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DEDICATÓRIA

A Deus, que abriu portas e me capacitou, para que eu


possa viver a minha missão de vida.

Aos educadores que, assim como eu, sonham com um


mundo melhor e acreditam na força transformadora
de um olhar acolhedor.

Às crianças e jovens, nossas fontes de inspiração, que


nos movem cotidianamente nessa relação intensa e
desafiadora que é a educação.
Copyright © 2020 by Alex Viana

Revisão, correção, diagramação e layout: Robson Teixeira @fazendoabase


Ilustrações: @liviailustradora

Contato com o autor


Instagram: @alexvianatrainer
Site: alexvianatrainer.com

V614 Viana, Alexandro Lima


E-book: Intervenções Disciplinares NeuroAfetivas / Alex Viana.
1ª ed. - Fortaleza, Edição Independente, 2020.
836 kb; epub. (Coleção Educação Humanizada).

Prefácio: Amaro França.


Inclui Bibliografia
ISBN: 978-65-00-12870-3

1. Educação, Neurociências, Intervenções disciplinares.


I. Título.

CDD 612.82
CDU 37.013

Todos os direitos desta edição reservados a Alexandro Lima Viana.

Proibida a reprodução ou transmissão de partes deste


livro, através de quaisquer meios, sem a prévia autorização por escrito.
SOBRE O AUTOR

Especialista em Neuroeducação, graduado em


pedagogia pela Universidade Federal do Ceará, especialista
em Gestão e Coordenação Escolar com MBA em Gestão
Estratégica de Pessoas.
Membro emérito da Sociedade Latino Americana de
Coaching, Practitioner em Programação Neurolinguística
licenciado pela Society Of Neurolinguistic Programming™,
Analista Comportamental e Master Coach pela Federação
Brasileira de Coaching Integral Sistêmico© - FEBRACIS.
Palestrante apaixonado pela educação, criador dos
Programas NeuroEducador Expert, NeuroMentoria Teen e
ConVIVENDO MELHOR: Momento Família.
“A adolescência não é uma
invenção cultural, decorre de um cérebro
que passa por mudanças profundas."

Suzana Herculano-Houzel
PREFÁCIO

Ao receber o convite para prefaciar esta obra, um


misto de emoções e de sentimentos tomou conta de
mim. Por um lado, a honra e o privilégio de integrar
diretamente este maravilhoso trabalho e, por outro,
o receio de não corresponder ao que o autor espera
de completude à sua visão e aos seus escritos.

Receios à parte, assumi com imenso carinho essa


responsabilidade! E, assim, logo me deparei nas
primeiras páginas com a identidade do autor
transmutada em sua produção. Sabemos que
algumas obras revelam tanto do autor que dá para
“tocar a alma deste”, pois é difícil esconder-se nas
palavras. Ao contrário, o autor revela-se nas
sombras e nos reflexos dessas que agora já não mais
lhe pertencem. Pertencem àqueles que, como eu,
bebem na fonte de sua inspiração e das suas teorias.

Em minhas conferências e andanças pelo Brasil,


tive o privilégio de conhecer o Alex Viana,
apresentado através de um amigo em comum. Nessa
mesma ocasião, senti o valor de sua pessoa, a alegria
que lhe é peculiar e o desejo de dar e fazer sempre o
melhor de si, através da sua ação gestora - como
grande educador, pesquisador, palestrante e, agora,
como escritor.
.
Dentre suas múltiplas capacidades, Alex
Viana tem o dom de tornar simples aquilo que é
complexo. E aqui isso se perfaz com maestria no seu
diálogo construtivo junto ao educando protagonista
desta obra. De forma didática, também, vai nos
conduzindo aos conceitos complexos da
neurociência, convidando-nos a novas concepções
educacionais para o enfrentamento das dificuldades
disciplinares sobre a perspectivas de intervenções
neuroafetivas.

Nesta obra, sentimo-nos como aprendizes sob o


prisma desse novo paradigma, sendo convidados a
“trilharmos” sua proposta metodológica interventiva
neuroafetiva, levando-nos a repensar para onde
caminha a educação, ao mesmo tempo em que
descortinamos o papel iluminador da neurociência
no desenvolvimento e nas aprendizagens humanas.

De forma pessoal, sou cônscio de que só


é possível um verdadeiro desenvolvimento
humano/educacional, se houver envolvimento. E
você, caro Alex, envolveu-se e nos envolveu,
presenteando-nos com o desenvolvimento de sermos
seres humanos melhores, a partir da leitura deste
livro. Muito obrigado!

