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DEFINIÇÃO
Análise da política moderna, da esfera pública, da democracia e da poliarquia considerando as
novas mídias.

PROPÓSITO
Compreender o conceito e as origens do regime político democrático e analisar o papel das
novas mídias nas formas de vida pública e política contemporâneas.

OBJETIVOS
MÓDULO 1

Identificar as origens da noção de política moderna

MÓDULO 2

Definir a gênese da esfera pública

MÓDULO 3

Reconhecer a relação entre poliarquia e novas mídias

INTRODUÇÃO

A POLÍTICA MODERNA – UMA CONSTRUÇÃO


SURGIDA DE QUATRO GRANDES INOVAÇÕES.
 Figura 1. Cícero denuncia Catilina, por Cesare Maccari

O conceito contemporâneo de política, e a própria política moderna, tal como é praticada pela
maior parte dos países atualmente, envolve quatro inovações ou quatro origens:

A inspiração no ideal de democracia grega.

A tradição republicana clássica e moderna.

A instituição da representatividade.

A lógica da igualdade como ideia impulsionadora da construção do sufrágio universal

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Esse conjunto de práticas, ideias e valores resultante de cada uma dessas origens produziu as
inovações institucionais que formam as nossas modernas democracias. Todas essas
diferentes origens, mescladas entre si no mundo moderno, dão forma à realidade política que
vivemos.

Outra dimensão de grande importância, diretamente relacionada ao mundo das democracias


modernas, é a emergência da esfera pública, não apenas ao se pensar o público, o comum,
mas também a ideia de publicidade, da visão e da expressão do que é público. Recentemente
alguns teóricos começaram a pensar a poliarquia, um sistema mais igualitário ou com um
melhor funcionamento da representatividade. Várias garantias institucionais desse modelo
estão relacionadas ao papel da mídia, como veremos nos módulos a seguir.

MÓDULO 1

 Identificar as origens da noção de política moderna

A CONSTRUÇÃO DO CONCEITO DE POLÍTICA

 Figura 2. A Escola de Aristóteles, por Gustav Adolph Spangenberg

Durante a segunda metade do século XX, a democracia se tornou um regime político


extremamente popular. Da mesma forma, as repúblicas passaram a ser uma das mais
recorrentes imagens de bom governo ou governo equilibrado. A participação popular e as
demandas do coletivo em função da política são outra característica. Essa construção é
histórica, e a contemporaneidade política do conceito passa necessariamente por seus
reconhecimentos. Sendo assim, passamos agora a buscar o entendimento da formação
histórica da nossa ideia de política.
A maioria dos regimes se autoproclama democrático, e mesmo regimes ditatoriais se
apropriaram de uma parte ou outra da linguagem democrática como forma de legitimar seu
poder. Apesar da expansão sem precedentes na adoção do termo democracia para designar os
regimes políticos, o termo passou a corresponder a uma ideia popular vaga. Assim, vale a pena
começar este tema perguntando: o que significa politicamente a palavra democracia no mundo
contemporâneo?

A noção contemporânea de democracia carrega os principais elementos da linguagem e da


institucionalidade da política moderna. Para compreendermos o seu significado de modo mais
profundo e amplo, é necessário entender que essa forma política é uma mistura de ideias,
experiências, instituições e práticas que se formaram ao longo de mais de dois mil anos de
história. Com o objetivo de tornar a compreensão dessa longa história mais acessível,
podemos dizer que as democracias modernas têm quatro origens históricas, das quais
passaremos a tratar.

A DEMOCRACIA DA GRÉCIA CLÁSSICA


Há cerca de dois mil e quinhentos anos (no século V a.C.) ocorreu uma grande transformação
entre os gregos antigos na sua forma de se organizar. Muitos estudiosos marcaram esse
importante momento, essa mudança profunda de mentalidade como a invenção da política. A
História trata esse momento como uma transição importante de modelos palacianos –
representados por lideranças familiares – para modelos políticos, adotados pela interação
entre grupos aristocráticos diversos. A demokratia ateniense não foi a única, mas é a que foi
recuperada mais recorrentemente, transformando-se em um ícone ocidental e fundamento
desse modelo político.

DEMOKRATIA

A demokratia ateniense continuava a ser aristocrata. A minoria absoluta dos habitantes da


cidade tinha direito à cidadania. Conceitualmente, ampliou-se a possibilidade de participação,
mas recorrentemente os grupos locais precisavam pressionar pelo direito à cidadania, como os
soldados durante os conflitos com outras póleis.
Este ponto é muito importante: o passado não é uma reminiscência, algo que fica e nos marca
por ser muito importante no passado, mas sim um discurso, uma constante reinvenção.

Portanto, o que foi vivido nas póleis da sociedade grega clássica é importante não pelo que
aconteceu, mas por ter sido considerado um evento muito emblemático e repetido por muitas
sociedades ao longo da história. Podemos afirmar que a ideia de Ocidente passa pela
admiração e reinvenção daquilo que aconteceu na Grécia. Leve essa informação com você para
fazer todo o trajeto histórico sobre política.

 Figura 3. Heitor adverte Páris por sua suavidade e exorta-o a ir à guerra, por Johann Heinrich
Wilhelm Tischbein

O que ocorreu nesse período foi a invenção de uma forma de governo que até então era
incomum. Predominavam governos compostos por reis ou famílias, que muitas vezes se
comparavam a deuses (como no caso do Egito Antigo) ou acreditavam ter origens divinas, ou
por tiranos (indivíduos que governavam segundo sua vontade, sem nenhuma restrição) e
aristocratas (conselheiros de chefes guerreiros).

No século V a.C., os gregos inventaram uma nova forma de organizar o poder: a maioria dos
homens livres e adultos podia decidir os assuntos mais relevantes de sua comunidade e
escolher aqueles que exerceriam cargos importantes na direção da cidade-estado. A essa
forma de organização política deu-se o nome de “democracia”, que em grego significa “governo
do povo” ou “governo popular”.

 Figura 4. O Parthenon, na Acrópole de Atenas

A democracia era baseada em duas importantes ideias que possuem forte influência até os
dias atuais: a isegoria (o direito igual de fala para todos os cidadãos nos debates sobre os
assuntos políticos) e a isonomia (igualdade de todos os cidadãos perante a lei – ideal que
ainda encontra eco nos Estados democráticos de direito modernos). É elemento importante o
fato de que esse modo de governo não legitimava seu poder de forma mágico-religiosa (ou
seja, a religião não exercia autoridade nem tornava o poder legítimo). Também não era comum
a todos aqueles povos antigos que conhecemos por gregos, mas tornou-se o modo particular
de governo de uma cidade independente chamada Atenas. Sobre a democracia ateniense, é
importante sabermos que:

O número de participantes era muito restrito: tratava-se de uma cidade muito menor do
que as cidades modernas. Além disso, seus cidadãos (os homens adultos e livres) eram
poucos com relação à população geral.

Apenas homens adultos e livres eram considerados cidadãos, a democracia ateniense


excluía mulheres, estrangeiros e escravos – que eram a maior parte da população. Além
disso, apenas os filhos de cidadãos atenienses eram considerados cidadãos (filhos de
mães atenienses com estrangeiros não contavam nessa categoria).

A participação dos cidadãos nos assuntos públicos e nos cargos políticos existentes era
toda decidida e exercida em reuniões públicas (assembleias). Isso reduzia o espaço
dessa forma de organização a apenas uma pequena cidade, como era o caso de Atenas
nos tempos da antiguidade clássica.

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É importante destacarmos estas três características da democracia grega para


compreendermos o quanto ela se distingue das atuais democracias:

Era restritiva quanto ao direito de cidadania, que era concedido apenas a homens e
excluía mulheres, estrangeiros e escravos.

Era restrita ao pequeno território de uma cidade (ao contrário das democracias
contemporâneas que cobrem populações de países inteiros).

Era restrita a interesses homogêneos, os cidadãos tinham interesses, objetivos e


mentalidades muito próximos (ao contrário das democracias contemporâneas, que
tendem a ser mais conflituosas em função da sua heterogeneidade, ou seja, das
diferenças de interesses, objetivos e mentalidades).

