Você está na página 1de 20

OS PROFESSORES INDÍGENAS PITAGUARY

João Paulo da Silva Lima


Ana Cláudia Araújo Lima
Magna Ferreira Costa
Maria Madalena Braga da Silva

APRESENTAM:
“Contando e Cantando a Cultura Pitaguary”
APRESENTAÇÃO
O Povo Indígena Pitaguary, representado pelas autoridades máximas Cacique
Daniel ( In Memória) e Pajé Barbosa e nossas lideranças tradicionais são os
verdadeiros autores desse material aqui apresentado. Pois a partir do ativismo e
exemplo de nossos líderes, somado aos nossos esforços podemos hoje de maneira
significativa e organizada materializar o fruto dessa luta, por conseguinte o direito de
ser e existir. Destacamos o protagonismo responsável e iniciativa de criação de : João
Paulo Pitaguary, Madalena Pitaguary, Cláudia Pitaguary, Magna Pitaguary ambos
estudantes da Licenciatura Intercultural Indígena e lideranças de base do Povo Indígena
Pitaguary.

Este trabalho é resultado final de conclusão do curso de Licenciatura


Intercultural Indígena – LII PITAKAJÁ e das parcerias entre, UFC Universidade Federal do
Ceará, CDPDH – Centro de Defesa e Promoção de Direitos Humanos da Arquidiocese de
Fortaleza representado pelo Pe. Emílio e Coordenação Administrativa Kellany, Lucas
Guerra, e Lurdes. E SESC na pessoa do Coordenador Institucional Paulo Leitão que
possibilitou a impressão de 200 cópias do referido material.

Quem usar estes materiais deve citar o nome completo do livro e dar créditos a
seus autores. Os indígenas que quiserem usar os conteúdos deste livro com fins
educacionais, fiquem à vontade!
“Contando e Cantando a Cultura Pitaguary”

Somos de tantas nações Potiguara, Tabajara, Jucá, Tupinambá,


Tremembé, Gavião, Kariri, Paiacu, e Kanindé,... Carregamos conosco a
ancestralidade que resistiu aos mais severos castigos do colonizador. Tiraram
nossa língua, e se apropriaram dos nossos territórios ancestrais. Incutiram em
nós a ideologia do pecado, e fomos domados através da catequese dos
jesuítas. Nos cobriram com tecidos finos, fazendo-nos envergonhar-nos de
nossas palhas e penas.

Aos poucos fomos esquecendo de quem realmente éramos... Sobretudo


para nós da região Nordeste onde o processo de colonização foi extremamente
cruel. Não bastando o genocídio, ainda fomos negados por meio de um decreto
provincial , que dava conta da extinção dos nativos do Ceará.

Mas graças aos nossos lideres espirituais, nossos Pajés, que nos
possibilitaram reviver novamente essa memória ancestral, por meio dos nossos
rituais. E através dos cantos, toadas e das narrativas dos nossos troncos
velhos (anciões) conseguimos reafirmar a nossa cultura e identidade.

Aos poucos fomos conseguindo materializar a nossa cultura e


espiritualidade, pois os cantos expressam os mais secretos dos sentimentos,
que são próprios da alma. Por meio da musicalidade cada povo consegue
contar a sua história, seja de luta ou seus mitos e lendas.

Para nós Pitaguary o canto está intimamente ligado a nossa cosmologia,


e aos processos pedagógicos, sociais, políticos e identitários. Além de serem
canais de fortalecimento da luta, e pelos direitos coletivos.

Embora não tenhamos mais a língua ancestral, conseguimos enriquecer


nosso ritual com alguns cantos na língua Tupi dos quais conhecemos as letras.
E outros que são cantados por nossos encantados nas pajelanças dos quais
não sabemos a tradução.

Os cantos Indígenas Pitaguary, remeti-nos aos mais variados sentidos


podendo expressar as nossas alegrias e tristezas. Além de serem usados
pedagogicamente pois fazem menção a fatos históricos, espaço geográfico, e
ao cotidiano da aldeia e animais.

