Você está na página 1de 9

FILOSOFIA MODERNA

1. HUMANISMO, RENASCIMENTO E REVOLUÇÃO CIENTÍFICA

1. O pensamento humanista-renascentista
a) Humanismo: humanismo para os latinos indica o que os helênicos entendiam por paidéia; segunda metade do trecentos até o cinquecento;
valorização das letras humanas; visões: 1) Kristeller: literatura; 2) Garin: literatura, filosofia e filologia;
b) Renascimento: 1) Burckhardt: idade das trevas, pelas expressões dos humanistas “fazer reviver, fazer renascer”; 2) Burdack e outros: a Idade
Média foi uma época de grande civilização e o Humanismo e o Renascimento constituem uma só coisa e o humanismo torna-se fenômeno literário
apenas no fim. Em suma, o período humanista-renascentista ocupou o 400 e o 500. Seu prelúdio está no 300, com Rienzo e Petrarca e seu epílogo
está no 600, com Campanella e a renascença representou uma era diversa tanto da medieval como da moderna e a moderna começa com a revolução
científica;
c) Revivescência da componente helenística-orientalizante: Corpus Hermeticum, de Hermes Trismegisto, Oráculos Caldeus, de Zoroastro e Hinos
Órficos, de Orfeu. Os humanistas erraram ao tomarem como autênticas as obras atribuídas a esses três profetas-magos;
d) Iniciadores do humanismo: Petrarca, Salutati; Bruni, Bracciolini e Alberti;
e) Neo-epicurismo: Lourenço Vala: retomada da base cristã do epicurismo, pois todo produto da natureza é santo e louvável e, portanto, o é o prazer;
há diferentes graus de prazer e o vértice é o amor cristão de Deus; o método filológico permite respeitar a Palavra e a interpretá-la de forma genuína;
f) Neoplatonismo: Cusa, Ficino, Pico e Patrizi:
. Nicolau de Cusa: ele não está alinhado nem com os humanistas (método: retórica) nem com os escolásticos (método: disputatium); Cusa faz uso do
método extraído dos processos matemáticos, mas não em sua valência matemática e sim analógico-alusiva e o tipo de conhecimento gerado é a douta
ignorância: desproporção entre mente humana (finita) e infinito; a verdade é inatingível, mas nos aproximamos dela por meio de uma pesquisa por
aproximação; no infinito (em Deus) tem lugar uma coincidentia oppositorum (coincidência dos opostos: ampliar o círculo até se tornar uma reta): nele
coincidem todas as distinções que nas criaturas se encontram opostas; a derivação das coisas a partir de Deus comporta a complicação (Deus contém
em si todas as coisas), a explicação (o universo é explicação de Deus) e a contração (explicando-se, Deus se contrai no universo); o homem é
microcosmo;
. Marcílio Ficino: a filosofia como revelação (a alma se torna intelecto e acolhe a luz da divina revelação); a alma como copula mundi (Deus, anjo,
alma, qualidade e matéria), o repensamento em sentido cristão do amor platônico, a importância da magia natural.
. Pico de la Mirandola: cabala: doutrina mística ligada à teologia judaica, sendo apresentada como revelação especial feita por Deus aos hebreus, a
fim de que pudessem conhecê-lo melhor e melhor pudessem entender a Bíblia; dignidade do homem: o homem é a única criatura posta no confim de
dois mundos, a sua grandeza e o seu milagre está em ser artífice de si próprio;
. Patrizi: sem filosofia não é possível ser religioso.
g) Aristotelismo: há 3 interpretações de Aristóteles: a de Alexandre de Afrodísia (o homem possui um intelecto potencial, mas o intelecto agente é a
própria causa suprema, ou seja, Deus, que ilumina o intelecto potencial e torna possível o conhecimento; não há lugar para uma alma imortal), de
Averróis (há um intelecto único e separado para todos os homens, não sendo possível falar da imortalidade do homem, pois só é imortal o intelecto
único; a filosofia gozava de autonomia em relação a fé; para Brabante do averroísmo latino, a fé tem o seu valor próprio e disso deriva a concepção da
dupla verdade – mesmo se as concepções da razão estão em contraste com as da fé, essas são aceitáveis e assim não se procura mais a harmonia entre
fé e razão, dado que elas se movem em sentidos diferentes) e de Aquino (busca a harmonia entre fé e razão). Pomponazzi: 1) a natureza da alma: a
alma intelectiva é princípio de intelecção e volição imanente no homem e é capaz de conhecer o universal e o suprassensível; mas ela não é uma
inteligência separada do corpo. Pompanazzi põe tal posição dentro da doutrina da dupla verdade; 2) princípio da naturalidade: todos os eventos podem
ser explicados sobre as bases das causas naturais e das experiências; em todo caso, os eventos admitem também uma explicação com base em verdades
sobrenaturais.
h) Ceticismo: Montaigne: 1) ceticismo moderado que convive com uma fé sincera, pois há uma desconfiança na razão e não na fé, pois a fé situa-se
num plano diferente, sendo inatacável pelo espírito cético. O cético é fideísta (doutrina teológica que, desprezando a razão, preconiza a existência de
verdades absolutas fundamentadas na revelação e na fé); 2) o conhece-te a ti mesmo é o programa do autêntico filosofar. A dimensão mais autêntica da
filosofia é a da sabedoria, que ensina como devemos viver para vivermos felizes. Mas como a razão cética pode alcançar a sabedoria (o que sei eu?)?
compreendendo que a grandeza do homem está em sua mediocridade. Os céticos resolveram quando renunciaram a busca da felicidade (Apeles e a
espuma sobre a boca do cavalo);
i) Religião: Erasmo, Lutero, Zwínglio e Calvino:
. 1) Erasmo: crítica da filosofia aristotélico-escolástico, que partia da metafísica, da física e da dialética; a verdadeira filosofia é o conhecimento
sapiencial e prática da vida cristã: fé, caridade e esperança; ordenado sacerdote, mas pediu dispensa; crítico da Igreja e de Lutero; Elogio da Loucura:
autoelogio da deusa, que é responsável pela felicidade do mundo; filha de Plutão e Neotetes: riqueza e juventude; há uma gama de graus de loucura,
que vai do extremo negativo em que se manifesta a pior parte do homem, ao extremo oposto, que consiste na fé em Cristo; a loucura arranca os véus,
fazendo-nos ver a comédia da vida e a verdadeira face daqueles que se escondem sob máscaras; mas, mostra também o sentido do palco, das máscaras
e dos atores; ela é reveladora de verdade; as vezes, ele condena a loucura, outras exalta o seu valor transcendental e outras pra apresentar a ilusão
humana (por que sair da caverna?); o cume da felicidade está na felicidade celeste, que é dada aos piedosos, apenas para sentirem ela; ele crítica a
Igreja, a guerra, o casamento, os padres, os monges, o ditos intelectuais, os advogados; feliz é o tolo e não o sábio; só há felicidade se há loucura;
. 2) Lutero: 1) deu voz ao desejo de renovação religiosa e à necessidade de regeneração; 2) levou às extremas consequências o princípio humanista da
volta às origens, apresentando a volta ao evangelho como revolução e subversão da tradição cristã; 3) rompeu com a tradição; 4) fundamentos de sua
doutrina: justificação apenas mediante a fé; infalibilidade da escritura; sacerdócio universal e livre exame das escrituras;
. 3) Zwínglio: 1) defensor das seguintes teses luteranas: a escritura é a única fonte da verdade; o Papa e os Concílios não têm autoridade superior à da
Escritura; a salvação vem pela fé e não pelas obras; o homem é predestinado; diferentemente de Lutero, Zwínglio defendia a cultura humanista;
. 4) Calvino: 1) a providência é entendida como continuação do ato de criação, cuja ação se estende a todos; 2) a predestinação consiste no eterno
conselho de Deus por meio do qual determinou aquilo que queria fazer de cada homem;
. 5) Contra-reforma: condena os erros do protestantismo; Concílio de Trento (1545 a 1563): Inquisição, Índex, criação de novas ordens religiosas,
como a Cia de Jesus.
j) Política: Maquiavel, Morus, Bodin e Grotius:
. 1) Maquiavel: O Príncipe (1513) - natureza humana (nem bom nem mau, mas tende a ser mau); como governar: 1) formas de governo (república:
governo comum administrada pelo conselho, senado ou consulado; principados: herança, indicação e força e há também os eclesiásticos e os novos); 2)
essência dos governos (autoridade absoluta ou despótica ocorre quando o príncipe exerce o poder de forma direta e os ministros e funcionários são seus
servos, aqui o mecanismo é semelhante ao jogo de xadrez, pois basta dar um xeque-mate no rei e tudo desaba; já na autoridade mitigada, o príncipe
governa por meio de parlamentos, conselhos e assembleia de nobres e aqui ele é similar ao presidente numa confederação de barões e duques, tendo
por vezes que conviver com o parlamento, neste governo, é mais fácil a vitória, mas é mais difícil assegurar o poder; 3) Virtù: força, habilidade,
vontade e astúcia; fortuna: sorte (metade das ações depende da fortuna); ferocidade do leão e astúcia da raposa; 4) há os profetas armados e
desarmados: governar é a arte de se fazer amar ou temer pelo povo (na escolha, temido, pois é o castigo que mantem o povo quieto), de vencer pela
força ou pela fraude, de manter-se no poder a qualquer custo; 5) crime, terceira via: há o mau bom (+, de uma só vez, ordem) e o mal ruim (-, aplicado
aos poucos, desordem); 6) realismo político: ser e dever ser, ética e política; 7) liberal ou contido? Ser liberal é perigoso, pois ser gastador é aumentar
os impostos do povo, melhor a fama de sovina do que de pródigo; os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do
patrimônio; 8) consequencialista: não manter a palavra dada. Discurso sobre a primeira década de Tito Lívio (1517 e publicado em 31): segundo
Spinoza e Rousseau, ele é republicano.
. 2) Morus (1478-1535; Londres): filósofo e advogado, amigo de Erasmo, ocupou o cargo de Chanceler do Reino, o primeiro leigo em vários séculos,
de Henrique VIII. Firme na sua fé católica, recusou-se a reconhecer Henrique VIII como chefe da Igreja, sendo por isso decapitado. Em 1935, Pio XI o
proclama santo. Ele escreveu A utopia (em 1516), que do grego significa “lugar que não existe”. Seria uma espécie de sociedade perfeita. Outras
utopias famosas foram: Platão, com A República; Francis Bacon, com a Nova Atlântida; Tommaso Campanela, com a Cidade do Sol. A capital da
Utopia de Morus chama-se Amauroto (do grego, amaurós: evanescente), que significa: cidade que se esvanece como miragem; o rio chama-se Anidro
(do grego, anydros: privado de água) e o princípe chama-se Ademo (demo significa povo), que significa o chefe que não tem povo. São jogos
linguísticos que visam reforçar a tensão entre o real e o irreal. A obra A utopia é um relato, que é imaginado como narrado por Rafael Itlodeu, que
tendo participado de uma das viagens de Américo Vespúcio, teria visto a ilha Utopia. Há, na obra: seguir a razão e as leis elementares da natureza para
acabar com os males da sociedade; todos eram iguais; o trabalho não era massacrante (6h); espaço para os sacerdotes e literatos, assim todos que
nasciam com dotes ou inclinações poderiam se dedicar aos estudos; cidadãos pacifistas, seguem prazeres sadios, admitem cultos diferentes, aceitam as
diferenças e não existia dinheiro.
. 3) Bodin: (ele, Bossuet e Filmer defendem a teoria do direito divino do rei). O verdadeiro fundamento do Estado é a soberania; uma soberania forte e
absoluta se obtém instaurando a justiça e fazendo apelo à razão; os limites do absolutismo são as normas éticas, as leis da natureza e as leis divinas;
defesa da tolerância religiosa.
. 4) Grotius: o direito natural funda-se sobre a razão e a natureza, que se coincidem entre si: o direito natural espelha a racionalidade, que é o próprio
critério com o qual Deus criou o mundo.
k) Vértices: Leonardo, Telésio, Bruno e Campanella:
. 1) Leonardo: é muito forte a ideia neoplatônica entre o pararelismo entre microcosmo e macrocosmo e ele defende uma ordem mecanicista de toda
natureza; o conhecimento tem duas fontes: a experiência e a razão e ele defende uma via intermediária entre ambas.
. 2) Telésio: ele põe a física no caminho de uma rigorosa pesquisa autônoma; há três princípios na natureza: dois princípios agentes incorpóreos (o
quente e o frio) e uma massa incorpórea; tudo é vivo; no homem, além do espírito, há também uma espécie de alma divina e imortal; ele admite o Deus
Bíblico, mas nega que se deva recorrer a Deus na pesquisa física.
. 3) Bruno: morto na fogueira; sua visão do universo é copernicana e também mágico-religioso e metafísico; antecipa Spinoza, os românticos e o
jovem Schelling; 1) Deus (uno, todo infinito, princípio supremo, mente acima das coisas); 2) intelecto universal (força divina, faculdade da alma do
mundo, mente nas coisas); 3) matéria (universo uno, todo mas não totalmente infinito, contém mundos infinitos mas em toda a sua parte é finito, o
universo é uma esfera que tem o seu centro em todo lugar); 4) homem (a vida é infinita pois há infinitos indivíduos que vivem em nós, morrer é apenas
mutação acidental, o tornar-se uno do homem com o todo é heróico furor, endeusamento, igualação com a divindade).
. 4) Campanella: Deus é ente por essência sendo potência/sabedoria/amor supremos; das ideias eternas de Deus deriva o ente criado, constituído de
potência/saber/amor de ser; nas coisas, o senus sui permanece escondido (sensos abditus) e no homem é possível conhecer a si mesmo e as outras
coisas segundo as ideias mediante as quais Deus criou o universo.

