trecho, 1,10, 2-3: “A Igreja
recebeu, como dissemos, e guarda com todo cuidado esta pregação e esta fé; apesar de espalhada pelo
mundo inteiro, guarda-a como se morasse em uma só casa. Acredita nela como quem possui uma só alma
e um só coração; e a proclama, ensina e transmite, como se tivesse uma só boca. Porque, embora através
do mundo haja línguas muito diferentes, a força da Tradição é uma só e a mesma para todos. As Igrejas
fundadas na Germânia, as que se encontram na Ibéria e nas terras celtas, as do Oriente, do Egito e da
Líbia, ou as do centro do mundo, não crêem nem ensinam de modo diferente. Assim como o sol, criatura
de Deus, é um só e o mesmo para todo o universo, igualmente a pregação da verdade brilha em toda a
parte e ilumina todos os homens que querem chegar ao conhecimento da verdade”.
7

(155-222), cuja obra mais importante foi Apologeticum.


Deve-se salientar que neste período realizaram-se alguns concílios particulares,
conhecidos com o nome de sínodos. O escopo principal destes concílios era tratar de
questões de fé e disciplina (datas festivas, v.g., o dia da celebração da Páscoa;
condenação de heresias; unidade da Igreja). Não se conservaram muitos documentos
destes concílios celebrados entre os séculos II-III, v.g., o Concílio de Antioquia (269) e
os sínodos do Norte da África da época de S. Cipriano.34

2.3 – PROCESSO

No evangelho segundo Mateus, Jesus Cristo lançou a base para a criação de um


importante instituto do processo civil de muita utilidade para a resolução de conflitos e
que colabora, ainda hoje, com a celeridade processual: a conciliação, com o escopo de
uma plena comunhão e correção fraterna na Ekklesía35, entre aqueles que tivessem lides
entre si.36
A conciliação e a arbitragem tiveram uma influência enorme da ética e dos
ensinamentos cristãos.
No Direito Romano, o instituto jurídico utilizado para atingir um rápido acordo
na lide processual, sempre guiado pelo espírito prático dos jurisconsultos romanos, era a
“transação” (Gai. 1 a.l. duod. tab. D.2,4,22).
Na transação o acordo entre demandante e demandado realizava-se a caminho do
fórum, sem qualquer participação do pretor ou do juiz. Já na “conciliação” existe a
presença de um membro da comunidade cristã que vai pacificar as partes tendo como
objetivo principal a salvação das almas e o perdão entre as partes, a harmonia entre os

34
A. GARCYA Y GARCIA , Historia del Derecho Canonico cit. (nota 17 supra), pp.109-110.
35
Ekklesía é a assembléia dos irmãos, em grego, Ἐχχλησία. Passou a designar o lugar sagrado onde a
assembléia se reúne. Segundo C. CORRAL SALVADOR, v. Igreja in Diccionario de Derecho Canonico,
Madrid, Tecnos, 1989, trad. port. de Jesús Hortal, Dicionário de Direito Canônico, São Paulo, Loyola,
1997, pp. 367-368: “Os apóstolos e os primeiros cristãos acorriam certamente ao templo de Jerusalém,
para fazer oração. Contudo, quando celebravam a Eucaristia faziam-no nas casas dos próprios cristãos”.
Com o aumento do número de fiéis, os ricos convertidos colocavam suas mansões à disposição da
celebração eucarística. As primeiras construções receberam diversos nomes: domínio ou Casa do Senhor,
Basílica ou Casa Régia, Confissão. O termo Ἐχχλησία é adotado em textos cristãos, pois se evitou utilizar
o termo “templo”, que geralmente era associado aos locais de cultos pagãos. G. CAVIGIOLI , Manuale di
diritto canônico cit. (nota 9 supra), pp.8 e 10, define Igreja como “a coletividade de fiéis que por
instituição de Cristo são reunidos na profissão da mesma fé e na participação dos mesmos sacramentos
sob o regime dos pastores legítimos e de modo especial, do Pontífice Romano”. Qualifica-se como
católica, apostólica e romana de acordo com a sua constituição: universal, missionária e que adota a
primazia do Pontífice Romano. Sua finalidade é de ordem espiritual, a aplicação da obra redentora de
Cristo e a continuação de Sua missão. Desenvolve-se no meio sobrenatural, tornando-se absurda sua
concepção como uma sociedade no campo da mera atividade política. Ela é uma sociedade juridicamente
perfeita, seja pela sua natureza sobrenatural, por não subordinar-se a qualquer hierarquia secular, seja
porque dispõe dos meios necessários para alcançar seus principais objetivos: a Verdade revelada, da qual
é a fiel depositária e divulgadora e a “salvação das almas” dos fiéis.
36
Veja-se Mt.18,15-18: “Se o teu irmão pecar, vai corrigi-lo a sós. Se ele te ouvir, ganhaste o teu irmão.
Se não te ouvir, porém, toma contigo mais uma ou duas testemunhas, para que toda questão seja decidida
pela palavra de duas ou três testemunhas. Caso não lhes der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo à
Igreja der ouvido, trata-o como o gentio e o publicano. Em verdade eu vos digo: tudo quanto ligardes na
terra será ligado no céu e tudo quanto desligardes na terra será desligado no céu”. A Didaqué também
reforça este ensinamento cristão de evitar as lides entre os cristãos. Did.1,4: “Abstêm-se dos prazeres. Se
alguém te bate na face direita, dá-lhe também a outra e tu serás perfeito. Se alguém te obrigar a mil
(passos), anda dois mil com ele. Se alguém tomar teu manto, dá-lhe também tua túnica. Se alguém toma
teus bens, não reclames, pois de todo o jeito não podes”. Veja-se Didaqué ou Doutrina dos Apóstolos cit.
(nota 26 supra), p.21.
8

fiéis, sem dar prioridade a elementos temporais no objeto da lide.37


Seguindo as orientações do apóstolo Paulo às comunidades de Corinto, em
1Cor.6,1-738, os fiéis das comunidades primitivas renunciavam à justiça oficial do
Império Romano para submeter as lides à autoridade de um padre, bispo ou até mesmo
do Papa, para a resolução de uma determinada controvérsia.39
Resolviam-se as lides ou qualquer outra discussão entre os próprios cristãos. Se
o próprio Cristo no Evangelho determinou como o segundo maior mandamento:
“Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, não seria adequado que pessoas que não
pertencessem à comunidade cristã julgassem aqueles que deviam estar em comunhão.40

2.4. INSTITUIÇÕES CARACTERÍSTICAS

O Cristianismo se difundiu rapidamente no Império Romano, também em razão


da filosofia estóica, que apresentava muitos pontos comuns com o Cristianismo. Uma
idéia espiritual e interior, sem nenhuma preocupação temporal a priori, teve que
penetrar na imensa estrutura do mundo civilizado e adaptar-se, com uma vitalidade
infinita e universalista, a todas as exigências sociais, políticas, jurídicas, materiais e
morais do Império.41
O Cristianismo proclamou o valor do indivíduo como um ser de fins absolutos, a
igualdade fundamental e a fraternidade de todos os homens sob a paternidade universal
de Deus, a inviolabilidade da vida humana, o menosprezo às riquezas e o apreço ao
trabalho. Com esse conjunto de novos valores, a estrutura familiar romana sofreu
profundas alterações, especialmente em relação à dignidade de todos os membros da
família, a humildade e a caridade.42
O pátrio poder indiscriminado e o direito de vida e de morte do paterfamilias
sobre os filhos, os maus tratos sobre os escravos, a venda e a exposição dos filhos, o
abandono noxal, o divórcio e o repúdio sem justa causa, tornaram-se incompatíveis com
o influxo das idéias cristãs.

37
L.C. AZEVEDO, Introdução à História do Direito cit. (nota 30 supra), p.109; J.R. CRUZ E TUCCI – L.C.
AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), pp.17-19.
38
“Quando alguém de vós tem rixa com outro, como ousa levá-la aos injustos, para ser julgada, e não aos
santos? Então não sabeis que os santos julgarão o mundo? E se é por vós que o mundo será julgado,
seríeis indignos de proferir julgamentos de menor importância? Não sabeis que julgaremos os anjos?
Quanto mais então as coisas da vida cotidiana? Quando, pois, tendes processos desta vida para ser
julgados, constituís como juízes aqueles que a Igreja despreza! Digo isto para confusão vossa. Não se
encontra entre vós alguém suficientemente sábio para poder julgar entre irmãos? No entanto, acontece
que um irmão entra em litígio contra seu irmão, e isto diante de infiéis! De qualquer modo, já é para vós
uma falta a existência de litígios entre vós. Porque não preferis, antes, padecer uma injustiça? Porque não
vos deixais, antes, defraudar? Entretanto, ao contrário, sois vós que cometeis injustiça e defraudais – e
isto contra vossos irmãos!”.
39
Vejam-se L.C. AZEVEDO, Introdução à História do Direito cit. (nota 30 supra), p.109; J.R. CRUZ E TUCCI
– L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), pp.17-19.
40
L.C. AZEVEDO, Introdução à História do Direito cit. (nota 30 supra), p.109. Para o autor, o Império
julgava a Igreja como contrária aos seus interesses e perturbadora da ordem pública. Veja-se Tácito
(Anais 15,44). A caritas christiana foi observada pelo legislador do atual Código de Direito Canônico
(1983), no can. 1446, §1º: “Todos os fiéis, mas principalmente os Bispos, empenhem-se diligentemente a
fim de que se evitem, quanto possível, salva a justiça, lides no povo de Deus e se componham
pacificamente quanto antes”.
41
S. MINGUIJÓN ADRIÁN, Historia del Derecho Español cit. (nota 12 supra), p.38.
42
A.S. CUNHA LOBO, Curso de Direito Romano cit. (nota 6 supra), p.286.
9

3 – O CRISTIANISMO COMO RELIGIÃO OFICIAL DO IMPÉRIO ROMANO

3.1. PODERES ECLESIAIS

Em relação à política religiosa de Constantino (272-337), a providência mais


conhecida foi uma constituição imperial, o famoso Edito de Milão, de 313 d.C. que
determinou a tolerância entre o Estado e a Igreja43, com importantes conseqüências no
âmbito do Direito.
O ato que pode ser considerado fundamental para a integração entre Estado e
Igreja ocorreu com o Edito de Tessalônica, promulgado em 27 de fevereiro de 380 d.C
pelo imperador Teodósio I. Neste período (366-384 d.C.) Dâmaso I era o bispo de
Roma. Através deste edito o Cristianismo tornou-se a religião oficial do Estado
Romano. Nesta providência, o imperador impõe aos súditos abraçar a fé cristã e
considera “heréticos insensatos” aqueles que não a observarem. Constituições
posteriores estabeleciam sanções contra os heréticos e os seguidores do maniqueísmo.44
O texto do Edito de Tessalônica está disposto no Código Teodosiano
(C.Th.16,1,2) e no Código de Justiniano (Codex repetitae praelectionis), de 535 d.C.
(C.1,1,1) e substituiu o princípio da liberdade religiosa, pelo regime de uma religião do
Estado.45

43
Nas opiniões de J.C. MOREIRA ALVES , Direito Romano, 14ªed., Rio de Janeiro, Forense, 2007, p.55; F.
DE MARTINO, Storia della costituzione romana, vol.5, Napoli, Jovene, 1975, pp.108-110, 120,
122-123,530; V. ARANGIO-RUIZ, Storia del diritto romano, 5ªed., Napoli, Jovene, 1947, p.318, apesar do
Edito de Milão determinar o reconhecimento da liberdade de professar a religião cristã, é impróprio falar
de simples tolerância, pois a política religiosa de Constantino realizou a integração da Igreja no Estado,
com uma série de medidas que asseguraram ao Cristianismo, uma condição de superioridade em relação
às demais religiões. Para F. DE MARTINO, o primeiro imperador cristão determinou como “legítima”
somente a Igreja católica, puniu e combateu severamente aqueles que prejudicassem a sua unidade
(donatistas, arianos) e desobedecessem seus órgãos hierárquicos. Porém, o autor não determina por força
de qual lei tenha ocorrido tal legitimação. S. MAZZARINO, La fine del mondo antico, Milano, Rizzoli Libri,
1988, trad. port. de Pier Luigi Cabra, O fim do mundo antigo, São Paulo, Martins Fontes, 1991, pp.
193-194; 199; 201, denomina Constantino “fundador do império cristão”, pois a nova religião que
transformou o semblante do Estado Romano, “havia partido do grito das massas camponesas das
províncias, oprimidas por patrões e por tributos”. Conforme B. BIONDI, Il diritto romano cristiano. I.
Orientamento religioso della legislazione, Milano, Giuffrè, 1952, p.119, na época de Constantino se
inicia uma das maiores transformações da História, o Estado Romano torna-se cristão, influenciando a
vida pública e a legislação, mesmo sem nenhuma proclamação formal. Apesar desta opinião, reconhece
que o imperador é representado como ’Ηλιος no arco de triunfo e nas moedas denominado como Sol
invictus, evidências claras de seu “paganismo”.
44
Graciano e Valentiniano II subiram ao trono em 375 d.C., mas, depois da derrota de Adrianópolis para
os godos (378 d.C.) confiaram a defesa do Oriente a Teodósio I, em janeiro de 379 d.C., um general
cristão que se encontrava retirado da vida pública. G. CERVENCA, Le successive vicende dell’impero fino al
476 d.C., in M. TALAMANCA (org.), Lineamenti di storia del diritto romano, Milano, Giuffrè, 1979, p.622;
A. METRO, Il Dominato. Le vicende politiche, in P. CERAMI, A. CORBINO, A. METRO e G. PURPURA,
Ordinamento costituzionale e produzione del diritto in Roma antica – I fondamenti dell’esperienza
giuridica occidentale, 2ªed., Napoli, Jovene, 2006, p.141; Idem, Scienza e politica del diritto nel
Dominato, in P. CERAMI, A. CORBINO, A. METRO e G. PURPURA, Ordinamento costituzionale e produzione
del diritto in Roma antica – I fondamenti dell’esperienza giuridica occidentale, 2ªed., Napoli, Jovene,
2006, p.235. Quanto ao maniqueísmo, J.G. DAVIES, The Early Christian Church cit. (nota 18 supra)
pp.221-222, explica que era uma religião fundada por um persa chamado Mani, nascido em 216, e que
tinha como principal característica o sincretismo, pois Mani reconhecia Jesus, Zoroastro e Buda como
seus antecessores, com a pretensão de apresentar-se como uma “sabedoria universal”. Era uma religião
bem organizada, com missionários itinerantes, diáconos, presbíteros, setenta e dois bispos e doze
apóstolos. Havia um “décimo terceiro apóstolo” que representava o próprio Mani.
45
J. GAUDEMET, Droit privé romain, 2ªed., Paris, Montchrestien, 2000, pp.138-139; Idem, Les institutions
de l’Antiquité, 7ªed., Paris, Montchrestien, 2002, pp.429-430.
10

Graciano, Valentiniano e Teodósio ao povo de Constantinopla.


