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LIRA EM TRANSE

LIRA EM TRANSE

JHONATAN ZATI
2018
LIRA EM TRANSE

Copyright © 2018 by Jhonatan Zati

Título Original:

Lira em Transe

Edição: 2ª, revista e ampliada

Capa: Victor Silva Junior, adaptada

EDITORA-CHEFE: ANA CLARA TISSOT

LIRA EM TRANSE / ZATI, Jhonatan, 1995–

55 Páginas.

1. Poesia brasileira. I. Título.


2. ILUSTRAÇÃO DE CAPA: Ana Clara Tissot

2ª Edição, 2019. Impresso no Brasil.

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada ou
reproduzida sem a permissão do detentor do copyright.
LIRA EM TRANSE

Para mim mesmo


um beijo em minha família,
meus amigos
e em você

Ana Clara, minha editora-chefe e grande amiga: YOU ROCK!

Fábio, muito obrigado pela parceria e inspiração. ALEA JACTA EST.


LIRA EM TRANSE

O TRANSE E A LIRA
Em uma das mais belas páginas da poesia lírica de todos os tempos, Horácio -
que já era, nesse ponto, um cinquentão calvo - levanta uma prece à deusa Vênus,
pedindo que ela não o arrolasse mais uma vez em sua milícia, ele que já estava há muito
reformado. Seu pedido se baseia no mérito angariado por seus longos embates amorosos
do passado, na existência de jovens mais capazes que ele, mas, principalmente, na
avançada idade do poeta, que já não teria mais a beleza e o vigor necessários ao amor.
E, no entanto, a mera menção às suas desesperanças de velho acendem o seu corpo, que
emite volumosas lágrimas e lhe embarga a voz: o poeta se percebe incapaz de manter a
indiferença ao pensar em seus encontros com um belo rapazinho que, nunca saberemos,
habita seus sonhos, sua memória ou suas pretensões.

O poeta latino era dos que sabia que a vida é uma força incontrolável que brota,
indiferente, mesmo da matéria mais inóspita a ela, como as lágrimas em seus olhos senis,
ou como a flor que fura o asfalto de nosso Drummond. E a forma mais depurada que a
vida toma é o amor - o mais belo dos deuses, como dizia Hesíodo - força que frauda a
tediosa segurança dos domingos e das segundas, jorrando novas e inusitadas coisas vivas
e memoráveis. E que, como tais, dão vida ao poema.

A gente medíocre, domada, uniformizada, tem pavor das coisas vivas, da


subversidade do amor, com sua entrega e suas dores, com sua perturbação das coisas que
precisam ser feitas e com a perda de controle de si mesmo. E por isso, reprime esses
ímpetos como impróprios dos adultos, como concessão tolerável apenas nessa categoria
toda preciosa de marginalidade que é a juventude. Há, no entanto, os que se rebelam.
LIRA EM TRANSE

Zati é uma dessas pessoas que decidiram viver impetuosamente. Que reconheceu
o inexorável fluxo vital que sai de dentro de si e se identifica com as vidas de fora, que
luta como devem os poetas para aprender a senti-lo e desfrutá-lo. E que divide sua luta
com os outros por meio dessas novas formas de vida que são os poemas. Seus versos -
breves e delicados - comunicam a beleza pequena e grandiosa do viver, mais belos e
efetivos ainda porque se entrelaçam harmoniosamente com as outras belezas de que o
poeta se nutre, beleza geográfica de estradas, flores, frutos, beleza simples do cancioneiro
popular aprendido no velho radinho, beleza sofisticada de quem já bebeu das antigas
musas e das ideias sobre ideias de Platão.

E inclusive a beleza daquele momento em que o poeta reconhece, de


novo com Drummond, que o ódio é o melhor de si, pois também isso
nos empurra pra frente em dias sombrios. Leia com cuidado a Lira em
Transe de Jhonatan Zati. Ou não, melhor: leia impetuosamente.