2. Revolução científica
. Revolução Científica: vai de 1543, com a obra Das revoluções das esferas celestes, de Copérnico (morreu no mesmo ano, recebendo no leito de morte
a primeira cópia de sua obra) até 1687, com a obra Princípios matemáticos da filosofia natural, de Newton; Copérnico desloca a terra do centro do
universo, universo relógio de Newton, ciência não será mais a visão privilegiada do mago ou do astrólogo e apenas teórica, mas se dará na prática, na
natureza, nos fatos, ela fará experimentos; há a rejeição das pretensões essencialistas de Aristóteles, Galileu não foca mais na substâncias, mas na
função, mas isso não significa que há uma eliminação da filosofia, basta lembrar do projeto neoplatônico de um Deus que geometriza o mundo,
imprimindo nele uma ordem matemática e geométrica em Copérnico, Kepler e Galileu;
a) Copérnico: sua teoria astronômica do heliocentrismo comportou uma autêntica revolução no mundo das ideias; a interpretação realista da teoria
heliocêntrica encontra base na metafísica platônica; teses: o mundo deve ser esférico; a terra deve ser esférica; a terra com a água formam uma única
esfera; o movimento dos corpos celestes é uniforme, circular e perpétuo ou então composto por movimentos circulares; a terra se move em um círculo
orbital em torno do centro, girando também sobre seu eixo; a dimensão dos céus é enorme; foi revolucionário, mas mesmo assim ele assume
pressupostos do velho mundo, como: a forma perfeita é esférica e o movimento perfeito e natural é o circular;
b) Tycho Brahe: ele propõe um terceiro sistema de mundo, não aceitando nem Ptolomeu nem Copérnico: a terra permanece no centro do universo; o
sol e a lua giram ao redor da terra; os outros cinco planetas (Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno) giram ao redor do sol;
c) Johannes Kepler: copernicano e neoplatônico, Kepler acreditava que a natureza fosse ordenada por regras matemáticas e Deus era matemático;
estudou por 10 anos o movimento de Marte e concluiu que era impossível entendê-lo pela ideia dos círculos, mas sim pelas órbitas elípticas; suas três
leis: 1) as órbitas dos planetas são elipses das quais o sol ocupa um dos focos; 2) a velocidade orbital de cada planeta varia de modo tal que a linha que
liga o sol com o planeta cobre, em iguais intervalos de tempo, iguais porções de superfície de elipse; 3) o quadrado dos períodos de revolução dos
planetas estão na mesma relação dos cubos das respectivas distâncias; 4) metafísica do sol: misticismo, matemática, astronomia e física estão
interligados.
d) Galileu Galilei: 1) o processo foi uma sequência de eventos que começou em torno de 1610 culminando com o julgamento e condenação em 1633
por divulgar a teoria do heliocentrismo de Copérnico, ficando em prisão domiciliar até a sua morte em 1642. Em 1616 A Igreja condena o
heliocentrismo como herético; 2) o pai da ciência moderna leva a luneta para dentro da ciência; 3) corrobora o sistema copernicano e desmente o
ptolomaico; 4) ciência e fé: “e-e” e não “ou-ou”; 5) é platônico em filosofia e aristotélico no método; 6) sua ciência é realista: o mundo está escrito em
linguagem matemática; não é essencialista, a pesquisa qualitativa é suplantada pela quantitativa e são eliminadas as causas finais em favor das causas
mecânicas; o universo é mecanicista e determinista; o historiador da ciência Alexandre Koyré demonstrou que, assim como muitos outros mitos que
enfeitam os relatos sobre a vida de Galileu, a famosa experiência de Pisa jamais ocorreu. Ela foi, na verdade, uma experiência idealizada, que o
cientista realizou no recesso da sua consciência, e não um ruidoso espetáculo público;
e) Newton: 1) base do empirismo, do iluminismo e de Kant – o céu estrelado de Kant é o universo-relógio de Newton; 2) há 4 regras do filosofar: não
devemos admitir mais causas das coisas naturais do que aquelas que são tanto verdadeiras como suficientes para explicar as suas aparências; aos
mesmos efeitos naturais devemos, na medida do possível, atribuir as mesmas causas; as qualidades dos corpos que não admitirem nem aumento nem
diminuição de grau, e que se concluir pertencerem a todos os corpos ao alcance de nossos experimentos, devem ser tomadas como sendo as qualidades
universais de todos os corpos; na filosofia experimental devemos encarar as proposições inferidas a partir dos fenômenos por indução geral como
sendo precisamente ou aproximadamente verdadeiras, a despeito de quaisquer hipóteses contrárias que possam ser imaginadas, até que ocorram outros
fenômenos, pelos quais elas podem ser tornadas mais precisas ou suscetíveis de exceções; 3) todos os corpos são formados de partes menores; 4) lei da
gravidade: a gravidade dos corpos diminuem com o seu afastamento da terra; aqui ele propõe em único princípio para dar conta a todos os fenômenos;
4) a partir da máquina do mundo, ele prova a existência de Deus e aqui ele se vale da matematização e da experiencia, unificando-as e superando-as; 5)
não construo hipóteses: sua grandeza não está porque ele viu uma maça cair, mas porque ele construiu e provou a hipótese; 6) as suas três leis mostram
que a natureza e simples e uniforme: lei da inércia, princípio fundamental da dinâmica – a força resultante é igual o produto da massa pela aceleração e
pra haver aceleração e o corpo alterar sua velocidade é preciso que a soma das forças que atuam sobre ele, ou seja, a força resultante não seja nula - e a
lei da ação e reação descrevem o funcionamento do universo.

2. RACIONALISMO E EMPIRISMO
1. Bacon: pai do empirismo. Em “Novo Organon” ele tenta substituir o organon aristotélico e em “Nova Atlântida”, ele apresenta uma comunidade de
doutos e de cientistas. Ciência e poder coincidem. Para remediar os defeitos do saber de seu tempo, ele distingue: 1) as antecipações da natureza, que
são noções tomadas de poucos dados habituais e sobre as quais a opinião comum facilmente dá seu próprio consentimento; 2) as interpretações da
natureza, que derivam ao contrário de uma pesquisa que se desenvolve a partir das próprias coisas conforme os modos adequados. São as
interpretações e não as antecipações que constituem o verdadeiro saber, obtido com o verdadeiro método (o novo organum). Ele tem duas fases: 1)
limpar a mente de falsas noções (idola): tribo/raça (fundados sobre a própria natureza humana e dependentes do fato de que o intelecto mistura sempre
a própria natureza com a das coisas, deformando-a e transfigurando-a); caverna (derivam do indivíduo singular e precisamente da sua natureza da alma
e do corpo ou de sua educação e seus hábitos ou ainda de outros casos fortuitos); foro/comércio/mercado; (dependente dos contatos do gênero humano,
que se insinuam no intelecto por via das combinações impróprias das palavras e dos nomes); teatro (penetra na alma humana por obra das diversas
doutrinas filosóficas e das péssimas regras de demonstração). Conhecer as formas (eis o fim da ciência) das coisas significa penetrar nos segredos da
natureza. A forma de Bacon é a “causa formal” de Aristóteles, a única que ele admite. A ideia de forma pressupõe os conceitos de: a) processo latente,
que é o processo continuativo, a lei, que regula a geração e a produção do fenômeno; b) esquematismo latente, que é a estrutura, a essência de um
fenômeno natural; 2) exposição e justificação das regras: 1) extrair os axiomas da experiência; 2) derivar experimentos novos dos axiomas. Os
axiomas são tirados da experiência mediante a indução por eliminação da hipótese falsa, que suplanta a indução tradicional de tipo aristotélico,
conduzida por simples enumeração de casos particulares. A indução por eliminação é precedida de uma importante classificação que registra: a) nas
tábuas de presença, todos os casos em que o fenômeno indagado se apresenta; b) nas tábuas da ausência, os casos afins aos precedentes em que, porém,
o fenômeno não se apresenta; c) nas tábuas dos graus, todos os casos em que o fenômeno se apresenta segundo maior ou menor intensidade. Depois da
compilação das três tábuas, começa a operação de verdadeira e própria exclusão ou eliminação das hipóteses falsas de explicação do fenômeno, até que
se chegue a uma primeira vindima, isto é, a uma primeira hipótese coerente com os dados expostos nas três tábuas e avaliados por meio do processo
seletivo de exclusão. A primeira vindima é assumida depois como hipótese guia para a pesquisa posterior, isto é, dela deduzindo os fatos que ela
implica e prevê e experimentando se tais fatos se verificam também em condições técnicas experimentais (ou instâncias prerrogativas), entre as quais
assumem particular releva as instâncias da cruz. Bacon buscava unir a faculdade experimental e a faculdade racional.