Outra característica dos cantos indígenas Pitaguary, são as imitações


dos animais nativos das nossas matas. É comum em nossos rituais serem
imitados sons de pássaros, macacos e gato do mato. Somos também
detentores dos saberes e mistérios escondidos na Jurema, de onde tiramos
força espiritual para lutar pelos nossos direitos, bem como defender o nosso
território. Utilizamos suas folhas, raízes, caule, flores e sementes, fabricamos a
bebida sagrada “Jurema” servida aos nossos líderes e guerreiros nas nossas
cerimônias e rituais próprios de cada festividade.

Assim consideramos cada pé de Jurema um portal, que dá acesso aos


reinos da encantaria, onde habitam muitos reis, rainhas e princesas . A Jurema
sagrada em forma de bebida tem propriedades etnogenea, ou seja expandi o
campo espiritual da visão, é comum ouvirmos relatos de pessoas que ao
enjerirem a bebida tem visões de animais, pinturas e dos mais variados
encantados.

A princípio os cantos indígenas embalavam o sono dos nossos


curumins. Depois tornou-se uma brincadeira de criança em torno do pé de
torém, e hoje os cantos indígenas Pitaguary, estão associados aos processos
educacionais e pedagógicos das nossas escolas. Ganharam outros formatos e
sentidos, impulsionando o ensino e aprendizagem, e fortalecendo nossos
próprios processos de educação escolar indígena.

Através da interdisciplinaridade podemos agregar saberes ancestrais


aos saberes convencionais, possibilitando assim a efetivação do direito de
gerenciar, garantir e promover nossos saberes tradicionais.

Os cantos indígenas Pitaguary demonstram a resistência do nosso povo,


que não se negou por covardia, mas por estratégica para continuar vivo. Nem
as correntes da grande mangueira do rio, nem o quartinho apertado “Cafuá”
conseguiu conter os nossos, que resistiram e emergiram muito mais fortes no
momento oportuno.
Trata-se uma coletânea de músicas indígenas, criadas pelas nossas lideranças
tradicionais e por nós no decorrer da Licenciatura Intercultural Indígena.
Fazendo este livro com CD “Contando e Cantando a Cultura Pitaguary”
estamos colaborando na preservação dos nossos Patrimônios Culturais e
imateriais. Estamos, inclusive, partilhando material didático específico que em
muito contribuirá para o ensino, necessários as nossas escolas indígenas.
João Paulo Lima – Professor Indígena Pitaguary.
SUMÁRIO

ORIGEM DO POVO PITAGUARY -----------------------------------------------------------------

A ALDEIA ---------------------------------------------------------------------------------------------------

ORGANIZAÇÃO POLÍTICA PITAGUARY -----------------------------------------------------------------

DANÇA CIRCULAR --------------------------------------------------------------------------------------

O QUE O CANTO TRAZ ---------------------------------------------------------------------------------

INSTRUMENTOS MUSICAIS USADOS --------------------------------------------------------------

A ESCOLA -------------------------------------------------------------------------------------------------

EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA PITAGUARY----------------------------------------------------

A GENTE APRENDE FAZENDO JUNTO

A IMPORTÂNCIA DO TORÉ ---------------------------------------------------------------------------

AS PINTURAS CORPORAIS PITAGUARY -----------------------------------------------------------

O ARTESANTO PITAGUARY --------------------------------------------------------------------------

COMO TRABALHAR ESSES TORÉ NAS SALAS DE AULA - SUGESTÕES DIDÁTICAS

PALAVRAS EM TUPI E TRADUÇÕES ---------------------------------------------------------------


A ORIGEM DO POVO PITAGUARY

Provenientes dos Potiguara dos aldeamentos de Porangaba e Paupina.


Hoje atuais Parangaba e Messejana ambos bairros de Fortaleza. Com a
colonização e catequese dos padres Jesuítas, nosso Povo migrou para os
Municípios de Maranguape, Maracanaú e Pacatuba onde fundaram os seus
aldeamentos com força de carta de seis Marias. O nome Potiguara sofreu
variação linguística ao longo do tempo. Portanto o significado Pitaguary está
relacionado ao ambiente montanhoso da aldeia, e a hábitos alimentares dos
antigos comerem camarão do tipo aratanha.

