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ANGELA CHUVAS NASCHOLD

O ENIGMA
POR QUE AS CRIANÇAS
NÃO APRENDIAM A LER?

ILUSTRAÇÕES DE
AMANDA DUARTE
O ENIGMA
POR QUE AS CRIANÇAS
NÃO APRENDIAM A LER?
ANGELA CHUVAS NASCHOLD

O ENIGMA
POR QUE AS CRIANÇAS
NÃO APRENDIAM A LER?

ILUSTRAÇÕES DE
AMANDA DUARTE

Material desenvolvido no Projeto Leitura + Neurociências

com o apoio do Programa Mais Educação da Secretaria de

Educação Básica do Ministério da Educação.

Redigido conforme a nova ortografia portuguesa,

com a fonte de código aberto OpenDyslexic, criada para

aumentar a legibilidade para os leitores com dislexia.


REITORA DIRETORIA ADMINISTRATIVA DA EDUFRN
Ângela Maria Paiva Cruz Luis Álvaro Sgadari Passeggi (Diretor)
Wilson Fernandes de Araújo Filho (Diretor Adjunto)
VICE-REITOR
Judithe da Costa Leite Albuquerque (Secretária)
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CONSELHO EDITORIAL José Correia Torres Neto
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Tarcísio Gomes Filho
Teodora de Araújo Alves

CATALOGAÇÃO DA PUBLICAÇÃO NA FONTE


Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Biblioteca Setorial Árvore do Conhecimento – Instituto do Cérebro

N244e Naschold, Angela Chuvas.

O enigma : por que as crianças não aprendiam a ler? / Angela Chuvas


Naschold; Amanda Duarte (ilustradora). – Natal : Edufrn, 2017.
ISBN

40 p. : il.

Projeto Leitura + Neurociências.

1. Alfabetização. 2. Alfabetização da criança. 3. Aprendizagem da leitura.


4. Leitura – Métodos e Técnicas. I. Duarte, Amanda. II. Título.

CDU – 37.014.22
Com os nossos agradecimentos aos dirigentes, coordenadores e professores

alfabetizadores participantes do Projeto Leitura + Neurociências da:

Rede Municipal de Ensino de Ipanguaçu (RN)

Escola Casa do Caminho, Natal (RN)

Escola Municipal Arnaldo Monteiro de Carvalho, Natal (RN)

Escola Municipal Coronel Paulino Barcelos, Caicó (RN)

Centro Municipal de Educação Infantil Cristiano Borges de Araújo, Ipueira/RN

e às mais de 1.000 crianças alunas dos professores alfabetizadores

dessas escolas, que participando do Projeto Leitura + Neurociências

afirmaram, tal qual as crianças desse livro, o desejo de aprender a ler!


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Era uma vez um lindo reino, situado num planeta azul


da galáxia Via Láctea. Esse reino era habitado por seres
exóticos, amáveis e pacíficos. Nesse reino, havia um enigma:
os ricos e poderosos não queriam de forma alguma que as
crianças aprendessem a ler. Como controlavam o rei e seus
ministros, eles impediam todas as medidas que pudessem
contribuir para as crianças aprenderem a ler.
Eles fizeram com que os ministros decretassem
a criação de dois tipos de escola no reino:
uma, onde só estudavam os filhos dos
poderosos, era muito bem organizada,
com todos os recursos necessários,
como salas, laboratórios e
bibliotecas tinindo de novos
e cheios de novidades
atrativas 
e modernas.
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A outra escola, para as crianças do povo,


era um caos de desorganização, com as salas,
laboratórios e bibliotecas incompletos e caindo
aos pedaços. As crianças do povo, ao
chegarem nesta escola, tão sem atrativos,
logo perdiam o interesse em estudar e
a abandonavam sem ter completado
os estudos e nem sequer aprendido
a ler. E foi assim que, no belo reino
do planeta azul, foram se perdendo
verdadeiros cérebros de gênio
das crianças do povo.
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Além de controlar o rei e os seus ministros, os poderosos


controlavam o povo, usando uma tela que era colocada em todas
as casas do reino. Essa tela era como um altar, e as pessoas
acreditavam em tudo o que ela dizia, sem se dar conta de que
a tela mostrava somente aquilo que os poderosos queriam que
elas acreditassem. Para entender o que passava na tela, não era
preciso saber ler, bastava ver e escutar. Assim, aprender a ler não
era necessário, e as pessoas do reino foram ficando cada vez mais
ignorantes, sem pensar muito, pois a tela não
ensinava nada que pudesse, por um fio,
deixar as pessoas mais espertas
ou esclarecidas. A tela ensinava
somente coisas inúteis. Para piorar,
os jornais e revistas seguiam o
mesmo modelo
das telas, e
até as pessoas
que sabiam um
pouco acabavam
formatadas pela
opinião da imprensa.
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Alguns súditos mais esclarecidos alertavam o povo, mas


