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Anatomia Humana

Autor: Prof. Cassio Marcos Vilicev


Colaboradores: Prof. Flávio Buratti Gonçalves
Profa. Laura Cristina da Cruz Dominciano
Professor conteudista: Cassio Marcos Vilicev

Cassio Marcos Vilicev é graduado em Educação Física pela Universidade de Mogi das Cruzes e em Fisioterapia pela
Universidade Bandeirante de São Paulo. É doutor em Ciências pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia
da Universidade de São Paulo e mestre em Ciências pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São
Paulo. Possui especialização em Educação a Distância pela UNIP e em Didática do Ensino Superior pela Universidade
Sant’Anna (1999). Atualmente, cursa Formação Pedagógica em História pela UNIP (EaD).

Foi professor de Educação Física em escolas e clubes desportivos de São Paulo e no curso de graduação em
Educação Física e Enfermagem do Centro Universitário Santa Rita e das disciplinas Anatomia Humana, Cinesiologia
e Semiologia na UNIP. Atualmente, é professor titular da UNIP nos cursos presenciais de Fisioterapia, Enfermagem,
Nutrição, Farmácia, Biomedicina e Educação Física na modalidade presencial, de Educação Física, Fisioterapia,
Enfermagem, Nutrição, Farmácia e Biomedicina na modalidade EaD e de pós‑graduação.

Foi consultor na elaboração de questões para o Serviço Nacional do Transporte (Sest) e o Serviço Nacional de
Aprendizagem do Transporte (Senat), de Educação Física, junto à Empresa EGaion.

Tem publicado vários trabalhos em diversas áreas das ciências biomédicas, como Anatomia dos Sistemas: Educação
Física e Anatomia dos Sistemas: Enfermagem, entre outros.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

V586a Vilicev, Cassio Marcos.

Anatomia Humana / Cassio Marcos Vilicev. – São Paulo: Editora


Sol, 2019.

396 p., il.

Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e


Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XXV, n. 2-100/19, ISSN 1517-9230.

1. Neuroanatomia. 2. Aparelho cardiorespiratório. 3. Aparelho


reprodutor. I. Título.

CDU 611

U502.92 – 19

© Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou
quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem
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Vice-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa

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Vice-Reitora de Graduação

Unip Interativa – EaD

Profa. Elisabete Brihy


Prof. Marcelo Souza
Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar
Prof. Ivan Daliberto Frugoli

Material Didático – EaD

Comissão editorial:
Dra. Angélica L. Carlini (UNIP)
Dra. Divane Alves da Silva (UNIP)
Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR)
Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT)
Dra. Valéria de Carvalho (UNIP)

Apoio:
Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD
Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos

Projeto gráfico:
Prof. Alexandre Ponzetto

Revisão:
Juliana Muscovick
Lucas Ricardi
Vitor Andrade
Sumário
Anatomia Humana

APRESENTAÇÃO.................................................................................................................................................... 11
INTRODUÇÃO......................................................................................................................................................... 11

Unidade I
1 INTRODUÇÃO À MORFOLOGIA.................................................................................................................... 15
1.1 Período pré‑científico.......................................................................................................................... 16
1.2 Período científico.................................................................................................................................. 17
1.2.1 Mesopotâmia e Egito............................................................................................................................. 17
1.2.2 Grécia Antiga............................................................................................................................................. 18
1.2.3 Roma............................................................................................................................................................. 23
1.2.4 A contribuição do povo islame.......................................................................................................... 27
1.2.5 O Renascimento....................................................................................................................................... 28
1.2.6 As ciências contemporâneas............................................................................................................... 34
1.3 Bases gerais da anatomia.................................................................................................................. 37
1.3.1 Divisão da anatomia: estudos............................................................................................................ 38
1.4 Anatomia sistêmica e topográfica................................................................................................. 43
1.4.1 Anatomia sistêmica................................................................................................................................ 43
1.4.2 Anatomia topográfica............................................................................................................................ 46
1.5 Terminologia anatômica..................................................................................................................... 46
1.6 Conceito de normal e variações anatômicas............................................................................. 47
1.6.1 Fatores gerais de variação anatômica............................................................................................. 48
1.7 Anomalias................................................................................................................................................. 55
1.8 Monstruosidade..................................................................................................................................... 61
1.9 Divisão do organismo humano........................................................................................................ 62
1.10 Posição anatômica............................................................................................................................. 63
1.11 Planos de delimitação do organismo humano....................................................................... 64
1.12 Planos de secção do organismo humano................................................................................. 65
1.13 Termos de posição e direção.......................................................................................................... 67
1.14 Eixos de movimento.......................................................................................................................... 69
1.15 Cavidades corporais........................................................................................................................... 71
1.16 Princípios gerais de construção do organismo humano.................................................... 72
1.16.1 Antimeria.................................................................................................................................................. 72
1.16.2 Metameria................................................................................................................................................ 73
1.16.3 Paquimeria............................................................................................................................................... 74
1.16.4 Segmentação.......................................................................................................................................... 74
1.16.5 Estratimeria ou estratificação.......................................................................................................... 74
2 APARELHO LOCOMOTOR............................................................................................................................... 76
2.1 Osteologia................................................................................................................................................ 78
2.1.1 Os principais papéis do esqueleto e dos ossos............................................................................ 78
2.1.2 Arquitetura óssea..................................................................................................................................... 82
2.1.3 Periósteo e endósteo.............................................................................................................................. 84
2.1.4 Vascularização óssea.............................................................................................................................. 85
2.1.5 Inervação óssea........................................................................................................................................ 85
2.1.6 Morfologia óssea..................................................................................................................................... 86
2.1.7 Características anatômicas de superfície dos ossos.................................................................. 90
2.1.8 Fatores de variação anatômica no número de ossos................................................................ 94
2.1.9 Divisão do esqueleto.............................................................................................................................. 95
2.2 Artrologia................................................................................................................................................113
2.2.1 Articulações fibrosas............................................................................................................................. 115
2.2.2 Articulações cartilagíneas..................................................................................................................119
2.2.3 Articulações sinoviais.......................................................................................................................... 120
2.3 Miologia..................................................................................................................................................125
2.3.1 Tipos de músculos................................................................................................................................ 126
2.3.2 Papéis dos músculos............................................................................................................................ 128
2.3.3 Componentes macroscópicos dos músculos estriados esqueléticos............................... 128
2.3.4 Nomenclatura dos músculos estriados esqueléticos..............................................................131
3 NEUROANATOMIA.........................................................................................................................................140
3.1 Sistema nervoso...................................................................................................................................141
3.2 Introdução à terminologia da neuroanatomia.......................................................................143
3.3 Divisão do SN........................................................................................................................................145
3.3.1 Divisão do SN com base nos critérios anatômicos................................................................. 145
3.3.2 Divisão do SN do ponto de vista funcional............................................................................... 150
3.3.3 Divisão do SN com base na segmentação ou metameria.................................................... 150
3.4 Papéis do SN..........................................................................................................................................154
3.5 Tecido nervoso......................................................................................................................................155
3.5.1 Visão geral dos neurônios................................................................................................................. 156
3.5.2 Classificação dos neurônios............................................................................................................. 158
3.5.3 Sinapses.................................................................................................................................................... 158
3.5.4 Arco reflexo............................................................................................................................................. 159
3.5.5 Neuroglias................................................................................................................................................ 160
3.6 Generalidades sobre o encéfalo....................................................................................................163
3.7 Morfogênese do SN............................................................................................................................166
3.7.1 Da fertilização até a nidação........................................................................................................... 166
3.7.2 Folhetos embrionários........................................................................................................................ 168
3.7.3 Formação do SN.................................................................................................................................... 168
3.8 Anatomia da medula espinal..........................................................................................................171
3.9 Anatomia do bulbo.............................................................................................................................177
3.10 Anatomia da ponte..........................................................................................................................179
3.11 Anatomia do mesencéfalo.............................................................................................................180
3.12 Anatomia do diencéfalo.................................................................................................................183
3.12.1 Tálamo.................................................................................................................................................... 183
3.12.2 Hipotálamo........................................................................................................................................... 186
3.12.3 Epitálamo.............................................................................................................................................. 190
3.12.4 Subtálamo..............................................................................................................................................191
3.13 Anatomia do telencéfalo...............................................................................................................191
3.13.1 Lobos do telencéfalo......................................................................................................................... 192
3.13.2 Núcleos da base.................................................................................................................................. 195
3.14 Anatomia do cerebelo.....................................................................................................................197
3.15 Sistema ventricular..........................................................................................................................198
3.16 Barreiras encefálicas........................................................................................................................201
3.17 A nutrição sanguínea do encéfalo.............................................................................................202
4 SISTEMA NERVOSO AUTÔNOMO E PERIFÉRICO.................................................................................205
4.1 Diferenças anatômicas relevantes entre as partes simpática e
parassimpática do SNA.............................................................................................................................205
4.2 Papéis do SNA.......................................................................................................................................207
4.3 Reações do SNA...................................................................................................................................208
4.4 Sistema nervoso entérico.................................................................................................................210
4.5 Sistema nervoso periférico..............................................................................................................211
4.5.1 Nervos periféricos.................................................................................................................................. 211
4.5.2 Gânglios.....................................................................................................................................................213
4.5.3 Terminações nervosas..........................................................................................................................213

Unidade II
5 APARELHO CARDIORRESPIRATÓRIO.......................................................................................................222
5.1 Coração e vasos de sangue.............................................................................................................222
5.1.1 Volumes e pesos do coração............................................................................................................ 225
5.1.2 Localização do coração...................................................................................................................... 225
5.1.3 Limites do coração............................................................................................................................... 226
5.1.4 Configuração externa do coração.................................................................................................. 227
5.1.5 Configuração interna do coração.................................................................................................. 230
5.1.6 Características morfofuncionais do átrio direito......................................................................231
5.1.7 Características morfofuncionais do átrio esquerdo............................................................... 233
5.1.8 Características morfofuncionais do ventrículo direito.......................................................... 233
5.1.9 Características morfofuncionais do ventrículo esquerdo.................................................... 234
5.1.10 Tipos de circulação do sangue...................................................................................................... 236
5.1.11 Aparelho valvar do coração.............................................................................................................241
5.1.12 Microanatomia.................................................................................................................................... 245
5.1.13 Pericárdio............................................................................................................................................... 246
5.1.14 Características morfofuncionais das artérias e das veias.................................................. 246
5.1.15 Vasos linfáticos, linfonodos, ductos linfáticos e tonsilas................................................... 252
5.2 Sistema respiratório...........................................................................................................................253
5.2.1 Nariz........................................................................................................................................................... 254
5.2.2 Cavidade nasal....................................................................................................................................... 255
5.2.3 Seios paranasais.................................................................................................................................... 258
5.2.4 Faringe....................................................................................................................................................... 260
5.2.5 Laringe....................................................................................................................................................... 263
5.2.6 Traqueia.................................................................................................................................................... 269
5.2.7 Brônquios..................................................................................................................................................271
5.2.8 Pulmões.................................................................................................................................................... 272
5.2.9 Segmentação broncopulmonar...................................................................................................... 274
5.2.10 Pleura...................................................................................................................................................... 274
6 SISTEMAS DIGESTÓRIO E ENDÓCRINO..................................................................................................275
6.1 Sistemas digestório............................................................................................................................275
6.1.1 Parte supradiafragmática.................................................................................................................. 275
6.1.2 Parte infradiafragmática.................................................................................................................... 287
6.2 Sistema endócrino..............................................................................................................................299
6.2.1 Glândulas cefálicas...............................................................................................................................302
6.2.2 Glândulas cervicais............................................................................................................................... 305
6.2.3 Glândula cervicotorácica....................................................................................................................307
6.2.4 Glândula abdominal............................................................................................................................ 309
6.2.5 Glândula abdominopélvica............................................................................................................... 309

Unidade III
7 APARELHO UROGENITAL.............................................................................................................................316
7.1 Sistema urinário...................................................................................................................................316
7.1.1 Rins..............................................................................................................................................................316
7.1.2 Ureteres......................................................................................................................................................319
7.1.3 Bexiga urinária....................................................................................................................................... 320
7.1.4 Uretra..........................................................................................................................................................321
7.2 Sistema genital masculino..............................................................................................................322
7.2.1 Testículos.................................................................................................................................................. 322
7.2.2 Epidídimos............................................................................................................................................... 323
7.2.3 Funículo espermático.......................................................................................................................... 324
7.2.4 Ductos deferentes................................................................................................................................. 324
7.2.5 Escroto....................................................................................................................................................... 324
7.2.6 Glândulas seminais.............................................................................................................................. 325
7.2.7 Ductos ejaculatórios............................................................................................................................ 325
7.2.8 Próstata..................................................................................................................................................... 325
7.2.9 Glândulas bulbouretrais..................................................................................................................... 326
7.2.10 Sêmen..................................................................................................................................................... 326
7.2.11 Pênis......................................................................................................................................................... 327
7.2.12 Ereção...................................................................................................................................................... 328
8 APARELHO REPRODUTOR ..........................................................................................................................329
8.1 Sistema genital feminino.................................................................................................................329
8.1.1 Vagina........................................................................................................................................................ 330
8.1.2 Útero...........................................................................................................................................................331
8.1.3 Tubas uterinas........................................................................................................................................ 333
8.1.4 Ovários...................................................................................................................................................... 334
8.1.5 Orgãos genitais externos................................................................................................................... 335
8.1.6 Mamas....................................................................................................................................................... 336
8.2 Sistema tegumentar...........................................................................................................................339
8.2.1 Pele............................................................................................................................................................. 340
8.2.2 Pelos........................................................................................................................................................... 347
8.2.3 Unhas......................................................................................................................................................... 350
8.2.4 Glândulas................................................................................................................................................. 350
APRESENTAÇÃO

Caro aluno,

Esta disciplina tem como objetivo servir de alicerce e recurso aos alunos que buscam profissões
relacionadas à área da saúde, entre elas farmácia e biomedicina. Preparado para enriquecer os cursos
que abordam anatomia humana, este livro‑texto traz uma introdução indispensável a esse assunto.
O objetivo é beneficiar as informações aplicadas das estruturas anatômicas do organismo humano
e as noções sobre as bases para o aproveitamento de outras disciplinas básicas. Aqui são retratadas
experiências práticas que permitem aos universitários da área da saúde a utilização de episódios
referentes às situações fidedignas nas quais eles poderão se deparar na profissão que optaram.

Inicialmente, abordaremos tópicos como: introdução à morfologia, bases gerais da anatomia, aparelho
locomotor e neuroanatomia. Na sequência, veremos os aspectos anatômicos, funcionais e clínicos do
sistema cardiovascular, do sistema respiratório, do sistema digestório e dos órgãos endócrinos. Por fim,
faremos o estudo dos aparelhos urogenital e reprodutor.

Todas as unidades são acompanhadas de exemplos de aplicação, saiba mais, lembretes e observações,
destaques que facilitam a memorização dos assuntos centrais deste livro. As figuras apresentadas
também auxiliam no esclarecimento das características de cada tema, complementando o aprendizado.

Além disso, está presente uma revisão terminológica, relevante em um livro dessa natureza, que
compreende a versão dos epônimos mais utilizados na clínica médica, protegida tecnicamente pela
terminologia anatômica. Há, ainda, notas explicativas com termos e expressões definidas, o que facilita a
compreensão do texto, mesmo para os principiantes ainda não familiarizados com a terminologia da área.

Escrever um livro demanda não só concentração, mas também uma análise crítica permanente sobre
a filosofia e o conteúdo de anatomia. Portanto, ele foi destinado a facilitar o estudo da anatomia para
alunos da área de saúde.

A ciência moderna traz consigo um conjunto de particularidades que pode ser muito bem figurado
no conhecimento metodológico abordado pelas ciências da natureza, tais como a ideia de neutralidade
científica, o afastamento radical entre sujeito e objeto, a ideia de objetividade e a fragmentação
do saber. Alguns campos de saber concentram como alicerce para seus estudos e influências as teorias
e metodologias tanto das ciências naturais como das ciências humanas. Essa é a conjuntura atual de
cursos da área da saúde, campo multi ou interdisciplinar do saber, que se distingue pelo estudo e pesquisa
com fins de intercessão pedagógica. Portanto, tal área une as teorias e metodologias de diversas outras
ciências que podem ser denominadas disciplinas‑mãe.

INTRODUÇÃO

Os conhecimentos anatômicos são indispensáveis para o profissional da área de saúde, que lida
durante toda sua carreira com o corpo humano. A anatomia humana é o alicerce para a compreensão
de outras disciplinas essenciais, como, por exemplo, a fisiologia, a patologia e a clínica.
11
O aprendizado da anatomia envolve, na maioria das vezes, trabalho árduo, pois os alunos devem
se habituar à terminologia anatômica, bem como às peças anatômicas, que diversas vezes não se
assemelham aos impressos nos atlas de anatomia.

A anatomia humana desde sempre foi influenciada por fatores sociais, políticos, econômicos, religiosos
e por tendências e modismos educacionais. Sua incorporação no estudo da medicina significou a cisão
de uma medicina mística, pouco precisa, para uma medicina objetiva.

Os primeiros registros do estudo e ensino de anatomia remontam à Escola de Alexandria, onde,


segundo os registros de Galeno, teriam sido efetuadas as primeiras dissecações públicas de animais e
corpos humanos.

A etimologia da palavra “dissecar” origina‑se do verbo latino disseco, are, que também se redige
deseco, are, cujo significado é o de cortar dividindo e separando as partes. No grego é escrito aναλúστε
e quer dizer corte, fatia, secção. O substantivo correspondente, desectio, onis traduz‑se por corte, talho.
Dissecare, como termo médico, já foi utilizado por Plínio, no século I d.C. Desectio, onis foi adaptado
para dissección, em espanhol; dissezione, em italiano; e dissecção, em português. Os léxicos da língua
portuguesa têm manifestado dúvida entre dissecção e dissecação. Em Gardner, Gray e Rahilly (1988, p. 3)
lê‑se: “Do ponto de vista etimológico, o termo dissecação: dis – significa separadamente e secare, cortar
é o equivalente latino do grego anatomé”.

A história da anatomia humana, todavia, foi marcada também por estorvos, quando, após a queda
do Império Romano, houve um avanço mínimo em seu desenvolvimento, devido à sobrepujança da
doutrina, filosofia e prática da era autoritária que teve início com a Idade Média. Na primeira metade
do século XVI, surgiram questões religiosas acerca da atividade de dissecar corpos para o aprendizado
e o Papa Bonifácio VII tentou excomungar os anatomistas. Muitos deles chegaram a ser agredidos pela
própria população, exilados ou acusados de forma injusta por práticas desumanas, como a de dissecar
corpos ainda com vida. A dissecação humana foi proibida em diversos locais e quase nenhum estudo de
caráter inovador ou extraordinário foi efetuado na área durante esse período.

Contudo, as dissecações para fins de estudo sempre geraram contestações e pode‑se afirmar que
foi só a partir do século XIV que, na Europa, mais especificamente na Universidade de Bolonha, elas se
tornaram parte do ensino médico sob os auspícios de Mondino de Luzzi. Nessa época, por influência
do movimento escolástico, os estudos e as investigações em anatomia humana fundamentavam‑se,
especialmente, na tradução de obras e tratados anatômicos, sendo a dissecação um método de
averiguação de dados preexistentes.

Apenas no século XVI e em pleno movimento renascentista que Andreas Vesalius publicou a obra
De Humanism Corporis Fabrica. As contribuições de Vesalius ao desenvolvimento da anatomia humana
como ciência são inúmeras. No campo do ensino, destacou‑se sua ardorosa defesa da prática sistemática
da dissecação de animais e de seres humanos; no campo da pesquisa, a inovação de sua sugestão foi
projetar paralelos entre as estruturas corporais humanas e animais, demonstrando as dessemelhanças
entre elas e, por conseguinte, assinalando os deslizes da anatomia galênica que imperava nos principais
livros‑texto usados até então, como, por exemplo, o Anothomia, de Mondino de Luzzi.
12
Outro aspecto considerável da obra de Vesalius foi o uso de figuras que buscavam inserir os
conhecimentos científicos e anatômicos em um contexto natural e social mais extenso, dando de
certa maneira vida aos cadáveres representados, alçando, assim, a figura do anatomista carrasco, até
então considerado um personagem sombrio ligado à morte, ao patamar de profissional socialmente
aceito, especialmente com o começo das dissecações públicas anuais, que se tornavam cada vez mais
frequentes no âmbito europeu. O desenvolvimento da anatomia descritiva teve na figura e na obra de
Vesalius uma época de renovação a partir do qual, paulatinamente, novas estruturas do corpo humano
foram sendo identificadas e/ou nomeadas. Dentre seus alunos destacaram‑se Gabriel Falloppio e Fabricio
d’Acquapendente.

A anatomia descritiva, ao final do século XVIII, já tinha buscado, identificado e descrito grande parte
das estruturas do corpo humano, concedendo lugar, gradualmente, a outras disciplinas que viriam a
constituir as relações entre essas estruturas, como, por exemplo, a fisiologia. A anatomia descritiva
fracassou ao mostrar‑se estática, uma vez que não desvendava as relações entre as estruturas do corpo
humano identificadas, e, seguramente, isso pode ser uma das razões pela qual, no século XIX, com o
surgimento da medicina experimental, a anatomia deixa parte de seu campo de ação para disciplinas
como, por exemplo, a fisiologia e a anatomia patológica. Isso ratificava um novo posicionamento
epistemológico, funcionalista e experimental para os estudos modernos acerca dos condicionantes
do estado normal e patológico do corpo humano. Exemplo disso é o fato de que dentre os nomes
proeminentes da anatomia do século XIX sobressaíram‑se William Sharpey e Henry Gray, ambos célebres
por suas colaborações tanto na organização de algumas das edições do Quain’s Anatomy, quanto na
publicação do Gray’s Anatomy, obras dedicadas ao avanço do conhecimento da anatomia humana por
parte de médicos cirurgiões, cujas atividades foram estimuladas pelo aparecimento da anestesia.

Porém, a história da anatomia não está interligada só à história do ensino e do aprendizado, contudo,
também à história da arte. As dissecações habituavam ser eventos mais de cunho teatral do que letivo,
podendo acontecer dentro ou fora dos terrenos das universidades, nos chamados teatros anatômicos,
visto que a população também admirava acompanhar tais práticas. As personalidades locais eram até
mesmo seduzidas a seguir as dissecações de cadáveres. Em geral, os cirurgiões e os estudantes de medicina
eram obrigados a ver essas demonstrações. A apreensão era em demonstrar onde se encontravam os
órgãos, quais suas interconexões, cores, formas e texturas, ou seja, a anatomia popular.

Lembrete

Dissecção ou dissecação significa a ação de dissecar, separar as partes


de um corpo ou de um órgão. Utiliza‑se tanto na anatomia (dissecação de
um cadáver ou parte desse) como em uma cirurgia (dissecação de uma
artéria ou de uma veia).

13
ANATOMIA HUMANA

Unidade I
1 INTRODUÇÃO À MORFOLOGIA

O trecho a seguir foi retirado da Oração ao Cadáver Desconhecido, de Carl Rokitansky, e é direcionado
aos estudantes de anatomia humana.

Ao te curvares com a rígida lâmina de teu bisturi sobre o cadáver desconhecido,


lembra‑te que este corpo nasceu do amor de duas almas, cresceu embalado
pela fé e pela esperança daquela que em seu seio o agasalhou. Sorriu e
sonhou os mesmos sonhos das crianças e dos jovens. Por certo amou e foi
amado, esperou e acalentou um amanhã feliz e sentiu saudades dos outros
que partiram. Agora jaz na fria lousa, sem que por ele se tivesse derramado
uma lágrima sequer, sem que tivesse uma só prece. Seu nome, só Deus sabe.
Mas o destino inexorável deu‑lhe o poder e a grandeza de servir à humanidade.
A humanidade que por ele passou indiferente (CAPELLI, 2016, p. 4).

A história da anatomia humana é análoga à da medicina. De fato, a preocupação com a estrutura


do corpo humano foi estimulada pelo anseio dos profissionais da área de saúde em esclarecer uma
disfunção orgânica do corpo. Em contrapartida, diversas religiões reprimiram o estudo da anatomia por
meio das restrições atribuídas à dissecação humana e das evidências nas explanações não científicas
para as doenças e fraquezas.

Durante séculos, o interesse inato dos indivíduos em seus próprios corpos e capacidades físicas
se deparou com diversas maneiras de demonstração. Os gregos, por exemplo, estimulavam as provas
atléticas e apregoavam a perfeição do corpo em suas esculturas, conforme ilustra a figura a seguir.

Figura 1 – Discóbolo, de Mirón

15
Unidade I

Do escultor grego Mirón, produzida em torno de 455 a.C., a obra da figura anterior representa
um atleta momentos antes de lançar um disco. Os gregos antigos já tinham o conhecimento do nu
artístico e apreciavam a boa forma física, logo davam destaque ao retratar a musculatura dos corpos,
principalmente o corpo masculino

Posteriormente, muitos dos grandes mestres do Renascimento costumavam retratar na arte


figuras humanas. Alguns destes artistas eram magníficos anatomistas, pois a apreensão deles com
as minúcias pedia que o fossem. Michelangelo foi um desses artistas que captou o luxo da forma
humana em esculturas como David, conforme ilustra a figura a seguir, e em pinturas como as da
Capela Sistina. O estudo da história da anatomia nos auxilia a contemplar a ciência que se tornou tão
importante atualmente.

Figura 2 – David, de Michelangelo

1.1 Período pré‑científico

É possível que um tipo de anatomia comparada prática seja a ciência mais antiga. Os primórdios
do conhecimento anatômico mediante elementos e inscrições datam da pré‑história, então, é possível
deduzir que já nesse período haviam algumas informações anatômicas circulando. Essas informações
foram eternizadas ao longo da história como, por exemplo, por meio de desenhos que representam
partes da anatomia humana encontrados nas montanhas de Tassili n’Ajjer, no Saara argelino, datadas
de aproximadamente 3000 a.C., conforme ilustra a figura a seguir.

16
ANATOMIA HUMANA

Figura 3 – Pinturas rupestres

1.2 Período científico

O período científico se iniciou com os registros de observações anatômicas feitas na antiga


Mesopotâmia em cerca de 3000 a.C., em blocos de argila, por meio da escrita cuneiforme, e continua
até hoje. Obviamente, todas as colaborações do passado para a ciência da anatomia não podem ser
especificadas, contudo, certos indivíduos e culturas tiveram grande impacto, que serão comentados
brevemente nesta unidade.

1.2.1 Mesopotâmia e Egito

Na Mesopotâmia, o olho era a parte constituinte do corpo humano que se expressava para o mundo,
sendo tal fato destacado nas pinturas. Em contrapartida, o tronco permanecia na posição frontal,
enquanto a cabeça, as pernas e os pés encontravam‑se de perfil. As esculturas produzidas não incluíam
muitos detalhes anatômicos, entretanto, demonstravam um corpo sólido.

Já no Antigo Egito o progresso das técnicas de embalsamamento obrigou e motivou o estudo da


anatomia humana. Apesar de suas carências, os médicos egípcios julgavam que o coração era o centro
motor do corpo humano, pois descreviam que o coração falava, batia e pulsava.

Começo do segredo do médico: conhecimento da anatomia do coração. Há


neles vasos (indo) a todos os membros. Quando qualquer médico da deusa
Sekhmet [...], ou qualquer mágico coloca seus dedos na testa, na nuca, ou
nas mãos ou sobre o próprio coração, ou sobre os 2 braços, ou sobre as 2
pernas, ou em qualquer parte do corpo humano, sente qualquer vestígio do
coração, porque os vasos deste vão a todos os territórios do corpo humano
(PAULA, 1962, p. 37).

17
Unidade I

Os grandes discípulos dos egípcios seriam os gregos, que se saciaram nos conhecimentos daqueles
que habitavam as regiões do Nilo desde Hipócrates até Galeno.

Figura 4 – Deusa Sekhmet

1.2.2 Grécia Antiga

Para os gregos o conhecer – o espetáculo, a inteligência – tem prioridade sobre o operar – a ação,
o prático. A propriedade básica do pensamento grego está no dualismo das relações entre a realidade
empírica e um absoluto que a esclareça, na separação entre Deus e o mundo. O resultado desse dualismo
é o irracionalismo, que produz sustentação à serena compreensão grega do mundo e da vida. O mundo
real dos indivíduos depende de Deus, porém, nunca se pode chegar até Ele, porque dele não deriva. Deus
é o absoluto racional, todavia, ele não cuida do mundo e da humanidade, a qual não criou, não distingue
e nem governa. Para os gregos, ela era governada pelo acaso, isto é, pela necessidade irracional. Essa
concepção de mundo era, assim, marcada pelo pessimismo desesperado, razão pela qual foi considerado
como período trágico.

Aristóteles, conforme ilustra a figura a seguir, ao longo da vida escreveu mais de mil obras. Alguns
de seus trabalhos mais relevantes são: História dos Animais, Das Partes dos Animais e A Geração dos
Animais. Nesses trabalhos desenvolveu teorias coesas sobre a geração e a hereditariedade e sugeriu a
anatomia comparada, embora nunca tivesse dissecado um corpo humano.
18
ANATOMIA HUMANA

Figura 5 – Escola de Atenas, de Rafael. O ponto central de fuga fica entre Platão e Aristóteles

Conforme mencionados anteriormente, Aristóteles dá belas descrições de alguns órgãos sob o ponto
de vista da anatomia comparada. Tais descrições foram fortuitamente ilustradas com desenhos, que são as
primeiras figuras anatômicas de que se tem conhecimento. Dentre seus erros anatômicos merece destaque
a sua rejeição em dar grande relevância ao cérebro. A superioridade, segundo ele, reside no coração, sede
também da inteligência, conceito contrário ao da maioria dos médicos escritores de seu período.

Não é de todo incerto que Aristóteles tenha efetuado experimentos sobre o cérebro e observado tal falta de
sensibilidade. Assim, considerou‑o simplesmente um meio para resfriar o coração e impedir seu superaquecimento.
Segundo ele, esse processo de resfriamento era motivado pela secreção da fleuma. Aristóteles era, via de regra,
muito mais fraco em fisiologia do que em anatomia. Portanto, não sabia as diferenças entre artérias e veias, e
cria que as artérias contivessem ar, além de sangue. Por mais de 2 mil anos, a filosofia aristotélica, de forma mais
ou menos modificada, estabeleceu a principal referência intelectual da humanidade.

Segundo Galeno, foi Alcmeão de Crotona, conforme ilustra a figura a seguir, quem escreveu a
primeira obra de anatomia. Ele dissecou a trompas auditivas, os nervos ópticos e o olho, o qual propunha
ser feito de água (oriunda do cérebro e encontrada facilmente ao dissecá‑lo) e fogo (notado quando
o olho é ferido). Assim, sugeriu uma teoria da visão, segundo a qual existiria no olho um fogo interno.

Figura 6 – Busto de Alcmeão datado do séc. XIX

19
Unidade I

Saiba mais

Vários anatomistas imortalizaram seus nomes criando uma série de


epônimos, ou seja, diversas estruturas anatômicas receberam denominações
em homenagem aos primeiros anatomistas que as descreveram. Por exemplo,
o polígono de Willis e a trompa de Eustáquio, as glândulas de Bartholin, o
fundo de saco de Douglas e as trompas de Falópio, essas últimas sendo
as seguintes estruturas anatômicas: as glândulas vestibulares, a escavação
retouterina e as tubas uterinas. Para saber mais sobre o assunto:

BEZERRA, A. J. C.; BEZERRA, R. F. A. Epônimos de uso corrente em


anatomia humana: um glossário para educadores físicos. Revista Brasileira
de Ciência e Movimento, Brasília, v. 8, n. 3, 2000. Disponível em: <https://
portalrevistas.ucb.br/index.php/RBCM/article/view/369/421>. Acesso em:
9 maio 2019.

Alcmaéon considerava o cérebro a sede das sensações e o centro da vida intelectual, informações
essas que mais tarde foram resgatadas na medicina. Todos os órgãos dos sentidos estariam ligados
ao cérebro – o centro da memória e centro do saber. Acreditava‑se também que era no cérebro que o
espermatozoide se originava, a partir dos 14 anos de idade.

Hipócrates, conforme ilustra a figura a seguir, é considerado o pai da medicina ocidental, entretanto,
na área da anatomia nada alcançou de importante, mas foi provavelmente o precursor do estudo da
anatomia constitucional. O médico acreditava que o encéfalo não só estava compreendido nas sensações,
mas seria a sede da inteligência. Ele foi o primeiro a estabelecer uma relação entre o cérebro e a doença
sagrada, a epilepsia.

Figura 7 – Escultura facial de Hipócrates

20
ANATOMIA HUMANA

Embora Hipócrates supostamente tivesse só restrita a orientação em dissecações humanas, ele


foi bem conduzido na afamada teoria humoral de organização do corpo. Por meio dessa teoria eram
identificados quatro humores no corpo e cada um deles era agregado a um órgão em especial: sangue
com o fígado; cólera, ou bile amarela, com a vesícula biliar; fleuma com os pulmões; e melancolia, ou
bile preta, com o baço. Acreditava‑se que um indivíduo teria o equilíbrio dos quatro humores conforme
ilustra a figura a seguir.

Vale notar que os quatro humores ainda hoje fazem parte da linguagem e da clínica médica. Melancolia
é um termo utilizado para descrever depressão ou desânimo de um indivíduo, enquanto “melano”, que
significa preto, alude a um semblante obscuro ou pálido. Cólera é uma patologia intestinal que causa
diarreia e vômito. Fleuma, no interior do sistema respiratório, é sinal de diversas doenças pulmonares.

Cabeça

Pulmão

Alma
SIV
Sangue VE
VD
Fígado Bíle amarela Baço

Membros
inferiores

Figura 8 – Esquema do sistema cardiovascular de acordo com os gregos antigos

Na figura anterior há a presença de dois vasos paralelos oriundos do fígado e do baço, interligados ao
coração, no tórax, aos membros inferiores e à cabeça. No coração, há um poro no septo interventricular
conectando o VD (ventrículo esquerdo) e o VE (ventrículo direito), dois vasos conectados ao VD e um
vaso conectado ao VE vindo dos pulmões. O VD é maior do que o esquerdo, ao passo que o VE é mais
espesso do que o direito. O VD contém sangue, ao passo que o VE é preenchido com ar e bile amarela,
de acordo com o Corpus Hippocraticum.

21
Unidade I

Quando Atenas perdeu sua liberdade, o centro científico passou para Alexandria, no Egito, onde pela
primeira vez a anatomia tornou‑se uma disciplina. Os dois primeiros e maiores professores dela foram
Herófilo e Erasístrato, que iniciaram o chamado período alexandrino da anatomia.

Herófilo, conforme ilustra a figura a seguir, é visto como o “açougueiro de homens”, pois realizava
vivissecção em criminosos da prisão real. Acredita‑se que ele tenha dissecado vários seres humanos,
muitas vezes em demonstrações públicas – “sem dúvida, o melhor método para aprender”, escreveu
Celsius, aprovando (TERÇARIOL, 2018, p.18). Foi ele também que fez a primeira distinção clara entre
as artérias e as veias e ampliou os estudos sobre a pulsação, que considerava um processo ativo das
próprias artérias.

Foi Herófilo definitivamente que reconheceu o cérebro como o órgão central do sistema nervoso e
a sede da inteligência. O médico dividiu os nervos em motores e sensitivos e descreveu as meninges.
Ampliou, ainda, o conhecimento sobre outras partes do cérebro, distinguindo o cérebro, o cerebelo e
o quarto ventrículo. Os termos próstata e duodeno são derivados dos que foram usos por ele. Ele fez
também a primeira descrição dos vasos quilíferos do intestino.

Lembrete

A vivissecção é a dissecação ou operação cirúrgica em animais vivos


para estudo de alguns fenômenos anatômicos e fisiológicos.

Figura 9 – Herófilo, em A Primeira Dissecação, na entrada principal da Nouvelle Faculté de Médecine de Paris

Nouvelle Faculté de Médecine de Paris

Erasístrato, conforme ilustra a figura a seguir, atentava‑se mais pelas funções do corpo humano do
que pela estrutura, e comumente é chamado de pai da fisiologia. O anatomista aperfeiçoou os dados
sobre o cérebro e o cerebelo, considerando tais órgãos como a sede da alma. Dentre suas diversas
descrições determinou a substância cerebral, e não a dura‑máter, como sendo a origem dos nervos
cranianos. Além disso, estabeleceu o cérebro e o cerebelo como órgãos parenquimatosos e descreveu os
ventrículos encefálicos. Juntamente com Herófilo, determinou que o número de giros está relacionado
22
ANATOMIA HUMANA

com a inteligência humana. Era um racionalista e se declarava inimigo de todo misticismo. Teve, ainda,
que usar a ideia de natureza como força externa, que molda os objetivos para os quais o corpo age.
Erasístrato compreendeu a ação dos músculos na produção do movimento e atribuiu o encurtamento
dos músculos à sua distensão pelo espírito animal.

Figura 10 – Erasístrato

Entretanto, o esplendor das descobertas anatomopatológicas de Herófilo e Erasístrato caíram em


infortúnio quando se levantou a suspeita de que escravos e condenados à morte haviam sido dissecados
vivos, após a autorização de Ptolomeu I. Machado de Assis, nos “Contos Alexandrinos”, cita Herófilo na
história de dois filósofos: Stroibus e Pítias.

Tinham sido escalpelados cerca de cinquenta réus, quando chegou à vez de


Stroibus e Pítias. Vieram buscá‑los; eles supuseram que era para a morte
judiciária, e encomendaram‑se aos deuses. De caminho, furtaram uns
figos, e explicaram o caso alegando que era um impulso da fome; adiante,
porém, subtraíram uma flauta, e essa outra ação não a puderam explicar
satisfatoriamente. Todavia, a astúcia do larápio é infinita, e Stroibus, para
justificar a ação, tentou extrair algumas notas do instrumento, enchendo de
compaixão os indivíduos que os viam passar, e não ignoravam a sorte que
iam ter. A notícia desses dois novos delitos foi narrada por Herófilo, e abalou
a todos os seus discípulos (VILICEV, 2002).

Conta‑se que Herófilo e outros anatomistas pretenderam saber se “nervo do furto” residia na palma das
mãos das pessoas. Pelo que se diz, Herófilo dissecou primeiro Stroibus e a seguir Pítias durante oito dias.

1.2.3 Roma

O interesse do Estado em Roma fundamentava‑se em sua arte, que era caracterizada como sendo
objetiva, e para a representação do poder de forma realista esculpiam‑se rostos de autoridades, conforme
ilustra a figura a seguir. Para que os corpos fossem mitificados e divinizados em paredes de casas era
utilizada a pintura mural.

23
Unidade I

Figura 11 – Júlio César

Em muitos aspectos, Roma incluiu os progressos científicos e as bases para a Idade Média.
O questionamento científico perfaz a teoria pela prática durante esse período. Foram realizadas algumas
dissecações de cadáveres humanos, tendendo mais determinar a razão da morte em casos criminais.
A medicina não era preventiva, contudo, confinava‑se, quase sem exceção, ao tratamento de soldados
lesados em combates. Nos últimos tempos da história romana, as leis eram postas evidenciando a
autoridade da Igreja na prática médica. De acordo com as leis romanas, por exemplo, nenhuma gestante
morta poderia ser sepultada sem a retirada do feto do útero de maneira que ele pudesse ser batizado.

Esse é o caso da morte de Aggrippina, mãe de Nero, cuja história gerou um contrassenso na época
pelo viés anti‑Nero que ela apresentava. Nero arquitetou um navio, cujo fundo se abriria quando estivesse
no mar, e Aggripina foi colocada a bordo. Quando o fundo se abriu, ela caiu no mar, contudo, conseguiu
nadar até a margem e, por isso, Nero enviou um assassino para matá‑la. O imperador afirmou que ela
havia tentado assassiná‑lo e depois cometeu suicídio. Suas hipotéticas palavras finais ao assassino quando
estava prestes a matá‑la foram “Ataque meu útero!”, insinuando que ela almejava ver destruída a primeira
parte de seu corpo que tinha gerado um “filho tão abominável”, conforme ilustra a figura a seguir, em uma
associação de ideias entre as palavras de Aggrippina e a xilogravura de Guilherme de Lorris.

Figura 12 – O imperador Nero assistindo a dissecação de sua mãe Aggrippina,


que ainda está viva e tem as mãos amarradas

24
ANATOMIA HUMANA

Considerado o príncipe dos médicos, Galeno, conforme ilustra a figura a seguir, foi uma personagem
fundamental na história da medicina. Como a dissecação humana era abolida na época, ele não dissecava
cadáveres humanos, porém, os humanizava por aproximação, sendo essa talvez a causa de seus erros anatômicos.

Figura 13 – Bustos de Galeno

Galeno utilizava seres humanos para fazer pesquisas, observando feridas profundas ou estudando
cadáveres de indigentes encontrados eventualmente. As principais descrições dele encontram‑se no
campo do sistema nervoso, sistema muscular, sistema cardiovascular, além de ter estudado o esqueleto
humano, conforme ilustra a figura a seguir.

Figura 14 – Desenho dos ossículos da orelha (círculo branco), presente no livro


Ossibus Doctissima et Expertissima Commentaria, de Galeno

25
Unidade I

Galeno descreveu o esterno com sete peças, tanto como as costelas com as quais se articula. Detalha
também a cartilagem tireoide com o nome de O Chondros Thyreoides, semelhante ao escudo cretense.

Em nenhum período da história o status de um homem prevaleceu tão profundamente em uma


ciência como o de Galeno na medicina. Suas inspirações prorrogaram‑se pelos próximos 13 séculos,
passando pela Idade Média e chegando até o século XVI, sendo que as obras de Galeno determinaram
os princípios dos dados anatômicos.

Observação

Era uma obrigação religiosa entre os gregos e os romanos cobrir com


terra qualquer osso humano encontrado por casualidade. Apenas os
condenados e os suicidas poderiam ficar sem enterro. Entre os gregos existia
a crença de que as almas dos mortos haviam de vagar pelas margens Rio
Estige, o rio da imortalidade, até que seus corpos tivessem sido enterrados.

Saiba mais

Para saber mais sobre o surgimento e o desenvolvimento do estudo da


anatomia, leia:

KICKHÖFEL, E. H. P. A lição de anatomia de Andreas Vesalius e a


ciência moderna. Scientiæ Zudia, São Paulo, v. 1, n. 3, p. 389‑404, 2003.
Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid
=S1678‑31662003000300008>. Acesso em: 10 mar. 2019.

ALVES, M. V. A medicina e a arte de representar o corpo e o mundo


através da anatomia. In: CATÁLOGOS BNP. Arte médica e imagem do
corpo: de Hipócrates ao final do século XVII. Lisboa: Biblioteca Nacional de
Portugal, 2010, p. 31‑50. Disponível em: <http://www.fcsh.unl.pt/chc/pdfs/
nature4.pdf>. Acesso em: 10 mar. 2019.

CHEREM, A. J. Medicina e arte: observações para um diálogo


interdisciplinar. Revista Acta Fisiátrica, São Paulo, v. 12, n. 1, p. 26‑32,
2005. Disponível em: <http://www.actafisiatrica.org.br/detalhe_artigo.
asp?id=240>. Acesso em: 10 mar. 2019.

CHIARELLO, M. Sobre o nascimento da ciência moderna: estudo iconográfico


das lições de anatomia de Mondino a Vesalius, Scientiæ Zudia, São Paulo, v. 9, n. 2,
p. 291‑317, 2011. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_
arttext&pid=S1678‑1662011000200004>. Acesso em: 10 mar. 2019.

26
ANATOMIA HUMANA

1.2.4 A contribuição do povo islame

O período entre a morte de Galeno e a primeira tradução de uma obra de material médico no
século XI, ocorrida no Mosteiro de Monte Cassino, no sul da Itália, é o chamado de idade das trevas da
anatomia. Crê‑se que tanto o estilo de vida quanto os sentimentos nutridos pela sociedade medieval em
relação ao corpo humano teriam reduzido a edificação de saberes que abrangeu a anatomia, a medicina
e outras áreas do saber.

Os séculos X e XI foram marcados pelo aumento demográfico associado à expansão territorial


empreendida pelas Cruzadas religiosas, o que possibilitou o renascimento comercial. Com a retomada
das atividades comerciais e a instauração de espaços urbanos, as universidades se multiplicaram com
a finalidade de acatar às necessidades de expandir o conhecimento por parte dos comerciantes no
processo de expansão de seus negócios. Do mesmo modo, a própria maneira de organização social que
nascia clamava por certos serviços, como aqueles relativos à jurisprudência e à medicina.

Em um clima essencialmente escolástico, o ensino das universidades comumente, assim como


o ensino da anatomia, era abalizado nas traduções de textos árabes, como os tratados de Avicena,
conforme ilustra a figura a seguir. Como a observação da natureza ainda era inadvertida nessa época,
não existia instrumentação prática em anatomia.

Figura 15 – Estátua de Avicena

Avicena organizou e sistematizou os saberes de Hipócrates e Galeno, conforme ilustra a figura a


seguir em um compêndio de medicina, considerada uma obra majestosa, conhecida como O Cânone
da Medicina. Ela foi publicada pela primeira vez apenas em 1492 e trata‑se de uma mistura de saberes
médicos islâmicos e gregos. Esse foi o primeiro livro médico a mostrar a reparação de tendões em um
período no qual esse tratamento era equivocadamente contraindicado.

27
Unidade I

Figura 16 – Os três maiores professores de medicina na Antiguidade

1.2.5 O Renascimento

A fase conhecida como Renascimento foi determinada pela vida nova das ciências e teve forte
influência nas grandes universidades europeias localizadas em Bolonha, Salerno, Pádua, Montpellier e
Paris. Apenas no Renascimento seriam aceitos, ainda que com certa cautela e dignidade, os procedimentos
de violação do corpo por meio de estudos de cadáveres.

Com o aumento do mérito na anatomia durante o Renascimento, a aquisição de cadáveres para a


dissecação se tornou um problema grave. Estudantes de medicina cometiam repetidamente a invasão de
sepulturas para saqueá‑las, até que um decreto oficial foi expedido, possibilitando utilizar os corpos
de criminosos executados como espécimes. As aulas de anatomia aconteciam em um teatro anatômico,
conforme ilustra a figura a seguir.

Figura 17 – Vista panorâmica do teatro anatômico de Pádua

28
ANATOMIA HUMANA

O teatro anatômico deveria ser vasto e arejado, com bancos organizados em círculos, como os do
Coliseu romano, possibilitando a acomodação de muitos alunos sem importunar os movimentos do
maestro, o cirurgião. O cadáver era colocado em uma mesa no centro do teatro e os instrumentos em
outra, próxima à primeira. Os professores de anatomia pronunciavam suas aulas de cátedras um pouco
distante de onde estava o cadáver. A frase “Eu não devo tocá‑lo com uma vara de 10 pés” possivelmente
originou‑se durante esse período em menção ao odor de um cadáver em deterioração.

