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TRANSFORMAÇÕES

TECNOLÓGICAS E
SOCIEDADE EM REDE
Reconhecer o papel da tecnologia na sociedade.
Identificar os principais marcos tecnológicos no século XX.
Caracterizar a sociedade em rede.

INTRODUÇÃO
São inegavelmente imensos os efeitos e as atribuições que as tecnologias produzem nas
sociedades contemporâneas. O papel da organização social e a descentralização das relações
econômicas e culturais são as principais transformações apontadas por teóricos como Manuel
Castells. Por isso, qualquer exame dessa sociedade em rede requer a observação de como as
tecnologias da comunicação e informação são usadas na organização cotidiana dos usuários.
Neste capítulo, você verá os principais marcos tecnológicos que emergiram no século XX
dentro da perspectiva da comunicação, em que o rádio, a televisão e a internet são adventos
fundamentais. Além disso, você poderá aprender mais sobre a noção da sociedade em rede, como
ela opera, quais transformações ela traz e o que o pensamento em rede pode oferecer.

1 Sociedade e tecnologia
Ao observarmos a vida cotidiana atual, é perceptível a desintegração dos objetos do mundo.
A biblioteca física ganha espaço on-line e arquivos digitais ganham circulação na internet. A
maneira como adquirimos informações também adquire maior mobilidade, já que elas podem ser
acessadas de qualquer local a qualquer momento. É evidente que as tecnologias — e pensemos
tecnologias aqui a partir de sua etimologia: diversos métodos para aperfeiçoamento de técnicas
— têm efeito de transformação Mas exatamente quais transformações? Como as técnicas em
constante aperfeiçoamento têm sido utilizadas? Seria possível tomar as tecnologias como sendo
organizadoras da vida social?
Caso pensemos nas tecnologias computacionais por sua usabil idade, poderiamos cair no
engano de que, por exemplo, bastam alguns computadores c acesso á internet em uma escola para
transformar a vida de seus alunos, facilitar seu cotidiano ou até mesmo levar inovação com giro
econômico para sua comunidade. Castells (2005) nos chama atenção precisamente para esse
ponto. Ao observarmos a sociedade e suas tecnologias na tentativa de reconhecer o seu papel em
nossas vidas, é preciso ter em mente onde, por quem c para que são usadas tais tecnologias. A
partir desse ponto de vista, seria mais eficaz fazer uso e se apropriar das máquinas levando em
consideração a questão da compatibilidade com outros dispositivos digitais, o que permite o
compartilhamento de informações pela internet. Entretanto, é importante frisar que a tecnologia
não se resume à web.
O advento da internet marcou a história, mas é importante entendê-la cm perspectiva, como
parte de um todo; a internet nos ajuda a entender o papel da tecnologia cm uma sociedade cm
rede. Sob esse modelo de sociedade, cada indivíduo compõe um nó de um grande tecido que
reveste o campo social. As redes se interligam globalmente em um campo de informação cada
vez mais complexo (Castells, 2001)
Nessa linha de raciocínio, a pesquisadora norte-americana Donna Haraway (2000) nos
ajuda a enfrentar o fascínio que obtemos com aparelhos eletrônicos. Em vez de temê-los, é
possível tomá-los como um instrumento útil e com objetivos nítidos quanto à sua utilização. “A
máquina não é uma coisa a ser animada, idolatrada e dominada. A máquina coincide conosco,
com nossos processos; ela é um aspecto de nossa corporificação” (HARAWAY, 2000, p. 97).
Com isso, é possível demarcar alguns aspectos da relação entre tecnologias e sociedade
contemporânea. Será com o pensamento de Castells (2005) e Rüdiger (2011) que exploraremos a
seguir as atribuições que as tecnologias da comunicação e informação têm trazido ao
desenvolvimento das sociedades.
Processos de aprendizagem
Não estamos passando exatamente por uma “sociedade do conhecimento”, já que, na
verdade, isso sempre esteve presente entre as motivações humanas. O que acontece atualmente,
na visão de Castells (2005), é o alargamento das possibilidades de organização e de acesso a
canais de conhecimento. A exigência é pela capacidade de visualizar a vida cm rede c com isso
ser capaz de conhecer a dinâmica c trazer as tecnologias para transformações sociais locais.
Organização social
As tecnologias da informação e comunicação oferecem ampla criação de espaços virtuais.
Por isso, é preciso conhecei as possibilidades dessa nova estrutura social. A internet e os produtos
que dela se desenvolvem operam por experimentação. Por mais que já existam bibliografias sobre
o tema, esse é um terreno a ser construído. O que vale é encontrar maneiras de organizar a imensa
quantidade de informação digital, para que assim se possa usufruir dos benefícios desse novo
sistema.

2 Descentralização
Por operar cm uma dinâmica cm rede, formatos e sistemas verticais perdem lugar para uma
experiência horizontal. Quando as tecnologias operam a favor de seus usuários, ocorre a
descentralização de serviços, de trabalho e da vida social O papel das tecnologias na sociedade
em rede está relacionado também à autonomia dos indivíduos frente às suas demandas. São as
chamadas ações autoprogramadas. As operações sociais, sejam elas econômicas ou culturais, não
mais dependem exclusivamente de grandes instituições, havendo a procura por atividades
criativas e tempo livre no próprio trabalho.
Nesse sentido, a sociedade se modifica a partir dos interesses e dos usos feitos das
tecnologias, e não necessariamente a partir da tecnologia. As transformações sentidas desde o
século XX dentro dessa perspectiva são principalmente de cunho sociocultural. Isso porque uma
sociedade em rede é feita por pontos, ou nós. Esses pontos são os próprios indivíduos a criar,
experimentar c descobrir usabilidades paia os meios digitais. Castells (2005, documento on-line,
grifo nosso) discorre sobre essa questão no trecho a seguir:
O nosso mundo está em processo de transformação estrutural desde há duas décadas. É um
processo multidimensional. mas está associado á emergência de um novo paradigma tecnológico,
baseado nas tecnologias de comunicação e informação, que começaram a tomar forma nos anos
60 eque se difundiram de forma desigual por todo o mundo. Nós sabemos que a tecnologia não
determina a sociedade |...|. A sociedade é que dá forma à tecnologia de acordo com as
necessidades, valores e interesses das pessoas que utilizam as tecnologias. Além disso, as
tecnologias de comunicação e informação são particularmente sensíveis aos eleitos dos usos
sociais da própria tecnologia.
Se as tecnologias são “particularmente sensíveis” ao seu uso c porque existe uma dimensão
de experimentação. Pensemos ainda em sua flexibilidade e adaptabilidade, reconhecendo que o
papel das tecnologias na sociedade c admitir que cada indivíduo c responsável e cocriador delas.
Os aplicativos e as mídias sociais podem ofertar a função de ferramentas em benefício das
relações de trabalho e afetivas. Entretanto, essas tecnologias são flexíveis e não determinantes de
um modo de vida (CASTELLS, 2001). A sociedade em rede requer criatividade, senso crítico c
olhar micro nas relações sociais, para um fazer tecnológico que c coletivo.

2 Tecnologias do século XX
As transformações tecnológicas ocorridas durante o século XX (1901-2000) são visíveis
nos objetos da comunicação. A criação do telégrafo (ainda no final do século XIX), as ondas
radiofônicas e a expansão da televisão no começo do século XX abriram caminhos para o
desenvolvimento dos computadores individuais e, mais adiante, no final do século, foi possível
acompanhar o surgimento da internet (1JU1M; TELLAROLI, 2008). Um dos objetos da
comunicação que deixaram sua marca no século XX foi a máquina fotográfica Leica. De acordo
com Souza ([2008]) em 1930 o modelo recebeu uma versão portátil de menor tamanho, o que
trouxe mobilidade ao fotojornalista, além de avanços técnicos na revelação dos filmes.
A ampliação das pesquisas cientificas na área da tecnologia da comunicação, em especial
nos Estudos Unidos c Europa, possibilitou a experimentação e criação de diferentes plataformas
e canais de comunicação. A partir dos anos 1970. um ambiente propicio uniu diferentes campos
do saber Assim. “[...] na segunda metade do século XX, estabeleceram-se condições e o cenário
para convergência entre a informática, a eletrônica e a comunicação” (1JU1M; TELLAROLI,
2008. documento on-line).
Esse cenário propicio ao desenvolvimento tecnológico foi resultado de descobertas
científicas de séculos anteriores. A invenção da prensa móvel por Johannes Gutenberg no século
XV (SOUZA, |2008|), que possibilitou agilidade na impressão de textos, foi uma delas. Assim, o
que favoreceu o desenvolvimento dos meios de comunicação foram “[...] os constantes inventos
(técnicas de impressão de grandes tiragens) e o crescimento da difusão da noticia através do
telégrafo (e dos outros meios que surgiram com o uso da eletricidade ) rádio, telefone, cinema)”
(PATERNOSTRO, 1999. p. 20).
Nesse sentido, no âmbito da comunicação a televisão pode ser considerada uma das
principais invenções do século XX. pois representa a convergência de áreas do conhecimento
como eletrônica, química e física. A internet também é um forte marco deste século, ela que até
os anos 1970 esteve presente apenas dentro das universidades, como objeto de pesquisa científica.
A partir de Paternostro (1999) e Cury e Capobianco (2011), elencamos a seguir alguns marcos
históricos relevantes no campo da comunicação:
■ 1901 — O princípio do rádio: com a comprovação da existência das ondas
eletromagnéticas, a partir das pesquisas de Heinrich Hertz (1857— 1894), o italiano Guglielmo
Marconi construiu o primeiro aparelho capaz de codificar as ondas e transmitir mensagens sem
fio.
■ 1923 — O princípio da TV: nos Estados Unidos, o pesquisador russo--americano
Vladimir Zworykin (1888-1982) criou o iconoscópio (tubo a vácuo com tela de células
fotoeletrônicas), invenção que possibilitou a transmissão de imagens a longas distâncias.
■ 1942 — O princípio do computador: na Universidade Estadual de Iowa, Estados Unidos,
os pesquisadores John Vincent Atanasoff (1903-1995) e Clifford Berry (1918-1963) apresentaram
em um congresso o “ABC”, uma máquina capaz de realizar cálculos matemáticos e ler dados
introduzidos por um teclado simples; nascia então (a partir de inúmeras pesquisas anteriores) o
primeiro computador moderno.
■ 1969 — A criação da internet: com a função de interligar diferentes laboratórios de
pesquisa nos Estados Unidos, o primeiro uso da internet foi chamado de ARPANET. Mais tarde,
em 1987, ela deixou de pertencer apenas aos laboratórios acadêmicos e foi comercializada, tendo
na década de 1990 a sua ampliação.
■ 1976 — O princípio dos computadores pessoais: surgimento das empresas Apple e
Microsoft; pesquisas na IBM avançam no conhecimento técnico-científico. Com investimento na
área, foi possível a criação de sistemas operacionais e desenvolvimento de programas. Nesse
período, nasce o e-mail e o navegador internet Explorer.
■ 1980 — O nascimento das redes: os computadores passam a se comunicar entre si em
diferentes locais. Em 1981, a IBM lança o PC, com códigos de comando (DOS), e em 1984 a
Apple lança o seu produto Macintosh, introduzindo a interface gráfica nos computadores
individuais.
■ 1990 — A ampliação das redes: o cientista da computação Timothy John Berners-Lee
ainda em 1989 lança a proposta inaugural de criação do primeiro Servidor Web (World Wide
Web), além de desenvolver ao longo de sua pesquisa a linguagem HTML.

As pesquisas tecnológicas desenvolvidas no século XX, como se pode perceber, acumulou


saberes rumo às tecnologias digitais. Foi um período de transformação e aprimoramento nos
aparatos de informação e comunicação que avançariam no século seguinte com produtos cada vez
mais individualizados. As modificações nessa área aconteceram de maneira desigual nas
economias globais, o que ao mesmo tempo impulsionou certos países rumo ao crescimento
econômico e também tornou outros países (emergentes) dependentes desse conhecimento
(CASTELLS, 2005).

3 Relações na sociedade em rede


As relações na sociedade atual estão fortemente ligadas às interações tecnológicas de
comunicação e informação. A imagem de uma rede funciona bem para visualizarmos a extensa
camada de um tecido virtual onde pontos elétricos se conectam. A ampliação desse tecido está
associado ao desenvolvimento das sociedades e para que esse tecido cresça é necessário que haja
também a criação de conteúdos. Tanto indivíduos quanto grupos e instituições tecem essa rede de
comunicação, onde cada nó desse tecido representa uma área do conhecimento, um novo e
pequeno negócio ou a publicação de uma nova imagem.
Dessa maneira, as relações na sociedade em rede (sejam de trabalho ou afetivas) acontecem
via aparatos tecnológicos em que “[...] as pessoas integraram as tecnologias nas suas vidas,
ligando a realidade virtual com a virtualidade real, vivendo em várias formas tecnológicas de
comunicação, articulando-as conforme as suas necessidades” (CASTELLS, 2005, p. 23).
Nesse sentido, pensando a partir de Castells (2001; 2005), estaríamos criando uma
sociedade em rede. E justamente por isso, diversas atividades econômicas, políticas, sociais e
culturais estão passando por transformações. Essa mudança ocorre de forma gradual e na maneira
como se vive; se “[...] a internet é o tecido de nossas vidas”, estar fora das relações comunicativas
na web tornou-se umas das maneiras de exclusão social (CASTELLS, 2001, p. 7).
Assim, na sociedade em rede ignorar suas ferramentas e negar os benefícios que ela traz
poderá gerar isolamento e exclusão. Observa-se, nesse sentido, que é necessário adquirir
conhecimento sobre as redes, experimentá-las e acompanhar as suas mudanças. Para
compreendermos melhor algumas características desse momento histórico, selecionamos a seguir
alguns pontos-chave do trabalho de Manuel Castells (2001; 2005), pensador referencial nos
estudos de comunicação e informação e entusiasta da sociedade em rede.

Nova economia
Não que a economia tradicional esteja sendo substituída, mas ocorre sem dúvida uma
modificação e ampliação de suas ferramentas. Na era da nova economia, a produção, divulgação,
distribuição e comercialização dos produtos operam por diferentes lógicas, não mais apenas pela
instituição e industrialização. Ela é realizada também por pequenos grupos e indivíduos. Assim,
as tecnologias de comunicação acrescentam novas regras ao jogo econômico dentro da sociedade
em rede.

Transformações no mercado de trabalho


Por toda parte ocorrem mudanças nos contratos de trabalho e em suas cargas horárias, bem
como exigência de novas competências além do letramento digital. Os indivíduos procuram maior
mobilidade e constante aprendizado. Assim, o perfil do trabalhador na sociedade em rede é o
“autoprogramado”, aquele que encontra em si mesmo a fonte de sua criatividade e capacidade de
produzir e inovar.
Mudança na sociabilidade
Própria das redes de comunicação e perfeitamente adaptável às ferramentas da internet é a
sociabilidade individualizada. A sociedade em rede está se constituindo como uma sociedade em
que há uma emergência do individualismo e cada pessoa representa um ponto entre diferentes nós
dessa rede.

Dos telefones individuais com fio aos perfis virtuais das mídias sociais, não há exatamente
novas relações, o que há são transformações de um modo de vida a procura de comunicação.

Transformação da área da comunicação


Informação digital, interatividade, sistema multimídia e audiência segmentada são algumas
das transformações na sociedade em rede. Com a expansão das tecnologias e das mídias
individualizadas, a comunicação está ao mesmo tempo global e local, ou seja, perpassa grandes
mercados e pequenos produtores, cria conteúdos informativos desde instituições a indivíduos
autônomos. A informação é produto maleável e experimentável tanto de grandes empresas quanto
de indivíduos organizados.
Por fim, as possibilidades que as tecnologias trazem ao cotidiano dos indivíduos são
experienciadas de modos distintos, isso porque seu desenvolvimento (em nível de conhecimento)
ocorreu de maneira diferente na América Latina em comparação com a América do Norte e
Europa. Refletindo sobre isso, Rüdiger (2011), citando Mark Slouka (1995), nos oferece um
pensamento diferente em meio à expansão de comunicação que as novas tecnologias oferecem.
Dentro da sociedade em rede, estaríamos recebendo realmente o que nos satisfaz? É possível se
ter autonomia na criação, produção e divulgação de qualquer produto que se queira comercializar,
mas qual o real valor que se paga por isso? A quantidade de possibilidades e de informação que
nos é oferecida, na visão dos autores, acaba por “oferecer muito pouco e exigindo demais”.
TECNOLOGIAS DE
INFORMAÇÃO E
COMUNICAÇÃO
Contextualizar o surgimento das TICs.
Identificar os principais usos das TICs.
Identificar o papel das TICs no jornalismo.

As tecnologias ganham, cada vez mais, um papel de protagonismo no processo de


comunicação, e se transformam em verdadeiros agentes comunicativos. A inserção de tecnologias
de informação e comunicação como telefones celulares, computadores, redes sem fio,
smartphones e algoritmos provocaram uma revolução em diversos setores da sociedade. Para se
inserir no mundo como cidadão e profissional de comunicação, o jornalista precisa conhecer o
contexto dessas tecnologias, desde o seu surgimento até sua apropriação por comunidades
diversas. Além disso, é interessante que o jornalista tenha noção das potencialidades das novas
ferramentas tecnológicas no seu cotidiano de trabalho.
Neste capítulo, você vai ver como surgiram as tecnologias de informação e comunicação,
quais são seus principais usos na sociedade contemporânea e quais papéis elas desempenham no
jornalismo. Neste último item, você verá como tais tecnologias transformam a produção e o
consumo de informação jornalística.

