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CORAÇÃO INDOMÁVEL

(Wildcat Wife)

Lindsay Armstrong

Série Australians 10

Arredia, briguenta, mas totalmente irresistível!

Loura Shaw era uma das decoradoras mais importantes de seu país, e isso lhe
dava o direito de aceitar ou recusar clientes. E rejeitou a proposta feita por Fraser A. Ross
simplesmente por não gostar do jeito de ele escrever. Para ela, só um homem muito
prepotente escrevia de maneira tão pomposa. Laura só não esperava conhecê-lo
pessoalmente e, muito menos, se sentir atraída por um homem tão arrogante.

Fraser jamais havia aceitado um não como resposta. E não seria daquela vez que
uma ruiva cheia das vontades e tremendamente briguenta iria fazê-lo mudar. Para atingir
seus objetivos, ele era capaz de fazer qualquer coisa. Até mesmo domar uma fera de
cabelos de fogo!

Digitalização: Simone R.
Revisão: Andréa
Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

Copyright © 1997 by Lindsav Armstrong


Originalmente publicado em 1997 pda Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de n produção total ou parcial, sob
qualquer forma.
Esta edição é publicada através de contrato com a Mills & Boon Ltd.
Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas
ou mortas terá sido mera coincidência.

Título original: Wildcat wife


Tradução: Adelídia Chiarelli

Editor: Janice Florido


Chefe de Arte: Ana Suely Dobón
Paginador: Nair Fernandes da Silva
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Rua Paes Leme, 524 – 10º andar
CEP: 05424-010 - São Paulo - Brasil
Copyright para a língua portuguesa: 1998
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Fotocomposição: Editora Nova Cultural Ltda.
Impressão e acabamento: Gráfica Círculo

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

CAPÍTULO I

— Laura, aqui está um outro trabalho para você. — Délia Renfrew colocou um
papel sobre a mesa da sua chefe. — E agora? O que vamos fazer?
Laura Shaw, que até aquele instante fitava atentamente um desenho que tinha
diante de si, retirou as mãos dos seus exuberantes cabelos ruivos e colocou o lápis atrás
da orelha. Ela havia inaugurado a sua loja, onde funcionava também o seu ateliê de
decoração, havia alguns anos e, depois de muito trabalho, de muitas idéias novas e do
seu extremo bom gosto, estava agora finalmente sendo recompensada por tanta
dedicação.
— O que é isso? — Laura perguntou com a voz rouca e sensual que lhe era
peculiar.
— Uma carta de uma pessoa que deseja contratá-la. O envelope está anexado à
carta.
— E quem a mandou? Alguém que conhecemos?
— Não, pelo menos não conheço nenhum Fraser A. Ross, você conhece?
Laura sorriu, pegou a correspondência que Délia havia colocado em sua frente e
perguntou, depois de dar uma olhadinha no envelope:
— Será que ele é escocês?
— Não sei, por quê?
— Tenho quase certeza de que esse A. significa Alistair, Archie, Andrew ou Angus.
— Ela voltou a sorrir. — Mas devo admitir que Fraser A. Ross é um nome muito
pomposo!

— Ele deve ter no mínimo uns oitenta anos. Não concorda comigo, Délia?
— Concordo, sim. Esse sr. Fraser está querendo que você decore a casa dele.
Laura leu a carta e comentou:
— Nossa! Fraser A. Ross está querendo que eu decore a casa dele que fica numa
das ilhas de Whitsunday.
— Deve ser um lugar fantástico.
— É verdade... Mas também deve ser um local de difícil acesso. Já pensou? Como
vou fazer para ir e vir de lá? Não.

— Não, o quê? — Délia perguntou, espantada.


— Eu não vou trabalhar para ele — Laura disse com decisão.
— Não? — Délia estava mais espantada ainda.

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— Não — Laura voltou a negar.


— E o que eu faço?
— Não posso acreditar na pergunta que acabou de me fazer, minha querida. Você
é a melhor secretária que eu conheço e por isso, é claro, está trabalhando comigo.
— Mas eu simplesmente escrevo ao homem e digo não? Você precisa apresentar
alguma boa desculpa para rejeitar o trabalho.
Laura pensou um pouco e disse:

— Já sei: diga a Fraser A. Ross que detesto pessoas que abreviam os nomes.
— Mas você acabou de me dizer que o nome dele é muito pomposo.
— Pode ser, mesmo assim acho que as pessoas não devem ficar abreviando os
nomes.
— Você só pode estar brincando.

— Diga também que tive um estranho pressentimento ao ler a carta dele.


— E que pressentimento foi esse, posso saber?
— Mas é claro que pode. Tive a nítida sensação de que Fraser A. Ross é um
escocês muito esnobe e que usa as roupas típicas do país.

— Você não gosta de homens que usam saias, Laura?


— Não. Na verdade, eu os prefiro de sunga ou dentro de um smoking belíssimo. E
depois o coitado do sr. Fraser A. Ross é que é esnobe.
A secretária caiu na gargalhada.

— Bem, sei exatamente o que quer que eu escreva para o escocês: uma carta
formal, muito bem-educada, onde eu digo que, por motivo de falta de tempo e por causa
dos inúmeros compromissos, não poderá assumir o trabalho que está lhe propondo.
— Precisamente! Não sei o que faria sem você, Délia!
A secretária pensou um pouco e quis saber:
— E para dispensar o trabalho definitivamente, ou é melhor deixar uma brecha
para que ele seja feito mais tarde?
— É para dispensá-lo definitivamente.
— Por que vai fazer uma coisa dessa? Não podemos fechar as portas que se
abrem diante de nós.

— Concordo com você, minha querida, mas algo me diz que esse trabalho não é
para mim. E, por favor, não me pergunte o porquê.
— Sinto muito, Laura, mantenho de lhe fazer esta pergunta: por quê? Por que está
achando que esse trabalho não é para você?

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Laura estendeu-lhe a carta e pediu:


— Leia de novo. Vai ver que esse homem, seja lá quem for, é um ser prepotente e
se acha superior a todos que o cercam.

— Onde foi que você leu tudo isso? — a secretária perguntou e pegou a carta das
mãos de Laura.
— Dê uma lida no último parágrafo.
Délia atendeu ao pedido de Laura e, em voz alta, leu o último parágrafo da carta:

— Foi um prazer incomensurável entrar em contato com a senhora e espero que


atenda ao meu pedido de imediato. — Délia deu um profundo suspiro. — Onde você viu
aqui que Fraser A. Ross é um ser prepotente e se acha superior a todos que o cercam?
— No tipo de palavras que usa. A maneira que o homem escreve é muito certinha
e exigente, é claro.
— Laura, raciocine: o sr. Fraser pode ser uma pessoa de idade e foi dessa maneira
que aprendeu a se expressar.
— Não concordo com você. Tenho certeza absoluta de que ele não é uma pessoa
de idade! Ele é esnobe mesmo. E deve ter uns cinquenta anos. Se ainda fosse um
velhinho, iria reconhecê-lo. Você sabe o quanto eu gosto das pessoas e as respeito. Pode
responder descartando de vez o meu serviço na ilha. Jamais conseguiria conviver com
um homem como Fraser A. Ross. Acredite em mim, Délia.
— Tudo bem, mas vamos deixar este assunto de lado. A secretária consultou a
agenda que tinha nas mãos. — Você não se esqueceu do jantar, esqueceu?
— A qual jantar está se referindo?
— Ao jantar de quinta-feira. Os Spence vão dar o jantar em sua homenagem. Os
dois adoraram a decoração que você foz na casa deles.
— É verdade... O jantar dos Spence... — Laura levou as mãos à cabeça. — Eu já
tinha me esquecido.
— Como sempre, não é?
— Délia, não tenho nada para usar num jantar tão sofisticado como o que os
Spence irão me oferecer.
— Pois então, dona Laura Shaw, trate de sair e comprar uma roupa bem chique.
— Pelo que estou vendo, a sua sugestão é para que eu gaste muito dinheiro.
— E por que não? Nós duas sabemos o quanto você aprecia produtos belos e de
excelente qualidade, não sabemos? E eles custam caros, Laura.
— Não gosto de desperdiçar dinheiro. Só eu sei quanto trabalhei para ganhá-lo.
— Sou testemunha de tudo o que acabou de falar. Acontece, Laura Shaw, que hoje
você tem, sim, dinheiro e pode muito bem comprar uma roupa fantástica para esse jantar
que será em sua homenagem. E não pode se esquecer de comprar também um belíssimo

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par de sapatos e uma bolsa.


— Tudo isso para mim? — Laura brincou.
— Tudo isso para você, sim, senhora.
— E eu mereço?
— Laura, e você ainda duvida? Mas é claro que você merece o vestido, os sapatos,
a bolsa e um homem maravilhoso que a faça feliz.
— Mas aí já é pedir demais, não é? — Laura deu uma risada. — Por enquanto
estou me contentando com as comprinhas que farei para esse jantar.
— Ótimo! Agora vou escrever a carta para Fraser A. Ross.
— Certo.
A secretária saiu, e Laura ficou olhando para o desenho que se encontrava sobre a
escrivaninha. E foi inevitável pensar no passado. Parecia mentira que hoje ela podia sair e
comprar o que bem entendesse. No começo de sua vida profissional a situação tinha sido
muito difícil. Sem dinheiro para continuar estudando, Laura se viu obrigada a deixar a
universidade após dois anos de muito sacrifício. Com o pouco que havia conseguido
economizar, alugou um quarto em uma pensão no sul da cidade, comprou uma máquina
de costura usada e começou a fazer colchas e almofadas de retalhos para vender. Todos
os dias, Laura ficava até quase as duas horas da madrugada, fazendo os trabalhos que
venderia no dia seguinte pela manhã, numa feira de artesanato que funcionava perto da
marina. E seus esforços foram recompensados. Após um ano, ela pôde mudar-se para
uma casa de dois quartos e, apesar de continuar fazendo as colchas e almofadas,
começou a percorrer a região para comprar móveis e peças antigas. Em pouco tempo
começaram a aparecer muitos interessados em tudo o que ela estava vendendo.
Um dia, um milionário americano, dono do iate mais fantástico que Laura já vira,
comprou duas colchas, cinco almofadas, um moinho de café antigo, em ferro, e perguntou
a ela qual a cor exata que deveria pintar a cabina para que combinasse com as colchas.
Meio intimidada, Laura sugeriu a cor ao milionário. Ele, agradecido, tinha ido embora.
Porém, para surpresa de Laura, no dia seguinte o homem voltou acompanhado da
esposa, e os dois a convidaram para redecorar o iate inteirinho.
Laura soube imediatamente que a sua grande chance tinha chegado. Finalmente
iria começar a trabalhar com o que sempre havia pretendido: decoração de interiores! E
ela não se enganou: a proposta dos milionários foi mesmo a sua grande chance. O casal
de americanos adorou o trabalho realizado no iate e, em menos de uma semana, um
outro milionário pedia-lhe que realizasse o mesmo tipo de decoração na sua antiga
embarcação. Depois disso foram pedidos e mais pedidos e, seis meses depois, Laura
alugou uma casa na parte norte da cidade, numa área nobre, onde havia residências de
alto valor e nunca mais se sentou em uma máquina para fazer colchas e almofadas.
Laura, porém, não se acomodou. Trabalhando dia e noite, em finais de semana e
feriados, acabou conseguindo comprar o local onde funcionava agora o seu ateliê e a loja
de antiguidades. A casa, um sobrado cercado por um belo jardim que na primavera
estourava em cores, era tida na cidade como um dos locais mais sofisticados da região.
E, nos últimos tempos, Laura vinha recebendo propostas de trabalho até do exterior.
Porém, ela se vira obrigada a não aceitá-las por falta absoluta de tempo.

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Laura, mergulhada no passado, continuava olhando o desenho que tinha diante de


si.
— Nada na vida é conseguido sem muito, muito esforço... E eu me orgulho por
tudo que consegui realizar até hoje — ela disse baixinho e deu um profundo suspiro. Em
seguida, retirou o lápis que colocara atrás da orelha e voltou a trabalhar.

Laura, porém, só se lembrou novamente do jantar que iriam lhe oferecer na quinta-
feira, quatro dias depois, na hora do almoço. E, sem perda de tempo, rumou para uma
loja onde tinha certeza de que iria encontrar tudo o que precisaria. O vestido que ela
comprou era, nada mais, nada menos que um sonho. Os sapatos e a bolsa em pelica
preta completavam o traje com perfeição.
Naquela tarde, Laura foi para casa mais cedo, dormiu um pouco e, em seguida,
tomou um longo e relaxante banho de espuma.
Com uma toalha enrolada na cabeça e vestindo um robe branco de algodão, pegou
o secador e se dirigiu à sala de estar, onde sentou-se em uma confortável poltrona. Após
ter secado os cabelos, foi para o quarto se vestir. Ao terminar, olhou-se feliz no espelho, e
a imagem refletida que viu era a de uma mulher esguia, de olhos verdes que sorria para
um mundo que se descortinava a sua frente.
Diana Marr ouviu o irmão lhe perguntar algo e não entendeu. Mas não precisou lhe
pedir que repetisse a pergunta. Foi só seguir-lhe o olhar para intuir o que ele estava que-
rendo saber.

— E então?
— Então, o quê? — Diana se fez de desentendida.
— Quem é a deusa ruiva que acabou de entrar?
— Esqueça, maninho. Ela não é para você.
— Não? — O rapaz a fitou meio ressentido. — Por que está me dizendo isso?
Diana não respondeu a pergunta do irmão e ficou olhando atentamente para Laura
que estava espetacular no vestido verde-musgo comprido, com apenas um colar e brincos
de pérolas como complemento.

— Diana, estou falando com você — o rapaz insistiu. — Por que disse que ela não
é para mim?
— Apenas porque essa mulher não faz o seu tipo.
— Quem a ouve dizer uma coisa dessa vai pensar que você sabe exatamente o
tipo de mulher pelo qual me sinto atraído.
— Essa mulher jamais o faria feliz.
— Como você sabe disso?
— Confio no meu sexto sentido — Diana fez questão de afirmar com veemência. —
Essa ruiva, como toda mulher que se dedica integralmente à carreira, na certa é
briguenta, fria e calculista. E você está procurando uma esposa, não...

— Não uma mulher para competir comigo — ele interrompeu a irmã e completou-
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lhe a frase.
— Bem, não era exatamente isso que eu ia dizer, mas isso também é verdade.
Você já está com trinta e cinco anos e...

— E deveria estar pensando no meu enterro — ele voltou a interrompê-la, desta


vez num tom que deixava claro de que não estava gostando nada dos comentários da
irmã.
— Por favor, não diga uma besteira dessa! — Diana Marr pediu. — Eu apenas
estou pensando no seu bem.
— Mas é claro que está — ele ironizou. — E já que está pensando no meu bem,
deveria deixar que eu mesmo me preocupasse com o tipo de mulher com quem vou me
casar.
— E está mesmo querendo se casar, maninho?

— E você ainda duvida? — ele perguntou num tom dúbio.


— Se é assim, deveria pôr um anúncio no jornal — Diana o provocou.
— Sabe que esta é uma excelente sugestão? Mas tenho certeza absoluta de que
você iria colocar defeito em qualquer mulher pela qual eu me interessasse.

— Não tenha tanta certeza. Só acho que você precisa tomar muito cuidado. E, se
está realmente pensando em ser feliz, mantenha-se afastado de Laura Shaw.
— Quer dizer, então, que ela é Laura Shaw...
— Exatamente. E foi ela quem decorou esta casa.

— Impressionante... — ele disse, após olhar com mais atenção tudo ao seu redor.
— Em matéria de decoração, essa mulher sabe o que faz.
— Os Spence estão satisfeitíssimos com o trabalho dela.
— E você, pelo jeito, detestou a decoração feita pela moça.

— Não é isso, eu apenas...


— Você apenas está morrendo de inveja.
— Não seja tão atrevido! Existem momentos que eu odeio você — Diana disse
entre os dentes.

— Só porque eu sou uma das poucas pessoas que ousa lhe dizer a verdade? —
Ele, de repente, abriu um sorriso e pediu com muito charme: — Não fique assim,
maninha... Mas me diga: essa Laura Shaw é promíscua?
— Não, imagina... muito pelo contrário.
— Ela é casada, divorciada?
— Que eu saiba Laura é solteira.
— Então, por que você a detesta tanto?

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— Eu não a detesto. Apenas acredito que não seja o tipo de mulher para você.
Laura é obcecada pelo trabalho.
— Não é o que está me parecendo. — Ele olhava para Laura que, sorrindo,
dançava com um rapaz muito bonito.
— Não se deixe levar pelas aparências. Laura é, sim, obcecada pelo trabalho.
Além disso, é o tipo de mulher que jamais vai passar despercebida. A natureza foi muito
pródiga com ela.
— Pródiga? — Ele fitou a irmã meio desentendido.
— É: pródiga. Além de talento, Laura Shaw é bonita demais.

Laura continuava dançando, feliz com o andamento da noite, e até aquele


momento só recebera elogios pelo trabalho que havia realizado para os Spence. De
repente, um desconhecido deu um tapinha amistoso nos ombros do rapaz com quem ela
dançava e disse:
— Agora é a minha vez. — o rapaz, meio atordoado, não fez nenhum tipo de
comentário e se afastou. O desconhecido, então, a tomou nos braços e comentou:
— Tenho certeza de que nesta noite, Laura, você está parecida consigo mesma.
Ao ouvir aquilo, Laura, muito intrigada com o comentário de que fora alvo, olhou
atentamente para aqueles fantásticos olhos cinzentos.

— Realmente tenho certeza de que nesta noite, Laura, você está parecida consigo
mesma.
— Quem é você?
— Eu? — Ele deu um sorrisinho irônico.

— Exatamente: quem é você?


— Um perfeito estranho, Laura Shaw, apenas um perfeito estranho...
Laura, muito surpresa com o que estava acontecendo, voltou a olhar o homem com
quem dançava. E não pôde deixar de concluir que tanta segurança se devia ao fato de ele
ter tudo que a grande maioria dos representantes do sexo masculino poderia desejar da
própria aparência: era alto, tinha um rosto marcante, cabelos negros e um corpo invejável.

— Perfeito? — Ela resolveu desafiá-lo. — Essa palavra pode me dar margem a


duas interpretações.
— Bem, então digamos que sou apenas um estranho, um completo estranho.
— Realmente você tem razão — ela concordou. — E eu não gosto de dançar com
um completo estranho.
Em resposta, ele continuou seguindo o ritmo da música e, após alguns segundos
perguntou:
— Algo errado com a minha maneira de dançar?
Não, não havia nada de errado com a maneira dele dançar. Há muito Laura não se
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sentia como uma pluma nos braços de um homem.


— Estou esperando a sua resposta, Laura.
— Não, não existe nada de errado com a maneira que você dança.
— Então, só posso concluir que o problema é comigo.
— Quanto a isso, não tenha a menor dúvida.

— Já sei: você está zangada porque nós não fomos apresentados. Mas não se
preocupe, posso remediar essa situação agora mesmo.
— Não se preocupe com isso — ela fingiu descaso, pois estava
impressionadíssima com aquele estranho que agia como se tudo no mundo lhe fosse
permitido.
— Ótimo: eu não vou me preocupar. —- Ele a fitou com muita atenção e disse: — É
do mesmo tom.
— O que foi que disse? — ela perguntou. Aquele homem, pelo jeito, tinha a mania
de dizer frases que só ele era capaz de entender.

— Eu disse que o tom é o mesmo.


— Sei... — Ela deu um suspiro de impaciência. —, o tom... Está se referindo, por
acaso, ao tom que estão tocando a música?
— Não, estou me referindo especificamente ao tom dos seus olhos e do seu
vestido: eles são iguais. Mas me fale sobre você. Pelo que fiquei sabendo, você é a
responsável por esta maravilha toda.

— E agora: a quê está se referindo?


— A decoração desta casa. Você é mesmo fantástica.
— Está se referindo a minha competência profissional, é claro.
— Também... — Ele sorriu. — Também estou me referindo a sua competência
profissional, Laura.
— Você é amigo dos Spence?
— Digamos que sim.
Laura resolveu ficar calada. Conversar o quê, com um homem que fazia questão
de colocar um toque de mistério e indefinição em tudo o que dizia? Porém, após menos
de um minuto, ela disse:
— A propósito: como sabe quem eu sou?
— E poderia ser diferente?

— Quer fazer o favor de conversar direito comigo? — ela pediu, com raiva.
— Mas eu estou conversando direito com você, Laura.

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— Quero saber como é que descobriu o meu nome.


— Seu nome já está sendo falado até no exterior. E todos nesta festa sabem
exatamente quem é a ruiva exuberante que está dançando comigo. E garanto que todas
as mulheres presentes estão morrendo de inveja e de ciúme de você. Não acho isso
muito bom para o andamento das coisas.

— A quê está se referindo agora?


—- A inveja e ao ciúme, oras. Principalmente do ponto de vista dos negócios, são
dois sentimentos muito destrutivos.
— Na minha opinião, a inveja e o ciúme são sentimentos destrutivos em quaisquer
circunstâncias.
— Ainda mais se vêem de esposas que morrem de medo de perder o marido. Uma
esposa invejosa e ciumenta é uma possibilidade a menos de trabalho para você.

— Poderia se explicar melhor aonde quer chegar? — ela pediu, já no limite da


paciência. Detestava aquele tipo de conversa. Se o desconhecido tinha algo para lhe
dizer, que o fizesse logo e de maneira clara.
— Não estou querendo chegar a lugar algum. E já disse exatamente o que penso.
Tanta beleza deve atrapalhar os seus negócios.
— Saiba que sou uma profissional séria e jamais me envolvi com cliente algum. E
esse tipo de comportamento também se espalha, sabia?
— Não precisa ficar tão brava.
— E como queria que eu ficasse? Feliz? Afinal, me obriga a dançar com você e, de
repente, fica insinuando inverdades a meu respeito.
— Você está enganada, Laura: não insinuei absolutamente nada. Apenas fiz
comentários pertinentes.
— Na minha opinião foram comentários bem impertinentes, isso sim.
— Você não pode negar que é uma mulher bonita.
— É claro que não. Afinal, tenho espelho na minha casa. Mas consegui sucesso
profissional porque sou extremamente competente no que faço.

— É modesta, também — ele ironizou. — Muito modesta...


— Bem, acho que já conversamos mais do que o suficiente.
— Será?
— Não tenha dúvida, seja você quem for.
— Você gosta muito do seu trabalho, não é?
— Muito. O meu trabalho é a minha própria vida.
— Não acredito no que está me dizendo, Laura. Garanto-lhe que na vida existem
coisas mais importantes do que o trabalho. E você sabe muito bem disso.

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Ao ouvir aquelas palavras, ditas de uma maneira extremamente insinuante, Laura


sentiu o coração disparar dentro do peito. Aquele homem, apesar de tudo, lhe despertava
sentimentos que de há muito tinha esquecido. Se fosse um outro qualquer, na certa, já o
teria deixado sozinho na pista de dança.
— Não concorda comigo? — ele perguntou num tom baixo de voz.

— Não acha melhor pararmos de dançar?


— Por quê? Nós dois formamos um excelente par de dançarinos.
— Como ousa falar dessa maneira comigo? Afinal, eu nem o conheço.
Ele pensou um pouco e respondeu com outra pergunta:
— Quer dizer, então, que se eu a conhecesse, poderia falar com você da maneira
que bem entendesse?
— Mas é claro que não. E não seja tão confiado. — Laura percebeu que precisava
parar com aquilo. Apesar de se sentir constrangida, encarou aquele desconhecido e
disse: — Não quero mais dançar com você.
— É mesmo? — Ele sorriu. — Não acredito no que está dizendo.
— Pois pode acreditar: vou voltar para a minha mesa.
— Isso é uma ameaça, Laura Shaw?
— Entenda como quiser.

— Se é assim, vou entender como uma ameaça. — Ele deu um profundo suspiro e
ironizou: —- E estou achando ótimo ser ameaçado por uma mulher tão linda.
Laura soube que depois daquilo só poderia ter uma atitude: deixá-lo sozinho na
pista. Porém, quando ele percebeu a intenção, parou de dançar e, segurando-a com
firmeza pelo braço, encaminhou-a até um sofá.
— Não vai me convidar para sentar? — ele perguntou, num tom de voz bastante
insinuante.
— Não, não vou — ela foi taxativa.
— Bem, se é assim, mais tarde a gente se encontra... — Sem dizer mais nada, ele
a deixou sozinha.
Laura, apesar de estar sentindo muita raiva daquele estranho que se comportava
como se fosse o único homem existente sobre a face da Terra, o seguiu com o olhar
enquanto ele se afastava e teve de admitir que o sr. Desconhecido era, sim, um belo
representante da espécime masculina.

"É por isso que esse homem é tão arrogante. Com um físico desses, com uma voz
incrivelmente grave e insinuante, só pode se achar uma das maravilhas do mundo!", ela
concluiu em pensamento.
Porém, a grande preocupação de Laura não era com o desconhecido, mas sim,
com ela mesma. Há muito tempo não se sentia tão atraída por um homem. Bonita,
charmosa e com muito talento, estava acostumada a ser notada e reverenciada pelos
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representantes do sexo oposto. Laura, no entanto, fazia questão absoluta de não se


relacionar com ninguém e só se dedicar ao trabalho.
"E é exatamente o que vou continuar fazendo, apesar do charme daquele deus
moreno!"
— Laura! Mas que ótimo encontrá-la sozinha! Posso me sentar com você? —
Diana Marr interrompeu-lhe os pensamentos.
— Sente-se e sinta-se à vontade.
— Queria muito cumprimentá-la. O trabalho que realizou aqui nesta casa está
estupendo. Você, como sempre, se supera em cada coisa que faz.

— Muito obrigada, Diana.