Saiba mais

Para saber mais sobre o teatro anatômico, leia o artigo:

ALVES, E. M. O.; TUBINO, P. Proibições das dissecações anatômicas: fato


ou mito? Jornal Brasileiro de História da Medicina, Brasília, dez. 2017.

Do século XIII ao início do século XVI, os progressos no conhecimento anatômico foram morosos,
fundamentados na contínua revisão e extensão de tratados preexistentes. A anatomia macroscópica
foi privilegiada nessa época, contudo, para seu desenvolvimento foi imprescindível o aperfeiçoamento
das técnicas de observação, dissecação, descrição, ilustração e o gradual refinamento terminológico,
processo para o qual Mondino de Luzzi, conforme ilustra a figura a seguir, é considerado o precursor.

Figura 18 – Xilogravura da aula de anatomia de Mondino

29
Unidade I

Do século XIII ao século XVI, o desenvolvimento da anatomia concentrou‑se no cenário italiano


e ampliou‑se para outros países, em agravo do decreto pontifício propagado em 1300. Sua inserção
enquanto disciplina nas universidades foi regularizada também pelo refinamento das formas de
representação das estruturas corporais concebidas pelo processo de ilustração do corpo, o que se tornou
possível devido à influência do naturalismo na arte italiana.

Assim, artistas como Leonardo da Vinci e Michelangelo estavam entre os primeiros a efetuar o
estudo científico da anatomia humana, devido ao interesse na forma humana. Além disso, a invenção
da impressão tornou os livros facilmente acessíveis e as ilustrações necessárias para anatomia poderiam
naquele momento ser mais facilmente reproduzidas e distribuídas.

A escrita invertida é uma característica das observações de Leonardo da Vinci em seus desenhos.
Canhoto, da Vinci produziu centenas de desenhos anatômicos feitos a partir de dissecações. Suas
contribuições, do ponto de vista anatômico, só podem ser elencadas retrospectivamente, mas a precisão
e a objetividade de suas ilustrações inspiram, ainda hoje, a construção de novos esquemas anatômicos.

Ele ponderou o homem como sendo o centro do universo, distendendo a figura humana em duas
formas geométricas, uma em relação ao quadrado e a outra em relação ao círculo, sendo que a unidade
melodiosa seria dada pelo conjunto. Seu ponto de partida foram os escritos do arquiteto e do engenheiro
militar Marco Vitrúvio, o qual constituíra no século I a.C. a doutrina que relacionava a proporcionalidade
da soberba arquitetura com as do homem de boa adequação, conforme ilustra a figura a seguir.

Figura 19 – O Homem de Vitrúvio

Uma das mais apreciadas imagens plásticas do Renascimento, pintada na Capela Sistina por
Michelangelo entre 1508 e 1512, se apresenta em A Criação de Adão, conforme ilustra a figura a seguir.
Nesse afresco observamos que os membros superiores são simétricos e têm uma composição muito
semelhante, fazendo referência à passagem bíblica “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança”
(Gênesis, 1.27). De tal modo, por meio dessa simetria, Michelangelo insere um equilíbrio entre os dois
lados do afresco, entre a figura divina e a figura humana.
30
ANATOMIA HUMANA

Figura 20 – A Criação de Adão

Saiba mais

Em meio aos afrescos que pintou no teto da Capela Sistina, Michelangelo


espalhou imagens de ossos, nervos, músculos, vísceras, artérias e órgãos
humanos que ficaram escondidos desde 1512 até concluir o trabalho
encomendado pelo Papa Júlio II. Para saber mais sobre o assunto, acesse
o link com o estudo de dois pesquisadores da Unicamp que conseguiram
identificar e decifrar um código criado por Michelangelo para revelar as
peças anatômicas pintadas de forma mascarada nas imagens principais.

LEVY, C. Pesquisadores dissecam lição de anatomia de Michelangelo.


Jornal da Unicamp, Campinas, n. 256, p. 12, 2004. Disponível em: <http://
www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/jornalPDF/ju256pag12.pdf>.
Acesso em: 10 mar. 2019.

Na história da anatomia, o século XVI mostra‑se relevante por conta da obra do anatomista
Andreas Vesalius, considerado o pai da anatomia. No cenário italiano, Vesalius revelou‑se um ferrenho
defensor da técnica da dissecação, que considerava como a única forma de conhecer realmente o corpo
humano. O intuito de sua obra era, a partir da dissecação sistemática de cadáveres, abandonar o caráter
revisionista que prevalecia nas investigações anatômicas. Seu estudo intitulado De Humani Corporis
Fabrica foi concluído em 1543, conforme ilustram as figuras a seguir. O impacto que isso causou se
deveu tanto ao nível de apuração dos detalhes anatômicos compreendidos por suas ilustrações quanto
pela veia artística de sua obra, de caráter tipicamente renascentista, acrescida de influências galênicas,
naturalistas e escolásticas.

31
Unidade I

Figura 21 – De Humani Corporis Fabrica

O grande valor das práticas e das informações preconizadas por Vesalius prosseguiram no século
seguinte, sendo que seus estudos ganharam evidência em telas, como, por exemplo, em Lição de
Anatomia do Dr. Tulp, pintada por Rembrandt em 1632, conforme ilustra a figura a seguir.

32
ANATOMIA HUMANA

Figura 22 – A Lição de Anatomia do Dr. Tulp

Nessa obra, o cadáver é o de Adriaen Adriaansz, conhecido como o Garoto, um deficiente mental, com
grave dismorfismo corporal, com medidas de quase um anão, que após roubar várias vezes foi enforcado.
Personagens ilustres assistiram à dissecação do cadáver de Adriaen, como o anatomista amador e filósofo
René Descartes e o médico inglês Thomas Brown. Reconhecendo que os artistas pós‑renascentistas já não
recorriam às dissecações, embora reconhecessem a importância de tais conhecimentos, é valido enfatizar que
essa aula com sete alunos anatomistas trata‑se apenas de uma demonstração. Portanto, não ocorreu de fato
uma dissecação anatômica e, ainda, a tela contém alguns erros anatômicos, como os descritos a seguir.

• O comprimento do membro superior esquerdo é bem maior do que o direito.

• Os músculos flexores superficiais do antebraço estão originando erradamente do epicôndilo lateral


ao invés do epicôndilo medial, o que sugere o desconhecimento de Rembrandt sobre anatomia,
conforme ilustra a figura a seguir.

• No raio X da pintura, inicialmente a mão direita do cadáver não tinha dedos. Rembrandt pintou‑a
posteriormente com base na mão de outra pessoa. Entretanto, consiste em uma mão delicada,
com unhas bem cortadas, nada lembrando a de um ladrão.

Figura 23 – Detalhe dos tendões bifurcados dos músculos flexores superficial e profundo dos dedos

33
Unidade I

Saiba mais

Para saber mais sobre a história que inspirou o quadro de Rembrandt:

SIEGAL, N. A lição de anatomia. São Paulo: Rocco, 2017.

1.2.6 As ciências contemporâneas

As contribuições para a ciência anatômica durante o século XX não foram tão magníficas quanto
eram no período em que pouco se sabia sobre a estrutura do corpo humano. O estudo da anatomia foi
se aperfeiçoando cada vez mais por meio das especializações e as pesquisas foram se tornando cada vez
mais detalhadas e complexas.

Podemos afirmar que, infelizmente, um ponto negativo do estudo da anatomia ocorreu durante
o período da Segunda Guerra Mundial, quando as polêmicas bioéticas abrangendo as experiências
com seres humanos tomavam corpo com o processo de Nuremberg. Durante o julgamento muitos
anatomistas alemães foram denunciados por utilizarem corpos de vítimas do holocausto para as
pesquisas anatômicas, assim como foram realizadas diversas acusações da presença da suástica nazista
nas páginas de alguns atlas anatômicos do período.

Joseph Mengele talvez tenha sido o cientista mais carniceiro de Hitler, seus experimentos custaram
a vida de cerca de 400 mil pessoas em Auschwitz. Mengele injetou tinta azul em olhos de crianças, uniu
as veias de gêmeos, amputou membros de prisioneiros e dissecou anões vivos em seu laboratório.

“Sou, sem dúvida, o único que conhece por completo a fisiologia humana, porque faço experiências
em homens e não em ratos” (MORAIS, 2011, p. 6). Isso era o que proferia com ar de orgulho Sigmund
Rascher, responsável pelo campo de concentração de Dachau. Lá, ele se utilizava de cobaias humanas
vivas para seus experimentos.

Já o médico da renomada Universidade de Estrasburgo, August Hirt, utilizou cerca de oitenta corpos
em estudos anatômicos para determinação da superioridade do povo ariano.

Para muitos especialistas em anatomia o Atlas Pernkopf, conforme ilustra a figura a seguir, produzido
com base na dissecação de corpos de aproximadamente 1.500 prisioneiros, é o melhor trabalho ilustrado
sobre anatomia humana já efetuado na história. Para outros, trata‑se de um livro questionável e póstumo
que, ao lado de suásticas, traz a seguinte frase: “feliz conjunção de ilustradores brilhantes e corpos de
criminosos executados” (REZENDE, 2019).

34
ANATOMIA HUMANA

Figura 24 – Atlas Pernkopf

A partir de 1977, uma nova técnica de preparação de peças anatômicas foi elaborada. Essa
descoberta foi realizada pelo médico e professor da Universidade de Heidelberg na Alemanha, Gunther
von Hagens, o qual se intitula “Vesalius do século XXI”, que inventou e desenvolveu o processo de
plastinação, conforme ilustra a figura a seguir, uma maneira moderna de mumificação, fazendo com
que os cadáveres tenham uma elevada resistência.

A plastinação é outro aspecto que envolve polêmicas bioéticas, em que espécimes inodoros, secos e
quase eternos estão sendo vastamente utilizados como modelos de anatomia em exposições e faculdades
de medicina. Milhares de pessoas já testemunharam corpos dissecados em uma das exposições de
anatomia pelo mundo e o novo mercado on‑line de espécimes humanos plastinados está aumentando.

Figura 25 – Cadáver plastinado, musculatura e pele

35
Unidade I

A anatomia humana sempre será uma ciência relevante, não só porque aperfeiçoa o entendimento
do funcionamento do corpo humano, mas também por ser fundamental no diagnóstico clínico e no
tratamento das doenças. A anatomia humana já não é mais restrita à observação e à descrição das
estruturas isoladas, ela se ampliou para compreender as complexidades de como o corpo humano age
como um todo integrado. A ciência da anatomia é dinâmica e permanecerá ativa porque os dois aspectos
do corpo humano – estrutura e função – são inseparáveis.

Saiba mais

Para conhecer as novas técnicas de preservação de peças anatômicas,


acesse:

ANDREOLI, A. T. et al. O aprimoramento de técnicas de conservação de


peças anatômicas: a técnica inovadora de plastinação. Revista EPeQ/Fafibe,
Bebedouro, n. 4, p. 81‑85, 2012. Disponível em: <http://www.unifafibe.com.
br/revistasonline/arquivos/revistaepeqfafibe/sumario/24/20112012215831.
pdf>. Acesso em: 10 mar. 2019.

KIM, J. H. Exposição de corpos humanos: o uso de cadáveres como


entretenimento e mercadoria. Mana, Rio de Janeiro, v. 18, n. 2, p. 309‑348,
2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&
pid=S0104‑93132012000200004>. Acesso em: 10 mar. 2019.

Para saber mais sobre os precursores da medicina, o desenvolvimento


dessa disciplina:

GORDON, R. A assustadora história da medicina. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996.

Para saber mais sobre a história da anatomia e conhecer o Museu de


Anatomia UFCSPA:

UFCSPA. Uma breve história da anatomia humana. Porto Alegre:


UFCSPA, [s.d.]. Disponível em: <http://www.ufcspa.edu.br/index.php/
historia‑da‑anatomia‑humana>. Acesso em: 10 mar. 2019.

Para saber mais sobre a história da farmácia cujos conhecimentos estão


atrelados aos conhecimentos anatômicos:

CORTES, G. M. A. et al. História da farmácia sob a ótica anatômica.


Revista Saúde em Movimento, v. 1, n. 1, ano 8. Disponível em: <http://www.
saudeemmovimento.com.br/revista/artigos/cienciasfarmaceuticas/v1n1a8.
pdf>. Acesso em: 28 abr. 2019.

36
ANATOMIA HUMANA

1.3 Bases gerais da anatomia

A anatomia humana é considerada a disciplina mais antiga da medicina, tanto que no começo
ambas se confundiam. Pelo menos no princípio era possível saber anatomia, ou pelo menos ter alguns
conhecimentos anatômicos, para poder praticar a medicina. Desde aquela época começou a ser oportuno
o pensamento nulla medicina sine anatomia, ou seja, não há medicina sem anatomia.

Ramo seco da biologia, ciência dos mortos ou ciência dos fósseis, a anatomia morreu: esses são os
versos cantados por aqueles que julgam desnecessário o estudo da anatomia. Para demonstrar esse
mal, um caso pitoresco ocorreu no Brasil, quando um laureado com prêmio Nobel foi convidado a
fazer conferências científicas e educacionais sobre atualização do currículo médico. O famoso professor,
com toda a autoridade que um ganhador de prêmio Nobel pode ter, brindou a plateia com a seguinte
mimosidade: “uma grande redução no currículo poderia ser feita às custas da anatomia, pois para
conhecer a anatomia dos homens bastaria conhecer a anatomia do rato”.

A grande vantagem que ele antevia era que a dissecação de um mamífero pequeno poderia ser feita
em três dias e não nos três anos necessários para dissecar o homem. Na discussão que se seguiu, um
dos participantes da plateia perguntou: “Se o orador fosse acometido por uma apendicite aguda, ele
escolheria o cirurgião que tivesse dissecado um rato, ou um que tivesse dissecado um cadáver humano?”
O orador fez uma longa pausa e confessou honestamente que ele escolheria o cirurgião que tivesse
estudado anatomia no homem. O professor que fizera a pergunta retomou a palavra e parabenizou o
orador pela sua excelente escolha, acrescentando: “principalmente porque o rato não tem apêndice
vermiforme” (DI DIO, 1998, p. 28).

A anatomia divulga as bases da forma e da estrutura do corpo humano e de seus órgãos. A forma
descreve a morfologia externa do indivíduo, de seus membros e órgãos. A estrutura respeita a organização
interna dos órgãos e de seus componentes nos níveis macroscópico, microscópico, submicroscópico
e molecular; o termo “estrutura” inclui a função. A anatomia determina, ao lado da fisiologia e da
bioquímica, a base para a profilaxia, o diagnóstico, a terapia e a reabilitação de patologias.

Observação

Homeostase é a preservação de um ambiente interno moderadamente


contínuo e adaptado para a sobrevivência das células e dos tecidos do
corpo. Defeitos na preservação das circunstâncias homeostáticas indicam
patologias. Os processos das patologias podem atingir primeiramente um
tecido, um órgão ou um sistema específico, porém, em última instância
conduzirão a modificações de função ou da estrutura das células do corpo.
Algumas patologias podem ser recuperadas pelas defesas corporais, já
outras exigem tratamento. Por exemplo, quando acontece um trauma e
existe sangramento excessivo ou lesão de órgãos internos o tratamento
cirúrgico pode ser indispensável para resgatar a homeostase e impossibilitar
problemas potencialmente letais.
37
Unidade I

1.3.1 Divisão da anatomia: estudos

Além dos aproveitamentos na medicina e das diversas formas de estudo da anatomia, há uma leitura
anatômica nas várias áreas da atividade humana.

Anatomia macroscópica

Refere‑se às estruturas com dimensões maiores do que 1 milímetro, isto é, as estruturas que podem
ser identificadas a olho nu ou com auxílio de uma lupa. A figura a seguir mostra a anatomia macroscópica
de um cadáver conservado com técnica MAR V.

Figura 26 – Métodos del Museo de Anatomía de Rosario

Anatomia microscópica

Parte além das estruturas analisadas a olho nu, que permite uma subdivisão mais detalhada do corpo
humano. Visualiza estruturas com dimensões menores do que 1 milímetro. A anatomia microscópica
divide‑se em citologia, estudo da estrutura e função da célula, e histologia, estudo dos tecidos e
anatomia microscópica dos órgãos.

Lembrete

A anatomia macroscópica estuda as estruturas do corpo humano a olho


nu, enquanto a anatomia microscópica se utiliza de equipamentos como,
por exemplo, os microscópios.

Anatomia artística

A anatomia artística, que se presta ao estudo das proporções dos segmentos naturais do corpo
humano, a configuração exterior, relacionando‑a, principalmente, com ossos e músculos, estática e
dinamicamente para finalidades de escultura e pintura. Como exemplo de anatomia artística temos a

38
ANATOMIA HUMANA

pintura Mona Lisa, conforme ilustra a figura a seguir, também conhecida como Gioconda, a mais notável
e conhecida obra de Leonardo da Vinci.

Figura 27 – Mona Lisa

Anatomia comparativa

A anatomia comparativa compara e inclui os planos estruturais de diferentes representantes do


reino animal e busca regras relacionadas à forma. Outra função dela é o confronto entre seres humanos
e outros animais, com o intuito de encontrar formas homólogas, ou seja, iguais entre as espécies, e as
heterólogas, ou seja, diferentes entre as espécies.

Anatomia do desenvolvimento ou embriologia

A anatomia do desenvolvimento é o estudo do conjunto de episódios que vão da fecundação de


um ovócito secundário por um espermatozoide à formação de um organismo adulto. A gravidez é o
conjunto de episódios que se inicia com a fertilização; prossegue durante a implantação, desenvolvimento
embrionário e desenvolvimento fetal; e, de modo ideal, termina com o nascimento de uma criança, após
aproximadamente entre 38 e 40 semanas depois da última menstruação. As figuras a seguir mostram os
períodos embrionário e fetal, respectivamente.

A fecundação ou fertilização consiste no encontro dos gametas feminino e masculino, ovócito


secundário e espermatozoide, que acontece na ampola da tuba uterina. O período embrionário
corresponde às primeiras nove semanas a partir do dia da fertilização, aquele em que todos os órgãos e
sistemas se formam (organogênese).

39
Unidade I

Orelha
Olho
Nariz
Embrião de 52 dias Membro superior

Cordão umbilical

Membro inferior

Figura 28 – Período embrionário

Orelha

Olho
Nariz

Boca
Feto de 26 semanas Membro superior

Membro inferior

Figura 29 – Período fetal

O período fetal inicia‑se a partir da décima semana pós‑fertilização e vai até o nascimento. Nessa
fase o bebê é chamado de feto e os órgãos já constituídos sofrem um processo de crescimento e
amadurecimento até que apresentem‑se em totais condições de funcionamento no final da gravidez.

Saiba mais

Para saber mais sobre os efeitos da gestação:

TORTORA, G. J.; DERRICKSON, B. Princípios de anatomia e fisiologia.


14. ed. São Paulo: Guanabara‑Koogan, 2016.

GODINHO, J. M. et al. Prevalência de desconfortos musculoesqueléticos no


puerpério. In: CONGRESSO DE PESQUISA E EXTENSÃO DA FACULDADE DA SERRA
GAÚCHA, 2017. Anais – V Congresso de Pesquisa e Extensão da FSG (2017). Caxias
do Sul: Faculdade da Serra Gaúcha, 2017. Disponível em: <http://ojs.fsg.br/index.
php/pesquisaextensao/article/view/2828>. Acesso em: 11 mar. 2019.

40
ANATOMIA HUMANA

Anatomia nepiológica ou nepionatomia

A palavra nepio ou nípio, do grego, e infans, do latim, significa “o que não fala”. Portanto, trata‑se do
estudo da anatomia da primeira infância e constitui‑se de uma ligação entre o estudo da embriologia e
o da anatomia de crianças, adolescentes e adultos jovens.

Anatomia do adulto

Estuda a estrutura do corpo humano após o seu completo desenvolvimento. É subdividida em


masculina (entre 25 e 60 anos de idade) e feminina (entre 21 e 50 anos idade).

Anatomia gerontológica

É o estudo da morfofisiologia do indivíduo idoso (acima de 60 anos de idade). Não deve ser
confundida a anatomia gerontológica, que corresponde ao estudo do idoso normal, com a geriátrica,
pois essa estuda o idoso doente e faz parte, portanto, da anatomia patológica.

Anatomia radiológica

Existem diversas técnicas e procedimentos para obter imagens do corpo humano. Vários tipos de
imagem permitem a observação de estruturas anatômicas no interior do corpo, e são cada vez mais
benéficas para o diagnóstico exato de um amplo espectro de distúrbios anatômicos e fisiológicos. A avó
de todas as técnicas de imagem é a radiografia convencional (com raios X), em utilização desde o final
da década de 1940. As tecnologias de imagem mais modernas, conforme ilustram as figuras a seguir,
não só aperfeiçoaram a capacidade diagnóstica, mas também elevaram o conhecimento da anatomia e
da fisiologia normais.

Figura 30 – Densitometria óssea da região lombar da coluna vertebral

41
Unidade I

Figura 31 – Angiograma de um adulto apresentando obstrução da artéria coronária (seta)

Saiba mais

Para saber mais sobre anatomia seccional e a tecnologia clínica:

MARTINI, F. H.; TIMMONS, M. J.; TALLISTSCH, R. B. Anatomia humana.


Porto Alegre: Artmed, 2009.

Anatomia de superfície

A anatomia de superfície é a anatomia do indivíduo e limita a superfície do corpo humano.


A experiência adquirida durante o estudo anatômico é aplicada aos métodos clássicos do exame clínico.
Esse tipo de anatomia tem um papel de grande relevância nos cursos de investigação clínica.

Seus métodos clássicos de investigação clínica abrangem:

• Inspeção: eficaz para a percepção de mudanças patológicas externas que insinuem a patologia
do paciente ou até aceitem um diagnóstico visual.

• Palpação: percepção pelo tato e que consente a avaliação de alterações estruturais ou


volumétricas, especialmente de órgãos internos, e da sensibilidade à dor de alguma região que
indica processos patológicos.

• Percussão: golpes leves e desferidos pelos dedos sobre a superfície do corpo provocam uma
sonoridade na projeção dos órgãos internos. O som gerado difere, dependendo da consistência

42
ANATOMIA HUMANA

(conteúdo aéreo ou líquido) dos tecidos postos abaixo da pele e provê dados para a avaliação da
posição e da projeção dos órgãos.

• Ausculta: normalmente realizada com o auxílio de um estetoscópio, que permite a percepção de


sons originados pela respiração e pelos batimentos cardíacos e os movimentos intestinais.

• Provas funcionais adicionais: executadas durante o exame do aparelho locomotor e do


sistema nervoso.

1.4 Anatomia sistêmica e topográfica

1.4.1 Anatomia sistêmica

Para os estudantes iniciantes no estudo da anatomia humana é justificável dar ideia da construção
do corpo dos animais, adicionando a espécie humana, comparando‑a a construção de um edifício.
Em linhas gerais, seria a simples relação entre a anatomia e a arquitetura, saindo das unidades como as
menores partes e chegando, por sua agregação progressiva ao todo, corpo e edifício concomitantemente.

A comparação entre a construção de um animal e de um edifício inicia por suas unidades.


As unidades de um edifício são os tijolos e as de um animal, no caso o ser humano, são as biológicas ou
células microscópicas.

Tijolos semelhantes são arranjados de maneira a formar uma parede e células semelhantes de
maneira a formar um tecido. Cada tecido pode ser interpretado como um conjunto de células idênticas
para exercer a mesma função geral.

As paredes são arranjadas de maneira a compor uma sala ou um quarto e os tecidos são agrupados de
maneira a compor um órgão. Cada órgão é interpretado como um instrumento de função, sendo diferenciado
pela origem, sede (situação), forma, estrutura e por suas relações. Além disso, o corpo pode ser chamado
de organismo e sua fábrica, constituída de órgãos, chamada de organização. Os quartos são compostos de
maneira a formar um apartamento e os órgãos estão agrupados para estabelecer um sistema.

Cada sistema é interpretado como um conjunto de órgãos que têm as mesmas origens e estrutura,
cujas funções especiais são unidas para a atuação de funções complexas. Os apartamentos são adjacentes
ou verticalmente superpostos para constituir um edifício e os sistemas estão agrupados de maneira a
formar o organismo.

Lembrete

O estudo do organismo pode ser realizado por sistemas ou regiões.

O organismo é, assim, interpretado como uma união de sistemas (orgânicos), podendo‑se concluir,
com as devidas notas, que a vida básica é a somatória das funções dos sistemas integrados, conforme
43
Unidade I

ilustra a figura a seguir. Por conseguinte, a anatomia sistêmica envolve o estudo indutivo macroscópico
dos sistemas orgânicos analisados separadamente.

Dessa forma, podemos enumerar os seguintes sistemas, do ponto de vista da anatomia sistêmica:
o sistema esquelético, que compreende o estudo dos ossos, das cartilagens, das uniões entre os ossos
e das articulações; o sistema muscular, composto pelos músculos esqueléticos e cutâneos, tendões,
aponeuroses, retináculo e fáscias musculares; o sistema cardiovascular, que abrange o coração,
vasos sanguíneos, vasos linfáticos, baço, timo e linfonodos; o sistema respiratório, constituído pelos
pulmões e as vias aéreas (faringe, laringe, traqueia e brônquios); o sistema digestório, representado
pelo canal alimentar (boca, faringe, esôfago, intestino delgado, intestino grosso, reto e ânus) e órgãos
anexos (glândulas da boca, dentes, língua, fígado, vesícula biliar e pâncreas); o sistema urinário, cujos
constituintes são os rins, os ureteres, a bexiga urinária e a uretra; o sistema genital masculino, composto
pela genitália externa (pênis e escroto) e a genitália interna (testículos, epidídimo, ducto deferente,
ducto ejaculatório, glândula seminal, glândulas bulbouretrais e próstata); o sistema genital feminino,
composto pela genitália externa (vulva ou pudendo) e a genitália interna (ovários, tubas uterinas, útero
e vagina); o sistema nervoso, cujos componentes são o encéfalo, a medula espinal, os nervos, os gânglios
e os órgãos dos sentidos; o sistema tegumentar, representado pelo tegumento (pele), os seus anexos
(unhas, pelos e glândulas) e a tela subcutânea; os órgãos endócrinos, representados pelo conjunto de
órgãos sem ductos, isto é, órgãos de secreção interna.

Átomos

Mitocôndrias
Núcleo
Molécula (DNA)

Célula muscular lisa

Tecido muscular liso

Organismo Bexiga urinária Epitélio


Tecido conectivo
Tecido muscular liso
Tecido conectivo
Rim Parede da bexiga
Bexiga urinária urinária
Uretra
Sistema urinário

Figura 32 – O estudo da anatomia em diferentes escalas

44
ANATOMIA HUMANA

Saiba mais

Para saber mais sobre os sistemas do corpo humano:

TORTORA, G. J.; DERRICKSON, B. Princípios de anatomia e fisiologia.


14. ed. São Paulo: Guanabara‑Koogan, 2016. p. 4-7.

Os aparelhos são formados por grupos de dois ou mais sistemas com funções semelhantes. Assim, temos:

• aparelho ósteo‑articular: formado pelos sistemas esquelético e articular;

• aparelho locomotor: constituído pelos sistemas esquelético, articular e muscular;

• aparelho da nutrição: composto pelos sistemas respiratório, digestório e endócrino;

• o aparelho urogenital: que compreende os sistemas urinário e genital masculino, o aparelho


reprodutor formado pelos sistemas genital masculino, genital feminino e tegumentar;

• aparelho neuroendócrino: constituído pelo sistema nervoso e os órgãos endócrinos;

• aparelho cardiorrespiratório: constituído pelos sistemas cardiovascular e respiratório;

• aparelho gastropulmonar: formado pelos sistemas digestório e respiratório;

• aparelho mastigador: composto pelos músculos, língua e dentes;

• aparelho lacrimal: compreende a glândula lacrimal, saco conjuntival palpebral, papila e os


canalículos lacrimais, saco lacrimal e ducto nasolacrimal;

• aparelho neurossensorial: formado pelo sistema nervoso e os órgãos dos sentidos.

Observação

Assim, vários aparelhos formam o organismo. O reprodutor é


composto pelo sistema tegumentar, além dos sistemas genitais. O sistema
tegumentar está envolvido com a reprodução, pois as mamas pertencem
a esse sistema, sendo que sua justificativa consiste da ejeção de leite
materno, estimulado pela ação do hormônio ocitocina, fornecendo,
assim, alimento para o bebê.

45
Unidade I

1.4.2 Anatomia topográfica

A anatomia topográfica ou regional é o estudo das características anatômicas e das relações entre
os diversos órgãos em cada região do organismo, como, por exemplo, as regiões do crânio e da pelve.

Saiba mais

O filme a seguir narra a história de uma viagem submarina através


do organismo em direção ao cérebro para a realização de uma perigosa
cirurgia. Para derrotar os seres destruidores, a equipe é miniaturizada antes
de começar esta aventura fantástica.

VIAGEM fantástica. Dir. Richard Fleischer. EUA: 20th Century Fox, 1966.
111 minutos.

1.5 Terminologia anatômica

Ao estudar a anatomia, o aluno vai se defrontar com uma variedade de palavras novas, terminologias
usadas para chamar as partes do organismo e dos órgãos. A terminologia anatômica, conforme ilustra a
figura a seguir, é um documento oficial que deve ser cumprido precisamente pelos professores e alunos.

Para facilitar a descrição anatômica, podemos usar abreviaturas. As seguintes estão entre as mais utilizadas
em anatomia : a. – artéria; fasc. – fascículo; lig. – ligamento; m. – músculo; n. – nervo; r. – ramo; v. – veia;
gl. – glândula; aa. – artérias; ligg. – ligamentos; mm. – músculos; nn. – nervos; rr. – ramos; e vv. – veias.

A terminologia anatômica é essencial para a saúde. Os termos são oriundos do latim ou do grego e
são utilizados no mundo todo.

Figura 33 – A importância de um vocabulário correto

46
ANATOMIA HUMANA

1.6 Conceito de normal e variações anatômicas

A observação de um mesmo órgão em indivíduos distintos mostra que apesar de morfologicamente


semelhantes eles não são rigorosamente idênticos. Os órgãos possuem pequenas distinções entre si.
O ponto de vista considerado normal em anatomia é a situação morfológica mais comum. Os outros
órgãos com características um pouco distintas do mais comum, mas que funcionam bem, se chamam
variações anatômicas. Um mesmo órgão, em cada indivíduo possui formas virtuosamente distintas.
É necessário, então, determinar qual desses aspectos é classificado normal. Para que uma característica
anatômica seja classificada como uma variação é preciso levar em conta determinados fatores.

Como exemplo, podemos citar a posição do coração, sendo que ele se encontra em sua maior parte
à esquerda do plano mediano. Nesse caso, não há dano para a função.

As variações anatômicas podem ser internas ou externas. As internas evidentemente são aquelas que
acontecem em órgãos internos, como, por exemplo, as variações na posição e no contorno do estômago
em relação ao tipo constitucional, conforme ilustra a figura a seguir. Já as variações anatômicas externas
são observadas externamente, como, por exemplo, ao considerarmos dois indivíduos, um alto e outro
baixo. Percebemos que funcionalmente um indivíduo de 1,60 metros de altura tem equilíbrio para andar
da mesma maneira que um de 1,70 metros de altura.

A) B) C) D)

Figura 34 – Variações na posição e no contorno do estômago em relação ao tipo constitucional

A forma da tonicidade do estômago, por exemplo, se altera conforme a estrutura muscular de suas
paredes. Os tipos são:

• Estômago hipertônico: paredes musculares contraídas em tempo relativamente maior, portanto,


a sua tonicidade é máxima. Ele é típico na maioria dos indivíduos obesos.

• Estômago ortotônico: tonicidade normal, portanto, considerado dentro da normalidade.

• Estômago hipotônico: tonicidade baixa, mas não ao extremo.

• Estômago atônico: tonicidade das paredes quase nula, sendo que o estômago pode atingir até ao
nível da pelve.

47
Unidade I

Observação

Além das variações anatômicas conhecidas como individuais, o


organismo possui variações pertinentes a fatores gerais de variação
anatômica, como, por exemplo, sexo, idade, raça e biótipo.

1.6.1 Fatores gerais de variação anatômica

Os fatores gerais de variação anatômica são:

Sexo

O dimorfismo sexual é prontamente reconhecível, conforme ilustram as figuras a seguir. Além das
características sexuais secundárias que se desenvolvem na puberdade, como, por exemplo, nas mulheres
a presença de mamas desenvolvidas e pelo corporal escasso. Em contrapartida, nos homens existe o
crescimento do pelo facial e os ombros sendo mais largos do que a pelve. Assim, sabemos que existem
também as diferenças relacionadas ao fator sexo em órgãos não genitais.

Figura 35 – Sexo masculino e feminino

48
ANATOMIA HUMANA

Observação

O popularmente conhecido “gogó”, cujo nome correto é proeminência


laríngea, antes denominada de pomo de Adão (homem, em hebraico) e não
de Eva (mulher, em hebraico) porque se acreditava que ele existisse apenas
no homem (sinal de que a maçã ficou engasgada na garganta por conta do
pecado original). Sabe‑se hoje que a proeminência laríngea é mais comum
no homem, mas há homens (principalmente os gordos) que não a têm e há
mulheres (magras) que a possuem.

Recorrendo à mitologia grega, Hermes era considerado o deus do atletismo e Afrodite a deusa do
amor, do sexo e da beleza. De acordo com o mito, na Grécia teria nascido um menino extremamente
bonito, Hermafrodito, cujo nome deriva da união de Hermes e Afrodite. O menino se transformou
posteriormente em um ser andrógino por haver se unido à ninfa chamada de Salmácia, conforme ilustra
a figura a seguir, representando a fusão dos dois sexos e aquele que não tem gênero definido.

Figura 36 – Hermafrodito e Salmácia

Exames feitos na corredora sul‑africana Caster Semenya durante o Mundial de Berlim em 2009
confirmaram que a atleta é hermafrodita. A fundista não tem ovários e apresenta órgãos sexuais
masculinos internos, que estariam produzindo uma grande quantidade de testosterona.

49
Unidade I

Figura 37 – Caster Semenya

Saiba mais

Para saber mais sobre a diversidade de gênero no esporte:

LAGUNA, M. Além de Tifanny, outros casos de diversidade de


gênero no esporte. Veja on‑line, São Paulo, 12 jan. 2018. Disponível em:
<https://veja.abril.com.br/esporte/alem‑de‑tifanny‑outros‑casos‑de‑
diversidade‑de‑genero‑no‑esporte/>. Acesso em: 11 abr. 2019.

Idade

Observam‑se alterações anatômicas com o avançar da idade, nos vários períodos ou fases da vida
intrauterina e extrauterina. As fases de vida intrauterina são: ovo, embrião e feto; na extrauterina
os períodos principais são os seguintes: recém‑nascido e período neonatal, infância, meninice,
pré‑puberdade, puberdade, pós‑puberdade, virilidade, velhice e senilidade.

Em cada uma destas fases, o organismo possui aspectos próprios, como, por exemplo, a pele das
crianças é mais fina do que a dos adultos. Portanto, sabemos que os idosos têm como características
rugas faciais decorrentes do ressecamento geral da pele, conforme ilustra a figura a seguir.

50
ANATOMIA HUMANA

Figura 38 – O envelhecimento da pele resulta em perda da elasticidade e o aparecimento de rugas

Raça

A raça (grupo étnico), em um sentido amplo, refere‑se a um grupo de indivíduos que obedecem a uma
divisão da espécie humana. Em sentido restrito, raça é um grupo de indivíduos que apresentam características
particulares em comum devido a uma descendência. Portanto, abrangem os grandes grupos raciais (branco,
negro e amarelo) e os seus graus de mestiçagem, responsáveis por diferenças morfológicas externas e internas.
Os humanos são os únicos membros vivos da família dos hominídeos. O homo sapiens está incluído dentro
desta família, à qual pertencem todas as variedades ou grupos étnicos de humanos, conforme ilustra a seguir.

Assim, há diferenças raciais em órgãos em todos os sistemas, além das bem conhecidas características
morfológicas externas que diferenciam cada grupo racial. Possuem algumas características anatômicas
diferentes entre si e próprias de cada grupo racial, como, por exemplo, as cores da pele, dos cabelos e
dos olhos, os tipos de cabelo e nariz.

(A) (B) (C) (D)

(E) (F)

Figura 39 – Principais raças humanas: (A) mongoloide (Tailândia), (B) caucasoide (norte da Europa), (C) negroide (África), (D) povo do
subcontinente indiano (Nepal), (E) capoide (boximane do Kalahari) e (F) australoide (homem de Ngatatjara, oeste da Austrália)

51
Unidade I

Frequentemente, estudos que usam populações são questionados quanto à homogeneidade de


suas amostras em relação à raça e etnia. Esses questionamentos procedem, pois a heterogeneidade
amostral pode elevar a variabilidade dos resultados e mascará‑los. Esses dois conceitos (raça e etnia)
são confundidos inúmeras vezes, mas existem diferenças sutis entre ambos: raça engloba características
fenotípicas, como, por exemplo, a cor da pele; etnia também compreende fatores culturais, como, por
exemplo, a nacionalidade, a afiliação tribal, a religião, a língua e as tradições de um determinado grupo.
Sobre a ampla utilização do termo “raça”, cresce entre os geneticistas a definição de que raça é um
conceito social, muito mais que científico.

Saiba mais

Para saber mais sobre a diferença entre raça e etnia:

SANTOS, D. J. S. et al. Raça versus etnia: diferenciar para melhor aplicar.


Dental Press J Orthod, [s.l.], v. 15, n. 3, maio/jun. 2010. Disponível em: <http://
www.scielo.br/pdf/dpjo/v15n3/15.pdf/>. Acesso em: 11 mar. 2019.

Biótipo

Essa característica refere‑se ao tipo constitucional, que são subdivididos em dois tipos extremos
constitucionais em que as diferenças anatômicas são mais óbvias: os longilíneos e brevilíneos.
Os indivíduos longilíneos são altos, magros com pescoço longo e membros compridos em relação ao
tronco. Os indivíduos brevilíneos são baixos, gordos com pescoço curto e membros curtos em relação
ao tronco. Entre esses estão os indivíduos mediolíneos, que não devem ser chamados de normolíneos,
porque são tão normais quanto os dois outros tipos.

Evolução

O ancestral da linhagem humana era seu primata das savanas que não andava bem ereto. Portanto,
a posição bípede se tornou típica de nossos ancestrais e acabou sendo a responsável por uma série de
características nossas mais essenciais. Além disso, entre os últimos 500 mil e 200 mil anos, nosso cérebro
sofreu um crescimento considerável em volume. A estrutura do cérebro também vinha mudando e
caracterizava‑se por ter uma área motora e uma área da fala. Um cérebro maior parecia estar associado
a uma crescente habilidade em utilizar as mãos e os braços e ao aparecimento de uma linguagem falada.
Tais fatos conduziram esses indivíduos ao consumo cada vez maior de carne na alimentação. Então, é
possível que com o decorrer do tempo os ácidos graxos encontrados na carne tenham requintado o
cérebro e provavelmente seu funcionamento.

É por isso que os humanos são englobados junto com os macacos em um mesmo grupo zoológico, que
é a ordem dos primatas. Porém, é evidente que nem em tudo sejam semelhantes. Assim, a comparação
dos humanos com os chimpanzés revela que aqueles:

52
ANATOMIA HUMANA

• São mais adaptados à vida terrestre.

• O encéfalo é três vezes maior do que um chimpanzé. Certas regiões extremamente especializadas e
certas estruturas no interior do encéfalo são responsáveis pelas emoções, pensamentos, raciocínio,
memória e até mesmo precisa coordenação de movimentos.

• As pernas são mais longas e mais fortes do que os braços.

• A região lombar da coluna ostenta uma curvatura que desloca o centro de equilíbrio para trás,
dessa maneira a massa corporal é posta diretamente sobre a pelve e os membros inferiores.
A coluna dos chimpanzés, ao contrário, é reta ou curvada uniformemente.

• O ílio é largo, proporcionando uma grande área para a fixação dos músculos glúteos e dos demais
músculos que os mantêm eretos.

• Os fêmures acompanham a linha média do corpo, de maneira que os pés ficam diretamente sob
o centro de gravidade, melhorando o equilíbrio na vertical.

• Os dentes e maxilares são menos maciços.

• Os olhos são dirigidos para adiante, de forma que quando focaliza um objeto ele é visto sob dois
ângulos. A visão estereoscópica dá a percepção de profundidade ou imagem tridimensional.

• O dedo polegar é estruturalmente adaptado para agarrar objetos com bastante versatilidade.
A articulação selar da base do dedo polegar possibilita uma grande amplitude de movimentos,
conforme ilustra a figura a seguir. Todos os primatas apresentam dedos polegares em oposição.

Creek

Tarsier (lêmur) Humano


Aye-Aye (lêmur)
Gorila

Figura 40 – O dedo polegar em oposição possibilita uma pega em pressão, característica dos primatas

53
Unidade I

Saiba mais

Desde o surgimento da espécie humana, o homem procura elementos


que possam ser usados como medicamento. Porém isto aconteceu de
forma morosa e gradativa, reconhecendo ao longo dos milênios o que era
medicamento ou veneno. A história da farmácia se confunde, em seu estágio
inicial, com o nascimento e desenvolvimento da própria humanidade. Para
saber mais sobre o assunto:

GALLETTO, R. História da farmácia: do surgimento da espécie humana


ao fim da Antiguidade Clássica. Revista Uningá, Maringá, v. 10, n. 1,
2017. Disponível em: <http://revista.uninga.br/index.php/uninga/article/
view/515/174>. Acesso em: 13 maio 2019.

Meio ambiente

O meio ambiente em que se vive pode ser responsável, direta ou indiretamente, por diferenças
morfológicas e, portanto, variações anatômicas, por meio do controle que pode gerar nos indivíduos.
Essas alterações são claras quando se confrontam indivíduos que residem nas regiões equatorial,
tropical e polar.

Biorritmos

Consiste no evento cíclico de atividades biológicas, ou seja, a alternância periódica de situações


diversas em seres humanos e em outros animais. Um exemplo disso é a variação biológica circadiana
circa (latim), cerca ou aproximadamente; dies, dia, é um ritmo periódico com um ciclo de cerca 24
horas, empregado à repetição rítmica de determinados fenômenos que acontecem em seres vivos
aproximadamente no mesmo tempo cada dia, como, por exemplo, na glândula pineal de animais.

Observação

Em torno das 19 horas, quando a luminosidade natural do dia é reduzida,


a retina envia uma mensagem para o hipotálamo de que escureceu.
A mensagem chega ao “relógio biológico”, que fica na parte anterior do
hipotálamo. Esse é o sinal para o relógio processar o botão de liga e desliga
(apelidado de sleep switch, interruptor do sono, em inglês). O relógio
comunica a glândula pineal para iniciar e liberar a produção do hormônio
melatonina, que facilita o começo do sono. Como a produção demora cerca
de duas horas para atingir a seu ápice, o melhor horário para ir para a
cama é a partir das 21 horas ou 22 horas. O botão também ativa outros
mecanismos relacionados ao acúmulo de cansaço, avisando que chegou
54
ANATOMIA HUMANA

o período de descansar O botão de liga e desliga do sono nada mais é do


que um aglomerado de células chamadas sonogênicas, que localizam‑se
na parte anterior do hipotálamo. Elas se conectam com outras células que
estão na parte posterior do hipotálamo, cuja função é contrária, ou seja,
a de manter o corpo desperto. Enviando uma mensagem química, elas
avisam que é chegada a hora de dormir.

Gravidade

Gravitação é o fenômeno de atração entre corpos de grande massa. Os seres humanos estão
subordinados a ela, ainda que seu controle passe, em geral, despercebido. A força da gravidade se
cumpre pelo peso que o corpo deve suportar, como, por exemplo, quando o corpo está na posição
vertical, ortostática ou ereta sobre as plantas dos pés; ou quando está deitado, em decúbito dorsal, sobre
as regiões occipital, posterior do tórax, as nádegas, as regiões posteriores da coxa e poplítea, a parte
posterior da perna e do calcanhar.

A ausência de gravidade (weightlessness) que existe nos veículos espaciais produz em astronautas,
como já foi comprovado após viagens espaciais, alterações na arquitetura óssea, que estão sujeitas da
falta de estímulos.

Esportes

A prática de exercícios físicos gera variações anatômicas que são com facilidade observadas. Elas
podem ser elucidadas nos tenistas e nos esgrimistas, que se valem de um só membro superior, nos quais
é possível notar sua preferência pela hipertrofia dos músculos dessa extremidade superior, gerando uma
maior e mais clara assimetria bilateral.

Trabalho

Os movimentos executados por trabalhadores, especialmente em profissões não sedentárias, são


responsáveis devido a sua repetição, por alterações morfológicas, mais comumente localizadas do que
generalizadas no organismo.

1.7 Anomalias

Anomalia pode ser definida como qualquer modificação morfológica que causa dano funcional
ao indivíduo, mas compatível com a vida. A maioria das anomalias é congênita. Contudo, algumas
são adquiridas por causa de patologias graves contraídas durante o desenvolvimento do indivíduo,
ou devido ao tipo ou à natureza do trabalho desenvolvido. Como exemplo de anomalias, temos as do
crânio, as craniossinostoses, que consistem no fechamento prematuro das suturas cranianas, entre
elas a escafocefalia, caracterizada pelo fechamento prematuro da sutura sagital, conforme ilustra a
figura a seguir.

55
Unidade I

Figura 41 – Escafocefalia, sinostose sagital isolada (aumento do diâmetro anteroposterior)

Dentre as anomalias da face está a fissura labiopalatal ou lábio leporino, conforme ilustra a figura a
seguir, que consiste na fissura do lábio superior semelhante ao de um coelho ou lebre. Já nas anomalias
da coluna vertebral, se encontram a hipercifose, hiperlordose e a escoliose.

Figura 42 – Fissura labiopalatal

Dentre as anomalias do tórax estão o tórax em funil, ou tórax de sapateiro, e o tórax em


quilha, ou tipo peito de pombo, conforme ilustram as figuras a seguir, desenvolvido em pacientes
portadores de asma.

56
ANATOMIA HUMANA

Figura 43 – Pectus excavatum simétrico agudo

Figura 44 – Pectus carinatum superior

Os membros superiores e inferiores são acometidos por anomalias como:

• focomelia, que consiste no membro reduzido do segmento distal e implantado no tronco;

57
Unidade I

• sindactilia, condição na qual dois ou mais dedos estão fusionados conforme ilustra a figura
a seguir.

Figura 45 – Sindactilia

• polidactilia, conforme ilustra a figura a seguir, ou seja, dedos extranumerários.

Figura 46 – Polidactilia

58
ANATOMIA HUMANA

• talipe ou pé torto, conforme ilustra a figura a seguir.

Figura 47 – Talipe

• anomalias no sistema nervoso, como a microcefalia, situação em que o cérebro permanece


anormalmente pequeno.