2. Descartes: pai do racionalismo (encontrar as primeiras verdades e delas deduzir as demais). Descartes não começou determinando verdades sobre
como o mundo é, ou o que é o ser humano. Ele queria saber como podemos determinar a verdade da qual já temos certeza. Na obra “Discurso do
Método” anunciam-se, claramente, os quatro delineamentos característicos da Filosofia Moderna: autonomia da filosofia em relação à teologia;
orientação gnosiológica antes que metafísica; antropocentrismo; interesse pelo método. Descartes advertiu a necessidade de renovar o estudo e o
ensino da filosofia através do método matemático. Assim, o pai da filosofia moderna propõe-se a elaborar uma ciência universal provida daquela
rigorosidade, certeza e exatidão típicas da matemática. Tudo o que há devia ser traduzido em ideias claras e distintas, como se tudo se tratassem de
quantidades matemáticas. Descartes aplica o método matemático primeiramente às ciências experimentais e, após, à filosofia . Ele destaca que os
métodos utilizados não eram bons. Por isso, os resultados obtidos eram pobres. Ele critica severamente o ensino da época, afirmando que a única
vantagem que teve foi a de perceber a sua ignorância. Por esta razão, abandona o estudo das letras e põe-se a viajar. Resolveu não mais procurar outra
ciência, além daquela que se poderia achar em si próprio, ou então no grande “livro do mundo”. Após estudar o “livro do mundo”, a fim de adquirir
mais experiência, resolveu estudar a si mesmo. O filósofo decide, então, buscar um novo método, baseado em quatro regras. Ei-las: 1) regra da
evidência; 2) regra da análise; 3) regra da síntese; 4) regra da enumeração. Com este método todas as coisas podem ser conhecidas. Aplica-o
primeiramente à matemática, pois era preciso partir das verdades mais simples e mais fáceis e, também, pelo fato de que entre todos os cientistas,
somente os matemáticos haviam tentado encontrar demonstrações certas e evidentes. Após, aplica o método também às outras ciências. Não obstante, o
filósofo deve buscar uma “moral provisória” (a moral definitiva encontra-se no livro As paixões da alma e é, em substância, idêntica à moral
provisória) até a descoberta da verdadeira. Há três princípios da moral provisória. São eles: 1) obedecer as leis e os costumes do próprio país
praticando a religião na qual se foi instruído desde a infância e regular-se, em todas as coisas, conforme as opiniões mais moderadas e sensatas; 2) ser
firme e resoluto nas ações e opiniões a que se tivesse determinado; 3) sempre se esforçar por vencer a si mesmo antes que o destino o faça; mudar os
próprios desejos antes que a ordem do mundo; e, geralmente, habituar-se a acreditar que não há nada que seja completamente nosso, exceto nossos
pensamentos e, por isso, não é preciso preocupar-se demais com as coisas externas. Após todo este ensinamento, Descartes acredita que podia começar
a desfazer o restante de suas opiniões. Esperando poder realizar isso conversando, põe-se a viajar. O método é guiado por duas normas: 1) não destruir
por destruir – como os céticos –, mas para atingir a verdade; 2) não destruir tudo, mas conservar aquilo que pode servir para chegar a cognições certas.
Pode-se dizer que os dois princípios fundamentais da metafísica cartesiana, ou seja, as certezas metafísicas, são o COGITO e a EXISTÊNCIA DE
DEUS. Sobre o COGITO, segundo Descartes, para se conhecer a verdade, é preciso, de início, colocar todos os conhecimentos em dúvida (dúvida
metódica), questionando tudo para criteriosamente analisar se existe algo na realidade de que se possa ter plena certeza. Fazendo uma aplicação
metódica da dúvida, o filósofo foi considerando como incertas todas as percepções sensoriais (dado que os nossos sentidos algumas vezes nos
enganam), todo o conhecimento racional (pois há homens que se enganam raciocinando) e, enfim, todo o conhecimento humano, pois todos os
pensamentos que tomamos por despertos podem vir também quando dormimos. E prosseguiu assim, cada vez mais colocando em dúvida a existência
de tudo aquilo que constitui a realidade e o próprio conteúdo dos pensamentos. Enquanto tratava de duvidar de tudo, Descartes percebe uma verdade:
“enquanto eu queria assim pensar que tudo era falso, cumpria necessariamente que eu, que pensava, fosse alguma coisa”. Observando que “penso, logo
existo” era de tal modo firme e seguro, Descartes acolheu esta máxima como o princípio de sua filosofia. Assim, a essência do homem está no
pensamento – o filósofo passa a considerar, pelo Cogito, a natureza do sum (a existência). Observa que podia fingir não ter nenhum corpo, mas nem
por isso podia fingir que não existia e que, pelo contrário, pelo próprio fato que pensava em duvidar da verdade das outras coisas decorria de modo
evidente e certo, que ele existia. Se apenas houvesse parado de pensar, ainda que tudo o mais que ele tinha imaginado fosse verdadeiro, não teria
havido jamais nenhuma razão para crer que existia. Soube, por isso, que era uma substância cuja essência ou natureza não é senão para pensar e que,
para ser, não precisa de nenhum lugar, não depende de nenhuma coisa material. Achado o princípio fundamental da metafísica e o supremo critério de
verdade – clareza e distinção –, Descartes passa a demonstrar a EXISTÊNCIA E DEUS. Prova-a através dos seguintes argumentos: 1) pelo fato de que
temos a ideia do perfeito e não podemos ser nós a causa dessa ideia (prova cosmológica); 2) pelo fato de que eu não dou a mim mesmo a minha
existência (prova cosmológica); 3) pela ideia do perfeito (é certo que Deus existe como são certas as demonstrações geométricas) (prova ontológica);
4) pelas consequências desastrosas que a negação da existência de Deus implica, ou seja, pelo fato de que neste caso qualquer certeza torna-se
impossível. A terceira prova é a mais conhecida prova e é denominada de ontológica, pois parte do conceito de Deus para provar a sua existência. A
primeira e a segunda são cosmológicas, isto é, partem dos fatos que nós experimentamos. Depois que o conhecimento de Deus e da alma restitui-lhe a
certeza da regra clareza e distinção, Descartes afirma poder aceitar com indubitável certeza todas as outras ideias que se apresentam com o caráter de
clareza e distinção, pois não é possível que Deus, que é sumamente perfeito e veraz, tenha colocado na mente para nos enganar. Após deduzir as
verdades metafísicas (cogito, ergo sum e a existência de Deus), Descartes não deixa de deduzir também algumas verdades sobre o mundo, adotando
sempre o critério de verdade da clareza e distinção e o método geométrico. De maneira sucinta, é pertinente relatar apenas alguns tópicos mais
relevantes: 1) doutrina da natureza do corpo animal e humano: aqui o filósofo diz que, acerca do corpo, não há nenhuma diferença entre homens e
animais. O que os distingue, não obstante, é a alma que os animais não a possuem e os homens a possuem (criada por Deus); porém, a alma é invisível;
assim, o homem diferencia-se dos animais através da linguagem e da liberdade; 2) natureza da alma – ela é espiritual e, como tal, não pode ser tirada
da potência da matéria, como as outras coisas deste mundo, mas é criada diretamente por Deus. Concluindo, a obra “Discurso do Método” é o
manifesto da nova filosofia. Desde as primeiras páginas do Discurso, Descartes sublinha a importância capital do método para a aquisição da ciência.
Com o método construiu todo o seu edifício filosófico, embasado no cogito. Com isso, o filósofo abalou profundamente o edifício do conhecimento
estabelecido. Sua tentativa, porém, de reconstruir esse edifício não foi uma obra tão notável e fecunda, se comparada com o efeito demolidor que
provocou. Prédio: mecanicismo, determinismo, atomismo, a-histórico, hierárquico, dogmático, linear e rígido. Síndrome da casa tomada, de Cortazar.
“Res cogitans” e “res extensa”: dois tipos de substâncias distintas e irredutíveis uma à outra. Há três classes de ideias: inatas (encontro em mim,
nascidas junto com minha consciência – ideia de Deus, do triângulo, da mente, do corpo, ou seja, as ideias que revelam as essências verdadeiras,
imutáveis e eternas); adventícias (provém a mim de fora e me remetem a coisas totalmente diferentes de min) e factícias (construídas por mim mesmo).
As paixões da alma: a paixão é a ação do corpo sobre a alma; a única função da alma são os nossos pensamentos. Descartes se opõe ao estoicismo (as
paixões são uma doença da alma). Elas são todas boas por sua natureza. Sua utilidade natural é favorecer o equilíbrio do corpo, sem o qual o ser
humano não poderia expandir-se (6 paixões primitivas: admiração, amor, ódio, desejo, alegria e tristeza – e dessas derivam todas as outras). As paixões
são boas em si; o ser humano as utiliza mal. Para encontrar a felicidade, não se trata de erradicar as paixões, mas de utilizá-las bem. Nossa vontade
deve resistir ao impulso passional e pautar-se pelos julgamentos da razão.

3. Malebranche: ocasionalismo: a vontade e o pensamento não agem diretamente sobre os corpos, mas são “ocasiões” a fim de que Deus intervenha
para produzir as respectivas ideias; a visão das coisas em Deus: a alma tem uma união direta e imediata com Deus. É Deus que produz na alma os
sentimentos que a tocam por “ocasião” das mudanças corpóreas; tudo está em Deus: Deus é e tudo deve ser reconduzido a Deus; sistema teocêntrico de
caráter metafísico e religioso.

4. Spinoza: características: dedutivismo, racionalismo, determinismo/necessitarismo/panteísmo, afeto (modifica nossa potência de agir, seja
aumentando-a (afeto alegre), seja dominuindo-a (afeto triste), monismo; substância: Deus, causa sui, natura naturans, imanente e não transcendente,
propriedades (infinita, única, livre, imutável e eterna); atributos: dos infinitos atributos de Deus, o homem conhece apenas dois (res cogitans e res
extensa); modos: natura naturata; o universo que é o conjunto dos modos infinitos e finitos (infinitos, como por ex., o movimento ou o intelecto divino;
finitos, como por ex., movimentos e pensamentos singulares; propriedades: a) não tem em si a explicação do seu ser; b) no modo há distinção entre
essência e existência porque o modo não é causa sui; c) os modos vêm ao ser necessariamente. A relação entre mente e corpo é um paralelismo
perfeito. Conhecimento (o que os diferencia é o nível de clareza e distinção): empírico/sensação (opinião/imaginação); racional (razão); intuitivo
(intelecto/vontade). Ideal ético: agir sob o guia da razão. Amor intelectual a Deus: possível graças a terceira forma de saber e é a visão de todas as
coisas sob o signo da necessidade em Deus. Religião: permanece no primeiro nível de conhecimento. A filosofia visa a verdade e a religião, apenas a
obediência. Política: leis naturais, contratualista, liberdade e estado de direito. Três nossos conceitos: substância (não é um princípio, mas um ser
completo), causa (não influi apenas na realidade de outrem, mas na própria realidade) e liberdade (é agir segundo as leis da própria natureza).

