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OS PRINCIPAIS ARTIGOS DE NOSSA FÉ

Comentário de Martinho Lutero sobre o Credo dos Apóstolos


O Credo tem sido dividido em doze artigos, embora se todas as partes arroladas nas
Escrituras que pertencem ao Credo fossem abordadas em separado haveria muitos artigos mais,
que não poderiam ser explicados em tão poucas palavras. Contudo, para que sejam mais fácil e
claramente entendidos — como também precisam ser ensinados às crianças —, vamos resumir
todo o Credo emtrês artigo os principais, de acordo com as três pessoas da Divindade, a quem
tudo que cremos está relacionado. Assim, o primeiro artigo, a respeito de Deus Pai, trata da
Criação. O segundo artigo, a respeito do Filho, trata da redenção, e o terceiro, a respeito do
Espírito Santo, trata da santificação. É como se o Credo pudesse ser resumido ao máximo nestas
palavras: “Creio em Deus Pai, que me criou; creio em Deus Filho, que me redimiu; creio no Espírito
Santo, que me santifica”. É um Deus e uma só fé, mas três pessoas, portanto também três artigos
ou uma confissão de fé em três partes. Vamos analisar brevemente as palavras do Credo.
Artigo I:
Creio em Deus Pai, todo-poderoso, Criador do céu e da terra.
Aí está descrito e representado do modo mais sucinto possível a essência, a vontade, as
ações e a obra de Deus Pai. Pois depois que os Dez Mandamentos ensinaram claramente que não
devemos ter mais que um Deus, a pergunta que gostaríamos de fazer é: Quem é Deus? O que ele
faz? Como podemos louvá-lo, ou retratá-lo e descrevê-lo de modo que possa ser conhecido? Este
e os artigos seguintes nos ensinam isso, de modo que o Credo nada mais é do que a confissão dos
cristãos e sua resposta ao primeiro mandamento. É como se perguntasses a uma criança:
“Querida, que tipo de Deus tu tens? O que sabes a respeito dele?”. Ela poderia responder: “Este é
meu Deus: Primeiro, o Pai, que criou o céu e a terra; além desse único Deus nada mais é deus
para mim; pois não há outro que poderia criar o céu e a terra”.
Mas para os doutos e os que possuem certo conhecimento sobre o assunto, esses três
artigos podem ser expandidos e divididos em tantas partes quantas há palavras neles. Contudo,
para os jovens estudantes é suficiente agora apontar os pontos mais necessários, a saber, como
dissemos, que este artigo se refere à Criação e que nos concentremos nas palavras “Criador do
céu e da terra”.
Mas o que significa essa expressão, ou o que queres dizer com elas: “Creio em Deus Pai,
todo-poderoso, Criador”? Resposta: Quero dizer e creio que eu sou uma criatura de Deus, ou seja,
que ele me deu corpo, alma e vida, órgãos grandes e pequenos, todos os sentidos, razão e
entendimento e, além disso, sustenta todos eles constantemente.
Assim apresentamos do modo mais sucinto possível o significado desse artigo, como os
leigos devem aprendê-lo. Trata-se tanto do que temos e recebemos de Deus quanto do que

