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UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS

CAMPUS CATALÃO

CURSO DE PSICOLOGIA

AMOM RODRIGUES DE MORAIS

Título: TRABALHO E SUBJETIVIDADE: UMA INVESTIGAÇÃO DA


PRODUÇÃO CIENTÍFICA NA PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL FRENTE
ÀS MUDANÇAS NO MUNDO DO TRABALHO

Catalão-2013
AMOM RODRIGUES DE MORAIS

TÍTULO: TRABALHO E SUBJETIVIDADE: UMA INVESTIGAÇÃO DA


PRODUÇÃO CIENTÍFICA NA PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL FRENTE
ÀS MUDANÇAS NO MUNDO DO TRABALHO

Artigo apresentado ao curso de


Psicologia da Universidade Federal
de Goiás – Campus Catalão, como
pré-requisito parcial para obtenção
do título de Bacharel em Psicologia,
sob a orientação do Professor
Maurício Campos

DADOS DE INDENTIFICAÇÃO Discente: Amom Rodrigues de Morais


Nº de Matrícula: 094419

Telefone: (64) 81723851

e-mail: amon_nh3@hotmail.com
“A economia é o método, mas o
objetivo é transformar o espírito”

Margaret Tatcher

“A Psicologia do Trabalho é uma


das disciplinas que foi a mais
fortemente condicionada pela luta
de classes e pela natureza de classes
do desenvolvimento científico”

Ivar Oddone
Resumo

O presente artigo tem como objetivo estabelecer a relação entre trabalho e constituição
da subjetividade, de modo mais específico no atual contexto da reestruturação do
mundo do trabalho. Pretendeu-se assim, investigar qual seria a posição e a relevância da
Psicologia Organizacional e do Trabalho no oque diz respeito à produção científica
quanto ao problema das mudanças organizacionais e suas respectivas implicações na
subjetividade do trabalhador. Foi realizada uma pesquisa bibliográfica, pesquisou-se,
dessa forma, em dois periódicos importantes desta área, realizando uma busca por
artigos que traziam em seus resumos a temática do trabalho e da subjetividade. Dos
resultados observou-se um reduzido número de artigos que tratam da temática em
questão. A partir desse pequeno número de artigos verificou-se que alguns acabam
enfatizando a relação entre mudança nas organizações do trabalho e transformações nas
formas de subjetivação do sujeito, no entanto, não foi encontrada uma análise mais
detalhada sobre a reestruturação produtiva e seus impactos subjetivos, muito menos uma
crítica consistente por parte da Psicologia do Trabalho frente às contribuições dos
dispositivos organizacionais atrelados à relação entre trabalho e subjetividade.

Palavras-Chave: Trabalho; Subjetividade; Reestruturação Produtiva;


Toyotismo.

Abstract

This article aims to establish the relationship between work and the constitution of
subjectivity, more specifically in the current context of the restructuring of the labor
market. The intention was thus to investigate what would be the position and relevance
of Work and Organizational Psychology in what regards scientific production to the
problem of organizational change and its implications on the subjectivity of the worker.
A literature search was performed, we looked at in this way, in two important journals
in this area by performing a search for articles that brought on their resumes the theme
of work and subjectivity. From the results we observed a reduced number of articles
dealing with the topic in question. From this small number of papers it was found that
some articles emphasizing the relationship between change in work organizations and
changes in the forms of subjectivity of the subject, however, no further analysis on
industrial structure and its subjective effects was found, much less a consistent criticism
from work Psychology forward to the contributions of trailers to the relationship
between labor and subjectivity organizational devices.

Keywords: Labor, Subjectivity; Productive Restructuring; Toyotism.


Sumário

1. INTRODUÇÃO ............................................................ Erro! Indicador não definido.


2. REFRENCIAL TEÓRICO ........................................................................................... 7
2.1 A centralidade ontológica do trabalho ........................................................................ 7
2.2 Subjetividade ............................................................................................................ 11
2.3 Subjetividade e o novo contexto do trabalho............................................................ 12
3. METODOLOGIA....................................................................................................... 15
4. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS ....................................................... 17
4.1 Categoria Subjetividade ............................................................................................ 22
4.2 Categoria Trabalho ................................................................................................... 27
4.3 Categoria Trabalho e Subjetividade ......................................................................... 30
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................... 34
REFERÊNCIAS .............................................................. Erro! Indicador não definido.
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1. INTRODUÇÃO

O presente artigo tem como principal objeto de discussão a ênfase na relação


entre trabalho e subjetividade e suas configurações no contexto da reestruturação
produtiva. Além de problematizar suas implicações para os processos organizacionais
do trabalho. Nesse contexto da reestruturação produtiva, se destaca um novo cenário do
mundo do trabalho, que surge sob a acumulação que é mais flexível em relação à forma
mais rígida de produção no Taylorismo/fordismo, isso se mostra através das inovações
organizacionais, tecnológicas e informacionais.

O elemento informacional é o grande inovador nesse novo contexto, pois a


dimensão cognitiva do trabalho é apropriada no processo de geração de valor e assim
também a dimensão intelectual é agregada na mais valia, servindo a novos métodos de
controle e subordinação do sujeito do trabalho. Desse modo, tem-se uma reorganização
dos métodos de produção do mais valor, tendo como característica fundamental a busca
de novas formas de organização do trabalho mais adequadas para potencializar a
reprodução do capital em tempos extremamente competitivos. Nesse sentido, é bem
expressivo o slogan adotado pela Toyota na unidade de Takaoka: “bons pensamentos
significam bons produtos” (ANTUNES, 2005, p.19). Partimos assim, do pressuposto de
que os princípios organizacionais, muitos inspirados no Toyotismo, possuem um nexo
essencial e profundo com o envolvimento da subjetividade do trabalhador.

Sendo assim, procuramos investigar qual a contribuição da Psicologia, mais


especificamente na sua abordagem organizacional e do trabalho, para o aprofundamento
das transformações no bojo da reestruturação produtiva. Tivemos como objetivo geral
problematizar as formas, técnicas, estratégias, e dispositivos organizacionais que vem
contribuindo para modificar as relações de trabalho na direção de um envolvimento
subjetivo cada vez maior dos trabalhadores.

Consideramos aqui a heterogeneidade epistemológica, conceitual,


metodológica e técnica da Psicologia do Trabalho e em função disso, existem várias
olhares para a relação entre trabalho e subjetividade e dessa forma, há práticas
diferentes de lidar com o trabalho e os trabalhadores. Levamos em conta as práticas
hegemônicas em administração de recursos humanos, ou gestão de pessoas. Como
sabemos há um predomínio do recrutamento, treinamento e seleção de pessoas. E mais
6

recentemente, novos termos aprecem como: people, empowerment (Essa expressão


significa a capacitação de pessoas), dentre outros. Verifica-se que mudanças na gestão
organizacional conduz a mudanças na forma como a Psicologia nela atua, demandando
desta, o conhecimento e o desenvolvimento de técnicas (entrevistas, testes
psicométricos etc.). Porém, partimos, nesse estudo, da ideia de campo da Psicologia
Social do Trabalho crítica, que se pretende mobilizar um projeto ético-político de
atuação e abordagem (Conselho Federal de Psicologia, 2010, p.21), na qual venha trazer
contribuições sobre a relação entre trabalho e sociedade, contestando as formas
contemporâneas de produção da subjetividade, tecendo críticas às práticas
organizacionais que tem em suas bases ideológicas um compromisso com o lucro em
detrimento do trabalhador.

Dessa forma, realizamos uma pesquisa bibliográfica para verificarmos


quantitativa e qualitativamente a produção de conhecimentos na área de Psicologia do
trabalho e Organizacional e analisar como essa ciência vem abordando a temática do
trabalho e da subjetividade, considerando as transformações no mundo do trabalho.
Pesquisou-se, dessa forma, em dois periódicos importantes desta área, realizando uma
busca por artigos que traziam em seus resumos a temática do trabalho e da
subjetividade. Os periódicos investigados foram: Cadernos de Psicologia Social e do
Trabalho; e Revista de Psicologia Organizacional do Trabalho. Somado todos os
artigos lidos contabilizam 12. Apenas 3,9% do total de artigos publicados por essas
duas revistas abordam as categorias Trabalho e Subjetividade aqui em questão. Desse
inexpressivo número, fizemos uma análise de como eram as formas de conceituação e
teorização sobre o trabalho e a subjetividade. Constatou-se que alguns artigos acabam
enfatizando a relação entre mudança nas organizações do trabalho e transformações nas
formas de subjetivação do sujeito, no entanto, não foi encontrada uma análise mais
detalhada sobre a reestruturação produtiva e seus impactos subjetivos, muito menos
uma crítica consistente por parte da Psicologia do Trabalho frente às contribuições dos
dispositivos organizacionais atrelados à relação entre trabalho e subjetividade. O que
justifica ainda mais a necessidade de se debater a problemática aqui posta, bem como a
construção de um projeto ético-político para a ciência e profissão da Psicologia
priorizando a avanço para um modelo de sociedade mais justa e igualitária.

Para tanto, tentou-se resgatar a seguir no referencial teórico as perspectivas


que abordassem a dimensão ontológica do trabalho e da subjetividade objetivando
7

constituir uma justificativa da centralidade fundamental do trabalho na vida de qualquer


ser social. Apesar das múltiplas transformações na sociedade contemporânea, a
categoria trabalho ainda permanece central em nossa análise. Na sequência, foi descrita
a metodologia apontando os passos necessários na construção do presente trabalho. Por
conseguinte, foi feita a discussão dos resultados encontrados na pesquisa bibliográfica
através da análise de conteúdo a partir de três categorias mais relevantes, Trabalho e
Subjetividade e suas relações. Por fim, concluímos com as considerações finais
destacando a necessidade da Psicologia, enquanto ciência e profissão crítica se dedicar
através de mais pesquisas na problemática da subjetividade nas novas organizações do
trabalho.

