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Eficácia Jurídica Das Normas Constitucionais Artigo 221, IV Da Constituição Federal De 1988.

No presente texto será analisada de forma detalhada a eficácia das normas


constitucionais. Com efeito, será estabelecido um paralelo entre a eficácia jurídica e social das
normas constitucionais. Por fim, será abordada a forma como a doutrina classifica as normas
constitucionais quanto à sua eficácia, trazendo à baila, para enriquecimento do texto, exemplos
jurisprudenciais acerca do tema.

I – EFICÁCIA DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS

Inicialmente, é importante ponderar que a questão da eficácia das normas


constitucionais é muito debatida pela doutrina pátria.

Com efeito, costuma-se ponderar que todas as normas constitucionais apresentam


eficácia, porém, algumas detêm eficácia jurídica e social, enquanto outras têm apenas eficácia
jurídica.

Na lição de Michel Temer, em sua obra Elementos de direito constitucional[1]:

“...eficácia social se verifica na hipótese de a norma vigente, isto é, com


potencialidade para regular determinadas relações, ser efetivamente aplicada a
casos concretos. Eficácia jurídica, por sua vez, significa que a norma está apta a
produzir efeitos na ocorrência de relações concretas; mas já produz efeitos
jurídicos na medida em que a sua simples edição resulta na revogação de todas
as normas anteriores que com ela conflitam.”

Na esteira do acima exposto, Maria Helena Diniz, no livro Norma Constitucional e seus
efeitos[2] ensina que a norma constitucionalmente eficaz, sob o ângulo semântico, seria a
efetivamente obedecida, contrapondo, assim, a eficácia jurídica (sintática) e a eficácia social
(sociológica) da norma constitucional, ressaltando que a norma constitucional deve ser um:

“...reflexo da situação fática existente, evitando-se o perigo de uma oposição


entre o social e o jurídico, que levaria à sua ineficácia semântica por falta de
ressonância no seio da coletividade, por ser inaplicada pelo órgão competente.”

Nesse sentido, a Professora Maria Helena Diniz justifica as recorrentes emendas e


remendos que constantemente alteram o texto constitucional, concluindo que o direito não
pode deixar de considerar a realidade social,afinal:

“Não há como negar que a ordem constitucional, mesmo no que atina aos
aspectos sociais, políticos e econômicos, funda-se em fatos, nem como ignorar a
celeridade e a concomitância espácio- temporal das mudanças na realidade. Daí
a necessidade de revisão ou de emendas...”
De qualquer sorte, em consonância com as lições dos doutrinadores supramencionados,
restaindubitável que inexiste norma constitucional despida de eficácia, já que, por si só, ela terá
o condão não apenas de revogar normas anteriores que com ela sejam incompatíveis, mas
também de impedir o ingresso no ordenamento jurídico de quaisquer normas que com ela
colidam.

Destarte, é certo que a eficácia da norma constitucional não depende apenas de suas
condições fáticas de atuar.

Isso porque, as condições fáticas de atuação da norma guardam relação, apenas, com
sua eficácia social (sociológica), e não com sua eficácia jurídica (sintática).

É possível concluir, pois, pelas ponderações acima, que muitas normas constitucionais,
notadamente as programáticas, resultarão na modificação da realidade social, mas, por outro
lado, é certo que sua positivação, sem dúvida alguma, terá decorrido da verificação da
necessidade de mudanças no âmago da sociedade (sendo, pois, a norma constitucional reflexo
da situação fática existente).

II – CLASSIFICAÇÃO DAS NORMAS CONSTITUCIAIS

Importante destacar que a doutrina costuma classificar as normas constitucionais


segundo a sua eficácia, ou seja, segundo sua aptidão de produzir efeitos jurídicos.

Nesse sentido, vale ponderar que a classificação mais adotada, que é, inclusive, adotada
pelo Colendo Supremo Tribunal Federal em sua jurisprudência, é a estabelecida pelo Professor
José Afonso da Silva.

Com efeito, segundo o renomado doutrinador, as normas constitucionais têm eficácia


plena, contida ou limitada, conforme será doravante demonstrado.

II.1 –NORMAS DE EFICÁCIA PLENA

As normas constitucionais de eficácia plena, são aquelas que são imediatamente


aplicáveis, ou seja, não dependem de uma normatividade futura que venha regulamentá-la,
atribuindo-lhe eficácia.

