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Transcrição da pregação do Padre Paulo

Ricardo de Azevedo Júnior sobre o Servo


de Deus Guido Schäffer na Páscoa de 2016.

Áudio completo disponível aqui.

Transcrição:
Natália Marques Costa
Esther Silva Costa
Bianca França
Stella Pereira
Édina de Sordi

Revisão:
Beatriz Botan Nomura

Capa e Diagramação:
Tiago Tanaka Múrcia

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C
ontinuamos, então, a nossa reflexão com essa
última palestra, gostaria de tornar bem mais
concreto o projeto da Redenção Aplicada em
nossas vidas (é...). Então, gostaria que vocês
entendessem primeiro a arquitetura, mais ou menos daquilo
que foi traçado nesses dias. Eu disse que nós iremos colocar
o Cristo num candelabro com os apóstolos, precisamos ter
uma vida escondida como a de São José.

E aí, então, eu comecei a traçar a vida escondida,


pessoal, para orientarmos na direção dessas duas coisas
que é a oração e o sacrifício. E nessa coisa da oração e do
sacrifício, na realidade, nós estamos nos configurando a
Paixão de Cristo, e essa é a forma de nós vivermos a Semana
Santa. Mas essa forma de viver a Semana Santa, vivendo
a oração e vivendo o sacrifício, é também o grande
instrumento de nosso apostolado, porque um padre que
vai colocar Cristo num candelabro, ele precisa ter a vida
escondida que dá eficácia a seu apostolado, na oração e no
sacrifício, e também porque isto é a aplicação da Paixão de
Cristo em nossa vida. Ou seja, a via purgativa.

A segunda morada que é, evidentemente,


caracterizada pela nossa oração, decisão... a oração,
a segunda morada são as almas em perfeitíssimas que
começaram pela oração. E a terceira morada que é
caracterizada pelo sacrifício, embora esse sacrifício comece
de forma imperfeita. Santa Teresa ironiza, dizendo assim,
falando das almas que estão nas terceiras moradas: “Não

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se preocupem que essa gente não se mata de sacrifício.
Não se mata de penitência” ou seja, pode com o diretor
espiritual orientar que essas pessoas façam penitências,
não se preocupe que eles não vão se matar, porque ainda
estão muito concentrados em si mesmo, e ainda são muito
egoístas. O que acontece é, porém, que quando a pessoa
começa a trilha da penitência, há um certo ponto, Deus toma
as rédeas e Ele começa a purificar a pessoa, é a noite escura
dos sentidos, a passagem para quarta morada.

Então a terceira morada pode ser muito longa, porque


ela tem duas fases: a primeira fase é a pessoa fazendo
penitência, é a fase mais longa. E a segunda fase, é quando
Deus, então, bate na mesa e diz “Agora chega, vem cá, deixa
eu.. purificar você”. Nós vamos ver como é que isso se dá
também numa vida prática quando nós falarmos do Guido
Schäffer, mas eu quero que vocês entendam isso, ou seja,
que no fundo no fundo, tudo se resume àquilo do Horto das
Oliveiras: oração e sacrifício. Esse é o motor da vida íntima
de um sacerdote.

Quero então apresentar para vocês, a vida de um


seminarista, que é Servo de Deus porque foi dado início ao
processo de beatificação com um decreto de Vaticano, não
foi ainda reconhecido, não foram ainda reconhecidas as
virtudes heróicas, por exemplo, ele ainda não é venerável,
mas já pode ser chamado de Servo de Deus porque teve início
oficial no Vaticano o processo de beatificação.

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Então, um seminarista da Arquidiocese de São Sebastião
do Rio de Janeiro, que morreu no ano de 2009, morreu aos
35 anos de idade. O nome dele é Guido, o sobrenome é,
pronunciando português “Xáfer”, acontece que esse A tem
um trema, em alemão então é “Xéfãr”, não é? Se escreve
S C H Ä F F E R, com trema no A. Em alemão se pronuncia
“Xéfãr”. O Guido, é... está sendo beatificado, claro que tem
todo um marketing em cima da coisa, ‘puxa vida’, um surfista
sendo beatificado, etc. e tal, isso e aquilo, isso atrai os
jovens para coisa, isso que ‘atrai os jovens’ pra mim foi um
repelente, então na verdade (risos), eu tinha ouvido falar dele
mas fiquei... né... sem querer ver a vida dele porque disse:
“Ah isso aí é bobagem”, quando por graça divina, sei lá, resolvi,
finalmente, dar atenção pro Guido e... e de fato parece que
existem sinais claros de santidade. Não sei se é santo, mas
existem sinais.

