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Artigo publicado originalmente em:

BRAGA, Roberto; CARVALHO, Pompeu F. C. Recursos hídricos e


planejamento urbano e regional. Rio Claro: Laboratório de Planejamento
Municipal-IGCE-UNESP. 2003. p. 113-127 - ISBN 85-89154-04-01

Planejamento urbano e recursos hídricos

Roberto Braga1

Introdução

As cidades são, certamente, as construções humanas de maior


impacto na superfície terrestre. O uso urbano não industrial, embora
responda apenas por cerca de um terço da demanda, contribui com mais da
metade das cargas poluidoras (tomando-se o indicador tDBO/dia) dos
mananciais 2 . Além disso, o avanço da urbanização sobre o meio natural, de
maneira desordenada, tem causado a degradação progressiva das áreas de
mananciais remanescentes, com a implantação de loteamentos irregulares e
a instalação de usos e índices de ocupação incompatíveis com a capacidade
de suporte do meio. O parcelamento indiscriminado do solo nas periferias
urbanas é uma das principais fontes de problemas ambientais das cidades.
De todas as indústrias urbanas poluentes, a “indústria do lote” talvez seja a
mais perniciosa de todas, pois, além de ser de fácil disseminação, a demanda
por seu produto é virtualmente inesgotável e seus efeitos são dificilmente
reversíveis.
A perspectiva de que a água é um recurso finito e ameaçado, ao
qual estão ligados aspectos fundamentais da habitabilidade dos centros
urbanos, coloca a questão dos recursos hídricos no centro do debate atual
sobre a qualidade de vida urbana.

1
Professor do Departamento de Planejamento Territorial e Geoprocessamento da
UNESP/Campus de Rio Claro – e-mail: rbraga@rc.unesp.br
2
Conforme estudos efetuados nas bacias hidrográficas dos rios Piracicaba/Capivari e
Jundiaí no estado de São Paulo.
113
Isso caracteriza tanto a necessidade de que a bacia hidrográfica
seja um referencial fundamental à gestão urbana como de que a ordenação
do processo do uso e ocupação do solo urbano deve configurar-se como
questão prioritária numa política de gestão de recursos hídricos.

A água e os problemas ambientais urbanos


No limiar do século XXI, a questão urbana confunde-se com a
questão ambiental. No mundo, estima-se que metade da população viva em
aglomerados urbanos, num processo de incremento contínuo, no qual já são
contabilizadas 17 megacidades (com mais de 10 milhões de habitantes). No
Brasil, a taxa de urbanização chegou a 81% em 2000, com 34% da
população - 55 milhões de pessoas - vivendo em áreas metropolitanas ( em
1991 eram apenas 29,9%).
As características da urbanização brasileira fazem com que esse
processo seja, não só, um fator gerador de problemas ambientais, mas, um
problema ambiental em si. A urbanização modifica todos os elementos da
paisagem: o solo, a geomorfologia, a vegetação, a fauna, a hidrografia, o ar
e, até mesmo, o clima. Desse modo, a urbanização cria, não só novas
paisagens, mas novos ecossistemas 3 . O quadro 1 apresenta uma visão
sinóptica dos principais impactos ambientais do processo de urbanização.
Segundo Drew (1986), o ciclo hidrológico pode ser descrito como
um sistema de armazenagens (água subterrânea, lagos) ligadas por
transferências (rios), onde ocorrem saídas laterais que permitem o escape
de vapor para a atmosfera (evapotranspiração). A figura 1 apresenta um
fluxograma simplificado desse ciclo (em uma bacia média de uso agrícola),
mostrando as proporções da contribuição de armazenagem da superfície,
do solo e do subsolo, bem como dos vários mecanismos de transferência
(evaporação, transpiração, escoamento e descarga subterrânea). Temos,
então, um sistema que apresenta relativa fragilidade, pois pequenas
intervenções podem causar grandes alterações em seu funcionamento.
O processo de urbanização e as alterações decorrentes do uso do
solo, como a retirada da vegetação (que desprotege os corpos d’água e
diminui a evapotranspiração e a infiltração da água) e a impermeabilização

