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PROVA – DIREITOS REAIS – 1º BIMESTRE

Prof. Felipe Frank


Valor: 6,0 pontos
ANA GABRIELA LYKO 7ºU NOTURNO

1) Magna Letícia Carvalho Pires estava interessada em comprar uma chácara nas
proximidades de Curitiba. Encontrou o terreno perfeito: Chácara Graciosa, uma
propriedade de 50 alqueires próximos ao Parque Estadual Pico do Marumbi, em
Morretes. O preço, inclusive, estava bem abaixo do mercado (vendia-se na região
propriedades semelhantes pelo valor de R$7.5 Milhões, mas essa Chácara estava
sendo ofertada por R$5 milhões). A vendedora alegou que necessitava do dinheiro,
por isso o preço baixo. Por via das dúvidas, Magna contratou um escritório para fazer
uma inspeção na propriedade, o qual não encontrou nenhuma irregularidade. Magna,
então, efetuou a compra. Entretanto, 3 anos após a compra, Magna foi surpreendida
com uma citação do Poder Judiciário do Paraná em uma ação de responsabilidade
civil. O MP-PR alega que dos 50 alqueires da propriedade, 35 estavam dentro da área
do Parque Estadual do Pico do Marumbi (criado pelo Decreto nº 7.300 de 24 de
setembro de 1990). Esse fato foi descoberto porque as autoridades competentes
utilizaram as novas tecnologias de georreferenciamento. Por meio delas, também, foi
possível constatar que dos 35 alqueires da propriedade que invadiam o Parque, 32
deles foram desmatados. Além disso, uma área da propriedade engloba a chamada
Reserva Legal (RL) (Lei nº 12.651/12). O MP pediu a condenação em 25% do valor
da propriedade (R$ 1.875 milhão de reais), e ainda a obrigação de apresentar um
plano de recomposição integral da área devastada. Com base na situação fática
apresentada, responda às seguintes questões:
a. Se você fosse o promotor do Ministério Público, quais argumentos
jurídicos você utilizaria para argumentar pela responsabilidade civil de
Magna? Fundamente sua resposta em até 5 linhas. (0,5 ponto).
No ordenamento jurídico brasileiro a responsabilidade civil por danos
ambientais é solidária, de modo com que aplica-se o art. 942, Código
Civil, que dispõe: “Os bens do responsável pela ofensa ou violação do
direito de outrem ficam sujeitos à reparação do dano causado; e, se a
ofensa tiver mais de um autor, todos responderão solidariamente pela
reparação.”
b. Se você fosse advogado de Magna, quais argumentos você utilizaria
para argumentar pela ausência ou pela limitação da responsabilidade
civil de Magna? Fundamente sua resposta em até 5 linhas. (0,5 ponto).
A sumúla 623 do STJ define obrigação propter rem como uma obrigação
inerente a coisa. Nesse caso por tratar-se de uma área com
preservação social e levando em consideração a função social da
propriedade, proprietário possui o ônus de zelar pela propriedade,
preservando áreas florestais. O órgão Público possui legitimidade e
dever de zelar pelo interesse público nas condutas que lesionam o meio
ambiente.
c. Explique como o fato de a propriedade possuir uma área de Reserva
Legal (RL) além de uma área de preservação permanente (APP) pode
interferir no Termo de Ajustamento de Conduta e na própria ação
judicial. Justifique em até 5 linhas. (0,5 ponto).
O advogado precisa usar das excludentes de responsabilidade civil
ambiental, no caso de Magda há a hipótese de o fato de terceiro e a
cláusula de não indenizar, em decisões recentes do STJ, a exclusão
de responsabilidade ambiental em determinados casos é a regra,
mesmo nas hipóteses de responsabilidade civil objetiva. Dessa forma,
a excludente deverá ser reconhecida quando o ato praticado pelo
terceiro for completamente estranho à atividade desenvolvida pelo
poluidor indicado, e não se possa atribuir a este qualquer participação
na realização da deterioração.