Observação

A transmissão vertical do Zika vírus (da gestante para o bebê) ainda é


uma hipótese, pois ainda não existem indícios científicos aceitáveis que
confirmam que o ele pode ser transmitido da mãe para o feto. O vírus de
fato já foi encontrado no líquido amniótico e no encéfalo de alguns fetos,
sugerindo a microcefalia. Provavelmente, o vírus afeta o desenvolvimento
do sistema nervoso central a partir da vesícula encefálica primordial
conhecida como prosencéfalo, que posteriormente vão formar o telencéfalo
e o diencéfalo, sendo essas regiões do cérebro.

Por fim, as anomalias do aparelho reprodutor estão relacionadas aos indivíduos hermafroditas, é a
polimastia, ou seja, mamas extranumerárias e a presença de pênis duplo, conforme ilustra a figura a seguir.

59
Unidade I

Figura 48 – Pênis duplo

Saiba mais

Para saber mais sobre os diferentes tipos de anomalias congênitas:

COELHO, M. S.; GUIMARÃES, P. S. F. Pectus carinatum. Jornal


Brasileiro de Pneumologia, Brasília, v. 33, n. 4, p. 463‑474, 2007.
Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid
=S1806‑37132007000400017>. Acesso em: 11 mar. 2019.

___. Pectus excavatum: abordagem terapêutica. Revista do Colégio


Brasileiro de Cirurgiões, Rio de Janeiro, v. 34, n. 6, p. 412‑427, 2007.
Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100‑69912007000
600011&script=sci_arttext>. Acesso em: 11 mar. 2019.

SILVEIRA, A. R. J. et al. Talidomida: um fantasma do passado – esperança


do futuro. Revista Virtual de Iniciação Acadêmica da UFPA, Belém, v. 1,
n. 2, 2001, p. 1‑15. Disponível em: <www.cultura.ufpa.br/rcientifica/ed_
anteriores/pdf/ed_02_arjs.pdf>. Acesso em: 11 mar. 2019.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA. Microcefalia e zika vírus:


tudo sobre o caso que colocou o Brasil em alerta. Boletim da SBI, São Paulo,
n. 52, p. 3‑5, 2015. Disponível em: <http://itarget.com.br/newclients/sbi/
newsletter/01‑11‑15/sbi.pdf>. Acesso em: 11 mar. 2019.

TRAD, C. S.; ROSIQUE, R. G. Craniossinostoses primárias: ensaio


iconográfico. Revista de Radiologia Brasileira, São Paulo, v. 38, n. 5, p. 377‑380,
2005. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi
d=S0100‑39842005000500013>. Acesso em: 11 mar. 2019.
60
ANATOMIA HUMANA

1.8 Monstruosidade

Monstruosidade é uma modificação morfológica muito ampla, a ponto de causar intensas


perturbações na construção corpórea do indivíduo, sendo em geral incompatível com a vida.

Além de doenças e hábitos deletérios, como o tabagismo e o alcoolismo, que atingem a gestação e
os fetos, a própria medicina pode originar anomalias e monstruosidades. Exemplo típico de iatrogênese,
ou seja, monstruosidade gerada por agentes terapêuticos, é o da talidomida. No final da década de
1950 e no início da de 1960, na Europa ela era receitada para aliviar as náuseas matutinas de mulheres
gestantes, especialmente as primigestas, a talidomida.

Hoje a talidomida é utilizada com sucesso para aliviar fortes dores agregadas a reações de lepra aguda.
No entanto, a talidomida não deve ser utilizada quando a gestação estiver em curso ou for planejada.

Com o progresso atual da medicina, em especial das técnicas cirúrgicas, alguns tipos de deformações
graves podem ser corrigidos cirurgicamente, com sobrevida do indivíduo, como, no caso dos xifópagos
(gêmeos conectados pelo abdome, os irmãos siameses), conforme ilustra a figura a seguir.

Figura 49 – Xifópagos

Um outro exemplo de monstruosidade é a anencefalia (ausência de cérebro), conforme ilustra a


figura a seguir, e o ciclope.

61
Unidade I

Figura 50 – Anencefalia

Saiba mais

Para saber mais sobre a experiência intrigante de um médico ao realizar


uma cirurgia de grande risco de separação de gêmeos siameses:

MÃOS talentosas (a história de Benjamin Carson). Dir. Thomas Carter.


EUA: Sony Pictures Television, 2009. 90 minutos.

1.9 Divisão do organismo humano

O organismo humano divide‑se em cabeça, pescoço, tronco e membros, conforme ilustra a figura a
seguir. A cabeça corresponde à extremidade superior do corpo e encontra‑se unida ao tronco por uma
parte estreitada, o pescoço. No pescoço encontram‑se órgãos como a laringe, a glândula tireoide, as
glândulas paratireoides, parte da traqueia e o esôfago.

O tronco abrange o tórax e o abdome com as referentes cavidades torácica e abdominal separadas
entre si pelo diafragma. A região do corpo entre o pescoço e o abdome é habitualmente reconhecida
como tórax. O abdome se encontra abaixo do tórax. Centralizado na frente do abdome, o umbigo é um
evidente ponto de reparo. A cavidade abdominal estende‑se inferiormente na cavidade pélvica.

62
ANATOMIA HUMANA

Dos membros, dois são superiores e dois inferiores. Cada um tem uma raiz, pela qual está unida ao
tronco e uma parte livre. Na transição entre o braço e o antebraço há o cotovelo; entre o antebraço e a
mão, o punho; entre a coxa e a perna, o joelho; entre a perna e o pé, o tornozelo.

Cabeça

Pescoço

Tórax Braço
Membros
Tronco superiores

Antebraço
Abdome

Mão

Coxa

Membros
Perna inferiores

Figura 51 – Segmentos do organismo

1.10 Posição anatômica

Nessa posição, o indivíduo é observado de pé e ereto, com os membros superiores caídos naturalmente,
próximos ao corpo, de cada lado do tronco. O olhar fixo é voltado horizontalmente para frente, assim
como as palmas das mãos com os dedos justapostos. Os membros inferiores igualmente aos superiores
permanecem unidos, com os pés paralelos, e as pontas dos dedos do pé também voltados para frente,
conforme ilustra a figura a seguir.

63
Unidade I

Figura 52 – Posição anatômica

1.11 Planos de delimitação do organismo humano

Na posição anatômica o organismo humano pode ser delimitado por planos tangentes à sua
superfície, os quais, com suas intersecções, geram a constituição de um sólido geométrico, um
paralelepípedo, conforme ilustra a figura a seguir. Apresenta‑se, assim, para as faces desse sólido,
os que se seguem planos correspondentes, sendo eles dois planos verticais, um tangente ao ventre,
plano ventral ou anterior; e outro ao dorso, plano dorsal ou posterior. Esses e outros paralelos a eles
também são denominados como planos frontais, por serem paralelos à fronte. A denominação ventral
e a denominação dorsal são destinadas ao tronco, enquanto a anterior e a posterior aos membros. Os
dois planos verticais tangentes aos lados do corpo são chamados de planos laterais direito e esquerdo.
Os dois planos horizontais, um tangente à cabeça, é chamado de plano cranial ou superior; e o outro à
planta dos pés é chamado plano podálico (podos, pé) ou, ainda, inferior. O tronco separado é limitado
inferiormente pelo plano que incide pelo vértice do cóccix, ou seja, o osso que no homem é o vestígio
da cauda de outros animais. Por essa razão, é chamado caudal.

Os planos auxiliam na referência para a utilização de termos de posição e direção, ao localizar os


órgãos e denominar suas partes.

64
ANATOMIA HUMANA

Figura 53 – Planos de delimitação do organismo humano

1.12 Planos de secção do organismo humano

O plano que separa o organismo humano em metades direita e esquerda é chamado de plano
mediano, conforme ilustra a figura a seguir. Todo corte do corpo produzido por planos paralelos
ao plano mediano é uma secção sagital, ou seja, corte sagital, e os planos de secção são também
chamados de sagitais. O nome resulta do fato de que o plano mediano incide pela sagitta (do latim
seta) do crânio fetal.

Figura 54 – Plano mediano

65
Unidade I

Os planos de cortes que são paralelos aos planos ventral e dorsal são chamados frontais. Os frontais,
conforme ilustra a figura a seguir, são planos verticais que incidem também da cabeça aos pés, porém,
que estão em ângulos retos com o plano sagital. Mesmo que somente um deles incida perto pela
sutura coronal do crânio, eles admitem também a designação de planos coronais. Todo corte é também
chamado frontal ou secção frontal.

Figura 55 – Plano coronal

Os planos transversais ou horizontais, conforme ilustra a figura a seguir, também são planos de
cortes que incidem transversalmente no organismo humano em ângulos retos, com ambos os planos
sagital e frontal. O corte é chamado de transversal ou secção transversal.

Figura 56 – Plano transversal

66
ANATOMIA HUMANA

Lembrete

Para a descrição da posição anatômica e a situação dos órgãos, é


necessário: imaginar o organismo sempre em uma mesma posição (a anatômica)
e utilizar os planos de delimitação e secção.

Para se sustentar equilibrado, o organismo humano também assume determinadas posições com
relação aos planos anatômicos, são elas:

• Ereto: posição em pé, na vertical.

• Supino: posição em decúbito dorsal, ou seja, a região das costas para baixo e face para cima.

• Decúbito ventral: posição contrária ao supino, ou seja, a região do abdome e face para baixo.

• Decúbito lateral: posição deitado lateralmente sobre o lado esquerdo ou direito.

Saiba mais

Para saber mais o assunto pelo viés da história, arte e literatura:

WILLIAMS, H. A. Anatomias: uma história cultural do corpo humano.


Rio de Janeiro: Record, 2016.

1.13 Termos de posição e direção

Os termos de posição e direção são utilizados para encontrar as estruturas e as regiões do organismo
humano, concernentes à posição anatômica.

O termo proximal é região dos membros mais próxima à raiz do membro, como, por exemplo, o
joelho é proximal ao pé, enquanto o termo distal é a região dos membros mais distante da origem,
como, por exemplo, a mão é distal ao cotovelo.

O termo anterior é aquele que está à frente de uma região ou estrutura do organismo humano,
como, por exemplo, o umbigo está no lado anterior do corpo. Já o termo posterior refere‑se ao dorso de
uma região ou estrutura do organismo humano, como, por exemplo, os rins são órgãos posteriores em
relação aos intestinos.

O termo superior é a região ou estrutura próxima, ou em direção à cabeça, como, por exemplo, o
tórax é superior ao abdome. Já o termo inferior é a região ou estrutura do organismo humano localizado
próximo ou em direção aos pés, como, por exemplo, as pernas são inferiores ao tronco.
67
Unidade I

O termo medial é a região do organismo humano ou estrutura mais próxima ao plano mediano,
como, por exemplo, o coração é medial em relação aos pulmões. O termo lateral é a região ou estrutura
do organismo humano mais afastado do plano mediano, como, por exemplo, as orelhas são laterais
ao nariz.

Os termos interno e externo são utilizados para descrever a distância relativa de uma estrutura do
centro de um órgão ou de uma cavidade, como, por exemplo, a artéria carótida interna é situada dentro
da cavidade do crânio e a artéria carótida externa é situada fora da cavidade do crânio.

O termo ipsilateral refere‑se ao mesmo lado do corpo, como, por exemplo, a mão e o pé esquerdos
são ipsilaterais. O termo contralateral refere‑se aos lados opostos do corpo, como, por exemplo, os
músculos bíceps do braço esquerdo e reto femoral da coxa direita são contralaterais.

O termo superficial é usado para a estrutura localizada mais próxima à superfície corpórea, como, por
exemplo, a pele é superficial em relação aos ossos. O termo profundo é usado para a estrutura localizada
internamente ao corpo, longe da superfície, como, por exemplo, o músculo masseter é profundo em
relação à pele.

O termo mediano refere‑se à estrutura que coincide com o plano mediano, como, por exemplo,
o nariz.

A seguir estão alguns exemplos de utilização dos termos de posição e direção, conforme ilustram
as figuras.

C
B

Figura 57 – Termos de posição e direção

68
ANATOMIA HUMANA

Figura 58 – Termos de posição e direção

• As linhas azuis nas figuras representam o plano mediano.

• A estrutura representada em vermelho na primeira figura é considerada mediana, pois coincide


com o plano mediano.

• A estrutura representada pela letra A na primeira figura é considerada anterior, pois está mais
próxima ao ventre.

• A estrutura representada pela letra C na primeira figura é considerada posterior, pois está mais
próxima ao dorso.

• A estrutura representada pela letra B na primeira figura é considerada intermédia, pois está situada
entre as duas anteriores.

• A estrutura representada em amarelo na segunda figura é considerada medial, pois está mais
próxima ao plano mediano.

• A estrutura representada em vermelho na segunda figura é considerada lateral, pois está mais
distante ao plano mediano.

• A estrutura representada em rosa na segunda figura é considerada intermédia, pois está situada
entre as duas anteriores.

1.14 Eixos de movimento

O corpo humano e seus segmentos se movem nos planos de movimento em torno dos eixos de
movimento. Ele se movimenta em três planos, os quais são chamados de planos anatômicos do movimento,
conforme ilustra a figura a seguir. Os três eixos em torno dos quais esses planos fazem rotação são, em
expressões físicas, x, y e z. São eles: eixo x, ou medial‑lateral, que corre de uma lateral à outra e se encontra
69
Unidade I

no plano frontal; o eixo y, ou vertical, que corre de cima para baixo ou superior inferiormente e está no
plano transverso; e o eixo z, ou anteroposterior, que corre da frente para trás e está no plano sagital.

Todos os movimentos podem ser descritos pela situação ao longo do plano de movimento e em
torno do eixo de movimento desse plano. Esses eixos de movimento também são descritos em termos
funcionais em referência à posição anatômica, conforme descrita anteriormente. A partir desse ponto
de referência, os movimentos e planos são determinados.
Eixo y

Plano sagital

Centro de
gravidade

Plano transverso Eixo z

Eixo x

Plano frontal

Figura 59 – Os três eixos e planos anatômicos do corpo vistos na posição anatômica

Lembrete

Os três planos de movimento são os planos frontal, sagital e horizontal e


seus eixos correspondentes incluem os eixos de movimento anteroposterior,
medial‑lateral e superior‑inferior, respectivamente.

A articulação do joelho é um exemplo de eixo frontal. A parte inferior da perna é o objeto que se
movimenta no plano sagital quando se flexiona o joelho e o plano horizontal gira em torno de um eixo
vertical (longitudinal).

De forma similar, conforme gira‑se a cabeça para a esquerda e para a direita, como no movimento
do não, a cabeça gira em um plano horizontal em torno do eixo vertical criado por sua coluna vertebral.
O plano frontal gira em torno do eixo sagital (anteroposterior).

70
ANATOMIA HUMANA

Quando se eleva o braço para o lado, a articulação do ombro é o exemplo de eixo horizontal sagital
e o braço é o objeto em movimento no plano frontal.

O quadro a seguir resume a relação entre os planos anatômicos, os eixos associados e os movimentos
fundamentais.

Quadro 1

Plano Eixo Movimentos


Sagital (anteroposterior) Horizontal frontal (laterolateral) Flexão e extensão
Frontal (lateral) Horizontal sagital (anteroposterior) Abdução e adução
Horizontal (transverso) Vertical Rotação

1.15 Cavidades corporais

As cavidades corporais são espaços internos do corpo que alojam os órgãos ou as vísceras.
No organismo humano há cinco cavidades, conforme ilustra a figura a seguir:

• A cavidade do crânio situa‑se no interior do crânio e abrange o encéfalo. Já o canal vertebral


começa na base da cavidade do crânio e aloja a medula espinal. Essas duas cavidades constituem
um espaço único contínuo.

• A cavidade torácica localiza‑se no tórax, acima do diafragma, com o mediastino limitando‑a em


lados direito e esquerdo. A cavidade torácica aloja o coração, vasos de sangue, esôfago, timo,
traqueia, brônquios e pulmões.

• A cavidade abdominal começa logo após a cavidade torácica, na parte superior do abdome.
Na cavidade abdominal encontram‑se o estômago, a maior parte do intestino, o fígado, a vesícula
biliar, o baço, o pâncreas e os rins.

• A cavidade pélvica envolve o interior da pelve. Está situada na parte inferior do abdome e aloja
parte do intestino, da bexiga urinária, da uretra e dos órgãos genitais internos.

• Além das grandes cavidades corporais fechadas do organismo, temos outras cavidades corporais
menores. A maioria está na localizada cabeça e se abre para o exterior do organismo. São elas:

— Cavidade oral e digestória: habitualmente chamada de boca, abrange órgãos anexos da


mastigação, como, por exemplo, os dentes e a língua. Ela é contínua com parte da cavidade
dos órgãos que forma o canal alimentar, a qual se abre para o exterior no ânus.

— Cavidade nasal: situada dentro e posteriormente ao nariz. A cavidade nasal forma parte das
vias áreas superiores do sistema respiratório.

71
Unidade I

— Cavidades orbitais no crânio: abrigam os olhos e os apresentam em uma situação anterior.

— Cavidades da orelha média: situadas no crânio e medialmente ao tímpano. Abrangem ossículos


que conduzem vibrações sonoras para os receptores auditivos nas orelhas internas.

— Cavidades sinoviais: cavidades articulares que apresentam um líquido lubrificante que diminui
o atrito quando os ossos se movimentam uns sobre os outros.

Cavidade do
crânio

Cavidade Cavidade dorsal


torácica

Canal
vertebral
Cavidade ventral

Cavidade
abdominopélvica

Figura 60 – As cavidades corporais

1.16 Princípios gerais de construção do organismo humano

1.16.1 Antimeria

O plano mediano divide o organismo humano em duas partes semelhantes, direita e esquerda.
Essas partes são chamadas antímeros, que são semelhantes morfológica e funcionalmente, por isso o
organismo humano é arquitetado conforme o princípio de simetria bilateral. Dessa forma, por exemplo,
as hemifaces de um mesmo indivíduo não são iguais, conforme ilustra a figura a seguir. As linhas
que incidem pelas fendas palpebrais, bem como pelas comissuras labiais, não são horizontais, mas sim
oblíquas. Além disso, a linha mediana da face não é retilínea, mas convexa para um lado ou para outro.
Associando‑se esses três elementos, observa‑se que comumente a linha mediana da face é convexa para
a direita e coincide com um eixo ocular oblíquo para cima e para a direita, e com um eixo bucal oblíquo
para baixo e também para a direita. Tudo isso sugere um maior desenvolvimento da metade direita da
face. O pavilhão da orelha é, comumente, maior e mais alto à esquerda.

72
ANATOMIA HUMANA

Figura 61 – Assimetria da face

Além disso, existem diversas diferenças morfológicas externas nos indivíduos, como, por exemplo,
no tamanho das mamas e na altura dos testículos. Internamente, as diferenças são mais claras,
como é o caso do coração, que se apresenta mais reposicionado para a esquerda, o que se chama de
situação levocárdica. Por outro lado, pode‑se citar a posição, como se observa nos rins, sendo o direito
rotineiramente mais baixo do que o esquerdo, devido ao fígado que preenche quase completamente do
lado direito, enquanto o baço está posto à esquerda da linha mediana. Porém, os pulmões apresentam
só assimetria quanto à forma e não em relação à posição.

1.16.2 Metameria

Satisfaz a superposição longitudinal de segmentos semelhantes, referidos metâmeros. No adulto,


os exemplos clássicos de metameria são: a coluna vertebral, conforme ilustra a figura a seguir, em
que existe a superposição de vértebras, e a cavidade torácica, em que as costelas estão superpostas
longitudinalmente, permanecendo entre elas os espaços intercostais.

Cervival

Torácica

Lombar

Sacral
Coccígea

Figura 62 – Coluna vertebral

73
Unidade I

1.16.3 Paquimeria

É o princípio pelo qual o segmento do organismo do indivíduo representado pela cabeça, pescoço
e tronco são compostos esquematicamente por dois tubos, chamados de paquímeros. Existem os
paquímeros anterior ou ventral e o posterior ou dorsal.

1.16.4 Segmentação

O princípio da segmentação ou da estrutura segmentar na construção do organismo humano é


verificado no tipo de subdivisão dos órgãos de acordo com a distribuição dos seus vasos sanguíneos
e linfáticos, nervos e, quando existir ductos, canais ou tubos relacionados com sua função, como, por
exemplo, brônquios, ductos bilíferos e vias urinárias, conforme ilustra a figura a seguir, que representa
o fígado.

Figura 63 – Segmentos anátomo‑cirúrgicos do fígado

Em anatomia e cirurgia o conhecimento da segmentação possibilita retirar apenas a parte lesada ou


patológica de um órgão. Por exemplo, o fígado pode ser considerado como a soma de oito segmentos
anátomo‑cirúrgicos que representam oito pequenos fígados. Em caso de processo patológico localizado
no fígado, no qual seja recomendada uma biópsia, essa poderá ser realizada no segmento portal
correspondente.

1.16.5 Estratimeria ou estratificação

É o princípio segundo o qual o organismo humano é construído por camadas ou estratos que se
superpõem. Por exemplo, a pele, na qual se caracteriza a camada superficial, a epiderme, e a camada
profunda, a derme. Ou também a tela subcutânea, com suas três camadas fundamentais, procedendo a
seguir a fáscia muscular, músculos e ossos. A estratificação acontece também em órgãos ocos, como, por
exemplo, no intestino. As paredes desses órgãos são formadas por camadas superpostas. No coração, o
pericárdio é a camada externa, o miocárdio a média e o endocárdio a camada que forra internamente
o coração. Por fim, no sistema nervoso central podemos citar a disposição das meninges e os seus
respectivos espaços. Assim, teremos na sequência, a partir do tecido ósseo até o tecido nervoso: ossos,

74
ANATOMIA HUMANA

espaço epidural, dura‑máter, espaço subdural, aracnoide‑máter, espaço subaracnóideo, pia‑máter e


tecido nervoso, conforme ilustra a figura a seguir.

Tecido conectivo frouxo Crânio


e periósteo do crânio
Dura-máter
Aponeurose epicrânica
Espaço subaracnóideo
Escalpo
Aracnoide-máter
Córtex cerebral recoberto
por pia-máter

Figura 64 – Encéfalo e meninges

Lembrete

O organismo humano é estruturado conforme determinados princípios


que chamamos de planos gerais de construção.

Saiba mais

Para saber mais sobre como eram os laboratórios de anatomia e as


farmácias medievais, as pesquisas de decomposição do século XIX e os
laboratórios de cirurgia plástica:

ROACH, M. Curiosidade mórbida: a ciência e a vida secreta dos cadáveres.


São Paulo: Paralela, 2015.

E para saber o que permitiu ao homo sapiens subjugar as demais


espécies e o que o torna capaz das mais belas obras de arte, dos avanços
científicos mais impensáveis e, infelizmente, das mais horripilantes guerras:

HARARI, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade. 30. ed. Porto


Alegre: L&PM Editores, 2017.

75
Unidade I

2 APARELHO LOCOMOTOR

Durante o Renascimento, Leonardo da Vinci despontou como um dos maiores artistas de todos
os tempos, muito conhecido ainda hoje por suas descrições artísticas do corpo humano. Ele dissecou
centenas de corpos para que pudesse adquirir uma compreensão da musculatura e da forma do corpo
humano. Podem‑se notar o conhecimento e a valorização expressos em seu trabalho artístico. A figura
a seguir mostra que desde os tempos antigos até os dias hoje a apreciação da beleza da forma humana
em movimento sempre seduziu a atenção de artistas, cientistas, profissionais da saúde e atletas.

Essa investigação sobre o movimento humano evoluiu de pura arte para um conjunto de arte e
ciência que combinava teorias e princípios procedentes da anatomia, fisiologia, antropologia, física,
mecânica e biomecânica.

No estudo da anatomia do aparelho locomotor o foco central está nos músculos e nos ossos aos
quais eles se prendem. Os ossos também se conectam uns aos outros, formando as articulações. Assim,
as três principais estruturas nas quais devemos nos ater à anatomia do aparelho locomotor são os
ossos, as articulações e os músculos.

Figura 65 – A plástica na ginástica artística

O esqueleto é o arcabouço resistente no qual o organismo humano está construído, conforme ilustram
as figuras a seguir, respectivamente. Muito similar à armação de um edifício, o esqueleto deve ser forte
o suficiente para sustentar e proteger todas as estruturas anatômicas do corpo humano. A estrutura
esquelética ordena a forma e tamanho do corpo e também pode ser influenciada pela nutrição, nível de
exercícios físicos e hábitos posturais.

76
ANATOMIA HUMANA

Figura 66 – Esqueleto humano, em vistas anterior e posterior, respectivamente

No esqueleto imaturo em desenvolvimento, conforme ilustra a figura a seguir, a interferência do


apoio de peso e forças musculares tem uma ação mais considerável na constituição do tamanho e no
formato dos ossos do que as mesmas forças aplicadas sobre um esqueleto maduro. Por esse motivo, é
relevante dar valor extremo aos tipos de exercícios físicos e hábitos posturais de um pré‑adolescente.

Figura 67 – Esqueleto imaturo

77
Unidade I

Observação

Um exemplo clássico de alteração no esqueleto imaturo é a presença


de escoliose idiopática, uma curvatura lateral da coluna vertebral, existente
em aproximadamente 15 a 20% das meninas entre 10 e 12 anos de idade.
Há indícios de que essa modificação se dá porque as mulheres mais novas
passam muito tempo mantendo a massa corporal sobre os saltos finos ou
por conta da postura que compreende joelhos hiperestendidos e lordose.
É simples supor sobre prováveis causas, porém, ainda não há temas
científicos cruciais. É sabido que o sistema esquelético é flexível, podendo
ser modelado e formado por meio da atividade.

2.1 Osteologia

O esqueleto humano representa 20% da massa corpórea, ou seja, 14 quilos em um indivíduo de


70 quilos. O sistema esquelético desempenha um papel principal e vários papéis secundários para
cooperar com outros sistemas em papéis substanciais.

Os ossos são formados por diversos tecidos que agem em conjunto, como, por exemplo, o tecido
ósseo, a cartilagem, o tecido conjuntivo denso, o epitélio, o tecido adiposo e o tecido nervoso.
Por essa razão, cada osso do corpo é considerado um órgão. Portanto, o tecido ósseo é um tecido vivo,
complexo e dinâmico, participando, assim, de forma contínua em um processo chamado remodelação,
ou seja, a formação de novo tecido ósseo e a degeneração do tecido ósseo antigo. Toda a estrutura dos
ossos e suas cartilagens, juntamente com os ligamentos e os tendões, compõem o sistema esquelético.
A seguir serão examinados os vários elementos dos ossos a fim de auxiliá‑lo a compreender como eles
se constituem e envelhecem, além disso será estudado como o exercício físico afeta a densidade e a
resistência óssea.

Observação

O estudo da estrutura óssea e o tratamento dos distúrbios ósseos é


chamado osteologia.

2.1.1 Os principais papéis do esqueleto e dos ossos

Como visto anteriormente, o esqueleto fornece as alavancas e os eixos de rotação sobre os quais o
sistema muscular realiza os movimentos. Assim, uma alavanca consiste em uma máquina simples que
eleva a força ou a velocidade de movimento. Pode‑se dizer que as alavancas são inicialmente os ossos
longos do corpo humano e os eixos são as articulações nas quais os ossos se deparam, conforme ilustra
a figura a seguir.

78
ANATOMIA HUMANA

Figura 68 – Sistema de alavancas

Um segundo papel relevante do esqueleto é servir de arcabouço e suporte para as partes moles
do corpo humano. Os ossos dos membros inferiores, da pelve e da coluna vertebral suportam o corpo
humano, utilizados para a manutenção da postura ereta. Quase todos os ossos provêm suporte para os
músculos e apoio para os dentes.

Existem ainda outros papéis adicionais não associados exclusivamente com o movimento humano.
Tecidos e órgãos vulneráveis são comumente protegidos por elementos do esqueleto. As costelas, por
exemplo, protegem o coração e os pulmões, conforme ilustram as figuras a seguir; o crânio aloja o encéfalo,
as vértebras fornecem abrigo para a medula espinal e a pelve óssea acomoda órgãos digestórios e genitais.

Figura 69 – As costelas protegem o coração e os pulmões. Vistas anterior e posterior

O osso é um depósito para minerais, especialmente, de cálcio e fósforo. O cálcio é o mineral mais
farto no corpo humano. Um indivíduo apresenta aproximadamente de 1 a 2 quilos de cálcio, dos quais

79
Unidade I

mais de 98% estão armazenados nos ossos e nos dentes. Os minerais armazenados são liberados na
circulação sanguínea quando há necessidade de distribuição a todas as partes do corpo humano. Ele é
essencial para a contração muscular, para a coagulação do sangue e para a movimentação de íons por
meio da membrana celular.

Já o fósforo é essencial para as funções dos ácidos nucleicos DNA e RNA. Na hipótese dos minerais
não se encontrarem na alimentação em quantidades satisfatórias, eles podem ser retirados dos ossos
até serem compensados pela própria alimentação. Na realidade, depósitos e retiradas de minerais para
os ossos e a partir deles acontecem quase incessantemente.

Lembrete

DNA (ácido desoxirribonucleico) é uma molécula presente no núcleo


das células de quase todos os seres vivos e que carrega toda a informação
genética de um organismo.

RNA (ácido ribonucleico) é o responsável por sintetizar as proteínas.

Se todo o mineral fosse extraído de um osso longo, o colágeno se tornaria o principal constituinte
e o osso ficaria excessivamente flexível. Contudo, se o colágeno é retirado do osso, os componentes
minerais se tornariam o constituinte principal e o osso ficaria muito quebradiço, conforme ilustra a
figura a seguir. O colágeno é uma proteína de relevância essencial na composição da matriz extracelular
do tecido conjuntivo, sendo responsável por grande parte de suas propriedades físicas.

(A)

(B) sem minerais (C) sem colágeno

Figura 70 – (A) Osso normal. (B) Osso desmineralizado, no qual o colágeno é o principal componente,
pode ser dobrado sem quebrar. (C) Quando o colágeno é extraído, os minerais são o principal
componente restante, tornando o osso tão quebradiço que é facilmente destruído

Podemos descrever os ossos como órgãos hematocitopoietico, ou seja, eles realizam a produção
de células sanguíneas por meio da medula óssea vermelha, conforme ilustram as figuras a seguir,
respectivamente.

Estima‑se que uma média de 2 milhões e meio de células sanguíneas vermelhas é produzida a cada
segundo pela medula óssea vermelha para suprir aquelas que são excluídas e degradadas pelo fígado.
80
ANATOMIA HUMANA

Em uma criança, o baço e o fígado também produzem células sanguíneas. Com o passar do tempo, a
maior parte da medula óssea vermelha transforma‑se em medula óssea amarela, de maneira que no
adulto encontra‑se medula óssea vermelha apenas em alguns ossos, como, por exemplo, no esterno.
Já a medula óssea amarela é formada basicamente de células adiposas, que armazenam triglicerídeos.
Os triglicerídeos armazenados são reservas potenciais de energia química.

Pontos ósseos palpados facilmente através da pele


Distribuição da medula óssea vermelha

Figura 71 – Vista anterior

Pontos ósseos palpados facilmente através da pele


Distribuição da medula óssea vermelha

Figura 72 – Vista posterior

Por fim, existem os osteoblastos, as células responsáveis pela síntese dos componentes orgânicos
da matriz óssea, como, por exemplo, o colágeno, proteoglicanos e glicoproteínas. Essas células ósseas
também estão envolvidas no metabolismo, pois secretam osteocalcina, um hormônio que influencia na
regulação de glicemia.

81
Unidade I

2.1.2 Arquitetura óssea

Como descrito anteriormente, os ossos são peças duras e calcificadas, em número, coloração e
formas variáveis. Apresentam matéria orgânica (um terço) e matéria inorgânica (dois terços). A matéria
orgânica atribui elasticidade aos ossos, enquanto a matéria inorgânica atribui rigidez e força.

Observação

Calcula‑se que se for empregada vagarosamente uma carga sobre um


crânio humano, ele é capaz de suportar 3 toneladas antes dele se quebrar.
As extremidades de um osso longo são chamadas de epífises, enquanto a
parte média é chamada de diáfise. Durante o crescimento ósseo, as epífises
são compostas por um material cartilagíneo chamado placa de crescimento.

Macroscopicamente, os ossos têm dois tipos diferentes de substâncias ósseas, a esponjosa e a


compacta. Os dois podem aparecer de maneira simultânea, porém, em quantidades variadas em um
mesmo osso, conforme ilustram as figuras a seguir.

Substância
esponjosa

Substância
compacta

Figura 73 – Corte longitudinal da extremidade proximal de uma tíbia,


mostrando as substâncias ósseas e a cavidade medular

Cavidade
medular

Figura 74 – Corte longitudinal da diáfise de um fêmur,


mostrando as substâncias ósseas e a cavidade medular

82
ANATOMIA HUMANA

Como visto na figura anterior, a substância óssea esponjosa é mais leve, o que diminui a massa total de
um osso, de modo que o osso se mova com maior simplicidade quando tracionado pelo músculo esquelético.
Ela é porosa e se situa na parte interna dos ossos, constituindo as trabéculas ósseas (do latim, “pequenos feixes”).
As trabéculas ósseas suportam e protegem a medula óssea vermelha. Além disso, a presença da substância
óssea esponjosa diminui a massa do esqueleto e colabora com a mobilidade dos ossos pelos músculos
esqueléticos. A substância óssea esponjosa é encontrada em grandes quantidades nas epífises dos ossos
longos e nos ossos curtos, sendo recobertas por uma fina camada de substância óssea compacta.

A substância óssea compacta se caracteriza por ter um revestimento externo denso e rígido. Ela sempre
reveste completamente todo osso e tende a variar de espessura. Assim, a substância óssea compacta predomina
na diáfise dos ossos longos. Além disso, ela envolve uma cavidade chamada de cavidade medular, que contém
a medula óssea, vermelha ou rubra e amarela ou flava, conforme ilustra a figura a seguir.

Medula óssea vermelha

Medula óssea amarela

Medula óssea vermelha

Figura 75 – Medula óssea

O osso esponjoso localiza‑se profundamente no periósteo, compondo uma fina substância


compacta, o córtex, que continua para o interior do osso como substância esponjosa, composta de
trabéculas ósseas.

Saiba mais

Para saber mais sobre como funciona um transplante de medula:

UMA PROVA de amor. Dir. Nick Cassavetes. EUA: Curmudgeon Films,


2009. 109 minutos.

83
Unidade I

Para saber mais sobre a estrutura dos ossos nos níveis macroscópicos
e microscópicos e a importância da formação óssea durante as diferentes
fases da vida de uma pessoa.

TORTORA, G. J.; GRABOWSKI, S. R. Corpo humano: fundamentos de


anatomia e fisiologia. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017, p. 117‑125.

2.1.3 Periósteo e endósteo

A superfície externa de um osso é comumente revestida pelo periósteo, conforme ilustra a figura
a seguir, exceto as superfícies articulares que são recobertas por cartilagem do tipo hialina. Ele isola e
protege o osso dos tecidos vizinhos; provê uma via e um local de união para o suprimento cardiovascular
e nervoso; e participa ativamente no crescimento ósseo em diâmetro e na reparação de fraturas.
No entanto, o periósteo não reveste os ossos sesamoides.

No interior do osso, o endósteo celular reveste a cavidade medular, conforme ilustra a figura a seguir.
O endósteo está em atividade durante o crescimento e sempre que a reparação e o remodelamento da
arquitetura óssea estiverem acontecendo.

Epífise proximal
Osso esponjoso
Osso compacto
Forame nutrício
Vasos nutrientes
Cavidade medular

Fibras perfurantes Diafíse


Periósteo

Endósteo

Linha epifisial
Epífise distal
Cartilagem articular

Figura 76 – Osso longo com periósteo rebatido

Junto com o periósteo e a medula óssea, o endósteo é uma estrutura anatômica muito importante
para os ossos.

84
ANATOMIA HUMANA

2.1.4 Vascularização óssea

Os ossos são muito vascularizados, pois que recebem amplo suprimento de sangue. Os vasos metafisários
e os vasos epifisários são também muito importantes. As artérias adentram os ossos a partir do periósteo.
As artérias periosteais acompanhadas por nervos adentram a diáfise e irrigam o periósteo e a parte externa
da substância compacta. Próximo ao centro da diáfise, uma grande artéria nutrícia adentra o osso compacto
por meio do forame nutrício, conforme ilustra a figura anterior. Ao adentrar a cavidade medular, a artéria
nutrícia se ramifica em ramos proximal e distal, que irrigam a parte interna da substância óssea compacta
da diáfise, substância óssea esponjosa, e a medula óssea. Na tíbia há uma artéria nutrícia, enquanto no
fêmur existem diversas artérias nutrícias. As extremidades dos ossos são irrigadas pelas artérias metafisárias
e epifisárias. Tanto as metafisárias como as nutrícias irrigam a medula óssea vermelha e as substâncias
ósseas da metáfise. As artérias epifisárias irrigam a medula óssea e as substâncias ósseas das epífises.

Há uma ou duas veias nutrícias que seguem a artéria nutrícia na diáfise. Há também abundantes
veias epifisárias e metafisárias que saem das epífises com suas relativas artérias. As veias periosteais
saem do periósteo com suas relativas artérias. Os vasos linfáticos dos ossos estão no periósteo, porém,
alguns podem adentrar o tecido ósseo.

2.1.5 Inervação óssea

Os nervos seguem as artérias que irrigam os ossos. O periósteo, conforme ilustra a figura anterior,
é rico em nervos sensitivos, responsáveis pela sensação de dor. Portanto, as dores são consequentes de
uma fratura, tumores ósseos ou de uma biópsia da medula óssea vermelha por meio de uma agulha.
Microscopicamente a medula óssea vermelha é avaliada em situações como leucemias, linfomas e
anemias aplásicas. As dores apresentam‑se à medida que a agulha adentra o periósteo. No entanto,
conforme ela ultrapassa o periósteo as dores vão diminuindo.

Saiba mais

Para saber mais sobre o assunto, leia as notas clínicas que aparecem
neste capítulo do livro e o conteúdo que versa sobre os fatores de regulação
do crescimento ósseo:

MARTINI, F. H. O sistema esquelético: tecido ósseo e estrutura do


esqueleto. In:___. Anatomia humana. Porto Alegre: Artmed, 2009.

Lembrete

Na maior parte dos casos os ossos são abundantemente vascularizados.


Cada tipo de osso recebe suprimento de sangue e nervoso de forma
característica.
85
Unidade I

2.1.6 Morfologia óssea

Os ossos podem apresentar diversos tamanhos e formatos. Por exemplo, o osso pisiforme da
mão possui o tamanho e a forma de uma ervilha, enquanto o fêmur pode ter até 60 centímetros de
comprimento em alguns indivíduos e com uma cabeça arredondada em formato de bola. Desse modo, o
fêmur suporta grande massa corporal e pressão, sendo que sua arquitetura de cilindro oco provê força
máxima com peso mínimo.

Na maioria dos casos, os ossos são classificados conforme sua forma geométrica aproximada em:
longos, alongados, curtos, planos e irregulares. Existem, ainda, os ossos pneumáticos, sesamoides
e acessórios.

Os ossos longos são formados por uma diáfise e duas epífises. Apresentam o comprimento maior
em relação à largura e à espessura, que são equivalentes. Os ossos longos são encontrados apenas no
esqueleto apendicular, como, por exemplo, o osso úmero, conforme ilustram as figuras a seguir, em vista
anterior e posterior, respectivamente. Eles proporcionam suporte ao organismo e oferecem uma série de
alavancas e elos que nos possibilitam criar movimentos.

Figura 77 – Úmero, em vista anterior e posterior

Os ossos alongados são achatados, sendo eles um subgrupo dos ossos longos. Eles não apresentam
epífises bem definidas e não têm cavidade medular. A clavícula e as costelas são exemplos típicos de
ossos alongados.

86
ANATOMIA HUMANA

Figura 78 – Vista anterior da clavícula direita e vista interna da costela

Os ossos curtos apresentam as três dimensões, comprimento, largura e espessura equivalentes, as


quais lhes conferem uma forma cúbica. Exemplos clássicos desse grupo são os ossos do carpo e os ossos
do tarso, exceto o pisiforme, que é um osso sesamoide, e o osso calcâneo, que é um osso irregular,
conforme ilustram as figuras a seguir. Esses ossos têm um papel relevante na absorção de choque e
transmissão de forças.

Ossos do Osso pisiforme


carpo

Figura 79 – Ossos do carpo e calcâneo

Nos ossos planos a largura e o comprimento predominam sobre a espessura. Alguns exemplos de
ossos planos são os que formam a calvária. Eles possuem duas lâminas compactas, onde localiza‑se um
tecido ósseo mais denso e, entre essas camadas, uma camada esponjosa composta de osso menos denso,
chamada díploe, conforme ilustram as figuras a seguir. Os ossos planos proporcionam proteção para o
conteúdo interno e ampla superfície para a fixação muscular.

Parietal
Frontal
Lâmina externa
Díploe
Lâmina interna

Figura 80 – Parietal (vista interna) e díploe

87
Unidade I

Os ossos irregulares não possuem formas geométricas bem definidas. As vértebras, os ossos da base
do crânio, conforme ilustram as figuras a seguir, e os ossos da face são exemplos deste grupo. Eles
oferecem suporte de massa corporal, dissipação de cargas, proteção da medula espinal e contribuem
com os movimentos e locais de inserção muscular.

Figura 81 – Vértebra lombar (vista superior) e temporal (vista lateral)

Os tipos morfológicos podem ainda apresentar características adicionais que nos possibilitam
classificá‑los. Os ossos pneumáticos apresentam uma ou mais cavidades de volumes variáveis, chamadas
seios, que se apresentam revestidas de mucosa e preenchidas por ar. Os ossos pneumáticos estão
localizados no crânio, sendo eles: o frontal, a maxila, o etmoide e o esfenoide.

Células
etmoidais

Seio Seio
maxilar frontal

Figura 82 – Cavidades do crânio

Observação

O osso temporal é considerado pneumatizado, pois apresenta


cavidades que se comunicam com a cavidade da orelha, enquanto os ossos
pneumáticos se comunicam a cavidade nasal.
88
ANATOMIA HUMANA

Os ossos sesamoides se assemelham a sementes de gergelim e são localizados em regiões que alguns
tendões cruzam epífises de ossos longos. Eles se desenvolvem dentro dos tendões e os protegem de
desgaste exorbitante junto ao osso. Também alteram o ângulo de inserção de um tendão. Os ossos
sesamoides estão presentes no desenvolvimento fetal, mas não são considerados partes do esqueleto
axial ou apendicular, exceto pelas patelas, que são os maiores ossos sesamoides.

Figura 83 – Patela (vista anterior)

Os outros ossos sesamoides mais frequentes estão situados nas plantas dos pés e na base do
primeiro metatarso. Nos membros superiores os ossos sesamoides são frequentemente encontrados
nos tendões próximos à superfície palmar e na base dos metacarpos. Outro exemplo clássico de osso
sesamoide é o hioide.

Figura 84 – Hioide (vista anterior)

Observação

Embora apresentem o comprimento maior que a largura, as costelas e a


clavícula não têm canal medular, muito menos metáfises; por esse motivo,
são classificadas como ossos alongados.

89
Unidade I

Os ossos acessórios são raros e sua sede, dimensões e número podem ser muito variáveis. Ocorrem
mais comumente na superfície externa do que na interna. Do ponto de vista da anatomia comparativa,
alguns desses ossos correspondem aos que se encontram normalmente em outros vertebrados, ao
passo que em outros não apresenta essa correspondência. A esses ossos acidentais dá‑se o nome
de ossos suturais ou wormianos, os quais acontecem muitas vezes na sutura lambdoide, em crânios
hidrocefálicos. Como exemplos de ossos acessórios podemos mencionar os ossos bregmático, o osso
ptérico e o osso astérico.

Observação

As lâminas das epífises dos ossos longos específicos ossificam em prazos


previstos. Os médicos radiologistas comumente podem especificar a idade
de um indivíduo jovem analisando as lâminas das epífises para observar se
elas ossificaram. Uma diferença entre a idade dos ossos e cronológica pode
sugerir alguma disfunção metabólica.

2.1.7 Características anatômicas de superfície dos ossos

Os ossos apresentam acidentes ósseos ou detalhes ósseos, como: as proeminências, as fossas,


as depressões, os tubérculos, as eminências, os orifícios, os canais, as cavidades e os seios. Essas são
apenas as características mais frequentes, que compõem pontos de referência em anatomia, radiologia,
ortopedia e antropologia física. As seguir alguns exemplos de características anatômicas da superfície
dos ossos:

• Forame: do latim, foramine, orifício, é uma abertura por meio da qual passam artérias ou nervos,
como o forame magno do osso occipital.

Forame
magno

Figura 85 – Forame magno

90
ANATOMIA HUMANA

• Fossa: do latim, fossa, fenda, trincheira, é uma depressão rasa sobre um osso, como a fossa
cerebelar do osso occipital.

Fossa
cerebelar

Figura 86 – Fossa cerebelar

• Côndilo: do grego, Kondylo, elevação arredondada, é uma proeminência grande e arredondada


que constitui uma união, como os côndilos medial e lateral do fêmur.

Côndilo

Figura 87 – Côndilo do fêmur

• Cabeça: projeção arredondada que compõe uma união e é sustentada na constrição (colo) do
osso, como a cabeça do úmero.

91
Unidade I

Cabeça

Figura 88 – Cabeça do úmero

• Tuberosidade: projeção grande e arredondada, frequentemente com uma superfície áspera, como
a tuberosidade da tíbia.
Tuberosidade

Figura 89 – Tuberosidade da tíbia

• Espinha: projeção aguda e delgada, oriunda da face de um osso, como a espinha da escápula.

Espinha

Figura 90 – Espinha da escápula

92
ANATOMIA HUMANA

• Crista: margem ou borda proeminente, comumente rugosa, como a crista ilíaca do quadril.

Crista

Figura 91 – Crista

• Incisura: chanfradura ou entalhe em uma margem óssea, como a incisura da mandíbula.


Incisura

Figura 92 – Incisura da mandíbula

Saiba mais

Para saber mais sobre detalhes ósseos, como os que formam as cinturas
escapular e pélvica e os ossos dos esqueletos apendicular e axial, além de
poder elaborar pranchas de anatomia utilizando‑se de papel vegetal, lápis
HB2, lápis para colorir e caneta Stabilo.

NILTON, A.; CÂNDIDO, P. L. Anatomia para o curso de odontologia geral


e específica. 4. ed. Rio de Janeiro: Santos, 2019.