Mas eu quero começar com uma citação muito...


decepcionante, digamos assim, pra apresentar o Guido. Se
não eu começava apresentando a desgraça logo, o pecado.
Tem três livros sobre o... esse do Manuel Arouca, O Anjo
Surfista; o do padre Jorjão, que era diretor espiritual dele,
Guido: mensageiro do Espírito Santo. Mas o que eu mais
gostei, foi esse daqui, escrito por um beneditino... o Guido
estudou filosofia e teologia num mosteiro de São Bento
no Rio... Guido Schäffer: Apóstolo da Palavra e da Paz, da
Edições Subiaco, comprei desse porque tem abundantes
citações dos diários espirituais dele, ele escrevia a vida de

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oração dele. A gente vê por dentro, não as impressões das
pessoas.

E no diário dele, em agosto de 2003, portanto seis anos


antes de morrer, ele fala da sua vida de pecado no passado,
portanto, nós vamos falar da santidade dele, nós vamos
ver quem foi esse rapaz que Deus quis fazer santo. E digo
isso para que se reconheça aqui o barro miserável do qual
a nossa geração depravada é feita, ou seja, ele não foi um
eleito desde o… os mínimos detalhes de sua história né.., ou
seja, houve claramente uma mudança de vida e conversão.
Vejam, o próprio Guido falando de si, abre aspas: “ao rever
a minha história com Jesus, pude perceber quantos pecados
já cometi. Faltar as missas no domingo, roubar, fornicação,
masturbação, pornografia, bebedeira, droga, mentir, enganar,
cobiçar as coisas alheias, desobedecer meus pais, orgulho,
vaidade, egoísmo. (Tá bem feita a lista?) Diante dessa terrível
realidade que passou, vi o grande amor de Deus por mim.”
Passou. Lá pelas tantas, ele continua no diário um diálogo
com Nossa Senhora. E Nossa Senhora diz para ele “Guido,
vê como Deus te ama e eu também. O Senhor poupou a tua
vida.” ou seja, ele tinha uma vida perdidinha, que ele podia
ter se arrebentado.

“O Senhor poupou a tua vida, só te peço uma coisa…


seja santo.” Nossa Senhora só pede uma coisa pra ele,
simples (risos), coisinha básica, seja santo. Em seguida,
Jesus diz a ele, é a vida de oração dele, Jesus chega e diz
pra ele: “Nada tenho a acrescentar (ao que Nossa Senhora

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disse), apenas Te digo, seja santo pois Eu restaurei a tua
imagem e dignidade de filho de Deus. Eu restaurei a tua
imagem e dignidade de filho de Deus) Seja santo porque Eu
e o Pai somos Santos, resplandecerá a minha luz entre os
povos”.

E aí o Guido conclui a oração dizendo assim: “Senti o


quanto Deus me ama. Ser santo, esta é a minha resposta à
vontade de Deus”.

Aqui nós temos duas coisas muito importantes. As


duas virtudes básicas que nós não podemos perder de vista:
humildade e magnanimidade.

Humildade. Santa Teresa diz: “Meditando porque é que


Deus gostava tanto da humildade me veio a resposta: porque
Deus é a Verdade, e a humildade é andar na Verdade”. Andar
na verdade. O menino não tem a mínima dificuldade de no
momento em que ele está colocando o seu mais elevado
propósito de vida de ser santo, em colocar toda a miséria, o
barro e a desgraça da qual ele saiu. Humildade.

Mas magnanimidade quer dizer o seguinte: há uma


grande, uma vocação enorme. Deus tem para nós uma
vocação de sermos santos, e não menos do que isso. Nós
fomos feitos para andar como águias, não para rastejar como
serpentes. Ele poderia diante do seu pecado, não somente
ser humilde, mas ser pusilânime. Ou seja, ficar lambendo as
próprias feridas e dizer: “Não adianta”. Ficar como cachorro

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voltando pro próprio vômito, e dizer: “Não tem futuro”. Não!
Ele quer ser santo, diante dessa lista pavorosa de pecados
que o joga no abismo da humildade. Ele vê as alturas da
santidade! Magnanimidade.