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devemos a ele como resposta. Esse é um conhecimento primoroso, mas muito mais que isso: é um
tesouro. Pois aqui vemos como o Pai se deu a nós, juntamente com todas as coisas criadas, e
como providenciou de modo abundante o que precisamos para esta vida — isso sem falar que,
além disso, ele derramou sobre nós os indizíveis tesouros eternos por meio de seu Filho e do
Espírito Santo, como ouviremos na sequência.
Artigo II:
E em Jesus Cristo, seu Filho unigênito, nosso Senhor, o qual foi concebido pelo Espírito
Santo, nasceu da virgem Maria, padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e
sepultado, desceu ao inferno, ressuscitou no terceiro dia, subiu ao céu, e está sentado à direita de
Deus Pai, todo-poderoso, de onde virá para julgar os vivos e os mortos.
Aqui conhecemos a segunda pessoa da Divindade e percebemos o que recebemos de
Deus além dos bens temporais mencionados anteriormente. Na verdade, ele se entregou
completamente, nada retendo para que não nos desse. Por isso, este artigo é muito abrangente e
rico em conteúdo. Mas para que seja exposto de modo breve e acessível às crianças, tomaremos
uma passagem para resumir todo o artigo, a saber, para que aprendamos como somos redimidos.
A resposta deve ser: “Em Jesus Cristo, nosso SENHOR”.
Se alguém perguntar: “Com base no segundo artigo, o que crês a respeito de Jesus
Cristo?”, responde do modo mais sucinto possível: “Creio que Jesus Cristo, o verdadeiro Filho de
Deus, se tornou meu Senhor”. Mas o que significa “se tornar Senhor”? Significa que ele me redimiu
do pecado, do Diabo, da morte e de todo o mal. Pois antigamente eu não tinha Senhor ou Rei
algum, antes estava cativo sob o poder do Diabo, condenado à morte e enredado pelo pecado e
pela cegueira. Depois de sermos criados por Deus Pai e recebermos dele muitas coisas boas, veio
o Diabo e nos seduziu à desobediência e ao pecado, e trouxe a morte e todo o mal, de modo que
caímos debaixo de sua ira e de seu desprazer e fomos condenados à punição eterna, como
havíamos merecido. Não havia conselho, ajuda ou conforto algum até que esse único e eterno
Filho de Deus em sua bondade insondável teve compaixão de nossa miséria e perversão e veio do
céu para nos ajudar. Assim, aqueles tiranos e carcereiros foram todos expulsos, e em seu lugar
veio Jesus Cristo, Senhor da vida, da justiça, de toda bênção e salvação.
Éramos pobres e perdidos, e ele nos arrancou e livrou das garras do inferno e nos trouxe de
volta para o favor e a graça do Pai. Ele nos tomou como sua propriedade e nos colocou sob sua
proteção e abrigo para nos governar com sua justiça, sabedoria, poder, vida e bem-aventurança.
Mas as partes que se seguem neste artigo não trazem outro conteúdo a não ser explicar e
descrever essa redenção, como e por que meios ela foi realizada, a saber, o quanto custou a ele, o
quanto ele arriscou e investiu para nos conquistar e trazer para debaixo do seu senhorio: que ele
se tornou homem, foi concebido pelo Espírito Santo e nascido da virgem Maria sem qualquer
pecado, para ser Senhor sobre o pecado; que ele sofreu, morreu e foi sepultado para fazer
reparação e pagar pela minha culpa, não com prata ou ouro, mas com seu próprio e precioso