“Desejamos que todos os povos a nós submetidos sigam a religião que o
apóstolo Pedro ensinou aos Romanos e que, desde aquele tempo, ali é praticada e que
agora ensinam o Papa Dâmaso e Pedro, bispo de Alexandria, isto é, que, segundo a
disciplina apostólica e a doutrina evangélica, nós acreditamos na única divindade do
Pai, do Filho e do Espírito Santo com igual majestade e na piedosa Trindade. §1º.
Ordenamos que aqueles que aceitam esta norma serão chamados cristãos católicos, os
demais, pelo contrário, serão heréticos insensatos, nem as suas assembléias poderão ser
consideradas como verdadeiras e reconhecidas; eles incorrerão nos castigos divinos e
também naquelas punições que nós desejarmos aplicar”.46

O papa Dâmaso reforçou a primazia do Bispo de Roma, confirmados pelo


imperador Graciano e por um concílio reunido em Roma em 383. O Bispo de Roma
tinha a partir de então a competência de realizar os julgamentos de bispos que
participassem de alguns movimentos contrários aos dogmas e à doutrina da Igreja, não
sendo mais julgados por um juiz secular.47
Surgem as divisões eclesiásticas do território, modeladas nas bases
administrativas do Império Romano. A unidade básica é o episcopado, que compreendia
a cidade onde o bispo residia.48 Em seguida estavam as províncias, cada uma sob a
responsabilidade do bispo de sua capital, que era denominado “metropolita”, com
jurisdição sobre todos os bispos desta área. Estas províncias foram agrupadas em
dioceses. Paralelamente às províncias eclesiásticas, sob o governo de seu “metropolita”,
surgem novos agrupamentos sob a direção de um patriarca.49
46
L. GATTO, Il Medioevo nelle sue fonti, Bologna, Monduzzi, 1995, pp.26-27. Grat., Valentin. et Theod.
C.Th.16,1,2 (de 380), (= C.1,1,1): Cunctus populos, quos clementiae nostrae regit temperamentum, in
tali volumus religione versari, quam divinum Petrum apostolum tradidisse Romanis religio usque ad
nunc ab ipso insinuata declarat quamque pontificem Damasum sequi claret et Petrum Alexandriae
episcopum virum apostolicae sanctitatis, hoc est, ut secundum apostolicam disciplinam evangelicamque
doctrinam Patris et Filii et Spiritus sancti unam deitatem sub pari maiestate et sub pia trinitate
credamus. §1º. Hanc legem sequentes Christianorum catholicorum nomen iubemus amplecti, reliquos
vero dementes vesanosque iudicantes haeretici dogmatis infamiam sustinere nec conciliabula earum
ecclesiasticum nomen accipere, divina primum vindicta, post etiam motus nostri, quem ex caelesti
arbitrio sumpserimus, ultione plectendos. Veja-se Cuerpo del Derecho Civil Romano, I.L. GARCIA DEL
CORRAL, Codigo, Segunda Parte – Tomo I, Barcelona, Jaime Molinas, 1892, p.15; Code Théodosien –
Livre XVI – Les Lois Religieuses des Empereurs Romains de Constatin à Theodose II (312-438), vol.1,
trad. franc. de Jean Rougé, Paris, Du Cerf, 2005, pp. 114-115.
47
J.G. DAVIES, The Early Christian Church cit. (nota 18 supra), p.259. O autor menciona um documento
promulgado pelo Imperador Graciano, denominado Ordinariorum Sententiae: “(...) os bispos das
províncias diretamente sob a responsabilidade do metropolita de Roma deviam ser julgados na própria
Roma, devendo os metropolitas, por sua vez, ser ouvidos em Roma, ou por juízes nomeados pelo Papa, e
podendo os bispos ordinários apelar para o Papa ou para um sínodo de quinze bispos vizinhos. Este
documento foi um passo significativo no sentido de uma maior autonomia do Papa, pois embora o
Imperador não tivesse reconhecido os direitos que lhe eram inerentes, garantira uma nova jurisdição à Sé
romana, de modo que, em teoria se não na prática, a supremacia do bispo de Roma no Ocidente estava
largamente confirmada”.
48
Quanto ao surgimento das paróquias, afirma S. MINGUIJÓN ADRIÁN, Historia del Derecho Español cit.
(nota 12 supra), pp.38-39, que o bispo visitava, periodicamente, as igrejas nas zonas rurais onde se
reuniam os fiéis que habitavam locais distantes das cidades. Ao enviar presbíteros para estes locais,
alguns deles ali se estabelecem. Surgem as paróquias. Um conjunto de paróquias urbanas e rurais
estabelecidas dentro de uma determinada circunscrição geográfica constituía uma província eclesiástica.
A reunião de várias delas num território, que geralmente coincidia com a divisão administrativa do
próprio Império Romano, foi denominada Metrópole.
49
J.G. DAVIES, The Early Christian Church cit. (nota 18 supra), p.258. O autor complementa, neste
sentido, que em Constantinopla, no ano de 381, seu bispo foi considerado como tendo a primazia de
honra, após o bispo de Roma, devido a Constantinopla ser a Nova Roma. Quanto à noção de “diocese”,
11

3.2. FONTES DO DIREITO

Surge nesse período o primeiro historiador da Igreja, Eusébio de Cesaréia


(263-340), grande admirador de Constantino, do qual escreveu uma biografia. Foi o
autor da notória obra “História Eclesiástica”. É nítida a sua forte oposição ao arianismo.
Escreveu obras apologéticas como “Preparação para o Evangelho” (na defesa do
Cristianismo em relação aos pagãos) e “Prova do Evangelho” (contra os judeus).50
São de grande contribuição teológica e moral as obras da Patrística (Escritos dos
“Pais da Igreja”), pois neste período atingem sua fase de maior esplendor. São trabalhos
de filosofia cristã de S. Basílio, S. Gregório, S. Jerônimo, S. Ambrósio, Sto. Agostinho,
S. Hilário de Portiers, S. Isidoro de Sevilha.51 Estas obras faziam a exegese da Sagrada
Escritura e orientavam a conduta dos fiéis.
Grande número de Concílios caracteriza este período. Concílios são reuniões de
Bispos que possuíam a função de fixar princípios e deliberar sobre assuntos dogmáticos,
morais e disciplinares oriundos da expansão do Cristianismo e do aumento de sua
influência secular, inclusive contribuindo para a elaboração de legislações laicas.52
Os Concílios poderiam ser de dois tipos:
1) ecumênicos (do grego “oikos” que significa “casa”, transmitindo uma idéia de
universalidade) são os mais importantes, pois deliberava “regras” (cânones) obrigatórias
para toda a Igreja, ou seja, princípios jurídicos que regulavam as relações da Igreja com
os fiéis e o clero, respeitando seu escopo orientador na sociedade.53 Como exemplos dos
mais famosos concílios ecumênicos deste período, temos o de Nicéia (325),
Constantinopla (381)54, Éfeso (431), Calcedônia (451), Constantinopla II (553) e III
(680-1) e novamente Nicéia (787).
2) Regionais são os Concílios que deliberam regras que serão aplicadas numa
determinada diocese ou conjunto de dioceses, geralmente aquelas representadas na
reunião, em local indicado em sua nomenclatura. Como exemplos, citamos os
realizados em Ilíberis (306)55, Árles (314), Antioquia (332-341), Roma (341), Cartago
(345-425), Zaragoza (380) e Toledo (400-694).
O primeiro concílio ecumênico da Igreja foi, portanto, o Concílio de Nicéia,
ela sofreu mudanças profundas em seu conceito. No Direito Canônico atual, o Código de 1983 em seu
cân. 369 adota o elemento pessoal e não mais aquele dos primórdios da Igreja, o territorial.
50
J.G. DAVIES, The Early Christian Church cit. (nota 18 supra), p.226. Veja-se Eusébio de Cesaréia,
História Eclesiástica, trad. port. das Monjas Beneditinas do Mosteiro de Maria Mãe de Cristo, São Paulo,
Paulus, 2000; Vida de Constantino, trad. esp. de Martín Gurruchaga, Madrid, Gredos, 1994.
51
J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), p.30.
52
L.C. AZEVEDO, Introdução à História do Direito (nota 30 supra), p.92; J.R. CRUZ E TUCCI – L.C.
AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), 2001, p.28. A.S. CUNHA LOBO, Curso de
Direito Romano cit. (nota 6 supra), p.523 cita como exemplo os cânones dos Concílios de Toledo que
organizaram o Fuero Juzgo, o Código Visigótico, no reinado de Recesvindo em 654. Este código reunia
disposições originadas do direito romano, do canônico e do germânico.
53
A.S. CUNHA LOBO, Curso de Direito Romano cit. (nota 6 supra), p.523.
54
J.G. DAVIES, The Early Christian Church cit. (nota 18 supra), p.258: “Os cânones dos Concílios de
Nicéia e Constantinopla não só tinham autoridade no desenvolvimento das divisões territoriais, como
também constituíam o núcleo para uma legislação eclesiástica geral. Até então, os concílios que se
haviam reunido tinham caráter local, e as suas resoluções, muitas vezes, eram desconhecidas ou não
acatadas por serem consideradas sem autoridade fora das suas áreas. Os cânones de Nicéia, que foi o
primeiro Concílio Ecumênico, foram aceites desde o princípio, e, dessa forma, iniciara-se o processo de
criação de um corpo canônico. Além do mais, a realização destes Concílios e os cânones por eles
promulgados deviam exercer uma influência direta na questão do primado de Roma”.
55
Conforme S. MINGUIJÓN ADRIÁN, Historia del Derecho Español cit. (nota 12 supra), pp.39-40, este foi o
concílio espanhol mais antigo, celebrado no ano de 306. Observa-se, pelo conteúdo de seus cânones, a
preocupação da Igreja em diversos assuntos seculares, como a usura, o tratamento dos escravos, a
disciplina eclesiástica e a reforma dos costumes.
12

cidade localizada na Bitínia (Ásia Menor) e que teve início em 20 de maio de 325. Após
os debates, alguns pontos doutrinais e teológicos foram reforçados: o arianismo foi
condenado; elaborou-se o símbolo niceno-constantinopolitano (credo), que incluía a
afirmação de que Jesus Cristo era consubstancial ao Deus Pai (homoousion). Estas
disposições reforçaram a fé cristã e combateram as heresias. Neste Concílio foram
promulgados vinte cânones disciplinares.56
Em relação ao arianismo, Constantino busca inicialmente uma conciliação,
porém, posteriormente, opõe-se ao movimento, pois estas “heresias” prejudicavam não
apenas a unidade da Igreja, mas também a segurança do próprio império.57
O cisma provocado por Ário, um presbítero da diocese de Baucális, em
Alexandria, negava a natureza divina de Cristo, baseado na consideração de que a
substância do Pai é indivisível. Excomungado em 318 d.C., por decisão do Concílio de
Alexandria, Ário apela para os bispos do Oriente em favor da sua causa.58
Diferente do cisma donatista, que permanece circunscrito à África, a heresia
ariana difunde-se rapidamente por todo o Oriente, ameaçando seriamente a unidade da
Igreja. O próprio Constantino participa, pronuncia o discurso inicial e intervém nas
discussões entre atanasianos e arianos. Por fim, o concílio condenou ao exílio Ário e
seus seguidores, pois estes afirmavam que “o Filho de Deus veio do nada” e que seria
“de uma substância diferente da do Pai”.59
Após o Concílio de Nicéia, o imperador promulga disposições contra as seitas
heréticas, como a proibição de professar as heresias e estabelece o confisco dos bens das
respectivas igrejas.60
Vejamos outras fontes que tiveram grande importância neste período.
As Decretais dos Papas (epistula decretalis) consistiam em consultas realizadas
diretamente ao Papa, pelos fiéis leigos ou por autoridades eclesiásticas, relativas às
questões sobre a disciplina monástica ou assuntos temporais, como matrimônio,
batismo, penitência. As respostas dos Papas gozavam de força normativa.61
56
J.G. DAVIES , The Early Christian Church cit. (nota 18 supra), pp.242-243.
57
G. CERVENCA, Le innovazioni di Costantino, in M. TALAMANCA (org.), Lineamenti di storia del diritto
romano, Milano, Giuffrè, 1979, p.615.
58
G. VENTURA DA SILVA, A Relação Estado/Igreja no Império Romano (séculos III e IV), in G. VENTURA DA
SILVA- N.M. MENDES (org.), Repensando o Império Romano – Perspectiva Socioeconômica, Política e
Cultural, Rio de Janeiro, Mauad; Vitória, EDUFES, 2006, p.258. Surge, em Alexandria, a primeira escola
de estudos sobre as Sagradas Escrituras (Didaskaleion). Veja-se R. PARIBENI, Da Diocleziano alla caduta
dell’Impero d’Occidente, Bologna, Licinio Cappelli, 1941, p.80.
59
G. CERVENCA, Le innovazioni di Costantino, in M. TALAMANCA (org.), Lineamenti di storia del diritto
romano, Milano, Giuffrè, 1979, p.615. Dentre inúmeros seguidores da doutrina ariana, especialmente na
Ásia Menor e na Palestina, estavam Constança, irmã de Constantino e o bispo da Nicomédia, Eusébio.
Segundo esta doutrina, apenas o Deus Pai é uno, é eterno e não foi criado. Todos os outros seres são suas
criaturas, criados do nada, não de sua substância divina. O Logos é a primeira das criaturas e por isso,
filho primogênito de Deus, mas diferente de Deus. O Pneuma é criatura do Logos. Veja-se R. PARIBENI,
Da Diocleziano alla caduta dell’Impero d’Occidente cit. (nota 58 supra), p.80.
60
B. LANÇON, Constantin (306-337), Paris, Universitaires de France, 1998, p.26.
61
As epistulae decretalis assemelham-se às constituições imperiais denominadas rescripta, respostas
dadas por escrito pelo Imperador (ou por seu conselho) a consultas jurídicas dirigidas por magistrados,
funcionários ou particulares (através de libellus principi oblatus, preces ou supplicationes) sobre
determinada matéria jurídica controversa, no curso do processo. Em geral, a resposta a um particular era
feita por uma nota escrita à margem ou logo abaixo da pergunta, para que dela não se separasse
(adnotatio, subnotatio, subscriptio). A subscriptio era sempre redigida de forma condicional, subordinada
à veracidade dos fatos expostos. A resposta a uma questão jurídica (relatio, consultatio) de um
magistrado, comunidade, associação ou uma assembléia provincial, era redigida em carta separada
(epistula). No Dominato, ocorre uma diminuição na utilização dos rescritos, decorrência da concentração
total do poder legislativo nas mãos do imperador, sendo mais utilizados os editos ou leges generales pelo
príncipe, para criar novas normas jurídicas. Vejam-se M. BRETONE, Storia del diritto romano, trad. port. de
13

As penitenciais (libri paenitentiales) eram coleções de cânones que dispunham


sobre as sanções impostas à punição de certos pecados.
É importante fonte jurídica o livro 16 do Codex Theodosianus de 438 d.C.,
promulgado pelos imperadores Teodósio II e Valentiniano III, pois contém
constituições que tratam de matéria de natureza canônica.
Promulgado em 534 pelo imperador Justiniano (483-565), o livro 1 do Codex
repetitiae praelectionis tem várias constituições imperiais que dispõe sobre as relações
entre a Igreja e o Estado.62
São fontes secundárias do Direito Canônico os regulamentos monásticos ou
conventuais, pois apresentam finalidades disciplinares à prática religiosa em
monastérios e conventos, portanto apresentam uma aplicação restrita. Como principal
exemplo, temos a “Ordem dos Beneditinos” fundada em 542 por São Bento de Múrcia
(480? – 21 de março de 547), o “pai do monaquismo ocidental”. 63 A síntese da principal
regra desta ordem é “Orar e trabalhar, contemplar e agir”, simbolizados pelo emblema
monástico da cruz e do arado.64
Portanto, neste período formou-se, através dos concílios e dos decretos papais, a
base de normas e princípios que influenciaram a Europa Medieval e foram essenciais,
posteriormente, na elaboração de inúmeras legislações nacionais, originando o
denominado sistema romano-canônico (utrumque ius).