Observação

Em cerca de 400 a.C. a filosofia confucionista dizia que: “O que ouvi foi
o que esqueci, o que vejo, lembro, o que faço, compreendo”. Durante esse
período, a maior parte dos processos de ensino e aprendizagem dependiam
93
Unidade I

apenas de formas visuais e auditivas. Como resultado, muitos dados não


permaneciam na memória, assim como as conquistas da compreensão
material se tornavam menos profundas. Ao estudarmos a anatomia, o
desenho é uma das metodologias mais eficientes e relevantes, uma vez
que há uma integração de ideias associada à observação, elevando, assim,
a compreensão e motivação de aprendizagem de estudantes universitários.

2.1.8 Fatores de variação anatômica no número de ossos

Existem 206 ossos no indivíduo adulto médio e normal, excluindo‑se os ossos sesamoides e os
ossículos da audição, na orelha média. Funcionalmente, os ossículos da audição que vibram em resposta
às ondas sonoras, atingindo o tímpano, não integram o esqueleto axial nem o apendicular, porém são
agrupados com o esqueleto axial por conveniência.

Figura 93 – Ossículos da audição: martelo, bigorna e estribo

O número de peças ósseas varia com a idade, havendo maior número no recém‑nascido do que
um uma pessoa com idade avançada. Por exemplo, no crânio de uma criança permanecem duas peças
ósseas para medianas ou hemifrontais que, com a sinostose da sutura metópica, comporão o osso
frontal. Já a idade avançada, com as sinostose de todas as suturas, torna o crânio uma esfera óssea.

Figura 94 – Norma anterior do osso frontal: sutura metópica e parte anterior da fontanela anterior

94
ANATOMIA HUMANA

Saiba mais

Para saber mais sobre o crescimento ósseo em comprimento e largura e


a cartilagem articular e os fatores que afetam o crescimento ósseo, como,
por exemplo, a nutrição e os hormônios:

VANPUTTE, C. L. et al. Anatomia e fisiologia de Seeley. 10. ed. Porto


Alegre: AMGH, 2016, p. 176‑178.

Para saber mais sobre como o exercício e o estresse mecânico afetam o


tecido ósseo:

TORTORA, G. J.; DERRICKSON, B. Princípios de anatomia e fisiologia.


14. ed. São Paulo: Guanabara‑Koogan, 2016, p. 191.

2.1.9 Divisão do esqueleto

Como visto anteriormente, o esqueleto humano adulto consiste em 206 ossos, a maioria deles pares,
com um membro de cada par nos lados direito e esquerdo do corpo. Vimos que há fatores de variação
no número de ossos. Assim, os esqueletos de recém‑nascidos, lactentes e crianças apresentam mais de
206 ossos porque alguns deles se unem mais tarde. Como exemplos, podemos citar os ossos do quadril
e alguns ossos da parte final da coluna vertebral, o sacro e o cóccix.

Os ossos do esqueleto adulto estão agrupados em três divisões principais: o esqueleto axial, o
esqueleto apendicular e as cinturas escapular e pélvica. O esqueleto axial apresenta 80 ossos e o
esqueleto apendicular é composto por 126 ossos. A figura a seguir mostra como as duas divisões
se unem para compor o esqueleto completo. O esqueleto axial consiste em ossos em torno do eixo
longitudinal do corpo humano, descrevendo uma linha vertical imaginária que atravessa o centro de
gravidade do corpo, indo da cabeça até o espaço entre os pés.

Portanto, o esqueleto axial é composto pelos ossos do crânio, o hioide, as costelas, o esterno e os
ossos da coluna vertebral. Já o esqueleto apendicular é formado pelos ossos dos membros superiores e
inferiores. Os ossos que compõem as cinturas unem os membros ao esqueleto axial. Portanto, a cintura
escapular une os membros superiores ao esqueleto axial, enquanto a cintura pélvica liga os membros
inferiores ao esqueleto axial.

95
Unidade I

Figura 95 – Visão geral do esqueleto humano

Esqueleto da cabeça

O esqueleto da cabeça ou esqueleto cefálico abrange os ossos do crânio e os ossos da face ou


viscerocrânio. Consiste, portanto, em uma sequência de ossos que em sua maioria estão unidos entre
si por articulações imóveis, com exceção realizada apenas para a mandíbula, que se articula com o
osso temporal pela articulação sinovial, a articulação temporomandibular. Ele é composto por 22 ossos
divididos em duas partes: o neurocrânio e os ossos da face.

O neurocrânio envolve os ossos relacionados à proteção dos órgãos do sistema nervoso central.
Ele é formado pelos seguintes ossos: frontal, temporal, etmoide, esfenoide, parietal e occipital.

Os ossos da face estão relacionados aos órgãos dos sentidos: o paladar, a visão e o olfato. Além disso,
ancoram os músculos da expressão facial. Eles são formados pelos seguintes ossos: maxilas, mandíbula,
palatinos, vômer, nasais, zigomáticos, lacrimais e conchas nasais inferiores. Exceto a mandíbula, os
demais ossos da face se articulam com as maxilas, que servem de implantação dos dentes superiores.

É importante examinar a geografia básica do esqueleto da cabeça antes de descrever seus ossos
individualmente. Com a mandíbula retirada, o esqueleto da cabeça equipara‑se a uma esfera óssea
desigual e vazia. Portanto, os ossos da face compõem sua norma anterior e o neurocrânio constitui o
resto do esqueleto da cabeça.

96
ANATOMIA HUMANA

O neurocrânio pode ser dividido em calota craniana e base do crânio. A calota craniana, também
chamada de calvária, compõe as normas superior, lateral e posterior do esqueleto da cabeça, do mesmo
modo a região da fronte. A base do crânio, ou assoalho, constitui a norma inferior do esqueleto da
cabeça. Internamente, detalhes ósseos proeminentes dividem a base do crânio em 3 “andares” ou fossas,
as fossas: anterior, média e posterior do esqueleto da cabeça. O encéfalo aloja‑se plenamente nessas
fossas, sendo envolvido pela calota craniana. Desta maneira, o encéfalo preenche a cavidade craniana.

Além da grande cavidade craniana, o esqueleto da cabeça apresenta diversas pequenas cavidades.
Entre elas estão as da orelha média e da orelha interna, entalhadas na norma lateral da base do crânio
e, anteriormente, a cavidade nasal e as órbitas. As órbitas abrigam os globos oculares.

Figura 96 – Esqueleto da cabeça: norma anterior

Figura 97 – Esqueleto da cabeça: norma lateral

97
Unidade I

Figura 98 – Esqueleto da cabeça: norma posterior

Figura 99 – Esqueleto da cabeça: norma inferior

Figura 100 – Esqueleto da cabeça: norma superior da base do crânio

98
ANATOMIA HUMANA

Figura 101 – Esqueleto da cabeça: norma superior da calvária

Observação

Hidrocefalia é o acúmulo do líquor nas cavidades encefálicas, causando


aumento na pressão intracraniana sobre o cérebro, o que pode causar
lesões no tecido cerebral, bem como o aumento do crânio.

Ossos do neurocrânio

O osso frontal do neurocrânio é um osso plano, anterior, ímpar e mediano da calvária. O osso
occipital é um osso plano, inferior, posterior, mediano, pertencente à base do crânio, perfurado por uma
abertura ampla e oval – o forame magno – por meio do qual a cavidade craniana comunica‑se com o
canal vertebral.

O osso esfenoide é um osso irregular, ímpar, mediano e situa‑se na base do crânio, anteriormente
aos temporais e à parte basilar do osso occipital. O osso etmoide é um osso leve, esponjoso, irregular,
ímpar, inferior e situa‑se na base do crânio. O osso parietal é um osso plano, par e compõe o teto do
crânio. O osso temporal é um osso irregular, par e muito complexo. Ele possui três partes: escamosa,
petrosa e timpânica. A parte petrosa abrange o órgão vestibulococlear e a cavidade timpânica que
contém os três ossículos da audição.

Ossos da face

O osso zigomático frequentemente referido como “maçãs do rosto” forma parte da parede lateral
e assoalho da órbita, é par e irregular. O osso nasal é um pequeno osso retangular, que forma, com o
nasal do lado oposto, o dorso do nariz. A maxila é um osso plano, anterior e irregular e forma quatro
cavidades: o teto da cavidade oral, o assoalho e a parede lateral do nariz, o assoalho da órbita e o seio
maxilar. Ela possui os alvéolos dentários para abrigar os dentes superiores.

99
Unidade I

O osso lacrimal é um pequeno osso retangular situado na parte medial da órbita, sendo o menor e
mais frágil osso da face. O osso palatino é um osso irregular, localizado posteriormente à maxila. Forma
a parte posterior do palato duro, parte do assoalho e parede lateral da cavidade nasal e o assoalho da
órbita. O vômer é um osso ímpar, plano, de formato trapezoidal. Forma as partes posteriores e inferiores
do septo nasal.

A concha nasal inferior é um pequeno osso com o formato de uma placa delgada e alongada e com
margens curvas. Situa‑se ao longo da parede lateral da cavidade nasal, separando os meatos nasais
médio e inferior. É a única concha nasal independente, pois as outras, superior e média, pertencem ao
etmoide. A mandíbula, conforme ilustra a figura a seguir, é um osso ímpar, móvel da cabeça, o maior e
mais forte da face, onde tem situação anteroinferior. Apresenta o formato de uma ferradura e contêm
os alvéolos dentários para abrigar os dentes inferiores.

Figura 102 – Mandíbula

Ossos do esqueleto da cabeça em conjunto

Por meio da cefalometria, ou mensuração da cabeça, podemos reconhecer crânios microcéfalos,


mesocéfalos e macrocéfalos, ou seja, pequenos, médios e grandes. Quando as dimensões são extrapoladas,
esses tipos são ditos patológicos, como, por exemplo, o crânio hidrocéfalo, que possui descomunal hidrocefalia.

Lembrete

Os ossos do neurocrânio são: o frontal, o etmoide, o esfenoide, os


parietais, os temporais e o occipital. Os ossos da face são: as maxilas, a
mandíbula, os palatinos, os nasais, os lacrimais, as conchas nasais inferiores,
os zigomáticos e o vômer.

Esqueleto do pescoço

Os ossos do esqueleto do pescoço são as vértebras cervicais e, do ponto de vista topográfico, o hioide.
O hioide é um osso ímpar, mediano, sesamoide e faz parte de um conjunto de estruturas anatômicas
que une a base do crânio ao esqueleto do pescoço. Está localizado na parte anterossuperior do pescoço,
superior à laringe e posterior à mandíbula. Apresenta como papel oferecer suporte à língua, fornecendo
100
ANATOMIA HUMANA

locais de fixação para os músculos dela, do pescoço e da faringe, fazendo dele um elemento relevante
nas ações de mastigação e no ato de engolir. O hioide é móvel e não se articula com mais nenhum osso.

Esqueleto do tronco

O esqueleto do tronco abrange o tórax, as vértebras lombares, as vértebras sacrais, as vértebras


coccígeas e a pelve óssea. O tórax é a parte do organismo localizada no tronco, entre o pescoço e o
abdome, exatamente entre a abertura superior do tórax e o diafragma. O formato abobadado do tórax
possibilita grande rigidez, tendo em vista o pouco peso de seus constituintes e, dentre suas funções:

• Protege os órgãos internos torácicos e abdominais, sendo que a maioria deles está cheia de ar ou
líquido contra as forças externas.

• Resiste às pressões internas negativas produzidas pela retração elástica dos pulmões e pelos
movimentos inspiratórios.

• Oferece fixação para os membros superiores e sustentar a sua massa.

• Proporciona a fixação de diversos músculos que movem e sustentam a posição dos membros
superiores em relação ao tronco, além de possibilitar fixação para os músculos do abdome, do
pescoço, do dorso e da respiração.

Crânio

Esterno
Costelas

Vértebras
lombares

Sacro
Cóccix

Figura 103 – Esqueleto do tórax

O formato do tórax depende da idade, do sexo e do biótipo da pessoa. O tórax do feto é mais
desenvolvido sagitalmente do que transversalmente, em virtude do maior desenvolvimento do coração,

101
Unidade I

do timo e dos órgãos abdominais do que dos pulmões. Aos 18 anos de idade, o tórax assume seu formato
definitivo e continua crescendo até os 35 anos nos homens e 25 anos nas mulheres. No indivíduo senil,
as costelas e as cartilagens costais perdem a flexibilidade e as articulações sofrem anquilose, conduzindo
o tórax à perda da elasticidade e da mobilidade. Com a ampliação da coluna vertebral, as costelas ficam
mais próximas umas das outras. O tórax masculino é mais largo do que o feminino, com a máxima largura
ao nível da VIII costela, com pequeno aperto inferior. O tórax feminino é mais curto e arredondado, com
maior aperto inferior do que o masculino. No indivíduo longilíneo, cujo crescimento é mais dinâmico
e o que leva a um maior desenvolvimento em altura, o tórax é longo e estreito, enquanto no indivíduo
brevilíneo, cujo desenvolvimento transversal prevalece sobre o vertical, o tórax é mais curto e largo.

Esterno

O esterno é um osso plano com aproximadamente 15 centímetros de extensão, mediano, ímpar,


localizado medianamente na parede anterior do tórax e um osso hematocitopoietico. O esterno
articula‑se com as clavículas e as cartilagens das sete primeiras costelas. Possui três partes: o manúbrio
do esterno, o corpo do esterno e o processo xifoide.

Figura 104 – O esterno

Costelas

Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu;
e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar; e da costela
que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe‑a a
Adão (Gn 2: 21‑22).

[...]

A mulher foi tirada do lado de Adão, isto é, da sua costela, ela não foi tirada
da cabeça, pois não é sua função dominá‑la; nem de seus pés, pois não foi
criada para ser pisada por ele (Gn 2: 21‑22).

102
ANATOMIA HUMANA

[...]

Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada
mulher, porquanto do homem foi tomada (Gn 2: 23).

A Bíblia relata o momento em que Deus criou a primeira mulher: Eva. No entanto, essa passagem
bíblica é apenas uma metáfora, pois tanto os homens como as mulheres possuem 12 pares de costelas
que protegem o coração, os pulmões, o fígado e o baço.

Na medicina são diversas as indicações cirúrgicas que retiram costelas com objetivos terapêuticos
e reparadores. Em cirurgia torácica, deformidades relevantes do tórax, como, por exemplo, o pectus
excavatum e o pectus carinatum, são reparados com a retirada parcial das cartilagens costais e o
reposicionamento do esterno. Também não é incomum a necessidade de retirada de costelas após
traumatismos torácicos ou em toracotomias muito extensas.

De natureza igual, a retirada de costelas tem sido uma indicação frequente em cirurgia plástica para
usá‑las como enxerto em processos reparadores de orelhas, nariz e outras cirurgias craniomaxilofaciais.
Parece existir uma bruma em torno desse processo, pois diversas celebridades sujeitam‑se a essa cirurgia,
sem, no entanto, assumirem tal fato. Isso já é considerável para que exista uma agitação nos meios de
difusão de informação e a existência de diversas candidatas à sua realização, procurando conquistar um
corpo visto como perfeito pela sociedade, colocando em risco sua plenitude física e emocional.

As costelas têm formato de semiarcos, unindo as vértebras torácicas ao esterno. As costelas são
classificadas em: costelas verdadeiras, I‑VII (articulam‑se diretamente ao esterno por intermédio das
cartilagens costais); costelas falsas, VIII‑X (articulam‑se indiretamente com o esterno, unindo‑se
suas cartilagens costais umas às outras); e costelas flutuantes, XI e XII (curtas e livres, que protegem
o fígado e o estômago).

Figura 105 – As costelas

Logo abaixo do arco costal direito é possível apalpar o fígado durante a inspiração. Abaixo do arco
costal esquerdo situa‑se o estômago, não palpável; e o baço que pode ser palpado no lado esquerdo,
especialmente quando possui um aumento patológico.

103
Unidade I

Uma costela típica apresenta a cabeça, o colo e o corpo. Com exceção das costelas I, XI e XII, as
outras podem ser consideradas costelas típicas, embora a VIII, IX e X sejam mais curtas e cooperem para
constituir a margem costal. A primeira é a costela mais curta entre as costelas verdadeiras. Além disso,
ela é mais larga e plana do que as outras, localizando‑se sob a clavícula anteriormente, o que dificulta
sua palpação. A artéria subclávia e a veia subclávia sulcam na face posterior.

Observação

Excepcionalmente, pode existir uma costela cervical e uma costela


lombar, as quais são consideradas costelas supranumerárias, geralmente,
conectadas com a C7 e a L1, concomitantemente.

Coluna vertebral

A coluna vertebral oferece um suporte axial para o tronco e estende‑se desde o crânio até a pelve,
onde o peso do tronco é transmitido aos membros inferiores. Outra função dela consiste em proteger
a medula espinal, provendo ainda pontos de fixação para as costelas e para os músculos do dorso
e do pescoço. No feto e na criança, a coluna vertebral consiste de 33 ossos separados ou vértebras.
Inferiormente, 9 vértebras se fundem para compor 2 ossos, o sacro e o cóccix. Os 24 ossos restantes
permanecem como vértebras individuais separadas por discos intervertebrais.

Figura 106 – Arranjo anatômico geral da coluna vertebral (vistas anterior, lateral e posterior)

104
ANATOMIA HUMANA

Observação

Herófilo, e depois Vesalius, chamaram assim o cóccix por sua semelhança,


em conjunto, com o formato do bico do pássaro cuco. Por outro lado, Jean
Riolan dá outra explicação, declara que na emissão de gases pelo ânus o
som “ecoa” no cóccix, o osso do apito. Curiosamente, devido ao costume do
cuco fêmea em se apoderar dos ovos de outros pássaros e chocá‑los como
seus, os gregos antigos utilizavam a palavra Kókkys como termo grosseiro
às mulheres adúlteras.

Conforme ilustra a figura a seguir, Atlas, gigante mitológico de força cavalar, filho de Iápeto e
Clímene, após a derrota dos Titãs para os deuses foi condenado por Júpiter a amparar o mundo nos
ombros. Essa é a imagem do Titã reproduzida por vários escultores, chama‑se C1 que, por analogia,
sustenta a cabeça.

Figura 107 – Atlas, Viena, Áustria

Cintura escapular

A cintura escapular é composta pela escápula e clavícula, conforme ilustram as figuras. A clavícula
é um osso par que compõe parte da cintura escapular e é alongado, ou seja, embora comprido nem
sempre apresenta cavidade medular, conforme visto na classificação morfologia óssea. Portanto, não
é um osso longo típico por não possuir todos os atributos indispensáveis para assim ser comtemplada.
A clavícula tem o formato curvado como um S (em itálico), localizada quase que horizontalmente logo
acima da I costela. A escápula é um osso par, plano e triangular. A escápula articula‑se com dois ossos:
o úmero e a clavícula.

105
Unidade I

Figura 108 – A escápula

Figura 109 – A clavícula

Observação

O nome escápula provém de uma palavra que significa “pá”, pois em


algumas culturas antigas as escápulas de animais eram usadas como pás.

Membro superior

Os membros superiores dos seres humanos, ao passarem da posição quadrúpede para a bípede,
tiveram a função de locomoção reduzida, porém, ganharam mobilidade e preensão. Os ossos dos
membros superiores podem ser divididos em três segmentos: o braço, o antebraço e as mãos.

O úmero é o maior e mais longo osso do membro superior, localizado no braço. Os dois ossos longos
paralelos, o rádio e a ulna compõem o esqueleto do antebraço. Na posição anatômica, o rádio situa‑se
lateralmente e a ulna medialmente.

Figura 110 – Úmero

106
ANATOMIA HUMANA

Figura 111 – Rádio

Figura 112 – Ulna

Observação

Algumas vezes é pertinente utilizar algum recurso que auxilie a lembrar


de um novo dado. Tal ajuda é chamada de dispositivo mnemônico ou
ativador da memória. Para auxiliar a lembrança da localização da ulna em
relação à mão, um mnemônico pode ser m.u. (o mindinho está no lado da
ulna), ou, ainda, o polegar é a antena do rádio.

A mão preênsil representa, em companhia ao encéfalo e a laringe, o seu comprometimento com


a capacidade da fala, um órgão cultural imprescindível para a evolução dos homens. É consenso que
a evolução da mão, até atingir a aptidão de produção de ferramentas, aconteceu anteriormente ao
avanço da fala. De qualquer forma, a mão apresenta um papel relevante na comunicação não verbal, ou
guiando a palavra proferida ou, ainda, como parte da linguagem corporal.

As funções preênsil e tátil da mão são fundamentais e carecem das articulações dos dedos, com
o polegar exibindo uma movimentação extraordinária e podendo ostentar uma posição de oposição
em relação aos quatro outros dedos. Os papéis das articulações das mãos são inerentes no uso e no
posicionamento adequado das mãos em relação ao antebraço. Para que os dedos façam ações mais
concisas, manuseando artefatos pequenos, na escala de milímetros, os dedos têm que ser finos. Eles
não apresentam músculos e são movidos por longos tendões dos músculos do antebraço e, ainda, dos
músculos intrínsecos da mão.

Coligado à visão, os humanos podem utilizar o sentido tátil da mão para o reconhecimento de um
espaço tridimensional e de seus artefatos. A relevância da mão procedeu no uso da expressão “palpar”
também para o entendimento de processos abstratos.

A mão se divide em: carpo, metacarpo e os ossos dos dedos. O carpo é formado por oito ossos
dispostos em duas fileiras: proximal e distal. A fileira proximal de lateral para medial inclui: o escafoide,
semilunar, piramidal e pisiforme. A fileira distal de lateral para medial inclui: o trapézio, trapezoide,
capitato e hamato.
107
Unidade I

O metacarpo é composto por cinco ossos que são numerados de lateral para medial em I, II, III, IV e
V metacarpos e obedecem aos dedos da mão. Eles são classificados como ossos longos. Entre os ossos
do metacarpo existem os espaços interósseos.

Os cinco dedos da mão de lateral para medial são: o polegar (I), o dedo indicador (II), o dedo médio
(III), o dedo anular (IV) e o dedo mínimo (V). Eles apresentam 14 falanges, cada uma na qual há uma
base, um corpo e uma cabeça. São classificadas como ossos longos. Do II ao V dedos apresentam
3 falanges: a falange proximal, a falange média e a falange distal. O dedo I possui 2 falanges: a falange
proximal e a falange distal.

Rádio Ulna
Processo estiloide do rádio Processo estiloide da ulna
Escafoide Semilunar
Tubérculo do escafoide Piramidal
Trapézio Pisiforme
Tubérculo do trapezoide Hamato
Trapezoide Hâmulo do osso hamato
Capitato

Ossos do metacarpo

Figura 113 – A mão

Lembrete

Para fixar os nomes dos ossos do carpo (de proximal para distal; de
lateral para medial): “Um barco (escafoide) viajou à luz do luar (semilunar)
em torno da pirâmide (piramidal) e pela plantação de ervilhas (pisiforme).
O grande trapézio (trapézio), o trapézio pequeno (trapezoide) e a grande
cabeça (capitato) devem permanecer juntos ao gancho (hamato)”.

Cintura pélvica

Ao assumir a marcha ereta, e em similaridade à coluna vertebral, a pelve humana possui grandes
desigualdades funcionais em comparação à dos quadrúpedes. Ela é extraordinariamente maciça se
comparada à pelve de quadrúpedes, uma vez que ampara grande parte da massa corporal, exceto dos
membros inferiores. Na posição ereta, o peso das vísceras abdominais e das vísceras pélvicas é empregado
especialmente sobre a pelve.

A cintura pélvica, do latim, pélvis, bacia, é formada pelos ossos do quadril, que se articulam entre si,
pelas vértebras coccígeas e pelo sacro. O osso do quadril é classificado morfologicamente em plano ou
108
ANATOMIA HUMANA

irregular. A sua constituição inclui três ossos isolados: o ílio, o ísquio e o púbis. Nos seres humanos, até a
puberdade, as três peças ósseas que compõem o osso do quadril continuam conectadas umas às outras
por cartilagem. A partir deste período acontece a ossificação da cartilagem e o osso do quadril passa a
ser único, embora permaneçam as nomeações das peças ósseas que o formam originalmente.

Figura 114 – Osso do quadril

O estreito superior da pelve, ao nível das linhas arqueadas, divide a pelve em uma parte superior, a
pelve maior, ou falsa, e outra parte inferior, a pelve menor, ou verdadeira. A pelve maior aloja os órgãos
abdominais, enquanto a pelve menor aloja os órgãos do sistema genital e o final do sistema digestório.
A sínfise púbica é uma articulação semimóvel que une os ossos do quadril.

Observação

Durante a gestação e o parto, a pelve feminina sofre modificações.


As dimensões da pelve menor aumentam e a sínfise púbica se torna mais
flexível nas gestantes à medida que os hormônios, no caso a relaxina,
produzida pelo corpo lúteo e pela placenta, promovem o relaxamento dos
ligamentos pélvicos.

A pelve representa um conjunto ósseo, em formato de anel, que transmite o peso da cabeça, do
pescoço, dos membros superiores e do tronco por meio de suas articulações até os membros inferiores.

Em relação à pelve masculina, a feminina possui as seguintes peculiaridades:

• Ossos mais suaves e delgados, com as saliências e as depressões menos pronunciadas.

• Promontório mais saliente.

• Sínfise púbica e o sacro mais curto.

• Concavidade sacral mais funda.

• Fossas ilíacas maiores, mais rasas, achatadas e horizontais.

• Inclinação pélvica apresenta 4 graus a mais.


109
Unidade I

• Arco púbico mais ampliado.

• Acetábulos mais separados.

• Forame obturado mais oval com predomínio transverso nos homens; e mais circular nas mulheres.

• Ossos fêmures mais oblíquos.


Diâmetro anatômico
Articulação Promontório sacral ~ 11 cm da abertura
sacroilíaca superior da pelve

Diâmetro transverso
~ 13 cm da abertura
superior da pelve

Diâmetro oblíquo
~ 12,5 cm da abertura
superior da pelve
Eminência iliopúbica

Espinha isquiática
Sínfise púbica

Túber isquiático
Arco púbico

Figura 115 – Pelve feminina

As asas do ílio são mais


alargadas

Diâmetro transverso
da pelve

Diâmetro
Diâmetro anatômico oblíquo da pelve
da pelve

A abertura superior da Todas as medidas são ligeiramente


pelve está orientada mais menores que no sexo feminino, no
anteroposteriomente que no que diz respeito ao tamanho do
sexo feminino, onde ela tende corpo
a ser transversalmente oval
Os túberes isquiáticos
O arco púbico e o ângulo A sínfise púbica é mais estão mais afastados
subpúbico são mais estreitos profunda (mais lata)

Figura 116 – Pelve masculina

110
ANATOMIA HUMANA

Membro inferior

Os membros inferiores dos seres humanos desenvolveram‑se, sobretudo, para a manutenção da


massa corporal e a locomoção. Portanto, eles têm a capacidade de movimentar‑se de um lugar para
outro e sustentar o equilíbrio. Os ossos dos membros inferiores podem ser divididos em três segmentos:
a coxa, a perna e os pés. Os membros inferiores são unidos ao tronco pela cintura pélvica.

A marcha ereta dos humanos solicita adaptações morfológicas, não apenas na pelve, mas também
na parte livre do membro inferior, responsável por muitas diferenças entre os membros inferiores e os
superiores. Em virtude da sustentação da massa corporal, o fêmur é um osso muito mais vigoroso do
que o úmero. O acetábulo da articulação do quadril é expressivamente mais profundo do que a cavidade
glenoide da articulação do ombro, ocasionando em uma resistência maior contra luxações, contudo,
possuindo uma movimentação mais restringida.

Os ligamentos possuem os mesmos objetivos e são muito fortes, cujo arranjo possibilita a postura ereta,
com um mínimo de empenho, em uma articulação do quadril em extensão. Os prestigiosos ligamentos
do joelho não apenas resistem a luxações, porém, também se exibem estendidos, transformando os
membros inferiores em colunas estáveis, adequados em sustentar a massa corporal, sem grande vigor
muscular. A disposição assimétrica dos ligamentos da articulação do quadril e da articulação do joelho,
por exemplo, possibilita uma flexão máxima sincrônica durante a corrida.

O fêmur é o mais longo e pesado osso do organismo humano. Ele influencia significativamente a
estatura de um indivíduo, que pode ser medida a partir do comprimento do fêmur, como, por exemplo,
na arqueologia. O fêmur transmite o peso do tronco e da pelve para a tíbia.

Figura 117 – Fêmur

Caso o fêmur seja fraturado, acontece a perda de aproximadamente de 1 a 2 litros de sangue, e isso
pode causar choque por hipovolemia, estado de diminuição do volume de sangue.

A patela é um osso pequeno e triangular, situada anteriormente à articulação do joelho. É o maior


osso sesamoide do corpo humano. É dividida em: base, ápice, face anterior e face articular. A face
anterior é convexa, enquanto a posterior possui uma área articular lisa e oval.

Afora pelo fêmur, a tíbia é o maior osso no corpo humano que aguenta a massa corporal. Está
situada medialmente na perna e tem o papel de transferir o peso do fêmur para o tálus.

111
Unidade I

Figura 118 – Tíbia

Lembrete

O termo “tíbia” quer dizer flauta, pois os ossos tibiais de pássaros eram
utilizados antigamente para fazer instrumentos musicais.

A fíbula localiza‑se lateralmente e um pouco posterior à tíbia e não possui a função de manutenção
da massa corporal. Ela não contribui com a articulação do joelho e auxilia a estabilização da articulação
do tornozelo. Também não transfere o peso do fêmur para o pé significativamente.

Figura 119 – Fíbula

Lembrete

O termo fíbula, do latim espeto, agulha, prego, reconhecido como


anatômico em virtude de sua similaridade com uma agulha, estaria
relacionado à “infibulação”, processo usado pelos romanos em que uma
agulha de prata era inserida no prepúcio de adolescentes a fim de evitar
relações sexuais prematuras.

O último segmento dos membros inferiores é o pé, que se divide em: tarso, metatarso e falanges,
que compõem o esqueleto dos dedos. Os pés são responsáveis pela sustentação e pela locomoção.
O pequeno desenvolvimento dos ossos dos dedos dos pés se dá pelo fato de que, com a aquisição da
postura ereta, os dedos dos pés humanos abandonaram o papel de órgãos de preensão, diferentemente
de outros primatas.

O tarso possui sete ossos, divididos em duas fileiras: a proximal e a distal. Os dois ossos da fileira
proximal são: o calcâneo e o tálus. A fileira distal abrange: o osso navicular, o osso cuboide, o osso
cuneiforme medial, o osso cuneiforme intermédio e o osso cuneiforme lateral. Ele transmite a massa
corpórea em dois sentidos: inferior e posterior, para o calcâneo; e inferior e anterior para o calcâneo e
o osso navicular, os quais, por sua vez, o transmitem para os ossos da fileira distal e para os metatarsos.

112
ANATOMIA HUMANA

O calcâneo é um osso quadrangular que compõe o calcanhar, transferindo a massa corporal


transmitida pelo tálus ao solo. É o mais volumoso dos ossos do tarso. O osso navicular está localizado
medialmente no pé. O osso cuneiforme medial apresenta o formato de cunha. O osso cuboide é o maior
da fileira distal do tarso.

O metatarso é composto por cinco ossos, que são numerados de medial para lateral em I, II, III, IV e
V. Esses ossos são longos e determinam a ligação entre o tarso e as falanges. Diferentemente das mãos,
em que o polegar possui enorme independência de movimentação, no metatarso todos os ossos são
paralelos e no mesmo plano. Os dedos dos pés de medial para lateral são: o hálux, ou dedo I, dedo II,
dedo III, dedo IV e o dedo mínimo ou V dedo.

As falanges são ossos longos e somam‑se em três: falange proximal, falange média e falange distal,
em cada dedo (exceto o hálux) e, às vezes, o dedo mínimo possui apenas duas falanges.

Tíbia * Navicular
Fíbula

Tálus
* Tarso
Calcâneo
Cuboide
Cuneiformes
Metatarsos

Falange proximal do hálux


Falanges

Articulações interfalangeanas
Falange proximal Falange distal do hálux
Falange média
Falange distal

Figura 120 – Pé

Observação

Na clínica médica utiliza‑se comumente outra divisão que define a


região do antepé na divisão anatômica supracitada. O tálus e o calcâneo
compõem o retropé. Os demais ossos do tarso e os ossos do metatarso
formam o mediopé.

2.2 Artrologia

Ao notar uma manobra de um esquiador estilo livre em uma montanha, ou um jogador driblando
e deixando os defensores para trás, se está observando as articulações em ação. Os músculos puxam
os ossos para movê‑los, entretanto, o movimento não seria possível sem as articulações entre os ossos.
113
Unidade I

O local onde dois ou mais ossos se encontram, existindo ou não movimento entre eles, é chamado
de articulações ou junturas.

Figura 121 – Esquiador

Figura 122 – Drible no futebol

Ainda que sempre reflitamos sobre as articulações como móveis, esse nem sempre é o caso. Muitas
possibilitam apenas movimentos limitados e outras não consentem nenhum tipo de movimento aparente.
A estrutura de uma determinada articulação está diretamente relacionada com o seu grau de movimento.

As articulações móveis são locais do corpo onde os ossos se movimentam em contato próximo um
com o outro. Ao trabalhar com máquinas, compreendemos que as peças que fazem contato entre si
demandam maior conservação. Contudo, em nossos corpos, damos pouca importância às articulações
móveis até que patologias ou danos tornem a mobilidade muito precária. Se a mobilidade for limitada,
mesmo em uma articulação altamente móvel, a qualquer instante uma articulação móvel pode ser
transformada em uma articulação imóvel.
114
ANATOMIA HUMANA

Os três tipos principais de articulações podem ser subdivididos em sinartroses, anfiartroses


e diartroses. As partes ósseas das sinartroses são conectadas por um tecido de preenchimento.
Nas sinartroses encontram‑se as articulações fibrosas, cuja conexão óssea é constituída por tecido
conjuntivo. Já nas anfiartroses encontram‑se as articulações cartilagíneas, cuja conexão óssea é
composta por cartilagem. As diartroses se caracterizam pela presença de uma cavidade articular
entre os ossos articulados, preenchida por líquido sinovial ou sinóvia. As articulações fibrosas e
cartilagíneas são estabelecidas pela continuidade dos ossos articulantes por meio do tecido interposto.
As articulações sinoviais se fazem por contiguidade.

2.2.1 Articulações fibrosas

Nas articulações fibrosas os ossos são conectados entre si por fibras de tecido conjuntivo, e desse
modo é possível muito pouco movimento. Consideram‑se os seguintes tipos de articulações fibrosas:
suturas, sindesmoses, gonfoses e esquindileses.

Suturas

Nas suturas existe um pequeno afastamento entre os ossos e, consequentemente, uma pequena
quantidade de tecido conjuntivo interposto. As suturas da calota craniana são exemplos desse tipo
de articulação.

A morfologia dessas suturas diferem entre si, são elas: sutura serrátil, sutura escamosa e sutura plana.

Sutura
sagital

Figura 123 – Vista superior do crânio

115
Unidade I

Sutura
escamosa

Figura 124 – Vista lateral do crânio

Sutura palatina
mediana

Figura 125 – Palato duro (vista inferior)

Na sutura serrátil as margens apresentam dentículos que se engrenam de forma simples inicialmente,
mas posteriormente pode apresentar a extremidade mais dilatada que a base, o que impede o afastamento
dos ossos. A sutura escamosa apresenta as margens ósseas cortadas em bisel, às custas das faces opostas
dos ossos. Já na sutura plana as margens ósseas são planas e lisas.

116
ANATOMIA HUMANA

Sindesmoses

Essas articulações fibrosas ocorrem quando o afastamento entre os ossos é grande e há


consequentemente grande quantidade de tecido conjuntivo interposto. Os dois ossos vizinhos são
conectados por fibras colágenas de tecido conjuntivo, como, por exemplo, a membrana interóssea do
antebraço, entre os ossos rádio e ulna; ou a sindesmose tibiofibular, conforme ilustram as figuras a
seguir; a membrana interóssea da perna, entre os ossos: tíbia e fíbula; ou por fibras elásticas de tecido
conjuntivo, como, por exemplo, nos ligamentos amarelos entre os arcos de vértebras vizinhas.

Membrana interóssea

Figura 126 – Sindesmose

Sindesmose tibiofibular

Figura 127 – Sindesmose

Gonfoses

Nas gonfoses temos a união das raízes de um dente com as paredes dos alvéolos dentários. As fibras
colágenas de tecido conjuntivo conectam o periósteo do osso alveolar ao periodonto.

117
Unidade I

Articulação
dentoalveolar
(gonfose)

Figura 128 – Corte vestibulolingual do primeiro molar inferior e da mandíbula

Esquindilese

As esquindileses ocorrem quando a margem óssea aguda é inserida em uma fenda, como, por exemplo,
do corpo do esfenoide que se aloja em uma superfície em forma de fenda entre as asas do osso vômer.

Esquindilese
esfenovomeral

Figura 129 – Vista inferior do crânio

118
ANATOMIA HUMANA

Nas articulações fibrosas, o movimento entre os ossos é reduzido. Elas podem ser classificadas em:
suturas, sindesmoses, gonfoses e esquindileses.

2.2.2 Articulações cartilagíneas

As articulações cartilagíneas conectam dois ossos por meio de cartilagem hialina ou fibrosa. Podem
ser divididas em dois tipos: primária e secundária. Uma articulação primária, como acontece nas
sincondroses, é aquela na qual os ossos são unidos por uma lâmina ou barra de cartilagem hialina. Desse
modo, a união entre a epífise e a diáfise de um osso em crescimento e a que ocorre entre a costela I e o
manúbrio do esterno são exemplos de tal articulação.

Na região da base do crânio localiza‑se a sincondrose esfenoccipital, conforme ilustra a figura a


seguir. Nela nenhum movimento é possível. Uma articulação cartilagínea secundária é aquela na qual
os ossos são unidos por uma lâmina de fibrocartilagem e as faces articulares dos ossos são cobertas
por uma fina lâmina de cartilagem hialina. Esse tipo encontra‑se na sínfise púbica, entre os ossos do
quadril, e nos discos intervertebrais, entre os corpos das vértebras. Nela uma pequena quantidade de
movimento é possível.

Sincondrose Sutura
esfenocciptal incisiva

Figura 130 – Vista inferior de um crânio infantil

119
Unidade I

Sínfise púbica
(a cartilagem foi removida)

Figura 131 – Vista anterior da pelve óssea

Sínfise
intervertebral

Figura 132 – Corte sagital paramediano da cabeça e do pescoço (vista medial)

Algumas articulações cartilagíneas possibilitam pequenos movimentos entre os ossos. Elas são
classificadas em dois tipos: sincondroses e sínfises.

2.2.3 Articulações sinoviais

As articulações sinoviais, ou também chamadas de diartroses, têm grande mobilidade e possuem


diversas estruturas anatômicas essenciais. Nelas as as terminações ósseas articulares são recobertas por
cartilagem hialina, de maneira a compor uma superfície lisa, o que leva a uma diminuição máxima do
atrito, chamadas de superfícies articulares.

120
ANATOMIA HUMANA

Suas superfícies articulares podem ser convexas, ou seja, esse formato de corpo articular é chamado
de cabeça articular; ou côncavas, nesse caso, diz‑se um acetábulo. O acetábulo pode estar elevado em
tamanho em virtude de uma protuberância de suas margens, por meio do lábio glenoidal, como, por
exemplo, as articulações do ombro e do quadril. A incongruência de algumas superfícies articulares é
contrabalançada por discos ou meniscos.

Lembrete

A cartilagem articular, formada por tecido conjuntivo, consiste em


uma camada protetora de 1 a 5 milímetros de espessura desse material
que reveste as extremidades dos ossos, que se articulam nas articulações
sinoviais. Durante o crescimento normal, a cartilagem articular em uma
articulação sinovial, como o joelho, aumenta em volume conforme a
criança vai ficando mais alta.

A segunda estrutura anatômica que encontraremos nas articulações sinoviais é a cápsula articular.
Ela forma um folheto de tecido conjuntivo em torno da articulação, isolando‑a de modo hermético.
A cápsula articular encontra‑se presa aos dois ossos articulares, em geral, na margem das superfícies
articulares recobertas por cartilagem.

Ela é formada por uma camada interna e outra externa. A camada interna de uma cápsula interna é
a terceira característica anatômica, que define a articulação sinovial, pois é formada de uma membrana
sinovial que produz e aprisiona o líquido sinovial dentro da cavidade articular. A membrana sinovial
é altamente vascularizada e transporta muitas das trocas fisiológicas necessárias para manter as
superfícies articulares em funcionamento.

Assim, a quarta estrutura anatômica que encontraremos nas articulações sinoviais é a cavidade
articular. Ela, na realidade, não existe como uma cavidade, uma vez que entre as duas partes articuladas
há apenas uma fenda capilar em razão da pressão negativa existente ou da tração dos músculos que
passam sobre a articulação.

A quinta estrutura anatômica que compõe as articulações sinoviais é o líquido sinovial ou sinóvia.
Ele é um líquido viscoso, claro ou amarelo‑claro, assim chamado por sua semelhança em aspecto e
consistência com a clara do ovo. Como visto anteriormente, o líquido sinovial é secretado por células
sinoviais na membrana sinovial e líquido intersticial filtrado do plasma sanguíneo. O líquido sinovial tem
três papéis principais:

• Fornecer lubrificação: a fina camada de líquido sinovial que reveste a face interna da cápsula
articular e as faces expostas das cartilagens articulares oferece lubrificação e diminui o atrito.
Isso é alcançado pelo ácido hialurônico e pela lubricina do líquido sinovial, que diminuem o
atrito entre as superfícies das cartilagens articulares em uma articulação sinovial até cerca de um
quinto daquele visto entre dois pedaços de gelo.

121
Unidade I

• Nutrir os condrócitos: a quantidade total de líquido sinovial em uma articulação é normalmente


inferior a 3 mililitros, mesmo em uma articulação grande como, por exemplo, a do joelho. Esse volume
relativamente pequeno de líquido deve circular para oferecer nutrientes e uma via de rejeite de resíduos
para os condrócitos das cartilagens articulares. A circulação do líquido sinovial é estimulada pelo
movimento articular, que também traz ciclos de compressão e expansão nas cartilagens articulares
contrárias. À compressão, o líquido sinovial é forçado para fora das cartilagens articulares; à reexpansão,
o líquido sinovial é trazido de volta para as mesmas cartilagens. Esse fluxo de líquido sinovial para fora
e para dentro das cartilagens articulares provê nutrição para seus condrócitos.

• Agir como amortecedor de impactos: o líquido sinovial amortece os impactos nas articulações
sujeitas à compressão. Por exemplo, as articulações de quadril, joelho e tornozelo são contidas
durante a deambulação e intensamente contidas durante a deambulação acelerada ou a corrida.
Quando a pressão eleva abruptamente, o líquido sinovial concentra o impacto e o dissemina de
maneira invariável sobre as faces articulares.

Lembrete

O líquido sinovial também contém células fagocíticas que retiram


micróbios e resíduos resultantes do uso e desgaste da articulação.

As articulações sinoviais podem apresentar uma diversidade de estruturas anatômicas acessórias,


como, por exemplo, o disco de fibrocartilagem e os corpos adiposos, os ligamentos, os tendões, as bolsas
sinoviais e as bainhas tendíneas sinoviais. Elas são as mais numerosas no organismo e apresentam a
superfície articular, a cápsula articular, a cavidade articular, a membrana sinovial, o líquido sinovial, os
ligamentos, os meniscos e os discos articulares.

Os ligamentos conectam os ossos uns aos outros. Todas as articulações sinoviais são reforçadas por
ligamentos de tecido conectivo elástico, mas não muitos.

Cápsula
articular

Figura 133 – Articulação sinovial

122
ANATOMIA HUMANA

Ligamento Cartilagem
extracapsular articular

Ligamento Menisco
intracapsular

Figura 134 – Articulação sinovial

Cápsula
articular

Faces
articulares

Cavidade
articular

Figura 135 – Articulações sinoviais

Nas articulações complexas, como, por exemplo, a do joelho, estruturas anatômicas acessórias
podem localizar‑se entre as faces articulares opostas e alterar as formas dessas faces, como os que são
citados a seguir.

• Os meniscos e discos articulares são estruturas fibrocartilagíneas em forma de meia lua e localizadas
no joelho. Os papéis dos meniscos e discos articulares não são totalmente entendidos, contudo
as conhecidas incluem: (1) absorção de impacto; (2) melhor encaixe entre as superfícies ósseas
da articulação; (3) oferecimento de superfícies amoldáveis para movimentos combinados; (4)
distribuição de peso sobre uma superfície de contato maior e (5) propagação do líquido sinovial
pelas faces articulares da articulação.

123
Unidade I

• Os corpos adiposos, geralmente, estão localizados próximo à periferia da articulação,


delicadamente revestidos pela membrana sinovial. Os coxins de corpos adiposos oferecem
proteção para as cartilagens articulares e servem como material de arranjo para a articulação
como um todo. Eles ocupam os espaços produzidos quando os ossos se movimentam e a
cavidade articular altera de formato.

• A cápsula articular que circunda toda a articulação é contínua com o periósteo dos ossos que
se articulam. Os ligamentos são estruturas anatômicas acessórias que amparam, fortalecem
e reforçam as articulações sinoviais. Os ligamentos intrínsecos, ou ligamentos capsulares, são
adensamentos da própria cápsula articular. Os ligamentos extrínsecos são separados da cápsula
articular. Esses ligamentos podem ser encontrados externa ou internamente à cápsula articular e
são chamados ligamentos extracapsulares e intracapsulares, respectivamente.

• Os tendões, ainda que caracteristicamente não componham parte da articulação como uma
estrutura anatômica essencial ou acessória, geralmente atravessam a articulação ou em sua
proximidade. A tonicidade muscular normal mantém os tendões tensos e a tensão pode restringir
a amplitude de movimento. Em algumas articulações, os tendões são partes complementares da
cápsula articular e oferecem resistência significativa à cápsula.

• As bolsas sinoviais são pequenas estruturas anatômicas preenchidas por líquido sinovial no tecido
conectivo. São recobertas pela membrana sinovial e podem comunicar‑se ou não com a cavidade
articular. Elas constituem‑se onde o tendão ou os ligamentos entram em atrito contra outros
tecidos. Seu papel é diminuir o atrito e atuar como amortecedor de choque. Elas são localizadas
ao redor da maioria das articulações sinoviais, como, por exemplo, a do ombro.

• As bainhas tendíneas sinoviais são bolsas tubulares que rodeiam os tendões onde eles atravessam
as superfícies ósseas. Elas também podem surgir embaixo da pele que recobre um osso ou no
interior de outros tecidos conectivos sujeitados a atrito ou pressão. As bolsas que se desenvolvem
em situação anormal ou devido a pressões anormais são chamadas de bolsas adventícias.

Disco articular

Figura 136 – Articulações sinoviais

124
ANATOMIA HUMANA

As crianças que realizam atividades esportivas vigorosas acumulam cartilagem articular de forma
mais rápida que as que não realizam as mesmas atividades. Já os meninos tendem a adquirir cartilagem
articular no joelho mais rapidamente que as meninas.