5. Leibniz: A mediação entre antigo e novo. A revolução científica, Bacon e, sobretudo, Descartes, haviam produzido no pensamento ocidental uma
reviravolta radical: extensão e movimento eram doravante considerados causas suficientes para a explicação adequada das coisas e, por isso, os
métodos das ciências matemáticas e físicas pareciam ser os únicos possíveis também em âmbito filosófico. Em particular, pereciam irremediavelmente
comprometidos o conceito de fim / causa final e o conceito de substância. A recuperação do finalismo e das formas substanciais. Leibniz retoma
justamente estes dois conceitos reivindicando sua perenidade e mostrando a possibilidade de conciliação com as mais significativas descobertas dos
filósofos e cientistas modernos. A chave desta conciliação consiste precisamente na rigorosa distinção entre: a) âmbito propriamente filosófico, em que
se indaga sobre princípios mais universais por meio das formas substancias e em perspectiva finalista global, sem porém oferecer nenhum
conhecimento específico de fenômenos naturais; b) âmbito propriamente científico, em que se capta a natureza em seu aspecto matematizável e se
consegue fornecer conhecimentos fenomênicos específicos, mas renunciando a determinar os princípios últimos. A substância entendida como força
originária é de natureza metafísica. Para além da extensão e do movimento e como seu fundamento, há algo que é de natureza não física, mas
metafísica: é a substância, entendida como força originária, indicada por Leibniz com o termo enteléquia e, sobretudo, com o de mônada. Destas
premissas emergem importantes consequências: 1) o “espaço” e o “tempo” são apenas fenômenos, modos com os quais a realidade aparece a nós e não
duas entidades ou duas propriedades ontológicas das coisas; 2) o mundo em seu conjunto é uma “grande máquina” que mediante “leis convenientes”
atua uma “finalidade” querida por Deus com a “escolha do melhor”, razão pela qual o mecanicismo é simplesmente o modo pelo qual se realiza o
“finalismo” superior. A realidade é constituída por substâncias simples: as mônadas. Tudo o que existe ou é uma simples mônada ou é um complexo de
mônadas. As atividades fundamentais de toda mônada são duas: a percepção (representação) e a apetição (vontade) ou tendência para percepções
sucessivas. Leibniz distingue além disso entre a simples percepção e a apercepção, que é percepção acompanhada por consciência e é a própria apenas
de certas mônadas particulares, isto é, dos espíritos ou inteligências. Cada mônada representa todas as outras, ou seja, o universo inteiro e é de fato um
microcosmo; a conexão total do universo, porém, é representada em cada mônada apenas indistintamente. É este o significado da fórmula leibniziana
segundo a qual o presente está grávido do futuro: em cada instante está presente a totalidade do tempo e dos eventos temporais. Leibniz designa
mônada também com o termo aristotélico enteléquia. Deus, mônada originária e suprema, da qual todas as outras são criadas, segundo uma hierarquia:
a) mônadas nuas (percepção e apetição) + corpo: viventes simples; b) almas (percepção + memória e apetição) + corpo: animais; c) espíritos
(percepção + razão e apetição) + corpo: homens. O conjunto dos espíritos constitui a cidade de Deus. Identidade dos indiscerníveis: não existem duas
substâncias indiferenciadas. Criação e hierarquia das mônadas. Cada mônada representa todo o universo com diferentes (maior ou menor) distinção das
percepções e sob perspectivas diferentes e é justamente tal perspectiva que torna cada mônada diversa de todas as outras. Disso Leibniz tira seu
princípio de identidade dos indiscerníveis, segundo o qual não existem duas substâncias indiscerníveis (absolutamente indiferenciadas), porque de
outro modo elas seriam uma única e idêntica substância. Deus é, portanto, a mônada primitiva, a substância originária e simples, enquanto todas as
outras mônadas são produzidas ou criadas por Deus mediante “fulgurações”; uma vez criadas, depois as mônadas não podem perecer a não ser por
aniquilação por parte do próprio Deus que as criou. As mônadas e a constituição do universo. A mônada é o princípio de força e de atividade, mas é
atividade pura apenas em Deus. Em todas as outras mônadas, a atividade é imperfeita e isso constitui justamente sua materialidade. Harmonia
preestabelecida. É a hipótese metafísica com a qual Leibniz coroa seu sistema especulativo. Em geral, o princípio da harmonia preestabelecida se
refere à conexão ou harmonia universal entre todas as mônadas, as quais, por força de sua simplicidade e impenetrabilidade, não agem fisicamente uma
sobre a outra; portanto, a influência entre as mônadas é apenas ideal e pode ter sua eficácia apenas mediante a intervenção de Deus. Princípio da razão
suficiente. É o princípio especulativo por excelência: ele tem valência lógica e metafísica, porque em virtude dele consideramos que qualquer fato não
poderia ser verdadeiro ou existente e qualquer enunciado não poderia ser verídico, caso não existisse uma razão suficiente do por que a coisa é assim e
não de outro modo. “Nada acontece sem razão suficiente, isto é, nada acontece sem que seja possível, para quem conhece suficientemente as coisas,
dar uma razão suficiente para explicar por que a coisa é assim e não de outro modo”. A razão suficiente última é necessária e não contingente: Deus.
Melhor dos mundos possíveis: Deus escolhe o melhor e essa não é uma necessidade metafísica, mas moral. Verdades da razão e dos fatos: necessidade
e contingência.

6. Berkeley: Todas as ideias são sensações singulares. No “Tratado sobre os princípios do conhecimento humano”, Berkeley quer extirpar o erro da
imagem substancial-materialista do universo, tornada quase inatacável pela ciência moderna e sobretudo pela de Newton. Em sua opinião, as causas
desse erro são as duas crenças no valor das ideias abstratas e na existência das qualidades primárias. Ora, como Locke, também Berkeley sustenta que
o conhecimento humano é conhecimento de ideias e não de fatos; segundo Berkeley, porém, todas as ideias são nada mais que sensações e toda ideia é
apenas uma sensação singular: as que chamamos “coisas” emergem da combinação constante ou da coexistência habitual de algumas dessas ideias. O
nominalismo de Berkeley. Não existem ideias abstratas; não existe, por exemplo, a ideia de “homem”: o “homem” é apenas uma palavra, enquanto
nossas sensações – nossas ideias – se referem sempre e apenas a um homem particular. Existem ideias gerais, as quais são, porém, ideias particulares
usadas para representar outras ideias afins a elas; as ideias abstratas são, portanto, ilusões perigosas, porque induzem a criar substâncias independentes
de nossas sensações. Nisso consiste o nominalismo de Berkeley, para o qual existe apenas aquilo que é enquanto é percebido; uma vez que percebemos
apenas nossas ideias ou sensações é inútil falar das coisas que estariam além de nossa percepção. A crítica do materialismo. Igualmente errônea e
perigosa é a distinção entre qualidades primárias e qualidades secundárias, porque a ela está ligada a ideia de uma matéria distinta e existente
independentemente do espírito que a percebe. Esta ideia deve ser combatida também porque está na base do materialismo e do ateísmo, dado que, uma
vez admitida a existência da matéria, a consequência é reconhecê-la como infinita, imutável e eterna. Assim desmorona e se revela inteiramente
privada de sentido também a ideia de substância material, isto é, a ideia da matéria como substratum, que sustentaria seu “acidente” da extensão. A
existência de uma “coisa” consiste em seu ser percebida. Além da infinita variedade de ideias ou de objetos do conhecimento, há o percipiente: a
“mente”, a “alma”, o “eu”, que é algo de inteiramente diverso de todas as ideias e no qual elas existem, isto é, são percebidas. E uma vez que a
combinação das ideias dá lugar àquilo que chamamos “coisa”, Berkeley enuncia o princípio fundamental de seu filosofar: esse est percipi: o ser das
coisas é ser percebidas, a existência de uma coisa consiste exclusivamente em seu ser percebida pelo sujeito. Conhecimento humano. O conhecimento
resulta de duas “coisas” totalmente distintas e heterogêneas: os espíritos, que são substancias ativas, indivisíveis, incorruptíveis e as ideias, que são
paixões inertes, transitórias, perecíveis, isto é, entidades dependentes das substancias espirituais. O espírito é propriamente o sujeito que percebe as
ideias, as quais não podem existir a não ser em uma mente que as percebe; ora, todas as ideias nada mais são que sensações e nossos sentidos nos
informam apenas das sensações, mas de modo nenhum da existência de coisas fora da mente: portanto, não existe nada fora daquilo que é percebido
pelo espírito. O espírito humano é intelecto e vontade. Aquilo que não pode ser representado por nenhuma ideia é o espírito humano, o qual, enquanto
percebe ideias, é intelecto, ao passo que, enquanto produz ideias, é vontade. Ora, as ideias percebidas atualmente, que são particularmente fortes,
vivazes, ordenadas e coerentes, não são criações da vontade humana: elas são produzidas por outra vontade, isto é, por outro espírito, por um Autor
sapiente e benévolo. As leis da natureza. É Deus a razão que explica a estabilidade, a ordem e a coerência das ideias, é Deus quem suscita em nós as
ideias segundo regras fixas que são chamadas leis da natureza. O funcionamento coerente e uniforme de nossas ideias, dirigido à conservação de nossa
vida, revela a bondade e a sabedoria de Deus. A negação da matéria. O mundo de Berkeley quer ser o mundo de sempre, o mundo que experimentamos
e no qual temos que viver todos os dias. O que ele nega é unicamente o que os filósofos chamam de “matéria”, ou “substância corpórea”. Mas,
deixando de lado a matéria, a humanidade não sofre nenhum dano e os homens não perceberão de fato aquilo que é negado. A negação da matéria é
necessária a fim de que o ateu não possa mais justificar e sustentar sua posição.