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sangue. Ele não fez nada disso por si próprio, ele não precisava disso. Depois disso, ele
ressuscitou dos mortos, engoliu e devorou a morte, e por fim ascendeu ao céu e assumiu o
governo à direita do Pai, para que o Diabo e todos os poderes precisassem se sujeitar a ele e estar
a seus pés, até que finalmente, no último dia, ele nos tire e separe completamente do mundo
perverso, do Diabo, da morte, do pecado etc.
Artigo III:
Creio no Espírito Santo, numa santa Igreja cristã, a comunhão dos santos, na remissão dos
pecados, na ressurreição do corpo e numa vida eterna. Amém.
Como já afirmei, não consigo dar um título melhor a este artigo do que “da santificação”.
Pois nele é descrito e retratado o Espírito Santo com seu ofício, que é tornar santo. Por isso,
precisamos colocar essa expressão “Espírito Santo” no centro; nele tudo se resume de modo tão
sintético que é impossível encontrar expressão mais adequada. As Escrituras mencionam diversos
tipos de espírito: o espírito humano, espíritos celestiais e o espírito maligno. Mas só o Espírito de
Deus é chamado de Espírito Santo; é ele que nos santificou e ainda nos santifica.
Pois assim como o Pai é chamado de Criador, o Filho, de redentor, também o Espírito
Santo, baseado em sua obra, deve ser chamado de santificador. Mas como ocorre esse santificar?
Resposta: Assim como o Filho, por meio de seu nascimento, morte, ressurreição etc. Conquistou o
senhorio sobre nós, assim também o Espírito Santo efetua nossa santificação por meio dos
seguintes aspectos: pela congregação dos santos ou a igreja cristã, pelo perdão dos pecados, pela
ressurreição do corpo e pela vida eterna. Em outras palavras, ele primeiro nos leva para sua santa
congregação e nos coloca no seio da igreja, por meio da qual ele leva a palavra a ser pregada a
nós e nos conduz a Cristo.
Pois tu e eu jamais poderíamos saber algo a respeito de Cristo nem crer nele e tê-lo como
Senhor se o Espírito Santo não revelasse Cristo a nós por meio da pregação do evangelho e não
pregasse a nosso coração e consciência. A obra de salvação foi realizada e consumada; pois
Cristo adquiriu e conquistou o tesouro da redenção para nós por meio de seu sofrimento, morte,
ressurreição etc. Mas se a obra de salvação permanecesse oculta de modo que ninguém soubesse
coisa alguma a respeito, teria sido em vão, um esforço inútil. Contudo, para que esse tesouro da
redenção não ficasse enterrado, mas fosse usado e usufruído, Deus levou a ser proclamada a
Palavra por meio da qual ele concede o Espírito Santo e traz esse tesouro da redenção a nós para
que nos apropriemos dele. Portanto, santificar nada mais é que nos levar a Cristo para receber
essa bênção da salvação, à qual não teríamos acesso por nós mesmos.
Se alguém te perguntar: “O que queres dizer com as palavras: ‘Creio no Espírito Santo’”?,
que estejas pronto a responder: “Creio que o Espírito Santo me torna santo, como o seu nome já
diz”. “Mas por meio do que ele o faz, ou de que maneira ele o faz?”.
Resposta: “Por meio da igreja cristã, do perdão dos pecados, da ressurreição do corpo e da
vida eterna”.

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Creio que há sobre a terra um pequeno grupo santo, uma congregação só de santos, sob
uma cabeça, o próprio Cristo, reunida pelo Espírito Santo, com uma fé, uma mente e um
entendimento, com diversos dons, ainda assim unidos em amor, sem facções ou divisões. Eu
também sou parte e membro dela e compartilho e participo de todos os bens que ela possui; por
meio do Espírito Santo fui incluído e incorporado nela por ter ouvido e continuar a ouvir a Palavra
de Deus que é a porta de entrada para ela. Pois antigamente, antes de sermos incluídos, éramos
do Diabo, não sabíamos nada acerca de Deus e de Cristo. Assim, o Espírito Santo permanece com
essa congregação santa ou cristandade santa até o último dia. Por meio dela, ele nos chama, e é
esta que ele emprega para que a Palavra nos seja ensinada e pregada. Por meio dela, ele trabalha
em nós e promove a nossa santificação, para que cresçamos diariamente e nos tornemos fortes na
fé e demos os frutos dele, frutos que ele mesmo produz.
Esses artigos do Credo, portanto, distinguem e separam a nós, os cristãos, de todas as
outras pessoas da terra. Pois fora do cristianismo [Christenheit], os outros, sejam pagãos, turcos,
judeus ou falsos cristãos e hipócritas, embora creiam que há somente um Deus verdadeiro e o
adorem, ainda assim não sabem qual a postura de Deus em relação a eles. Além disso, também
não contam com o amor ou a bênção dele. Por isso, permanecem sob a ira de Deus e na
condenação eterna, pois não têm o Senhor Cristo e, além disso, não são iluminados e favorecidos
pelo Espírito Santo e agraciados por qualquer dos seus dons.
Isso é suficiente no que diz respeito ao Credo para estabelecer a base para os leigos —
eles não devem ficar sobrecarregados. Se entenderam a sua essência, eles mesmos podem
continuar pesquisando no que diz respeito a essas partes do Credo com base no estudo das
Escrituras para que sua compreensão se torne mais rica e cresçam com base nisso. Pois enquanto
vivermos, teremos diariamente o suficiente para pregar e aprender do Credo.
- Martinho Lutero:uma coletânea de escritos, resumo das pg. 331- 343

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