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Políticas de escolarização e governamentalidade nas

tramas do capitalismo cognitivo: um diagnóstico preliminar

Roberto Rafael Dias da SilvaI

Resumo

O presente ensaio pretende constituir um diagnóstico preliminar


das políticas de escolarização e governamentalidade produzidas nas
tramas políticas e econômicas do estágio atual do desenvolvimento
capitalista. Partindo de uma revisão dos modos de constituição
das políticas de escolarização produzidas pelo estado moderno,
interessa, desde uma inspiração nos estudos foucaultianos
produzidos no final da década de 1970, caracterizar as diferentes
estratégias reguladoras dos processos de escolarização em massa
produzidos desde o século XVIII e diagnosticar os múltiplos
deslocamentos nessas pautas políticas na contemporaneidade. A
partir de uma leitura sociológica, apresentam-se algumas mudanças
nos sentidos educacionais fabricados pela sociedade industrial, na
direção de uma educação flexível e interativa. Entende-se que as
condições do capitalismo cognitivo, tal como esse cenário tem
sido nomeado pelos economistas neomarxistas italianos, sugerem
um cenário no qual o conhecimento assume o lugar de vetor das
inovações e das dinâmicas produtivas, desestabilizando o modelo
da fábrica e imaterializando as relações de trabalho. As políticas de
escolarização passam a ser movidas por tecnologias otimizadoras
que privilegiam conduzir os sujeitos escolares a estágios elevados
de desempenho, assim como propõem a qualificação de suas
performances nas tramas do contemporâneo. Tal diagnóstico pode
ser ponto de partida para ressignificarmos as pautas investigativas
dos estudos críticos em educação.

Palavras-chave

Políticas de escolarização – Governamentalidade – Capitalismo


cognitivo.

I- Universidade Federal da Fronteira


Sul, Erechim, RS, Brasil.
Contato: robertoddsilva@yahoo.com.br

Educ. Pesqui., São Paulo, v. 39, n. 3, p. 689-704, jul./set. 2013. 689


Schooling policies and governmentality in the schemes
of cognitive capitalism: a preliminary diagnostic

Roberto Rafael Dias da SilvaI

Abstract

This essay intends to present a preliminary diagnostic of the


schooling policies and governmentality produced by the political and
economic schemes at the present stage of capitalist development.
Based on a review of the modes of constitution of schooling policies
produced by the modern state, it becomes of interest, drawing from
the Foucauldian studies of the late 1970s, to characterize the
different strategies that regulate mass schooling processes created
since the 18th century, and to diagnose the multiple shifts that have
taken place in contemporary political agendas. From a sociological
reading, some of the changes in the educational meanings made by
the industrial society are presented, in the direction of a flexible and
interactive education. It is understood here that the conditions for
cognitive capitalism, such as this scenario has been named by Italian
neo-Marxist economists, suggest a scenario in which knowledge
assumes the role of a vector of innovations and productive dynamics,
destabilizing the model of the industrial plant and dematerializing
labor relations. Schooling policies are then driven by optimizing
technologies that emphasize conducting the schooling subjects to
higher levels of performance, and propose the qualification of their
performances within the contemporary schemes. Such diagnostic
can be the starting point for a re-signification of research agendas
in the critical studies of education.

Keywords

Schooling policies — Governmentality — Cognitive capitalism.

I- Universidade Federal da Fronteira


Sul, Erechim, RS, Brazil.
Contact: robertoddsilva@yahoo.com.br

690 Educ. Pesqui., São Paulo, v. 39, n. 3, p. 689-704, jul./set. 2013.


As múltiplas tensões existentes na relação os caminhos da escola e do Estado
entre educação e sociedade; métodos de ensino e tiveram que andar juntos (NARODOWSKI;
conteúdos a serem ensinados; currículos escolares BRAILOVSKI, 2006, p. 64).
e práticas docentes, atravessam a histórica A partir dessas condições, a escola
produção das culturas escolares. Percebe-se que moderna e suas promessas foram reposicionadas
vêm ocorrendo modificações, desde a emergência desde as disposições e capacidades do estado
e a consolidação do discurso pedagógico, em moderno. Segundo Narodowski e Brailovski
diferentes tempos e lugares, até o lugar de (2006), ocorria uma aproximação articulada não
definição dos saberes a serem ensinados. apenas pelas condições de financiamento do
Desde as corporações de ofício, estado, mas também por sua capacidade pública
passando pelas universidades medievais, até a de “legitimar uma utopia e de produzir processos
contemporaneidade, o monopólio de definição massivos de disciplinamento escolar com fortes
do que deveria ser traduzido em conhecimento efeitos homogeneizadores e universalizantes”
escolar vem recebendo novos agenciamentos, (NARODOWSKI; BRAILOVSKI, 2006, p. 65).
inserindo-se em diferenciadas redes de poder e A escola pública, pelo menos no
de saber. Além disso, faz-se possível afirmar que ocidente, emergiu como uma ferramenta de
as próprias concepções de estudante, professor estado destinada a publicizar o ideário de uma
ou instituição escolar receberam variações no nação, delinear os vínculos identitários de seus
interior dessa trama histórica. frequentadores e projetar crenças e valores para
Importa apontar que, desde a consolidação o futuro. A urbanidade, e sua materialização
da modernidade pedagógica, podemos situar nas reformas das cidades do século XVIII e XIX,
o estado como a instância que atribuía aos tornaram-se um dos grandes ideais da educação
pressupostos pedagógicos o respaldo necessário financiada pelo estado. O estar e o viver nas
para sua atuação (NARODOWSKI, BRAILOVSKI, cidades – a formação de cidadãos – efetivaram-
2006). Assim, dessa articulação entre pedagogia se como uma das grandes metanarrativas
e estado moderno, fez-se possível notar uma pedagógicas da modernidade, ideário que ainda
conotação urbanizadora e civilizadora aos sustenta boa parte das pedagogias do nosso
incipientes sistemas escolares estatais. tempo (CAMBI, 1999).
Tanto na Europa quanto na América Popkewitz assinala que a administração
Latina, o final do século XIX marcou a social dos indivíduos, desde a atuação política
emergência de um processo de consolidação da do estado moderno, não estava circunscrita
função educadora dos estados (CAMBI, 1999; apenas a práticas ou modelos formais de
NARODOWSKI, BRAILOVSKI, 2006), fato esse organização, mas se referia a um tipo de
decorrente de sua capacidade financiadora e de conhecimento “que ordena e disciplina a ação
seus novos desafios ligados ao controle estatal e a participação, isto é, o conhecimento é uma
de suas populações. prática de administração social” (POPKEWITZ,
2000, p. 142). Dessa perspectiva, cabia ao
Na organização dos Estados Nacionais, estado a possibilidade de estabelecer vínculos
a infância e sua educação escolar se entre as necessidades naturais de sua população
convertem claramente em uma questão e as novas demandas da vida democrática.
de Estado, e na ficção moderna a
escola e o Estado aparecem articulados, Correspondia ao Estado dar forma ao
apoiados um ao outro. E assim, a partir indivíduo de maneira que dominasse a
da organização dos sistemas educativos mudança mediante a aplicação dos princípios
nacionais, fenômeno recente se se da racionalidade e da razão (POPKEWITZ,
consideram os longos tempos históricos, 2000, p. 144).