— Você é uma mulher muito, muito talentosa. E como ainda é muito jovem, vai
conseguir se tornar a decoradora de interiores mais conhecida em todo o mundo.
— Quem sabe... — Laura deu um sorriso tímido.
— Whitney e Sarah estão muito felizes com o seu trabalho. E olha que os Spence
são muito exigentes. Pena que meu irmão não conseguiu contratá-la.
— Seu irmão quis me contratar? — Laura perguntou, espantada.
— Quis, sim. E por falar nele, olha o meu irmão ali. — Diana fez um sinal com a
cabeça. — E está vindo para cá.
— Ele é seu irmão? — Laura perguntou com o coração disparado dentro do peito.
— Ninguém é perfeito, não é? — Diana sorriu para o irmão que já estava ao lado
delas. — Mas pensei que soubesse. Vi vocês dois dançando. Ele não se apresentou?
— Não me permitiram que eu me apresentasse, minha irmã. — O sr.
Desconhecido, o homem de voz aveludada e olhos cinzentos, sentou-se ao lado de
Laura.
— Quer dizer que você é um Marr... — Laura se esforçou, mas a voz lhe saiu bem
fraca.

— Não, o sobrenome do meu irmão é Ross.


— Ross... — Laura engoliu em seco.
— Exatamente: Fraser Ross.
— Sei... Você por acaso é Fraser A. Ross?
— Não, por acaso, não. Sou Fraser A. Ross desde que nasci — ele ironizou.
— Não pode ser! — Laura se ouviu exclamando.

— Por quê? — ele quis saber.


Laura, apesar de ser uma pessoa muito franca, viu que não poderia lhe dizer
exatamente o que havia lhe passado pela cabeça quando lera a carta dele. E resolveu ser

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diplomática:
— Pensei que Fraser A. Ross fosse mais velho, que tivesse uns cinqüenta anos. —
"Mas quando ao esnobismo, eu estava certíssima."

— E por que pensou uma coisa dessa?


— Entre outras coisas, por causa do tom da carta que me escreveu.
— O tom da carta?
— Exatamente. E também acho que foi por causa do seu nome, pelo fato de você
apenas colocar a inicial de um deles.
— Se quiser, posso escrever o meu nome inteirinho — Fraser ironizou e deu uma
olhada para a irmã. —- Assino Fraser A. Ross, para me diferenciar do meu pai que
também se chama Fraser Ross. E quanto ao tom da carta... Bem, devo admitir que ela
não foi escrita por mim.
— Não?
— Quem a escreveu foi uma secretária que está com a nossa família há muitos e
muitos anos. Ela deve ter uns setenta anos. Não quer reconsiderar a minha proposta de
trabalho?

— Você não vê que Laura é uma mulher muito ocupada, maninho? — Diana,
possessiva, interferiu na conversa. — Existe uma fila de clientes esperando pelos serviços
dela.
— Mas talvez agora, que ela sabe que sou um homem jovem, bonito e com
fantásticos olhos cinzentos, Laura Shaw se interesse em trabalhar para mim — Fraser
brincou, mas Laura acreditou que ele estivesse falando de maneira séria e desferiu:
— O senhor é sempre assim tão modesto, sr. Fraser A. Ross?
— Sempre. A modéstia é uma das inúmeras qualidades que tenho.
— Isso, sim, é que eu chamo de um homem seguro de si — ela ironizou.
— E então? Vai trabalhar para mim?

— Não, não vou — ela se apressou em responder.


— Por quê?
— Porque eu seleciono muito bem os meus clientes.
— Não gostou do meu irmão, Laura? -— Diana perguntou, bastante irritada.
— Me desculpe, Diana, mas detesto pessoas que se acham o ser mais importante
sobre a face da Terra.
— E o meu irmão é exatamente assim: ele se sente o centro de todo o Universo.
— Pude perceber. — Laura se levantou. — Foi um prazer revê-la, Diana. Agora, se
me derem licença...

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Ao ver Laura se afastando, Fraser olhou para a irmã e disse:


—- Não deveria ter feito isso, Diana. Ela ficou muito assustada.
—- Assustada? Laura Shaw? De maneira alguma. Tenho certeza de que ela não
gostou de você, Fraser.
— Não deveria ter dito a ela que me sinto o centro do Universo.
— Funcionou, não funcionou?
— Como?
— Ela saiu daqui pisando forte e garanto que nunca mais vai querer encontrá-lo
pela frente. E eu acho isso ótimo. Laura Shaw não é a mulher que você está procurando,
Fraser. Entenda isso de uma vez por todas.
Na manhã seguinte, assim que Laura entrou no ateliê, Délia perguntou:
— E aí, como foi o jantar?

— Excelente.
— Você não me parece nada animada.
— Muito pelo contrário, estou animada e, profissionalmente, mais confiante do que
nunca.

— Apenas profissionalmente?
— Bem, você não sabe quem encontrei por lá.
— Quem? — Délia não fez a mínima questão de esconder a curiosidade.
— Fraser A. Ross.
— Aquele que escreve de maneira pomposa?
— Exatamente.

— E ele, como todo bom escocês, usa saia?


— Isso eu não sei mas, no jantar, ele usava um terno bege impecável. — Laura,
então, contou à secretária o que tinha acontecido no jantar.
— E você fez isso? Se afastou, assim, sem mais nem menos?

— E acha que eu poderia ficar conversando animadamente com um homem que se


acha o centro do Universo?
— É verdade... É difícil agüentar esse tipo de conversa... E Fraser A. Ross é
bonito?
— Bonito? — Laura suspirou longamente. — O homem é estonteante.
— É mesmo?
— Délia, Fraser A. Ross tem tudo para ser um galã de cinema.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— E você o deixou falando sozinho?


— Não o deixei falando sozinho, minha amiga — Laura riu —, eu o deixei falando
com a irmã.

— Laura... Você é uma mulher corajosa.


— Não é uma questão de coragem, Délia, mas de zelo pela minha sobrevivência,
pela minha integridade emocional. Devo confessar que fiquei profundamente impressiona-
da com o homem.
— Então esse tal de Fraser deve ser mesmo fantástico! Mas me diga: depois de tê-
lo deixado com a irmã, você não falou mais com ele?

— Não tive oportunidade. Ou melhor: não dei a ele a menor chance de se


aproximar de mim. O jantar foi servido e, quando os Spence nos convidaram para tomar
café no terraço, saí à francesa.

— Você saiu da festa sem se despedir de ninguém?


— Foi exatamente o que eu fiz. Não podia me arriscar a me encontrar de novo com
Fraser A. Ross.
— Laura, os Spence devem ter ficado muito chateados com a sua atitude.

— Hoje pela manhã já lhes mandei flores e um cartão agradecendo o jantar.


— E o que você escreveu no cartão?
— O de costume: me desculpei e disse que deixei a festa por causa de uma
repentina indisposição.

— Uma repentina indisposição chamada Fraser A. Ross. — Délia riu muito.


— Bem, vou terminar um trabalho.
— Certo.
Laura entrou em sua sala, sentou-se à mesa e, alheia a tudo, pegou um lápis e
começou a fazer um esboço. Só cinco minutos mais tarde se deu conta que, de memória,
estava desenhando o rosto de Fraser.
— Era só isso o que me faltava! — ela exclamou entre os dentes e guardou o
esboço dentro de uma gaveta.

CAPÍTULO II

Fraser ficou alguns instantes parado diante do prédio da Shaw Decorações,

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

admirando o cuidado com que tudo ali tinha sido planejado.


— Laura é mesmo uma excelente profissional — ele disse baixinho e, logo em
seguida, entrou na loja.

Délia quando viu aquele homem adentrar na sala, onde ficava a escrivaninha que
ocupava, fitou-o impressionadíssima e perguntou.
— Posso ajudá-lo em alguma coisa, senhor...
— Ross. Fraser A. Ross.

— O senhor é...
— Exatamente.
— Realmente ele é fantástico — a secretária comentou, baixinho.
— O que foi que disse?
— Nada, nada. Só achei fantástico o senhor ir entrando assim na loja sem marcar
hora, ou sem se fazer anunciar.
— Fantástico? Será que é essa mesma a palavra que quis usar, senhorita? —
Fraser a provocou.
— Não, mas é claro que não. Eu sempre me atrapalho com as palavras. Acho que
eu estava querendo dizer... — Délia interrompeu a frase, por não ter a menor noção como
terminá-la.

— Gostaria de falar com Laura Shaw.


— O senhor tem hora marcada?
— A senhorita sabe que não. Mesmo assim quero falar com ela.
— Mas hoje é sábado, e estamos fechados ao público.
— Melhor ainda! — Fraser sorriu. — Assim, terei muito mais tempo para me
entender com Laura Shaw.
— Bem, vou até o ateliê dela para ver se Laura pode atendê-lo.
— Ótimo.
No instante em que a secretária ia sair, Laura entrou na sala e levou o maior susto
ao ver quem se encontrava ali.
— Bom dia, Laura — Fraser a cumprimentou, com um sorriso nos lábios.
— Bom dia. Hoje é sábado, e estamos fechados ao público.
— Foi exatamente o que a sua funcionária acabou de me dizer.
— Você não trancou a porta da frente? — Laura perguntou à Délia.
— Tranquei, sim. — A moça deu um longo suspiro. — Bem, pelo menos eu pensei
que a tivesse trancado. É melhor eu ir preparar um cafezinho para nós.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Acho uma excelente idéia — Fraser disse.


Délia os deixou sozinhos e foi para a cozinha.
— Sua secretária é muito gentil.
— É, é sim. Délia é muito gentil, e eu confio muito nela.
— Isso é bom. Feliz da pessoa que tem em quem confiar.

Laura o fitou por alguns segundos e depois decidiu resolver de vez aquela
situação:
— Por que está aqui, sr. Ross? Pensei que tivesse deixado perfeitamente claro
que...
— Está querendo dizer perfeitamente, ou completamente?
— Não comece com esse tipo de brincadeirinha, sr. Ross.
— Não estou começando com nenhum tipo de brincadeirinha, Laura, só quero
entendê-la direito. Existe uma diferença muito grande entre as palavras perfeitamente e
completamente.
— Pelo jeito estou diante de um expert em semântica. Pois muito bem, vou refazer
a frase: Não vou decorar a sua casa. Satisfeito?
— Não, não estou nada satisfeito. Afinal, pelo que entendi, você recusou o trabalho
na minha casa só porque resolveu acreditar que eu era um esnobe. Agora, que teve a
oportunidade de me conhecer, viu que eu sou um homem simples.
— Claro... Você é simplérrimo! — ela ironizou.
— Sabia que iria concordar comigo. Portanto, não vejo motivo algum para que
continue se recusando a trabalhar para mim. E, por favor, sorria Laura, você me parece
muito tensa.
— Bem, acho que precisarei repetir para ver se me entende: não vou trabalhar para
você.
— Para eu aceitar a sua resolução, terá que me dar um excelente motivo.
— E eu tenho um excelente motivo.
— E qual é ele? — Fraser colocou as mãos nos bolsos da calça de linho azul-claro
que usava e a encarou fingindo desafio. Estava adorando provocá-la.
— Tempo. Eu estou sem tempo, sr. Fraser A. Ross.
— Isso é uma excelente desculpa, Laura, mas não a aceito.
— Pois terá de aceitá-la. — Ao ver Délia entrando na sala com uma bandeja nas
mãos, perguntou: — Não é verdade?
— O quê? — a secretária quis saber.
— Estou dizendo ao sr. Ross que não tenho tempo para aceitar o trabalho que ele

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

me propôs. Não é verdade?


— O quê? — a moça voltou a perguntar.
Só então Laura notou que Délia estava completamente à mercê do charme e do
encanto de Fraser, e parecia hipnotizada.
— Não é verdade que eu não tenho tempo, que estou assoberbada de trabalho?
— É verdade... — A secretária colocou a bandeja sobre uma mesinha de centro. —
Mas acho que, se eu reorganizar a sua agenda, terá tempo de atender ao sr. Ross.

Laura teve vontade de voar no pescoço da amiga e secretária. Como? Como Délia
podia trai Ia daquela maneira?
— Viu só? — Fraser sorriu com satisfação. — Eu sabia!
— Acho bom vocês tomarem o café. Ele vai acabar esfriando. — Délia, antes de
voltar a deixá-los a sós, deu uma piscadela para Laura.
"Você me paga, Délia. Você acabou de me trair! E isso nunca, nunca tinha
acontecido antes"

— E então? — Sem que Laura percebesse, Fraser tinha se sentado em um


pequeno sofá de dois lugares.
— Então, o quê? — Ela o fitou furiosa. Fraser A. Ross agia como se estivesse em
sua própria casa.
— Quer o café com ou sem açúcar?
— Sem açúcar.
— Tudo isso é medo de engordar?
— Não, não é medo de engordar, sr. Ross. Simplesmente evito açúcar branco
quando posso.
— Por medo de engordar — ele insistiu.
— Fique o senhor sabendo que não sou escrava do meu próprio corpo, nem dos
modismos, como acontece hoje com a maioria das mulheres. Sempre fui magra e, se um
dia engordar, isso não me trará o menor transtorno.
— Quer que eu acredite neste discurso que acabou de fazer?

— O problema é seu.
— Se não tem medo de engordar, por que não come açúcar?
— Simplesmente porque não aprecio muito as coisas doces.
— Nem as frutas?
— Aí, é diferente. As frutas são naturalmente doces.
— Sei... — ele disse e, em seguida perguntou, estendendo-lhe uma xícara de café:

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Não quer sentar-se? Vai se sentir melhor.


"Esse homem é mesmo muito ousado. Daqui a pouco é bem capaz de pegar a
minha agenda para checar o nome dos meus clientes."

— Acho melhor você se sentar, Laura. Caso contrário, o café poderá cair neste seu
lindo vestido verde-água. — Fraser fez uma pausa e depois continuou: — E, antes que eu
me esqueça, esse tom combina perfeitamente com você.
Indignada, Laura pegou a xícara de café e sentou-se numa cadeira do início do
século, que adquirira há pouquíssimo tempo.
— Quando começamos? — ele perguntou, logo depois que Laura tomou um gole
de café. — Estou me referindo, é claro, ao trabalho na minha casa na ilha.
— Eu não vou trabalhar na decoração da sua casa, sr. Ross.
— Mas a sua secretária disse que...
— Não importa o que Délia disse. Sou eu quem decide onde vou trabalhar.
— Será que é você mesmo?

— Quanto a isso, não tenha a menor dúvida.


— Pois se eu fosse você, pensaria com carinho nesta minha proposta.
— O senhor é sempre assim tão insistente?
— Sempre. — Ele tomou um gole de café e continuou: — Sempre que estou muito
interessado em algo.
— Existem vários decoradores que poderei lhe indicar.
— Não quero outro decorador. Quero você, Laura. — Havia um duplo sentido na
última frase que Fraser pronunciara, mas ela fingiu não entender.

— Eu sinto muito.
— Não minta, Laura. Sei que você não sente muito. E torno a repetir: se eu fosse
você, iria fazer a decoração da casa da ilha. Caso contrário...
— Caso contrário, o quê? O que vai acontecer? Poderia me explicar melhor o que
está querendo dizer?
— Tanta intransigência poderá prejudicar o seu futuro nos negócios.
Laura deu um profundo suspiro e olhou para a xícara de café que estava em suas
mãos. Aquilo não podia estar acontecendo. Será que tinha ouvido direito o que aquele
homem petulante e arrogante lhe dissera?
— Até agora a minha intransigência, que eu chamo de livre opção, sr. Ross, não
atrapalhou em nada os meus negócios.
— Pois se não fizer o trabalho na minha casa, esteja certa de que vai acabar se
prejudicando.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Isso é uma ameaça?


— Entenda como quiser. Mas uma palavrinha aqui, outra ali... Sabe como é...
— Eu não acredito no que estou ouvindo. Poderia esperar tudo do senhor, menos
que fosse um chantagista.
— Mas não sou um chantagista, sou apenas um cliente que não quer, sob hipótese
alguma, ser rejeitado.
— Você não pode! Você não pode...

— Pedir às pessoas que não procurem mais os seus serviços? — Ele sorriu. —
Mas é claro que posso. E pensando melhor, a minha irmã faria isso bem melhor do que
eu.
— Diana não faria isso comigo.
— Não tenha tanta certeza assim, Laura. Você não conhece a minha irmã.
— Ela sempre me tratou muito bem.
— Eu não duvido disso. Mas Diana é uma pessoa muito problemática. Na noite do
jantar vi que ela estava morrendo de ciúme de você.
— Ciúme? De mim? — Laura ficou espantadíssima. — Mas Diana não tem motivo
algum para sentir ciúme de mim.
— Será que não? Minha irmã não gostou nada de ver o sucesso que fez naquele
jantar. A atenção de todos estava voltada para você.
— Como pode falar assim da sua própria irmã?
— Porque é verdade. Diana anda muito confusa e profundamente carente. Ela está
separada do marido e...
— Isso não é motivo para Diana resolver me prejudicar! — ela o interrompeu, com
muita raiva.

— Eu não pagaria para ver. E esteja certa: você vai adorar trabalhar para mim.
Também tenho muito bom gosto.
— E um ego maior do que o mundo!
— Você acha? — ele perguntou e, em seguida, levou a xícara à boca.

— Claro que tem. Você é autoritário e muito, muito senhor de si, sr. Fraser A. Ross.
E detesto homens com esse perfil.
— Eu vi mesmo... — Ele deu um sorrisinho cínico.
— Por que o cinismo agora?

— Porque tenho certeza absoluta de que você adora homens com o meu perfil.
— De jeito nenhum!
— Não minta, Laura. Você é uma mulher corajosa, e a mentira não lhe cai nada
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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

bem.
— Você se acha o máximo, não é?
— Eu não me acho o máximo, eu sou o máximo.
— Não acredito no que estou ouvindo.
— Pois pode acreditar, é a mais pura verdade. E você sabe muito bem disso.

— Como, como no final do século vinte pode existir um homem tão vaidoso como
você?
— Não é vaidade, Laura, é apenas um profundo conhecimento de mim mesmo.
— Se alguém tivesse me contado que na face da Terra existia um homem assim,
eu jamais acreditaria.
— Ouça, acho que não temos de continuar discutindo o meu perfil psicológico.
Temos, isso sim, de falar a respeito do seu medo.

— Medo? — ela quase gritou. — E quem disse que eu tenho medo?


— Não negue, Laura, você está morrendo de medo de mim. Se não estivesse com
medo, já teria aceitado o trabalho que estou lhe propondo.
— Como ousa me dizer que tenho medo de você?

— Agora não é uma questão de ousadia, mas de pura constatação. Vai negar que
adorou dançar comigo e se sente profundamente atraída por mim?
— Eu... eu... — Laura titubeou. Não era nada fácil ver seus sentimentos sendo
expostos de uma maneira tão fria.
— Se negar, não vou acreditar, Laura Shaw. A atração que sentimos um pelo outro
é inequívoca.

— Acho que a nossa conversa termina aqui.


— Por quê?
— Não vou decorar a sua casa, sr. Ross.
— Olha, não estava brincando quando...
— Quando resolveu me chantagear? — ela o interrompeu e fez a pergunta num
tom bem agressivo.
— Prefiro a palavra alertar.
— Isso é um grande eufemismo, sr. Ross. O senhor não está me alertando. Está,
sim, me chantageando. Mas fique sabendo que comecei do nada e, sem a ajuda de
ninguém, fiz a minha reputação. Se as pessoas, por causa de sua interferência,
resolverem deixar de me procurar, paciência... Vou arrumar outra coisa para fazer. Confio
no meu talento.
— Isso, sim, que é coragem. Mas, infelizmente, Laura, no mundo de hoje as coisas
não funcionam dessa maneira. Não basta só talento e força de vontade. Conheço um sem
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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

número de pessoas talentosas que não têm nem onde cair mortas.
— Pois eu posso lhe assegurar que confio, e muito, no meu talento e na minha
determinação.

— Depois desta conversa, não duvido absolutamente de nada do que acabou de


me falar. Mas sabe o que você parece? Uma gata selvagem pronta a arranhar qualquer
homem que se interesse por você um pouco além do que estipulou, certo, como
profissional.
— A postura que escolhi para mim é a que acredito ser a mais correta.
— Pois acho que deveria ser um pouco menos radical. A intransigência faz mal à
saúde, sabia?
— Eu tenho uma excelente saúde.
— Isso qualquer um pode perceber. — Ele tomou o último gole de café, inclinou-se
e colocou a xícara vazia sobre a mesinha. — Mas acho que deveria reconsiderar a sua
decisão. Não custa nada ir dar uma olhada na minha casa. Você vai adorá-la. A casa foi
projetada por um dos arquitetos mais famosos da Europa. Se, depois de conhecê-la,
resolver decorá-la, esteja certa de que sua reputação vai aumentar linda mais.
— Será? — ela ironizou.
— Acredite em mim. Você conhece a Privacity?

— E quem não conhece a Privacity? Ela é a revista de decorações de interiores


mais importante do nosso país.
— Ainda bem que você conhece a revista. O editor da Privacity já me telefonou
umas quatro vezes. Ele está louco para fazer uma matéria sobre a minha casa.
— Você não tem cara de quem goste de ver sua intimidade devassada por uma
revista.
— Isso é verdade. Mas se a decoração for feita por você, acho que vale a pena
correr o risco. Pelo que já pude ver do seu trabalho, Laura Shaw, você não é apenas uma
decoradora. Você é, além de tudo, uma artista.
Laura mordeu o lábio inferior e o fitou intensamente. Pelo que podia perceber,
Fraser A. Ross tinha mudado de tática. Agora ele já não tentava chantageá-la, mas sim,
lhe acenava com a perspectiva de ver o seu trabalho nas páginas de uma grande revista.
Por que estaria fazendo tudo aquilo? Será que não conseguia ser rejeitado por uma
mulher?
Laura deu um profundo suspiro. Algo, de repente, lhe dizia que deveria, sim, aceitar
o trabalho que Fraser estava lhe propondo.

— Tudo bem. Eu aceito trabalhar para você, mas com uma condição.
— Não acredito no que estou ouvindo. Quer dizer, então, que a oportunidade de
aparecer nas páginas da Privacity conseguiu fazê-la mudar de idéia? Pelo jeito você
adora dinheiro, Laura Shaw. E essa reportagem vai lhe trazer muito dinheiro.
— É aí que você se engana.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Só falta me dizer que não gosta de dinheiro.


— Mas é claro que eu gosto de dinheiro. Ou melhor, gosto do que o dinheiro pode
comprar: conforto, comida e coisas desse tipo. — Laura balançou a cabeça em negativa.
— Não sou escrava do dinheiro, sr. Ross, porém tenho orgulho de dizer que sou escrava
do meu trabalho. E vou gostar muito de vê-lo estampado nas páginas da Privacity.

— Isso é muito bom.


— Mas quero lhe fazer um pedido — ela disse, num tom seco.
— E qual pedido é esse?
— Nunca mais tente me chantagear.
— E quem estava chantageando você? — Fraser se fez de inocente.
— Você.
— Eu? De maneira alguma.

— Bem, já que vou decorar a sua casa, acho melhor esquecermos esse assunto
extremamente desagradável.
— E você vai conseguir? — Fraser duvidou.
— O quê? — Ela o fitou meio desentendida.

— Esquecer, esquecer que eu tentei chantageá-la?


— Farei o possível. — Laura voltou a morder o lábio inferior. No íntimo sabia que
jamais iria esquecer a tentativa de chantagem feita por Fraser A. Ross. — Mas como eu
lhe disse, aceito o trabalho com uma condição.
— E qual condição é essa?
— Terei de fazer o trabalho agora. E ele vai ser rápido.
— Por que tanta pressa?
— Não é uma questão de pressa. É uma questão de tempo. Tinha pensado em
tirar algumas semanas de férias, para depois iniciar um novo trabalho.
Ele pensou um pouco e desferiu:
— Não acho que isso seja lá muito bom.
— A quê, especificamente, está se referindo?

— A essa pressa em fazer o trabalho para mim. Não quero que ele seja feito de
qualquer jeito.
— O senhor não me conhece mesmo. Jamais fiz um trabalho de qualquer jeito. E,
pelo que vi na minha agenda, só estarei livre daqui a uns quatro ou cinco meses.
— Você tem idéia do tamanho de minha casa na ilha?
— Do tamanho de um campo de futebol? — ela o provocou.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Não chega a tanto, mas ela é imensa.


— Quantos quartos tem a casa? Cinco, seis?
— Digamos que ela tem um pouco mais do que isso.
— Dez quartos?
— Não, vinte e cinco.

"Mas o que será que esse milionário excêntrico resolveu construir? Um hotel?"
— E então, acha que consegue decorar vinte e cinco quartos de maneira diferente
em três semanas? Isso sem contar com as salas, cozinha...
— Pode ficar tranqüilo. Três semanas é tempo mais do que suficiente para mim. E,
se quer saber, trabalho muito melhor quando me sinto pressionada. Quando isso
acontece, minhas idéias fluem com muito mais facilidade.
— Tem certeza?

— Absoluta. — Ela ergueu as mãos num gesto de impotência. — Bem, é pegar ou


largar.
Quando Fraser ia dizer algo, ela o interrompeu:
— Tem mais um pequeno detalhe: não sou uma profissional barata.

— Já imaginava isso.
— E quero que aprove cada parte do projeto.
— Pensei que fosse me pedir carta branca?
— De maneira alguma. Jamais me arriscaria a ser levada para um tribunal por não
cumprir algo que não prometi.
— Não entendi. — Ele a fitou com curiosidade.
— Eu explico de uma maneira resumida: farei um contrato onde estipularei tudo o
que for fazer na sua casa. Esse contrato será subdividido em etapas. Só vou trabalhar na
etapa seguinte quando tiver a sua aprovação por escrito.
— Isso, sim, que eu chamo de trabalhar profissionalmente.
— É a maneira que encontrei para me garantir de clientes que não sabem
exatamente o que querem.
— Você é uma mulher muito sábia, Laura Shaw.
— Não posso correr riscos. E detesto ver um cliente insatisfeito.
— Já ocorreu de algum cliente ficar insatisfeito?
— Graças a Deus, até hoje, não.
— Nessas três semanas teremos a oportunidade de nos conhecermos melhor. —
Ele se levantou.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Entenda uma coisa, sr. Ross, aceitei fazer um trabalho na sua casa. Isso não
significa, em absoluto, que eu queira conhecê-lo melhor. -— Laura também se levantou.
— Direta e objetiva como uma excelente mulher de negócios — ele zombou.