Fábio Cairolli é professor da Língua e Literatura Latinas na Universidade Federal Fluminense (UFF). Já
publicou Amores (2005, Ed. Verbo Ad Verbum), Sátiras (Scortecci Editora, 2011) e a tradução do Livro
dos Espetáculos de Marcial (Assimetria, 2018).
LIRA EM TRANSE

PRELÚDIO AO ATO PRIMEIRO


POR QUE A POESIA?
Você que lê este autor pretensioso e desconhecido pode estar a se perguntar. Por
que a poesia? Confesso que não lhe saberia responder. Por certo o amor pela arte me
captou muito cedo. Em criança, me enamorei das palavras. Para mim, não há nada mais
bonito que as palavras. As palavras em Cecília Meireles, em Camões, em Baudelaire e
em Leminski.

De modo que como existem as estações do ano, também há espaço no mundo


para a estação das palavras.

Existem estações do ano dentro de nós. A poesia é uma expressão artística e, como
tal, encapsula um determinado acontecimento na história das nossas vidas. Como uma
fotografia, uma filmagem ou uma pintura. Pelos olhos dos artistas, se transformam no
mais honesto retrato do que aqueles olhos puderam ver. Logo, cada menina-dos-olhos
pode encasular de maneira diferente o que testemunha.

O amor como citado por Stendhal é um check-up completo. Com todos os tipos
de diagnóstico. Observar o homem e como ele reage às situações de vulnerabilidade é
mostrá-lo nu em pelo. Em alguns casos, literalmente. Mas assim como existem estágios
para o nascimento e maturação amorosos, existe a morte, que me parece o estágio final
e demonstra ser inerente à grande maioria de nós.

O amor romântico pode até ser encarado como aquela invenção burguesa que
revolucionou o mundo. Para o bem e para o mal. Mas todos nós já presenciamos, na
vida, uma história de amor, seja na primeira ou na terceira pessoa. Nós vemos histórias
de amor em Hollywood e no sertão. Desilusões, principalmente.

Muitas vezes, entretanto, já ouvi que o autor com talento e “maduro” não escreve,
LIRA EM TRANSE

pinta, fotografa ou harmoniza sobre o amor. Que o amor é uma expectativa provinciana
dos que ainda não aprenderam a encarar a vida com a seriedade que ela requer.

Me faço a seguinte pergunta: amadurecer seria, então, deixar de encarar a vida


impetuosamente?

Impetuosamente.

Quando adultas as pessoas se envergonham dos seus ímpetos. Encontram no


máximo uma posição confortável no colchão em que estão prostradas na tarde de
domingo e qualquer outro movimento arriscado seria como ouvir o doloroso “boa noite”
do programa de televisão que vem depois. A anunciação da tortuosa segunda-feira.
Dimanches não são bons, são vazios, já dizia Piaf.

Por outro lado, costuma-se usar o amor como substituição. Substituição. Ou


melhor, preenchimento. Freud seguramente conseguiria desenrolar melhor. Talvez seja
o preenchimento de algo que o eu-lírico não teve nas primeiras infâncias. Talvez sejam
inquietudes que o eu-lírico não pôde sublimar sem fazer terapia (se não fez). Porque,
cada um a seu modo, é vazio como o domingo piafesco. E todo mundo deveria fazer
terapia. Todo mundo parece precisar de terapia.

Não se engane: este prelúdio é todo sobre mim mesmo. Mas é sobre um eu que
pode ser que já não exista.

Todos os dias a gente morre um pouquinho. Mas não se preocupe: esse é o preço
de se estar vivo. Um dia a mais é de fato um dia a menos. Mas por isso vale a máxima de
dar um pouco de si àqueles que cruzam nosso caminho. Também por isso é interessante
a paixonite adolescente. Eles e o modo como vivem me fazem voltar a uma palavra que
transformei aqui em um aforismo. Impetuosamente.

Demorei a compreender que estava usando uma paixonite como espuma para
preencher meus domingos. Ter saído recentemente da adolescência e a ela retornar foi
patético, mas foi necessário. O que me derramava lágrimas não foi de fato o que eu
achava que sentia, mas a minha incapacidade de sublimação.

Tal incapacidade poderia ter me levado a níveis extremos.

Busque ajuda se encontrar qualquer sinal de dificuldade de superação.

De certo modo, Lira em Transe é o resultado do meu processo catártico.