A ALDEIA

Nossa Tribo está localizada ao sopé da serra dos Municípios de


Maracanaú e Pacatuba, com uma população de 4.300 indígenas vivendo em
quatro aldeias: Olho Dágua, Horto, Santo Antônio e Munguba. composta de
Pajé, e lideranças tradicionais. Através do esforço de nossas lideranças
tradicionais, conseguimos demarcar uma área de 1735 hectares, dividida em
áreas coletivas de plantio, moradia, e as matas intocáveis destinadas aos
nossos rituais. Possuímos três Escolas indígenas Chuí, Ita-Ára, e Escola de
Educação Básica do Povo Pitaguary. Contamos ainda com carros de urgência
e emergência, Polo de Saúde Indígena, CRÁS Indígena, Postos de saúde nas
comunidades.

ORGANIZAÇÃO POLÍTICA PITAGUARY


Nossa Organização Política, era composta pela figura atuante do
Cacique Daniel. Mas com sua morte em 18 de Abril de 2016, o Povo Pitaguary
ficou sem a figura emblemática do Cacique. E o Pajé Barbosa tornou-se a
representação máxima do Povo Pitaguary, com apoio das demais lideranças. O
modo de organização política interna é tradicional consiste na junção de ideias
de todos que compõem o grupo de lideranças com aprovação do Cacique e do
Pajé. Nunca foi cultural e muito menos tradicional a forma de escolha do
Cacique e Pajé, pois estas funções requer dos guerreiros habilidade,
competência específica em ambas funções. Exige dos guerreiros integridade,
carisma e aptidão. Sendo que não seja necessariamente obrigatória
hereditariedade para as funções, pois o que ira contar será o conhecimento
sobre a história e cultura do Povo no caso para cacique, e conhecimentos,
praticas espirituais para Pajé. O Cacique é consagrado pelo Pajé da Aldeia, e
os dois em igualdade irão conduzir o povo de maneira democrática visando o
bem estar de todos. Dentro do Povo Pitaguary os dois maiores poderes
Cacique e Pajé estão em um patamar de igualdade, e não existe o maior ou
menor. São autoridades legitimadas pelo movimento local, e com visibilidade
no movimento estadual. Na organização interna, temos a Organização Mãe
Terra Pitaguary, que é a entidade representativa do Povo como todo, contando
com representatividade de todas as comunidades Pitaguary. A Organização
Mãe Terra foi criada pelo Povo Indígena Pitaguary em uma Assembléia
extraordinária realizada no dia 09 de Maio de 2012, sendo eleita como
Coordenadora a liderança Maria Madalena e Vice Coordenadora Ana Clécia.
Sendo esta, a única organização atuante na T.I Pitaguary com o poder de
representar o povo em qualquer instância. Além dos conselhos e associações
de juventude, agricultores e de mulheres que representam os respectivos
seguimentos.

A figura do Cacique

O termo cacique foi criado pelos Portugueses e espanhóis na época das


grandes navegações, para fazer referência aos chefes indígenas. Com a
criação do SERVIÇO DE PROTEÇÃO AO ÍNDIOS - SPI a nomenclatura
“Cacique” ganha visibilidade entre os povos indígenas. As funções do cacique
na aldeia são estruturadas por cunho político, ou seja, tais funções são de
suma importância no que diz respeito à organização da aldeia. Dentre as
funções de responsabilidade do cacique estão, a proteção do território,
conhecer a história e a cultura, resolver conflitos internos com imparcialidade,
organizar a caça que alimentará a comunidade.
No Povo Pitaguary a hereditariedade na nomeação desse líder não é de
caráter obrigatório. A partir do momento em que um cacique falece, e tem um
filho ou filha legitimo que foi aprendiz fiel e tornou-se detentor de boa parte dos
conhecimentos do pai até o dia de seu falecimento, é nomeado cacique
levando-se conta todos os atributos necessários a função. Caso o cacique não
tenha filho, ou esse filho não esteva apto e nem tenha sido escolhido pelos
sábios e pelo povo para exercer tal papel, as lideranças e a comunidade
podem constituir um indígena atuante na luta, que na visão dessas pessoas
tem capacidade e sabedoria suficiente para ser o cacique da aldeia.
Trabalho do Pajé