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Podemos dizer que a democracia ateniense era uma democracia restritiva se comparada às
democracias modernas. Essa característica foi responsável por sua breve existência: essa
experiência durou menos de duzentos anos, e os atenienses foram dominados e absorvidos
por povos que possuíam formas de organização política que agregavam populações maiores e
governavam territórios mais amplos.
A TRADIÇÃO REPUBLICANA
De todas as fontes de origem dos ideais, valores, princípios e instituições que inspiram nossas
democracias modernas, a mais longa, diversificada e rica é, sem dúvida, a tradição do
pensamento republicano. Rica em experiências, formas institucionais e elaboração jurídico-
filosófica, é uma tradição que surge no auge da antiguidade clássica e reaparece com força na
Europa da Idade Moderna.

 Figura 5. Alto-relevo de Políbio no Museu da Civilização Romana

Apesar de ter seus primeiros vestígios no seio da cultura grega clássica, podendo ser vinculada
à crítica democrática, à teoria das formas de governo do filósofo grego Aristóteles (384-322
a.C.) e à ideia de governo misto do historiador grego Políbio (200-120 a.C.), a tradição
republicana não deve suas origens à democracia grega. Filosoficamente, a concepção
polibiana de governo misto ilustra bem as formas institucionais e as relações de governo da
maior parte das experiências clássicas do republicanismo: a necessidade de representar todas
as formas clássicas de governo em uma só para produzir um governo de grande estabilidade e
ordem.

A CONCEPÇÃO DE POLÍBIO SOBRE UM REGIME


MISTO

Para a tradição grega clássica, a política era uma arte e, por isso, tema recorrente nos embates
públicos da ágora – espaço público do encontro dos cidadãos na Grécia. Os regimes de
governo eram tema de debates intensos, principalmente em Atenas, abordando
frequentemente a questão da superioridade do modelo aristocrático ou democrático, além da
persistente crítica à tirania. Todos esses modelos comumente implementados em cidades
gregas.

O modelo de governo misto proposto por Políbio procurava conciliar a ampliação da


participação política, característica dos regimes democráticos, com a necessidade de se
preservar o poder nas mãos de indivíduos capazes e experientes, que acreditava ser uma
vantagem das aristocracias.
De maneira simplificada, é como se o governo misto juntasse a democracia (governo do povo),
a aristocracia (governo dos melhores) e a monarquia (governo de um rei) numa mesma forma
de governo. Em tese, isso eliminaria os defeitos e as instabilidades de cada uma das formas
descritas, seus riscos de degeneração e desequilíbrio, produzindo uma forma de governo
estável, equilibrada e ordenada.

 SAIBA MAIS

Para termos uma ideia clara do que significa essa tradição, precisamos atentar que nos
notórios movimentos intelectuais da modernidade – Renascimento e Iluminismo – as teorias
filosóficas sobre a República – gregas e romanas – foram relidas e influenciaram toda a
imensa corrente de filósofos políticos que enriqueceram a tradição republicana nos tempos
modernos: Nicolau Maquiavel (1469-1527), John Locke (1632-1704), Jean-Jacques Rousseau
(1712-1778), Montesquieu (1689-1755) e Immanuel Kant (1724-1804), por exemplo. Também
inspiraram pensadores políticos e homens de Estado que tiveram fundamental importância na
gestação dos republicanismos constitucionais inglês e americano entre os séculos XVII e XVIII,
como o inglês John Harrington (1561-1612) e federalistas estadunidenses, como Alexander
Hamilton (1755-1804), John Jay (1745-1829) e James Madison (1751-1836).

 Figura 6. Origem da República Romana, por Casto Plasencia


Historicamente, a tradição republicana se “encarnou” na República Romana (entre os séculos
VI e I a.C.), nas cidades-estados renascentistas de Veneza e Florença (entre os séculos X e
XVIII) e na Inglaterra e nos Estados Unidos (séculos XVII e XVIII). Institucionalmente, sua
grande inspiração foram as instituições da República romana clássica que ilustram também a
ideia de governo misto: o poder popular tinha espaço através da magistratura dos tribunos da
plebe, os aristocratas exerciam funções no Senado, a função monárquica do governo era
exercida pelos cônsules.

Desse modo, o povo e os aristocratas participavam do governo, e estavam amalgamadas as


três formas clássicas de governo: a democracia (representada pelos tribunos da plebe), a
aristocracia (representada pelo Senado) e a monarquia (representada pelos cônsules). Tanto a
cidade renascentista de Florença como a cidade de Veneza (recordada por ter mantido um
regime republicano que durou centenas de anos) tinham instituições semelhantes e foram
referências de governos mistos para os pensadores republicanos modernos.

Essa breve exposição da tradição republicana e da noção de governos mistos pode lembrar
bastante as democracias modernas – sobretudo aquelas que são repúblicas federativas
presidencialistas – como é o caso do Brasil e dos Estados Unidos da América. Mas é
importante notar três grandes diferenças entre a história e as ideias da tradição republicana e a
vida política das democracias contemporâneas:

As repúblicas de governos mistos tinham que lidar com dois grupos de interesse
opostos, mas homogêneos: o povo e a aristocracia. O mundo contemporâneo possui
uma multiplicidade de grupos de interesses muito mais complexa.

Os governos mistos tinham cargos que eram populares e aristocráticos, ocupados,


respectivamente, por aqueles que eram oriundos de cada um desses grupos: um plebeu
nunca se tornava senador no mundo da República romana. O Senado era reservado
somente aos aristocratas nascidos de famílias antigas e poderosas. Tal situação se
repetiu em outras repúblicas históricas, como as de Florença, Veneza e Inglaterra dos
séculos XVII e XVIII.

A participação pública, por meio de cargos e magistraturas importantes, era limitada a


uma cidade central: não existia uma cidadania nacional como a das democracias
modernas. O cidadão da República romana era somente o romano nascido em Roma de
famílias romanas, o mesmo ocorria em Florença, Veneza e Inglaterra dos séculos XVII e
XVIII.
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SENADO

Nas repúblicas ocidentais influenciadas pelos modelos europeus iluministas, ainda é recorrente
encontrarmos Senados – como no Brasil e nos Estados Unidos – ainda que com funções e
características diversas.

Podemos dizer que as democracias contemporâneas são mais democráticas que as repúblicas
antigas e modernas. Além disso, elas possuem uma institucionalidade capaz de representar
muito mais que apenas dois interesses opostos (povo versus aristocracia). Mas o que
queremos dizer aqui com representação de interesses? Trataremos disso a seguir ao
abordarmos a terceira fonte de origem das democracias contemporâneas.

O GOVERNO REPRESENTATIVO

NO TAXATION WITHOUT REPRESENTATION!

Essa sentença – traduzida para o português como: “Não pagaremos impostos se não tivermos
representação!” – foi o slogan de uma das mais importantes revoluções dos tempos modernos:
a Revolução Americana (1776-1783).

O que nos interessa aqui não são propriamente os acontecimentos, cenários e personagens
dessa história, mas a invenção do governo representativo. Ao falarmos da democracia grega e
da tradição republicana, observamos como suas origens e práticas históricas tiveram a
limitação de serem localizadas em territórios muito pequenos: centralizados em apenas uma
cidade (Atenas, a cidade de Roma, Florença, Veneza etc.).
 Figura 7. Washington atravessando o Delaware, por Emanuel Leutze

Mesmo na Inglaterra, com a invenção de um Parlamento (dividido a princípio em Câmara dos


Lordes – ocupada pelos aristocratas – e a Câmara dos Comuns – ocupada por aqueles que
não tinham origem familiar na nobreza britânica), a participação era reduzida apenas aos
habitantes da grande cidade que era Londres no século XVII. Desse modo, não eram todos
aqueles que viviam sob o governo londrino – o governo inglês da época – que podiam
participar das grandes decisões tomadas no Parlamento. Muitas dessas decisões eram
relativas aos impostos cobrados, aos preços das mercadorias etc. E com o advento da Câmara
dos Comuns, muitos negociadores, investidores e comerciantes (que não vinham de famílias
nobres) passaram a tomar parte nessas decisões econômicas que os afetavam.