1 Origem das tecnologias da informação e comunicação


Para começar o nosso estudo, vamos conceituar o que entendemos por tecnologias da
informação e comunicação (TICs). Em sentido amplo, chamamos
de tecnologia qualquer ferramenta apropriada pelo homem para realizar suas tarefas
específicas. Para McLuhan, a tecnologia é uma extensão do corpo humano, desenvolvida,
historicamente, para expandir a sua capacidade de ação. Pensando por essa lógica, os óculos,
canetas e papel, e até mesmo smartphones, que utilizamos no nosso dia-a-dia são artefatos
tecnológicos que ampliam capacidades humanas como a visão, o tato, a memória e a cognição.
O modo como a tecnologia molda a forma como pensamos e nos comunicamos tem sido
explorado por vários pesquisadores da área da comunicação e informação. Uma das referências
mais conhecidas são os estudos de Marshall McLuhan (1974), centrados nas tecnologias
comunicacionais como agentes de transformação das culturas, das relações sociais e dos
comportamentos humanos. Ele é o responsável por elaborar a tese de que os meios comunicativos
seriam extensões do homem e provocariam mudanças no seu contexto social. Por isso, para
McLuhan (1974), o estudo dos suportes de comunicação — o rádio, a televisão, a internet —
poderia trazer dados interessantes sobre as transformações da nossa sociedade.
Segundo a lógica mcluhiana, falar de meios e tecnologias de comunicação significa abordá-
los como objetos que constroem uma ambiência em torno de si, em vez de serem meros canais de
transmissão de informação. Nesse universo, a constante interação entre artefatos — redes digitais,
eletricidade, entre outros — e seres humanos produziría mudanças capazes de afetar as estruturas
do nosso pensamento e da nossa sociedade.
Chamamos de TICs os recursos tecnológicos oriundos da Era da Informação ou Sociedade
em Rede (CASTELLS, 1999; 2003), criadas e difundidas globalmente a partir da década de 1960.
Envolvem tecnologias informacionais, que produziram uma Revolução Tecnológica, conectando
o mundo através da informação (CASTELLS, 1999). Castells (1999) comenta que a difusão
global de tecnologias como o computador e a internet se deu de forma rápida, em menos de duas
décadas, e trouxe modificações substanciais para a cultura e economia global.
Lévy (1999) chama as tecnologias surgidas no cenário digital de tecnologias intelectuais,
pois são capazes de expandir e até mesmo simular funções cognitivas e mentais humanas. Os
computadores e, mais tarde, as nuvens de informação na internet tornam-se espaços de
armazenamento de informação da cultura humana num volume sem precedentes na história. As
redes digitais como a internet também são responsáveis por expandir as formas de comunicação
e interação humana, tornando-as globais. As TICs também potencializam a produção e o
compartilhamento de saberes entre comunidades virtuais.
Assim, mediante a ação de microatores, que se apropriam de tecnologias digitais, forma-se
uma ecologia cognitiva (LÉVY, 1999) de saberes coletivos.
À medida que as tecnologias vão evoluindo, os artefatos tecnológicos ganham cada vez
mais protagonismo. Hoje, tecnologias assumem papéis importantes no campo da educação, no
meio empresarial e nas empresas de comunicação. Aplicativos que ajudam a coletar, armazenar,
acumular, manipular e compartilhar dados e informações são a base da era da informação. Por
isso, conhecer essas possibilidades técnicas torna-se primordial para o profissional do futuro em
todos os campos, incluindo o jornalismo.

As fases das tecnologias


A evolução tecnológica da comunicação se confunde com a própria história das mídias.
Por isso, para entender como surgem as TICs e verificar como elas revolucionam o modo como
produzimos, distribuímos e consumimos informação, precisamos analisar a linha temporal da
comunicação e de suas tecnologias. Santaella (2007) nos ajuda nessa empreitada. Para ela, as
inovações tecnológicas são elementos utilizados para incrementar o processo de produção da
linguagem humana. Partindo dessa ideia, ela descreve cinco gerações tecnológicas, conforme
mostrado no Quadro 1.

A Primeira Geração Tecnológica, de Tecnologias do Reprodutível, remete à era de


surgimento e consolidação do jornal, da fotografia e do cinema como tecnologias de comunicação.
Apesar de terem naturezas diferentes, esses três meios têm em comum a propriedade da
reprodutibilidade técnica, ou seja, de serem e possibilitarem a reprodução de imagens e textos.
Santaella (2007) localiza a emergência desse tipo de tecnologia no que se convencionou chamar
de cultura de massa das grandes cidades industriais. A reprodução mecânica das mensagens fez
com que a comunicação pudesse se transformar em produto e acessar públicos mais amplos,
ampliando seu poder comunicativo (SANTAELLA, 2007).
Em seguida, no final do século XIX, temos o surgimento das Tecnologias de Difusão,
consolidadas no rádio e, nos anos 1950, na televisão. Segundo Santaella (2007), essas tecnologias
são baseadas em seu poder de distribuir mensagens para um público espacialmente mais
abrangente, se comparadas às tecnologias anteriores. Isso foi acentuado ainda mais com a
transmissão via satélite.
As tecnologias de difusão foram responsáveis por produzir uma evolução no modo como
nos relacionamos com o espaço social. Com o telégrafo e o telefone, já havíamos conseguido
gerar uma comunicação simultânea entre dois lugares distantes, mediada por uma tecnologia.
Com o rádio e a televisão, a comunicação mediada ganha aspecto mais amplo e permite a criação
de um espaço midiático próprio. Não é à toa que estudiosos da comunicação se referem ao rádio
e à TV como vetores de coesão social de uma sociedade. Como primeiro jornal televisivo
transmitido ao vivo em rede nacional, o Jornal Nacional, por exemplo, foi o responsável por
fortalecer os laços da identidade nacional. De norte a sul do Brasil, criou-se a cultura de assistir a
esse programa, apesar das disparidades regionais, em termos de cultura.
A fase posterior, das Tecnologias do Disponível, é enquadrada por Santaella (2007) como
uma etapa de predomínio de dispositivos de pequeno porte, como videocassetes e fotocopiadoras,
Walkmans e também TV a cabo. Essa fase se inicia na década de 1980, com a proliferação desses
dispositivos, que trazem uma maior personalização do consumo de informação pelo indivíduo,
em contraposição aos modelos massivos anteriores. Videocassetes que gravam a programação
televisiva, por exemplo, visam atender a demandas segmentadas do público e, de certa forma, já
preparam o sistema de consumo e produção para a próxima fase.
A etapa de Tecnologias do Acesso é caracterizada por Santaella (2007) como sendo o
contexto de surgimento do computador e das redes telemáticas. Inicialmente usado para fins
militares, o computador ganha potencial principalmente a partir da década de 1970, quando passa
a ser usado para vários tipos de serviço, abandonando o status de máquina de calcular (BRIGGS;
BURKE,2006). O desenvolvimento da internet, em particular, e sua apropriação comercial, a
partir da década de 1990, vai proporcionar a popularização das TICs.
É interessante notar que as TICs estão intrinsecamente ligadas à linguagem digital que
surge com a era do computador. O digital, segundo Manovich (2001), traria a principal revolução
tecnológica da comunicação contemporânea, que é a unificação dos processos tecnológicos em
torno de uma mesma linguagem. Assim, passamos a armazenar, tratar e compartilhar informações
a partir do computador, que se conecta a outros mundos pela internet e pelos seus circuitos
digitais.
Lemos (2006) ressalta o processo de conexão generalizado de computadores como uma das
características da cibercultura, que nasce a partir do fenômeno das tecnologias digitais. Num
primeiro momento, essa conexão em redes telemáticas transforma o computador individual (PC)
em um computador coletivo (CC), acessado por várias pessoas por meio da internet. Depois disso,
ocorre ainda um aprimoramento deste computador, transformado em computador móvel (CC
móvel), com o surgimento dos celulares e das redes Wi-Fi. É aí que chegamos na última fase
tecnológica que estamos vivenciando: a da tecnologia móvel.
A fase das Tecnologias de Conexão Contínua remete à fase de ubiquidade e mobilidade da
comunicação, em que as redes de pessoas e de tecnologias se desprendem do aparelho fixo de
conexão — modem, PCs e similares — e passam a ser nômades (SANTAELLA, 2007). Nessa
fase, os dispositivos móveis (smartphones e tablets) se destacam como agentes comunicativos
importantes e potencializam ainda mais o uso de TICs. O acesso a serviços depodcasting,
streaming, internet e redes sociais se faz, hoje, prioritariamente pelo mesmo aparelho (o
smartphonê) e a partir de qualquer lugar — no trânsito, no banheiro, na academia.

2 O uso das TICs


O uso das TICs revolucionou vários setores de produção na nossa sociedade. Podemos
categorizar pelo menos três dimensões que progrediram a partir do emprego dessas tecnologias:
■ o setor da comunicação;
■ o setor da informática;
■ o setor de controle e automação.

O setor da comunicação abrange as telecomunicações e a telemática. As telecomunicações


envolvem a transmissão de sinais por sistemas eletromagnéticos, por fio ou fibra ótica. O uso de
novas tecnologias permitiu que a reprodução de textos, imagens e sons se desse de forma mais
rápida e ampla por esses canais. A telemática, por outro lado, envolve tecnologias como modens,
linhas telefônicas e satélites, que permitem uma transmissão dessa informação à distância. Em
alguns casos, essas tecnologias são usadas na mediação de processos de comunicação
interpessoal. As redes de satélites encurtam distâncias, pois permitem, por exemplo, que um
usuário da internet se comunique via vídeo ao vivo com outro usuário de qualquer região do
mundo. Outras tecnologias, como Wi-Fi e smartphones, vão permitir que o consumo de
informações se dê em movimento.
Na comunicação, o uso das TICs está relacionado a um processo de hori-zontalização e de
interatividade crescentes. A digitalização e a comunicação em redes permitiu chegarmos a uma
comunicação em que todos os usuários estão aptos a produzir conteúdo para todos — um modelo
que Lévy (1999) chama de Todos-Todos. O smartphone personaliza essa dinâmica, reunindo em
um único aparelho múltiplas funcionalidades. Ele pode ser usado para a comunicação interpessoal
entre dois usuários, para o consumo de informações e de entretenimento ou ainda para a
publicação de vídeos e outros conteúdos em redes sociais.
Outro setor que tem investido no uso das TICs é o setor da informática. Novas tecnologias
têm permitido um processamento, armazenamento e tratamento de dados mais eficiente. Bancos
de dados remotos ajudam nesse processo, assim como a conexão entre redes, que amplificam a
circulação da informação.
As tecnologias dos setores de informática e comunicação foram popularizadas e hoje são
utilizadas por uma gama enorme de pessoas de diferentes segmentos sociais. Produtores rurais
utilizam aplicativos informáticos e sistemas automatizados para gerenciar seus sistemas de
produção agrícola e smartphones para se comunicar com outras comunidades. Escolas também
começam a usar as TICs para aprimorar os seus processos de ensino-apren-dizagem. Ferramentas
como blogs, fóruns de discussão na internet e outras plataformas colaborativas trazem uma
dinâmica mais interativa para a sala de aula.
Por fim, outro setor que faz uso de TICs são os de controle e automação das empresas. Eles
inseriram sistemas de gerenciamento de informações nos seus processos industriais, o que tem
produzido formas mais ágeis e dinâmicas de produção e de administração de equipes.

A era da inteligência artificial


As ferramentas baseadas em inteligência artificial (IA) ganham grande destaque na
atualidade, principalmente devido à sua flexibilidade de aplicação em várias áreas. A IA é uma
área de estudos das ciências da computação relacionada à robótica, desenvolvida a partir de 1950.
Grosso modo, ela se aplica ao uso de máquinas para desenvolver atividades e capacidades
humanas, como aprendizagem, raciocínio e tomada de decisão. Seria possível, então, ensinar uma
máquina a pensar e aprender como um ser humano, desenvolvendo processos de decisão
embasados em dados.

3 As TICs no jornalismo
As TICs vêm sendo incorporadas pau latinamente à prática do jornalismo nas redações.
Suzana Barbosa (2008) nos ajuda a entender o papel que essas tecnologias cumprem no
jornalismo com base em seu modelo Jornalismo Digital em Base de Dados (JDBD). A lógica é
que, ao contrário de outras fases, a tecnologia digital — e especialmente as bases de dados —
estruturam todas as fases da atividade jornalística, desde o seu processo de pré-produção,
passando por produção, disponibilização/circulação, consumo até pós-produção.
Desde sua inserção nas redações jornalísticas a partir da década de 1980, o computador
ganha um protagonismo crescente na execução de práticas jornalísticas. Com a digitalização das
redações, a máquina passa a centralizar os processos de gestão de informações, ajudando os
jornalistas a organizar bancos de dados e redes internas. Num segundo momento — período que
Barbosa (2008) chama de JDBD — o computador deixa de ser apenas um acessório na produção
jornalística e passa a centralizar todas as tarefas, por meio dos mecanismos de bases de dados.
Em seguida, com o advento da internet, o computador se transforma no modo de conexão da
redação jornalística com o mundo externo.
Hoje, as bases de dados cumprem a função de agilizar os processos de produção
jornalística, facilitando a obtenção de informações para a preparação de pautas, automatizando o
modo como as informações são estruturadas dentro das redações e dinamizando a forma de
apresentação do conteúdo jornalístico para o seu público (BARBOSA, 2008).
Salaverría e Garcia Avilés (2008) chamam esse modelo de gestão de informações das
redações jornalísticas de convergência digital, o que envolve uma mudança nas três fases distintas
de produção jornalística: de captação de informações, de edição/elaboração e de distribuição de
conteúdo. Listamos, a seguir, alguns usos de TICs nessas fases específicas da produção no
jornalismo.

Captação de informações
No jornalismo, a etapa de captação de informações se insere no processo de apuração de
informações, etapa constitutiva do trabalho jornalístico tradicional. A apuração envolve desde a
elaboração da pauta e sondagem de fontes (pré--produção) até a coleta/checagem de informações
relevantes junto a fontes jornalísticas e documentos. No processo de convergência digital, os
sistemas de apuração se tornam menos hierarquizados, como comenta Barbosa (2008). Os
computadores e, mais tarde, a internet permitem uma flexibilização do acesso a fontes
jornalísticas. As redes sociais, o e-mail e os bancos de dados se inserem na própria forma do
jornalista procurar e acessar fontes. O telefone, tradicional amigo do jornalista, passa a ser apenas
mais um dentre os vários mecanismos para contatar entrevistados.
O uso de fóruns de discussão, blogs e outros recursos da internet para elaborar pautas
jornalísticas também é uma prática de uso de TICs bastante comum no jornalismo. Nas redes
sociais, os jornalistas podem participar de grupos de discussão específicos para troca de pautas e
indicação de fontes jornalísticas. Essas tecnologias potencializam as formas de trabalho colabo-
rativas entre repórteres.
A inovação tecnológica também vai aparecer na forma de captar as informações, com o uso
de tecnologias digitais para gravação de voz e imagem (gravadores, câmeras de vídeo portáteis,
etc.). Aplicativos e outras tecnologias de transmissão de vídeos e áudios permitem que o jornalista
grave essas entrevistas e armazene-as direto no computador ou smartphone. Outra questão a
ressaltar quando falamos de captação de informações é o fato do jornalista precisar capturá-las
em diferentes formatos — áudio, vídeo, texto —, pois provavelmente ele utilizará esse material
bruto para produzir peças informativas para diferentes plataformas com linguagem textual e
audiovisual. Com o advento do smartphone, o jornalista passa a integrar diferentes tarefas —
captação, edição e distribuição — num mesmo aparelho, processo que Salaverría (2003) chama
de convergência instrumental.
Para Machado (2002), a apuração na internet permite que os jornalistas diversifiquem suas
fontes de informação. Na cobertura de eventos institucionais, por exemplo, antes de buscar fatos
e declarações oficiais, o jornalista pode usar a internet como uma ferramenta de pesquisa para
aprofundar seu conhecimento sobre temas específicos. Outra questão levantada pelo pesquisador
é o fato das mídias sociais ampliarem o leque de potenciais fontes para os jornalistas, estendendo-
se para qualquer usuário da rede.
A democratização de acesso a dados também se refere a fontes documentais. Na internet, a
disponibilização de bases de dados de domínio público de diversos órgãos governamentais
permite ao jornalista acessar uma enorme quantidade de dados sem precisar sair da frente do seu
computador na redação. Machado (2002) se refere a esse processo como uma transferência das
fontes oficiais para as fontes de domínio público. Esse acesso facilitado a dados diminui os custos
de produção da reportagem, pois não envolve mais o deslocamento de pessoal para buscar
documentos em arquivos físicos. Mesmo pequenas redações com poucos recursos financeiros têm
a chance de trabalhar em grandes furos de reportagem mediante o acesso a esses bancos de dados.
O uso de TICs no processo de captação de informações acabou dando origem ao Jornalismo
Guiado por Dados, especialidade do jornalismo que se utiliza da manipulação de dados para a
construção de conteúdo. Essa prática jornalística de uso de dados potencializa a capacidade do
repórter de identificar notícias em um grande volume de dados e coloca-se cada vez mais como
uma das formas do jornalismo digital produzir reportagens inovadoras.

Edição do conteúdo jornalístico


O uso de TICs faz com que o processo de edição jornalística também se transforme em
uma fase mais dinâmica e flexível. A inserção do computador nas redações jornalísticas
informatizou os sistemas de edição de notícias. Nesse sentido, etapas que eram feitas
manualmente ou com pouco auxílio do computador — como o corte de textos ou a edição de
fotografias — passaram a ser centralizadas nessa máquina. Sistemas editoriais modernos e
multimídia ajudaram a integrar e descentralizar os processos de produção de notícias. Aplicativos
e tecnologias de edição fotográfica e de vídeo ampliaram as possibilidades de produção de
conteúdo de alta qualidade nas redações.
O pesquisador Fernando Firmino Silva (2014) estuda as modificações causadas pela
inserção do smartphone e outras TICs nos processos de produção e consumo do jornalismo. Ele
cita as seguintes modificações na esfera da produção:
■ acesso ao gerenciador de conteúdo remoto;
■ novas linguagens de narrativa;
■ transmissão ao vivo por streaming.
Segundo Silva (2014), a inserção de dispositivos móveis no jornalismo produz rupturas
com relação aos instrumentos do jornalismo tradicional, fazendo com que suas práticas se
adaptassem a um cenário de produção multiplataforma e em mobilidade. Assim, vemos o
surgimento da redação móvel, em que os trabalhos do repórter são feitos de forma remota.
Hoje, de fato, os sistemas editoriais multimídia das redações funcionam de forma remota.
Repórteres e fotógrafos conseguem abastecer o sistema durante a cobertura da notícia enviando
textos, áudios e vídeos pela internet. Essa forma de atuação só foi possível devido aos avanços
tecnológicos, trazendo uma agilidade maior para o processo de produção de notícias. Da mesma
forma, editores conseguem revisar o conteúdo remotamente, de qualquer lugar, podendo checar
alterações em todas as fases de produção em tempo real pelo smartphone e tablet.
Em relação aos aspectos de produção e edição, também vemos que o cenário digital
multimídia fornece aos jornalistas as ferramentas para produzir conteúdos mais dinâmicos e
interconectados. Segundo Barbosa (2008), a inserção de bases de dados nos processos de edição
e produção jornalística dá origem a produtos com densidade informativa e com novos tipos de
visualização.

EXEMPLO
O Nexo Jornal é um bom exemplo de como o jornalismo vem utilizando ferramentas tecnológicas
para construir e gerar visualizações diferenciadas para seus produtos. A seção Gráficos desse jornal
digital apresenta matérias informativas na forma de gráficos interativos. Na matéria “A expectativa de
vida desde 1800 no Brasil e no mundo” (Figura 1), por exemplo, o usuário pode visualizar dados referentes
à expectativa de vida da população em diferentes países, no decorrer dos anos (SOUZA; SANLORENSSI,
2019).

