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Q

Questão agrária
João Pedro Stedile

Objeto do estudo da de proprietários capitalistas. Ou seja, o


questão agrária advento do capitalismo como modo de
produção predominante, combinado
O termo questão agrária é utilizado com o regime político republicano, que
para designar uma área do conhecimen- havia introduzido o direito à proprie-
to humano que se dedica a estudar, pes- dade privada de bens e de mercadorias,
quisar e conhecer a natureza dos pro- trouxe como consequência o fato de
blemas das sociedades em geral relacio- a terra, antes vista como um bem da na-
nados ao uso, à posse e à propriedade tureza sob controle monopólico das oli-
da terra. Ao se fazer o estudo da for- garquias ou clãs (no período do feuda-
ma de organização socioeconômica do lismo), tornar-se agora uma mercadoria
meio rural de qualquer país, está-se es- especial, sujeita à propriedade privada.
tudando a questão agrária daquele país. Em seus estudos sobre o desenvolvi-
Porém, durante muito tempo, o termo mento do capitalismo na agricultura, Karl
foi utilizado principalmente como sinô- Marx (1988, tomo 3, “Teoria da renda da
nimo dos problemas agrários existen- terra”) chamou a terra de “mercadoria
tes e, mais reduzidamente, quando, em especial”, pois, com base nos conceitos
determinada sociedade, a concentra- da economia política, não era possível
ção da propriedade da terra impedia o classificá-la como uma mercadoria: a
desenvolvimento das forças produtivas terra não é fruto do trabalho humano, é
na agricultura. E essa forma de interpre- um bem da natureza; portanto, não tem
tar a questão agrária tem uma história
que precisa ser conhecida.
valor em si. No entanto, ao se introdu-
zir nesse bem da natureza o direito à sua Q
A origem da expressão vem dos propriedade privada – e, com ele, a cerca,
primeiros estudiosos que, a partir do a delimitação de tamanhos etc. –, a terra
século XVIII e até o século XX, anali- passou a ser regida pelas mesmas regras
saram o desenvolvimento do modo de do capitalismo. Assim, cada vez que o
produção capitalista, ficando conheci- capitalista agrícola ganha mais dinheiro,
dos como “pensadores clássicos”. Ao tem mais lucros e acumula capital, ele
investigarem o comportamento do ca- vai comprando mais terras de outros
pital na organização da produção agrí- proprietários privados. Ou seja, o mes-
cola e em relação à propriedade da ter- mo movimento de acumulação de capital
ra, esses pensadores concluíram que, à que ocorre na indústria e no comércio
medida que o modo de produção capi- passa a ocorrer também na propriedade
talista se desenvolvia, com sua lógica e da terra, pela tendência lógica do capi-
leis, a propriedade da terra foi se con- talismo a ir produzindo concentração da
centrando nas mãos de menor número propriedade da terra.

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Historicamente, a propriedade pri- Aqui no Brasil, esse reducionismo


vada da terra foi se consolidando a par- de que o problema agrário se resumia
tir das revoluções burguesas, do estabe- na ocorrência ou não de concentração
lecimento das regras republicanas e da da propriedade como fator inibidor do
organização do Estado burguês. Nesse capitalismo foi influenciado pela di-
regime, todos os cidadãos passaram a vulgação de A questão agrária, de Karl
ter direito à propriedade de terras, des- Kautsky (1968). O estudo de Kautsky
de que tivessem dinheiro-capital para é bem específico: ele analisa, à luz das
comprá-las do seu ocupante, ou, se leis da economia política, o compor-
fossem terras públicas, do Estado. tamento do capitalismo na agricultura
À medida que o capitalismo evoluiu da Alemanha, do final do século XIX
da fase mercantil para o capitalismo até o início do século XX. E nosso
industrial, como decorrência do pro- colonialismo intelectual e acadêmico
cesso de acumulação de capital, houve nos levou a crer que a questão agrária
também uma crescente concentração se resumiria às teses defendidas por
da propriedade da terra. Ao analisarem Kautsky para a sociedade alemã de
o comportamento do capitalismo que determinado período histórico.
levava à contínua concentração da pro-
priedade da terra, alguns pesquisadores Agros = terra
da época defenderam a tese de que a
concentração da propriedade da terra se trans- O verbete “agrário” tem sua origem
formara numa contradição e, portanto, num na palavra grega agros, sinônimo de ter-
problema agrário para o desenvolvimento do ra. Portanto, todas as palavras portu-
capitalismo industrial. Segundo essa tese, guesas que possuem o prefixo agro se
o capitalismo industrial precisava, para o referem a atividades relacionadas com
seu crescimento, que se desenvolvesse a terra, o solo. O termo agri-cultura, por
um mercado interno de consumidores exemplo, está relacionado com todas
dos bens da indústria. Ao concentrar as atividades de cultivar a terra, como
a propriedade da terra e manter os lavouras, hortas ou árvores etc., e até
camponeses sem terra – e, portanto, mesmo a pecuária é uma atividade den-
despossuídos de renda –, esse modelo tro da agricultura; já agri-cultor diz res-
freava o desenvolvimento do mercado peito à arte, ao conhecimento, à profis-
interno e das forças produtivas. são daquele que sabe cultivar a terra.
A essa situação, que ocorreu em
alguns dos países da Europa ocidental O conceito de questão
que primeiro ingressaram na etapa in- agrária hoje
dustrial, é que os pensadores clássicos
atribuíram a condição de existência de O significado do conceito de
um problema agrário. Assim sendo, “questão agrária” como originalmente
num primeiro momento, a expressão interpretado pelos pensadores clássi-
problema agrário das sociedades capi- cos evoluiu nas últimas décadas. Hoje
talistas nasceu como sinônimo da ele- há um entendimento generalizado
vada concentração da propriedade da de que a “questão agrária” é uma área do
terra, que impedia o desenvolvimento conhecimento científico que procura
do mercado interno. estudar, de forma genérica ou em ca-