Amaro França
Gestor educacional, escritor e palestrante.
SUMÁRIO

Introdução ..............................................
Por dentro do processo ..........................
Os 4 passos .............................................
Considerações finais ..............................
Referências .............................................
Material de apoio ...................................
INTRODUÇÃO

As intervenções disciplinares são historicamente


ineficazes, porque normalmente não inibem as
reincidências e produzem fraturas emocionais que
interferem na formação da identidade e nas relações
interpessoais do indivíduo ao longo da vida.

Precisamos desprender-nos da ideia de que, para


corrigirmos as falhas do outro, precisamos punir. A
ineficácia desse processo está no nosso cotidiano e
pode ser ressignificada com um pouco de esforço e
seguindo um passo a passo simples.

A minha proposta com este material é, através de


um relato de experiência e fundamentação teórica
com base científica, possibilitar intervenções
disciplinares mais eficazes, que reduzam a
reincidência e favoreçam o desenvolvimento integral
dos jovens.

Trata-se de um Método composto por Quatro


Etapas, fundamentadas em conceitos e técnicas das
Neurociências e do Coaching Integral Sistêmico.
POR DENTRO DO PROCESSO

Certa vez recebi um aluno transtornado na


sala de direção. A ira estava estampada em seu rosto.
Dizia que isso não ia ficar assim e que continuaria a
briga no final da aula. Falou absurdos, enquanto eu
ouvia em silêncio, esperando que concluísse.

Depois de colocar toda aquela raiva para


fora, pedi que tomasse um pouco de água e que me
explicasse o que aconteceu. Então, José iniciou o seu
relato, e eu ouvi, esforçando-me ao máximo, para
não o interromper nem julgar.

Os adultos não nos ensinaram a ouvir


verdadeiramente, aprendemos a escutar de maneira
superficial, enquanto construímos internamente as
respostas ou soluções para o problema dos outros.
Isso acontece também quando buscamos mediar
conflitos na escola.

Uma excelente estratégia para lidarmos com essa


situação é relembrarmos como foi viver essa fase. As
adversidades, as dores, as angústias, a intensidade
emocional, enfim, toda a complexidade
experimentada nesse período.
É importante olhar para o jovem como um ser em
formação, que tem poucas respostas e muitas
incertezas, embora já apresente alguns
comportamentos ofensivos e de distanciamento,
naturais e decorrentes do processo de
neurodesenvolvimento.

Proponho o desafio de desenvolver um novo


padrão de comunicação, onde desaceleramos a
mente e escutamos empaticamente o que os
adolescentes estão nos dizendo, com respeito à sua
estrutura de pensamento.

Depois de ouvi-lo atentamente, ele suspirou.


Então iniciei a intervenção, explicando que os
nossos erros e os dos outros fazem parte do
processo de aprendizado e que não podemos ver
isso como algo carregado de negatividade.
Perguntei como estava em casa, se ele estava
passando por algum problema... então começou a
falar que o pai foi embora quando ainda era
criança, que sentia muita saudade e que herdou
dele essa raiva. Disse que o pai era assim como
ele, descontrolado. Contei em seguida uma
história que aconteceu comigo no meu tempo de
colégio, que na época eu agi de forma impulsiva e
inconsequente, e falei dos desdobramentos da
minha atitude.
Pedi licença para explicar sobre como o
cérebro funciona, usando algumas imagens
impressas (que você poderá baixar no link
disponível nas últimas páginas deste livro).
Demonstrei, através das figuras, os principais
mecanismos biológicos responsáveis pelo
comportamento humano.
Primeiramente, a imagem lúdica do sistema
nervoso autônomo simpático e parassimpático,
responsáveis por nos colocar em estado de alerta
ou calma, respectivamente.

FIGURA 1 Sistema Nervoso Parasimpático


repouso-digestão (rest-digest)
ACETICOLINA

Sistema Nervoso Simpático


lutar ou fugir (fight or flight)
ADRENALINA
Quando o sistema nervoso autônomo simpático
prevalece, as nossas respostas emocionais
associadas à agressividade ficam superativadas. Por
isso, muitas vezes nos arrependemos de atitudes
tomadas, quando estamos nesse estado.

O cérebro adolescente é equivalente ao do adulto


em relação ao tamanho e peso; porém ainda está em
processo de amadurecimento, o que dificulta o
autocontrole. Somente as experiências vividas ou
exemplos observados produzirão maturidade,
portanto:

Conscientize-se de que o repertório


comportamental dos jovens ainda está sendo
construído.