As duas virtudes que equilibram nossa vida espiritual.


Se você tem magnanimidade, mas esquece da humildade,
você vive vaidoso. Se você tem humildade, mas esquece da
magnanimidade, você deprime e fica nisso mesmo. É uma
tensão constante.

O próprio Jesus tem esta humildade e esta


magnanimidade. Na própria Redençãole, Ele, como
Salvador, não é? Ele diz: “Aprendei de mim que sou manso e
humildade de coração”. De onde vem a humildade de Cristo?
A humildade de Cristo vem do fato de que Ele sabe que o seu
corpo e a sua alma foram feitos do nada. Nós somos criaturas
tiradas do nada. E que Deus sustenta o nosso ser o tempo
todo. É ali que está a humildade de Cristo. “Aprendei de mim
que sou manso e humilde de coração.”

Mas, ao mesmo tempo, uma magnanimidade


extraordinária, ao dizer: “O meu Reino não é deste mundo”.
Ele diz para Pilatos, diz: “Tu dizes, eu sou rei, e para isso
nasci”. Para reinar sobre o Universo. Não é sobre o Império
Romano, é sobre o Universo. Sobre toda a Criação! Os
querubins e serafins.

Quem foi Guido Schäffer? Então, veja só. O Guido

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Schäffer, como eu falei, é um rapaz no Rio de Janeiro. Ele
viveu uma vida inicialmente normal e medíocre. Não preciso
apresentar mais detalhes da vida pregressa dele, ele mesmo
apresentou a vida dele. Acontece que esse rapaz viveu uma
experiência de conversão na Renovação Carismática. E não
somente viveu essa experiência de conversão na Renovação
Carismática mas também encontrou guias espirituais que o
levassem para uma oração mais profunda.

Ele foi orientado por um padre jesuíta para fazer os


exercícios de Santo Inácio, etc., isso e aquilo. Ou seja, Deus foi
conduzindo ele para uma vida de oração Então, vejam, houve
a conversão dele com a experiência espiritual, mas ele não
parou por aí. Ele não ficou de orações públicas. Ele passou
para orações íntimas. Isso é claramente Segunda Morada.
E nestas orações íntimas, nessa vida de oração íntima, por
exemplo, ele tinha, quando ele já era seminarista... Ele foi
um seminarista meio especial, ele fez o curso de filosofia e
teologia fora do seminário, atuando como médico, eu explico
daqui a pouco. Mas quando ele era seminarista, nas férias
ele ia para o sítio dos pais em Nova Friburgo, e lá ele passava
um período de oração intenso. Quando ele ia à Missa diária
comungar, ele ficava em ação de graças até meio-dia. Ele ia
para a Missa das sete e ficava em ação de graças até meio-
dia. Essa é a programação de férias do Guido Schäffer.

Quando ele já estava bem progredido no caminho dele,


já estava na teologia, já, os pais viam a chuva torrencial, os
pais foram buscar o Guido. “‘Tá’ chovendo, coitado, como ele

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vai voltar nessa chuva?”. Encontraram o Guido andando no
meio da chuva. Quando ele entrou no carro, ele estava seco.
“Meu filho, você não ‘tá’ molhado?”. “É, mamãe. A chuva ia na
minha frente e ia atrás de mim”.

Tudo bem. Voltemos à coisa. Vamos lá pra... Isso já é


bem pra frente, vamos voltar lá atrás. O rapaz rezava. E você
vê nos diários espirituais que o rapaz rezava. Eu não estou
falando de constância, perseverança! Em oração diária!
Orações longas, orações generosas!

Por exemplo: quando ele já era seminarista, estava


na filosofia... Citação do diário espiritual dele: “Senti uma
desolação por causa dos inúmeros trabalhos e provas que
terei essa semana. Fui tentado pela impaciência a terminar
minha oração antes do tempo”.

“Fui tentado”, mas ele não terminou. O sujeito fazia


filosofia, era médico, tinha um grupo de oração no qual ele
pregava, saía pregando em vários lugares. Depois pegava
o pessoal do grupo de oração, jovens do grupo de oração
e levava pra ir atender os mendigos e pobres na rua. Tinha
uma vida ativíssima! No meio dessas atividades numerosas,
“fui tentado a terminar minha oração antes do tempo, porém
o Senhor veio ao meu auxílio e disse: ‘Não te preocupes. Eu
conduzo a tua vida. Deves fazer uma coisas de cada vez, e,
por isso, momento de rezar, é de rezar; de estudar, estudar;
e assim por diante’. Senhor eu te peço perdão pela minha
inconstância, por me ter preocupado e não ter entrego a Ti

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os meus problemas. Mas sei que estendes a mão aos que te
buscam. Assim, dá-me a graça de permanecer no teu amor”.