7. Hume: Como se origina o nosso pensamento? Os objetos presentes à mente humana pertencem a dois gêneros: 1) Dados dos fatos: não são obtidos
dedutivamente, já que “é sempre possível o contrário de um dado de fato qualquer, já que ele não pode nunca implicar uma contradição, sendo
concebido pela mente com a mesma facilidade e a mesma distinção como se fosse extremamente conforme à realidade”. O problema que surge é o de
procurar a natureza da evidência própria dos raciocínios relativos aos “dados de fato”, quando eles não estão imediatamente presentes aos sentidos,
como, por exemplo, quando prevejo que o sol surgirá amanhã. A resposta de Hume é a seguinte: “todos os raciocínios que dizem respeito à realidade
dos fatos parecem fundados na relação de causa e efeito. É só graças a essa relação que podemos ultrapassar a evidência de nossa memória e dos
sentidos”; 2) relações de ideias: todas as proposições que, baseadas sobre o princípio da não-contradição, limitam-se a operar sobre conteúdos ideais
sem se referir àquilo que existe ou pode existir. Trata-se das proposições que Kant chamará de juízos analíticos. A matemática é constituída por
“relações de ideias”. Exemplo: estabelecidos os significados dos números, nós obtemos por mera análise racional que 3 x 5 é a metade de 30.
Percepções. Todos os conteúdos da mente humana são percepções que se dividem em duas classes: impressões e ideias. “A diferença entre impressões
e ideias consiste no grau diverso de força e vivacidade com que as percepções atingem nossa mente e penetram no pensamento ou na consciência. As
percepções que se apresentam com maior força e violência podem ser chamadas impressões – e, sob essa denominação, eu compreendo todas as
sensações, paixões e emoções, quando fazem a sua primeira aparição em nossa alma. Por ideias, ao contrário, entendo as imagens das impressões”.
Uma consequência dessa distinção é a drástica contração da diferença entre sentir e pensar, que é reduzida simplesmente ao grau de intensidade: sentir
consiste em ter percepções mais vivas (sensações), ao passo que pensar consiste em ter percepções mais fracas (ideias). Toda percepção, portanto, é
dupla: é sentida (de modo mais vivo) como impressão e é pensada (de modo mais fraco) como ideia. Nós só temos ideias depois de ter impressões
(crítica a questão das ideias inatas). Princípio da associação das ideias. As propriedades que dão origem a essa associação e fazem com que a mente
seja transportada de uma ideia para outra são três: semelhança, contiguidade no tempo e no espaço e causa e efeito. Nós passamos facilmente de uma
ideia a outra que se assemelhe (por exemplo, uma fotografia me faz vir à mente a personagem que representa), ou então de uma ideia a outra que
habitualmente se apresenta a nós como ligada à primeira no espaço e no tempo (por exemplo, a ideia de sala de aula me recorda a das salas de aula
vizinhas, ou então a do corredor adjacente ou a do prédio que se localiza; a ideia de levantar âncora suscita a ideia da partida do navio); a ideia de
causa me suscita a de efeito e vice-versa (por exemplo, quando penso no fogo, sou inevitavelmente levado a pensar no calor ou então na fumaça que
dele se desprende). Todas as ideias gerais nada mais são do que ideias particulares conjugadas a certas palavras, que lhes dá um significado mais
extenso e, ocorrendo, faz com que recordem outras individuais semelhantes a elas. Força do hábito. O hábito é “aquilo que procede de uma repetição
antecedente, sem nenhum novo raciocínio ou inferência, e do qual emerge toda opinião ou crença humana”. O hábito é o princípio com base no qual da
simples constatação de repetições entre dois fenômenos, se infere também a necessidade da conexão entre os dois fenômenos, considerando-os um
como causa e o outro como efeito; uma vez formado, o hábito gera em nós uma crença que nos dá a impressão da conexão necessária entre uma causa
e um efeito. Causa e efeito são duas ideias bem distintas entre si, no sentido de que nenhuma análise de ideia de causa, por mais eficaz que seja, pode
nos fazer descobrir a priori o efeito que dela deriva. Se atinjo uma bola de bilhar com outra bola, digo que a primeira causou o movimento da segunda;
entretanto, o movimento da segunda bola é um fato completamente diferente da primeira e não está incluído nela a priori. Suponhamos que tivéssemos
vindo ao mundo de improviso: nesse caso, vendo uma bola de bilhar, não poderíamos de modo nenhum saber a priori que ela, impelida contra a outra,
produzirá como efeito o movimento dessa outra. Ceticismo moderado. Esse ceticismo consiste na limitação das investigações humanas sobre os
argumentos que melhor se adaptam às capacidades limitadas do intelecto humano. No que se refere às ciências abstratas, essas capacidades se
restringem ao conhecimento das relações entre ideias (matemática). Todas as outras investigações se referem a dados de fato, suscetíveis de
constatação, mas não de demonstração. O que domina todos esses âmbitos é a experiência e não o raciocínio. Assim, as ciências empíricas baseiam-se
na experiência, a moral no sentimento, a estética no gosto e a religião na fé e na revelação. “Quando, persuadidos desses princípios, percorremos os
livros de uma biblioteca, do que devemos nos desfazer? Se pegarmos algum volume, digamos de teologia ou de metafísica escolástica, por exemplo,
devemos nos perguntar: ‘Será que contém raciocínios abstratos em torno da quantidade ou do número?’ Não. ‘Contém raciocínios baseados na
experiência e relativos aos dados de fato ou à existência das coisas?’ Não. Então, joguemo-lo às chamas, já que não pode conter nada mais do que
engano”. Fundamento arracional da moral e da religião; em metaética, a lei de Hume ou guilhotina de Hume, ou ainda, o problema do ser – dever ser
foi articulado pelo filósofo escocês David Hume, que notou que muitos escritores fazem afirmações sobre o que deve ser com base em afirmações
sobre o que é. Hume acreditava que existe uma diferença significativa entre proposições descritivas e proposições prescritivas ou normativas, e que
não se poder derivar as últimas das primeiras.

3. PASCAL, VICO, CONTRATUALISMO E ILUMINISMO

1. Pascal: Pascal e Vico são considerados da contracorrente da filosofia moderna. Prefácio para o tratado do vácuo: a autoridade é o único critério dos
saberes históricos. As experiências são os únicos princípios da física. As dimensões mais elevadas do pensamento são: 1. o espírito matemático (esprit
de géométrie): tem como objeto as verdades racionais e empíricas que são progressivas. O método que garante o seu contínuo progresso é o persuasivo
(método ideal), baseado sobre o método geométrico e constituído por três partes com suas regras: definições, axiomas e demonstrações; 2. O espírito
intuitivo (esprit de finesse): tem como objeto as verdades éticas e religiosas que são eternas e reveladas e em relação às quais a razão científica é
imponente, porque apenas Deus pode revelá-las. O objeto por excelência da filosofia é o homem. Sua grandeza e dignidade consistem no pensamento.
O divertimento é fuga de nós mesmos. Não podendo escapar da morte e da miséria, o homem decidiu fugir disso e tornar-se feliz. O verdadeiro
cristianismo consiste na submissão da razão. Devemos “apostar” em favor da existência de Deus. Nós conhecemos a verdade não somente pela razão,
mas também pelo coração.
2. Vico: a crítica do método analítico cartesiano: no plano científico, ele é abstrato; no filosófico, pelo cogito pode-se chegar à consciência da
existência, mas não à ciência. “A norma do verdadeiro é tê-lo feito”: o fato ou o fazer é a condição do verdadeiro e o verdadeiro é o mesmo que o fato.
O verdadeiro é a ideia (filosofia), o certo é o fato (filologia). A concepção da história e a heterogênese dos fins: o homem é o protagonista da história.
Os homens criaram as instituições, mas as instituições retroagem aos homens, fazendo emergir lentamente, sem os homens perceberem,
potencialidades escondidas. A história é o lugar em que a necessidade, os fins escondidos, presentes na natureza do homem, emerge e se impõe pouco
a pouco ao espírito dos homens. Giambattista diz que os filósofos e historiadores de sua época estavam fazendo da história uma invenção, uma ilusão
criada para exaltar nações ou determinados personagens históricos. A história como exaltação de fatos ou personalidade não representa os princípios
fundamentais do homem e da história, que é uma criação do homem. A história tem que ter uma ligação real como o homem, caso contrário ela não se
sustenta nem cria tradição. O homem é o personagem principal da história porque é originalmente um ser sociável e ao se sociabilizar ele cria a
história. Além de ser um animal sociável, o homem é livre e, por isso, a história da humanidade é o resultado das escolhas dos homens de cada época.
Segundo as palavras de Vico, enquanto animal o homem pensa somente em sua sobrevivência, mas quando cria família, tem mulher e filhos, ele busca
sobreviver junto com sua cidade. Seguindo um pensamento de Platão, Vico divide a história em três períodos/eras: dos deuses, dos heróis e dos
homens, no primeiro os homens eram ignorantes, insensatos e prevalecia a animalidade, nessa época os homens pouco ou nada usam a reflexão, estão
mais ligados aos sentidos. Na época dos heróis prevalece a fantasia, a imaginação, é um período onde a força é a base da estruturação social. No
período dos homens o que se destaca é a razão, nessa época os homens atingem a consciência crítica e a sabedoria. A história é o resultado também das
ações divinas mas não de forma direta, para Vico a providência divina criou ideais a serem alcançados pelos homens. Ideais como justiça, verdade e o
bem são objetivos que o homem tenta alcançar e tenta fazer isso de maneira livre. No estudo da linguagem, Vico acredita que o modo de falar popular
testemunha com mais veracidade os costumes de um povo. Os sistemas de comunicação que perduram em uma determinada língua são a expressão
mais fiel da vida dessas pessoas, razão pela qual não é possível entender uma sem compreender a outra. A linguagem está no centro da “ciência nova”
criada por Vico e ela não é uma criação arbitrária. A história, além de ser obra dos homens, é também obra de Deus.

3. Hobbes: a verdadeira filosofia tem como objeto os corpos, suas causas e suas propriedades: tudo aquilo que não é corpóreo (Deus, fé, revelação e
história) é excluído da filosofia. Hobbes faz preceder a tratação dos corpos por uma lógica que retoma a tradição do nominalismo da filosofia inglesa
tardio-escolástica. A lógica elabora as regras do correto modo de pensar e os pensamentos são fixados e suscitados por meio de nomes, que são
formados pelo arbítrio humano. Uma vez que existem apenas indivíduos e conceitos de indivíduos, os nomes comuns não indicam conceitos
universais, mas são nomes de nomes que de fato não significam a natureza das coisas; por isso também a proposição, que é conexão de nomes, é fruto
do arbítrio daqueles que foram os primeiros a estabelecer os nomes e a definição exprime não a essência das coisas (como queriam Aristóteles e toda a
lógica clássica e medieval), mas apenas o significado dos vocábulos; corporeísmo mecanicista: os fundamentos de toda a realidade são: movimento e
corporeidade; liberdade como ausência de oposições, negação de valores absolutos, empirismo e nominalismo; há três corpos: naturais inanimados,
como os corpos físicos; os naturais animados, como os seres humanos; os artificiais, como o Estado. Estado de natureza: “o homem é lobo do homem”
(sentença criada por Plauto), medo difuso, posse, máxima liberdade; contrato social: os dois pressupostos do Estado são: a) a vida e sua conservação:
instinto de evitar a guerra contra todos (egoísmo); a justiça (convencionalismo; estado civil: estado absolutista, medo concentrado, propriedade,
máxima liberdade. Para Hobbes, na base da sociedade e do Estado há dois pressupostos: 1) o bem relativo originário, isto é, a vida e a sua conservação
(egoísmo); 2) a justiça, que é uma convenção estabelecida pelos homens e cognoscível de modo perfeito e “a priori” (convencionalismo). Nesse
sentido, a concepção política de Hobbes constitui a inversão mais radical da clássica posição aristotélica, segundo a qual o homem é um animal
político; Hobbes considera ao contrário o homem como um átomo de egoísmo, razão pela qual nenhum homem está ligado aos outros homens por
consenso espontâneo. A condição em que todos os homens naturalmente se encontram é da guerra de todos contra todos (“homo homini lúpus”); o
homem arrisca-se, deste modo, a perder o bem primário, que é a vida e pode sair desta situação fazendo apelo a dois elementos fundamentais: a) o
instinto de evitar a guerra contínua e de providenciar aquilo que é necessário para a subsistência; b) a razão, no sentido de instrumento apto a satisfazer
os instintos de fundo. Nascem assim as leis de natureza, que constituem na realidade a racionalização do egoísmo, as normas que permitem realizar de
modo racional o instinto da autoconservação. No “Leviatã”, Hobbes elenca 19 leis naturais, das quais as mais importantes são as 3 primeiras: 1)
procurar a paz e alcançá-la, defendendo-se com todos os meios possíveis; 2) renunciar ao direito sobre tudo, quando também os outros renunciam; 3)
respeitar os pactos estipulados, isto é, ser justos. Para constituir a sociedade, todavia, além dessas leis, é preciso também um poder que obrigue a
respeitá-las: é preciso, portanto, que todos os homens deputem um único homem (ou uma assembleia) a representa-los. Nasce assim o pacto social, que
é feito pelos súditos entre si, enquanto o soberano permanece fora do pacto e é o único depositário dos direitos dos súditos. O poder do soberano (ou da
assembleia) é indiviso e absoluto: ele está acima da justiça, pode intervir em matéria de opinião e de religião, concentra em si todos os poderes. Trata-
se da mais radical teorização do Estado absolutista.

