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MAPA-MÚNDI DA INTOLERÂNCIA » O DILEMA DOS SABATISTAS » DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO » A ASSISTÊNCIA JURÍDICA DA IGREJA ADVENTISTA

A CONSTRUÇÃO DE UMA SOCIEDADE QUE RESPEITA O DIREITO DE


CRENÇA REQUER A PARTICIPAÇÃO DE CADA GRUPO RELIGIOSO
Foto: © ???? | Fotolia

L IB E R D AD E 1
EDITORIAL

DIREITO
Desde então, os adventistas sempre tiveram
alguém designado para responder por essa im-
portante atividade no país.
Os diretores que se sucederam nessa área ao
longo dos anos trabalharam intensamente para

SAGRADO
garantir aos membros da igreja a possibilidade
de viver em harmonia com suas crenças, com
as leis do país e em paz com as comunidades em
que estão inseridos. Tendo como undamento
uma liberdade religiosa inclusiva, de endem
que ela é para todos, independentemente dos
dogmas, doutrinas e liturgia, pois sua de esa
sempre é do direito de crer e não dos conteú-
dos de suas crenças. Assumem claramente que
todas as pessoas têm o sagrado direito de esco-
lher sua própria religião ou mesmo de não se
liar a nenhuma organização religiosa.
Com uma compreensão undamentada na
Bíblia, a Igreja Adventista desenvolveu uma re-
lação positiva e respeitosa com os poderes cons-
tituídos. Possuidores de um per l distintivo, os
adventistas, como grupo minoritário, se es orçam
para demonstrar sua relevância e cooperar com as
autoridades. Ao mesmo tempo, reconhecem que
não estão sozinhos nessa luta e buscam estabele-
iberdade religiosa é um dos assun- cer laços com outras entidades civis e religiosas, a
A LIBERDADE
tos de grande relevância para os m de ampliar sua infuência. Essa atitude jamais
RELIGIOSA DEVE adventistas. Quando a igreja ain- deve ser con undida com ecumenismo, posição
SER INCLUSIVA, da estava em seu período orma- rejeitada pelos adventistas.
tivo, uma orte ameaça levou os Para desenvolver e coordenar suas ações, os
INDEPENDENTEMENTE
pioneiros a dar importância a esse tema. adventistas se empenham em proteger, promover
DOS DOGMAS, Naqueles tempos, surgiram líderes que e de ender a liberdade religiosa. Os programas
DOUTRINAS E lutaram bravamente para de ender e pro- incluem a capacitação de lideranças, a realização
teger as liberdades de consciência e culto. de encontros, congressos e simpósios e a orma-
LITURGIA
Além disso, como resultado dessa luta, ção de óruns regionais com o objetivo de desen-
surgiu a International Religious Liberty volver uma agenda pró-ativa de relacionamentos
HELIO CARNASSALE Association (Associação Internacional e uma atuação destacada em apoio a vítimas de
de Liberdade Religiosa), a mais antiga en- intolerância religiosa. Além disso, o acompanha-
tidade mundial organizada para de ender mento e a interação com as comissões nas casas
e proteger a liberdade religiosa. legislativas têm como propósito assegurar que
No Brasil, o primeiro es orço surgiu as leis garantam os diversos aspectos da liberdade
em setembro de 1936, quando os adven- religiosa.
tistas estabeleceram uma comissão con- É com muito prazer que a Igreja Adventista
sultiva com a responsabilidade de atuar produziu esta revista com o objetivo de desta-
em situações de intolerância religiosa. Esse car seu compromisso com um tema importante
comitê de oito membros era composto por para toda a sociedade. Nas páginas seguintes
representantes das diversas instituições você encontrará de maneira mais apro undada o
adventistas brasileiras e se reunia somente compromisso e as realizações dos adventistas em
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quando alguma pauta exigia atenção. Pos- avor da liberdade religiosa. É nosso desejo que
teriormente, em 1951, um diretor de liber- você des rute desta leitura e se junte a nós nessa
dade religiosa oi designado para atuar em luta desa adora de garantir para todos o direito à
tempo integral, atendendo todo o territó- liberdade de pensamento, consciência e religião.
rio nacional. Domingos Peixoto da Silva
oi o escolhido e dedicou-se a essa un- HELIO CARNASSALE, mestre em Ciências da Religião, é diretor
do departamento de Liberdade Religiosa da Igreja Adventista
ção até 1970, ano de sua aposentadoria. para a América do Sul

2 L IB E RD A D E
SUMÁRIO
SEÇÃO

10
OS DOIS REINOS
2
Editorial
Direito sagrado A visão adventista a
respeito da relação entre
poder religioso e civil
4 Panorama
O mapa múndi da intolerância

14
EM DEFESA DE TODOS
6 Opinião
Hostilidade na rede Por que essa causa
precisa ser de endida
inclusive no Brasil
7 Retrato

8
22 LUTA POR DIREITOS
História
Legado para o mundo O dilema de quem não
segue a é da maioria
12 In ográfco
Liberdade na balança

26
TINTA, PAPEL E UM IDEAL
17 Eventos Como a literatura tem
ajudado a proteger o
coração dos direitos
humanos
18
Galeria
De ensores da causa

28
LIVRES PARA ADORAR
21
Entenda
A vida ora dos templos O direito e os limites das
práticas litúrgicas
Saiba mais
25 Como unciona a assistência
jurídica da igreja

30
CONSTRUINDO PONTES
34
Pense nisso
Como os adventistas se
Liberdade e respeito
relacionam com outras
denominações

LIBERDADE
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Casa Publicadora Brasileira


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Presidente: Erton Kohler Redator che e: Marcos De Benedicto
Capa: Bruna Ribeiro Secretário: Edward Heidinger Gerente de produção: Reisner Martins
Ilustração de capa: Willian de Moraes Tesoureiro: Marlon Lopes Gerente de vendas: João Vicente Pereyra Tiragem: 10.000 exemplares 17308/37661

L IB E R D AD E 3
PANORAMA

O MAPA-MÚNDI DA
INTOLERÂNCIA RELIGIOSA
WENDEL LIMA

P
raticar uma religião ou simplesmente ter uma cren- Li e, um dos maiores institutos de pesquisa sobre religião
ça é importante para 84% da população mundial. O do mundo. A única boa notícia é que a maioria dos governos
problema é que esse direito tão básico do ser humano pesquisados tem iniciativas para reduzir a intolerância. Por
tem sido cada vez mais desrespeitado. É o que mostram as acreditar que esse processo só acontecerá com in ormação
últimas pesquisas do The Pew Forum o Religion and Public e re exão, preparamos para você o in ográfco abaixo.

RESTRIÇÕES DO GOVERNO

COREIA DO NORTE:
O pior lugar do
mundo para ser
cristão. Cerca de
200 mil seguidores
de Cristo vivem ali
sob perseguição do
PAQUISTÃO: Um regime comunista.
dos países mais
intolerantes do
mundo, com
índice 9,0 para
hostilidade social
e 6,3 para restri-
ção do governo.

CHINA: Apresenta alta intolerância do governo


(7,5), moderada resistência social (2,0). Por
isso, é um dos países em que o cristianismo
mais cresce. A religião costuma ser praticada RÚSSIA: Uma lei aprovada no
nos lares. país em 2017 tem restringido
atividades missionárias.
Em pouco mais de um ano,
tribunais já julgaram dezenas
de processos, especialmente
MUITO ALTA ALTA MODERADA BAIXA SEM DADOS contra pessoas e organiza-
ções cristãs.

PRINCIPAIS TIPOS
65%
DA POPULAÇÃO
MUNDIAL VIVE
27% 23% 31% EM PAÍSES
COM GRANDES
PROIBIÇÃO DE USO RESTRIÇÕES À PUNIÇÃO COM
DE SÍMBOLOS CONVERSÃO PRISÃO INTERVENÇÕES DO
GOVERNO

4 L IB E RD A D E
CENÁRIO GLOBAL

5,1 bilhões
não têm plena
Subiu de 20% (2007)
para 33% (2012) o
número de países
que apresentaram
76%
dos países pesquisados
liberdade de altas restrições à têm iniciativas para
crença. religião. reduzir essas proibições. 43 países têm uma religião
oficial e 40 favorecem um
credo. Embora o islamismo
seja a religião de Estado
BARRIL DE PÓLVORA mais comum, muitos
198 países A região que menos respeita a liberdade religiosa governos dão privilégios
pesquisados, o que ao cristianismo, inclusive
é a do Oriente Médio e norte da África. Lá, existe
equivale a 99,5% da em países sul-americanos
a mistura explosiva de políticas intolerantes com
população mundial. como Argentina e Peru.
grupos sociais fanáticos.

HOSTILIDADE SOCIAL

Fontes: Dr. Brian Grim; Pew Research Center – Rising Tide of Restrictions on Religion, September 2012; Reversing Downward Trend; Many Countries
Favor Specifc Religions, O fcially or Uno fcially (2017); globalreligious utures.org e Lista Mundial da Perseguição 2018 (Portas Abertas)
MÉXICO: Experimentou um
salto no índice de hostilidade
social, passando de 3,2
para 6,7. Dezoito sacerdotes
oram assassinados desde
2012, a maioria em áreas
de narcotráfco. Membros
de comunidades indígenas
convertidos ao cristianismo
também têm en rentado
sanções econômicas,
negação de acesso a servi- MIANMAR: Milhares de rohingyas têm
INGLATERRA, FRANÇA E sido perseguidos e orçados a ugir
ços básicos e expulsão da ALEMANHA: Alta intole-
comunidade. para Bangladesh. O grupo muçulmano,
rância social (média de 5,1) que vive há séculos no país de maioria
e moderada restrição do budista, so re restrições à liberdade re-
BRASIL: Baixa restrição do governo (média de 4,1). ligiosa e a outros direitos básicos, como
governo (1,0), moderada educação, saúde e trabalho.
intolerância social (2,9).

MUITO ALTA ALTA MODERADA BAIXA SEM DADOS

PRINCIPAIS TIPOS
52%
DA POPULAÇÃO
MUNDIAL VIVE
EM PAÍSES
COM GRANDE
33% 15% 36%
IMPOSIÇÃO VIOLÊNCIA ENTRE TERRORISTAS
HOSTILIDADE DE NORMAS FACÇÕES LIGADOS À RELIGIÃO
SOCIAL

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OPINIÃO

Hostilidade
na rede
A INTERNET SE TORNOU UMA CAIXA DE
RESSONÂNCIA DO DISCURSO DE ÓDIO