LIRA EM TRANSE

Uma respiração de ioga depois de tanto ruído em mim. Portanto, obviamente, a


minha lira cantará cantos predominantemente românticos. Não somente, mas
principalmente.

E permita-se viver impetuosamente a cada vez que o Cupido flechar.

De preferência se cada par juntar os seus domingos.


LIRA EM TRANSE

HAICAI
na brincadeira
vejo a goiabeira
coisa d'infante
LIRA EM TRANSE

degredado era
naquela tarde de quinta-feira
acompanhado da certeza
de que nada mais persevera

pingos de chuva pareciam provocar


a natureza nada lógica do tempo
como cantasse o badalo do sino
a escancarar a leniência do lamento

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LIRA EM TRANSE

me acompanhavam palavras tristes


presas em minhas entranhas
que serviam como testemunha
de que o amor não existe

a tua figura era idílica


posta no olimpo
mas feito mágica
amanheço em vigor

nasce o sol dourado


faz de mim a tua morada
pois, cara gaia, te farei flor
e urano a alvorada

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LIRA EM TRANSE

DE RIOBALDO PARA DIADORIM


a insígnia da minha existência
chove pedra na caatinga
triturasse eu
a vida inimiga

bicho-homem é experimental
vive para o bem e faz o mal
se o diabo vive no homem
viver é de fato muito perigoso

eu mesmo vivia em insciência


até que descobri o que me movia
o nome dela é Poesia
e brotou dentro de mim

foi tu que fizeste isso diz que sim


porque assim eu posso
dizer que é de ti que eu gosto
como, não sei, só sei que é assim

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LIRA EM TRANSE

bordados os meus segredos


em fino fio de seda
em folhas de laranjeira
sobre jovens frutos em pedra

não me esqueço daquele dia


em que cantava o canto do fingidor
que de tanto amar se perdia
e fazia de si seu escarnecedor

as ruas, longos campos de ipê


pelos quais anuviava
aquele que se torturava pelo que vê

o coração, porém, desconhece geografias


não sabe que gostar é coisa melindrosa
carece de silêncio tibetano e botão de rosa

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LIRA EM TRANSE

mise en scène
a capacidade do sorriso
pernóstico
sardônico
do homem que não mais quer delongar
o aviso iminente
da tardança do beijo

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LIRA EM TRANSE

a vida parece aquela música


que toca no rádio
a pilhas
que eu tinha

ela começava assim, vou me lembrar


que bonito é
e terminava assim, a falar
um filme triste que me fez chorar

por que será assim


um cubo mágico
não consigo combinar
em nome daquele amor diante de mim

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LIRA EM TRANSE

o sabor do lábio teu


quando dado em estada
assemelha-se ao sabor da fruta mordida
da fruta saboreada

o poema nem de longe


é homem de saber falar
o prazer que nele esconde
de como criança
brincar

amigo, amado, amigo


coloquei em riste o teu nome
em meu pensamento
se por acaso tua figura some
permanece o encantamento

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LIRA EM TRANSE

REFLEXO DA REFLEXÃO
10/5/15

olho no espelho
não me vejo como eles
estou sobre rodas, eles não

eles sorriem, eu sorrio


eles amam, mas eu não

embora eu só esteja nessa vida brincando de patinete


eles me veem diferente
olho no espelho
penso em isso mudar
talvez sobre os pés meu sorriso valha mais

eu só queria, no fundo, dar carona pro amor


mas eu olho no espelho
e só fica a reflexão

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LIRA EM TRANSE

no inverno
existem aquelas árvores
que se parecem com um homem velho
ranzinza

de pescoço enrugado
cabelo esbranquiçado
voz falhada
desengonçado

esse velho eu já vi
morava perto da minha vó
criança no portão? sai daqui
amargura e jiló

mas nas férias a Margarida


a filha da prima Vera
a netinha querida
amansava a fera

já na hora da partida
chorava ao lembrar da Lamparina
da aurora perdida
já que a Morte o espera