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Seguindo a analítica proposta pelo au- indivíduos capazes “de evoluir numa cultura e
tor, o problema do governo “inscrevia-se nas numa economia globais” (POPKEWITZ, 2000).
disposições e nas capacidades da individuali- Para o tratamento analítico dessas
dade” (p. 145). questões, os trabalhos do filósofo francês Michel
Uma das novas áreas de intervenção Foucault produzidos no final da década de 1970
possibilitadas pela consolidação do estado mo- acerca do conceito de governamentalidade,
derno, consequentemente, foram as políticas de trouxeram novas possibilidades de investigação.
escolarização. Tais políticas permitiam que o Importantes estudos no âmbito das políticas
estado operasse tanto na vida pública das socie- de escolarização têm tomado como ferramenta
dades quanto na liberdade e na individualidade analítica o referido conceito (VEIGA-NETO, 2006;
dos indivíduos. Popkewitz (2000) nomeia essa NOGUERA, 2009; Ó, 2009; FIMYAR, 2009).
modalidade de prática governamental como Em aproximação a esse produtivo campo,
“racionalização populacional”. o uso da governamentalidade de que lançaremos
mão para este ensaio aproxima-se daquilo que
A escolarização maciça ficou enquadrada Noguera (2009) aponta como noção metodológica.
nesse movimento encaminhado para ad- Conforme o pesquisador colombiano, “uma
ministrar socialmente o crescimento, o de- noção metodológica é uma ferramenta para
senvolvimento e a evolução da sociedade. pensar, um instrumento para operar sobre um
A escola, como projeto de reforma, devia problema” (NOGUERA, 2009, p. 23). Dessa
ocupar-se dos processos de socialização a forma, o conceito de governamentalidade é uma
partir dos quais a criança podia chegar a ser ferramenta desenvolvida por Foucault que serviu
o adulto que agisse de maneira responsável para “o desenvolvimento de sua atividade de
em novos contextos de governo da moderni- investigação e ensino” (NOGUERA, 2009, p. 23).
dade. A escola representava noções liberais Assim sendo, são os sentidos (e não as definições)
sobre o indivíduo disciplinado que agia res- atribuídos a esse conceito foucaultiano que
ponsavelmente e, assim, uniu-se ao trabalho privilegiaremos nesta composição analítica.
de construir a criança que havia de ser civi- Para o estudo da governamentalidade e
lizada como o novo cidadão, a práticas de da biopolítica (FOUCAULT, 2008a; FOUCAULT,
administração social que faziam uso de uma 2008b), vale destacar que, desde o curso de
razão populacional para domesticar contin- 1978, aos poucos o pensamento foucaultiano
gências históricas em forma de política so- foi se deslocando das concepções de poder e se
cial, administração social e razão científica aproximando do conceito de governo. O conceito
(POPKEWITZ, 2000, p. 145-146). de governo fez-se mais operatório do ponto de
vista da produção das análises, uma vez que
Assim, as políticas de escolarização foram partia da premissa do poder em ação. Tal como
produzidas historicamente tomando como sugeriu Foucault, o governo toma como campo de
alvo e objetivo privilegiados a constituição intervenção a condução das condutas ou, ainda, o
de uma população com novas características, modo como somos conduzidos e nos conduzimos.
mais apropriadas ao nascente estado moderno, Assim, essa noção implica uma pluralidade de
fortemente ancorado nos ideais do liberalismo objetos e de fins pretendidos. Em uma importante
político. As estratégias de formação dos sistematização, Dean (1999) posiciona o governo
sujeitos privilegiavam a formação desse novo como “realização efetuada no plural”.
cidadão. A contemporaneidade, entretanto,
desde a emergência das condições do novo Governo é qualquer atividade mais ou me-
capitalismo (SENNETT, 2008), intensificou suas nos racional e calculada, realizada por uma
ações políticas de escolarização projetando multiplicidade de autoridades e agências,

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que empregam uma variedade de técnicas moldadas em determinadas condições sociais.
e formas de conhecimento, que busca mol- A perspectiva analítica proposta por pelo autor
dar a conduta lidando com nossos desejos, pode ser nomeada como analítica de governo,
aspirações, interesses e crenças, para fins na medida em que se trata de:
definitivos, mas inconstantes e com um
conjunto diverso de consequências, efeitos [...] um tipo de estudo preocupado com
e resultados relativamente imprevisíveis uma análise das condições específicas
(DEAN, 1999, p. 11). para determinadas entidades emergirem,
existirem e mudarem. (DEAN, 1999, p. 20)
Governar, então, implicaria conduzir a
conduta dos diferentes indivíduos. A partir dessa Essa abordagem não posiciona as práticas
abordagem, a noção de governo é ampliada, não de governo sob arranjos de modelos idealizados
permanecendo exclusivamente nas diferentes de poder, nem mesmo as posiciona como efeitos
modalidades de autoridade exercidas sobre os ou produtos de contradições ou hegemonias.
outros, mas incluindo também a nós mesmos. Uma analítica de governo “examina as
Ao analisarmos tais formas de condução, condições nas quais se formam, são mantidos
podemos tomar como objeto e transformados os regimes de práticas” (DEAN,
1999, p. 21). O autor, de forma objetiva, mas
[...] aquelas que tentam moldar, esculpir, não simplificada, afirma que tais regimes
mobilizar e lidar com escolhas, desejos, “são simplesmente conjuntos razoavelmente
aspirações, necessidades, vontades e coerentes de empreender tarefas” (DEAN, 1999,
estilos de vida de indivíduos e grupos. p. 21). Notamos, então, o caráter pragmático
(DEAN, 1999, p. 12) dessa modalidade de análise.