 Figura 8. William Pitt discursando na Câmara dos Comuns sobre a eclosão da guerra com a
Áustria, por Karl Anton Hicke

Antes da invenção da Câmara dos Comuns, era corriqueiro que a realeza e os nobres
aumentassem os impostos sobre esses grupos mercantis e de negociadores para seus
próprios fins. Ao tomarem parte nas decisões públicas, essa nova classe de comerciantes e
negociantes prósperos passou a ter a capacidade de proteger seus próprios interesses. Mas
isso se resumia apenas aos prósperos comerciantes e homens de negócio da grande cidade de
Londres, não a todos aqueles que viviam sob o governo da recém-criada monarquia
parlamentar inglesa.

Assim, eram poucos os que, sob o domínio do governo londrino, tinham meios de defender
seus interesses: sendo que aqueles que viviam nas longínquas colônias do nordeste da
América do Norte sequer tinham suas vozes ouvidas no recém-criado Parlamento de Londres.

O Parlamento inglês aberto aos “comuns” foi produto de um intenso conflito ocorrido na
Inglaterra do século XVII, marcado por uma guerra civil – a Revolução Inglesa (1640-1651) –,
uma ditadura – o período do Protetorado (1653-1659) – e uma ampla conciliação entre os
grupos em conflito durante a Revolução Gloriosa (1688-1689). Esta última é chamada assim
por ter transformado as instituições políticas sem guerra ou conflito sangrento: esse acordo
entre as partes, que fez cessar o conflito, deu origem ao Parlamento e à Constituição moderna
da Inglaterra.

Durante o período de 1640 a 1689, as longínquas colônias do nordeste da América do Norte se


viram esquecidas por seus governantes, absorvidos nos conflitos mencionados. Elas
edificaram uma vida bastante próspera e mais igualitária entre homens e mulheres brancos do
que a realidade europeia do outro lado do Oceano Atlântico (não tão igualitária: lembremo-nos
de que em alguns lugares dessas colônias, mas não em todos, existia a brutal escravidão negra
– como houve no Brasil, na mesma época).

Não era um mundo perfeito, mas havia mais prosperidade – e menos luxo – do que na Europa
da época, apesar das grandes desigualdades existentes. Durante essas décadas de abandono
relativo dos assuntos coloniais por parte dos interesses britânicos, os colonos do norte da
América puderam se autogovernar com um nível de autonomia muito grande para a época.

Com o fim dos conflitos ingleses, o governo britânico começou a reorganizar seus interesses
nas suas colônias do outro lado do Atlântico mediante taxações e outras intervenções nos
assuntos das colônias. Entretanto, seriam as taxações diretas sobre mercadorias como o chá
(Lei do Chá, de 1773), o açúcar (Lei do Açúcar, de 1764) e sobre documentos impressos (Lei do
Selo, de 1775), que taxava em moeda britânica revistas, jornais, documentos oficiais e outros
materiais impressos pelos colonos americanos, que inflamariam o ânimo dos colonos.

 Figura 9. Festa do Chá de Boston, de autor desconhecido

Tais taxações – entre outras – eram consideradas abusivas para os colonos da América do
Norte, que viam isso como uma situação injusta por não terem seus interesses representados
no Parlamento britânico. Daí o slogan da Revolução Americana ter sido “No taxation without
representation” – ou seja, tratava-se inicialmente de uma exigência por representação no
Parlamento britânico em função das taxações serem vistas como ilegítimas na ausência de
uma representação colonial.

 Figura 10. Assinatura da Constituição dos Estados Unidos, por Howard Chandler Christy

O desenvolvimento desse conflito culminou com a Independência Americana. Contudo, a


demanda por representação por parte dos colonos americanos foi uma experiência que os
influenciou a produzir uma forma de governo que levasse em conta a representação como um
fator de grande importância. Desde a convenção que deu origem à Constituição americana
(1787) até o modo como foi configurado o governo pós-independência, a representação teve
um papel central e extremamente inovador na história da política moderna. A prática moderna
de populações elegerem representantes que agem como mediadores de seus interesses na
condução dos assuntos públicos, em um país de grandes proporções (a princípio apenas nas
treze colônias originais), foi uma contribuição legada ao mundo moderno pelos nascentes
Estados Unidos da América.

Outro elemento importante oriundo da experiência política estadunidense desse período foi a
subordinação do poder militar à autoridade presidencial eleita e de natureza civil, aspecto que
ganharia bastante importância em todas as democracias constitucionais modernas. Porém,
devemos lembrar que a representação por voto nos Estados Unidos era bastante limitada em
suas origens.

Apesar da representação americana ter sido, historicamente, um elemento inovador nas


práticas de governo e um diferencial com relação à tradição republicana europeia, ela padecia
de grandes limitações quando comparada às nossas democracias modernas por três motivos
centrais:

Tratava-se de uma lógica de representação restritiva, pois apenas homens brancos livres,
proprietários de terras e alfabetizados podiam eleger seus representantes. Essas
características designam o que chamamos de voto censitário: por estipular critérios que
restringem o nível de participação política das populações.

Os votos eram por distritos e não por pessoa. A lógica de que cada pessoa corresponde
a um voto não era aplicada.

A lógica do voto censitário não permitia que negros e mulheres votassem. Eles eram,
portanto, excluídos do “governo representativo” dos Estados Unidos.

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Ao longo dos séculos, a representação e o direito ao voto nos EUA foram ampliados em um
longo processo de conflitos e pressões por grupos diferentes da sociedade civil. Mas foi
apenas em 1965 que o direito ao voto universal (aberto a todos e sem nenhuma restrição) foi
adotado nos Estados Unidos.

Podemos dizer, como frisamos anteriormente, que as desigualdades existentes nos Estados
Unidos na época da fundação de seu sistema de governo representativo restringiam bastante
as suas inovadoras práticas de representação. A relação entre interesse e representação era
demasiado restritiva. Essas restrições relativas à igualdade de todos os cidadãos no exercício
da cidadania, do direito de voto e de, portanto, ter seus interesses representados na esfera dos
assuntos políticos e no governo nos levam à quarta origem das democracias contemporâneas:
a lógica da igualdade.

A LÓGICA DA IGUALDADE
Tal como as três origens distintas das democracias modernas que abordamos anteriormente, a
lógica da igualdade tem sua própria história e não se vincula àquela da tradição democrática
grega, nem da tradição republicana e nem da invenção da representação. Suas origens são
modernas e podem ser reconduzidas ao humanismo e aos movimentos puritanos do século
XVI que ressignificaram todo um conjunto de ideias religiosas.

O humanismo clássico teve o papel de trazer para a cultura europeia do século XVI o homem
para o centro dos debates da época, relegando as discussões teológicas para um segundo
plano, como afirma Skinner (1996). Foi do seio do humanismo clássico que surgiram as
discussões filosóficas sobre tolerância religiosa e da dignidade humana como valor
civilizacional de importância.

 Figura 11. Retrato de Erasmus de Roterdã, o “príncipe dos humanistas”, por Quentin Matsys

Já o puritanismo teve um papel fundamental nos movimentos religiosos e políticos do século


XVII ao trazer para a linguagem político-religiosa da época a ideia de igualdade dos homens
perante Deus. As ideias religiosas de igualdade entre os homens pregadas pelos puritanos
tiveram bastante impacto na Inglaterra e nos Estados Unidos e influenciaram muitos
movimentos políticos entre os séculos XVII e XVIII.

Mas uma outra corrente filosófica teve uma influência mais radical nesse processo de defesa
da igualdade entre os homens: o Iluminismo. Movimento intelectual de grande abrangência na
Europa (Inglaterra, Países Baixos, Itália, Alemanha e, principalmente, França), o Iluminismo
trazia em sua bagagem uma forte crítica ao Antigo Regime, ao clero e ao obscurantismo,
forças que submetiam a maioria dos homens ao poder de poucos: os aristocratas e o clero.

 Figura 12. Prisão do Palácio das Tulherias, por Jean Duplessis-Bertaux

Na França, as ideias dos filósofos iluministas (principalmente de Jean-Jacques Rousseau –


crítico feroz das desigualdades, tal como podemos ver em sua obra Discurso sobre a
desigualdade entre os homens) inspiraram os revolucionários de 1789 e, principalmente, a ala
mais radical (os jacobinos) a derrubar o regime monárquico existente. O lema da Revolução
Francesa (1789-1799), “Igualdade, Fraternidade e Liberdade”, tinha como inspiração o
iluminismo francês.