3
Odum (1986,45) considera que a cidade é um ecossistema incompleto ou heterotrófico,
isto é, dependente de grandes áreas externas a ele para obtenção de energia, alimentos,
água e outros materiais, diferindo dos sistemas heterotróficos naturais por seu maior
metabolismo, maior necessidade de entrada de materiais e maior fluxo de saída de
resíduos.
114
Quadro 1 – Principais impactos ambientais da urbanização

Elementos do meio Principais Efeitos/Processos


Solo Impermeabiliza ª o,
Contamina ª o
Erosª o
Relevo Movimentos de massa
SubsidŒncia
Hidrografia Desregula ª o do ciclo hidrol gico
Enchentes
Polui ª o de mananciais
Contamina ª o de aq feros
Ar Polui ª o (principais poluentes: SO2, CO, Material
particulado )
Clima Efeito estufa
Ilhas de calor
Desumidifica ª o
Vegeta ª o Desmatamento
Redu ª o da diversidade
Plantio de espØcies inadequadas
Fauna Redu ª o da diversidade
Prolifera ª o de fauna urbana
Zoonoses
Homem Estresse
Doen as urbanas (infecciosas, degenerativas,
mentais)
ViolŒncia urbana
Elaboração: Roberto Braga

do solo (que impede a infiltração das águas pluviais), causam um dos


impactos humanos mais significativos no ciclo hidrológico, principalmente
sobre os processos de infiltração, armazenagem nos corpos d’água e fluxo
fluvial. A figura 2 mostra as principais alterações no ciclo hidrológico causadas
pela urbanização: uma drástica diminuição na capacidade de armazenagem do
solo e do subsolo causada pela perda da capacidade do solo em absorver as
águas pluviais, associada ao aumento do escoamento superficial, e o conseqüente
aumento da intensidade do fluxo fluvial, bem como da diminuição da saída por
evapotranspiração. Os resultados notáveis desse desequilíbrio na drenagem
são as enchentes urbanas, que acometem sazonalmente as grandes cidades.
Isso demonstra a relativa fragilidade do sistema hidrológico urbano, no qual
pequenas mudanças podem acarretar grandes alterações em seu funcionamento,
com grandes impactos na qualidade de vida.

115
E vapotranspira ª o P recipita ª o
(sa da) (entrada)

Ev apora ª o Esc oam ento

fluxo fluvial
infiltra ª o

E scoam ento

Transpira ª o
percola ª o

D escarga
subterr nea
fluxo fluvial

Legenda

A rmazenagem
A rmazenagem
TransferŒncia lacustre

Fo nte: DR E W , D avid . P ro ce ssos In terativo s h om em -


m eio am bie nte. Sª o P a ulo: DIFE L, 19 86 .

Figura 1: Fluxograma simplificado do fluxo terrestre do ciclo hidrológico

116
Evapotranspira ª o Precipita ª o
(sa da) (entrada)

Ev apora ª o Esc oam ento

fluxo fluvial
infiltra ª o

E scoam ento

Transpira ª o
percola ª o

D escarga
subterr nea
fluxo fluvial

Legenda

A rmazenagem
A rmazenagem
TransferŒncia lacustre

Fo nte: DR E W , Da v id. P rocess os In te rativos hom em -


m eio am bie nte. Sª o P a ulo: DIFE L, 19 86 .