CARLOS FLÁVIO TEIXEIRA

os comentários em sites de notícia às postagens nas nós, não somente não nutriremos nenhum ódio
redes sociais, a internet está repleta de discursos in- contra nossos semelhantes, mas buscaremos por
famados. O enômeno da democratização da in or- todos os modos mani estar-lhes amor” (Mente,
mação oi acompanhado de um problema que tomou Caráter e Personalidade, v. 1, p. 249). Por isso, de-
conta da rede: o ódio. Hate speech e cyberhate são dois vemos de ender, incentivar e orientar as pessoas a
novos termos no glossário cibernético. mani estar opiniões dentro dos limites da tolerân-
Seja no mundo virtual ou ora dele, o discurso cia e do respeito às pessoas e instituições.
de ódio envolve todas as ormas de expressão que Evidentemente, nem todas as alas e expres-
incitam, promovem ou justi cam a intolerância ou sões que soam o ensivas podem ser consideradas
violência contra minorias étnicas, religiosas ou qual- discurso de ódio. Por isso, há que se considerar
quer outro grupo de pessoas. a intenção, o modo e os resultados do que é dito
O ódio produz indi erença, desprezo, depre- ou expresso. In elizmente, o que se vê em muitos
ciação, e pode chegar ao extremo da perseguição e casos é a intenção deliberada de atacar outros me-
tentativa de destruição. Quem odeia muitas vezes diante o uso de palavras ou gestos caracterizada-
não se con orma em apenas discordar, mas chega mente violentos. O discurso de ódio precisa ser
ao ponto de não tolerar a existência da própria combatido, mas, por outro lado, não pode se tornar
pessoa que pensa di erente. pretexto para uma mordaça velada à expressão de
No tempo em que vivemos, a compreensão ideias – religiosas ou não – que incomodam ou pro-
da liberdade de expressão religiosa tem se torna- vocam descon orto em outros. Em uma sociedade
do ambígua. Ora é entendida como um m em si democrática, opiniões contrárias precisam ter sua
mesma, ora como um meio para um m mais nobre expressão garantidas no âmbito do respeito e da
e maior (Civil Liberties, Greenhaven Press, 2004, civilidade. Exercidas sem incitação à intolerância
p. 22, 23). A liberdade de expressão religiosa é um e suas ormas de violência, elas não podem, de ma-
direito-dever que proíbe a pessoa de praticar dis- neira alguma, ser prejudicadas ou tolhidas.
curso de ódio ao mesmo tempo em que a protege de Mas se, de um lado, é verdade que todos que
não ser vítima desse tipo de conduta. amam a liberdade deveriam encorajar a liberdade
Além de erirem as constituições democráticas, de expressão, também é verdade que tal liber-
bem como os tratados internacionais de direitos dade precisa ser vivenciada no contexto do amor a
humanos, tanto o discurso quanto a sua causa – Deus e ao próximo, do respeito às leis e do es or-
o sentimento de ódio – são incompatíveis com os ço engajado para a construção de uma sociedade
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valores e princípios bíblicos (Levítico 19:17, 18; mais íntegra, justa e solidária. Esse tipo de liber-
Provérbios 10:12, 15:17, 26:24-26; Lucas 6:27-31; dade de expressão ensinado pelo cristianismo e
Gálatas 5:19-21; 1 João 2:9-11, 3:13-15, 4:20). Ellen apoiado pelos adventistas do sétimo dia está na
White, uma das undadoras da Igreja Adventista, contramão do discurso de ódio.
escreveu que o amor de Deus “é um princípio posi-
tivo e ativo, uma onte viva, manando sempre para CARLOS FLÁVIO TEIXEIRA é mestre em Direito Constitucional, doutor
em Ciências da Religião e pós-doutor em Teologia Bíblico-Sistemática
bene ciar os outros. Se o amor de Cristo habita em

6 L IB E RD A D E
RETRATO

A coexistência pacífca é um dos grandes


desafos no mundo hoje. Discutir caminhos
para o respeito às di erenças tem sido um
dos objetivos da Associação Internacional
de Liberdade Religiosa (Irla, na sigla em
inglês). Em agosto de 2017, a entidade
promoveu um congresso mundial sobre o
tema, com a participação de 550 juristas,
acadêmicos, ativistas e líderes religiosos de
65 países e diversas denominações em Fort
Lauderdale, no estado da Flórida (EUA).
Foto:©Mylon
Foto: Fotolia
???? |Medley

L IB E R D AD E 7
HISTÓRIA

para o mundo
A EXPERIÊNCIA DOS ADVENTISTAS COMO
MINORIA RELIGIOSA LEVOU A IGREJA A
CRIAR A MAIS ANTIGA ENTIDADE MUNDIAL
EM DEFESA DO DIREITO DE CRENÇA

LISANDRO W. STAUT

m momento decisivo na história dos Estados Uni- publicação de livros, bem como pelo debate político,
dos.” Assim é comumente descrita a Feira Mundial de para reverter a ordem ederal. Como refexo, naque-
Chicago, uma megaexposição universal montada em le mesmo ano nasceu a Associação Internacional de
1893 para celebrar o progresso tecnológico da Améri- Liberdade Religiosa (Irla, na sigla em inglês), a mais an-
ca e os 400 anos da chegada de Cristóvão Colombo ao tiga entidade mundial em de esa dessa bandeira.
Novo Mundo (1492). Ao longo dos seis meses em que A história dos adventistas do sétimo dia na de e-
permaneceu aberta, mais de 27 milhões de pessoas pa- sa da liberdade religiosa, no entanto, não começou
garam ingresso para visitar as instalações temporárias em 1893 com o estabelecimento da Irla, uma ver-
espalhadas por uma área de 280 hectares e que conta- são, como o próprio nome diz, mais ampla do que a
vam com nada menos que 200 prédios em estilo neo- Associação Nacional de Liberdade Religiosa cria-
clássico, representando a cultura de 46 nações di eren- da em 1889, em reunião realizada no Tabernáculo
tes. A exposição mundial de Chicago de niu a cultura Adventista de Battle Creek, Michigan. Na declara-
americana de muitas maneiras. Mas um debate inicia- ção assinada pelos 110 membros undadores lia-se:
do ainda bem antes de os portões serem abertos tornou “Negamos o direito de qualquer governo civil legis-
pública uma luta que, 125 anos depois, continua mais lar em questões religiosas. Acreditamos que é o di-
viva do que nunca: a de esa da liberdade religiosa. reito, e deve ser o privilégio de cada homem, adorar
A ideia de um evento que promovesse a unidade de acordo com os ditames de sua própria consciên-
social acabou se tornando um problema para uma mi- cia.” Uma declaração que rea rma o entendimento
noria religiosa daquele tempo. Quando o Congresso histórico dos adventistas de que a liberdade de esco-
americano destinou recursos públicos para a organiza- lha é uma expressão do caráter e do amor de Deus.
ção da eira, estipulou também que os portões deveriam Para os adventistas, a liberdade religiosa tem um
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permanecer echados aos domingos, dia de descanso orte undamento bíblico, histórico e teológico, além
da maioria cristã. Para os adventistas do sétimo dia, a de uma importante dimensão escatológica. O primeiro
ação do governo estava derrubando uma barreira qua- artigo sobre este tópico oi escrito pelo pioneiro John
se sagrada de separação entre Igreja e Estado. Mais do N. Andrews, ainda em 1851. Em meio à Guerra Ci-
que isso, representava uma ameaça de estabelecimento vil e diante da posição dos adventistas de se de nirem
de uma religião nacional. Antes e durante os primei- como não combatentes, em 1864, Andrews, que hoje
ros meses da eira, os adventistas lutaram por meio da dá nome à principal universidade adventista no mundo,

8 L IB E RD A D E
estabeleceu a ligação entre a liberdade religiosa e o AIDLR oi o jurista René Cassin, Nobel da
que chamamos hoje de “direitos humanos”. Alguns Paz em 1968. Cassin também oi um dos ins- O INTERESSE DOS
anos depois, os adventistas novamente se opuseram à piradores da Declaração Universal dos Direi-
ADVENTISTAS
aprovação de legislação religiosa, especialmente de leis tos Humanos, em 1948.
dominicais, invocando sempre a liberdade de consci- Com a Declaração Universal dos Direi- NA LIBERDADE
ência. Em 1888, por exemplo, o senador H. W. Blair, da tos Humanos, a Declaração sobre a Elimi- RELIGIOSA
Pensilvânia, apresentou uma proposta que proibia em nação de Todas as Formas de Intolerância
PROVAVELMENTE
nível nacional o trabalho ou divertimento aos domin- e Discriminação Baseadas na Religião ou
gos. Antes e depois dessa tentativa racassada, diver- Crença, proclamada em 1981, e vários do- NÃO ENCONTRA
sos estados americanos chegaram a punir com prisão cumentos internacionais que se seguiram, EQUIVALENTE
os cidadãos que violassem leis locais semelhantes. a liberdade religiosa recebeu o rótulo o -
NO MUNDO
A então pequena Igreja Adventista do Sétimo Dia cial dos direitos humanos. Esses avanços
ez a di erença ao se opor às chamadas leis dominicais. acilitaram e encorajaram o trabalho da Irla CRISTÃO E TEM
Como observadores do sábado, os adventistas veem e da AIDLR. Ambas obtiveram credibili- LIGAÇÃO DIRETA
qualquer ação do Estado para impor outro dia de des- dade e visibilidade na Comissão de Direi-
COM SUA VISÃO
canso como uma orte violação da liberdade religio- tos Humanos das Nações Unidas e oram
sa, o que nos Estados Unidos, onde a igreja nasceu, é capazes de acolher outros representantes ESCATOLÓGICA,
uma traição à Primeira Emenda da Constituição. religiosos, além dos adventistas do sétimo SUA LEITURA
Em 1890, a então Associação Nacional de Liber- dia, em suas leiras.
DA HISTÓRIA E,
dade Religiosa chegou a reunir 250 mil assinaturas de A Irla também construiu sua tradição
parte considerável da população americana, que apoiou através de congressos mundiais. Os três É CLARO, SUA
a iniciativa da igreja contra a legislação religiosa que tra- primeiros (em Amsterdã, em 1977, Roma, TEOLOGIA
mitava no Senado e na Câmara. Como já vimos, à me- em 1984, e Londres, em 1989), oram in-
dida que as atividades da associação se espalharam para tencionalmente realizados na Europa e
outros países ao redor do mundo, a iniciativa passou o ereceram a possibilidade de convite a uncioná-
nalmente a ser conhecida pelo nome que mantém até rios dos governos do Oriente, criando oportunida-
hoje, Associação Internacional de Liberdade Religiosa des de desenvolvimento de atividade diplomática e
(Irla). Mais tarde, ela ganhou representações em todos tornando a causa da liberdade visível também nos
os continentes, uma vez que os diretores do Departa- territórios de regime comunista.
mento de Assuntos Públicos e Liberdade Religiosa de Em 1997, a Irla decidiu realizar o seu 4o Congresso
cada uma das 13 sedes continentais da Igreja Adventista Mundial no Rio de Janeiro, sendo, até aquele momen-
(chamadas de Divisões) atuam como secretários da Irla to, o maior congresso organizado pela entidade. Os
em cada uma dessas regiões administrativas. especialistas vieram da Europa, da Rússia, dos EUA e,
Antes da 2a Guerra Mundial, a Irla já incentivava claro, da América do Sul. Funcionários das novas de-
a criação de associações nacionais e regionais como a mocracias europeias participaram e Cuba enviou um
do Canadá, Austrália, Filipinas e Europa. Já durante dos seus vice-diretores de assuntos religiosos. A mídia
o período da guerra as atividades tiveram que se li- igualmente se interessou pelo evento, assim como o
mitar a iniciativas menos visíveis. A partir de 1946, governo brasileiro, que enviou seu ministro da Justiça
um passo signi cativo oi dado, quando a organiza- com uma mensagem do presidente da República.
ção adotou o conceito de associação independente. O interesse dos adventistas na liberdade religiosa
Após a 2a Guerra Mundial, a Irla abriu a possibili- provavelmente não encontra equivalente no mundo
dade de adesão àqueles que não eram adventistas do cristão e tem ligação direta com sua visão escatológica,
sétimo dia, mas que compartilhavam a mesma visão de sua leitura da história e, é claro, sua teologia. Contudo,
liberdade religiosa. A entidade também acilitou a or- o tema da liberdade se destaca principalmente como
ganização ou a reorganização de associações parceiras resultado da experiência dos adventistas como minoria
em todo o mundo, a exemplo da Associação Interna- religiosa, uma amília com pouco mais de 20 milhões de
cional para a De esa da Liberdade Religiosa (AIDLR) membros que en renta desa os à medida que tenta vi-
na Europa. Sob a liderança do Dr. Jean Nussbaum, a ver suas crenças, entre elas, o descanso do sábado. A his-
AIDLR publicou em rancês a revista Conscience et tória e o presente da Irla são um legado dos adventistas
Liberté, que oi traduzida para várias línguas e tornou- do sétimo dia para o mundo. A de esa de que todos têm
se um dos melhores recursos nessa área. A AIDLR direito à liberdade de escolha é uma causa verdadeira-
recebeu o apoio da Sra. Eleanor Roosevelt, que concor- mente vivida, encorajada e promovida pela igreja, desde
dou em ser sua primeira Presidente de Honra em 1946, a sede mundial até a mais humilde congregação local.
seguida do Dr. Albert Schweitzer, vencedor do Prê-
LISANDRO W. STAUT é jornalista e está cursando mestrado em Teo-
mio Nobel da Paz. Entre 1972 e 1976, quem liderou a logia na Universidade Andrews (EUA)