A crença iluminista e religiosa da igualdade entre os homens foi uma ideia bastante radical na
época, mas teve, num primeiro momento, sua realidade limitada aos homens proprietários
frente aos aristocratas que perdiam seus direitos de nascença.

Apesar dos direitos políticos e da cidadania terem se expandido com as revoluções dos fins do
século XVIII e início do século XIX, eles ainda excluíam os pobres, as mulheres e, nas Américas,
outras etnias, como negros e indígenas.

Seriam os movimentos sufragistas do século XIX que expandiriam o voto e os direitos de


cidadania às mulheres e, posteriormente, no século XX, sob a rubrica dos direitos humanos
universais, a lógica da igualdade se expandiria a outros povos e etnias. Essas ideias de
igualdade tiveram histórias e crenças com fontes distintas, com bases sociais e movimentos
diferentes e ocorreram em cada país moderno em épocas diversas. Essa lógica da igualdade
formou o que chamamos de sufrágio universal, que é a última característica das democracias
modernas abordadas aqui.

Vamos ouvir o professor Rodrigo Rainha aprofundando sobre a questão da Igualdade.


 ATENÇÃO

A História não é feita de pilares sólidos sobre o que foi construído no tempo, mas sim no
discurso, na construção idealizada. A política contemporânea bebe nessa relação que foi
apresentada, não como pilares duros, basilares, e sim na invenção e reinvenção, na construção
do valor de cada um desses discursos que constroem uma legitimidade do discurso político.

VERIFICANDO O APRENDIZADO

MÓDULO 2

 Definir a gênese da esfera pública

A GÊNESE DA ESFERA PÚBLICA


Quando nos debruçamos sobre as quatro origens da política e das democracias modernas,
vimos que a participação política na experiência da democracia grega na antiguidade e das
repúblicas clássicas era limitada apenas a uma vida em certas cidades centrais. Isso ocorria
em função de as decisões e a participação nos assuntos públicos serem privilégio de uns
poucos que podiam adentrar espaços bem delimitados.
Esses espaços foram se tornando mais abertos àqueles sem privilégios de nascença, mais
“públicos”. A participação física em espaços públicos foi uma grande limitação da experiência
republicana ao longo da história, sendo o alargamento da participação política ligado, nos
últimos duzentos anos, a um fenômeno singular que trataremos aqui – a gênese da esfera
pública.

Esfera pública não é o mesmo que espaço público. Usaremos uma definição de esfera pública
que nos ajudará a perceber essa diferença:

ARENA DA DISCUSSÃO E DO DEBATE PÚBLICO NAS


SOCIEDADES MODERNAS, PODENDO SER ESPAÇOS
FORMAIS E INFORMAIS.

(GIDDENS, SUTTON, 2017)

A definição nos chama a atenção para um ponto: a esfera pública surgiu com a emergência da
sociedade moderna – ou seja, não existia antes do século XVI. Isso não quer dizer que ela
surge exatamente aí; pelo contrário, ela se desenvolveu nesses últimos quatro séculos até
adquirir as características que atualmente podemos destacar. Para compreendermos melhor,
analisaremos o principal fator relacionado aos seus primeiros desenvolvimentos: o surgimento
de um público leitor.

NEWSLETTERS, SALÕES, CAFÉS E FILÓSOFOS:


A EMERGÊNCIA DA ESFERA PÚBLICA
CLÁSSICA
O surgimento da esfera pública é singular na história e tal fenômeno se desenvolveu apenas
nos últimos quatro séculos. Tem correlação com uma série de invenções técnicas: da
tipografia de Gutenberg às novas embarcações que permitiram viagens e comércio pelas
regiões “descobertas” do século XVI em diante. Porém, o mais importante disso tudo não
foram as invenções tecnológicas apenas, e sim a profunda transformação ocorrida com o
surgimento de um público leitor.

GUTENBERG

Johannes Gutenberg (1400-1468) foi o criador da prensa mecânica europeia, invenção que
transformou o mundo e ajudou a fundar a Idade Moderna. Sua máquina de tipos multiplicou a
produção de impressos, tornando o conhecimento muito mais acessível, sobretudo em relação
ao que era quando dependia do trabalho dos copistas.

O QUE SIGNIFICA A EXPRESSÃO PÚBLICO LEITOR?

Um público leitor é uma grande população de leitores – seja de que gênero de texto for.
Vivemos em um mundo onde nunca houve um público leitor tão amplo: ideias, informações,
sentimentos, percepções, notícias e acontecimentos circulam de forma escrita, podendo ser
lidos por massas cada vez maiores de pessoas de um modo inimaginável nos últimos séculos.
Esse público discute, comenta e escreve também, expressando-se de modo a conferir ainda
mais dinamismo a esse movimento de circulação.

 Fonte: bbernard/Shutterstock.

MAS SEMPRE EXISTIU ESSA GRANDE MASSA DE


LEITORES?

 Fonte: Dayna More/Shutterstock.

A resposta a essa pergunta é um absoluto não!


Durante a maior parte da história, apenas uma minúscula parcela de pessoas dominava a
técnica de ler e escrever: somente uma limitada aristocracia governante e seus funcionários
(escribas, secretários etc.) era alfabetizada. A maior parte das pessoas era iletrada e ignorava
qualquer forma de conhecimento formal como compreendemos atualmente.

Essa situação só começou a se modificar no século XVI e com o advento do protestantismo no


século XVII. Ainda assim, as tipografias, recém-inventadas por Gutenberg, imprimiam sobretudo
Bíblias – não jornais, livros e revistas. E mesmo com essa restrição, a Reforma Protestante foi
um poderoso agente alfabetizador: como acreditavam que todos os homens eram dotados de
uma luz natural e, por isso, capazes de acessar a palavra divina dos Testamentos, tratou-se de
alfabetizar as massas conforme o protestantismo se disseminava.

Mas não foi exclusivamente o protestantismo que criou o público leitor moderno, precondição
para a formação da esfera pública moderna. Esse fenômeno esteve ligado também a outros
fatores, como a criação de novas formas, gêneros e modos de leitura. E as discussões ao redor
desses escritos, promovidas em diferentes espaços (formais e informais), desempenharam um
papel de grande importância na formação da esfera pública. Abordaremos a seguir diferentes
aspectos desse fenômeno, que juntos deram origem à esfera pública.

NEWSLETTERS E PRAÇAS DE COMÉRCIO


As primeiras circulações de periódicos estiveram profundamente ligadas à ampliação das
atividades mercantis entre a Europa e outros continentes, aos interesses dos mercadores e às
bolsas de valores primitivas que surgiram nas grandes cidades europeias.

Essa necessidade de circulação de notícias estava associada inicialmente à demanda de


informação dos grupos de comerciantes e investidores do comércio ultramarino surgida em
meados do século XVII. De acordo com Brigs e Burke (2006), nos primeiros jornais desse
gênero – surgidos em Amsterdã –, já havia críticas à Igreja e ao governo.

 ATENÇÃO

Não existem leitores somente físicos. O espaço das praças de comércio era o local da reunião
de muitos leitores de “ouvido”, leitores que multiplicavam a troca dos conhecimentos e, ainda
que multiplicassem as informações a partir da força de um senso comum recorrente, faziam a
cultura letrada circular. O termo em inglês – clássico entre os estudiosos de comunicação –
fundamenta-se na tradição das cartas medievais. Cartas que uma vez recebidas eram lidas de
forma pública. Então, quando a prensa, os jornais, os livretos começam a circular, não é
possível imaginar a multiplicação automática de letrados, mas sim uma multiplicação efetiva
de leitores – em todas as suas formas.

A ESFERA LITERÁRIA
O surgimento de gêneros literários novos como o romance de sentimentos (como A Nova
Heloísa, de Jean-Jacques Rousseau) e o romance de formação (como Os anos de aprendizado
do Jovem Wilhelm Meister, de Johann Wolfgang Goethe), de ampla circulação no século XVIII
entre a população letrada, estimulou novas formas de identificação entre os leitores.