— E é exatamente o que eu sou: uma mulher de negócios.


— Para mim, Laura, antes de ser uma mulher de negócios, você é uma artista. E,
como todo artista, você também é temperamental. Só fico imaginando o que...
— Por que não terminou a frase?

— Porque tenho a nítida sensação de que você não gostaria dela.


— Pois acho que deveria proferi-la inteira — ela o desafiou.
— Tudo bem. Você pediu! — Ele sorriu de maneira irônica e disse: — Só fico
imaginando o que você faria se eu a beijasse. Será que continuaria reagindo como uma
gata assustada, ou será que se derreteria em meus braços?
— Eu...
— Não precisa responder.
— Mas...
— Não precisa responder, Laura — ele disse, num tom suave de voz, enquanto
retirava um envelope de dentro do bolso interno do paletó. — Sabe o que é isso?
— Um envelope.
— Exato. Um envelope cujo conteúdo é a planta e algumas fotografias da minha
casa. Dê uma estudada nelas. Durante o jantar, discutiremos mais detalhes sobre o
trabalho.
— Jantar?

— É, jantar. Jantaremos juntos hoje, Laura Shaw. — Fraser acariciou-lhe o rosto de


leve e se afastou.
— Se está pensando que eu...
— Não precisa ficar tão preocupada com a sua segurança, meu pai jantará
conosco. Ele quer muito conhecê-la. O endereço está dentro do envelope. — Fraser abriu
a porta, virou-se e disse: — E não precisa se preocupar com a roupa que vai usar. É um
jantar informal.
Laura, que morava em um pequeno apartamento, localizado em um condomínio
nas proximidades da Shaw Decorações, chegou em casa e foi direto para o chuveiro.
Depois do um rápido banho morno, enxugou-se, vestiu um roupão, enrolou uma toalha na
cabeça e se dirigiu ao quarto, onde abriu o armário.
— Ele disse que o jantar era informal, portanto...
Sem pensar duas vezes, Laura escolheu a roupa e o calçado que usaria. Cinco
minutos mais tarde ela estava pronta.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

A campainha tocou. Era Délia, que foi logo perguntando:


— Você não vai se aprontar?
— Mas eu já estou pronta.
— O quê? — Délia tinha ficado muito espantada. — Você ficou maluca?
— De maneira alguma. Estou vestida informalmente para um jantar informal.

— Mas isso é informalidade demais para o meu gosto. Onde já se viu uma coisa
dessa, Laura?
— Por que ficou tão chocada com a roupa que estou usando?
— Você vai jantar na casa de um homem muito importante. Portanto, deveria ter se
preocupado mais com a própria aparência.
— O magnífico Fraser A. Ross disse que o jantar era informal.
— Tudo bem, ele pode ter dito isso, mas tenho certeza de que não a convidou para
um piquenique.
— Mas é claro que não!
— Então, minha amiga, acho que deveria trocar de roupa e colocar algo mais
apropriado.

— De maneira nenhuma! Adoro essas calças largas, esse camisão e esse colete
chinês de algodão que comprei outro dia num shopping. Ele tem inúmeros bolsos. Não é
fantástico?
— Laura, por favor, troque de roupa. Afinal, você tem uma reputação a zelar.
— Escute, Délia: na verdade, não tenho uma roupa adequada para este jantar e
nem posso pôr a mesma que usei no jantar dos Spence. E já que Fraser A. Ross disse
que o jantar era informal...
— Mas você não precisava exagerar. Nem os cabelos você secou.
— Meus cabelos ficam mais bonitos quando secam naturalmente. Até eu chegar no
local do jantar, eles estarão secos.
— E os tênis? Você vai de tênis ao jantar? — Délia estava muito preocupada. —
Ora, faça-me o favor! Coloque pelo menos sapatos, ou sandálias.

— Você acha que vai ficar melhor? — Laura brincou.


— Mas é claro que sim. E você sabe disso melhor do que eu, Laura Shaw. Afinal,
quem é que entende de decoração, quem entende como ninguém de moda aqui? Veja eu:
estou vestindo algo sóbrio e...
— Mas você é uma mulher sóbria, Délia Renfrew.
— Pare de me provocar. Sei que ficou muito zangada com o fantástico Fraser A.
Ross, mas não precisa exagerar. Tire este colete, coloque um sapato e uma bela
echarpe. — Délia balançou a cabeça em negativa. — Não me faça passar vergonha, por

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

favor.
— Tudo bem, vou tirar o colete, mas vou de tênis mesmo.
— Não faça isso, Laura.
— Pode ficar tranqüila. Tudo vai dar certo. — Laura fez uma pausa, refletiu um
pouco e concluiu: — Pensando melhor, não vou tirar nem o colete!

CAPÍTULO III

Laura e Délia caminhavam por um corredor longo, atrás do mordomo que as


recebera. Ao chegarem em uma sala grande, pouco iluminada, ele parou junto à porta e
as anunciou, sem conseguir conter um certo tom de desaprovação:
— Srta. Shaw e... srta. Renfrew, senhor.
Fraser estava sentado em uma poltrona de couro, de costas para a porta. Ele se
levantou para recebê-las, e Laura pôde notar quanto ele ficou espantado ao vê-la. Délia,
por sua vez, queria muito que um buraco se abrisse aos seus pés para que ela pudesse
desaparecer. Para a secretária a situação que vivia era extremamente constrangedora.
Laura, que mantinha a cabeça e os ombros erguidos, entrou na sala e foi dizendo:
— Trouxe Délia comigo, espere que não se importe, sr. Ross. Ela também ficará
muito envolvida com o nosso projeto e sempre tem opiniões bastante abalizadas a
respeito do trabalho que realizo.
Sem nada dizer, Fraser as encaminhou até um sofá, onde se encontrava sentado
um senhor de cabelos brancos que, muito sério, disse:
— Fique à vontade srta. Renfrew. — E dirigindo-se à Laura, continuou: — Sou
Bernard Ross e estou com o pressentimento de que não queria vir até aqui esta noite.
— Este é o meu pai — Fraser apresentou.

— E então? Estou certo quanto ao meu pressentimento? — Bernard Ross


perguntou.
— Para ser sincera, o senhor está certíssimo. Mas seu filho insistiu muito para que
eu realizasse o trabalho e, no fim, resolvi aceitar. Sou Laura Shaw.
— É um grande prazer conhecê-la, senhorita. Quer dizer, então, que meu filho a
forçou a aceitar o trabalho? Bem que eu desconfiei. Afinal, na resposta à carta que lhe
enviamos, a senhorita nos disse que não tinha tempo para realizá-lo.
— E era a mais pura verdade. Mas seu filho resolveu me pressionar e...
— Laura, por favor — Délia a advertiu entre os dentes.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

—... e aqui estou eu — Laura finalmente terminou a frase.


— Laura, por favor, contenha-se — Délia estava começando a sentir-se apavorada.
— Não se preocupe, srta. Renfrew. — Fraser, que tinha ido preparar os drinques
para as duas visitantes, se aproximou com dois copos nas mãos. — O que aconteceu
entre mim e Laura foi algo muito comum e que normalmente se chama de um... joguinho.
Laura o encarou e não deixou por menos:
— Acontece sr. Fraser A. Ross, que não sou mulher de participar de joguinhos!

— Laura, pelo amor de Deus, olhe o vexame — Délia não sabia mais o que dizer.
— Por favor, sentem-se — ele indicou-lhes o sofá e as poltronas —, tudo está sob
controle. Acho que depois de muito conversarmos, a srta. Shaw e eu conseguimos nos
entender.
— Mas que história é essa? — Diana Marr, que estava parada junto à porta,
perguntou e entrou na sala. — Pensei que estivesse à procura de uma esposa, meu
irmão.
— Boa noite, Diana — Fraser disse num tom bastante insatisfeito.
Diana olhava para Laura que ainda não havia se sentado e exclamou:
— Mas que roupa! Você está parecendo uma hippie dos anos sessenta, Laura.
Quem a viu no jantar dos Spence, jamais poderia dizer que está diante da mesma
pessoa. Que metamorfose, quanta transformação!
— Que bom que você gostou, Diana. — Laura sentou-se. — Quer dizer, então, que
seu irmãozinho está procurando uma esposa.
— É verdade...
— Isso é muito bom.
— E você está se candidatando à vaga, Laura? — Diana ironizou.

— Eu? De maneira alguma. Só estou aqui para tratar da decoração da casa de


praia dele.
— Quer dizer, então, que Fraser conseguiu convencê-la.
— O que uma boa pressão não consegue... — Laura disse com extrema
naturalidade e aceitou o copo que Fraser lhe estendia.
Um pesado silencio se fez entre eles, e foi Fraser a quebrá-lo:
— Papai, por que não mostra o nosso jardim de inverno a srta. Renfrew?
— Claro, claro... — Bernard Ross se levantou. — Será um grande prazer para mim.

— Esse copo é seu. — Fraser entregou o outro copo à Délia.


— Muito obrigada, sr. Ross — a secretária agradeceu e seguiu Bernard Ross.
Fraser, assim que o pai e Délia se afastaram, olhou para a irmã e, de maneira
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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

muito educada, pediu:


— Será que poderia ir falar com Cook e lhe dizer que teremos mais uma pessoa
para o jantar? E diga-lhe também que jantaremos daqui a meia hora.

— Meia hora? — Diana perguntou espantada. — Terei de esperar meia hora para
jantar?
— Laura e eu precisamos conversar.
— Durante tanto tempo?

— E desde quando meia hora é muito tempo?


— Tudo bem, vou falar com Cook. — Diana saiu da sala bastante contrariada.
— Venha, Laura —- Fraser pediu.
— Para onde está querendo me levar? — ela perguntou, desconfiada.
— Para o meu escritório.
— E temos mesmo de ir para lá?
— Temos.

— Você é um homem muito, muito senhor de si. E eu não gosto nada disso. Acho
que podemos conversar aqui mesmo. E tem um pequeno detalhe sobre o qual quero
alertá-lo.
— E qual pequeno detalhe é esse? Poderia fazer o favor de me dizer?
— Mas é claro que sim: não sou nem o seu pai e muito menos a sua irmã para
cumprir todas as suas ordens.

— Vamos para o escritório.


— Prefiro ficar aqui.
— Laura, nunca pensei que você fosse uma mulher tão teimosa. Se não me
acompanhar até lá, serei obrigado a arrastá-la.

— Você não ousaria fazer uma coisa dessa! — ela exclamou e ergueu a cabeça
em desafio.
— Ousaria. Ousaria, sim.
— Se você me tocar, eu grito.

— Faça o que bem entender. — Fraser se aproximou, ameaçador.


— Não me toque. — Laura resolveu segui-lo para evitar maiores constrangimentos.
— Eu vou com você até ao escritório.
— Bem, se vai me acompanhar até lá, acho melhor se levantar. Caso contrário...
— Tudo bem. — Laura se pôs de pé. — Você é um ser desprezível, sabia?
— Sou mesmo? Foi você quem chegou aqui e começou a dizer coisas que não
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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

devia.
— Coitadinho... Quem o ouve dizendo essas coisas vai achar que você é um anjo
que caiu do céu por descuido. Quem foi que começou com essa história toda, hem? Você!
Você, Fraser A. Ross, ao tentar me chantagear. Será que se esqueceu?
— Tudo o que aconteceu conosco foi sem a presença de uma platéia. Seu
comportamento deixou muito a desejar.
— Mas que gracinha que você é... — Laura ironizou e, em seguida, colocou as
mãos na cintura. — Se existe alguém aqui com direito de se sentir ofendido, tenha certeza
de que não é você.
— Essa conversa já está se prolongando demais. Vamos para o escritório.
— Acho melhor mesmo.
Depois de percorrem um longo corredor, Fraser abriu uma porta e esperou que ela
entrasse. Laura que esperava um local pesado, abafado, forrado de livros, se
surpreendeu com o que viu: um ambiente bem grande, bastante arejado, inúmeros vasos
repletos de plantas, quadros e muitas esculturas.
— Tem certeza de que aqui é o seu escritório?
— Por que pergunta?
— Esse ambiente é muito bonito e não combina em nada com um chantagista —
ela não se conteve, e comentou.
— Você vai continuar com as agressões?
— E por que eu deveria parar? Você começou a me agredir bem antes. Só estou
lhe devolvendo o que tenho recebido de você até agora.

— Poderia parar de falar?


— Eu falo quando quero. — Ela ergueu o rosto em desafio. — Você não manda em
mim, nem na minha boca.
— Pensei que fosse uma mulher mais equilibrada, Laura Shaw.

— E sou, sim, uma mulher equilibrada, sr. Fraser A. Ross.


— Não é o que está me parecendo.
— Sou equilibrada, responsável e amiga dos meus amigos! Porém, jamais pensei
que tivesse de me relacionar com um chantagista. E não sei como agir. Portanto, não
reclame: é uma experiência nova em minha vida.
— Eu não sou um chantagista.
— Não? — Ela deu uma risada de descaso. — Além de chantagista você é um
grande descarado. Mas quero lhe fazer uma pergunta.
— Bem, pelo jeito só existe uma maneira de fazê-la parar de falar. — Ele,
ameaçador, se aproximou de Laura.

31
Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— E qual maneira é essa?


Fraser, em resposta, tomou-a nos braços e a beijou.
Pega totalmente de surpresa, Laura ficou imóvel, mas, na verdade, estava
adorando aquele beijo cheio de desejo e muita, muita sensualidade. Sabia que deveria
empurrá-lo, gritar, fazer alguma coisa. Mas não se sentia capaz de esboçar o menor gesto
para afastá-lo.
— Viu só? — ele perguntou, ao se afastar um pouco dela. — Achei uma excelente
maneira de fazê-la se calar. Mas me diga, qual é a pergunta que queria me fazer?
Laura, engoliu em seco e, muito insegura, não sabia o que dizer.

— E então? — Fraser parecia estar adorando vê-la tão sem ação. — Não quer
mais me perguntar nada, ou algum gato comeu a sua língua?
"Meu Deus, que vergonha! Por quê? Por que eu me deixei beijar? Agora esse
homem vai me tratar de uma maneira muito pior! Eu preciso dizer qualquer coisa!"
— E então, Laura Shaw? Estou esperando: qual é a pergunta que estava querendo
me fazer?
— Quem... quem decorou essa casa?

— Até que você pensa rápido, mocinha! Realmente devo admitir que, diante das
circunstâncias, foi uma boa pergunta. Mas não faço a menor idéia de quem decorou essa
casa.
— Não? — Ela ficou espantada com a resposta.
— Não, não faço. Eu não moro aqui.
— Como assim? Mas eu pensei que você morasse aqui.
— Pois se enganou.
— E onde você mora?

— Em Brisbane. Passo algum tempo por lá, outros aqui e... pelo resto do mundo.
Mas esta casa pertence ao meu pai. — Ele deu um meio sorriso. — E você, afinal, gostou
da decoração daqui?
— Do pouco que conheci gostei, sim. Embora ache que ela poderia ser um pouco
mais leve. Mas, esse escritório me surpreendeu.
— Por quê?

— Ele é muito bem decorado.


—- Se não me engano, já lhe disse que tenho um extremo bom gosto.
— E uma modéstia muito grande também. — Ela não pôde deixar de rir.
— Quer ir visitar alguma outra parte da casa?
— Não acho necessário.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Mas eu estava pensando em levá-la para conhecer os quartos.


Laura não gostou daquele tipo de sugestão e fez questão de deixar bem claro:
— Escute, Fraser A. Ross: quero que me trate de maneira profissional. Portanto,
com muito respeito.
— É mesmo? — Ele a fitou com ironia. — Por quê, então, não reclamou do beijo?
— Pois é exatamente o que vou fazer agora: nunca mais ouse me tocar.
— Nunca mais é tempo demais, Laura Shaw.
— Eu não estou brincando, Fraser.
— Nem eu.

— Eu sei exatamente do que você está precisando — ela disse, num tom alterado.
— E do que é que eu estou precisando?
— De uma esposa! De alguém que se submeta a sua vontade, a sua
intransigência.
Fraser balançou a cabeça de um lado para o outro e disse:

— Não acredito no que estou ouvindo.


— Pois pode acreditar: é a mais pura verdade.
— E você acha, então, que as esposas devem se submeter as vontades e às
intransigências dos maridos.

— Não distorça as minhas palavras. Não foi isso que eu disse.


— Bem, então, enquanto não encontro uma supermulher que seja capaz de se
curvar diante do meu poder masculino, que tal a gente aproveitar para se conhecer
melhor? — Havia muita ironia e um tom de brincadeira no que Fraser acabara de dizer.
Laura, porém, chocada com o que estava acontecendo ali no escritório, não percebeu.
— Você... Você não passa de um machista desqualificado, sabia?

— Um machista desqualificado, mas assumido!


— E parece que sente um prazer imenso em gritar aos quatro cantos um absurdo
tão grande como esse. Detesto homens da sua espécie.
Fraser balançou a cabeça em negativa e comentou:

— Não foi o que me pareceu quando eu a beijei.


— As aparências enganam, sr. Ross.
— Não quer se sentar? — Ele indicou-lhe um sofá.
— Estou muito bem de pé.
— Se é assim... — Fraser sentou-se. — Mas me diga, por que você detesta os

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

homens?
— Eu não detesto os homens. Detesto, isso sim, os homens da sua espécie:
machistas, donos do mundo e de todas as situações. — Laura não sabia se se sentava,
ou não.
— Pelo que posso perceber, você está realizando o que os psicólogos chamam de
transferência.
— Não entendi.
— Você, Laura Shaw, está vendo em mim alguém que a magoou profundamente.
Qual é o nome dele?

— Isso não é problema seu.


— Você é sempre assim tão brava?
— Sempre que necessário.
— Vai ser difícil tê-la por perto durante três semanas.
Laura, vendo naquela frase uma grande oportunidade de não precisar trabalhar
mais para Fraser, disse, enquanto se dirigia para a porta que ele havia fechado:
— Pois então nós podemos parar por aqui.
— De maneira alguma! — Ele deu um pulo do sofá e a segurou pelo braço. — Eu
quero muito que você decore a minha casa de praia.

— Por quê?
— Pelo motivo mais óbvio possível: você é ótima no que faz.
— Não adianta começar me elogiar agora. Jamais vou me esquecer que o distinto
Fraser A. Ross é um grande machista.

— Um grande machista que está louco para beijá-la de novo. — Ele a abraçou.
Mais uma vez Laura foi pega de surpresa. Só que, desta vez, ela virou o rosto e
evitou o beijo.
— Não resista — ele continuava tentando beijá-la —, sei que também está louca
para me beijar.
— Não seja tão presunçoso. — Ela o empurrou.
Assim que Laura se viu livre dos braços de Fraser, alguém bateu na porta e
perguntou:
— Fraser, posso entrar?
— Mas é claro que sim, Flora — ele respondeu.
Logo a porta se abria, e uma senhora de idade entrava no estúdio, olhando de
maneira desaprovadora para Laura.
— Essa é Flora MacTavish. É ela quem cuida das minhas correspondências
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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

quando estou aqui na casa do meu pai. E esta, Flora, é Laura Shaw — Fraser as
apresentou.
— Pensei que você fosse mais velha, mas devo admitir que é uma mulher muito
bonita — Flora comentou e, sem esperar qualquer tipo de resposta, voltou-se para Fraser
e disse: — O jantar está pronto. E acho bom você não demorar, sabe como Cook fica
furioso quando alguém se atrasa.
Contrariando todas as expectativas de Laura, o jantar transcorreu de maneira muito
tranqüila, e a comida estava deliciosa. Quando já saboreavam a sobremesa, uma mara-
vilhosa torta de chocolate recheada com avelãs e nozes, Fraser resolveu perguntar à
Laura o que ela imaginara fazer na casa de praia. Apesar de ter tido pouquíssimo tempo
para pensar no assunto, idéia era o que não lhe faltava e, durante, alguns minutos,
discorreu sobre elas.

— Estou impressionado, srta. Shaw — o velho sr. Ross comentou com um amplo
sorriso nos lábios. — Tão jovem e tão competente.
— Isso porque ela não falou sobre uma outra idéia que teve para decorar a casa —
Délia interferiu na conversa.
— E que idéia é essa? — Fraser quis saber.
— Acho melhor a minha chefe mesma falar a respeito. Afinal, a idéia é dela, e
Laura se apaixonou pelo que viu da casa do senhor nas fotografias.
Laura, então, se viu obrigada a falar sobre uma idéia muito boa, que ainda estava
acalentando: talvez uma decoração com tendência javanesa ficasse excelente para o tipo
de casa de Fraser.
— Uma decoração com tendência javanesa? — Fraser perguntou, meio
contrariado.

— Se quer saber, acho que será a solução exata para a sua casa.
— Não sei, estava pensando em algo mais sóbrio.
— O fato de fazer uma decoração no estilo javanês, não significa que não existirá
sobriedade.

— Eu acho que, neste caso, essa sua idéia está bastante equivocada.
Laura não gostou do comentário que ele tinha acabado de fazer, mas resolveu não
retrucar. Quem era ele para dizer que estava equivocada quando o assunto era
decoração de interiores?
Após terem terminado a sobremesa, Cook lhes serviu café. E, meia hora mais
tarde, Laura e Délia estavam a caminho de casa.

— Eu deveria ter ficado calada, não é? — a secretária perguntou. — Sempre falo


no momento errado.
Laura, que estava totalmente distraída, virou-se para Délia que se encontrava
dirigindo e pediu que ela repetisse o que tinha dito.
— Acho que falei demais, Laura. Não deveria ter comentado nada sobre a idéia da

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

decoração no estilo javanês.


— Não se preocupe. De qualquer jeito, mais cedo ou mais tarde, eu iria falar sobre
ela.

— Você não ficou brava comigo?


— Por causa disso? — Laura riu e balançou a cabeça em negativa. — De maneira
alguma, pode ficar sossegada.
— Mas eu acho que, apesar de todos os seus esforços, a noite foi muito boa.

— Não entendi: o que você quis dizer com apesar de todos os meus esforços?
— Laura, está mais do que evidente que você não quer mesmo decorar a casa do
belíssimo Fraser A. Ross.
— Para ser sincera, por mim, eu sairia de férias agora mesmo.
— Mas a oportunidade que você está tendo é única.

— Pois é... Mas amanhã cedo, tenho de viajar para a ilha.


— Quanto sacrifício! — Délia brincou. — Vai ter viagem na primeira classe e
hospedagem num dos hotéis mais fantásticos de que já ouvi falar. Quem dera pudesse
estar no seu lugar.
Laura voltou a ficar calada.
— O que foi? Nunca a vi tão preocupada antes. Está com medo de não dar conta
do trabalho?
— Isso nem sequer chegou a passar pela minha cabeça. — Laura deu de ombros.
— Então, qual é o motivo de tanta preocupação?
— Quer mesmo saber? — Laura encarou a amiga.
— Mas é claro que quero.
— Pois então vou lhe dizer: minha preocupação é com o todo poderoso Fraser A.
Ross. Aquele homem tem um jeito meio felino... Não, o jeito dele é bem pior do que isso.
Ele me lembra um grande predador, ele me lembra um... pirata. Um pirata que chegou na
minha vida para roubar a minha paz, o meu sossego, a minha tranqüilidade.
— Quanto exagero, Laura.
— Um pirata, sim, senhora. Um pirata alto, muito bem vestido, com olhos incríveis
e um sorriso... selvagem!
Délia caiu na risada.
— Do que você está rindo? — Laura quis saber.
— De você, oras! Desta vez você exagerou mesmo, minha amiga. Onde já se viu
comparar um homem tão charmoso, tão distinto, a um predador e a um pirata. Além do
mais, estamos em pleno final do século vinte. E, pelo que eu saiba, não existem piratas

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

há muito tempo.
— Aí é que você se engana... — Laura deu um profundo suspiro. — Fraser A. Ross
é um pirata. Ele usa roupas caras e sóbrias só para disfarçar.

— Pare com isso, Laura. Fraser A. Ross não tem nada de pirata.
— Não? Você diz isso porque não foi beijada por ele.
— E você?
— Eu o quê? — Laura logo se arrependeu do que acabara de falar.
— Você já foi beijada por ele?
— Ouça, Délia, acho melhor mudarmos de assunto.

— Por quê? — a secretária a provocou. — Agora que chegamos na melhor parte


da conversa, você resolve mudar de assunto? Isso não é justo, Laura Shaw.
Laura ficou alguns segundos em silêncio e pediu:
— Você me faz um favor?
— Com todo prazer.

— Poderia me deixar no shopping perto do Cine Rainbow?


— Deixo, sim. Mas o que pretende fazer em um shopping numa hora dessa?
— Não é tão tarde, e preciso fazer algumas compras. Afinal, viajo amanhã bem
cedo. Você não precisa entrar comigo.

— E como vai voltar para casa?


— De táxi.
— Tudo bem, eu deixo você lá. Mas quero que saiba que detestei esta sua
mudança rápida de assunto.

— Por favor, Délia, não insista. Essa história toda está sendo muito difícil para mim.
— Se é assim, não está mais aqui quem falou.
Laura só conseguiu ir para a cama às duas horas da manhã. Mas, pelo menos,
tinha comprado as roupas que precisava e estava com a bagagem pronta. Porém apesar
do cansaço, ela não conseguia dormir. Por mais que se esforçasse, Fraser A. Ross não
lhe saía do pensamento. E ela sabia que corria muitos riscos. Fraser tinha um poder de
persuasão e sedução muito grande.
— Eu me sinto profundamente atraída por ele.... — Laura virou-se na cama e
abraçou o travesseiro. — E adorei, sim, o beijo que ele me deu!
Cansada de permanecer na cama sem dormir, ela se levantou e foi para a cozinha
preparar um chá. Depois, com uma caneca nas mãos, dirigiu-se à sala, onde ligou o rádio
numa estação que só tocava músicas clássicas àquela hora da madrugada.
— Eu vou trabalhar com ele num lugar longe de tudo e de todos... Vai ser difícil, vai
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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

ser fatal e estou me sentindo profundamente assustada. — Laura tomou um gole de chá.
— Fraser é tão diferente de Simon.
Ela levantou-se, encaminhou-se até à janela e ficou observando a noite. Não queria
pensar mais em Fraser, não queria pensar em Simon, não queria pensar em mais nada.
Decidida, tomou o resto do chá e, depois de deixar a xícara sobre a pia da cozinha,
voltou para o quarto.
Laura só conseguiu adormecer em torno das quatro horas, e às seis da manhã já
estava tomando banho.
A campainha tocou exatamente no horário combinado: às nove horas da manhã.
Laura pegou a bolsa, a maleta que continha o computador, a pequena mala que havia
preparado de madrugada e abriu a porta.
— Bom dia — Fraser a cumprimentou sorrindo.