L IB E R D AD E 9
POLÍTICA E RELIGIÀO

ENTENDA A VISÃO ADVENTISTA


A RESPEITO DA RELAÇÃO ENTRE
PODER RELIGIOSO E CIVIL

MÁRCIO COSTA

ntre os princípios undamentais que regem a posição cuidado dos pobres, doentes e oprimidos eram al-
da Igreja Adventista sobre política está o da separa- guns dos elementos bíblicos usados no discurso
ção entre Igreja e Estado. Sua compreensão é de que político para atrair cristãos ansiosos por ação à
cada uma dessas entidades deve cumprir sua unção militância partidária.
sem inter erir nas atividades da outra. Porém, durante o período de consolidação da
Isso levou a igreja a assumir uma postura apar- Igreja Adventista, os líderes da denominação en-
tidária ao longo de sua trajetória. Corporativamen- tenderam, na prática, como o partidarismo político
te, ela não possui nem mantém partidos políticos, atrapalhava o desenvolvimento da igreja. Uma vez
não se lia a eles, tampouco repassa recursos para que a estrutura político-partidária da época repro-
atividades dessa natureza. Embora respeite as auto- duzia as atividades de uma organização religiosa, era
ridades constituídas, ela não participa de qualquer de se esperar que, além de trazerem os debates para
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atividade político-partidária. a igreja, os militantes não tivessem o mesmo envol-


Essa postura originou-se no processo de esta- vimento, lealdade e paixão por ambas.
belecimento da denominação nos Estados Uni- Ellen G. White, co- undadora da denominação,
dos, em meados do século 19, quando a ideologia desaconselhou os membros a ter esse duplo envol-
e o ormato dos partidos políticos concorriam vimento, embora não os isentasse de seus deveres
com o exercício da religião. Intencionalmente, as civis. No caso daqueles que tivessem vínculo empre-
ideias partidárias de endidas possuíam um apelo gatício com a igreja, ela oi ainda mais en ática, pois
religioso. De esa da liberdade, erradicação do mal, acreditava que, caso decidissem entrar no pleito,

10 L IB E RD A D E
deveriam ser a astados de suas unções administra- Na compreensão adventista, ambas as insti-
tivas ou de qualquer outra natureza na organização. tuições oram estabelecidas por Deus, cabendo ao
Assim, desde 1856, pioneiros como Tiago White, governo proteger as liberdades religiosas e civis de
Uriah Smith e Roswell Cotrell, entre outros, buscaram seus cidadãos e não legislar em questões religiosas; e
conscientizar os adventistas de que, embora eles deves- à igreja não dominar seu exercício, mas apoiá-lo até
sem ser bons cidadãos neste mundo, seu oco deveria ao ponto de não comprometer a delidade a Deus.
estar no reino de Deus e não nos poderes terrenos. “Como cristãos, os adventistas do sétimo dia re-
No entanto, em 1860, Tiago White, na época um conhecem o papel legítimo do governo organizado
dos líderes da denominação, reconheceu que seria na sociedade” e apoiam “o direito do Estado de legis-
necessário desenvolver uma posição mais clara e lar em assuntos seculares” e “o cumprimento de tais
de nitiva sobre o assunto. Desse modo, a partir da leis”, como expressa uma de suas de-
o cialização da igreja, em 1863, oram estabelecidos clarações o ciais publicada em 2002.
princípios mais amplos a respeito da relação entre Complementando as declarações
Igreja e Estado. o iciais dos adventistas, o recente UM DOS MOTIVOS
documento sul-americano acres- QUE LEVARAM OS
DECLARAÇÃO RECENTE centou um novo tópico: a posição
ADVENTISTAS A
Em novembro de 2017, a liderança da Igreja da igreja a respeito da participa-
Adventista na América do Sul re orçou sua posição ção em mani estações públicas. MANTER A POSTURA
por meio do documento intitulado “Os Adventistas Ele esclarece que a denominação APARTIDÁRIA FOI A
e a Política” (para ler o material na íntegra, acesse: respeita “o direito de expressão
COMPREENSÃO DE
goo.gl/d Gt J). A declaração o cial diz: “A igreja en- e as reivindicações pací cas e le-
contra nos ensinos do Senhor Jesus e dos apóstolos gítimas” e não considera errado QUE A UNIÃO ENTRE
base segura para evitar qualquer militância político- de ender paci camente ideias e PODER RELIGIOSO
partidária institucional. O cristianismo apostólico ideais de cunho moral. A nal, os
E PODER CIVIL
cumpriu sua missão evangélica sob as estruturas adventistas têm saído às ruas para
opressoras do Império Romano sem se voltar contra chamar a atenção, por exemplo, REPRESENTA UMA
elas. O próprio Cristo a rmou que Seu reino ‘não é contra a violência ao mais raco, AMEAÇA À LIBERDADE
deste mundo’ e que, portanto, Seus ‘ministros’ não por meio do projeto Quebrando o
RELIGIOSA
empunham bandeiras políticas (João 18:36). Qual- Silêncio e outras atividades. Porém,
quer posicionamento ou compromisso com legen- se posicionam contra toda orma
das partidárias di cultaria a pregação do evangelho de expressão ideológica “que lance
a todos indistintamente”. mão da violência, ísica ou verbal;
Essa visão, herdada desde a Re orma Protestan- contra o vandalismo e a destruição do patrimônio
te, mas ampliada pelos adventistas, é mantida pela público ou privado”.
igreja há mais de 150 anos. Hoje ela continua ser- A igreja entende que a desigualdade e o so rimen-
vindo de parâmetro para seus membros, especial- to promovem o surgimento de posições extremas. Por
mente num tempo em que a militância política e a isso, ela se mantém ativamente envolvida nas ques-
polarização entre direita e esquerda tem se exacer- tões pertinentes aos interesses e necessidades dos
bado e causado confitos e divisão na sociedade. cidadãos, e tem procurado combater a desigualdade
Institucionalmente, apesar de entender a impor- e a injustiça social desenvolvendo, apoiando e rea-
tância do processo democrático, a Igreja Adventista lizando projetos sociais e educacionais. Suas várias
igualmente não permite que em seus templos sejam rentes de atuação envolvem a ADRA (Agência
realizadas reuniões com nalidades eleitorais, seja para Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assis-
promoção de candidatos (membros e não membros da tenciais), ASA (Ação Solidária Adventista), escolas,
igreja) ou de partidos políticos. Apesar de respeitar as colégios e universidades, entre outros programas
pessoas eleitas para os di erentes cargos públicos, a igre- promovidos pelos vários departamentos e institui-
ja não possui uma bancada de parlamentares, não inves- ções da denominação. No entanto, ela busca “agir
te na ormação de lideranças partidárias, nem trabalha na de esa de suas convicções sem confitar com os
para esse m. princípios bíblicos, sem protestar contra ideologias e
Um dos motivos que levaram os adventistas autoridades constituídas”. Essa tem sido a orma com
a manter essa postura oi a compreensão de que a a qual os adventistas têm buscado conciliar seu papel
união entre poder religioso e poder civil repre- no mundo com os interesses do reino de Deus.
senta uma ameaça à liberdade religiosa. Portanto,
a separação entre Igreja e Estado é uma orma de MÁRCIO COSTA, PhD em Teologia Histórica pela Universidade
Andrews (EUA), coordena o curso de Teologia do Instituto Adventista
proteger o direito de crença. Paranaense (IAP)

L IB E R D AD E 11
INFOGRÁFICO

LIBERDADE NA BALANÇA
SAIBA EM QUE ASPECTOS O PAÍS AVANÇOU NOS ÚLTIMOS ANOS EM RELAÇÃO À
DEFESA DO DIREITO DE CRENÇA E QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS DESAFIOS NESSA ÁREA
LUCAS ROCHA

D
esrespeito, xingamentos, agressões, destruição de (a começar pela nossa Carta Magna), é preciso que esse
objetos sagrados e ataques a templos. O Brasil não tema seja mais discutido pela sociedade a fm de ortalecer
tem sido um país tão pacífco quanto parece, espe- a cultura do respeito à diversidade de crenças. Felizmente,
cialmente para adeptos de algumas religiões. Entre janeiro nos últimos anos a sociedade tem reagido à onda de vio-
de 2015 a junho de 2017, o Disque 100 registrou uma de- lência e implementado diversas iniciativas que estão aju-
núncia de intolerância religiosa a cada 15 horas. Embora dando nesse processo. Conheça algumas delas e, por outro
existam várias leis que garantem esse direito undamental lado, os desafos que ainda pesam no cenário brasileiro.

A primeira surgiu em São A Associação Brasileira de Liberdade


Paulo, em 2006. Hoje, além da Religiosa e Cidadania atua na prote
Incentivam estudos científ
comissão nacional, criada em 2017, ção do direito de crença e na promoção de
cos e apresentam argumen
seccionais da Ordem dos Advogados eventos em igrejas, instituições educa
tos que contribuem para o debate
do Brasil de 12 estados têm comis cionais, órgãos públicos (como Câmaras
sobre o tema. Entre essas inicia
sões regionais. Elas promovem de Municipais e Assembleias Legislativas) e es
tivas está o Centro Brasileiro de
bates e o erecem assistência jurídica paços da OAB, além de atender vítimas de
Estudos em Direito e Religião,
e cursos de extensão. intolerância. Tem cerca de 200 associados.
da Universidade Federal de
Uberlândia (MG), e o grupo de
pesquisa Direitos Fundamentais,
da PUC do Rio de Janeiro.
O Observatório
Jurídico da
Liberdade Religiosa,
de Uberlândia (MG),
Grupos de e o Observatório de
Ablirc
pesquisa Liberdade Religiosa
(Olir), estabelecido em
Brasília (DF), monitoram
publicações de leis,
notícias e relató
Comissões de rios sobre o tema.
Frente
Parlamentar Direito e Liberdade Observatórios
Mista Religiosa da OAB

AVANÇOS
Foto: © ???? | Fotolia

Criada em evereiro de 2015, é ormada por


207 deputados e 12 senadores, além de reunir
representantes de várias entidades, entre elas a Igreja
Adventista. Tem o objetivo de denunciar casos de into
lerância religiosa e propor políticas públicas que ajudem
a reduzir os casos de violação do direito de crença.

12 L IB E RD A D E
A proposta de elaboração de
um estatuto jurídico da liber Em setembro de 2017,
dade religiosa tramitou no Congresso o Supremo Tribunal
nos últimos anos, mas o Projeto de Federal (STF) decidiu que o
Lei 1219/2015 oi retirado pelo próprio ensino religioso nas escolas Apesar das diversas leis e
autor. Entre as propostas estava a públicas pode ter caráter derais que garantem o direito
aplicação de multas em casos de con essional. A medida à liberdade religiosa (abaixo), alta
intolerância e violência religiosa. polêmica ainda depende da regulamentação ederal em relação
regulamentação de estados e a questões como a prestação
municípios. alternativa em concursos, escolas
e universidades. O Projeto de Lei
do Senado 564/2015 é uma das
propostas em tramitação que têm
buscado preencher essa lacuna.
Paralelamente, estados e municí
pios têm recorrido à aprovação de
$ Tema de consulta pú
blica no site do Sena leis específcas.
do (goo.gl/bYxuq6), a questão
é bastante controversa, tendo Estatuto da
em vista que a Constituição Liberdade
Federal prevê (no artigo 150) Religiosa
a imunidade tributária para
organizações religiosas.