3.3. PROCESSO

Ao realizarem um julgamento, regras sintéticas eram utilizadas em casos


semelhantes. Ao conjunto destas regras deu-se o nome de cânone (do grego kanon,
regra). Literalmente, o direito canônico é o direito das regras.65
O imperador Constantino (272-337) realizou importantes reformas no sistema
processual romano. A principal delas foi a introdução da episcopalis audientia (C.Th.
1,27,1 de 318 = C.1,4,8). Com a reforma do Tribunal do Bispo, a jurisdição eclesiástica
se estendia às causas civis. Bastaria que, nas causas em que os dois litigantes fossem
cristãos, uma da partes ou ambas manifestassem o desejo de submeter a questão a este
Tribunal, ainda que no curso do processo.66
A execução da sentença era realizada pela autoridade secular, sempre que a

Isabel Teresa Santos e Hossein Seddighzadeh Shooja, História do Direito Romano, Lisboa, Estampa,
1998, pp.170-171; J.C. MATOS PEIXOTO, Curso de Direito Romano – Tomo I – Partes introdutória e geral,
2ªed., Rio de Janeiro, Fortaleza, 1950, p.94; J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil
Canônico cit. (nota 3 supra), p.29. A primeira decretal conhecida é a epístola de 384 enviada pelo Papa
Sirício (384-399) ao Bispo Eumério de Terragona (a cidade de Tarraco na Hispania romana).
62
J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), p.31.
63
Surgiu no século III, o denominado Monaquismo oriental quando vários homens adotaram uma vida
austera, de profundo ascetismo. Santo Antão (251-357) foi o fundador de uma forma de monaquismo em
que a vida comum, a oração, a orientação de um superior e a caridade fraterna constituíam meios eficazes
de santificação. No início de sua vida religiosa, ele vivera no deserto egípcio como eremita.
64
J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), p.29; J.B.
ALVES, Os santos de cada dia, 6ªed., São Paulo, Paulinas, 1990, pp. 390-391. A irmã gêmea de São Bento,
Santa Escolástica (480? – 547?) acompanhou-o na vida monástica. Nas palavras de P. BONNASSIE, Les 50
mots cléfs de l’histoire médiévale, Privat, Toulouse, 1981, trad. port. de João Guilherme Mendes
Fagundes, Dicionário de História Medieval, Lisboa, Dom Quixote, 1985, p.149: “No sentido estrito do
termo, os monges são homens (e as monjas mulheres) que se isolaram do mundo para se consagrarem ao
serviço de Deus: a palavra monge deriva do grego monakhos (solitário). Este isolamento pode ser vivido
quer individualmente (eremitismo) quer em comunidades (cenobitismo)”.
65
J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), p.19; J.G.
DAVIES, The Early Christian Church cit. (nota 18 supra), p.122.
66
J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), p.22.
14

Igreja solicitasse, visto que os bispos possuíam apenas meios espirituais de coação. A
legislação constantiniana determinava que a decisão proferida não admitia recurso.
Porém o Direito canônico permitiu o recurso às instâncias de apelação (concílio
provincial, às vezes ao metropolitano e ao Papa).67
Ocorreu, portanto, não apenas o reconhecimento da função e da jurisdição dos
bispos pelo “Estado Romano” como a equiparação dos bispos aos magistrados.68
A episcopalis audentia dava possibilidade de ser parte de um processo, de mover
uma ação, sujeitos que não tinham essa possibilidade perante os Tribunais do Império
Romano, v.g., os escravos, infames, peregrinos deditícios.

3.4. INSTITUIÇÕES CARACTERÍSTICAS

Foi grande a influência do Cristianismo no Direito romano, especialmente no


matrimônio, concubinato, escravidão, manumissão, pátrio poder, tutela, curatela,
emancipação dos filhos, condição da mulher.69
A doutrina cristã vê no matrimônio uma instituição de vida religiosa, um vínculo
sagrado de força indestrutível70; neste período foram lançadas as bases do
reconhecimento, no século X, do matrimônio como “sacramento”. Sob esta influência, a
concepção pós-clássica do matrimônio foi alterada, ao considerá-lo sob vários aspectos
(sobretudo quanto à dissolução) como uma relação jurídica; mas mantém-se o caráter
fundamental do matrimônio, “como efetiva comunidade de vida”, firmada no
consentimento contínuo dos cônjuges.
A legislação a partir de Constantino permite o divórcio apenas por causas
determinadas (em geral por faltas graves da outra parte) e comina penas para o divórcio
sem motivos, principalmente sobre o dote e doações matrimoniais; além disso, dificulta-
se o novo matrimônio. Porém, a indissolubilidade do vínculo matrimonial foi uma
conquista muito posterior à queda do Império Romano do Ocidente em 476 d.C. e a
morte de Justiniano, no Império do Oriente, em 565 d.C. Apenas na Idade Média, pela
influência do Direito Canônico é que a indissolubilidade se impõe. Nem mesmo os
imperadores cristãos conseguiram abolir o divórcio, tendo apenas procurado
regulamentá-lo, estabelecendo penalidades severíssimas para os divórcios por mútuo
consentimento, proibidos por Justiniano, e para os repúdios sem causa.
Com relação à manumissio in ecclesia, teve sua origem na chamada manumissio
inter amicos. A manumissão realizada diante dos membros do clero e da assembléia dos
fiéis (in ecclesiae gremio) concedia ao liberto a cidadania romana.71

4 – A INFLUÊNCIA DO DIREITO CANÔNICO NOS POVOS


GERMÂNICOS

4.1. PODERES ECLESIAIS

A Igreja é a única instituição que prevalece após o colapso do Império Romano

67
A. GARCYA Y GARCIA , Historia del Derecho Canonico cit. (nota 17 supra), pp.262-263.
68
G. DAVIES, The Early Christian Church cit. (nota 18 supra), p.122.
69
A.S. CUNHA LOBO, Curso de Direito Romano cit. (nota 6 supra), p.523.
70
Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus 19, 1-9. E, neste sentido, a Primeira Epístola de São
Paulo aos Coríntios, 7, 10-11.
71
Vejam-se C.1,13,2 (C.Th. 4,7,1); veja-se R. DANIELI, Contributi alla storia delle manomissioni romane.
I – Origine ed efficacia delle forme civili di manomissione, Milano, Giuffrè, 1953, pp.67-71.
15

do Ocidente em 476. Nos inúmeros povos invasores ela representa a cultura e a


estrutura administrativa romana, além de ser fortemente influenciada pelo Direito
Romano, ambos com caráter universalista. Em contrapartida, recebe inúmeras
influências das instituições jurídicas dos povos germânicos, a partir da consagração,
pelo Papa Leão III, com o título de Imperator Romanorum, Carlos Magno (747-814) rei
dos francos e dos lombardos.72
Carlos Magno reforma a Igreja através da promulgação de leis que dispõem
sobre mosteiros, propriedade eclesiástica, correção dos desvios morais do povo, reforma
litúrgica, defesa da doutrina católica contra os hereges, proteção do Papa e dos
denominados “Estados Pontifícios”.73
O Papa Gregório VII (1020?-1085) realiza profunda reforma tendo como escopo
a centralização do poder papal e a unidade da Igreja, intervindo constantemente nos
principais problemas dos poderes temporais do período. Criou as Cruzadas ou Milícias
de São Pedro, destinadas a salvaguardar interesses espirituais.
A Igreja, nesta concepção, é uma unidade supra-nacional que vincula todos os
cristãos como organização não apenas espiritual, mas temporal, com um verdadeiro
controle da Igreja sobre os Estados cristãos.74

4.2. FONTES DO DIREITO

Os concílios são fontes importantes do direito, tanto os particulares quanto os


ecumênicos, pois os cânones e textos por eles aprovados constituirão a base do Decreto
de Graciano.75
Há diversas coleções canônicas que sistematizaram a grande quantidade de
textos, especialmente decretais e cânones, promulgados especialmente nos concílios.
Dentre estas coleções canônicas as mais importantes são: a Dionisiana (do ano 500), a
Adriana (Collectio Hadriana ou Codex Hadrianus, de 802), a Coleção Hispana ou
Isidoriana (de 633) e a Dacheriana (editada por Luc d’Achery em 1669).76
72
A. GARCYA Y GARCIA , Historia del Derecho Canonico cit. (nota 17 supra) , pp.275-276. Os principais
povos germânicos foram os seguintes: os ostrogodos, estabelecidos na Itália desde 493 (arianos); os
longobardos, que se estabeleceram no norte da Itália em 568 (católicos desde 671); os visigodos que
ocuparam a Península Ibérica e o sul da França em 419 (católicos desde 589); os francos, que ocuparam a
Gália e o Oeste da Germânia (católicos desde 419); os saxões, que invadiram a Inglaterra em 419
(católicos desde 678); os vândalos estabelecidos no norte da África desde 439 (arianos); os Borgúndios,
estabelecidos na Gália e no sul da Germânia em 411 (católicos desde 534). A coroação de Carlos Magno
em 800 indicou um período de unidade, pois ele foi considerado como sucessor do Império Romano do
Ocidente (uma renovação do Império).
73
A. GARCYA Y GARCIA, Historia del Derecho Canonico cit. (nota 17 supra), p.279. Sobre a vida de Carlos
Magno, veja-se J. FAVIER, Charlemagne, Paris, Arthème Fayard, 1999, trad. port. de Luciano Machado,
Carlos Magno, São Paulo, Estação Liberdade, 2004. Nesta época, a figura do bispo tem uma participação
e uma importância enorme no sistema administrativo: cuida para que a população seja abastecida,
controla os pesos e medidas, organiza os mercados, preocupa-se com a salubridade e com o ensino das
crianças.
74
A. GARCYA Y GARCIA, Historia del Derecho Canonico cit. (nota 17 supra), pp.280-282. Surge, com esta
política da Igreja, um tríplice mal, que será combatido pelo próprio Gregório VII e motivo de
desestabilização e escândalo na Igreja: as investiduras, o relaxamento e a simonia (venda de favores
divinos, perdão dos pecados, cargos eclesiásticos, por dinheiro). A questão das investiduras gerou um
grave conflito que envolveu a Igreja e o Sacro Império Romano-Germânico entre os séculos XI e XII.
75
A. GARCYA Y GARCIA, Historia del Derecho Canonico cit. (nota 17 supra), p.285. Nestes concílios, muito
se debateu sobre a primazia do Papa na Igreja, sua infalibilidade em relação às decisões promulgadas
pelos concílios.
76
A. GARCYA Y GARCIA, Historia del Derecho Canonico cit. (nota 17 supra), p.291-303. Surgiram, por
outro lado, inúmeras falsificações que promoveram uma verdadeira dispersão das fontes do direito,
especialmente durante o reinado de Ludovico Pio (814-40). A harmonia verificada entre o Estado e a
16

O autor anônimo da Dacheriana reelaborou os textos das Coleções Hadriana e


Hispana, tratando sobre matrimônio, direito processual e clérigos.77
A Collectio Abbonis abbatis Floriacensis, a principal do reino dos francos, foi
elaborada na Reforma Carolíngea. A sua finalidade principal era a defesa da Igreja e do
próprio monastério, em virtude dos ataques promovidos por interesses seculares e
políticos.78
O Decreto de Buchard de Worms (Liber decretorum, Collectarium Canonum)
foi escrito entre 1023 e 1025, dividido em 20 livros e 1.785 capítulos, tendo ampla
aplicação em diversas dioceses germânicas. Serviu de fonte para as Coleções de Ivo de
Chartres.79
A Coleção de Anselmo, bispo de Lucca, escrita em 1083 exerceu grande
influência na Reforma Gregoriana, pois defendia a idéia de que todos os reinos
deveriam estar vinculados ao poder da Igreja. A Igreja intervinha constantemente em
assuntos temporais: casamento, investiduras, jurisdição, valor das ordálias.80
Com o escopo de solucionar inúmeras questões pertinentes à relação entre a
Igreja e o poder temporal, S. Ivo de Chartres (1040-1116) compilou entre os anos 1091
e 1116, inúmeros cânones conciliares e decretais antigas, textos provenientes das
reformas carolíngia e gregoriana e regras de interpretação. Estas Coleções de Ivo de
Chartres eram divididas em três partes: a Tripartita, o Decreto e a Panormia.81

4.3. PROCESSO

Segundo os costumes germânicos, são admitidos como meios de prova para a


solução do processo, sobretudo penal, a utilização do duelo judiciário e das ordálias,
remetendo a decisão aos denominados Juízos de Deus. Tamanha violência deste sistema
probatório pode ser exemplificada na utilização de recursos como a água fervente ou o
ferro em brasa.82

Igreja durante o reinado de Carlos Magno foi desgastada pelas constantes intromissões do poder secular
nos assuntos da Igreja e vice-versa. O Estado intervém, v.g., nas nomeações e deposições de bispos e na
questão da propriedade eclesiástica. As principais coleções falsificadas foram: a Hispana de Autun
(Augustodunensis), Capitula Angilramni, Capitularia Benedicti Levitae e Decretais Pseudoisidorianas.
77
A. GARCYA Y GARCIA , Historia del Derecho Canonico cit. (nota 17 supra), pp.291-297. Estas coleções
canônicas não estavam ao alcance do clero inferior, sendo que estes utilizavam manuais com coletâneas
dirigidos para a atividade prática, denominados Capitula Episcoporum.
78
A. GARCYA Y GARCIA, Historia del Derecho Canonico cit. (nota 17 supra), p.304. O mencionado autor
acrescenta que, do ponto de vista técnico, esta coleção é um prelúdio do método que será utilizado por
Graciano. Suas fontes principais são: as Sagradas Escrituras, as decretais dos Papas, os concílios
particulares e as Capitulares (decretos promulgados pelos reis que geralmente versam sobre matéria
eclesiática).
79
A. GARCYA Y GARCIA, Historia del Derecho Canonico cit. (nota 17 supra), p.307.
80
J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de História do Processo Civil Lusitano, São Paulo, RT, 2009,
p.35; A. GARCYA Y GARCIA, Historia del Derecho Canonico cit. (nota 17 supra), pp.313-314.
81
J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de História do Processo Civil Lusitano cit. (nota 3 supra),
p.35; A. GARCYA Y GARCIA, Historia del Derecho Canonico cit. (nota 17 supra), pp.319-320. A Tripartita
contém as decretais dos pontífices e cânones conciliares dispostos cronologicamente. O Decreto contém
aspectos litúrgicos, dogmáticos e hierárquicos da Igreja, com 3.760 capítulos distribuídos em 17 partes. A
Panormia, escrita entre 1094 e 1095, é uma síntese do Decreto, dividida em 8 livros: 1. Fé, Batismo,
Confirmação e Eucaristia; 2. Igrejas, Bens Eclesiásticos, Livros recebidos pela Igreja, leis, dias festivos,
jejuns e esmolas; 3. Clérigos; 4. Primado Romano, organização eclesiástica e privilégios de cada grau
hierárquico; 5. Direito Processual e Penal; 6. Matrimônio; 7. Separação e reconciliação dos cônjuges e de
alguns impedimentos matrimoniais; 8. Crimes Eclesiásticos.
82
J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de História do Processo Civil Lusitano cit. (nota 80 supra),
pp. 48-49.
17

4.4. INSTITUIÇÕES CARACTERÍSTICAS

A Reforma de Carlos Magno promoveu o que hoje chamamos de “função social


da propriedade”, com a restituição dos bens cedidos à Igreja principalmente pela
nobreza. Retornaram em forma de feudos, sujeitos à função social e regidos por
instituições jurídicas como a compra e venda, doação, locação, permuta, herança,
usufruto, comodato e enfiteuse. Quem cedesse seus bens à Igreja permanecia como
proprietário, cedendo-lhe a posse, não a propriedade. Esta pode ser considerada a raiz
do escândalo das investiduras, do direito de estola, dos dízimos, dos espólios.83

5 – A IGREJA NA IDADE MÉDIA – DO DECRETO DE GRACIANO


AO CONCÍLIO DE TRENTO

5.1. PODERES ECLESIAIS

O Direito Canônico consolida-se nos séculos XIII e XIV, período de grande


prestígio político da Igreja. Era necessário centralizar o poder do Sumo Pontífice como
legislador, para garantir uma maior segurança jurídica. Neste sentido, as Decretais de
Gregório IX foram importantíssimas para salientar que a opinião do Papa está acima de
qualquer legislação canônica.84