Perceba que, mesmo estando fisiologicamente


“maduros”, nós, adultos, ainda somos impactados
por situações em que a emoções assumem o
controle, e deixamos nos outros e em nós marcas de
que não gostaríamos.

Aplique esse conhecimento na sua vida pessoal,


produzindo mudanças significativas, melhorando as
suas relações consigo mesmo e com as pessoas de
seu convívio.
Associei então o sistema nervoso autônomo
com estruturas cerebrais. Mostrei ao jovem rapaz
a divisão do cérebro em três áreas, teoria
construída por Paul McLean (publicada em 1990),
que facilita muito a compreensão acerca do nosso
processamento neural.
Essa correlação possibilita apresentar a
ativação da divisão simpática a partir do sistema
límbico e a possibilidade de desenvolvermos
estratégias comportamentais a partir do
amadurecimento do Neocórtex.

FIGURA 2
Expliquei que o comportamento impulsivo
dessa fase acontece devido às alterações no
sistema de processamento emocional e à
imaturidade natural do córtex pré-frontal, região
cerebral responsável pela antecipação ao
arrependimento, pela flexibilidade cognitiva,
pelo planejamento e pela integração de
informações para tomada de decisões, por
exemplo. Essa região cerebral conclui o
amadurecimento por volta dos 20 anos, como
pode ser verificado na imagem abaixo.

FIGURA 3

https://www.harvardmagazine.com/2008/09/the-teen-brain.html
Isso mesmo, o que ganhamos em flexibilidade
adaptativa, moldando o nosso cérebro a partir das
experiências. Independente do país em que
nascemos, perdemos em autonomia cognitiva na
infância e adolescência, ou seja, o adolescente —
assim como todos nós — toma as melhores decisões
com os recursos que tem na época em que viveu a
experiência. A diferença é que o repertório de
vivências do jovem ainda é bastante limitado.

Os ensaios mentais associados a sentimentos


desenvolvem no cérebro novos circuitos neurais que
poderão ser acessados para resolver situações
posteriores ou otimizar o potencial de realização.

Vale ressaltar que a neuroplasticidade — essa


capacidade de reorganização do cérebro — pode nos
beneficiar em qualquer época da vida. Portanto,
podemos modificar os comportamentos que nos
desagradam e limitam as nossas realizações.

Orientar os jovens sobre o funcionamento


cerebral e propor reflexões que possibilitem a
construção de novas alternativas comportamentais,
favorece a estruturação de caminhos neuronais que
possibilitam aprendizados valiosíssimos.
Enfatizei, logo em seguida, as amígdalas
cerebrais, que estão no sistema límbico e são
responsáveis por disparar no nosso corpo
atitudes como as de luta ou de fuga. Comentei
ainda acerca das alterações que essa região sofre
no período da adolescência.

FIGURA 4
Resposta ao perigo

Nas situações em que ocorre a ativação dessa


área, as nossas pupilas dilatam, a visão periférica
diminui, o coração acelera, o fluxo sanguíneo é
direcionado para os membros superiores e
principalmente inferiores: o nosso corpo se prepara
para enfrentar os perigos, a partir de uma descarga
de adrenalina e outros peptídeos. Esse mecanismo
nos leva a agir por instinto e agredir física ou
verbalmente as pessoas, ou fugirmos do conflito.
No adolescente, as amígdalas cerebrais
apresentam tamanho maior do que quando éramos
crianças e do que agora, enquanto adultos.

Podemos intuir que essa alteração biológica


acontece; porque os adolescentes, nas mais variadas
espécies animais, principalmente mamíferos,
assumem posturas mais exploratórias e,
evolutivamente falando, precisam agir de forma
rápida para garantir a autopreservação.

Após observarmos a ilustração das amígdalas


cerebrais, falei que possivelmente um pouco do
temperamento de seu pai o acompanharia por
toda a vida, mas que ele não era escravo disso.
Pude perceber nesse momento um leve sorriso
em seu rosto.
Fiquei ainda mais entusiasmado e comecei a
falar sobre a capacidade que o nosso cérebro tem
de se reorganizar a partir das experiências
vividas, principalmente em situações em que nos
envolvemos emocionalmente.
Mostrei o sistema de recompensa do cérebro,
que também fica na área de processamento
emocional, falei mais especificamente da área
tegmentar ventral e do núcleo acumbente.
Essas duas regiões fazem parte do circuito
dopaminérgico, responsável por nos proporcionar
sentimentos positivos.
Expliquei que na adolescência essa área, assim
como as amígdalas cerebrais, passa por
transformações e que “perdemos sensibilidade”
na região.