Isto é um homem lutando para ficar na segunda


morada, por quê? Porque quem começou a ter a oração trate
de perseverar nela porque vem a tentação, Santa Tereza diz
com toda clareza que “os demônios do inferno irão se precipitar
em cima da alma que decidir fazer a oração”, por quê? Porque
sabe, que uma alma que decide caminhar no caminho da
perfeição não irá para o céu sozinha, ela vai levar consigo
outros, esse é o princípio da paternidade espiritual, quando
o sujeito decide que vai rezar ele tornou-se pai espiritual de
uma multidão, ele vai levar consigo muita gente pro céu. E
por isso, o diabo que entende as coisas, ao contrário de nós,
que achamos que é pela nossa muita agitação de “Martas”,
Marta, Marta, inquietas e te agitas, nós achamos que é pela
nossa agitação que nós iremos salvar o mundo, o demônio
sabe perfeitamente, quando o cara se agita o demônio não
tá nem aí, quando o cara se põe de joelhos o inferno se
desengata todas as desgraças em cima do infeliz porque o
demônio está vendo o perigo.

Guido, né, explica numa entrevista que ele deu na Rádio


Catedral: “Eu penso quantas pessoas precisam aprender a ter
esse encontro definitivo, não ter medo da morte, meu coração
está pronto, meu Deus, muitas pessoas se deprimem porque
falta a base, falta o chão, falta aquilo pelo qual eu sou forte,
não ter medo de nossa pequenez e de nossa fragilidade, minha
alma está prostrada na poeira, Vossa Palavra me devolve a

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minha vida”. De um seminarista dando entrevista numa rádio,
isso aqui não é tirado de nenhum Tratado de Oração de São
Francisco de Sales, de Santo Inácio, de Santo Afonso de
Ligório… é um moleque dando entrevista na rádio.

Aí aconteceu uma coisa definitiva na vida dele, ele onde,


no dia treze de novembro de dois mil, ele estava lendo o livro
Irmão de Assis do Inácio Larranaga, naquele dia, ele se decidiu
por duas coisas, “vou ser padre” e decidiu pela pobreza, ele
diz assim: “Lendo aquele livro, o que mais me impressionava
era o despojamento e amor de Francisco para com os pobres
e para com todos, e em segundo passo além da despojamento
na pobreza, a liberdade para pregar o Evangelho, eu queria
ser livre para pregar o evangelho!”. Ser pobre para ser livre,
desapegar-se de tudo para pregar o Evangelho. E de fato o
apelido do Guido no Rio de Janeiro é “o Francisco de Assis
carioca”, por quê? Porque ele decidiu ser padre, não é? É,
esse processo de decidir ser padre aconteceu e aí ele foi
numa viagem para a Europa no Ano Santo, no ano dois mil,
depois passou em Paris no Santuário da Medalha Milagrosa,
depois foi para Lourdes, depois foi para Fátima e então depois
comunicou aos pais que ele seria padre.

Aí ele se apresentou pro bispo Dom Romer, que era o


bispo responsável do seminário do Rio de Janeiro e disse que
ele queria ser padre, Dom Romer disse “não, mas você não vai
entrar no seminário”, por quê? Porque o Guido, que já estava
em processo de conversão, essa é a história da vocação,
mas a conversão dele começou lá atrás, ele vivia uma vida

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de profunda doação aos pobres como médico. Então o Dom
Romer sabiamente disse “você não vai entrar no seminário,
você vai continuar, você vai estudar filosofia no mosteiro
de São Bento e vai continuar sendo médico”, e o que é que
o Guido estava fazendo como médico? Aquilo que eu contei
pra vocês na outra palestra, ele um belo dia tava rezando o
episódio do jovem rico, disse que ele não tinha nada pra dar
pra Jesus, não tinha nada no nome dele, Jesus vai e mostra
no nome dele o diploma e, ele então começou a ser padre
para os pobres, encontrou as Irmãzinhas Missionárias da
Caridade da Madre Tereza de Calcutá, começou a trabalhar
e atender os pobres das irmãs, juntou o grupo de amigos do
grupo de oração fizeram um mutirão pra fazer um pequeno
consultório pra poder atender os doentes.