As TICs também dão origem a sistemas de edição jornalística mais horizontais na web,
inserindo o público como produtor ou curador de conteúdo jornalístico. Machado (2008a) refere-
se a pelo menos a três sistemas de edição potencializados pelas ferramentas digitais e pela internet:
o sistema de edição compartilhada, o sistema de revisão aberta e o sistema de edição aberta.
No sistema de edição compartilhada, existem duas fases de edição: a etapa inicial, assumida
por não jornalistas, que exercem funções preliminares de edição de conteúdo, e a segunda etapa,
de responsabilidade dos jornalistas. Nesse sistema, a publicação de conteúdo ainda está
centralizada nas mãos dos jornalistas, que dão a palavra final de edição, o que faz com que
Machado (2008a) o vincule aos modelos tradicionais de edição, com estrutura verticalizada.
No sistema de revisão aberta, há uma ampliação das etapas de edição em que os usuários
podem participar, o que traz mais complexidade aos processos de edição. A edição é, então,
dividida em três etapas: uma de responsabilidade do colaborador, uma segunda de participação
de todos os membros da rede, e uma terceira etapa que é assumida pelos jornalistas. Por fim, o
sistema de edição aberta seria o sistema mais horizontalizado, pois permitiría a participação de
todos os membros —jornalistas e não jornalistas — em todas as etapas de produção, sem
diferenciar funções.

Distribuição de conteúdo
A inserção de novas tecnologias nas redações também afeta a forma de distribuição dos
conteúdos jornalísticos. As mídias digitais, por exemplo, proporcionam uma ampliação dos
espaços de consumo e circulação do discurso jornalístico. Se antes tínhamos a distribuição de
conteúdo para um veículo de comunicação preponderante — como era o caso do rádio e da
televisão —, hoje a produção jornalística passa a abarcar outras plataformas e dispositivos, como
dispositivos móveis (tablets e smartphones) e mídias sociais. É isso que alguns pesquisadores
chamam de distribuição multiplataforma.
As redes sociais digitais tornam o sistema de circulação do jornalismo mais flexível,
fazendo com que o próprio usuário da rede se transforme em propagador de notícias e informações
jornalísticas. Assim, a distribuição que era feita de forma centralizada, com hierarquia rígida entre
os participantes, em que o meio de comunicação exercia um papel fundamental de entrega de
informações para o consumidor, adquire um caráter menos hierárquico e descentralizado nas redes
(MACHADO, 2008b). Mais uma vez, vemos que o protagonismo da produção e distribuição de
conteúdo jornalístico começa a ser assumido também pelo público.

Algoritmos e robôs no jornalismo


Novas tecnologias algorítmicas também têm sido aplicadas ao jornalismo, automatizando
a produção e consumo de notícias. Antes de descobrir como isso funciona nas redações, é
interessante explicarmos o que são algoritmos. Eles podem ser definidos como “[...] um conjunto
de operações autossuficien-tes a serem desempenhadas passo a passo, como cálculos,
processamento de dados e raciocínio — um conjunto de regras que definem precisamente uma
sequência de instruções que serão compreendidas por um computador” (LINDEN; BATISTA;
RICCIULLI, 2018, documento on-linè). Assim como em outras atividades, os algoritmos podem
ser adaptados para as rotinas de produção jornalísticas, ou seja, pode-se criar um algoritmo
jornalístico que desempenhe atividades antes desempenhadas por jornalistas.
Magalhães (2017) comenta que os algoritmos cumprem a função de orientar jornalistas na
filtragem de conteúdo na internet nos processos de produção jornalística, além de ajudar a
distribuir esse material de forma personalizada. Outro elemento citado pelo mesmo autor se refere
à produção de notícias pela própria máquina, sem intervenção humana no processo. O chamado
jornalismo algorítmico (ANDERSON, 2012 apud MAGALHÃES, 2017) começou como um
experimento em pequena escala, mas já tem sido usado em larga escala devido à expansão da big
data para a produção de notícias automáticas em múltiplas línguas, por exemplo (MAGALHÃES,
2017).
Em um cenário de difusão de informações falsas, ou fake news, o jornalismo também tem
utilizado robôs para a checagem de fatos — ou fact checking. O site jornalístico Aos Fatos, cujo
modelo de negócio gira em torno dessa prática de fact checking, inaugurou em 2018 a robô
Fátima, cuja tarefa principal é checar informações em sites de redes sociais. Vemos, então, que a
tecnologia a serviço do jornalismo ajuda a ampliar os seus ramos de atuação.

No link a seguir, você pode conhecer Fátima, robô de checagem de dados do site
jornalístico Aos Fatos.
https://qrgo.page.link/KYdds
CIBERCULTURA
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Descrever a revolução cibernética das últimas décadas.
Conceituar ciberespaço.
Identificar o impacto do surgimento da internet no jornalismo.

Nas últimas duas décadas, a revolução cibernética transformou radical-mente a


comunicação e a cultura. O desenvolvimento tecnológico no campo da microinformática, dos
computadores e das telecomunicações aumentaram as potencialidades dos sistemas de
armazenamento, processamento e difusão de informações. Com o surgimento da internet,
conseguimos consolidar uma teia de comunicação global cada vez mais rápida e participativa.
Essas mudanças tecnológicas tiveram grande impacto nas formas de sociabilidade entre as
pessoas. Nesse âmbito, o ciberespaço favorece práticas de participação e compartilhamento de
conteúdo interessantes e dinâmicas. O jornalista precisa estar atento a esse novo cenário, para que
possa estabelecer uma relação pertinente com o seu público. Neste capítulo, você vai estudar a
cibercultura e entenderá como a revolução cibernética ajudou a constituir esse tipo específico de
cultura. Além disso, vai descobrir o que é ciberespaço e como ele funciona. Por fim, você vai
identificar os impactos que o surgimento da internet impõe ao jornalismo.

A revolução cibernética
Iniciamos este capítulo com o seguinte questionamento: o que é revolução ciber-nética e
como ela afeta a nossa cultura? Para começar, é interessante notarmos que a cibernética é uma
área de conhecimento interdisciplinar vinculada à teoria dos sistemas. Como contextualiza
Castells (2002), as inovações nessa área surgiram a partir de demandas e experiências
tecnológicas da Segunda Guerra Mundial e possibilitaram o surgimento de um novo paradigma
tecnológico.
Em seu livro A sociedade em rede, Castells (2002) traça uma revisão histórica dessa
revolução tecnológica, pontuando algumas inovações importantes na área da microeletrônica, dos
computadores e das telecomunicações. Segundo o teórico, os estágios de inovação desenvolvidos
nesses três campos são responsáveis por criar essa nova paisagem tecnológica. No campo da mi-
croeletrônica, a criação do primeiro transistor, em 1947, pela Bell Laboratories, marca o início
desse ciclo de inovação de máquinas capazes de processar informações em velocidade rápida de
modo binário. Duas décadas depois, em 1971, a invenção dos microprocessadores pelo
engenheiro Ted Hoff, da Intel, fez com que a microeletrônica fosse amplamente difundida. A
partir de então, esse chip com grande capacidade de processamento passou a ser instalado em
vários equipamentos (CASTELLS, 2002).
Segundo lembra Castells (2002), a criação dos computadores também está relacionada à
Segunda Guerra Mundial e seus avanços tecnológicos. Ele também comenta que o primeiro
computador, criado em 1946 para usos bélicos, pesava 30 toneladas e sua estrutura metálica tinha
2,75 metros de altura. Ou seja, a máquina era bem diferente do que conhecemos hoje. A
microeletrônica — capaz de gerar minúsculas estruturas de processamento de informações — foi
responsável por revolucionar também o computador. Além dessas tecnologias, Castells também
comenta que as estruturas de telecomunicações sofreram grandes transformações, com o
surgimento de tecnologias de transmissão mais velozes e dinâmicas, como fibra ótica, laser e
pacotes de dados. Essas estruturas forneceram a base física para a criação da internet.
Castells (2002) nos ajuda a traçar algumas características do paradigma tecnológico que
vivemos desde então. A matéria-prima desse paradigma consiste na informação e as tecnologias
são moldadas para agir sobre a informação. Nesse sentido, o foco da revolução tecnológica
encontra-se no processo e não no produto final e nas ferramentas propriamente ditas. As
informações e os conhecimentos são usados e aplicados “[...] para a geração de conhecimentos e
de dispositivos de processamento/comunicação da informação em um ciclo de realimentação
cumulativo entre a inovação e o seu uso” (CASTELLS, 2002, p. 69).
Como as ações humanas giram em torno da informação, as tecnologias acabam penetrando
integralmente nas mais variadas atividades cotidianas. Outras propriedades do paradigma
consistem na flexibilidade e abertura do sistema, na adoção da topologia das redes para qualquer
estrutura ou processo e na integração das tecnologias microeletrônica, de telecomunicações e dos
computadores (CASTELLS, 2002). A natureza aberta desse paradigma é comentada no seguinte
trecho:

O paradigma da tecnologia da informação não evolui para seu fechamento


como um sistema, mas rumo a abertura como uma rede de acessos múltiplos.
É forte e impositivo em sua materialidade, mas adaptável e aberto em seu
desenvolvimento histórico. Abrangência, complexidade e disposição em
forma de rede são seus principais atributos (CASTELLS, 2002, p. 113).

O surgimento da internet
Nessa esteira tecnológica, temos a criação da internet, cuja história merece um espaço
próprio. A internet nasceu da cooperação entre militares e universi-dades públicas norte-
americanas, passando, em seguida, a agregar iniciativas tecnológicas e inovações contraculturais.
A chamada ARPANET, criada em 1969 por especialistas da Agência de Projetos de Pesquisa
Avançada (ARPA) do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, tinha o objetivo militar es-
tratégico de ser um sistema de comunicação invulnerável a ataques nucleares para troca de pacotes
de informação (CASTELLS, 2002). Assim, a rede passou a ser utilizada pela comunidade de
cientistas para troca de mensagens informais entre seus colegas. Em um determinado momento,
lá por volta de 1995, a estrutura da rede foi privatizada. Aos poucos, desenvolvedores começaram
a criar condições para expandir a rede em nível global, para que abarcasse uma conexão entre
vários computadores. Para isso, criaram um protocolo de comunicação que possibilitou que várias
redes já existentes conseguissem se conectar à internet (CASTELLS, 2002).
A partir da década de 1990, outro salto tecnológico sacudiu a internet. Um grupo de
cientistas liderados por Tim Berners Lee criou a World Wide Web (WWW), a grande teia
mundial. A ideia era criar uma interface amigável para que os não iniciados em programação ou
linguagem computacional pudessem navegar de forma mais fácil pela internet (CASTELLS,
2002). Nesse momento, foram criados os buscadores da internet, a linguagem de hipertexto
(HTML) e de transferência de arquivos (HTTP) e um formato padronizado de endereços (URL),
elementos que formatam a internet tal como a conhecemos.

As fases da web
Podemos classificar o uso da web em quatro fases: a Web 1.0, a Web 2.0, a Web 3.0 e a
Web 4.0. Essas fases se moldam de acordo com o tipo de tecnologia e as possibilidades de
consumo ofertadas pelas páginas da internet. A Web 1.0, por exemplo, se origina com a própria
tecnologia www, na década de 1990, e se caracteriza pelas páginas estáticas, que permitem ao
usuário apenas ler, sem poder interagir ou modificar a informação. A linguagem utilizada é a
HTML. A produção de conteúdo se encontra nas mãos de poucos canais, empresas tradicionais
de comunicação que estabeleceram sua presença na rede, investindo no processo de comunicação
de uma via (SCHMITT; OLIVEIRA; FIALHO, 2008), comum ao processo de editoração do
jornal impresso. Grandes portais como Aol, Uol e Yahoo! são representantes dessa fase. A
segunda fase da web, a Web 2.0, começa lá por meados dos anos 2000.
Segundo relatam Schmitt, Oliveira e Fialho (2008), a transição de uma fase para a outra é
marcada pela falência de muitas empresas tecnológicas que tinham ações hipervalorizadas, com
a sobrevivência de algumas poucas. Essas poucas que sobreviveram compartilhavam algumas
características, como a oferta de espaços de colaboração para escrita e produção de conteúdo.
Schmitt, Oliveira e Fialho (2008, p. 8) comentam alguns dos princípios compartilhados por essas
empresas, citando O’Reilly (2005):

a) utilizar a web como plataforma; b) aproveitar a inteligência coletiva; c)


gerenciar banco de dados; d) eliminar o ciclo de lançamento de software; e)
apresentar modelos leves de programação; f) não limitar o software a um único
dispositivo; g) oferecer ao usuário experiências enriquecedoras.

Encarada como plataforma, a web passa a ser o meio onde acontece a troca de informações
e conexão entre os usuários de forma mais intensa, por meio de sites de colaboração. Sites
estáticos cedem lugar para sites dinâmicos, mantidos com banco de dados e linguagens de
programação mais simples. Também vemos que a Web 2.0 segue um modelo aberto de
programação, permitindo que o próprio usuário colabore com o desenvolvimento de software e
produtos. Por essa razão, o uso da inteligência coletiva torna-se um dos princípios dessa nova
geração da web. Para Lévy (2003), a conexão em redes e outras tecnologias colaborativas
produziu um cenário ideal de aproveitamento e mobilização em tempo real das competências e
inteligências individuais dos sujeitos ligados a essas redes.
Neste sentido, a internet tem a potencialidade de ser um ambiente criativo e múltiplo, capaz
de somar conhecimentos individuais, tornando-os coletivos e compartilhados entre a humanidade.

EXEMPLO

A Wikipedia é um bom exemplo de projeto que se alimenta da inteligência coletiva. Trata-


se de uma enciclopédia on-line escrita pelos usuários e criada pela Fundação Wikimedia em
meados do ano 2000. Os colaboradores são responsáveis por criar páginas sobre temas
específicos ou editar páginas já existentes, atualizando ou acrescentando informações ao
conteúdo de terceiros. Atualmente, a Wikipedia tem uma vasta quantidade de informações sobre
diversos assuntos. Além da Wikipedia, outros projetos da Wikimedia vão nessa mesma linha de
colaboração: Wikilivros (páginas sobre livros), Wikinotícias (páginas sobre notícias) e
Wikiversidade (espaço de construção de conhecimento e saberes).

O desenvolvimento de interfaces amigáveis, na segunda geração, facilitou a apropriação da


web pelos usuários do sistema. Vemos o surgimento, por exemplo, dos blogs, plataformas de
autopublicação de conteúdo que ganharam grande popularidade nas redes. Segundo Blood (2002),
o blog é um formato com textos de ordem cronológica reversa (chamados de posts), com
atualização contínua e presença de hiperlinks. Essas características dão a ele um caráter dinâmico,
calcado na interatividade, distinguindo-se de outros formatos da web, como sites e portais.
Lomborg (2009) acrescenta mais algumas propriedades para o blog: escrita por um autor
individual, estilo informal de escrita; assíncrono e persistente, ou seja, seu conteúdo se mantém
armazenado na web, e fácil de ser operado, pois não requer habilidades técnicas. Essas
características fizeram com que essa ferramenta fosse utilizada por pessoas na forma de um diário
pessoal, sendo posteriormente apropriada por empresas, jornalistas e outros usuários para fins
jornalísticos, de comunicação empresarial, entre outros.
Na Web 3.0, vemos um aprimoramento das ferramentas colaborativas e também uma
automatização dos sistemas e mecanismos de busca da internet. Diante de um cenário de caos
informativo crescente, surge a Web Semântica, cujo princípio basilar consiste na organização das
informações e páginas a partir da colaboração entre computadores e humanos. Ela funciona
segundo um mecanismo interpretativo, em que o computador é ensinado a reconhecer e conectar
significados de palavras. Há uma integração entre linguagens e tecnologias globais que tornam
todas as informações compreensíveis para as máquinas. Podemos chamar essa fase de Web
Inteligente.
Nessa etapa, a interação entre computador–usuário se torna mais funcional. Uma grande
quantidade de informações e dados sobre o usuário e seu perfil de comportamento on-line
abastece os sistemas de inteligência dos sites e portais, que, a partir dessa leitura, conseguem
predizer hábitos de compra e consumo deste sujeito e oferecer serviços mais personalizados e
customizados. Sites buscadores de conteúdo passam a utilizar técnicas de Search Engine
Otimization (SEO) para mapear quais são as buscas mais frequentes dos seus usuários sobre
determinado tema. Essas análises, passam então a ser usadas pelo jornalismo e outras esferas de
produção de conteúdo para formatar conteúdos de interesse do consumidor.
Por fim, a última fase da web que começa a despontar no horizonte é a Web 4.0. Ela tem
como elemento central o uso de dispositivos móveis para o consumo de informação. As
tecnologias dessa fase, como o Wi-Fi, permitem um descolamento do lugar físico (modem e
computador) para pontos móveis de conexão, por onde o usuário transita munido de um
smartphone, enquanto se desloca pelos espaços físicos da cidade. Essas tecnologias always on
fazem com que a comunicação seja ubíqua, ou seja, aconteça em todos os lugares. A separação
entre ambiente on-line e off-line tende a se dissipar, criando um contexto de conexão total
(SANTAELLA, 2007). O Quadro 1 resume as fases da web e seus principais elementos.
O que é ciberespaço?
As tecnologias da internet moldaram um espaço particular, chamado cibe-respaço. Em
termos técnicos, o ciberespaço pode ser definido como “[...] o espaço de comunicação aberto pela
interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores” (LÉVY, 2000, p.
92). Ele abrange tanto os meios físicos — as redes e terminais de conexão — quanto as
informações que transitam entre os usuários das redes.
O termo ciberespaço foi utilizado pela primeira vez no livro de ficção científica
Neuromancer, de 1984, de autoria de William Gibson, para descrever um conjunto de tecnologias
engendradas na vida social e capazes de criar uma realidade virtual (FRAGOSO, 2000). O termo
se popularizou a partir da década de 1990 e passou a ser usado para se referir à World Wide Web.
No entanto, o ciberespaço tem relação com aspectos de representação virtual espacial de uma
realidade que é ligeiramente diferente do que a internet propõe nos seus primórdios de navegação.
Podemos dizer, porém, que essa potencialidade de criar uma ambiência será mais bem
desenvolvida com o aprimoramento da web.
Segundo Lévy (2000), a virtualidade constitui o ciberespaço, tido como um lugar não
físico e aberto de acúmulo de informações e possibilidades de conexão entre agentes. O autor
também acentua o fato de que esse ambiente virtual comprime a noção de tempo, enquanto
expande o espaço. Assim, as informações são disponibilizadas na rede em um contínuo “agora”,
em um espaço ilimitado. Não conseguimos visualizar os limites e as fronteiras do espaço
cibernético. Ao mesmo tempo, os recursos tecnológicos fazem com que seja fácil obter qualquer
tipo de informação disponível no ciberespaço, independentemente do local onde esteja
armazenada. É interessante lembrar que essa dinâmica fluida se torna possível por meio da
codificação digital das informações. Esse processo possibilita um acúmulo de dados no
ciberespaço, consolidando o que Lévy (2000) já previa no início dos anos 2000: o fato de que o
ciberespaço se tornaria o principal canal de comunicação e suporte da memória coletiva.