Entendemos que empreender essas pos- A tarefa não compreende descrição em-
sibilidades de estudo permite estabelecer uma pírica de como várias pessoas ou agentes
analítica de governo. Segundo os apontamentos em posição de autoridade governam. A
de Veiga-Neto (2006), falar em analítica implica analítica de governo não é uma “socio-
“examinar e analisar as práticas concretas, em logia da regência” se o objeto deste for
sua ‘microscopicidade’, em sua especificidade” simples relações correntes de autoridade
(VEIGA-NETO, 2006, p. 2). e dominação. Em vez disso, trata-se de
Diferentes campos das ciências sociais um estudo das práticas organizadas atra-
têm se preocupado com a dimensão coletiva vés das quais somos governados e gover-
do pensamento. Segundo Dean (1999, p. 18-19, namos a nós mesmos, o que chamaremos
grifos do autor): aqui de regimes de práticas ou regimes de
governo. Tais regimes implicam, no en-
Os estudos de governamentalidade, no tanto, práticas de produção da verdade
entanto, estão mais preocupados em saber e do conhecimento, compreendem múl-
como o pensamento funciona no cerne tiplas formas de racionalidade prática,
de nossas formas organizadas de fazer as técnica e calculante, e são submetidos a
coisas, nossos regimes de práticas e com programas de sua reforma. É importan-
nossas ambições e efeitos. te compreendermos que os regimes de
práticas existem num meio composto de
Assim, essa configuração de análise mentalidades de regência, sem serem re-
está preocupada em estudar os meios pelos dutíveis a tal meio (DEAN, 1999. p. 18-
quais as condutas dos diferentes sujeitos são 19, grifos do autor).

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Dessa forma, ao revisarmos a constituição sociedade industrial, descritas em profundidade
histórica das políticas de escolarização, faz-se por autores como Michel Foucault (1989),
possível observar os modos pelos quais os regi- regulariam a vida social. Outras configurações
mes de governo operam na produção da verdade sociais, outros modos de relacionamento com
e do conhecimento que perfazem tais políticas. o saber e o poder passaram a emergir nessas
Compreender as estratégias políticas mobilizadas sociedades. À medida que valores como a
no interior das políticas de escolarização apre- flexibilidade ou a inovação permanente
senta-se como um dos mais instigantes desafios (SENNETT, 2001; 2008) começaram a deslocar
para o estudo das políticas contemporâneas. os modos clássicos de organização moderna
A seguir, examinaremos algumas dessas (fordista) do mundo, pequenos sinais de
racionalidades operantes nas políticas de uma nova organização capitalista passaram
escolarização produzidas no cenário de transição a adquirir sentido. Como metáfora a esse
do capitalismo industrial ao pós-industrial, conjunto de modificações, o sociólogo Richard
sobretudo pela leitura proposta desde o conceito Sennett argumenta, servindo-se inicialmente
de capitalismo cognitivo. Destacamos que de uma expressão weberiana, que a sociedade
nossa intenção não estará em produzir modelos não mais se organizava como uma “jaula
analíticos universalizantes que tenderiam a de ferro”, mas como um “aparelho de MP3”
impor um predomínio de dimensões sociológicas (SENNETT, 2008, p. 49).
sobre outras de caráter pedagógico. O que nos Conforme a descrição de Sennett (2008),
interessa é produzir um diagnóstico preliminar durante o grande desenvolvimento capitalis-
que instrumentalize e potencialize nossos ta, ocorrido entre os anos de 1860 e 1970, as
estudos no campo educacional. sociedades e as empresas aprenderam a movi-
mentar-se sob regimes de permanentes cres-
Educação e capitalismo cimentos; com isso, desenvolveram “a arte da
cognitivo: um diagnóstico crítico estabilidade, assegurando a estabilidade dos
negócios e aumentando o número de empre-
O capitalismo industrial marcou o desen- gados” (SENNETT, 2008, p. 27). No decorrer
volvimento econômico e social das sociedades desse longo período, desse amplo crescimento,
ocidentais durante o século XX (CASTEL, 2004; ainda segundo a descrição do sociólogo, não
2009). Os modos como as sociedades e os su- foram as estratégias de mercado que regeram
jeitos planejavam seus desenvolvimentos eram esse processo – “o papel mais importante foi
marcados pela estabilidade e pelo planejamento desempenhado pela maneira como os negócios
a longo prazo, ao mesmo tempo em que as ins- passaram a ser organizados” (SENNETT, 2008,
tituições em geral (fossem as escolas ou as em- p. 27), ou seja, o desenvolvimento capitalista
presas, por exemplo) exerciam funções ligadas do século XX desenvolveu-se e consolidou-se
à disciplinarização. A questão social do século com o uso de “modelos militares de organiza-
XX, como bem expressou o sociólogo Robert ção” (SENNETT, 2008, p. 27).
Castel (2009), constituía-se na ocupação do Como metáfora desse tempo, Sennett
tempo e na distribuição do espaço dos grandes (2008) utiliza a jaula de ferro weberiana, uma vez
contingentes da população. que foi o sociólogo alemão um dos precursores
Entretanto, desde o final daquele século, da análise de um capitalismo militarizado. Esse
alguns deslocamentos significativos ocorreriam capitalismo industrial emergia por uma política
nos modos de vida, na administração das de estabilidade e planejamentos de longo
coletividades ou mesmo nos planejamentos prazo em suas diferentes instituições, visto que
pessoais e institucionais em relação ao futuro. objetivava produzir ações disciplinares sobre o
Não mais as condições disciplinares da conjunto da sociedade.