5.2. FONTES DO DIREITO

O Decreto de Graciano85 é considerado a “pedra angular” da codificação do


Direito Canônico. Porém não pode ser considerado como “código” na noção moderna
do termo. Foi, antes de tudo, uma coletânea de textos e de argumentos para os mestres e
estudantes. Teve por escopo principal eliminar ou, quando não era possível, abrandar as
discordâncias. Seu texto, com aproximadamente 4.000 capítulos, foi base de estudos nas
Universidades Medievais e forneceu subsídios jurídicos essenciais às nações
européias.86
Também é conhecido como Concordia discordantium canonum, pois compilou
textos de natureza diversa, agrupando-os por assunto.87 Ao lado de cada fragmento
83
M.C. LIMA , Introdução à História do Direito Canônico, São Paulo, Loyola, 1999, p.71.
84
L.C. AZEVEDO, Introdução à História do Direito, 2ªed., São Paulo, RT, 2007, p.113.
85
Graciano nasceu em Chiusi. Tornou-se monge camaldulense, estudou em Ravena e foi professor de
Direito Canônico na Universidade de Bolonha (Mosteiro de São Félix e Nabor), na matéria de Theologia
practica externa. Foi nomeado cardeal pelo Papa Alexandre III (1159-1181). Faleceu em 1179. A.V. LIMA
FILHO, Graciano e o Processo Medieval, in Revista da Faculdade de Direito da USP 91 (1996), pp.433,
afirma que o prestígio da Universidade de Bolonha, fundada no século XI, baseou-se na obra de dois
homens: Irnério (1112-1125) fundador da Escola dos Glosadores, que por volta de 1080 separou o
Direito das outras artes e Graciano, que em 1140 unificou o Direito Canônico em seu Decretum e o
distinguiu da Teologia. Segundo J.C. MOREIRA ALVES, Universidade, Cultura e Direito Romano, in
Estudos de Direito Romano, Brasília, Senado Federal, 2009, p. 317: “A Universidade é criação da Baixa
Idade Média. Surge no século XII como corporação de mestres e de alunos (universitas magistrorum et
scholarium), não sendo, como virá a ser, um conjunto de escolas superiores, mas nascendo de uma escola
local ou da fusão de escolas locais que se projetam universalmente, institucionalizando-se pelo espírito
corporativo que as anima”. O método seguido nas Universidades era o exegético e o escolástico.
86
L.C. AZEVEDO, Introdução à História do Direito cit. (nota 30 supra), p.112. A.V. LIMA FILHO, Graciano
e o Processo Medieval (nota 10 supra), pp.437 e 443.
87
A.V. LIMA FILHO, Graciano e o Processo Medieval cit. (nota 10 supra), pp.437-443. O Decreto é
dividido em três partes: na primeira existem 101 distinctiones sobre as fontes do Direito Canônico,
pessoas e ofícios eclesiásticos. Na segunda parte, há vários casos práticos (causae) e, após fazer a
18

encontra-se a indicação de sua fonte de origem (os cânones dos concílios e as decretais
dos Papas são as fontes principais). Graciano introduzia, quando considerava que o
trecho necessitava de um esclarecimento maior, um pequeno comentário denominado
dictum Gratiani. Por isso o Decreto é composto por auctoritates e dictas.88
Além disso, Graciano executou a tarefa de conciliar textos com profundas
antinomias jurídicas, pois utilizou fontes de natureza jurídica e teológica. Foram
compilados textos da Sagrada Escritura, textos da Patrística, sumários das coletâneas
eclesiásticas oficiais, livros litúrgicos, Liber diurnus, livros privados (penitenciais e
obras históricas), inúmeros textos de Direito Romano Clássico, Capitulares dos reis
francos e Falsas Decretais. Aplicou nesta tarefa tanto o Direito Romano quanto a
Dialética realizando a sistematização do Direito Canônico.89
Ocorre a denominada “estabilização” do direito canônico. A partir de sua obra,
surge a Escola dos Decretistas, ou seja, mestres e escritores que comentavam e
interpretavam a obra de Graciano, especialmente no ensino do Direito Canônico nas
Universidades.90 Com o trabalho destes canonistas, surgem coleções de decretais que
foram conhecidas por Quinque Compilationes Antiquae.91
Tal foi a importância e a autoridade do Decreto de Graciano, que os textos
legislativos posteriores, mesmo as decretais dos Papas, receberam o nome de Extra
(Decretum) vagantes.92
Com o surgimento de grande número de decretais, tornou-se essencial uma
compilação que reunisse as decisões de concílios e coleções canônicas precedentes. Esta
nova compilação teria como objetivo principal proporcionar uma maior segurança
jurídica ao legislador canônico. Esta tarefa foi realizada por S. Raymundo de Peñaforte
(1175-1275), presbítero de Barcelona, professor da Universidade de Bologna.93
Deve-se ressaltar a importância da teologia Escolástica no estudo e
sistematização dos princípios fundamentais do Direito Canônico neste período,
distinguindo e conciliando textos verdadeira ou aparentemente opostos.94

distinção, em cada um deles, de diversas questões, em relação às quais se apresentam as soluções


(auctoritates). Ou seja, através das auctoritates os cânones solucionam as diversas questões. A terceira
parte, denominada De consecracione, é dividida em Distinções e Cânones que tratam dos aspectos
litúrgicos da Igreja.
88
A.V. LIMA FILHO , Graciano e o Processo Medieval cit. (nota 10 supra), pp.436. Graciano foi um notável
sistematizador de tudo o que fora produzido até o seu tempo, criando uma obra didática, com profundo
espírito pedagógico.
89
J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), p.50; A.V.
LIMA FILHO, Graciano e o Processo Medieval cit. (nota 10 supra), pp.432-433.
90
A.V. LIMA FILHO, Graciano e o Processo Medieval cit. (nota 10 supra), p.441. O discípulo mais
importante de Graciano foi Paucopaléia, que acrescentou as Paléias, ou seja, os comentários (cerca de
500 cânones) realizados sobre textos do Decreto.
91
J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), pp.55-56. Esta
obra é constituída por cinco compilações, com decretais que vão desde Alexandre III (1159-1181) até
Honório III (1216-1227).
92
A.V. LIMA FILHO, Graciano e o Processo Medieval cit. (nota 10 supra), pp.435.
93
L.C. AZEVEDO, Introdução à História do Direito cit. (nota 30 supra), p.113.
94
Veja-se F. PELSTER, Scolastica, in Enciclopedia italiana 31 (1936), pp.192-196. Esclarece PELSTER que o
termo escolástica para designar a Filosofia e a Teologia medievais, foi utilizado apenas posteriormente
pelos humanistas, pois scholasticus, doctores scholastici, doctrina scholae designavam nesta época os
mestres das disciplinas superiores e a ciência ensinada nas Escolas. A Escolástica teve seu apogeu entre
1200 e 1300, quando foram estudados nas Universidades os escritos aristotélicos e neoplatônicos
provenientes de fontes árabes (Avicena e Averróis) e do filósofo Maimônides. Surge com isso uma
tendência construtivo-sintética, ou seja, os mestres buscam compor a matéria, muitas vezes provenientes
de fontes e campos tão diferentes entre si, num sistema unitário. Não são aceitas quaisquer doutrinas que
sejam inconciliáveis com a Verdade da Revelação Cristã. Esta filosofia cristã investiga, sob a luz desta
Verdade revelada e do conhecimento racional puro, alguns assuntos de natureza fortemente metafísica
19

Em 5 de setembro de 1234, concluiu-se o trabalho e enviou-se aos mestres e


estudiosos das Universidades de Bolonha e Paris, para ser utilizado in iudiciis et scholis.
Este trabalho foi denominado Decretales extra Decretum Gratiani vagantes ou Liber
extra, vulgarmente conhecido como Decretais de Gregório IX. Tem caráter universal e
obrigatório.95
Proibiu-se a publicação de coleções “não-oficiais” sem a expressa autorização da
Santa Sé.
As Decretais de Gregório IX estavam dividas em cinco livros (I. Iudex; II –
Iudicium; III. Clericus; IV. Connubia; V. Crimen), com 185 títulos e 2.139 capítulos.
Contém cânones apostólicos e conciliares, textos eclesiásticos e de direito romano,
decretais editadas a partir de Inocêncio III (1160-1216) em ordem cronológica.96
Outras fontes importantes deste período são: o Sexto de Bonifácio VIII (1298);
as Clementinas, de Clemente V (1314); as Extravagantes, de João XXII (1319) e as
extravagantes comuns. Essas fontes serviram como base para a compilação do Corpus
Iuris Canonici (literalmente, “Corpo de Direito Canônico”), elaborada pelo canonista
francês Jean Chappuis da Universidade de Paris, publicada em 1500 e promulgada
apenas em 2 de junho de 1582, após a realização de inúmeras revisões. Esta compilação
tinha caráter oficial e privado.97

5.3. PROCESSO

Inocêncio III através do cânone Quoniam Contra, de 1216, institui o processo


escrito. Este cânone está na Compilatio quarta da Coleção Quinque Compilationes
Antiquae e nas decretais de Gregório IX (2,19,11).
O processo civil canônico foi dividido em termini ou stadia, até a sentença
98
final.
A Decretal Clementina Saepe de 1306 instituiu o processo sumário.
Importante salientar, no Decreto de Graciano, a manutenção de um instituto do
Direito Romano, a Restitutio in integrum (restituição por inteiro), um remédio
processual utilizado contra sentença já transitada em julgado e que se manifestou

que considera os mais importantes. O aristotelismo será o fundamento da monumental obra de S. Tomás
de Aquino (1225-1274), frade dominicano desde os dezoito anos, foi honrado com o título de “Doutor
Angélico”. Tornou-se mestre de Teologia na Universidade de Paris. Seus ensinamentos foram
considerados por Leão XIII como sendo a exposição clássica da doutrina católica, especialmente a
Summa contra gentes e a Summa Theologiae. Veja-se Documents of the Christian Church, 2ªed., Oxford,
Oxford University, 1963, trad. port de Helmuth Alfredo Simon, Documentos da Igreja Cristã, São Paulo,
ASTE, 1967, pp. 188-195.
95
J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), p.56.
96
L.C. AZEVEDO, Introdução à História do Direito cit. (nota 30 supra), pp.55-56.
97
L.C. AZEVEDO, Introdução à História do Direito cit. (nota 30 supra), p.114; J.R. CRUZ E TUCCI – L.C.
AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), pp.57-58; A.V. LIMA FILHO, Graciano e o
Processo Medieval cit. (nota 10 supra), p.438. O Sextus Liber foi promulgado em 3 de março de 1298
através da Bula Sacrosancte Romanae Ecclesiae, pelo Papa Bonifácio VIII (1235-1303). Ao realizar-se o
Concílio Ecumênico de Vienne, na França, entre 16 de outubro de 1311 e 6 de maio de 1312, sob o
papado de Clemente V (1305-1314), foram acrescentados às constituições aprovadas na terceira e última
sessão, os decretais anteriores, formando as denominadas Clementinae, divididas em 5 livros, 52 títulos e
106 capítulos. Posteriormente, foram reconhecidas com caráter oficial pelo Papa João XXII (1316-1334),
através da Bula Quoniam nulla, de 25 de outubro de 1317. Em relação ao Corpus Iuris Civilis foi dividido
em 5 livros, 35 títulos e 50 capítulos, sendo suas fontes principais o Decreto de Graciano, as Decretais de
Gregório IX, o Livro Sexto de Bonifácio VIII, as “Clementinas”, as “Extravagantes” de João XXII e as
“Extravagantes Comuns”.
98
L.C. AZEVEDO, Introdução à História do Direito (nota 30 supra), p.116.
20

claramente injusta.
No processo de conhecimento, o Decreto contemplava três fases: Introdução,
Instrução e Definição. Na Introdução, estavam disciplinados o libelo, a citação, a
contestação da lide e, para finalizar, o ato formal da litiscontestatio. Na Instrução,
consideravam-se os vários meios de prova, principalmente as provas orais (juramento e
testemunhal). Na Definição realizava-se o ato decisório, a sentença, sempre com o
escopo de buscar a verdade processual.99
Fixou Graciano a pluralidade de graus de jurisdição, com o princípio da Tríplice
Sentença Conforme (exigência de três julgamentos no mesmo sentido para alcançar a
res iudicata). No atual Direito Canônico, vige a dupla conforme (vide nota 151 infra).
Com Alexandre III confirmou-se a possibilidade do recurso de apelação, que
poderia ser interposto: (a) contra sentença ou decisão interlocutória; (b) contra ato de
jurisdição voluntária ou de natureza administrativa; e (c) diretamente à Santa Sé (per
saltum), ainda em primeiro grau, mesmo sem qualquer decisão (ante sententiam). O
prazo para a interposição da apelação era de dez dias.100

5.4 . INSTITUIÇÕES CARACTERÍSTICAS

Em relação ao Direito Penal, para os delitos mais graves, era admitida pela
Igreja a pena de morte, através de cuidadosa apuração dos fatos. Por exemplo, na
Constituição Criminal de Carlos V (1338-1380), rei da França, ao cometer o crime de
aborto ou infanticídio, devia o criminoso ser enterrado vivo ou afogado. Desde o
primeiro século da Era Cristã, a Igreja condena a maldade moral de todo aborto
provocado.101
Neste período, é importante destacarmos o surgimento do Tribunal da Rota
Romana. Sua origem remonta ao grupo de conselheiros peritos em matéria jurídica, que
auxiliavam o Sumo Pontífice, o Papa Inocêncio III (ano 1205). Uma Decretal deste
Papa estabelece que o cognitor ou executor (auditor) deve ser incumbido de realizar a
instrução do processo (cui committitur causae) até a sentença. A este auditor não se
concede a faculdade de decidir a causa, o que ocorre apenas com Honório III
(1216-1227) e posteriormente com Gregório IX (Constitutis, c.12,X,I,38).102
Na instrução e análise das controvérsias submetidas ao juízo da Sé Apostólica 103,
99
J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), pp.52-53;
A.V. LIMA FILHO, Graciano e o Processo Medieval (nota 10 supra), pp.452-453.
100
J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), p.53.
101
J. ÁVILA CRUZ, Direito Penal Romano e Canônico, in Revista de Cultura Teológica 66 (2009),
pp.156-157. Em relação à pena de morte, dispunha S. Tomás de Aquino na Suma Teológica, II – da
Justiça, Questão LXIV, art. II: “Vemos que é salutar a amputação de um membro gangrenado, causa da
corrupção dos outros membros. Ora cada indivíduo está para toda a comunidade como a parte está para o
todo. Portanto é louvável e salutar, para a conservação do bem comum, por à morte aquele que se tornar
perigoso para a comunidade e causa de perdição para ela; pois, como diz o Apóstolo, um pouco de
fermento corrompe toda a massa”. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, trad. port de Alexandre
Correia, 2ªed., Porto Alegre, UCS – UFRGS, 1980, p.442.
102
S. PANIZO ORALLO , Las Nuevas Normas del Tribunal de la Rota Romana, in Revista Española de
Derecho Canonico 38 (1982), p.291.
103
Atualmente, a expressão “Santa Sé” ou “Sé Apostólica” designa não apenas o Pontífice Romano, mas
também a Secretaria de Estado ou Papal, o Conselho para os Negócios Públicos da Igreja, as
Congregações, os Tribunais e as demais instituições da Cúria Romana (Conselhos ou comissões
permanentes, Ofícios, Secretariados). Cf. F. BOLOGNINI, Santa Sede, in ED 41 (1989), p.277. Veja-se
cân.360 do Código de Direito Canônico. Segundo J. HORTAL, nas notas e comentários ao cân.360, Código
de Direito Canônico – Codex Iuris Canonici, trad. port. Conferência Nacional dos Bispos do Brasil,
11ªed., São Paulo, Loyola, 1998, pp.168-169: “No anterior Código, as instituições da Cúria Romana
recebiam o nome genérico de dicastérios (literalmente, “lugares de justiça”). O Código atual os chama
21

atuavam os cappellani papae, mais tarde denominados auditores causarum Sacri


palatii apostolici.104
Existem várias hipóteses para explicar a origem do termo “rota”.
Constituído como colégio especial, dispunha de sede própria onde os Auditores
se reuniam em círculo, em torno de um balcão giratório provido de rodas que se
deslocava diante do auditor que, com isso, consultava e manuseava mais facilmente os
processos. O nome do Tribunal teria origem no nome do balcão (roda, em latim rota).
Outra interpretação se refere a uma mesa redonda, de mármore (rota porphyritica),
existente na antiga Basílica de São Pedro, ao redor da qual se reuniam o Sumo
Pontífice, os Cardeais e os Capelães (anteriores aos Auditores) para deliberar sobre
assuntos importantes, v.g., reconciliação dos penitentes, canonização dos santos,
coroação dos imperadores.105
A denominação “Rota” aparece pela primeira vez num conjunto de sentenças
(trinta e seis causas e sessenta e cinco dubia ou questiones) organizadas conforme o
modelo de Graciano, do auditor Tomás Fastoli em 1336, e volta a aparecer em 1423, na
Constituição Romani Pontificis providentia, do Papa Martinho V.106

6 – DO CONCÍLIO DE TRENTO (REFORMA E CONTRA-


REFORMA) ATÉ O CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO DE 1917

6.1. PODERES ECLESIAIS

O Concílio de Trento (1545-1563) determinou o surgimento de um movimento


renovador do Direito Canônico. Foram revisados conceitos e analisados os inúmeros
problemas surgidos durante a Reforma Protestante, visto que as decisões do 5º Concílio
de Latrão (1512-1517) não foram suficientes para resolver os problemas da fé e da
unidade eclesiásticas.107
O Papa Paulo III, através da Bula Laetare Jerusalem de 19 de novembro de
1544, convocou os bispos para o Concílio de Trento, pois era necessária uma resposta
imediata da Igreja aos diversos pontos dogmáticos divergentes do protestantismo.
Foram realizadas 24 sessões até a sua conclusão, durante o papado de Pio IV, anunciada

simplesmente “Organismos” (instituta)”.