2. REFRENCIAL TEÓRICO

2.1 A centralidade ontológica do trabalho

Ainda hoje se discute a polêmica sobre o status da centralidade do trabalho no


mundo contemporâneo. Em meio a tantas teorias que anunciam o fim do trabalho na era
“pós-industrial” e a aparente perda de relevância dos estudos investigativos acerca do
trabalho, se faz necessário retomar a discussão filosófica acerca da constituição
ontológica pela atividade do trabalho como categoria fundante do ser social.

Segundo Wanderlei Codo (1996), não será na psicologia ou na sociologia que


há de se buscar inspiração para uma definição do trabalho. Pois essas são ciências
derivadas de uma fragmentação do conhecimento e como demonstra seu valor
heurístico através da história não se prestam a aprofundar categorias ontológicas. Nesse
sentido a filosofia nos seria de grande valor.

Quando se pretende tamanho desafio de definir trabalho ontologicamente é


necessário resgatar hoje na esfera intelectual as metanarrativas tão depreciadas
ultimamente, principalmente nos discursos pós-modernos. Discursos que relegaram ao
anacrônico qualquer tentativa de abarcar a totalidade da realidade humana dentro de
uma única teoria. Mais especificamente, quando se trata do tema do trabalho é
imprescindível resgatar na literatura quem tratou com privilégio o conceito do mesmo.
8

Para àqueles que se propõe a uma análise crítica, buscar a essência do fenômeno do
trabalho deve se remeter, necessariamente, a Karl Marx.

Para Marx antes de discorrer sobre o processo de trabalho característico e


particular no modo de produção capitalista era indispensável versar a respeito da
generalidade e do caráter essencial da atividade trabalho como processo de mediação do
Homem com a natureza externa e com a sua própria. Assim disse ele:

Antes de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e a natureza,


um processo em que o homem, por sua própria ação, media,regula e
controla seu metabolismo com a Natureza. Ele mesmo se defronta
com a matéria natural como uma força natural. Ele põe em movimento
as forças naturais pertencentes a sua corporalidade, braços e pernas,
cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma
útil para sua própria vida. Ao atuar, por meio desse movimento, sobre
a Natureza externa a ele e ao modificá-la, ele modifica, ao mesmo
tempo, sua própria natureza. Ele desenvolve as potências nela
adormecidas e sujeita o jogo de suas forças a seu próprio domínio.
(MARX, 1996, p.282).

Ao dizer isso, Marx (1996) não está se referindo às formas primitivas de


trabalho instintivo. Não se trata apenas das primeiras formas de trabalho humano, pois
quando um sujeito vende sua força de trabalho no mercado hoje, ele num processo que
se remete a um movimento dialético de transformação recíproca, põe em efetivação a
mudança da realidade objetiva a sua volta e desenvolve potencialidades latentes ou
mesmo destrói, no caso do trabalho alienado. Ou seja, independente da transformação
fenomênica, ou como as formas de trabalho nos aparece condicionadas pelo tempo e
espaço sócio histórico, há algo de universal essencialmente predominante na atividade
do trabalho humano em todo tempo e lugar.

Estamos a nos referir de modo específico ao trabalho fundamentalmente


humano, mesmo com as objeções da descoberta de animais que realizam “trabalho”, há
algo muito diferencial na definição de trabalho humano no Capital de Marx (1996,
p.283). Ele propõe um exemplo diferencial:

o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu


o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera. No fim do
processo de trabalho obtém-se um resultado que já no início deste
existiu na imaginação do trabalhador, e, portanto, idealmente.
(MARX, 1996, p.283).

O homem, dessa maneira, não apenas efetua uma ação mecânica na forma da
matéria natural, mas ele faz uma ação transformadora na matéria de acordo com seu
9

objetivo, o qual ele sabe que determina a espécie e o modo de sua atividade. O homem
concebe uma ideia e planeja um fim, o qual vem a se efetivar na transformação da
natureza pela escolha consciente dos meios.

Portanto, os homens, assim como os animais precisam necessariamente efetuar


uma contínua transformação na natureza para viver. Entretanto, diferentemente da
esfera biológica, o homem faz a transformação da natureza teleologicamente posta, ou
melhor, o caráter teleológico dessa atividade humana é, pois o fim último do trabalho, o
seu resultado, é previamente construído nas subjetividades, que atende uma finalidade
que orientará todas as ações que virão a seguir (LUKÁCS, 2010).

Fundamentado diretamente em Marx, Lukács (2010), propõe momentos


determinantes na categoria trabalho. O primeiro, o momento da objetivação, é definido
como o conjunto de ações que transforma a prévia ideia, ou a finalidade concebida na
consciência em um produto objetivo. Essa mesma objetivação é a mediação que articula
a teleologia; uma abstração singular de um sujeito vem a ser um novo ente objetivo.
Mas isso está longe de ser um suposto idealismo, que propõe uma primazia da ideia
sobre a matéria, pois nessa perspectiva a objetivação indica que ao transformar a
natureza, o individuo também se transforma, porque primeiramente ele desenvolve
novas habilidades no processo; depois para transformar o ser natural, é crucial que o
homem venha a desenvolver o conhecimento das leis e das determinações mais
importantes do setor da natureza que deseja transformar. Assim, toda objetivação resulta
em novos conhecimentos e novas habilidades e competências, com isso o individuo não
será o mesmo de antes.

Nesse sentido, a ação do trabalho não é apenas transformação da realidade, mas


é significativamente exteriorização de um sujeito, o segundo momento da categoria
trabalho. A transformação do real só se dá a partir de um dado desenvolvimento da
individualidade. E a exteriorização da individualidade é também uma exteriorização de
um dado desenvolvimento social. Esse desenvolvimento social é engendrado pelo
processo de objetivação e exteriorização onde trabalho e sociabilidade se constituem
dialeticamente através da generalização dos resultados objetivos e subjetivos
(LUKÁCS, 2012). Na medida em que os homens objetivam trabalho a totalidade do
ambiente, no qual está inserido o individuo, também se altera.
10

Ademais, quando se fala de generalização, compreende-se que os resultados,


(conhecimentos, habilidades, etc), obtidos do processo de objetivação e exteriorização
humana se transformam gradativamente de singulares em universais constitutivos de
uma dada totalidade social específica, que por sua vez, irá fazer com que todos que
vivam naquele ambiente, estejam expostos às consequências, e tenham que responder às
novas situações geradas pelas objetivações singulares dos outros indivíduos.
Consequentemente, isto altera a relação dos indivíduos consigo mesmos, com a natureza
e entre si. Observa-se, portanto, que o trabalho e suas mediações engendram a
transformação constante da totalidade do complexo social e a sociabilidade, por sua vez
está incessantemente em movimento e sujeita a mudanças, mudando também o
individuo. Isto é, o desenvolvimento social requer e possibilita o desenvolvimento da
individualidade. No entanto, este é um aspecto que expressa muitas contradições. Mas é
nessas contradições que há abertura para as contingências a despeito das relações
necessárias, e onde o novo aparece e a mudança ocorre.

Contudo, é pertinente ressaltar, em última análise, que quanto mais complexa


for a sociabilidade, quanto mais mediados socialmente forem os atos que os indivíduos
realizarem no cotidiano, tanto mais complexas serão as individualidades. E é nesse
movimento de sínteses mais abrangentes que os indivíduos passam de singulares
simples da espécie para personalidades mais complexas.

Diferentemente dos animais, os quais também realizam transformação na


natureza e por ela são transformados, a ação humana através do trabalho implica
mudança na natureza mais a produção de significado. “Trabalho é o ato de transferir
significado à natureza”, assim define sinteticamente Codo (1996, p.42) a significação do
trabalho humano, em sua constituição ontológica. Essa é uma das principais diferenças
do trabalho humano em relação aos outros animais.

Numa relação mecânica o sujeito se transforma ao transformar o objeto e vice


versa, no trabalho essa relação mecânica se abre a uma nova contingência: o
aparecimento do signo (“signo-ficare”), ou significado, que por sua vez se transforma e
é transformado pela ação recíproca do sujeito e ou do objeto (CODO, 1996, p.42).
Existe desse modo, uma dimensão que transcende a relação direta entre sujeito e objeto.

Há uma vantagem nessa introdução do significado na compreensão do


trabalho, pois torna sua definição mais ampla. Trabalho não se trata apenas da atividade
11

do emprego ou mercadoria, ele é gesto que se transcende em um significado que


permanece. Tendo em vista, que somos animais históricos inseridos em um determinado
complexo social, qualquer trabalho irá gerar significado, ou para o agente da ação; ou
para todos aqueles que compartilham em uma dada comunidade do significado social do
trabalho. O trabalho se acumula pelo seu significado sedimentado historicamente. Estas
ideias se encaixam naquilo que Lukács (2012) havia dito das três categorias primordiais:
sociabilidade, Trabalho e linguagem. Nesse contexto o trabalho exerce a mediação com
todas as categorias fundamentais e as desenvolve. Além do mais, observa-se que através
do trabalho há um impulso à generalização dando origem ao complexo social, o qual irá
sintetizar os atos e significados dos indivíduos singulares em tendências do
desenvolvimento histórico-genérico. Passamos a seguir à referência teórica do conceito
de subjetividade.

2.2 A subjetividade

Tendo em vista a discussão sobre o papel crucial do trabalho na subjetividade,


cabe-nos ressaltar que os processos de subjetivação do indivíduo, estão sempre
articulados com os sistemas de relações sociais. Nesse sentido, Gonzáles Rey (2003,
p.205) irá propor uma tensão recíproca entre a subjetividade social e a individual: “a
subjetividade social não é uma abstração, é o resultado de processos de significação e
sentido que caracterizam todos os cenários de constituição da vida social”. Dentro dos
processos de socialização e de desenvolvimento do indivíduo se dá a perpetuação dos
significados e sentidos que os caracterizam. A atuação de um sujeito no mundo tem
duas dimensões simultâneas, uma individual e outra social e as suas ações vão se
integrar no sistema da subjetividade social na qual comporta uma integração dialética e
contraditória entre indivíduo e sociedade.