4. Locke: empirismo: o objeto do intelecto quando pensa é a ideia e a fonte de todo o nosso conhecimento é a experiência. Assim, todas as ideias
derivam da experiência. A mente é uma tábula rasa. As ideias podem ser: simples (de sensação, de reflexão e de sensação e reflexão juntas) e
complexas (modos, substâncias e relações). Ideias simples: de sensação (experiência externa), produzidas em nós pelas qualidades dos objetos
externos. Há qualidades primárias e reais dos corpos que se encontram neles, como extensão, movimento, etc. e qualidades secundárias, que em parte
são subjetivas, pois derivam do encontro dos objetos com o sujeito, como cores, sabores, etc; de reflexão (experiência interna): como ideias de
percepção (intelecto), de volição (vontade) ou ideias simples que brotam da reflexão em conjunto com a percepção, como a ideia de prazer, dor, força,
etc; de reflexão e sensação juntas: como ideias de potência e existência. Ideias complexas: de modos: ideias de afecções; de substâncias: ideias de um
substrato comum; de relações: ideias de relações. A total ideia complexa de uma coisa é a “essência” da própria coisa. As “ideias gerais” não
pertencem as coisas, mas são invenções do intelecto e se referem apenas aos sinais linguísticos. A ideia de substância e de essência: Locke admite a
ideia geral de substância, obtida por abstração e ele não nega a existência de substâncias, mas ele nega a capacidade da mente humana de ter ideias
claras e distintas; a essência real é a estrutura das coisas, porém nós conhecemos apenas a essência nominal, que é o conjunto de qualidades que uma
coisa deve ter pra ser chamada com o nome com que ela é chamada. A abstração, para a metafísica clássica, era essencial para chegarmos às essências.
Para Locke, a abstração torna-se a parcialização de outras ideias mais complexas. Assim, o geral e o universal não pertencem a existência real das
coisas, mas são invenções do intelecto e se referem apenas aos sinais, sejam esses sinais palavras ou ideias. Os modos pelos quais se atua o
conhecimento (3 graus de certeza): intuição (evidência imediata, é o conhecimento da própria existência, é o modo mais certo e mais claro de
conhecimento), demonstração (se dá por meio do raciocinar e se pela intuição captamos a nossa existência, pela demonstração captamos a existência
de Deus) e sensação (é o tipo menos claro e menos certo e se refere a existência das coisas externas). Juízo de probabilidade: abaixo dos três graus de
certeza há o juízo de probabilidade. A aparência do acordo ou do desacordo entre as ideias é a probabilidade cuja forma mais elevada é a fé. Para a
probabilidade, o acordo entre as ideias não é percebido, mas apenas suposto. Há diversas formas de probabilidades fundadas: 1. sobre a conformidade
de algo com nossas experiências passadas; 2. Sobre o testemunho dos outros homens; 3. sobre a analogia; 4. Sobre o testemunho do próprio Deus
(revelação e fé). O núcleo cristão está na fé em Jesus: o mínimo para se denominar cristão é ter fé em Jesus. Tolerância religiosa. Ética utilitarista e
eudemonista. Crítica à teoria do direito divino (Filmes, Bodin e Bossuet). Contratualismo e constitucionalismo liberal: Estado de Natureza: modelo
que define a condição natural dos seres humanos e não uma realidade histórica; liberdade e igualdade; cada um é juiz de si mesmo; Contrato social: a
sociedade e o Estado nascem do direito natural (direito à vida, à liberdade, à propriedade e à defesa desses direitos), que coincide com a razão;
propriedade (limite natural: fruição) não inata, mas adquirida pelo trabalho: coisas da natureza estão disponíveis a todos (estado comum) e são de
direito de todos (direito comum); Estado Civil: liberalismo político; o Estado tem o poder de fazer as leis (legislativo) e de impô-las (executivo);
direito de resistência. A monarquia não se fundamenta no direito divino. A sociedade e o Estado nascem do direito natural, que coincide com a razão, a
qual diz que, sendo todos os homens iguais e independentes, ninguém deve prejudicar os outros na vida, na saúde, na liberdade e nas posses. São,
portanto, direitos naturais o direito à vida, à liberdade, à propriedade e à defesa desses direitos. O fundamento da gênese do Estado é a razão e não,
como em Hobbes, o instinto selvagem. Reunindo-se em uma sociedade, os cidadãos renunciam unicamente ao direito de se defenderem cada qual por
sua conta própria, com o que não enfraquecem e sim fortalecem os outros direitos. O Estado tem o poder de fazer as leis (poder legislativo) e de impô-
las e fazer com que sejam cumpridas (poder executivo). Os limites do poder do Estado são estabelecidos por aqueles mesmos direitos dos cidadãos
para cuja defesa nasceu. Portanto, os cidadãos mantêm o direito de se rebelarem contra o poder estatal, quando este atua contrariamente às finalidades
para as quais nasceu. E os governantes estão sempre sujeitos ao julgamento do povo. Ao contrário do que sustentava Hobbes, para Locke o Estado não
deve ter ingerência nas questões religiosas. E, visto que a fé não é uma coisa que possa ser imposta, é preciso ter respeito e tolerância para com as
várias fés religiosas.

5. Rousseau: iluminista e romântico; Estado de Natureza: categoria teórica para compreender o homem, que é originariamente íntegro, biologicamente
sadio e moralmente reto; vontade particular; homens amorais, compaixão e empatia e homem bom; Contrato Social: o objetivo do contrato é libertar o
homem das cadeias e restituí-lo à liberdade; pela instituição da liberdade chegamos ao estado civil; Estado Civil: causadores dos males sociais: cultura,
perfectibilidade e propriedade; letras , ciências e artes são frutos dos vícios da arrogância e da soberba; vontade geral. No estado de natureza influi o
mito quinhentista do bom selvagem, o homem que é originariamente íntegro, biologicamente sadio e moralmente reto; mau e injusto apenas depois,
por um desiquilíbrio de ordem social; é um estado aquém do bem e do mal: a natureza humana, deixada a seu livre desenvolvimento, leva ao triunfo
dos instintos, dos sentimentos e da autoconservação e não da reflexão, da razão e da aniquilação. “Vagando pela floresta, sem trabalho, sem palavra,
sem domicílio, sem guerra e sem laços, o selvagem nada mais tinha que os sentimentos e os conhecimentos próprios daquele estado, só experimentava
as necessidades verdadeiras. Se, por acaso, fazia alguma descoberta, nem podia transmiti-la, visto que sequer reconhecia seus filhos. Não havia
educação nem progresso”. O contrato é um pacto alternativo que, diferentemente do acordo firmado para assegurar a propriedade, terá por finalidade
“tomar os homens tais como eles são e as leis tais como podem ser”. “O homem nasceu livre e, todavia, em todo lugar encontra-se em cadeias”. O
objetivo do novo contrato social delineado por Rousseau é o de libertar o homem das cadeias e restituí-lo à liberdade. O princípio que legitima o poder
e garante a transformação social é a vontade geral, amante do bem comum, que é fruto de um pacto de união que, instituído entre iguais, dá lugar a um
corpo moral e coletivo: a vontade geral não é, portanto, a soma das vontades de todos os componentes, mas uma realidade que brota da renúncia de
cada um aos próprios interesses em favor da coletividade. Essa é, portanto, uma socialização radical do homem, de sua total coletivização, voltada a
impedir a emergência e afirmação de interesses privados: a vontade geral, encarnada no e pelo Estado, é tudo. “O vínculo social decorre daquilo que há
de comum nesses interesses diferentes; se não houvesse algum ponto no qual concordam todos os interesses, a sociedade não poderia existir. Ora, é
unicamente a base desse interesse comum que a sociedade deve ser governada. Estamos diante de uma socialização radical do homem, de sua total
coletivização. Ninguém deve obedecer ao outro e sim a lei, sagrada para todos porque fruto e expressão da vontade geral”. O único caminho para
remediar a decadência humana e a relativa falta de liberdade é a estipulação de um novo contrato social, em vista de um renovado estado civil: “cada
um de nós põe em comum sua pessoa e todo seu poder sob a direção suprema da vontade geral. Trata-se de uma alienação total de cada associado com
todos os seus direitos por meio da qual se produz imediatamente um corpo moral e coletivo unitário, cujos associados tomam coletivamente o nome de
povo e singularmente se chamam cidadãos, enquanto participantes da autoridade soberana e súditos enquanto submissos às leis do Estado”.

6. Iluminismo: filosofia hegemônica na Europa do séc. XVIII; sua característica fundamental consiste na confiança na razão humana e seu
desenvolvimento é visto como o progresso da humanidade; uso da razão para: 1. a libertação dos dogmas metafísicos, das superstições religiosas, das
relações desumanas entre os homens e das tiranias políticas; 2. defesa do conhecimento científico e técnico e dos direitos dos homens; a razão
iluminista é limitada pela experiência; o racionalismo iluminista se opõe ao conhecimento metafísico; a filosofia do deísmo (religiosidade natural,
racional e leiga); a razão na base das normas jurídicas e das teorias econômicas; meios usados para a circulação das ideias iluministas: Academias,
Maçonaria, salões, Enciclopédia, intercâmbio epistolar, ensaios, jornais e periódicos; Iluminismo na França: 1. Enciclopédia; 2. D’Alembert: a
filosofia como ciência dos fatos e o deísmo; 3. Diderot: do deísmo ao materialismo; 4. Condillac: sensismo; 5. La Mettrie, Helvétius e D’Holbach: o
materialismo iluminista; 6. Voltaire: deísmo, crítica ao otimismo e a batalha pela tolerância; 7. Montesquieu: o espírito das leis, as formas de governo
e a teorização da divisão dos poderes; Iluminismo na Inglaterra: 1. a controvérsia sobre o deísmo e a religião revelada: Toland e o mistério como
objeto de pesquisa; Clarke e a revelação explícita às leis morais; Collins e o livre pensamento crítico da fé religiosa; Tindal e as religiões positivas
como contrafação da natural; Josef Butler e a razão impotente diante da fé; 2. A reflexão sobre a moral: Anthony Ashley Cooper (Conde de
Shaftesbury) e Francis Hutcheson; 3. Mandeville e a fábula das abelhas; 4. Reid, Stewart e a escola escocesa do senso comum; Iluminismo na
Alemanha: 1. pré-iluminismo: Ehrenfried Walter von Tschirnhaus, Samuel Pufendorf e Christian Thomasius; 2. Pietismo: Philipp Jacob
Spener; 3. Christian Wolff: a figura mais emblemática do iluminismo alemão: Seus discípulos são: Martin Knutzen, Franz Albert Schultz, Adolph
Hoffmann, Christian Crusius, Johann Lambert e Johann Tetens; 4. Baumgarten: colocou as bases filosóficas da estética; 5. Reimarus e
Menselssohn: debate sobre a religião; 6. Gotthold Ephraim Lessing: arte, teatro e religião; Iluminismo na Itália: 1. pré-iluminismo: Giannone e a
libertação em relação ao catolicismo; Mauratori e a necessidade da religião; 2. iluminismo lombardo: Pietro Verri e Alessandro Verri; Cesare
Beccaria e a crítica à tortura e à pena de morte; segunda geração dos iluministas lombardos: Paolo Frisi, Gian Rinaldo Carli, Tiago Pelizzari,
Benvenuto Robbio, Giuseppe Garoni, Luigi Torri, Melchior Gioia e Francisco Soave; 3. Iluminismo napolitano: Antonio Genovesi, Ferdinando
Galiani e Gaetano Filangieri.