Fim da imunidade
tributária para Ensino Lacunas na
entidades religioso legislação
religiosas

DESAFIOS

Leis federais que garantem a liberdade de pensamento,


Fontes: CNPq, Disque 100 (2015-2017), Ministério de Direitos

consciência e religião:
bo
: Thia
go Lo - Constituição de 1988 (Artigos 5 o e 19)
ação
Ilustr
- Código Penal (Artigos 140, 149)
- Lei de Execução Penal (Artigo 24)
- Lei da Igualdade Racial (Artigos 23, 24, 25, 26)
- Código de Processo Civil (Artigo 217)
- Estatuto do Idoso (Artigo 10)
Humanos e OAB/SP

- Lei de Abuso de Autoridade (Artigo 3o)


- Lei de Prestação de Serviço Alternativo (8.239/91)
- Lei Geral da Assistência Religiosa às Forças Armadas (6.923/81)

L IB E R D AD E 13
CAPA

COMO OS ADVENTISTAS TÊM AJUDADO NO


COMBATE À INTOLERÂNCIA RELIGIOSA E NA
Foto: Daniel de Oliveira

PROTEÇÃO DO DIREITO DE CRENÇA

HERON SANTANA E MÁRCIO TONETTI

14 L IB E RD A D E
Brasil é o país da diversidade. Isso tam- de é e de crença. Os dados do Relatório sobre In-
bém se aplica à sua paisagem religiosa. tolerância e Violência Religiosa no Brasil (Rivir),
Quando os portugueses aqui chegaram, divulgado em 2016 pela Secretaria de Direitos
encontraram nativos com suas tradições Humanos do governo ederal, con rmam essa
ancestrais e crenças conectadas com a realidade. De acordo com o levantamento, entre
natureza. Por meio dos colonizadores, 2011 e 2015, oram registrados oito assassinatos
o catolicismo passou a compor o mo- comprovadamente motivados por intolerância
saico religioso brasileiro. Algum tempo religiosa. Os piores casos envolvem violência e
depois, o trá co de escravos introduziu desrespeito aos praticantes e locais de culto das
nessa mistura as religiões a ricanas. Por religiões de matriz a ricana, além de discrimi-
sua vez, a imigração contribuiu com a in- nação contra evangélicos, segmento que cres-
serção do protestantismo. ceu signi cativamente nos últimos anos.
Religiosidade indígena, catolicismo ibérico, cultos a rica- Con orme lembra Bernardo Pablo Sukiennik,
nos e protestantismo europeu. Assim oi estabelecida a matriz presidente do Observatório de Liberdade Reli-
religiosa brasileira, um caldeirão de re erências que infuencia giosa (Olir), embora esses sejam os segmentos
ainda hoje a cultura, o credo e as crenças no país. mais prejudicados, até a religião majoritária no
Hoje o Brasil se caracteriza por ser um país laico, ape- país tem so rido hostilidades. “É recorrente a
sar de ter tido o catolicismo como religião o cial por qua- destruição de imagens de santos”, ele exem-
se quatro séculos. No artigo 19, a Carta Magna brasileira pli ica, lembrando a per ormance polêmica do
estabelece que o Estado não pode mani estar pre erência artista nu que destruiu uma imagem de Nossa
religiosa ou conceder privilégios a um segmento religioso Senhora.
especí co. No entanto, o artigo 5o da Constituição Federal Além da violência ísica, a intolerância
expressa que, por ser a liberdade de consciência e de crença religiosa se mani esta de diversas ormas. En-
um direito inviolável, o Estado tre as causas judiciais mais recorrentes estão
deve assegurar o livre exercício aquelas relacionadas ao dia de guarda (veja
dos cultos religiosos e garantir mais nas páginas 22 a 24). Motivo pelo qual
a proteção aos locais de culto e a MESMO COM UM a maior parte das vítimas que procuram os
suas liturgias. CORPO DE LEIS QUE tribunais brasileiros é adventista (45%), como
Além da Constituição do também revelou a última edição do Rivir.
país, existem leis e códigos que BUSCAM PROTEGER O As maiores tensões dizem respeito à jornada
buscam proteger a laicidade e o DIREITO À LIBERDADE de trabalho, bem como à adequação de datas de
respeito à liberdade religiosa. RELIGIOSA NO BRASIL, provas, vestibulares e concursos públicos (saiba
“O ordenamento jurídico bra- mais na página 21).
sileiro ornece um amplo con- O QUE SE VÊ É O
junto de princípios, normas e RECRUDESCIMENTO AVANÇOS E DESAFIOS
regras para proteger a laicidade DA INTOLERÂNCIA O serviço militar obrigatório, que no passado
do Estado, a liberdade de culto já representou um grande desa o para os guar-
e de crença”, con orme escreveu dadores do sábado, hoje já não é um problema
o advogado Humberto Adami tão grande, graças à Lei 8.239, de 1991, que ga-
na cartilha “Liberdade Religiosa e Direitos Humanos”, da rantiu o serviço alternativo.
Universidade Federal Fluminense. Contudo, ainda existem lacunas em ou-
Porém, mesmo com um corpo de leis que buscam prote- tras áreas que projetos de lei que tramitam no
ger o direito à liberdade religiosa e à igualdade entre os credos, Congresso Nacional estão tentando preencher.
o que se vê é o recrudescimento da intolerância. O desa o à De acordo com Damaris Moura, presidente
liberdade religiosa é constante e a vigilância precisa ser per- da Comissão de Direito e Liberdade Religiosa da
manente. “Uma coisa é ter leis; outra coisa é garantir que estas OAB/SP, uma das necessidades é a regulamen-
leis sejam obedecidas”, pondera Helio Carnassale, diretor sul- tação da prestação alternativa em nível ederal.
americano do Departamento de Assuntos Públicos e Liberda- As principais propostas nessa linha incluem
de Religiosa da Igreja Adventista. o Projeto de Lei do Senado 564/2015 e o Pro-
jeto de Lei da Câmara 130/2009, que buscam
PANORAMA DA INTOLERÂNCIA assegurar a prestação alternativa a alunos de
Embora o Brasil possua baixa restrição governamen- escolas públicas e privadas de todos os níveis
tal à liberdade religiosa, não está livre da hostilidade de ensino, bem como a participantes de con-
social. Com requência têm sido registrados incidentes de cursos públicos. O que resolveria, por exemplo,
intolerância, desrespeito e mesmo violência por motivações problemas como o que era en rentado pelos

L IB E R D AD E 15
sabatistas antes de o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) a im de que as pessoas não se encolham nem
ser mudado para dois domingos. Ambos são objeto, inclusi- se calem; (2) criar em cada sede administrativa
ve, de consultas públicas abertas no site do Senado (acesse: da denominação uma liderança institucional,
goo.gl/ QsbRp e goo.gl/EvHj m). mas também leiga, composta por advogados,
uncionários públicos, pro essores universi-
UNIÃO DE ESFORÇOS tários e outros interessados, com o intuito de
Diante dos desa os existentes no país, tem havido um es- ormar uma base de atuação leiga de suporte
orço conjunto em de esa da liberdade religiosa por meio de ao trabalho da liderança da denominação; e (3)
diversas rentes. Em 2004, oi criada pelo pro essor Samuel realizar mais ações, mais movimentos, dentro
Luz a Associação Brasileira de Liberdade Religiosa e Cidada- e ora da igreja. Nosso desejo é apresentar-se
nia (Ablirc). mais para a sociedade, visitar autoridades, nos
Dois anos depois, a OAB/SP estabeleceu a primeira três poderes, e não ter preconceito de nos unir
Comissão de Liberdade Religiosa do país que, além de neste assunto com outras entidades religio-
promover debates e o erecer assessoria jurídica a vítimas sas”, a irma Carnassale.
de intolerância, mais recente- A intenção da Igreja Adventista no Brasil
mente passou a o erecer cur- e na América do Sul é tornar a de esa da liber-
sos de extensão sobre Direito dade religiosa um órum permanente. Voltado
à Liberdade Religiosa. “Hoje, para a prevenção, o programa do departamento
DEFENDER
12 estados e o Distrito Fede- de Liberdade Religiosa para os próximos anos
ral já têm essa comissão e de- O PRINCÍPIO tem como oco principal a estruturação de
zenas de subsecções da OAB FUNDAMENTAL óruns regionais (chamados de Forlir), que un-
também a criaram”, comemora cionem em cada sede administrativa da igreja,
EXPRESSO NO ARTIGO
Damaris Moura, adventista e que reúnam trimestralmente líderes da pasta,
que preside a Comissão de Li- 18 DA DECLARAÇÃO advogados, pro essores universitários e outros
berdade Religiosa da OAB/SP UNIVERSAL DOS interessados no tema para discutir o assunto,
e oi uma das palestrantes analisar se há casos de intolerância na região e
DIREITOS HUMANOS,
da 23 a Con erência Nacional da o erecer apoio às vítimas.
Advocacia, que pela primeira DE 1948, É ALGO QUE De ender esse princípio undamental (ex-
vez abriu espaço para o tema ESTÁ NO DNA DOS presso no artigo 18 da Declaração Universal
da liberdade religiosa. dos Direitos Humanos, de 1948) é algo que
ADVENTISTAS
Em 2015 também ocorreu está no DNA dos adventistas no Brasil e no
o lançamento da Frente Parla- mundo.
mentar Mista de Liberdade Re-
ligiosa no Congresso Nacional. No mesmo ano, o país ainda HERON SANTANA é jornalista e líder do Departamento de As-
suntos Públicos e Liberdade Religiosa da Igreja Adventista para
ganhou o Observatório de Liberdade Religiosa (Olir). Mui- os estados da Bahia, Pernambuco e Sergipe; MÁRCIO TONETTI
tas dessas iniciativas têm sido lideradas ou contado com o é jornalista e editor na Casa Publicadora Brasileira
apoio de advogados, pro essores e outros membros da Igreja
Adventista.
Além de atuar nessas entidades, promovendo a cons-
cientização da sociedade e das autoridades, bem como
maior igualdade, os adventistas têm contribuído para apro- INCENTIVO
undar re lexões acadêmicas (leia nas páginas 26 e 27 a ma-
téria sobre o papel das publicações adventistas na de esa da Em maio de 2017, a sede sul-americana
liberdade religiosa). da Igreja Adventista criou uma meda-
lha para homenagear personalidades na
FÓRUM PERMANENTE área de liberdade religiosa. A insígnia
A Igreja Adventista tem atuado não apenas na de esa de
leva o nome do pastor Domingos Peixoto
seus direitos, mas na proteção do direito de todos. Re letin-
da Silva. Entre suas várias contribuições,
do essa visão, ela se preocupa em promover reuniões inter-
nas ao mesmo tempo em que organiza eventos que envol- Peixoto da Silva trouxe para a América
vam toda a sociedade no debate, como óruns e seminários do Sul o curso de en ermeiro-padioleiro,
realizados com o apoio de outras entidades que de endem programa que ajudou a preparar os jo-
a mesma bandeira. “Temos três metas bem claras: (1) or- vens adventistas para servir à pátria
talecer em nossa própria comunidade a consciência de que como não combatentes.
existem leis que garantem a liberdade de crença e de culto,

16 L IB E RD A D E
EVENTOS
SEÇÃO

A organização de congressos, óruns e estivais de liberdade religiosa


tem sido uma das ormas encontradas pela igreja de envolver membros,
pastores, advogados, autoridades governamentais e a sociedade em ge-
ral no debate. Assim como outras regiões do mundo, o Brasil tem se
envolvido ativamente na promoção desse tipo de evento.

Em maio de 2015, mais de 7 mil pessoas participaram do 1o Festival de Liberdade


Religiosa realizado em solo amazonense. Um dos convidados da programa-
ção oi o Dr. John Graz, considerado uma das maiores autoridades no assunto
em nível mundial. Durante sua passagem pelo Brasil, Graz ainda participou
do 1o Fórum Amazonense em Defesa da Liberdade Religiosa, realizado no
auditório da Assembleia Legislativa do Estado. Em agosto de 2016, a capi-
tal paraense também promoveu encontro de liberdade religiosa envolvendo
pessoas de três estados da região Norte do país. E em agosto de 2017, mais
de 1,3 mil pessoas participaram de um simpósio no Guarujá, litoral paulista.

Em 2014, a Irla e a Associação Brasileira de Liberdade Religiosa e Cidadania


(Ablirc) promoveram o 1o Fórum Sul-Americano de Liberdade Religiosa e
Cidadania. O evento ocorreu no auditório Nereu Ramos, da Câmara dos
Deputados, em Brasília (DF), e reuniu representantes de várias denomi-
nações religiosas e delegações da Igreja Adventista vindas da Argentina,
Bolívia, Chile, Equador, Paraguai, Peru e Uruguai, além de uma comitiva
de todos os estados brasileiros. Um dos palestrantes oi o sociólogo Brian
Grim, presidente da Religious Freedom & Business Foundation.