FIGURA 5

Sistema de recompensa

Essa diminuição de sensibilidade acontece na


adolescência, porque perdemos receptores que
captam as substâncias que nos fazem sentir
motivados, por isso é comum que os jovens
experimentem, com certa frequência, o tédio e a
apatia, tão característicos dessa fase.
Os adolescentes tendem, então, a buscar
experiências que compensem essa dessensibilização,
assumindo comportamentos de risco, que promovem
o aumento da liberação de endorfina e de dopamina
nas sinapses neurais, por exemplo.

Esse tipo de atitude tem por objetivo inundar os


receptores restantes, com neurotransmissores que
estão associados à sensação de bem estar e
motivação.

Essa adaptação biológica acontece; porque, para


que ocorra a transição para a vida adulta,
precisamos desconstruir o arcabouço de
experiências infantis que produziam satisfação e
desenvolver um comportamento mais exploratório
que nos mobilize a viver experiências que ampliem o
nosso “mapa de mundo” e nos promovam à próxima
fase do desenvolvimento humano.

Para facilitar o entendimento sobre o


comportamento dos neurônios, apresentei a
imagem de uma sinapse e dos
neurotransmissores (moléculas que transmitem
informações) e expliquei como se dá o processo.
FIGURA 6

,
-

A comunicação entre os neurônios acontece


através de alterações elétricas e químicas. Envolve
terminais pré-sinápticos, liberadores de moléculas
mensageiras, e os terminais pós-sinápticos, que
captam essas informações.

O repasse ou não desses elementos e a duração


do efeito provocado dependerão de receptores
apropriados e do tempo que os peptídeos
permanecem no espaço entre neurônios — a fenda
sináptica —, pois eles são naturalmente recaptados
pelo terminais pré-sinápticos e/ou degradados por
enzimas, quando o estímulo cessa.

Quando vivemos alguma experiência, os


neurônios liberam, a partir das vesículas sinápticas,
os neuropeptídios apropriados que produzirão as
emoções.
Ao tomarmos consciência das sensações
provocadas, nomeamos os sentimentos e
construímos imagens mentais que produzem uma
postura correspondente. Esse feedback do nosso
corpo retroalimenta os nossos pensamentos que
geram emoções e assim sucessivamente.

Foi quando ele perguntou: “— Ah, quer dizer


então que ficamos ‘normais’, quando não tem essas
substâncias entre os neurônios?”

Aproveitei o interesse para ampliar a


explicação, falando que a lógica dele faz sentido.
Esses peptídeos são degradados ou recaptados
após os eventos vividos, inclusive, precisamos ter
cuidado com os filmes mentais que escolhemos
passar na nossa mente, pois reviver as situações
boas ou más promove os mesmos sentimentos
despertados no momento da experiência, porque
liberamos os mesmos neurotransmissores e
hormônios daquela ocasião.
Relembrar eventos traumáticos nos adoece
porque o cérebro, em certa medida, não diferencia o
que é real do que imaginamos. Sendo assim,
produzimos no nosso corpo a mesma química
interna sentida nos momentos de tristeza, por
exemplo. Esses hormônios e neurotransmissores, em
níveis normais, são úteis; porém, em excesso,
assumem caráter de toxidade.

Focar em aspectos negativos pode produzir em


nossa vida uma série de malefícios, como exemplo: o
empilhamento de memórias negativas e,
consequentemente, a ativação de circuitos neurais
que distorcem o nosso mapa de mundo, trazendo
perspectivas mais negativas, que drenam a nossa
energia e provocam o distanciamento das pessoas
que amamos.

Por outro lado, quando focamos em experiência


positivas, sentimos o mesmo bem estar. Portanto,
relembrar bons momentos e criar filmes mentais
positivos que solucionem os problemas, tende a nos
tornar mais confiantes e criativos, proporcionando a
construção de novos aprendizados que poderão ser
acessados, quando necessário, a partir da
intencionalidade.