 Figura 15. Edição de 1795 de Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, de Johann


Wolfgang von Goethe

Por se identificarem com os personagens, os leitores sentiam empatia por eles para além da
língua, classe social, sexo e país. Também foram importantes no sentido de formarem uma
ideia geral e compartilhada de que as pessoas eram semelhantes em função de seus
sentimentos íntimos, estimulando bastante uma noção sentimental de um senso de igualdade
no público leitor de romances.

Entre os séculos XVII e XVIII, foi extremamente comum a formação de círculos literários nos
salões das casas de senhoras abastadas, que reuniam pessoas em discussões sobre esses
livros e promoviam debates e reflexões que abarcavam a vida cotidiana, a realidade
sentimental e a noção de igualdade produzida pela leitura desses escritos.

Mais uma vez, devemos notar a maturação de longos processos históricos que se reproduzem
na construção dessa esfera literária. Era comum, nas cortes e depois nas ruas, a reunião para
ouvir os contadores de história. São famosos na literatura das tabernas e guardavam de
cabeça as histórias rimadas e as multiplicavam. O mundo dos séculos XVIII e XIX era cada vez
mais urbano, mais cheio de gente e informação, porém, as heranças ficaram. Agora eram os
leitores públicos, os leitores de jornais, os jovens e tropeçadores leitores. No Brasil, livros
famosos saíam em capítulos em séries de jornal; na França, alguns livretos muito picantes –
como o de Marquês de Sade (1740-1814) – multiplicavam-se e faziam crescer o interesse pela
leitura.
TROPEÇADORES LEITORES

O termo utilizado na alfabetização foi fortemente ampliado para estudantes que não
conseguem reconhecer a ideia principal de um texto ou relacioná-lo com conhecimentos
próprios. Então acabam lendo manchetes, fazendo leituras gerais, parciais ou que não geram
plena compreensão.

AS IDEIAS FILOSÓFICAS E POLÍTICAS –


CLUBES, CAFÉS E SALÕES

 Figura 16. No salão de Madame Geoffrin, por Anicet Charles Gabriel Lemonnier

A ampla circulação de livros entre os grupos letrados da Europa moderna, principalmente no


século XVIII, deu origem a espaços informais de discussão e associações que se expandiriam
para além da lógica dos salões literários: as discussões ao redor de tratados filosóficos e
políticos (gênero filosófico propriamente moderno) e de troca de opiniões sobre os
acontecimentos fermentaram com grande força em países como a Inglaterra e a França.

Na Inglaterra, alguns dos primeiros jornais ingleses, como o Spectator, que começou a ser
publicado em 1711, tinha como objetivo explícito trazer a Filosofia para fora das instituições
acadêmicas a fim de ser tratada em clubes, assembleias, mesas de chá e cafés. O caso da
França também é emblemático quanto a esse fenômeno – sendo o iluminismo francês
extremamente importante para sua compreensão.

A Luz da Razão, – palavra-chave da época, utilizada para se opor à tradição, à fé, à superstição
e ao preconceito – associada à noção de crítica (utilizada como forma de problematizar os
excessos e abusos dos governos monárquicos e da Igreja católica francesa), teve um papel
fundamental na criação da linguagem que formaria a ideia de público na França da época.

Eles se consideravam homens de letras e são vistos por muitos como os primórdios do
intelectual público moderno, no sentido de serem os primeiros intelectuais independentes de
patronos e por terem sido agentes engajados em promover um debate amplo sobre os
assuntos públicos referente aos regimes sob os quais viviam. Difundiram suas ideias na França
e fora dela para homens e mulheres, apesar de terem pouca intenção de atingir o povo.
 Figura 17. François-Marie Arouet de Voltaire, por Nicolas de Largillière

HOMENS DE LETRAS

O papel central desse movimento foi desempenhado por um conjunto de pensadores franceses
chamados philosophes (filósofos, em francês), e entre esses personagens destacam-se Voltaire
(1694-1778), Rousseau (1712-1798), Diderot (1713-1784) e D’Alambert (1717-1783).

As monarquias e os governos da época impunham uma forte censura aos escritos filosóficos
(esta era menor na Inglaterra porque, após o período revolucionário de 1640 a 1688, criou-se
um ambiente de maior tolerância e ampliação dos debates acerca dos assuntos de governo em
função da criação do Parlamento), uma vez que estes eram considerados subversivos, ou seja,
afetavam a ordem estabelecida por promoverem a agitação e o descontentamento.

Esse fator fez com que a discussão sobre esses escritos e ideias permanecesse fora dos
ambientes formais, tornando extremamente importante a cultura oral dos cafés, clubes,
associações e salões (encontros organizados por senhoras aristocráticas para promover
debates com intelectuais). Além disso, a censura estimulava uma circulação extremamente
importante de correspondência privada entre intelectuais de diferentes nações da Europa, o
que foi um poderoso fator de circulação das ideias políticas da época.

OS PRIMEIROS JORNAIS
Muitos dos primeiros jornais, mais parecidos com o que chamamos por esse nome atualmente,
surgiram no século XVIII e eram derivados dessa efervescente cultura dos cafés, salões e
clubes surgida em meados do século XVII. A princípio, não eram grandes veículos de
discussões políticas diretas, tratavam de manifestações artísticas (peças de teatro, literatura),
publicavam contos, retratavam acontecimentos da vida cotidiana europeia, curiosidades etc.

O conteúdo dessas manifestações pode parecer um tanto trivial, contudo, seus editores
demandavam de seus leitores uma ampla participação: pedindo que cartas com opiniões sobre
todos esses assuntos fossem enviadas, sendo a maioria publicada. Isso estimulava uma
cultura de troca de opiniões, um ambiente cultural de debate diversificado e fazia com que os
jornais tivessem uma função de fóruns de discussão.

 Figura 18. A Liberdade guiando o povo, por Eugène Delacroix

Já os acontecimentos políticos ganhariam destaque com os eventos efervescentes da


Revolução Francesa: pelo menos 250 jornais foram fundados nos últimos seis meses do ano
de 1789 na França. O ambiente político tumultuado do fim do século XVIII e da maior parte do
século XIX (marcado por guerras, revoluções e movimentos populares de todo tipo) não
somente estimulou os jornais a tratar os acontecimentos políticos, mas também uma cultura
de panfletos de associações e movimentos sociais dos mais diversos: operários, sufragistas
(defensores da ampliação do direito de voto) etc.

Todos esses fatores foram fundamentais para emergência do que chamamos de esfera
pública. Apesar de seu desenvolvimento ter sido iniciado em ambientes informais (cafés,
salões, clubes e associações) em função da censura dos governos monárquicos da época, o
período de revoluções (Revolução Inglesa, Revolução Americana, Revolução Francesa e as
Revoluções de 1830 e 1848) foi transformando a realidade política mais centralizada, fechada e
aristocrática em formas políticas, republicanas e democráticas mais abertas. Assim, houve a
ampliação da esfera de debates, opinião e discussão sobre os assuntos políticos, sociais e
culturais, formando, portanto, as bases da esfera pública moderna.

Os debates que eram reservados apenas às discussões orais em ambientes informais


ampliaram sua circulação por meio de jornais, revistas e periódicos de todos os tipos, podendo
ser acessados por um grande público e discutidos nos mais diversos espaços sociais. Essa
esfera, abstrata por ser discursiva (independente do meio pela qual se propaga) e se situando
no espaço onde discussões e debates ocorrem (formais ou informais), é o que chamamos de
esfera pública – sendo que a sua formação teve uma imensa influência e importância para o
desenvolvimento das democracias como as conhecemos atualmente.

No século XIX, a esfera pública se opõe à esfera íntima, espaço da intimidade e da privacidade,
ou seja, a dimensão das relações íntimas, da família, dos sentimentos pessoais. Por muitas
décadas tratava-se de duas esferas distintas e rigidamente separadas. Atualmente, poderíamos
dizer que as fronteiras entre elas se tornaram muito mais difusas. Além disso, com a
multiplicação de novas mídias para além do texto impresso em função da multiplicação de
novas tecnologias comunicacionais no século XX (primeiro o rádio, depois a televisão, e no
final do século XX a internet), pode-se dizer que emergiram novas arenas constituintes da
esfera pública.
 Fonte: blackzheep/Shutterstock.