Em maio de 2013, a capital paulista oi palco do 2o Festival Mundial da Irla,


evento que reuniu mais de 10 mil pessoas no Vale do Anhangabaú. A ce-
lebração levou autoridades civis e líderes de 20 segmentos religiosos a
assumir um compromisso público com a causa, destacou a coexistência
pacífca entre grupos religiosos e procurou dar visibilidade à questão, tra-
zendo o debate das es eras jurídicas e legislativas para a praça pública e
a grande imprensa.
Foto: DSA

L IB E R D AD E 17
GALERIA

DEFENSORES DA CAUSA
A
o longo da história adventista, muitos se destacaram religioso; John Graz, seu sucessor, que tem mais de 40 anos
pelo envolvimento na de esa da liberdade religiosa. de experiência na área e oi o responsável pela criação dos
Entre eles, Jean Nussbaum, o “príncipe” dos diploma- estivais de liberdade religiosa; e Ganoune Diop, senegalês
tas adventistas, pioneiro da liberdade religiosa na Europa e de origem muçulmana que é o atual líder dessa área na
undador da Association Internationale pour la Dé ense de la sede mundial e que, em evereiro de 2017, recebeu o tro éu
Liberté Religieuse (AIDLR) e do periódico Conscience et Liberté; Thomas L. Kane, concedido a personalidades que deram
Bert Beach, autor do livro Ambassador for Liberty (Review and grandes contribuições à de esa dos direitos humanos. Nos
Herald, 2012), que teve uma longa carreira no Departamento últimos anos, muitos pro essores, advogados e membros
de Assuntos Públicos e Liberdade Religiosa da sede mundial também se uniram à liderança da igreja na de esa dessa ban-
da igreja e desempenhou papel importante no diálogo inter- deira. Conheça alguns brasileiros que integram esse grupo.

Alcides Coimbra Edson Rosa

Em atividade há mais de 15 anos, é o mais antigo líder À rente do departamento de Liberdade Religiosa da Igreja
adventista de liberdade religiosa em atividade no Brasil. Como Adventista na América do Sul no período de 2006 a 2013, orga-
secretário-geral da Ablirc por vários anos, atuou na capacita- nizou estivais, óruns, simpósios e outros eventos nacionais
ção de representantes locais de liberdade religiosa. Organizou e internacionais. Também estabeleceu pontes com autorida-
quase uma centena de óruns e simpósios sobre o tema. des e outras denominações na de esa do direito de crença.

Bernardo Pablo Sukiennik Euler Pereira Bahia

Atua como presidente do Observatório da Liberdade Religiosa Presidente do Conselho de Constituintes da Ablirc, o ex-reitor e
(Olir) e é membro titular do Comitê Distrital de Diversidade atual chanceler do Centro Universitário Adventista de São Paulo
Religiosa do Governo do Distrito Federal. Engajar-se nessa mantém um caminho aberto com autoridades civis, políticas e
área lhe trouxe um propósito maior para o exercício do Direito. acadêmicas. No período em que presidiu a Associação Brasileira
das Instituições de Ensino Evangélicas (ABIEE), também teve um
papel estratégico no relacionamento com outras denominações.

Damaris Moura Helio Carnassale


Foto: © ???? | Fotolia

Membro- undadora da Comissão de Direito e Liberdade Mantém uma constante agenda de visitação às autoridades
Religiosa da OAB/SP, a advogada tem realizado palestras ederais, especialmente do Legislativo, a fm de acompanhar
sobre o tema no Brasil e no exterior e contribuído para a projetos de lei. O atual diretor sul-americano do departamento
implantação de comissões em outras partes do país. também criou o Forlir (Fórum Regional de Liberdade Religiosa)
e um manual prático que tem ajudado a capacitar pessoas para
atuar na de esa do direito de crença em suas comunidades.
18 L IB E RD A D E
ENTREVISTA
JOHN GRAZ

MISSÃO DE TODOS
A dedicação de John Graz à de esa da liberdade religiosa tem
Lélio Maximino Lellis
que ver com sua criação e educação ormal. O avô dele oi morto
num campo de concentração nazista por esconder judeus ranceses
Pós-doutor em Direitos Humanos pela Universi-
e ele aprendeu em casa a valorizar a tolerância e de ender o direito
dade de Coimbra (Portugal) e em Direito Cons-
de crença como um elemento básico da dignidade humana.
titucional Comparado pela Columbia University
Doutor em História e Sociologia pela Universidade de Sorbonne
School o Law (EUA), ele desempenhou um pa- (Paris), Graz já viajou por mais de 100 países, participou de óruns
pel undamental ao levar para o meio acadêmi- nos cinco continentes, organizou quatro congressos mundiais e
co as discussões sobre liberdade religiosa. criou os estivais de liberdade religiosa.
Nesta rápida entrevista, o ranco-suíço que atuou como secretário-
geral da Associação Internacional de Liberdade Religiosa (Irla) por 20
anos ala sobre a mentalidade que procurou criar: a de que a de esa
da liberdade religiosa não é trabalho exclusivo dos líderes do depar-
tamento responsável pela área. Na realidade, é uma missão de todos.
Aliás, o envolvimento de pessoas leigas nessa causa é o que tem or-
Marcos Vinícius de Campos talecido o trabalho dos adventistas na promoção do direito de crença.

Foi um dos pioneiros na de esa da liberdade » Qual é a importância da força leiga na defesa da liberdade religiosa?
religiosa no país. Advogado e doutor em Direito, Esse envolvimento é mais importante do que as pessoas imagi-
seu trabalho envolveu orientação e ajuda para nam. Entre os membros das igrejas, há advogados, profssionais de
vítimas de intolerância religiosa. relações públicas, uncionários públicos, policiais, políticos. Ou seja,
pessoas que se relacionam com diversas autoridades. Elas podem
ajudar nossas igrejas a lidar com problemas de intolerância reli-
giosa. Para que o trabalho seja efciente, precisamos trabalhar em
equipe, não apenas o ministro ou líder do departamento. As orças
leigas podem igualmente ser muito efcazes no apoio a congressos,
simpósios e estivais de liberdade religiosa. Teria sido impossível
Samuel Gomes de Lima preencher estádios com até 45 mil pessoas sem um grande envolvi-
mento de nossos membros leigos.
Organizou mais de 130 óruns em vários esta-
dos e mais de 160 simpósios. Passou a de ender » Como os membros da Igreja Adventista têm apoiado essa causa
a causa bem antes de cursar Direito, quando ao redor do mundo?
era pro essor de Língua Portuguesa. O presi- Em vários países, eles estão apoiando iniciativas como a Ablirc
dente da Ablirc sempre procurou levar o tema (Associação Brasileira de Liberdade Religiosa e Cidadania). Vários
se tornaram especialistas no tema e, como resultado, passaram
para ora dos muros da igreja.
a ser conselheiros de governos para essa área. Por estarem na
vanguarda da de esa da liberdade religiosa, com requência os
adventistas são homenageados por che es de Estado e institui-
ções de prestígio.

» Qual é o caminho para desenvolver um trabalho relevante nessa


área?
Siloé Almeida
Primeiramente, pode-se reunir pessoas interessadas no tema e
organizar uma associação de liberdade religiosa. Depois, promover
Como líder do Departamento de Assuntos Pú-
simpósios, congressos e ministrar palestras sobre questões atuais
blicos e Liberdade Religiosa da Igreja Adventis-
Foto: © ???? | Fotolia

que a etem a comunidade ou que sejam de interesse dela. Outro


ta na América do Sul no período de 1995 a 2005,
passo importante é publicar artigos na imprensa local sobre a situa-
organizou vários eventos internacionais e or- ção no mundo. Ao azer isso, esses “embaixadores” serão reconheci-
taleceu o contato com governos, autoridades e dos e apreciados como membros positivos da comunidade. De ender
a imprensa. Além disso, colaborou na ormula- a liberdade religiosa como parte dos direitos humanos é uma ótima
ção de leis estaduais e regionais que garantem orma de praticar os valores e princípios cristãos na sociedade.
a liberdade de crença para todos.

L IB E R D AD E 19
ENTENDA

A VIDA FORA
DOS TEMPLOS
SAIBA QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS DIFICULDADES
ENFRENTADAS NO DIA A DIA POR AQUELES QUE
TÊM O SÁBADO COMO DIA SAGRADO
JHENIFER COSTA

S
êneca, flóso o que viveu na época do Império outros guardadores do sábado continuam en rentando
Romano, certa vez teceu duras críticas aos judeus resistência na sociedade non-stop. É o caso dos adven-
por considerar desvantajoso ter um dia de des- tistas do sétimo dia, que igualmente não trabalham, es-
canso em cada sete. Ele alegava que, com isso, eles per- tudam nem azem negócios durante as 24 horas do dia
diam “quase um sétimo de sua vida em inatividade”. sagrado. Conheça as difculdades en rentadas por eles
Dois milênios depois, não apenas judeus, mas também em di erentes contextos.

NO AMBIENTE DE TRABALHO NO SERVIÇO MILITAR


Não trabalhar aos sábados é um impe- O serviço militar obrigatório também já
dimento para conseguir vaga em mui- representou um grande desafo para
tas empresas. Mesmo aqueles que já os sabatistas. Após a criação da Lei
estão empregados, às vezes en rentam 8.239/1991, o serviço tornou-se alterna-
difculdades de ter o sábado livre. Re- tivo. Porém, militares de carreira ainda
centemente, repercutiu o caso de uma têm difculdades de conseguir dispensa
trabalhadora concursada que, depois de se aos sábados em alguns estados brasileiros.
tornar adventista, oi dispensada por não trabalhar no sétimo dia Há relatos de adventistas que oram demitidos e até presos por se
da semana. No entanto, por decisão da Justiça, posteriormente ela recusarem a violar suas crenças.
oi reintegrada ao quadro de uncionários da empresa.

NOS CONCURSOS PÚBLICOS NAS ESCOLAS E UNIVERSIDADES


Até pouco tempo atrás, os adventistas que Como não requentam aulas nem reali-
prestavam o Exame Nacional do Ensino zam atividades acadêmicas no período
Médio (Enem) precisavam esperar conf- considerado sagrado, os adventistas en-
nados cerca de oito horas para começar rentam lutas para conseguir azer pro-
a azer a prova. A mudança na aplicação vas, trabalhos ou recuperar o conteúdo
para dois domingos benefciou os sabatis- das aulas em outro horário. Na prática, a
tas. No entanto, diversos processos seletivos aplicação do direito à prestação alternativa
de concursos públicos e universidades continuam ocorrendo aos ainda depende da interpretação de escolas e universidades.
sábados. Em alguns casos, os candidatos precisam reivindicar na
Justiça o direito à prestação alternativa.