E ali o Guido então começou a ser médico de graça,


tanto na Santa Casa, atendendo lá o pavilhão dos mais pobres,
como nas Irmãs Missionárias da Caridade, sendo médico,
mas, não era médico simplesmente porque ele atendia
as pessoas e cuidava dos corpos, ele cuidava das almas,
ele não conseguia atender nenhum paciente sem falar de
Deus, muitos, inúmeros pacientes saíam do seu consultório
com lágrimas nos olhos porque ele os atendia e pregava o
Evangelho, usava os seus dons carismáticos, que ele tinha
o dom, a palavra de Ciência para o bem dos outros. Tem o
episódio de ele atender um doente e dizer “o senhor precisa
se confessar” disse ele “não doutor, eu não preciso não, não
tenho pecado” “claro que tem, tal pecado que cê cometeu

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assim…” e começou a narrar os pecados da pessoa, o sujeito
pediu confissão, poucos dias depois recebeu alta, curado.
Pessoas que ele impunha as mãos e também eram curadas,
mas também outras pessoas que, doentes terminais, ele se
preocupava de saber se a pessoa não tinha sido batizada, e
então ele cuidava da preparação da pessoa pessoalmente,
para que fosse batizada, recebesse a crisma, primeira
comunhão. Um dia ele chega em casa e ele fala para a mãe
feliz da vida que um paciente que ele tinha preparado pra
primeira comunhão, crisma, batismo, primeira comunhão e
crisma tinha morrido em amizade com Deus.

(...) tinha morrido na amizade com Deus. Se preocupava


pela salvação das almas.

Então vejam aqui, meus queridos, como Deus sabe as


vocações, ou seja, nós não somos monjas contemplativas
como as carmelitas de Santa Teresa d’ Ávila, nós temos uma
vida ativa, portanto, a nossa penitência maior - terceira morada
- é o serviço do irmão. É, você irá passar pela purificação
espiritual e chegar na via iluminativa da santidade, se você
incessantemente viver para servir o irmão, esquecendo de
você mesmo, o tempo todo. Você tem que esquecer que você
existe e viver para o outro. Me desculpe dizer, mas eu suspeito
que o Guido Schäffer não teria sido santo; ele teria morrido
sem ser santo, se ele tivesse entrado para o seminário, porque
o seminário iria acomodá-lo para que ele não vivesse para o
irmão. O que fez esse menino ficar santo foram as duas coisas:
a vida de oração e o sacrifício constante, diário e incessante

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de servir a Deus no irmão; de lutar pelo bem físico, corporal
dos pobres, mas tendo em vista as almas imortais que ali
estavam e a salvação eterna daquelas pessoas. Essa entrega
constante, infatigável, incessante que fazia com que ele se
sentisse, muitas vezes, dilacerado pelo excesso de trabalho
e de doação. Ele tinha que estudar, ele tinha que rezar e ele
tinha que servir o irmão. Ele no meio dessa atividade toda,
em que ele era médico voluntário, estudante de filosofia e de
teologia, pregador nos grupos de oração, organizador de um
grupo de oração em que ele levava as pessoas para servir os
pobres o tempo todo. Nesse serviço incessante, ele alcançou
a purificação da sua alma porque ele esqueceu de si mesmo.
Guido Schäffer entrou no deserto e passou rapidamente os
40 anos necessários para cruzar o deserto até matar o último
israelita que tinha saído do Egito e que tinha sido escravo
do demônio, quando morreu o último israelita, ele entrou na
Terra Prometida.

Existem inúmeros testemunhos que dizem que depois


que o Guido saia da oração, ele saia com o rosto transfigurado;
luminoso. Que ele transmitia paz, onde quer que ele andava.
Um dia muito agitado do hospital, as pessoas diziam: “Se o
doutor Guido estivesse aqui, tudo estaria diferente”. Porque
ele transmitia paz; dava segurança às pessoas.