104
P. MONETA, Rota Romana (Tribunale della), in ED 41 (1989), pp.137-138. O Papa Honório, em sua
Decretal (c.13,X,I,9) para uma apelação a ele dirigida, nomeia um de seus Capelães como Auditor: idem
auditor sententiam praedictorum iudicum sententialiter (iustitia exigente) cassavit. Nos igitur firmam et
ratam habemus Capellani sententiam. Veja-se S. PANIZO ORALLO , Las Nuevas Normas del Tribunal de la
Rota Romana cit. (nota 102 supra), p.291.
105
M.C. LIMA, Introdução à História do Direito Canônico cit. (nota 83 supra), pp.145-146. P. MONETA,
Rota Romana cit. (nota 104 supra), p.138. Na época do Papa Inocêncio III (1212), os Capelães não apenas
instruíam as causas, ouviam testemunhas, como promulgavam decisões que deveriam ser confirmadas
pelo Papa. Clemente IV, em 1265, limita o poder decisório dos “auditores”, reservando-o novamente a si,
e este tribunal passa a apresentar um caráter meramente consultivo.
106
Nota ao art. 1598 do Código de Direito Canônico de 1917, de L. MIGUÉLEZ DOMÍNGUEZ – S. ALONSO
MORÁN – M. CABREROS DE ANTA, Código de Derecho Canónico y Legislación Complementaria, 9ªed.,
Madrid, La Editorial Católica, 1974, p.619. Sobre a origem do nome, os autores mencionados apresentam
três hipóteses: a forma redonda do local onde ocorriam as reuniões dos antigos capellanes do Papa, e por
ele incumbidos de resolver uma infinidade de negócios; a forma redonda e com rodas, da mesa onde se
reuniam; a ordem ou o turno pela qual tratavam as causas. P. MONETA, Rota Romana cit. (nota 104 supra),
p.147.
107
L.C. AZEVEDO, Introdução à História do Direito (nota 30 supra), p.114. D. ROMAG, Compêndio da
História da Igreja – A Idade Moderna, v.3, Petrópolis, Vozes, 1941, pp.105.
22

através da Bula Benedictus Deus de 12 de dezembro de 1563.108


As normas e determinações promulgadas pelo Concílio de Trento foram uma
garantia à influência do direito canônico em inúmeros países europeus de tradição
católica, sendo importante manancial ao direito subsidiário em relação a inúmeros
assuntos, especialmente matrimônio, família e em todas aquelas matérias que
comportassem pecado.109
Pode-se verificar que, enquanto a Idade Média teve como características o
objetivismo e o universalismo, que proporcionaram uma relação admirável entre a
Igreja e a cultura, na Idade Moderna predominam o individualismo e o subjetivismo,
que contribuíram ao surgimento da doutrina de Lutero e a denominada “Reforma
Protestante”.110
Pio IX enfrentou o modernismo e suas heresias. Com a publicação da Encíclica
Quanta Cura, em 8 de dezembro de 1864, acompanhada de um Sillabo ou sumário de
10 parágrafos e 80 proposições que condenam os erros das principais doutrinas
modernistas: o americanismo, o naturalismo, o comunismo, o racionalismo, o
agnosticismo. Posteriormente o Papa Pio X, com a Encíclica Pascendi Dominici Gregis
de 8 de setembro de 1907 vai reforçar o combate da Igreja contra as doutrinas
modernistas.
O Concílio Vaticano I (1869-1870), o 20º concílio ecumênico da Igreja, discutiu
a sistematização moderna das regras do Direito Canônico. Em 29 de junho de 1868, Pio
IX publicou a Bula Aeternis Patris pela qual convidou todos os bispos do mundo, os
abades nullius e os superiores das ordens religiosas, determinando sua abertura para o
dia 8 de dezembro de 1869.111
Foram estabelecidos alguns dogmas, descritos na Constituição Apostólica
Pastor Aeternus, de 18 de julho de 1870: o sucessor de Pedro, o Papa, deve conservar a
unidade da Igreja exercendo o pleno e o supremo poder de jurisdição, não apenas em
relação aos assuntos relativos à fé e aos costumes, mas também quanto à disciplina e
governo. Seu poder é ordinário e imediato sobre todos os pastores e fiéis, gozando suas
108
D. ROMAG, Compêndio da História da Igreja cit. (nota 107 supra), pp.110-114. Na p.107, ROMAG
afirma, sobre a interpretação dos textos da Sagrada Escritura: “O concílio definiu, na sua quarta sessão,
que a Tradição deve ser aceita ‘com igual piedade, afeto e reverência’ como a Escritura. Fixou, em
seguida, o canon dos livros sagrados e declarou que, entre as numerosas traduções latinas, a Vulgata é a
única autêntica, isto é, a única perfeitamente de acordo com o texto original no que respeita a fé e a
moral. Finalmente estabelecem como único critério para interpretar o texto sagrado a sentença da Igreja e
o unânime consenso dos Padres da Igreja”.
109
L.C. AZEVEDO, Introdução à História do Direito cit. (nota 30 supra), p.115.
110
D. ROMAG, Compêndio da História da Igreja cit. (nota 107 supra), pp.13,17,51. Dentre as reformas
protestantes, a primeira e mais importante foi aquela promovida por Martinho Lutero. Filho de um
mineiro e camponês chamado Hans Luther, nasceu em 10 de novembro de 1483 em Eisleben. No ano
seguinte, sua família foi para Mansfeld, onde ele realizou os seus estudos elementares. Posteriormente
estudou na Universidade de Erfurt (1501-1505) e, após tornar-se doutor em Filosofia, o pai o obrigou a
matricular-se em Direito. Porém, a contragosto do pai, em 17 de julho de 1505, Lutero entrou no mosteiro
de Santo Agostinho e doutorou-se em Teologia em Wittenberg, no ano de 1512. Ficou famoso pela sua
luta contra os abusos realizados nas indulgências, que se tornaram um simples meio escandaloso de obter
dinheiro e nas célebres “95 teses” que ele afixou na véspera da festa de Todos os Santos na Igreja do
Castelo de Wittenberg em 1517, nas quais ele critica não apenas as indulgências, mas investe contra o
magistério, a hierarquia da Igreja, a primazia e a infalibilidade do Papa, levando-o ao radicalismo de que
apenas a Sagrada Escritura seja fonte de fé, desprezando a tradição teológica da Patrística e da
Escolástica. Desde então, Lutero permaneceu em Wittenberg dirigindo pessoalmente o movimento da
reforma. Lançou ao fogo, na presença de numerosos estudantes, a bula Exsurge Domine, de 15 de julho
de 1520, que condenava 41 de suas “teses”. Em seguida o Papa Leão X excomungou Lutero da Igreja
Católica aos 3 de janeiro de 1521, através da Bula Decet Romanum Pontificem. Em janeiro de 1546, ele
voltou para a sua cidade natal Eisleben e morreu em 17 de fevereiro, vítima de uma doença do coração.
111
D. ROMAG, Compêndio da História da Igreja cit. (nota 107 supra) , pp.324-325.
23

disposições de infalibilidade.112

6.2. FONTES DO DIREITO

No Concílio Vaticano I, manifestou-se a urgente necessidade de realizar-se uma


coleção sintética, autêntica e exclusiva do Direito Canônico, uma sistematização
unitária, em sintonia com o movimento codificador europeu. O Papa Pio X lançou as
bases da codificação do Direito Canônico através do Motu Proprio Arduum sane munus
de 19 de março de 1904. Este documento instituía, para esta importante tarefa, um órgão
constituído por 16 cardeais e presidido pelo Papa, auxiliado pelo secretário Pedro
Gasparri.113
Apesar da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e do falecimento do Papa Pio
X, em 27 de maio de 1917, foi promulgado pelo Papa Bento XV através da Bula
Providentissima Mater Ecclesia o primeiro Código de Direito Canônico, também
denominado “codificação pio-beneditina”. Entrou em vigor no dia 27 de maio de 1918.
Seus 2.414 cânones estão divididos em cinco partes: I. Normas gerais; II. Das pessoas;
III.Das coisas; IV. Do processo; V. Do direito penal da Igreja. Verifica-se a inegável
influência do Direito Romano nesta divisão, especialmente o esquema elaborado pelo
jurisconsulto Gaio em sua obra didática denominada “Institutas” (séc. II d.C.): pessoas,
coisas e ações.114

6.3. PROCESSO

O Código de Direito Canônico de 1917, estabelecia em seu cân. 1642, que todos
os atos judiciais deveriam ser escritos em latim.115
No livro quarto do Código de 17, De processibus estão os cânones, divididos em
21 títulos, que regulam o processo judicial canônico (câns 1552 a 2194).
O processo se divide em duas fases distintas: a instructio e a discussio. Nos
termos do cânone 1860, realizadas as provas, deve-se proceder à conclusio in causa.
Esta conclusão ocorre quando as partes, interrogadas pelo juiz, declaram não ter mais o
que alegar, ou quando expirou o prazo fixado pelo juiz para a produção das provas, ou
quando o juiz declara já estar instruída a causa.116
Sendo o escopo principal do processo canônico a investigação plena da verdade,
é nitidamente inquisitório. Encerrada a fase das provas, fixa o juiz um prazo para que as
partes apresentem suas defesas e alegações. A contestação, que é a contradição formal
112
D. ROMAG, Compêndio da História da Igreja cit. (nota 107 supra), p.327.
113
C. CORRAL SALVADOR, v. Código de Direito Canônico in Diccionario de Derecho Canonico, Madrid,
Tecnos, 1989, trad. port. de Jesús Hortal, Dicionário de Direito Canônico, São Paulo, Loyola, 1997,
p.126.
114
Gai. 1,8 = Gai. 1 inst. D.1,5,1: Omne ius quo utimur vel ad personas pertinet vel ad res vel ad
actiones. “Todo o direito que usamos ou se refere às pessoas, ou às coisas, ou às ações”. Veja-se também
o trecho das Institutas de Justiniano, de 533 d.C. que segue esta divisão: Inst. 1,3pr. Quanto à
interpretação das fontes canônicas, G. CAVIGIOLI , Manuale di diritto canônico cit. (nota 9 supra), p.20,
afirma que esta tem por objetivo reconstituir o pensamento do legislador eclesiástico com o escopo de
eliminar dúvidas teóricas e de aplicação prática que surgem da letra da lei. Ela pode ser dividida em
relação: 1º) ao órgão que a interpreta; 2º) aos elementos da interpretação; 3º) aos resultados. É
denominada “Autêntica” se é proposta de forma obrigatória pela autoridade eclesiástica; “Usual”, é a
orientação seguida pela jurisprudência; “Doutrinária”, quando reflete a autoridade científica dos juristas
(communis opinio doctorum).
115
A. SURGIK. Compêndio de Direito Processual Canônico, Curitiba, Livro é Cultura, 1988, p.44: “A
defesa deve ser feita por escrito e em língua latina, exceto as perguntas e respostas das testemunhas que
podem ser escritas em língua vulgar, conforme o cân.1642 do Código de 1917.
116
A. SURGIK. Compêndio de Direito Processual Canônico cit. (nota 115 supra), p.42.
24

do réu à demanda do autor, pelo qual se constitui o objeto ou a matéria do juízo, não
requer nenhum tipo de formalidade, segundo o cân. 1726. A litiscontestação inclui cinco
pontos: petição do autor, contradição do réu, identificação de ambos, simultânea ou
sucessivamente perante o juiz ou seu delegado, ânimo de litigar e inserção nos autos dos
pontos discrepantes.117
A sentença, pronúncia legítima pela qual o juiz resolve a causa proposta pelos
litigantes, pode ser interlocutória (quando dirime uma causa incidental) ou definitiva
(quando dirime uma causa principal). As demais decisões do juiz são chamadas de
decretos. Estas sentenças podem ser constitutivas, condenatórias ou absolutórias.118
A apelação, meio disposto no cân. 1881 tem como objetivo corrigir a sentença e
deve ser interposta perante o juiz que a prolatou, num prazo de dez dias.

6.4. INSTITUIÇÕES CARACTERÍSTICAS

Estão dispostos no Código Canônico de 1917 inúmeros elementos que serviram


de fundamento não apenas ao Código Canônico de 1983, mas também às codificações
laicas de direito e processo civil: ações, exceções, a reconvenção, a ação rescisória, a
restitutio in integrum, as ações possessórias, a contestação, os diversos meios admitidos
de prova, os recursos, a coisa julgada, a sentença, a transação, o compromisso arbitral e
inúmeras disposições relativas à celebração, efeitos jurídicos e nulidade do
matrimônio.119
Em relação à organização judiciária canônica, em 1870, a Rota Romana continua
a existir formalmente, com atribuições secundárias, em matéria de causas de
beatificação, sendo a sua competência judicial transferida à Congregação do Concílio
Vaticano I.
O processo de decadência da Rota Romana a partir do século XVI originou-se
por fatores externos (a consolidação das soberanias nacionais e a difusão do
protestantismo, que acarretou a diminuição das causas remetidas à Santa Sé) e por
fatores internos (v.g., a instituição das Congregações Romanas de Cardeais, que
atuavam no meio administrativo com maior agilidade na solução de diversos
assuntos).120

7 – A IGREJA CONTEMPORÂNEA – A IMPORTÂNCIA DO


CONCÍLIO VATICANO II E O NOVO CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO

7.1. PODERES ECLESIAIS

A eleição de João XXIII (1958-1963), filho de camponeses, chamado pelo povo


pobre italiano de Papa Buono, foi um verdadeiro marco na História da Igreja
Contemporânea, pois foi ele que, em 25 de janeiro de 1959, anunciou a convocação do
Concílio Ecumênico Vaticano II, que se iniciou em 11 de outubro de 1962 e se encerrou
em 8 de dezembro de 1965.121
117
A. SURGIK. Compêndio de Direito Processual Canônico cit. (nota 115 supra), pp.44-45.
118
A. SURGIK. Compêndio de Direito Processual Canônico cit. (nota 115 supra), p.48.
119
J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), p.74.
120
P. MONETA, Rota Romana cit. (nota 104 supra), p.139; C. CORRAL SALVADOR, Cúria Romana, in
Diccionario de Derecho Canonico, Madri, Tecnos, 1989, trad. port. de Jesús Hortal, Dicionário de
Direito Canônico, São Paulo, Loyola, 1997, p.229. O Papa Clemente XIV (1699-1744) criou em 1771 um
tribunal ordinário sediado em Madrid, na Espanha, que se equipara, no plano institucional, à Rota
Romana, denominada Rota da Nunciatura Apostólica da Espanha.
121
M. BANDEIRA, A Igreja Católica na virada da questão social (1930-1964) – Anotações para uma
25

O Vaticano II foi uma assembléia de todos os bispos católicos, destinado, em sua


origem, a promover reformas internas na Igreja, especialmente em relação à unidade
dos cristãos. À Assembléia foram convidados observadores protestantes e ortodoxos. Os
trabalhos do Concílio se estenderam por quatro sessões, com duração de
aproximadamente dois meses cada uma, de 1962 a 1965. Por maioria de dois terços, o
Concílio aprovou 4 Constituições dogmáticas e pastorais, 9 Decretos e 3 Declarações.122
A estrutura hierárquica da Igreja, determinada pela constituição dogmática sobre
a Igreja Lumen Gentium, é formada especialmente pelo episcopado (bispos),
presbíteros, diáconos, religiosos e os leigos, estes últimos com maior inserção na Igreja
através do sacramento da Crisma. Consolida-se como dogma o primado do Romano
Pontífice.123

7.2. FONTES DO DIREITO

O Novo Código de Direito Canônico, promulgado em 25 de janeiro de 1983 sob


o pontificado do Papa João Paulo II é um documento ecumênico, destinado a todos os
homens de boa vontade, católicos e não-católicos, especialmente, em relação aos
últimos, àqueles que participam de alguma atividade ou rito na Igreja Católica v.g.,
sacramentos como o casamento ou a crisma, padrinhos de batismo, associação
católica.124
O Novo Código, elaborado por diversas comissões, foi dividido em sete livros: I.