Figura 2 – Alterações no ciclo hidrológico após urbanização intensiva na área


da bacia

117
Além dos problemas diretamente ligados ao sistema hidrológico
(desregulação do ciclo hidrológico, enchentes, poluição de mananciais, e
contaminação de aqüíferos) os demais problemas ambientais urbanos também
estão ligados, direta ou indiretamente, ao problema das águas urbanas.
Os problemas da urbanização ligados à ocupação do relevo, como os
movimentos de massa nas encostas (rastejos, escorregamentos, quedas,
tombamentos, corridas de massa) têm como principal agente desencadeador
a água, seja pela elevação do grau de saturação do solo, pelo aumento de seu
peso específico, ou mesmo pela ruptura de taludes por pressão hidrostática em
trincas e fissuras (CUNHA, 1991).
O clima urbano é fortemente afetado pelo ciclo hidrológico. A
impermeabilização, a diminuição de áreas verdes e a poluição atmosférica nas
cidades causam o fenômeno das ilhas de calor, que está associado ao aumento
da pluviosidade urbana no verão, contribuindo, num círculo vicioso, para o
acirramento do problema das enchentes. Vale mencionar outro problema climático
urbano que é a desumidificação, causada, sobretudo, pela diminuição da
evapotranspiração com a eliminação da vegetação.
Nos impactos sofridos pelo homem, os mais diretamente ligados à água
são as chamadas doenças urbanas. Desde a antiguidade, as cidades enfrentam
epidemias diretamente ligadas à falta de saneamento. Um exemplo recorrente
são as epidemias de cólera – doença infecciosa intestinal aguda causada pelo
Vibrio Colerae que está associada à contaminação por esgotos sanitários sem
tratamento – que dizimaram populações de muitos países na Europa do século
XIX e ainda continuam sendo um flagelo nas cidades do terceiro mundo3 .
Outras doenças infecciosas associadas à água na cidade são a
leptospirose e a dengue. A leptospirose é uma zoonose transmitida ao homem
por uma bactéria presente na urina de certos animais, especialmente o rato, cujo
meio principal de propagação são as enchentes urbanas, que carreiam esses
detritos e os colocam em contato humano4 . A dengue, bastante notória
ultimamente, é uma doença tipicamente urbana transmitida pela picada de
mosquitos do gênero Aedes cujos principais criadouros são as águas paradas,
devidas, principalmente à falta de saneamento domiciliar5 .

3
A última pandemia de cólera, iniciada na Indonésia em 1961, atingiu o Brasil em
1991. Até 2001, já haviam sido confirmados quase 170 mil casos no país,
principalmente na região nordeste, a mais pobre. Atualmente a doença está sob controle.
4
Em 2000, segundo dados da Fundação Nacional de Saúde, foram notificados 4128
casos de leptospirose, dos quais 26% na região Sudeste, a mais urbanizada.
5
No Brasil a principal região atingida pela dengue é a sudeste, principalmente o
estado do Rio de Janeiro, onde, até o ano de 2001, já haviam sido registrados mais de
370 mil casos, segundo a Fundação Nacional de Saúde.

118
A questão dos recursos hídricos perpassa todos os componentes do
ecossistema urbano, desde a localização das populações humanas e não humanas
à qualidade da estrutura física e dos recursos, influenciando fortemente na
qualidade ambiental e de vida nas cidades.

A gestão urbana e o meio ambiente


A identificação das questões urbanísticas como objeto de políticas
públicas é algo bastante antigo. Roma, na antiguidade, já possuía normas
de ordenamento urbano. No entanto, como bem assinala Hogan (1995,
p. 18), a caracterização dos problemas urbanos como questão ambiental
é um dado bem mais recente.
A Agenda 21, marco do ambientalismo contemporâneo, coloca
em foco a necessidade da promoção do desenvolvimento sustentável dos
assentamentos humanos (Cap. 7) e ressalta a necessidade da participação
e cooperação das autoridades locais na realização de seus objetivos
através da elaboração das “Agendas 21 Locais” (cap. 28).
Como muitos dos problemas e soluções tratados na Agenda 21
têm suas raízes nas atividades locais, a participação e cooperação das
autoridades locais será um fator determinante na realização de seus
objetivos. As autoridades locais constroem, operam e mantêm a infra-
estrutura econômica, social e ambiental, supervisionam os processos de
planejamento, estabelecem as políticas e regulamentações ambientais
locais e contribuem para a implementação de políticas ambientais
nacionais e subnacionais. Como nível de governo mais próximo do povo,
desempenham um papel essencial na educação, mobilização e resposta
ao público, em favor de um desenvolvimento sustentável.(Agenda 21.
Cap 28.1)
A Agenda Habitat, resultado da conferência Habitat 2 realizada
em Istambul, na Turquia, em 1996, coloca as cidades no foco do
desenvolvimento sustentável, oferecendo um marco de objetivos,
princípios e compromissos para a consecução de assentamentos humanos
sustentáveis.
Desse debate irá emergir o conceito de Cidade Sustentável
incorporado no Estatuto da Cidade (Lei 10.257 de 10 de julho de 2001)
que estabelece como uma de suas diretrizes gerais a “garantia do direito
a cidades sustentáveis, entendido como o direito à terra urbana à moradia,
ao saneamento ambiental, à infra-estrutura urbana, ao transporte e aos
serviços públicos, ao trabalho e ao lazer, para as presentes e futuras
gerações”(Art. 2 o). Além disso, o Estatuto da Cidade determina (nesse
mesmo artigo) que o planejamento das cidades deve evitar e corrigir os