Observação

As inflamações dos tendões são chamadas de tendinites. A inflamação


da bolsa sinovial é chamada de bursite. Na presença de cargas elevadas, pode
acontecer uma inflamação da bainha tendínea, chamada de tendovaginite.

Saiba mais

Para saber mais sobre as articulações sinoviais do corpo humano e


sua classificação:

LAROSA, P. R. R. Sistema articular. In: ___. Anatomia humana: texto e


atlas. São Paulo: Guanabara‑Koogan, 2016, p. 68‑69.

Exemplo de aplicação

Vamos associar o detalhes ósseos estudados com as articulações? Relembre os principais detalhes
ósseos dos esqueletos axial e apendicular e das cinturas escapular e pélvica. Na escápula, por exemplo,
encontramos a cavidade glenoide, a qual se une com o úmero, ou seja, pela cabeça, formando a
articulação do ombro ou glenoumeral.

Já a articulação do ombro é classificada morfologicamente como esferoide e funcionalmente realiza


movimentos nos três eixos, ou seja, flexão, extensão, adução, abdução e rotação. Esportes de alto
rendimento provocam lesões nas articulações, como, por exemplo, as luxações e as entorses. Partindo
desses exemplos, faça uma descrição de algumas articulações sinoviais: quadril, joelho, tornozelo, ombro,
cotovelo, punho e mão, contendo os principais componentes anatômicos, os movimentos que podem
ocorrer e sua significância clínica.

2.3 Miologia

A miologia é o estudo dos músculos, que quimicamente consistem em água e sólidos. Tais sólidos são
as proteínas, os carboidratos, os sais inorgânicos, abrangendo o cloreto de cálcio, o ferro, o magnésio, o
fósforo, o potássio e o sódio; além das enzimas, dos glóbulos de gordura, dos extrativos nitrogenados,
como o ácido úrico e a creatina; e os extrativos não nitrogenados, como o ácido láctico e o glicogênio.
Sem os músculos nós, seres humanos, seríamos pouco mais do que bonecos de lojas de shopping,
impossibilitados de deambular, articular as palavras, piscar os olhos ou até mesmo segurar uma bola de

125
Unidade I

futebol. Todavia, nenhuma dessas inconveniências nos importunaria, porque também permaneceríamos
inábeis de respirar. Uma das principais qualidades dos seres humanos é a nossa competência de se mover.
Porém, também utilizamos os músculos esqueléticos quando não estamos em movimento. Os músculos
chamados posturais estão constantemente se contraindo para nos manter nas posturas sentado ou em
pé. Os músculos chamados respiratórios estão constantemente trabalhando para nos manter respirando,
mesmo durante o sono. A nossa comunicação depende dos músculos esqueléticos, seja para escrever,
digitar ou conversar. Mesmo a comunicação silenciosa, utilizando sinais manuais ou expressões faciais,
carece do trabalho dos músculos esqueléticos.

A quantidade de músculos em nosso corpo depende de uma série de fatores e nem todos os indivíduos
apresentam exatamente a mesma quantidade. Alguns podem surgir em um lado do corpo, entretanto,
não no lado oposto, como, por exemplo, o músculo psoas menor. Outros estão totalmente ausentes em
certos indivíduos, como o músculo palmar longo. Essas características, como visto anteriormente, são
chamadas variações anatômicas. Assim, em conjunto, encontraremos aproximadamente 700 músculos
no corpo humano, sendo eles controlados voluntariamente com variações de tamanho e formato.

Manter bons estoques de glicogênio muscular é essencial para o desempenho esportivo e a


recuperação muscular pós‑treino. A fim de ter um melhor desempenho diversos atletas e desportistas
estão buscando a utilização dos recursos ergogênicos, tratamentos ou substâncias usadas para melhorar
a performance. Elas são classificadas em diferentes tipos, sendo recursos mecânicos, fisiológicos,
farmacológicos, psicológicos ou nutricionais. Dentre os diversos recursos está a creatina.

Saiba mais

Para saber mais sobre o uso dos recursos ergogênicos:

OLIVEIRA, L. M. et al. Efeitos da suplementação de creatina sobre a


composição corporal de praticantes de exercícios físicos: uma revisão
de literatura. Revista Brasileira de Nutrição Esportiva, São Paulo, v. 11,
n. 61, p. 10‑15, 2017. Disponível em: <https://dialnet.unirioja.es/servlet/
articulo?codigo=5771924>. Acesso em: 13 mar. 2019.

2.3.1 Tipos de músculos

Quando a contração de um músculo resulta de uma ação de vontade dizemos que esse é um músculo
voluntário, mas quando a contração muscular escapa ao controle consciente do indivíduo, chamamos
o músculo de involuntário.

Os músculos voluntários diferenciam‑se histologicamente dos involuntários por possuírem estriações


transversais, sendo por isso chamados de estriados. Já os músculos involuntários não possuem estriações,
sendo por esse motivo lisos.

126
ANATOMIA HUMANA

Há ainda outro tipo de músculo, o cardíaco, que se assemelha histologicamente ao músculo


esquelético, ainda que apresente uma ação involuntária, conforme ilustra a figura a seguir.
Músculo estriado esquelético

Estriação
Fibra muscular
Núcleo

Músculo estriado cardíaco

Estriação
Fibra muscular
Disco intercalar
Núcleo

Músculo liso (não estriado)

Fibra de músculo liso

Núcleo

Figura 137 – Tipos de músculos

Podemos também distinguir os músculos estriados dos lisos pela topografia, já que os estriados são,
na maioria das vezes, fixados ao menos por uma de suas extremidades ao esqueleto. Já os músculos lisos
são viscerais, isto é, são localizados na parede das vísceras de vários sistemas do organismo.

O principal papel do tecido muscular estriado esquelético é movimentar o organismo ao executar


tração sobre os ossos do esqueleto, permitindo‑nos diversas atividades, como, por exemplo, andar,
dançar ou tocar um instrumento musical. O músculo estriado cardíaco impulsiona o sangue para os
vasos do sistema cardiovascular; o tecido muscular liso conduz líquidos e sólidos ao longo do canal
alimentar e exerce papéis variados em outros sistemas, portanto, não serão agora foco deste livro.

Observação

Anatomicamente, os músculos são classificados como esqueléticos


quando possuem pelo menos uma extremidade ligada a osso; ou
viscerais, quando formam a parede de órgãos moles e cavitários.

127
Unidade I

2.3.2 Papéis dos músculos

Desses três tipos de músculos, aquele que nos interessa diretamente é o estriado ou voluntário.
A lista a seguir resume os principais papéis de todos os três tipos de músculos:

• Manutenção da postura e posicionamento do organismo: as contrações de músculos


específicos sustentam a postura corporal, como, por exemplo, conservar a cabeça em posição
durante a leitura de um livro ou equilibrar a massa corporal sobre os pés ao caminhar compreende
a contração de músculos que estabilizam as articulações. Sem a constante contração muscular,
não seria possível sentar em postura ereta sem cair nem levantar sem tombar para frente.

• Sustentação de tecidos moles: a parede abdominal e o assoalho da cavidade pélvica consistem


em camadas de músculos estriados esqueléticos. Esses músculos suportam o peso das vísceras e
protegem os tecidos internos contra lesões.

• Regulação da entrada e saída de materiais: aberturas ou orifícios do canal alimentar e das


vias urinárias são circundados por músculos estriados esqueléticos. Esses músculos possibilitam o
controle voluntário da deglutição, defecação e micção.

• Manutenção da temperatura corporal: a contração muscular necessita de energia e sempre


que o organismo usa energia, quando transforma parte dela em calor. A perda de calor pela
contração muscular conserva nossa temperatura corporal dentro do intervalo indispensável para
o seu funcionamento normal.

• Reserva de nutrientes: os lipídios são armazenados nos músculos estriados esqueléticos como
elementos de reserva e usados nas reações energéticas. Já as substâncias minerais influenciam
as alterações químicas musculares e a sua contração. Além disso, o glicogênio é armazenado em
grande quantidade nas fibras musculares, transformando‑se em glicose quando há necessidade
de energia para as células.

2.3.3 Componentes macroscópicos dos músculos estriados esqueléticos

O músculo estriado esquelético possui uma porção carnosa, vermelha no vivente, chamada ventre
muscular, em que prevalecem as fibras musculares, sendo, portanto, a parte contrátil do músculo.
Apresenta também extremidades que, quando são cilíndricas ou possuem formato de fita, chamamos
de tendões, e quando têm formato de lâminas são chamadas aponeuroses, conforme ilustram as
figuras a seguir.

128
ANATOMIA HUMANA

Tendões

Ventre
muscular

Figura 138 – Vista anterolateral

Fáscia muscular
(rebatida) Aponeuroses
Ventre muscular

Figura 139 – Vista lateral da cabeça do braço

129
Unidade I

Os tendões e as aponeuroses são esbranquiçados, brilhantes e muito resistentes, formados por tecido
conectivo denso, rico em fibras colágenas, sendo responsáveis pela fixação dos músculos ao esqueleto.
Contudo, podem estar fixados também em cartilagens, cápsulas articulares, tendões de outros músculos
e na derme. Os tendões possuem um ponto de fixação. Já as aponeuroses apresentam diversos pontos
de fixação.

Frequentemente, a fixação de um tendão muscular ao osso estacionário é chamada de origem; a


fixação do outro tendão muscular ao osso móvel é chamada de inserção. Uma boa associação de ideias
é a mola de uma porta. Nesse exemplo, observamos a parte da mola fixada à estrutura é a origem; a
parte presa à porta representa a inserção. Geralmente, a origem é proximal e a inserção distal; a inserção
normalmente é tracionada em direção à origem.

Lembrete

A porção carnosa do músculo entre os tendões é chamada ventre


muscular, ele representa a porção espiral do meio da mola do nosso exemplo.

É importante lembrarmos também que existem alguns poucos músculos em que temos tendões
interpostos a seus ventres, todavia, esses tendões não servem para fixação no esqueleto.

Envolvendo o músculo, existe uma lâmina de tecido conectivo com espessura variável, às vezes
muito espessa, outras não, a fáscia muscular. Ela desempenha os papéis de:

• Bainha elástica de contenção: esse papel desempenhado pela fáscia, de conter ou manter
próximas as fibras musculares entre si, é relevante para possibilitar que o músculo possa executar
um trabalho competente de tração ao se contrair.

• Facilitar o deslizamento dos músculos entre si: relevante para impedir o atrito entre os
músculos durante a contração.

• Retináculo: alças de sustentação compostas de tecido conjuntivo, que sustentam os tendões em seu
lugar e, em parte, agem como apoio. São locais de desvio de músculos em seu caminho de origem até
a inserção, como, por exemplo, o retináculo extensor dos músculos extensores longos da mão e dos
dedos que, durante uma extensão dorsal, evita o afastamento do tendão em sentido dorsal.

Lembrete

Os músculos estriados esqueléticos fixam‑se normalmente aos ossos


por meio de suas extremidades. O ponto fixo (origem) do músculo não se
desloca durante a ação muscular, enquanto a extremidade contrária, que
se desloca, é o ponto móvel (inserção).

130
ANATOMIA HUMANA

Saiba mais

Para saber mais sobre os seguintes tópicos: tecido muscular estriado


esquelético e organização muscular; anatomia macroscópica; anatomia
microscópica das fibras musculares estriadas esqueléticas; contração
muscular; unidades motoras e controle muscular; nota clínica (rigor mortis);
tono muscular e tipos de fibras musculares estriadas esqueléticas:

MARTINI, F. H.; TIMMONS, M. J.; TALLISTSCH, R. B. Sistema muscular. In:


___. Anatomia humana. 6 ed. Porto Alegre: Artmed, 2009, p. 238‑251.

2.3.4 Nomenclatura dos músculos estriados esqueléticos

Os músculos estriados esqueléticos são classificados de acordo com suas diversas características,
incluindo localização, tamanho, forma, disposição das fibras musculares, origem, inserção, número de
cabeças, embriologia e função.

Localização

Alguns nomes de músculos lembram o osso ou a região do organismo na qual o músculo está
integrado, por exemplo, o músculo temporal localiza‑se sobre o osso temporal; o músculo peitoral
está localizado no tórax; ou, ainda, o músculo glúteo está nas nádegas; e um músculo braquial que
está no braço.

Tamanho relativo

Termos como máximo, mínimo, longo e curto são comumente usados em nomes de músculos. Um
músculo longo é mais comprido do que um curto. Além disso, uma segunda parte do nome imediatamente
nos fala se existe mais de um músculo relacionado. Se existe um músculo curto, muito possivelmente um
músculo longo está presente na mesma região, por exemplo, o músculo palmar longo. Ainda podemos
citar o músculo glúteo máximo, como mostra a figura a seguir, sendo ele o maior músculo das nádegas,
e o músculo glúteo mínimo, o menor.

Forma

Alguns músculos são chamados conforme sua forma, como o músculo pronador quadrado, que
apresenta um formato que lembra essa figura geométrica.

131
Unidade I

Músculo glúteo
máximo

Figura 140 – Região glútea

Músculo
deltoide

Figura 141 – Vista lateral de membro superior

Disposição das fibras musculares

Geralmente os músculos apresentam as fibras dispostas paralela ou obliquamente à direção de


tração exercida por eles. Há, ainda, os músculos dispostos de forma circular. Assim, os músculos
estriados esqueléticos podem ser classificados quanto a disposição paralela, a disposição oblíqua
e a disposição circular. Dentre os músculos que apresentam disposição paralela pode‑se citar:
os músculos longos, nos quais o comprimento é predominante, como, por exemplo, o músculo
sartório; os músculos largos, nos quais o comprimento e a largura são equivalentes, por exemplo,
o músculo glúteo máximo; os músculos fusiformes, predominantemente nos membros e que são
longos, mas que se nota uma convergência das fibras em direção aos tendões de origem e inserção,
por exemplo, o músculo braquial; e os músculos em formato de leque, que são largos, mas cujas
fibras convergem para um tendão em uma das extremidades, dando‑lhes a aparência de um leque,
por exemplo, o músculo temporal.

O músculo que possui fibras dirigidas obliquamente e inseridas apenas em um lado do tendão,
à semelhança da metade de uma pena de ave, é classificado como reniforme. Um exemplo disso é

132
ANATOMIA HUMANA

o músculo extensor longo do hálux. Músculos bipeniformes são os que têm o formato de uma pena
inteira, como, por exemplo, o músculo reto femoral.
Músculo
sartório

Figura 142 – Vista anterior da coxa

Músculo
bíceps
braquial

Músculo
braquial

Figura 143 – Vista anterolateral do braço

133
Unidade I

Músculo
extensor
longo do
hálux

Figura 144 – Vista anterior da perna

Músculo reto
femoral

Figura 145 – Vista anterior da coxa e do dorso do pé

Os músculos orbiculares da boca e dos olhos (linhas azul‑claro), conforme ilustra a figura a seguir,
têm seus fascículos dispostos em círculo em torno de uma abertura, atuando como esfíncteres para
fechar a abertura.

134
ANATOMIA HUMANA

Músculo orbicular
dos olhos

MZM

CGS

CGS

MZM

Músculo
orbicular da boca

Figura 146 – Peças de cadáver fresco com compartimento de gordura superficial (CGS)
e músculos zigomático maior (MZM) expostos

Número de origens

Quando bíceps, tríceps ou quadríceps compõem parte do nome de um músculo, pode‑se adotar que
o músculo tem duas, três ou quatro origens, por exemplo, o músculo bíceps femoral, o tríceps da perna
e o quadríceps femoral.

O músculo bíceps femoral é formado por duas cabeças de origem: o músculo bíceps femoral cabeça
longa e o músculo bíceps femoral cabeça curta. Já o músculo tríceps da perna é formado por três
cabeças de origem: os músculos gastrocnêmios (medial e lateral) e o músculo sóleo. Por fim, o músculo
quadríceps femoral é formado por quatro cabeças de origem: o músculo reto femoral, os músculos
vastos (medial, intermédio e lateral).

M. sartório

Músculos quadríceps femoral:

M. reto
femoral

M. vasto
intermédio

M. vasto
lateral

M. vasto
medial

Figura 147 – (A) Vista anterior da coxa. (B) Vista anterior da coxa com o músculo reto femoral rebatido

135
Unidade I

Observação

A expressão “calcanhar de Aquiles”, em sentido amplo, significa qualquer


ponto desprotegido. Em anatomia, ele se chama tendão do calcâneo, é o
ponto de inserção do músculo tríceps da perna. Na mitologia grega, o herói
Aquiles foi tornado inatingível pela mãe ao ser banhado nas águas do rio
Estige. Porém, como foi segurado pelos calcanhares para não afundar,
essa parte continuou a ficar vulnerável. Mais tarde, na Guerra de Troia,
foi mortalmente golpeado por Páris com uma flechada justamente no
calcanhar.

Número de inserções

Os músculos também podem se inserir por mais de um tendão, sendo eles classificados como: bicaudado,
quando existirem dois tendões de inserção, por exemplo, músculo flexor curto do hálux; ou policaudado,
quando existirem três ou mais tendões de inserção, por exemplo, músculo extensor dos dedos.

Localização de suas fixações

Alguns músculos são nomeados conforme os seus pontos de origem e inserção. A origem é sempre
o primeiro nome, por exemplo, o músculo esternocleidomastóideo tem duas origens, no esterno e na
clavícula, e sua inserção é no processo mastoide do osso temporal.

Músculo flexor
curto do hálux

Figura 148 – Músculos da planta do pé

136
ANATOMIA HUMANA

Músculo
extensor
dos dedos

Figura 149 – Vista posterior do antebraço

Músculo
esternocleidomastóideo

Figura 150 – Vista anterolateral da cabeça e do pescoço

Número de ventres

Existem músculos que apresentam mais de um ventre muscular, com tendões intermediários entre
eles. Eles podem ser: digástrico, quando possuem dois ventres musculares, por exemplo, músculo
137
Unidade I

digástrico; ou, ainda, poligástrico, quando apresentam três ou mais ventres musculares, por exemplo,
músculo reto do abdome.

Músculo
temporal

Músculo
digástrico

Figura 151 – Vista lateral da cabeça

Músculo
reto do
abdome

Figura 152 – Vista anterior do tronco

138
ANATOMIA HUMANA

Embriologia

Os músculos podem ser divididos em mioméricos, ou seja, derivados de miótomos, que são a grande
maioria; e branquioméricos, ou seja, derivado dos arcos branquais (faríngeos), como, por exemplo, os
músculos da mastigação, face, faringe, laringe e os músculos trapézio e esternocleidomastóideo.

Ação

Quando os músculos são chamados por suas ações, são utilizadas palavras como flexor, extensor ou
adutor no nome do músculo, por exemplo, o músculo extensor longo do hálux.

Como visto, os nomes dos músculos são dados conforme certos critérios, a figura a seguir ilustra e
resume alguma das classificações estudadas.

A C Ventre
Tendão de
origem Ventre Tendão
Bíceps intermediário

Tendão
intermediário
Intersecções
musculares
Tríceps

Tendão de
inserção D

Quadríceps
Superfície de
corte do músculo
esfincter

Origens
musculares
B Secção
transversal E
Secção fisiológica do
anatômica do músculo
músculo

Ângulo de
inclinação das
fibras
Aponeurose
(inserção)

Figura 153 – Tipos de músculos estriados esqueléticos. (A) Número de origens (pontos fixos).
(B) Direção das fibras. (C) Músculo poligástrico. (D) Fibras horizontais. (E) Origem e inserção de um músculo largo

139
Unidade I

3 NEUROANATOMIA

Não são tão‑só as estrelas no universo que fascinam o homem com o


seu impressionante número. Em um outro universo, o nosso universo
biológico interno, uma gigantesca “galáxia” com centenas de milhões de
pequenas células nervosas que formam o cérebro e o sistema nervoso
comunicam‑se umas com as outras através de pulsos eletroquímicos para
produzir atividades muito especiais: nossos pensamentos, sentimentos,
dor, emoções, sonhos, movimentos, e muitas outras funções mentais
e físicas, sem as quais não seria possível expressarmos toda a nossa
riqueza interna e nem perceber o nosso mundo externo, como o som,
cheiro, sabor, e também luz e brilho, inclusive o das estrelas (RELVAS,
2008, p. 21).

Durante milhares de anos de história os seres humanos sofreram grandes modificações em todo o
corpo; por exemplo, no crânio, o esqueleto dos Australopithecus e dos Homo sapiens diferem em relação
ao tamanho do cérebro e da capacidade craniana. O cérebro é um elemento que diferencia a espécie
humana das demais e sua responsabilidade por papéis de regulação relevantes no funcionamento do
organismo com o passar dos milênios ficaram cada vez mais claras.

Os egípcios já reconheciam os danos no sistema nervoso central e acreditavam que o cérebro era
a sede da alma e da mente humana. Eles guardavam as vísceras e descartavam o cérebro dos mortos,
pois acreditavam que ele não tinha utilidade. Já os assírios apresentavam o fígado como o centro do
pensamento e Aristóteles percebia o cérebro como um resfriamento do corpo.

Demócrito, Diógenes, Platão e Teófrastro tinham o cérebro como o comando das atividades corporais.
Já Hipócrates acreditava no cérebro como sede da mente e inicia os estudos para a divisão do cérebro
em dois hemisférios, onde estavam os papéis biológicos e os da mente.

Descartes relatou que a capacidade do ser humano estava fora do cérebro, na mente. Darwin traz
a explicação sobre o comportamento racional do ser humano como resultado do funcionamento do
cérebro e do sistema nervoso e não faz menção à mente.

Com exceção da última década do século XIX, a ciência do cérebro no século XIX foi dominado por
médicos como Broca, Wernicke, Fritsch e Brodmann. Eles e outros começaram o processo de localização
funcional do cérebro. Pavlov uniu a psique ao comportamento e aprendeu com o desenvolvimento do
conceito de condicionamento reflexo, que ainda é vastamente usado na neurociência hoje.

Sherrington postulou a comunicação dos neurônios por meio da sinapse em bases teóricas. Isso
acabou por ser uma característica essencial do sistema nervoso, que, no entanto, foi evidenciado
incontestável apenas décadas depois com o auxílio do microscópio eletrônico.

O século XX assistiu a um crescimento exponencial dos estudos sobre o sistema nervoso por meio de
um esforço colaborativo. Por conseguinte, nomes individuais, não importa quão consideráveis, davam
140
ANATOMIA HUMANA

progressivamente menos justiça a todos aqueles que colaboravam para os progressos relevantes nos
trabalhos científicos.

Golgi compartilhou o Prêmio Nobel de 1906 com Ramón y Cajal, dois protagonistas no grande
debate sobre a organização celular versus a organização reticular do cérebro. Em 1915, depois de
estudos realizados em campos russos de prisioneiros de guerra, Bárány recebeu o Prêmio Nobel por
seus estudos da fisiologia e patologia do sistema vestibular. Dale e Loewi compartilharam o prêmio
em 1936 pelos estudos sobre os neurotransmissores.

O Prêmio Nobel a Hubel, Wiesel e Sperry em 1981 marcou a neurociência em direção a um nível de
sistema de compreensão do cérebro, permanecendo na fronteira da neurociência atual. Hubel e Wiesel
sugeriram um modelo hierárquico para a identificação de temas visuais complexos. Sperry foi premiado
por seu trabalho em especialização lateralizada do papel cerebral.

Progressos na compreensão do sistema nervoso de mamíferos foram reconhecidos pelo Prêmio


Nobel de 2014 a O’Keefe e os Mosers, sublinhando a crescente atenção da comunidade da neurociência
nas abordagens em nível de sistema e de rede.

Hoje já compreendemos a integração e dinamismo entre o ser humano e o cérebro, que constitui
um sistema funcional de relação do ser humano na ação para aprender, interagir e relacionar‑se com o
meio e com o outro.

3.1 Sistema nervoso

Imagine que alguém esteja dirigindo por uma autoestrada e ouça um forte ruído à esquerda.
Prontamente ele desvia para a direita. Ao mesmo tempo, Mateus deixa uma anotação na mesa da
cozinha: “Vejo você mais tarde. Fique com tudo pronto às 19 horas”. O “tudo pronto” se refere ao jantar
para os convidados. A pessoa está dormindo, mas logo acorda quando imediatamente seu bebê começa
a chorar. O que tais fatos têm em comum? Eles são exemplos diários do funcionamento do sistema
nervoso (SN), que traz quase que permanentemente suas células corporais em atividade.

O SN é o sistema regente de controle e de comunicação do organismo. Todo pensamento, ato e


emoção refletem a sua atividade. Suas células se comunicam por sinais elétricos e químicos, os quais são
velozes e específicos, geralmente promovendo respostas quase que instantâneas.

Com apenas 2 quilos, cerca de 3% da massa corporal total, o SN é um dos menores, todavia, mais
complexos dos 12 sistemas corporais. Essa rede complexa de bilhões de neurônios e de um número
ainda maior de células da neuroglia está organizada em duas subdivisões principais: o sistema nervoso
central (SNC) e o sistema nervoso periférico (SNP).

O SNC corresponde ao encéfalo e à medula espinal dos vertebrados, enquanto o SNP corresponde
aos neurônios, às células da neuroglia, aos gânglios e aos nervos cranianos e espinais que se situam
fora do SNC.

141
Unidade I

Encéfalo

Medula espinal

Figura 154 – SNC e SNP

Observação

Os neurônios são células especializadas para a condução e transmissão


de sinais elétricos no SN. Já as células da neuroglia ajudam os neurônios
a realizarem seus papéis, como, por exemplo, os astrócitos e os
oligodendrócitos no SNC, e as células de Schwann e as satélites no SNP.

Conquanto seja muitas vezes comparado com um computador, o SN é bem mais complexo e
mutável do que qualquer dispositivo eletrônico. Ainda assim, como em um computador, o veloz fluxo
de dados e a alta atividade de processamento dependem de atividade elétrica. Contudo, diferentemente
do computador, partes do cérebro apresentam a capacidade de reorganizar as conexões elétricas
anteriormente estabelecidas conforme a chegada de novos dados, de tal modo que compõe parte do
processo de aprendizagem.

Em conjunto com os órgãos endócrinos, o SN controla e adequa as atividades de outros sistemas.


Esses dois sistemas partilham relevantes características estruturais e funcionais. Ambos dependem
de alguma maneira de comunicação química com tecidos e órgãos‑alvo e habitualmente agem de
maneira complementar. O SN normalmente age provendo ligeiras e sucintas respostas a estímulos,
alterando provisoriamente as atividades de outros sistemas orgânicos. A resposta pode ser praticamente
imediata, ou seja, em poucos milissegundos, e os fins esvaecem logo após interromper a atividade
nervosa. Em compensação as respostas endócrinas caracteristicamente possuem desenvolvimento
mais brando do que as do SN, porém, comumente persistem mais tempo, ou seja, horas, dias ou anos.
Os órgãos endócrinos modulam a atividade metabólica dos demais sistemas em resposta à disponibilidade
de nutrientes e à demanda energética. Eles também coordenam processos ininterruptos por longos
períodos, isto é, meses a anos, como, por exemplo, o crescimento e o desenvolvimento.

A neuroanatomia significa o estudo do SN. Ele apresenta o nome de sistema porque é composto por
um tecido fundamental, que é o tecido nervoso, o qual, por sua vez, é composto de células nervosas
chamadas de neurônios. Os neurônios, portanto, são as unidades morfofuncionais desse sistema e as
células especializadas para a condução e transmissão de sinais elétricos no SN.

142
ANATOMIA HUMANA

3.2 Introdução à terminologia da neuroanatomia

A terminologia da neuroanatomia é detalhada na descrição da organização tridimensional complexa


do encéfalo. Os eixos do SN são com facilidade entendidos em animais, que possuem um SNC mais
simples do que aquele dos seres humanos. No gato, por exemplo, o eixo rostrocaudal se estende
aproximadamente em linha reta desde o nariz até à cauda.
Dorsal

Rostral Caudal

Ventral

Figura 155 – Os eixos anatômicos e a sua relação com o SNC

Esse eixo chamamos de eixo longitudinal do SN, mais frequentemente de neuroeixo, porque o SNC
possui uma organização longitudinal predominante. O eixo dorsoventral, perpendicular ao eixo rostral,
se estende desde o dorso até o abdome. As terminologias posterior e anterior são sinônimos de dorsal e
ventral, concomitantemente.

Dorsal
(superior)

Rostral

Ventral
(inferior)

Ventral Dorsal
(anterior) (posterior)
Caudal

Figura 156 – Os eixos anatômicos e a sua relação com o SNC

Lembrete

Neuroeixo é a linha imaginária que se estende da extremidade inferior


da medula espinal até a região mais superior do encéfalo.

143
Unidade I

O eixo longitudinal do SN humano não é reto como no gato. Durante a formação, o encéfalo e,
por conseguinte, seu eixo longitudinal sofrem uma curvatura proeminente ou flexura na região
do mesencéfalo. Ao invés de descrever as estruturas anatômicas localizadas rostrais a essa flexura,
normalmente são utilizadas as terminologias superior e inferior. Essa curvatura do eixo reflete a
insistência da flexura cefálica.

Portanto, determinamos três planos fundamentais em relação ao eixo longitudinal do SN


nos quais as secções anatômicas são realizadas. As secções horizontais, as quais são realizadas
paralelamente ao eixo longitudinal, de um lado a outro; as secções transversais, que são realizadas
perpendicularmente ao eixo longitudinal, entre as faces anterior e posterior; as secções transversais
do hemisfério cerebral, que são aproximadamente paralelas à sutura coronal do crânio e, por
conseguinte, também chamadas de cortes coronais; as secções sagitais, as quais são realizadas
paralelamente tanto ao eixo longitudinal do SNC como à linha mediana, entre as faces anterior
e posterior; a secção mediossagital, que divide o SNC em duas metades simétricas; e a secção
parassagital, realizada fora da linha mediana.

Em neuroanatomia diversos afixos ou termos são utilizados. O quadro a seguir mostra o significado,
com exemplos de alguns afixos.

Quadro 2

Afixos ou termos Significado Exemplo


Arac‑ Teia de aranha Aracnoide‑máter
Colículo Saliência Colículo inferior
Córtex “Casca” exterior Córtex cerebral
Di‑ Através Diencéfalo
Dura Duro, resistente Dura‑máter
‑encéfalo Pertencente ao encéfalo Mesencéfalo
Fascículo Feixe Fascículo lateral
Foice “Em forma de foice” Foice do cerebelo
Lemnisco Fita Lemnisco lateral
Mes‑ Meio Mesencéfalo
Met‑ Depois Metencéfalo
Miel‑ Medula Mielencéfalo
Pedúnculo Ponte Pedúnculo cerebral
Pros‑ Em Prosencéfalo
Romb‑ “Em forma de diamante” Rombencéfalo
Sub‑ Abaixo Subcortical
Tel‑ Final Telencéfalo

144
ANATOMIA HUMANA

Saiba mais

Para saber sobre alguns fatos curiosos sobre o cérebro humano:

CAMINHOS PARA O FUTURO. 45 fatos curiosos sobre o cérebro


humano. Revista Galileu, São Paulo, set. 2016. Disponível em:
<https://revistagalileu.globo.com/Caminhos‑para‑o‑futuro/Saude/
noticia/2016/09/45‑fatos‑curiosos‑sobre‑o‑cerebro‑humano.html>.
Acesso em: 14 maio 2019.

3.3 Divisão do SN

O SN é um todo e sua divisão em partes tem um significado apenas didático, pois as diversas partes
estão intensamente relacionadas ao ponto de vista morfológico e funcional. O SN pode ser dividido em
partes, levando‑se em conta o critério anatômico, funcional e embriológico. Existe ainda uma divisão
quanto à segmentação. O quadro a seguir mostra a divisão com base nos critérios anatômicos do SN.

Quadro 3 – Classificação hierárquicas das grandes estruturas neuroanatômicas

Sistema nervoso central


Encéfalo
Cérebro Cerebelo Tronco encefálico
Telencéfalo Diencéfalo Medula
Tálamo espinal
Córtex Núcleos
Córtex Núcleos da Hipotálamo Mesencéfalo Ponte Bulbo
cerebelar profundos
cerebral base Epitálamo
Subtálamo

3.3.1 Divisão do SN com base nos critérios anatômicos

Esta divisão é uma das mais estimadas e composta pelo SNC e SNP. O SNC é aquele que se
situa dentro do esqueleto axial, ou seja, a cavidade craniana e o canal vertebral, constituída pela
superposição dos forames vertebrais; e o SNP é o que se situa fora desse esqueleto. Em geral,
idealiza‑se que o SNC apresenta duas partes principais: o encéfalo e a medula espinal. O encéfalo
e a medula espinal formam o neuroeixo. O encéfalo é dividido nas seguintes partes: cérebro,
tronco encefálico o cerebelo. Chamamos de cérebro o par de hemisférios cerebrais e o diencéfalo.
O tronco encefálico abrange o mesencéfalo, a ponte e o bulbo ou a medula oblonga. No homem,
a relação entre o tronco encefálico e o cérebro pode ser rudemente confrontada com a que há
entre o tronco e a copa de uma árvore, conforme ilustra a figura a seguir.

145
Unidade I

Cérebro

Prosencéfalo
Plexo braquial Nervo frênico
Mesencéfalo
Ponte Cerebelo
Rombencéfalo Nervo radial Plexo lombar
Bulbo
Nervo mediano
Plexo sacral
Cervical Nervo ulnar
Nervo obturatório

Nervo isquiático
Nervo femoral
Medula espinal Torácica

Lombar
Sacral Coccígea

Figura 157 – Divisão do SN com base nos critérios anatômicos

O tronco encefálico é dividido em: mesencéfalo, ponte e bulbo. O mesencéfalo é a parte estreita do
encéfalo que conecta o cérebro na ponte e no cerebelo. A cavidade estreita do mesencéfalo chamamos
de aqueduto do mesencéfalo, que interliga o III ventrículo e o IV ventrículo. O bulbo apresenta uma forma
cônica e conecta‑se com a ponte, superiormente; já medula espinal, inferiormente. Ele abrange muitas
quantidades de neurônios, chamadas de núcleos, e serve de via para as fibras nervosas ascendentes e as
fibras nervosas descendentes. A ponte situa‑se sobre a face anterior do cerebelo, inferior ao mesencéfalo
e superior ao bulbo. Seu nome se dá pelo amplo número de fibras transversais sobre sua face anterior,
que conectam os dois hemisférios cerebelares.

O encéfalo também é composto pelo cerebelo, formação nervosa volumosa, localizada atrás do
bulbo e da ponte, adentrando na constituição do teto do IV ventrículo. O bulbo, a ponte e o cerebelo
rodeiam uma cavidade preenchida com liquor ou líquido cerebrospinal (LCS), o IV ventrículo. Esse se
conecta superiormente com o III ventrículo por meio do aqueduto do mesencéfalo; inferiormente,
continua‑se com o canal central da medula espinal. Comunica‑se com o espaço subaracnóideo por
meio de três aberturas na parte inferior do teto. É por meio dessas aberturas que o LCS dentro do SNC
atinge o espaço subaracnóideo.

Por fim, o cérebro, que compõe na maior parte do encéfalo. Ele é formado por dois hemisférios,
que são conectados por uma massa de substância branca, chamada de corpo caloso. Cada hemisfério
cerebral expande‑se do osso frontal ao osso occipital no crânio, superiormente à fossa anterior do
crânio e à fossa média do crânio. Posteriormente, o cérebro permanece acima do tentório do cerebelo.
Os hemisférios cerebrais são separados por uma fenda profunda, a fissura longitudinal do cérebro, dentro
da qual se projeta a foice do cérebro.

146
ANATOMIA HUMANA

Observação

O corpo caloso consiste em um conjunto de fibras transversais que,


ao cruzarem a linha média, se abrem em leques, de forma a alcançar os
diferentes pontos de toda a convexidade cerebral. Emergindo abaixo do
corpo caloso está o fórnice, um feixe complexo de fibras nervosas. Lá está
também o infundíbulo da hipófise, formação nervosa em forma de funil.

Como vimos anteriormente, o cérebro apresenta dois hemisférios cerebrais e o diencéfalo. Esse
último está quase totalmente escondido da superfície do encéfalo. Inclui o tálamo dorsalmente e o
hipotálamo ventralmente. O tálamo é uma massa ovoide ampla de substância cinzenta, que se localiza
de cada lado do III ventrículo. A extremidade anterior do tálamo constitui o limite posterior do forame
interventricular, a abertura entre os ventrículos laterais e o III ventrículo. O hipotálamo compõe a parte
inferior da parede lateral e o assoalho do III ventrículo.

Observação

Forame interventricular, ou forame de Monro, é a abertura entre o


ventrículo lateral e o III ventrículo. Está situado entre as colunas do fórnice
e a extremidade anterior do tálamo.

A continuidade do SNC acontece pela medula espinal. Ela se localiza dentro do canal vertebral, na
coluna vertebral, e assim como o encéfalo é envolvida por três meninges, a dura‑máter, a aracnoide‑máter
e a pia‑máter, conforme ilustram as figuras a seguir. Ela é cilíndrica e inicia superiormente no forame
magno do crânio, onde é contínua com o bulbo e acaba inferiormente na região lombar. Abaixo, a
medula espinal afila‑se no cone medular, a partir do ápice do qual um prolongamento da pia‑máter, o
filamento terminal, desce para aderir ao dorso do cóccix.

Figura 158 – Dura‑máter

147
Unidade I

Figura 159 – Aracnoide‑máter

Figura 160 – Pia‑máter

Figura 161 – Região proximal da medula espinal, dentro do canal vertebral (a parte posterior das vértebras
foi removida para exposição da medula). Em sua parte proximal observa‑se sua conformação cilíndrica e a
emergência de filetes nervosos que formam os nervos espinais. Vê‑se, ainda, a dura‑máter, semirremovida nesta peça

148
ANATOMIA HUMANA

Figura 162 – Em sua região distal vê‑se sua terminação cônica e a


cauda equina que preenche a porção distal do canal vertebral

A parte periférica do SN abrange os nervos cranianos e os espinais, os gânglios e as terminações


nervosas. Portanto, são vias que transportam os estímulos ao SNC ou que carregam até os órgãos
efetuadores as ordens procedidas da parte central.

Lembrete

Gânglios são grupos de neurônios do exterior do SNC. Nervos são feixes


de axônios periféricos com um trajeto comum.

Os 31 pares de nervos espinais estão aderidos por meio das raízes ventrais ou motoras e as raízes
dorsais ou sensitivas. Cada raiz adere à medula por uma sequência de radículas, as quais abraçam toda
a extensão do segmento medular correspondente. Cada raiz nervosa dorsal possui um gânglio da raiz
dorsal, cujas células dão origem às fibras nervosas periféricas e centrais.

Os 12 pares de nervos cranianos estão conectados com o encéfalo, sendo que os dois primeiros pares
de nervos cranianos, o nervo olfatório e o nervo óptico, apresentam origens encefálicas no telencéfalo
e diencéfalo, respectivamente. Os demais pares de nervos cranianos possuem origens encefálicas no
tronco encefálico.

149
Unidade I

Saiba mais

Para saber mais sobre a análise da evolução filogenética do SN, que


possibilita o entendimento das relações entre os desenvolvimentos e
interações das estruturas nervosas e os prováveis comportamentos dos
seus referentes seres:

RIBAS, G. C. Considerações sobre a evolução filogenética do sistema


nervoso, o comportamento e a emergência da consciência. Revista Brasileira
de Psiquiatria, v. 28, n. 4, p. 326‑328, 2016. Disponível em: <http://www.
scielo.br/pdf/%0D/rbp/v28n4/12.pdf>. Acesso em: 14 mar. 2019.

3.3.2 Divisão do SN do ponto de vista funcional

Do ponto de vista funcional podemos dividir o SN em sistema nervoso somático (SNS) e sistema
nervoso visceral (SNV). O SNS é também chamado de SN da vida de relação, ou seja, aquele que
relaciona o organismo com o meio. Para isso, a parte aferente do SNS encaminha informações aos
centros nervosos gerados em receptores periféricos, comunicando a esses centros sobre o que se passa
no meio ambiente. Por outro lado, a parte eferente do SNS conduz aos músculos estriados esqueléticos
o comando dos centros nervosos, derivando movimentos que levam a um maior relacionamento ou
integração com o meio externo.

O SNV ou neurovegetativo relaciona‑se com a inervação das estruturas viscerais e é muito


importante para a integração da atividade das vísceras no sentido da homeostase. De tal modo, como o
SNS, caracteriza‑se no SNV uma parte aferente e outra parte eferente. O componente aferente leva os
impulsos nervosos oriundos em receptores das vísceras, os visceroceptores a áreas específicas do SNC.
O componente eferente traz impulsos de certos centros nervosos até as estruturas viscerais, acabando
em glândulas no músculo liso ou no músculo estriado cardíaco. Por definição, chamamos de SNA apenas
o componente eferente do SNV, sendo que o SNA se divide em simpático e parassimpático.

Observação

O controle dos papéis como, por exemplo, a digestão, a frequência


cardíaca, a micção e a deglutição é realizado por uma parte do SN
chamada de SNA.

3.3.3 Divisão do SN com base na segmentação ou metameria

Podemos dividir o SN em sistema nervoso segmentar e sistema nervoso suprassegmentar.


A segmentação no SN é demonstrada pela conexão com os nervos. Referimos ao sistema nervoso
segmentar todo o SNP, mais aquelas partes do SNC que estão em relação direta com os nervos típicos,
150
ANATOMIA HUMANA

ou seja, a medula espinal e o tronco encefálico. O cérebro e o cerebelo pertencem ao sistema nervoso
suprassegmentar. O nervo olfatório e o nervo óptico se ligam ao cérebro, todavia não são considerados
nervos típicos. De tal modo, nos órgãos do sistema nervoso suprassegmentar a substância cinzenta
situa‑se fora da substância branca e forma uma camada fina, o córtex, que reveste toda a superfície do
órgão. Já nos órgãos do sistema nervoso segmentar não há córtex e a substância cinzenta pode situar‑se
por dentro da branca, como acontece na medula espinal. O sistema nervoso segmentar aportou na
evolução antes do suprassegmentar e, funcionalmente, dizemos que ele é subordinado. De tal modo,
as comunicações entre o sistema nervoso suprassegmentar e os órgãos periféricos, os receptores e os
efetuadores, se realizam por meio do sistema nervoso segmentar.

Lembrete

Há dois tipos de substâncias no tecido nervoso: a branca e a cinzenta. A


substância branca apresenta axônios mielinizados, enquanto na substância
cinzenta há a presença de corpos celulares dos neurônios.

Andreas Vesalius começa o seu livro tratando sobre o tema do cérebro e do sistema nervoso.

Ele afirmou: “o encéfalo é a sede da alma dos indivíduos e das suas


faculdades. Ele reside no crânio, sendo que magnificamente se ajusta ao seu
formato na cavidade superior da cabeça, e assim, ocupa todo esse espaço”.
(GOMES; MOSCOVICI; ENGELHARDT, 2015, p. 157).

Vesalius em alguns trechos de seu livro faz menções à abertura do crânio com analogias a um cofre.

Diz: “primeiro, o encéfalo está protegido por uma membrana, a dura‑máter.


Após a sua remoção, surgem as partes dos hemisférios cerebrais direito e
esquerdo, que por sua vez é contínuo pela medula oblonga e medula espinal”.

[...]

Ele prossegue: “após a remoção da dura‑máter percebam que ela envia


uma dobra entre os dois hemisférios cerebrais (foice do cérebro), e entre
o cérebro e o cerebelo (tentório do cerebelo). Assim, a exposição dos
hemisférios cerebrais possibilita a visualização de duas grandes cavidades
(ventriculos laterais), os giros cerebrais e a substância branca subcortical.
Em um nível mais profundo observam‑se estruturas subcorticais, como o
tálamo, o globo pálido, o putame, o núcleo caudado e as cápsulas internas
e externas. A remoção da parte posterior do cérebro revela o cerebelo e o
tronco encefálico. Após ‘virar’ anteriormente o cerebelo e todo o tronco
encefálico, enfim a medula espinal aparece.”

[...]
151
Unidade I

Segue a sua descrição: “internamente, os ventrículos laterais estão


conectados com o III ventrículo, e este por sua vez é contínuo por um
canal (aqueduto do mesencéfalo) que termina no IV ventrículo. Nos
ventrículos pode ser observado um plexo ou redes (plexo corióideo).
Vejam o septo (septo pelúcido), o corpo caloso, a abóbada (fundo de saco)
e o cerebelo, sua relação com esses ventrículos”. (GOMES; MOSCOVICI;
ENGELHARDT, 2015, p. 157).

A seguir está um pequeno glossário das estruturas anatômicas mencionadas por Vesalius.

• Bulbo ou medula oblonga é a parte inferior do tronco encefálico.

Figura 163 – Ilustração de Fabrica (1555)

• Foice do cérebro é um septo vertical mediano em forma de foice que ocupa a fissura longitudinal
do cérebro separando os dois hemisférios cerebrais.

152
ANATOMIA HUMANA

Tálamo

Mesencéfalo

Ponte
IV ventrículo cerebral

Bulbo Cerebelo

Medula espinal

Figura 164 – Vista medial do tálamo, tronco encefálico e cerebelo no plano de secção sagital

• Tentório do cerebelo é uma dobra da dura‑máter que separa o cerebelo do lobo occipital do cérebro.

• Tálamo é uma estrutura anatômica que pertence ao diencéfalo, localizada entre o cortéx cerebral
e o mesencéfalo.

Foice do cérebro

Figura 165 – Vista inferior da meninge dura‑máter

• Globo pálido e putame são estruturas que formam os núcleos da base.

• Cápsula interna consiste em um feixe de fibras localizadas no cérebro que apresenta partes do
neurônio que se dirigem ao córtex cerebral ou partem dele com destino a regiões subcorticais.

• Cápsula externa é uma lâmina branca encontrada entre alguns dos núcleos da base.

• Septo pelúcido é uma estrutura anatômica fina que separa os dois ventrículos laterais.

153
Unidade I

Corpo caloso
Ventrículo lateral
Septo pelúcido
Núcleos da base (núcleo
caudado)

Figura 166 – Vista anterior do cérebro no plano de secção coronal

3.4 Papéis do SN

O SN efetua trabalhos complexos e nos possibilita sentir diversas fragrâncias, dialogar e recordar
acontecimentos do passado. Da mesma forma, ele produz sinais que controlam os movimentos corporais
e regula o funcionamento dos órgãos internos. Essas várias atividades podem ser reunidas em três
papéis fundamentais: sensitiva (aporte), integradora (processamento) e motora (saída).

No papel sensitivo, os receptores sensitivos detectam estímulos internos, como o aumento da pressão
arterial, ou estímulos externos, como uma gota de água caindo na perna. Essas informações sensitivas
são então levadas ao encéfalo e à medula espinal por meio dos nervos cranianos e espinais.

No papel integrador, o SN processa as informações sensitivas, avaliando‑as e tomando as resoluções


apropriadas para cada resposta em uma atividade a que chamamos de integração.