São, pois, normas que já contém em si todos os elementos necessários para sua plena
aplicação, sendo despiciendo que uma lei infraconstitucional a regulamente.

Nesse sentido, o doutrinador Pedro Lenza[3] explica que:

“Normas constitucionais de eficácia plena e aplicabilidade direta, imediata e


integral são aquelas normas da Constituição que, no momento em que esta
entra em vigor, estão aptas a produzir todos os seus efeitos, independentemente
de norma integrativa infraconstitucional (situação esta que pode ser observada,
também, na hipótese do art. 5o, § 3o). Como regra geral, criam órgãos ou
atribuem aos entes federativos competências. Não têm a necessidade de ser
integradas.”

Portanto, tais normas constitucionais são autoaplicáveis, independentemente de


regulamentação por uma lei infraconstitucional.

Trazemos à baila, como exemplo de norma constitucional de eficácia plena, o artigo 132,
“caput”, da Carta Magna, cuja redação segue “in verbis”:

“Art. 132 – Os Procuradores dos Estados e do Distrito Federal, organizados em


carreira, na qual o ingresso dependerá de concurso público de provas e títulos,
com a participação da Ordem dos Advogados do Brasil em todas as suas fases,
exercerão a representação judicial e a consultoria jurídica das respectivas
unidades federadas.”

Da mesma forma, podemos citar como exemplo de normas constitucionais de eficácia


plena os seguintes artigos da Carta da República: art. 1º, art 2º, art. 14, art. 15, art. 44, art. 45,
art. 77, etc..

Por fim, trazemos à baila ementa de acórdão do Colendo Supremo Tribunal Federal em
que é expressamente mencionada norma constitucional de eficácia plena:

“ADI 3965/MG – Minas Gerais- Ação Direta de Inconstitucionalidade. Relator(a):


Ministra Cármen Lúcia
Julgamento: 07/03/2012
Órgão Julgador: Tribunal Pleno

EMENTA: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. ORGANIZAÇÃO E


ESTRUTURA DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO
DE MINAS GERAIS. LEIS DELEGADAS N. 112 E 117, AMBAS DE 2007. 1. Lei
Delegada n. 112/2007, art. 26, inc. I, alínea h: Defensoria Pública de Minas
Gerais órgão integrante do Poder Executivo mineiro. 2. Lei Delegada n.
117/2007, art. 10; expressão “e a Defensoria Pública”, instituição subordinada
ao Governador do Estado de Minas Gerais, integrando a Secretaria de Estado de
Defesa Social. 3. O art. 134, § 2o, da Constituição da República, é norma de
eficácia plena e aplicabilidade imediata. 4. A Defensoria Pública dos Estados
tem autonomia funcional e a dministrativa, incabívelrelação de subordinação a
qualquer Secretaria de Estado. Precedente. 5. Ação direta de
inconstitucionalidade julgada procedente.” (grifo meu)
Resta, pois, demostrado que as normas constitucionais de eficácia plena são aquelas
que já contêm em si todos os elementos necessários para sua aplicação, independendo, assim,
de norma regulamentadora.

II.2 –NORMAS DE EFICÁCIA CONTIDA

Por outro lado, as normas constitucionais de eficácia contida são aquelas que, nada
obstante produzam seus efeitos desde logo, independentemente de regulamentação, podem,
por expressa disposição constitucional, ter sua eficácia restringida por outras normas,
constitucionais ou infraconstitucionais.

O Professor José Afonso da Silva[4] sintetiza sua explicação acerca das normas
constitucionais de eficácia contida nos seguintes termos:

“Normas de eficácia contida, portanto, são aquelas em que o legislador


constituinte regulou suficientemente os interesses relativos a determinada
matéria, mas deixou margem à atuação restritiva por parte da competência
discricionária do Poder Público, nos termos que a lei estabelecer ou nos termos
de conceitos gerais nelas enunciados.”

No mesmo sentido, Pedro Lenza[5] explica que:

“As normas constitucionais de eficácia contida ou prospectiva têm aplicabilidade


direta e imediata, mas possivelmente não integral. Embora tenham condições
de, quando da promulgação da nova Constituição (ou diante da introdução de
novos preceitos por emendas à Constituição, ou na hipótese do art. 5º, § 3º),
produzir todos os seus efeitos, poderá a norma infraconstitucional reduzir sua
abrangência.”