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Por mais pobre que seja, o trabalhador coisa podia ser produzida com rapidez, mas
que sabe que ocupa uma posição bem o verdadeiro teste da produção smithiana
estabelecida estará menos propenso a estava no mercado – seria possível produzir
se revoltar que aquele que não tem uma mais depressa que os concorrentes muitas
noção clara de sua posição na sociedade. coisas que outras pessoas quisessem
Eram estes os fundamentos da política do comprar? Embora os exércitos funcionem
capitalismo social (SENNETT, 2008, p. 28). pela divisão do trabalho, Weber deu-se
conta de que a competição e a eficiência
Na política do capitalismo social, o assumem características diferentes na vida
tempo constituiu-se como um conceito central, militar (SENNETT, 2008, p. 33).
“um tempo de longo prazo, cumulativo e
sobretudo previsível” (SENNETT, 2008, p. 29). O Com esse arranjo do capitalismo
controle do tempo permitia ações de regulação industrial do século XX, marcado por produção
tanto sobre os sujeitos trabalhadores quanto disciplinarizada, estabilidade e planejamento de
sobre as instituições. A ideia de um tempo longo prazo (para os sujeitos e as instituições), é
racionalizado atribuía a ambos a possibilidade que Sennett revitaliza a metáfora weberiana da
de uma narrativa estável e contínua. Fez- jaula de ferro. Tal conceito pressupõe organizações
se possível que esses espaços apresentassem com funções fixas e preestabelecidas, marcadas
mudanças significativas: aos trabalhadores, as pela disciplina como estratégia de produção e
carreiras poderiam ser planejadas ao longo de subjetivação. Sob a égide da nomeada jaula de
um grande período, graças à estabilidade; as ferro, o estado fez-se burocrático e previdente.
empresas poderiam estabelecer estratégias de Os benefícios desse estado, como a educação e a
produção disciplinarizadas e potencializar suas saúde, eram considerados como direitos universais
estratégias de acumulação. e movimentados por uma estrutura burocrática.
Ainda conforme a descrição de Sennett “O sistema focalizava cada vez mais a estabilidade
(2008), a divisão social do trabalho, em especial e a autopreservação institucionais, e não a efetiva
através dos modelos taylorista e fordista, provisão de cuidados” (SENNETT, 2008, p. 37).
emerge em conexão com a configuração Em um estado que, conforme Sennett,
militarizada do capitalismo. Seguindo uma visava à sua estabilidade e à autopreservação
abordagem weberiana, o sociólogo entende que, institucional, os sistemas de escolarização
da mesma forma que um exército em um campo consolidariam suas premissas de universali-
de batalha, “um negócio bem gerido devia ser dade e gratuidade (NARODOWSKI, 1999). Em
capaz de sobreviver a movimentos bruscos de um jogo potente de relações de saber-poder,
expansão e retração do mercado” (SENNETT, a escola moderna, com sua disciplina no eixo
2008, p. 33). Acerca dessa divisão do trabalho, do corpo e dos saberes (FOUCAULT, 1989),
é a fábrica de alfinetes descrita por Adam Smith adquiriu o status de principal instituição a
o seu paradigma explicativo. Um capitalismo serviço do modelo civilizatório da sociedade
industrial disciplinarizado, com competição e industrial. Diferentemente de outras institui-
eficiência, faria do sistema de produção uma ções sociais, como as da vida religiosa, por
grande maquinaria. exemplo, nas escolas

O modelo smithiano explorava as maneiras [...] já não se tratava de preparar os


de desdobrar uma tarefa complexa para a internos para a vida eterna senão de
eficiente produção de uma carroça ou de um discipliná-los e educá-los para produzir
queijo. A medida da eficiência estava pura bons súditos e bons cidadãos na vida
e simplesmente no grau em que alguma terrena. (ALVAREZ-URIA, 2002, p. 135).

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A instituição escolar, segundo a argu- todos e de cada um dos alunos, faz com
mentação de Alvarez-Uria (2002), funcionou que o espaço escolar funcione como uma
como uma grande maquinaria mobilizadora do máquina de aprender e, ao mesmo tem-
espírito do capitalismo gestado e consolidado no po, possibilita a intervenção do mestre em
transcorrer do século XX ou, segundo Hoskin, qualquer momento para premiar ou casti-
citado por Veiga-Neto (2005), serviu como uma gar e, sobretudo, para corrigir e normalizar
dobradiça entre o poder e o saber. (VARELA, 2002, p. 84).
Sob essa lógica disciplinar, marca do
capitalismo industrial do referido período, Outro espaço em que se visibiliza o
as pedagogias eram desencadeadas como diagrama de forças da sociedade industrial é
estratégias políticas operadas sobre os tempos a fábrica; da mesma forma que as instituições
e os espaços dos sujeitos e das instituições. Os escolares acima descritas, também toma a
corpos e os saberes eram distribuídos no tempo disciplina como eixo de ação. Interessava
e no espaço de maneira a manter e a garantir a produtivamente a esse arranjo o desenvolvimento
produtividade coletiva. de corpos dóceis e úteis, tal como mostra a
significativa analítica foucaultiana. Em outras
Os indivíduos hão de estar vigiados e palavras, conforme argumenta o sociólogo
localizados permanentemente para evitar italiano Maurizio Lazzarato (2006, p. 86),
encontros perigosos e comunicações
inúteis, se de fato se quer favorecer O trabalho constituía, ao mesmo tempo, a
exclusivamente as relações úteis e substância e a medida da planificação. O
produtivas. (VARELA, 2002, p. 82) trabalho se revelou o meio mais eficaz de
regulação do conjunto da sociedade.
A classificação e a distribuição dos
sujeitos escolares, de acordo com seu rendimento Ampliando a argumentação, pode-se
ou sua conduta, é um conhecido exemplo pensar que o século XX tornou visível uma
do modo como as pedagogias disciplinares relação entre sujeito e trabalho, mas, ao mesmo
regulavam os espaços. tempo, mobilizou uma racionalidade política
No que se refere aos tempos, essas que se tornou uma “potência reguladora”
pedagogias também mobilizavam significativas (LAZZARATO, 2006, p. 92).
inovações. Desejando sujeitos cada vez mais disci-
plinados e produtivos, o capitalismo industrial
A nova concepção do tempo exige organi- “insere-se na esfera da reprodução, está precon-
zar as atividades de acordo com um esque- cebido e atende a um padrão tecnológico e or-
ma de séries múltiplas, progressivas e de ganizacional estruturado de antemão” (SANSON,
complexidade crescente. Organiza distintos 2009, p. 207). Nessa lógica de reprodução, os sa-
níveis separados por provas graduais, que beres dos operários são invisibilizados, predomi-
correspondem a etapas de aprendizagem e nando ações repetitivas, rotineiras e preconce-
que compreendem exercícios de dificulda- bidas. É central a essa concepção o conceito de
de cada vez maior. Rompe-se assim com força de trabalho, visto que o esforço que é inte-
um ensino no qual o tempo era concebido ressante à fábrica é o dispêndio de energia e de
globalmente e a aprendizagem sancionada tempo gasto. Logo, é possível evidenciar que, sob
com uma única prova. Essa nova forma de esse arranjo, a disciplina é uma das principais
perceber e organizar o espaço e o tempo estratégias, visibilizada não apenas nos sistemas
permite um controle detalhado do proces- escolares, mas também na fábrica enquanto pa-
so de aprendizagem, permite o controle de radigma institucional.