— Bom dia — ela respondeu de maneira seca. Não era nada fácil ter diante de si o
homem que lhe roubara o sono.
— E a sua bagagem? — ele quis saber.
— Tudo do que eu preciso está aqui nesta mala.

— Tem certeza?
— Absoluta.
— Mas...
— Por favor, não venha me dizer que estou levando pouca roupa e nem que a que
estou usando é inadequada para a viagem.
— Quando à quantidade de roupa, está levando pouca, sim. Mas posso lhe
assegurar que você está muito bem de jeans branco e com essa blusa azul-clara. — Sem
disfarçar, Fraser olhou para baixo. — Olha só! A cinderela resolveu usar sapatos de
couro. Quem diria! Pensei que só usasse tênis.
— Quer parar de me analisar? — ela pediu num tom bem mais alto do que
gostaria.
— Não estou analisando você, Laura.
— Mas é claro que está. E quero deixar uma coisa bem clara entre nós dois: me
visto da maneira que gosto e não sou sua empregada. Apenas estou a seu serviço.
Entendido?
— Mais ou menos.

— Como assim?
— Ontem à noite, você se vestiu como uma hippie dos anos sessenta só para me
provocar.
— Engano seu, sr. Ross. Também gosto daquelas roupas.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Mas você fica bem melhor usando roupas mais sóbrias.


— Dispenso os seus comentários, sr. Ross. — Ela deu um suspiro de impaciência.
— Como é? Vai ficar aí parado, ou será que desistiu da viagem?

— Jamais desistiria desta viagem, minha gatinha feroz. Podemos ir.


Durante o trajeto até o aeroporto, os dois não se falaram. E na mente de Laura
havia ficado a última frase que Fraser lhe dissera.
"Gatinha feroz! Essa é muito boa! Se pelo menos Fraser tivesse me chamado de
gata feroz, eu me sentiria muito mais, digamos, prestigiada. Mas gatinha... Isso significa
que me vê como uma mulher insignificante, assustada e totalmente à mercê da vontade
dele. Só para deixá-lo com muita raiva, deveria ter vestido aquele terninho rosa-choque
que comprei quando estive em Sydney e, é claro, calçado um dos meus pares de tênis.
Mas não... Eu precisava ter me vestido de maneira tão comportada?"
Assim que o chofer parou o carro no estacionamento do aeroporto, Fraser disse:
— Muito obrigado, Lawrence.
— Sempre às ordens, senhor. Quer que eu leve a bagagem até o balcão da
companhia aérea?
— Não, muito obrigado. Eu mesmo faço isso.
— E quando devo vir buscá-lo?
— Ainda não sei. Quando marcar a minha passagem de volta eu o aviso.
— Certo, senhor.

Fraser, então, olhou para Laura e perguntou com um olhar desafiador:


— E então? Preparada para voar?
Laura, por sua vez, sustentou aquele olhar e respondeu:
— Eu sempre estou preparada para voar, sr. Fraser A. Ross.
Laura e Fraser se encontravam sentados, lado a lado, nas confortáveis cadeiras da
primeira classe do avião que os levava de Brisbane até a ilha Hamilton. De lá, para
chegar ao local onde Fraser havia construído a casa, eles precisariam usar uma lancha.
— Você conhece alguma ilha de Whitsunday, Laura?

— Não, é a primeira vez que vou até lá.


— Tenho certeza de que vai gostar. — Fraser a fitou com atenção e quis saber: —
Você viaja muito?
— Até há bem pouco tempo- nunca tinha saído da Austrália, mas agora a minha
vida está começando a mudar.
— E está contente com isso?
— Bastante contente. — Laura, por causa da noite mal dormida, estava sentindo

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

muito sono.
Os dois continuaram conversando por mais alguns minutos. Depois, mais uma vez
o silêncio caiu entre os dois. Laura, então, aceitou uma revista que a aeromoça lhe
ofereceu, mas, durante a leitura, acabou adormecendo e só foi acordar quando o almoço
estava sendo servido.

— Sonhou comigo? — ele perguntou de maneira insinuante ao vê-la abrir os olhos.


— Não costumo ter pesadelos, sr. Ross.
— O que aconteceu? Resolveu me agredir de novo?
— De maneira alguma. E você? Dormiu?
— Dei uma cochilada, sim. — A aeromoça estendeu-lhe uma bandeja. — A comida
chegou em boa hora. Estou com muita fome.
Uma outra bandeja foi entregue a Laura.
— Esta companhia aérea tem um serviço de bordo muito bom — ele comentou.
— Normalmente, as companhias aéreas se esmeram na comida. É uma maneira
de fazer com que os passageiros se esqueçam do risco que correm.
— Risco? — Fraser sorriu. — A quê, especificamente, está se referindo?
— Aos aviões. Acho que são um meio de transporte muito arriscado.
— Imagine... — Fraser balançou a cabeça em negativa. — Me sinto muito seguro
dentro de um avião. Corremos muito mais riscos nas estradas.
— É o que todos dizem. Mas me sinto muito mais segura dentro de um carro.
— Quer dizer, então, que a moderna, a independente Laura Shaw tem medo de
avião.

— Não é medo — ela disse, sorrindo —, é receio.


— Quem diria!
Um clima mais ameno se estabeleceu entre os dois durante o almoço, e Fraser fez
questão de continuar lhe dizendo quanto eram seguras as viagens aéreas.

Quando os dois já tinham terminado de almoçar, Fraser pediu:


— Agora me conte.
— O que você quer que eu lhe conte.
— Sobre a sua família.
— Não tenho muito o que contar sobre ela. — Laura deu de ombros.
— Vamos, me conte sobre a sua família — Fraser insistiu. — Você tem vinte
minutos.
— Vinte minutos? — Ela o fitou meio desentendida.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Isso mesmo. Daqui a vinte minutos estaremos aterrisando. Por favor, aperte o
seu cinto de segurança.
Laura colocou o cinto e ficou em silêncio.

— Estou esperando.
— Vinte minutos é tempo demais para eu falar sobre a minha família. Meu pai é um
artista, e minha mãe cantava ópera. Os dois se divorciaram, têm novas famílias e vivem
longe um do outro. Embora tenham deixado muito a desejar como pais, os dois são
pessoas muito boas.
— E você não tem irmãos, irmãs?

— Tenho um irmão. Nós somos gêmeos, mas não somos muito parecidos.
— E o seu irmão faz o quê?
— Ele é piloto da Força Aérea e, no momento, está baseado em Amberly. Sou uma
hora e meia mais velha que ele.
— E vocês dois se dão bem?

— Felizmente, sim. Mas ele vive dizendo que sou muito autoritária.
— Seu irmão está coberto de razão.
— Não sou tão mandona assim.
— Claro que não é... — Ele riu. — Imagine se fosse!
— Isso é uma crítica ou um elogio, sr. Ross?
— Entenda como quiser. Mas me diga uma coisa: esse seu jeito independente tem
algo a ver com o homem que estraçalhou o seu coração?
— Não — ela respondeu de maneira seca e se empertigou na cadeira.
— Não acredito em você, Laura.
Ela pensou um pouco nos prós e nos contras e resolveu dizer:

— Pois muito bem: não existiu nem um homem na minha vida que estraçalhou o
meu coração.
— Mas eu pensei que...
— Pois pensou de maneira errada, sr. Ross. Existiu, sim, um homem na minha vida
que me decepcionou profundamente, que não suportou uma mulher de sucesso ao lado
dele.

— E você achava que o amava?


— Digamos que sim — ela respondeu e mordeu o lábio inferior. — Mas essa
relação serviu para me prevenir contra os homens.
— Poderia me explicar melhor o que acabou de dizer?

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Os homens, sr. Ross, são seres que têm, ao contrário do que se pensa, seus
egos muito fragilizados. Ele também era... um homem muito rico.
Meio sem graça, Fraser olhou pela janelinha do avião e disse:

— O avião está começando a perder altura. Vamos aterrisar antes do que imaginei.
Duas horas depois, Laura e Fraser deixavam o caís a bordo de uma lancha. Assim
que haviam desembarcado na ilha de Hamilton, Fraser a levara para um hotel cinco
estrelas, o Hamilton Towers, onde Laura, numa suíte deslumbrante, trocara a roupa de
viagem por shorts, camiseta e sandálias. Fraser agora também usava shorts e camiseta.
— A ilha fica longe daqui? — ela quis saber.

— De maneira alguma. Em dez minutos estaremos lá.


De fato, dez minutos mais tarde, Fraser atracava a lancha em um pequeno
ancoradouro de águas transparentes.
— Essa ilha é sua? — Laura perguntou, deslumbrada com a beleza que tinha
diante de si.
— Não, ela é arrendada. E assim que as coisas funcionam por aqui.
— Mas não estou vendo casa alguma.
— A casa está escondida pelas árvores.
— Que, por sinal, são belíssimas. — Laura foi para o ancoradouro. — E como você
fará para adquirir suprimentos e coisas do gênero?
— Há um barco que viaja por essas águas, justamente para suprir os moradores
das ilhas. — Ele amarrou a lancha e também foi para o ancoradouro.
— Realmente esse local é magnífico.
— Que bom que você gostou. — Ele, com muita naturalidade, segurou-lhe a mão.
— Venha! Apesar de estranhar aquele gesto, Laura se deixou levar por Fraser. Após
subirem uma pequena elevação toda arborizada, a casa apareceu.
— Mas ela é imensa! E é linda!
— É verdade, acho que consegui finalmente construir a casa dos meus sonhos.
— As fotos que vi não fazem jus à casa, sabia?

— Muito obrigado pelo elogio. — Ele riu. — Afinal, aquelas fotos foram feitas por
mim.
— Posso lhe pedir uma coisa?
— O que você quiser, Laura Shaw.

— Poderia ficar sem dizer absolutamente nada até que eu veja a casa inteirinha?
— Por quê?
— É a maneira que tenho de trabalhar. E é muito importante para mim. Gosto de
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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

sentir o local sem a interferência de ninguém.


— Pode ficar tranqüila, vou ficar com a boca bem fechada.
Depois de percorrer cada cômodo da casa, Laura finalmente chegou à cozinha. Só
então quebrou o silêncio imposto por ela:
— Mas esta casa está absolutamente vazia.
— E qual é o problema?
— Bem, eu pensei que fosse apenas fazer a decoração. Mas, pelo jeito, você está
querendo que eu mobilhe a casa inteirinha. Quer que eu compre pratos, talheres, panelas,
chuveiro, quer que eu compre...
— Algum problema? — ele a interrompeu.
— Não, até que é um trabalho bastante desafiador. Mas existem alguns detalhes
que, acredito, a sua esposa deveria cuidar.
— Esposa? — Ele caiu na gargalhada. — Mas você está cansada de saber que eu
não sou casado.

— Mas, pelo que ouvi, você está pretendendo se casar.


— Isso é conversa da minha irmã. Estou me sentindo muito bem solteiro.
— Mesmo assim, acho que existem algumas coisas, tais como pratos, panelas,
copos que...

— Que só uma esposa deveria escolher? — ele a interrompeu e, em seguida,


pediu: — Pois faça de conta que você é minha esposa, minha esposa de mentirinha, e
compre tudo o que for necessário.
— Não estou gostando nada dessa história, sr. Ross.
— Por quê? — Ele a fitou, fingindo inocência.
— Algo me diz que, com tudo isso — ela fez um amplo gesto com a mão —, o
senhor só tem uma coisa em mente.
— E que coisa é essa?
— Me levar para a cama.
— Levar você para a cama? — Fraser voltou a gargalhar.
— Mas eu não tenho cama aqui, Laura Shaw.
— Não brinque, você sabe exatamente sobre o que estou falando.

— Para lhe dizer a verdade, até que gostaria, sim, de levá-la para uma cama. Mas
isso não tem nada a ver com a decoração desta casa.
Laura pensou um pouco e viu que aquele não era o momento de discutir um
assunto tão delicado. O melhor que tinha a fazer era ir conhecer o pequeno chalé que
ficava a uns vinte metros da casa.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

CAPÍTULO IV

De volta à suíte do hotel, Laura imediatamente ligou o computador portátil que


havia trazido e começou a fazer um relatório preliminar sobre a casa da pequena ilha, que
tanto a impressionara. Depois de ter terminado o trabalho, ela tomou um demorado banho
de imersão, numa banheira toda em mármore. Bastante relaxada, saiu da banheira,
enxugou-se, vestiu um robe branco atoalhado e, como os cabelos ainda molhados, foi
sentar-se na sacada para apreciar o pôr-do-sol. A paisagem que tinha diante de si era
linda. À esquerda, um sem números de embarcações atracadas no cais e coloridas pelo
sol. À direita, um oceano azul-marinho, quase negro.
Laura deu um longo suspiro. A natureza era mesmo muito generosa. E pensar que
em algum lugar do mundo, o sol, que agora deixava aquela parte da Terra, iria iluminar
vidas e esperanças.
Laura ficou na sacada até que o sol desaparecesse de vez e as luzes da cidade
fossem todas acesas. Depois, se espreguiçou languidamente e voltou para o banheiro,
onde secou os cabelos.

Já no quarto, ela tirou o robe atoalhado, passou um hidratante no corpo e abriu o


armário para escolher a roupa que usaria.
Minutos mais tarde, Laura se olhou no espelho e ficou feliz com a sua aparência.
Laura abriu a bolsa, pegou um par de argolas douradas e as colocou nas orelhas.
Ao voltar a se olhar no espelho, ela sorriu. Só esperava que Fraser não fosse buscá-la
para jantar usando smoking.

— Ia ser muito engraçado... Na certa ele iria achar que estou usando estas roupas
por pura provocação.
Laura tinha acabado de retocar o batom quando bateram na porta.
Ela abriu a porta. Fraser usava bermuda bege e uma camisa de linho azulão.

"Devo admitir que esse homem, além de perigoso, é muito charmoso!"


— Você disse alguma coisa?
— Não, eu não disse nada. — Ela se assustou. Será? Será que havia pensado em
voz alta?

— Tive a nítida sensação de que você disse alguma coisa.


— De maneira alguma.
— Se não disse, você pensou.
— O que foi agora, sr. Fraser A. Ross? Resolveu controlar até os meus
pensamentos?
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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Jamais pensei numa coisa dessa. Podemos ir?


— Você reservou mesa no restaurante?
— Está se referindo ao restaurante do hotel?
— Exatamente!
— Não, eu não fiz nenhuma reserva. Vamos jantar num restaurante muito
aconchegante à beira da praia. De lá poderemos ver a lua.
— Muito romântico... — ela ironizou.
— Eu sou um homem romântico, srta. Shaw.
— Claro que é... — Laura voltou a ironizar, e Fraser não gostou nada do
comportamento dela.
— O que foi? Resolveu tirar a noite para caçoar de mim, Laura Shaw?
— Imagine... — Ela se fez de inocente. — Longe de mim pensar em caçoar de um
homem tão importante como o senhor.
— Eu não sou um homem importante.
— Claro, claro que não... Um homem que arrenda uma ilha e constrói nela um
palácio, não é nada importante.

— Posso considerar o que acabou de dizer como uma censura?


— Não, considere o que eu disse apenas como um simples comentário.
— E então? — ele perguntou, impaciente. — Ou você me convida para entrar, ou
vamos para o restaurante.

— Vamos para o restaurante. — Laura não pensou duas vezes para responder. De
maneira alguma queria Fraser A. Ross na suíte que ocupava. — Só vou pegar a minha
bolsa.
Os dois caminhavam pela praia em silêncio. E foi Fraser a quebrá-lo:
— Viu só que lua mais linda? Não sabia que hoje era noite de lua cheia.
— Nem eu. — Laura olhou para o céu. —Tenho a sensação de que o mundo fica
mais bonito quando é noite de lua cheia.
— Dizem que estas noites foram feitas para o amor.
Ao ouvir aquilo, Laura sentiu uma pontada no estômago e, para disfarçar, resolveu
se fazer de desentendida.

— Você é uma mulher romântica, Laura?


Ela não sabia o que responder. Ao lado daquele homem, tinha de tomar muito
cuidado com tudo, principalmente com as palavras. Não podia lhe contar que era uma
romântica incurável, uma sonhadora.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Eu lhe perguntei se você é uma mulher romântica.


— Não. — Ela deu um profundo suspiro. — Sou uma mulher de negócios, sr. Ross.
E, como o senhor deve estar cansado de saber, não existe lugar para romantismo nos
negócios.
— Poderia jurar que, escondida por detrás dessa mulher de negócios, existia uma
outra Laura Shaw, talvez a verdadeira, que é romântica, que chora em qualquer filme de
amor.
"Ele é um bruxo! Fraser A. Ross só pode ser um bruxo! Como ele..."
— O que foi? Disse alguma coisa que a ofendeu?

— De maneira alguma. Só não entendo como é que pode pensar que eu choro em
qualquer filme de amor. Eu, na verdade, nem gosto desse tipo de filme. Prefiro os filmes
mais... cabeça...

— Filmes cabeça? Que tipo de filme é esse? Será que existe outro estilo de filme
que desconheço?
— Me desculpe, esqueci que estou conversando com um homem que jamais deve
ter usado gíria na vida. Estava me referindo aos filmes mais intelectualizados.
— E não seria mais fácil usar a palavra correta?
— Olha, por que não vai procurar a pessoa que inventou essa gíria e faz o pedido a
ela?
— Nossa língua é muito bonita, não sei por que...
— Gíria é usada em toda parte do mundo, sabia? — Ela fez um gesto com as mãos
que revelava quanto estava impaciente. — Você é um homem muito quadrado.

— Eu? Quadrado?
— Careta! Melhorou?
— Se insistir em falar assim comigo, acho que não vamos ter a menor condição de
continuar conversando? O que foi? Será que a adolescente que você foi um dia resolveu
reaparecer?
— É difícil acreditar que você não saiba o significado de careta e quadrado. —
Laura não conteve o riso. — Essas duas palavras significam conservador.
— Ah, então é isso? Mas eu não sou, sob hipótese alguma, um homem
conservador.
— Que tal a gente ir para o restaurante? Já andamos bastante, e estou com muita
fome.
— Perfeito. Vamos para o restaurante.
Laura olhava para os pratos que o garçom havia acabado de colocar na mesa:
peixe grelhado, arroz à grega e uma salada verde.
— O que eu gosto neste restaurante é que o dono faz questão de deixar todos à
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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

vontade. E a comida é muito boa. Não gosto muito que me sirvam. Às vezes fico
encabulado com a falsa atenção de alguns garçons.
"Será que ouvi direito? O aristocrático Fraser A. Ross dizendo que se sente
encabulado quando é servido por um garçom? Por essa eu não esperava!"
— Quer que eu sirva você? — ele perguntou.
— Não, muito obrigada. Também me sinto constrangida quando sou servida.
— Quanta coincidência. — Fraser sorriu, satisfeito. — Então, sirva-se, por favor.

Como sempre fazia, Laura serviu-se de salada e só depois se deliciou com o peixe
e com o arroz.
— Realmente a comida daqui é excelente — ela comentou, quando já estava no
final da refeição.
— Às vezes, tenho vontade de largar tudo e abrir um restaurante na praia. Mas
teria de ser um restaurante simples como este daqui.
— Você ia ficar muito engraçado como dono de restaurante. — Ela riu.

— Você me acha mesmo muito careta, não é?


— Não acredito! — ela quase gritou. — O todo certinho Fraser A. Ross usando
gíria? Se alguém tivesse me contado, eu não acreditaria.
— Vá brincando, vá... — Fraser a fitou com carinho. — Você nem imagina como a
minha vida é complicada, Laura. Às vezes, as reuniões de negócios chegam a ser
torturantes.

— Eu imagino.
— Podemos pedir a sobremesa? Eles aqui fazem sorvetes fantásticos.
— Verdade? Então vou querer um de chocolate.
Fraser pediu os sorvetes e resolveu perguntar:
— Como é, já sabe como vai ser a decoração da minha casa?
— Eu ainda estou pensando a respeito. Quando cheguei ao hotel, fiz um relatório
preliminar, mas ainda tenho dúvidas do que fazer com as portas de entrada.
— Portas de entrada? — ele perguntou, espantado. — Mas há alguma coisa de
errado com as portas que foram instaladas?
— Com tantas árvores, Fraser, portas como aquelas deixam a sua casa austera
demais. Quero alguma coisa mais leve. Quero que as entradas da sua casa tenham a
aparência das que vi em Zanzibar.
— Zanzibar? — ele perguntou espantado.
— É, Zanzibar. Você sabe do que estou falando?
— Mas é claro que eu sei. Zanzibar é uma ilha que fica na costa leste da África.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Exatamente.
— Mas eu pensei que você só fosse cuidar da parte interna da casa.
— Era o que eu estava me propondo.
— Não vai ser nada fácil arrumar portas como as de Zanzibar.
— Você também conhece Zanzibar?

— Não, mas assisti a um documentário sobre a ilha. — Fraser a fitou de maneira


interrogativa.
— O que foi?
— E aquela história do estilo javanês?

— Bem, isso será na parte interna da casa. Adoro misturar estilos. Na minha
modesta opinião, uma decoração feita com um único estilo fica monótona.
— E como você vai fazer para conseguir o que você está querendo? Estou me
referindo quanto a conseguir esse tipo de porta.
— Bem, tenho o nome de um fornecedor. Mas até que as portas cheguem pode
demorar meses. Estive pensando em pedir a alguém daqui que fizesse uma réplica.
— Então peça que busquem as portas em Zanzibar.

— Fraser, como lhe disse, isto pode demorar meses.


— Não faz mal. É só finalizar a decoração quando elas chegarem.
— Mas prometi fazer a decoração de sua casa em três semanas.
— Isso aconteceu quando você estava pensando apenas na decoração do interior.
Agora a situação é diferente. Você está pretendendo cuidar também da parte externa da
casa.
— Vou pensar melhor no assunto. Se achar razoável, mando buscar as portas.
— Acho melhor decidirmos tudo agora.

— Se você quer assim, é o que vou fazer: as portas virão da África. Talvez também
pudéssemos encomendar algumas camas de lá.
— Não, prefiro as camas tradicionais.
— Pelo menos a sua cama eu acho que deveria vir de lá.

— Por favor, Laura, não insista quanto a esse detalhe. Pelo menos para mim, elas
são bem mais confortáveis. — Fraser fez uma pausa e, em seguida, perguntou: — Ele
esteve lá com você.
— Quem?
— O homem que fez com que você se tornasse totalmente avessa aos
representantes do sexo masculino.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

Laura não gostou da pergunta. Para desafiá-lo, ergueu um pouco a cabeça e


fitando-o dentro dos olhos respondeu:
— Por que você me fez essa pergunta?

— Curiosidade, apenas.
— Então, vamos ver essa situação, que no meu ponto de vista é bastante
desagradável, sob um outro prisma: quantas namoradas o senhor já teve, hem? Depois
de me responder a essa pergunta, aproveite para responder também o motivo que o leva
a desconfiar tanto das mulheres.
— Pelo que posso entender da sua resposta, está tentando me dizer que a sua
vida não é problema meu?
— O senhor é um homem inteligente: foi exatamente isso que eu quis lhe dizer.
— Se é assim — ele deu um sorriso sem graça —, só nos resta saborear os
sorvetes que estão chegando e, depois, sairmos para dar uma volta pela praia.
— Perfeito — ela concordou e ficou contente por Fraser ter desistido de lhe fazer
perguntas pessoais. Afinal, ela estava ali em Hamilton para trabalhar, apenas para
trabalhar.
De volta à praia, eles fizeram um longo trajeto a pé. Fraser para quebrar o mal
estar que havia se criado entre os dois, começou a lhe contar a história da ilha e da
região.
— Posso saber o porquê de estar tão calada? — ele perguntou em um
determinado momento.
— Estou um pouco cansada.
— Tem certeza de que não está pensando em coisas exóticas para pôr em minha
casa? — ele a provocou.
— Não, pode ficar tranqüilo.
Os dois caminharam mais alguns metros em silêncio, tendo como companhia
apenas a lua que brilhava soberana no céu.
Laura queria ver se alguns pescadores, pelo quais haviam passado há pouco, já
tinham entrado com uma rede no mar.
E, para infelicidade dela, ao olhar para trás, enfiou um dos pés em uma pequena
depressão da areia e caiu.
— Ai! — ela gritou e levou a mão ao pé.
— Meu Deus, como foi acontecer uma coisa dessa? Está doendo muito?
— Bastante.
— Vou levar você até ao hospital.
— Eu não quero ir para o hospital.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Sinto muito, Laura Shaw, aqui você é minha convidada e me sinto responsável
por tudo que possa lhe acontecer. Vamos, vou levá-la agora. — Sem dizer mais nada,
Fraser a ergueu nos braços.
— O que pensa que está fazendo?
— Não seja teimosa, por favor. Já disse que vou levá-la para o hospital.
— Me coloque no chão. Posso muito bem andar.
— Não. — Sem dizer mais nada, ele foi para um ponto de táxi que ficava nas
proximidades. Quinze minutos depois, Laura estava sendo examinada por um médico.
— É grave, doutor? — Fraser quis saber.
— Acredito que tenha sido apenas uma torção. Mas vamos fazer uma radiografia
para confirmar.
Após ter feito a radiografia, Laura foi levada para uma sala de espera em uma
cadeira de rodas. Quando o médico chegou com a radiografia nas mãos, Fraser, que se
encontrava sentado em uma poltrona, levantou-se e perguntou, aflito:
— E então? Encontrou algum osso fraturado?
— Felizmente, eu estava certo. Foi apenas uma torção. — Olhando para Laura, o
médico disse: — Teve muita sorte, senhorita.
— Eu sempre tenho muita sorte — ela ironizou. — Vim até aqui a trabalho e acabo
torcendo o pé. Mas amanhã estarei em plena forma.
— Sinto muito informar, mas terá de fazer repouso.