L IB E R D AD E 21
REPORTAGEM

OS DILEMAS DE QUEM NÃO SEGUE A


FÉ DA MAIORIA TÊM SE REFLETIDO NO
NÚMERO CADA VEZ MAIOR DE PROCESSOS
JULGADOS NOS TRIBUNAIS
ANNE SEIXAS
assar em um concurso público é o so- disciplinares por não ter realizado atividades
nho de muitos brasileiros. Somente em aos sábados”, ela relata.
2016, cerca de 10 milhões de candida- Porém, um dos processos judiciais mais
tos disputaram vagas em órgãos ede- emblemáticos registrados no país nos últimos
rais, estaduais e municipais, segundo anos oi o de Geismario Silva dos Santos, de
a Associação Nacional de Proteção e Marabá (PA). Em 2007, ele se inscreveu no con-
Apoio aos Concursos (Anpac). No en- curso para técnico judiciário em segurança e
tanto, para algumas pessoas, a aprova- transporte. Na primeira etapa, oi aprovado em
ção não depende apenas de dedicação, primeiro lugar. Mas, na ase da avaliação ísi-
disciplina e um bom curso preparató- ca, a prova oi marcada para o sábado. Diante
rio. É o caso dos sabatistas, grupo que disso, o candidato pediu a trans erência do exame
inclui adventistas, batistas do sétimo dia e algumas verten- para o domingo, quando um outro grupo aria a
tes do judaísmo. Para os adeptos desses segmentos religio- mesma avaliação. Porém, os organizadores do con-
sos, prestar concurso público continua sendo um dilema. A curso negaram o pedido.
maior di culdade está na realização de provas que ocorrem Então, ele entrou na Justiça e conseguiu uma
entre o pôr do sol de sexta e o de sábado, período considera- decisão avorável no Tribunal Regional Federal
do sagrado. Motivo pelo qual muitos recorrem ao tribunais (TRF) da 1a Região. Com isso, conseguiu azer
em busca do direito à prestação alternativa. as provas de aptidão ísica no domingo – e oi
Foi preciso que um advogado entrasse com um mandado novamente classi cado em primeiro lugar. Con-
de segurança para que a contadora Patrícia Novis pudesse a- tudo, a União recorreu ao Supremo Tribunal
zer a prova do processo seletivo para o mestrado em Ciências Federal (STF), e Geismario cou impedido de
Contábeis na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) assumir o cargo.
num horário que não confitasse com suas crenças. Outros, no Mais de uma década depois, o STF ainda não
entanto, têm esse direito negado. decidiu se os dias e os horários de concursos pú-
Em sua monogra a, apresentada em 2016 como con- blicos podem ser alterados para garantir a liber-
clusão da graduação em Ciências do Estado, Isabela Soares dade religiosa. O caso de Geismario gera grande
analisou di erentes decisões de magistrados em casos envol- expectativa pelo ato de o julgamento poder ser-
vendo guardadores do sábado. Segundo ela, a alta de con- vir de orientação para os juízes e tribunais das
senso sobre o assunto no meio jurídico, além de criar um instâncias in eriores onde tramitam centenas de
clima de incerteza entre os sabatis- ações que ainda dividem o judiciário.
tas, muitas vezes leva a vereditos que
contrariam direitos undamentais. CAUSAS MAIS FREQUENTES
“O direito à liberdade religiosa Situações como essas con rmam o que oi
ENTRE AS CAUSAS
está expresso na Constituição brasi- constatado no Relatório sobre Intolerância e
leira e também é previsto em tratados JUDICIAIS MAIS Violência Religiosa no Brasil (Rivir), publicado
internacionais rati cados pelo Brasil. RECORRENTES em 2016: entre as causas judiciais mais recor-
Porém, nem sempre esse direito é rentes nessa área estão aquelas relacionadas ao
NO CAMPO DA
assegurado aos cidadãos. Muitos dia de guarda. Isso ajuda a explicar por que a
concursos públicos preveem a sele- LIBERDADE maior parte das vítimas que procuram os tribu-
ção em dia de sábado", acrescenta. RELIGIOSA nais brasileiros é adventista (45%).
Ela conta que um dos casos que Foi no ambiente de trabalho que teve origem
ESTÃO AQUELAS
chamaram sua atenção oi o do sol- a maior parte das ações judiciais (31%) analisa-
dado Leandro Sudré, adventista RELACIONADAS AO das no relatório, a maioria (42%) contra empre-
que passou em concurso para bom- DIA DE GUARDA. sas e o próprio governo.
beiro militar, mas não conseguiu se Um caso que envolveu um morador de Caicó
ISSO AJUDA A
graduar por não ter realizado ativi- (RN) exempli ca esse tipo de situação. Depois
dades no dia de sábado. Ele entrou EXPLICAR POR de se tornar adventista, o uncionário da Com-
com recurso, mas teve o pedido QUE A MAIOR panhia Energética do Rio Grande do Norte
Foto: © Natalya Lys | Fotolia

inde erido pelo Tribunal de Justiça (Cosern) pediu que a empresa adequasse seu
PARTE DAS VÍTIMAS
de Minas Gerais. “Todos os argu- repouso semanal, a m de ter o sábado livre.
mentos possíveis oram utilizados QUE PROCURAM No entanto, ele teve o pedido negado. Na oca-
pelo Tribunal para negar-lhe esse OS TRIBUNAIS sião, a empresa alegou que o uncionário havia
direito. Ele passou em todas as dis- trabalhado durante 28 anos em jornada que in-
BRASILEIROS É
ciplinas, cumpriu a carga horária cluía os sábados e que somente agora, em razão
do curso, mas responde a processos ADVENTISTA de ter modi cado suas convicções religiosas,

L IB E R D AD E 23
buscava proteção judicial. Em 2011, o caso oi parar
na Justiça. No entanto, em junho de 2015, a Primei- O QUE DIZEM OS PROCESSOS
ra Turma do Tribunal Superior do Trabalho deci-
diu que a companhia de energia deveria adequar o
repouso semanal do trabalhador adventista. Desde 2012, tem crescido o número de de-
Como nesse caso, a grande maioria dos danos e mandas judiciais relacionadas à intolerância e
tipos de violência que têm chegado aos tribunais do violência religiosa. Veja quais grupos mais re-
país são de ordem psicológica, motivados, por exem- correram aos tribunais, os principais tipos de
plo, pela escolha imposta aos membros de determi- violência e os locais em que mais ocorreram
nadas religiões: abdicar do direito de participar de violações nos casos que envolveram os 110 pro-
atividades pro ssionais, concursos públicos e vesti- cessos analisados no período de 2011 a 2015.
bulares ou in ringir suas crenças religiosas. Aspecto
que a eta diretamente os sabatistas.
“Assim, o exercício pleno do direito à objeção
de consciência no Brasil e ora dele ainda é um
enorme desa o em instituições públicas e priva-
RELIGIÃO
das, empresas, escolas e universidades, governos
e democracias”, a rma Damaris Moura, presidente
DAS VÍTIMAS
da Comissão de Direito e Liberdade Religiosa da
OAB/SP. “Cabe à sociedade civil participar da luta 45% ADVENTISTAS
pela liberdade religiosa, não apenas reivindicando
direitos e scalizando o Poder Público, mas também
buscando o diálogo”, acrescenta Emerson Almeida 11% EVANGÉLICAS
Lima Junior, presidente da Comissão de Direito
e Liberdade Religiosa da OAB no Pará.

CAMINHO DO DIÁLOGO
Felizmente, nem sempre o direito das minorias re-
ligiosas depende de uma batalha judicial para ser reco-
nhecido. Recentemente, alunos do curso de Medicina TIPO DE
da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus VIOLÊNCIA
de Botucatu, comemoraram o que oi considerado
por eles um ato histórico: a possibilidade de realizar INSTITUCIONAL
a prova de residência médica em horário alternativo. 42% praticada por organizações
públicas e privadas
“Há pelo menos dez anos, a prova era realizada aos
sábados e não houve permissão, pelo menos durante
esse período, para que os guardadores do sábado pu- 30% PSICOLÓGICA
dessem realizá-la em outro horário”, relata Andressa
Liz Cândido, estudante adventista. A conquista veio
do diálogo.
Luigi Braga, assessor jurídico da Igreja Adven-
tista na América do Sul, acredita que o melhor
caminho não seja “judicializar” o debate, embora
a igreja esteja buscando melhorar o diálogo com LOCAL DAS
quem az e aplica as leis. “Nosso grande desa io não VIOLAÇÕES
é ir para o poder judiciário, a im de convencer um
juiz, mas mostrar à nação a importância do direito
de crença”, ressalta. “Queremos menos tribunal e 31% AMBIENTE DE TRABALHO

mais diálogo, o que implica lutar mais por liberda-


de religiosa do que pela reivindicação de direitos”,
sublinha Erton Köhler, líder da denominação no 25% ESCOLAS E UNIVERSIDADES
continente.

ANNE SEIXAS é jornalista (com colaboração de Márcio Tonetti) Fonte: Relatório sobre Intolerância e Violência Religiosa no Brasil (2011-2015)

24 L IB E RD A D E
SAIBA MAIS

COMO FUNCIONA A
ASSISTÊNCIA JURÍDICA DA IGREJA
MÁRCIO TONETTI

+
DE 90 ADVOGADOS trabalham hoje nas sedes administrativas da igreja em
todo o Brasil, ormando um grande corpo jurídico a serviço dos membros.
Saiba como esse trabalho unciona.

BUSCANDO AJUDA
Para ter acesso a esses
serviços, primeiramen
te a pessoa procura o
pastor local que, por
sua vez, levará o caso
para a sede adminis
ANÁLISE DA SITUAÇÃO
trativa regional (cha
mada de Associação Ali, cada situação é
ou Missão). analisada. Se neces
sário, são ornecidos
modelos de reque
rimentos e outros
documentos.

ASSESSORIA JURÍDICA
Havendo viabilidade, os
próprios advogados da
igreja poderão atuar dire
tamente no caso.
CASOS ESPECIAIS
Situações mais complexas acabam
envolvendo advogados de outros
Ilustração: Marta Irokawa

níveis administrativos. Para casos


como esses, a igreja dispõe de um
banco de jurisprudências, deci
sões e teses que é compartilhado
entre os integrantes desse corpo
jurídico.

L IB E R D AD E 25
LITERATURA

O LEGADO LITERÁRIO DOS ADVENTISTAS


PARA A CAUSA DA LIBERDADE RELIGIOSA

RODRIGO FOLLIS

pesar de vivermos em plena era digital, marcada pelas Já em 1906, os adventistas começaram a publicar
in ormações de consumo rápido, os livros continuam a revista Liberty. Aquela que se tornou, naquele
tendo seu espaço e exercendo grande infuência na tempo, a única revista sobre liberdade religiosa
vida das pessoas. Bons livros têm o poder de agregar das Américas, continua sendo produzida até hoje
conhecimento, revelar novos horizontes, recon gu- (acesse: libertymagazine.org).
rar o pensamento, preservar valores, trans ormar o Atingir diversos públicos por meio dessas
mundo, moldar civilizações. publicações continua sendo o objetivo da Igreja
Na história Ocidental, os livros também oram Adventista hoje. Além de ter uma revista voltada
imprescindíveis para promover causas importantes, para o público em geral, a igreja tem procurado
como a da de esa da liberdade religiosa. Um exem- conscientizar seus membros sobre o tema e mos-
plo oi o que aconteceu nos Estados Unidos em trar a importância da participação leiga na de esa
meados do século 19, quando a literatura cumpriu dessa bandeira. Com esse objetivo, oi publicado
um papel determinante na popularização do debate em 2014 um manual intitulado Church Ambassa-
sobre esse direito undamental. dor: A Practical Guide For All Who Represent the
Os adventistas oram um dos grupos que usa- Church and Its Institutions (Embaixador da Igreja:
ram a página impressa para esse propósito. Além Um Guia Prático Para Todos que Querem Re-
de promover o debate na arena política, eles po- presentar a Igreja e Suas Instituições). Traduzi-
pularizaram a discussão sobre liberdade religiosa do para o português, o material oi escrito pelo
através de publicações. Em 1884, oi publicado Dr. John Graz, reconhecido internacionalmente
pela primeira vez o periódico Sabbath Sentinel, que por sua longa atuação na causa da liberdade reli-
teve 500 mil exemplares distribuídos. Em 1886, giosa. Bert Beach, seu antecessor no Departamen-
este passou a ser publicado como The American to de Assuntos Públicos e Liberdade Religiosa da
Sentinel. Alguns artigos divulgados no periódico sede mundial da Igreja Adventista, igualmente
viraram livro. É o caso do clássico The National deixou um legado literário. Um de seus livros oi
Foto: © Brian Jackson | Fotolia

Sunday Law (1889), que resultou da argumentação intitulado Ambassador for Liberty (Embaixador da
de Alonzo T. Jones perante a Comissão do Senado Liberdade).
Americano, em 1888, contra o projeto de uma lei
dominical nacional. Em evereiro de 1889, a igre- PRODUÇÃO ACADÊMICA
ja nomeou um comitê que publicou livros e outros Nos últimos anos, os adventistas também procura-
impressos sobre questões de liberdade religio- ram ampliar sua produção cientí ca. Um exemplo oi
sa, material conhecido como The Sentinel Library. o surgimento do periódico intitulado Fides et Libertas