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O final do século XX apresentou um flexível pode selecionar e desempenhar a
conjunto de importantes deslocamentos nos qualquer momento apenas algumas de suas
modos de pensar e viver a sociedade industrial. muitas possíveis funções. Na corporação
Um dos primeiros autores que destacaram esse ao velho estilo, em contrapartida, a
processo foi o sociólogo Daniel Bell (1977). Ao produção ocorre através de um conjunto
tratar desse período, o qual nomeia de novo preestabelecido de atos; os elos da cadeia
capitalismo, Richard Sennett apresenta três são fixos. Num tocador de MP3, o que
condições que possibilitaram essas modificações. ouvimos pode ser programado em qualquer
A primeira condição seria a “mudança do sequência. Numa organização flexível, a
poder gerencial para o acionário” (SENNETT, sequência da produção também pode ser
2008, p. 41) nas grandes empresas, isto é, a alterada à vontade (SENNETT, 2008, p. 49).
estrutura das empresas passa a ser conduzida
segundo o regime dos investidores. Não mais Assim, os sujeitos e as instituições
uma burocracia controla o funcionamento das produzidos sob a lógica do MP3 privilegiariam
grandes indústrias, mas, com a globalização, valores como flexibilidade, autonomia, inovação,
fluxos de capital de diversas ordens dirigem livre circulação e espírito empreendedor. Essa
as decisões. A segunda condição refere-se ao concepção poderia ser visibilizada tanto na
tempo dos investimentos. lógica dos processos de educação quanto de
produção, por exemplo. Na educação, vê-se a
Os investidores dotados de novo poder emergência de processos de autonomização e
queriam resultados a curto prazo, e não autogerenciamento dos processos, a “era do
a longo prazo. Constituíam o contingente aprender a aprender” (NARODOWSKI, 1999,
do ‘capital impaciente’, na formulação de p. 32). Na produção, deslocam-se os regimes
Bennett Harrison. (SENNETT, 2008, p. 43) disciplinares fordistas/tayloristas e emergem
os regimes toyotistas da inovação permanente
Sob a lógica do capital impaciente, as (HARVEY, 2003). Trataremos de cada um desses
empresas demonstravam êxito apresentando aspectos separadamente.
“sinais de mudança e flexibilidade internas, Quanto à educação, parece-nos que
dando pinta de empresa dinâmica” (SENNETT, ocorre um deslocamento do caráter coletivo
2008, p. 43). A terceira condição é a emergên- dos processos escolares para os individuais.
cia das novas tecnologias da comunicação e da Seguindo a abordagem de David Hamilton
informação. Para um capital movido por inves- (2002, p. 187), vê-se na atualidade um
tidores que objetivam o curto prazo, o fato de revivescimento da aprendizagem, ou seja, o
as comunicações tornarem-se instantâneas foi ensino (processo coletivo) perde a centralidade
fundamental, ao mesmo tempo em que os pro- nas relações pedagógicas, em detrimento da
cessos de automação intensificaram a produção aprendizagem (processo individual). Hamilton
e passaram a exigir uma mão de obra diferente. (2002, p. 90) entende que, sob o movimento
Conforme Sennett, a Contemporaneidade das chamadas “economias do futuro, movidas
estaria deslocando-se da “jaula de ferro webe- a conhecimento”, os processos de escolaridade
riana” como princípio explicativo da sociedade e empregabilidade passam a convergir. É
industrial. A nova estrutura funcionaria como essa conversão, vinculada à centralidade das
um tocador de MP3. aprendizagens individuais, que o pesquisador
caracteriza como ponto de partida para o
A máquina de MP3 pode ser programada planejamento contemporâneo da educação.
para tocar apenas algumas faixas de seu Expressões como aprendizagem em rede,
repertório; da mesma forma, a organização cursos personalizados e ênfase nos processos