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sos específicos, como cada sociedade cravo, o monopólio da propriedade da


organiza, ao longo de sua história, o terra pela Coroa e a posse entregue em
uso, a posse e a propriedade da terra. Essas concessão de uso apenas a alguns gran-
três condições possuem características des latifundiários. Da mesma forma,
diferentes, ainda que complementares. pode-se estudar a questão agrária no
Cada sociedade tem uma forma es- final do século XX, caracterizada pelas
pecífica de usar a natureza, de organizar influências do capitalismo globalizado,
a produção dos bens agrícolas. E o seu pelas empresas agrícolas transnaciona-
uso vai determinar que produtos são lizadas e pelo capital financeiro.
cultivados, para atender a que necessi- É frequente, porém, encontrar-se
dades sociais e que destino se dá a eles. ainda na literatura especializada da eco-
A posse da terra refere-se a quais nomia política a terminologia “ques-
pessoas e categorias sociais moram tão agrária” apenas como sinônimo de
em cima daquele território e como “problema agrário”, estando esses pro-
vivem nele. blemas agrários reduzidos à existência
ou não da concentração da proprie-
E a propriedade é uma condição
dade da terra como fator inibidor do
jurídica, estabelecida a partir do capita-
desenvolvimento do capitalismo.
lismo, que garante o direito de uma pes-
soa, empresa ou instituição que possua
dinheiro-capital comprar e ter a proprie- Estudos clássicos sobre
dade privada de determinada área da na- o desenvolvimento do
tureza, podendo cercá-la e ter absoluto capitalismo na agricultura
controle sobre ela, impedindo que ou-
Na literatura clássica sobre o tema,
tros a ela tenham acesso. Essa condição
existem diversos estudos realizados
jurídica estabelecida por leis da ordem
acerca da questão agrária dos países em
institucional de cada país é que transfor-
que o capitalismo industrial se desen-
ma a terra numa mera mercadoria que
volveu primeiro. Os pensadores que
se pode comprar e vender, e da qual se
interpretaram a questão agrária desses
pode ser proprietário absoluto.
países construíram diferentes teses so-
Ao se estudar a questão agrária de
determinada sociedade, em determi-
bre a natureza do desenvolvimento do
capitalismo na agricultura.
Q
nado período histórico, analisa-se como
aquela sociedade organiza a produção Karl Marx (1988, tomo 1, cap. 24)
dos bens agrícolas, a posse de seu ter- estudou o desenvolvimento do capita-
ritório e a propriedade da terra. E, para lismo na agricultura na Inglaterra du-
cada aspecto estudado de cada socie- rante a transição do capitalismo mer-
dade em cada período histórico, serão cantil para o capitalismo industrial
encontrados diferentes “problemas (final do século XVI até meados do
agrários”, surgidos como resultado século XIX). E as formas específicas
das contradições criadas pelas for- descritas pelo autor para aquela forma de
mas de organização presentes naquela capitalismo receberam a denominação
sociedade. Por exemplo, pode-se estu- de “via inglesa” do desenvolvimento do
dar a questão agrária no Brasil durante capital na agricultura.
o período colonial, no qual as carac- Karl Kautsky (1968), como men-
terísticas principais são o trabalho es- cionado, fez o mesmo estudo em