E continua ressaltando que:

“A restrição de referidas normas constitucionais pode-se concretizar não só


através de lei infraconstitucional mas, também, em outras situações, pela
incidência de normas da própria Constituição, desde que ocorram certos
pressupostos de fato, por exemplo, a decretação do estado de defesa ou de sítio,
litando diversos direitos (arts. 136, § 1º, e 139 da CF/88).”

Portanto, tais normas constitucionais têm total eficácia por si, contudo, por expressa
disposição constitucional, podem, eventualmente, sofres restrições por outras normas.

Cito como exemplo de norma constitucional de eficácia contida o artigo 5º, XIII, da
Constituição Federal:
“Art. 5o (...)

XIII – É livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão,atendidas as


qualificações profissionais que a lei estabelecer;” (grifo meu)

Ou seja, o dispositivo constitucional supramencionado, que estabelece o livre exercício


de qualquer trabalho, ofício ou profissão, tem aplicabilidade independentemente de norma
infraconstitucional.

Todavia, eventual norma infraconstitucional pode estabelecer determinadas


qualificações para o exercício do trabalho, ofício ou profissão (como é o caso da aprovação no
exame de ordem para o exercício da advocacia, nos termos da Lei 8.906/1994), limitando,
assim, a abrangência da norma constitucional.

Podemos citar também como exemplos de normas constitucionais de eficácia contida os


seguintes dispositivos da Carta Magna: art. 5º, incisos VII, VIII, XXV, XXXIII, art. 15, inciso IV, art.
37, inciso I, etc.

Relacionei abaixo a ementa do seguinte julgado em que menciona-se expressamente


norma constitucional de eficácia contida:

“Tribunal Superior do Trabalho – TST


Recurso de Revista no 1924798219955045555

Órgão Julgador: 1a Turma

Julgamento: 02/02/2000

Ementa : “AVISO PRÉVIO PROPORCIONAL AO TEMPO DE SERVIÇO. ARTIGO


7o,XXI, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. O aviso prévio proporcional ao tempo de
serviço do empregado depende de lei ordinária regulamentadora em que se
tracem os critérios por que se deve nortear o intérprete para fixá-lo. O artigo 7o,
inciso XXI, da Constituição da República ao inscrever "nos termos da lei", não
se revela auto-aplicável, tratando-se de norma constitucional de eficácia
contida. Recurso conhecido e provido.” (grifo meu)

Resta, pois, demonstrado que a norma constitucional de eficácia contida, embora não
dependa de lei regulamentadora para ser aplicada, pode ter sua abrangência reduzida por
outra norma.

II.3 –NORMAS DE EFICÁCIA LIMITADA

Finalmente, cumpre-nos tratar das características das normas constitucionais de eficácia


limitada.
As normas constitucionais de eficácia limitada são aquelas que dependem de uma
regulamentação e integração por meio de normas infraconstitucionais.

Nas palavras do doutrinador Pedro Lenza[6]:

“São aquelas normas que, de imediato, no momento em que a Constituição é


promulgada (ou diante da introdução de novos preceitos por emendas à
Constituição, ou na hipótese do art. 5o, § 3o), não têm o condão de produzir
todos os seus efeitos, precisando de uma lei integrativa infraconstitucional. São,
portanto, de aplicabilidade mediata ou reduzida, ou, segundo alguns autores,
aplicabilidade diferida.”

E, para exemplificar, segue ementa de julgado proferido pelo Colendo Supremo Tribunal
Federal:

“Embargante: Jorge Orlando Cuellar Noguera Embargado: Universidade Federal


de Santa Maria RE no 342459 ED/RS – Rio Grande do Sul Relator: Ministro Cezar
Peluso

EMENTA: RECURSO. Embargos de declaração. Caráter infringente. Embargos


recebidos como agravo. Professor estrangeiro. Contratação. Pretensão de acesso
ao Regime Jurídico Único. Vedação por força do art. 37, I, da Constituição
Federal. EC no 19/88, que acrescentou os §§ 1o e 2o, ao art. 207, da Carta da
República. Eficácia limitada, porque dependentes de normatividade ulterior
Jurisprudência assentada. Ausência de razões novas. Decisão mantida. Agravo
regimental improvido. Nega- se provimento a agravo regimental tendente a
impugnar, sem razões novas, decisão fundada em jurisprudência assente na
Corte.” (grifamos)

Importante ponderar, ademais, tal como visto no tópico II do presente trabalho , que
essas normas constitucionais limitadas não são totalmente despidas de eficácia.