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povoam as práticas desse tempo; entretanto, que sua lógica se sustentava na reprodução, em
segundo Hamilton, um dos aspectos centrais na um regime disciplinar. Ainda cabe evidenciar
escolarização da sociedade de aprendizagem é a que esses deslocamentos não anulam a
noção de competência. representatividade da disciplina nas práticas
Com Hamilton, é possível pensar que sociais; antes disso, sofisticam-na, tornando-a
a ênfase no conhecimento seria típica do mais potente e ampla em seu campo de ação
capitalismo industrial, em que a reprodução era (LAZZARATO, 2006). A contemporaneidade
o conceito que movia a sociedade disciplinar. mostra-nos um deslocamento, já evidenciado
Ao mesmo tempo, a noção de competência, em Deleuze (1992), que é do trabalho fordista,
mais individualizada e flexível, caracterizaria fabril, para uma nova configuração que não
um tempo em que o sujeito é conduzido, mais toma os limites do espaço e do tempo
em um processo de inovação permanente, a disciplinares como estratégia, mas flui no jogo
fazer investimentos em si mesmo, na busca heterogêneo do novo capitalismo – a empresa.
de manter-se ativo no mercado de trabalho
(SARAIVA; VEIGA-NETO, 2009; SILVA, 2008; Na empresa, esse cenário muda radicalmen-
2011a; 2011b). te. O número de empregados é drasticamen-
Conforme os argumentos de Jódar e te reduzido, e o regime de trabalho, bastante
Gómez (2007), nas sociedades contemporâneas, heterogêneo: trabalhadores formais, presta-
a pedagogia adquire uma dimensão otimizadora: dores de serviço, terceirizados, sócios mino-
ritários, etc. Cada um parece constituir-se
[...] formação permanente e polivalente ao em um caso particular, com uma forma de
longo de toda a vida como substituta à da contrato, cargas horárias e funções diferen-
escola fechada, do controle contínuo como ciadas (como os sindicatos). Está-se diante
substituto do exame (JÓDAR; GOMÉZ, de um trabalho que já não prioriza o corpo
2007, p. 393). e seus movimentos mecânicos, mas a alma e
seu poder criativo (SARAIVA; VEIGA-NETO,
Essa pedagogia otimizadora planeja 2009, p. 190-191).
espaços permanentes de formação, visto que
“os sujeitos estão sempre em curso” (p. 393). O É a esse tempo em que a alma e seu
sujeito educacional assim constituído poder criativo adquirem centralidade nas
práticas sociais, seja nos processos educativos,
[...] deve ser competitivo, adaptável, seja na organização do mundo do trabalho, que
flexível, mutável, disposto e reformular nesse momento dedicaremos maior atenção.
suas escolhas e auto-responsabilizar- É nesse cenário, por muitos caracterizado
se sobre o controle de sua produtividade como capitalismo cognitivo (CORSANI, 2003;
para aumentar assim sua contribuição à VERCELLONE; NEGRI, 2007), que entendemos
excelência. (JÓDAR; GOMÉZ, 2007, p. 393) que as relações entre conhecimento científico
e inovação se tornam fundamentais para
Esses deslizamentos do coletivo ao a organização e produção das políticas de
individual, da reprodução à inovação, também escolarização brasileiras na última década.
se fazem visíveis nas questões ligadas ao Vale destacar que o interesse não está
trabalho. O capitalismo industrial do século em fazer um elogio ao capitalismo cognitivo,
XX, tal como o socialismo, era caracterizado mas posicioná-lo em um campo de forças em
pela planificação (LAZZARATO, 2006). Esse que as tecnologias de saber e de poder estão
capitalismo, conforme já assinalado, era o meio sendo ressignificadas e produzindo intensos
mais eficaz de regulação da sociedade, uma vez desdobramentos ao campo educacional.

698 Roberto Rafael Dias da SILVA. Políticas de escolarização e governamentalidade nas tramas do capitalismo...
Conforme assinalaremos na próxima seção, o economista italiano Christian Marazzi (2009a),
processos como a imaterialização do trabalho suas origens vinculadas às fábricas da Toyota no
(LAZZARATO, 2003) e a produção de período posterior à Segunda Guerra. Em menos
conhecimentos por conhecimentos (CORSANI, de duas décadas, o ocidente recebeu essas prá-
2003) alteram os modos pelos quais as sociedades ticas, aliás, em um período de crise interna do
contemporâneas se relacionam com o trabalho, regime fordista, tornando-se mais dinâmicos os
com o conhecimento e consigo mesmas. processos produtivos e abrindo-se possibilidades
de inovação permanente nos modos de operar.
O capitalismo cognitivo: outras A chamada produção enxuta (MARAZZI,
políticas de escolarização 2009a) e as ilhas de produção logo invadiram
os regimes produtivos europeus e norte-ameri-
Com o conceito de capitalismo cognitivo, designamos
então um sistema de acumulação no qual o valor canos. A produção enxuta (just-in-time), carac-
produtivo do trabalho intelectual e imaterial se torna terística de mercados mais restritos e inovadores,
dominante e onde o eixo central da valorização
do capital porta diretamente sua expropriação ao opor-se aos modelos fordistas de produção,
“através da renda” do comum e a transformação do trazia como grande transformação social, políti-
conhecimento em mercadoria.
Carlo Vercellone e Antônio Negri
ca e econômica o fato de “colocar a comunicação
e o fluxo de informações no centro da inovação
tecnológico-produtiva” (MARAZZI, 2009a, p.
As palavras de Carlo Vercellone e 15). Conforme Marazzi, esse movimento produ-
Antônio Negri, escolhidas como epígrafe para ziu uma notável virada linguística na economia
esta seção, evidenciam algumas profundas mo- das últimas duas décadas. Diferentemente dos
dificações na organização do capitalismo na modelos fordistas, nos quais imperava o regime
atualidade. Em especial, imediatamente podem da reprodução e da disciplina (o é proibido fa-
ser destacados os processos de imaterialização lar), nos processos just-in-time a comunicação
do trabalho, o deslocamento da reprodução alimenta o processo produtivo.
para a inovação, a produção de conhecimen-
tos por conhecimentos e suas consequentes Compreende-se aqui como a comunicação
tecnologias de poder. Salientamos que nossa e sua organização produtiva enquanto
intenção, ao estabelecer um rápido diagnóstico fluxo de informações se tornaram tão
do que vem sendo nomeado como capitalismo importantes quanto a energia elétrica
cognitivo, é descrever algumas das condições de na época da produção mecânica. De
possibilidade para a constituição das políticas fato, a comunicação lubrifica todo o
contemporâneas de escolarização. Em nosso processo produtivo, de uma ponta à
diagnóstico preliminar, objetivamos descrever outra, da produção à distribuição-venda
alguns cenários políticos e econômicos contem- de mercadorias e ao retorno (MARAZZI,
porâneos que têm produzido desdobramentos à 2009a, p.16).
escola de nosso tempo.
As crises no mundo do trabalho fordis- Com essa nova forma de organizar
ta e a emergência de um novo modelo organi- a produção, a comunicação tem um valor
zativo da produção (pós-fordista e toyotista, diretamente produtivo. Enquanto no fordismo
dentre outras) têm se constituído como impor- a mão de obra era especializada e parcelar
tantes objetos de análises sociais na atualidade (MARAZZI, 2009a, p. 18), com funções estáveis
(HARVEY, 2003; LYON, 1998). Os processos de e preestabelecidas, no pós-fordismo, a força
formação do trabalhador e de administração dos de trabalho buscada, além da capacidade de
processos produtivos passam a receber um con- adaptação e de criatividade, constitui-se como
junto de inovações, tendo, em geral, conforme “uma força de trabalho polioperativa que sabe