No papel motor, após o processamento das informações sensitivas, o SN pode desencadear uma
resposta motora específica por meio da ativação de efetores, como os músculos e as glândulas por
intermédio dos nervos cranianos e espinais. A estimulação dos efetores gera a contração dos músculos
e a secreção de hormônios pelos órgãos endócrinos.

Podemos então exemplificar os três papéis fundamentais do SN, associando à ideia de quando
recebemos um telefonema após escutar o aparelho tocar. O som do toque do telefone estimula
receptores sensitivos nas orelhas, sendo ele o papel sensitivo. Essas informações auditivas são então
transmitidas para o encéfalo, onde são processadas, e é tomada a decisão de receber ao telefonema,
cabendo a ele o papel de integrador. Após esse momento, o encéfalo estimula a contração de músculos
específicos, que lhe possibilitarão apanhar o telefone e apertar a tecla adequada para atendê‑lo,
sendo ele o papel motor. A figura a seguir mostra uma visão geral funcional do SN. Esse diagrama
apresenta a relação entre o SNC e o SNP, assim como os componentes e os papéis das divisões
aferentes e eferentes.

154
ANATOMIA HUMANA

Sistema nervoso central


(encéfalo e medula espinal)
Processamento de
informação
Informação Comandos
sensitiva na motores na
parte aferente Sistema nervoso parte eferente
periférico
Inclui

Sistema nervoso Sistema nervoso


somático autônomo

Parassimpático e simpático

Receptores Receptores
sensitivos sensitivos
especiais somáticos Músculos lisos
Músculo Músculo estriado
estriado cardíaco
esquelético Glândulas

Receptores sensitivos viscerais

Receptores Efetuadores

Figura 167 – Uma visão geral funcional do SN

3.5 Tecido nervoso

Veremos agora que os tecidos do organismo são classificados em quatro tipos fundamentais com
base na estrutura e função: o tecido epitelial, que forra as superfícies do corpo, as cavidades do corpo,
os ductos, e forma as glândulas; o tecido conjuntivo, que liga, sustenta e protege as partes do corpo; o
tecido muscular, que se contrai para produzir movimentos; e o tecido nervoso, que principia e transmite
impulsos nervosos de uma parte do organismo para outra.

O tecido nervoso incide apenas em dois tipos de células: os neurônios e as neuroglias. Assim, a
menor unidade morfofuncional do SN é o neurônio, sendo ele uma célula especializada na transmissão
de impulsos nervosos. Existem tipos diferentes de neurônios, contudo, podemos observar que eles são
constituídos pelos dendritos, que recebem impulsos de outras células; pelo corpo ou pericário, que
é o centro metabólico do neurônio e onde é processado o impulso nervoso; e pelo axônio, que é o
prolongamento que conduz o impulso nervoso. A figura a seguir mostra uma visão geral dos neurônios.
Já a neuroglia (glia significa cola) suporta, nutre, protege os neurônios e mantém a homeostase no
líquido intersticial que banha os neurônios. As neuroglias são em torno de cinco vezes mais numerosas
que os neurônios.

155
Unidade I

Corpo
Núcleo do corpo
Dendrito

Axônio
Bainha de mielina

Figura 168 – Visão geral dos neurônios

Lembrete

O SN é formado por células nervosas, os neurônios, e por células


chamadas em conjunto de neuroglia. O axônio é o prolongamento
do neurônio que leva o potencial de ação do pericário até seu alvo.
O dendrito é um dos prolongamentos que parte do pericário e recebe um
influxo sináptico.

3.5.1 Visão geral dos neurônios

Os nomes conferidos aos neurônios foram indicados em razão de seu tamanho, forma, aspecto,
função ou provável descobridor, como a célula de Purkinje do cerebelo. O tamanho e a forma dos
corpos celulares são bastante variáveis. O diâmetro do corpo celular pode variar de 4 micrometros (por
exemplo, a célula granular do cerebelo) a 125 micrometros (como o neurônio motor da medula espinal).

Os neurônios podem exibir diversas formas: piramidal, ampuliforme, estrelada ou granular.


Uma peculiaridade adicional desses pericários é o número de organização de seus processos. Alguns
neurônios têm poucos dendritos, enquanto outros apresentam numerosas projeções de dendritos.
Com exceção de dois tipos celulares, os quais chamamos de célula amácrina, sem axônio, por exemplo,
os neurônios da retina e as células granulares do bulbo olfatório, todos os neurônios têm pelo menos
um axônio e um ou mais dendritos. A figura a seguir ilustra os tipos básicos de neurônios quanto ao
número de prolongamentos.

156
ANATOMIA HUMANA

Dendrito

Corpo Corpo

Axônio Corpo
Axônio Axônio
Fusiforme Estrelado Piramidal Piriforme

Figura 169 – Prolongamentos dos neurônios

Os dendritos (do grego déndron, árvore) geralmente são curtos, de alguns micrômetros a alguns
milímetros de comprimento, e ramificados, como se fossem galhos de uma árvore. Os dendritos têm
espinhas que servem como ponto de contatos sinápticos.

Os axônios (do grego áxon, eixo) na grande maioria dos neurônios é longo e fino e se origina do
pericário ou de um dendrito principal, em uma região chamada de cone de implantação. O axônio possui
comprimento muito variável, dependendo do tipo de neurônio, podendo ter, na espécie humana, de
alguns milímetros a mais de 1 metro. Eles podem ser mielínicos ou amielínicos. O axônio, apresentando
ou não bainha de mielina, é também chamado de fibra nervosa.

Saiba mais

Para saber mais sobre a mielina:

MENDES, P. B.; MELO, S. R. Origem e desenvolvimento da mielina no


sistema nervoso central: um estudo de revisão. Saúde e Pesquisa, v. 4, n. 1,
p. 93‑99, 2011. Disponível em: <http://periodicos.unicesumar.edu.br/index.
php/saudpesq/article/view/1654>. Acesso: 15 maio 2019.

Cada neurônio apresenta apenas um axônio, todavia, cada axônio normalmente apresenta vários ramos
chamados de colaterais. Um axônio e seus colaterais acabam por ramos finos separados entre si, chamados
de telodendro. A extremidade distal de cada telodendro se expande no interior de pequenas estruturas
em forma de bulbo, chamadas de terminação axônicas. Nas terminações axônicas são armazenadas
substâncias químicas, chamadas de neurotransmissores. As moléculas dos neurotransmissores liberadas
pelas terminações axônicas constituem o meio de comunicação em uma sinapse.

Alguns neurônios, entretanto, especializam‑se em secreção. Seus axônios terminam próximos a


capilares sanguíneos que captam o produto de secreção liberado, em geral um polipeptídio. Os neurônios
desse tipo são chamados de neuromoduladores e se encontram na região do cérebro e são substâncias
químicas aptas a alterar a transmissão do impulso nervoso.
157
Unidade I

Lembrete

Neurotransmissores são moléculas envolvidas na transmissão do


impulso nervoso. São eles que medeiam a passagem do sinal elétrico entre
dois neurônios ou entre um neurônio e uma fibra muscular.

3.5.2 Classificação dos neurônios

Os neurônios podem ser classificados de acordo com a sua forma e a sua função. Quanto à forma,
distinguem‑se: os neurônios multipolares, com muitos dendritos que se estendem a partir de todo
o corpo, e os neurônios multipolares, que são encontrados no corno anterior da medula espinal, nas
células de Purkinje no córtex do cerebelo e nas células piramidais no córtex do telencéfalo.

Outro tipo de neurônio classificado quanto à forma são os neurônios bipolares, que possuem um
dendrito e um axônio, e estão presentes na retina, no epitélio olfatório, em gânglios dos nervos cranianos
e na orelha interna. Os neurônios pseudounipolares são os que apresentam um axônio dendrítico e
desenvolvem‑se durante o período fetal de um neurônio bipolar. Os neurônios pseudounipolares
encontram‑se no gânglio espinal e nos gânglios sensitivos dos nervos trigêmeo, facial, glossofaríngeo
e vago. Por fim, existem os neurônios unipolares, que aparecem raramente em vertebrados.
São encontrados, principalmente, durante a embriogênese.

Funcionalmente, os neurônios podem ser classificados em três tipos: neurônios aferentes ou


sensitivos, neurônios eferentes ou motores e interneurônios ou de associação. Os neurônios sensitivos
são aqueles que transmitem o impulso oriundo da periferia para a parte central do SN. Os neurônios
motores transmitem o impulso da parte central do SN em direção à periferia. Os interneurônios realizam
a conexão entre os neurônios na parte central do SN, ou seja, ligam um neurônio a outro.

Lembrete

O neurônio sensitivo ou neurônio aferente leva a informação ao SNC.


O neurônio motor é o que inerva o músculo estriado esquelético e a
musculatura lisa das vísceras. O interneurônio apresenta prolongamentos
curtos, situado entre dois outros neurônios.

3.5.3 Sinapses

As sinapses são pontos de transmissão descontínua de estímulos de um neurônio para outro ou


para um órgão efetuador, podendo ser um músculo ou uma glândula. Quanto à forma e ao modo de
funcionamento, reconhecem‑se dois tipos de sinapses: elétricas e químicas.

158
ANATOMIA HUMANA

3.5.4 Arco reflexo

Os impulsos nervosos que se difundem no sentido ao SNC, dentro dele ou para fora dele, adotam
modelos característicos, dependendo do tipo de informação, origem e destino. A via seguida pelos
impulsos nervosos geram um reflexo chamamos de arco reflexo.

Sensação
Chegada do
estímulo e ativação
Ativação de um
neurônio sensitivo
Raiz posterior transmitida ao
do receptor encéfalo via
colateral

Arco reflexo
Estímulo Receptor
Legenda
Efetuador Raiz anterior Neurônio sensitivo
(estimulado)
Processamento
da informação
Interneurônio
no SNC excitador
Resposta do
Ativação do
neurônio motor
Neurônio motor
efetuador (estimulado)

Figura 170 – Arco reflexo

Lembrete

O arco reflexo é a resposta involuntária rápida a certo estímulo periférico


originado pela alça de conexão sináptica localizada na medula espinal. É
chamado de simples, quando compreende apenas um neurônio sensitivo e
um motor, ou composto, quando entre eles existe um interneurônio.

O SN provê ao organismo humano uma forma dinâmica de comunicação interna, que nos possibilita
mover, falar e coordenar a atividade de bilhões de células. De tal modo, a atividade neural é basicamente
valiosa para a capacidade corporal de manter a homeostasia.

Todos os comportamentos, das respostas reflexas simples até as ações mentais complexas, são o
produto da sinalização entre os neurônios, que permanecem interconectados de maneira adequada.
Avaliando‑se a simples ação de golpear uma bola de tênis com uma raquete, conforme ilustra a figura
a seguir, a informação visual acerca do movimento da aproximação da bola é analisada pelo sistema
visual, sendo ajustada com a informação proprioceptiva sobre a posição dos membros superiores, dos
membros inferiores e do tronco para o cálculo do movimento preciso para interceptar a bola. Quando o
movimento se inicia muitas pequenas adaptações do programa motor são efetuadas, com base em um
fluxo constante de informação sensorial sobre o trajeto da bola que se aproxima. Por fim, o ato completo
é compreensível à consciência e dessa maneira provocaria memórias e emoções.
159
Unidade I

Córtex
A pré-motor
Córtex visual

Amigdala
Hipotálamo

Córtex motor
B Núcleos da Cótex parietal posterior
base

Hipocampo Cerebelo
Núcleos do Medula espinal
tronco encefálico

Figura 171 – Um comportamento simples é mediado por diversas áreas do encéfalo

Na figura anterior, na parte A um jogador de tênis observando a aproximação de uma bola utiliza o
córtex visual para identificar o tamanho, a direção e a velocidade dessa bola. O córtex pré‑motor gera
um programa motor para rebater a bola. A amídala age em conjunto com outras áreas encefálicas para
adequar a frequência cardíaca, a frequência respiratória e outros mecanismos homeostáticos, acionando
o hipotálamo para incitar o jogador a rebater a bola de maneira apropriada. Na parte B, para realizar
a jogada, o jogador deve utilizar todas as estruturas anatômicas esquematizadas na parte A. O córtex
motor transmite sinais à medula espinal que acionam e inibem muitos músculos nos membros superiores
e inferiores. Os núcleos da base envolvem‑se na iniciação de padrões motores e quiçá na evocação
de movimentos aprendidos para bater na bola de forma adequada. O cerebelo adequa movimentos
baseados na informação proprioceptiva dos receptores sensoriais periféricos. O córtex parietal posterior
provê ao jogador um sentido de onde seu corpo está situado no espaço e como o seu membro superior
com a raquete se posiciona em relação a seu corpo. Durante esse ato, os neurônios do tronco encefálico
ajustam a frequência cardíaca, a frequência respiratória e o estado de atenção. O hipocampo não está
empenhado em alcançar a bola, contudo, está envolvido em registrar a jogada na memória com a
intenção de que o jogador possa vangloriar‑se disso mais tarde.

3.5.5 Neuroglias

Outras células também compõem o SN, auxiliando‑o a fornecer sustentação funcional ao neurônio, cada
uma com um papel definido, e formando coletivamente as neuroglias, células da glia ou gliócitos. Algumas
neuroglias são encontradas tanto no SNC como no SNP. Elas são as células mais comuns do tecido nervoso,
podendo a proporção entre neurônios e neuroglias variar de 1:10 a 1:50. Em comparação aos neurônios, a
neuroglia não produz nem conduz impulsos nervosos, e pode multiplicar‑se e dividir‑se no SN maduro.

Lembrete

As células da neuroglia desempenham diversos tipos de papéis relevantes


no SN, tanto no SNC como no SNP.
160
ANATOMIA HUMANA

Neuroglias no SNC

No SNC, a neuroglia compreende: os astrócitos, os oligodendrócitos, a micróglia e um tipo de glia


com disposição epitelial, as células ependimárias.

Os astrócitos, (do grego, astron, estrela; kytos, vaso oco) são semelhantes a uma estrela e estão entre as
neuroglias mais numerosas e maiores no encéfalo. Existem dois tipos de astrócitos, os protoplasmáticos,
localizados na substância cinzenta, e os fibrosos, encontrados na substância branca, conforme ilustra a
figura a seguir. Os papéis dos astrócitos são: manutenção da constância no meio interno do SNC, por
meio da ingestão de metabólitos neuronais; participação na estrutura da barreira hematoencefálica;
fagocitose de células mortas; cicatrização no SNC, por exemplo, após infarto cerebral, em caso de
esclerose múltipla; formação e intercâmbio do glutamato; e sustentação e isolamento de neurônios.
Os astrócitos sustentam e isolam o neurônio.

Os oligodendrócitos (do grego, oligo, pouco; dendron, árvore; glia, cola) são menores que os
astrócitos e possuem poucos prolongamentos, que também podem formar pés vasculares. O papel
dos oligodendrócitos é a produção das bainhas de mielina que servem de isolantes elétricos para os
neurônios do SNC. Um único oligodendrócito contribui para a formação da mielina de vários axônios.

Figura 172 – Astrócitos protoplasmáticos e astrócitos fibrosos

As micróglias (do grego, micros, pequeno; glia, cola), diferentemente de outros neurônios e outras
neuroglias, é de origem mesodérmica e aparece precocemente durante o desenvolvimento do SNC.
Elas são células pequenas e alongadas que possuem poucos prolongamentos. Dentre os papéis das
micróglias estão: apresentação de antígenos; fagocitose; mobilidade ameboide; e secreções de citocinas
e de fatores de crescimento. Elas apresentam o papel de defesa do neurônio. A figura a seguir ilustra
diferentes tipos de células da neuroglia no SNC.

161
Unidade I

Figura 173 – Micróglias e oligodendrócitos

As células ependimárias (do grego, ependyma, roupa de cima) são células cuboides ou prismáticas que
forram, como epitélio de revestimento simples, as paredes dos ventrículos encefálicos, do aqueduto do
mesencéfalo e do canal da medula espinal. Um tipo de célula ependimária modificada recobre tufos de tecido
conjuntivo, rico em capilares sanguíneos, que se projetam da pia‑máter, constituindo os plexos corióideos,
responsáveis pela formação do líquido cerebrospinal. As células ependimárias regulam as trocas entre o LCS
dentro dos ventrículos encefálicos e o canal da medula espinal por meio de movimentos ciliares.

Além disso, há sugestão de que as células ependimárias também apresentam um papel absortivo.
Crê‑se que elas carregam substâncias químicas do LCS para a hipófise, cujo desempenho implicaria na
administração da produção de hormônios pelo lobo anterior da hipófise. A figura a seguir ilustra uma
visão esquemática da disposição das neuroglias no SNC.

Astrócito

Micróglia

Vasos de sangue

Neurônio

Oligodendrócito

Figura 174 – Visão esquemática da disposição das neuroglias no SNC

Neuroglias no SNP

A neuroglia periférica compreende as células satélites, ou anfícitos, e as células de Schwann oriundas


da crista neural. Assim, as células satélites envolvem os corpos celulares, dos gânglios sensitivos e do SNA.
As células de Schwann circundam os axônios, formando seus envoltórios, como a bainha de mielina e o
neurilema e participam no processo de regeneração da fibra nervosa. Cada célula de Schwann mieliniza
apenas um único axônio. Já os papéis das células satélites consistem em regular a troca de nutrientes e
produtos residuais entre o pericário e o líquido extracelular. Elas também colaboram para o isolamento
do neurônio de quaisquer outros estímulos que não sejam aqueles situados nas sinapses.
162
ANATOMIA HUMANA

Saiba mais

Para saber mais sobre a complexidade e o caminho evolutivo do encéfalo


humano e dos neurônios:

SCHMIDEK, W. R.; CANTOS, G. A. Evolução do sistema nervoso,


especialização hemisférica e plasticidade cerebral: um caminho ainda a ser
percorrido. Revista Pensamento Biocêntrico, Pelotas, n. 10, jul./dez. 2008.
Disponível em: <http://opessoa.fflch.usp.br/sites/opessoa.fflch.usp.br/files/
Evolucao‑Cerebro.pdf>. Acesso em: 14 mar. 2019.

3.6 Generalidades sobre o encéfalo

A arte de pensamento do nosso encéfalo arquitetou a tecnologia para lançarmos foguetes no espaço,
sanarmos patologias, mapearmos o genoma humano e fracionarmos os átomos. Mas com todas essas
concretizações ainda se desconhece muito sobre o funcionamento do encéfalo humano.

Esse conjunto de estruturas anatômicas consiste em um dos maiores órgãos do corpo humano,
formado de aproximadamente 100 bilhões de neurônios e 10 a 50 trilhões de neuroglias. Como visto
anteriormente, no homem adulto médio o encéfalo pesa cerca de 1.400 gramas, o equivalente a 2% da
massa corporal total. O encéfalo do homem é, em média, um pouco mais pesado do que o da mulher,
ainda que isso não tenha relação com a inteligência. Dessa maneira, seu peso varia de acordo com
numerosas situações, como idade, massa corporal, estatura e raça.

Entretanto, o ser humano não é o que apresenta o maior encéfalo entre os vertebrados, pois esse
não é apenas o órgão do pensamento, mas também um aparelho reflexo para a percepção dos sentidos
e do movimento muscular. Por isso, os animais grandes possuem, para o serviço de seu volumoso corpo,
um encéfalo pesado. Assim, o encéfalo da baleia é seis vezes maior do que o humano e o do elefante,
três vezes maior.

Sabemos que o desenvolvimento humano partiu dos macacos. O fato característico e determinante
para o ser humano não é o aumento de seu encéfalo, mas sua transformação e o desenvolvimento do
lobo frontal. Superpondo‑se o perfil craniano do macaco, do homem primordial de Java (que viveu há
1 milhão de anos), do homem europeu da idade do gelo (há 100 mil anos), do negro australiano e do
europeu da atualidade observamos que nos últimos 100 mil anos o encéfalo aumentou muito pouco,
contudo, deslocou‑se para adiante, numa espécie de linha ondulada. O ser humano de hoje é superior
ao seu ancestral menos por sua massa encefálica do que pela posse do lobo frontal. De tal modo, quanto
maior a fronte tanto mais volumoso será o encéfalo, conforme ilustra a figura a seguir.

163
Unidade I

Figura 175 – Aumento progressivo na parte mais rostral do SNC, a chamada encefalização

Lembrete

Na escala dos vertebrados podemos verificar uma tendência evolutiva,


a da encefalização. Nela há um aumento gradativo do encéfalo, provocado
por um acúmulo de células e circuitos nervosos na parte cefálica do animal.

Fatores de variação anatômica, como, por exemplo, a idade faz com que o peso do encéfalo humano
se altere. Assim, ele alcança o seu peso máximo entre os 20 e 30 anos de idade. Entre os 30 e 40 anos
paralisa o seu desenvolvimento e a partir dos 50 anos reduz rapidamente. Dos 50 anos aos 70 anos se
aponta o maior descenso, de tal maneira que nos indivíduos de 70 a 80 anos de idade, o encéfalo
humano pesa de 50 a 100 gramas a menos de quando se tinha 30 anos de idade. Nenhum órgão
avoluma tão veloz desenvolvimento durante os primeiros anos de vida como o encéfalo humano.
O encéfalo do recém‑nascido pesa em média 400 gramas, peso duplicado com 1 ano de idade, ou
seja, 800 gramas, e triplicado aos 5 anos de idade, ou seja, 1.200 gramas. Durante a vida intrauterina
o acelerado desenvolvimento encefálico acontece desde o sexto até o oitavo mês de gestação. O peso
do encéfalo no sexto mês de gestação é de 100 gramas e dobra no oitavo mês de gestação, ou seja,
200 gramas, e quadruplica no recém‑nascido, chegando a 400 gramas.

Observação

Quanto maior o encéfalo de uma espécie, e consequentemente com


uma quantidade elevada de sulcos e giros, mais evoluída ela será. Portanto,
se o córtex cerebral humano fosse alisado e retificado, desaparecendo os
sulcos, a superfície seria de cerca de 2 metros de comprimento.

164
ANATOMIA HUMANA

Todos os dados da literatura sobre diferenças no tamanho craniano e o peso encefálico nos diversos
povos e raças hoje não têm valor algum, pois o exame encefálico é um dos mais difíceis trabalhos
técnicos das medidas biológicas. O encéfalo possui 70% de água, ou seja, 1 quilograma desse líquido.
Por isso pode‑se calcular quão grande serão os erros e as variações nas medidas em consequência da
simples variação no grau da humidade do encéfalo por ocasião do exame. Na série dos pesos encefálicos,
os europeus estão mais próximos dos negros que dos chineses, que compõem a raça de encéfalo maior.
Mesmo assim, entre os países europeus, o peso médio do encéfalo humano varia, como nos alemães
(1.425 gramas), nos suecos (1.399 gramas), nos ingleses (1.346 gramas), nos italianos (1.301 gramas),
nos franceses (1.280 gramas). No entanto, as discrepâncias entre a estatura e a massa corporal entre uns
e outros indivíduos também é um fator relevante.

Comparando‑se, como fez no começo deste século o pesquisador Moebius, o tamanho da cabeça
de 100 indivíduos das classes educadas com o de 100 presos débeis mentais, atingimos esse resultado:
tanto na maioria dos indivíduos instruídos como dos criminosos apresentaram uma cabeça de tamanho
médio, sendo 55‑58 o número de seus chapéus. Nos indivíduos cujo chapéu possuía o número 55, há
mais criminosos (10%) e menos indivíduos educados (1%), enquanto acima de 58 o número do chapéu
correspondeu mais a indivíduos cultos (40%) do que a criminosos (3%). Obtém‑se, assim, um resultado
típico para todas as pesquisas dessa espécie: 100 indivíduos educados apresentam juntos dimensões
encefálicas e cranianas maiores que os 100 criminosos. Porém, em um indivíduo isolado não se pode
estabelecer relação alguma. Há indivíduos cultos com cabeça pequena e dementes com crânio grande.
Um encéfalo pequeno pode ser capaz de muito, ao passo que um grande pode nada valer.

O mesmo resultado se obtém comparando o encéfalo dos indivíduos produtivos. Não há relação direta
entre o tamanho do encéfalo e a capacidade mental, a maioria dos indivíduos bem‑dotados apresenta
um encéfalo de tamanho médio, enquanto são relativamente poucos os que possuem encéfalo grande
ou pequeno, com uma exceção: três dos maiores gênios em terrenos diversos, Rafael, Dante e Bach.
A seguir, exemplificamos uma lista de alguns indivíduos de encéfalo médio: Bismarck (político),
1.807 gramas; Kant (filósofo), 1.600 gramas; Giacomini (anatomista), 1.495 gramas; Broca (anatomista),
1.484 gramas; Dante (poeta), 1.427 gramas; Einstein (físico), 1.230 gramas; Coveiro (zoólogo), 1.830 gramas;
Webster (advogado), 1.518 gramas; Tiedemann (médico), 1.253 gramas; Hausmann (urbanista), 1.225 gramas;
Franz Gall (pai da localização das funções cerebrais), 1.198 gramas.

O encéfalo de Einstein não era maior do que a média, no entanto, ele continha um número
expressivamente menor de neurônios por unidade de volume. Esse descoberta abriria margem para
que se conjecturasse que no encéfalo de Einstein as conexões neuronais eram muito mais complexas
do que a média. Graças ao número superior de sinapses por volume, os neurônios poderiam ficar mais
distantes uns dos outros.

Portanto, as variações do peso encefálico nos seres humanos, conforme observado anteriormente,
modificam dentro de limites muito extensos, sendo considerados como normais os encéfalos entre
1.050 a 2.000 gramas. Acima do peso máximo apontado, os indivíduos são chamados de macrocéfalos,
e abaixo desses valores, os indivíduos são chamados de microcéfalos. Uma vez que não há necessidade
de alargamento para adequar o encéfalo pequeno, o crânio também se mantém pequeno.

165
Unidade I

Saiba mais

Para saber mais sobre o desenvolvimento da inteligência, regido


concomitantemente por aspectos genéticos, neurológicos e cognitivos:

TORRES, V. S. Desenvolvimento da inteligência: aspectos envolvidos.


Revista de Ciências Humanas, Porto Alegre, n. 28, p. 11‑34, 2000.
Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/revistacfh/article/
view/23969/21438>. Acesso em: 14 mar. 2019.

3.7 Morfogênese do SN

O desenvolvimento pré‑natal da espécie humana ocorre durante 266 dias, correspondendo ao


período de 38 semanas. Na clínica médica, o período da gestação é calculado a partir do primeiro dia
da última menstruação, ou seja, pós‑menstruação. Dessa maneira, aos 266 dias relativos ao período de
desenvolvimento pré‑natal adicionam‑se 14 dias, totalizando 280 dias, ou 40 semanas de gestação.
Uma vez que o tempo entre a menstruação e a ovulação com a concepção subsequente é modificável,
pois nem sempre obedecem aos 14 dias, diferentes meios podem ser utilizados para estimar a data do
nascimento quando o dia da concepção é desconhecido.

A determinação do tempo de desenvolvimento pré‑natal é realizada a partir do instante da


fertilização, ou seja, pós‑concepção. Assim, o desenvolvimento pré‑natal pode ser dividido em três
períodos. O primeiro é chamado de desenvolvimento precoce e corresponde às primeiras semanas
de desenvolvimento, entre a primeira e a terceira semana de desenvolvimento. O segundo, chamado
de período embrionário, envolve a quarta até a oitava semana de desenvolvimento. O terceiro,
chamado período fetal abrange a nona até a trigésima oitava semana de desenvolvimento pré‑natal.

3.7.1 Da fertilização até a nidação

O desenvolvimento de cada ser humano inicia com a fertilização do ovócito pelo espermatozoide.
Após a fertilização se dá início a uma série de eventos que caracterizam a formação do zigoto, que dará
origem ao futuro embrião. O zigoto é uma célula única na qual estão presentes os 46 cromossomos
oriundos dos gametas dos pais, portanto, 23 cromossomos dos pais e 23 cromossomos das mães.

A partir de 24 horas contadas após a fertilização, o zigoto começa a sofrer sucessivas divisões mitóticas,
primeiramente originando inúmeras células até que por volta do sexto dia após a fertilização, já no útero,
esse conjunto de células se implanta no endométrio. Damos a esse fenômeno o nome de nidação.

Repetidas mitoses, chamadas de clivagem, convertem o zigoto em um agrupamento de células, uma


mórula (do latim, morus, amora), por volta do quarto dia após o coito. No quinto dia, a mórula torna‑se um
blastocisto (do grego, kystis, vesícula), à medida que surgem espaços intercelulares que confluem compondo
uma cavidade central ou blastocele (do grego, koilos, cavidade), conforme ilustra a figura a seguir.
166
ANATOMIA HUMANA

Figura 176 – Sequência da primeira clivagem do zigoto com a formação da mórula

Lembrete

A clivagem da célula tem início cerca de 30 horas após a fertilização. As


primeiras células formadas são chamadas de blastômeros (do grego, blasto,
broto ou embrião; méros, partes).

Crê-se que é preciso de dois ou três dias para que se originem cinco ou seis clivagens e, enquanto isso
ocorre, o ovo passa por meio da tuba uterina. A mórula está envolta pela zona pelúcida e é constituída
por uma massa celular externa, em torno de uma massa celular interna.

A partir do estágio de oito blastômeros, eles se juntam fortemente entre si, levando a um fenômeno
de compactação do embrião que, no entanto, é maciço. Quando penetra na cavidade uterina, a mórula
com 12 a 16 blastômeros tem 72 horas de evolução a partir da fertilização. Uma vez que a mórula
se depara dentro do útero, suas células periféricas segregam líquido, o que leva a formação de uma
cavidade em seu interior. Este estágio embrionário é chamado de blástula ou blastocisto.

O blastocisto corresponde ao estágio de desenvolvimento do embrião que sucede a mórula e precede


a gástrula. Consiste em uma camada de células e uma cavidade preenchida por líquido. Ele é formado
por uma camada de células periféricas que abrangem o trofoblasto (do grego, trophe, desenvolver
ou nutrir), que corresponde à massa celular externa; e um maciço celular interno, o nó ou botão
embrionário, que corresponde à massa celular interna ou embrioblasto. Calcula‑se que no quarto dia a
partir da fertilização o blastocisto conta com cerca de 60 células.

O embrioblasto é o grupo de blastômeros localizados centralmente, que dará origem ao embrião.


A implantação do blastocisto completa‑se durante a segunda semana do desenvolvimento. Com a
progressão da implantação, acontecem modificações no embrioblasto, as quais resultam em uma placa
bilaminar chamada de disco embrionário, sendo composto pelo epiblasto e pelo hipoblasto.

O trofoblasto é a camada celular externa que comporá a parte embrionária da placenta. As células
especializadas dele produzem projeções em forma de dedos, chamadas de sinciciotrofoblastos. Eles se
originam de uma parte específica do trofoblasto, o citotrofoblasto, situado próximo ao embrioblasto.
O blastocisto ampara‑se contra o aborto, secretando um hormônio que indiretamente impede a
menstruação. Até mesmo antes do início da implantação, o sinciciotrofoblasto secreta gonadotrofina
coriônica humana, a hCG. Esse hormônio é análogo ao hormônio luteinizante em seus efeitos e, portanto,
é capaz de conservar o corpo lúteo além do tempo que, caso contrário, deveria regredir.
167
Unidade I

Cerca de seis a nove dias após a fertilização a hCG pode ser detectada no sangue da mulher grávida.
Na urina, o hormônio pode ser detectado apenas 14 dias pós‑fertilização. A hCG também é responsável
pelas sensações de vômito, a êmese da gestação, durante os estágios iniciais da gravidez.

A secreção de estrógenos e de progesterona é conservada e a menstruação normalmente é suspensa.


A hCG cai em torno da décima semana da gestação. De fato, esse hormônio só é imprescindível durante
as primeiras cinco a seis semanas de gestação porque a própria placenta se torna uma glândula ativa
secretora de esteroides nesse momento.

3.7.2 Folhetos embrionários

Durante a segunda semana de gestação, enquanto o blastocisto está sendo incluído na mucosa
uterina, o embrioblasto se prolifera rapidamente. Ele achata‑se e forma‑se o folheto embrionário, que
consiste de duas camadas: o ectoderma (do grego, ecto, externo; derm, pele) e o endoderma (do grego,
endo, interno; derm, pele). O ectoderma origina a epiderme, os sistemas nervosos central e periférico, o
olho, a orelha interna e os vários tecidos conectivos da cabeça.

A terceira semana do desenvolvimento embrionário é caracterizada pela formação da linha primitiva,


desenvolvimento da notocorda e começo da morfogênese, ou gastrulação, processo pelo qual o folheto
embrionário bilaminar é convertido em folheto embrionário trilaminar. Esse é o momento no qual uma
terceira camada, a mesoderma (do grego, meso, meio; derm, pele), forma‑se entre o endoderma e o
ectoderma. Cada um dos três folhetos embrionários dará origem a tecidos e órgãos específicos.

O mesoderma dá origem a todos os músculos esqueléticos, células sanguíneas e revestimento dos


vasos sanguíneos, ao músculo liso visceral, aos revestimentos serosos das cavidades do corpo, aos órgãos
dos sistemas urinário e genital, à maior parte do sistema cardiovascular e aos tecidos conjuntivos do
tronco. Já o endoderma origina os revestimentos epiteliais das vias respiratórias e o trato gastrintestinal,
incluindo glândulas associadas.

A partir do nó, ou botão embrionário, células mesodérmicas indiferenciadas (células mesenquimais)


migram em sentido cefálico, compondo um bastão celular sólido, o processo notocorda, o qual, logo em
seguida, assume uma luz constituindo um canal, a notocorda.

O SN dos vertebrados tem origem no folheto embrionário mais externo do embrião, ou seja, no
ectoderma, esse sendo um dado importante, pois remete à origem evolutiva do SN, que, primitivamente,
teria aparecido na superfície externa dos animais. Na espécie humana, o surgimento do SN acontece na
terceira semana de vida, quando parte do ectoderma se transforma no neuroectoderma, o que se traduz
em um espessamento, a placa neural.

3.7.3 Formação do SN

Quando o embrião humano está com 1,5 milímetros de comprimento, e aproximadamente 18 dias de
vida, o ectoderma torna‑se encorpado para compor a placa neural. A placa neural, que é piriforme e mais
larga cranialmente, desenvolve um sulco neural longitudinal, que em seguida exibe uma invaginação
168
ANATOMIA HUMANA

para o interior do embrião, compondo o sulco neural cujas extremidades terminam se juntando, e se
sobressaindo do ectoderma para formar um tubo que se situa no interior do mesoderma, chamado de
tubo neural. Nesse momento de junção logo abaixo do ectoderma compõem‑se dois prolongamentos
laterais, as cristas neurais, conforme ilustra a figura a seguir.

Sulco neural
Placa neural

Goteira neural Gânglio espinhal

Crista neural
Tubo neural

Figura 177 – Formação do tubo neural e da crista neural

O desenvolvimento do tubo neural, o qual é precursor do cérebro e da medula espinal, determina


um processo chamado de neurulação. O tubo neural dá origem a elementos do SNC, enquanto a crista
neural dá origem a elementos SNP, além de elementos não pertencentes ao SN. Portanto, os elementos
procedidos da crista neural são os seguintes: os gânglios sensitivos, os gânglios do SNA, a medula da
glândula suprarrenal, os paragânglios, os melanócitos, as células de Schwann, os anfícitos, as células C da
tireoide e os odontoblastos. Contudo, pesquisas atuais confirmaram que algumas estruturas tidas como
oriundas do ectoderma na realidade se originam da crista neural, como a dura‑máter, a aracnoide‑máter
e algumas partes do crânio.

Lembrete

A neurulação faz parte da organogênese nos embriões vertebrados e é


o processo de formação do tubo neural, rudimento do SNC.

A extremidade anterior do tubo neural se desenvolve mais do que a parte posterior e compõem
uma dilatação, chamada de vesícula encefálica ou arquencéfalo, ou seja, o começo do SNC. Essa parte
anterior dilatada vai compor o encéfalo, e a parte posterior que não se diferencia tanto vai compor a
medula espinal.

A vesícula encefálica, prosseguindo o seu desenvolvimento, se divide em três vesículas primordiais,


chamadas respectivamente de prosencéfalo, a anterior; mesencéfalo, a média; e rombencéfalo, a
posterior. Essa última é contínua com o tubo neural restante, a medula espinal.

169
Unidade I

Na fase seguinte, o prosencéfalo se divide outra vez, constituindo duas novas vesículas, o telencéfalo,
a mais anterior e o diencéfalo, a segunda. A segunda vesícula primitiva, e que agora passou a ser a
terceira, persiste inalterada e prossegue sendo o mesencéfalo.

A última vesícula, o rombencéfalo, se diferencia outra vez, constituindo duas novas vesículas,
o metencéfalo que vai formar a ponte e o cerebelo; e o mielencéfalo, que vai constituir o bulbo.
As três vesículas encefálicas primordiais que dão origem a cinco vesículas secundárias estão
ilustradas na figura a seguir.

Telencéfalo

Diencéfalo
Prosencéfalo

Mesencéfalo
Mesencéfalo

Metencéfalo
Rombencéfalo

Mielencéfalo

Figura 178 – Vesículas encefálicas

Saiba mais

Para saber mais sobre os mecanismos da patogênese da infecção pelo


zika vírus no SNC e seus aspectos embriológicos:

NUNES, M. L. et al. Microcephaly and Zika virus: a clinical and


epidemiological analysis of the current outbreak in Brazil. PubMed,
Bethesda, v. 92, n. 3, p. 230‑240, 2016. Disponível em: <https://www.ncbi.
nlm.nih.gov/pubmed/27049675>. Acesso em: 14 mar. 2019.

A figura a seguir mostra o desenvolvimento do encéfalo desde o estágio de cinco vesículas (em
torno da quinta semana) até um nível bem avançado, mas ainda incompleto, do desenvolvimento ao
nascimento. A estrutura se torna progressivamente maior e mais complexa com o surgimento de sulcos
e giros a partir do sexto mês de gestação.

170
ANATOMIA HUMANA

5 semanas 7 semanas 14 semanas

24 semanas 40 semanas

Figura 179 – Desenvolvimento do encéfalo humano na vida intrauterina

3.8 Anatomia da medula espinal

A medula espinal é uma das partes do SNC situada dentro do canal vertebral, que tem o papel
de protegê‑la. Contudo, as lesões medulares podem acontecer nos traumatismos da coluna vertebral,
como, por exemplo, em acidentes automobilísticos, hoje em dia cada vez mais corriqueiros. O termo
“medula” procede de miolo em razão de sua posição no interior das vértebras.

Saiba mais

Para saber mais sobre as lesões na medula espinal e como trabalhar com
indivíduos lesados medulares:

KRAEMER, W. J.; FLECK, S. J.; DESCHENES, M. R. Fisiologia do exercício:


teoria e prática. 2. ed. São Paulo: Guanabara‑Koogan, 2016.

A medula espinal está limitada superiormente pelo bulbo, conforme ilustra a figura a seguir, no
plano transversal, passando entre os côndilos do osso occipital e C1, sendo que esse plano passa pela
decussação das pirâmides, e o seu limite inferior é L2. Em adultos, o comprimento da medula espinal fica
em torno de 40 a 45 centímetros de comprimento, com 1 centímetro de diâmetro. Em homens adultos,
o peso da medula espinal varia entre 25 a 30 gramas, e em mulheres adultas o peso da medula espinal
varia entre 23 a 28 gramas. Ela representa, portanto, um quinto do peso do cerebelo, e apenas 2% do
peso do cérebro.

171
Unidade I

Figura 180 – Limite superior da medula espinal

O desenvolvimento em comprimento da medula espinal é equivalente ao da coluna vertebral até o


terceiro mês de vida intrauterina, preenchendo toda a extensão do canal vertebral. As raízes medulares
possuem um percurso horizontal para organizarem os nervos espinais e transcorrerem pelos seus forames
intervertebrais. Com base nesse período, a coluna vertebral tem um crescimento mais veloz que a medula
espinal, existindo uma ascensão ilusória, por isso, ainda que a medula espinal prossiga crescendo, sua
situação dentro do canal vertebral é cada vez mais superior. No momento do nascimento a parte inferior
da medula espinal localiza‑se ao nível de L3 e, na idade adulta, ao nível do disco intervertebral de L1,
conforme ilustra a figura a seguir.

Cone medular
LCS

Filamento terminal Filamento terminal

Raiz do 1º nervo sacro


(parte da cauda equina)

Fim do saco da aracnoide


e dura (S2)
Nascimento
Adulto

Figura 181 – Desenvolvimento em comprimento da medula espinal

172
ANATOMIA HUMANA

As raízes medulares, que no começo eram horizontais, passam após à formação embriológica a
conduzir‑se inferiormente de maneira mais oblíqua para alcançarem os relativos forames intervertebrais.
Um conjunto de raízes situadas embaixo da medula espinal expõe uma aparência de “rabo de cavalo”,
sendo chamado de cauda equina. Em virtude de uma ascensão ilusória da medula espinal, inutiliza‑se a
correspondência entre os segmentos medulares e os segmentos vertebrais. O quarto segmento lombar
vertebral, por exemplo, localiza‑se debaixo da medula espinal, ao nível da cauda equina. A medula
espinal corresponde à parte caudal do tubo neural, expondo raras mudanças durante sua formação
embriológica. O canal central, com as células ependimárias, é virtual. As raízes medulares, tanto quanto
os nervos espinais, constituem parte do SNP.

Com uma aparência cilíndrica em quase toda sua extensão, com algumas variações, a medula
espinal é delicadamente achatada no seu eixo anteroposterior e possui duas dilatações: uma
cervical, que se estende dos segmentos C4 até T1 da medula espinal, e a outra lombossacral,
que se estende dos segmentos L1 até S3. Essas dilatações da medula espinal – chamadas de
intumescência cervical, a superior e intumescência lombossacral, a inferior – estão diretamente
correlacionadas com o surgimento das raízes nervosas, que constituem o plexo braquial e o plexo
lombossacral, os quais inervam os membros superiores e os membros inferiores, nessa ordem.
A região final da medula espinal é delicada e compõe o chamado cone medular, o qual se liga ao
filamento terminal meníngeo.

Ao examinarmos a superfície externa da medula espinal intacta, após sua remoção do canal
vertebral, verificamos em toda a sua extensão a presença de seis sulcos, sendo três sulcos anteriores e
três posteriores. Esses sulcos são detalhes anatômicos relevantes para a orientação da medula espinal
post mortem e a correspondência com as suas estruturas internas.

Anteriormente se localiza a fissura mediana anterior central, bem profunda, e com vasos de sangue
no seu interior; posteriormente, o sulco mediano posterior, pouco profundo, com vasos de sangue pouco
aparente e apenas ao nível cervical; e o sulco intermédio posterior, localizado entre o sulco mediano
posterior e os sulcos laterais posteriores. Lateralmente, verificamos o sulco lateral anterior e o sulco
lateral posterior, pouco profundo. Pelo sulco lateral anterior saem as radículas anteriores, enquanto pelo
sulco lateral posterior adentram as radículas posteriores.

As estruturas anatômicas chamadas de radículas são pequenos filamentos nervosos, podendo


ser anteriores e posteriores. Um conjunto de radículas constituem as raízes, que também podem ser
anteriores e posteriores. Essas estruturas anatômicas são vistas na superfície externa da medula espinal.
Do mesmo modo, o gânglio é uma dilatação arredondada só encontrada na raiz posterior, portanto,
chamado de gânglio da raiz posterior, conforme ilustra a figura a seguir.

173
Unidade I

Radículas da raiz posterior

Substância cinzenta Radículas da raiz anterior


Raiz posterior do n. espinal
Substância branca
Gânglio espinal

Ramo posterior do n. espinal

Ramo anterior do n. espinal


Raiz anterior do n. espinal

Gânglio espinal Nervo espinal

Figura 182 – Medula espinal

Outra estrutura anatômica vista na superfície externa da medula espinal é o tronco, que consiste
na união das raízes anteriores e posteriores. Ele irá passar pelo forame intervertebral das vértebras
adjacentes. Já o segmento é a parte da medula espinal que corresponde ao conjunto de radículas, tanto
anteriores quanto posteriores, que adentram na constituição de uma raiz de cada lado, e, enfim, na
composição de um tronco nervoso. A medula espinal contém 31 segmentos, pois esse é o número de
troncos nervosos, sendo eles: 8 cervicais, 12 torácicos, 5 lombares, 5 sacrais e 1 coccígeo.

O primeiro segmento cervical está entre o osso occipital e C1, então, por consequência, são oito
segmentos cervicais, ainda que saiba‑se que os segmentos coccígeos careceriam ser três troncos.
Contudo, dois dos segmentos que se reservavam à cauda equina retrocedem e por esse motivo apenas
um segmento coccígeo é funcional.

Como a medula espinal é menor do que a coluna vertebral, as radículas e as raízes necessitam se
alongar para atingir os respectivos forames intervertebrais que lhes correspondem. Constitui‑se, desse
jeito, no interior da coluna vertebral, depois de L2, um amontoado de radículas e de raízes longas que
são chamadas de cauda equina, conforme ilustra a figura a seguir.

174
ANATOMIA HUMANA

Figura 183 – Visão posterior da parte inferior da medula espinal e da cauda equina, após a abertura da dura‑máter

Outra estrutura anatômica relevante encontrada na medula espinal é o filamento terminal.


Ele consiste em um fio de pia‑máter que se compõe no cone medular, que atravessa o saco dural, onde
é reforçado pela dura‑máter, fixando a medula espinal ao cóccix.

Lembrete

O saco dural é o envoltório terminal das meninges até os níveis de L2


e de L3.

Os papéis da medula espinal estão relacionados: na participação de processamento das informações


sensoriais oriundas dos membros, do tronco e de muitos órgãos internos; no comando direto dos
movimentos corporais; e no desempenho das diversas funções viscerais. Ela também provê um caminho
para a transmissão de dados sensoriais nos tratos que sobem até o encéfalo e de dados motores nos
tratos descendentes.

Ao realizarmos um corte transversal da medula espinal é percebido que em oposição do visto no


encéfalo a substância cinzenta se encontra na parte profunda e a substância branca, superficialmente,
conforme ilustra a figura a seguir. A substância cinzenta apresenta o aspecto de borboleta ou também

175
Unidade I

da letra H, motivo pelo qual a substância cinzenta é comumente chamada de H medular. As duas partes
posteriores do H medular são chamadas de colunas, ou cornos dorsais, ou corno posterior; e as duas
partes anteriores de colunas, ou cornos ventrais, ou cornos anteriores.

Figura 184 – Fotomicrografia de secção de medula espinal corada com Luxol fast blue.
Verificamos profundamente o H medular e, em seu entorno, a substância branca

Na substância branca existem as fibras nervosas, na maioria com mielina, posicionada paralelamente
ao eixo longitudinal da medula espinal. Essas fibras nervosas derivam‑se tanto na medula espinal, e
projetam‑se para o encéfalo, sendo chamadas de fibras ascendentes ou vias sensitivas, quanto ao
contrário, ou seja, derivam‑se no encéfalo, e caminham para a medula espinal, sendo chamadas de
fibras descendentes ou vias motoras.