— O quê? — ela perguntou, bastante contrariada.


— Eu insisto, senhorita, nesses casos o único tratamento é o repouso. Agora vou
lhe prescrever um analgésico e, em seguida, vou enfaixar o seu tornozelo.
— Está querendo dizer que vai enfaixar o meu pé, não é?

— É isso, sim. Mas o seu problema é no tornozelo.


Com muito cuidado, Fraser colocou Laura sobre a cama da suíte que ela estava
ocupando.
— Você não precisava ter feito isso. Eu poderia ter vindo para a cama sozinha. E
também não precisava ter requisitado uma cadeira de rodas com a recepcionista do hotel.
— Será que você só sabe reclamar?
— E o que mais quer que eu faça? Acha que eu contava com uma torção de
tornozelo?
— Os imprevistos acontecem, srta. Shaw. E não seja tão infantil. Você teve muita
sorte. Poderia ter quebrado o pé. Aí, sim, a situação seria bem pior.
— É verdade... — Laura concordou. — Mas agora eu lhe agradeço e gostaria de
poder ficar sozinha.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— De maneira alguma. Vou dormir aqui esta noite.


— Dormir aqui? — Ela deu uma risadinha nervosa. — Não senhor. Posso muito
bem cuidar de mim mesma.

— Eu insisto, Laura. Seu tornozelo pode começar a doer. Como é que vai fazer se
isso acontecer?
— Eu tomo o remédio que o médico me recomendou. E, por falar nisso, onde está
a receita?
— Deixei a receita na recepção do hotel. Logo o seu remédio estará aqui.
— Você é um homem muito eficiente, Fraser A. Ross.
— Faço o que posso.
Eles ouviram uma batida na porta da suíte.
— O seu remédio chegou. E as bolsas também.

— Bolsas? Que bolsas são essas, Fraser? Será que ficou maluco?
— Não ouviu o que o médico lhe disse antes de deixarmos o hospital?
— Foi você quem falou com ele, não eu.
— É verdade. — Fraser tinha conversado com o médico e ouvido as últimas
recomendações, um pouco antes de ir pagar a conta do hospital. — Ele pediu para que,
assim que chegássemos ao hotel, eu fizesse várias compressas geladas no seu
tornozelo.
Mais uma vez, eles ouviram uma batida na porta da suíte.
— Espere só um instante. — Fraser foi atender a porta e, quando voltou, sorria
satisfeito. — Pronto. Aqui está o remédio e as bolsas. Vou pôr uma delas no congelador
da geladeirinha.
Fraser deixou a caixa de analgésico sobre o criado-mudo ao lado da cama e, em
seguida, colocou uma das bolsas dentro do congelador. Ao voltar para o lado da cama,
ele parecia triunfante.
— As compressas! — Ele sentou-se na beirada na cama e, com muito cuidado,
segurou o tornozelo que tinha sido torcido.
— O que você vai fazer?
— Tirar a faixa do seu pé para fazer as compressas geladas.
— E é preciso fazer isso?
— Eu acho que sim.

— Você acha, Fraser? Pensei que tivesse certeza.


— Esse pequeno detalhe eu esqueci de perguntar ao médico, mas o bom senso
me diz que devo retirar a faixa. Caso contrário, ela ficará toda molhada.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Faz sentido...
Devagar, ele retirou a faixa que envolvia o tornozelo e o pé de Laura e começou a
fazer as compressas.

— Dói muito?
— Não. A dor é suportável.
— Ainda bem. Você tem pés muito bonitos, srta. Shaw. Pés delicados e muito bem
tratados.

— Você acha que é hora de fazer um tipo de comentário como este?


— E o que tem de errado com o meu comentário?
— Há hora para tudo, sr. Ross.
— É mesmo? — Ele sorriu de maneira maliciosa. — E a que horas, então, posso
dizer que os seus pés são lindos?

— Quer fazer o favor de parar de ser inoportuno? Não quero saber de brincadeira.
— Tudo bem, mas quero que saiba que eu não estava brincando. Seus pés são
belíssimos.
Depois de meia hora de compressas geladas, Fraser voltou a lhe enfaixar o pé.

— Pronto. Agora você pode dormir.


— E você pode ir para a sua suíte.
— Nós já conversamos sobre isso, Laura.
— Não, nós não conversamos. Você decidiu por mim. E eu não quero que fique
aqui.
—- Mas eu vou dormir no sofá da sala. Ele é bem confortável. E estamos
conversados! — Fraser se levantou. — Se precisar de mim é só me chamar.
Antes de sair do quarto, ele pôs as bolsas na geladeira. Em seguida, pegou um
copo com água e o colocou sobre o criado-mudo, ao lado da caixa de analgésico.

CAPÍTULO V

Laura, muito preocupada com a presença de Fraser na sala da suíte, ficou olhando
para o teto, pensando na vida. Em um dado momento, resolveu ir ao banheiro. Com muito
cuidado para não acordá-lo, ela se levantou e, bem devagar, conseguiu chegar até lá.
Quando voltou para a cama, trazia nas mãos um pijama. Após tê-lo vestido, deitou-se,
feliz por não ter feito barulho. Pelo menos não precisaria enfrentar mais uma vez um

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

Fraser A. Ross preocupado e cheio de cuidados com ela.


Meia hora depois, Laura conseguiu dormir, para acordar logo em seguida com dor
no tornozelo. Ela, então, tomou um analgésico e só voltou a dormir quando o remédio fez
efeito. Mas não teve um sono restaurador, muito pelo contrário. Aquela madrugada foi
povoada por sonhos estranhos, onde a presença de Fraser era uma constante.

Laura foi acordada por um barulho. Meio sem saber o que estava acontecendo, ela
olhou para a porta do quarto que tinha ficado aberta e não viu nada. Porém, logo depois,
Fraser entrava, empurrando um carrinho com o café da manhã.
— Bom dia, Laura Shaw. —: Ele a presenteou com um belo sorriso, iluminado pela
luz que entrava pela janela.
— Bom... dia... — ela titubeou. Era muito constrangedor acordar e, logo de cara, ter
de enfrentar o personagem dos seus sonhos.
— Dormiu bem?
— Mais ou menos.
— Mas você está usando pijama. Isso significa que levantou de madrugada. Por
que não me chamou?
— Não foi preciso.
— Estava começando a ficar intrigado. — Fraser sentou- se na beirada da cama.
— Com o quê?
— Bem, não pensei que você fosse tão dorminhoca.

— Mas eu não sou tão dorminhoca. Que horas são?


— Dez horas da manhã.
— Não acredito.
— E o tornozelo?
— Doeu um pouco durante a madrugada, mas agora não estou sentindo
absolutamente nada.
— Eu não me conformo com tanta independência.
— A quê, especificamente, está se referindo?.
-— Ao seu jeito de ser. Você deveria ter me chamado quando precisou levantar-se.
Onde já se viu uma coisa dessa? Acha que fiquei lá na sala para quê? Para poder atacá-
la na primeira oportunidade?
— E não foi?

— Assim você me ofende, Laura Shaw. Não sou homem de atacar mulheres
indefesas.
— É mesmo? — Laura deu um sorrisinho irônico. — Você só ataca as mulheres

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

que sabem se defender?


— É melhor mudarmos de assunto. — Fraser se aproximou do carrinho e o levou
até ao lado da cama.

Fraser voltou a se sentar na beirada da cama e, enquanto Laura fazia a refeição


matinal, os dois conversaram a respeito da decoração que seria feita na casa.
— Bem — ela disse em um determinado momento —, não vou ficar andando para
cima e para baixo em uma cadeira de rodas. Portanto, quero voltar para casa hoje
mesmo.
— De maneira alguma. Não quero nem pensar em voltar. Estou precisando relaxar
um pouco e nada melhor do que essa ilha para isso.
— Mas eu vou ficar aqui perdendo tempo? Fraser, entenda, sou uma mulher muito
ocupada. Tenho certeza de que, se voltar para casa, encontrarei algo para fazer. O
orçamento da sua casa, por exemplo.
— Nada disso. — Fraser estava irredutível. — Vamos ficar aqui e desfrutar um
pouco deste paraíso.
— Com o meu tornozelo desse jeito?
— Será que você sempre vai arrumar um motivo para brigar comigo, Laura?
— Já disse que não quero ficar andando por aí em uma cadeira de rodas.
— Mas você ainda não pode afirmar o pé no chão. Pelo menos hoje, você ainda
não pode.
Não foi nada fácil para Laura ser amparada por Fraser até o banheiro. E não
adiantou ela dizer que o tornozelo já não doía mais. O máximo que ele concedeu foi ficar
esperando no quarto, enquanto Laura fazia sua higiene matinal.
Quando deixou o banheiro, ela fez questão de repetir que estava bem. Fraser, no
entanto, continuou irredutível e só saiu do quarto para ela se trocar.
Laura vestiu um conjunto de shorts e camiseta e, para evitar novos
desentendimentos, deixou o quarto sentada na cadeira de rodas.
— Você trouxe biquíni?

— Não.
— Então vamos comprar um para você. E vamos comprar também protetor solar. O
sol lá fora está muito forte.
— Eu não quero um biquíni. Não vou entrar na água com o pé desse jeito.

— Mas você acabou de me dizer que está se sentindo muito bem.


— Pois é... Por mim, eu voltaria para a sua casa na ilha e...
— Isto está fora de cogitação. Mas nós vamos comprar um biquíni, sim. Você pode
ficar sentada numa espreguiçadeira ou na borda da piscina.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— E a faixa?
— A gente tira a faixa.
— Tudo bem, Fraser A. Ross, vamos fazer umas comprinhas.
Laura, sentada na borda da imensa piscina de águas azuis e cristalinas, apreciava
os movimentos de Fraser na água. Com braçadas vigorosas e estilo perfeito de nado bor-
boleta, ele terminava de fazer cem metros, a meta que se propusera antes de mergulhar.
Depois de ter alcançado o seu objetivo, Fraser se aproximou do local onde Laura
se encontrava.
— Não sabia que você nadava tão bem — ela comentou.
— Mas estou muito fora de forma. Já nadei bem melhor.
— Eu não nado tão bem assim, mas estou louca para cair na água.
— Nem pense numa coisa dessa, por favor.

— Dê uma olhada no meu tornozelo. Suas compressas foram muito boas. Ele só
está um pouquinho inchado.
— Mesmo assim acho que deveria se poupar.
— Mas o sol está muito quente, Fraser. Um mergulho seria maravilhoso.

Fraser pensou um pouco e propôs:


— Vamos fazer o seguinte: você entra na água, mas eu não vou sair do seu lado.
Combinado?
— Combinado.

— Está com medo?


— Estou, sim, com muito medo — ela disse e teve vontade de complementar:
Estou com muito medo desses braços fortes, desse corpo que parece ter sido talhado
pelo cinzel de um grande artista.
Laura percebeu que, se ficasse pensando nele, jamais entraria na água. Então, de
súbito, se levantou e mergulhou na piscina. Quando emergiu, deu de cara com Fraser ao
seu lado.
— Você é maluca?
— Digamos que sim.
— Não poderia ter feito aquilo. Deveria ter aceitado a minha ajuda.

— Por favor, não se preocupe, quase não estou sentindo dor e acho que a água vai
me ajudar a relaxar um pouco.
— Tudo bem, mesmo assim vou ficar por perto.
"Mas, por favor, não fique perto demais", ela teve vontade de pedir, mas se calou.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

Laura ficou na piscina durante uns quinze minutos e, na maior parte do tempo,
permaneceu de costas, boiando.
Depois, resolveu sair da água e se deitar na espreguiçadeira para ler o livro que
havia trazido. Era melhor se poupar. Se a sua recuperação continuasse tão bem, no dia
seguinte estaria pisando normalmente.

Ao sair da piscina, Fraser se encontrou com velhos amigos que estavam


acompanhados por Glória e Cathy, duas aeromoças que ele não conhecia. Muito
animado, os convidou para ir naquela tarde conhecer a casa que havia construído na ilha.
Laura, quando viu que Fraser se excedia em gentilezas para com as aeromoças,
sentiu algo muito estranho. E não demorou muito para perceber que tal sentimento tinha
um nome: ciúme. Inconformada, ela se esforçou para conversar com as duas garotas.
Porém, todas as vezes que Fraser lhes dirigia a palavra, de novo aquela sensação
horrível se apossava do seu peito. Laura, então, decidiu que o melhor que tinha a fazer
seria voltar para o quarto.
— Mas você não quer almoçar conosco, Laura? — Fraser perguntou,
decepcionado.
— Não, muito obrigada. Prefiro voltar para o quarto e descansar um pouco.
Amanhã pretendo estar bem para poder continuar o meu trabalho.

O grupo conversou por mais alguns minutos. Mas a sensação de opressão que
Laura sentia dentro do peito aumentava a cada instante que passava.
— Está sentindo alguma coisa, Laura? — Fraser perguntou.
"Sim! Estou! Estou sentindo ciúme de você e não me conformo com isso!", ela teve
vontade de gritar mas, ao invés disso, disse:
— Não, estou bem, mas gostaria de ir para o quarto.
— Vou pegar a cadeira de rodas.
— Não, Fraser, não preciso mais dela.

— Eu faço questão de levá-la até o quarto na cadeira de rodas.


Fraser foi pegar a cadeira que tinha ficado sob uma árvore. Ao voltar, com muita
delicadeza, ajudou Laura a se instalar nela.
Antes de se afastar, Laura se despediu dos seus novos conhecidos e, ao chegar no
quarto, se deu conta de que estava se controlando para não chorar.
— Se quiser, eu almoço aqui com você — Fraser sugeriu.
— Não, não precisa se incomodar comigo. Posso muito bem almoçar sozinha —
ela disse, num tom seco de voz.
— O que aconteceu? Por que resolveu me agredir?
— Não estou agredindo você, Fraser A. Ross.
— Está. Está, sim, senhora!

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Engano seu. Só estou me sentindo um pouco cansada.


— Mas você dormiu até tarde hoje, Laura.
— E daí? — Ela se zangou. — Será que resolveu me controlar? Se resolveu, acho
bom desistir da idéia. Detesto que me controlem.
— Você é uma pessoa intratável.
— Você também é um homem intratável.
— Tenho tido a maior paciência do mundo e a estou tratando muito bem. Portanto,
não admito que seja indelicada comigo.
— Ouça aqui, sr. Fraser: que tal me deixar sozinha? Vim aqui para trabalhar e é
isso o que vou fazer.
— Ninguém a está impedindo de trabalhar.
— Neste exato momento o senhor está, sim, me impedindo de trabalhar. Se já
tivesse descido para ficar com as suas novas amiguinhas, eu já estaria trabalhando.
— Ah, então é isso. — Ele deu um sorriso de satisfação. — Está com ciúme, srta.
Shaw?
"Meu Deus, ele descobriu! E não tem o menor cabimento sentir ciúme de um
homem que conheci há pouquíssimo tempo! O melhor é eu negar. O melhor é..."
— O que foi? Está pensando numa boa desculpa para me dar?

— Desculpa? E desde quando eu tenho de lhe dar alguma desculpa?


— Vai negar que está sentindo ciúme de mim?
— Vou. Vou negar. Onde já se viu uma coisa dessas? De onde você tirou que eu
poderia estar sentindo ciúme de você?

— No seu jeito, srta. Shaw. E da maneira como se referiu às moças que acabei de
conhecer. Elas me pareceram muito boazinhas.
— E belíssimas, e charmosas também. Portanto, desça e vá almoçar com elas.
— Se quiser, fico aqui e almoço com você — ele sugeriu de novo, tentando
contemporizar.
— Não, eu quero e vou almoçar sozinha. Agora, faça o favor de se retirar.
Laura, que ainda estava sentada na cadeira de rodas, se levantou.
— E, por favor, leve essa cadeira embora. Alguém pode precisar dela.

— O hotel tem várias cadeiras como essa. É melhor deixá-la aqui. Você ainda pode
precisar.
— Fraser, não vou precisar mais da cadeira. Portanto, por favor, leve-a embora
daqui.
— Está vendo só como você é teimosa? Está sempre arrumando um motivo para
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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

brigar comigo, para discordar de mim. — Com raiva, ele colocou as mãos na cintura e
continuou: — A cadeira de rodas vai ficar. E você, faça o favor de ir para a cama.
— Não acredito no que acabei de ouvir. — Laura sentou-se no sofá. — Nem o meu
pai, falava desta maneira comigo!
— Na cama você vai descansar melhor, Laura.
— Eu vou ficar aqui. Agora, faça o favor de me deixar sozinha.
— Se é isso mesmo que você quer... — Ele se dirigiu para a porta de saída. —
Tenha uma boa tarde, srta. Shaw.
— Eu terei. E você, aproveite o passeio e desfrute da companhia das suas novas
amigas.
— É exatamente isso o que vou fazer. — Ao sair, Fraser bateu a porta da suíte
com força.
Bastante contrariada com Fraser e consigo mesma, Laura ficou olhando por longos
minutos para a porta que se fechara. Depois, levantou-se com cuidado e foi tomar um
banho. Quando deixou a banheira, se enxugou vigorosamente, vestiu o robe, enrolou uma
toalha na cabeça e deitou-se. Por mais que fizesse, não conseguia afastar Fraser dos
pensamentos.
— Não posso ficar aqui parada, olhando para o teto, pensando naquele homem.
Vou me levantar e ligar para Délia.
Laura voltou para a sala, sentou-se no sofá e ligou para a secretária.
— Que bom falar com você, Laura! Você nem imagina com quem passei a maior
parte do dia ontem.
— Não imagino mesmo. — Laura sorriu da maneira espontânea que Délia se
expressava.
— Com Bernard Ross.
— Com quem? — Laura perguntou espantadíssima e achou que não tinha ouvido
direito o nome do homem com Délia havia se encontrado no dia anterior.
— Com o pai de Fraser, Bernard Ross.

— Você...
— Pois é... Ele me ligou e me convidou para almoçar. Eu aceitei. Depois de termos
almoçado, resolvemos ir a um cinema. E após o cinema, como estávamos novamente
com fome, fomos jantar.
— Você fez tudo isso com Bernard Ross?
— Passei um dia fantástico.
"Quer dizer que essa história de ficar se insinuando para todas as mulheres que
aparecem pela frente está no sangue? Jamais pensei que Bernard Ross, um senhor tão
distinto...."

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Laura, você ainda está aí? — a secretária interrompeu-lhe os pensamentos. —


Não estou ouvindo nada.
— Eu consigo ouvi-la perfeitamente.

— Gostou da novidade?
— Muito, Délia — Laura se viu obrigada a dizer. Se estivesse com a secretária iria
ter uma conversa séria com ela, uma conversa que não poderia ser feita por telefone. —
Agora preciso trocar algumas idéias com você sobre trabalho.
— Pode falar. Estou ouvindo.
As duas ficaram ao telefone por mais de vinte minutos. Ao desligar, Laura pegou o
computador e ficou trabalhando até sentir fome. Então, pegou o interfone e pediu que lhe
levassem o almoço no quarto.
Laura tinha acabado de almoçar, quando bateram na porta da suíte.
— Entre! — ela pediu. Queria continuar sentada para poupar um pouco o tornozelo.
— A porta está aberta.
Era a enfermeira do hotel, que tinha nas mãos uma tornozeleira.
Depois de cumprimentar a visitante, Laura, muito amável, indicou-lhe o sofá e
perguntou:
— E posso saber quem a mandou aqui?
— O sr. Ross. Ele passou lá na enfermaria e me fez prometer que viria vê-la.
— E qual é o seu nome?
— Mary Miller. Você sabe colocar uma tornozeleira, Laura?
— Sei, sim. Quando jogava vôlei no colégio, sempre usava tornozeleiras para me
proteger.
— Bem, se é assim, eu já vou indo.
— Não quer sentar-se um pouco?
— Muito obrigada, preciso ficar na enfermaria. A minha auxiliar não veio hoje. Caso
necessite de alguma coisa, por favor, entre em contato comigo.
— Farei isso. E muito obrigada pela visita.
Exatamente às seis horas da tarde, Laura terminava de esboçar os desenhos de
duas salas da casa de Fraser. Sentindo-se cansada e com muito calor, ela resolveu tomar
um outro banho. Ao terminar, vestiu uma bermuda florida e uma camiseta regata azul-
escura e foi para a sacada. A noite já havia caído sobre a ilha.
Uma leve brisa acariciou-lhe o corpo, e ela inspirou profundamente. Até que não
podia se queixar da vida. Afinal, depois de muita luta e sacrifício, havia conseguido bem
mais do que sempre sonhara.
Laura continuou na sacada olhando a noite. De repente, ela ouviu Fraser chamá-la.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

Para sua própria surpresa, seu coração disparou dentro do peito.


— Laura! — ele tornou a chamar e parecia muito preocupado.
— Entre! — ela gritou. — A porta está aberta.
Alguns segundos depois, Fraser perguntava:
— Aonde está você?

— Estou aqui na sacada.


— Mas o que você faz aqui no escuro? — Fraser quis saber quando a viu.
— Nada de especial. Só estava apreciando a beleza da noite e pensando um
pouco na vida.

— E o tornozelo?
— Ele está ótimo.
— Não quer fazer mais um pouco de compressa? — ele perguntou e se sentou
numa cadeira ao lado de Laura.
— Muito obrigada, não será necessário. Também quero lhe agradecer por ter
mandado a enfermeira vir até aqui. Não precisava se preocupar, Fraser.
— Ela trouxe a tornozeleira?
— Trouxe, sim.
— E por que não a colocou?

— Porque não achei necessário. Mas amanhã, com certeza, vou colocá-la.
— Ótimo. Você já jantou?
— Ainda não.
— Que tal tomarmos um drinque?
— Acho uma ótima idéia. Mas pensei que fosse ficar com seus amigos.
— Fiquei com eles a tarde toda, mas agora quero ficar um pouco com você. Só não
vou dizer que estava com saudade para você não brigar comigo.
— Será que sou tão briguenta assim?
— E você ainda tem alguma dúvida?
— É o meu jeito, Fraser — ela disse, sentindo um certo desânimo.

— Pois é um jeito briguento. — Ele se levantou, sorrindo. — Você toma uma


cerveja?
— Não, prefiro um copo de vinho branco bem geladinho.
— Certo. Vou até à geladeira e já volto. Quer que eu acenda a luz da sacada?

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Não, obrigada. Prefiro a luz do luar.


— Eu também.
Quando Fraser voltou, ele trazia uma latinha de cerveja em uma das mãos e uma
taça de vinho branco na outra.
— A que vamos brindar? — ele perguntou, ao entregar a taça para Laura.
— Podemos brindar à vida — ela sugeriu.
— Excelente idéia. A vida merece, sim, um brinde. Ela, apesar dos dissabores
pelos quais temos de passar, é sempre fantástica e muito generosa. — Ele abriu a latinha
de cerveja e antes de levá-las aos lábios, a ergueu e disse: — A vida, Laura Shaw.
Laura sorriu, ergueu a taça que tinha nas mãos e também brindou:
— A vida, Fraser A. Ross.
Laura e Fraser, depois do brinde, tomaram um gole das respectivas bebidas e
ficaram em silêncio. Era como se os dois estivessem se sentindo constrangidos. Afinal,
não era nada comum dois quase desconhecidos ficarem sozinhos, na sacada de um hotel
cinco estrelas, bebendo e apreciando o luar.
— Conseguiu trabalhar hoje à tarde? — Foi Fraser quem quebrou o silêncio.
— Trabalhei, sim. E muito.
— Você ligou para a sua secretária?

— Liguei. E sabe o que ela me disse?


— Não, o quê?
— Ela me disse que passou quase o dia inteiro de ontem com o seu pai. Os dois
almoçaram e jantaram juntos. Isso sem contar que também foram ao cinema à tarde.

— E você vê algum problema nisso?


— Não, mas eu tenho medo.
— Medo? Por quê?
— Eu gosto muito de Délia e não quero vê-la machucada de novo. Ela é uma
excelente pessoa e já sofreu muito por amor.
— Laura... — ele interrompeu a frase e a fitou com um certo desconforto.
— O que foi? O que você ia dizer?
— Bem, eu não sou do tipo de filho que assume o papel de guardião do próprio pai.
Mas posso lhe assegurar que ele não é o tipo de homem que brinca com as mulheres. E
embora eu tenha certeza absoluta de que você não vai acreditar, eu também não tenho
esse tipo de comportamento.
— Quanto ao seu pai, não posso dizer nada. Quanto a você...

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Poderia me explicar melhor o que está querendo dizer?


— Claro que sim. — Laura tomou um gole de vinho e continuou: — De um homem
que usa a chantagem como meio de vida, a gente pode esperar tudo.

— Chantagem? — Fraser riu. — E você acreditou mesmo naquilo tudo que eu lhe
disse?
— Acreditei, sr. Ross. Acreditei, sim, nas ameaças que o senhor me fez.
— Pois deveria ter percebido que eu estava blefando.

Laura ficou algum tempo em silêncio e depois disse, com muita seriedade.
— Mesmo que estivesse blefando, não concordo com aquele tipo de atitude.
Chantagem é algo inconcebível para mim.
— Para mim também.
— Não foi o que me pareceu, sr. Ross.

— Agi da maneira errada com você. Quero que me desculpe.


— E você acha que um pedido de desculpas é suficiente?
Fraser ficou muito sem graça com o que acabara de ouvir.
— Não concorda comigo? — Laura perguntou.
— Concordo plenamente com você, sim.
— Bem, estou com muita fome, vou interfonar e pedir que tragam o jantar aqui.

— Eu faço isso. — Fraser se levantou. — Poupe mais um pouco o seu tornozelo.


Posso jantar com você?
— Claro que sim.
Quando a comida chegou, Fraser já tinha arrumado a mesa da sacada para
jantarem ali mesmo. Ele serviu o jantar e os dois começaram a conversar sobre
generalidades.