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relação à Alemanha, abordando o fi- Finalmente, encontramos na li-


nal do século XIX e o início do século teratura a análise da questão agrária
XX, e as características descritas por em países com condições edafocli-
ele receberam a denominação de “via máticas 2 mais difíceis para a produ-
prussiana”, uma referência ao antigo ção agrícola anual. É o caso de países
Império Prussiano, que imprimia ca- montanhosos ou com invernos rigo-
racterísticas semelhantes a toda aquela rosos, como a Suíça, ou das regiões
região da Europa Central. desérticas, como a Sicília. Esses es-
Vladimir Ulianov, o Lenin, fez um tudos foram realizados por Giovanni
estudo do mesmo período tratado no Arrighi na década de 1960, e o desen-
trabalho de Kautsky sobre as caracte- volvimento do capitalismo na agri-
rísticas do capitalismo na agricultura cultura nessas áreas recebeu a deno-
da Rússia, denominando-as de “via minação de “via suíça”. 3
junker”,1 numa referência à forma como
o latifundiário local havia se transfor- A questão agrária no Brasil
mado em fazendeiro capitalista.
Lenin também realizou estudos A questão agrária no Brasil, inter-
semelhantes acerca do desenvolvi- pretada como a análise das condições
mento do capitalismo na agricultura de uso, posse e propriedade da terra na
nos Estados Unidos no período que nossa sociedade, já foi objeto de muitos
abrange do final do século XIX até o estudos sobre os diferentes períodos da
início do século XX. As características história, e existe farta bibliografia so-
específicas desse processo receberam a bre o tema. Embora sempre haja inter-
denominação de “via farmer” ou “via pretações específicas ou divergentes, a
americana”, em referência ao predomí- maioria dos pesquisadores considera
nio da agricultura familiar-capitalista ter predominado, no período colonial,
decorrente da colonização democráti- a plantation como forma de organização
ca, pela qual todas as famílias de agri- capitalista na agricultura brasileira do
cultores tiveram o direito de acesso à período. Com a entrada da economia
mesma quantidade de terra, distribuí- na etapa do capitalismo industrial, a
da pelo Estado. partir da década de 1930 e durante todo
Há também diversos estudos clássi- o século XX, a agricultura brasileira se
cos que analisam o comportamento da modernizou, intensificando-se os in-
questão agrária imposto pelo capitalis- vestimentos capitalistas. Esse período
mo nas colônias. Em todas as colônias foi resumido, na tese de José Graziano
do hemisfério sul houve basicamente da Silva (1982), como de “moderniza-
duas formas de organização da questão ção dolorosa”, porque desenvolveu as
agrária: a plantation, que associava gran- forças produtivas do capital na produ-
des extensões de terra, produção para ção agrícola, porém excluiu milhões de
exportação e trabalho escravo; e as ha- trabalhadores rurais, que foram expul-
ciendas, implantadas, sobretudo, pelo sos para a cidade ou tiveram de migrar
capitalismo espanhol nas suas colônias, para as fronteiras agrícolas, em busca
e que combinaram trabalho servil, pro- de novas terras.
dução para a exportação e produção Sobre a natureza da questão agrária
para o mercado interno. nas últimas duas décadas (1990-2010),

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há dois enfoques básicos. O primeiro, adianta recursos, cobra juros e divide a