Até que um dia, ele entrou no seminário. Estava


no terceiro ano de teologia. O Dom Eusébio Scheid tinha
decidido que ele ficaria somente dois anos finais. Ele entrou
no seminário e, é evidente que no seminário ele viveu a sua

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última purificação, vivendo e sofrendo debaixo da inveja
dos irmãos, porque ele era o “seminaristazinho especial,
queridinho do Bispo” que não tinha passado pelo seminário
e que ia ser Padre só com dois anos de seminário.

Testemunho das Missionárias da Caridade: “Sua


única preocupação era salvar as almas”. Meus queridos, nós
estamos falando de um médico. Não estamos falando de
um Padre. Vocês estão entendendo de quem nós estamos
falando? Do doutor Guido. “Sua única preocupação era salvar
as almas; levar todos ao encontro pessoal com Cristo, e para
isso não media esforços. De fato, toda a sua conversa era com
Ele e à Ele direcionada.” Ele com “E” maiúsculo! “Não perdia
uma oportunidade de proclamá-lo, fosse com palavras ou
com o próprio exemplo. Quando atendia os irmãos de rua,
não só zelava pela saúde do corpo, mas sobretudo, da alma.
A nenhum deles deixou de falar de Cristo. Muitos deles saiam
do consultório em lágrimas e profundamente tocados. Orava
por e com cada um, e convidava a receber os sacramentos
como fonte de graça e comunhão com Deus. Muitas vezes
usava dos carismas que Deus o agraciava, presenciei várias
vezes, sobretudo, o carisma da palavra de ciência. A todos
tratava com delicadeza, paciência e compreensão. Nunca o vi
irritado ou impaciente com ninguém, mesmo quando alguém
vinha embriagado ou sob o efeito de drogas e procurava
confusão. Sempre tinha tempo para cada um. O seu exemplo
me edificava e me corrigia”.

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Um dia, em todas essas experiências de oração, o
Guido que já estava no quarto ano de teologia, às portas
do sacerdócio, entra no carro de uma amiga que queria dar
carona para ele e levar até onde os pais dele se encontravam.
Ele entra luminoso, cheio de alegria e diz: “Fulana, Jesus me
visitou”; “O que foi?”; “Eu tive um sonho. E Jesus... me disse que
estava gostando muito da minha vida e me deu um presente
estranho.”; “O que foi que Ele te deu no sonho?”; “Uma prancha
de surf”. Dias depois, o Guido vai com um grupo de amigos
surfar porque era despedida de solteiro de um deles que ia
casar. Os amigos vão lá pegar onda; o Guido sofre um acidente,
a prancha de surf bate na cabeça dele, ele desmaia na água e
morre afogado.

Jesus levou esse rapaz com 35 anos para dizer a você


seminarista: Não espere ser Padre para ser santo. Você que
fica dizendo: “Quando eu for Padre, eu serei santo”.

Ele era um menino bonito, rico e saudável. Tinha tudo...


para viver um sonho mundano, mas ele virou suas costas
para o sonho mundano e para a vida de pecado que ele teve
e fez do serviço aos pobres para salvar os pobres. Você está
entendendo o que que é o serviço aos pobres? Para dar a eles
a maior riqueza que é a amizade com Deus. Porque existe
uma pobreza mais profunda do que a pobreza material: a
pobreza da alma. (...)

De nada adianta encher a barriga de quem vai depois


arder no inferno. Esse menino se entregou ao serviço dos

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irmãos para nos dizer a nós, o que é que santifica um padre,
um seminarista: esqueça que você existe, viva o tempo todo
para ser incomodado pelos outros, você não se pertence, “eu
não sou meu, eu não me pertenço”. Exorcise essa preguiça
que está dentro de você. Quando você recebe a comunhão,
você recebe o Corpo de Cristo; este Corpo de Cristo, Ele é
casto, portanto, o apetite da concupiscência, esse Corpo de
Cristo Ele é forte, portanto o apetite da ira, bem direcionado,
isso quer dizer o seguinte, a força do Corpo de Cristo, que
não era preguiçoso, não era indolente; a pureza do Corpo de
Cristo. Você tem na comunhão, todos os dias, o Corpo que
pode sanar o seu corpo, o Médico que pode curar as suas
feridas.