Fique atento
A digitalização das informações, ou seja, sua transformação em uma representação numérica
binária torna-se condição para que elas sejam transportadas pelo ciberespaço

Em seu texto, Lévy (2000) cita três princípios que orientaram a expansão do ciberespaço: a
interconexão, a criação de comunidades virtuais e a inteligência coletiva. A interconexão se refere
à natureza técnica das redes cibernéticas e digitais que, pela primeira vez, conseguiram conectar
pontos distantes do mundo. Hoje, todos estão interligados por meio da internet e podem distribuir
informações de forma descentralizada para qualquer ponto da rede. A formação de comunidades
virtuais que compartilham ideias e formam uma inteligência coletiva se deu justamente por essa
natureza dialógica das redes. Segundo Castells (2002), o termo comunidade virtual foi utilizado
por Howard Rheingold para se referir a uma nova comunidade criada por meio da comunicação
mediada por computador. A rede coloca em contato pessoas com interesses em comum, que
necessariamente não partilham o mesmo território físico. Recuero (2001) aponta as seguintes
características das comunidades virtuais:

ocorrência de discussões públicas;


dinâmica de encontros e desencontros entre pessoas na rede;
tempo persistente de interação;
sentimento de pertencimento.

Recuero (2001) pontua a importância de haver uma recorrência nas intera-ções on-line
entre os indivíduos para que se forme uma comunidade virtual. A autora também discorre sobre
o pertencimento, sentimento que faz com que o indivíduo se reconheça como fazendo parte
daquele grupo e, assim, se comprometa com ele. A pesquisadora recorre aos escritos de Palácios
(1998 apud RECUERO, 2001) para distinguir entre a sensação de pertencimento a uma
comunidade virtual e a comunidades tradicionais. Nas comunidades virtuais, o pertencimento não
vem associado ao território geográfico ou lugar dos indivíduos, pois está relacionado com a
comunidade em si e os interesses compartilhados em comum. Outra questão mencionada é que o
indivíduo tem poder de escolher se pertence ou não a uma comunidade virtual (PALÁCIOS, 1998
apud RECUERO, 2001) e, a partir daí, investe seu tempo em interações que fortalecem seu
vínculo social com aquele grupo escolhido. A dinâmica de funcionamento das comunidades
virtuais — de encontros e desencontros na rede — permite-nos mencionar outra característica do
ciberespaço: o fato dele ter uma arquitetura aberta e descentralizada. Ele está em constante
transformação e evolução a partir das ações e interações entre os usuários. Martino (2014, p. 29)
pontua essa dinâmica diferenciada quando comenta que esse espaço “[...] é fluido, em constante
movimento — dados são acrescentados e desaparecem, conexões são criadas e desfeitas em um
fluxo constante”.

As três leis da cibercultura


O ciberespaço faz emergir uma cultura diferenciada, a chamada cibercultura. Lemos
(2006) a conceitua como uma cultura regida por três fatores: liberação do polo de emissão,
conexão às redes e reconfiguração cultural. A liberação do polo de emissão remete à abertura de
espaços de colaboração e participação de diversas vozes. Principalmente a partir da Web 2.0, as
mídias digitais são remodeladas em um modelo todos–todos, baseado na troca de informações e
interação entre seus usuários (LÉVY, 2000). Esse modelo, ligeiramente diferente das mídias
tradicionais de broadcasting, abre a possibilidade do usuário produzir seus próprios conteúdos e
divulgá-los na internet a partir de um computador pessoal com conexão à rede. Arquivos digitais
peer-to-peer (P2P), blogs e sites de redes sociais funcionam por meio dessa lógica e trazem um
modo interativo e comunitário de habitar a web.

Fique Atento
As tecnologias cibernéticas fazem com que o usuário da rede se transforme em produtor de
conteúdo. As fronteiras entre produção e consumo de informação se diluem, dando origem ao
“prosumer” (producer + consumer, ou produtor + consumidor).

A segunda lei da cibercultura de Lemos (2006) trata da conectividade das redes de


comunicação. Segundo ele, o processo de conexão generalizado, proporcionado pelo
aprimoramento tecnológico dos meios de comunicação, transforma o computador individual (PC)
em computador coletivo (CC). O surgimento de celulares e redes Wi-Fi ilustram essa
conectividade generalizada. Esse cenário transforma nossas relações com o tempo e o espaço,
bem como as relações entre as pessoas, que se estabelecem cada vez mais por meio das redes.
Lemos é categórico quando afirma que nós nos transformamos em nômades hi-tech, emissores de
informação de qualquer ponto de conexão. Por fim, a última lei da cibercultura abrange a
reconfiguração cultural
contemporânea suscitada pela produção de informação em rede. Lemos (2006) explica que, antes
de ser apenas a remediação de um meio sobre o outro, astecnologias digitais permitem uma
reconfiguração de práticas comunicacionais, das estruturas sociais e dos espaços midiáticos. A
utilização de blogs, de fóruns e mídias sociais concretiza uma cultura que não é mais formada
pelos elementos fixos de produção–produto–audiência. Ao contrário, essa cultura se define pela
transformação, edição e compartilhamento de referências culturais diversas, uma cultura do
copyleft e do remix (LEMOS, 2006). Podemos relacionar a cibercultura ao conceito de cultura da
participação.
Shirky (2011) utiliza esse termo para nomear uma cultura marcada pela inclusão do
amador nos processos de produção de conteúdo. O baixo custo e facilidade de acesso das mídias
sociais e tecnologias da internet favoreceriam uma maior participação do usuário, que pode
produzir, compartilhar e comentar informa-ções com seus pares. É curioso notar que essas práticas
de participação não surgem com a internet, mas sim são remodeladas, ganhando uma roupagem
tecnológica e uma escala pública, com acesso global e permanência ilimitada.

A internet e o jornalismo
A cibercultura e o ciberespaço transformaram substancialmente o jornalismo, afetando
suas rotinas de produção e consumo. A democratização do acesso a tecnologias digitais e a
formação da cultura da participação e das comu-nidades virtuais impulsionaram o jornalismo a
criar suas próprias práticas de colaboração e a inserir o seu público no processo de produção da
notícia. Segundo Primo e Träsel (2006), o jornalismo colaborativo ou participativo despontou
como uma alternativa ao webjornalismo devido a três fatores:

a ampliação de acesso a internet, blogs, wikis e outras ferramentas que favorecem a integração
de interagentes no processo de publicação e cooperação na rede;
a popularização das máquinas de fotografia digital e celulares, que faci-litam o registro e
disseminação de fatos no momento em que ocorrem; e
a circulação de discursos de defesa da livre circulação e compartilha-mento de informações,
oriundos da cultura hacker.

Esta última característica se relaciona à própria cultura da internet, de descentralização e


compartilhamento coletivo de dados em rede. Segundo Primo (2008, p. 61), essa valorização do
trabalho coletivo é típica da visão pós-moderna de conhecimento, que se fixa no trabalho em
equipe e no processo coletivo como “[...] forma de compartilhar informações e resultados”, em
detrimento da geração de conhecimento de forma individual. Vemos, então, que essa cultura da
rede, de aproveitamento da inteligência coletiva, respinga também em novas formas de
constituição do jornalismo. Castilho e Fialho (2009) relacionam a emergência do jornalismo
colabora-tivo contemporâneo ao cenário de crise do jornalismo, agravada a partir dos anos 1990,
nos Estados Unidos, com a popularização das listas de anúncios na internet. A queda nas tiragens
levou a um enxugamento das redações jornalísticas e a processos de demissão em massa. Em
seguida, os jornais passaram a se concentrar na cobertura internacional e nacional, abandonando
as coberturas do noticiário local. A brecha da cobertura local passou a ser ocupada, então, por
blogueiros, que se firmam como produtores de informação jornalística comunitária. As primeiras
iniciativas de jornalismo participativo na rede surgem como formas do cidadão noticiar temas e
fatos que não têm espaço nas coberturas noticiosas nos canais de mídias tradicionais. Bruns (2011)
relata que diversos sites e blogs alternativos tiveram protagonismo na cobertura dos ataques
terroristas de 11 de setembro de 2001, em Nova York. Foi a própria mídia mainstream dos Estados
Unidos que abriu essa lacuna, pois promoveu uma autocensura ao fazer a reportagem dos ataques,
com medo de ser estigmatizada de antipatriota. Os blogs serviram, então, como espaços de
insurgência de vozes alternativas silenciadas pela mídia convencional.

FIQUE ATENTO
O principal impacto da internet no jornalismo consiste na perda do papel de centralidade da
indústria jornalística na cobertura e disseminação de notícias, ao mesmo tempo em que as
fronteiras entre audiência e jornalista se tornam tênues (BRUNS, 2011).
O jornalismo participativo ou colaborativo surgiu como um movimento de fora da
indústria jornalística (BRUNS, 2011), sendo, aos poucos, cooptado por ela. A inserção do usuário
em espaços de colaboração passou a servir como uma estratégica mercadológica dos veículos,
para se aproximarem a um público mais participativo e jovem, acostumado a compartilhar
conteúdo em rede. A figura do repórter-cidadão surge nesse contexto como uma pessoa que
colabora com a cobertura noticiosa, enviando conteúdo para os veículos de comunicação.

O jornalismo open source


A aproximação da cultura hacker à forma do jornalismo na rede faz com que alguns
pesquisadores, como Brambilla (2005a; 2005b) adotem o termo jornalismo open source para se
referir à inclusão do usuário nos processos de produção noticiosa em rede. Derivada do termo
para códigos abertos em software, essa prática jornalística molda diversas etapas, desde a
apuração, com o uso de fontes open source na internet para checar fatos, à produção em conjunto
da notícia entre colaboradores não jornalistas e jornalistas, até a distribuição da notícia em rede.
Sob esse modelo, a notícia é encarada como um produto de domínio público tanto na sua
elaboração quanto em sua apro-priação e fruição (BRAMBILLA, 2005a).

Um novo paradigma de jornalismo?


Antes de serem fenômenos isolados, as práticas de colaboração e participa-ção do usuário
disseminaram-se no jornalismo contemporâneo, produzindo mudanças estruturais em suas
práticas. Essa é a tese que Axel Bruns (2011) sustenta ao analisar a emergência de iniciativas
colaborativas e projetos se-melhantes em agências e organizações noticiosas. Para ele, essas
iniciativas são um prelúdio da morte de modelos de cobertura jornalística que operam de cima
para baixo. Há, então, “[...] uma mudança para um relacionamento colaborativo mais igual,
embora às vezes cauteloso, entre os profissionais do jornalismo e os usuários de notícias”
(BRUNS, 2011, p. 20). Esse processo, segundo o pesquisador, faria o jornalismo passar de um
modelo de gatekeeping para um modelo gatewatching. O paradigma do gatekeeping serviu para
caracterizar as atividades do sistema de produção jornalística na época da mídia de massas.
Segundo Bruns (2011), modelos em que o jornalista era o responsável por filtrar a notícia se
consolidaram a partir de uma necessidade prática que os veículos tinham de selecionar uma
quantidade específica de notícias para serem produzidas em um cenário de escassez de canais de
comunicação. Os jornalistas e editores atuavam como gatekeepers (guardas, sentinelas) que
mantinham o controle total do que era publicado. Com o advento das mídias sociais digitais,
ocorreu uma multiplicação de canais de publicação de informação, o que faz com que o sistema
rígido do gatekeeping se torne desnecessário (BRUNS, 2011). Nesse cenário, emergem práticas
de curadoria colaborativa de notícias, que propõem novos modelos colaborativos entre audiência
e jornalistas, e sedimentam-se no que o pesquisador chama de gatewatching

Fique Atento
Práticas de gatewatching são esforços de curadoria coletiva e colaborativa realizados pelos
usuários das mídias sociais, que comentam, compartilham e observam (watch) as notícias
publicadas pela indústria jornalística.

Por mais que não sejam práticas de produção jornalística, a curadoria coletiva de notícias
nas redes sociais produzem impacto na produção de notícias. As listas de assuntos mais
comentados nas mídias sociais fornecem aos veículos de comunicação e ao jornalista algumas
pistas dos temas mais populares e podem, assim, ajudá-los a produzir pautas e conteúdos que
tenham um apelo popular. Essa dinâmica das redes servindo como termômetro para a produção
de notícias já vem sendo inserida nas rotinas produtivas de jornais. É importante frisar que as
práticas de curadoria de notícias nas redes sociais estudadas por Bruns (2011) não se moldam pela
produção de notícias, mas sim pela observação, avaliação e organização de notícias já publicadas.
Assim, firmam-se comunidades de produsage, (production + usage, ou produção + uso/consumo)
que republicam, divulgam, contextualizam e avaliam materiais já existentes. Aqui entra
novamente aquela ideia do esforço coletivo e da inteligência coletiva:
Realizados em grande escala — por uma comunidade
suficientemente grande e diversificada de participantes dedicados
— estes esforços coletivos podem resultar em formas de cobertura
noticiosa que são tão abrangentes como aquelas conseguidas pela
indústria jornalística (BRUNS, 2011, p. 124).

Outra ideia interessante de salientar é que essas práticas colaborativas não são esforços
planejados e organizados pelas mídias convencionais, como eram as práticas de produção de
conteúdo do repórter-cidadão. Ao contrário, elas são descritas por Bruns (2011) como
movimentos produzidos fora da indústria jornalística e que, por envolverem uma escala
significativa de usuários, geram um impacto substancial na organização das lógicas do jornalismo.
O que acontece nos sites de redes sociais tem o poder de contaminar e pautar o noticiário,
fenômeno chamado de contra-agendamento. Primo e Träsel (2006) mostram-nos que o
webjornalismo participativo abre novos campos de atuação para o jornalista. Eles frisam o papel
de editor de conteúdo e também de instrutor, ensinando de técnicas jornalísticas para cidadãos-
repórteres interessados em participar de reportagens colaborativas. Percebe-se, nesses dois casos,
o reconhecimento do cidadão como produtor de informações, acentuando formas de interação
com ele. Outra iniciativa que pode ser explorada nessa prática, segundo os pesquisadores, é a
criação de seus próprios weblogs e sites, que funcionam como uma imprensa alternativa e que
apostam em uma cobertura jornalística independente. Aqui se encaixariam, por exemplo, os
coletivos jornalísticos, que surgem como práticas alternativas de produção de notícias em
oposição ao modelo das empresas jornalísticas.

EXEMPLO
A Mídia Ninja (https://midianinja.org/) é uma iniciativa de mídia independente que
trabalha com uma lógica de produção colaborativa. Ela ganhou destaque no Brasil durante os
protestos de junho de 2013, quando fez cobertura em tempo real das manifestações, com o uso
de câmeras de celulares e uma unidade móvel. A rede possui milhares de colaboradores
cadastrados em mais de 250 cidades brasileiras, que colaboram com a produção de conteúdo do
site pelo envio de fotos, textos e vídeos

Há um consenso entre os pesquisadores de que o cenário de jornalismo


participativo e colaborativo e as novas práticas de curadoria colaborativa nas redes sociais
exigem um novo posicionamento do jornalista, mais aberto a ouvir a sua audiência, colocada
numa posição de coprodutora da informação (BRAMBILLA, 2005b; PRIMO; TRÄSEL, 2006;
BRUNS, 2011). No entanto, os processos de seleção e edição dessas informações ainda precisam
ser balizados pelos eixos do jornalismo de qualidade, exigindo do jornalista e editor a habilidade
crítica de separar quais conteúdos lhes interessam como notícia. O desafio que se impõe a esse
profissional seria, então, o de fomentar iniciativas colaborativas, inserindo-as no sistema de
trabalho jornalístico (BRUNS, 2011), que preza pelos elementos de credibilidade e veracidade da
informação.
Convergência
midiática
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Caracterizar a convergência dos meios de comunicação.
Reconhecer a cultura participativa em ambientes digitais.
Descrever o conceito de inteligência coletiva em matérias jornalísticas

Introdução
Nas últimas décadas, houve uma mudança significativa nas formas de produção e consumo de
produtos midiáticos. As novas tecnologias permitiram a emergência de um público mais
participativo, o que ensejou a convergência dos meios, ou seja, a disseminação de conteúdos
para múltiplas plataformas. Antes de ser apena tecnológica, a convergência dos meios traz
mudanças culturais e sociais que podem ser observadas no perfil do público consumidor de
produtos midiáticos. Entender a forma como se configura essa cultura da convergência torna-se
primordial para que o jornalista consiga se situar nesse cenário de produção midiática. Neste
capítulo, você vai estudar o fenômeno de convergência midiática. Você vai entender o conceito
de convergência e suas implicações na construção de público e de produtos. Além disso, vai
aprender a identificar a cultura participativa em ambientes digitais e a inteligência coletiva em
matérias jornalísticas, por meio de exemplos de iniciativas jornalísticas.