Ou seja, elas podem até não ter, momentaneamente eficácia social, porém, sempre
terão o condão de revogar as normas do sistema jurídico que com ela colidam, além de impedir
o ingresso no ordenamento de

normas incompatíveis com seus preceitos.

Aliás, mais do que isso, conforme explica Pedro Lenza[7], citando lição do mestre José
Afonso da Silva:

“Nesse sentido, José Afonso da Silva, em sede conclusiva, observa que referidas
normas têm, ao menos, eficácia jurídica imediata, direta e vinculante já que: a)
estabelecem um dever para o legislador ordinário; b) condicionam a legislação
futura, com a consequência de serem inconstitucionais as leis ou atos que as
ferirem; c) informam a concepção do Estado e da sociedade e inspiram sua
ordenação jurídica, mediante a atribuição de fins sociais, proteção dos valores da
justiça social e revelação dos componentes do bem comum; d) constituem
sentido teleológico para a interpretação, integração e aplicação das normas
jurídicas; e) condicionam a atividade discricionária da Administração e do
Judiciário; f) criam situações jurídicas subjetivas, de vantagem ou desvantagem.
Todas elas – em momento seguinte conclui o mestre – possuem eficácia ab-
rogativa da legislação precedente incompatível (Geraldo Ataliba diria
‘paralisante da eficácia destas leis’, sem ab- rogá-las – nosso acréscimo) e criam
situações subjetivas simples e de interesse legítimo, bem como direito subjetivo
negativo. Todas, enfim, geram situações subjetivas de vínculo”

Resta, pois, demonstrado, pela citação acima, que essas normas constitucionais não têm
a eficácia tão limitada como se pode pensar.

E, essas normas constitucionais de eficácia limitada, são dividas pela doutrina em: (i)
normas constitucionais de princípio institutivo (ou organizativo) e (ii) normas de princípio
programático.

As normas constitucionais de princípio institutivo ou organizativo, contém apenas


comandos de estruturação geral da instituição de determinado órgão, entidade ou instituição,
de forma que a efetiva criação, organização ou estruturação, por expressa disposição
constitucional, deve ser feita por normas infraconstitucionais.

Cita-se o § 2º do artigo 18 da Carta Maior, como um exemplo de norma constitucional


de eficácia limitada de princípio institutivo:

“Art. 18 – A organização político-administrativa da República Federativa do


Brasil compreende a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos
autônomos, nos termos desta Constituição.

(...)

§ 2o - Os Territórios Federais integram a União, e sua criação, transformação


em Estado ou reintegração ao Estado de origem serão reguladas em lei
complementar.” (grifo meu)

Mencionamos, ademais, outros exemplos de normas constitucionais de eficácia limitada


de princípio institutivo: art. 33, art. 90, § 2º, art. 109, inciso VI, art. 113, art. 121, art. 224, etc.,
todos da Constituição Federal.
Já as normas constitucionais de eficácia limitada de princ ípio programático, são aque
las que estabelecem programas a serem implementados pelo Estado, objetivando a realização
de fins sociais, como o direito à saúde, educação, cultura, etc..

Destarte, citamos como exemplo de norma constitucional de eficácia limitada


programática o artigo 196 da Carta Magna, que estabelece:

“Art. 196 - A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante


políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de
outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua
promoção, proteção e recuperação.”

Outros exemplos de norma constitucional de eficácia limitada programática são


encontrados nos seguintes artigos da Carta da República: art. 6º, art. 205, art. 227, etc.

[1] TEMER, Michel. Elementos do direito constitucional. 14a Ed. revista e ampliada, Malheiros,
1998, pg. 23.

[2] DINIZ, Maria Helena, Norma Constitucional e seus efeitos. 8a Ed., Saraiva, 2009, pg. 64/77.

[3] PEDRO, Lenza. Direito Constitucional Esquematizado. 15a Ed. revista atualizada e ampliada,
Editora Saraiva, 2011, pg. 199.

[4] SILVA, José Afonso da. Aplicabilidade das Normas Constitucionais. 5a Ed. Malheiros, 2001,
pg. 115.

[5] PEDRO, Lenza. Obra citada, pg. 200/201

[6] PEDRO, Lenza. Obra citada, pg. 202

[7] PEDRO, Lenza. Obra citada, pg. 202

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