4. KANT, ROMANTISMO, IDEALISMO E HEGEL

1. Kant: O que posso saber? (CRPura): Qual é a possibilidade, o limite e o âmbito de aplicação do conhecimento? Não propõe um sistema metafísico,
mas investiga a razão num tribunal (juiz e ré). Revolução copernicana: ao invés do conhecer ser regulado pelo objeto, os objetos são regulados pelo
conhecer). Transcendental: condições de possibilidade de conhecer. Conhecimento a priori e a posteriori; juízos analíticos e sintéticos; ciência é JSA.
Na Estética Transcendental procura responder como são possíveis os juízos sintéticos a priori na matemática e investiga os princípios apriorísticos da
Sensibilidade (Espaço e Tempo). Na Analítica Transcendental procura responder como são possíveis os juízos sintéticos a priori na ciência da natureza
e investiga os princípios apriorísticos do Entendimento (Categorias). E, na Dialética Transcendental, investiga se são possíveis os juízos sintéticos a
priori na metafísica. A sensibilidade dá a matéria do conhecimento e o entendimento dá a forma. Assim, conhecer é dar forma a uma matéria dada. É
ligar representações em conceitos. O resultado disso é que nosso conhecimento só se refere a fenômenos, pois só conhecemos as coisas no espaço e no
tempo. Todo objeto, para ser conhecido, deve estar condicionado ao espaço e ao tempo, isto é, precisa afetar a sensibilidade causando uma impressão
sensível. O entendimento age sobre a sensibilidade e sintetiza as múltiplas intuições sensíveis. Sensibilidade e entendimento são mutuamente
independentes: “sem a sensibilidade, nenhum objeto nos seria dado; sem o entendimento, nenhum seria pensado. Pensamentos sem conteúdo são
vazios; intuições sem conceitos são cegas”. Há dois mundos: fenômeno e coisa-em-si. Quando o entendimento se lança para além do fenômeno, ele é
razão e versa sobre númenos, caindo em ilusões transcendentais: alma (psicologia), mundo (cosmologia) e Deus (teologia). Kant conclui que as ideias
da alma, do mundo e de Deus não tem valor constitutivo, pois são formas que não tem conteúdo. Essas ideias representam um ideal inatingível da
razão especulativa. Essas ideias são coisas-em-si; portanto, são incognoscíveis. A metafísica como conhecimento da coisa-em-si é impossível; ela
somente é possível como estudo das formas a priori da razão. Prova disso vem com a dialética que mostra os erros que a razão cai ao tentar fazer
metafísica. As ideias metafísicas não têm uso constitutivo como o têm as categorias, mas têm uso regulativo, unificando o conhecimento. Desta forma,
o númeno é indiscutivelmente incognoscível, mas é possível a sua pensabilidade e a sua possibilidade. Portanto, já que através da ciência não é
possível atingir o númeno, esse pode ser atingido por meio da ética. Com Kant, surge uma metafísica renovada. O que devo fazer? (Filosofia Moral e
do Direito): Ética: faculdade de desejar (inferior: matéria, desejos, sentimento; e superior: leis formais); liberdade (no sentido negativo: independência
em relação à matéria e condição para a liberdade positiva; e positivo: uma forma legislativa universal, autonomia); leis da natureza e leis da
liberdade/morais: leis éticas e jurídicas. Ética: autonomia, deontologia, boa vontade, dever por dever ou conforme o dever e imperativo categórico
(Paton: 5: 1. Lei universal; 2. Lei universal da natureza: age como se a máxima de tua ação se devesse tornar, pela tua vontade, lei universal da
natureza; 3. Homem como fim em si mesmo: age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre
e simultaneamente, como fim e nunca como meio; 4. Autonomia da vontade: age de tal maneira que a vontade, através de sua máxima, se possa
considerar a si mesma, ao mesmo tempo, como legisladora universal; 5. Reino dos fins: age sempre, como se tu fosses, através de tuas máximas, um
membro legislador de um reino dos fins). Quatro exemplos da FMC: suicídio e falsa promessa (deveres perfeitos e estritos): não admitem exceções
nem no pensar nem no querer; ócio e indiferença (deveres imperfeitos ou amplos): podem ser pensados, mas não almejados. Injustiça: contradição:
querer exceção pra si. Direito: “age externamente de modo que o livre uso de teu arbítrio possa coexistir com a liberdade de todos de acordo com uma
lei universal”. Desse imperativo é que deriva o direito positivo. Somente a razão e não a experiência define o critério de justiça. A ação somente é justa
se a liberdade de um possa coexistir com a liberdade de outrem. Direito: 1. relação externa (intersubjetiva e reciprocidade); 2. entre dois arbítrios; 3.
Formal. Sentido estrito: com coerção; sentido lato: sem coerção (equidade: direito sem coerção; necessidade: coerção sem direito); O que me é
permitido esperar? (Filosofia da História e da Religião). Paz Perpétua: 1° artigo: Constituição Republicana; 2° artigo: Federação de Estados Livres: a
mesma insociabilidade que obrigou os homens a saírem do estado de natureza e a entrarem numa constituição civil republicana é o mesmo
antagonismo que obriga os Estados a entrarem na Federação de Estados. Kant fundamenta sua liga das nações no princípio transcendental do direito;
3°artigo: Direitos Cosmopolita e a Hospitalidade. Kant não vê o progresso do Direito nem como governado pelo instinto nem por um plano acordado,
mas pela natureza humana (espírito do mundo, cfe Hegel). Kant parte da hipótese teleológica de que todas as disposições naturais de uma criatura estão
destinadas a algum dia desenvolver-se completa e finalisticamente (Idee, 1. Tese). As disposições naturais particulares dos indivíduos, que visam ao
uso da razão, chegam ao pleno desenvolvimento não no indivíduo, mas no gênero através de gerações sucessivas (Idee, 2. Tese). Este propósito natural
da humanidade deve ser alcançado pela própria natureza humana; o sentido da História, o progresso do Direito, ocorre sem nosso planejamento. Para
Hobbes, o instinto primário é o egoísmo; para Pufendorf e Locke, a sociabilidade; para Kant, ambos. O antagonismo (sociabilidade insociável) (Idee,
4. Tese) gera o desenvolvimento das disposições humanas.

2. Romantismo: 1. Sturm und Drang (tempestade e ímpeto): movimento literário romântico alemão, que levou gradualmente à superação do
iluminismo e afirmação do romantismo, aproximadamente de 1770 a 1780. Características: natureza: força onipotente e criadora de vida; gênio: força
originária; panteísmo; sentimento pátrio; dúvida ao racionalismo puro; predileção pelos sentimentos fortes e paixões; individualismo, sentimentalismo,
culto pela natureza, etc.; nomes: Goethe, Schiller, Jacobi e Herder; 2. Romantismo: movimento espiritual que envolveu a poesia, a filosofia, as artes
figurativas e a música; desenvolveu-se na Europa entre o fim do séc. XVIII e a primeira metade do séc. XIX; a partir da Inglaterra, ele se expandiu em
toda a Europa, na França, na Itália, na Espanha, mas sua manifestação paradigmática foi na Alemanha, entre o séc. XVIII e XIX; grandes nomes:
Schlegel, Novalis, Schleiermacher, Hölderin, Schiller, Goethe, Hamann, Jacobi, Herder e Humboldt.

3. Idealismo: 3.1 Fichte: O idealismo. A preocupação primordial de Fichte foi em primeiro lugar contribuir para a difusão do criticismo kantiano e,
depois, de descobrir o princípio de base, não revelado por Kant, que unificava as três Críticas, a fim de construir o sistema do saber, transformando a
filosofia em uma rigorosa “doutrina da ciência”. Partindo das reflexões pós-kantianas de Reinhold, Schulze e Maimon, o pensamento de Fichte chegou
a transformar o Eu penso kantiano em Eu puro, entendido como intuição pura que livremente se autopõe (se autocria) e, se autopondo, cria toda a
realidade. Esta é a grande novidade de Fichte, com a qual ele ia muito além do criticismo e fundava o idealismo. A doutrina da ciência: O Eu de Fichte
é o princípio originário e absoluto de toda a realidade, que antes de tudo põe a si mesma e, portanto, põe todas as coisas; desse modo, o Eu é condição
incondicionada de si mesmo e da realidade. Na metafísica anterior a Fichte, a atividade / agir era sempre considerado consequência do ser; o idealismo
de Fichte inverte isso: o ser é produto do agir. Assim, o Eu penso de Kant, que era a estrutura transcendental fundamental do sujeito, torna-se em
Fichte atividade / auto-intuição. Para Aristóteles, o princípio de todo saber científico era o princípio de não-contradição; na filosofia moderna wolffiana
e para Kant era o princípio de identidade (A = A), considerado ainda mais originário; para Fichte, ao contrário, o princípio se autopõe (Eu = Eu) e,
desse modo, põe a identidade A = A. O primeiro princípio do idealismo de Fichte, sua condição incondicionada é, portanto: o Eu põe absolutamente a
si mesmo. O segundo princípio é, portanto: o Eu opõe absolutamente a si mesmo, dentro de si, um não-eu. O terceiro princípio de Fichte é: no Eu
absoluto, o eu limitado e o não-eu limitado se opõem e se limitam reciprocamente. Fichte está convicto de estar em condições de “deduzir” as
categorias que Kant pretendeu extrair de modo metódico seguindo um fio condutor, mas que, na realidade, extraiu mecanicamente. Ei-las: Quantidade
(Unidade, Pluralidade e Totalidade); Qualidade (Realidade / Afirmação, Negação e Limitação); Relação (Substância e Acidente, Causa e Efeito e Ação
recíproca entre Agente e Paciente); Modalidade (Possibilidade-impossibilidade, Existência-inexistência e Necessidade-contingência). Dos três
princípios de Fichte podem-se deduzir as três categorias de qualidade: Afirmação (primeiro princípio); Negação (segundo princípio); Limitação
(terceiro princípio). De modo análogo, Fichte procede para deduzir também as outras. A antítese entre Eu e não-eu e a limitação recíproca explicam
tanto a atividade cognoscitiva como a atividade moral. A atividade cognoscitiva funda-se no aspecto pelo qual o Eu é determinado pelo não-eu. Na
experiência e no conhecimento nós consideramos comumente que nos encontramos diante de objetos diferentes de nós e que agem sobre nós. Como se
explica o fato de o sujeito considerar o objeto diferente de si, a ponto de sentir-se “afetado” pela ação dele? Em Kant a imaginação produtiva
determinava a priori a forma pura do tempo, fornecendo os “esquemas” às categorias. Em Fichte, a imaginação produtiva torna-se criadora
“inconsciente” dos objetos. A imaginação produtiva, portanto, é a atividade infinita do Eu que, delimitando-se continuamente, produz aquilo que
constitui a matéria de nosso conhecimento. Precisamente por se tratar de produção inconsciente, o produto nos aparece como diferente de nós. Mas a
imaginação produtiva fornece um material bruto, do qual, em etapas sucessivas, a consciência se reapropria através de sensação, da intuição sensível,
do intelecto e do juízo. A atividade prática funda-se no aspecto pelo qual o Eu determina o não-eu. No agir prático, o objeto se apresenta ao homem
como obstáculo a superar. O não-eu torna-se o instrumento através do qual o Eu se realiza moralmente. Sendo assim, o não-eu torna-se momento
necessário para a realização da liberdade do Eu. Ser livre significa tornar-se livre. E tornar-se livre significa afastar incessantemente os limites opostos
pelo não-eu ao Eu empírico. Fichte considera ter demonstrado a superioridade da razão prática sobre a razão pura, que Kant já intuíra. Deus não é
substância ou realidade em si mesma e sim essa ordem moral do mundo; é o dever ser e, portanto, a ideia. A verdadeira religião consiste na ação moral.
O finito (o homem) é momento necessário e estrutural de Deus.