— É inacreditável a vista que se tem daqui — Fraser comentou em um dado


momento. — O céu está fantástico.
— É verdade. Às vezes, tenho a sensação de que estou em outro planeta.
— Fico imaginando como serão os dias que passarei na minha nova casa. Longe
de tudo e de todos, longe da poluição, do barulho das cidades.
— Pensei que fosse um homem que gostasse de festas e de muita agitação.
— Se quer mesmo saber, freqüento festas por causa do meu trabalho. E
normalmente em festas, almoços e jantares que se decidem os grandes negócios. Eu, por
mim, jamais pisaria num local em que mais de cinco pessoas estivessem reunidas.
— Nunca poderia imaginar que você gostasse de isolamento.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Pois eu gosto. E muito. E você, Laura, gosta de festas?


— Depende do meu estado de espírito — ela disse e levou à boca uma porção da
torta de camarão que haviam pedido.

— E o que foi que decidiu fazer da minha casa?


Laura deu um leve sorriso e, em linhas gerais, lhe explicou como estava
pretendendo decorar a casa da ilha.
— Gostou? — ela quis saber, quando terminou a explanação.

— Gostei, sim. Ela vai ficar linda.


— Não quer sugerir nada?
— Não, para mim está tudo perfeito.
— Daqui a alguns dias, teremos uma conversa definitiva sobre a decoração da sua
casa.

— Certo. E é muito bom saber que dormirei numa cama normal.


— Quem diria!
— A cada instante que passa, percebo que você me vê de uma maneira totalmente
diferente daquela que sou realmente.

— Como dizem, as aparências enganam.


— Por que você faz questão de me tratar com tanto distanciamento?
— Por quê? — Ela sentiu que ficava vermelha. — Bem, eu pouco o conheço, e
você é um magnata.

— E daí? Se quer mesmo saber, não dou a menor importância ao império


construído pelo meu pai.
— Será que não dá mesmo? — ela duvidou.
— Pode acreditar. Por mim, eu teria uma vida simples.

— Se tivesse vontade de viver de maneira simples, não estaria construindo esta


mansão na ilha.
— Você não gostou da casa?
— Mas é claro que gostei. Ela é linda. Mas para uma pessoa que não gosta de
festas, que prefere a companhia de poucas pessoas, ela é exageradamente grande.
— Você tem toda razão. Deveria ter construído algo menor, mais modesto, mais
aconchegante.
Os dois continuaram conversando. De repente, Fraser perguntou:
— O fato de eu ser um homem muito rico inibe você?
— Não, nem um pouco. O que me importa numa pessoa é o caráter, não a conta

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

bancária que tem.


— Mas você não gosta dos homens ricos. Ou será que estou enganado?
— Os homens ricos, bem mais que os outros, se sentem poderosos, capazes de
decidir sobre o destino de uma pessoa. E eu acho isso de um egoísmo assustador.
— Quantos anos você tinha?
— Não entendi...
— Quantos anos você tinha quando conheceu o homem que a decepcionou tanto?
— Isso não vem ao caso.
— Laura, por favor, me diga: quantos anos você tinha quando o conheceu?

— Eu estava com vinte e um anos.


— E o romance durou muito tempo?
— Seis meses.
— E como foi que o conheceu?
— Fui fazer a decoração do iate dele. Não sei se você sabia, mas foi assim que
iniciei a minha carreira de decoradora de interiores.
— Continue, por favor.
— Não tenho muito o que contar: ele tinha trinta anos e acabamos nos
apaixonando. Bem, na verdade eu pensei que ele também estivesse apaixonado por mim.
Ele me ensinou a navegar e parecia que gostávamos das mesmas coisas. Naquela
época, eu morria de vontade de conhecer novos países, enfim... viajar pelo mundo. E era
exatamente isso que ele fazia.
— Foi nessa época que acabou conhecendo Zanzibar?
— Exatamente. E lá, numa noite linda de luar, ele me pediu em casamento e
acrescentou, logo em seguida: quando voltarmos para casa, você deixa de trabalhar e
passa a devotar toda a sua vida a mim. — Ela balançou a cabeça em negativa e
perguntou: — Você acha que tem cabimento alguém fazer um pedido desse tipo a
alguém?
— Pelo que posso perceber o pedido dele a magoou profundamente.

— Me magoou e me ofendeu também. Vi que não estava sendo respeitada pelo


homem pelo qual tinha me apaixonado.
— Qual é a profissão dele?
— Ele é médico, mas a família tem fazendas, gado... A mãe e a cunhada são
consideradas exemplos de esposas. As duas vivem apenas para cuidar da casa e criar os
filhos.
— Por acaso o nome deste homem é Simon Harris?

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Você o conhece?
— Mais ou menos. Mas os Harris são famosos pelo conservadorismo.
— Para você ver onde eu fui me meter.
— E você recusou o pedido de casamento que Simon lhe fez?
— Bem, tentei negociar com ele. Tentei fazê-lo ver que não poderia passar o resto
da minha vida trancada dentro de uma casa cuidando de filhos.
— E ele?
— Você não acredita o que Simon me falou.... — Laura voltou a balançar a cabeça
em negativa. — Ele, numa linguagem muito bem articulada, teve a coragem de me dizer
que decoração de interiores não era uma profissão. Que a dele, sim, era algo importante
e que, para que tivesse sucesso, precisava de uma mulher bonita, inteligente que ficasse
na retaguarda.
— Só falta ele ter lhe dito que por detrás de um grande homem sempre existe uma
grande mulher.
— Mas ele disse isso, sim. O cretino teve a coragem de me dizer exatamente
essas palavras.

— Então, você não aceitou o pedido de casamento.


— Apesar de estar muito apaixonada, felizmente tive a lucidez de ver que uma
relação com um homem tão egoísta não poderia dar certo. Eu adoro crianças, quero ter
filhos, uma casa... Mas também quero me sentir inteira, viva, realizada profissionalmente.
— Você fez muito bem em abandoná-lo. Um homem jamais pode pedir um
sacrifício tão grande a uma mulher. Na verdade, nem sequer poderia pensar em um
absurdo tão grande. E depois de Simon, você teve algum outro envolvimento sério?
— Depois de Simon, na verdade, não tive qualquer outro tipo de relacionamento.
— E quanto tempo faz que isso aconteceu?
— Quatro anos.

— E você ainda sente alguma coisa por Simon?


— Pena. Eu sinto muita pena dele.
Laura e Fraser terminaram de jantar, mergulhados nos próprios pensamentos.
— Sabe em que eu estava pensando, Laura?
— Não, em quê?
— Você acha necessário voltar a minha casa lá na ilha?

— Para eu poder dar continuidade ao meu trabalho?


— Exatamente.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Não, de maneira alguma.


— Bem, se é assim, poderíamos pegar o avião de volta para Brisbane amanhã
cedo. Seria uma maneira de poupar ainda mais o seu tornozelo.

— Acho essa uma excelente idéia — ela concordou de imediato.


— Bem, então vou marcar a nossa passagem. Podemos pegar o vôo das dez.
Tudo bem?
— Claro que sim.

— Tenha uma boa noite de sono, Laura.


— Muito obrigada. Tenha você também uma boa noite de sono. A gente se vê
amanhã cedo.
— Combinado.
Depois que Fraser foi embora, Laura ainda permaneceu por um bom tempo
sentada na sacada. Confusa com os próprios sentimentos ela pensava em tudo o que já
lhe acontecera na vida. Não, não tinha sido nada fácil desistir do relacionamento que
tivera com Simon. Quando apaixonado, o ser humano sempre tende a fantasiar as
relações e a própria realidade.

— Mas a realidade era apenas uma — ela disse baixinho. — Simon jamais iria
conseguir enxergar a vida além de si mesmo...
Laura tinha acabado de adormecer quando o telefone tocou. Era Délia.
— O que foi que aconteceu? — Laura perguntou, assustada.

— Bernard teve um ataque cardíaco.


— O quê? — Laura acendeu a luz do abajur e sentou-se na cama.
— Hoje saí de novo para jantar com Bernard, e ele teve um ataque cardíaco. Tentei
falar com Fraser, mas parece que ele não está no quarto. Poderia lhe contar o que
aconteceu?
— Mas é claro que sim.
— Diga a Fraser que o ataque não foi muito forte. Bernard está no hospital e quer
que ele venha para cá.
Laura conversou mais um pouco com a amiga e, ao desligar o telefone, se sentiu
bastante insegura. Por que Fraser não atendera à chamada? Será que ele tinha saído, ou
será que estava com alguma mulher no quarto?
— Não posso pensar nisso agora. Fraser deve ter saído. E eu vou procurá-lo!

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

CAPÍTULO VI

Laura estava parada diante da porta da suíte de Fraser sem saber o que fazer.
Agora, mais do que nunca, temia que ele estivesse com alguma mulher ali dentro.
No instante em que resolveu bater, ouviu uma voz muito conhecida atrás de si:

— Algum problema?
Laura voltou-se e viu Fraser, que a fitava com um certo cinismo. Ele nem parecia o
mesmo homem com quem estivera conversando há pouco mais de uma hora na sacada.
— Eu... — ela titubeou.
— O que foi? Resolveu ouvir atrás da minha porta? Isso não é nada bonito.

— Onde você estava?


— Por quê? Por que está me fazendo esta pergunta. Resolveu controlar a minha
vida?
— Não, de maneira alguma. Longe de mim querer controlar alguém. Só perguntei
por perguntar.
Fraser a fitou com uma certa desconfiança, mas mesmo assim respondeu:
— Bem, se foi só por isso, vou lhe dizer onde estava: resolvi dar uma volta pela
praia.
— Sozinho? — Laura, de imediato, se arrependeu por ter feito a pergunta.
— Não, o tempo todo tive como companhia o luar que, por sinal, continua lindo.
Pensou que eu tivesse saído à procura de companhia?
— Não sei, afinal hoje você estava com duas mulheres belíssimas lá na piscina.
Poderia ter saído com uma delas.
— Poderia, mas não saí. — Bem próximo a Laura, ele apoiou uma das mãos na
parede. — Mas a que devo a honra da sua visita. Sentiu saudade de mim?
— Não, não senti saudade, eu...
— Mas que pena. Cheguei a pensar que você estava aqui para me convidar para ir
até a boate do hotel tomar um drinque e dançar um pouco. — Ele balançou a cabeça em
negativa. — Não, de maneira alguma. Foi um equívoco da minha parte. Com o tornozelo
ainda em recuperação você não poderia dançar.
— Escute Fraser, você está me tratando de maneira estranha, sinto uma certa
agressividade e muito cinismo em cada uma de suas palavras.
— Detesto ser espionado.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— De uma vez por todas: eu não estava espionando você.


— Então me diga: por que estava parada diante da minha porta?
— Vim aqui para lhe dar um recado.
— Recado? De quem?
— Da Délia.

— Um recado da sua secretária? Mas por que ela me mandaria um recado? — ele
ironizou.
— Sr. Fraser A. Ross, quer fazer o favor de me escutar?
— Sou todo ouvidos, srta. Shaw.

— Pois muito bem: Délia me ligou para avisar que seu pai está doente.
— Meu pai... — Fraser ficou muito pálido. — O que foi que aconteceu?
— Não fique tão preocupado assim. Ele teve um ataque cardíaco, mas está bem.
— Um ataque cardíaco?
— Pelo que Délia me disse está tudo sob controle. Mas seu pai quer que você vá
para lá.
Fraser, mais aliviado, desligou o telefone da suíte em que Laura estava hospedada.
— Aqui está. — Ela entregou-lhe um copo de uísque com gelo que tinha ido
preparar.

— Muito obrigado. — Fraser pegou o copo. — E, por favor, quero que me desculpe
pela maneira que a tratei há pouco.
— Tudo bem, eu aceito as suas desculpas. Mas como está o seu pai?
— Délia estava certa: tudo está sob controle. Parece mesmo que o ataque cardíaco
não foi muito grave. — Fraser fechou os olhos por alguns segundos. — Nós quase o per-
demos há alguns anos. E agora... isso!

Fraser tomou um gole da bebida, e Laura, hesitante, sentou-se ao lado dele na


cama.
— Você o ama muito, não é?
— Amo, sim. Meu pai é uma pessoa muito importante para mim, um exemplo a ser
seguido. Minha mãe faleceu quando eu tinha dois anos e a minha irmã quatro. Foi ele
quem arcou com toda a responsabilidade da nossa criação. E teve de agüentar a
incapacidade da minha irmã e a minha de dividi-lo com outra pessoa.
— Foi por isso que ele não voltou a se casar?
— Acho que em parte foi por isso, sim. E fiquei muito contente ao saber que ele se
interessou pela sua secretária. — Fraser inspirou profundamente, tomou outro gole do
uísque e perguntou: — Você realmente pensou que eu tivesse saído com uma mulher?

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Eu... — ela titubeou. — Na verdade pensei, sim. E acho que você tem direito de
sair com quem bem entender. Qualquer pessoa solteira tem suas aventuras.
— Isso depende do homem e da mulher, Laura. No meu caso, se a pessoa pela
qual estou interessado não está disponível, jamais sairei com outra apenas para me
divertir. Você faz isso?

— O quê?
— Você sai com qualquer pessoa apenas para se divertir?
— De jeito nenhum.
— Então, por que achou que tenho por hábito fazer esse tipo do coisa?
Laura abriu a boca para responder à pergunta, mas a fechou em seguida.
Realmente não tinha nada para dizer.
Fraser pegou de novo o telefone.
— Vai ligar outra vez para o hospital?
— Não, vou ligar para o aeroporto e ver se há um vôo que saia daqui mais cedo. —
Instantes depois Fraser desligava o aparelho. — Negativo. O nosso vôo é o primeiro que
sai daqui pela manhã.
— É uma pena...
— Bem, vou para a minha suíte. — Ele se levantou e fitando-a de maneira
penetrante, comentou: — Já que a mulher pela qual estou interessado continua me
ignorando, só me resta tentar dormir um pouco.

Ao ouvir aquelas palavras, Laura sentiu o coração disparar dentro do peito. Ela
hesitou, mas depois perguntou à queima-roupa:
— Por que você está interessado em mim?
— E por que não deveria?

Uma outra pergunta em reposta a que fizera, não era o que Laura esperava ouvir.
— Por que não deveria estar interessado em você, Laura? — Fraser voltou a
perguntar.
— Bem, eu sou uma pessoa arredia, que está sempre brigando. Não sei por que
um homem como você se interessaria por mim.
— Sou um homem comum e você, posso lhe assegurar, é uma mulher excepcional.
— Tem certeza de que não me vê apenas como uma mulher meio fora dos
padrões?
— Me interessei por você no instante em que a vi naquela festa. A princípio me
impressionei pela sua beleza estonteante. Mas já aprendi que a beleza exterior é apenas
um detalhe. E gosto, gosto muito do fato de você ser uma mulher fora dos padrões, uma
mulher que sabe exatamente o que quer da vida. Não gosto de mulheres sonsas, sem
opinião própria, que passam a vida inteirinha esperando por um príncipe encantado, que
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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

vai chegar montado num cavalo branco e salvá-las dos perigos que existem no mundo.
— Acho que você me vê apenas como algo excêntrico, apenas como uma
novidade.

— Viu só? Você parece incapaz de acreditar em tudo o que eu digo. -— Ele voltou
a sentar-se na cama e tomou-lhe uma das mãos. — Você é, sim, uma novidade para mim,
Laura. Mas uma grata novidade.
— O seu jeito de ser, a maneira como me olha, me deixa bastante assustada — ela
confessou.
— Por quê?

— Não sei, tenho a sensação de que estou diante de um...


— Conquistador?
— Não, tenho a sensação de que estou diante de um pirata. — Ela deu um
sorrisinho nervoso.
— Um pirata? Não deixa de ser interessante. — Ele riu. — Tem medo que eu a
rapte e a leve para longe da civilização?
— Acho que é mais ou menos isso.
— Você é uma mulher muito contraditória. Apesar de parecer uma fera, também
guarda dentro do peito uma criancinha assustada.
— Você acha que um romance passageiro entre a gente daria certo, Fraser?
— Um romance passageiro? Não gosto de romances passageiros, Laura. Mas por
que me fez essa pergunta?
— Não sei, acho que estou me sentindo muito sozinha esta noite. E é a primeira
vez que isso me acontece. Hoje, na sacada, fiquei olhando para o mar e para a lua e senti
um grande aperto dentro do peito. Uma sensação de perda, de desesperança... Eu jamais
dei chance para me sentir solitária. Estou sempre trabalhando, sempre procurando algo
para fazer. Mas hoje...
Fraser a fitou intensamente e disse, com extrema delicadeza:
— Laura, pelo que pude entender das suas palavras, você está me convidando
para passar a noite aqui com você. É isso? — Ele não esperou pela resposta e continuou:
— Mas não estou interessado em passar apenas uma noite com você.
— Não foi isso que eu quis dizer, Fraser. Não estava sugerindo que passasse a
noite aqui comigo.
— Bem, se não quer um romance de uma noite, está me propondo um romance
que dure quanto tempo? Três semanas? Está me propondo um romance que dure até
que termine de decorar a minha casa?
— Eu... — Laura não tinha a menor noção do que responder.
Fraser acariciou-lhe o rosto de leve e disse:

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Laura, esta não é uma noite muito boa para conversarmos sobre um assunto tão
sério. Estou muito preocupado com o meu pai e você, pelo jeito, está sofrendo uma crise
de solidão. Vamos deixar para falar sobre esse assunto numa outra hora qualquer. — Ele
tornou a se levantar.
— Vou com você até a porta. —- Ela se levantou e o seguiu.

Ao chegar perto da porta, Fraser voltou-se e a abraçou.


— O que está fazendo, Fraser? — ela perguntou, apavorada.
— Abraçando você. Quero apenas lhe dar um beijo de boa-noite.
Mas nem um dos dois se contentou apenas com um beijo de boa-noite. Laura,
quando deu por si, correspondia a um beijo tórrido, cheio de desejo.
— É melhor eu ir embora — ele disse, de repente, afastando-se um pouco dela.
— Você pretende ir embora? — Laura perguntou, bastante frustrada.
— Sim.
— Não é justo.
— O que não é justo, Laura?
— A maneira como você está tentando me manipular — ela respondeu, com raiva.

— O que é isso? Não estou tentando manipulá-la.


— Está. Está, sim, senhor. Você me ameaça, me chantageia, me traz para essa
ilha paradisíaca e faz questão de deixar claro, em todos os seus gestos, que está
interessado por mim. Depois, vem até ao meu quarto e...
— Pare com isso, Laura! Você entendeu tudo errado.
— Não, eu entendi tudo muito bem. E não acho justo, nem honesto, o que está
fazendo comigo. Por que não telefonou para o hospital da sua suíte?
— Não sei.
— Mas eu sei: você estava querendo continuar se insinuando para mim. E assim
que age com todas as mulheres, Fraser, ou resolveu inovar e me usar como cobaia para
as suas conquistas?
— Laura, pare com isso.
— Ainda não terminei de falar. E quero que me ouça. Vocês homens sempre
querem estar no controle da situação, mas basta que as mulheres tomem qualquer
iniciativa para se sentirem totalmente inseguros e apavorados. — Ela o fitou de alto a
baixo. — Fraser A. Ross, o pirata que apareceu na minha vida... Mas que grande
decepção! Vá embora.
Fraser balançou a cabeça em negativa e, num gesto rápido, acendeu todas as
luzes da sala. Em seguida, a puxou pelo braço e ligou o rádio. Uma música suave se fez
ouvir. Ele, então, a abraçou e começou a dançar.

71
Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Você enlouqueceu? O que está fazendo?


— Apenas realizando uma fantasia. — Ele a tocava de maneira insinuante. —
Desde que a vi naquela festa queria muito realizar esta fantasia.

Fraser, enquanto continuava a acariciá-la, cada vez mais intimamente, começou a


beijá-la.
— Você... você fantasiou...
— Exatamente. Queria ter podido fazer naquele dia o que estou fazendo agora.

Laura se deixou beijar, se deixou acariciar. Sempre dançando, ele seguiu devagar
para o quarto, fez com Laura se deitasse e começou a despi-la. Ao tê-la nua diante de si,
Fraser também se despiu e se colocou sobre ela.
— Esta fantasia jamais me abandonou, Laura Shaw. E agora, para realizá-la
completamente, vou beijá-la inteirinha e, depois, fazer amor com você.

Laura acordou nos braços de Fraser e sentiu-se um tanto atordoada. Como tivera
coragem de dizer tudo aquilo a ele?
— Você está acordada, Laura? — Fraser perguntou.
— Estou acordada, sim.
— Arrependida?

— Não... — ela respondeu meio titubeante.


— Eu deveria saber.
— Saber o quê?
— Para você é oito ou oitenta.
— Isso significa que o choquei com o meu comportamento?
— De maneira alguma. Até gostei muito. Você é uma excelente amante. Há muito
não me sentia tão bem na cama com uma mulher.
"E eu, Fraser A. Ross, nunca na vida me senti tão bem com homem algum!", ela
quis falar, mas não ousou.
— Você vai voltar para a sua suíte?
— Não, pode ficar tranqüila. Quando acordar de manhã estarei aqui ao seu lado. —
Ele beijou-lhe os lábios de leve. — Só que antes quero fazer amor de novo com você.

No instante em que os dois haviam começado a se beijar, o telefone tocou.


— Pode atender, deve ser para você.
Preocupado, Fraser atendeu à chamada. Laura se levantou e foi tomar um copo
d’água. Quando voltou para o quarto, ele tinha acabado de colocar o fone no gancho.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— E então? — ela quis saber.


— Meu pai teve uma recaída. Meu cunhado arrumou um lugar para mim num avião
particular, que vai sair do aeroporto daqui a uma hora. Infelizmente, você não pode ir
junto. O avião é pequeno e só há um lugar vago.
— Não se preocupe comigo.
— Meu pai foi transferido para um hospital em Brisbane. Portanto, acho que
ficaremos alguns dias sem nos ver.
— Vá para a sua suíte e tome um banho. Você não pode perder este vôo. Faça
uma boa viagem e diga ao seu pai que estou torcendo por ele.

A bordo do avião, Laura tentava ler um livro.


— Oi, tudo bem com você? — Cathy muito gentil, sorria para Laura. — Como vê,
estou trabalhando. Onde está Fraser?
— Ele precisou viajar um pouco mais cedo.

— E como foi a noite de ontem? Vocês se divertiram muito?


Laura se espantou com aquela pergunta e não sabia o que responder.
— Vi vocês dois no corredor. Uma hora depois, liguei para a suíte dele, e ninguém
respondeu. O que me fez deduzir que você é bem mais do uma decoradora para ele.

Pasma, Laura continuava sem saber o que dizer.


— Você é uma felizarda. Já tinha ouvido falar do belo, rico e solteiro Fraser A.
Ross. E como haviam me dito, ele é um homem muito difícil. Mas você, pelo jeito, con-
seguiu o que muitas tentam em vão. Pena que Fraser, quando se aproxima de uma
mulher, só pense mesmo em se divertir. Tenho certeza de que se um dia ganhar um anel
dele, Laura, não será de noivado, mas sim, um anel de amante.
Laura não gostou nada do que Cathy acabara de lhe dizer. Afinal as duas mal se
conheciam. Ela, então, simplesmente, apoiou a cabeça no encosto da poltrona, fechou os
olhos e ignorou a aeromoça. Porém, a frieza de Laura era apenas aparente. Na verdade,
sentia-se profundamente decepcionada.

Ao desembarcar, Laura pegou a bagagem na esteira rolante e, quando estava se


dirigindo ao ponto de táxi, viu Délia se aproximar.
— O que está fazendo por aqui? — Laura perguntou à amiga e secretária.
— Fraser me telefonou e pediu que eu viesse buscá-la. Você só tem isso de
bagagem?
— Só. Como está o pai de Fraser?
— Como os médicos dizem, ele está se mantendo.
— Não quer ficar aqui em Brisbane, ao invés de me levar para casa?

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Minha presença lá no hospital não está sendo muito bem recebida.


— Não vai me dizer que Fraser...
— Não, ele até que me tratou muito bem ao telefone, o problema é com Diana.
— Que situação mais terrível.
— Para você ver como são as coisas. Mas Bernard e eu não nos conhecemos
muito bem ainda. — Ela fez um gesto com a mão, indicando uma porta. — Venha por
aqui. Meu carro está no estacionamento dos fundos.

— Mas você não quer ficar no hospital com ele?


— Querer eu quero, Laura, mas não acho direito causar problemas para a família
numa hora como essa.
Laura ficou em silêncio por alguns segundos. Mas achando muito injusto o que
estava acontecendo com Délia, resolveu dizer:
— Fraser deixou bem claro que aprova o seu relacionamento com o pai dele.
— O quê? Fraser chegou a verbalizar uma coisa dessa?
— Não, ele não chegou a verbalizar nada, mas tenho certeza absoluta de que ele
aprova o seu relacionamento com o pai.
— É muito bom ouvir isso, Laura. Tudo aconteceu tão rapidamente que estou muito
assustada. — Délia abriu os braços, num gesto de impotência. — Mas como foi tudo por
lá?
— Tudo? — Laura sentiu uma pontada no estômago.
— É. Não vai me contar?
— Eu...

— Você vai fazer um lindo trabalho lá na ilha.


Ao perceber que Délia se referia à decoração da casa de Fraser, Laura sentiu-se
mais aliviada e comentou:
— Tive um pequeno contratempo.

— O que foi que aconteceu, Laura?


— Torci o meu tornozelo. Mas, felizmente, quando isso aconteceu, já tinha feito um
bom levantamento do local.
— Quer dizer que foi apenas uma vez até lá?

— Exatamente.
— E não teria sido melhor voltar uma segunda vez, Laura?
Ela deu um profundo suspiro antes de responder:
— Acredito que não. Acho que não terei problema algum, pelo menos por

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

enquanto.
— E foi difícil conviver com o seu pirata?
— É... Digamos que não foi difícil. — Ela sorriu e resolveu não comentar sobre o
que acontecera entre os dois.