Poderíamos dizer de duas faces da mesma moeda, uma individual e outra social
da subjetividade. Esta, para Rey (2003, p.252) “apareceria como forma de organização
da psique que tem no sentido subjetivo sua principal unidade constitutiva”. E a psique
dentro desta perspectiva é ontologicamente compreendida como sistema de sentidos que
de forma sintética e ativa produz as configurações subjetivas. Ou melhor, a psique faz a
12

síntese dos sentidos oriundos das experiências externas vivenciadas pelo sujeito no seu
desenvolvimento enquanto ser social.

Aqui, Significado e Sentido devem ser diferenciados: Significado pertence ao


que podemos chamar de ordem simbólica, ou universal, compartilhado por todos os
membros de um sistema de linguagem e o que garante a consistência de todo o campo
da experiência; ao passo que Sentido é uma ocorrência contingente local no âmbito do
não sentido. O significado é global, o horizonte que abrange os detalhes aparentemente
insignificantes. O sentido é produto de um encontro sem sentido, e de sorte. As coisas
tem significado, mas fazem sentido (ŽIŽEK, 2013).

Essa categoria de sentido subjetivo possibilita então a representação de cada


experiência do sujeito expressa em diferentes sentidos de acordo com o que ele já havia
elaborado de outras experiências passadas. Desse modo, é o sentido subjetivo que
garante a versatilidade de representações psíquicas das experiências histórico-sociais do
sujeito.

Já foi dito anteriormente, pelas ideias de Lukács, que o trabalho impulsiona à


formação da totalidade social, a qual sintetiza pelo processo de generalização os atos e
significados dos indivíduos singulares em tendência do desenvolvimento histórico-
universal. Sendo assim, o trabalho também impulsiona o movimento inverso, de
proporcionar ao sujeito um processo de subjetivação e de sintetizar através do sentido
particular as experiências vividas nas relações sociais genéricas. Isto nos permite
discorrer, como é a proposta do presente estudo, sobre duas categorias ontologicamente
importantes e inerentemente relacionadas, a saber, Trabalho e Subjetividade.

2.3 Subjetividade e o novo contexto do trabalho

Vimos em Marx (1998) e em Lukács (2012) que o trabalho funda o mundo dos
homens, na medida em que a história dos homens se torna a história da origem e do
desenvolvimento das formas de organização social. Essas formas surgem e se
desenvolvem, pois o ato de trabalho não produz apenas o objeto que dele resulta
imediatamente, mas muito mais. No âmbito objetivo ele produz novas situações
13

históricas, ao passo que no âmbito subjetivo também possibilita novas configurações


der ser no mundo.

Dito isso, proporemos articular uma sucinta descrição dos processos de


desenvolvimento das forças de produção no capitalismo atual, de modo a abarcar as
configurações da atual lógica de dominação do capital e as formas de organização do
trabalho nesse novo cenário com os modos e normas de socialização e, portanto, de
subjetivação.

Para tanto, utilizaremos o recurso da escola de regulamentação da qual David


Harvey (1992) também se utiliza como recurso heurístico. Em suas palavras, a escola de
regulamentação:

concentra sua atenção nas complexas inter-relações, hábitos, práticas


políticas e formas culturais que permitem que um sistema capitalista
altamente dinâmico e, em consequência, instável adquira suficiente
semelhança da ordem para funcionar de modo coerente ao menos por
um dado período de tempo. (HARVEY, 1992, p.117).

Portanto, observa-se a partir de tal perspectiva que nas relações entre


sociabilidade, trabalho e linguagem, mais um elemento de mediação necessita ser
incluído, a saber, a ideologia, cuja qual articula contraditoriamente a lógica necessária
de expansão do Capital (que é uma relação social) e os modos do ser subjetivo na vida,
expressos nos hábitos, comportamentos, valores e padrões de relações afetivas.

Seguindo tal abordagem, é pertinente, primeiro desenvolver uma tentativa de


descrever sinteticamente o cenário contemporâneo do mundo do trabalho. Segundo
Harvey (1992) o homem vive no atual contexto, àquilo que foi denominada
reestruturação produtiva do capital, iniciado por volta da década de 70, com as
revoluções técnicas informacionais instaurando um novo modo de acumulação
produtiva, a acumulação flexível. Esta se caracteriza a partir do confronto direto com
formas rígida do controle do processo produtivo e dos trabalhadores típico do fordismo.
A acumulação flexível instaura a “flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados
de trabalho, dos produtos e padrões de consumo” e “caracteriza-se pelo surgimento de
setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços
financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação
comercial, tecnológica e comercial” (Harvey, apud ALVES 2011, p.13).
14

Esse regime de acumulação flexível tem um impulso enorme a debilitar o


mundo do trabalho, promovendo alterações importantes na objetividade (e
subjetividade) da classe de trabalhadores assalariados (ALVES, 2011). As novas
condições do novo complexo de reestruturação produtiva são as inovações tecnológicas
e sociometabólicas e as inovações organizacionais. As estas inovações organizacionais
se atribui a influência da emergência do toyotismo que permeia o novo complexo de
reestruturação produtiva do capital. E essas inovações organizacionais possuem um
nexo essencial com a subjetividade do novo trabalhador moldado pelo toyotismo.

A ideologia orgânica do novo cenário contemporâneo do mundo do trabalho é


o toyotismo que expõe seus princípios técnico-organizacionais expressos em valores e
regras de gestão do trabalho vivo nas grandes empresas e que está presente nos mais
diversos negócios capitalistas seja no ramo privado, seja inclusive, na administração
pública, afetando até a prestação de serviços e hospitais. Além do mais, o sistema
Toyota de produção fundamentalmente tem necessidade de envolvimento dos operários
e empregados nos procedimentos técnicos e organizacionais da produção de
mercadorias e serviços (ALVES, 2011).

As novas técnicas e dispositivos organizacionais incluem entre outros: os


programas de qualidade, incluindo os círculos de controle de qualidade (CCQ), por
exemplo; a melhoria contínua (Kaizen); as células de produção e os grupos semi-
autônomos; o Just in time; o Kanbam; e as tecnologias de grupo (TGO). Assim as
velhas formas de gestão vão sendo substituídas por modos de gestão baseados na
excelência, na busca de qualidade total enfatizando a primazia do êxito, a
supervalorização da ação, pró-atividade, adaptabilidade e a polivalência da mão-de-obra
e a transformação das relações hierárquicas em relações verticalizadas (GOULART,
2002). Pode-se inferir a partir do que já foi dito do novo contexto do mundo trabalho,
que há um deslocamento do foco do componente manual do trabalho para o componente
intelectual implicando na exigência de qualificação cada vez maior do profissional.
Requer-se do trabalhador competências de leitura, interpretação de textos, raciocínio
abstrato, capacidade de trabalhar em grupos, facilidade de comunicação etc.

Nesse sentido, observa-se que a lógica do toyotismo não abre mão do


“engajamento” moral-intelectual dos empregados na produção do capital, isto implica a
necessidade do envolvimento intenso da subjetividade de quem trabalha, portanto o
15

toyotismo mobiliza a subjetividade, isto é corpo e mente, como nunca visto antes no
passado (ALVES, 2011, p.46). O engajamento estimulado, o envolvimento pró-ativo, a
manipulação dos valores, dos afetos, da atividade psíquica fazem parte da expropriação
do que há de mais particular no sujeito para fins de expansão interminável do lucro das
organizações e da ampliação do capital.

Através do espírito do toyotismo surge o imperativo da administração


participativa, são cobiçados agora os valores dos colaboradores, suas crenças, sua
interioridade, sua personalidade. Sob esta nova lógica de relação social no trabalho, o
homem produtivo é instigado a pensar mais, desde que seja de acordo com a nova
racionalidade instrumental do capital e em consenso com ele. O cérebro dos
empregados não está mais livre no trabalho como no taylorismo-fordismo. Agora, deve-
se combater nas organizações o pensamento crítico. Ao invés deste incentivam-se as
habilidades cognitivas e comportamentais, pró-ativas e propositivas no sentido
adaptativo, de modo a camuflar as agudas contradições desse novo modo de
organização do trabalho (ALVES, 2011).

O que fica claro para nós diante do sucinto panorama descrito à cima é a
urgente necessidade da psicologia do trabalho crítica, ter a responsabilidade por pensar
e investigar ainda mais a constituição ontológica da realidade humana e os problemas
das relações entre trabalho e subjetividade diante da condição em que ambos se
encontram. Condição esta, de refém dos movimentos (teóricos e técnicos) emergentes
da gestão de pessoas à serviço da expansão incontrolada do mais-valor/capital das
organizações. Passemos a seguir à descrição do método utilizado no presente estudo.

3. METODOLOGIA

Partindo da considerada necessidade da investigação de como a psicologia do


trabalho vem lidando com os problemas das relações entre trabalho e subjetividade no
mundo contemporâneo, optou-se por um procedimento metodológico de pesquisa
bibliográfica. A pesquisa bibliográfica caracteriza-se como modalidade de estudo e
análise de documentos de natureza científica tais como livros, periódicos, enciclopédias,
ensaios críticos, dicionários e artigos científicos.
16

No primeiro momento do presente trabalho, buscou-se o levantamento das


fontes de consulta através de leituras exploratórias, em seguida selecionaram-se
referenciais teóricos que melhor contemplam a temática a partir de uma perspectiva
crítica em diálogo com outros saberes, a exemplo da filosofia e das ciências sociais.