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LIRA EM TRANSE

escrevi aquela mensagem


aguardando a viagem
agoniado pelo comboio de corda
que se atava em minha engrenagem

todo poeta
um dia fez rimas ruins
mas eu digo com certeza
esses cachinhos são o girassol do meu jardim

se deixardes um deles em meu paletó


te garanto, Camille
sinto que serei menos só

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LIRA EM TRANSE

METALINGUÍSTICA DO POETA
a minha poesia é minha morada
a minha poesia veio de uma estrada
tortuosa e cheia de névoa

a minha poesia é minha vestimenta


é a verdade que me alimenta
saborosa e agridoce
chocolate com pimenta

se um poeta médico fosse


faria bálsamo com carinho
aos enfermos de desamores

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LIRA EM TRANSE

CLAIR DE LUNE
uma música em três notas
fazem a melodia
da canção de ninar
me atira pelas costas

a pentatônica
é a escala do bardo
que assiste a Scarface
pensando em Marilyn Monroe

o que teria ela feito


se tivesse sido ouvida?
veja bem o que fizemos
a sociedade do espetáculo

e Suspiria

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LIRA EM TRANSE

EU-LÍRICO
orgasmos
quando se está próximo
de quem se ama

são como pequenos blecautes


causados pela total entrega
dos homens que estão amando
partindo a estibordo

bombordo com bombordo

e é assim que eu quero viver


com você, meu amor
a cada noite chuvosa
voltar a morrer

diga-me que me ama


para que eu possa sempre
escrever

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LIRA EM TRANSE

acham que o rebelde sem causa


é o pivete
que algazarra a rodovia
na motoca emprestada

mas na verdade
o rebelde verdadeiro
você não sabe

é a criança
que já saiu dos cueiros
e faz xixi pela sala

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LIRA EM TRANSE

se você soubesse que é minha Musa


cantaria em meu ouvido?
não sou um aedo moderno
e o mundo das ideias me acusa

se a sua vida é fato consumado


sacramentado, eu te digo
não até dez ou dois, mas
conta comigo

se a sua vida é concreta


e eu muito, muito que te quero
já não preciso mais do abstrato você
define o que é belo
(e eu defino o que é bom)

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LIRA EM TRANSE

DESCONJUNÇÃO
se a parábola é
um desvio do caminho
o poeta é o único homem
detentor da Verdade

uma vez li um poeta


que diz o que eu penso
“o estilo é o próprio homem”
e eu sou o caos ordenado

as pessoas não são pedras


perdidas ou paradas
transfiguram em contravenção

elas são como as palavras


vão emergindo, mudando, mergulhando em sentidos
munição

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LIRA EM TRANSE

você é grande, uma muralha


e eu me afogo em pequenez
eu jogo com as palavras pra dizer
vou despir-me de altivez

deixe-me pegar a sua mão


como cantou o grupo inglês
não é mais um sonho
e me tomo em intrepidez

o cheiro é de cravo e a cor de canela


murmuro “moço bonito”
e você sorri, como quem diz
não há mais razão para estar perdido

eu encontrei o amor
LIRA EM TRANSE

GARGANTILHA DE PRATA
quando se ama
se vê a vida
como nunca dantes

homem apaixonado
é bicho tão desesperado
que o rosto do amante
faz ser comparado

à gota d’água
na folha
do inhame

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LIRA EM TRANSE

ADMIRADOR SECRETO
uma rosa, com amor
dizia o bilhete
que acompanhava
inesperado presente

a moça
toda espevitada
sentiu-se tão amada
que desmaiou

mal sabia a azarada


que era mercadoria extraviada
da mala de viagem
do Alain Delon

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LIRA EM TRANSE

à luz da acabrunhada obsequiosa lua


que nos fazia companhia
deixei enfim decídua

menina que a cada baga


brotava fruto novo banhado
ao orvalho da tez penetrada

do teu vinho eu fiz


meu sangue flautear
ameigado em teu cheiro cheio de mar

de tais palavras foste o mecenas


solene deificado
de lábios ligeiros e desdenhosos
banhei-me em ti as lavras assentadas

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LIRA EM TRANSE

CANTO AO DISFORME
(ODE IRREGULAR)
ó, deuses, concedam-me a paz
pernas disformes e sem valor
ecoam as lamúrias do deus do fogo
a quem canto hoje as noites da vigília
que nunca cessou