119
efeitos negativos do crescimento urbano sobre o meio ambiente, a
ordenação do uso do solo deve evitar a deterioração das áreas urbanizadas
e a poluição e degradação ambiental, e a expansão urbana deve ser
compatível com os limites da sustentabilidade ambiental.
Desse modo, ficam reafirmados o meio ambiente equilibrado e a
sustentabilidade ambiental como fundamentos do planejamento urbano,
o que implica que devem ser revistos os parâmetros e paradigmas de
seus instrumentos tradicionais, fundamentalmente o controle do usos e
ocupação do solo urbano, sobre o qual nos deteremos.

O alcance ambiental dos instrumentos de gestão urbana


São três os principais fatores ligados à qualidade ambiental das
cidades: o consumo dos recursos naturais (a água é o principal deles), o
despejo de resíduos no meio ambiente (fundamentalmente no ar e na água)
e as formas de uso e ocupação do solo (fatores locacionais que maximizam
ou minimizam o impacto das atividades no meio e na população). O
equacionamento desses três elementos consiste no cerne do que comumente
denominamos como gestão ambiental urbana.
No entanto, as políticas ambientais têm se focado basicamente nos
dois primeiros pontos, ficando o controle do uso e ocupação do solo urbano
restrito ao campo do planejamento urbano, notadamente pelo fato dos dois
primeiros serem objeto da União e dos Estados e o último, do Município.
Ocorre um déficit de política urbana por parte dos primeiros e uma carência
de política ambiental, por parte deste último. Dessa falta de articulação
decorre a maior parte dos problemas de gestão ambiental nas cidades
brasileiras. Vejamos a questão do uso e ocupação do solo e o município.
O quadro em que se encontram os municípios quanto à implantação
e gestão dos instrumentos de controle urbanístico (parcelamento, uso e
ocupação do solo) reflete o despreparo institucional do poder público local.
Estudos recentes feitos pelo Comitê da Bacia do Piracicaba no Estado de
São Paulo (tabela 1) revelaram que, dos 58 municípios da região, apenas
36 possuem lei de uso e ocupação do solo, das quais apenas quatro tratam
de diretrizes de preservação ambiental. O mesmo ocorre com os planos
diretores, presentes em apenas 20 municípios, dos quais apenas nove dispõem
sobre proteção ambiental. Com relação às normas de proteção e controle
ambiental propriamente ditas, apenas pouco mais de um quarto dos
municípios (27%) as possuem.