Concordamos, então, que é muito importante


lembrarmos as nossas experiências positivas, e que
as negativas fazem parte da vida e podem trazer
aprendizados.
Falei em seguida sobre duas estratégias
pessoais que eu uso quando estou diante de
situações desafiadoras ou conflituosas. As duas
envolvem o processo de respiração consciente.
Se for possível, saio do local e encho um copo
com água, levo esse tempo para inspirar contando
até quatro e expirar contanto até sete. Dessa
forma, equilibro o meu sistema nervoso
autônomo e consigo ter maior clareza mental
para tomar decisões mais assertivas.
A outra estratégia é trazer a convicção de
que, assim como vários outros problemas que já
tive, esse também vai passar, que será apenas
mais um e que ampliará a minha experiência de
vida.
Em seguida, faço o processo de respiração
consciente por três ou quatro vezes e me
pergunto: “como posso conduzir essa situação
com o menor dano?”, ou “que intervenção posso
fazer, para que daqui saiam pessoas mais
conscientes e maduras cognitiva e
emocionalmente?”.
Quando o desafio é muito grande, pergunto
para mim mesmo: “como um sábio amigo que a
vida me deu conduziria essa situação se estivesse
aqui?”.
Biologicamente falando, o equilíbrio entre
respiração e atividade cerebral, relacionada à calma
ou ao estresse, está associado a um grupo de
neurônios que ficam localizados no tronco cerebral,
região mais primitiva do encéfalo, ou seja, não é uma
área racional.

Processos de respiração consciente são, além de


terapêuticos, capazes de nos proporcionar maior
sensatez diante de situações que precisam do nosso
equilíbrio, porque mandamos comando para essa
área primitiva, que recebe e aceita sem questionar.

Temos cerca de 20.000 respirações


automatizadas por dia. A cultura ocidental não
valoriza a introspecção, a meditação ou outros
mecanismos naturais que estão relacionados ao
nosso equilíbrio interno.

Esse ativismo pode nos adoecer e certamente


limita o nosso potencial de contemplação do que é
belo e do que verdadeiramente importa nessa vida, a
conexão com as pessoas que amamos e com nós
mesmos.
Perguntei como estava se sentindo e ele
respondeu que estava mais calmo e que nunca
ninguém tinha conversado daquela forma. Que
tinha gostado muito de saber como funciona o
seu cérebro e perguntou se eu tinha mais alguma
dica.
Voltei a falar sobre a importância das
experiências reais e imaginada para o processo de
amadurecimento cerebral.
Retomei alguns conceitos e expliquei que,
ensaiando mentalmente alternativas
comportamentais, ele poderia ampliar suas
possibilidades diante de outras situações
conflituosas.
Pedi para criar um filme na sua mente, onde
ele agisse com maior maturidade e conseguisse
resolver o problema sem criar outros.
Fechou os olhos e depois de alguns minutos
me relatou uma alternativa:
— Ah, já sei, quando inventaram a história
sobre a minha namorada, eu poderia ter chamado
ela e um adulto para esclarecemos a situação com
o menino.
Validei o seu primeiro ensaio mental:
— Muito bem, você consegue imaginar mais
duas possibilidades e me contar?
— Sim... poderia não ter levado a sério o que
ele falou. Eu me chateei, porque já não estava
bem mesmo... Poderia também ter saído de perto
para tomar água, me acalmar e só depois
conversar com ele, na presença de um adulto.
Pedi que escolhesse o melhor dos três
filmes criados na mente e que os repassasse com
os olhos fechados, trazendo toda a sinestesia
possível: com cores, sons e cheiros... Assim a
mobilização neural torna-se mais eficaz.
Concluímos, então, nosso momento com
elogios e imensa gratidão.
— Parabéns, José! Estou muito feliz e grato
por viver essa experiência contigo. Obrigado por
ter confiado em mim e contato um pouco da sua
história, espero ter ajudado a lidar melhor com as
emoções em momentos de conflito.
— Foi muito legal, Alex! Não sei se da
próxima vez que acontecer eu conseguirei, mas
pode ter certeza de que eu vou me esforçar para
melhorar nisso, vou criar as minhas estratégias e
lembrar de respirar e me acalmar antes de agir.
OS
4 PASSOS

1
Acalme os ânimos e conecte-se de forma
ativa e empática;

2 Faça o erro parecer fácil de corrigir e


conte alguma história sua, humanize-se;

3
Apresente a neurobiologia do
comportamento e fale sobre respiração
consciente;

4
Proponha o processo de visualização
mental e peça para ouvir as novas
possibilidades criadas.
1 DIÁLOGO ESTRUTURADO

Ajuste a sua comunicação verbal e não verbal

Você é o adulto da situação, portanto expire,


inspire e acalme o seu sistema nervoso,
proporcionando, com a maior brevidade possível, um
ambiente seguro, neutro e livre de julgamentos. Agir
impulsivamente não promoverá uma intervenção
que promova aprendizados, que são mútuos.