3.2 Schelling: Os inícios do pensamento de Schelling em Fichte (1795-1796). Para Schelling, é preciso aplicar à natureza o mesmo modelo de
explicação que Fichte aplicara com sucesso à vida do espírito, porque o sistema da natureza está junto com o sistema do espírito. A natureza vem,
portanto, a mostrar-se como a produção de uma inteligência inconsciente que opera a partir de dentro dela, desenvolvendo-se em sentido teleológico.
Filosofia da natureza (1797-99). O grande princípio da filosofia natural de Schelling é, portanto: a natureza deve ser o espírito visível, o espírito deve
ser a natureza invisível. Toda força natural que se expande contrapõe-se de tempos em tempos um limite e toda fase constituída pelo encontro da força
expansiva se apresenta como mais rico e hierarquicamente mais elevado: o mais alto nível é o nível “orgânico” e o fim último da natureza é o homem,
porque nele desperta justamente o espírito, que em todos os outros graus naturais permanece como que dormente. O “Eu puro” de Fichte é apresentado
como o “absoluto”, cuja unidade não é a unidade numérica dos indivíduos, mas sim a unidade própria do Uno-Todo imutável. O “Eu” não é
consciência nem pensamento nem pessoa, porque consciência e pessoa são momentos posteriores e “deduzidos”. Spinoza é o seu grande adversário,
pois ele apresenta-se como o campeão do dogmatismo, enquanto absolutizou o objeto (o não-eu) e procurou garantir a paz do espírito ao preço do
abandono do sujeito (empírico) ao objeto absoluto. Fichte não considera o objeto como absoluto e sim o sujeito, além de vincular o sujeito empírico ao
sujeito absoluto mediante a intuição intelectual, que revela precisamente a tangência do eu empírico com o Eu absoluto. Mas, se não é um puro não-eu,
o que é então a natureza? Schelling considera que o problema é solucionável supondo-se a existência de unidade entre ideal e real, entre espírito e
natureza. Isso implica que se deve aplicar à natureza o mesmo modelo de explicação que Fichte aplicara com sucesso à vida do espírito. Assim,
conclui-se que a natureza é produzida por uma inteligência inconsciente, que opera em seu interior, que se desenvolve teleologicamente em graus, ou
seja, em níveis sucessivos, que mostram uma finalidade intrínseca e estrutural. A natureza nada mais é do que a história da inteligência inconsciente
que, através de sucessivos graus de objetivação chega, por fim, à consciência (no ser humano). Idealismo transcendental (1880). Após verificar como a
natureza chega à inteligência, Schelling verifica agora como a inteligência chega à natureza (na obra O sistema do idealismo transcendental). O Eu é
atividade originária que se autopõe ao infinito, atividade produtora que se torna objeto para si mesma. Mas, para não ser apenas produtora, tornando-se
também produto, a produção pura infinita que é própria do Eu deve estabelecer limites ao seu próprio produzir e, portanto, opor algo a si. Mas a
atividade do Eu, enquanto é atividade infinita, estabelece o limite e depois também o supera, gradualmente, em nível sempre maior. Schelling chama
de “atividade real” a atividade originária do Eu, produtora ao infinito, enquanto chama de “atividade ideal” aquela que toma consciência colidindo com
o limite; o limite, com efeito, é ideal no âmbito do saber e real no âmbito do agir: a filosofia teórica é por isso idealismo, enquanto a filosofia prática é
realismo e apenas juntas elas formam o sistema completo do idealismo transcendental. Os horizontes da Doutrina da ciência de Fichte se ampliam e o
idealismo subjetivo torna-se ideal-realismo. Idealismo estético (1800). A mais elevada tarefa da filosofia transcendental consiste em mostrar a
identidade, inerente no próprio princípio, da atividade consciente e da inconsciente e a atividade consciente-inconsciente presente tanto no espírito
quanto na natureza é a atividade estética: o mundo objetivo é, portanto, a poesia primitiva e ainda inconsciente do espírito e o órgão universal da
filosofia é a filosofia da arte. Na criação artística se fundem o consciente e o inconsciente. O produto artístico é, de fato, finito, mas mantém
significação infinita. Nas obras-primas da arte humana encontra-se a mesma marca das obras-primas da arte cósmica. Filosofia da identidade (18001-
1804). A concepção da intuição estética, como captação da unidade do ideal e do real (filosofia transcendental como ideal-realismo), implicava já uma
concepção do absoluto como “identidade originária” de Eu e não-eu, sujeito e objeto, espírito e natureza. Essa concepção abandona as filosofias
kantiana e fichteana unilaterais. O absoluto é, portanto, essa identidade originária de ideal e real e a filosofia é saber absoluto do absoluto. As
concepções de Spinoza e Fichte são sintetizadas em forma de espiritualismo panteísta: tudo é razão e a razão é tudo. A “identidade absoluta” é infinita
e não sai nunca fora de si e, portanto, tudo aquilo que existe, existe de algum modo nela e é identidade: a identidade absoluta é definitivamente o Uno-
Todo, fora do qual nenhuma coisa existe por si mesma. Schelling procura superar a dificuldade reintroduzindo a teoria platônica das ideias. Não razão,
entendida como identidade absoluta e unidade do universal e do particular, existem unidades particulares (as ideias) que deveriam constituir a causa
das coisas finitas. Todavia, no absoluto, as ideias estão todas em todas, ao passo que as coisas sensíveis estão separadas e umas fora das outras.
Schelling sustenta que, no sensível, as coisas são tais somente para nós, ou seja, somente para nossa consciência empírica. Para resolver a grande
dificuldade de explicar como e por que da identidade infinita nasçam a diferenciação e o finito, Schelling não acolhe o criacionismo (que faz o finito
nascer por ato de livre vontade do Criador e supõe a transcendência) nem o spinozismo (que, na prática, anula o finito e representa a posição pré-
idealista) e retoma o antigo conceito gnóstico, aceito no passado pelo misticismo alemão da “queda”: a existência das coisas e sua origem supõem uma
queda originária, uma separação em relação a Deus. A origem do mundo sensível só pode ser explicada pelo afastamento em relação ao absoluto
através de um salto. Filosofia negativa e filosofia positiva (o último Schelling: 1815). Schelling aceita ser chamado de panteísta desde que se entenda
por panteísmo que tudo está em Deus, mas não, ao contrário, que tudo é Deus. Deus é o antecedente e as coisas são o consequente. O consequente está
no antecedente, mas não vice-versa. Schelling chega a considerar Deus como “pessoa” (o que fora excluído tanto por Spinoza como por Fichte), mas
pessoa que-se-faz. Os opostos, que antes (jovem Schelling) eram admitidos como unificados, agora já são entendidos por ele como presentes em luta
dentro do próprio absoluto. Existe em Deus o princípio obscuro e cego, que é a vontade irracional e o princípio positivo e racional. A vida de Deus se
explica precisamente como vitória do positivo sobre o negativo. Deus não é puro espírito, mas é também natureza. O drama humano, que consiste na
luta entre o bem e o mal, entre a liberdade e a necessidade, nada mais é do que o refletir-se de um conflito originário de forças opostas, que estão na
base da própria vida de Deus. Existe mal no mundo porque ele já existe em Deus. A vitória da liberdade, da inteligência e do positivo, que é o objetivo
da história dos homens, é o reflexo daquela vitória que se realiza eternamente em Deus. Na última fase do pensamento de Schelling (1815), ele
distingue: i) filosofia negativa: é a filosofia professada até esse momento; é a especulação em torno do universal, da essência das coisas; é relativa à
possibilidade lógica das coisas; ii) filosofia positiva: é a especulação que se funda sobre a religião e sobre a revelação e se refere sobre à existência
efetiva das coisas.

4. Hegel: Fundamentos conceituais: a realidade enquanto tal é espírito infinito; a estrutura é a própria vida do espírito e, portanto, também o
procedimento com o qual se desenvolve o saber filosófico é a dialética; a peculiaridade desta dialética, bem diferente de todas as formas precedentes de
dialética, é o elemento especulativo. Sistema: as 3 partes são a ideia, a natureza e o espírito. Ideia: Hegel parte na Lógica, do nível do conhecimento
absoluto atingido na Fenomenologia do Espírito. Esse conhecimento exige que as determinações lógicas (categorias) não surjam, como na metafísica
clássica, na forma de determinações puras de uma realidade independente do sujeito, nem como determinações puras do sujeito como na Filosofia de
Kant. Elas devem ser entendidas como uma unidade do sujeito e objeto. A tarefa da Lógica é apresentar o pensamento puro em seu significado
específico. Ela deve substituir as clássicas disciplinas da filosofia: Lógica e Metafísica, e englobar dois programas, a apresentação do pensamento puro
e a ideia do absoluto. As determinações lógicas tem em Hegel também um caráter ontológico: elas não são apenas um conteúdo do saber, mas devem
ser compreendidas igualmente como o “interior do mundo”. O propósito de Hegel é a desenvolver uma dedução sistemática das categorias, e
estabelecer sua necessidade. O meio decisivo apresentado para isso é o Princípio da Dialética, que Hegel situa como fundado logicamente na natureza.
Chega-se assim à certeza de que, mais que uma coleção de categorias, tenha-se um completo “Sistema da Totalidade”. A Lógica se divide numa
“Lógica Objetiva” - a Doutrina do Ser e da Essência - e numa “Lógica Subjetiva” - a Doutrina do Conceito. Natureza: a passagem da ideia para a
natureza é o ponto teórico mais problemático da filosofia de Hegel, sujeito a diversas interpretações que surgem das próprias afirmações ambíguas do
filósofo a esse respeito. Isso depende principalmente do fato de que Hegel tem dificuldade de dominar as diversas sugestões que confluem sobre este
ponto: a) a processão dialética do neoplatonismo, que concebia o desenvolvimento da realidade em sentido triádico como manência, saída e retorno:
para Hegel, a natureza corresponde à saída; b) o dogma da teologia cristã da criação; c) os dogmas da encarnação, paixão, morte e ressurreição de
Cristo; d) a concepção tipicamente romântica do tornar-se-estranho do espírito a si mesmo com o objetivo de tomar consciência de si e de se realizar
completamente. Espírito: divide-se em espírito subjetivo (antropologia, fenomenologia e psicologia), objetivo (direito abstrato, moralidade e eticidade)
e absoluto (arte, religião e filosofia). A antropologia estuda a alma considerada em sua fase auroral. A fenomenologia traça o percurso da consciência
ao Saber Absoluto. Na Fenomenologia do Espírito, Hegel investiga as manifestações do espírito e as suas realizações na história. Saindo do estado de
ignorância, o indivíduo alcança o saber que, em última análise, é a compreensão científica do espírito. A psicologia estuda o espírito do indivíduo até
sua liberdade. O direito abstrato divide-se em direito de propriedade, direito contratual e direito penal. Na moralidade, Hegel afirma que a teoria
kantiana não passa de um formalismo vazio e o imperativo categórico é uma pura indeterminação (crítica ao formalismo kantiano). Não adianta criar
procedimentos formais para guiar a ação do homem, mas devem-se apontar quais são os princípios conteudísticos para, a partir deles, extrair e
estabelecer os deveres particulares. Sem isso, ações injustas e imorais poderiam ser justificadas. A eticidade corresponde à vinculação do direito
abstrato e da moralidade nas instituições sociais (família, sociedade civil e Estado). E, por fim, as formas do auto-saber-se do espírito são: arte (pela
intuição estética), religião (pela representação da fé) e filosofia (pelo conceito puro).

Você também pode gostar