História da Igreja no Brasil (Ensaio de interpretação), Rio de Janeiro, Vozes, 2000, pp.205-209. Em
relação ao Papa João XXIII, ele foi importantíssimo para a promoção do diálogo entre o Vaticano e as
Igrejas Orientais, bem como com os países comunistas do Leste Europeu. Quando bispo passou vinte
anos trabalhando na Bulgária, Turquia e Grécia (1925-1945). Suas encíclicas sempre promoveram uma
profunda “socialização”, a proteção à classe trabalhadora, a crescente consciência da dignidade da mulher
e os direitos das minorias. Vejam-se suas encíclicas Mater et Magistra de 15 de maio de 1961 e Pacem in
Terris de 11 de abril de 1963.
122
M. BANDEIRA, A Igreja Católica na virada da questão social cit. (nota 121 supra), pp.205-209. Dentre
as principais mudanças realizadas pela Igreja Romana neste Concílio, destacam-se: 1) a língua latina
deixa de ser a única aceita no culto; 2) prevalece o espírito ecumênico, de profundo respeito às diferentes
culturas e religiões; 3) o fortalecimento das Igrejas Particulares (Dioceses) e das Conferências Episcopais
Nacionais, reforçando-se o princípio da colegialidade.
123
Concílio Vaticano II, Lumen Gentium – Constituição Dogmática sobre a Igreja, 15ªed., São Paulo,
Paulinas, 2002, p.30. Assim estabelece o Capítulo III, Proêmio, n.18: “E para que o Episcopado
continuasse único e unido, estabeleceu [Jesus Cristo] Pedro na chefia dos Apóstolos, e assentou nele o
princípio e o fundamento, perpétuos e visíveis, da unidade de fé e de comunhão. Este Santo Concílio
propõe de novo, firmemente à fé de todos os fiéis, a doutrina da instituição, perpetuidade, poder e
natureza do sacro primado do Romano Pontífice e do seu infalível magistério e, prosseguindo no mesmo
desígnio, quer afirmar e declarar publicamente a doutrina acerca dos bispos, sucessores dos apóstolos,
que com o sucessor de Pedro, vigário de Cristo e cabeça visível de toda a Igreja, governam a casa do
Deus vivo”. Sobre os leigos, estabelece no Capítulo IV, pp.53-54: “Por leigos entende-se aqui o conjunto
de fiéis, com exceção daqueles que receberam a ordem sacra ou abraçaram o estado religioso aprovado
pela Igreja, isto é, os fiéis que – por haverem sido incorporados em Cristo pelo batismo e constituídos
Povo de Deus, e por participarem a seu modo do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo – realizam
na Igreja e no mundo, na parte que lhe compete, a missão de todo o povo cristão”.
124
E.L. SAMPEL, Algumas considerações a respeito do Direito Canônico cit. (nota 8 supra), p.119. Salienta
o autor que: “(...) o Código atual, definido pelo Papa como o último documento do Concílio Vaticano II,
tem a missão de ser um “facilitador’ da caminhada do Povo de Deus. De fato, os princípios emanados do
Concílio restariam um tanto quanto debilitados, não fosse o ordenamento jurídico a dar-lhes
aplicabilidade”. O Novo Código promove a participação dos leigos na estrutura jurídica da Igreja,
suprime a distância que existia antes do Concílio Vaticano II quando a doutrina canônica fazia a distinção
entre Igreja docente e dicente. Fica nítido este novo papel do leigo na Igreja (papel que lhe é devido em
razão do sacramento do batismo), na disposição do cân. 212, §2: “Os fiéis têm o direito de manifestar aos
Pastores da Igreja as próprias necessidades, principalmente espirituais, e os próprios anseios”.
26

Normas gerais; II. Do povo de Deus; III. Do múnus de ensinar da Igreja; IV. Do múnus
de Santificar da Igreja; V. Dos bens temporais da Igreja; VI. Das Sanções; VII. Dos
processos. Sob o aspecto jurídico, o Código de Direito Canônico é um texto autêntico
(aprovado e promulgado pelo Papa) e único (pois contém todos os cânones vigentes no
âmbito da Igreja Católica do Ocidente).125
Outra fonte importante é o Código de Cânones das Igrejas Orientais,
promulgado pelo Papa João Paulo II mediante a Constituição Apostólica Sacri Canones,
em 18 de outubro de 1990, com o título Codex Canonum Ecclesiarum Orientalium. Está
dividido em 30 títulos.126
A sistemática do Direito Canônico Oriental assemelha-se àquela ditada pelo
atual Código de Direito Canônico. Uma das poucas diferenças está na organização
eclesiástica oriental, que apresenta a figura jurídica do Patriarca, imediatamente
inferior ao Papa na hierarquia da jurisdição, com um poder supra-episcopal.127

7.3. PROCESSO

No livro VII do Código de Direito Canônico de 1983 (Dos Processos – De


Processibus, cans. 1400 a 1752), a Igreja Católica, com seus tribunais, busca a
realização dos processos sobre a verdade.128 Estudam o valor de um matrimônio, de
uma ordenação e dão seu parecer a respeito. A função primordial do Direito Canônico,
no âmbito dos tribunais eclesiásticos é a de dar a cada um o seu, pronunciar unicamente
a verdade (como é adquirida segundo a justiça), e a atribuição da justiça em
conformidade com a lei canônica.129
Muito importante salientar a instituição do processo contencioso oral no Código
de 1983 (câns. 1671 a 1691). A celeridade processual foi objeto de preocupação dos
legisladores, que combateram as denominadas “etapas mortas” do processo (cân. 1453).
O Direito Penal Canônico, disposto no Livro VI “Das Sanções da Igreja” (câns.
1311-1399) e o processo penal canônico no Livro VII “Dos Processos”
(câns.1717-1731) diminuíram as penas previstas pelo Código de 1917, aplicando-as de
maneira prudente e mais motivada. Foi suprimido o nome de pena “vindicativa”
(cân.1312).130
125
L.C. AZEVEDO, Introdução à História do Direito cit. (nota 30 supra), p.114.
126
L.VELA SANCHEZ – J. HORTAL, v. Direito Oriental (Ius orientale) in Diccionario de Derecho Canonico,
Madrid, Tecnos, 1989, trad. port. de Jesús Hortal, Dicionário de Direito Canônico, São Paulo, Loyola,
1997, pp. 270-273.
127
L.VELA SANCHEZ – J. HORTAL, v. Direito Oriental cit. (nota 126 supra), pp. 270-273. Conforme J.R.
CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), pp.85-86 os títulos
24 ao 26 do Código de Cânones das Igrejas Orientais, regulamentam a matéria processual civil.
128
Conforme E.L. SAMPEL, Introdução ao Direito Canônico, São Paulo, LTR, 2001, p.31: “O processo
canônico está mais preocupado em buscar a verdade real, enquanto o processo civil perquire a verdade
formal, segundo o princípio quod non est in acta non est in mundo”.
129
Vejam-se T. RINCON-PEREZ, Juridicidad y Pastoralidad del Derecho Canonico (Reflexiones a la luz del
Discurso del Papa a la Rota Romana de 1990), in Ius Canonicum 31 (1991), p.238; J. HORTAL, O Código
de Direito Canônico e o Ecumenismo – Implicações Ecumênicas da Atual Legislação Canônica, 2ªed.,
São Paulo, Loyola, 2003, p.24. E complementa o autor que esses princípios evangélicos testemunham o
espírito de caridade fraterna, essencial para uma comunhão eclesial profunda. Nesse sentido,
redimensionam todos os procedimentos previstos pelo poder judiciário e as estruturas de justiça existentes
na Igreja. Em todo caso, observe-se que a salvação das almas deve ser a lei suprema da Igreja. Vejam-se
câns. 1438 a 1475 do Código de Direito Canônico.
130
J. HORTAL, O Código de Direito Canônico e o Ecumenismo cit. (nota 129 supra), p.23. Em relação ao
Direito Penal “laico”, J. ÁVILA CRUZ, Direito Penal Romano e Canônico cit. (nota 101 supra), p.156
afirma: “Resguardando os homens que formam a comunidade, as leis penais protegem precipuamente a
segurança e a tranqüilidade coletivas. Assim, o homicídio, o aborto e o infanticídio devem ser combatidos
pelo poder constituído”. Quanto ao direito penal canônico, é importante salientar a pena automática
27

7.3.1 – ORGANIZAÇÃO JUDICIÁRIA CANÔNICA

Em sentido amplo, a organização judiciária é o conjunto de atividades que


regulam a administração da justiça.131
A constituição hierárquica da Igreja apresenta duas articulações essenciais de
origem apostólica: a Igreja Particular e a Igreja Universal. Para uma maior eficácia
apostólica foram individualizados níveis constitucionais intermédios, de natureza
exclusivamente organizativa. O poder judicial é uma parte do poder do governo eclesial,
a organização judiciária da Igreja corresponde à sua constituição hierárquica. Isto
explica a correspondência entre os graus dos tribunais e as diversas esferas do governo
eclesial, territorial e pessoal. Existe, portanto, um âmbito supremo e universal de poder
de governo. Paralelamente, a estrutura hierárquica dos tribunais eclesiásticos completa-
se com os tribunais constituídos em correspondência ao âmbito supremo e universal do
poder eclesial.132
Na Igreja não existem três poderes distintos (executivo, legislativo e judiciário),
como ocorre nos ordenamentos estatais, nem três organizações separadas, visto que as
três funções do poder são exercidas de maneira dependente da compreensão teológica
da estrutura hierárquica e ministerial da Igreja. A diversidade de poderes, comum a
qualquer sociedade bem organizada, na Igreja é integrada em verdadeiro poder de
jurisdição, concedido por instituição divina.133
A organização judiciária canônica é caracterizada pela concentração de poderes
nas mãos do Sumo Pontífice, órgão proeminente134 com poder judiciário pleno, próprio,
ordinário e imediato, tanto na denominada Igreja Universal quanto em cada uma das
dioceses ou Igrejas particulares.135 Portanto, a Sé Primeira não pode ser julgada por
ninguém136, sendo que, quanto às decisões proferidas pelo Papa, não cabe recurso.137

denominada latae sententiae disposta no cân. 1314, assim designada porque o próprio delinqüente deve
reconhecer a sua aplicabilidade, v.g., o herege, o apóstata, o cismático. A excomunhão (cân.1331), exclui
o infrator da comunhão dos fiéis. Além das penas expiatórias previstas no cân.1336 (que se destinam ao
restabelecimento da ordem social e como exemplo), a lei pode estabelecer penas que privem o fiel de
algum bem espiritual ou temporal, em consonância com o princípio da salus animarum (cân. 1312§2).
Também são utilizados remédios penais e penitenciais (cân.1312§3). As penas medicinais têm por
objetivo corrigir o delinqüente, por isso cessam automaticamente como o seu arrependimento. A pena
ferendae sententiae, disposta no cân.1366, pune os pais, ou quem faz suas vezes, que confiam seus filhos
para serem educados em religião “acatólica”. Neste caso a pena incide unicamente sobre fiéis católicos.
131
M. MORENO HERNÁNDEZ, Derecho Procesal Canónico, Madrid, Aguilar, 1956, pp.63-64.
132
M.J. ARROBA CONDE, Diritto processuale canonico, trad. port. de Martin Segú Girona, Direito
Processual Canônico, 5ªed., São Paulo, Institutum Iuridicum Claretianum, 2006, p.195.
133
J.L. MÉNDEZ RAYÓN, Normativa Procesal y Tercera Instancia, in Revista Española de Derecho
Canónico 52 (1995), p.596; P. MONETA, Ordinamento giudiziario canonico, in ED 30 (1980), p.900.
134
Vejam-se câns. 331-335 do Código de Direito Canônico.
135
Questão interessante é saber em qual momento o Sumo Pontífice recém-eleito obtém a plenitude do
poder de jurisdição. No cân.219 do Código de 1917, isso acontecia tão logo (statim) ele aceitasse a sua
eleição. O Papa Pio XII declarou que se um leigo fosse eleito para a dignidade papal, gozaria do poder de
jurisdição mesmo antes de sua ordenação. No Código de 1983, tal interpretação fica excluída pela
declaração do cân.332 §1: “Se o eleito não tiver caráter episcopal, seja imediatamente ordenado bispo”.
Veja-se P. L’HULIER, Perspectiva ortodoxa sobre o Novo Código de Direito Canônico, in J. HORTAL (org.),
O Código de Direito Canônico e o Ecumenismo – Implicações Ecumênicas da Atual Legislação
Canônica, 2ªed., São Paulo, Loyola, 2003, pp.107-108.
136
Conforme o cân. 1404, Prima Sedes a nemine iudicatur. “A Sé Primeira não é julgada por ninguém”.
137
J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), pp. 28 e 99. J.
HORTAL, O Código de Direito Canônico e o Ecumenismo cit. (nota 129 supra), pp.37-38. Na p.38, o autor,
ao estudar as relações entre o Romano Pontífice e a constituição hierárquica da Igreja salienta dois
aspectos: (a) o episcopado do Papa; (b) a comunhão dos bispos e de toda a Igreja com ele, no exercício de
28

As diversas instâncias estão em conformidade com os diferentes tribunais, ainda


que nem sempre estejam em conformidade com a hierarquia, pois pode ocorrer o caso
em que o mesmo tribunal eclesiástico aprecie assunto em várias instâncias.138 A
expressão “grau do tribunal” significa o lugar que um tribunal ocupa na hierarquia
prevista no ordenamento jurídico. Esta hierarquia garante o direito de apelação.
Conclui-se que a natureza da hierarquia entre os tribunais é processual, uma relação de
subordinação processual e não piramidal, v.g., o Tribunal Metropolitano, que é de
primeiro grau para a própria diocese (cân. 1419, §1), é de segundo grau para as dioceses
sufragâneas (cân. 1438, 1).139
Desta forma, ao considerar-se que todos os fiéis gozam do direito de apelação,
pode-se dizer que processualmente existe subordinação entre os Tribunais, sendo que os
de grau superior podem rever a causa julgada por um tribunal de grau inferior e
modificar-lhe a decisão.140
Passemos a analisar brevemente, a atividade jurisdicional realizada pelos
tribunais mais importantes dentro da estrutura hierárquica da Igreja: o Tribunal
Diocesano (câns. 1419-1429), o Tribunal Metropolitano (câns. 1438-1441), a Rota
Romana e o Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica (cân. 1445).141
Em cada diocese, o juiz de primeira instância é o Bispo diocesano142, que pode
exercer o poder por si mesmo, ou através do Vigário Judicial ou Oficial, dos Vigários
Judiciais Adjuntos ou dos clérigos.143
Segundo o cân. 1423, várias dioceses, com a autorização da Sé Apostólica,
seu múnus.
138
M. MORENO HERNÁNDEZ, Derecho Procesal Canónico cit. (nota 131 supra), pp.63 e 68. “Tribunal”, em
sentido amplo, é termo que se aplica a qualquer órgão do Estado que desenvolva uma atividade dentro do
quadro de atribuições próprias de sua missão funcional. Em sentido estrito, a palavra “tribunal” aplica-se
aos próprios órgãos da jurisdição.
139
J.L. MÉNDEZ RAYÓN, Normativa Procesal y Tercera Instancia cit. (nota 133 supra), p.623. Todos os
juízes eclesiásticos têm exatamente a mesma autoridade e faculdades judiciais e não precisam prestar
contas a nenhum Tribunal de apelação. Não existe um juiz superior, mas sim um juiz posterior. Por isso,
os tribunais inferiores são os tribunais locais. M.J. ARROBA CONDE, Diritto processuale canonico cit (nota
132 supra), pp.170-171. Diocese Sufragânea é uma diocese dependente de uma Sé metropolitana, dirigida
pelo metropolita. Constitui com a Sé metropolitana e com outras dioceses sufragâneas uma província
eclesiástica.
140
M.J. ARROBA CONDE, Diritto processuale canonico cit (nota 132 supra), p.178.
141
Sobre o tema, vejam-se J.M. NASCIMENTO JUNIOR, A Organização Judiciária Canônica à luz do Código
de Direito Canônico, in Revista FAENAC de Direito, ano 2, n.2, 2004, pp.29-36; E. LÓ RÉ POUSADA,
Organização Judiciária Canônica: O Princípio da Hierarquia e suas mitigações, in Revista FAENAC de
Direito, ano 3, n.1, 2005, pp. 73-98; P. MONETA, Ordinamento giudiziario canonico cit. (nota 133 supra),
pp.900-905.
142
Sobre a função governativa dos Bispos, dispõe a Constituição Dogmática do Concílio Ecumênico
Vaticano II, Lumen Gentium “De Ecclesia”, trad. port. Ripografia Poliglota Vaticana, 15ªed., São Paulo,
Paulinas, 2002, p. 46. “27. Os bispos regem como vigários e legados de Cristo as Igrejas particulares a
eles confiadas, com os seus conselhos, exortações e exemplos, e ainda com a sua autoridade e o seu poder
sagrado, de que se serve unicamente para fazer crescer a sua grei na santidade e na verdade, lembrados de
que quem é o maior deve tornar-se o menor, e quem ocupa o primeiro lugar deve ser como aquele que
serve (cf. Lc 22,26-27). Este poder, de que pessoalmente dispõe em nome de Cristo, é próprio, ordinário e
imediato, ainda que seu exercício seja regulado em última instância pela suprema autoridade da Igreja, e
possa circunscrever-se dentro de limites pré-determinados, tendo em vista a utilidade da Igreja ou dos
fiéis. Por força deste poder, os bispos têm o direito sagrado e, diante do Senhor, o dever de legislar para
os seus súditos, de julgá-los, e de regular tudo quanto diz respeito à organização do culto e do
apostolado”. (Grifos nossos).
143
Vejam-se câns. 1419-1421. Veja-se Z. GROCHOLEWSKI, Principios inspiradores del Proceso Canónico
Ordinario, in Ius Canonicum 39 (1999), pp.475-476. O Vigário Judicial pode ter, para auxiliá-lo, um
Vigário Judicial adjunto ou um Vice-oficial. Estes vigários deverão ser sacerdotes com idade superior a
trinta anos, doutores ou licenciados em direito canônico, conforme o cân. 1420, §4.
29