Do mesmo modo, pode-se dizer que dos séculos XVIII e XIX aos séculos XX e XXI, ocorreu uma
transformação na esfera pública muito grande com o surgimento da mídia de massa, que
profissionalizaria todas as etapas de produção técnica da comunicação, formando grupos
comerciais de comunicação, entre outros. Para muitos estudiosos da esfera pública, da mídia e
da teoria da comunicação, tal mudança causou grandes transformações na esfera pública do
século XX aos dias atuais.

HABERMAS E O DEBATE CONTEMPORÂNEO


SOBRE A ESFERA PÚBLICA

 Figura 20. Jürgen Habermas em 2007

No que se refere aos debates contemporâneos sobre a esfera pública, um trabalho de grande
influência no tema foi a análise do filósofo alemão Jürgen Habermas no texto Mudança
estrutural da esfera pública (1962). Nessa obra, Habermas preocupa-se em reconstituir a
gênese histórico-sociológica da esfera pública e percebe que, em suas origens, ela envolvia a
reunião de indivíduos igualitariamente como em um fórum para o debate público. Esse período
inicial de desenvolvimento da esfera pública é chamado por Habermas de esfera pública
burguesa.

Entretanto, em sua perspectiva, essa promessa inicial de desenvolvimento da esfera pública


não se cumpriu: a emergência da mídia comercial, com uma linguagem de massa e baseada no
entretenimento, teria feito a esfera pública definhar gradualmente.

Pela mídia comercial ser prisioneira da renda das propagandas e dos índices de audiência,
haveria uma deformação de toda a possibilidade de formação de um debate público racional e
aberto, sendo que a manipulação e o controle da audiência com fins de audiência por meio do
entretenimento também começam a surgir.

Assim, a esfera pública deixa de ser uma arena de debates e torna-se uma esfera onde o
consenso é fabricado pela publicidade. Essa atrofia da esfera pública, causada em parte pela
mídia de massas, faz com que o entretenimento prevaleça sobre os debates e as polêmicas,
enfraquecendo a participação dos cidadãos no debate público. Isso produziu um deslocamento
na avaliação da importância da mídia com relação à esfera pública: de uma promessa capaz de
engajar muitos indivíduos de maneira igualitária na arena dos assuntos públicos, ela teria –
com a mídia de massa – mudado de foco e passado a constituir-se como parte dos problemas
que concorrem contra o amadurecimento da esfera pública.

MUDANÇAS NA RELAÇÃO ENTRE AS ESFERAS


ÍNTIMA E PÚBLICA: RICHARD SENNETT E AS
TIRANIAS DA INTIMIDADE
Outra análise de grande importância nos estudos relativos às transformações na esfera pública
contemporânea aparece no livro, do sociólogo Richard Sennett, O declínio do homem público: as
tiranias da intimidade (1977). Para o sociólogo americano, a distinção entre as esferas pública e
íntima tem se tornado cada vez mais tênue e diluída, sendo que nas últimas décadas podemos
falar de uma “colonização da esfera pública pela esfera íntima”.

 Figura 21. Richard Sennett em 2010

Isso se daria em função do fenômeno midiático da excessiva publicidade ao redor das grandes
personalidades, o que afetaria a vida pública no sentido de as características pessoais e
sentimentais dos homens públicos (sua vida privada, honestidade e sinceridade) terem
ganhado mais importância do que características fundamentais em outros períodos, como o
comprometimento público, a dedicação aos assuntos políticos etc.

 RESUMINDO

Vamos recuperar o nosso debate:

A noção de que o espaço público é de um coletivo limitado para informações é ilusória.


Demonstramos que a esfera pública sempre existiu – só não tinha essa concepção, essa
materialização. O que Sennett aponta, cria, discute, é que o fato de haver uma mudança
significativa do privado, retirando de esferas públicas elementos que não se tinha clareza de
que eram intercessões, criando um novo espaço, uma nova esfera e que – dialogando com o
primeiro módulo – transforma a política como um exercício da esfera pública, retirando seus
aspectos privados e modificando suas dinâmicas privadas como contra o interesse público.

Vamos ouvir o professor Rodrigo Rainha refletindo sobre esfera pública.

VERIFICANDO O APRENDIZADO

MÓDULO 3

 Reconhecer a relação entre poliarquia e novas mídias


POLIARQUIA

 Figura 22. Robert Dahl em 1966

O conceito de poliarquia foi desenvolvido pelo cientista político estadunidense Robert Dahl
como uma forma mais realista de avaliar os regimes políticos contemporâneos. Em função de
nenhum país contemporâneo conseguir encarnar em níveis absolutos a ideia de uma
democracia plena, Dahl concebeu seu conceito de poliarquia como um modo de categorizar e
nivelar o quanto os regimes políticos existentes se aproximam de um regime mais ou menos
democrático.

ROBERT DAHL

Robert Dahl (1915-2014), cientista político e um dos mais importantes nomes da ciência
política americana, foi considerado figura vital uma vez que, diante de um mundo polarizado,
conseguiu fugir das relações de conflito entre EUA e URSS, buscando conceber dinâmicas de
funcionamento político e superando a ideologização vivida.

O conceito de poliarquia é desenvolvido e categorizado em dois livros de Dahl, Um prefácio à


teoria democrática (1956) e Poliarquia: participação e oposição (1971). Os temas centrais
desses dois livros são abordados em uma obra mais acessível, atualizada e com um caráter
mais didático: A democracia e seus críticos (1989). De maneira geral, definem-se como uma
poliarquia plena os sistemas democráticos modernos em funcionamento nos países
desenvolvidos.

Levando em conta o conjunto de obras mencionado anteriormente, poderíamos dizer que as


características apontadas para o desenvolvimento de uma poliarquia plena (ou seja, de um
regime político com características contemporaneamente consideradas democráticas,
exercidas de maneira ampla e generalizada) são de duas naturezas:

Relativas a um critério ligado às oportunidades disponíveis aos cidadãos e suas


instituições
Relativas ao seu caráter moderno, dinâmico e plural

Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem horizontal

CARACTERÍSTICAS DAS INSTITUIÇÕES E OS


DIREITOS NECESSÁRIOS
À EXISTÊNCIA DE UMA POLIARQUIA
Para Dahl (2005), a democracia é um sistema político que tem, como uma de suas
características, a qualidade de ser inteiramente, ou quase, responsivo a todos os seus
cidadãos. Para que um sistema seja considerado democrático sob as condições delimitadas,
todos os cidadãos devem ter oportunidades plenas de:

Formular suas preferências;


Expressar suas preferências a seus concidadãos e ao governo por meio da ação individual e da
coletiva;


Ter suas preferências igualmente consideradas na conduta do governo, ou seja, sem
discriminação decorrente do conteúdo ou da fonte de preferência.

Para que essas preferências sejam devidamente passíveis de prática, é necessário um conjunto
de garantias institucionais, como podemos ver a seguir:

Ter preferências
Para a
Formular Exprimir igualmente
oportunidade
preferências preferências consideradas na
de:
conduta de governo:
São Liberdade de Liberdade de Liberdade de
necessárias formar ou formar ou formar ou
as seguintes aderir aderir aderir
garantias organizações; organizações; organizações;
institucionais:
Liberdade de Liberdade de Liberdade de
expressão; expressão; expressão;

Direito de Direito de Direito de voto;


voto; voto;
Elegibilidade
Direito de Elegibilidade para cargos
líderes para cargos públicos;
políticos políticos;
disputarem Direito de
apoio; Direito de líderes políticos
líderes disputarem
Fontes políticos apoio;
alternativas disputarem
de apoio; Fontes
informação. alternativas de
Fontes informação;
alternativas
de Eleições livres e
informação; idôneas;

Eleições Instituições
livres e para fazer com
idôneas. que as políticas
governamentais
dependam de
eleições e de
outras
manifestações
de preferência.
Atenção! Para visualizaçãocompleta da tabela utilize a rolagem horizontal

Fonte: DAHL, 2005. p. 27. (adaptado)

Quanto mais inclusivas são essas oportunidades, maiores podem ser os níveis de contestação
e, portanto, o nível de responsividade de determinado sistema político; e, desse modo, maior
poderá ser o nível de uma poliarquia. Entretanto, não são apenas esses conjuntos de
oportunidades referidos às garantias institucionais delimitadas anteriormente que atestam o
funcionamento de uma poliarquia e sua estabilidade. Existem, além das características
elencadas, um conjunto de fatores que está interrelacionado à existência de uma poliarquia,
como veremos no próximo tópico.