A investigação da Igreja irá dizer se Guido Schäffer


era ou não era santo. Se estas coisas que estão aqui
correspondem à verdade ou não, mas se elas corresponderem
à verdade, eu não tenho dúvidas de que esse rapaz era santo.
Por quê? Porque eu vi ele trilhar um caminho que fez com
que ele deixasse de ser um principiante e começasse a ser
um progressivo. Depois, que nível que ele alcançou, se foi a
quarta ou a quinta morada, isso eu não sei dizer. Eu não tenho
os detalhes suficientes. Mas se isso que tá aqui é verdade, é
o que é, ele, sem dúvida nenhuma, matou todos os israelitas
que saíram do Egito, ou seja, nós quando nos convertemos
pela primeira vez, somos Israel, que sai do Egito, passando
pelo Mar Vermelho e nos livramos da escravidão do faraó,
que é o demônio. Mas, infelizmente, esse povo que foi liberto

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do demônio ainda não está liberto de si mesmo, e todas as
paixões desordenadas estão ainda dentro de nós e é por isso
que quarenta anos de deserto foram necessários para que
finalmente eles passassem por uma outra realidade, que é o
Jordão, né, para finalmente entrar na Terra Prometida. Por
que é que precisa matar, todos precisam morrer, inclusive
Moisés, antes de entrar na Terra Prometida?

Porque é necessário que todas as paixões


desordenadas morram. Como matá-las? Oração e sacrifício.
E estudará ao seu ministério sacerdotal uma eficácia
extraordinária. A oração, típica da segunda morada; o
sacrifício, típico da terceira. (As duas) os dois remos onde
nós, generosamente, nos configuramos a Cristo. “Que tipo
de oração?”. A oração íntima, pessoal, generosa. Comece
com meia hora, aumente pra uma hora, chegue à uma hora
e meia, quando você chegar à duas horas, por enquanto tá
bom, depois quem sabe precisa aumentar.

Falando em duas horas de oração íntima, além disso,


tem Liturgia das Horas, o terço e a missa, pelo menos. “E
que penitência, que sacrifício?” A penitência do irmão. Nós
somos de vida ativa. Claro que você pode fazer penitência,
claro que você pode fazer um jejum moderado, claro que
você pode dormir no chão, claro que você pode aplicar
disciplina com moderação, claro que você pode usar o silício
com moderação, claro que você pode fazer todo o tipo de
penitência, mas a penitência maior é você esquecer que
você existe, para se deixar incomodar pelo irmão, em tudo

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e por tudo, o tempo todo, ser devorado pelos irmãos, ser
devorado pelos irmãos. Tem gente que acha que está nas
altas moradas, porque quando foi rezar Deus lhe deu alguma
espécie de experiência, de contemplação infusa... deixa eu
tirar essa ilusão da sua cabeça tola.

Deus pode conceder a contemplação infusa à uma alma


que está na segunda morada. O que mostra, - vai lá, leia os
dois capítulos da terceira morada de Santa Teresa - o que
mostra em que morada você está é o amor, é a prática, é a vida
do dia a dia. Você não tá em porcaria de morada nenhuma,
sendo um egoísta safado que não serve a ninguém. Santa
Teresa começa seu “Caminho de Perfeição”, as irmãs todas
esperando que ela fale de oração, de êxtase místico, de não
sei o que, de não sei o que , e o que que ela nos ensina?

Ensina humildade, caridade fraterna e desapego, e


obediência além do mais; isso na vida do Carmelo, pra nós
que somos de vida ativa, ser do outro, ser devorado pelos
irmãos. Você tem que ser o Corpo de Cristo que é entregue.
Você só será sacerdote digno do altar quando você puder
dizer “isto é meu corpo que é dado por vós, tomai e comei”,
“podem devorar o meu corpo, podem devorar o meu corpo,
estraçalhai e não deixai nem os ossos”, aí teremos alcançado
alguma coisa. Por isso uma coisa bem concreta, bem objetiva.
“E quem é o meu próximo?” É fácil se dedicar para a menininha
bonita e cheirosa da pastoral, difícil é se deixar devorar
por esse macho barbado, feio e ridículo que tá do teu lado.
Peçamos essa graça. Muitas graças têm sido concedidas lá

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no túmulo do Guido Schäffer, na Igreja Nossa Senhora da Paz
em Ipanema. Povo vai lá, reza e os milagres acontecem. Que
bom seria se ele obtivesse do coração de Deus o milagre da
nossa santificação.

Ave Maria, cheia de graça,


o Senhor é convosco,
bendita sois vós entre as mulheres
e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.

Santa Maria, Mãe de Deus,


rogai por nós pecadores,
agora e na hora da nossa morte.

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