O Pajé ou Paiê na língua Tupi quer dizer Pai, é uma figura de extrema
importância dentro das tribos indígenas. Detentor de muitos conhecimentos e
da história da tribo, ele é a liderança mais experiente e sua função sempre
existiu em muitas sociedades. Ele é responsável por passar a diante a cultura
da aldeia. Por viver em constante conexão com o sagrado, o Pajé tem a função
de curandeiro, Juíz e Reitor das matas. Seus rituais servem como canal
receptor de encantados que veem fazer processos de cura. Tais rituais são
complementados com ervas e plantas medicinais da própria aldeia, embalados
à cânticos tradicionais onde se é permitido apenas a participação de indígenas.
Tal líder espiritual é sempre muito respeitado e procurado para promover essas
curas, as quais, os índios acreditam e confiam nesse ritual tão sagrado
denominado de pajelança, catiço, catimbó, Jurema ou Ouricuri.

As lideranças Tradicionais

As lideranças tem papel fundamental nas aldeias, principalmente nas


tomadas de decisões. As lideranças são representantes das aldeias,
responsáveis por levar a voz de seu povo para outros lugares. São detentores
de sabres tradicionais, artesanais e espirituais. Atuam lado à lado com a
comunidade trabalhando em prol do bem comum, buscando no que diz respeito
ao desenvolvimento social e cultural de seu povo. Dentro da aldeia, diálogos
através das reuniões são constantes para a realização das tomadas de
decisões. Tal encontro é de suma importância para o fortalecimento da unidade
da aldeia, haja visto a opinião de cada um é de grande relevância para as
decisões da comunidade, sendo um momento democrático participativo e
integrador.
Ana Cláudia Araújo Lima – Professora Indígena Pitaguary

DANÇA CIRCULAR
O Toré no Ceará teve origem em torno de um pé de torem, onde os
curumins dançavam em volta dele. O povo Tremembé ainda hoje mantém o
nome original Torem, por se tratar de um grupo de tronco étnico Macro-Ge e
que se diferenciam dos outros grupos que são de tronco étnico Tupi. Assim o
toré tem vários sentidos, podem significar uma brincadeira de criança, podem
expressar lutas e alegrias. É uma dança circular que lembra a forma
arredondada da lua, do sol e da terra. Onde os dançantes se ordenam em
sentido horário um atrás do outro, criando uma circularidade que lhes é
propício unificar os pensamentos e desejos. Representa também o ciclo
natural de vida e morte, embora que para nós não haja morte, pois
continuaremos vivos em outro plano. Assim a dança têm essa característica de
movimento que marca a tradição que será continuada no futuro por outros
índios da Etnia.
Dançamos e cantamos por prazer, lazer e espiritualidade.

O QUE O CANTO TRAZ

Para nós os cantos indígenas Pitaguary , têm relação direta com os


fenômenos culturais, sociais, políticos e espirituais do nosso Povo. Onde
dançamos para agradecer, celebrar, ou manifestar algo. Os cantos ganham
cunho espiritual nas nossas pajelanças e rituais, onde nossos encantados se
manifestam e podem conosco interagir. Cantamos e dançamos para atrair
coisas boas, reverenciar nossa ancestralidade e agradecer a boa colheita.
Nossos cantos são interrompidos, e o toque do tambor sessado quando
temos a perda de algum guerreiro ou ente querido, todas as aldeias obedecem
o pedido do pajé. Nesse período não tocamos tambor, e nem dançamos em
respeito. E também para não atrair os maus espíritos. Pois nossos cantos na
verdade são a reprodução da própria natureza que se une ao nosso humano,
tornando-nos seres divinos.

INSTRUMENTOS MUSICAIS USADOS

Não diferente de outras sociedades e povos. O Povo Pitaguary também


têm seus instrumentos próprios para acompanhar os cantos indígenas. No
inicio da luta usávamos apenas maracas, feitas de coité ou coco, com o passar
do tempo por inspiração dos nossos encantados, e por meio do Pajé da nossa
Aldeia, foi introduzido o tambor aos nossos rituais, feito com tronco de árvore e
couro de corpo. Tornando-o ritual mais intenso.