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‘ler’ o fluxo de informações, que sabe trabalhar se passa de um regime de reprodução a um
comunicando” (MARAZZI, 2009a, p. 18). regime de inovação. (CORSANI, 2003, p. 27).
De maneira a sistematizar esse processo, a
economista Antonella Corsani (2003) afirma que: Procurando explicar essa relação, que
não faz do conhecimento uma mercadoria
A passagem do fordismo ao pós-fordismo como as outras, Lazzarato (2003) estabelece
pode ser lida como a passagem de uma uma diferenciação entre a fábrica de alfinetes
lógica da reprodução a uma lógica da de Adam Smith e a de livros de Gabriel Tarde. O
inovação, de um regime de repetição a um sociólogo argumenta que a principal diferença
regime da invenção. (CORSANI, 2003, p.15) está na ordem do valor: enquanto o alfinete teria
apenas o valor material, o livro teria um duplo
Conforme a autora, o conjunto dessas valor: material e imaterial. Diferentemente do
condições é que evidencia aquilo que chamamos alfinete, no livro, “o consumo não é destrutivo,
de capitalismo cognitivo. mas criador de outros conhecimentos. Consumo
Aceitando a hipótese de que o capitalismo e produção coincidem na produção de livros”
cognitivo opera sob o duplo eixo da inovação (LAZZARATO, 2003, p. 69).
e da invenção, é importante evidenciar que Considerando que no capitalismo cogni-
o capitalismo industrial também mobilizava tivo a lógica da inovação é privilegiada, o que
esses valores; entretanto, eles apareciam como sabemos não significa o fim dos dispositivos
exceção. No fordismo, disciplinares; neste momento, cabe interrogar
pelos regimes de trabalho do capitalismo cog-
[...] a valorização repousava essencial- nitivo. Alguns autores, como Vercellone (2009),
mente sobre o domínio do tempo de re- Vercellone e Negri (2007) e Negri (2008), pos-
produção de mercadorias padronizadas, tulam que essa configuração capitalista expõe
produzidas com tecnologias mecânicas. uma crise das clássicas noções da economia
(CORSANI, 2003, p. 17) política, que são o trabalho, o capital e o valor.

No capitalismo cognitivo, o que antes era No que concerne ao trabalho, o


exceção agora se torna regra, pois a valorização crescimento da sua dimensão imaterial e
não está ligada à reprodução mecânica, mas ao cognitiva marca, sem dúvida, uma crise
conhecimento. Tal como argumenta Corsani, de sua medida. O trabalho cognitivo, com
o que favoreceu essa dinâmica inovadora efeito, se apresenta, por essência, como
foi o paradigma tecnológico, ou seja, a a combinação complexa de um trabalho
busca incessante por progressos técnicos e intelectual de reflexão, de acerto, de
questionamento de problemas específicos da partilha e de elaboração de saberes que
vida contemporânea. se efetua tanto em quantidade como no
O conhecimento assume o lugar de vetor quadro do trabalho imediato de produção.
das inovações e das dinâmicas produtivas do ca- Nesse quadro, o trabalho mensurado com
pitalismo cognitivo (LAZZARATO, 2003). Importa o tempo passado e certificado na empresa
destacar, conforme os autores citados, que o co- frequentemente não é mais do que uma
nhecimento se posiciona como um recurso e não fração do tempo social efetivo do trabalho
como um produto ou uma mercadoria. (VERCELLONE, 2009, p. 12).

É por isso que se pode falar a justo título de A argumentação desenvolvida pelo autor
produção de conhecimentos por conheci- expõe outra importante nuance do capitalismo
mentos, o que traduz e denota a ideia de que cognitivo que é a alteração das relações entre