120
Tabela 1 - Instrumentos de Gestão Territorial Urbana nos Municípios das
Bacias Hidrográficas dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí - 2000
P ossu i T rata do m eio a m b iente
N . A b s. % N . A b s. % (1) % (2)
L ei O rg n ica 58 1 0 0 ,0 42 7 2 ,4 7 2 ,4
P la no D iretor 20 3 4 ,5 9 4 5 ,0 1 5 ,5
C d ig o d e ob ra s 26 4 4 ,8 4 1 5 ,4 6 ,9
L ei d e U s o e O cu p a ª o d o 36 6 2 ,1 4 1 1 ,1 6 ,9
solo u rb a no
P rote ª o ou co ntro le 16 2 7 ,6 16 1 0 0 ,0 2 7 ,6
a m b ienta l
(1) sobre o total dos documentos analisados / (2) sobre o total dos municípios.
Fonte: CBH-PCJ. Relatório Zero, 2000. (organizado pelo autor)

Considerando que o quadro relatado descreve a situação de


municípios numa das regiões mais desenvolvidas do país e que abriga um
de seus principais pólos industriais e tecnológicos que é a Região
Metropolitana de Campinas, podemos avaliar que o quadro geral dos
municípios brasileiros tende a ser mais grave. Isso implica a necessidade da
instrumentalização dos municípios visando sua instrumentação para a gestão
ambiental das cidades, principalmente no que se refere ao controle do uso e
ocupação do solo através das leis de zoneamento urbano.
O zoneamento é o instrumento de planejamento urbano mais
difundido no Brasil e sua prática tem tido caráter fundamentalmente
econômico, muito mais afeito às vicissitudes do mercado imobiliário, do
que aos problemas socioambientais das cidades. Rolnik (1999) considera
que esse instrumento tem se demonstrado um instrumento de exclusão social:

“A regulação urbanística ‘tradicional’ – baseada no


estabelecimento de zonas intra-urbanas, diferenciadas por meio de
coeficientes de ocupação, aproveitamento e verticalização específicos
- não se mostrou eficiente no sentido de combater a exclusão social.
Pelo contrário, pôde consolidar territórios em que essa exclusão se
legitima.” (Rolnik, 1999, p. 91)