A ESCOLA

Possuímos três prédios escolares em bom estado de conservação, onde


é mantido e feito o repasse cultural do nosso povo aos nossos alunos índios.
Conquista essa das lideranças tradicionais que buscaram junto ao Governo
Estadual, Municipal, e Federal efetivação do direito ao ensino escolar
diferenciado.
Temos a Escola de Educação Básica do Povo Pitaguary na Aldeia Santo
Antônio, o nome faz homenagem a Etnia Pitaguary. A Escola Indígena Chuí na
Aldeia Olho D’água, do qual o nome significa Abelha típica das nossas matas, e
a Escola Ita-Ara em Munguba Município de Pacatuba, que significa Pedra da
Luz fazendo alusão a uma lenda da respectiva aldeia.
Além dos prédios, possuímos outros locais que também são extensão das
salas de aula, e que estão inseridos aos nossos processos educacionais.
Como a casa das nossas lideranças, ocas comunitárias, locais de memória e
tradição, trilhas nas matas e serras, rios e açude.

EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA PITAGUARY

Lutar para educar, essa era a visão dos nossos líderes no início do
movimento indígena Pitaguary. Garantir o direito a terra e por conseguinte
todos os outros direitos. A educação escolar Indígena Pitaguary nasceu muito
tímida, ainda no ano de 1999 permeada de muitas dificuldades e incertezas.
Mas objetivada pelo mais sublimes sentimentos de determinação e força de
vontade. A princípio em baixo dos pés de mangueiras, e logo depois em um
prédio construído com recursos de doações e mão de obra da comunidade.
Recebeu o nome de Cuaba que significa conhecimento onde os nossos
saberes tradicionais eram repassados aos nossos curumins. Passados três
anos sem recursos para pagar os professores, onde os mesmos ensinavam por
vocação e amor pausa, resolvemos tomar posse de um prédio escolar
pertencente a Prefeitura de Maracanaú, onde ensinavam no sistema de
modalidade regular, nessa época a educação escolar indígena era algo ainda
pouco mencionada e não tinha tanta visibilidade. Conseguido o prédio
passamos a administra-lo com professores e funcionários índios pertencentes
ao próprio povo. E começamos a trajetória de organizar o projeto politico
pedagógico do qual estivessem garantidos nossas especificidades culturais,
sociais e políticas.

No ano de 2000 foi a vez da comunidade do Horto em afirmar o seu desejo de


gerenciar seus processos educacionais de maneira legitima e organizada. Foi
travada também uma grande luta com posseiros e a policia militar, que fazia a
guarda da referida área que era de jurisdição do Governo do Estado Ceará.
Tendo as lideranças locais criminalizadas e presas por estarem a frente de tal
movimento. Após o processo de reinvindicação da área junto a Funai e demais
órgãos, e por decisão do Ministério Público Federal a posse da área foi nos
dada, e forma autêntica implementar o nosso sistema educacional diferenciado
também na referida comunidade. Utilizamos os prédios antigos que eram
criatórios de ovinos e caprinos e nominamos de Escola Diferenciada Indígena
Chuí. Nesse mesmo período também é constituído um núcleo gestor e a
comunidade de Munguba no Munícipio de Pacatuba também tem seus
processos educacionais inseridos com a criação de uma unidade escolar
chamada de Ita-Ara que significa (Pedra da Luz) fazendo menção a uma lenda
antiga da comunidade.

Nossos processos educacionais estão intimamente ligados a nossa cultura, e


sobre tudo as questões territoriais, pois a partir do conhecimento da nossa
história, mitos e lendas podemos de maneira efetiva nortear e gerenciar nossos
processos de afirmação da identidade indígena, bem como a continuidade da
nossa cultura e dos nossos parentes nesse território ancestral.

Por isso a Educação Escolar Indígena Pitaguary é pautada pela luta da terra, e
pelo respeito aos nossos líderes que iniciaram essa luta de conquistas.

AS PINTURAS CORPORAIS PITAGUARY

As pinturas corporais para cada povo traz em seu contexto marco de


pura beleza, objetividade e o que mais importa é a arte que é transmitida
através dos traços que são definidos em cada pintura. A tinta e extraída de um
fruto chamado de jenipapo, ora de carvão ora também de urucum, semente
muito comum em comunidades indígenas. E a partir desses que a pintura e
feita no corpo de nossos índios locais.