700 Roberto Rafael Dias da SILVA. Políticas de escolarização e governamentalidade nas tramas do capitalismo...
capital e trabalho. Conforme Vercellone e Negri estão esquecendo que são os saberes vivos que
(2007), tal alteração pode ser lida como uma a mobilizam:
transformação radical, visto que:
uma vez que é o conhecimento que
Ela diz respeito, de uma maneira indissoci- governa o tratamento da informação –
ável, ao modo de produção, à composição informação que será, de outra forma,
de classe sobre o qual se apóia a valoriza- um recurso estéril como é o capital sem
ção do capital e, enfim, às formas de distri- trabalho. (VERCELLONE, NEGRI, 2007, p.2)
buição do rendimento entre salário, renda
e lucro. (VERCELLONE; NEGRI, 2007, p. 1) A partir desse entendimento, os autores
apontam algumas das principais características
Os autores retomam a ideia de que a crise das novas relações entre capital e trabalho.
entre o operário-massa e o trabalho cognitivo, De forma sintética, indicam o privilégio do
característica da atualidade, é comparável à cri- trabalho vivo nas condições de trabalho
se dos anos 1930 que se desencadeou no modo contemporâneas, a desestabilização do modelo
de organização fordista. Entretanto, ao realizar da fábrica, com a consequente emergência da
a leitura das novas relações entre capital e tra- forma empresa, e “a passagem de uma divisão
balho, os autores destacam dois processos. taylorista a uma divisão cognitiva do trabalho”
O primeiro é que, no capitalismo cogni- (VERCELLONE; NEGRI, 2007, p. 4). Assim,
tivo, “o motor essencial da emergência de uma a força de trabalho não é mais alicerçada no
economia fundada no conhecimento se encontra controle do tempo e do espaço, mas baseada
na potência do trabalho vivo” (VERCELLONE; nos saberes e na “capacidade de aprendizagem,
NEGRI, 2007, p. 2). Servindo-se de uma argu- de inovação e de adaptação a uma dinâmica
mentação neomarxiana, os autores procuram de mudança contínua” (VERCELLONE; NEGRI,
mostrar como o trabalho humano do novo ca- 2007, p. 5). Os princípios científicos de
pitalismo, ao tornar-se imaterial, não é submeti- organização da produção, portanto, assumem
do e absorvido pelas condições disciplinares do novas configurações.
regime da fábrica (trabalho morto). Antes disso, Porém, tudo muda quando o trabalho,
o trabalho não era separado do conhecimento, tornando-se sempre mais imaterial e cognitivo,
não era cristalizado em esforço muscular. Ele não pode mais ser reduzido a um simples
permanecia vivo, visto que, mesmo diante de um consumo de energia efetuado em um dado
conjunto de ferramentas técnicas, é a cognição tempo. O velho dilema concernente ao controle
humana que mobiliza a rede. do trabalho reaparece em formas novas.
O segundo argumento, decorrente do
primeiro, é que não são as tecnologias os ele- O capital não somente é tornado dependente
mentos determinantes da mutação do trabalho. do saber dos assalariados, mas deve obter
uma mobilização e uma implicação ativa do
O elemento determinante da atual mutação conjunto dos conhecimentos e dos tempos
do trabalho não pode ser explicado sobre de vida dos assalariados. (VERCELLONE;
a base de um determinismo tecnológico NEGRI, 2007, p. 6)
fundado sobre o lugar central das tecno-
logias da informação e da comunicação. A imaterialização do trabalho produz
(VERCELLONE; NEGRI, 2007, p. 2) novas estratégias a respeito das subjetividades
dos trabalhadores. Na medida em que não
Seguindo a argumentação dos autores, é mais a fábrica o modelo de regulação da
aqueles que defendem a primazia da tecnologia sociedade, é a empresa que assume o status de

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modo de regulação dessa sociedade (DELEUZE, governamentalidade produzidas nas tramas
1992). Talvez a grande diferença entre ambos políticas e econômicas do estágio atual do
os espaços, conforme Moulier-Boutang (2003), desenvolvimento capitalista. Partindo de uma
seja que a fábrica operava a partir da limitação revisão dos modos de constituição das políticas
territorial, pelo confinamento, enquanto a de escolarização produzidas pelo estado
empresa, pela sua fluidez, espalha-se por toda moderno, objetivamos, desde uma inspiração
a sociedade. nos estudos foucaultianos produzidos no final
da década de 1970, caracterizar as diferentes
A empresa não está mais na empresa, ela estratégias reguladoras dos processos de
está em toda parte, imiscuindo-se graças escolarização em massa produzidos desde
à penetração mercantil no conjunto da o século XVIII e diagnosticar os múltiplos
vida e criando assim um novo espaço, deslocamentos nessas pautas políticas na
o ‘território produtivo’. (MOULIER- Contemporaneidade.
BOUTANG, 2003, p. 39) Entendemos que as condições do capi-
talismo cognitivo, tal como esse cenário tem
Dessa forma, não mais se visibiliza uma sido nomeado pelos economistas neomarxis-
“sociedade-fábrica industrial, mas a sociedade- tas italianos, sugerem um cenário no qual o
empresa” (p. 41). conhecimento assume o lugar de vetor das
Essa empresa-sociedade sofistica as inovações e das dinâmicas produtivas, deses-
tecnologias de poder na contemporaneidade, tabilizando o modelo da fábrica e imateriali-
não apenas sobre as subjetividades, mas zando as relações de trabalho. Inúmeras pro-
sobre todo o conjunto da sociedade. O blematizações ainda precisam ser produzidas
italiano Christian Marazzi (2009b) argumenta sobre esses cenários, sobretudo no que se re-
que os novos arranjos de poder dessa fere às concepções de conhecimento, às rela-
sociedade poderiam ser caracterizados como ções entre trabalho e educação e aos sentidos
biocapitalismo, um capitalismo da inovação das novas políticas curriculares mobilizadas
permanente e da flexibilidade. na agenda global.
De toda forma, é possível afirmar que
O biocapitalismo põe a vida no centro do as políticas de escolarização passam a ser
crescimento econômico. A própria vida, movidas por tecnologias otimizadoras que
a vida nua, se torna fonte de valor, ou privilegiam conduzir os sujeitos escolares a
melhor, um mais-valor absoluto que não é estágios elevados de desempenho, assim como
reconhecido pelo capital e, portanto, não é propõem a qualificação de suas performances
pago. (MARAZZI, 2009b, p. 11) nas tramas do contemporâneo. Tal diagnóstico,
com seus diferenciados objetos analíticos e
Para finalizar, reiteramos que o presente abordagens teóricas, pode ser ponto de partida
ensaio pretendeu constituir um diagnóstico para ressignificarmos as pautas investigativas
preliminar das políticas de escolarização e dos estudos críticos em educação.

702 Roberto Rafael Dias da SILVA. Políticas de escolarização e governamentalidade nas tramas do capitalismo...
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Recebido em:05.08.2012

Aprovado em:11.03.2013

Roberto Rafael Dias da Silva é mestre e doutor em Educação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS.
Atualmente é Professor Adjunto na Área de Fundamentos da Educação na Universidade Federal da Fronteira Sul – UFFS.

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