1 A convergência dos meios


Vamos começar nosso estudo situando o que entendemos por convergência midiática, a partir das
reflexões de Henry Jenkins (2008). No livro A cultura da convergência, o teórico descreve um
cenário de emergência de um novo paradigma de consumo e produção midiática baseado no uso
de múltiplas plataformas, na cooperação entre indústrias midiáticas e na mudança de
comportamento do público, que se torna mais participativo. Para Jenkins (2008), a convergência
midiática pode ser definida como uma mudança cultural que possui uma disposição tecnológica,
de potencialização e dispersão de plataformas. Isso significa dizer que, para além da tecnologia,
a convergência se faz também na cabeça das pessoas. A dispersão de conteúdo em diversas
plataformas só funciona porque há um público mais participativo e interessado em interagir com
narrativas criativas. Esse segundo aspecto ficará mais explícito quando apresentarmos exemplos
de convergência no decorrer do capítulo.
Antes de abordamos a questão cultural, de mudança no perfil do público, é interessante darmos
uma olhada nas mudanças tecnológicas implicadas na convergência dos meios de comunicação.
O aprimoramento e uso de tecno-logias digitais e de conversão de meios analógicos para o digital
possibilitou a unificação de processos tecnológicos no espectro da linguagem digital. Na medida
em que têm o mesmo funcionamento — por meio de bits e códigos digitais — os meios de
comunicação passam a sofrer um processo de integração. Barbosa (2013) aborda essa questão ao
comentar que, no cenário contem-porâneo, as lógicas de funcionamento das mídias digitais
permitem que meios antigos/tradicionais e novos meios se comuniquem e troquem informações
de forma mais fácil, pois funcionam segundo os mesmos processos (emprego de software, bases
de dados, algoritmos, etc.) Assim, veículos de comunicação que eram tradicionalmente separados
passam a ser integrados na produção e distribuição de conteúdo, formando um continuum entre
si.
Esse processo afeta empresas, tecnologias, profissionais, produtos e usuários (BARBOSA, 2013).
Jenkins (2008) traz reflexões sobre essa dinâmica ao dizer que o paradigma da convergência
proporciona uma interação mais complexa entre meios de comunicação. Ele desmistifica a ideia
recorrente nos estudos de mídia de que haveria uma simples substituição das mídias antigas pelas
novas. No lugar de desaparecer e ficarem obsoletos, os meios de comunicação se adaptam a um
novo cenário de múltiplas mídias e passam. A concentração de várias funcionalidades em um
único meio não passa de uma falácia — a falácia da Caixa Preta (JENKINS, 2008). Com o advento
da revolução digital, a televisão, o rádio e a mídia impressa não caíram em desuso, mas passaram
a exercer outras funcionalidades.

Fique atento
A convergência pode ser aproveitada pelas empresas jornalísticas para reforçar sua marca. Elas
podem produzir conteúdos complementares para diferentes plataformas e veículos de
comunicação, atingindo uma audiência mais ampla

No sentido prático, a convergência midiática proporciona uma ampliação dos espaços de


produção e circulação do discurso jornalístico. Se antes tínhamos uma produção restrita a um
veículo de comunicação preponderante — como era o caso do rádio e da televisão na era analógica
—, hoje a produção jornalística passa a abarcar uma maior quantidade de plataformas e
dispositivos, como os dispositivos móveis, as mídias sociais digitais, além dos veículos
tradicionais, como televisão, rádio e mídia impressa. Assim, pensar a narrativa jornalística no
cenário convergente significa entender que ela não se restringe a apenas um suporte, mas espalha-
se por meio da estrutura da mídia. Segundo analisa Carlos Pernisa Junior (2010), esse modelo
casa com uma mudança de paradigma do público do jornalismo. A mensagem jornalística, que
num cenário de comunicação de massa era construída em função de um determinado meio para
atingir um maior número de pessoas possível, passa a ser construída num universo de nicho e
dispersão. O que se procura, nesse novo modelo, é um público específico, que pode ser atingido
utilizando diversas plataformas e linguagens.

O modelo de mônada aberta


As lógicas de funcionamento desta integração entre meios podem ser exem-plificadas pelo
modelo de mônada, desenvolvido por Pernisa Junior (2010). Segundo ele, a narrativa jornalística
poderia ser estruturada de forma dispersa em diversos módulos autônomos interconectados. Cada
módulo representaria um bloco informativo de uma plataforma midiática específica e
complementaria outros módulos, formando, no seu conjunto, uma narrativa total. Planejar a
produção jornalística implicaria, então, em conceber módulos de narração para cada plataforma
específica — televisão, rádio, jornal, etc. — que se utilizassem das potencialidades de cada meio
de comunicação para a produção de narrativas interconectadas entre si.

A narrativa transmídia
Quando falamos de narrativas em cenários convergentes é interessante intro-duzirmos o conceito
de narrativa transmídia, cunhado por Jenkins (2008) nos seus estudos sobre o universo ficcional.
Ele é utilizado pelo pesquisador para nomear o tipo de narrativa ou história ficcional que “se
desenrola através de múltiplos suportes midiáticos, com cada novo texto contribuindo de maneira
distinta e valiosa para o todo” (JENKINS, 2008, p. 135). Para Jenkins (2008), a narrativa
transmidiática ideal seria desenvolvida a partir da potencialização das características de cada
suporte e visaria a construção de um universo narrativo integrado. Uma história poderia, por
exemplo, começar em um filme e ser estendida para outras plataformas, como romances,
quadrinhos, televisão.
É importante salientar, também, que essa narrativa não tem pretensão de ser consumida na sua
totalidade e, ao contrário, ofereceria vários pontos de entrada ao seu público. Precisamos estar
atentos para algumas características da narrativa transmí-dia que a diferenciam de outros tipos de
distribuição de conteúdo em múltiplas plataformas. Esse tipo de narrativa contempla a
disseminação de conteúdos em diferentes mídias que não sejam meras repetições. Assim, ela se
distingue do crossmedia, que seria a simples transposição e distribuição de um mesmo conteúdo
em diversas plataformas (SOUZA; MIELNICZUK, 2010). Na nar-rativa transmídia, a ideia é
desenvolver um universo para que o público possa se engajar na história, transitando pelos
dispositivos. O crossmedia, por outro lado, pretende atingir o maior número de pessoas com o
mesmo conteúdo, ou seja, não tem uma preocupação de criação de narrativa. Duas características
ajudam a definir o que entendemos por transmídia: a existência de portais de acesso e a capacidade
de permitir a troca de papéis entre produtores e consumidores (SOUZA; MIELNICZUK, 2010).
Os por-tais de acesso funcionam como elementos que direcionariam o público para outras
plataformas (SOUZA; MIELNICZUK, 2010). Assim, o consumidor de conteúdo poderia pular
de suporte para suporte e, no seu conjunto, acessar um universo narrativo integrado. O outro
ponto, de permitir a troca de papéis entre produtores e consumidores, traz uma dinâmica
participativa para a narrativa. Os consumidores são incitados a participar ativamente da história
e, em alguns casos, a produzir seu s próprios conteúdos. Alzamora e Tarcia (2012) buscam como
referência a etimologia da palavra transmidiático para explicar o que eles entendem ser o
jornalismo transmídia. Antes de ser apenas a complementaridade entre plataformas, o fenômeno
transmídia seria caracterizado por um deslocamento das características dos ambientes midiáticos
tradicionais. Ele se apresentaria, então, como “[...] uma forma inovadora de produção e circulação
de conteúdo informacional, a qual miscigena gêneros e formatos por meio da integração entre as
lógicas da transmissão e do compartilhamento” (ALZAMORA; TARCIA, 2012, p. 30). Nesse
sentido, surgem experimentações no jornalismo, como o jornalismo de imersão e os newsgames,
que envolvem o público leitor no universo jornalístico construído.

Podemos resumir o jornalismo de imersão em duas características principais:


Formato que utiliza tecnologias de realidade virtual para simular situações e acontecimentos
reais;
O leitor pode vivenciar aquela realidade e ter uma experiência mais próxima com as situações
narradas.

Por sua vez, os chamados newsgames apresentam as seguintes características:


São jogos baseados em notícias e atualidades;
As histórias jornalísticas são contadas a partir de simulações nas quais o leitor se torna jogador.

2 A cultura participativa
A configuração tecnológica da convergência ganha mais sentido quando olhamos para o cenário
de consumo midiático e como ele se transformou radicalmente nos últimos anos. Ao olhar para
as práticas de consumo da indústria do entretenimento, Jenkins (2008) teoriza sobre o fato do
público ter passado por uma mudança de comportamento em relação às mídias. De um cenário de
mídias tradicionais, que abriam pouco espaço de interação com o público, passamos para um
cenário em que o público não se contenta mais em apenas ficar assistindo televisão. Ele quer
comentar, compartilhar conteúdo e até mesmo interferir na programação. Clay Shirky (2011)
comenta que as mídias do século XXI, que dão va-zão a essa cultura participativa, se distinguem
substancialmente das mídias tradicionais do século XX. Enquanto aquelas tinham o foco no
consumo do público, as mídias digitais e sociais adicionam mais dois focos: a produção e o
compartilhamento. Assim, o consumo passa a não ser a única forma de usar a mídia. Com acesso
a mídias digitais, as pessoas passam a desenvolver experimentos, criando suas próprias narrativas
e produtos midiáticos a partir do contato com seus grupos e com produtos midiáticos. O público
ganha centralidade nos processos midiáticos, segundo avalia Jenkins (2008). O jornalismo pode
achar formas de aproveitar essa vontade de participar do seu público, propondo projetos
colaborativos com comunidades específicas. A seguir, apresentamos alguns exemplos de como
isso acontece na prática.

Os projetos investigativos do La Nación


O jornal argentino La Nación tem se destacado com coberturas investigativas de jornalismo de
dados em parceria com cidadãos. Seu projeto Voz Data é um exemplo disso. Ele consiste em uma
plataforma de colaboração aberta que transforma dados de interesse público em informação.
Alguns dos projetos desenvolvidos no âmbito da plataforma tiveram participação cidadã. Em
2015, na época das primárias das eleições presidenciais, a equipe do La Nación lançou uma
chamada de colaboração cívica para checar 90 mil telegramas eleitorais (como são chamados os
documentos com o cômputo total de votos de cada seção eleitoral, enviados pelas respectivas
autoridades ao correio). Na época, havia suspeitas de que as eleições pudessem ter sido fraudadas.
Os cidadãos checaram cerca de 20 mil telegramas, disponibilizados na plataforma em PDFs, que
foram revisados depois pela equipe de jornalistas. Os resultados desse trabalho em equipe
permitiram descobrir que havia 48% de telegramas com algum tipo de irregularidade. Outro
projeto investigativo com colaboração cidadã envolveu a checagem de 40 mil áudios de escutas
telefônicas do procurador federal Alberto Nisman, encontrado morto em sua casa em 2015. O
caso da sua morte foi emblemático para a imprensa argentina, pois Nisman era o responsável por
investigar um atentado em Buenos Aires na Associação Mutual Israelita Argentina em 1994, que
matou 85 pessoas. Essa investigação de fôlego também só foi possível por meio do trabalho de
milhares de colaboradores. Essas duas iniciativas de investigação coletiva do jornal La Nación
podem ser definidas como práticas de apuração jornalística distribuída. Para Träsel (2009), esse
tipo de apuração consiste em delegar determinadas etapas do trabalho jornalístico — busca,
levantamento e coleta de dados e informações — a uma coletividade de leitores não jornalistas.

Projeto Witness
A cultura participativa pode ser usada para a produção coletiva de conteúdo. O projeto Witness
trabalha nesse sentido e se coloca como um coletivo de apoio e treinamento a cidadãos e ativistas
que queiram produzir vídeos sobre violações aos direitos humanos em qualquer lugar do mundo.
Segundo dados do seu site, eles identificam situações críticas de violações de direitos huma-nos
em comunidades e regiões específicas do globo e oferecem capacitações presenciais e on-line de
filmagem para pessoas interessadas em reportar e filmar os problemas da sua comunidade. Eles
se respaldam na vontade de participar das pessoas — e no perfil de engajamento comunitário que
muitas delas têm. A disponibilidade dos celulares que podem ser manipulados por qualquer
pessoa também entra como uma das prerrogativas da iniciativa, já que as filmagens não requerem
muitos recursos técnicos, ou seja, podem ser feitas com o uso da câmera de celular. Ao todo 5 mil
pessoas já foram capacitadas e produziram vídeos para o site. Os vídeos filmados por esses
colaboradores são enviados para a equipe do Witness e destacados no seu site.

LINK
No link a seguir, você pode acessar e conferir o site do projeto Voz Data:
https://qrgo.page.link/gmzwn

No link a seguir, você pode acessar e conferir o site do projeto Witness.


https://qrgo.page.link/PrUFN

Projeto Viva Favela


O projeto Viva Favela foi criado por uma ONG no Rio de Janeiro em 2001 para reportar a rotina
das pessoas da favela e das periferias urbanas na cidade do Rio de Janeiro. O site abriga a
produção de conteúdo por jornalistas e corres-pondentes comunitários, moradores das favelas e
periferias. A ideia central da iniciativa era oferecer um espaço de construção de narrativas
alternativas sobre a periferia, num contexto em que a mídia tradicional a representava como um
espaço de violência e mazelas sociais. O projeto pretende incen-tivar a apropriação de tecnologias
digitais, como celulares e computadores, pela população da favela. Para isso, o projeto previa
também oficinas para a formação de correspondentes e comunicadores locais. Segundo consta no
seu site, o Viva Favela foi referência pioneira na produção de conteúdo temático sobre periferias
urbanas na internet.

3 Inteligência coletiva nos ambientes digitais


Outro fator salientado por Jenkins (2008) característico da cultura da con-vergência é a ascensão
do que ele chama de inteligência coletiva das redes. A ampla conexão entre as pessoas nas redes
sociais faz com que haja uma produção de conhecimento coletivo. É como se as redes
acumulassem o co-nhecimento individual de cada sujeito conectado, formando um saber coletivo
mais complexo. Para Shirky (2011), a conexão de redes produz mais valor para a partici-pação
voluntária em atividades, permitindo um compartilhamento amplo do pensamento. Para dar uma
dimensão dessa transformação, o teórico compara esse contexto com um contexto anterior, em
que os grupos de amadores eram pequenos, pois os custos de participação e organização de grupos
eram relativamente altos, o que tornava o compartilhamento algo não eficiente. Hoje, ao contrário,
podemos compartilhar e produzir um conhecimento social em larga escala, com o uso das redes
sociais para coordenar grandes grupos de colaboradores. Assim, o produto do compartilhamento
ganha um amplo valor social em si. Você pode conferir, a seguir, alguns exemplos de como essa
inteligência coletiva se molda nos ambientes digitais e pode ser aproveitada pelo jornalismo
Cobertura midiática via Twitter
A ecologia midiática das redes sociais permite uma série de iniciativas relacio-nadas à formação
de um saber coletivo e compartilhado. Uma delas consiste no uso da plataforma Twitter pelos
próprios usuários para realizar coberturas midiáticas de protestos e manifestações, atentados
terroristas e outros eventos de grande repercussão. Para mostrar como essa dinâmica de cobertura
em rede ocorre, selecionamos dois exemplos: as coberturas no Twitter dos protestos de junho de
2013 no Brasil e dos atentados de Paris em 2015. Em junho de 2013, manifestações de rua
explodiram em diversas cidades brasileiras. Um protesto que, a princípio, era contra o aumento
do preço das passagens, estendeu-se para outras reivindicações e insatisfações da popula-ção
brasileira. O Twitter cumpriu um papel interessante na dinâmica desses protestos, permitindo que
o assunto se propagasse em círculos sociais mais amplos. Essa foi a conclusão de Zago, Recuero
e Bastos (2015) ao analisarem o papel de diferentes agentes na circulação das informações sobre
os protestos no Twitter. Elas categorizaram as ações de usuários em três grupos:
o grupo de celebridades, responsável por fazer uma cobertura ao vivo dos protestos no local;
o grupo de ativistas, responsável por produzir e reverberar uma grande quantidade de tuítes sobre
os protestos, com o uso de hashtags, sem estarem fisicamente presentes na rua; e
o grupo da imprensa, que fez uma cobertura imparcial e intensa por um período menor.

Segundo salientaram as pesquisadoras, a ação de grupos de ativistas e de celebridades pendiam


mais para um discurso ativista, de incentivo às manifestações. A reverberação do conteúdo no
Twitter teve um papel funda-mental na visibilidade dos protestos de rua, fazendo-os escalar em
termos de proporção. Outro elemento que Zago, Recuero e Bastos destacam se refere ao fato
desses agentes nas redes sociais produzirem uma cobertura paralela à imprensa, permitindo uma
narrativa dos protestos diferente. Se não existisse esse espaço de propagação de conteúdo nas
redes sociais, possivelmente essa narrativa seria outra (ZAGO; RECUERO; BASTOS, 2015). O
papel da rede em amplificar os acontecimentos também é salientado por Zago (2016), na sua
análise da cobertura no Twitter dos atentados de Paris de 2015. Na noite de 13 de novembro de
2015, o grupo terrorista Estado Islâmico promoveu uma série de ataques na cidade de Paris: três
explosões de bomba separadas e seis fuzilamentos em massa, incluindo o incidente no clube
noturno Bataclan. Zago relata que minutos depois de ocorrência dos atentados, havia já uma
grande movimentação nas redes sociais. Mais de 3 mil tuítes por minuto foram registrados por
ela. A análise de 10 mil tuítes contendo as palavras “atentado” e “Paris” permitiu a Zago (2016)
sistematizar os grupos responsáveis por fazer essa cobertura midiática nas redes. Seriam dois
grandes grupos: um de produtores de informação (mídia e comentaristas) e outro de recirculadores
e difusões de informação. Esses últimos contribuem para o alastramento das informações, por
meio dos retuítes, mecanismo do Twitter que permitem replicar o conteúdo produzido por outro
usuário no seu próprio perfil. A grande quantidade de retuítes nessa cobertura específica mostrou
a Zago a importância do grupo de recirculadores na promoção de uma maior visibilidade ao
evento, replicando inclusive conteúdos produzidos pela imprensa.

SAIBA MAIS
A forma como os protestos de junho de 2013 e os atentados em Paris de 2015 circularam pelas redes sociais
remete ao conceito de conteúdo propagável e de propagabilidade. Jenkins, Green e Ford (2014) usam esse
termo para se referir a conteúdos que têm um alto potencial de serem compartilhados pelas pessoas e se
tornarem tópicos de conversas nas redes sociais. A estrutura de conexão e de integração entre as mídias
favorece essas formas de propagação, que dão um caráter ativo para o usuário. A mídia propagável seria
aquela que:
circula amplamente entre os usuários;
ganha engajamento e repercussão profunda dentro de uma comunidade. Segundo os pesquisadores, a
cultura da propagabilidade parece ser um caminho natural de consumo de produtos midiáticos, já que se
utiliza do baixo custo das redes para se constituir. Ela molda releituras e apropriações de conteúdos pelos
usuários, e, nesse sentido, precisa ser levada em conta pelos produtores da mídia.

Projeto Fogo Cruzado


O projeto Fogo Cruzado é uma plataforma digital colaborativa criada para registrar a incidência
da violência armada nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e Recife. Por meio de um
aplicativo no celular, os cidadãos colaboradores podem alimentar a plataforma com dados sobre
disparos de
armas de fogo. A equipe gestora do portal recebe notificações dos usuários e cruza essas
informações com scripts e filtros agregadores de informações em redes sociais sobre disparos de
armas de fogo nessas cidades. Após verificar a veracidade do fato, o incidente fica registrado no
site e no aplicativo. A união de informações de vários colaboradores isolados permite ao portal
construir um mapa coletivo da violência no Rio e em Recife.