26 L IB E RD A D E
(Fé e Liberdade), material publicado pela Associação do Estado Laico, com sugestões conceituais sobre
Internacional de Liberdade Religiosa (Irla, na sigla limites e práticas da liberdade religiosa. “Man-
em inglês) que está disponível no seguinte endereço: tendo a separação entre Igreja e Estado, cabe-nos
irla.org/ des-et-libertas. participar das discussões que a etam toda a so-
Um dos acadêmicos adventistas que têm se ciedade, principalmente aquelas que constituem
destacado na produção de pesquisas nessa área é a base das instituições religiosas: a pregação e o
o doutor Nicholas Miller, pro essor da Universi- culto”, Marques ressalta.
dade Andrews (EUA). Entre suas principais obras Outra importante iniciativa é a revista cien-
estão 500 Years of Protest and Liberty (500 anos de tí ica mantida pela Universidad Adventista del
Protesto e Liberdade) e The Religious Roots of The Plata (Argentina). Intitulada Derecho, Estado y
First Amendment: Dissenting Protestants and The Se- Religión, a publicação é coordenada pelo doutor
paration of Church and State (As Raízes Religiosas Juan Martín Vives, jovem pesquisador que tem
da Primeira Emenda: Protestantes Dissidentes e se destacado no assunto da liberdade religiosa no
Separação de Igreja e Estado). contexto sul-americano.
No contexto brasileiro, um dos mais recentes Em tempos de con usão ideológica e intolerân-
es orços oi o lançamento do livro Fundamentos cia, a igreja tem procurado mostrar que a liberdade
Jurídicos da Liberdade Religiosa (Unaspress, 2017), religiosa precisa continuar sendo de endida para o
organizado pelos doutores Lélio Maximino Lellis bem de toda a humanidade.
e Carlos Hees, do curso de Direito do Centro O incentivo à constante discussão do tema não
Universitário Adventista de São Paulo, campus apenas por parte dos adventistas, mas também por
Engenheiro Coelho. outras denominações e interessados em promover
Igor Marques, pro essor da gradução, destaca essa causa, parece ter se refetido no aumento do
a in luência que pesquisadores adventistas brasi- número de dissertações, teses e livros sobre liber-
leiros têm exercido no cenário nacional e inter- dade religiosa. Quanto mais escrevermos e alarmos
nacional. Em julho de 2016, por exemplo, Josias sobre o assunto, mais protegido estará o direito à
Bittencourt, pós-doutor em Direitos Fundamen- liberdade de crença e às demais liberdades que dela
tais e Justiça Constitucional pela Universidade derivam, inclusive a de imprensa.
de Coimbra (Portugal), oi premiado no concur-
so da Associação Internacional para a De esa da RODRIGO FOLLIS, mestre em Comunicação Social e doutor em Ciên-
cias da Religião, é pro essor no Unasp e diretor da Unaspress
Liberdade Religiosa (AIDLR). Em sua tese, ele
de endeu a desmisti icação da neutralidade total

L IB E R D AD E 27
[LITURGIA
SEÇÃO

O DIREITO E OS LIMITES DAS PRÁTICAS


LITÚRGICAS REFLETEM O GRAU DE
COMPROMISSO DE UMA SOCIEDADE
COM A LIBERDADE RELIGIOSA

STANLEY BOTTI FERNANDES

oder cultuar sem impedimentos, não apenas na visão, a Constituição brasileira de 1988 assegurou
es era doméstica, mas também em outros espaços “o livre exercício dos cultos religiosos” e garantiu “a
ísicos, constitui um dos mais importantes direi- proteção aos locais de culto e a suas liturgias” (artigo
tos decorrentes da liberdade religiosa. Na realida- 5o, inciso VI).
de, esse direito é sua exteriorização. Ou seja, ga-
rantir que qualquer pessoa possa mani estar suas LIMITES
crenças religiosas por meio de práticas litúrgicas Como todos os direitos undamentais, o direito
é um indicador de que se respeita esse princípio ao livre exercício de culto não é absoluto. A Declara-
undamental. ção das Nações Unidas mencionada anteriormente
Foto: © Prixel Creative | Lightstock

De acordo com a Declaração sobre a Eliminação prevê que a liberdade de mani estar a própria reli-
de Todas as Formas de Intolerância e Discriminação gião, ou as próprias convicções, está sujeita “às limi-
Fundadas na Religião ou nas Convicções, promulga- tações prescritas na lei e que sejam necessárias para
da pela ONU em 1981, a liberdade de pensamento, proteger a segurança, a ordem, a saúde ou a moral
de consciência, de religião ou de convicções com- pública ou os direitos e liberdades undamentais dos
preende o direito de “praticar o culto e de celebrar demais”.
reuniões sobre a religião ou as convicções, e de un- Igualmente, a Constituição Brasileira também
dar e manter lugares para esses ns”. Refetindo essa impõe limites às práticas litúrgicas. Essas restrições

28 L IB E RD A D E
são absolutamente legíti- a medida restritiva será considerada desproporcional
mas, haja vista que visam e, portanto, ilegítima.
a salvaguardar o exercí- Ademais, as medidas restritivas previstas em
cio de direitos e liberda- lei não podem di cultar desproporcionalmente
des undamentais, entre o exercício do culto e de suas liturgias de modo
eles, inclusive, o próprio a torná-los impraticáveis. Existem leis editadas a
direito ao livre exercí- pretexto de proteger direitos e liberdades unda-
cio de culto. Imagine-se, mentais, mas que impedem, por exemplo, a realiza-
hipoteticamente, o uncio- ção de críticas a determinados credos religiosos ou
namento de dois templos a valores e comportamentos de endidos por gru-
de credos religiosos distin- pos sociais. Esse tipo de restrição esvazia o núcleo
tos, porém situados lado a essencial do direito ao livre exercício de culto, que
lado. É evidente que, se os compreende, entre outros, o ensino, a pregação e
adeptos de um dos credos a divulgação do credo religioso. A esse respeito, a
religiosos exercerem o cul- Comissão de Veneza a rma que “deve ser possível
to e suas liturgias utilizando criticar ideias religiosas, mesmo que tais críticas a e-
equipamentos sonoros em tem os sentimentos religiosos de algumas pessoas”.
volume excessivo, o direito A mesma comissão também averbou em seu rela-
ao livre exercício do culto tório sobre liberdade religiosa
do outro credo religioso e liberdade de expressão que
será comprometido. “um insulto a um princípio ou
No entanto, nossa Carta a um dogma, ou a um represen- AS RESTRIÇÕES AO
Magna estipula requisitos tante de determinada religião
DIREITO DE LIVRE
de ordem ormal e material não necessariamente signi ca
para que a restrição a esse di- um insulto a um indivíduo que EXERCÍCIO DE CULTO
reito não ultrapasse limites. crê naquela religião”. SÃO ILEGÍTIMAS
No âmbito ormal, a Cons- Além disso, as restrições
QUANDO TÊM
tituição Federal recorreu à ao direito de livre exercício
órmula liberal “rule o law, de culto são ilegítimas quando POR EFEITO CRIAR
not o men” (governo das têm por e eito criar embaraço EMBARAÇO PARA
leis, não dos homens, em tra- para determinados credos reli-
DETERMINADOS
dução livre), que vislumbra giosos. Um caso emblemático
nos parlamentares, como re- oi o da lei aprovada na Ale- CREDOS RELIGIOSOS
presentantes do povo, uma manha em 21 de abril de 1933
proteção contra restrições (Gesetz über das Schlachten
arbitrárias e subjetivismos von Tieren), que vedava o abate de animais sem
de toda ordem. prévia sedação. De acordo com o Tribunal Cons-
Já no que se re ere aos requisitos de ordem ma- titucional Federal alemão, o objetivo não era proi-
terial, entende-se que deve haver, primeiramente, bir o so rimento animal, mas sim impedir que os
uma conexão racional entre o objetivo de salvaguar- judeus pudessem cumprir as cerimônias e ritos de
dar outros direitos e liberdades undamentais e os sua religião.
meios empregados para tanto. No início da década Em suma, todos desejam viver em uma sociedade
de 1990, por exemplo, ganhou repercussão o ca- que assegure a liberdade de realizarmos nossos pro-
so de Minos Kokkinakis, testemunha de Jeová jetos de vida e de sermos tratados com igual consi-
que oi condenado na Grécia com base em uma lei deração e respeito. Assim, cabe ao Estado, ao editar
que restringia o proselitismo religioso. Porém, a normas que restrinjam o exercício de culto religioso,
Corte Europeia de Direitos Humanos reverteu o ônus de o erecer razões públicas que qualquer pes-
a condenação, entendendo que a medida adotada – soa razoável não poderia rejeitar. A nal, qualquer
reclusão – era desproporcional e desnecessária. In e- integrante de um grupo social minoritário certamen-
lizmente, hoje na Rússia legislação semelhante tem te não gostaria de car em uma situação vulnerável
ameaçado a evangelização. apenas porque a maioria acredita que sua orma de
O direito ao livre exercício de culto só deve ser culto seja considerada errada ou imoral.
restringido quando or comprovado que a restrição
é realmente necessária para a preservação de outros STANLEY BOTTI FERNANDES, mestre em Ciência Política e Direito, é
procurador do Ministério Público de Contas do Estado do Pará
direitos e liberdades undamentais. Não sendo assim,

L IB E R D AD E 29
DIÁLOGO

COMO OS ADVENTISTAS SE RELACIONAM


COM OUTRAS DENOMINAÇÕES
SEM CAIR NO ECUMENISMO

GANOUNE DIOP
TRADUÇÃO: FERNANDA ANDRADE

Foto: © Jenny Sturm | Fotolia

30 L IB E RD A D E
s adventistas do sétimo dia ocupam uma posição vão undamentalmente contra nossos valores
privilegiada no que tange ao relacionamento com essenciais. Além disso, honestidade quanto ao
pessoas de outras religiões do mundo. Existem inter- conteúdo de nossas crenças deve, portanto, ser
secções de valores que podem uncionar como ponto claramente expressa e explicada àqueles a quem
de partida para conversas, diálogos e parcerias com proclamamos a soberania de nosso Senhor e
o intuito de melhorar as condições de vida de toda a Salvador Jesus Cristo.
amília humana. O evangelho pregado pelos adventistas é
Por exemplo, os adventistas do sétimo dia adota- integral e se concentra em todos os aspectos
ram a abstinência de bebidas alcoólicas, um ponto em da existência e experiência humana: espiritual,
comum com os muçulmanos. Muitos adventistas do sétimo dia também se mental, emocional, ísico, social e relacional.
abstêm de comer carne, ponto em comum com as religiões que avorecem o O adventismo de ende a dignidade de todo ser
vegetarianismo, como o hinduísmo e o budismo. A maioria dos adventistas humano, independentemente de origem étnica,
se abstém de ca é ou bebidas à base de ca eína, ponto em comum com os cor, sexo ou status social. Seu persistente com-
mórmons. Os adventistas que comem carne se abstêm das que são conside- promisso e determinação de aliviar o so rimento
radas imundas, ponto em comum com os judeus. e melhorar a vida das pessoas em muitas partes
Em um nível mais pro undo, a crença na Criação e na segunda vinda do mundo é um sinal claro de que a esperança
de Jesus Cristo é compartilhada por religiões que en atizam a intervenção está no cerne da sua mensagem. Isso, certamen-
escatológica divina para restaurar a justiça e a paz no mundo. te, encontra uma resposta positiva de muitas
Há premissas losó cas que infuenciam o compromisso dos adven- partes do mundo onde forescem as religiões
tistas do sétimo dia de construir pontes com pessoas de outras denomina- mundiais.
ções religiosas, ou com ateus e agnósticos. Todas convergem na convicção
de que Jesus Cristo é o Desejado de Todas as Nações, isto é, Ele é o Deus UNIDADE SEM ECUMENISMO
que as pessoas desejam pro undamente conhecer, ainda que não estejam Ao saber que a Igreja Adventista está repre-
conscientes disso. sentada nas reuniões de organizações ecumêni-
Existem várias declarações o ciais acilmente acessíveis que ornecem cas cristãs, alguns perguntam como exatamente
diretrizes a respeito de como os adventistas devem se relacionar com outras os adventistas veem a unidade cristã, as relações
religiões e organizações religiosas. Um exemplo é o Livro de Regulamentos, inter-religiosas e o ecumenismo. Outra dúvida
que apresenta duas seções que orientam recorrente está relacionada à razão de optarmos
o relacionamento da igreja com outras por aceitar e manter apenas o status de obser-
denominações religiosas, intituladas vadores e não de membros nas organizações
Guia Para a Missão (seção A 20, p. 78-84) PARA OS ecumênicas cristãs.
e Assuntos Públicos e Liberdade Religio- ADVENTISTAS, A resposta é simples: é legítimo que todas
sa (seção FL, p. 421-425). Elas giram em as pessoas de boa vontade se unam para sal-
A LIBERDADE
torno de uma abordagem positiva para var e proteger pessoas e a rmar a importância
com outras religiões e a necessidade da RELIGIOSA É O e o caráter sagrado da vida. É inclusive urgente
liberdade religiosa e autonomia para que ANTÍDOTO PARA que mais pessoas se associem para tornar este
todos possam testemunhar em avor dos mundo um lugar melhor para todos os seres
O ECUMENISMO
princípios de suas convicções. Adota-se humanos, contribuindo para melhorias na saú-
a mesma abordagem quando se trata de SINCRETISTA de, educação e no trabalho humanitário com
pessoas que não pro essam nenhuma toda a dignidade, liberdade, justiça, paz e ra-
religião, seguidoras de loso as pura- ternidade. No cumprimento de sua missão, os
mente seculares. adventistas procuram se misturar com outras
organizações cristãs.
LIBERDADE PARA A MISSÃO No que se re ere à sua posição em organizações
A história das relações entre religiões e ideologias concorrentes que le- cristãs globais, a Igreja Adventista do Sétimo Dia
varam a inúmeras guerras, con rontos, intimidações, abusos e violência em tem ocupado o status de observadora nas reuniões
todas as suas ormas torna necessário delinear da maneira mais clara possível e estado aberta à cooperação com outras igrejas
nossa compreensão de outras religiões e a natureza do alcance de nosso tes- em áreas que não comprometam sua identidade,
temunho a elas. missão e mensagem. A regra geral é não se tornar
Um valor undamental promovido pelos adventistas no cenário mun- membro de qualquer corpo ecumênico que erra-
dial é a liberdade de escolha religiosa. No adventismo, esse privilégio é dique ou apague a distinta voz adventista em re e-
considerado um direito humano. Portanto, embora caracterizados por um rência à soberania de Deus, o Criador, ao sábado e
senso de missão para com todos os grupos de pessoas, os adventistas insis- à segunda vinda de Cristo.
tem na liberdade de cada indivíduo de manter suas convicções. Coerção, Para os adventistas, a liberdade religiosa é o
intimidação e manipulação da vulnerabilidade ou ingenuidade das pessoas antídoto para o ecumenismo sincretista. É um