Em um segundo momento, ainda seguindo o modelo da pesquisa bibliográfica,


realizou-se uma busca por artigos científicos que tratassem em seu estudo dos aspectos
da subjetividade e do trabalho e da relação entre ambos. Desse modo, foi escolhida duas
revistas eletrônicas consideradas de maior publicação e relevância no campo da
psicologia do trabalho, a saber, a Revista de Psicologia Organizacional e do Trabalho
(UnB) e Cadernos de Psicologia Social do Trabalho (USP). Foi definido como critério
de seleção dos artigos, os quais apresentassem em seus resumos ou nas palavras chaves
os termos: subjetividade e trabalho.

Foram lidos no total 302 resumos de artigos, sendo que 170 resumos
pertencentes à Revista de Psicologia Organizacional e do Trabalho, referentes ao ano de
2001 a 2013 e 132 resumos à revista Cadernos de Psicologia Social do Trabalho,
referentes ao ano de 1998 a 2013. De todos estes resumos foram encontrados 12 artigos
que traziam em seus resumos ou nas palavras chaves, as categorias subjetividade e
trabalho.

Esses doze artigos foram lidos na íntegra, com o objetivo de delinear qual era
a natureza do estudo e de que forma eram abordados, definidos e relacionados
subjetividade e trabalho. É importante ressaltar que nem todos os artigos tinham como
objeto principal a discussão da relação entre trabalho e subjetividade, a maioria tratava
de algum ofício em particular, articulando com alguns aspectos associados a diversas
noções do conceito de subjetividade, noções estas que nos deteremos em detalhe mais
adiante.

Ao longo das leituras analíticas foram feitos fichamentos dos principais pontos
fundamentais dos artigos de modo que se pretendeu registrar as definições conceituais
das categorias estudadas no presente trabalho. Dessa forma, foi necessária a utilização
de textos de apoio para a compreensão, organização e sistematização das diversas ideias
veiculadas, a fim de esquematiza-las em tabela de classificação dos conceitos para
melhor analisá-los.
17

Após sistematizar as definições em três categorias principais na tabela, quais


sejam: subjetividade, trabalho e subjetividade e, trabalho. Foi realizada uma análise de
conteúdo de todas as definições conceituais encontradas. Entende-se por análise de
conteúdo “um conjuntos de técnicas científicas utilizadas em ciências humanas,
caracterizadas pela análise de dados linguísticos” (APPOLINÁRIO, 2009 p.27). Desse
modo, os aspectos fundamentais da comunicação são categorizados. Logo após, as
categorias são analisadas a partir de uma teoria específica. No nosso caso, as categorias
analisadas foram articuladas com as teorias expostas no referencial teórico, além de
outras.

Na análise de conteúdo, é característico registrar a frequência com que aparece


a citação de determinados temas, significantes ou ideias e esta frequência pode estar
relacionada com o peso ou relevância de um assunto atribuído pelo autor. Isto é, em um
texto existem sentidos e significados, latentes ou ocultos que podem ser apreendidos
pela análise de conteúdo. Outro aspecto a destacar é a relação com o contexto sócio
histórico da produção científica de um determinado texto, ou seja, é necessário
considerar o momento cultural/intelectual e a conjuntura marcante e condicionante da
produção das ideias.

4. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS

Os dados encontrados no levantamento e leitura dos artigos são apresentados a


seguir apontando algumas características gerais das publicações como os principais
temas abordados e as respectivas abordagens teóricas que dão um perfil metodológico
aos estudos. No levantamento dos artigos da Revista de Psicologia Organizacional do
Trabalho observou-se uma frequência maior dos temas ou conceitos que aparecem mais
significativamente, a saber:

- Treinamento

- Comprometimento Organizacional

- Saúde do Trabalhador

- Qualidade de vida no trabalho


18

- Psicodinâmica do trabalho

- Organização do trabalho

- Validação de escalas

Esses foram os principais temas que apareceram nos 170 resumos lidos
referentes ao ano de 2001 a 2013. Dos 170 resumos apenas 6 abordavam os conceitos
de trabalho e subjetividade. Observa-se, portanto, que apenas 3,5% das publicações
traziam em seus estudos a problemática da relação entre o trabalho e subjetividade,
relação esta que em cada artigo tinha uma forma particular, determinada pela temática
específica e que requer ainda um exame mais detalhado. Ao passo que os outros 86,5%
das publicações restantes tratavam de conceitos considerados caros à psicologia
organizacional e que de certa forma contemplam a exigência de publicação científica
destinada para o exercício profissional nas organizações, estas, cada vez mais
interessadas em novos saberes encomendados para subsidiar as práticas e estratégias de
estruturação do trabalho em mercados cada vez mais competitivos.

A propósito da outra revista Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, foram


lidos 132 resumos, referentes ao ano de 1998 a 2013, nos quais apareceram mais
notadamente os seguintes temas:

- Psicologia do Trabalho

- Saúde no trabalho

- Condições de trabalho

Em comparação à revista anterior, estes temas nos remetem a uma perspectiva


mais ampliada do campo da psicologia do trabalho trazendo reflexões de aspectos mais
generalistas, exemplificada pelos temas de saúde e condições de trabalho. No entanto,
dos 132 resumos lidos, apenas 6 traziam a discussão sobre a relação entre trabalho e
subjetividade, isto é, 4, 5% do total das publicações desta revista priorizou temas que
abordassem a relação dos conceitos que aqui nos interessam.

Somando os resultados das leituras exploratórias realizada nas duas revistas,


conclui-se que diante de 302 resumos lidos, apenas 12 se encaixavam na nossa procura
19

pelas categorias subjetividade e trabalho. Ou seja, 3,9% das publicações somadas das
duas revistas trazem alguma discussão ou relação entre trabalho e subjetividade.

A nossa primeira inferência, portanto, se refere ao número significativamente


reduzido de produção científica em duas revistas de alto número de publicações na área
de psicologia do trabalho. É claro, que essas duas revistas nos servem apenas de
amostra para obtermos uma noção da quantidade e do conteúdo das publicações,
considerando que existem outras tantas. Mas mesmo assim, essa pequena amostra
indica já, e nos apresenta de modo sintomático, um reduzido número de estudos sobre
os aspectos subjetivos envolvidos no universo do trabalho e uma progressiva perda do
objeto da psicologia em si.

Nesse sentido, Edmund Husserl já havia se perguntado na sua obra Krisis


(1936), por que o campo da subjetividade, que deveria ser considerado o objeto da
psicologia, havia sido totalmente ignorado pelos psicólogos (REY, 2005). Essa pergunta
situava-se no contexto da hegemonia positivista na pesquisa psicológica, entretanto, ela
se faz ainda atual e pertinente, visto que, pela nossa hipótese da crescente produção
científica instrumental, veiculada estreitamente ao novo impulso da gestão de pessoas,
em detrimento da reflexão crítica acerca das relações de manipulação subjetiva nas
novas organizações do trabalho.

Além do mais, para além dessa suposta progressiva perda do objeto da


psicologia, ainda há indícios de uma postura na comunidade científica que ignora os
impactos e implicações importantes para o “novo trabalhador” nas transformações das
relações de trabalho, oriundas da reestruturação produtiva e de modo geral do
capitalismo neoliberal. Isto significa dizer, que na gestão e organização no capitalismo
globalizado a manipulação psicológica se dá de maneira significativa e que requer
demasiada consideração.

Essa urgente consideração do problema se justifica, pois, assim como assevera


Heloani:

[...] a empresa precisa manter um controle indireto sobre a atuação dos


seus empregados, o que leva a fazer com que estes assimilem e
incorporem suas regras de funcionamento como elemento de sua
percepção, chegando num último estágio, ao reordenamento da
subjetividade dos trabalhadores, visando garantir a manutenção das
normas empresariais, a subjetividade é assim tomada, na lúcida
observação de Enriquez, como um recurso a mais a ser manipulado, um
20

engodo por parte do capitalista, para que os trabalhadores “crendo que


sua subjetividade foi reconhecida, ponham a serviço do capitalismo seu
potencial físico, intelectual e afetivo”. (2011, p.106).

Estamos dizendo aqui que é preocupante a não abordagem de uma reflexão


crítica da subjetividade em um cenário marcado pela empresa pós-fordista ou toyotista
que estimula a “iniciativa”, o desenvolvimento da “capacidade cognitiva” do “potencial
de criação” e assim por diante. Assim como já foi dito anteriormente, no atual contexto
das novas organizações, há a necessidade do envolvimento intenso da subjetividade de
quem trabalha, portanto o toyotismo mobiliza a subjetividade, isto é corpo e mente,
como nunca visto antes no passado (ALVES, 2011, p.46).

Sendo assim, os 3,9% das publicações encontradas na presente pesquisa, que


de alguma maneira trazem uma reflexão crítica ou não, acerca da relação entre trabalho
e subjetividade, é um número muito inexpressivo contrastando com os outros temas
majoritários e hegemônicos, alvo da nossa crítica à cima. Esses 3,9% representam os 12
artigos selecionados, os quais nos convidam a analisá-los melhor. Passamos adiante a
nos atentar sobre os 12 artigos apontando a definição de trabalho e subjetividade e a
possível relação entre ambas as categorias e que tipo especificamente de relação seria
essa. Dessa forma, classificamos os artigos em uma tabela, dividida em três categorias a
seguir:

CATEGORIA CATEGORIA SUBJETIVIDADE E


ARTIGO SUBJETIVIDADE CATEGORIA TRABALHO TRABALHO
Artigo1- "Programa de Demissão Compreendida como sentimentos, Tacitamente referido como gerador de A gestão organizacional do trabalho
Voluntária em uma instituição emoções, desejos, pensamentos e sentido e como referencial identitário. caracterizada como instrumentalização da
bancária: da gestão da adesão ao defesas. subjetividade.
programa às complexas perdas
psicossociais"

Artigo2- "Organizações que Delimitada pelo sentido filosófico, Atividade central na vida; relacionado Reestruturação produtiva e organizacional
mudam, vidas que se transformam: referente à consciência de sujeito com um senso de prazer. implica mudanças subjetivadas no trabalho.
a posição de sujeitos diante de individual, particular e concreto,
processos de reestruturação acessível a partir do que emite como
organizacional na administração comportamento.
pública"

Artigo3- "O executivo pós- Constituída por identidade, Entendido como atividade pouco O trabalho gerencial vem se alterando e a
moderno: transformações no consciência, afetividade e atividade. geradora de identificação, percebido subjetividade dos trabalhadores vem sofrendo
trabalho e subjetividade" como sem sentido e de inteira mudanças.
responsabilidade pessoal.
21

Artigo4- "Prazer e sofrimento no Associado à dimensão afetiva; Abordagem psicodinâmica; dualidade O trabalho pela mediação afetiva pode
trabalho docente: estudo com caracterizada como afetos. entre prazer e sofrimento psíquico; proporcionar prazer, reconhecimento e
professores do ensino fundamental produção psíquica da luta contra o satisfação.
em processo de formação superior" sofrimento.