A iniciativa Brio Escavadores


No período pré-eleições de 2018, o coletivo jornalístico Brio lançou um projeto de investigação
jornalística colaborativa chamado Escavadores. Seu objetivo era revelar informações sobre os
candidatos às eleições a partir do trabalho investigativo de uma rede de jornalistas de todo o
Brasil. Sua premissa central consistia no fato de que o trabalho coletivo desses jornalistas, ao se
debruçar sobre 320 candidatos a eleições federais (deputados, senadores, além do pre-sidente) e
estaduais (governador), seria muito mais eficiente do que o trabalho isolado de um veículo de
imprensa tradicional. No site, o Brio explicou o processo de trabalho dessa iniciativa.
No passo 1, o repórter participante da rede ficaria responsável por procurar e coletar informações
e documentos de interesse público dos políticos candidatos. Registros de imóveis, processos
judiciais, inquéritos, documentos que compro-vem conflitos de interesse ou relações de amizade
suspeitas e que desvelem o histórico político dos candidatos seriam alguns dos documentos
possíveis de serem coletados. Após esse processo, o repórter utilizaria um sistema específico para
informar essa coleta ao Brio. No passo 2, a equipe do Brio avalia se as informações são
consistentes e rendem uma pauta. No passo 3, essa pauta seria então ofertada para um parceiro de
produção. Se aceita, na etapa 4, a equipe de jornalistas do Brio trabalharia na produção da
reportagem, desenvolvendo um levantamento de dados mais consistente e redigindo a matéria. A
etapa 5, por fim, consistiria na publicação da matéria.

LINK
No link a seguir, você pode acessar e conferir o site do projeto Brio Escavadores.
https://qrgo.page.link/U4fD

O caso Panamá Papers


O último exemplo que trazemos para ilustrar iniciativas de uso da inteligência coletiva no
jornalismo é o caso Panamá Papers, de 2016. Ele consistiu em uma investigação jornalística
coletiva sobre evasão e fraude fiscal orquestrada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas
Investigativos (CIJI). Ao todo, 370 jornalistas de 109 veículos de mídia de vários países
trabalharam durante um ano na análise de documentos e informações fiscais sediados na empresa
panamenha Mossack Fonseca. O montante de informações analisadas, de mais de 11,5 milhões
de documentos reunidos, exigiu um trabalho investigativo compartilhado. Nesse sentido, a
diretora de redação do Le Monde, Cécile Prieur, refere-se à necessidade de se abarcar jornalistas
de vários países para que a notícia tivesse a repercussão desejada, já que os vazamentos dos
Panamá Papers envolviam personalidades do mundo inteiro (INSTITUTO HUMA-NITAS
UNISINOS, 2016). Nesse caso, dificilmente uma equipe reduzida de jornalistas de um veículo de
mídia isolado teria a capacidade de trabalhar com esse volume de dados de forma satisfatória e
ainda fazer com que o caso ganhasse tamanha repercussão mundial.

SAIBA MAIS
As redes digitais facilitam a conexão entre equipes de trabalho de jornalistas e dão origem a
projetos transnacionais de jornalismo. Trata-se de iniciativas em que jorna-listas de diferentes
países e regiões se articulam para produzir matérias jornalísticas em conjunto em torno de temas
específicos. Elas envolvem esforços investigativos colaborativos entre esses agentes, bem como
divulgação e disseminação desses produtos por diversos veículos de mídia. O CIJI atua dessa
maneira.
PROPAGAÇÃO DE
CONTEÚDOS DIGITAIS
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Explicar o conceito de cauda longa.
Identificar a aplicação da cauda longa no jornalismo.
Reconhecer a propagação das notícias nos meios digitais.

As transformações no mercado de consumo afetam não apenas a economia, mas as formas


de produção e disponibilização de conteúdo nas redes. No contexto contemporâneo, vemos surgir
o que se chama de economia da cauda longa, marcada pela abundância de oferta de produtos
midiáticos. Para se inserir no mundo de produção informativa contemporânea, o jornalista precisa
entender como a cauda longa se aplica ao jornalismo. Além disso, esse profissional precisa ter
noção dos modos de propagação dos conteúdos jornalísticos nos meios digitais, para que possa
planejar a editoração e circulação de produtos informativos nesses espaços. Neste capítulo, você
vai estudar o conceito de cauda longa, como ele ajuda a explicar o contexto de consumo midiático
atual e como pode ser aplicado ao jornalismo. Você também vai entender as dinâmicas de
disseminação e propagação de notícias nos meios digitais.

1 O conceito de cauda longa


Para começar os estudos deste capítulo, precisamos entender o que é cauda longa. Esse
conceito foi popularizado por Chris Anderson (2006) para expli-car a configuração atual do
mercado de bens de consumo. Para ele, vivemos numa economia de abundância de produtos e
serviços de diversos setores, provocada principalmente pela internet. O processo de liberação do
polo de emissão, proporcionado por essa tecnologia, faz com que surjam diversos produtores de
conteúdo. A cultura começa a circular nas redes sem os filtros impostos pelos veículos de
comunicação de massa, predominantes num cenário de escassez econômica (ANDERSON,
2006).
Segundo Anderson (2006), o universo da internet criou um cenário de oferta de diversos
produtos com baixo volume de venda, se comparados aos grandes sucessos das décadas
anteriores. Essa dinâmica pode ser observada na indústria da música, do cinema, do
entretenimento e no mercado editorial. Antes da internet, grandes sucessos de bilheteria e músicos
e bandas com grandes performances indicavam o tipo de cultura consumida pelas pessoas. Hoje,
esse universo de poucos hits é substituído por uma ampla variedade de filmes e discos dispersos
em nichos específicos.

FIQUE ATENTO
A cauda longa é um termo cunhado pela estatística e utilizado para explicar, entre outras
coisas, a rentabilidade de mercados de consumo. O conceito se baseia na dispo-nibilização de
uma diversidade de produtos — que compõem a cauda longa — cuja popularidade não é tão alta
quanto os hits do cenário anterior. Podemos explicá-lo a partir de dois tipos de investimento. No
primeiro cenário, 20% dos produtos geram 80% das receitas e são considerados hits (Figura 1,
na parte da Cabeça). No segundo cenário, surgido com a internet, 80% dos produtos geram 20%
das receitas (Figura 1, na parte da Cauda). Quando considerados em conjunto, esses produtos
de nicho têm alta rentabilidade para as indústrias (ANDERSON, 2006).
Após entender como esse cenário se configura, resta-nos perguntar: como chegamos a essa
economia da cauda longa? Anderson (2006) nos ajuda com essa questão ao mostrar os impactos
que a internet trouxe para o mercado. As tecnologias e ferramentas digitais transformaram
radicalmente as formas de produção, disponibilização e distribuição de produtos. A digitalização
proporciona formas de armazenamento virtual que reduzem os custos de disponibilização de
produtos. Lojas passam a ofertar estoques praticamente infinitos de produtos que jamais teriam
espaço em prateleiras físicas. Esse processo faz com que as lojas virtuais possam reduzir o preço
de alguns pro-dutos, o que potencialmente aumenta sua circulação. Plataformas de venda de e-
books da Amazon, entre outras, compartilham essa lógica de funcionamento, disponibilizando
um amplo estoque de livros digitais a preços baratos.
Outro mecanismo da internet e das tecnologias digitais que facilita a emergência desse
contexto de consumo é a relação mais equilibrada entre oferta e demanda de produtos. O fácil
acesso a ferramentas de produção, que passam a ser apropriadas por qualquer pessoa, proporciona
uma ampla oferta de produtos. Shirky (2011) acredita que as novas formas de comunicação dão
origem a uma revolução, com a inclusão dos amadores como produtores de conteúdo. Assim, não
é preciso mais passar pelo filtro da mídia; cada um pode dizer o que quiser, produzir e fazer
circular produtos variados (SHIRKY, 2011). Produções antes tidas como periféricas pela mídia
tradicional tornam-se visíveis. Grande parte dessa visibilidade se dá por causa dos mecanismos
de busca, que tornam mais fácil e rápido encontrar qualquer tipo de produto que se deseja
consumir (ANDERSON, 2006).

Da mídia de massa para o mercado de nichos


O contexto da cauda longa favorece o mercado de nichos. A mídia começa a se adaptar a
esse cenário, oferecendo produtos direcionados para públicos específicos. Modelos de negócios
são construídos sob essa lógica da segmentação, como é o caso das plataformas Spotify, Netflix
e YouTube. Seus mecanismos de busca dão acesso a conteúdos para públicos variados, como
comunidades de nerds, interessados em astronomia e documentários de vida animal, de veganos,
interessados em estilo de vida sustentável e receitas veganas, de mulheres interessadas em
compras e economia, entre outros. Cada comunidade tem sua demanda atendida, seja pela
produção de amadores ou profissionais da indústria do entretenimento.
As categorias de “massa” e “grande público”, utilizadas para descrever o público-alvo dos
tradicionais veículos de comunicação de massa, tornam-se obsoletas nesse novo sistema. Assim,
formular um produto de consumo partindo da lógica da cauda longa implica delimitar
especificamente o tipo de público que se almeja atingir. Essa lógica também nos leva a pensar
que todo produto produzido por qualquer pessoa vai ter certa quantidade de espectadores, por
menor que seja. Não é preciso fazer um sucesso estrondoso e ter uma divulgação em larga escala
para que um produto midiático seja consumido.

2 A cauda longa e o jornalismo


O efeito cauda longa trouxe impactos significativos para a indústria jornalística em termos
de produção e disseminação de informações. Podemos falar da existência de uma cauda longa da
informação na web, gerada pela demo-cratização dos canais de publicação e surgimento de blogs
e mídias sociais. Segundo observam os pesquisadores Schmitt e Fialho (2007), no cenário da web,
os veículos jornalísticos passam a competir não apenas entre si, mas também com a inteligência
coletiva gerada pelas interações na rede. A notícia, que num cenário pré-internet era produzida
pelas mãos de poucos jornalistas, passa a ser assumida por outros atores, em processos
colaborativos.
Inspirados em uma entrevista de Anderson (2006), Schmitt e Fialho (2007) citam dois tipos
de cauda longa que afetam e transformam o jornalismo: a cauda longa do tempo e a cauda longa
da abundância, detalhadas a seguir.

A cauda longa do tempo


A cauda longa do tempo refere-se ao fato da notícia poder ser armazenada e ficar disponível
para o leitor por um período maior. Mecanismos de busca e sistemas de recomendação ajudam o
usuário a ter acesso a notícias que, apesar de antigas, continuam relevantes. O critério de
relevância de uma notícia passa a ser decidido pelos próprios usuários e não tanto pela hierarquia
da home page estabelecida pelo jornal (ANDERSON, 2006 apud SCHMITT; FIALHO, 2007).
Como os próprios pesquisadores mencionam, essa cauda longa tem poder de afetar os valores-
notícia do jornalismo.
As mudanças nos critérios de relevância das notícias são confirmadas por Barsotti (2018a),
em estudo sobre as rotinas produtivas das redações dos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo.
Um dos elementos levantados pela observação da pesquisadora é que o processo de edição do
jornal tende a seguir as reações do público sobre as notícias publicadas, mensuradas por
ferramentas de monitoramento de redes sociais. Assim, as notícias mais comentadas e
compartilhadas nas redes sociais pelos usuários são tidas como mais relevantes e “vendidas” para
os editores para a composição da home page do jornal.

FIQUE ATENTO
Eis alguns elementos que definem a cauda longa do tempo no jornalismo (SCHMITT;
FIALHO, 2007):
armazenamento e disponibilização de notícias antigas em bancos de dados de sites;
aumento do tráfego de sites jornalísticos;
destaque para notícias com relevância duradora em detrimento de notícias imediatas;
as reações do público sobre a notícia publicada tornam-se critério escolhido pelos
jornalistas para editar e hierarquizar notícias no site do jornal.

A longo prazo, Anderson (2006 apud SCHMITT; FIALHO, 2007) acredita que as notícias
de relevância duradoura depositadas em arquivos digitais tendem a ter mais valor se comparadas
às notícias de última hora. A estrutura da rede favorecerá a importância de um acontecimento —
e o quanto o público o julga importante — em detrimento de valores-notícias como atualidade e
imediatismo. Nesse processo, o tráfego nos sites jornalísticos que armazenam essas notícias tende,
então, a aumentar (SCHMITT; FIALHO, 2007).

A cauda longa da abundância


A segunda cauda longa do jornalismo remete à quantidade de conteúdo dis-ponível para o
usuário no ciberespaço. Segundo Schmitt e Fialho (2007), nesse cenário as pessoas não estão mais
limitadas a consumir informações divulgadas apenas pela mídia tradicional. Blogs e outras
instâncias competem com jornalistas na produção informativa. Como relata Bruns (2011), nos
seus primórdios os weblogs independentes faziam uma crítica à mídia, por meio da produção de
vozes alternativas ao discurso jornalístico hegemônico.
Aos poucos, a produção de informação vai se depositando em outras instâncias, como as
redes sociais e as plataformas de produção colaborativa de conteúdo, como o YouTube. Elas dão
vazão a conteúdos que não têm necessariamente um apelo jornalístico além de servirem como
canais de expressão, de cobertura alternativa de fatos e críticas às formas de cobertura midiática.
A própria indústria jornalística começa, num segundo momento, a reconhecer essas formas
de produção de conteúdo alternativas e incorporá-las na sua estrutura (BRUNS, 2011). Nesse
sentido, surgem as iniciativas midiáticas que exploram a participação na produção de informação.
A inserção de quadros de repórter-cidadão nos telejornais e o uso de mídias sociais para estreitar
o diálogo e a colaboração entre jornalistas e audiência são alguns exemplos de como a
potencialidade da causa longa da informação é apropriada pelo jornalismo.
Vemos surgir também uma série de meios de comunicação independentes e nativos da web,
com modelos de negócios inovadores, que diversificam as vozes do jornalismo. Exemplos de
coletivos jornalísticos emergentes nesse contexto são a Agência Pública, focada na produção de
reportagens investigativas, a Ponte Jornalismo, focada em temas de direitos humanos, e o Marco
Zero Conteúdo, focado na cobertura de conflitos urbanos da cidade do Recife.

LINK
O panorama de vozes alternativas praticando jornalismo no Brasil está em ascensão nos
últimos anos. No link a seguir, apresentamos o Mapa do Jornalismo, projeto da Agência Pública
de mapeamento de iniciativas inovadoras de coletivos jornalísticos.
https://qrgo.page.link/ycgrz

Bruns (2011) acredita que as características tradicionais do jornalista re-lacionadas à


credibilidade e qualidade da informação são acentuadas nesse cenário de abundância de
informações. Com base nelas, o jornalista consegue se diferenciar de outros atores sociais
(BRUNS, 2011) que não seguem critérios de produção jornalística.
Podemos dizer que o jornalismo sofre um processo de reposicionamento diante das
dinâmicas de colaboração em rede e produção de conteúdo por usuários. Bruns (2011) aborda
essa questão ao dizer que a indústria jornalística perde a sua centralidade na produção e
disseminação da informação e precisa adaptar-se a esse cenário. Assim, práticas de cobertura
jornalística que operam de cima apara baixo são substituídas aos poucos por práticas e
relacionamentos mais colaborativos entre usuários e jornalistas.
As mudanças no jornalismo trazidas pela cauda longa da informação podem ser observadas
sob a ótica da teoria do gatekeeping, explicada por Bruns (2011). O pesquisador comenta que o
paradigma do gatekeeping serviu para caracterizar as atividades do sistema de produção
jornalística na época das mídias de massa, em que o jornalista era responsável por selecionar uma
quantidade específica de notícias para serem noticiadas em um cenário de escassez de canais de
comunicação. Com a abundância de informações, a lógica se transforma. A seleção das notícias
relevantes, ou seja, a curadoria de conteúdo, passa a ser feita por vários usuários além dos
jornalistas e editores.

FIQUE ATENTO

Eis alguns elementos que definem a cauda longa da abundância no jornalismo (SCH-
MITT; FIALHO, 2007):
competição do jornalismo com outras fontes de informação;
jornalistas perdem a centralidade na cobertura e disseminação da notícia;
diversificação das vozes no próprio jornalismo (coletivos jornalísticos independentes);