OUTROS FATORES QUE PROPICIAM A


FORMAÇÃO E ESTABILIDADE
DE UMA POLIARQUIA

SOCIEDADE MODERNA, DINÂMICA E PLURALISTA


(MDP):

De acordo com Dahl (2012), pode-se perceber que, historicamente, as sociedades associadas
ao desenvolvimento de uma poliarquia plena são marcadas por uma série de fatores
interrelacionados:

Nível relativamente alto de crescimento e de renda e riqueza per capita

Alto nível de urbanização

População agrícola em rápido declínio ou relativamente pequena

Grande diversidade ocupacional


Ampla alfabetização

Número comparativamente grande de pessoas que frequentaram instituições de nível


superior

Ordem econômica na qual a produção é desenvolvida principalmente por empresas


relativamente autônomas e cujas decisões são orientadas para mercados nacionais e
internacionais em níveis relativamente altos de indicadores convencionais de bem-estar,
como médicos e leitos hospitalares para cada mil pessoas, a expectativa de vida, a
mortalidade infantil, a porcentagem de famílias com diversos bens de consumo duráveis
e assim por diante.

Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem horizontal

Muitos desses fatores podem ser condensados em três ideias-chave: modernidade, dinamismo
e pluralismo social.

Sobre a ideia de modernidade, podem ser compreendidos fatores como níveis mais altos de
riqueza, renda, consumo e educação; maior diversidade ocupacional, ou seja, ampla gama de
empregos diversificados; aumento da população urbana em proporção à rural; diminuição
crescente da importância econômica da agricultura em função de setores econômicos que
agregam maior valor à produção.

Sobre a categoria do dinamismo, podemos compreender fatores como o crescimento


econômico, a competição empresarial e a possibilidade da ascensão do padrão de vida. E, por
fim, sobre o pluralismo, seriam fatores como uma ampla gama de associações, grupos e
organizações relativamente autônomos, particularmente no âmbito da esfera econômica.

 Fonte: Rawpixel.com/Shutterstock.

Essas três ideias condensam uma série de fatores econômicos, sociais e técnicos que formam
o que Dahl conhece por países ou sociedades modernas, dinâmicas e pluralistas (o que o
cientista político chama de MDP).

De acordo com Dahl (2012), uma sociedade ou um país com os fatores agregados ao MDP é
marcado pelas seguintes características:
A dispersão dos recursos políticos, tais quais o dinheiro, o conhecimento, o status e o acesso
às organizações;


A dispersão das localizações estratégicas, particularmente em assuntos econômicos,
científicos, educacionais e culturais;


A dispersão das posições de negociação, tanto manifestas quanto latentes, nos assuntos
econômicos, na ciência, nas comunicações, na educação e em outras áreas.

Uma sociedade com essas características tende a promover a inibição da concentração de


poder em poucas pessoas ou grupos, dispersando-o entre uma série de grupos e pessoas
independentes. Além disso, esses fatores favorecem atitudes, convicções e crenças favoráveis
às ideias democráticas, como a de que ganhos conjuntos podem ser obtidos com o aumento
dos resultados e de que a negociação e a barganha podem levar a acordos benéficos para toda
a sociedade.

Portanto, essas características podem promover um sistema político competitivo no qual o


acordo é considerado normal: sem que as partes políticas em oposição sejam vistas como
inimigas ou dispostas em um conflito impossível de ser equilibrado. Mas a relação entre MDP e
poliarquia não é uma relação de causa e efeito: uma sociedade com MDP pode não ser
necessária e nem suficiente para garantir a poliarquia – historicamente, existem exceções a
isso.

MÍDIA E POLIARQUIA: ALFABETIZAÇÃO,


EDUCAÇÃO, INFORMAÇÃO
E PLURALISMO
O conjunto de oportunidades plenas que os cidadãos devem ter em um sistema considerado
como uma poliarquia (formular, exprimir e ter preferências igualmente consideradas na
conduta do governo) depende de várias garantias institucionais, entre elas duas que são
interrelacionadas à mídia: a liberdade de expressão e o acesso a fontes alternativas de
informação.

Quando falamos aqui em liberdade de expressão, trata-se de liberdade de crítica (no sentido
filosófico do termo, como vimos quando tratávamos da gênese da esfera pública), que
poderíamos condensar com a seguinte definição:

O DIREITO PROTEGIDO POR LEI À LIBERDADE DE


EXPRESSÃO, PARTICULARMENTE À EXPRESSÃO
POLÍTICA, INCLUINDO A CRÍTICA ÀS AUTORIDADES, À
CONDUTA DE GOVERNO, AO SISTEMA POLÍTICO,
ECONÔMICO, SOCIAL E À IDEOLOGIA DOMINANTE.

(DAHL, 2012)

Quanto ao acesso a fontes alternativas de informação, Dahl (2012) as define do seguinte


modo: acesso a fontes alternativas de informação que não sejam monopolizadas pelo governo
ou por nenhum outro grupo em particular.

Mas vejamos que esses itens não se sustentam autonomamente, eles estão vinculados a
quatro fatores:

Alfabetização

Educação

Informação

Pluralismo

Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem horizontal


O acesso à informação plural por um público alfabetizado e que tenha ao menos um nível de
instrução médio é um fator muito mais importante para a formação de uma poliarquia que
outros fatores elencados. Eles são fundamentais para a produção de uma opinião pública que
possa amadurecer ao longo do tempo. Além disso, a correlação entre alfabetização ampla,
acesso à educação – mesmo que modesta – e de uma pluralidade de meios de informação
pode fazer com que países e sociedades satisfaçam os níveis mínimos requeridos para o
funcionamento de uma poliarquia, mesmo em sociedades predominantemente agrícolas e que
não tenham nenhuma indústria.

Em países onde se generalizou o acesso às primeiras letras e onde houve uma prematura
ampliação dos meios de informação escritos, formou-se precocemente alguma forma de
poliarquia, mesmo em condições rurais, como, por exemplo, Nova Zelândia, Austrália, Canadá,
Noruega, Finlândia e Islândia.

O CONTROLE CIVIL DA COERÇÃO VIOLENTA

 Fonte: bgrocker/Shutterstock.

Um fator de grande importância para a formação e estabilidade de uma poliarquia é aquilo que
Dahl chama de controle civil da coerção violenta, ou seja, a submissão das forças policiais e
militares ao poder civil. Uma das características do Estado são seus instrumentos para coerção
física cuja tarefa é a ameaça ou o emprego da violência para a manutenção da ordem e da
segurança.

Nos parâmetros de uma poliarquia, duas condições são necessárias para o exercício
democrático: 1) Que o poder civil seja capaz de efetivar o controle das forças de coerção
(militares e policiais); 2) Que os próprios civis que controlam as forças de coerção estejam
sujeitos ao processo democrático.

Historicamente, quatro fatores têm ajudado nessa questão:

Quando países reduzem seus contingentes militares e policiais à sua virtual


insignificância (como nos casos do Japão e da Costa Rica).

Quando as forças militares ou policiais são dispersadas em seus comandos em uma


série de controles locais (o que é comum nos países de língua inglesa).

Quando as tropas militares são formadas por pessoas com fortes convicções
democráticas compartilhadas pela sociedade civil (como no caso da Europa pós-
Segunda Guerra Mundial, onde as tropas terrestres são formadas por alistamento para
breves períodos – ou seja, todos são civis de uniforme).

O profissionalismo militar doutrinário, que incute nos militares profissionais a criação e a


manutenção de crenças relacionadas ao regime democrático ao qual estão submetidos
e que devem proteger por fidelidade.

Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem horizontal

O quarto fator citado pode causar certas distorções, de acordo com Dahl:

TODAVIA, SOB CERTAS CIRCUNSTÂNCIAS, O CONTROLE


CIVIL DE UMA INSTITUIÇÃO MILITAR PROFISSIONAL NUM
PAÍS DEMOCRÁTICO PODE SER PREJUDICADO. O
CONTROLE CIVIL É AMEAÇADO QUANDO O
PROFISSIONALISMO CRIA UM PROFUNDO ABISMO
SOCIAL E PSICOLÓGICO ENTRE OS MILITARES E CIVIS, DE
FORMA QUE, COMO OCORREU NO BRASIL EM 1950 E
1960, OS MILITARES SE TORNAM UMA ORDEM SOCIAL
CLARAMENTE À PARTE, UMA CASTA MILITAR ISOLADA
DA SOCIEDADE CIVIL. OU AINDA, SE OS PROFISSIONAIS
ACREDITAM QUE OS INTERESSES FUNDAMENTAIS DA
INSTITUIÇÃO MILITAR ESTÃO AMEAÇADOS PELA
LIDERANÇA CIVIL, É PROVÁVEL QUE RESISTAM AO
CONTROLE CIVIL E É POSSÍVEL QUE O REJEITEM
INTEIRAMENTE, COMO OCORREU NO BRASIL EM 1964,
EM GANA EM 1965, E NA ARGENTINA, REPETIDAS VEZES,
ENTRE 1955 E 1983.

(DAHL, 2012, p.392-393)

Assim, lideranças militares podem também, se não são devidamente doutrinadas pelo
profissionalismo militar na crença e no dever de proteger o governo ao qual devem se
submeter, ameaçar a estabilidade de uma poliarquia plena.

 Figura 25. Militares protegendo o Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro, durante o Golpe
Militar no Brasil em 1964

Em outras palavras, podem, em função de desordem, conflito civil, polarizações agudas, crises
econômicas contínuas, efetivar golpes militares – e desarticular poliarquias instáveis, como
ocorreu no Brasil em 1964, no Chile e no Uruguai em 1973 e na Argentina em 1976. A presença
ou ausência de uma poliarquia não pode ser definida apenas pelo controle civil da coerção
violenta, mas esse fator é um elemento que contribui para a estabilidade de um sistema
poliárquico.
NOVAS MÍDIAS, NOVOS ATORES: A ESFERA
PÚBLICA CONTEMPORÂNEA
Cientistas sociais sérios não costumam fazer muitas previsões quando se defrontam com
fenômenos novos ou se encontram em meio a processos em curso: é sabido que é mais fácil
compreender rigidamente processos que se estabilizaram ou ciclos de mudança que já
terminaram.

Nos últimos 30 anos, com a expansão da internet e de outras redes de computadores,


atividades econômicas, sociais, políticas e culturais têm sido cada vez mais estruturadas ao
redor dessas novas redes informacionais, transformando nesse processo muitos modos
tradicionais de nos relacionarmos, trabalharmos, produzirmos e a maneira como a esfera
pública funciona.

 Fonte: ArtShotPhoto/Shutterstock.

Apesar dessa ampla difusão e popularização tecnológica sem precedentes, a lógica, a


linguagem e os limites da internet ainda não são completamente compreendidos pelas
disciplinas acadêmicas que não pertencem diretamente a essa esfera tecnológica. A
velocidade de transformação tecnológica, em ciclos mais curtos, ligada à emergência de novos
serviços e mídias, contando com um número maior de agentes engajados em suas diversas
utilizações, vem tornando cada vez mais difícil uma análise aprofundada desses fenômenos.
Trata-se de um desafio para a pesquisa acadêmica, por isso há certa dificuldade para produzir
estudos empiricamente embasados que analisem com rigor as transformações econômicas,
políticas e sociais causadas pela aplicação crescente das tecnologias informacionais.

Esse vácuo de conhecimento acerca dos efeitos, limites e consequências múltiplas da


expansão crescente dessas novas tecnologias tem sido preenchido frequentemente mais pela
boataria, pelas visões utópicas ou distópicas e pela ideologia que permeiam a compreensão
dos fenômenos ligados a esse tema, o que é comum ocorrer em tempos de rápida mudança
social.

As últimas décadas têm sido repletas de previsões futurológicas apresentando um porvir de


consequências simplistas baseadas nas maravilhas da tecnologia, enquanto, por outro lado,
surgiram imagens de distopias críticas sugerindo os efeitos alienantes da internet antes
mesmo deles acontecerem. Paralelo a isso, a mídia desejosa de informar seu público ansioso
por novidade, mas carente das capacidades de analisar de modo rigoroso e embasado as
diversas transformações em curso, espalhou boa parte dessas previsões futurológicas –
negativas e positivas – com todos os elementos descritos (CASTELLS, 2003 p. 8-9).

O aumento de agentes operando nas redes de computadores, que tem se expandido


massivamente nas últimas décadas, gerou efeitos ambivalentes. Por um lado, foi
extremamente importante na emergência de movimentos populares em diversos países, como,
por exemplo: a Primavera Árabe, em 2011, possibilitada pela internet e pelas redes sociais; o
Occupy Wall Street, também em 2011; as manifestações ocorridas na Turquia, em 2013, no
Brasil, em 2013 e 2014, e também no Chile, em 2011 e 2013 (CASTELLS, 2017). Por outro lado,
as relações entre os meios de comunicação e as redes sociais podem gerar efeitos corrosivos
e causar crises no funcionamento das democracias liberais:

NOSSAS VIDAS TITUBEIAM NO TURBILHÃO DE


MÚLTIPLAS CRISES. UMA CRISE ECONÔMICA QUE SE
PROLONGA EM PRECARIEDADE DE TRABALHO E EM
SALÁRIOS DE POBREZA. UM TERRORISMO FANÁTICO
QUE FRATURA A CONVIVÊNCIA HUMANA, ALIMENTA O
MEDO COTIDIANO E DÁ AMPARO À RESTRIÇÃO DA
LIBERDADE EM NOME DA SEGURANÇA. UMA MARCHA
APARENTEMENTE INELUTÁVEL RUMO À
INABITABILIDADE DE NOSSO ÚNICO LAR, A TERRA. UMA
PERMANENTE AMEAÇA DE GUERRAS ATROZES COMO
FORMA DE LIDAR COM OS CONFLITOS. UMA VIOLÊNCIA
CRESCENTE CONTRA AS MULHERES QUE OUSARAM SER
ELAS MESMAS. UMA GALÁXIA DE COMUNICAÇÃO
DOMINADA PELA MENTIRA, AGORA CHAMADA PÓS-
VERDADE. UMA SOCIEDADE SEM PRIVACIDADE, NA QUAL
NOS TRANSFORMAMOS EM DADOS. E UMA CULTURA,
DENOMINADA ENTRETENIMENTO, CONSTRUÍDA SOBRE O
ESTÍMULO DE NOSSOS BAIXOS INSTINTOS E A
COMERCIALIZAÇÃO DE NOSSOS DEMÔNIOS.

(CASTELLS, 2018, grifo nosso)

A ampliação das novas tecnologias tem, portanto, gerado efeitos ambíguos e ainda pouco
compreendidos em suas implicações diretas com o âmbito da esfera pública. Segundo Castells
(2018), a hipotética “ágora virtual”, profetizada por vários utopistas tecnológicos, tem gerado
muitos problemas em tempos onde as “notícias falsas” circulam na “velocidade do sinal
eletrônico”: gerando problemas de deslegitimação para as mídias tradicionais e nos
mecanismos institucionais das democracias estabelecidas.

 Fonte: Panchenko Vladimir/Shutterstock.

A própria popularização das notícias falsas nos meios digitais tem sido objeto de estudos na
área de Comunicação e Jornalismo: seja analisando suas peculiaridades atuais e sua
propagação nas redes, seja sob uma perspectiva de que se trata de um fenômeno semelhante
a outros já ocorridos anteriormente em momentos de ampliação da esfera pública e de meios
de informação alternativos.

É possível vermos positiva ou negativamente todos os fenômenos citados? É possível adotar


uma narrativa acerca do futuro da esfera pública e suas relações com as novas tecnologias
informacionais com o rigor acadêmico e alicerçado nos estudos de mídia e das Ciências
Sociais atuais? Muito tem sido produzido na área atualmente, mas é difícil analisar ainda todas
as suas consequências e os seus limites.

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