ó, deuses, concedam-me a paz


ouçam o canto da cólera que me faz versar
sacro Hefasto, desertado e sem amor
sangra a memória do trabalhador minucioso
aquele abandonado
– em constante anseio
pelo fim da autocomiseração

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LIRA EM TRANSE

há algo de podre no reino da Dinamarca


por sangue e corpo meus
coberto pela noite inundada
Iago grita em meu ouvido o que mata

Desdêmona, maldita seja


garbosa figura de fria viga
carrega em seus braços as carcaças malfazejas
enlouqueceu o pobre homem com a serpente inimiga

a verdade desmorona
envenenado por tudo aquilo que se paga
o sangue jorra na minha própria cilada

Desdêmona, pesa sobre mim a tua espada


talvez seja Cássio minha amiga mais amada
o que é sabido é sabido e que assim se faça

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LIRA EM TRANSE

I
certo estava Bilac
primoroso é o trabalho de versar
linhas e linhas em branco
nada a me inspirar

o sentir é demais incerto


para a palavra definir
assim, recorro à musa
que o poema faz emergir

no disco, o blues
a solidão é companhia
seja bem-vinda, cara amiga
profícua seja – enquanto dures

canta, musa
dizei-lo que a poesia é nascida
São Valentim, São Valentim
ainda que vindo da escusa

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LIRA EM TRANSE

as veias saltadas são os caminhos


o vidro fragmentou o que restava
o homem com a garganta fechada
a boca em fantasia esmagada

os olhos já fixam um ponto no vazio


no frio no cetim
há de vir um sopro de vida
e tirar-me de dentro de mim

me acompanham minhas pernas


meu peito quebrantado e uma face que não reconheci
se existe vida e morte, há algo mais

nem choro nem grito


só penso no reflexo do rio
que mostra a viagem até Ofélia e Narciso

33
LIRA EM TRANSE

CHUVISCO
a terça-feira de repente virou um retrato em preto-e-branco
o céu parecia coberto por fuligem
e a terra abateu-se em pó

o dia todo se acinzentou


a cada gota da chuva que caía
a rosa transfigurava-se num nó

nunca vi nada assim


a flor em guarda baixa

era como se ela chorasse


no lugar de sorrir

34
LIRA EM TRANSE

PROMETEU ACORRENTADO
ou DA MENTE ANSIOSA
o convite dizia que
lhe daria a mente e
pelas pernas me guiaria
grande infortúnio a que fui submetido

preso em mente
condenado ao que seria
mas que jamais foi

a flecha acertou-me em cheio


a águia
o fruto do amor proibido

estou livre das correntes


mas sem terra para voar
de que adianta?
desejava eu já ter descansado

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LIRA EM TRANSE

15/11/16
Disseram-me que era necessário que seguisse com a vida.
Que as coisas melhorariam com o tempo e que a maturidade se baseava em não deixar-
se afetar.
Essas são questões que entram em minha mente durante a noite e saem com o raiar do
sol, como uma espécie de droga indesejável e nociva que me faz companhia toda
madrugada.
E que exige que eu esteja consciente e acordado.

São tantas as palavras guardadas que só se expressam quando incorporadas...


A contradição é que, se elas saírem, não serei mais eu; se ficarem, continuarão a me
matar amiúde.

O que quero dizer é: será que eu devo mesmo seguir com a minha vida? Esquecer as
memórias que me fazem sangrar?

Na verdade, acredito que eu já tenha seguido. Segui e deixei que minhas entranhas
ficassem empoeiradas.

E assim sigo inflamado.


Inflamado como a ferida que não fecha.

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LIRA EM TRANSE

II
as gardênias brancas que comprei
as que enfeitam o seu olhar
ao lado da gargantilha de prata
que ainda não lhe dei

se tudo não passar de quimera,


fique atento ao som da seresta
pois Suave é a noite
e o amor tudo pode e tudo espera

37
LIRA EM TRANSE

ELIZABETH BISHOP
Será que todas as coisas precisam mesmo de um fim?
Por que é que, nessa vida, tudo que conquisto tem prazo de validade?
Tenho que me acostumar a perder.
Sou um exímio perdedor.
Perdi minhas esperanças no momento em que te conheci.
Achei que as tivesse ganhado, mas foi o oposto.
Comecei a aprender a perder ainda na meninice, quando recebi um aviso que me
persegue como praga.