A preparação da tinta consiste em ralar a fruta com semente e coloca-la


em uma mistura e só depois e própria para uso. E utilizada a pintura corporal
nos dias de festas, de lutas ou até mesmo diariamente como forma de
valorização e fortalecimento de sua cultura.
Para os indígenas é considerada uma arte, momento de inspiração que
através dos traços que ali são feitos apresenta uma marca étnica, e assim os
traços se faz marco indenitário de cada povo.

O Povo Pitaguary possui poucos grafismos, embora sejam carregados


de simbologia e beleza, reproduz as cores da cobra coral, branca, vermelha e
preta. Além dos traços da caninana e jiboia. Também fazem parte os desenhos
de pontos de flechas e arabescos. Para nós as pinturas fazem um
complemento as vestimentas e adornos.

Magna Ferreira Costa – Professora Indígena

A IMPORTÂNCIA DO TORÉ

Nós indígenas não deixamos de praticar nossos rituais e nem nossa


espiritualidade, esses estão presentes em todos os momentos do nosso
cotidiano. Aqui apresentamos de forma sucinta o Toré, o mesmo e para nosso
povo como um ritual sagrado que perpassa de geração em geração.

Compreende-se que o Toré transmite uma grande força, momento de


renovação ou até mesmo uma revitalização em sua totalidade espiritual, desta
forma esse ritual representa para cada povo um símbolo de identidade
indígena, de sua unidade e de diferenciação em sua pratica comunitária.

Haja vista o Povo Pitaguary, as grandes lideranças trata o ritual do toré


como uma grande potencialidade através da oralidade, do canto e pôr fim do
movimento que e realizado em uma grande roda que significa a união do povo
e o fortalecimento através do mesmo.

A prática do Toré é acompanhada por instrumentos musicais tais como o


tambor e a maracá que dão sentido e força. Em sua formação o ritual do toré
inicia com todos em um grande circulo, isso se realiza para que todos toquem
o chão. Esse é para nós um momento sagrado e único e onde entramos em
contato com a Mãe Terra, buscando assim forças e fortaleza que vem da
natureza, os participantes, ou seja, os indígenas dançam e entoam vários
cantos invocando seus antepassados, ou seja, os encantados.
Dentro de suas vertentes esse ritual, exerce para cada povo indígena
um papel religioso porque resgate, revitaliza sua espiritualidade, cultural por
promover uma valorização de seu povo através de traços e assim
transparecendo ser igualitário, e de político por proporcionar e mostrar a
sociedade que são iguais diante da mesma onde os seus membros fazem
parte do mesmo povo na busca de seus direitos.

O ritual acontece quando os indígenas estão na luta seja ela na busca


de seus direitos, nos momentos de alegria ou até mesmo na dor, em eventos
locais que os indígenas consideram importantes, apresentações artísticas, na
escola e até mesmo na comunidade.

Vale ressaltar que o ritual também acontece de forma significativa na


formação do ser humano, ou seja, dentro da escola como fortalecimento de sua
cultura e posteriormente na sua identidade étnica transparecendo assim uma
identidade forte e sobretudo diferenciada em meio a uma sociedade
excludentes e classificatória.

Magna Ferreira Costa – Professora Indígena Pitaguary

O ARTESANATO PITAGUARY

Presente em nosso dia a dia, seja nos utensílios domésticos feitos de barro,
seja nos adornos de palha, penas e sementes. O artesanato Pitaguary tem
grande relevância para a nossa cultural. Pois através de cada peça podemos
reafirmar concretamente o modo de ser Pitaguary. Cada casta do nosso Povo
possui um talento especial e diferenciado para as artes, cada uma produz
peças que resultam numa vasta diversidade de produtos. Um forte potencial do
nosso povo é a cerâmica e os trançados em palha sobretudo as nossas
peneiras ou arupembas que são tradicionais. Os brincos, os colares, os
cocares destacam o traço cultural fortalecido através das nossas artes.
Magna Ferreira Costa – Professora Indígena
1. O meu pai ( Letra e Música Cacique Daniel )

O meu Pai é Rei na terra...