Nesse sentido, é fundamental que as leis de zoneamento urbano


passem a incorporar diretrizes de proteção e controle ambiental, sobretudo
de modo a controlar o uso e a ocupação de fundos de vale, das áreas sujeitas
à inundação, das cabeceiras de drenagem, das áreas de alta declividade e a
promover o aumento da permeabilidade do solo urbano.
As normas de parcelamento do solo urbano também devem ater-se a
essas questões, sobretudo no que se refere ao controle de loteamentos em
121
Quadro 2 - Zoneamento Ambiental no Plano Diretor de São Paulo.
(Lei nº 13.430 de 13 de Setembro de 2002)
Artigo Conteœdo
56 Constituem diretrizes da Pol tica Ambiental do Munic pio:
(...)
II - o estabelecimento do zoneamento ambiental compat vel com as
diretrizes para ocupa ª o do solo;
III - o controle do uso e da ocupa ª o de fundos de vale, Æreas
sujeitas inunda ª o, mananciais, Æreas de alta declividade e
cabeceiras de drenagem;
IV - a amplia ª o das Æreas permeÆveis no territ rio do Munic pio;
(...)
VII - o controle da polui ª o da Ægua, do ar e a contamina ª o do
solo e subsolo;
(..)
57 Sª o a ı es estratØgicas para a gestª o da Pol tica Ambiental:
(...)
II - implantar parques lineares dotados de equipamentos
comunitÆrios de lazer, como forma de uso adequado de fundos de
vale, desestimulando invası es e ocupa ı es indevidas;
198 Para o planejamento, controle, gestª o e promo ª o do
desenvolvimento urbano, o Munic pio de Sª o Paulo adotarÆ, dentre
outros, os instrumentos de pol tica urbana que forem necessÆrios,
notadamente aqueles previstos na Lei Federal n” 10.257, de 10 de
julho de 2001 Estatuto da Cidade e em conson ncia com as
diretrizes contidas na Pol tica Nacional do Meio Ambiente:
I - disciplina do parcelamento, uso e da ocupa ª o do solo;
(...)
XLI - Zoneamento Ambiental
248 Lei instituirÆ o zoneamento ambiental do Munic pio, como
instrumento definidor das a ı es e medidas de promo ª o, prote ª o
e recupera ª o da qualidade ambiental do espa o f sico-territorial,
segundo suas caracter sticas ambientais.
ParÆgrafo œnico O zoneamento ambiental deverÆser observado na
legisla ª o de Uso e Ocupa ª o do Solo
249 Na elabora ª o do zoneamento ambiental, serª o considerados,
entre outros fatores:
I - a Lista de Dist ncias M nimas entre usos ambientalmente
compat veis;
II - a adequa ª o da qualidade ambiental aos usos;
III - a adequabilidade da ocupa ª o urbana ao meio f sico;
IV - o cadastro de Æreas contaminadas dispon vel Øpoca de sua
elabora ª o.
Fonte: Plano Diretor de São Paulo (Lei 13430/2002)
Organização: Roberto Braga
122
áreas ambientalmente inadequadas e as diretrizes de alocação das áreas
destinadas aos equipamentos sociais e urbanos, sobretudo as áreas verdes,
e o sistema viário, que deve adequar-se à topografia urbana, de modo a não
comprometer o sistema de drenagem.
Outra possibilidade consiste na incorporação do zoneamento
ambiental como instrumento urbanístico, como prevê o próprio Estatuto
da Cidade (em seu Artigo 4 o., inciso III, alínea d). Alguns planos diretores
já passam a incorporar o zoneamento ambiental como instrumento de
política urbana como é o caso do Plano Diretor de São Paulo aprovado
em 2002, que determina que o mesmo deverá ser observado na legislação
de Uso e Ocupação do Solo, conforme pode-se observar no quadro 2.
Se o zoneamento tradicional não tem contribuído para a
democratização do acesso à terra urbana ou a redução da degradação
ambiental, é preciso repensar esse instrumento de gestão readequando-
o a princípios de natureza social e ambiental. Nesse último sentido,
deve basear-se não só nas compatibilidades de usos urbanos do espaço
e a capacidade de suporte da infraestrutura urbana, mas também na
capacidade de suporte do meio e nas características ambientais das
diversas unidades de paisagem urbanas, cuja chave para a definição
tem como um de seus pilares, as bacias e microbacias hidrográficas
urbanas.

A microbacia como unidade de planejamento

A microbacia hidrográfica, entendida como a “área


geograficamente delimitada pelos divisores de água que alimentam
pequenos tributários” (LANNA, 1995, P. 149), é uma unidade física
de planejamento importante nas políticas de desenvolvimento rural.
No Estado de São Paulo, o governo estadual, com o apoio do Banco
Mundial, vem desenvolvendo o Programa Estadual de Microbacias
Hidrográficas 6 , uma estratégia, voltada principalmente à agricultura
familiar, de implantação de sistemas de produção agropecuária, visando a
melhoria da qualidade de vida e da renda do agricultor, o aumento da
produtividade, a recuperação de áreas degradadas e a preservação dos
recursos hídricos.
Cabe assinalar que o uso da bacia hidrográfica como unidade de gestão
apresenta alguns problemas. Lana (1995), embora considere a bacia
hidrográfica como unidade fundamental de intervenção, alerta para as