defendido por pesquisadores que se renda gerada na agricultura.
somam à visão burguesa da agricultura, Do ponto vista social, percebem-
argumenta que existe um intenso de- se esses problemas na extrema desi-
senvolvimento do capitalismo na agri- gualdade social que essa estrutura
cultura brasileira, que aumentou enor- econômica gera no meio rural brasilei-
memente a produção e a produtividade ro, onde existem 7 milhões de pessoas
da terra. Para essa concepção, a con- que vivem ainda na pobreza absoluta e
centração da propriedade e seu uso já 14 milhões de adultos analfabetos. O
não representam um problema agrário programa Bolsa Família, distribuído
no Brasil, pois as forças capitalistas para 11 milhões de famílias que passam
resolveram os problemas do aumento
necessidades alimentícias, é revelador
da produção agrícola a seu modo, e a
da tragédia social no país. Além disso,
agricultura se desenvolve muito bem,
a maioria dos jovens que vive no meio
do ponto de vista capitalista. Ou seja, a
rural não tem acesso ao ensino funda-
agricultura é uma atividade lucrativa,
mental completo (oito anos), nem ao
com aumento permanente da pro-
ensino de nível médio e muito menos
dução e da produtividade agrícolas.
ao ensino superior.
O outro enfoque, de pensadores
Há, também, um enorme passivo
marxistas, críticos, analisa que a forma
ambiental resultante da forma preda-
como a sociedade brasileira organi-
dora da exploração capitalista na agri-
za o uso, a posse e a propriedade dos
bens da natureza ocasiona ainda gra- cultura brasileira, que degrada o solo e
ves problemas agrários e de natureza contamina rios e lençóis freáticos, além
econômica, social, política e ambiental. de desmatar sem nenhum controle,
Esses problemas aparecem no elevado desrespeitando inclusive as leis ambien-
índice de concentração da propriedade tais do Código Florestal. O Instituto
da terra – apenas 1% dos proprietá- Brasileiro do Meio Ambiente e dos
rios controla 46% de todas as terras; Recursos Naturais Renováveis (Ibama)
no elevado índice de concentração da aplicou multas por crimes ambientais
a grandes fazendeiros brasileiros, no
produção agrícola, em que apenas 8%
dos estabelecimentos produzem mais valor total aproximado de 8 bilhões de Q
de 80% das Commodities Agrícolas reais, segundo o noticiário da imprensa
exportadas; na distorção do uso de ao longo de 2011, que, no entanto, não
nosso patrimônio agrícola, pois 80% foram pagas.
de todas as terras são utilizadas ape- A tecnologia utilizada pelo modo
nas para produzir soja, milho e cana- capitalista de produzir na agricultura
de-açúcar, e na pecuária extensiva; na brasileira está baseada no uso intensivo
dependência econômica externa à que da mecanização e dos venenos agríco-
a agricultura brasileira está submetida, las. E essas duas formas, além de expul-
por causa do controle do mercado, dos sarem a mão de obra e a população do
insumos e dos preços pelas empresas campo, representam uma agressão per-
agrícolas transnacionais; e na subordi- manente ao meio ambiente, trazendo
nação ao capital financeiro, pois a pro- como consequência desequilíbrios am-
dução agrícola depende cada vez mais bientais que afetam toda a população,
das inversões do capital financeiro, que mesmo a que mora na cidade. Pesquisa

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coordenada pelo médico e pesquisa- va contaminado por venenos agrícolas


dor Wanderlei Pignati, da Universidade assimilados do meio ambiente, da água
Federal do Mato Grosso (UFMT), no ou de alimentos contaminados.
período de 2000 a 2010, na região de Esses são exemplos de como há,
monocultivo da soja do estado, revelou ainda na atualidade, segundo essa cor-
que até o leite materno de mulheres rente de pesquisadores, um grave pro-
que vivem nas cidades da região esta- blema agrário na sociedade brasileira.

Notas
1
O termo junker era usado no meio rural russo da época como sinônimo de fazendeiro rico;
é provável que tenha sido adotado por causa da proximidade da Rússia com a Alemanha.
2
Condições características de cada região, relacionadas com a fertilidade natural do solo, a
quantidade de água e sol, e as condições de clima para agricultura.
3
Para cada modelo de desenvolvimento capitalista na agricultura aqui expresso há farta
literatura, que já está disponível em português.

Para saber mais


Kautsky, K. A questão agrária. Rio de Janeiro: Laemmert, 1968.
Linhares, M. Y.; Silva, F. C. T. Terra prometida: uma história da questão agrária no
Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 1999.
Martins, J. de S. Os camponeses e a política no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1986.
Marx, K. O capital. São Paulo: Nova Cultural, 1988. (Os economistas).
Mitsue, M. A história da luta pela terra no Brasil e o MST. São Paulo: Expressão
Popular, 2001.
Silva, J. G. da. A modernização dolorosa: estrutura agrária, fronteira agrícola e traba-
lhadores rurais no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
Stedile, J. P. A questão agrária no Brasil. São Paulo: Expressão Popular, 2005. 5 v.
______. Bibliografia básica sobre a questão agrária no Brasil. Fortaleza: Edições
Nudoc/UFC–Museu do Ceará/Secretaria da Cultura do Estado do Ceará,
2005.
______. Questão agrária no Brasil. 11. ed. rev. São Paulo: Atual–Saraiva, 2011.

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