Artigo5- "Espaço coletivo de Abordagem psicodinâmica; centrada Compreendido como um dos principais Abordagem que coloca o trabalho como
discussão: a clínica Psicodinâmica na posição do desejo articulado à modos de produção de existência social. gerador de prazer ou sofrimento. De acordo
do trabalho como ação de organização do trabalho, inteligência como as mudanças na organização do trabalho
resistência" prática, uso de estratégias defensivas a relação saúde-doença se alterará. A
e negação do sofrimento. subjetividade está envolvida com a dinâmica
da organização.

Artigo6- "A experiência de Modos de subjetivação enfocando as "conjunto de infinitas possibilidades de "A relação entre subjetividade e trabalho
afastamento do trabalho por formas "como o sujeito faz a articulação das fontes naturais e sociais delineia-se a partir de pontos de fixação e
adoecimento vivenciado como experiência de si nos jogos de que possibilitam a utilização da deslocamento do poder que evidenciam os
processo de ruptura ou continuidade verdade"(Foucault). Formas de possibilidade criativa humana para a espaços de reprodução e ruptura produzidos
nos modos de viver" autoreconhecimeto; "outras formas produção da vida (criação) e de sua nos contextos de trabalho".
de ser". manutenção (sobrevivência)".

Artigo7- "ACAT: o trabalho como Perspectiva da clínica da atividade. É A atividade é tomada como categoria A compreensão entre trabalho e subjetividade
protagonista da análise de acidentes entendida "como produto da central de estudo e o trabalho como não é centrada na luta contra o sofrimento, mas
de trabalho" atividade" atividade dialógica. na atividade de trabalho como fonte
permanente de recriação e de novas formas de
viver.

Artigo8- "Trabalho e subjetividade: Foco na saúde mental e no Compreendido como gerador de doenças Trata-se da questão da produção da
o olhar da psicodinâmica do sofrimento psíquico; modos de e sofrimento. Também é um campo de significação, do sentido do trabalho pelos
trabalho" pensamento, suas intenções, desejos conquista da identidade pelos indivíduos. indivíduos.
e anseios. Espaço de reconhecimento social.

Artigo9- "Trabalho e gestão de si- "Processo de subjetivação", que diz Perspectiva da Ergologia; "é a atividade O trabalho mobiliza os aspectos subjetivos
para além dos recursos humanos" respeito às formas de estar, pensar e de seres humanos situados no tempo e (normas, valores e história) o tempo todo.
sentir o mundo, atravessada por espaço e que se dá no acontecendo da Mudanças na organização/gestão do trabalho
questões políticas, sociais, e vida. São atividades sempre complexas e implicam transformações nos processos de
múltiplos elementos heterogênios. que possuem em caráter enigmático". subjetivação.

Artigo10- "o vocabulário da "Entendida como efeito de Categoria não definida no texto Idem
habilidade e da competência: linguagem. Subjetividades diversas
algumas considerações são produzidas, mantidas e extintas
neopragmáticas" como função de troca, isto é
linguagens, formas de vida, discursos
etc."

Artigo11- "O processo de Síntese do particular imbricada com "Fonte permanente de recriação de Considerada como dimensão humana
modernização portuária e a o universo do trabalho. A formas de viver e de produção de sujeitos produzida incessantemente nas interralações
produção de subjetividade: o caso subjetividade denomina-se como capazes de produzir maneiras de entre trabalhadores, máquinas e todo ambiente
de Santos" "campo de mediação que surge por enfrentar novas e velhas situações, laboral permite compreender as diversas
meio das relações travadas com confrontando-se como sua própria maneiras como as pessoas produzem bens,
grupos a que o indivíduo pertence”. existência". serviços e vida.

Artigo12- "Ofício de carteiro e Está configurada nos modos de agir, Perspectiva da clínica da atividade. O trabalho concebido como atividade irá
atividade: por uma gestão pelas pensar, sentir e trabalhar, em Trabalho como tendência criadora. pressupor a presença de uma mobilização
variações" determinados momentos evocando Aponta a função psicológica do trabalho cognitiva e afetiva do trabalhador, sua
conexões entre elementos, valores, enquanto fonte de alteridade, iniciativa e inteligência, sua história de vida e de relações
necessidade e projetos diversos. criatividade. com os outros.

Como podemos observar na tabela a cima, os artigos foram analisados


conforme três categorias. Com efeito, obtivemos uma multiplicidade de definições
conceituais diversas, expressando uma heterogeneidade teórica e o que acarreta,
certamente, uma dificuldade em encontrar um padrão mínimo para a análise das
22

definições de cada categoria. No entanto, tentaremos delinear as várias e divergentes


definições em aproximações, agrupando-as em algumas tendências.

4.1 Categoria Subjetividade

A primeira categoria a ser analisada é a da subjetividade. E uma primeira


tendência de raciocínio percebida na definição dessa categoria é aquela que prioriza
certos elementos ligados à experiência fenomênica de si, ou seja, experiência consciente
de si, caracterizada pela descrição de sensações de “interioridade” como sentimentos,
emoções, pensamentos, desejos. Está presente também a referencia à noção filosófica de
consciência individual, de sujeito particular e concreto que expressa essa subjetividade
em comportamentos. Nesse sentido, a consciência está associada à noção de atividade,
além de incluir outro elemento, a identidade e por fim a dimensão da afetividade.
Portanto, essa tendência poderia ser classificada como aquela que agrupa os aspectos
subjetivos em torno da experiência consciente, isto é, todos os elementos ou fenômenos
descritos a cima são experimentados a partir de como eles aparecem para a minha
consciência, logo como eu os experimento como pertencentes a min e vivencio a min
mesmo.

Uma segunda tendência presente nas definições da tabela é a abordagem


psicodinâmica do trabalho, na qual, a subjetividade é pensada e compreendida dentro
das coordenadas do desejo contraposto com o real do trabalho. Sendo assim, o sujeito se
organiza psicologicamente no intuito de mobilizar sua inteligência prática, utilizando-se
de estratégias para negação do sofrimento. Dentro dessa perspectiva, o sujeito está em
meio ao jogo de um antagonismo, qual seja, desejo versus sofrimento mental.
Antagonismo, muitas vezes expresso nos estudos dessa abordagem que versam sobre o
processo saúde/doença no modo de organização do trabalho.

Outra forma de conceber a subjetividade encontrada em três artigos, se


constituindo em um referencial teórico bastante presente, é a da abordagem discursiva
de Foucault (1999). Para essa perspectiva teórica, fala-se em modos ou processos de
subjetivação, entendida como as formas de como o sujeito faz a experiência de si nas
práticas discursivas, bem como, diz respeito às formas de sentir e estar no mundo,
23

atravessadas pelas questões políticas, sociais, econômicas e por vários elementos


heterogênios. Ademais, a subjetividade é compreendida como efeito de linguagem ou
discursos.

Ainda temos, por final, a abordagem teórica da clínica da atividade, a qual


consiste em uma compreensão da categoria da subjetividade que considera a atividade o
elemento central e mobilizador da constituição subjetiva. Dessa forma, ela só pode ser
apreendida como processo a partir das condições concretas e materiais da vida, levando
em conta as condições históricas, sociais e objetivas. Para o olhar da clínica da
atividade, que tem como referencia os estudos em psicologia do trabalho de Yves Clot,
a subjetividade é tomada como o “continente escondido da atividade” (VIEIRA,
BARROS e LIMA, 2007, p.158). E diferentemente das outras concepções tradicionais,
descritas anteriormente, não só apenas os modos ou processos de subjetivação
(abordagem discursiva), e também os processo de saúde/ doença (abordagem
psicodinâmica), bem como, os aspectos conscientes da experiência de si, as habilidade,
valores e emoções passam a ser prioritários de reflexão. Essas abordagens, para a clínica
da atividade, acabam excluindo uma discussão sobre as situações concretas, vividas por
aqueles que realizam atividades laborais, desconsiderando as exigências, condições e
problemas imediatos do trabalho que necessariamente estão relacionados com os
“modos de ser” de cada um (VIEIRA, BARROS e LIMA, 2007, p.158).

Como podemos apreender (era o esperado), existe uma gama divergente de


conceituação da categoria subjetividade que está de acordo com as várias abordagens
teóricas existentes do fenômeno. Embora diferentes, elas não necessariamente se
excluem mutualmente, poderíamos dizer até que se complementam em alguns aspectos,
mas não em outros. Tendo em vistas essas diferenças, podemos atribuir a esse fato às
próprias bases epistemológicas da Psicologia, que tem em sua história constitutiva
diferentes matrizes do pensamento científico.