3 A propagação das notícias nos meios digitais


Os meios digitais trouxeram formas diferenciadas de propagação das notícias, fazendo-as
ganhar um alcance ampliado. Machado (2008) ajuda-nos a entender esse novo contexto de
propagação da notícia ao caracterizar os sistemas de circulação do ciberespaço como dinâmicos,
operados pelos próprios participantes do sistema, os usuários, em contraposição ao modelo
centralizado de circulação de informações jornalísticas, a cargo de profissionais especializados.
A dinâmica de propagação de notícias em meios digitais ocorre prioritariamente a partir de
duas ferramentas: os buscadores da internet e as mídias sociais digitais. Elas funcionam como
filtros capazes de organizar e classificar as informações que circulam na web e se mostram
extremamente úteis num cenário de abundância informativa do ciberespaço (FRAGOSO, 2007;
CANAVILHAS, 2010). A partir delas, o leitor pode ter acesso a uma curadoria do conteúdo
potencialmente interessante para o seu perfil.
A evolução dos buscadores da internet se desenvolveu em paralelo com a trajetória da
World Wide Web. Fragoso (2007) faz uma breve retrospectiva dessas ferramentas, citando desde
iniciativas pioneiras, como o primeiro indexador, chamado Archie, criado em 1990, num cenário
anterior à WWW, até iniciativas comerciais, como Yahoo! e Google. A natureza básica desses
buscadores era permitir que o usuário realizasse buscas em bases remotas de dados, listando os
resultados da pesquisa. Além do Archie, um sistema de busca bastante lembrado quando falamos
dos primórdios da internet é o Altavista.
A diferença de um buscador para o outro estava no alcance dos dados mapeados. O
buscador Archie, por exemplo, dava acesso a pastas e documentos de pouco mais de 200
servidores e era configurado para uso departamental (FRAGOSO, 2007). Inspirado em
indexadores pioneiros, o buscador WAIS, formulado pela iniciativa de quatro empresas em 1993,
acrescentava a possibilidade do usuário realizar pesquisas em bases de dados remotas e
organizava os resultados dessas buscas em ordem decrescente de frequência das palavras--chave
(FRAGOSO, 2007). O volume de dados mapeados atraiu investidores a partir da década de 1990,
que passaram a inserir banners e pequenos anúncios nos sistemas de busca. Alguns deles
começaram a oferecer outros serviços para o usuário além da busca, transformando-se em portais
(FRAGOSO, 2007). Esse foi o caso do Yahoo!, surgido em 1995, e, mais tarde, do Google.
Fragoso (2007) comenta que o Google destacou-se como sistema de busca por investir em
resultados orgânicos e não apenas em resultados pagos, como outras ferramentas costumavam
fazer. Assim, o buscador foi ganhando a con-fiança do usuário, que entendia que seus resultados
eram mais confiáveis. A velocidade das buscas e a simplicidade da interface também foram
apontadas por Fragoso (2007) como diferenciais da plataforma. No ano 2000, o Google também
passou a inserir resultados pagos na sua página principal, tomando o cuidado para distingui-los
dos resultados orgânicos (FRAGOSO, 2007).
Assim como outros mecanismos da internet, os buscadores se baseiam no modelo de
distribuição de informação com tecnologia pull. Trata-se de um conteúdo que é solicitado pelo
usuário, por livre iniciativa, durante o seu exercício de navegação na web (FIDALGO;
CANAVILHAS, 2009). Esse modelo é distinto, por exemplo, da tecnologia push, que consiste
em empurrar os conteúdos para o usuário. No sistema pull, o poder de escolha de fontes de
informação está nas mãos do usuário, enquanto no sistema push os veículos de comunicação ou
empresas de tecnologias são responsáveis por selecionar e apresentar conteúdo para seu
consumidor.
Podemos observar as diferenças entre o sistema push e pull a partir de uma análise das
tecnologias de distribuição usadas em veículos de comunicação tradicionais e plataformas de
conteúdo dos meios digitais. Enquanto grades de programação de televisão e rádio oferecem um
conteúdo previamente selecionado pela equipe e direção de jornalismo, plataformas como
YouTube e Globoplay, no caso de vídeo, e Spotify, no caso de áudio, dão ao usuário a
possibilidade de escolher qual programa ou produto ele quer consumir.
As características dos sistemas push e pull são resumidas no Quadro 1.
Observe que os meios digitais mesclam tecnologias das duas naturezas, às vezes
possibilitando uma escolha mais ativa do usuário e em outros casos ofertando conteúdos.
Das home pages para as mídias sociais
As tecnologias de distribuição de informação ficaram mais complexas ao longo do tempo
e passaram a não ser mais estritamente vinculadas aos veículos de comunicação. Assim, no
contexto da web, as empresas de tecnologia, como Google e Facebook, e os próprios usuários do
sistema passam a assumir o papel de propagadores de conteúdo. Segundo Barsotti e Aguiar
(2017), essa dinâmica ganha fôlego a partir da mudança nas formas de leitura das notícias, que
passam a ser acessadas pelas plataformas e sistemas de notificação do Facebook e Twitter
Em 2016, mais de 70% dos brasileiros consumiam notícias por mídias sociais, segundo
mostra o Digital News Report do Reuters Institute (NEWMAN, 2016). Por essa razão, entender
as formas de propagação das notícias nesses espaços torna-se essencial para planejar como o
produto jornalístico vai acessar seus públicos. Os pesquisadores Barsotti e Aguiar (2017) notam
que a predominância dessas plataformas vai modificar as formas de distribuição de notícias no
jorna-lismo. As home pages dos sites jornalísticos, segundo observam, tornaram-se invisíveis por
causa dos hábitos atuais de consumo de notícias dos usuários. O modelo de primeira página do
jornal impresso herdado pelos jornais digitais torna-se obsoleto no cenário contemporâneo
(BARSOTTI; AGUIAR, 2017).
O uso de redes do Facebook, Twitter e blogs no jornalismo aumenta a capacidade de
propagação da notícia, pois a informação circula entre usuários e não mais num fluxo unilateral
da organização jornalística para o consumidor (MACHADO, 2008). Ao compartilharem notícias
nas suas páginas de mídias sociais, os usuários cumprem a função de disseminar e fazer circular
o produto jornalístico por sua rede de contatos. Por essa razão, Recuero (2009) destaca o papel
dos reverberadores de informação dessas redes.
Recuero (2009) comenta que a propagação de informações nas redes sociais pelos usuários
segue critérios diferentes do jornalismo. Assim, os usuários escolhem publicar conteúdos que
agreguem credibilidade e valor social ao seu perfil sem necessariamente obedecer aos critérios de
publicação jornalísticos. Os processos de circulação e recirculação da informação nas mídias
sociais podem ser utilizados pelos veículos jornalísticos para aumentar a sua visibilidade entre
círculos e grupos sociais que seriam dificilmente atingíveis por meio da circulação da imprensa
tradicional pré-internet (RECUERO, 2009).
As mídias sociais acrescentam uma nova etapa de circulação ao jornalismo, chamada por
Zago (2013) de recirculação do conteúdo jornalístico. Ao analisar o Twitter, a pesquisadora
aponta essa fase “[...] como uma subetapa potencial posterior ao consumo, como um
desdobramento da circulação, para quando o interagente se apropria do conteúdo jornalístico e o
faz circular novamente a partir de suas próprias palavras” (ZAGO, 2013, p. 219). Essa
recirculação se daria por meio do filtro e do comentário. O usuário do Twitter seleciona as notícias
que considera mais importantes, republicando-as e/ou inserindo algum comentário seu ao
conteúdo republicado (ZAGO, 2013).
É interessante observar que a circulação e recirculação de informações nas mídias sociais
não são etapas estanques. Zago (2013) comenta que con-versas e comentários sobre algum fato
ou notícia publicada por um veículo de comunicação no Twitter ou Facebook podem fomentar
novas apurações jornalísticas e a produção de novas reportagens.

FIQUE ATENTO
Nas mídias sociais, valores editoriais do jornalismo impresso como “hierarquia” das
matérias jornalísticas, “visão de conjunto”, “construção do todo” e “sequência de leitura”
cedem espaço para um cenário de hiperfragmentação da leitura. O usuário produz o seu jornal
a partir de uma leitura individualizada (BARSOTTI; AGUIAR, 2017).

A dinâmica de circulação das informações nas redes sociais afeta a pro-dução jornalística.
Segundo observam Barsotti e Aguiar (2017), o poder de propagação de uma notícia se transforma
em um critério de noticiabilidade nas redações jornalísticas. Assim, notícias que tenham maior
propagabilidade e engajamento do público leitor nas mídias sociais são mais cotadas como
matérias de capa da home page do jornal. As redações inserem o monitora-mento das mídias
sociais e estratégias de disseminação de conteúdo dessas plataformas nas suas rotinas de
produção. Dentre as estratégias, Barsotti (2018a) cita a elaboração de títulos por meio de técnicas
de Search Engine Optimization, o mapeamento de temas que tenham potencial de engajamento,
com o uso de uma ferramenta chamada Social Monitor, e o repost, prática de republicação de
matérias antigas para driblar os algoritmos do Facebook e atingir um número maior de leitores.

A quarta tela
No cenário de convergência tecnológica atual, dispositivos digitais como smartphones e
tablets passam a se somar na circulação e propagação de conteúdo. Barbosa (2013) chega a
comentar que essas plataformas dialogam com os meios de comunicação tradicionais, como a
televisão, o rádio e o jornal, formando um continuum de distribuição de informação. Beloquio
(2013), por outro lado, chama a atenção para o fato de cada plataforma dis-por de estratégias de
comunicação distintas, visando públicos de consumo específicos.
Fidalgo e Canavilhas (2009) chamam o celular de quarta tela, entendendo--o como um
dispositivo que disponibiliza amostras de informações perma-nentes e ubíquas de outras telas.
Seu papel consiste em chamar a atenção do leitor para acessar conteúdos de outras plataformas,
mediante pílulas de informações curtas. Haveria, então, uma propagação de informações entre
plataformas.

O poder dos algoritmos


Falar dos processos de propagação de notícias nos meios digitais implica também em
evidenciarmos o papel dos algoritmos na seleção e definição do que vai se tornar visível e,
consequentemente, propagável na rede. Os sistemas de busca de informações e os sites de mídias
sociais têm seus pró-prios algoritmos, responsáveis pelo processo automatizado de curadoria de
conteúdo de acordo com o perfil do seu usuário. Fragoso (2007) comenta que nem sempre os
critérios de hierarquização de informações nos buscadores são explicitamente visíveis ao usuário.
Muitos, por exemplo, tendem a interpretar o conteúdo disponibilizado pelo Google como a
internet em si, sem saber que existe um processo de filtragem e de canalização de tráfego em
poucos sites a partir de objetivos comerciais.
O funcionamento dos algoritmos também nos dá indicações de que existem percursos de
propagação de informações no ciberespaço predeterminados por essas tecnologias. Barsotti
(2018b) explica que, nas redes sociais, os regimes de visibilidade das notícias são norteados por
algoritmos, que “[...] selecionam o que será exibido para cada usuário de acordo com suas
preferências individuais” (BARSOTTI, 2018b, documento on-line). No Facebook, critérios como
histórico de navegação e localização geográfica orientam quais notícias são ocultadas ou
mostradas ao usuário (BARSOTTI, 2018b). A pesquisadora preocupa-se com o fato desses
percursos de visibilidade da informação estarem sob poder das empresas de tecnologia e não
seguirem critérios jornalísticos, como era o costume na mídia tradicional.
Recuero, Zago e Soares (2017) destacam que a dinâmica de circulação de informação nas
redes sociais depende da combinação de ações dos usuários e de algoritmos, o que pode produzir
“[...] uma personalização da experiência de consumo de informações” (RECUERO; ZAGO;
SOARES, 2017, documento on-line). O grande risco desse mecanismo é levar à criação de
“filtros-bolha”, lugares de circulação de apenas determinado tipo de conteúdo (PARISIER, 2011
apud RECUERO; ZAGO; SOARES, 2017). Nesse sentido, a longo prazo, a variedade de
informações que consumimos tende a ser reduzida, o que pode diminuir substancialmente a nossa
visão de mundo sobre os fatos.
Ao silenciar o contraditório, as redes sociais podem trazer efeitos para a política e a
democracia. Esse aspecto é apontado por Recuero, Zago e Soares (2017) em estudo sobre o
mapeamento de conversas sobre política brasileira no Twitter. Os resultados dessa pesquisa
indicam a formação de bolhas ideológicas em torno de determinados posicionamentos políticos
no país. Por mais que a estrutura da internet tenha esse potencial democrático (CASTELLS, 1999
apud RECUERO; ZAGO; SOARES, 2017), o acesso aos discursos circulantes nela é feito de
forma desigual. A afinidade na escolha dos seguidores do usuário, os algoritmos de seleção dos
sites e a curadoria/filtragem de conteúdos por outros usuários são elementos que limitam a
experiência do usuário na rede, transformando a mídia social num ambiente polarizado
(RECUERO; ZAGO; SOARES, 2017).
A estrutura da mídia social de seleção de percursos de informação baseados na ação do
usuário e em algoritmos torna-a propícia também à propagação de notícias falsas, as chamadas
fake news. Elas são criadas com o objetivo de espalhar desinformação sobre determinado fato e
são compartilhadas pelos usuários, cujas visões e percepções de mundo são reiteradas por essas
notícias (RECUERO; GRUZD, 2019). Combater a propagação de fake news tem sido um dos
desafios do jornalismo. Algumas iniciativas de checagem de fatos foram criadas para esse fim,
como a Agência Lupa, o site Aos Fatos, entre outras.
Os gêneros jornalísticos no
ambiente digital
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Resumir os principais gêneros jornalísticos. Identificar as fases do jornalismo on-line.
Reconhecer os formatos do jornalismo on-line.

Introdução
A digitalização e o desenvolvimento da internet têm transformado as formas do jornalismo
contar histórias. Depois de passar por diferentes fases de aprimoramento, a ambiência digital
estabelece um novo ciclo de inovação para formatos e linguagens jornalísticas. Gêneros e
formatos jornalísticos tradicionais, como a reportagem e a notícia, são chamados a se reinventar.
Para saber navegar pelas possibilidades criativas da internet, o jornalista precisa entender o que
são gêneros jornalísticos e como eles se configuram. Além disso, precisa conhecer as fases do
jornalismo on-line e saber reconhecer seus formatos de conteúdo, para que possa planejar seus
próprios produtos jornalísticos. Neste capítulo, você vai estudar os principais gêneros
jornalísticos.
Também vai conhecer as fases do jornalismo on-line e sua dinâmica de desenvolvimento,
além de e estudar os formatos do jornalismo on-line.

1 Os gêneros jornalísticos
Para começar os estudos deste capítulo, vamos explorar o que são gêneros jornalísticos e
como eles se configuram na prática do jornalismo. O conceito de gênero jornalístico vem dos
estudos da linguagem e é utilizado para se referir à estrutura de algum texto. Para o filósofo
Mikhail Bakhtin (2003), utilizado como referência quando o assunto é gênero discursivo, os
gêneros são formas-padrão relativamente estáveis de enunciados, usadas em situações
comunicacionais. Eles aparecem vinculados, então, a atividades e práticas profissionais
específicas. Podemos classificar os textos gerados a partir da prática de edição jorna-lística em
gêneros específicos, ou seja, textos que compartilham de algumas propriedades entre si. Para
Melo e Assis (2016), os gêneros jornalísticos fazem parte do universo de gêneros midiáticos e,
por isso, compartilham algumas características com outros textos produzidos pela mídia. Sua
identidade pe-culiar, seu reconhecimento pelos seus produtores e consumidores, sua função
informativa ou de entretenimento e sua permanência ao longo do tempo são algumas dessas
propriedades compartilhadas. Quando falamos sobre gêneros jornalísticos, é comum nos
referirmos à
classificação estabelecida por José Marques de Melo, que, após anos de obser-vação
empírica de jornais brasileiros, chegou a uma lista de cinco categorias de gêneros jornalísticos
(MELO, 2009 apud MELO; ASSIS, 2016):
gênero informativo (nota, notícia, reportagem, entrevista); gênero opinativo (editorial,
comentário, artigo, coluna, caricatura, carta, crônica);
gênero interpretativo (análise, perfil, enquete, cronologia, dossiê); gênero diversional
(história de interesse humano, história colorida); gênero utilitário (indicador, cotação, roteiro,
serviços).
Como podemos observar, os gêneros jornalísticos se desdobram em
inúmeros formatos. O gênero informativo, por exemplo, tem sob seu guarda--chuva os
formatos nota, notícia, reportagem e entrevista. Enquanto os gêneros são estáveis e mantêm uma
identidade ao longo do tempo, os for-matos têm uma natureza mais flexível (MELO; ASSIS,
2016). Eles são os responsáveis pela modificação e atualização do gênero no decorrer do seu
percurso histórico, de acordo com as demandas da sociedade (MEDINA, 2001; MELO; ASSIS,
2016). Dessa forma, a classificação de gêneros não pode ser encarada como
algo dado, que funciona do mesmo jeito em todos os contextos sociais. Segundo esclarece
Medina (2001), os gêneros se originam dos processos de produção do jornalismo e das
manifestações culturais de determinada sociedade. Nesse sentido, eles refletem um dado
momento histórico de relações entre jornal e leitores. Salaverría e Cores (2005) acrescentam que
o gênero discursivo cumpre a função de fornecer um modelo de interpretação para o leitor. Esse
sujeito estabelece uma posição intelectual determinada a depender do texto que está lendo
(SALAVERRÍA; CORES, 2005); assim, expectativa do leitor ao ler uma notícia não é a mesma
de quando lê um artigo de opinião, por exemplo. Os gêneros também têm a função de servir de
parâmetro para a produção
de outros textos. Assim, ao mesmo tempo em que servem “[...] para identificar uma
determinada intenção, seja de informar, opinar, de interpretar ou de divertir” (MEDINA, 2001,
documento on-line), os gêneros jornalísticos são responsáveis por fornecer um estilo de
organização textual para os jornalistas. Os gêneros de textos dominantes no jornalismo são
associados ao universo da informação, da opinião e da interpretação. A seguir, descrevemos suas
propriedades e funções.
O gênero informativo
O gênero informativo refere-se ao universo da informação e tem como função principal o
relato de fatos da maneira mais objetiva possível (MEDINA, 2001). Constitui a base do
jornalismo que conhecemos hoje, cuja função é informar seu leitor sobre acontecimentos sociais.
Segundo Melo (2010), seu surgimento remonta ao século XVII, ou seja, é o mais antigo dos
gêneros jornalísticos estudados. Como formatos atuais, ele abriga a nota, a notícia, a reportagem
e a entrevista. Segundo Lage (2001a), os textos jornalísticos do gênero informativo têm
como base a veracidade da informação, a objetividade e a imparcialidade. São relatos de
fatos reais a partir do uso de técnicas jornalísticas objetivas. A notícia é considerada um formato
básico desse gênero discursivo. Trata-se de um relato de uma série de fatos organizado a partir do
fato mais importante ao menos importante (LAGE, 2001a). Além de se relacionar com a verdade,
esse formato também tem relação com o conceito de interesse humano. Os jornalistas escolhem
transformar em notícia fatos que interessam a sociedade ou seu potencial público, ou seja, que
sigam critérios de noticiabilidade (PENA, 2006). Para Melo (2003 apud PENA, 2006), a diferença
entre a notícia, a nota e a
reportagem consiste na progressão dos acontecimentos relatados. Enquanto a nota tem um
caráter textual mais breve, pois refere-se a acontecimentos que ainda estão acontecendo, a notícia
consiste no relato integral de um fato que já aconteceu. A reportagem, por outro lado, engloba a
cobertura da repercussão de um fato social, ou seja, é mais densa. Enquanto a notícia prima pelo
fato em si, a reportagem contextualiza e aprofunda as informações relativas a ele (PENA, 2006).
O gênero opinativo
Os gêneros opinativos são gêneros autorais que expressam a visão de mundo de seus
autores. Para Beltrão (1980 apud ASSIS, 2010), esse gênero, que surgiu no século XVIII,
materializa a opinião pública que circula na sociedade. É interessante notar que esse gênero tem
uma relação com os textos informativos: os comentários e opiniões de seus autores são avaliações
subjetivas geradas a partir da observação dos fatos relatados nas notícias. Segundo Gradim (2000),
a opinião difere da notícia por não trazer infor-mações novas. Ao querer esclarecer o público
sobre determinada tema, esse gênero acaba chamando a atenção para aspectos das notícias que
passariam despercebidos dos leitores e que não podem ser tratados no âmbito do texto informativo
(GRADIM, 2000). O gênero opinativo abrange os formatos editorial, artigo, comentário,
coluna, caricatura, carta e crônica. Segundo Melo e Assis (2016) comentam, esses formatos
distinguem-se entre si não apenas na sua estrutura textual, mas também nas suas práticas de
construção e autor. O editorial, por exem-plo, representa a voz da empresa jornalística sobre
algum assunto, enquanto o artigo e o comentário vêm assinados por sujeitos específicos. O artigo
é produzido por um especialista de determinada área, que tece opiniões sobre algum
acontecimento polêmico. O comentário, por sua vez, é produzido por jornalistas experientes que
analisam fatos e conjunturas específicas e seus possíveis desdobramentos.
O gênero interpretativo
O gênero interpretativo tem a função de buscar uma explicação para os fatos, suas causas
e consequências. Ele é caracterizado pelo aprofundamento, expli-cação e análise da informação.
Segundo Melo (2010), esse gênero surgiu nos Estados Unidos no período da Segunda Guerra
Mundial, quando o público passou a demandar dos jornais análises e previsões sobre o conflito.
Ele é classificado por Melo (2010) como um gênero complementar. Os formatos de análise, perfil,
enquete, dossiê e cronologia fazem parte
desse gênero jornalístico. Muitas vezes, o formato reportagem também é incluído como
gênero interpretativo por alguns pesquisadores, já que sua principal função consiste em
contextualizar o acontecimento (ASSIS, 2010). Por entender essa natureza complexa do formato,
decidimos inclui-la, ao mesmo tempo, como gênero informativo e interpretativo.
Lage (2001a) comenta que toda reportagem pressupõe investigação e
interpretação. Por isso, esse subgênero poderia classificado no escopo do jornalismo
interpretativo e investigativo. A reportagem se caracteriza por ter predominância da forma
narrativa, humanização do relato, texto de natureza impressionista e objetividade dos fatos
narrados. O Quadro 1 apresenta uma comparação entre o formato reportagem e o
formato informativo das notícias:

O gênero diversional
O gênero diversional tem como função oferecer diversão e lazer para o seu leitor (MELO;
ASSIS, 2016). Ele se desdobra nos formatos história de interesse humano e história colorida, que
compartilham a característica de serem relatos literários sobre a realidade. Esse gênero
complementar teria surgido no século XX e seria uma forma do jornalismo se adaptar a uma
sociedade acostumada à forma de consumo hedonista, que valoriza cada vez mais as emoções
(ASSIS, 2016). Com ele, a imprensa incorporaria também a lógica de entreter seu público.
O gênero utilitário
O gênero utilitário também se configura como um dos tipos complementares surgidos no
final do século XX. Tem uma função pragmática de auxiliar o leitor a tomar decisões cotidianas
(MELO; ASSIS, 2016) e, nesse sentido, pode ser chamado também de jornalismo de serviços.
Seu surgimento se dá numa sociedade povoada por cidadãos consumidores que precisam de
informação para tomar decisões rápidas sobre sua vida ou o mundo financeiro. Assim, esse gênero
se desdobra nos formatos: indicadores econômicos e meteoro-logia; cotação, com dados frios e
precisos, etc.; roteiros, com informações ligadas ao consumo de produtos; e serviços, com
informações de serviços e atendimentos públicos.
2 As fases do jornalismo on-line
Para entendemos como os gêneros jornalísticos se adaptam à internet, pre-cisamos estudar
as fases de desenvolvimento do jornalismo on-line. Surgido a partir dos anos 1990 com a
emergência da internet, o jornalismo on-line é um tipo de jornalismo produzido para a World
Wide Web (DEUZE, 2006 apud RODRIGUES, 2009). No decorrer do desenvolvimento da web,
esse jornalismo passa a adotar especificidades dessa plataforma de comunicação. Mielniczuk
(2003) classifica as fases de desenvolvimento do jornalismo
on-line, ou webjornalismo, em primeira, segunda e terceira geração. Ao par-tir dessas
categorias, Barbosa (2013) observa a existência de uma quarta e um quinta gerações para o
jornalismo on-line. Elas diferem entre si pelas tecnologias digitais adotadas em cada fase, pelo
tipo de produto e linguagem jornalística predominantes.

A primeira geração do jornalismo on-line refere-se aos primórdios desse


tipo de jornalismo, em que ocorria a migração de jornais impressos para plataformas on-
line (MIELNICZUK, 2003). Nesse período, chamado por Mielniczuk (2003) de fase da
transposição, as redações jornalísticas apro-veitavam-se da nova plataforma para disponibilizar
conteúdos e produtos jornalísticos digitalizados do meio impresso. Não havia qualquer adaptação
de linguagem nem espaço para a concepção de um produto que se aproveitasse das
potencialidades tecnológicas que estavam surgindo com o novo meio. Além do conteúdo, as
rotinas de produção jornalísticas também estavam fortemente baseadas nas rotinas do jornal
impresso. Assim, as páginas da internet acompanhavam o tempo de fechamento desses jornais,
sendo atualizadas a cada 24 horas. No final dos anos 1990, o jornalismo on-line passa para uma
segunda
geração, chamada por Mielniczuk (2003) de fase da metáfora. Esse momento dá vazão à
exploração de algumas possibilidades ofertadas pela plataforma internet. A comunicação por e-
mail entre jornalista e leitor e o uso de links nas matérias são alguns dos elementos explorados.
Mesmo assim, Mie-lniczuk (2003) comenta que o modelo de jornalismo on-line dessa fase
continua atrelado ao modelo do jornal impresso. Um exemplo é o fato da rentabilidade das
empresas jornalísticas de então ainda depender da venda de jornais impressos. A internet era usada
apenas como mais um espaço de disponibilização de conteúdo. O desenvolvimento de uma
linguagem própria do jornalismo on-line se
dá somente na sua terceira geração. Mielniczuk (2003) afirma que, nesse momento, inicia-
se a verdadeira exploração dos recursos da plataforma, como a interatividade e a
multimidialidade, como forma de enriquecer a narrativa jornalística. Mais do que afetar o produto,
esses recursos tecnológicos ofe-recidos pela internet afetam a rotina de produção dos veículos,
que passam a manter notícias atualizadas a cada minuto. Nessa fase, vão surgir veículos de
comunicação nativos da web, ou seja, que não possuem uma versão impressa correspondente.
Para Barbosa ([2008]), nessa terceira geração as tecnologias digitais co-meçam a se tornar
constitutivas da prática jornalística. A principal tecnologia mencionada aqui são as bases de
dados. Inseridas nas redações jornalísticas na década de 1970, como forma de armazenamento de
informação e conteúdo, com a digitalização das redações nas décadas posteriores essas bases
passaram a estruturar todo o processo de produção jornalística — desde o armazenamento até a
disponibilização do conteúdo (BARBOSA, [2008]). Com as bases de dados, a dinâmica de
evolução tecnológica do jorna-lismo on-line chega a uma quarta geração, chamada por Barbosa
([2008]) de jornalismo de base de dados. Nesse etapa, os jornalistas começam a criar modelos de
narrativa mais autênticos e a explorar formatos jornalísticos nativos da web. Também temos a
emergência da produção em múltiplas plataformas, voltada para dispositivos móveis como
smartphones e tablets (BARBOSA, 2013). Ainda na quarta fase, as redações jornalísticas
sofreram um processo de
especialização de suas equipes. Jornalistas treinados em análise de dados e em
gerenciamento de sistemas de gestão de conteúdos complexos são um exemplo desse
aprimoramento tecnológico das redações. Além disso, a au-tomatização de processos também
chega às rotinas produtivas jornalísticas. Produtos criados e mantidos de forma automatizada são
uma realidade nesse novo cenário tecnológico. Por fim, chegamos à quinta geração do jornalismo
on-line. Para Barbosa
(2013), essa fase se caracteriza pela horizontalidade dos processos e fluxos de informações
entre plataformas e pela integração de processos e produtos num continuum multimídia. Os
smartphones e tablets são os agentes de inovação do jornalismo, e passam a reconfigurar a
produção, a publicação, a distri-buição e o consumo de conteúdo jornalístico. Uma das marcas
dessa fase é a produção de conteúdo e de formatos jornalísticos para consumo exclusivo nesses
dispositivos. Como podemos ver, a terceira, a quarta e a quinta gerações têm em comum as
narrativas inovadoras e a presença de bases de dados (Figura 1)

3 Os formatos do jornalismo on-line


O jornalismo on-line consolidou formatos e linguagens particulares, principal-mente a
partir da terceira geração. Segundo Salaverría e Cores (2005), esses formatos e gêneros são
indicadores da evolução do jornalismo on-line e do seu grau de amadurecimento, já que se
diferenciam dos gêneros tradicionais do jornalismo impresso. Não custa lembrar que essa
diferença entre os gêneros e linguagens das plataformas on-line e impressa nem sempre esteve
presente. Os gêneros do jornalismo on-line surgiram da transposição dos gêneros e formatos do
jornalismo impresso e sua diferenciação se deu aos poucos. Para entender que tipo de formato
jornalístico se desenvolve na web, preci-samos conhecer as características dessa plataforma.
Palácios (2002) nos ajuda a compreender, enumerando seis propriedades da web:
multimidialidade/convergência; interatividade; hipertextualidade
customização do conteúdo/personalização; memória; instantaneidade e atualização
contínua.
Como primeiro ponto, destaca-se a natureza multimídia do jornalismo
on-line. Isso é concebido como um produto de convergência de diversos formatos (imagem,
texto e som) das plataformas tradicionais (PALÁCIOS, 2002). Além disso, sua natureza
convergente dá indicativos de que o pro-duto jornalístico da web pode ser disponibilizado em
diversas plataformas e dispositivos (PALÁCIOS, 2002), o que se desenvolve particularmente a
partir da sua quarta geração. A interatividade remete à possibilidade do jornalismo dialogar com
o seu
leitor e também fazê-lo sentir-se parte da história. Palácios (2002) pontua duas formas de
configurar essa natureza interativa: ou por meio de recursos como a troca de e-mails, espaços para
comentários e fóruns de discussões que coloquem em contato jornalista e leitores, ou pela própria
navegação hipertextual da notícia, que possibilita ao leitor interagir com o seu conteúdo. Podemos
adicionar a esses tipos a interação do leitor com outros leitores por meio das mídias sociais. Como
terceira característica, temos a hipertextualidade, que consiste na
interconexão dos textos via links (PALÁCIOS, 2002). A partir de Canavihas e Bardoel e
Deuze, Palácios (2002) comenta que o texto noticioso ganha a possibilidade de dispersar-se na
rede e ser constituído por diversos blocos de informação, além de englobar/inserir conteúdos
complementares, como fotos, sons e vídeos.

SAIBA MAIS

A estrutura hipertextual da web modifica o modo de organização da notícia. Canavilhas


(2006) comenta que esse formato passa a seguir uma estruturação diferenciada da pirâmide
invertida típica do jornalismo, que se baseia na ordem do fato mais impor-tante para o menos
importante. Antes de hierarquizar os fatos, a narrativa da notícia é quebrada em diversos módulos
autônomos interconectados entre si. O usuário pode decidir seu próprio percurso como leitor.
Assim, a navegabilidade dinâmica entre os hipertextos da notícia cria diversas narrativas A
customização do conteúdo ou personalização remete ao fato da internet
possibilitar a produção de conteúdos direcionados a interesses individuais dos seus leitores
(PALÁCIOS, 2002). A memória, por outro lado, refere-se ao modo de acumulação de
informações na web. A tecnologia da plataforma permite que essa acumulação seja feita de forma
volumosa e barata (PALÁCIOS, 2002). Assim, a memória dos conteúdos jornalísticos também
vai afetar o modo de construção de seus formatos. Por sua vez, a instantaneidade remete ao fato
da informação na web estar
sendo atualizada constantemente. Palácios (2002) comenta que essa propriedade confere
ao leitor a possibilidade de acompanhar os assuntos jornalísticos à medida que eles vão se
desdobrando. Após esse resgate das propriedades da web que repercutem na conformação
de seus formatos, vejamos a seguir as características peculiares de alguns formatos do
jornalismo on-line.
A infografia multimídia
A infografia multimídia é um dos formatos mais inovadores do jornalismo on-line.
Segundo Salaverría e Cores (2005), ela aproveita de forma primorosa as possibilidades
hipertextuais e multimídia da internet, propondo formas inovadoras e dinâmicas de apresentação
da informação. Os mesmos pesqui-sadores classificam-na como um formato de gênero
interpretativo, já que tem uma função explicativa, além de informativa. Antes de mostrarmos
exemplos de infográficos multimídia, é interessante
lembrarmos porque consideramos a infografia um formato jornalístico propria-mente dito.
Teixeira (2007) lança luz sobre essa questão ao comentar que esse produto jornalístico tem uma
autonomia discursiva em relação a outros formatos. Isso quer dizer que a infografia precisa se
completar em si mesma em nível de informação. Ao ler uma infografia, o leitor encontra todas as
informações que precisa naquele produto, sem ter de recorrer a outros lugares. Nesse sentido,
Teixeira (2007) comenta que a forma narrativa da infografia “[...] cumpre função jornalística
semelhante à de uma notícia ou reportagem, por exemplo, a depender de sua complexidade”
(TEIXEIRA, 2007, documento on-line). A infografia multimídia tem como elemento essencial a
interatividade com
o público leitor. Assim, ele pode navegar por toda a estrutura hipertextual do infográfico
por meio de cliques. Por essa razão, Ribas (2006) classifica esse formato como um formato
dialógico do jornalismo on-line

Link
No link a seguir, você tem acesso ao projeto Discovery na Escola, que desenvolve
infografias interativas multimídia sobre temas científicos.
https://qrgo.page.link/uPgxN

A reportagem multimídia
A reportagem renovou-se no ambiente digital, adquirindo uma estrutura hiper-textual,
multimidiática e interativa (URETA, 2009). Ela é capaz de explorar de forma primordial as
potencialidades da web na sua composição. Para Ureta (2009), as funcionalidades da reportagem,
de ser um relato ampliado do acon-tecimento por meio da interpretação e da pesquisa
especializada (KUNSCH, 2000; LAGE, 2001b), são revigoradas no ambiente digital. A principal
característica desse formato é a de ser multimídia, ou seja, de
combinar dois ou mais tipos de linguagem em um mesmo produto (SALA-VERRÍA, 2014).
Essa combinação envolve uma integração harmônica entre os diferentes códigos, de modo que
formem uma unidade comunicativa. Essa referência à integração também é comentada por Longhi
(2010), para quem o multimídia tem em si o potencial de gerar um formato novo, superior à soma
dos elementos que o compõem. A estrutura hipertextual da internet possibilita uma expansão
desse for-mato jornalístico, por meio da inserção de gêneros, linguagens e também de outros
formatos da comunicação em rede na sua composição, como fóruns, jogos interativos, entre
outros. Por essa razão, Longhi (2010) vislumbra a reportagem multimídia como um gênero
expressivo do ciberjornalismo, cujas potencialidades criativas ainda estão em evolução. Partindo
de Longhi (2014), podemos observar que o desenvolvimento da reportagem multimídia se faz em
três momentos:
anos 2000 — aparecimento dos primeiros especiais multimídia, uso de linguagem HTML
básica e construção de reportagens estáticas;
de 2002 a 2011 — desenvolvimento de especiais multimídia mais ela-borados, baseados
no programa Flash;
2012 em diante — uso da tecnologia HTML5 e de bibliotecas específicas e consolidação
da reportagem multimídia como gênero do jornalismo on-line.
Longhi (2014) refere-se ao último momento como um ponto de virada dos
formatos noticiosos multimídia, caracterizados pelo uso de interfaces mais dinâmicas e de
estratégias narrativas imersivas. Um dos exemplos desse formato é a reportagem em 360°, que
permite ao leitor presenciar as cenas e situações narradas como se estivesse fisicamente presente

LINK
No link a seguir, você pode conferir o especial Baía 360°, série de videorreportagens feita
em realidade virtual pela Agência Pública. A série leva o usuário a explorar a Baía da Guanabara,
sua natureza exuberante e a história de seus pescadores locais.
https://qrgo.page.link/aX5D

A reportagem longform
O jornalismo longform vem ganhando popularidade nos últimos anos como formato do
jornalismo on-line. Trata-se de uma narrativa estendida, cuja navegação é verticalizada, feita por
meio da barra de rolagem ou scrolling (LONGHI, 2014). Segundo Longhi (2014), esse modelo
aposta em uma narrativa imersiva e personalizada e usa fotografias estendidas, espaços em branco
e textos longos. Além disso, tem design responsivo, ou seja, seu desenho se adapta à tela de vários
suportes. O formato de reportagem longform contraria a fragmentação textual típica
dos produtos jornalísticos da internet ao apostar em uma narrativa mais consis-tente e
densa. Além da estrutura vertical, existe também a possibilidade de se adotar dimensões
horizontais para a narrativa, desenvolvendo-a em capítulos ou seções (LONGHI; WINQUES,
2015). Segundo comentam Longhi e Winques (2015), a publicação da reportagem
“Snow Fall”, pelo jornal The New York Times, em 2012, consolidou o formato de
reportagem multimídia longform. O texto da matéria descreve uma avalanche de neve ocorrida
em Washington em 2012. Em seis capítulos, essa narrativa
reconstituiu a tragédia com uso de gráficos interativos, vídeos, textos com biografias das
pessoas envolvidas e áudios. O sucesso da reportagem, que teve 2,9 milhões de visitas e 3,5
milhões de visualizações nos seis primeiros dias de publicação (AMADO, 2013 apud LONGHI;
WINQUES, 2015), mostra que o formato tem espaço e aceitação do público da internet. Jornais
como o próprio The New York Times e o The Guardian exploram o longform também em artigos
diários (LONGHI; WINQUES, 2015).
Os jogos e quizzes interativos
Outro formato de jornalismo on-line que começa a ser explorado pelos veículos digitais são
os jogos e quizzes interativos. Segundo a classificação de Salaverría e Cores (2015), eles podem
ser considerados gêneros dialógicos da internet, pois se baseiam na característica de interação
com o usuário para existir. O Nexo Jornal faz uso desse formato na seção chamada “Interativo”.
Uma série de perguntas sobre acontecimentos jornalísticos são propostas ao leitor para testar o
quanto ele se informou sobre a semana que passou. No jornalismo on-line, vários gêneros e
formatos jornalísticos tradicionais
podem fazer parte de uma mesma cobertura dos fatos. Uma nota pode ser dada assim que
ocorre o acontecimento, via aplicativos de notícias, por exemplo, e depois ser desenvolvida por
notícias no portal. A mesma notícia pode levar o leitor até artigos de opinião e editoriais sobre o
fato, por meio de links. Essa organização da informação em camadas é possibilitada pela
propriedade de memória existente no jornalismo on-line.

AUDIOVISUAL não pode ter um olhar apenas técnico, a necessidade do jornalista é


diferente do profissional que vai trabalhar quase totalmente com a produção
INDÚSTRIA CRIATIVA – Inserção do termo COMUNICAÇÃO

MARCA TERRITÓRIO em produção digital, mídias sociais e audiovisual

JORNALISMO DE DADOS

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