CAPÍTULO VII

No dia seguinte, assim que Laura entrou na loja, Délia disse:


— Estou muito preocupada com você.
— Comigo? — Laura a fitou desentendida.
— Exatamente: com você.
— Bem, então, empatamos: também estou muito preocupada com você. Tem
notícia do Bernard?
— Ele continua na terapia intensiva, mas me garantiram que a operação que
precisou fazer ontem à tarde foi um sucesso. — A secretária lhe estendeu um jornal. —
Saiu um foto de Bernard e do seu pirata na primeira página.
Laura pegou o jornal e foi para o ateliê. E, assim, que se sentou, verificou a
primeira página do jornal. Depois de dar uma rápida olhada em Bernard Ross, se fixou na
imagem de Fraser. De terno, gravata e muito sério, ele tinha um ar meio selvagem, meio
enigmático.
— E pensar que nós dois... — ela disse baixinho e sentiu um arrepio percorrer-lhe
o corpo.
Numa das páginas internas do jornal, Laura leu a reportagem sobre a doença do
patriarca da família Ross e um breve resumo sobre a vida de Fraser.
— Eu não sabia que...
— Falando sozinha? — Délia entrou no escritório.
— Eu não sabia que Fraser era iatista, você sabia?

— Bernard me falou qualquer coisa a respeito. Parece que Fraser é louco por todo
tipo de barco e chegou até a ganhar vários troféus em competições. Se não me engano,
ele tem um iate fantástico chamado Buccaneer.
— Será que ele continua competindo?
— Não, tenho quase certeza de que ele parou de competir.
— Você, pelo jeito, não presta muita atenção no que Bernard lhe diz — Laura

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

brincou.
— Quando ele fala comigo, eu me sinto como se estivesse flutuando...
— Sei como é isso.
— Sabe mesmo? — Délia riu. — Você chegou a ser raptada pelo seu pirata lá em
Hamilton?
— Aquele pirata não é homem para mim, minha amiga.
— Não? Por quê? — A secretária estava muito curiosa.
— Desculpe-me, mas não quero falar sobre esse assunto.
— Tudo bem. Você comeu antes de sair descasa?

— Não, não tive tempo.


— Vou preparar um belo sanduíche para mim. Quer que eu lhe prepare um
também?
— Você faria isso?
— Claro, chefe. Afinal, preciso fazer com que se alimente direitinho. Você precisa
estar sempre preparada. Não é nada fácil enfrentar um pirata de olhos cinzentos como
aquele. — Délia deixou o escritório rindo muito.

O dia passou rapidamente. A noite, muito cansada, Laura tomou um banho rápido,
comeu um bife grelhado com salada e foi direto para a cama.

Na manhã seguinte, após uma noite muito bem dormida, Laura sentia-se
revigorada. Tomou o desjejum e resolveu trabalhar um pouco em alguns desenhos, ali no
apartamento mesmo. Mais tarde, fez vários telefonemas, todos a fornecedores dos quais
iria adquirir o que precisava para decorar a casa de Fraser. Só após ter almoçado, Laura
foi para a Shaw Decorações, e lá ficou sabendo que Bernard Ross estava reagindo muito
bem à cirurgia a qual havia se submetido.
E aquele foi mais um dia de muito trabalho. À noite, sentou-se no sofá da sala para
escutar o último CD da Enya, uma cantora da qual gostava muito.
Enquanto ouvia o CD, Laura resolveu fazer um pouco de relaxamento e deitou-se
sobre o tapete. Após ter inspirado várias vezes, começou a mentalizar uma pequena luz
azul que, bem lentamente, percorria-lhe todo o corpo. De repente a campainha tocou.
Laura sentou-se assustada. Detestava quando o telefone ou a campainha interrompia-lhe
aqueles exercícios que tanto a ajudavam a vencer o estresse do dia-a-dia.
De novo a campainha tocou. Laura, então, inspirou profundamente e foi atender a
porta. Do outro lado, com um rosto bastante tenso estava Fraser.

— Ah, é você? — ela indagou, meio sem graça.


— Sou eu, sim. Decepcionada?

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Não é que eu...


— Já sei: você esperava outra pessoa.
— Não, de maneira alguma. Eu não esperava ninguém.
— Será que posso entrar?
— Claro... — Laura se afastou para que ele entrasse e fechou a porta.

— Sua casa é muito aconchegante.


— Obrigada. Mas eu não esperava por você, Fraser. — Ela indicou-lhe o sofá. —
Sente-se, por favor.
— Obrigado.

— Como está o seu pai?


— Muito bem, felizmente. Parece mesmo que a cirurgia teve pleno êxito. Os
médicos estão dizendo que agora meu pai tem toda a chance de se tornar um novo
homem.
— Isso é maravilhoso. — Ela sentou-se em uma poltrona.
— Estou me sentindo bastante aliviado. Detesto hospitais. — Fraser passou uma
das mãos pelo rosto. — Minha irmã está lá com ele agora.

— Doença é algo que desestrutura qualquer um.


— É verdade. — Fraser fez uma pausa e, após ter olhado atentamente para a sala,
voltou a comentar: — Realmente a sua casa é muito aconchegante.
— Aceita um drinque, Fraser? Ou prefere que eu lhe prepare algo para comer?

— Quando à comida, eu agradeço, estou sem fome, mas aceito um drinque. — Ele
se levantou. — Onde posso me servir?
— No armário da cozinha, do lado esquerdo, há uma garrafa de vinho tinto. Mas
posso ir pegá-lo para você.
— Não, fique sentada e descanse. Eu faço isso.
Ao ficar sozinha, Laura fechou os olhos e se concentrou na música. Precisava se
acalmar. A visita inesperada de Fraser a deixara bastante tensa.
Cinco minutos mais tarde, ele voltava à sala com uma bandeja nas mãos, onde,
além do vinho, havia vários tipos de frios.
Ao ver aquilo, Laura não pôde deixar de rir e perguntar:

— O que aconteceu?
— Tive uma fome súbita e resolvi atacar a sua geladeira. Fiz mal?
— De maneira alguma. Também estou com fome.
Fraser colocou a bandeja sobre a mesinha de centro, serviu o vinho e voltou a se

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

sentar.
— Não sabia que você também gostava da Enya — ele comentou.
— Gosto, sim. Gosto muito.
— Pensei que uma decoradora, uma mulher ativa como você gostasse de músicas
mais agitadas.
— Para lhe dizer a verdade, Fraser, gosto de qualquer tipo de música, mas tenho
uma certa preferência pelas mais relaxantes.

— Quem vê cara não vê coração. É isso? -— Ele sorriu.


— É exatamente isso.
— Como está Délia?
— Bastante preocupada com o seu pai.
— Apesar do meu pai ainda continuar na UTI, estava pensando em sugerir que ela
fosse visitá-lo. Tenho certeza de que o velho Bernard ficaria muito contente.
— Délia adoraria ir visitá-lo, mas a sua irmã...
— Deixe Diana comigo. Minha irmã anda muito tensa, mas agora que o marido e
ela estão se reconciliando, tudo vai entrar nos eixos.

— Eu espero.
Os dois ficaram em silêncio, enquanto comiam e saboreavam o vinho. Laura
lembrou-se de Cathy. O comentário que a aeromoça havia feito durante a viagem de volta
assomou-lhe à mente: "Você, pelo jeito, conseguiu o que muitas tentam em vão. Pena
que Fraser, quando se aproxima de uma mulher, só pense mesmo em se divertir. Tenho
certeza de que se um dia ganhar um anel dele, Laura, não será de noivado, mas sim, um
anel de amante."
— O que foi?

— Estava pensando na sua irmã — ela se viu obrigada a mentir. — Sei que ela não
gosta de mim.
— Délia tem um temperamento difícil. Mas uma coisa eu posso lhe assegurar:
minha irmã já mudou muito. Ela quer muito que eu me case.
— E morre de medo que você resolva se casar comigo. O que a sua irmã não
percebe é que uma relação entre nós dois jamais daria certo.

— Não? Por quê?


— Somos duas pessoas muito diferentes. Mesmo assim gostaria de saber... —
Laura resolveu interromper a frase.
— Vamos, continue. O que você ia dizer?
— Não era nada importante.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Deixe que eu julgue isso. O que você gostaria de saber, Laura Shaw?
— Tudo bem. — Ela resolveu falar exatamente o que estava pensando. — Partindo
do princípio que um casamento entre nós dois jamais daria certo, que tipo de relação está
pretendendo ter comigo?
— Você, realmente, não mede as palavras.
— Na maioria das vezes, costumo falar o que penso. Só não falo quando não
posso.
— A gata brava que existe dentro de você resolveu mostrar as unhas, Laura?
— Não. Apenas tenho curiosidade em saber o que está pretendendo da nossa
relação. Será que está procurando uma namorada para os finais de semana, ou uma
amante em tempo integral?
— Por que você ficou tão agressiva de repente? Prefiro a outra Laura Shaw que
existe dentro de você.
— O que foi? Está, por acaso querendo me seduzir?
— E você acha que eu devo?
— Será que você é um daqueles homens que acha que qualquer problema pode
ser resolvido na cama?
Fraser tomou um gole de vinho e a fitou bastante contrariado.
— Não costumo resolver nenhum tipo de problema na cama, sabia? Acho que
todos os problemas que aparecem na vida de um casal devem ser resolvidos com
diálogo.
— Nós não somos um casal, Fraser A. Ross. Somos apenas duas pessoas que
passaram uma noite juntos.
— Uma noite juntos na cama. A frase correta é essa. E, pelo jeito, tudo indica que
você está querendo repetir o que vivemos em Hamilton.
— Por quem me você me toma? Por uma das inúmeras mulheres que já passaram
pela sua vida?
— Não tenho certeza, mas estou quase certo de que já lhe disse que não tive
inúmeras mulheres.
— Mas é claro que não — ela ironizou, enquanto colocava o copo de vinho sobre a
mesinha de centro.
— Laura, não sei o que aconteceu com você, mas não ficarei aqui para continuar
sendo agredido. Eu vou embora.
— Ótimo. Mas antes que saia tenho uma última pergunta a fazer.
— Sinta-se à vontade — ele disse, com raiva.
— Posso concluir, após esta nossa conversa, que não vou mais continuar com o

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

projeto de decoração para você, certo?


— Errado. Quero aquela casa decorada por você. E não se esqueça de que se
comprometeu comigo.

— O melhor que temos a fazer é romper com esse compromisso de trabalho.


— Não! E mil vezes não, Laura Shaw. Esqueça um absurdo como esse. — Fraser,
inesperadamente, deu-lhe um abraço e, antes de sair, beijou-lhe a testa.
Assim que Fraser fechou a porta, Laura caiu num pranto convulso e se atirou no
sofá.
— Por quê? Por que me lembrei daquele comentário cheio de inveja e maldade
feito por Cathy? Fraser está com o pai no hospital e estava com uma aparência muito
cansada, coitado. E, apesar de tudo, veio de Brisbane até aqui para me ver. Por quê? Por
que estraguei tudo?

Laura continuou chorando, perguntando-se o motivo que a levara a agir de uma


maneira tão infantil. Demorou um pouco, mas teve de, finalmente, enfrentar a realidade.
Ela estava irremediavelmente apaixonada por Fraser.
— Como fui deixar que isso acontecesse comigo? E agora? O que vou fazer?

Na segunda-feira seguinte, Délia chegou ao serviço muito sorridente.


— E então? — Laura perguntou. — Como está Bernard?
— Está bem melhor. Ele é um homem incrivelmente forte.

— E Diana? Como ela a tratou?


— Não me encontrei com ela. Diana está se reconciliando com o marido, e os dois
resolveram viajar no final de semana. — Délia deu uma risadinha e concluiu: — Sem os
filhos, é lógico.
As duas continuaram conversando, mas Laura não teve coragem de perguntar por
Fraser, que nunca mais a havia procurado.

— Conseguiu trabalhar durante o final de semana no projeto da casa do Fraser? —


Délia quis saber.
— Felizmente, sim. — Laura abriu uma pasta e mostrou à secretária vários
desenhos.
— Essa casa vai ficar maravilhosa.
— É o que eu espero. Mas agora você precisa fazer alguns telefonemas para
acertar a compra dos móveis para a casa da ilha.
— Tudo bem. — A secretária se dirigia ao telefone quando virou-se e disse: — Ah,
já estava quase esquecendo: Fraser pediu para que você fosse até a casa do pai dele
amanhã às dez horas. Parece que o seu pirata está querendo conversar com você sobre
negócios.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

Após ouvir aquele recado, Laura não conseguiu pensar em outra coisa, a não ser
no encontro que teria com Fraser na manhã seguinte.
Porém, no final da tarde, decidiu que um encontro na casa dele não seria bom. O
melhor seria recebê-lo no ateliê.
Laura pegou o telefone e ligou para a casa dele.
— Residência do sr. Bernard A. Ross — uma voz nada amistosa informou do outro
lado da linha.
Laura, imediatamente, soube quem havia atendido a chamada.
— Estou falando com a srta. Flora MacTavish?
— Exatamente.
— Srta. MacTavish, quem está falando aqui é Laura Shaw.
— Oh, srta. Shaw, que prazer em ouvi-la. Como tem passado?

— Trabalhando sem parar.


— Mas isso não é bom. A senhorita é jovem e precisa se divertir um pouco.
— Ultimamente não tenho tido muito tempo para me divertir. Tem notícia do sr.
Bernard?

— Logo ele estará em casa.


— Que boa notícia. — Laura fez uma pausa e resolveu falar o motivo daquele
telefonema. — Bem, srta. MacTavish, recebi um recado do sr. Fraser. Ele quer se
encontrar comigo amanhã, para discutirmos a respeito da decoração da casa da ilha.
— Eu sei desse encontro, minha filha. Fui eu mesma quem agendou você para
esse horário.

— Só que surgiu um imprevisto e não poderei comparecer ao encontro. Poderia


pedir ao sr. Fraser para me procurar no meu ateliê?
— Você quer que ele vá procurá-la?
— É melhor assim.

— Sinto muito minha querida, mas o sr. Fraser A. Ross é responsável por um
grande império e, ultimamente, por causa da doença do pai, não está tendo tempo nem
para respirar. Se eu fosse a senhorita, estaria aqui amanhã às dez. Caso contrário, não
faço a menor idéia de quando poderá vê-lo.
— Mas...
— E não se atrase, senhorita. Agora, se me der licença, preciso interromper essa
nossa conversa. Estou esperando por uma chamada muito importante. — E, no instante
seguinte, Flora MacTavish desligava o telefone.
— Não acredito! — Laura deu uma risada. — E não é que ela desligou o telefone
na minha cara?

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

CAPÍTULO VIII

Ao acordar no dia seguinte, Laura não tinha muitos motivos para rir. Chovia muito.
Ela, então, resolveu usar um conjunto de calças compridas azul-marinho em linho e uma
camisa de seda branca com mangas compridas.
Ao chegar à loja, foi recebida por Délia que exclamou ao vê-la:
— Que capa de chuva bonita. Onde foi que você comprou?
— Numa loja que abriu perto do porto na semana passada.
— Você fica muito bem com essa capa. Se eu fosse você, compraria meia dúzia
em cores diferentes e as usava todos os dias.
— Uma sobre a outra, é claro — Laura brincou e tirou a capa.
— Mas que luxo, minha amiga. Que conjunto mais lindo você está usando!
— Gostou?
— Se eu gostei? Vestida assim você fica parecendo uma executiva de alto escalão.

— Também não precisa exagerar, Délia. Este é um conjunto bastante simples.


— Simples, elegante e de excelente bom gosto.
— Muito obrigada. Depois de tantos elogios, me sinto mais segura para a reunião
que terei às dez.
— É verdade... Você tem uma reunião muito importante às dez. — Délia deu um
sorriso brincalhão. — E então? Pronta para enfrentar o seu pirata?
— Na verdade, acho que nunca vou me sentir pronta para enfrentar aquele
homem.
— E que homem! Outro dia, lá no hospital, fiquei observando melhor Fraser. Você
precisa ver com que delicadeza ele trata o pai.

— É mesmo?
— Laura, Fraser conversava com Bernard num tom de voz bem baixo, pausado e,
mesmo diante de mim, não teve o menor pudor de dizer quanto gostava e precisava do
pai. Bernard ficou exultante de alegria.
A imagem de Fraser tomou por completo os pensamentos de Laura.
— O que foi? — Délia quis saber.
— Nada, estava apenas pensando.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Em Fraser. Acertei?
— Acertou, sim. Mas agora preciso ir para o ateliê trabalhar um pouco.
— Laura, já percebeu que, sempre que eu toco no nome de Fraser, você disfarça e
vai embora?
— Já. — Laura deu um sorriso triste. — Bem, agora eu vou trabalhar.
Às dez horas em ponto Laura era recebida por Flora MacTavish.
— Bom dia, srta. MacTavish — Laura a cumprimentou, com certa formalidade.
— O dia, pelo jeito, parece que não vai ser nada bom, srta. Shaw.
— Para quem não gosta de chuva...

— E a senhorita gosta de chuva?


— Muito. — Laura olhou para a secretária e pediu: — Será que poderia me tratar
apenas pelo primeiro nome?
— Está me pedindo que eu a chame de Laura?
— Exatamente.

— Para mim, não há o menor problema. Mas não quer tirar a capa e entrar, por
favor?
— Claro. — Laura tirou a capa, e Flora não conteve uma exclamação:
— Que maravilha! Pelo que estou vendo, você, quando quer, sabe se vestir como
uma dama.
— Você nem imagina o que acontece quando me decido pelo contrário — Laura
brincou, com um ar bastante travesso.
— Na minha modesta opinião, existe hora e lugar para tudo. Mas entre, por favor,
ele está no escritório.
Quando as duas chegaram em frente a porta do escritório, que estava aberta,
Fraser disse:
— Entre, por favor, e sente-se, Laura. Em instantes falo com você.
— Tenha uma boa reunião, Laura — Flora disse antes de fechar a porta e se
afastar.
— Tudo bem, tudo bem — Fraser dizia ao telefone. — Na segunda estarei em
Brisbane, e acertaremos tudo. Muito obrigado. Recomendações à família.

Fraser desligou o telefone e perguntou à Laura:


— Não vai se sentar?
— Obrigada. — Ela sentou-se.
— Você está muito bonita, Laura Shaw.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Vim até aqui para uma reunião de negócios, sr. Fraser, e dispenso esse tipo de
elogio machista.
— Meu Deus, quanta energia! — Fraser balançou a cabeça em negativa. — Você
veio aqui para conversar ou para brigar comigo?
— Isso vai depender única e exclusivamente do senhor.
— Quer fazer o favor de parar de me tratar por senhor?
— Sou muito respeitosa com os meus clientes.

— Estou vendo. Mas dispenso esse tipo de respeito, está bem?


— Não, não está nada bem e...
— Não sei de onde você tirou que um simples elogio é algo machista.
— Quando você tem reunião com um homem você faz esse mesmo tipo de
comentário?

— Claro que não!


— Pois então, sr. Ross, o comentário que fez é, sim, completamente machista.
— Pelo que posso observar, você acordou com as garras preparadas para atacar.
— Vim aqui para uma reunião de negócios, sr. Ross.
— Se é assim, vamos à reunião de negócios — ele disse com muita raiva. — Como
estão os preparativos para a decoração da minha casa, srta. Shaw?
Na hora que se seguiu, os dois, com um formalismo exagerado, falaram apenas
sobre a decoração da casa.

— Devo admitir que, quando se trata de decoração a senhorita sabe o que faz.
Porém, quando ao resto, Laura...
— Por favor, sr. Ross, estávamos indo muito bem até agora. Continue a me tratar
por srta. Shaw.
— E você acha que isso muda alguma coisa?
— Não insista. Ainda temos alguns detalhes para acertar.
— E quais são esses outros detalhes?
— Pretendo contratar uma empresa de minha inteira confiança para trazer algumas
peças grandes que comprei em Sidney.
— E qual é o problema?
— O preço. O serviço dessa empresa vai nos custar mais que o dobro do que se
fosse feito através de uma concorrente. Mas o serviço é de primeira e se trata de uma
empresa muito idônea. Eles garantem o serviço.
— Você alguma vez já contratou essa empresa?

84
Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Já. E não me arrependi.


— E qual é o nome dela?
— World.
— Ah..., a World...
— O senhor a conhece?

— Ela pertence a minha família.


Laura, que não esperava por aquilo, disse:
— Bem, então o senhor vai economizar um bom dinheiro com essa remessa.
— Está preocupada em fazer com que eu economize o meu dinheiro, Laura? — ele
ironizou.
— Estou sempre preocupada com os custos dos projetos dos meus clientes, sr.
Ross. E por falar nisso, não acho conveniente encomendar aquelas portas em Zanzibar.
— Por quê?
— Elas vão ficar caras demais.

— É mesmo? — Ele sorriu. — Por que não deixa que eu decida sobre isso?
— Além do preço, elas demorariam três meses para chegar até aqui.
— Tudo isso?
— O marceneiro e artesão com o qual conversei, o melhor de lá, terá de construí-
las e depois despachá-las para cá.
— Não vejo nenhum problema. Só vou ficar três meses sem as portas.
Laura deu um profundo suspiro. Será que nunca iria se acostumar a tratar com
milionários?

— Outro dia dei uma trombada com Simon Harris — ele disse, de repente.
— Você o quê? E os carros? Estragaram muito?
— Não dei esse tipo de trombada com ele, Laura Shaw. O que aconteceu é que me
encontrei com ele.

— E onde foi isso?


— No lugar mais provável de se encontrar com um médico: no hospital.
— E você conversou com ele a meu respeito?
— Não como deve estar imaginando, mas cheguei a citá-la, sim.
— Espero que não tenham se referido a mim como ex-amante.
— Pode ficar sossegada. Eu, pelo menos, sou um cavalheiro.

85
Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Mas em que contexto você chegou a me citar?


— Preocupada com a sua reputação, Laura? — ele ironizou.
— Não, sr. Ross, estou apenas curiosa.
— Então vou saciar-lhe a curiosidade. — Fraser pegou uma caneta esferográfica
que se encontrava sobre a mesa e ficou, durante alguns segundos, olhando atentamente
para ela. Só depois, continuou: — Bem, Simon fez parte da equipe que realizou a cirurgia
no meu pai. Ele sugeriu que meu pai tire férias num local sossegado. Imediatamente
lembrei-me de minha casa na ilha, e disse ao Simon que ela estava sendo decorada por
você. Uma grande coincidência, não?
— O quê?
— O fato de Simon ter participado da equipe que realizou a cirurgia do meu pai.
— Isso acontece... — Ela não queria dar muita importância ao fato, mas não estava
sendo nada fácil.
— Simon me disse que você é uma moça muito boa. E disse também que é uma
mulher inesquecível. Pelo que pude perceber, você marcou muito o nosso jovem e atlético
cirurgião. — Existia muita ironia na voz de Fraser. — Ah, estava me esquecendo: Simon
continua solteiro. Saber disso deve ser muito importante para você.
— Não estou interessada no estado civil de Simon.

— Será que não está mesmo? Eu duvido!


— Simon Harris é uma página virada na minha vida.
— Se ele fosse uma página virada, não teria ficado tão preocupada por eu ter me
encontrado com ele.

— Eu não fiquei preocupada, apenas curiosa.


— Os seres humanos, Laura Shaw, estão sempre repetindo os mesmos padrões
de comportamento. Você deve ter seduzido Simon Harris, só para ter o gostinho de
abandoná-lo.
— Como ousa dizer tamanha heresia?
— Ouso porque foi exatamente o que você fez comigo.
— Chega! Chega dessa conversa. E quero lhe dizer uma última coisa: considere o
nosso compromisso rompido. Você não é mais meu cliente.
— Nem pense num absurdo como esse. Você vai terminar a decoração da minha
casa. Caso contrário...

— Caso contrário, o quê? Vai me chantagear de novo?


— Vou. Se você desistir de decorar a minha casa, todo o mundo saberá que Laura
Shaw é uma profissional irresponsável.
— Você seria capaz de fazer isso?

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Não tenha a menor dúvida.


— Tudo bem. — Laura, furiosa, voltou a se sentar. — Você continua sendo meu
cliente. Agora, sr. Ross, vamos voltar a conversar sobre negócios.

— Você está se tornando uma pessoa menos impulsiva, Laura Shaw, portanto
muito mais sábia. Agora me mostre o orçamento, com as portas de Zanzibar e com tudo o
que tenho direito.
— Pois muito bem. — Laura abriu a pasta de couro que colocara no chão e de lá
tirou o orçamento, que foi entregue a Fraser.
Depois de ler rapidamente tudo, Fraser perguntou:

— E o seu trabalho? Aqui não consta o quanto terei de pagar pelos seus serviços.
Laura pegou outra folha de papel de dentro da pasta.
— Aqui está. — Ela entregou a folha a Fraser que, desta vez, leu com muita
atenção tudo o que ali estava discriminado.
— Isso é um absurdo! — Fraser exclamou.

— Se está achando muito caro os meus serviços, sinta-se à vontade para contratar
um outro profissional.
— Caro? — Ele riu. — O preço que está me cobrando é ridículo! Não sabe
valorizar o que faz tão bem, Laura Shaw?
Ela, que não esperava por aquilo, respondeu prontamente:
— Resolvi fazer um precinho bom para o senhor.
— Por quê? Nunca lhe pedi, nem insinuei, que me fizesse um precinho camarada.
Não posso lhe pagar uma quantia tão irrisória por três semanas de trabalho.
— Acontece, sr. Ross, que o trabalho que farei na sua casa será visto por muitos.
Portanto, com esse orçamento, eu me considero muito bem paga.

— Quero lhe pagar como outro cliente qualquer. O fato de lhe proporcionar a
oportunidade de aparecer numa revista como a Privacity, não justifica um orçamento tão
baixo. Você me disse que nosso contrato seria assinado em etapas.
— Se tivesse lido com mais atenção os primeiros papéis que lhe entreguei, veria
que o trabalho está discriminado por etapas.
— Ah, é? — Ele pegou os primeiros papéis que Laura havia lhe entregue e os leu
com muito mais atenção. — Você tem razão, está tudo aqui.
— Raramente eu não tenho razão — ela disse para provocá-lo.
— Sei... — Fraser pegou uma caneta e assinou o contrato.
— Mas você... Me desculpe, o senhor assinou tudo.
— Assinei. Agora eu quero a minha casa pronta. Quando é que você vai para lá?