Isso se verifica quando olhamos para a psicologia de modo geral, que ao longo
de sua história, tem tentado buscar delimitar seu objeto de estudo para se consolidar
enquanto ciência psicológica. Entretanto, o que foi observado durante esse percurso, foi
que no decorrer de cada investigação em busca do tal objeto, apoiada por uma dada
orientação epistemológica e influenciada por outros saberes e práticas, surgia uma nova
abordagem em psicologia, de tal modo que atualmente ensinam-se nas formações
24

acadêmicas várias psicologias. Em toda essa busca pelo objeto de estudo, a psicologia,
nas suas diversas ênfases, partiu do pressuposto de uma ontologia positiva, ou melhor,
substancial, o que significa: qualquer que fosse o fenômeno prioritário a ser estudado,
este seria portador de uma substancialidade de qualquer natureza, seja ela fosse material
ou imaterial.

Nesse sentido, poderia emergir dois tipos de conhecimentos, um de base


concreta, logo, conhecimento objetivo; e outro, que seria de ordem subjetiva, pois seu
acesso implicaria o sentir ou pensar. Por conseguinte, desse tipo de ontologia resultou
em várias dicotomias como: material/imaterial, interno/externo, objetivo/subjetivo, etc.
(Oliveira, s/d). Em função desses impasses advindos das dicotomias, determinadas
psicologias, ora eram condenadas por externalismo, objetivismo ou mecanicismo, ora
eram ao contrário, condenadas por subjetivismo ou internalismo.

Por sua vez, a subjetividade se tornou também refém de uma ontologia


substancial, de forma que mesmo sendo considerada de natureza objetiva ou subjetiva
ela deveria ser encontrada no espaço, num lugar que obviamente seria no interior do
sujeito. Ademais, além de substancial a subjetividade ainda era concebida por muitas
abordagens como estática. E por mais que houvesse tentativas de superação desses
limites epistemológicos, ao exemplo da metodologia materialista dialética utilizada
através da psicologia social latina americana, ainda se observa em algumas teorias, a
herança do positivismo objetivista que pode ser ilustrado pela psicologia quantitativa
incorporada nos testes psicométricos ou na mensuração de “aspectos” dessa
subjetividade como inteligência, personalidade ou comportamento (OLIVEIRA, s/d).

Como podemos observar, ao refletirmos de modo sintético, como foi posto a


cima, os pressupostos ontológicos e epistemológicos que estruturaram as psicologias no
estudo da subjetividade, historicamente encontramos a presença de muitas lacunas
através das dicotomias e das limitações teóricas, de modo geral, algo que implicará é
claro, na reduzida possibilidade de intervenção da prática profissional diante dos muitos
desafios impostos pela emergência de novos sujeitos e novos trabalhadores ou
“colaboradores” das organizações. Além do mais, considerando o que já foi assinalado,
faz-se necessário uma reflexão das bases teóricas da categoria subjetividade, tão
utilizada no discurso psicológico, que possibilitará a emergência de propostas mais
amplas, aprofundadas e que dê conta dos desafios das transformações nos modos de
25

subjetivação pelo qual passa o sujeito do capitalismo na contemporaneidade e,


sobretudo, frente às transformações dos processos organizacionais.

Por conseguinte, ao se considerar a possibilidade de propostas conceituais mais


amplas e aprofundadas da categoria subjetividade, nós sugeriríamos uma opção de
interlocução da psicanálise com outras teorias da subjetividade mencionadas
anteriormente no referencial teórico. Apostando, dessa forma, na ampliação da
compreensão das transformações no mundo do trabalho implicadas no sujeito.

Em função do nosso espaço reduzido no presente trabalho, bem como, da


imensa e complexa literatura versada na questão das várias significações teóricas a
respeito do conceito de subjetividade, temos que fazer uma escolha teórica (a que
melhor se encaixa no propósito do presente estudo) quando se pretende ampliar a
discussão sobre o sujeito e o trabalho na contemporaneidade e o papel crítico da
psicologia diante disso. Sendo assim, ao tratarmos do delicado problema da
subjetividade humana, tivemos que fazer uma opção teórico-metodológica pela
psicanálise em interlocução com outros elementos teóricos já citados anteriormente.
Pois partimos do pressuposto que a psicanálise é a ciência da subjetividade burguesa,
além de possibilitar a “apreensão da dinâmica subjetiva da individualidade de classe”
(ALVES, 2011, p.128).

Quando salientamos no nosso referencial teórico a proposta de González Rey


sobre a categoria de sentido subjetivo como principal atividade psíquica geradora das
representações subjetivas do sujeito, ficou tácito sua influencia do modelo consciente e
ativo do psiquismo humano, oriundo fundamentalmente do pensamento de Vigotsky e
Leontiev. Suas contribuições são demasiadamente relevantes, e longe de nosso
propósito querer refutá-las. No entanto, a subjetividade psicológica caracterizada pela
experiência consciente de si implica dizer que os afetos, os sentimentos, as emoções, o
comportamento, as habilidades sociais, a inteligência emocional, a autogestão, etc
constituem o que chamamos de subjetividade. Como já mencionamos anteriormente,
esses elementos fazem parte das injunções no contexto do trabalho na reestruturação
produtiva, bem como, fazem parte do novo léxico da ideologia do mundo do trabalho.
Será apenas essa então, a subjetividade psicológica que foi de fato colonizada pelo
capital? A impressão que se tem é que essa “riqueza” interior do sujeito, a experiência
fenomenal de si, constitui então a subjetividade posta em xeque anteriormente pela
26

crítica do capitalismo? O que pode ser negado nesta concepção clássica de subjetividade
e/ou que pode ser acrescentado a ela? Vejamos as implicações de alguns aspectos da
psicanálise.

Primeiramente deve-se referir à ideia de sujeito concebida pela psicanálise


como foi feito no ensino de Lacan, pois é o sujeito desprovido de substância que pré-
existe como fundamento da subjetividade (BAZZANELLA, 2009). Então para falarmos
da subjetividade é necessário antes tentar conceituar o sujeito: este não é concebido
como uma ordem positiva ou consciente, ou inconsciente, não se trata de associá-lo ao
eu pensante do qual se interessa a psicologia do ego. O Sujeito na psicanálise lacaniana
é “barrado” e está marcado por uma divisão e sua principal característica é estar situado
entre o eu e o inconsciente. É seguindo nessa definição negativa que o sujeito é
pensado: desprovido de algo substancial precedente, ou de qualquer outro fundamento
que o determine.

Nessa perspectiva, a distinção entre o sujeito (agente não psicológico


“barrado”) e a “pessoa” tem de ser feita. “O que está por trás da tela da riqueza da ‘vida
interior’ de uma pessoa não é a ‘realidade objetiva’, mas o próprio sujeito...” Esse vazio
ou o nada “é” o sujeito e a nossa tarefa é não preencher esse vazio com nada evitando a
projetar nele o lodo repugnante chamado “riqueza da personalidade”, nenhuma riqueza
de experiência pode preencher esse vazio. Assim, obtemos uma formulação que
subverte e/ou complementa (dialeticamente supera conservando) a noção clássica e
comum do sujeito como lugar da experiência fenomenal de si. Dessa forma,
subjetividade para nós, deve ser compreendida levando em consideração tudo o que já
foi descrito mais a dimensão do inconsciente que nos atravessa, dessa outra cena e esse
outro saber sobre nós (ŽIŽEK, 2013, p.113).

Segundo Roberto Heloani (2011), através de novos mecanismos de controle as


organizações pós-fordistas/toyotistas exercem uma forma inconsciente de dominação
via substituição de ordens por regras, estabelecimento de sistemas de valores que são
assimilados pelo sujeito dentro da empresa e assim as estruturas mentais dos
trabalhadores são ajustadas às estruturas sociais. Apreende-se assim, a dimensão
implícita do poder e a “manipulação do inconsciente” em certas empresas. A partir
dessas afirmações são nos apontadas alguns aspectos da relação das transformações
27

subjetivas no novo mundo do trabalho. Mas antes de nos determos nessa relação
realizaremos uma breve análise dos dados obtidos na categoria trabalho.

4.2 Categoria Trabalho

As definições que aparecem sobre trabalho na tabela indicam, assim como na


categoria anterior, uma forte disparidade de significações. Algumas convergem em
certos elementos e outras acabam se divergindo e até mesmo se contradizendo. Tal
divergência está associada às várias abordagens teóricas presente na psicologia do
trabalho, bem como à natureza do estudo e devido à maneira de olhar para o fenômeno
em si. Para facilitar nossa análise, a categoria trabalho não será dividida de acordo com
a abordagem teórica específica como foi feito na categoria anterior, procederemos a
seguir de forma a agrupar os emaranhados elementos em duas tendências, qual seja, a
positividade do trabalho e a negatividade do trabalho. Positividade e negatividade se
referem às significações ontológicas do trabalho.

Como elementos que se encaixam em uma perspectiva positiva do trabalho


poderíamos citar as que o concebem como gerador de sentido, como referencia e até
mesmo como atividade geradora de prazer. Também compreendido como um dos
principais modos de produção da existência social; "conjunto de infinitas possibilidades
de articulação das fontes naturais e sociais que possibilitam a utilização da possibilidade
criativa humana para a produção da vida (criação) e de sua manutenção
(sobrevivência)". Temos o trabalho como tendência criativa e como possiblidade de
enfrentamento diante de impasses; também compreendido como fonte de alteridade,
iniciativa e criatividade, e por fim, trabalho como espaço de reconhecimento social.