Todas essas fibras nervosas são reunidas em funículos (substância branca ao longo da medula) ou
cordões em cada lado da medula espinal. O funículo anterior está localizado entre a fissura mediana
anterior e o sulco lateral anterior; o funículo lateral está localizado entre o sulco lateral anterior e o
sulco lateral posterior; e o funículo posterior está localizado entre o sulco lateral posterior e o sulco
mediano posterior. Na parte cervical, o funículo posterior é dividido em dois fascículos, o grácil e o
cuneiforme, pelo sulco intermédio posterior, conforme ilustra a figura a seguir.

Sulco mediano Sulco lateral posterior


posterior
Funículo posterior

Funículo lateral

Sulco lateral anterior Fissura mediana anterior Funículo anterior

Figura 185 – Esquema da medula espinal em secção transversal

176
ANATOMIA HUMANA

Saiba mais

Para saber mais sobre as vias ascendentes segundo sua localização nos
funículos medulares ou conforme as suas características funcionais:

MARTINEZ, A. M. B.; ALLODI, S.; UZIEL, D. Posição 7: medula espinal,


gânglios da raiz dorsal, nervos espinais e vias ascendentes. In: ___.
Neuroanatomia essencial. São Paulo: Guanabara‑Koogan, 2014.

A quantidade de substância branca altera em relação à substância cinzenta conforme o nível


craniocaudal da medula espinal, tendo maior volume nos níveis mais altos. Portanto, na intumescência
cervical e na intumescência lombar a coluna anterior profere mais a substância cinzenta em virtude da
formação dos plexos nervosos.

Como todo o SNC, a medula espinal é protegida por membranas fibrosas chamadas de meninges. Entre
as meninges existem os espaços meníngeos, sendo eles: o espaço epidural ou extradural, que se localiza
entre a dura‑máter e o periósteo do canal vertebral, o espaço subdural, que se situa entre a dura‑máter e
a aracnoide‑máter, e o espaço subaracnóideo, entre a aracnoide‑máter e o tecido nervoso.

Saiba mais

Para saber mais sobre como as lesões que afetam a medula espinal
geram sintomas de perdas sensitivas ou paralisias motoras que refletem os
núcleos e tratos envolvidos, leia a nota clínica do capítulo 14 do livro:

MARTINI, F. H.; TIMMONS, M. J.; TALLISTSCH, R. B. Anatomia humana.


Porto Alegre: Artmed, 2009, p. 367.

3.9 Anatomia do bulbo

O bulbo ou medula oblonga se conecta com a ponte superiormente e com a medula espinal inferiormente.
A união do bulbo e da medula espinal está na origem das raízes ventrais e das raízes dorsais do primeiro
nervo espinal cervical, que corresponde aproximadamente ao nível do forame magno, considerado o seu
limite inferior. O seu limite superior, entre o bulbo e a ponte, é mais evidente, sendo marcado pelo sulco
bulbopontino, que aparece na face ventral, na região de transição entre essas duas estruturas.

Essa parte do tronco encefálico apresenta forma cônica e a sua extremidade larga é dirigida
superiormente. O canal central da medula espinal continua para cima na metade inferior do bulbo.
Na metade superior do bulbo alarga‑se, como a cavidade do IV ventrículo. Suas medidas aproximadas
são: 3 centímetros de comprimento, 2 centímetros de largura e 1,5 centímetros de espessura.

177
Unidade I

O bulbo, parte inferior do tronco encefálico, também abrange vários núcleos, que são massas de
substância cinzenta, nas quais os neurônios compõem sinapses mútuas. Vários desses núcleos coordenam
funções corporais vitais. O centro cardiovascular regula a frequência cardíaca, a intensidade do batimento
cardíaco e o diâmetro dos vasos de sangue. A área respiratória rítmica do centro respiratório adequa
o ritmo básico da respiração. Outros núcleos no bulbo coordenam os reflexos do vômito, da tosse, do
espirro, da deglutição e do soluço.

Na face ventral do bulbo está a fissura mediana anterior, que é continuada inferiormente com a
fissura mediana anterior da medula espinal. A fissura mediana anterior acaba, superiormente, em uma
depressão, chamada de forame cego. Em cada lado da fissura mediana existe uma tumefação, chamada
de pirâmide. As pirâmides são compostas de feixes de fibras nervosas, as fibras corticospinais, que se
originam nos grandes neurônios no giro pré‑central do córtex cerebral. As pirâmides adelgaçam‑se
inferiormente, e é nesse momento que a maioria das fibras descendentes passa para o lado contrário,
compondo a decussação das pirâmides.

Observação

As pirâmides estão relacionadas com a motricidade voluntária, por


meio do trato corticoespinal ou piramidal. A decussação das pirâmides
oferece o cruzamento de informações de 85% das fibras do trato
corticoespinal ou piramidal.

As fibras arqueadas externas anteriores são tipos de fibras nervosas. Elas nascem da fissura mediana
anterior, acima da decussação das pirâmides, e passam lateralmente sobre a superfície do bulbo para
adentrar no cerebelo.

Posterior e lateralmente às pirâmides estão as olivas – responsáveis pelo centro de associação para
a postura, o equilíbrio e o tônus muscular –, com aproximadamente 1,5 centímetros de comprimento.
Essas estruturas anatômicas são elevações ovais geradas pelos núcleos olivares inferiores subjacentes.
No sulco entre a pirâmide e a oliva nascem as radículas do nervo hipoglosso. Posteriormente às olivas
estão os pedúnculos cerebelares inferiores, que conectam o bulbo ao cerebelo. No sulco entre a oliva
e o pedúnculo cerebelar inferior nascem as raízes do nervo glossofaríngeo, as do nervo vago e as do
nervo acessório.

A face ventral da metade superior do bulbo constitui a parte inferior do assoalho do IV ventrículo.
Já a face ventral da metade inferior do bulbo é continuada com a face posterior da medula espinal e
apresenta um sulco mediano posterior. Em cada lado do sulco mediano existe uma tumefação alongada,
o tubérculo grácil, oriundo do núcleo grácil subjacente. Lateralmente ao tubérculo grácil existe uma
tumefação semelhante, o tubérculo cuneiforme, oriundo do núcleo cuneiforme subjacente.

178
ANATOMIA HUMANA

Lembrete

O tubérculo grácil é responsável pela parte da via aferente da


sensibilidade proprioceptiva consciente do membro inferior, enquanto
o tubérculo cuneiforme é responsável pela parte da via aferente da
sensibilidade proprioceptiva consciente do membro superior.

As figuras a seguir ilustram estruturas anatômicas encontradas no tronco encefálico.

Sulco bulbopontino
Oliva Fissura mediana anterior
Pirâmide

Figura 186 – Face ventral do bulbo

Tálamo

Colículo superior
Mesencéfalo Colículo inferior

Pedúnculo cerebelar superior


Pedúnculo cerebelar médio
Pedúnculo cerebelar inferior
IV ventrículo
Tubérculo cuneiforme
Tubérculo grácil
Sulco mediano dorsal

Figura 187 – Vista dorsal do tronco encefálico e do tálamo

3.10 Anatomia da ponte

A ponte, parte média do tronco encefálico, encontra‑se anterior ao cerebelo, sendo a estrutura
anatômica que conecta o bulbo ao mesencéfalo e repousa sobre a parte basilar do osso occipital e o dorso
da sela do osso esfenoide. Apresenta aproximadamente 2,5 centímetros de comprimento e seu nome se
179
Unidade I

deve à aparência de sua face ventral, que representa uma ponte, conectando os hemisférios cerebelares.
O limite superior da ponte é a fossa interpeduncular, o seu limite inferior é o sulco bulbopontino, e o seu
limite lateral é a emergência do nervo trigêmeo.

A face ventral da ponte é convexa de lado a lado e exibe diversas fibras transversas, que convergem
em cada lado para constituir o pedúnculo cerebelar médio. Há um sulco raso na linha média, o sulco
basilar, que abriga a artéria basilar.

No sulco bulbopontino, entre a ponte e o bulbo, nasce, em ordem medial‑lateral, o nervo abducente,
mais próximo à linha média, logo acima das pirâmides. Já o nervo facial e o nervo vestibulococlear mais
lateralmente, próximos ao flóculo do cerebelo.

A face dorsal da ponte é encoberta da vista pelo cerebelo. Compõe a metade superior do assoalho
do quarto ventrículo e apresenta formato triangular. Essa face é limitada lateralmente pelos pedúnculos
cerebelares superiores e dividida em metades simétricas por um sulco mediano. Lateralmente a esse sulco
mediano existe uma elevação alongada, a eminência medial do IV ventrículo. A extremidade inferior da
eminência medial do IV ventrículo é suavemente expandida, compondo o colículo facial, que é formado
pela raiz do nervo facial, contornando o núcleo do nervo abducente. O assoalho da parte superior do
sulco limitante é de cor cinza‑azulada e chamado de locus ceruleus. Deve sua tonalidade a um grupo de
neurônios fortemente pigmentados.

Tálamo

Nervo óptico
Pedúnculo cerebral Quiasma óptico

Ponte

Figura 188 – Vista anterior do tálamo e do tronco encefálico

3.11 Anatomia do mesencéfalo

O mesencéfalo conecta a ponte ao diencéfalo e representa o menor e menos diferenciado segmento


do tronco encefálico infratentorial e situa‑se superiormente à ponte, expandindo‑se acima até o
diencéfalo e o III ventrículo. Separa‑se da ponte pelo sulco pontino superior e do cérebro por um plano
que une os corpos mamilares, relacionados ao diencéfalo, à comissura posterior.

Essa estrutura anatômica mede cerca de 2 centímetros de comprimento e conecta a ponte e o


cerebelo com o cérebro. O seu eixo longitudinal inclina‑se anteriormente durante sua ascensão por meio
180
ANATOMIA HUMANA

da abertura no tentório do cerebelo. O mesencéfalo é atravessado por um canal estreito, o aqueduto do


mesencéfalo, que é preenchido por LCS.

Na face dorsal do mesencéfalo estão quatro colículos ou corpos quadrigêmeos. Os colículos são
eminências arredondadas divididas em um par superior e um par inferior, pelo sulco vertical e pelo
sulco transverso. Superiormente aos colículos superiores, sobre o sulco que os separa, onde verifica‑se
a glândula pineal, que é parte do epitálamo. Na linha média embaixo dos colículos inferiores, o nervo
troclear surge. Esses são nervos de pequeno diâmetro que contornam a face lateral do mesencéfalo e
adentram na parede lateral do seio cavernoso.

Observação

A glândula pineal (do latim pinealis, relativo ao pinho) é parte do


epitálamo, sendo um órgão ímpar, mediano, que se localiza numa depressão
entre os colículos superiores, abaixo do corpo caloso, do qual está separado
pelo III ventrículo e pelas veias cerebrais.

Os colículos superiores agem como centros reflexos para certas atividades visuais. Mediante dos
circuitos neurais da retina para os colículos superiores, e dos colículos superiores para os músculos
extrínsecos do bulbo do olho, os estímulos visuais induzem os movimentos do bulbo do olho a seguir
as imagens em movimento – por exemplo, um carro em movimento – e a analisar imagens inertes –
por exemplo, ao ler uma frase. Outros reflexos dos colículos superiores são o reflexo de acomodação,
que adequa o formato da lente para visão de perto em relação à visão e à distância, e os reflexos que
coordenam os movimentos dos olhos, da cabeça e do pescoço em resposta aos estímulos visuais.

Os colículos inferiores são parte da via da audição, retransmitindo os impulsos dos receptores para a
audição, localizados na orelha, para o tálamo. Os colículos inferiores também são centros reflexos para
o reflexo de sobressalto, ou reflexo de Moro, quando se faz movimentos súbitos da cabeça e do corpo
que acontecem no momento que se é surpreendido por um ruído alto, por exemplo, o tiro de uma arma.

Saiba mais

Para saber mais sobre o tronco encefálico, leia as anotações clínicas


envolvendo essas estruturas anatômicas:

SNELL, R. S. Posição 5: anotações clínicas. In: ___. Neuroanatomia


clínica. 7. ed. São Paulo: Guanabara‑Koogan, 2013.

TORTORA, G. J.; DERRICKSON, B. Lesões do bulbo. In: Princípios de anatomia


e fisiologia. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara‑Koogan, 2016, p. 488.

181
Unidade I

Os corpos quadrigêmeos, conforme ilustra a figura a seguir, são estruturas anatômicas localizadas na
região posterior do mesencéfalo, formados por dois colículos superiores e dois inferiores.

Tálamo

III ventrículo
Glândula pineal
Colículo superior
Colículo inferior Mesencéfalo

Vérmis
Hemisfério cerebelar direito

Hemisfério cerebelar esquerdo

Figura 189 – Vista súperoposterior do cerebelo

As figuras a seguir mostram estruturas anatômicas relacionadas com o tronco encefálico.

Braço do colículo superior

Braço do colículo inferior


Colículo superior
Colículo inferior
Nervo troclear
Nervo trigêmeo Pedúnculo cerebral

Nervo facial Pedúnculos cerebelares


Nervo abducente Nervo vestibulococlear
Pirâmide Nervo glossofaríngeo

Nervo hipoglosso
Nervo vago
Oliva
Nervo acessório
Raízes ventrais cervicais

Sulco lateral anterior Sulco lateral posterior

Figura 190 – Vista lateral do tronco encefálico, na qual são observadas as estruturas anatômicas
e a emergência aparente no encéfalo dos nervos cranianos troclear a hipoglosso

182
ANATOMIA HUMANA

Braço do colículo superior Glândula pineal


Colículo superior
Colículo inferior
Braço do colículo inferior Nervo troclear
Fossa romboide
Fóvea superior Sulco mediano
Sulco limitante
Pedúnculos cerebelares Colículo facial
Área vestibular
Locus ceruleus Estrias medulares
Parte aberta do bulbo Eminência medial Trígono do hipoglosso
Fóvea medial Trígono do vago
Tubérculo grácil Óbex
Tubérculo cuneiforme Sulco mediano posterior
Parte fechada do bulbo Fascículo grácil
Sulco intermédio posterior
Fascículo cuneiforme
Sulco lateral posterior

Figura 191 – Vista posterior do tronco encefálico após remoção do cerebelo, em que se percebem
as estruturas anatômicas e a emergência aparente no encéfalo do nervo craniano troclear

3.12 Anatomia do diencéfalo

O diencéfalo, ou cérebro intermédio, pode ser dividido para estudos em duas grandes partes,
situadas dorsal e ventralmente em relação sulco de Monro, ou sulco hipotalâmico. O termo diencéfalo
faz referência à parte do SNC que, em conjunto com o telencéfalo, forma o cérebro. É composto,
majoritariamente, por estruturas anatômicas pares, contendo o tálamo como estrutura central. As outras
estruturas anatômicas do diencéfalo localizam‑se à volta do tálamo. Portanto, o diencéfalo subdivide‑se
em quatro partes: tálamo, hipotálamo, epitálamo e subtálamo. Sua observação se faz apenas após a
retirada de todas as estruturas anatômicas do telencéfalo ou em secções sagitais, secções coronais ou
secções horizontais.

As partes do diencéfalo chamadas de órgãos circunventriculares, pois se localizam nas paredes do


III ventrículo, monitoram as modificações químicas no sangue, uma vez que não apresentam nessa
região a barreira hematoencefálica. Os órgãos circunventriculares incluem parte do hipotálamo, da
glândula pineal, da hipófise e algumas estruturas próximas. Funcionalmente, essas regiões controlam
as atividades homeostáticas do aparelho neuroendócrino, como a regulação da pressão arterial, do
equilíbrio hídrico, da fome e da sede. Os órgãos circunventriculares também são considerados locais
de entrada no encéfalo do HIV, o vírus que provoca a aids. Uma vez no encéfalo, o HIV pode provocar
demência, ou seja, a deterioração irreversível do estado mental e outros transtornos neurológicos.

3.12.1 Tálamo

O tálamo é uma massa de substância cinzenta, e em formato oval, que compõe a maior parte do
diencéfalo, ou seja, corresponde a quatro quintos do diencéfalo. Tálamo é uma palavra grega thalamos,
que significa “câmara interna”. Também possui o nome de leito nupcial, daí o nome pulvinar do tálamo
183
Unidade I

ser o seu travesseiro ou almofada, conforme ilustra a figura a seguir. Essa estrutura anatômica possui
uma coloração cinza‑esbranquiçada, que lembra muito a mistura de café com leite. Suas dimensões são:
30 a 40 milímetros de comprimento; 20 milímetros de largura; e 22 milímetros de altura. Existem dois
tálamos, um de cada lado do III ventrículo.

O tálamo é a principal estação de retransmissão de impulsos sensitivos que chegam ao córtex


cerebral oriundos de outras partes do encéfalo e da medula espinal.

Figura 192 – Pulvinar do tálamo

A face medial do tálamo compõe parte da parede lateral do terceiro ventrículo, e usualmente
é conectada ao tálamo contrário por uma faixa de substância cinzenta, a aderência intertalâmica.
Porém, a aderência intertalâmica está ausente em aproximadamente 30% dos cérebros, consiste,
pois, em uma variação anatômica. Pesquisas mostraram que a aderência intertalâmica de brasileiros
adultos se encontra ausente em 29,5% dos casos, sendo esse número de ausências maior no negro
do que no branco.

Na região posterior, inferiormente ao pulvinar do tálamo, encontra‑se duas estruturas anatômicas


chamadas de corpos geniculados: lateral e medial, conforme ilustra a figura a seguir, também chamados
de metatálamo. O corpo geniculado lateral que tem relação com a visão, e o corpo geniculado medial
que tem com a audição, se unem aos colículos superiores e os colículos inferiores, respectivamente, por
meio de seus braços.

O corpo geniculado medial retransmite impulsos auditivos, da orelha para a área auditiva primária
do córtex cerebral. O corpo geniculado lateral retransmite impulsos visuais, da retina para a área visual
primária do córtex cerebral.

184
ANATOMIA HUMANA

Núcleo Núcleo
geniculado geniculado
lateral medial

Figura 193 – Núcleos talâmicos em cores separados em grupos pela lâmina medular interna

Uma depressão relevante que se estende do aqueduto do mesencéfalo até o forame interventricular
é chamada de sulco hipotalâmico, e sinaliza a separação anatômica entre o tálamo, acima do sulco, e
o hipotálamo, abaixo do sulco. Na extremidade posterior do sulco hipotalâmico situa‑se o epitálamo.

O tálamo é um centro de integração com o córtex cerebral, o cerebelo e a medula espinal, sendo
formado em grande parte por uma substância cinzenta. Sabe‑se que após a remoção do córtex cerebral
o tálamo é hábil para distinguir sensações grosseiras. Entretanto, o córtex cerebral é fundamental à
interpretação das sensações com base nas experiências prévias. Como, por exemplo, se o córtex
sensitivo for destruído, ainda é possível distinguir a presença de um objeto quente na mão. Porém, o
reconhecimento da forma, do peso e da temperatura correta do objeto seria comprometido.

Podemos notar que o tálamo abrange muitos núcleos relevantes e cada um deles emite axônios
para determinada parte do córtex cerebral. O grupo anterior integra o circuito de Papez e, assim,
está relacionado com as emoções, a regulação da vigilância e a memória. O circuito é uma alça de
conexões composta de várias estruturas do sistema límbico, como o hipocampo, os corpos mamilares do
hipotálamo, os núcleos do tálamo anterior e medial, o giro do cíngulo e o córtex entorrinal.

O hipocampo é uma estrutura anatômica em forma de C em cortes coronais, salientando‑se no


interior do corno temporal do ventrículo lateral. Recebeu esse nome graças à semelhança com um
cavalo‑marinho. Já os núcleos talâmicos organizam e ampliam os sinais enviados para o córtex cerebral.
É em razão disso que os indivíduos são capazes de se concentrar em conversar com outra pessoa em um
restaurante grande e agitado, por exemplo.

O grupo lateral contribui com as funções motoras, provavelmente no planejamento do movimento,


assim como faz parte das vias sensitivas, como, por exemplo, tato, pressão, propriocepção, vibração,
calor, frio e dores oriundas da face e do corpo para o córtex cerebral. O grupo mediano apresenta
um papel previsto na memória e no olfato. O grupo medial, cuja função ativadora age sobre o córtex
cerebral, age também nas emoções, no aprendizado, na memória, na consciência e na cognição, ou seja,
no pensamento e no conhecimento. A figura a seguir mostra os núcleos talâmicos.

185
Unidade I

III ventrículo Núcleos


anteriores do
tálamo
Núcleos laterais e
ventrais do tálamo Aderência
intertalâmica

Núcleos Núcleos mediais e


posteriores medianos do tálamo
do tálamo
III ventrículo

Figura 194 – Secção horizontal do encéfalo, em que se figuram centralmente


os núcleos talâmicos separados pela lâmina medular interna

Ao se efetuar uma secção sagital mediana no cérebro, é possível realizar um estudo da anatomia pouco
minudenciada do diencéfalo que possibilita observar apenas algumas estruturas e limites anatômicos,
conforme se vê na figura a seguir. Na parte ventral do diencéfalo é possível verificar, da região anterior
para a posterior, o quiasma óptico, o infundíbulo, o túber cinéreo e os corpos mamilares. Essas estruturas
anatômicas serão detalhadas mais à frente, quando se estudar a estrutura e a função do hipotálamo.

Hipotálamo Aderência
intertalâmica
Lâmina terminal
Tálamo
Quiasma óptico

Nervo óptico

Recesso do infundíbulo
Infundíbulo Estria medular
do tálamo
Hipófise Túber
Glândula pineal
cinéreo
Corpo mamilar Sulco hipotalâmico

Figura 195 – Secção sagital mediana no encéfalo para identificação das estruturas do diencéfalo

3.12.2 Hipotálamo

O hipotálamo situa‑se na frente e abaixo do tálamo. É formado pelo quiasma óptico, em forma de X,
pelos tratos ópticos – prolongamentos do quiasma óptico –, pelos corpos mamilares, pelo túber cinéreo
e pela hipófise com o seu infundíbulo, conforme ilustra a figura a seguir.

Essa minúscula estrutura diencefálica apresenta massa de apenas 4 a 5 gramas e aproximadamente


entre 1 e 2 centímetros. Ela é parte muito relevante do SNC e essencial à vida, pois controla o SNA e os
órgãos endócrinos e, assim sendo, a homeostase corporal. Tem localização adequada a essa finalidade,
pois reside no centro do sistema límbico.

186
ANATOMIA HUMANA

O sistema límbico é por vezes chamado de cérebro emocional, pois seu papel principal está conexo
com um encadeamento de emoções, tais como a dor, o prazer, a docilidade, o afeto e a ira. Ele também
está envolvido com o olfato e com a memória. Experimentos indicam que quando diferentes áreas de
sistemas límbicos de animais são acionadas as reações dos animais sugerem que estão sentindo dor
intensa ou prazer extremo. A excitação de outras áreas do sistema límbico de animais produz docilidade e
sinais de afeição. A excitação do corpo amigdaloide ou de certos núcleos hipotalâmicos de um gato gera
um padrão comportamental conhecido como ira, ou seja, o gato exibe as suas garras, ergue sua cauda,
expande seus olhos, zumbe e saliva. Em contrapartida, a retirada do corpo amigdaloide faz com que o
gato não sinta receio ou exprima agressividade. Da mesma forma, o indivíduo cujo corpo amigdaloide
está lesado não consegue distinguir manifestações de temor em outros indivíduos ou sentir pânico em
condições em que isso frequentemente seria apropriado, como ao ser agredido por um animal.

Lobo frontal
Fissura horizontal
Nervo óptico
Quiasma óptico
Hipotálamo
Corpos mamilares
Lobo temporal
Ponte

Bulbo

Cerebelo
Vérmis

Figura 196 – Vista inferior do encéfalo

Junto com outras partes do telencéfalo o sistema límbico também parece apresentar papéis na
memória, sendo que lesões nessa parte afetam‑na. Uma parte do sistema límbico, o hipocampo parece
ter uma característica não observada em outras estruturas anatômicas do SNC e ter células que podem
passar por mitoses. De tal modo, a parte do encéfalo responsável por alguns enfoques da memória pode
desenvolver novos neurônios, mesmo em indivíduos senis.

A seguir algumas das estruturas anatômicas encontradas no hipotálamo:

• Corpos mamilares: do latim, diminutivo de mamma, mamilo ou mama, são duas eminências
arredondadas, com aproximadamente 5 milímetros de diâmetro, de substância cinzenta notáveis
na parte anterior da fossa interpeduncular. Eles apresentam dois papéis relevantes que estão
integrados na evocação de memórias episódicas, por exemplo, lembrar de eventos, sendo
relevante na formação e evocação de memórias espaciais, como encontrar um objeto e/ou um
lugar. As memórias ligadas a emoções fortes e envolvendo atividades tradicionalmente benéficas

187
Unidade I

à sobrevivência, por exemplo, localizar comida, outros indivíduos ou possíveis parceiros sexuais
são mais facilmente armazenadas nessas estruturas anatômicas.

• Quiasma óptico: estrutura anatômica situada na parte anterior do assoalho do ventrículo. Acolhe
as fibras mielínicas do nervo óptico, que cruzam em parte e prosseguem nos tratos ópticos que se
dirigem aos corpos geniculados laterais depois de contornar os pilares do cérebro.

• Túber cinéreo: área ligeiramente cinzenta, mediana, localizada atrás do quiasma óptico e dos
tratos ópticos, entre esses e os corpos mamilares.

Saiba mais

Ainda que pequeno, o hipotálamo não deve ser notado como uma
estrutura anatômica de pouca relevância. Trata‑se do maior centro do
cérebro para a manutenção do meio interno do corpo humano e suas
conexões são muito complexas, mas apenas as principais vias devem ser
memorizadas para utilização na parte clínica. Para saber mais sobre o tema:

SNELL, R. S. Distúrbios clínicos associados a lesões hipotalâmicas. In:


Neuroanatomia clínica. 7. ed. São Paulo: Guanabara‑Koogan, 2013.

3.12.2.1 Papéis do hipotálamo

Controle autonômico

O hipotálamo cumpre influência controladora sobre o SNA e parece unir o sistema autônomo e o
sistema neuroendócrino, preservando, assim, a homeostase corporal. Fundamentalmente, o hipotálamo
deve ser visto como um centro nervoso superior para o controle dos centros autonômicos inferiores no
tronco encefálico e na medula espinal.

A estimulação elétrica do hipotálamo mostra que a área anterior do hipotálamo e a área pré‑óptica
influenciam as respostas parassimpáticas. Essas abrangem a diminuição da pressão arterial, redução
da frequência cardíaca, contração da bexiga urinária, elevação da motilidade do trato gastrintestinal,
elevação da acidez do suco gástrico, salivação e constrição pupilar.

A estimulação do núcleo posterior e do núcleo lateral causa respostas simpáticas, que incluem
aumento da pressão arterial, aceleração da frequência cardíaca, interrupção do peristaltismo no trato
gastrintestinal, dilatação pupilar e hiperglicemia.

Controle endócrino

Os neurônios dos núcleos hipotalâmicos, por meio da produção de fatores de liberação ou de fatores
inibidores da liberação, controlam a produção hormonal da adenohipófise.
188
ANATOMIA HUMANA

Regulação da temperatura

A parte anterior do hipotálamo regula os mecanismos que dissipam a perda de calor. A estimulação
dessa área causa dilatação dos vasos de sangue cutâneos e sudorese, que diminuem a temperatura
corporal. A estimulação da parte posterior do hipotálamo procede em vasoconstrição dos vasos de
sangue cutâneos e inibição da sudorese. Também podem ocorrer tremores, por meio dos quais os
músculos estriados esqueléticos geram calor.

Regulação do consumo alimentar

A estimulação da região lateral do hipotálamo ocasiona a sensação de fome e procede em elevação


da ingestão de alimentos. O principal núcleo envolvido é o paraventricular, que, por meio de receptores
hipotalâmicos, monitora os níveis de insulina produzidos pelo pâncreas. É provável que os níveis de insulina
e de noradrenalina circulantes estimulem o hipotálamo a desencadear o impulso da fome. A estimulação
da região medial do hipotálamo inibe a alimentação e diminui o consumo alimentar. A destruição bilateral
do centro da saciedade gera apetite voraz incontrolável, ocasionando obesidade extrema.

Regulação da ingesta de água

A estimulação de outras áreas da região lateral do hipotálamo gera elevação imediata da vontade de
ingerir água. Essa área é chamada de centro da sede. Além disso, o núcleo supraóptico do hipotálamo
desempenha um controle prudente sobre a osmolaridade do sangue por meio da secreção de vasopressina.

Emoções e comportamento

As emoções e o comportamento são papéis do hipotálamo, do sistema límbico e do córtex


pré‑frontal. O hipotálamo é o integrador dos dados aferentes recebidos de outras áreas do SN e produz
a expressão física das emoções. Pode determinar elevação da frequência cardíaca, aumento da pressão
arterial, secura da boca, rubor ou palidez da pele e sudorese. Ademais, com constância produz atividade
peristáltica maciça do trato gastrintestinal.

A estimulação dos núcleos laterais do hipotálamo pode gerar os sinais e os sintomas de raiva,
enquanto as lesões dessas áreas podem levar à passividade. A estimulação do núcleo ventromedial pode
gerar passividade, enquanto lesões desse núcleo podem provocar raiva.

O hipotálamo, por meio de seus hormônios liberadores para a hipófise, desempenha influência essencial
sobre o desenvolvimento sexual normal. Existem diferenças até microanatômicas entre o hipotálamo
masculino e o hipotálamo feminino, que podem influenciar o comportamento sexual. Alguns homossexuais
masculinos apresentam seus detalhes hipotalâmicos mais semelhantes aos das mulheres.

Controle dos ritmos circadianos

O hipotálamo coordena muitos ritmos circadianos, incluindo a temperatura corporal, a atividade


adrenocortical, a contagem de eosinófilos e a secreção renal. O sono e a vigília, embora dependentes
189
Unidade I

das atividades do tálamo, do sistema límbico e do sistema reticular ativador, também são controlados
pelo hipotálamo. As lesões da parte anterior do hipotálamo interferem gravemente no ritmo de sono e
de vigília.

As conexões da retina com o núcleo supraquiasmático desencadeiam modificações no hormônio


do crescimento, nos hormônios corticosteroides e nos hormônios sexuais, que alteram conforme a
percepção de dia e de noite. Essas modificações cíclicas são chamadas de ritmo circadiano. A destruição
daquele núcleo não suprime o ritmo, porém, o torna fixo nas 24 horas. Os mecanismos complexos
desse ritmo e a sua relevância ainda são pendentes de explicação. É interessante notar que as mulheres
esquimós não ovulam durante o inverno ártico, quando o escuro dura longos períodos, demonstrando
a interação entre o ambiente e os processos internos.

3.12.3 Epitálamo

O epitálamo (do grego epi, sobre e thalamos, câmara interna) localiza‑se na extremidade posterior
do III ventrículo, inferiormente ao esplênio do corpo caloso, anteriormente à fissura cerebral transversa
e superiormente ao mesencéfalo. O lúmen do III ventrículo estende‑se por uma pequena distância em
sua base, compondo o recesso pineal.

A estrutura não endócrina mais relevante do epitálamo é uma depressão em forma de triângulo,
composta pela(s): comissura das habênulas; estrias medulares; comissura posterior (figura a seguir).
As estruturas habenulares e as estrias medulares são estruturas límbicas. Embora acredite‑se que os
núcleos habenulares e suas conexões se relacionem com o sistema límbico, não se sabe qual é seu papel
exato. Talvez os núcleos habenulares participem do olfato, especialmente nas respostas emocionais a
odores, como o perfume da pessoa amada ou dos biscoitos de chocolate que estão assando no forno.
Habênula e
Estria medular comissura das
do tálamo habênulas Glândula pineal

Colículo
superior

Colículo
inferior

Comissura
posterior

Figura 197 – Vistas medial dos hemisférios cerebrais de estruturas neurais (habênula, comissura das habênulas
e estria medular) e endócrinas (glândula pineal) do epitálamo, além de estruturas de outras regiões encefálicas

As estruturas endócrinas mais relevantes do epitálamo são: a glândula pineal e o órgão subcomissural.
Esse órgão, ainda pouco pesquisado é uma protuberância situada abaixo da comissura posterior do
epitálamo, relacionado com o controle de secreção de aldosterona pela glândula suprarrenal. Já a
190
ANATOMIA HUMANA

glândula pineal foi mais vastamente pesquisada, considerada sem ductos e que mede, aproximadamente,
8 milímetros de comprimento. Ela age na regulação do ciclo por meio da produção de melatonina.

3.12.4 Subtálamo

O subtálamo é uma pequena região situada na parte póstero‑inferior do diencéfalo, na transição com
o mesencéfalo. Limita‑se superiormente com o tálamo, lateralmente com a cápsula interna e medialmente
com o hipotálamo. Como não é uma estrutura anatômica superficial, é observado apenas em secções,
preferencialmente a coronal. O subtálamo é a única estrutura anatômica do diencéfalo que não se
relaciona com o lúmen do III ventrículo. Macroscopicamente, a única estrutura anatômica identificável
inequivocamente é o núcleo subtalâmico, cujo epônimo é o corpo de Luys. Esse núcleo possui uma forma
de lente biconvexa com a sua extremidade inferior aproximando‑se da substância negra.

O subtálamo também abrange diversos tratos importantes que ascendem a partir do tegmento para
os núcleos talâmicos; as extremidades cranianas do lemnisco medial, do lemnisco espinal e do lemnisco
trigeminal são exemplos disso. Por essa riqueza de conexões, e por seu relevante papel na regulação da
atividade motora, o subtálamo é considerado funcionalmente como um dos núcleos da base.

3.13 Anatomia do telencéfalo

O grande desenvolvimento dos hemisférios cerebrais sucedidos durante a evolução das espécies
atingiu com a caracterização do cérebro humano, cujas competências mais distintas se devem
particularmente ao aparecimento e a formação do neocórtex, responsável pelo maior tamanho do SNC
em relação ao corpo, o grau de encefalização e, principalmente, por sua complexa rede neural.

Assim, o telencéfalo é a sede da inteligência, responsável pela aptidão de ler, escrever e falar, de realizar
cálculos e compor músicas, e de lembrar o passado, planejar o futuro e fantasiar situações que nunca existiram.
O telencéfalo é formado por um córtex cerebral externo, uma região interna de substância branca e núcleos
de substância cinzenta localizados profundamente na substância branca, chamados de núcleos da base.

O córtex cerebral é uma região de substância cinzenta que compõe a face externa do telencéfalo.
Ainda que ele apresente apenas de 2 a 4 milímetros de espessura, contém bilhões de neurônios dispostos
em camadas. Durante a morfogênese do SN, quando o encéfalo cresce ligeiramente, a substância
cinzenta do córtex se desenvolve muito mais rápido que a substância branca, mais profunda.

Os dois hemisférios cerebrais têm um formato ovoide, de menores proporções anteriormente, com
aproximadamente 160 a 180 milímetros de diâmetro no plano sagital, e 140 a 150 de milímetros de
diâmetro no plano transversal. Em relação ao peso atribuído ao cérebro, a maior parte pertence aos
hemisférios cerebrais, pois o diéncefalo é uma parte muito pequena em comparação aos hemisférios
cerebrais. Raramente o peso de ambos os hemisférios cerebrais é idêntico, na maioria das vezes o hemisfério
direito varia em relação ao hemisfério esquerdo em algumas gramas. Além disso, há uma assimetria cerebral.

Cada hemisfério cerebral possui: um polo frontal, um polo occipital e um polo temporal. Tem três
superfícies: a súperolateral, medial e inferior ou basal. À medida que as superfícies súperolaterais dos
191
Unidade I

hemisférios cerebrais se organizam sob a calvária as superfícies mediais se confrontam, existindo entre
si a foice do cérebro. Já as superfícies inferiores ou basais repousam sobre a metade anterior da base do
crânio, entre a fossa anterior do crânio e a fossa média do crânio e sobre o tentório do cerebelo.

Os hemisférios cerebrais são incompletamente separados pela fissura longitudinal do cérebro e


ligados por feixes de fibras de ambos os lados, que compõem as comissuras. A fissura longitudinal do
cérebro abrange a segunda prega afoiçada da dura‑máter, a foice do cérebro e as artérias cerebrais
anteriores. Nas profundezas da fissura longitudinal do cérebro a grande comissura, o corpo caloso, une
os hemisférios cerebrais por meio da linha média.

Ao se examinar os hemisférios cerebrais a olho nu, observa‑se que sua superfície não é lisa, mas pregueada.
Essas pregas, anatomicamente chamadas de giros, que são dobras do tecido nervoso, são uma tática evolutiva
para aumentar a área do córtex cerebral sem que seja necessário elevar o volume do crânio. Cada giro é
delimitado por sulcos ou fissuras. Certos sulcos são constantes e adquirem nomes, sendo usados para delimitar
anatomicamente os lobos do cérebro. A figura a seguir exemplifica alguns giros e lobos do cérebro.

Giro pré-central
Lobo frontal
Giro pós-central
Lobo occipital
Giro temporal superior

Giro temporal inferior


Cerebelo

Figura 198 – Vista lateral do encéfalo

3.13.1 Lobos do telencéfalo

A tradicional divisão de cada hemisfério cerebral em cinco lobos, sendo quatro deles relacionados aos ossos
do crânio e o lobo insular, toma como principais limites: o sulco central, o sulco lateral e uma linha imaginária
que liga a emergência supero medial do sulco parietooccipital com a incisura pré‑occipital, que por sua vez
localiza‑se na margem inferolateral, aproximadamente 5 centímetros anteriormente ao polo occipital.

Figura 199 – Lobos do cérebro (vermelho: lobo frontal; azul: lobo parietal;
laranja: lobo temporal e verde: lobo occipital)

192
ANATOMIA HUMANA

O mais atual ponto de vista de considerar o giro pré‑central e o giro pós‑central como um lobo do
cérebro (lobo central) e as estruturas límbicas como outro lobo isolado (lobo límbico) torna a divisão
dos lobos do cérebro menos tirânica e mais relevada, uma vez que cada um dos lobos do cérebro passa
a concentrar áreas mais afins dos pontos de vista anatômico e funcional. De tal modo, cada hemisfério
cerebral é composto por sete lobos do cérebro: o lobo frontal, lobo central, lobo parietal, lobo occipital,
lobo temporal, lobo insular e lobo límbico.

O lobo frontal ocupa a área anterior ao sulco central e superior ao sulco lateral. Nesse lobo, o giro
frontal inferior no hemisfério cerebral esquerdo na maioria dos indivíduos contém a área da fala de
Broca, que é fundamental para a articulação da fala. Grande parte do lobo frontal abrange o córtex
de associação pré‑frontal. O córtex de associação pré‑frontal é relevante no pensamento, na cognição
e nas emoções. Os transtornos psiquiátricos do pensamento, como a esquizofrenia e os transtornos
do humor, como, por exemplo, a depressão, estão ligados a papéis anormais do córtex pré‑frontal de
associação. Embora o órgão sensorial do olfato, o bulbo olfatório, permaneça situado na face ventral do
lobo frontal, suas conexões estão prevalentemente no lobo temporal.

O lobo parietal ocupa a área posterior ao sulco central e superior ao sulco lateral e estende‑se
posteriormente até o sulco parietooccipital. Ele intercede nas percepções de tato, de dor e de posição
dos membros. Esses papéis são executados pelo córtex somatossensorial primário, que está situado no
giro pós‑central. As áreas sensoriais primárias são os estágios principais do processamento cortical para
os dados sensoriais. O lóbulo parietal superior contém áreas somatossensoriais de ordem superior, para
o processamento posterior dos dados somatossensoriais e outras áreas sensoriais. Juntas, essas áreas são
fundamentais para uma autoimagem completa do corpo e intercedem as interações comportamentais
com o mundo. Uma lesão nessa parte do lobo parietal no hemisfério direito, o lado do encéfalo humano
especializado pela consciência espacial, gera sinais neurológicos bizarros que abrangem o desmazelo de
uma parte do corpo no lado contrário da lesão. Por exemplo, um indivíduo pode não vestir uma parte
do corpo, ou pentear apenas metade do cabelo. O lóbulo parietal inferior participa na integração de
vários dados sensoriais para percepção e linguagem, o raciocínio matemático e a cognição viso espacial.

O lobo temporal ocupa a área inferior ao sulco lateral. Ele intercede uma abundância de papéis
sensoriais e participa na memória e emoções. O córtex auditivo primário, situado no giro temporal
superior, age nas áreas adjacentes no giro temporal superior e dentro do sulco lateral e o sulco temporal
superior na percepção e na localização de sons. O giro temporal superior no lado esquerdo é especializado
na fala. A lesão da parte posterior desse giro, que está situada na área de Wernicke, afeta a compreensão
da fala. O giro temporal médio, principalmente a parte próxima do lobo occipital, é fundamental para
a percepção do movimento visual. O giro temporal inferior intercede a percepção da forma visual e das
cores. O giro temporal transverso anterior é relevante, pois nele se encontra o centro cortical da audição.

O lobo occipital ocupa a pequena área atrás do sulco parietooccipital. Seu papel mais considerável é
o da visão. O córtex visual primário está situado nas paredes e partes mais profundas do sulco calcarino
na face medial do encéfalo. Enquanto o córtex visual primário é relevante nos estágios principais do
processamento visual, as áreas visuais adjacentes de ordem superior cumprem um papel na elaboração
da mensagem sensorial, possibilitando que sejam observadas a forma e a cor dos objetos. Por exemplo,
na face ventral do encéfalo encontra‑se uma parte do giro occipitotemporal medial relevante para o
193
Unidade I

reconhecimento facial. Indivíduos com uma lesão nessa área confundem faces com objetos inertes, uma
condição chamada de prosopagnosia.

Profundamente no sulco lateral encontram‑se partes do lobo frontal, lobo parietal e lobo temporal.
Esse território é chamado de lobo insular. Posteriormente, durante o desenvolvimento pré‑natal, o
lobo insular torna‑se encoberto. Partes desse lobo são relevantes no paladar, nas percepções corporais
internas, na dor e no equilíbrio.

Os lobos do hemisfério cerebral não estão definidos nitidamente na face medial e na face inferior.
Todavia, permanecem diversas áreas relevantes que devem ser reconhecidas e detalhadas a seguir:

• Lóbulo paracentral: área do córtex cerebral que rodeia a endentação determinada pelo sulco
central na margem superior. A parte anterior do lóbulo paracentral é uma extensão do giro
pré‑central na face superolateral e a parte posterior do lóbulo paracentral é uma extensão
do giro pós‑central. Na parte anterior e na parte posterior do lóbulo paracentral situam‑se,
concomitantemente, a área motora e a área sensitiva relacionadas com a perna e o pé.

• Pré‑cúneo: área do córtex delimitada anteriormente pela extremidade posterior e ascendente do


sulco do cíngulo, e posteriormente pelo sulco parietooccipital.

• Cúneo: área triangular do córtex cerebral delimitada acima pelo sulco parietooccipital,
inferiormente pelo sulco calcarino e posteriormente pela margem supero medial. Cúneo, do latim
cuneos, cunha, é um lóbulo em forma de cunha na face medial do lobo occipital entre os sulcos
occipito‑parietal e calcarino.

• Área septal: é a região situada abaixo do rostro do corpo caloso e adiante da comissura anterior
à lâmina terminal. Consiste em um dos centros do prazer do cérebro. A área septal abrange o giro
paraterminal e os giros paraolfatórios.

• Giro occipitotemporal medial: estende‑se do polo occipital ao polo temporal. É limitado


medialmente pelo sulco colateral, pelo sulco rinal e lateralmente pelo sulco occipitotemporal.
O giro occipitotemporal lateral é lateral ao sulco e é contínuo com o giro temporal inferior.

• Giro lingual: região localizada na face inferior do hemisfério cerebral. Anterior ao giro lingual está
o giro parahipocampal; o último acaba anteriormente, como o unco semelhante a um gancho.

• Unco: do latim uncus, gancho, é a extremidade anterior curvada medialmente do giro


parahipocampal.

Assim, o unco, o giro parahipocampal, o istmo do giro do cíngulo e o giro do cíngulo compõem uma
formação contínua que circunda as estruturas inter‑hemisféricas, e que muitos consideram como um
lobo independente (lobo límbico), parte relevante do sistema límbico, relacionado com o comportamento
emocional e o controle do SNA.

194
ANATOMIA HUMANA

Os giros orbitais e reto são encontrados na face inferior do lobo frontal, e o bulbo e o trato olfatório
sobre um sulco, chamado de sulco olfatório. Medialmente ao sulco olfatório está o giro reto e lateralmente
ao sulco olfatório há uma série de giros orbitais. A figura a seguir mostra em secção sagital mediana
o encéfalo, onde é possível observar o tronco encefálico e a estrutura cerebelar com suas fissuras e
folhas, seu córtex superficialmente, e sua região profunda composta de substância branca, na qual se
encontram seus núcleos profundos.

Observação

O giro do cíngulo, do latim cingulum, cinto ou cinta, é um paleocórtex de


quatro camadas situado superiormente ao corpo caloso. É parte do lobo límbico.

Lobo parietal Sulco central


Sulco occipito-temporal
Lobo frontal
Lobo occipital Giro do cíngulo
Sulco calcarino
Corpo caloso
Septo pelúcido
Diencéfalo
Mesencéfalo
Cerebelo
Ponte

Bulbo

Figura 200 – Vista medial do encéfalo em plano de secção sagital

Saiba mais

Para encontrar uma revisão morfofuncional do SN:

KANDEL, E. R. et al. Cérebro e comportamento: fundamentos da


neurociência e do comportamento. Tradução de Maria Carolina Doretto.
In: ___. Principles of Neural Sciences. 2. ed. Amsterdã: Elsevier, 1985.
Disponível em: <http://atividadeparaeducacaoespecial.com/wp‑content/
uploads/2014/07/C%C3%89REBRO‑E‑COMPORTAMENTO1.pdf>. Acesso em:
15 maio 2019.

3.13.2 Núcleos da base

A terminologia núcleos da base é empregada a uma coletânea de massas de substância cinzenta


localizada dentro de cada hemisfério cerebral. Os núcleos da base executam um papel relevante
no controle da postura e dos movimentos voluntários. À diferença de várias outras partes do SN
195
Unidade I

demandadas no controle motor, os núcleos da base não apresentam conexões aferentes ou eferentes
diretas com a medula espinal. Os núcleos da base são: o corpo estriado, núcleo amigdaloide, claustro,
núcleo accumbens e núcleo basal de Meynert. Alguns dos papéis atribuídos a cada núcleo da base são
mostrados a seguir.

O corpo estriado localiza‑se lateralmente ao tálamo e abrange: o núcleo caudado, o putame e o globo
pálido. Ele pode ser dividido em: núcleo estriado, composto pelo núcleo caudado e o putame, os quais
são semelhantes do ponto de vista histológico e de origem embrionária; núcleo pálido, representado
pelo globo pálido.