a maioria era anestesiada pelas telas criadas. A cada
dia, aparecia uma nova tela, que as pessoas carregavam
para todos os lugares do reino: salas de aula, quartos de
dormir, tribunais e lugares públicos.
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Como os poderosos, além do


controle das telas, tinham o
controle absoluto do rei e do
Tribunal de Ministros,
as leis que eram feitas não
tinham o objetivo de ajudar,
mas de atrapalhar o ensino
da leitura. De tempos em
tempos, leis orientavam
coisas totalmente
contraditórias sobre
a alfabetização das
crianças, como se
pode ver ao lado no
resumo das leis:
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DECRETO LIVROS

Primeiro, havia sempre uma cartilha para ensinar


a criança a ler (um livro com letras, palavras e
textos especialmente dedicados a ensinar a ler),
mas, um tempo depois, decretaram que as cartilhas
eram desnecessárias e antiquadas! E o pior:
jamais decretaram que livros de histórias
eram um dos mais importantes livros de ensino!

DECRETO MÉTODOS DE ENSINO I

De início, o método decretado para ensinar as


crianças iniciava da parte para o todo, começando
com o nome das letras, depois as sílabas, após
eram as palavras e, só no final, os textos.
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DECRETO MÉTODOS DE ENSINO II

Logo depois, ensinar letras e sílabas foi muito


criticado e desaconselhado, e o decreto do
momento foi o de alfabetizar do todo para as
partes. Os professores deveriam começar a ensinar
as crianças pelas palavras, frases e textos, e, desse
todo, as crianças iriam aprender as partes.

DECRETO MÉTODOS DE ENSINO III

Um tempo depois, o Tribunal de Ministros mudou


tudo, e ensinar a ler do todo para as partes foi
desaconselhado. Os professores deveriam voltar
às partes, priorizando a relação grafema/fonema,
sendo que não deveriam dizer o nome
das letras para as crianças.
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Nessa altura, muitos dos professores realmente estavam


bastante confusos e inseguros, e alguns que haviam
conseguido ensinar as crianças usando um dos métodos
começaram a defender aquele método como se ele fosse
milagroso, criando seitas de seguidores cheios de dogmas
teóricos. Aí foi realmente o caos, pois acabaram acontecendo
discussões e separações entre os diferentes seguidores,
que afirmavam cegos como uma criança mimada:
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— O meu método e a minha teoria são


os melhores, e chega!
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Foi então que uma professora foi procurada por duas


crianças muito inteligentes e ativas que estavam cansadas
disso tudo: Maurícia e Ernesto. Maurícia disse
o seguinte à professora:
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— Ficamos sabendo que na Via Láctea existe uma fada chamada Fada
Desmancha Dogmas de Alfabetização e Seitas de Ensino que pode nos
ajudar a descobrir o mistério de as crianças do reino não aprenderem a ler.
Ela virá se uma professora chamá-la com muita vontade em pensamento!
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A professora, que estava inconformada, sozinha e achando


que a briga dos métodos e dos decretos não a ajudavam
absolutamente em nada a ensinar as crianças a ler,
pensou com vontade tão grande em resolver esse mistério
que a fadinha se apresentou imediatamente na frente
dos três num raio luminoso! Ao chegar, a Fada Desmancha
Dogmas de Alfabetização e Seitas de Ensino
agradeceu, emocionada, e disse:

— Tenho observado vocês da minha casa lá na Via Láctea e queria muito


ajudar, mas para descer aqui preciso da energia positiva do chamamento
sincero, e os professores estão tão atrapalhados e a energia deles é tão
fraquinha que não consigo me aproximar para fazer as minhas mágicas e
ajudar! Felizmente, uma professora pensou forte e me chamou!
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E ela completou dizendo o seguinte sobre as


brigas dos métodos:

— Bem, na verdade, todos esses caminhos (métodos são caminhos) que


foram decretados são utilizados no momento certo pelo nosso cérebro
– que é uma espécie de computador mil vezes mais especializado do que
qualquer computador que exista no mundo – para ler. Esse supercomputador
não pede licença a nenhum método e usa na hora, na ordem que precisar
e de forma integrada, os diversos caminhos para poder ler todos os textos
do mundo que queira!
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— E tem mais, conhecer os métodos é pouco! Um importante caminho,


de base a todos os outros, é o da Ciência da Educação. Sem ela, não
se vai muito adiante na alfabetização. Devemos ter muito respeito pela
Ciência da Educação! Além disso, surgiu recentemente uma nova ciência,
a Ciência da Leitura, informando, entre outros caminhos, que a invariância
da visão humana para as letras, frente à variância para objetos e rostos,
deve ser considerada no ensino inicial da leitura e da escrita!
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A professora logo entendeu o que a fadinha disse e falou:

— Ah! Entendi, e por isso é preciso que o professor conheça todos os


caminhos para poder decidir qual o caminho mais certo, naquele momento,
para aquela criança. E o cérebro da criança também precisa conhecer
todos os caminhos que existem para ler: da letra ao som e dele à palavra
e aos textos, para que na hora em que precisar ler, rapidamente o seu
cérebro escolha o melhor caminho! A estrada de nosso cérebro é muito
maior do que as orientações do Tribunal de Ministros! Mas, por conta da
incompreensão existente, as crianças do reino há centenas e centenas
de anos não conseguem aprender a ler!
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— A Ciência da Educação nos diz que o professor, ao alfabetizar, vai


utilizar um caminho com várias vias. É certo que terá um ponto de
partida, como todo caminho tem. O que ele busca é que, ao final, seus
alunos leiam e entendam os múltiplos sentidos do lido. O que mudará
nesse caminho é o que enfatizar, conforme a base do alfabetizando.
Será enfatizado o nome das letras, os seus sons e formas, as sílabas,
os morfemas, as palavras e a sua presença em frases e parágrafos que
formam os mais variados tipos e gêneros textuais? Qual será a sequência
e a circularidade interativa? É preciso considerar a fase em que se
encontram as crianças! Por isso, é muito importante que, na bagagem
de estudos do professor, estejam presentes conhecimentos atualizados
para que ele tome suas decisões sobre o caminho metodológico com
base em evidências científicas, sempre considerando a bagagem
cognitiva que o alfabetizando traz!
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E a fadinha, que era muito determinada e rápida, logo que


terminou de falar, já foi lançando sobre todos o pó da
invisibilidade e transportando-os para a sala do Tribunal de
Ministros, onde ela sabia que os poderosos iriam se reunir em
seguida para tomar decisões sobre a educação.
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Ao chegar à sala, a primeira coisa que eles viram foi um


pergaminho muito antigo, roubado pela malvada Bruxa da
Desinformação Confusa Generalizada e Amplamente Divulgada.

Aqui convém dizer que, por orientação dessa bruxa,


as notícias eram sempre divulgadas, mas de forma
confusa e sem lógica, fazendo com que
ninguém entendesse nem chegasse a uma
conclusão lógica sobre a notícia.
No Pergaminho Sagrado, dizia:
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ISO ANTES SABER
“PARA SER É PREC
ignorância e da
A porta de saída da
rosos e a porta
servidão aos pode
vo mundo é a
de entrada a um no
das as crianças.
alfabetização de to r
e e afirma-se no se
Com o saber, nasc s
ça em suas própria
humano a confian
ade de cair na
ideias, e a credulid
o tem oportunidade
opinião comum nã das
em por ensinar to
de entrada. Comec
logo um mundo de
as crianças a ler, e
e e fraternidade
liberdade, igualdad
com o maléfico
surgirá, terminando
ucos
império de uns po
sos!
egoístas e podero
losófa.
Assinado: Dona Fi
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— Céus! Agora eu entendo o que os poderosos vêm fazendo há séculos!


Aprender a ler em cascata irá tornar as pessoas mais esclarecidas de
seus direitos e aí nem preciso dizer o que acontecerá!
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De repente, ficaram quietos, pois escutaram o grupo de


poderosos, que, liderados pela Bruxa da Desinformação
Confusa Generalizada e Amplamente Divulgada, vinham
vindo no corredor direto para a sala do Pergaminho Sagrado.
Quando todos sentaram, a bruxa disse:
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– Bem, precisamos continuar com a eficiente estratégia de deixar os