Por sua vez, temos a tendência da negatividade do trabalho que classifica-o


enfatizando seu aspecto de negação. Algumas acepções negativas aparecem na tabela
como: o trabalho entendido como atividade pouco geradora de identificação e percebido
como sem sentido; localizado entre a dualidade entre prazer e sofrimento daí seu
significado de produção psíquica de luta contra o sofrimento.
28

Como podemos notar, aparecem mais significações positivas acerca da


condição ontológica do trabalho. Muitas publicações acabam enfatizando apenas o
aspecto afirmativo, otimista e até apologista do conceito de trabalho. Certas
problematizações em Psicologia sobre a temática apresentam o trabalho como um
fenômeno sine qua non do processo de evolução humana. Percebe-se em alguns textos a
concepção de trabalho como atividade que é parte da inevitabilidade humana e como
atividade criadora que potencializa a realização do Homem. Contudo, em outros artigos
nota-se que é enfatizado mais as condições de realização do trabalho e, por conseguinte,
atribuem-se significados ligados ao sofrimento. Além disso, outras definições colocam
o trabalho como centro da organização social e dos homens e quase não se vê o trabalho
como alienação. De modo geral, as maiorias das discussões recorrem primeiramente ao
referencial das ideias de Marx para definir conceitualmente trabalho, mas em certa
medida permanecem em uma análise dicotômica entremeio ao conceito e sua efetivação
na realidade. Acabam, dessa forma, perdendo a tensão/contradição fundamental na
análise marxiana entre essência e existência e entre natureza e história (CHAVES,
2012).

Essa contradição interna entre essência e existência e natureza e história


percebida pena análise dialética permitiu a Marx apontar a negatividade do trabalho e
sua consequente desumanização do homem através da alienação e reificação no modo
de produção capitalista. Para Marx, assim como para Lukács na Ontologia do Ser
Social, o trabalho funda o mundo dos homens, e a história dos homens é compreendida
como a história da origem e do desenvolvimento das formas de organização social.
Essas formas de organização da sociedade se desenvolvem, pois o ato de trabalho não
produz apenas o objeto que dele resulta imediatamente, mas muito mais. No âmbito
objetivo ele produz novas situações históricas. A nossa nova situação histórica é a
sociedade moderna organizada pelas leis e lógica do capitalismo. Com efeito, o trabalho
é submetido ao processo de expropriação da mais-valia, colonizado pela propriedade
privada, se torna mercadoria, aliena o trabalhador de seu produto e de seu fazer, torna-o
dependente do fetiche.

É importante nesse momento tentar entender melhor as contradições internas e


externas do trabalho no contexto do debate filosófico de Marx com Hegel. Na
fenomenologia do Espírito, Hegel tematiza o fenômeno do trabalho sob o ângulo da
dialética da consciência-de-si, seguida da lógica da dialética do senhor e do escravo e
29

por fim da luta por reconhecimento das consciências e do desejo. Não há espaço para
aprofundar a especulação hegeliana no presente texto, contudo, em última análise,
poderíamos dizer que para Hegel o trabalho não se efetiva numa relação de igualdade ou
reconhecimento mútuo, mas o oposto, o trabalho se constitui de uma desigualdade e de
uma relação de domínio. Marx segue na mesmo direção e avança ainda mais dizendo
que o trabalho no desenvolvimento da História é estranhado. Isto é, o homem não tem
um absoluto domínio sobre as coisas que produz e essas coisas ou produtos se tornam
meio de dominação entre os homens (JÚNIOR, 2009).

Nesse sentido, as categorias de Marx são ao mesmo tempo negativas e


positivas. Até hoje, graças ao processo histórico, o trabalho está sob o signo da
dominação, pela luta das forças sociais e materiais, ao passo, que ele possui a
possiblidade de uma solução positiva na efetivação utópica do potencial humano de
emancipação. É esse antagonismo fundamental que é preciso conservar na análise do
trabalho, embora em alguns artigos ela se perca, em detrimento de microanálises que
acabam valorizando a autonomia, a criatividade, habilidades, competências, liberdade e
outros atributos positivos do trabalhador, sem mesmo realizar uma reflexão crítica entre
todos esses atributos e as novas injunções e imperativos do novo modo de produção
flexível (CHAVES, 2012).

Esse novo modo de produção dito flexível, exerce uma positividade do


trabalho, jamais antes vista na História. Nos novos discursos sob a égide da dominação
simbólica do toyotismo, há a presença do enaltecimento da qualificação, da capacidade
criativa e de resolução de problemas, capacidade de ser pró-ativo e dinâmico. Fala-se
demasiadamente em horizontalização das relações, da gestão por parcerias e
colaboração, empreendedorismo, desenvolvimento das potencialidades do
protagonismo, educação integral e pleno emprego, capacidade do indivíduo de agir
sozinho e criar alternativas de renda.

Tudo isso aparece para muitos, como uma esperança e até mesmo condição de
liberação e emancipação frente ao trabalho rígido, uma suposta liberdade de escolha.
Entretanto, essas escolhas realizadas pelos indivíduos são completamente controladas e
dirigidas pelas forças sociais no mundo administrado. São novas formas de
interiorização do capital sobre o trabalho, o surgimento de uma nova pedagogia e
educação para o trabalho. “Todo esse movimento gera uma ‘aparência de que o
30

interesse universal só seria o interesse pelo status quo’”. Ademais, essa suposta
liberalização de padrões de comportamentos e de condutas joga o sujeito para a
autonomia, não precisando mais de padrões impostos a ele, exceto o seu, que por sua
vez, é determinado pelo modo de produção atual. “Paradoxalmente, o aumento de
independência, conduz ao aumento da passividade”. Tendo isso em vista, passamos a
seguir à análise e reflexão da categoria trabalho e subjetividade (Adorno e Horkheimer
apud CHAVES, 2012, p.42).

4.3 Categoria Trabalho e Subjetividade

Ao observar a tabela, mais especificamente a coluna que descreve as definições


da relação entre trabalho e subjetividade presente nos artigos analisados apreende-se
uma aproximação maior de perspectivas em relação às outras categorias. Um artigo traz
o trabalho como produtor de sentido e significação da vida, outro coloca o trabalho que
pela mediação afetiva pode proporcionar prazer, satisfação e reconhecimento social, e
um terceiro aborda o fenômeno como atividade criadora e recriadora de formas de vida.
A mobilização subjetiva enquanto cognição e afetos são postos como o laço que liga o
trabalho à subjetividade. Esse primeiro agrupamento poderia ser caracterizado como
tendencioso para a positividade do trabalho, assim como foi descrito na categoria
anterior, positividade esta, que tecemos algumas considerações e criticas a respeito e
que deve ser questionada.

Os outros artigos restantes, a maioria, foram quase unânimes em relacionar a


organização do trabalho e as relações emergidas aí com a mudança subjetiva do
trabalhador. Em outras palavras, a mudança na gestão do trabalho implica
necessariamente em transformações na subjetividade ou processo de subjetivação.
Chegamos agora a um ponto crucial, essa proposição é a chave de leitura de nosso texto.
Mas ela por si só não basta, uma série de objeções poderiam ser levantadas. E se
perguntássemos de que maneira se dá esse processo de influência recíproca entre
mudanças na estrutura socioeconômica e funcionamento psíquico?

Bom, Freud já operava em seus escritos o contato entre estruturas subjetivas e


modos de interação social. Para a psicanálise, quando se tenta compreender a
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racionalidade dos vínculos sociais é necessário considerar a disposição dos sujeitos em


adotar determinados tipos de conduta (SAFATLE, 2007). Já assinalamos anteriormente
e vale ressaltar, que ao fazermos uma leitura ontológica do ser social descobrimos que o
homem como ser genérico constrói, ao longo do desenvolvimento civilizatório,
totalidades ou estruturas sociais cada vez mais complexas. A ação do trabalho é
significativamente exteriorização de um sujeito. Essa transformação só acontece a partir
de um dado desenvolvimento da individualidade. E a exteriorização da individualidade
por consequência é também uma exteriorização de um determinado desenvolvimento
social. Esse desenvolvimento social é engendrado pelo processo de objetivação e
exteriorização onde trabalho e modos de racionalidade social se constituem
dialeticamente através da generalização dos resultados objetivos e subjetivos
(LUKÁCS, 2012). Quando os homens objetivam trabalho, a totalidade do ambiente, no
qual está inserido o individuo também se transforma, pois ele está mudando aquilo que
o constitui e possibilita-o mudar.

Ao dizermos novamente de subjetividade nesse contexto, significa que a


subjetividade do trabalho vivo é fruto necessário do desenvolvimento do processo
humano-genérico. Sobre a generalização, compreende-se que os resultados,
(conhecimentos, habilidades, etc), obtidos do processo de objetivação e exteriorização
humana se transformam paulatinamente de singulares em universais constitutivos de
uma determinada totalidade social. Por conseguinte, todos que vivam naquele ambiente,
que sofreu mudança, estejam expostos às implicações de tal transformação. Observa-se,
portanto, que o trabalho e suas mediações e, sobretudo suas formas de organização
engendram a transformação constante da totalidade do complexo social e a
sociabilidade, os vínculos e também de certa maneira a cultura, por sua vez está
incessantemente em movimento e sujeita a mudanças, mudando também o sujeito.

De acordo com Lukács (2012), a sociedade regulada pelas forças de produção


sob o signo da mercadoria, é uma sociedade reificada, pois o homem não tem mais o
domínio de seu produto. Nesse sentido, em algum lugar de sua vasta obra Marx afirma
que os homens é que fazem a história, mas não a fazem como querem. Vimos também
que a totalidade social é o resultado de um acúmulo de sínteses abrangentes que vão do
singular ao universal e essa universalidade pode aparecer de modo estranhado. Ou seja,
essas mesmas estruturas e modos de funcionamento social se tornam reificados
(coisificado; não pertence mais ao nosso controle) e exercem um poder determinante
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sobre a nossa própria constituição enquanto sujeitos. Assim, as nossas diferenças


particulares estão no modo como cada um subjetiva às instituições e toda a ordem
simbólica derivada dessa totalidade social.