6
Instituído em 1997 pelo Decreto 41.990.
Dez anos antes, em 1987, foi instituída pelo Governo Federal a Política Nacional de
Microbacias Hidrográficas (Decreto 94.076).
123
vantagens e desvantagens de seu uso:
“A vantagem é que a rede de drenagem de uma bacia consiste
num dos caminhos preferenciais de boa parte das relações causa-
efeito, particularmente aquelas que envolvem o meio hídrico. As
desvantagens são que nem sempre os limites municipais e estaduais
respeitam os divisores da bacia e, conseqüentemente, a dimensão
espacial de algumas relações causa-efeito de caráter econômico e
político.”(LANA, 1995, p. 63)
No caso urbano, diferentemente do rural, as microbacias, considerando
os ribeirões e córregos urbanos, possuem, na maioria dos casos, dimensão
espacial suficientemente adequada à escala urbana, considerando-se as cidades
de médio porte para cima, o que faz com que a desvantagem corretamente
apontada por Lana seja pouco relevante.
No entanto, os estudos sobre microbacias urbanas têm se restringido
basicamente à avaliação da degradação dos recursos hídricos e dos impactos da
urbanização. Um bom exemplo desse tipo de estudo foi desenvolvido em 1997
pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA)7 , com o apoio do Comitê
de Bacias Hidrográficas dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (CBH-PCJ),
na microbacia do ribeirão Piracicamirim na cidade de Piracicaba (SP). Esse
estudo, de caráter biogeoquímico, visou tanto a caracterização do nível de impacto
da ocupação na microbacia, quanto fornecer subsídios ao gerenciamento
ambiental.
Tais estudos, malgrado sua qualidade, são, e quando são, utilizados
setorialmente, em termos de política de gestão de recursos hídricos strictu sensu.
Abordagens mais amplas utilizando as microbacias urbanas como suporte ao
zoneamento urbano ou ao zoneamento ambiental urbano têm sido bem menos
freqüentes.8

7
No âmbito do Projeto PIRACENA.
8
Nesse sentido vale citar o exemplo do Plano Diretor de Piracicaba, estado de São
Paulo (Lei Complementar nº 046, de 15 de Setembro de 1995), que define como
unidade de manejo, visando as políticas de diversificação da ocupação do solo, as
microbacias hidrográficas. Como resultado, o território foi dividido em quatorze sub-
bacias urbanas, com as respectivas diretrizes de ocupação, as quais incluem: restrições
ao adensamento e à ocupação industrial em determinadas áreas; recuperação de mata
ciliar; criação de zonas de interesse ambiental e áreas de proteção ambiental; restrição
da ocupação de várzeas com ampliação da faixa não edificável com contagem a partir
da cota média de inundação; restrições ao sistema viário; restrições à urbanização das
áreas de várzea; normas de uso e ocupação do solo compatíveis com a preservação dos
recursos hídricos etcÉ importante assinalar que esse tipo de ordenamento deve ser
respaldado na Lei de Uso e Ocupação do Solo Urbano do município, o que, infelizmente,
não chegou a acontecer na cidade de Piracicaba, que vem sofrendo com a ocupação
inadequada das microbacias, sobretudo nas áreas de expansão, cuja Lei de Zoneamento.
de 1985, não foi adequada ao Plano Diretor.

124
Considerações finais
O quadro de desequilíbrio dos recursos hídricos urbanos, como os
problemas ambientais associados às enchentes e à deterioração da qualidade
das águas, resulta não só da descarga de efluentes, mas também do uso e

ocupação inadequados do solo das bacias urbanas. Esse é um problema que tem
que ser enfrentado não só do ponto de vista das políticas ambientais, mas também
da política urbana como um todo.
Os atuais propostas de gestão de microbacias colocam-na como unidade
física de intervenção e análise das ações e desenvolvimento rural, é necessário
que a microbacia também seja definida como uma unidade de gestão e
desenvolvimento urbano. Maricato (2001) ao discutir a importância da bacia
hidrográfica como referência para o planejamento urbano, enfatiza a necessidade
de se agregar outras variáveis como o saneamento ambiental e que, portanto:
“As bacias e microbacias hidrográficas são unidades obrigatórias para
a abordagem do planejamento urbano, na medida em que o destino do
esgoto e do lixo sólido, para citar apenas dois resíduos de aglomerações
urbanas, interfere, praticamente, na vida de todos os usuários da mesma
bacia”.(MARICATO, 2001, p. 79,80)

É fundamental a integração entre as políticas de gestão de recursos


hídricos e de gestão do uso e ocupação do solo urbano. Tanto no sentido de
coibir os processos de degradação dos mananciais, como no de se evitar, ou
atenuar, os problemas urbanos decorrentes do desequilíbrio do regime hidrológico
urbano.

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