podem criar um único tribunal diocesano, com competência territorial mais ampla, sob a
autorização do Tribunal Supremo da Assinatura Apostólica, que cuida da ereção de
tribunais regionais e inter-regionais.144
Geralmente as decisões do Tribunal diocesano serão proferidas por órgão
monocrático. Este juiz único pode escolher dois assessores de reputação idônea, clérigos
ou leigos, tanto homens quanto mulheres, que devem auxiliar o juiz dentro do próprio
juízo, em todas as atuações judiciárias.145
A competência do tribunal diocesano, caracterizada pelo princípio eclesiológico
da plenitude de poder dos bispos, abrange todas as causas contenciosas ou penais não
excluídas pelo direito, relativas à própria diocese, em primeira instância. Uma dessas
exclusões é determinada pelo cân.1405, §3, que se a controvérsia versar sobre direitos
ou bens do próprio bispo (como pessoa física ou como representante de pessoa jurídica),
deve ser julgada pela Rota Romana (câns.1405, §§1 e 3; 1419, §2).
Uma causa judicial entre uma parte católica e outra não-católica146, batizada ou
não, pode ser proposta e julgada em primeira e segunda instância pelos tribunais
diocesanos.147
Nas lides de maior gravidade e importância, mais difíceis, contenciosas e penais,
deve a causa ser julgada por um tribunal colegial de três juízes (cân.1425, §1).
Contra as decisões do Tribunal Diocesano, cabe recurso ao Tribunal
Metropolitano, sendo este o órgão ordinário de segundo grau de jurisdição, conforme o
cân.1438. É o tribunal do arcebispo, chamado metropolita, que preside a província
eclesiástica (câns.435-436).
Na organização canônica não estão previstos os tribunais de terceira instância in
singulis regionibus, pois os consultores imediatos e canonistas da Comissão Pontifícia
de Revisão do Código de Direito Canônico de 1983, afastaram a possibilidade, em
1978, da criação de tais tribunais, alegando que a Rota Romana perderia seu sentido e
não seria possível alcançar a unidade da jurisprudência.148
O tribunal da Rota Romana apresenta algumas características essenciais: é
apostólico (trata-se de um tribunal constituído pelo Papa para exercer o seu ministério

144
J.HORTAL, nota ao cân.1423, Código de Direito Canônico cit. (nota 7 supra), pp.618-619.
145
Can. 1424: Unicus iudex in quolibet iudicio duos assessores, clericos vel laicos probatae vitae, sibi
consulentes asciscere potest. “O juiz único em qualquer juízo pode escolher, como consultores, dois
assessores de vida ilibada, clérigos ou leigos”. J.HORTAL, nota ao cân.1424, Código de Direito Canônico
cit. (nota 7 supra), pp.620-621. J.M. NASCIMENTO JUNIOR, A Organização Judiciária Canônica à luz do
Código de Direito Canônico cit. (nota 141 supra), pp.31-32.
146
O can. 1476 do atual Código ampliou a capacidade processual aos não-católicos (batizados ou não) em
todos os tipos de causa: “Quem quer que seja, batizado ou não, pode agir em juízo; e a parte,
legitimamente demandada, deve responder”.
147
O Concílio Vaticano II assinalou uma nova etapa nas relações da Igreja com aqueles que seguem
outras religiões. Muitos documentos conciliares fazem-lhes referência expressa, e em particular, a
declaração Nostra aetate, de 28 de outubro de 1965, totalmente dedicada à relação da Igreja Católica com
as religiões não-cristãs. Esta nova atitude recebeu o nome de “diálogo”. Veja-se a Constituição Regimini
Ecclesiae Universae do Papa Paulo VI, art.99. A Igreja Católica, portanto, deve “(...) buscar o método e
os caminhos para o estabelecimento de um diálogo adequado com os não-cristãos. Procura, portanto, que
os não-cristãos sejam devidamente conhecidos e justamente estimados pelos cristãos, para que, por sua
vez, os mesmos possam também conhecer e estimar a doutrina e a vida cristãs”. Vejam-se “Secretariado
para os Não-Cristãos”, A Igreja e as outras religiões – Diálogo e Missão, 3ªed., São Paulo, Paulinas,
2003, pp.3-4. Sobre o Ecumenismo e as Igrejas Orientais, veja-se Concílio Ecumênico Vaticano II,
Decreto Unitatis Redintegratio – Sobre o Ecumenismo, 2ªed., São Paulo, Paulinas,2004, p.40.
148
J.L. MÉNDEZ RAYÓN, Normativa Procesal y Tercera Instancia cit. (nota 133 supra), p.619. Para o autor,
a resposta da Comissão não parece lógica nem coerente, pois o Tribunal Apostólico da Rota sofreria
apenas uma limitação, não sendo a única, obrigatória e exclusiva sede para receber apelações em terceiro
grau de juízo, mas seria cumulativamente competente com os demais Tribunais erigidos para este escopo.
30

apostólico de juiz de toda a Igreja); é ordinário149 (o poder do tribunal da Rota); é


colegial (as causas de competência ordinária da Rota, ou as que lhe são confiadas por
via delegada, são sempre julgadas por um colégio, chamado de “turno”, ou seja, três
juízes); é tribunal de segunda e ulterior instância (é tribunal ordinário de apelação em
relação a todos os tribunais territoriais e pessoais da Igreja, por via alternativa, isto é,
quando a apelação foi deferida legitimamente à Sé Apostólica).150
A Rota Romana não atuará como Corte de cassação, mas como um órgão que
realizará um reexame completo da causa, tanto no que toca às questões de fato, como de
direito, na hipótese de existir desconformidade entre as decisões proferidas pelas duas
instâncias anteriores, ou seja, a exigência da duplex conformis151 (concordância no
julgamento dos dois tribunais ordinários), impondo a submissão de toda a controvérsia
ao “terceiro grau” jurisdicional.152
Em algumas nações, a Igreja constituiu tribunais de terceira instância, com
competência concorrente com a Rota Romana, sendo os mais conhecidos: a Rota da
Nunciatura Apostólica da Espanha, o Tribunal Primacial da Hungria, os Tribunais de
Gniezno e de Varsóvia na Polônia.153
Dentre estas, a mais importante é a Rota da Nunciatura Apostólica da Espanha.
Um tribunal ordinário, composto por sete auditores nomeados pelo Papa, criado por um
privilégio do Romano Pontífice, o Papa Clemente XIV, referendado por Pio XII
(1939-1958) em 1947, pelo motu proprio Apostolico Hispaniarum Nuntio, cuja
jurisdição se estende ao território espanhol e ao de Andorra e que segue, basicamente, o
procedimento observado pela Rota Romana.154
149
M.J. ARROBA CONDE, Diritto processuale canonico cit (nota 132 supra), pp.172-174. Conforme o autor:
“Assim, se se trata de um tribunal estavelmente constituído recebe o nome de tribunal ordinário; se, no
entanto, se trata de um tribunal constituído ad casum, para julgar uma causa concreta, será tribunal
delegado, recebendo a delegação por parte de quem tenha poder ordinário para julgar a causa em
questão”(...) “tribunais territoriais são os constituídos com competência para um determinado território;
pessoais são os tribunais com competência para uma categoria de pessoas; apostólicos são os tribunais da
Rota e da Assinatura que desenvolvem a função apostólica de julgar, própria do Papa”.
150
M.J. ARROBA CONDE, Diritto processuale canonico cit. (nota 132 supra), p.199.
151
Conforme J.L. MÉNDEZ RAYÓN, Normativa Procesal y Tercera Instancia cit. (nota 133 supra), p.616, é
importante notar que, enquanto no Direito Processual Civil bastam dois exames sucessivos da
controvérsia, para tornar-se matéria julgada e que não possa ser proposta novamente, no Direito Canônico
requer-se uma dupla sentença conforme, isto é, que uma sentença posterior seja resolvida da mesma
forma que a anterior. A duplex conformis tem natureza cogente no Direito Canônico; P. MONETA,
Ordinamento giudiziario canônico cit. (nota 133 supra), p.905. No Código de Direito Canônico, veja-se o
cân.1641, 1: Firmo praescripto can.1643, res iudicata habetur: 1º si duplex intercesserit inter easdem
partes sententia conformis de eodem petito et ex eadem causa petendi. “Salva a prescrição do cân. 1643,
há coisa julgada: 1º se tiverem sido dadas duas sentenças concordes entre as mesmas partes, sobre a
mesma petição e pela mesma causa da demanda”. J.HORTAL, Código de Direito Canônico cit. (nota 7
supra), pp.702-703.
152
Vejam-se J.M. NASCIMENTO JUNIOR, A Organização Judiciária Canônica cit. (nota 141 supra), p.33. J.R.
CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), pp.102-103; 142.
153
P. MONETA, Rota Romana cit. (nota 104 supra), p.146.
154
P. CANTERO, La Rota Española, Madrid, Consejo Superior de Investigaciones Cientificas Instituto San
Raimundo de Peñafort, 1946, p.123. J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil
Canônico cit. (nota 3 supra), p.103. A Rota da Nunciatura Apostólica da Espanha tem as seguintes
competências: 1) julgar em segunda instância as causas julgadas em primeira instância por qualquer
tribunal metropolitano ou imediatamente submetido à Sé Apostólica; ou as julgadas em primeira instância
por qualquer tribunal sufragâneo, se assim o confiar o Núncio, por razões graves, a petição das partes e
com o consentimento do metropolita; 2) Julga em terceira e ulteriores instâncias as causas que foram
julgadas em segunda pelos Tribunais Metropolitanos e pela própria Rota; 3) Julga em primeira instância
as causas que o Núncio lhe confiar, a petição de algum Bispo da Espanha, por razões graves. Advirta-se
que, por mútuo acordo, ambas as partes podem apelar, na segunda instância, à Rota Romana; mas, por
estarem posicionadas no mesmo nível hierárquico, não há apelação ou recurso da Rota da Nunciatura para
31

No ápice do ordenamento jurídico canônico está o Supremo Tribunal da


Assinatura Apostólica, formado por doze cardeais escolhidos pelo Papa, para um
mandato de cinco anos. Geralmente, os julgamentos deste tribunal contam com a
participação de cinco membros.155
Este tribunal não é competente para rever e julgar em última instância as
sentenças dos tribunais inferiores; é um tribunal que exerce funções de suprema direção
destes tribunais e participa do caráter de cassação dos tribunais civis. Não julga o mérito
das causas principais, mas apenas o rito.156

7.3.2 – JURISPRUDÊNCIA NO DIREITO CANÔNICO

Sobre a Jurisprudência no Direito Canônico, dispõe J. HORTAL157: “Jurisprudência


e praxe da Cúria Romana são termos sinônimos e significam o modo habitual de agir
dos dicastérios romanos, quer na resolução de questões administrativas, quer na decisão
de questões judiciárias”.
A Jurisprudência da Rota Romana assume particular importância a partir da
segunda metade do século XIV, realizando um papel fundamental na interpretação e na
evolução do ordenamento jurídico, essencial para a administração da justiça na Igreja,
sempre se adequando às mudanças exigidas no decorrer dos séculos.158
As decisões da Rota dividem-se em três classes: (a) os Diários, registros de
causas com sua descrição e solução, subdivididos em Diário da Câmara (1868) e
Diário do Decano (1508); (b) os Livros Particulares dos auditores, com anotações
sobre controvérsias, opiniões próprias e de como, porque e quando as causas foram
discutidas, com registros até o século XVIII; (c) Decisões “Coram”, redigidas nos
rescritos, referem-se às discussões concluídas, tendo sido alegadas as razões,
conjunturas e motivações de direito e de fato.159
Graças ao ótimo trabalho dos auditores e de seus conhecimentos de Direito
Canônico, de Direito Civil e Processual, as decisões da Rota Romana, ainda que
a Rota Romana, nem mesmo no caso em que já não houvesse mais turnos possíveis nela: neste caso,
recorre-se à Santa Sé, que decidirá, em cada caso, como se deve proceder. Vejam-se E. OLIVARES
D’ANGELO, Tribunal Eclesiático (Tribunal ecclesiasticum), in Diccionario de Derecho Canonico, Madri,
Tecnos, 1989, trad. port. de Jesús Hortal, Dicionário de Direito Canônico, São Paulo, Loyola, 1997,
p.726; M.J. ARROBA CONDE, Diritto processuale canonico cit (nota 132 supra), p.189.
155
J.R. CRUZ E TUCCI – L.C. AZEVEDO, Lições de Processo Civil Canônico cit. (nota 3 supra), p.103.
156
M.J. ARROBA CONDE, Diritto processuale canonico cit (nota 132 supra), p.205.
157
Código de Direito Canônico – Codex Iuris Canonici (nota 7 supra), pp.10-11. Dispõe o cân. 19: Si
certa de re desit expressum legis sive universalis sive particularis praescriptum aut consuetudo, causa,
nisi sit poenalis, dirimenda est attentis legibus latis in similibus, generalibus iuris principiis cum
aequitate canonica servatis, iurisprudentia et praxi Curiae Romanae, communi constantique doctorum
sententia. “Se a respeito de uma determinada matéria falta uma prescrição expressa da lei, universal ou
particular, ou um costume, a causa, a não ser que seja penal, deve ser dirimida levando-se em conta as leis
dadas em casos semelhantes, os princípios gerais do direito aplicados com eqüidade canônica, a
jurisprudência e a praxe da Cúria Romana, a opinião comum e constante dos doutores”. Veja-se D. LE
TOURNEAU, Criterios Básicos de los Discursos de Juan Pablo II a la Rota Romana en los años 1989-1998,
in Ius Canonicum 38 (1998), p.683.
158
P. MONETA, Rota Romana cit. (nota 104 supra), pp.147;149. Veja-se, neste sentido F. DELLA ROCCA,
Saggi di diritto processuale canonico, Padova, CEDAM, 1961, p.148. O autor relembra a atividade
essencial da Rota Romana, nos séculos anteriores à codificação das regras jurídicas da Igreja, quando
estas se encontravam dispersas, de órgão unificador e moderador da jurisprudência canônica.
159
M.C. LIMA, Introdução à História do Direito Canônico cit. (nota 83 supra), pp.146-147. O mesmo
autor complementa: “As coletâneas da Rota, ainda inéditas, principalmente os Diários, estão na seção
secreta do Arquivo do Vaticano, e no arquivo notarial as decisões que constam em 9 mil volumes. Estes
Diários servem sobretudo à História da Ciência do Direito e são quase todos inéditos; os Livros
Particulares dos Auditores e as Decisões “Coram” conservam-se no Arquivo do Vaticano desde 1688”.
32

constituam direito somente entre as partes, foram amplamente aceitas, consideradas


como fonte doutrinária e jurisprudencial que auxilia na interpretação e aplicação destas
normas.160
Com efeito, a unidade das decisões para casos similares é uma das características
que se ajustam à certeza jurídica e uma garantia para aqueles que recorrem ao tribunal
eclesiástico.161 162
P. MONETA163 indica dois fatores principais que prejudicam a unidade
jurisprudencial da Rota, e seu papel de guia e referência aos outros tribunais:
1) em relação à estrutura da Igreja, após a reforma realizada por Paulo VI em
1967, houve um fortalecimento das atribuições e tarefas do Supremo Tribunal da
Assinatura Apostólica, que passou, quanto à sua competência, não apenas a verificar os
aspectos administrativos e disciplinares dos Tribunais inferiores, mas a entrar no mérito
tanto da atividade contenciosa quanto das decisões adotadas por estes Tribunais;
2) em relação à estrutura interna do próprio Tribunal Apostólico da Rota, pois a
nomeação de auditores de nacionalidades, línguas e culturas diferentes, dificulta a
formação de uma orientação jurisprudencial uniforme, verificando-se uma profunda
divergência interpretativa entre os diversos turnos julgadores, não atendendo, portanto,
à sua função unificadora e de guia de toda a atividade judiciária da Igreja.
A solução para a unidade da jurisprudência está na própria Rota Romana. Um
maior número de situações poderia ser solucionado videntibus omnibus. Este
procedimento auxiliaria enormemente a unificação de grande parte da jurisprudência
rotal.164