Se considerarmos então essa totalidade social estranhada, reificada e regulada


pelas formas-fetiche, de que maneira abordaríamos o inconsciente? Partimos do
pressuposto de que nós enquanto seres genéricos, construímos historicamente nossas
próprias formas de racionalização social, implicando uma história de repressão e
normalização. Para Freud o recalcamento é o resultado histórico de imposição de
barreiras externas a nós mesmos. Assim, “pode-se afirmar que o inconsciente é uma
categoria ontogenética do homem com um conteúdo radicalmente histórico”, ademais,
“é nas circunstâncias de uma sociedade de classe e mercantil complexa que o
inconsciente se interverte na instância mental do ‘estranhamento’” (ALVES, 2011,
p.137). Na medida em que se avança o processo de estranhamento na sociedade
administrada aparecem às formas-fetiche, o fetiche da mercadoria e a forma-mercadoria,
as quais só podem ser subjetivadas se pressupormos uma dimensão inconsciente que
nos cinde por dentro, outra cena ou outro saber sobre nós mesmos e que não o
conhecemos nem mesmo dominamos.

Portanto, é também pelas vias do inconsciente que se dá os processos


subjetivos estranhados no novo contexto da organização do trabalho. E para avançarmos
na compreensão desse novo contexto e seus sujeitos temos que considerar
fundamentalmente os dispositivos, estratégias, táticas, comunicações e valores
organizacionais que em certa medida não só capturam a nível consciente o trabalhador,
mas também coloniza sua dimensão inconsciente.

Para versarmos sobre as novas organizações do trabalho, é necessário levar em


conta antes o processo de internacionalização da organização do trabalho, iniciada com
a crise capitalista da década de setenta no século vinte, seguida da transação do regime
de acumulação keynesiano-fordista para o pós-fordista/toyotista, no bojo da
globalização da economia marcada pelo avanço neoliberal. Todo esse processo levou e
tem levado à combinação de culturas organizacionais híbridas, de forma que empresas
nacionais mesclam-se com tecnologias de “gestão do inconsciente” pós-fordistas
produzidas nos países de capitalismo central (HELOANI, 2011, p.110).
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A dita “gestão do inconsciente” é produto, dentre outras razões, de grande


investimento científico financiado por grandes corporações que possui em seus
domínios pesquisas avançando no conhecimento organizacional e na elaboração de
estratégias da gestão do trabalho e do trabalhador. Assim demonstra Heloani (2011,
p.111) ao mencionar o projeto Saturn, da GM, como um imenso laboratório de
psicologia organizacional, no qual mantem experimentos e resultados a serem bem mais
explorados e utilizados futuramente.

Ora, sabemos da grande conivência ao longo da história da ciência psicológica


em relação às novas exigências de respostas práticas para as grandes demandas
corporativas no que diz respeito aos processos organizacionais. Dessa forma não nos
surpreende a constatação de novos movimentos emergentes na gestão de pessoas,
inclusive na cultura organizacional. Cultura esta, constituída por sistemas de valores,
regras e substituição do léxico no processo de comunicação que envolve uma nova
gramática ou semântica fazendo circular novos significantes capturando a linguagem
dos sujeitos no novo mundo do trabalho.

As gramáticas inconscientes acabam por:

[...] apropriar-se das “virtudes” dos trabalhadores (como atenção, persistência e


dedicação, entre outras) e, num processo de incorporação, as representam como
um produto da organização. Retoma-se assim a fusão efetiva “empresa-mãe”
(protetora) que se identifica com o trabalhador -fruto da empresa- numa lógica
em que gestão dos códigos atinge o plano das representações. (HELOANI,
2011, p.109).

Além da nova gramática e da manipulação da comunicação temos outros


dispositivos estratégicos do toyotismo. Poderíamos citar, dentre muitos outros, os
programas de qualidade, incluindo os círculos de controle de qualidade (CCQ); a
melhoria contínua (Kaizen); as células de produção e os grupos semi-autônomos; o Just
in time; o Kanbam; e as tecnologias de grupo (TGO); além das dinâmicas de grupo e da
sociometria, que enfatiza a vivência psicoafetiva grupal.

Podemos utilizar os CCQs como exemplo de como o envolvimento cooptado


pode ocorrer nas organizações. Os círculos de controle de qualidade, segundo seus
manuais, são procedimentos que tem por finalidade, a melhoria da qualidade e o
aumento dos níveis de motivação, estimulando o trabalho em equipe. As equipes de
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trabalho, como assim são chamados os círculos, fazem reuniões e treinamento em


dinâmica de grupo. Eles obedecem a uma metodologia behaviorista, no intuito de
adaptar o trabalhador à empresa, ocorre assim, por esses instrumentos gerenciais uma
racionalização das diversas subjetividades (HELOANI, 2011).

Ademais, os CCQs têm como objetivo a apropriação dos conhecimentos tácitos


ou não, pois estes devem ser incorporados à produção,

[...] também já mais se conseguiu tamanha culpabilização tanto individual como


grupal no que toca ao insucesso numa empreitada, num movimento em que as
intersubjetividades constituídas se rendem e, às vezes, tentam disputar espaço
com a objetividade organizacional, numa dança cuja música é sempre
orquestrada pelo capital. (HELOANI, 2011, p.136).

Há dessa forma, uma tentativa de controle absoluto do que se pensa e faz e até
mesmo do outro saber inconsciente do trabalhador. Se o taylorismo desejava os
membros e não tanto a mente do trabalhador, hoje nota-se que a empresa está
interessada em privatizar e nos expropriar até do último resquício de nossa alma. É
assim, -como sucintamente foi colocado através de alguns exemplos- que se verifica a
relação de dependência entre as transformações na sociedade e economia e as
transformações também fundamentais nas estruturas psíquicas. Não há dúvida que o
Capital, ou sócio-metabolismo da barbárie, não só está interessado na mais valia das
relações de produção, como já sempre esteve e hoje avança ainda mais sobre a
subjetividade humana estranhada.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tendo em vista tudo o que foi posto até o momento, podemos observar desde o
início do presente texto, a tentativa de problematizar a relação complexa e delicada
entre trabalho e subjetividade. Nesse intuito, levantamos algumas teorias que nos
permitisse abordar a centralidade ontológica do trabalho ressaltando a importância de
resgatar a discussão filosófica de como o trabalho de fato constitui dialeticamente os
fundamentos de nossa realidade social e particular ao mesmo tempo. O trabalho assim
compreendido não significa entendê-lo como a atividade mais importante de nossa vida
ou que todos os aspectos do nosso existir se reduzem a ele, mas ele é a mediação com a
natureza e conosco mesmos, que funda outras tantas possiblidades e necessidades. Fica
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claro para nós o estreito vínculo entre trabalho como condição fundante das várias
formas de sociabilidade, que por sua vez, geram seus sujeitos nas suas variadas formas
de ser e de existir. Mudanças nessa sociabilidade ou no modo de organização do
trabalho como ele se encontra hoje, implica em vários impactos nas formas do sujeito se
ver, experimentar-se e se posicionar subjetivamente diante do mundo que o cerca.

A nossa indagação consistiu, portanto, em como a Psicologia do Trabalho vem


lidando, mais especificamente, no que diz respeito à produção científica, com as
transformações nos processos organizacionais do trabalho no cenário de reestruturação
produtiva, considerando a premissa de que esse novo contexto do trabalho implica uma
cooptação da subjetividade do trabalhador. Nesse sentido, os resultados a que nós
chegamos apontaram num primeiro momento para uma inexpressiva quantidade de
publicação traduzida em 3,9% (somada os dois periódicos pesquisados), de artigos
publicados que traziam a discussão da relação entre trabalho e subjetividade. Em
detrimento dessa constatação, o restante das publicações tratavam de temas
considerados caros à Psicologia Organizacional, temáticas, muitas das quais,
caracterizadas por uma racionalidade instrumental e adaptativa do trabalhador à
organização.

A propósito dos 3,9% de artigos, nem todos trazem uma definição conceitual
precisa sobre o que é a subjetividade, mas de modo geral, pôde-se concluir que existe
uma diversidade de conceituação da categoria subjetividade que está de acordo com as
várias abordagens teóricas existentes acerca do fenômeno. Com a categoria trabalho se
dá a presença de diversas significações. Aparecem mais significações positivas acerca
da condição ontológica do trabalho. Muitas publicações acabam enfatizando apenas o
aspecto afirmativo, otimista e até apologista do conceito de trabalho, esquecendo a
contradição interna entre negação e afirmação, caindo na indiferença da sua real
efetivação no capitalismo atual. Quanto à relação entre trabalho e subjetividade, alguns
artigos acabam enfatizando a relação entre mudança nas organizações do trabalho e
transformações nas formas de subjetivação do sujeito, entretanto, não se encontra uma
análise pormenorizada e uma crítica consistente por parte da Psicologia do Trabalho
frente às contribuições dos dispositivos organizacionais veiculados à manipulação
subjetiva do trabalhador.
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Portanto, tendo em vista, o pífio número de artigos tratando da relação entre


trabalho e subjetividade, embora estes não totalmente críticos às implicações da
reestruturação produtiva ficam postos a urgente necessidade do ponto de vista ético da
Psicologia do Trabalho se atentar e priorizar o seu olhar para o sujeito/trabalhador em
detrimento do forte antagonismo da racionalidade bárbara da ciência que o modo de
produção econômico nos impõe. A contradição e a antiga luta entre Capital e trabalho
ainda permanece nos dias de hoje, assumindo formas diferentes e sutis. E a Psicologia
do Trabalho tem grande contribuição e papel nesse jogo, cabe a ela decidir de que lado
está, “não há como servir a dois senhores”. Se essa ciência ainda quer permanecer
Psicologia, seu lado e seu objeto é o sujeito, o Trabalhador, que precisa vender sua força
de trabalho no mercado. Ou seja, Essa perspectiva da Psicologia Social do Trabalho
crítica, convida-nos a olhar o trabalho, a subjetividade no contexto dos processos
organizativos a partir do ponto de vista dos trabalhadores e comprometido com os
mesmos.
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