L IB E R D AD E 31
chamado para abraçar a verdade com a inalienável liberdade de consciência, outras denominações que estão empenhados em
de expressar publicamente suas crenças, de convidar outros para comparti- ganhar almas para Cristo.”
lhar de suas convicções ou de se unir à sua comunidade de é.
PRINCÍPIO MAIOR
COMPREENSÃO CORRETA No entanto, a unidade, embora claramente
Um sutil conjunto de tópicos inter-relacionados que necessita de muita desejada por Deus, não é o valor supremo. A
clareza é a questão da unidade e do ecumenismo. Às vezes, outras palavras, lealdade à verdade de Deus tem precedência.
como “colaboração”, “parceria” e “diálogo inter-religioso”, são trazidas Por isso, o princípio que infuencia as relações
às conversas como se tivessem o mesmo signi cado. A palavra “ecumenis- dos adventistas com outros cristãos tem dois
mo” é usada de maneira di erente em contextos variados. O termo pode se aspectos inseparáveis: a verdade e a liberdade
re erir à unidade entre as igrejas cristãs religiosa.
do mundo, mas as pessoas costumam A Igreja Adventista do Sétimo Dia e várias ou-
usá-lo para descrever um sentido geral tras denominações que não se uniram aos corpos
de relações cordiais, diálogo ou parce- ecumênicos organizados se opõem ao ecumenis-
CADA ASPECTO
ria para um projeto. Rotular qualquer mo como doutrina ou como meio de undir igrejas
parceria entre os cristãos como ecume- DO ENGAJAMENTO cristãs em uma igreja mundial (o que pressupõe a
nismo doutrinário pode revelar alta ADVENTISTA perda da identidade denominacional distintiva).
de conhecimento, instrução e mesmo Além disso, os adventistas e outros crentes não
COM QUALQUER
exagero. aderem a alianças sincretistas que diminuem a
Cada aspecto do engajamento INSTITUIÇÃO, importância e o peso da verdade, especialmente
adventista com qualquer instituição, ÓRGÃO OU quando as crenças de algumas igrejas não estão
órgão ou organização, seja eclesiás- em harmonia com a verdade bíblica revelada. Em
ORGANIZAÇÃO,
tica ou política, desenvolve-se prin- realidade, a unidade doutrinária entre as igre-
cipalmente com base na razão para a SEJA ECLESIÁSTICA jas cristãs é enganosa e inatingível, a menos que
existência da igreja: ser “sal” e “luz” OU POLÍTICA, as igrejas percam suas crenças distintivas e se
do mundo (Mt 5:13-17), trazendo es- unam a uma das tradições religiosas, seja ela cató-
DESENVOLVE-SE
perança para a humanidade enredada lica romana, ortodoxa oriental, anglicana, re or-
em todo tipo de maldade. PRINCIPALMENTE mada, evangélica ou pentecostal.
Para cumprir essa missão, os adven- COM BASE NA Embora considere outros cristãos irmãos e
tistas seguem o método de Jesus. Ele irmãs em Cristo, o princípio que levou a Igre-
RAZÃO PARA A
serviu às pessoas, curou-as e alimentou- ja Adventista do Sétimo Dia a não ser membro
as sem esperar nada em troca. Ele as ez EXISTÊNCIA DA de uma união de igrejas organizada oi a liber-
saber e sentir que eram livres para es- IGREJA: SER “SAL” E dade religiosa. A liberdade religiosa implica
colher seu uturo com ou sem Ele. A o direito irrestrito de compartilhar as con-
“LUZ” DO MUNDO
liberdade de consciência é importante vicções religiosas e de convidar outros a se uni-
para Jesus. Sem essa liberdade, nenhuma rem à própria tradição cristã sem ser acusado
aliança é genuína. Isso ocorre porque o nem rotulado de proselitista. Assim, a principal
amor não pode ser orçado. preocupação dos adventistas é a possibilidade
de serem impedidos de compartilhar suas con-
RELAÇÕES ENTRE IGREJAS vicções com outros, independentemente de
Os adventistas reconhecem outros cristãos sinceros que con es- crença religiosa ou losó ca.
sam a verdade de Jesus como membros do corpo de Cristo, mas não A liberdade de religião ou crença é um
assumem participação ormal na estrutura de organizações ecumênicas inegociável dom de Deus que deve caracteri-
principalmente por causa da liberdade religiosa. A adesão a um corpo zar a liberdade de todo cristão ou comunida-
ecumênico limitaria a liberdade de compartilhar as próprias convicções de cristã para compartilhar suas convicções
com todos os demais. e convidar outros a se unirem à sua tradição
Apesar de não azerem parte das organizações ecumênicas que exigem cristã. Obviamente, por causa da missão, os
adesão, eles des rutam do status de convidados ou observadores nas reu- cristãos podem se unir para testemunhar de
niões. A cooperação com outras denominações cristãs está de acordo com Cristo a um mundo que necessita Dele com
a visão que a Igreja Adventista do Sétimo Dia tem dos outros cristãos. A muita urgência!
Associação Geral, órgão administrativo mundial, escreveu no seu Livro de
Regulamentos que os líderes da igreja “reconhecem todas as organizações que GANOUNE DIOP é diretor mundial do Departamento de
Assuntos Públicos e Liberdade Religiosa da Igreja Adventis-
elevam Cristo perante os homens como parte do plano divino de evangeliza- ta e secretário-geral da Associação Internacional de Liber-
ção do mundo, e [...] têm grande estima pelos homens e mulheres cristãos de dade Religiosa (Irla)

32 L IB E RD A D E
Foto: © ???? | Fotolia
PENSE NISSO

EM UMA SOCIEDADE CIVILIZADA


E COM PRINCÍPIOS RELIGIOSOS,
ESSES DEVERIAM SER VALORES
NATURAIS, MAS NEM SEMPRE
Foto: © lgp71 | Fotolia

TEM SIDO ASSIM

ERTON KÖHLER

34 L IB E RD A D E
ma das marcas históricas da Igreja Adventista do Sétimo Dia Sete princípios podem ajudar a apro un-
é sua de esa da liberdade, tanto religiosa quanto de expres- dar esta visão:
são. Desde nossa origem temos levantado essa bandeira não 1. Princípio da prevenção. Liberdade e
apenas para de ender nosso direito de crer, pregar e adorar, respeito devem ser moldados em época
mas também para compartilhar os princípios de liberdade e de paz para evitar que sejam impostos em
respeito com todos. Através desses princípios destacamos tempo de crise.
que cada ser humano precisa ter o direito de se expressar 2. Princípio da abrangência. A verdadeira
paci camente, ouvir di erentes pontos de vista e azer suas liberdade religiosa precisa ser inclusiva,
próprias escolhas. para todos, e não apenas para aqueles que
Liberdade e respeito representam a visão do próprio pensam como nós.
Deus. Ele criou os seres humanos de maneira única, com a 3. Princípio da consequência. Temas que
capacidade de pensar e se expressar e liberdade para tomar parecem não ter relação direta com liber-
as próprias decisões. Apresentou Sua vontade, deu orien- dade religiosa, mas que em consequência
tações claras, criou parâmetros de nidos, mas deixou nas podem limitá-la, como os dias de guarda, a
mãos deles a decisão nal. Acabaram azendo escolhas bem origem da vida ou questões ligadas à sexua-
di erentes daquelas que Deus havia recomendado. Apesar lidade, exigem nossa de esa proativa.
das consequências que tiveram de en rentar, Ele os respei- 4. Princípio do respeito. Quem se diz re-
tou, continuou a amá-los e consolidou o plano de enviar Seu presentante de Deus precisa dominar a
lho para salvá-los. Se essa oi a atitude do próprio Deus, arte de discordar sem desrespeitar. Não
não deveria ser também a nossa? podemos usar o mesmo vocabulário pejo-
Em uma sociedade civilizada e com princípios religiosos, rativo, a manipulação da opinião pública,
liberdade e respeito deveriam ser valores naturais, mas nem ou os atos de agressão usados pelos in-
sempre tem sido assim. Basta observar que, enquanto quase tolerantes. A liberdade de alguns nunca
90% dos habitantes do mundo pro essam alguma religião, o pode a etar o direito de todos.
que deveria promover um ambiente de paz, amor e tolerân- 5. Princípio da relevância. A sociedade
cia, cerca de 70% da população vive em regiões com algum respeita instituições que são mais rele-
tipo de restrição à liberdade religiosa. Como em nossa re- vantes em suas atitudes do que em seus
gião a maioria dos países tem baixa restrição, acabamos nos discursos. Ações que açam da sociedade
acomodando com o tema. Mas dia a dia, por imposições le- um lugar melhor para todos sempre abri-
gais, movimentos sociais ou até mesmo rivalidades religio- rão portas.
sas, o cenário vai mudando. 6. Princípio da coerência. A melhor de-
Devemos ser gratos a Deus esa da liberdade religiosa é a coerência
pela liberdade o cial, mas SE, PARA DAR denominacional. Quando a pregação so-
também nos preparar para LIBERDADE A bre amor, delidade, valores, honestidade
encarar os desa os que têm e solidariedade não é apenas uma teoria
surgido nesta área.
ALGUNS, OUTROS dos templos, mas uma realidade pessoal e
Por outro lado, esses TIVEREM DE institucional, terá como resultado respei-
princípios são uma via de PERDÊ-LA, to e admiração.
mão dupla. Assim como de- 7. Princípio da independência. Liberdade
vemos de ender a liberdade
ESTAREMOS religiosa respeita a individualidade e não
e usá-la sempre com respeito VOLTANDO À IDADE se con unde com ecumenismo. A luta
a qualquer crença ou pessoa, MÉDIA, QUANDO deve ser de todos, mas as crenças preci-
também precisamos rece- sam continuar sendo de cada um. Sempre
A RELIGIÃO FOI
ber o mesmo direito. Não que houver respeito dentro do ambiente
podemos aceitar nenhuma USADA COMO MEIO religioso, haverá maior aceitação dentro
imposição que tente calar a DE OPRESSÃO do ambiente secular.
expressão de nossa é, nem De endendo, vivendo e comparti-
daqueles que a pregam e se- lhando estes princípios de liberdade e
guem. Mas precisamos azê-lo em um ambiente de de esa respeito, estaremos simplesmente encar-
de ideias e não de luta por direitos. A nal, não somos mi- nando os ensinamentos de Jesus: “Que
litantes, nem cremos na imposição de nossos valores sobre vos ameis uns aos outros; como Eu vos
aqueles que não pro essam nossa é. Se, para dar liberdade amei” (João 13:34).
a alguns, outros tiverem de perdê-la, estaremos voltan-
do à Idade Média, quando a religião oi usada como meio ERTON KÖHLER é presidente da Igreja Adventista para
oito países da América do Sul
de opressão.

L IB E R D AD E 35
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