160
M.C. LIMA, Introdução à História do Direito Canônico cit. (nota 83 supra), p.146. Através da
jurisprudência da Rota Romana e suas interpretações, pretende-se estabelecer a necessária unidade das
decisões da Igreja, proporcionando segurança jurídica e a garantia dos direitos dos fiéis. As decisões da
Rota Romana devem servir de orientação e guia para os tribunais diocesanos e regionais.
161
R. RODRIGUES-OCAÑA, El Tribunal de la Rota y la unidad de la Jurisprudencia, in Ius Canonicum 30
(1990), p.440.
162
Sobre a importância da unidade jurisprudencial, já salientava o Papa João Paulo II, em seu discurso à
Rota Romana proferido em 24 de janeiro de 1981: “Para a necessária tutela da família contribuem em não
pequena medida a atenção e a pronta disponibilidade dos tribunais diocesanos e regionais em seguir as
diretrizes da Santa Sé, a constante jurisprudência rotal e a fiel aplicação das normas, quer substanciais
quer processuais já codificadas, sem recorrer a supostas ou prováveis inovações às interpretações que não
têm objetiva confirmação na norma canônica e que não são sufragadas por nenhuma jurisprudência
qualificada. É de fato temerária toda a inovação de direito, quer substancial quer processual, que não
encontre confirmação alguma na jurisprudência ou nas praxes dos Tribunais e dicastérios da Santa Sé.”
(grifos nossos). E complementa, mais adiante: “A justiça canônica, que, segundo a bela expressão de São
Gregório Magno, mais significativamente denominamos sacerdotal, emerge do conjunto de todas as
provas processuais, avaliadas conscienciosamente à luz da doutrina e do direito da Igreja, e confortadas
pela jurisprudência mais qualificada”. JOÃO PAULO II, Discursos del Papa Juan Pablo II a la Rota
Romana – Discurso del 24.I.1981, in Ius Canonicum 38 (1988), pp. 555-556. Na prática, porém, a
coerência interna do sistema jurídico exige uma maior inserção da jurisprudência rotal no ordenamento
processual canônico, pois há um distanciamento perigoso entre a jurisprudência rotal e a jurisprudência
local. No sistema de instâncias a garantia de manter esta coerência é proveniente dos Tribunais
superiores.
163
Rota Romana cit. (nota 104 supra), pp.149-150. Salienta o mesmo autor, que a tendência observada na
organização judiciária canônica é a formação jurisprudencial por áreas nacionais e culturalmente
homogêneas, com uma verdadeira desconsideração do antigo prestígio do Tribunal da Rota e das
diretrizes estabelecidas em suas sentenças. É necessário que os Tribunais inferiores efetivamente adotem
a jurisprudência rotal, considerando-a um modelo a ser seguido e aceito universalmente, em qualquer
contexto cultural e social.
164
R. RODRIGUES-OCAÑA, El Tribunal de la Rota y la unidad de la Jurisprudencia cit. (nota 161 supra),
p.446. Vejam-se os câns. 1429 e 1610, §2º.
33

Para uma maior celeridade processual165, quanto às sentenças166, a Rota Romana


desenvolveu o conceito de conformidade equivalente, visto ser o Tribunal ordinário de
apelação da Santa Sé para toda a Igreja, que julga em segunda, terceira ou ulterior
instância casos provenientes de todas as Igrejas particulares do mundo. De fato, é
comum que se apresente à Rota Romana a questão preliminar (quaestio praeliminaris)
ou a questão incidental (quaestio incidentalis) sobre a conformidade equivalente de
duas sentenças num determinado processo.167 A expressão conformidade indica a
correspondência entre as sentenças de tribunais de diferentes graus. A expressão
congruência refere-se à correspondência entre o objeto do juízo e a parte dispositiva das
resoluções judiciais, que devem ser claras, precisas e congruentes com a demanda.168
Os Tribunais locais através de suas sentenças, não se limitarão à hipótese do
cân.19, ou seja, ao caso específico de lacuna iuris. Estimulado pelo conflito num
determinado caso concreto, o Tribunal de instância inferior pode chegar a uma
determinada convicção jurídica que difere da jurisprudência rotal. Este Tribunal, neste
caso, deve seguir sua própria convicção jurídica e, com isto, pode fornecer a
oportunidade à Rota de examinar esta jurisprudência local e eventualmente, seguir ou
aceitar, um dado ou elemento novo após a avaliação e conhecimento da causa.169

7.4. INSTITUIÇÕES CARACTERÍSTICAS

A influência humanizadora do Direito Canônico pode ser percebida em diversas


instituições do Direito Civil presentes nos principais Códigos “laicos”: no direito das
coisas com a ampliação da proteção possessória aos direitos pessoais; no das obrigações
com a proibição da cobrança de juros, e, depois, da usura; com o princípio do justo
preço; com a cláusula rebus sic stantibus, com a exigência sempre do requisito da boa
fé para a prescrição; no direito de família elevando a posição da mulher e dos filhos.170
O Direito de Família está estreitamente vinculado aos Direitos Fundamentais do
Homem e a Igreja tem o importante papel de manifestar a todos, embora não tenha
165
O legislador canônico considera essencial a celeridade processual. Para uma maior rapidez, em muitos
institutos foi rompida a tradição milenar do processo escrito, instituindo-se o processo contencioso oral
nos cans. 1656 a 1670.
166
Conforme P. MONETA, Rota Romana cit. (nota 104 supra), p.146, a sentença é composta, segundo um
estilo tradicional comumente utilizado pelos tribunais, por uma parte introdutória, denominada
factispecies, na qual se expõe brevemente o fato que originou a controvérsia e indica-se a formula dubii,
que expõe os princípios jurídicos pertencentes ao caso analisado, com referência particular à aplicação
jurisprudencial e doutrinária; em seguida, por uma parte in facto na qual demonstra-se o resultado
processual que levou a adotar uma determinada solução para a controvérsia. A sentença finaliza com o
dispositivo, redigido com o escopo de responder às dúvidas propostas no início da causa, com a eventual
condenação às despesas processuais e com o decreto que dispõe sobre a execução.
167
Veja-se cân.1641, 1º.
168
N. SCHÖCH, Criterios para la declaración de la conformidad equivalente de dos sentencias según la
reciente Jurisprudencia Rotal, in Anuario Argentino de Derecho Canónico 11 (2004), p.268. A título de
exemplo, o autor dispõe na p.269: “(...)son formalmente conformes dos sentencias que conceden o niegan
la nulidad del matrimonio entre los mismos cónyuges basandose en el mismo capítulo de nulidad, es decir
que sean congruentes en la parte dispositiva, independientemente de la motivación. No son formalmente
conformes dos sentencias si la causa petendi, en el sentido del capítulo de nulidad es diferente”. Há
conformidade equivalente quando são diferentes os nomes das ações, mas os fatos provados são os
mesmos. A Rota Romana declara esta conformidade tendo como escopo a princípio da economia
processual, a redução dos gastos e a determinação da demanda, do pedido e da causa petendi, tudo isto
sob a luz da aequitas canonica e do princípio supremo da salus animarum.
169
J.L. MÉNDEZ RAYÓN, Normativa Procesal y Tercera Instancia cit. (nota 133 supra), pp.631-633. Não se
deve esquecer que a “Jurisprudência” não é o ato de julgar, nem uma sentença isolada, mas é formada
graças à unidade de critérios entre várias decisões.
170
H. VALLADÃO, História do Direito especialmente do Direito Brasileiro cit. (nota 5 supra), p.38.
34

soluções técnicas para oferecer, a Verdade, em todo tempo e contingência, a favor de


uma sociedade à medida do homem, de sua dignidade e da sua vocação.171 Além do
Direito de Família, a Igreja deve estar a serviço e ser norteadora de inúmeros temas
vinculados às mais diversas áreas do Direito: 1) de Direito Civil, v.g., a proteção do
direito à vida desde a sua concepção (combatendo o aborto, o infanticídio, a
eutanásia)172, a discriminação individual e social173; 2) de Direito Internacional, v.g., na
luta contra a crescente pobreza mundial e os efeitos da globalização nas relações
internacionais, a desigualdade econômica174; 3) de Direito do Trabalho, buscando
sempre a proteção da classe trabalhadora e indicando seus direitos básicos175; 4) a

171
BENTO XVI, Caritas in Veritate – Carta Encíclica sobre o desenvolvimento humano integral na
caridade e na verdade, São Paulo, Paulus-Loyola, 2009 (de 29 de junho de 2009), p.8. Veja-se, JOÃO
PAULO II, Familiaris Consortio – Exortação Apostólica sobre a função da família cristã no mundo de
hoje, 21ªed., São Paulo, Paulinas, 2007 (22 de novembro de 1981) , pp.52-53: “A Igreja é chamada a
manifestar novamente a todos, com uma firme e mais clara convicção, a vontade de promover, com todos
os meios, e de defender contra todas as insídias a vida humana, em qualquer condição e estado de
desenvolvimento em que se encontre”; Idem, Carta às famílias, São Paulo, Loyola, 1997 (2 de fevereiro
de 1994), pp.35-36 e 46: “Os direitos de família estão estritamente conexos com os direitos do homem: de
fato, se a família é comunhão de pessoas, a sua auto-realização depende, em medida significativa, da justa
aplicação dos direitos das pessoas que a compõem. Alguns destes direitos dizem imediatamente respeito à
família, como o direito dos pais à procriação responsável e à educação da prole; outros direitos, ao
contrário, referem-se ao núcleo familiar só de modo indireto: entre estes, de singular importância, estão o
direito à propriedade, especialmente a chamada propriedade familiar, e o direito do trabalho”. Reforça o
Papa o necessário combate às estruturas utilitaristas e individualistas presentes na sociedade moderna: “O
individualismo supõe um uso da liberdade onde o sujeito faz o que quer, “estabelecendo” ele mesmo a
“verdade” daquilo que lhe agrada ou se lhe torna útil. Não admite que outros “queiram” ou “exijam” algo
dele, em nome de uma verdade objetiva. Não quer “dar” a outrem sobre a base da verdade, não quer
tornar-se um dom “sincero”. O individualismo permanece, por conseguinte, egocêntrico e egoísta”.
172
Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes – Sobre a Igreja no Mundo de Hoje, 15ªed., São Paulo,
Paulinas, 2007, p.71, 2ªparte, I,51: “Com efeito, Deus, Senhor da Vida, confiou aos homens, para que
estes desempenhassem dum modo digno dos mesmos homens, o nobre encargo de conservar a vida. Esta
deve, pois, ser salvaguardada, com extrema solicitude, desde o primeiro momento da concepção; o aborto
e o infanticídio são crimes abomináveis”.
173
Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes – Sobre a Igreja no Mundo de Hoje, 15ªed., São Paulo,
Paulinas, 2007, p.38, 1ªparte, II, 29: “Sem dúvida, os homens não são todos iguais quanto à capacidade
física e forças intelectuais e morais, variadas e diferentes em cada um. Mas deve superar-se e eliminar-se,
como contrária à vontade de Deus, qualquer forma social ou cultural de discriminação, quanto aos
direitos fundamentais da pessoa, por razão do sexo, raça, cor, condição social, língua ou religião. É
realmente de lamentar que esses direitos fundamentais da pessoa ainda não sejam respeitados em toda a
parte. Por exemplo, quando se nega à mulher o poder de escolher livremente o esposo ou, o estado de
vida ou conseguir uma educação e cultura semelhantes às do homem”.
174
JOÃO PAULO II, Novo Millenio Ineunte – Carta Apostólica ao Episcopado, ao Clero e aos Fiéis no
término do grande jubileu do ano 2000 (6 de janeiro de 2001), 3ªed., São Paulo, Paulus-Loyola, 2001,
p.51: “E como ficar indiferentes diante das perspectivas de um desequilíbrio ecológico, que torna
inabitáveis e hostis ao homem vastas áreas do planeta? Ou em face dos problemas da paz, freqüentemente
ameaçada com o pesadelo de guerras catastróficas? Ou diante do vilipêndio dos direitos humanos
fundamentais de tantas pessoas, especialmente das crianças? Muitas são as urgências às que o espírito
cristão não pode ficar insensível”; Idem, Sollicitudo Rei Socialis – Carta Encíclica (30 de dezembro de
1987), 6ªed., São Paulo, Paulinas, 2003, p.71: “Os responsáveis pelas nações e pelos próprios organismos
internacionais, igualmente, enquanto lhes incumbe a obrigação de terem sempre presente, como
prioritária nos seus planos, a verdadeira dimensão humana, não devem esquecer-se de dar precedência ao
fenômeno crescente da pobreza”.
175
BENTO XVI, Caritas in Veritate – Carta Encíclica sobre o desenvolvimento humano integral na
caridade e na verdade, São Paulo, Paulus-Loyola, 2009 (de 29 de junho de 2009), pp.28-29: “O conjunto
de mudanças sociais e econômicas faz que as organizações sindicais sintam maiores dificuldades no
desempenho de seu dever de representar os interesses dos trabalhadores, inclusive pelo fato de os
governos, por razões de utilidade econômica, muitas vezes limitarem as liberdades sindicais ou a
35

Liberdade de Imprensa e das Comunicações Sociais176.

8 – FONTES JURÍDICAS CANÔNICAS E DOCUMENTOS DA IGREJA

Bento XVI, Caritas in Veritate – Carta Encíclica sobre o desenvolvimento humano


integral na caridade e na verdade (de 29 de junho de 2009), São Paulo, Paulus- Loyola, 2009.
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capacidade negociadora dos próprios sindicatos.(...) Por isso, o convite feito pela doutrina social da
Igreja, a começar da Rerum Novarum [Carta Encíclica do Papa Leão XIII, de 15 de maio de 1891], para
se criarem associações de trabalhadores em defesa de seus direitos, deve ser honrado, hoje ainda mais do
que ontem, dando antes de mais nada uma resposta pronta e clarividente à urgência de instaurar novas
sinergias em nível internacional, sem descurar o nível local”.
176
Veja-se Inter Mirifica – Decreto do Concílio Vaticano II sobre os meios de Comunicação Social,
14ªed., São Paulo, Paulinas, 2002, pp.12-13: “A autoridade civil tem responsabilidade particular neste
setor, pois os meios de comunicação visam ao bem comum. Em virtude de sua função, compete-lhe
defender e proteger a autêntica liberdade de informação, indispensável ao progresso social, especialmente
no que diz respeito à liberdade de imprensa. Compete-lhe ainda promover a religião, a cultura e as artes e
resguardar os legítimos direitos dos receptores. Compete ainda à autoridade civil, apoiar as iniciativas
que, embora extremamente úteis à juventude, não se podem sustentar sozinhas”.
36

aos Fiéis no término do grande jubileu do ano 2000 (6 de janeiro de 2001), 3ªed., São Paulo,
Paulus-Loyola, 2001.
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– Perspectiva Socioeconômica, Política e Cultural, Rio de Janeiro, Mauad; Vitória, EDUFES,
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