2) Sr. Cleonídio Vieira de Melo, produtor rural da Bahia, decidiu efetuar um contrato
de arrendamento com o Sr. Jorge Pereira do Val tendo como objeto a sua
propriedade, Fazenda Carcará. O contrato inicial previa o prazo de arrendamento de
5 anos. Todavia, no meio tempo, Sr. Cleonídio acabou falecendo vítima de um câncer.
Iniciado o processo de transmissão de bens, sua filha, Luísa ficou com a propriedade
da Fazenda Carcará. O processo de espólio, transmissão e adjudicação da Fazenda,
bem como o tempo passado enquanto o Sr. Leonídio estava em vida, somados,
acabaram excedendo o prazo originário de 5 anos para o arrendamento da
propriedade acordado. Fato esse que fez com que o Sr. Jorge alegasse que, como
não houve nenhum aviso ou acordo subsequente, subentende-se que o contrato deve
ser renovado automaticamente, o que lhe garante o Direito de arrendar a propriedade
por mais 5 anos. Sabendo desse fato, Luísa entrou com ação judicial, conseguindo o
Direito de posse da propriedade. Entretanto, Sr. Jorge não desocupou a terra
imediatamente, tendo que ser retirado, pacificamente, por forças policiais após o
prazo de 60 dias estabelecido pela decisão judicial. Fato que complica mais a
situação: Sr. Jorge possuía cerca de 200 cabeças de gado na propriedade, as quais
iria retirar após alguns dias de sua desocupação, pois precisaria arranjar máquinas e
ferramentas para deslocar o gado. Porém, quando foi buscar suas cabeças de gado,
foi informado que Luísa somente permitiu a retirada de ¾ dos animais, pois descontou
do valor das cabeças de gado (2 mil por cabeça) os R$100 mil reais de multa pelos
60 dias de descumprimento da decisão judicial. Com base nessa complexa exposição
fática, respondas as seguintes questões:
a. Qual é a ação que Luísa poderia propor para recuperar o Direito de posse de
Sr. Jorge, e quais argumentos jurídicos ela poderia utilizar para sustentar sua
pretensão? Fundamente em até 5 linhas. (0,5 ponto).
Luísa tem como possibilidade propor a Ação de Imissão de Posse, alegando
que a legislação brasileira determina que a extinção do contrato de
arrendamento ocorre com a perda do direito do arrendador. Usando como
fundamento, o artigo 26 do Decreto 59.566/1966, o arrendamento será extinto
“pela resolução ou extinção do direito do arrendador”. Assim sendo, extingue-
se o direito de. Jorge em permanecer com a posse visto que Luísa é possuidora
nova.

b. Luísa tem a prerrogativa de Direito de reter ¼ das cabeças de gado de Sr.


Jorge para efetuar o pagamento da multa? Justifique em até 5 linhas. (0,5
ponto).
Existe a possibilidade de cobrança de multa da parte de Luísa em relação a
Sr. Jorge, conforme determinação judicial.
Está vedado a Luísa reter ¼ das cabeças de gado uma vez que se trata de
coisa alheia e não há decisão judicial que a autorize a realizar essa ação.

c. Quais as medidas (judiciais e extra-judiciais) que o Sr. Jorge pode tomar para
garantir a retomada de seu gado e/ou recuperação de seus prejuízos?
Justifique em até 5 linhas. (0,5 ponto).
Jorge pode ingressar com a Ação de Reintegração de Posse de seu gado visto
que o mesmo sofreu esbulho. A decisão judicial favorável a Luísa do
recebimento de determinado valor não a dava direito sobre os gados. Pode-se
alegar a violação dos deveres da boa-fé objetiva por parte da nova possuidora,
uma vez que ao tomar as medidas que tomou deixou Sr. Jose totalmente
desprevenido.

3) Sr. José Maria, empresário do ramo do agronegócio, buscava expandir sua atuação
devido às novas tecnologias de genética molecular agrícola. Encontrou a propriedade
perfeita para exploração dessas tecnologias no município de São Desidério, na Bahia.
Sem demorar muito, já entrou em contato com o dono da Fazenda, Sr. Maurício,
combinando os valores e o pagamento. Combinaram ainda que manteriam o mesmo
caseiro, o Sr. Vinícius, com quem estabeleceu contato e pactuou que continuaria
cuidando da propriedade. Em seguida, após a lavratura da escritura de compra e
venda, José Maria efetuou o pagamento de R$6 milhões de reais referente à compra
da propriedade e, no dia útil subsequente, tomou posse da área, iniciando a
preparação da terra para o plantio da soja. Quatro meses depois, quando a terra já
estava pronta para receber o plantio da nova safra, o Sr. José Maria foi surpreendido
com a ligação de um advogado, que se apresentou como representante do Sr. Tércio
Pereira, o qual havia visitado a propriedade em data anterior à aquisição de José
Maria, mas adquirido a Fazenda Maravilha há poucos dias, num negócio de compra
e venda feito com o então proprietário, o Sr. Maurício, e que, inclusive, havia levado
a escritura pública de compra e venda para que fosse registrada na matrícula do
imóvel, no Cartório de Registro de Imóveis de São Desidério, onde a Fazenda
Maravilha está situada. Sr. José Maria possui o comprovante de transferência
bancária para a conta do Sr. Maurício, a escritura pública de compra e venda lavrada
no tabelionato de Barreiras, o contrato assinado com o caseiro da terra na data da
visita à propriedade e as chaves que lhe foram repassadas pelo Sr. Maurício. Com
base nessa situação fática descrita, responda às seguintes questões:
a. Seria correto defender juridicamente a posição de Tércio Pereira invocando
argumentos relativos única e exclusivamente ao cumprimento por ele dos
requisitos formais para aquisição da propriedade? Justifique em até 5 linhas.
(0,5 ponto).
Sim, visto que de acordo lei de Registros Públicos art 186:
Art. 186 - O número de ordem determinará a prioridade do título, e esta a
preferência dos direitos reais, ainda que apresentados pela mesma pessoa
mais de um título simultaneamente.
Tércio terá direito sobre o imóvel, pois realizou o registro do bem, levando-se
em conta a data da prenotação realizada junto ao Cartório de Registro de
Imóveis.
Mesmo que José Maria tenha comprado antes, a falta do registro faz com que
‘perca’ o imóvel.