Devo aprender a tragar aquilo que é intragável sempre que vejo nos outros os nossos
rostos.

Imergir em Ana Cristina César tem sido minha morfina espiritual. Com ela, aprendo
as pequenezas de um existir quase filosófico. Em uma condição sine qua non, faço
emergir à superfície e me deparo com o que me era temeroso: encontrar-me comigo
mesmo. Em todas as minhas mazelas, tendo abandonado o sagrado e buscado
unguento no profano.

Gostaria, estranhamente, de não ter me encontrado e voltado a me perder. Me perder


em outra vida, me prender em outras gaiolas e paredes das emoções. Me perder no
efêmero, me prender em Pasárgada ou qualquer outra viela.

O mais difícil eu já perdi, afinal...

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LIRA EM TRANSE

INVENTÁRIO DE UM APAIXONADO SUCUMBIDO


3/7/17
minhas córneas deixo a você, caro receptor e parceiro de crime
me entregar com fervura às noites de paixão, jazz e segredo
esculpido no trabalho deste humilde artesão

minha boca eu deixo aos lábios que tateou


foram muitos, talvez, mas poucos o suficiente para ter sentido o dessabor da desilusão
meus braços, aos ombros de Eros que me cantava ao pé d’ouvido
que vá para o Diabo que o carregue!

meus pulmões vão para o violeiro


que me acompanhou nas desafinadas serenatas
que povoavam meu pensamento
– você sempre odiou a minha música

e o coração é todo dele.


a essa altura, está pútrido e pulsa devagar
mas ele ainda o pertence.
não, não é preciso que agradeçam pelo que lhes deixei,
afinal, não é disso – doar-se – que se trata o amor?

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LIRA EM TRANSE

falaram no jornal que o mundo ia se acabar


a parentada toda afoita
começou a gritar
se tudo vai ter um fim
vai vir pela terra
ou vai sair do mar?

era o sinal que faltava


para a anunciação
apareceu anjo, padre, cardeal
foi o maior furdunço
escutava todo sinal

com o céu rindo da nossa cara


ouviu-se do alto uma voz plácida
que dizia pra gente se acalmar
vai-te embora que
é só pra quem morre que a vida para

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LIRA EM TRANSE

HAICAI A FERNÃO CAPELO GAIVOTA


liberdade, que faz
o ninho do pássaro
caminhar pela areia

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LIRA EM TRANSE

e desde então
fumo um charuto fedido aos fins de semana

como quem bafora na cara da morte


você não me apavora

mas o que eu quero mesmo


é embaçar as vistas

que não tiram você


do caminho

42
LIRA EM TRANSE

agora acho que finalmente encontrei a paz


passei pela estrada amarela
fui covarde, fui medroso e frio
coisas que um homem amalucado faz

essas coisas ninguém te diz


que a vida é esse parque
que tem o chafariz
cheio de lama

o banho é sagrado
é batizado
para aquele que ousa
atravessar
o vale encantado

fuja da lei
beba bastante água
não fume e não guarde mágoa
essa é a grande revolução
que o sistema abomina
fuja da lei
carnificina

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LIRA EM TRANSE

muito lhe amei, Romeu


mas pouco lhe tive
quisera eu ter sido
parcialmente
teu

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LIRA EM TRANSE

HAICAI PÓS-MODERNO
dentes-de-leão
pela primavera em mim
jogo de montar

45
LIRA EM TRANSE

UM BILHETE PARA DRUMMOND


seu Drummond
eu peguei a pedra
coloquei no sapato
veio a bonança
e dela fiz limonada
e a flor enfim furou o asfalto

e agora, José?

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LIRA EM TRANSE

joie de vivre
lançar em alto-mar
a garrafa
com esse poema
e até o leitor
ele voar

a sucessão de sucessos sem cessar


é fruto independente

se cada leitor
a que ele chegar
no fim da vida um sorriso pintar
ele terá feito seu destino
até a terra prometida
aliança no altar

47
LIRA EM TRANSE

HAICAI A ÍCARO
a borboleta
alça galante voo
pra dentro de si

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