No globo pálido, por conseguinte, distinguimos duas regiões: o globo pálido medial e o globo pálido
lateral. O globo pálido e o putame localizam‑se lado a lado, compondo uma estrutura macroscópica, com
o núcleo lentiforme separado do núcleo caudado pela cápsula interna. O núcleo lentiforme apresenta
forma e tamanho aproximado de uma castanha‑do‑pará. Não aparece na superfície ventricular,
localizando‑se profundamente no interior do hemisfério cerebral.

O núcleo caudado e o putame controlam as contrações involuntárias de determinados músculos


estriados esqueléticos, como, por exemplo, quando um indivíduo está deambulando. O núcleo caudado
e o putame controlam as fases cíclicas dos movimentos dos membros superiores e inferiores que
acontecem entre o momento em que a decisão “começar a andar” é realizada e o momento em que a
ordem “parar de andar” é dada.

O globo pálido regula o tônus muscular necessário para a execução de determinados voluntários do
corpo. Por exemplo, quando se decide apanhar um objeto, o globo pálido posiciona o ombro e estabiliza o
braço enquanto conscientemente se busca e segura o objeto com o antebraço, o punho e a mão.

O núcleo amigdaloide é considerado parte do sistema límbico. Por meio de suas conexões, influencia
a resposta corporal às mudanças ambientais. Na sensação de medo, por exemplo, altera a frequência
cardíaca, a pressão arterial, a coloração da pele e a frequência respiratória.

O claustro é uma delgada calota de substância cinzenta localizada entre o córtex da insula e o núcleo
lentiforme. Entre o claustro e o núcleo lentiforme há outra lâmina branca, a cápsula externa. O claustro
parece estar envolvido no processamento de informação visual em nível subconsciente. Evidências
indicam que ele atua na focalização da atenção em padrões específicos ou características importantes.

O núcleo accumbens é uma massa de substância cinzenta localizada na zona de união entre o
putame e a cabeça do núcleo caudado em área chamada de corpo esfriado ventral.

O núcleo basal de Meynert macroscopicamente é de difícil visualização. Localiza‑se na base do


cérebro, entre a substância perfurada anterior e o globo pálido, região chamada substância inominala.
Ele contém neurônios grandes e ricos em acetileolina.

A figura a seguir mostra alguns dos núcleos da base.

196
ANATOMIA HUMANA

Núcleo
caudado

Tálamo Putame

Cápsula Globo pálido


interna (lateral)

Globo pálido
(medial)

Núcleo
subtalâmico
Corpo Substância
mamilar negra

Figura 201 – Secção coronal do encéfalo, onde se observa o núcleo subtalâmico

Saiba mais

Os distúrbios dos núcleos da base são de dois tipos em geral:


hipercinéticos e hipocinéticos. A doença de Parkinson envolve esses dois
tipos de perturbações motoras. Conheça mais sobre essa patologia e
outras em:

SNELL, R. S. Posição 10. In:___. Neuroanatomia clínica. 7. ed. São Paulo:


Guanabara‑Koogan, 2013.

3.14 Anatomia do cerebelo

O cerebelo (do latim cerebellum, pequeno cérebro) é a formação nervosa volumosa localizada atrás
do bulbo e da ponte, entrando na constituição do teto do IV ventrículo. Repousa sobre a fossa cerebelar
do osso occipital e permanece espaçado ao lobo occipital do cérebro por uma prega da dura‑máter
chamada de tenda do cerebelo.

Apresenta um desenho quase ovoide ou de borboleta, alongado transversalmente e achatado


anteroposteriormente. A face superior do cerebelo é identificada por ser inteira, apenas com uma
pequena elevação na parte mediana. Já a face inferior exibe uma clara divisão entre o lado direito e o
lado esquerdo, onde se depara o verme. A face anterior fica volvida para o IV ventrículo.

O diâmetro transversal do cerebelo possui em média 9 centímetros, o anteroposterior de 6 centímetros


e o vertical de 5 centímetros. Pesa entre 130 a 150 gramas, ou seja, corresponde a um oitavo do peso do
cérebro. O seu peso absoluto é um pouco maior nos homens do que nas mulheres. Após o nascimento,

197
Unidade I

o cerebelo cresce mais do que o resto do encéfalo, de modo que o peso relativo do corpo humano é um
pouco maior em recém‑nascidos do que em adultos.

Essa estrutura anatômica tem um papel importante no sequenciamento das atividades motoras
e na breve progressão de um movimento para o subsequente. Ele coordena movimentos complexos e
controla a postura e o equilíbrio. Além disso, auxilia a controlar a interação momentânea entre grupos
musculares agonistas e antagonistas, isto é, grupos que agem de forma coordenada, por exemplo, um
contraindo e o outro relaxando. Tem também um papel fundamental assessorando o córtex cerebral a
coordenar a série de movimentos, planejando o próximo ato com antecedência de frações de segundo.
Há evidências atuais de que o cerebelo também estaria envolvido em funções cognitivas e com a emoção.

O cerebelo apresenta uma estrutura ímpar, mediana, longitudinal, inferior e de forma alongada,
que se interpõe entre os dois hemisférios cerebelares, chamada de verme. Alguns autores classificam
um verme superior como sendo a discreta saliência longitudinal no meio da face superior do cerebelo.
Possui duas grandes massas laterais que se assemelham aos hemisférios cerebrais e preenchem a fossa
cerebelar do osso occipital, chamadas de hemisférios cerebelares.

Hemisfério direito Hemisfério esquerdo

Figura 202 – Vista superior do cerebelo

3.15 Sistema ventricular

O encéfalo possui cavidades e o fluido que preenche as “cavernas” e canais dentro do encéfalo
compõe o sistema ventricular. O fluido que percorre esse sistema é o LCS, o mesmo fluido do
espaço subaracnóideo. O LCS é formado por um tecido especial, os plexos corióideos, localizados
nos ventrículos encefálicos. Ele escorre dos ventrículos pareados do cérebro para uma sequência de
ventrículos não pareados interconectada no centro do tronco encefálico. Esse líquido sai do sistema
ventricular e adentra no espaço subaracnóideo por meio de pequenos orifícios ou aberturas, perto do
local onde o cerebelo fixa‑se no tronco encefálico. No espaço subaracnóideo, o LCS é absorvido pelos
vasos de sangue por meio de estruturas anatômicas especiais, chamadas de granulações aracnoides,
as granulações de Pacchioni.

198
ANATOMIA HUMANA

Figura 203 – Plexos corióideos

Mondino de Liuzzi definiu os ventrículos encefálicos da seguinte maneira:

Mondino pronunciou: “os ventrículos encefálicos são em número de 4.


O ventrículo anterior, é o ‘ventriculus anterior magnus’, sendo ele subdividido
em: uma parte direita e uma esquerda”.

[...]

Mondino complementou: “estes ventrículos são espaçosos, e especialmente,


em sua parte anterior temos o local de origem das nossas fantasias, já na
parte posterior se encontram as nossas imaginações, enquanto na parte do
meio está o ponto de encontro do modo de pensar da maioria dos indivíduos,
e as noções comumente admitidas pelos seres humanos, ou seja, o nosso
senso comum.”

[...]

Mondino descreveu o III ventrículo como: “este ventrículo é uma cavidade


arredondada semelhante a um lago, e o seu papel está relacionado com a
sede da meditação e do raciocínio” (CRIVELLATO; RIBATTI, 2007, p. 585).

Observação

Em 1705, Antônio Pacchioni descreveu as granulações da dura‑máter.


Ele postulou que o movimento diastólico e sistólico das meninges poderia
forçar o fluido nervoso por meio dos nervos do cérebro em direção à
periferia por meio da “função de espremê‑los”. Suas preocupações com
a anatomia funcional das meninges levou‑o a ser lembrado por duas
características dessa estrutura anatômica: as granulações aracnoides e o
forame de Pacchioni.
199
Unidade I

O LCS tem três papéis fundamentais:

• Proteção mecânica: o LCS funciona como um meio amortecedor que protege os delicados tecidos
do encéfalo e da medula espinal de cargas que, de outra forma, ocasionariam o impacto dessas
estruturas anatômicas contra as paredes ósseas da cavidade craniana e do canal vertebral. O LCS
também possibilita que o encéfalo flutue na cavidade craniana.

• Papel homeostático: o pH do LCS influencia a ventilação pulmonar e o fluxo sanguíneo encefálico,


o que é relevante para a manutenção do controle homeostático para o tecido encefálico. O LCS
também funciona como um sistema de transporte para hormônios polipeptídicos secretados
pelos neurônios hipotalâmicos que atuam em locais longínquos do encéfalo.

• Circulação: o LCS é um meio para trocas secundárias de nutrientes e excretas entre o sangue e o
tecido encefálico adjacente.

O LCS produzido nos plexos corióideos de cada ventrículo lateral (1) passa para o III ventrículo por
meio de duas aberturas estreitas e ovais, os forames interventriculares (2). Mais LCS é introduzido pelo
plexo corióideo do teto do III ventrículo (3). O LCS, então, escorre pelo aqueduto do mesencéfalo (4), em
sentido ao IV ventrículo (5). O plexo corióideo do IV ventrículo colabora com mais LCS, que entra no espaço
subaracnóideo por meio de três aberturas no teto do IV: uma única abertura mediana e duas aberturas
laterais (6), uma em cada lado. Na sequência, o LCS circula no canal central da medula espinal e no espaço
subaracnóideo (7) que circunda a superfície do encéfalo e da medula espinal. O LCS é reabsorvido para o
sangue por meio das granulações aracnoides. A figura a seguir ilustra o esquema da circulação líquor.

Geralmente, o LCS é reabsorvido tão rapidamente quanto é produzido pelos plexos corióideos, a
uma taxa de 20 ml/h (480 ml/dia). Como as taxas de produção e de reabsorção se equivalem, a pressão
liquórica comumente é constante. Pela mesma razão, o volume do LCS fica constante.

1 - produção > ventrículos laterais


2 - forame interventricular
3 - III ventrículo
4 - aqueduto cerebral
5 - IV ventrículo
6 - aberturas medianas do IV ventrículo
7 - espaço subaracnóideo
8 - sobe - granulações aracnoides
desce - medula

Figura 204 – Circulação do LCS

O LCS é produzido a partir do sangue pelas células ependimárias que revestem os plexos corióideos
dos ventrículos, conforme ilustra a figura a seguir.

200
ANATOMIA HUMANA

Células
ependimárias
Capilar
Secção do
Pia-máter plexo corioide

Detritos Filtrado
desnecessários (nutrientes)

Figura 205 – Plexos corióideos dos ventrículos encefálicos

Lembrete

Os plexos corióideos são estruturas que se projetam para dentro


dos ventrículos encefálicos e são responsáveis pela produção de líquido
cerebrospinal (LCS).

3.16 Barreiras encefálicas

O SN apresenta uma série de mecanismos ou táticas que propendem proteger seu parênquima de
avarias, entrada de substâncias tóxicas e patógenos. Dentre essas técnicas estão as barreiras encefálicas,
que agem como uma barreira física, impossibilitando ou bloqueando a passagem de substâncias
do sangue para o parênquima nervoso (barreira hematoencefálica), do sangue para o LCS (barreira
hematoliquórica) e do LCS para o tecido nervoso (barreira liquor‑encefálica). As barreiras são relevantes
para o controle do microambiente do parênquima nervoso, a estabilidade de íons e a manutenção do
ambiente neuroquímico.

Saiba mais

Para saber o que é uma elevação anormal no volume de LCS dentro


do crânio:

SNELL, R. S. Posição 16. In:___. Neuroanatomia clínica. 7. ed. São Paulo:


Guanabara‑Koogan, 2013.

201
Unidade I

Como já visto, o LCS proporciona o amortecimento que protege o encéfalo da exposição diária a
encontrões e impactos, contudo, choques excessivos na cabeça podem fazer com que o encéfalo bata na
parede interna do crânio. As concussões, conforme ilustra a figura a seguir, acontecem com mais frequência
em esportes com contato direto e extenso entre os atletas, por exemplo, o boxe, as artes marciais, o judô, o
futebol americano e a luta livre, não obstante das modificações nas regras para proteger os atletas.

Atletas que tenham tido uma concussão são mais suscetíveis a outra concussão. Podem existir
complicações se o retorno ao esporte é muito rápido e sobrevém um trauma adicional. Muitos exames
foram desenvolvidos para determinar uma linha de base com a qual se permita trabalhar cada atleta se
uma concussão vir a ocorrer. As complicações das concussões são chamadas de síndrome pós‑concussão e
não são bem documentadas e entendidas. As concussões elevam o risco de desenvolvimento de problemas
médicos anos após a lesão, incluindo epilepsia (com base na evidência em jogadores da Liga Nacional de
Futebol Americano), depressão, doenças de Alzheimer e Parkinson. A prevenção das concussões é algo que
não pode ser afrontado com leviandade pelos órgãos governamentais e comitês médicos.

Figura 206 – Concussão

Observação

As concussões continuam sendo a principal causa de apreensão nos


esportes com contato e colisões, especialmente no futebol americano. Os
avanços em relação aos equipamento de futebol americano, incluindo
o capacete, apresentam, na verdade, o aumento da gravidade do maior
contato nesses últimos 50 anos.

3.17 A nutrição sanguínea do encéfalo

O encéfalo é nutrido por duas artérias carótidas internas e duas vertebrais. As quatro artérias
localizam‑se dentro do espaço subaracnóideo e seus ramos anastomosam‑se sobre a face inferior do
encéfalo, compondo o círculo arterial do cérebro, também chamado de polígono de Willis.
202
ANATOMIA HUMANA

A artéria carótida interna, conforme ilustra a figura a seguir, inicia na bifurcação da artéria carótida
comum, na qual comumente existe uma dilatação localizada, chamada de seio carótico. Ela ascende
no pescoço e perfura a base do crânio atravessando o canal carótico do osso temporal. À vista disso,
a artéria prossegue horizontalmente para frente por meio do seio cavernoso e emerge no lado medial
do processo clinoide anterior ao perfurar a dura‑máter. Agora, ela adentra no espaço subaracnóideo
ao penetrar a aracnoide‑máter e volta‑se posteriormente até a extremidade medial do sulco lateral do
cérebro. Aqui, ramifica‑se nas artérias cerebrais anterior e média.

Artéria
carótida
interna (parte
cervical)
Artéria carótida
externa

Artéria tireoide
superior
Artéria carótida
comum

Figura 207 – Vista lateral da cabeça e do pescoço

A artéria vertebral, ramo da primeira parte da artéria subclávia, sobe no pescoço atravessando os
forames nos processos transversários das vértebras cervicais. Adentra no crânio por meio do forame
magno e penetra a dura‑máter e aracnoide‑máter para alcançar o espaço subaracnóideo. À vista disso,
prossegue para cima, para a frente e medialmente sobre o bulbo. Na margem inferior da ponte, junta‑se
ao vaso do lado contrário constituindo a artéria basilar.

A artéria basilar, composta pela junção das duas artérias vertebrais, sobe em um sulco na face
anterior da ponte. Na margem superior da ponte, ramifica‑se nas duas artérias cerebrais posteriores.

O círculo arterial do cérebro, conforme ilustra a figura a seguir, situa‑se na fossa interpeduncular na
base do cérebro. É composto pela anastomose entre as duas artérias carótidas internas e as duas artérias
vertebrais. As artérias comunicante anterior, cerebrais anteriores, carótidas internas, comunicantes
posteriores, cerebrais posteriores e basilar colaboram para o círculo. O círculo arterial do cérebro

203
Unidade I

possibilita que o sangue nutrido pelas artérias carótidas internas ou vertebrais seja difundido a qualquer
parte dos dois hemisférios cerebrais. Ramos corticais e centrais se originam do polígono e nutrem a
substância cerebral.

As variações nos tamanhos das artérias que compõem o círculo arterial do cérebro são frequentes e
aqui se expõe a falta de uma ou das duas artérias comunicantes posteriores.

O corpo estriado e a cápsula interna são nutridos especialmente pelos ramos centrais estriados
mediais e laterais da artéria cerebral média; os ramos centrais da artéria cerebral anterior nutrem o
remanente dessas estruturas anatômicas. O tálamo é nutrido especialmente por ramos das artérias
comunicante anterior, basilar e cerebral posterior.

O mesencéfalo é nutrido pelas artérias cerebral posterior, cerebelar superior e basilar. A ponte é
nutrida pelas artérias basilar e cerebelares inferior anterior e superior. O bulbo é nutrido pelas artérias
vertebral, espinais anterior e posterior, cerebelar inferior posterior e basilar. O cerebelo é nutrido pelas
artérias cerebelares superior, inferior anterior e inferior posterior.

Artéria comunicante anterior

Artéria oftálmica

Círculo
arterial do Artéria carótida interna
cérebro Artéria comunicante posterior

Artéria cerebelar superior


Artéria basilar
Artéria do labirinto Artéria cerebelar inferior anterior

Artéria cerebelar inferior posterior

Artéria vertebral
Artéria espinal anterior

Vista inferior

Figura 208 – Círculo arterial do cérebro

204
ANATOMIA HUMANA

4 SISTEMA NERVOSO AUTÔNOMO E PERIFÉRICO

Nossos pensamentos conscientes, planos e atos concebem apenas uma pequena fração das atividades
do SN. Se toda a consciência fosse abolida, os processos vitais fisiológicos ainda permaneceriam
praticamente inalterados, por exemplo, uma noite de sono não é um fato que ameace a vida. Além disso,
profundas condições de inconsciência não são essencialmente mais ameaçadoras, desde que a nutrição
do organismo seja provida. Indivíduos que sofreram graves traumatismos cranioencefálicos sobreviveram
em coma durante décadas. A sobrevivência nessa conjuntura é provável porque os ajustes rotineiros
nos sistemas fisiológicos são executados pelo sistema nervoso autônomo (SNA), independentemente
de nosso discernimento consciente. O SNA regula a temperatura corporal e coordena os papéis
cardiovasculares, respiratórios, digestivos, urinários e reprodutores. De tal modo o realizando, adequa a
água, os eletrólitos, os nutrientes e as concentrações de gases dissolvidos nos líquidos corporais.

A nomeação SNA foi mencionada no século passado porque os anatomistas que o descreveram
acreditavam que seus elementos funcionavam com certa independência do SNC. Atualmente, sabemos
que esse sistema não tem autonomia e, portanto, outros nomes foram sugeridos: sistema neurovegetativo,
sistema nervoso visceral, vegetativo, autonômico e automático. Nenhuma dessas terminologias se
revelou apropriada. A designação “sistema nervoso autônomo”, ainda que incorreta e limitada para
exprimir seu papel, é a mais convencional e radicada. Realmente, como profere a própria terminologia
autônomo (“auto” significa “próprio” e “nom”, “governar”) referente a essa subdivisão motora do SNP,
apresenta uma certa independência funcional.

Este tópico estuda a estrutura anatômica e as partes do SNA, cada uma com uma organização
anatômica e funcional característica. Inicialmente será feita a descrição das partes simpática e
parassimpática. Entretanto, o SNA também abrange uma terceira parte da qual a maioria dos indivíduos
nunca ouviu falar – o sistema nervoso entérico (SNE), uma extensa rede de neurônios e de nervos
situado nas paredes do trato digestório. Ainda que as atividades do SNE sejam influenciadas pelas partes
simpática e parassimpática, muitos reflexos viscerais complexos podem ser principiados e coordenados
localmente, sem instruções do SNC. Em conjunto, o SNE tem aproximadamente 100 milhões de neurônios
– pelo menos a mesma quantidade que na medula espinal – e todos os neurotransmissores deparados
no encéfalo.

4.1 Diferenças anatômicas relevantes entre as partes simpática e


parassimpática do SNA

Basedo em suas características anatômicas e funcionais, o SNA pode ser dividido em duas partes:
simpática e parassimpática. A seguir estão algumas dessas diferenças, que dizem respeito, naturalmente,
à morfologia e determinam a localização dos corpos dos neurônios pré e pós‑ganglionares, o tamanho
da fibra pré e pós‑ganglionares e a posição dos gânglios.

• O corpo do neurônio pré‑ganglionar localiza‑se entre os segmentos T1 e L2 da medula espinal


na parte simpática, enquanto na parte parassimpática localiza‑se no tronco encefálico e entre os
segmentos S1 e S4 da medula espinal.

205
Unidade I

• O corpo do neurônio pós‑ganglionar localiza‑se nos gânglios paravertebrais e gânglios


pré‑vertebrais na parte simpática, enquanto na parte parassimpática localiza‑se nos
gânglios parassimpáticos.

• O tamanho da fibra pré‑ganglionar é curto na parte simpática e longo na parte parassimpática.

• A parte simpática apresenta longas fibras pós‑ganglionares, enquanto a parte parassimpática tem
fibras curtas.

• A posição do gânglio é próxima do SNC na parte simpática e próxima das vísceras – portanto,
longe do SNC – na parte parassimpática.

A figura a seguir mostra as diferenças anatômicas entre as partes simpática (sistema de alerta) e
parassimpática (sistema de equilíbrio visceral) do SNA.

Parassimpático

Vísceras: T1

Glândula lacrimal

Simpático

Coração
L2

S2
Parassimpático
Bexiga urinária S4

Figura 209 – Diferenças anatômicas entre os sistemas nervoso simpático e parassimpático

A fim de promover o aprendizado das diferentes ações desses dois elementos do SNA, pode ser
benéfico pensar que a atividade simpática é máxima em um homem que se depara com um touro em
um descampado prestes a agredi‑lo. Seus pelos são arrepiados com o temor; sua pele empalidece
em razão da vasoconstrição, que redistribui o sangue da pele e das vísceras para o miocárdio e os
músculos estriados esqueléticos. As pálpebras superiores são elevadas e as pupilas se dilatam vastamente
para que ele possa observar em qual direção correr. Sua frequência cardíaca se eleva, bem como a
resistência periférica das arteríolas, o que aumenta a pressão arterial. Os brônquios se dilatam para
possibilitar fluxo respiratório máximo de ar. A atividade peristáltica é inibida e os esfíncteres intestinais
206
ANATOMIA HUMANA

são contraídos. O músculo esfíncter interno da uretra também é contraído e com certeza essa não é a
ocasião para urinar ou defecar. O glicogênio é convertido em glicose para produzir energia e ele sua para
reduzir calor corporal.

Figura 210 – Indivíduo fazendo uma hábil utilização da parte simpática do SNA

Lembrete

Geralmente, tanto a parte simpática como a parassimpática apresentam


papéis antagônicos, ou seja, papéis contrários, em que um corrige o excesso
do outro.

4.2 Papéis do SNA

O SNA, juntamente com os órgãos endócrinos, mantém a homeostase corporal. O controle endócrino
é mais vagaroso e desempenha sua influência por meio dos hormônios hematogênicos.

Esse sistema funciona, na maior parte do tempo, no nível subconsciente. Não pressentimos, por
exemplo, que nossas pupilas estão dilatando ou que as nossas artérias estão se constringindo. O sistema
não deve ser notado como uma parte isolada do sistema nervoso, pois sabemos que ele exerce um papel
com as atividades somáticas na expressão das emoções e que diversas atividades autonômicas, como,
por exemplo, a micção, podem ser mantidas sob controle voluntário. As diversas atividades do SNA e dos
órgãos endócrinos são integradas dentro do hipotálamo.

As partes simpática e parassimpática do SNA colaboram para a manutenção da estabilidade do


ambiente interno. Como visto no exemplo do toureiro a parte simpática prepara e mobiliza o organismo
em uma emergência, ou, ainda, quando há atividade física intensa e súbita ou ira. A parte parassimpática
procura manter e armazenar energia, como no requerimento da digestão e absorção de alimentos ao
elevar as secreções das glândulas do trato gastrintestinal e ao estimular o peristaltismo, conforme
ilustra a figura a seguir.

207
Unidade I

Figura 211 – Nada como uma excelente refeição e uma poltrona aconchegada
para facilitar as atividades da parte parassimpática do SNA

Lembrete

A divisão em sistema nervoso simpático e parassimpático baseia‑se


não apenas nas características anatômicas específicas de cada divisão, mas
também nas funções desempenhadas por elas.

O sistema nervoso parassimpático é vital durante o período de recuperação após o estresse de


exercício. A capacidade do sistema nervoso parassimpático de responder mudando as respostas do
sistema nervoso simpático durante o exercício e no período de recuperação é uma característica treinável
do SN, como, por exemplo, levar velozmente a pressão arterial e a frequência cardíaca de volta para os
níveis normais de repouso. Essa aptidão é vital para a saúde e a boa forma excelentes, especificamente
com o envelhecimento.

4.3 Reações do SNA

A maior parte dessa fina regulação acontece inconscientemente ou sem se prestar atenção. É possível
sentir quando as artérias estão contraindo ou as pupilas dilatando? Possivelmente não. Porém, uma
situação em que a pessoa fica presa no elevador antes de poder chegar ao banheiro, e a bexiga urinária
resolve contrair como se tivesse vontade própria, dá uma boa noção dessa atividade. Essas reações,
sendo conscientes ou não, são controladas pelo SNA.

Foram apresentadas duas condições extremas nas quais uma ou outra parte do SNA domina.
Um caminho mais fácil para rememorar os papéis mais relevantes das duas partes do SNA é refletir
no parassimpático como a parte do D, ou seja, digestão, defecação e diurese (micção) e o simpático

208
ANATOMIA HUMANA

como a parte do E (exercício, excitação, emergência, embaraço). Vale lembrar, todavia, que embora
seja mais fácil refletir nas duas partes do SNA trabalhando de uma forma tudo‑ou‑nada, como foi
mostrado, isso raramente ocorre. Há um antagonismo dinâmico entre as partes e adaptações finas estão
ininterruptamente acontecendo nas duas.

As partes simpática e parassimpática do SNA, geralmente, cumprem o controle antagonista sobre


uma víscera. Entretanto, deve‑se salientar que muitas vísceras não apresentam esse controle dual fino
do SNA. Como, por exemplo, o músculo liso dos folículos pilosos, o músculo eretor do pelo responde à
atividade simpática com contração e não existe controle parassimpático.

As atividades de algumas vísceras são mantidas sob um estado constante de inibição por um ou
outro elemento do SNA. O coração de um atleta treinado é mantido em frequência baixa pelas atividades
do sistema parassimpático. Isso tem relevância estimável, porque o coração é uma bomba mais eficaz
quando se contrai lentamente do que durante contrações muito velozes, pois possibilita o enchimento
diastólico apropriado dos ventrículos.

A seguir estão as respostas mais relevantes ocorridas nas duas partes do SNA. Perante o perigo a
parte simpática estimula a “luta ou fuga”. Desse modo, acontecem:

• Produção de energia, quando o indivíduo fica extremamente precavido com o objetivo de se proteger,
ao mesmo tempo em que acontece a inibição das funções digestivas, abrangendo a salivação.

• Contração de todos os esfíncteres intestinais e inibição do peristaltismo.

• Contração do esfíncter urinário.

• Vasoconstrição periférica, reduzindo o aporte sanguíneo na pele e no trato gastrintestinal.


O sangue é mais dirigido para a musculatura estriada esquelética e para os pulmões.

• Dilatação dos bronquíolos, nos pulmões, o que permite maior troca gasosa.

• Vasodilatação das artérias coronárias.

• Elevação dos batimentos cardíacos quando estamos com receio, assim como da contração das
células cardíacas, um dos mecanismos que permitem maior aporte sanguíneo para a musculatura
estriada esquelética, como um preparo para a “luta”.

• Dilatação da pupila, pois quando o indivíduo está com receio e existe o relaxamento do músculo
ciliar, o cristalino se torna mais raso, o que permite fazer chegar mais luz à retina.

• Estímulo da sudorese.

• Estímulo do orgasmo.

209
Unidade I

• Estímulo da secreção de adrenalina e noradrenalina.

A parte parassimpática, por sua vez, provoca o retorno às funções vegetativas regulares, harmonizando
uma digestão apropriada e sensação de tranquilidade. De tal modo, acontecem:

• Dilatação dos vasos sanguíneos que se dirigem ao trato gastrintestinal, causando, consequentemente,
maior afluxo sanguíneo no sistema digestório, que tem grande demanda metabólica.

• Elevação da secreção das glândulas salivares e aceleração do peristaltismo, o que, em conjunto


com o maior fluxo sanguíneo para o sistema digestório, gera a favorável absorção de nutrientes.

• Constrição dos bronquíolos.

• Controle e regulação dos batimentos cardíacos, especialmente por ramos do X par de nervos
cranianos, o nervo vago.

• Constrição da pupila e ajuste do cristalino.

• Contração da bexiga urinária.

• Envolvimento no estímulo do desejo sexual e na ereção dos órgãos genitais.

4.4 Sistema nervoso entérico

O canal alimentar, além de ser inervado pelo SNA e considerado o suprimento nervoso extrínseco,
também recebe um suprimento nervoso intrínseco, o sistema nervoso entérico (SNE). Esse sistema
trabalha sem a interferência direta do hipotálamo e o restante do SNC, coordenando as complexas
funções que lá acontecem. O SNE, considerado o cérebro dos intestinos, situa‑se inteiramente na parede
do intestino, principiando‑se no esôfago e estendendo‑se até o ânus.

Lembrete

O SNE é a parte do sistema nervoso que funciona independentemente


do hipotálamo e do resto do SNC, coordenando as complexas funções que
acontecem no canal alimentar.

Como o SNC, o SNE é formado por neurônios e neuroglias (as neuroglias entéricas), que são
fundamentais para manter a integridade da mucosa intestinal. O SNE apresenta um número de neurônios
semelhante ao da medula espinal, calculado em cerca de 100 milhões de neurônios.

Ainda que esse número seja, aproximadamente, mil vezes menor que o do córtex cerebral, o elevado
número de neurônios por si só já evidencia a relevância desse sistema para a função gastrintestinal. Com essa
quantidade de neurônios, as movimentações e as secreções organizadas pelo SNE são bastante concisas.
210
ANATOMIA HUMANA

Desse modo, o SNE é composto por neurônios motores e sensitivos ligados por interneurônios
organizados em dois circuitos neuronais interconectados: o plexo submucoso ou de Meissner e o plexo
miontérico ou de Auerbach. O plexo submucoso localiza‑se na camada submucosa, mais exatamente
entre a camada muscular circular e a mucosa, controlando as secreções gastrintestinais, pois ele
inerva as glândulas secretoras, além do fluxo sanguíneo local. Já o miontérico, externo em relação ao
submucoso, situa‑se entre as camadas musculares longitudinal externa e circular interna, controlando
as movimentações gastrintestinais, como, por exemplo, a segmentação e o peristaltismo. Assim, o
estímulo para que sejam executadas movimentações que empurram o conteúdo alimentar para frente,
ou seja, o peristaltismo; e para misturá‑lo com as enzimas, ou seja, a segmentação. Portanto, a pressão
que é exercida nas paredes do canal alimentar determinará o tipo de movimento promovido pelo SNE.

Embora o SNE funcione sem a necessidade dos nervos extrínsecos do SNA, as estimulações simpática
e parassimpática podem inibir ou estimular ainda mais as funções gastrintestinais. A estimulação
simpática tende a inibir as secreções e as movimentações peristálticas. Já a estimulação parassimpática
aciona as secreções e o peristaltismo.

Por fim, vale relembrar que o SNE não é completamente autônomo. Ele recebe informações indiretas
do encéfalo por meio de axônios das partes simpática e parassimpática, que proveem um controle extra
e que podem sobrepor‑se às funções da parte entérica em algumas ocasiões, por exemplo, em casos de
estresse agudo.

4.5 Sistema nervoso periférico

Toda a elegância do encéfalo humano seria infrutífera sem suas ligações com o mundo exterior.
Uma experiência que elucida essa afirmativa: voluntários de olhos vendados que foram mantidos
erguidos em um tanque de água morna com privação sensorial (uma condição que limita as aderências
sensoriais) tiveram delírios. Um deles via elefantes que eram por ora de cor rosa, por ora de cor púrpura.
Outro escutava um coro de vozes, outros tinham delírios gustatórios. Grande parte de nossa salubridade
está sujeita a um fluxo contínuo de dados do meio externo.

Não menos relevante são os comandos do SNC emitidos aos músculos estriados esqueléticos e a
outros órgãos efetores do corpo humano, os quais possibilitam que nos mexamos e zelemos de contentar
nossas necessidades. O SNP provê essas ligações entre o mundo exterior e o nosso corpo. Fibras nervosas
brancas cursam cada parte do corpo, permitindo que o SNC receba dados e realize suas resoluções.

O SNP abrange todas as estruturas neurais que se situam externamente ao encéfalo e a medula
espinal, que são os nervos periféricos e os seus gânglios agregados, e as terminações nervosas.

4.5.1 Nervos periféricos

Os nervos são estruturas compostas por feixes de fibras nervosas, que se mostram cobertos por um
tecido conjuntivo, o que lhes dá uma coloração clara, e servem para ligar a parte do SNC à parte do SNP.
Eles podem ser de dois tipos: cranianos ou espinais.

211
Unidade I

Os 12 pares de nervos cranianos apresentam esse nome porque se originam no encéfalo, dentro da
cavidade craniana, e passam através de diversos forames do crânio.

Cada nervo craniano possui um número, indicado por um numeral romano e um nome. Os números
lembram a ordem, de anterior para posterior, na qual os nervos se originam no encéfalo. Os nomes
chamam a distribuição ou o papel dos nervos.

Três nervos cranianos (I, II e VIII) abrangem axônios de neurônios sensitivos e são chamados de
nervos sensitivos especiais. Na cabeça, eles são peculiares e estão conexos aos sentidos especiais do
olfato, da visão e da audição, concomitantemente. Os corpos celulares da maioria dos nervos sensitivos
estão situados em gânglios situados fora do encéfalo.

Cinco nervos cranianos (III, IV, VI, XI e XII) são classificados como nervos motores, pois eles abrangem
apenas axônios de neurônios motores quando deixam o tronco encefálico.

Os quatro nervos cranianos remanentes (V, VII, IX e X) são nervos mistos, abrangem axônios de
neurônios sensitivos que adentram o encéfalo e de neurônios motores que deixam o encéfalo.

Como visto na anatomia da medula espinal, os 31 pares de nervos espinais têm origens nessa
estrutura anatômica e emergem através dos forames intervertebrais. Cada nervo espinal é composto
por fibras sensitivas e motoras, sendo, portanto, todos os pares nervos mistos.

Salvo nos nervos torácicos T2 a T12, os ramos anteriores dos nervos espinais associam‑se entre si e se
separam outra vez como redes de fibras nervosas para compor os plexos nervosos. Existem quatro plexos
de nervos espinais: cervical, braquial, lombar e sacral. Os nervos emergem dos plexos e são chamados
conforme as estruturas que eles inervam ou seu trajeto.

Saiba mais

Para saber identificar os nervos cranianos por nome, número e tipo


e identificar o papel de cada um, assim como compreender as suas
correlações clínicas:

TORTORA, G. J.; DERRICKSON, B. Princípios de anatomia e fisiologia.


14. ed. São Paulo: Guanabara‑Koogan, 2016, p. 507‑519.

Para conhecer os métodos clínicos mais rotineiramente utilizados para


estabelecer as disfunções dos nervos cranianos, como lesões na cabeça e
choques fortes, assim como a formação dos plexos nervosos:

VAN DE GRAAFF, K. M. Anatomia humana. 6. ed. Barueri: Manole, 2003,


p. 413‑425.

212
ANATOMIA HUMANA

4.5.2 Gânglios

Os gânglios dividem‑se em gânglios sensitivos dos nervos espinais, conforme ilustra a figura a seguir,
ou seja, os gânglios das raízes posteriores e dos nervos cranianos, e gânglios autonômicos.

Os gânglios sensitivos são tumefações fusiformes localizadas na raiz posterior de cada nervo espinal,
logo proximal à junção da raiz com uma raiz anterior correspondente. São chamados de gânglios das
raízes posteriores. Gânglios idênticos que também são encontrados ao longo do percurso dos nervos
cranianos V, VII, VIII, IX e X são chamados de gânglios sensitivos desses nervos.

Figura 212 – Gânglio espinal (apontado pela pinça)

Os gânglios autonômicos, muitos dos quais apresentam forma irregular, localizam‑se ao longo do
percurso das fibras nervosas motoras do SNA. São encontrados nas cadeias simpáticas paravertebrais
em volta das raízes das grandes artérias viscerais no abdome e próximo ou encravados nas paredes de
várias vísceras.

Observação

A doença herpes zoster é uma infecção viral do gânglio espinal que


causa dor e comumente é unilateral. Ela se manifesta por agrupamentos
de vesículas na pele cheias de líquidos dispostas ao longo dos percursos dos
nervos sensitivos periféricos atingidos. A doença se desenvolve em adultos
que foram expostos primeiro ao vírus quando crianças e, frequentemente,
é autolimitante. O tratamento pode envolver doses grandes de drogas
antivirais como, por exemplo, aciclovir (Zorivax).

4.5.3 Terminações nervosas

Em sua parte distal, os nervos entram em contato com os órgãos periféricos por meio de
terminações nervosas, que podem ser sensoriais ou motoras. As sensoriais, também chamadas
de receptores sensoriais, conforme ilustra a figura a seguir, são vulneráveis a determinado tipo de
213
Unidade I

estímulo, a partir do qual desencadeiam o surgimento de impulsos nervosos nas fibras sensitivas ao
SNC. Existem, de tal modo, receptores táteis, térmicos e dolorosos. Do ponto de vista morfológico, os
receptores podem se expor como terminações nervosas livres ou serem envolvidos por cápsulas ou
formações de natureza conjuntiva.

As terminações nervosas motoras determinarão o contato entre as fibras nervosas e os efetuadores,


ou seja, os músculos ou as glândulas. Elas podem ser chamadas de junções neuromusculares ou junções
neuroglandulares. Morfologicamente, essas terminações se semelham às sinapses entre os neurônios,
quando acontece a liberação de um neurotransmissor que vai agir na membrana do efetuador.
Pressão: Vater-Pacini Meissner

Krause
Terminações livres Ruffini

Fuso neuromuscular Terminação tendínea


propriorreceptor proprioreceptora

Figura 213 – Terminações nervosas sensoriais como observadas ao microscópio óptico

Resumo

A anatomia humana é a ciência que estuda a estrutura do organismo


humano. A terminologia anatômica é descrita, geralmente, com vocábulos
de origem grega ou latina. A história da anatomia é similar à da medicina
e também foi influenciada pelas diversas religiões. O interesse pré‑histórico

214
ANATOMIA HUMANA

pela anatomia foi indiscutivelmente limitado à observação e puramente


baseado no misticismo.

A anatomia encontrou grande aprovação como uma ciência,


primeiramente, na Grécia Antiga. Alexandria foi um centro de aprendizagem
científica, local em que foram realizadas dissecações e vivissecções.

Durante o período romano, Galeno, um médico influente, fez alguns


avanços relevantes em anatomia, mas, ao mesmo tempo, implantou erros
graves na literatura que se tornaram incontestáveis durante séculos.
Na Idade Média, a anatomia sofreu forte repressão religiosa e as dissecações
de cadáveres humanos foram proibidas. Durante as Cruzadas, as escritas
anatômicas foram levadas de Alexandria pelos árabes, cujos estudos foram
bastante relevantes nesse período.

Diversas universidades se estabeleceram na Europa durante o Renascimento.


O médico Andreas Vesalius é considerado o pai da anatomia. A plastinação
é uma técnica anatômica que envolve polêmicas bioéticas, pois os cadáveres
humanos são mostrados em exposições e faculdades de medicina.

As células especializadas estão estrutural e funcionalmente integradas


para constituir um organismo. O corpo humano é dividido em cabeça,
pescoço, tronco e membros. Na posição anatômica, o indivíduo está ereto
com os pés paralelos, olhar voltado para o horizonte e membros superiores
juntos ao tronco com as palmas das mãos voltadas para frente e os dedos
das mãos dirigidos para baixo. Todas as descrições de posição ou localização
partem da posição anatômica. As direções abrangem a superior, inferior,
anterior, posterior, medial, lateral, proximal e distal. Os planos que passam
através do organismo humano são: o sagital, o coronal e o transverso.

O organismo é formado por diversas cavidades. A cavidade anterior é


subdividida em: torácica, abdominal e pélvica; a posterior é subdividida em
craniana e espinal.

O aparelho locomotor é composto pelo esqueleto, pelas articulações e


pelos músculos. O esqueleto é dividido em esqueleto axial, que consiste no
crânio, hioide, coluna vertebral e tórax. O esqueleto apendicular consiste
em ossos dos membros superior e inferior. Há duas cinturas, a escapular e
a pélvica. As funções do esqueleto abrangem a sustentação, a proteção, a
produção de células de sangue e o armazenamento de gordura e minerais.

Os ossos podem ser classificados de acordo com a sua forma em:


longos, curtos, planos e irregulares. As superfícies externas dos ossos
apresentam detalhes anatômicos, por exemplo, tuberosidades, fossas,
215
Unidade I

forames e incisuras. Um típico osso longo possui diáfise, com um canal


medular preenchido por medula óssea, epífises, periósteo e endósteo.
O osso compacto é a parte densa externa; o osso esponjoso é a parte interna
porosa e vascular.

As articulações são formadas quando os ossos vizinhos se articulam.


Elas são classificadas de acordo com o tecido interposto em fibrosas,
cartilagíneas e sinoviais. As articulações fibrosas são de quatro tipos:
suturas, sindesmoses, gonfoses e esquindileses. Os dois tipos de articulações
cartilagíneas são as sincondroses e as sínfises. As articulações sinoviais
com liberdade de movimentos apresentam estruturas anatômicas, como
a cápsula articular, a membrana sinovial, o líquido sinovial, a cartilagem
articular, os ligamentos, os meniscos e os discos articulares. Os músculos
estriados esqueléticos possuem características macroscópicas, como o
ventre muscular, os tendões, as aponeuroses e as fáscias musculares.
Os nomes que os músculos estriados esqueléticos receberam foram baseados
na forma, no tamanho, na direção das fibras, no número de origens, na
localização de suas fixações e ações. Os músculos do esqueleto axial incluem
aqueles responsáveis pela expressão facial, mastigação, parede abdominal
e coluna vertebral. Os músculos do esqueleto apendicular incluem os
músculos dos membros superiores e inferiores.

O SNC é formado pelo encéfalo e pela medula espinal e apresenta


substâncias cinzentas e brancas. Está envolvido por meninges e banhado em
LCS. A dura‑máter é a meninge mais externa, espessa e em contato íntimo
com o tecido ósseo. A aracnoide‑máter é uma meninge em forma de rede
que envolve o espaço subaracnóideo, que contem LCS. A delgada pia‑máter
é juntada em todo o contorno do SNC. Os ventrículos laterais (I e II),
bem como o III e o IV ventrículos, são cavidades interligadas no interior
do encéfalo que são sucessivas com o canal central da medula espinal.
Essas cavidades são cheias de LCS, que se compõe ininterruptamente pelos
plexos corióideos a partir do plasma sanguíneo, sendo reabsorvido para o
sangue pelas granulações aracnoides.

Os neurônios são as unidades fundamentais estruturais e funcionais


do SN, e células especializadas, chamadas neuroglias, oferecem suporte
estrutural e funcional para as suas atividades. Um neurônio apresenta
dendritos, um corpo celular e um axônio. Há vários tipos de neuroglias, como,
os oligodendrócitos, as micróglias, os astrócitos e as células ependimárias
– encontradas no SNC – e as células de Schwann – encontradas no SNP.

O cérebro, consistindo de dois hemisférios convolutos, relaciona‑se


com as funções mais elevadas do encéfalo. O córtex cerebral possui
circunvoluções com giros e sulcos. Cada hemisfério cerebral apresenta
216
ANATOMIA HUMANA

os lobos frontal, parietal, temporal e occipital. O lobo da insula


localiza‑se profundamente no interior do cérebro e não pode ser
observado externamente. Além desses lobos, propostas científicas
abrangem outros dois lobos: o central e o límbico. Os núcleos da base
são massas especializadas de substância cinzenta encontradas no interior
da substância branca do cérebro. O diencéfalo é composto de tálamo,
hipotálamo, epitálamo e subtálamo. O tronco encefálico é dividido em
três partes: o mesencéfalo, a ponte e o bulbo. O mesencéfalo apresenta
os corpos quadrigêmeos e os pedúnculos cerebrais. A ponte consiste
em tratos de fibras que comunicam o cerebelo e o bulbo com outras
estruturas do encéfalo. O bulbo, que conecta o encéfalo a medula espinal,
é composto de tratos ascendentes e descendentes da medula espinal.
O cerebelo, outra parte do encéfalo, é formado por dois hemisférios
unidos pelo verme e sustentado por três pares de pedúnculos cerebelares.

A medula espinal é caracterizada por uma intumescência cervical, uma


intumescência lombossacral e dois sulcos longitudinais, que a dividem
parcialmente em metades direita e esquerda. Os tratos espinais ascendentes
e descendentes da medula espinal são chamados de funículos. O sangue
arterial atinge o encéfalo por meio das artérias carótidas internas e das
artérias vertebrais.

O SNA, uma divisão funcional do SN, é composto de partes do SNC


e partes do SNP. O músculo liso, músculo estriado cardíaco e glândulas
recebem inervação autônoma.

O SNP é composto de gânglios, terminações nervosas e nervos, divididos


em dois tipos: cranianos e espinais. Os doze pares de nervos cranianos estão
conectados com o encéfalo e os 30 pares de nervos espinais estão ligados
à medula espinal.

Exercícios

Questão 1. (FCC 2011, adaptada) A coluna vertebral é uma estrutura anatômica


extremamente importante no corpo humano. Ela apresenta curvas fisiológicas normais, no
sentido céfalo‑caudal, denominadas:

A) Cervical, torácica, sacra e lombar.

B) Cervical, torácica, lombar e sacra.

C) Lombar, torácica, cervical e sacra.

217
Unidade I

D) Sacra, lombar, torácica e cervical.

E) Lombar, sacra, cervical e torácica.

Resposta correta: alternativa B.

Análise da questão

Justificativa: a ordem céfalo-caudal da coluna vertebral se inicia nas 7 vértebras cervicais, seguidas
de 12 torácicas, 5 lombares e o osso sacro (unido ao cóccix na fase adulta humana).

Questão 2. No tubo nervoso, durante o desenvolvimento embrionário, é possível perceber três


regiões distintas: o prosencéfalo, mesencéfalo e rombencéfalo. O prosencéfalo diferencia-se em
telencéfalo e diencéfalo. O rombencéfalo diferencia-se em metencéfalo e mielencéfalo. O mesencéfalo
não sofre diferenciação. Dentre as partes do encéfalo listadas a seguir, marque aquela que é formada a
partir do diencéfalo.

A) Cérebro.

B) Hipotálamo.

C) Cerebelo.

D) Ponte.

E) Bulbo.

Resolução desta questão na plataforma.

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