b. Segundo a jurisprudência do STJ, qual seria o melhor argumento para


sustentar que a pretensão de Tércio Pereira deve prevalecer sobre a de José
Maria? Justifique em até 5 linhas. (0,5 ponto).
Só circunstância de ter havido boa-fé do comprador não induz a que se anule o
registro de uma outra escritura de compra e venda em que o mesmo imóvel foi vendido
a uma terceira pessoa que o adquiriu também de boa-fé. Se duas distintas pessoas,
por escrituras diversas, comprarem o mesmo imóvel, a que primeiro levar a sua
escritura a registro é que adquirirá o seu domínio. É o prêmio que a lei confere a quem
foi mais diligente. (STJ - REsp: 104200 SP 1996/0051568-9)

C. Quais as medidas (judiciais e extra-judiciais) e quais argumentos jurídicos


que José Maria pode utilizar para se defender desde logo, antes que Tércio
Pereira ajuíze uma ação? Justifique em até 5 linhas. (0,5 ponto).
José Maria poderá ingressar com ação de perdas e danos em desfavor de Sr.
Maurício.
Pode-se propor um acordo entre vendedor e comprador de forma particular, e
no caso José Maria tem a posse e considera-se possuidor todo aquele que tem
de fato o exercício, pleno ou não, de algum dos poderes inerentes à
propriedade conforme menciona artigo 1.196 do CC. Dando o aval dele usufruir
das ações possessórias de iminência preventiva, ainda pode entrar com
embargos de terceiro, pois tem a posse da propriedade e com isso tem o direito
de regularizar a situação, ainda pode colher os frutos que provem deste.

4) Verifique as afirmações acerca das figuras híbridas de direitos reais e direitos


pessoais e assinale a alternativa correta. (0,5 ponto).

I - Obrigações propter rem são as obrigações pessoais que surgem em razão de um


direito real;
II - Ônus reais ocorrem quando a obrigação recai sobre a coisa, e, uma vez que a
adere, também a acompanha;

III - Um exemplo de obrigação propter rem é a abstenção de atos que possam


prejudicar a saúde, sossego ou segurança dos vizinhos;

IV - Obrigações com eficácia real são aquelas que ao tomarem como objeto um bem
vão ter uma eficácia contra terceiros (erga omnes), não se restringindo apenas às
partes, sem contudo perder suas características de direito pessoal em essência.

a) Todas as afirmativas estão corretas.

b) Todas as afirmativas estão erradas.

c) Apenas I, II e IV estão corretas.

d) Apenas I, III, IV estão corretas.

5) (FCC – Prefeitura de São Luiz/MA – Procurador – 2016 - adaptada) “O regime


jurídico dos direitos reais (sobre imóveis) adota o princípio da publicidade por meio
do qual esses se exteriorizam e em que essa é constitutiva praticamente sempre dos
direitos reais” (Arruda Alvim, Comentários ao Código Civil brasileiro, item 3.10, p. 229.
Rio de Janeiro: GEN-Forense, 2009. Vol. I, Tomo I). Destarte, para que os direitos do
promitente comprador de imóvel assumam a natureza de direito real, faz-se
necessário. (0,5 ponto).

a) o pagamento integral do preço.

b) o ajuizamento da ação de adjudicação compulsória.

c) o registro da promessa de compra e venda.

d) a cláusula de arrependimento.

6) (FGV - 2018 - OAB - Exame de Ordem Unificado - XXVI - Primeira Fase) Diante da
crise que se abateu sobre seus negócios, Eriberto contrai empréstimo junto ao seu
amigo Jorge, no valor de R$ 200.000,00, constituindo, como garantia, hipoteca do seu
sítio, com vencimento em 20 anos. Esgotado o prazo estipulado e diante do não
pagamento da dívida, Jorge decide executar a hipoteca, mas vem a saber que o
imóvel foi judicialmente declarado usucapido por Jonathan, que o ocupava de forma
mansa e pacífica para sua moradia durante o tempo necessário para ser reconhecido
como o novo proprietário do bem. Diante do exposto, assinale a opção correta. (0,5
ponto).
a) Como o objeto da hipoteca não pertence mais a Eriberto, a dívida que ele
tinha com Jorge deve ser declarada extinta.

b) Se a hipoteca tiver sido constituída após o início da posse ad usucapionem


de Jonathan, o imóvel permanecerá hipotecado mesmo após a usucapião,
em respeito ao princípio da ambulatoriedade.

c) Diante da consumação da usucapião, Jorge tem direito de regresso contra


Jonathan, haja vista que o bem usucapido era objeto de sua garantia.

d) Sendo a usucapião um modo de aquisição originária da propriedade,


Jonathan pode adquirir a propriedade do imóvel livre da hipoteca que
Eriberto constituíra em favor de Jorge.

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