Atenda separadamente e escute de forma empática

A empatia é uma habilidade que podemos


desenvolver ao longo da vida. Quando conseguimos
espelhar internamente os sentimentos do outro e
nos mobilizar para contribuir, dizemos que
alcançamos o terceiro nível de empatia, denominado
por Goleman (pai da inteligência emocional) de
preocupação empática.
2 HUMANIZAÇÃO DO MEDIADOR

Relate alguma experiência pessoal

Contar histórias é uma das melhores formas de


nos conectarmos com as pessoas. Na aplicação do
método, além de trazer uma dimensão mais pessoal
para o mediador do conflito, gera identificação e
favorece abertura para que o processo aconteça.
Construir essa confiança é
fundamental.

Faça o erro parecer fácil de corrigir

As antecipações geradas por quem está passando


por um problema são geralmente as piores. Trazer a
perspectiva de que o problema tem solução e que
pode ser simples, proporciona certo conforto, que é
imprescindível para que a comunicação se estabeleça
adequadamente e para que ocorra um aprendizado
significativo.
3 A NEUROBIOLOGIA DO COMPORTAMENTO

Esclareça acerca dos aspectos neurobiológicos

Entender os mecanismos de funcionamento do


cérebro pode ser uma excelente vantagem frente aos
desafios que a vida reserva.

Os jovens tendem a ser curiosos e a testar o que


apresentamos, dependendo de como o fazemos.
Portanto, podemos minimizar conflitos e ainda
torná-los mais preparados para os desafios que estão
por vir.

Fale sobre a possibilidade de mudança

Demonstrar que a mudança é um


processo possível pode significar um divisor de
águas na vida dos nossos adolescentes, que
normalmente agem como se não houvesse amanhã e
como se as coisas fossem como são e que nada pode
ser feito.
4 AMPLIAÇÃO DO REPERTÓRIO
COMPORTAMENTAL

Explique sobre o poder das visualizações

O processo de visualização mental tem sido


utilizado por grandes referências mundiais. Esse
mecanismo mobiliza energia interna para
realizações e pode contribuir com a ampliação do
repertório comportamental do estudante. A partir da
criação de filmes mentais, o jovem pode
experimentar vivências do adulto.

Demonstre que acredita na transformação

Normalmente os jovens reclamam do


comportamento dos adultos, que tendem a não
valorizar as suas potencialidades pela ânsia de
corrigir. Essa é uma oportunidade ímpar para que
seja estabelecida uma relação de confiança.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

As intervenções disciplinares usuais são pouco


efetivas e provocam reincidência; porque, entre
outras coisas, não levam em consideração os
aspectos neurobiológicos do comportamento e
reforçam a autopercepção negativa do aluno.

Precisamos nos apropriar das pesquisas e


referenciais teóricos que estudam a motivação de
nossas ações e o nosso arcabouço biológico, não para
justificar, mas para compreender. Não devemos
replicar os padrões educacionais do século passado,
podemos inovar, apropriando-nos desses
fundamentos e provendo ambientes educacionais
mais adequados, inclusive para nós educadores.

A proposta de um diálogo estruturado, com


questionamentos reflexivos, escuta ativa e empática,
esclarecimentos acerca do funcionamento cerebral e
projeções mentais acerca da situação vivenciada, são
etapas simples de grande potencial, porque podem
minimizar os embates e semear a cultura de paz nas
escolas.
REFERÊNCIAS

ARTIGAS, A. Inteligência Relacional: as 6 habilidades


para revolucionar seus relacionamentos na vida e
nos negócios. São Paulo: Literare Books
International, 2017.

CARNEGIE, D. Como fazer amigos e influenciar


pessoas. São Paulo: Ed. Companhia Editora Nacional,
1995.

GOLEMAN, D. O cérebro e a Inteligência emocional:


novas perspectivas. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva,
2012.

HERCULANO-HOUZEL, S. O cérebro em
transformação. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2005.

SIEGEL, D. J. Cérebro adolescente: a coragem e a


criatividade da mente dos 12 aos 24 anos. São Paulo:
Ed. nVersos, 2016.
MATERIAL DE APOIO

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processo e realize você também Intervenções
Disciplinares NeuroAfetivas.

Senha para acesso: IDNA

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