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Délia irá para lá oportunamente.


— Pensei que ela fosse apenas sua secretária.
— Além de secretária, Délia é minha assistente também. Mas o senhor terá de
contratar um homem forte para ajudá-la. E um bom marceneiro. — Laura pegou o
contrato que ele havia assinado, retirou uma caneta da pasta e também o assinou. —
Essa cópia é sua.
Fraser pegou a cópia do contrato que Laura lhe oferecia.
— Bem, antes de eu me retirar, gostaria que fizesse o pagamento da primeira
etapa do orçamento. Preciso pagar os móveis e...

— Um momento. — Com uma máquina de calcular que havia retirado da gaveta,


ele começou a fazer contas. Depois, retirou um talão de cheque do bolso do paletó.
Instantes mais tarde, Laura olhava para o cheque que Fraser acabara de lhe
entregar.
— Mas o senhor está pagando tudo, sem...
— Agora só falta você me apresentar outro orçamento dos seus serviços.
— Eu farei isso. — Ela se levantou e guardou o contrato na pasta. — Acho que a
nossa reunião acabou, sr. Ross. Até outra vez. Qualquer problema que surgir, Délia
entrará em contato com o senhor.
Fraser ainda olhava para a porta pela qual Laura tinha saído havia cerca de dez
minutos. Por mais que tentasse, sentia-se incapaz de entendê-la.
Flora MacTavish bateu na porta e perguntou:
— Posso entrar, Fraser?
— Pode! — ele respondeu de muito mau humor.
— Me desculpe — a secretária disse ao entrar no escritório —, mas Laura sofreu
um probleminha quando estava saindo daqui.
— Um probleminha? Mas que espécie de probleminha foi esse?
— Laura bateu o carro.
— Um acidente? — Fraser, apavorado se levantou. — E como está ela?

— Laura está bem, não se preocupe. O carro dela não amassou muito, mas o
seu...
— A minha Mercedes-Benz? Mas como foi que...
— Laura estava saindo com o carro em marcha a ré daqui do estacionamento da
sua casa. Lawrence estava manobrando a Mercedes, mas, por causa da chuva forte, ela
não o viu. Lawrence parou e buzinou. Infelizmente, de nada adiantou, e o carro de Laura
acabou batendo no seu. Mas ela e o motorista nada sofreram.
— E como você ficou sabendo de tudo isso?

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Laura voltou para cá e me contou. Ela lhe pediu para não se preocupar com
nada, que o seguro cobrirá as despesas.
Às oito horas da noite, Laura entrava na Shaw Decorações.

— Ainda bem que você chegou. Tem certeza de que não está machucada? —
Délia perguntou, aflita.
— Estou muito bem, pode ficar tranqüila. Por que esta preocupação toda?
— Muita coisa pode acontecer com uma pessoa que sofre um acidente.

— E como ficou sabendo sobre o acidente? — Laura retirou a capa de chuva e a


pendurou em um cabide que ficava atrás da porta.
— Fraser ligou aqui três vezes, e a secretária dele ligou mais duas.
— Mas Flora sabia que eu estava bem. Fraser está bravo comigo?
— Não, acho que não. Ele está preocupadíssimo.

— Mas onde você estava?


— Fui ver o meu irmão.
— Você foi até Amberly com uma chuva dessa?
— Precisava espairecer um pouco. Aí, resolvi ir até lá. Meu irmão está ótimo e vai
se casar com uma moça da Força Aérea.
— Que ótima notícia. — Délia deu um profundo suspiro e disse: — Ligue para ele.
— Para o meu irmão? Mas por que eu ligaria para ele agora?
— Estou pedindo que ligue para Fraser. É o mínimo que pode fazer depois do que
aconteceu.
Laura resolveu seguir o conselho da secretária e, no ateliê, fez a ligação. Fraser
tinha saído, mas Flora prometeu que lhe transmitiria o recado assim que fosse possível.
Na manhã seguinte, Laura resolveu chegar bem cedo ao trabalho. Depois de
preparar café, com uma xícara do liquido fumegante na mão, ela foi para o ateliê. Mal
tinha se sentado, ouviu a campainha tocar. Como Délia não havia chegado, ela mesma
precisou ir atender a porta.
Era Fraser que, vestindo um terno cinza impecável, logo lhe perguntou:
— Você está bem?
— Estou ótima.

— Será? A sua aparência está péssima.


— Muito animador o seu comentário. Não quer entrar?
— Quero. Vim até aqui conversar com você.
— Então, vamos para o meu ateliê.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Muito obrigado — ele disse ao sentar-se.


— Quero lhe pedir desculpas pelo que aconteceu, mas eu não vi o seu carro.
— Deveria prestar mais atenção quando dirige, Laura.
— O que foi? Resolveu vir até aqui para me ofender pessoalmente? Sou uma
excelente motorista. Acontece que o seu motorista estava com os faróis desligados e
chovia muito. Sinto pelo que aconteceu, mas ontem mesmo telefonei para a companhia
de seguros e irão entrar em contato com você.
— Esqueça o carro. Tem certeza de que está bem?
— Eu já lhe disse que estou ótima.
— E você fez o orçamento dos seus serviços?
— Não. Ainda não tive tempo.
— É mesmo? E o que você fez ontem durante a tarde toda?

— Não acha que esse tipo de pergunta é muito invasiva, sr. Fraser?
— Não, não acho. E como está o seu cirurgião?
— Fraser A. Ross, se veio aqui para esse tipo de conversa, gostaria que se
retirasse.

— É exatamente o que eu vou fazer. —- Ele se levantou.


— E faça o favor de aprontar o orçamento.
— Não vou mudar os custos dos meus honorários.
— Você é quem sabe. Mas continuo achando que você não sabe valorizar o
seu trabalho. Passar bem, srta. Ross.
Laura ficou o resto do dia sem saber o que fazer, tamanha era a confusão em que
se encontrava.
Muito ansiosa, ela foi para casa às nove horas da noite e, depois de um lanche e
um banho rápido, resolveu que precisava dormir e esquecer aquele amor que a sufocava,
um amor que não tinha solução. Laura Shaw e Fraser A. Ross, definitivamente, não
tinham nascido um para o outro.

CAPÍTULO IX

Dez dias depois, Laura estava preocupadíssima com a decoração do chalé que
ficava nos fundos da casa de Fraser.
— Por que você está tão brava? — Délia perguntou, ao entrar no ateliê.

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— Eu não estou brava mas, sim, tremendamente preocupada.


— Por quê?
— Recebi um telefone ontem à noite, depois que você tinha saído de um dos
nossos fornecedores.
— Qual deles?
— O que ia nos vender aquele papel de parede espetacular que eu instalaria no
chalé.

— E o que aconteceu?
— Ele não tem mais o papel que eu escolhi.
— Mas o fornecedor me assegurou que eles tinham papel suficiente para decorar
as paredes de um hotel que possuísse cem quartos.
— Foi exatamente o que eu disse a ele. Acontece que o estoque todo tinha sido
vendido e não haviam dado baixa.
— E o que você pretende fazer agora, Laura?
— Ainda não sei. Talvez eu mande pintar a parte interna do chalé com uma cor
bem clara e, quando chegar outra remessa daquele papel, termino o serviço.
— E a parte externa do chalé?
— Vai ficar como está, com tijolinhos à vista.
— Ótimo. Uma das coisas que gosto em você, Laura, é que se nega a mexer em
algo que já esteja bom. E o resto da casa?
— Terminei tudo. Não foi fácil projetar uma decoração diferente para cada um dos
vinte e cinco quartos.

— Só você mesmo para aceitar fazer um trabalho deste porte em tão pouco tempo.
— Como está Bernard?
Délia perdeu toda a espontaneidade e ficou bastante vermelha. Laura, então,
resolveu brincar com a amiga:

— Quer dizer, então, que a coisa é para valer!


— Bem... — Délia estava bastante sem graça.
— Estou muito contente por você, minha querida. — Laura se levantou e abraçou a
secretária. — Você merece ser feliz.

Vendo que Délia continuava se sentindo constrangida, Laura continuou:


— Fico feliz por você, mas não estou gostando nada de perdê-la.
— Imagine, Laura! Você não vai me perder. Bernard e eu não queremos apressar
nada. — Ela fez uma pausa e disse: — Bem, eu pelo menos não quero apressar nada.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Pelo que estou entendendo, se fosse por Bernard, vocês estariam no altar
amanhã. É isso?
— É mais ou menos isso, sim. Mas quero conhecê-lo melhor.

— Isso é muito bom.


O telefone tocou.
— Pode deixar que eu atendo. — Laura tirou o fone do gancho e começou
conversar com o seu interlocutor. Ao desligar, ela estava bastante preocupada.

— O que aconteceu? — Délia quis saber.


— O navio que transportava a nossa encomenda de Sidnei para a ilha de Hamilton,
teve um problema muito sério.
— Só essa que faltava!
— E, pelo que acabaram de me informar, não têm previsão de quando entregarão
as nossas encomendas.
— Isso significa que depois de amanhã não estarei viajando para a ilha.
— Exatamente.
— Se é assim, gostaria de lhe fazer um pedido, Laura.

— E qual é o pedido?
— Fico meio sem graça em dizer, mas a verdade é que Bernard me convidou para
passar uma semana num hotel que ele tem na Nova Zelândia.
— Isso é maravilhoso, Délia.

— Seria uma oportunidade para nos conhecermos melhor. É claro que não
poderemos ter nenhum tipo de intimidade, afinal Bernard ainda está se recuperando.
Mesmo assim, gostaria de ir com ele.
— E por que não me disse isso antes?
— Não, para mim o trabalho sempre vem em primeiro lugar. E eu tinha de cuidar
da casa do seu pirata. Como aconteceu este problema com o navio...

— Sinta-se liberada para passar uma semana inteirinha com o seu príncipe
encantado, Délia.
— Vou falar com ele. Mas prometo deixar tudo em ordem antes de viajar.
— E quando ele pretende ir para a Nova Zelândia?

— Não sei, talvez na próxima semana.


Dois dias depois, preocupada por Laura estar trabalhando demais e se alimentando
muito mal, Délia praticamente a abrigou a fechar a loja para irem almoçar juntas num res-
taurante próximo à praia.

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— Délia, você pretende me engordar?


— Isso seria impossível. Mas gostei de ver você comer bem. Não pode ficar só à
base de lanchinhos, Laura. O organismo precisa de comida de verdade.

— E os lanchinhos não são comida de verdade? — Laura riu.


— Você sabe muito bem o que eu quis dizer. Agora vamos pedir uma boa
sobremesa.
— De maneira alguma. O que eu comi aqui hoje foi demais. Prefiro ir dar uma volta
pela praia.
— Tudo bem.
Elas pagaram a conta e foram andar pela praia.
— Lindo aquele iate, não? — Délia apontou, quando se aproximavam do
ancoradouro.
— Ele é fantástico.
— Deve ser muito bom ter bastante dinheiro e poder sair pelo mundo num barco
como aquele.
— Nem fale... — Laura, sem nenhuma nostalgia, lembrou-se da época em que
namorava Simon Harris.
Ao perceber o que tinha acontecido, Délia disse:

— Sinto muito, perdi a oportunidade de ficar calada.


— Simon não significa mais nada para mim, Délia.
— E Fraser?
— Bem, quando a Fraser, a situação é bastante diferente.
— Por que você não fala mais com ele ao telefone? De uns tempos para cá, me
sinto uma menina de recados. Você pede para eu falar com ele. E Fraser age como se
você não existisse.
— Acho que não existo mesmo para ele.

— Por que vocês estão assim tão estremecidos?


— Incompatibilidade de gênios. Quando estamos juntos, só brigamos.
— E nunca houve alguns momentos assim... como eu vou dizer? Nunca existiu
entre vocês momentos mais tranqüilos?

— Houve. E foi muito bom. Mas depois...


— Por que você não o procura, Laura?
— Para quê?
— Para dizer àquele pirata de todos os mares que está apaixonada por ele.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— E quem disse a você que estou apaixonada por ele?


— Basta olhar para você, minha amiga. Vá, vá procurá-lo.
— Com toda certeza, se eu lhe dissesse uma coisa dessa, Fraser iria rir na minha
cara.
— Se isso acontecer, aproveite e dê-lhe um belo beijo na boca. Aí, o pirata dos
sete mares pára de rir.
— Meu Deus! Quanta fúria! — Laura caiu na gargalhada. — Quem diria, hem?
Bernard está mesmo mexendo com você! Parece que estou diante de uma nova mulher.
Onde ficou a sua timidez, minha amiga?

Délia não respondeu à pergunta feita por Laura.


— O que foi que aconteceu? — Laura quis saber ao ver uma certa apreensão
estampada no rosto da amiga.
— Dê uma olhada. — As duas estavam bem mais próximas do ancoradouro. —
Acho que é o iate de Fraser.
Laura sentiu uma pontada no estômago, e o coração bateu acelerado dentro do
peito.

— Acho que é mesmo... — a voz dela não passava de um sussurro.


— Bernard me disse que o nome do iate de Fraser era Buccaneer. Então, só pode
ser esse.
Naquele instante, Laura pressentiu que alguém a seguia e olhou para trás.

— Oi, Laura. — Fraser a fitava de uma maneira intrigante.


— O que está fazendo aqui? — ela perguntou.
— Vim aqui apenas para raptá-la.
— Você está maluco.
— Eu não estou maluco, mocinha, eu sou maluco. E vim aqui, apenas para raptá-
la. — Sem dizer mais nada, Fraser a ergueu nos braços e se encaminhou para o iate.
Délia, deliciada com a cena que tinha diante dela, deu um suspiro entrecortado e
disse, baixinho:

— Que coisa mais romântica...


Enquanto isso, Laura se debatia nos braços de Fraser e pedia para que ele a
colocasse de volta ao chão.
— Nada disso, Laura Shaw. Só coloco você de volta no chão quando estivermos
no convés.
E Fraser cumpriu a promessa.
— Vou sair já daqui — ela disse, assim que se viu de novo no chão.

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— De maneira alguma! Se continuar a se comportar como criança, eu tranco você


na cabine!
— Você não chegaria a tanto, Fraser A. Ross.

— Ah, não? — Ele fez menção de pegá-la novamente no colo.


— Tudo bem. — Laura ergueu as mãos como se quisesse se defender. — Mas
para onde vamos.
— Para onde a fantasia nos levar.

Só então Laura lembrou-se da amiga que havia ficado na praia.


— Délia! Tenho certeza absoluta de que ela combinou esse rapto absurdo com
você.
— Você acertou em cheio. Afinal, Délia é sua amiga e, na verdade, sou um pirata
que nasceu por acaso no século vinte. E tenho um recadinho para você: Délia mandou lhe
dizer que pode ficar tranqüila. Ela cuidará de tudo direitinho.
— Quer dizer, então, que aquela viagem para a Nova Zelândia...

— Era mentira. Bem, na verdade meu pai e ela farão essa viagem daqui a algum
tempo. O velho Bernard precisa se recuperar um pouquinho mais.
— Não posso deixar os meus negócios todos com Délia.
— Mas é claro que pode. E agora, vamos zarpar. — Ele ligou um motor e a âncora
foi içada. — Venha.
— Para onde?
— Vamos até a cabine de comando. A fantasia nos espera, Laura Shaw.
Buccaneer zarpou. Em silêncio e sem saber o que fazer, Laura olhava a margem
se afastar. Aquilo tudo que estava acontecendo era ridículo. Nem nas suas mais remotas
fantasias pudera imaginar que, um dia, Fraser A. Ross iria raptá-la. Ele havia
ultrapassado todos os limites do bom senso. O duro era saber que Délia, sua grande
amiga, companheira, aliada e cúmplice tinha combinado tudo com ele. Aquilo não se
fazia! Délia a levara até àquele restaurante para que Fraser pudesse executar um plano
que, com certeza, tinha sido muito bem arquitetado.

— Você está muito calada, Laura Shaw.


— Eu sou uma mulher calada, sr. Fraser.
— Quando quer, é sim — ele deu um sorrisinho maroto.
— Você acha bonito o que fez?
— Bonito eu não sei se foi, mas garanto que estou muito satisfeito.
— Você, Fraser A. Ross é o maior machista que encontrei em minha vida!
— Mas você tem de admitir que sou um machista adorável.
— Machismo não rima com uma palavra tão bonita como adorável. O que você fez
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foi um ato de extremo desrespeito.


— E você acha que eu não sei disso? — Ele voltou a sorrir de maneira marota.
— Pensei que você fosse uma pessoa equilibrada, uma pessoa de bom senso.
— Eu sou tudo isso e muito mais.
— Uma pessoa equilibrada não faria o que você fez.

— Será que não? — Fraser virou o timão para a esquerda e continuou a navegar.
— E então? Não vai continuar dizendo quanto o meu comportamento foi execrável?
— Mas isso é o cúmulo! — Laura começou a andar de um lado para o outro.
— Assim você vai se cansar. Por que não se senta aqui ao meu lado e aprecia toda
beleza que temos diante dos nossos olhos. O céu, hoje, está particularmente azul.
— Para mim o céu está escuro, prenunciando uma tempestade.
— Isso é uma ameaça, Laura Shaw?
— Entenda como quiser.
Os dois ficaram em silêncio, e Laura começou a se sentir muito mais irritada por
causa da tranqüilidade que via nos gestos de Fraser.
— Você não passa de um homem arrogante e prepotente.
— E você, minha linda ruiva, não passa de uma gata brava, muito brava. E, com
uma gata desse tipo temos de tomar cuidados muito especiais.
— Eu não sou brava!
— Não? — Ele deu uma gargalhada. — Claro... Você é uma gata mansinha, que
adora um colo.
— Pare de rir de mim.
— Mas você tem um jeito muito engraçado.
— Você... — Ela ergueu o dedo e se aproximou dele. — Você é um cafajeste, um
homem intratável!
— Eu, Laura Shaw? Eu sou intratável? Não, eu sou um gatinho manso que adora
um bom colo. E por falar em colo, você sabe pilotar um iate como este?
— Mas é claro que sei.

— Bem, então pegue o timão.


— Para quê?
— Para então eu recostar a cabeça no seu colo e dormir um pouco.
— Não seja ridículo.
— Não estou sendo ridículo, apenas estou querendo aproveitar o que a vida nos

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oferece de bom.
— Até logo!
— Para onde você vai?
— Vou para o convés.
— Vá e respire bastante. Talvez assim você consiga se acalmar.

Laura foi para o convés e ficou olhando a água azul do mar. A situação que estava
vivendo era muito delicada. Tinha sido raptada pelo homem que amava com desespero, e
ele...
"Ele, como um bom machista, só está pensando em aproveitar um pouco a vida. E
esse aproveitar a vida, é claro, inclui me levar para a cama e fazer de novo amor comigo!"
Uma idéia começou a se formar na cabeça de Laura. Conforme o tempo passava,
ela achou que era uma idéia ótima, bastante exeqüível.
A primeira coisa que fez foi tirar os sapatos. Depois, disfarçadamente, abriu a blusa
e livrou-se dela, Laura tinha certeza de que, da cabine de comando, Fraser a observava,
mas não olhou para trás. Só de calças compridas e sutiã, jogou a cabeça para trás e
deixou que o vento agitasse seus cabelos ruivos. Cerca de cinco minutos depois, ela
retirou a calça, lentamente. No instante seguinte, ela subia na amurada e mergulhava no
mar. O que tinha a fazer agora era nadar até uma ilha que não estava muito distante. De
repente, ela sentiu algo lhe segurando os pés.
— Sua maluca! — Fraser agora a segurava pelos ombros. — Vamos voltar. Essa
região é muito perigosa.
— Me largue!
— Volte para o iate, assim a gente vai acabar se afogando. E isso o que você
quer?
— Não, não é isso que quero. Quero, isto sim, ficar bem longe de você.
— Vamos voltar! — Fraser a segurou e começou a nadar em direção ao iate.
— Me solte! — Ela gritou.
— Não vou soltá-la de maneira alguma!
Laura percebeu que deveria parar de se debater e voltar para o iate, nadando com
os próprios braços.
— Não vou fugir. Prometo que vou nadando até o iate.
Fraser, olhou para o rosto de Laura que estava bem próximo ao dele e perguntou:
— Posso confiar em você?
— Neste instante pode, sim.
Fraser finalmente a soltou e, quando chegaram ao lado da escadinha que os
levaria de volta ao convés, ele apenas disse:

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Suba.
— Suba você. Eu quero ficar aqui embaixo um pouco.
— Suba, Laura Shaw! Suba porque já perdi a paciência — o tom dele era
ameaçador.
Laura subiu bem devagar e só quando atingiu a segurança do convés sentiu
quanto estava cansada. Sem pensar duas vezes, deitou-se no chão.
— Satisfeita?

Ela ergueu o olhar lentamente e viu que Fraser estava transtornado.


— Você poderia ter morrido, sua maluca!
— Eu jamais iria morrer num... — Laura, sem fôlego, interrompeu a frase.
— Você é muito voluntariosa, Laura Shaw. Nunca na vida imaginei que existisse
uma mulher como você. Sabia que esta região é perigosíssima?

— E você... sabia que eu o de... — Mais uma vez Laura interrompeu a frase. Mas,
depois de inspirar profundamente, concluiu: — detesto?
— Não ouse. Não ouse se atirar no mar de novo. Se fizer isso eu...
— Você o quê? — Laura sentou-se.

— Se fizer isso de novo, vou lhe dar umas boas palmadas. E o que merece e é o
que eu deveria estar fazendo neste instante.
— Você é grande... — Ela, de novo, inspirou profundamente. — Você é grande,
mas não é dois. E eu também sou boa de briga.
— Não acredito no que estou ouvindo. — Ele se afastou e depois voltou-se. — Na
sala do iate há uma mala cheia de roupas para você. Espero que Délia tenha acertado o
seu número.
— Traidora! — Laura deu um tapa no chão. — E eu que confiava tanto nela. Délia
é uma grande traidora.
O sol estava quase se pondo. Junto à amurada do iate que parara de navegar
havia mais de meia hora, Laura observava os tons vermelhos com que o céu havia se
enfeitado para receber a lua e as estrelas. Aquele, ela sabia, era um momento mágico, de
plena solidão. Um dia ainda iria encontrar um homem que a aceitasse, iria amá-lo e ser
feliz pelo resto da vida.
— Está vendo aquela estrela? — Fraser tinha se aproximado em silêncio e se
colocava ao lado dela.

— Estou — Laura respondeu de maneira seca.


— Pois eu gostaria de ter asas. Se eu tivesse asas, Laura Shaw, voaria até lá só
para oferecê-la a você. — Ele deu um profundo suspiro. — Mas já que não tenho asas,
quero lhe oferecer algo muito precioso.

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Sabrina 1017 – Coração indomável – Lindsay Armstrong

— Sinto muito, Fraser, mas não acredito mais em palavras bonitas.


— Você está muito amarga hoje, minha querida. Tenho algo precioso para lhe
oferecer, e você nem pergunta do que se trata. Isso não é justo.

— Tudo bem. — Ela virou-se e o encarou. — O que de tão precioso você tem para
me oferecer.
— O meu amor, Laura Shaw. O meu amor por você...
Ao ouvir aquilo, Laura sentiu os olhos se encherem de lágrimas.

— Você...
— Eu te amo, minha querida. E o meu amor por você é maior do que os sete
mares, é maior do que esse céu que cobre as nossas cabeças. — Fraser a abraçou com
carinho. — E, apesar de saber que ainda está presa a outro homem, quero que se case
comigo.
— Você está enganado, Fraser. Estou presa, sim, e completamente apaixonada
por um homem maluco, que me valoriza como mulher, como profissional que sou e que
teve a ousadia de me raptar.
— Você... — Ele a fitou sorrindo.

— Eu te amo, Fraser A. Ross. Eu te amo, meu pirata fora de moda. E, se estiver


falando a sério quanto a se casar comigo, fique sabendo que eu aceito.
Feliz, Fraser a beijou apaixonadamente e, em seguida, pediu:
— Repita. Repita que me ama.

— Eu te amo, Fraser, e acho que poderemos ser muito felizes.


— Bem, minha linda sereia de cabelos ruivos, quando voltarmos, vamos
providenciar os papéis e nos casar o mais rápido possível.
— Por que tanta pressa, Fraser?

— Porque tenho medo que você mude de idéia:


— Eu jamais vou mudar de idéia.
— Mesmo assim quero me casar logo. E quero passar a nossa lua-de-mel na ilha
que arrendei, ajudando você a terminar a decoração da nossa casa.

— Mas combinei com Délia que é ela quem vai para lá.
— Logo, a sua querida amiga e secretária receberá um pedido muito semelhante
ao que eu lhe fiz. Meu pai quer se casar com ela. E, depois do casamento, ele pretende
fazer uma viagem ao redor do mundo. — Fraser beijou-lhe a testa.
— Sei que está pensando na sua loja.
— É exatamente nisso que eu estava pensando.
— Combinei tudo com o meu pai. Se Délia aceitar o pedido de casamento dele, os
dois só se casarão depois que voltarmos da nossa lua-de-mel. Até lá, Délia, com toda
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certeza, cuidará de tudo para você.


— Quer dizer, então, que você arquitetou tudo direitinho...
— E eu tive outra opção? Agora repita que me ama.
— Eu te amo, meu doce pirata de olhos cinzentos.
— Venha. — Ele a puxou pelas mãos.

— Para onde? — ela perguntou, rindo.


— Para onde a fantasia nos levar.

Fim

LINDSAY ARMSTRONG nasceu na África do Sul, mas atualmente mora na


Austrália com seu marido neozelandês e com seus cinco filhos. Já moraram em quase
todos os Estados da Austrália e já tiveram profissões incomuns até para eles: foram
fazendeiros, treinadores de cavalos — profissões muito favoráveis para um escritor!
Lindsay iniciou sua carreira literária quando o filho mais novo entrou na escola e ela
começou a se sentir sem ter o que fazer. Lindsay continua escrevendo até hoje! E
adorando!

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