professores confusos e brigando sobre qual o melhor método para ensinar! Mas
temos que fazer mais! Vamos decretar que durante 200 anos os professores
que ensinam as crianças e os professores que ensinam os professores que
ensinam as crianças não receberão nenhum Melqui (era o nome da moeda
daquele reino) de aumento no pagamento. Vamos espalhar notícias de caos
e de problemas em todas as telas, de tal maneira que todos pensarão que,
se dermos um Melqui de aumento, o reino ruirá!
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E continuaram a falar sobre as manobras maléficas que


fariam para que o decreto saísse vitorioso e sobre todas
as vantagens que teriam. E foram tantas maldades e
tão desprezíveis que, quando a reunião terminou, a Fada
Desmancha Dogmas de Alfabetização e Seitas de Ensino
ficou petrificada e sem ação com a energia vinda da Bruxa
da Desinformação Confusa Generalizada e Amplamente
Divulgada e de seus maléficos comparsas.
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Mas Ernesto, que não tinha ficado petrificado e sabia


das coisas, deu logo a solução:

– Com a minha tela, eu gravei e filmei toda a reunião e também tirei fotos
do Pergaminho Sagrado! Vamos usar a mesma estratégia de divulgação
deles, só que ao contrário! Vamos em frente! Uma fada não pode
vencer uma bruxa!
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A Fada Desmancha Dogmas de Alfabetização e Seitas de


Ensino, com essa boa idéia e o entusiasmo de Ernesto,
despetrificou imediatamente e, da indignação que todos
estavam sentindo, gerou energias muito poderosas, criando
a mágica suprema de sua vida: colocou em todas as telas
de todas as pessoas do reino, por horas a fio, a foto do
Pergaminho Sagrado e a gravação da tramoia
acertada na maléfica reunião dos poderosos!
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O povo do lindo reino ficou sabendo de tudo e ficou


extremamente revoltado. Na revolta do povo, como um sol
fulgurante, a Fada Desmancha Dogmas de Alfabetização
e Seitas de Ensino encontrou energia para criar um novo
Pergaminho Sagrado, onde estava escrito:
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Nós, o povo, declaramos que os


direitos humanos fundamentais
incluem o direito à vida e à
liberdade, à liberdade de opinião e
de expressão, o direito ao trabalho,
à saúde, à cultura, à felicidade e,
fundamentalmente, à educação. Todos, a
partir desta data, merecem ser portadores
destes direitos, sem discriminação.
Como para ser é preciso saber, iniciaremos
ensinando todas as crianças a ler e a
partir daí iremos avançando cada vez
mais em saber e ser!

Assinado: O Povo
(e mais ninguém e nem precisa!)
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Contam, então, que foi a partir dessa data que os habitantes


do lindo reino trataram de se entender sobre como ensinar
as crianças a ler. Com o tempo, houve um grande avanço da
educação, e os poderosos enfraqueceram como uma planta sem
água, perdendo todo o poder e a riqueza que tiveram
durante séculos. Com isso, a liberdade,
a igualdade e a fraternidade
surgiram como um sol das
manhãs luminosas,
e todos viveram
felizes (e sábios)
para sempre!
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ANGELA NASCHOLD
Muitas das crianças brasileiras que frequentam a escola
há três anos ou mais ainda não aprenderam a ler.
Tanto essas crianças quanto os seus professores se
sentem descontentes e frustrados. Ninguém gosta
de fracassar! As crianças desta história viviam em um
lugar situado no belo planeta azul, muito parecido com o
Brasil. Elas não se conformaram com essa situação e, com a
ajuda de uma fadinha de nome comprido, descobriram o enigma de as crianças
não aprenderem a ler. Com isso, ajudaram não só a sua professora e colegas,
mas um país inteiro! Considerando que o país da história é muito parecido com o
Brasil, acredito sinceramente que a leitura da história pode dar algumas pistas
da difícil situação que as crianças encontram para se alfabetizar no nosso país!

AMANDA DUARTE
Assim como Maurícia, Ernesto e a professora, também
lutei para conseguir realizar meus objetivos e seguir
em frente com a carreira na arte de ilustrar. Desde
criança, ao fazer ilustrações, sonhava em trabalhar
profissionalmente e há cerca de 15 anos trabalho com
ilustrações, utilizando desde as técnicas tradicionais até as
não-convencionais – como pinturas com vinho e café. A luta pela educação em
nosso país não é diferente: todos os dias, é preciso esforço e muita criatividade.
No entanto, o mais importante é não desistir de buscar garantir um futuro
seguro e digno, sem exclusões, para todas as crianças. Para isso, é preciso
persistir e correr atrás desse sonho!