O meu Pai é Rei no mar (bis)

O meu Pai é Rei dos índios seja onde ele está (bis)

Ando com os mensageiros foi meu pai quem me mandou (bis)

Eu sou índio eu sou guerreiro

Eu sou índio curador (bis)

2. O Deus dos Índios (Letra e Música Pajé Barbosa)

O Deus dos índios é o Tupã (bis)

Que é dono do nossos destino até o fim

E quando nos faltar a fé em nosso Senhor

Role essas pedreiras sobre mim (bis)

Tupã meu pai abençoa este índios aqui (bis)

Tupã está falando e está curando estes índios aqui (bis)

3. Na batida do Tambor ( Letra e Música João Paulo Pitaguary )

Na batida do tambor

No chiado do maracá

Os índios Pitaguary vem pra aldeia balançar ( bis)

Vem Cacique e vem Pajé

Encantados da Jurema

Na força do toré para aldeia levantar (bis)

Têm raposa e tem coral


Macaco e juriti

Somos do pé da serra índios Pitaguary (bis)

4. Guerreiro Pitaguary ( Letra e Música Profª Marilene Lopes )

Vamos dançar (bis)

O toré já vai começar

Eu danço toré na minha aldeia

Eu toco maraca no toré

Eu pinto meu corpo

Eu faço a tinta

Eu canto, eu luto, eu sou guerreiro ...

Eu sou, eu sou, eu sou guerreiro

Eu sou, eu sou Pitaguary

Eu sou, eu sou guerrreiro

Guerreiro Pitaguary (bis)

5. O cocar é minha casa (Letra e Música Pajé Barbosa)

O cocar é minha casa

Pitaguary é meu coração ( bis)

A maraca é instrumento

Que o Pajé faz a oração (bis)

E oh arreiná, reina reiará (bis)

6. Dança do mocó (Letra e Música Liderança Maurício)

Mais quando é de madrugada

Que eu vou na loca da pedra

O mocó começa a correr ai eu começo cantar

Oh ki, ki, ki é assim que ele vai cantar (bis)

7. Na terra dos Pitaguary ( Canto de luta pela terra )

Letra e música Professores Indígenas Pitaguary – Magistério Indígena


Na terra dos Pitaguary

Desenhei o rio e a serra

Com o cheiro do meu avô

Que vinha com flores da terra (bis)

Eu vejo as serras azuis

O som das pedreiras bem cheias

Sou índio sou forte guerreiro

O sangue me corre nas veias...

Eu ouço a chuva batendo nas folhas do cajueiro

Eu acordava com o galo cantando no meu terreiro (bis)

8. Rei dos índios ( Letra e música Pajé Barbosa)

Aí o meu peito está ferido

Aí o meu sangue derramado

As armas dos inimigos

Para mim não vale nada (bis)

E ele é rei dos índios que balança a aldeia

Ele chefe de tribo têm a pele vermelha (bis)

Oh tu pisa caboclo na aldeia tem

Já chegou rei dos índios para trabalhar (bis)

9. Na mata eu vi ( Letra e Música Maurício Ferreira )

Na mata eu vi rufar meu tambor

Na mata eu vi o índio Pitaguary (bis)

Oh, oh, oh Pitaguary (bis)


COMO TRABALHAR ESSES TORÉ NAS SALAS DE AULA

SUGESTÕES DIDÁTICAS

Caros(as) Professores,

A proposta deste material é de fortalecimento dos costumes e praticas


culturais. Destina-se aos professores das Escolas Indígenas do Povo
Pitaguary, com o intuito de que a partir das vivências coletivas da aldeia,
possamos materializar através dos cantos os conhecimentos comuns e
específicos necessário ao desenvolvimento político e social dos nossos alunos
índios. Na busca de implementar a interdisciplinaridade tão mencionada no
RCENEI e nas Diretrizes e Bases para Educação Básica. Agregando sentido e
valores as metodologias que serão desenvolvidas com a inclusão dos cantos
indígenas, as mais diversas áreas do conhecimento.

O presente livro trás as narrativas dos próprios professores e nossas


lideranças, que podem ser trabalhadas em sala pelas crianças e jovens, por
meio de rodas de conversas, dinâmicas e oficinas de arte identidade.
O educador tem uma responsabilidade constante, que de acompanhar os
processos societários do povo, afim de reproduzi-los no ambiente escolar. E
uma boa alternativa é por meio da musicalidade que possibilita dinamizar as
aulas e agregar os valores que desejam apreender. Agora de posse desses
novos métodos mãos a obra, desejamos que sirva de inspiração para vocês.
Bom Trabalho!

Você também pode gostar