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CI~NCIA POLlTICA

o FATO ECONÔMICO, O FATO POLÍTICO E O


FATO JURÍDICO

PROF. ARMANDO DE OLIVEIRA MARINHO

Instituto de Direito Público e Ciência Política e da


Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Sem dúvida alguma vem ocorrendo profunda distor-


ção na análise conjuntural dos fatos sociológicos que
dizem respeito ao esfôrço dos povos subdesenvolvidos para
se integrarem na sociedade humana integralmente valori-
zados e dignificados.
Se podemos afirmar ser a valorização do homem,
quer isoladamente, quer como componente de uma indi-
vidualidade social, produto da sua condição econômica
pessoal e da condição econômica do grupo a que pertence;
se podemos afirmar que o progresso tecnológico, fator con-
dicional do progresso científico, rompeu o dique da igno-
rância em que o homem e as coletividades humanas vi-
viam, revelando-se uns aos outros estarrecidos e perple-
xos entre si estruturas sociais e modus vivendi antagô-
nicos e descompassados, entre os quais medeiam cente-
nas e milhares de anos (desde a atual sociedade cientí-
fica até as mais rudimentares e primitivas formas de co-
munidade organizada coexistem ao mesmo tempo) e co-
locou em destaque a presente necessidade de recuperação
das sociedades primitivas através da modificação das téc-
nicas de produção de riquezas necessárias, utilitárias e vo-
luntárias, bem como de uma melhor distribuição das mes-
mas; se podemos afirmar que as meditações e as pesquisas
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concluíram estar no cerne de todo o descontentamento


de tôda a inquietação da sociedade massificada o proble-
ma dos equilíbrios das estruturas econômicas; se podemos
afirmar que a tônica do mundo atual é o "hommo econo-
micus", como foi na época do liberalismo "o hommo po-
liticus" e que a preocupação do administrador, do esta-
dista contemporâneo é eminentemente de ordem econô-
mica e mais, que o êxito político se reduz a um problema
de "caixa" podemos afirmar, também, que o fato jurídico
e o fato político ainda preponderam sôbre o fato econô-
mico, condicionando-o e não sendo condicionado como
raciocínios distorcidos, interêsses conjunturais ou um pro-
cesso de informação e de formação de valôres superados
pretendem.
Na realidade, está ocorrendo presentemente uma
visão deformada da verdade científica, e confunde-se o
problema de comunicação, de informação aonde o tema
econômico prepondera como tônica monocórdica. Se o
objetivo atual e imediato do homem é superar suas con-
dições chamadas de subdesenvolvimento, procurando uma
integração total nos benefícios da sociedade moderna, se a
utopia dos pensadores antigos está sendo descortinada e
a sociedade humana, apesar dos pesares, caminha para
ela sôbre o empuxe do progresso científico, havemos de
convir que a preponderância do fato econômico é super-
ficial, episódica e imediatista como já foi no passado a
preponderância do fato ético e mais tarde a preponderân-
cia do fato político.
Libertado o homem de outros grilhões que lhe en-
travavam o pleno exercício de sua condição biológica de
ser racional dedicou-se êle inconscientemente a usufruir
em sua plenitude o produto de seu trabalho orientado por
sua inteligência. Em resumo, usufruir o produto da sua
criação que ocorre através do domínio das fôrças da na-
tureza e sua conseqüente transformação.
Êste status psicológico somado ao processo de condi-
cionamento ético determinado pelas já assinaladas con-
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quistas da técnica, vão determinando aparentemente a


prevalência do técnico e do econômico sôbre o jurídico e
sôbre o político. Daí surge a idéia errônea de que tecno-
cracia se confunde com o absolutismo da economia polí-
tica. Tal raciocínio rudimentar e primitivo a ser verda-
deiro, nos levaria a um caos institucional, pois um Estado
governado apenas por leis de fatos econômicos ou elabo-
radas simplesmente por economistas sem a sensibilidade e
principalmente sem a técnica e sem a visão científica es-
pecializada do politicólogo e do jurista, seria um Estado
inviável.
Passando o fato econômico a preponderar tal como
moderna mente ocorre e sendo o objetivo das normas re-
gulamentadoras e indispensáveis ao funcionamento da so-
ciedade politicamente organizada, passará êle a ser neces-
sàriamente institucionalizado e regulamentado. Última
ratio passará o fato econômico e a se adaptar a uma nor-
ma jurídica escrita que lhe dará forma eficácia e obriga-
toriedade e passará também a ser condicionada pela di-
nâmica do fato político que limitará a intensidade de sua
aplicação.
O que se confunde é a participação dos cientistas da
economia nos esquemas de decisão governamental em
todos os escalões influenciando-os e inspirando-os. Entre-
tanto, a realidade é que tendo o homem contemporâneo
como meta a prosperidade individual como produto da
prosperidade coletiva, e que a prosperidade coletiva para
ser alcançada requer a reformulação das relações entre o
capital e o trabalho, da distribuição e redistribuição do
lucro, do planejamento da produção, do contrôle da
circulação, da contenção do poder econômico, do contrôle
e orientação das economias familiares e individuais, nada
mais simplório e elementar do que se aceitar de bom
grado e como uma necessidade premente a participação
da ciência econômica na elaboração dos planos de govêr-
no e que se dê a êste govêrno um instrumental científico
da macro e da microeconomia, e que sejam acolhidos os
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economistas de braços abertos como assessôres do politi-


cólogo e do jurista numa simbióse benéfica ao bem-estar
social.
Por outro lado, a ação coercitiva do Estado requer
uma infcrmação especializada de seus dirigentes no que
concerne aos fatos econômicos, e esta ação coercitiva vai
fatalmente atraindo para o Estado a ação empresarial.
Isto é, o Estado aVOca a si a produção, a distribuição de
certos bens e quanto mais planeja esquemas e programas
de produção, mais necessita da opinião dos economistas.
Entretanto, conforme já foi dito acima, esta realidade gera
a premência de serem equacionados os fatos econômicos
em normas jurídicas. Então quem preponderá? A política?
O fato econômico? Ou o fato jurídico condicionado ao fato
político através do processo de elaboração legislativa que
seja qual fôr êle não se liberta nunca da realidade social e
do comportamento ético do grupo que detém a compe-
tência para legislar?
A realidade é que o homem vive no estado de direito,
o que significa a supremacia absoluta do jurídico e con-
seqüentemente do fato jurídico sôbre qualquer outro fato
social. Mister se faz, não confundir os fatôres que influem
e influenciam no objetivo da lei, na criação da atividade
política, fatôres êstes colocados sempre em escalão infe-
rior se bem que de influência decisiva. O que se pode obser-
var no mundo atual é que enquanto a economia celere-
mente se organizou de forma científica e passou como tal
a ser acreditada após a sua aceitação pelos textos legais,
a Ciência Política, a mais nova das ciências ainda enfren-
ta uma onda de preconceitos dos políticos empíricos e custa
a se afirmar como processo de influência nos escalões de
govêmo. Êstes já aceitam o abandono do empirismo dian-
te do fato econômico mas ainda relutam diante das leis
da ciência política, não se curvando a elas e continuando
as suas práticas e formulações empíricas. Mas, o acelera-
mento dos estudos racionais, quer teóricos, quer experi-
mentais e a formulação de leis científicas no campo da
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ciência política, o êxito que a técnica vem obtendo paula-


tinamente sôbre a improvisação, nos vislumbram para um
futuro não distante a aceitação integral da Ciência Polí-
tica como norma a presidir e orientar a decisão, e não
como simples ciência de catalogar e interpretar a poste-
riori o fato social e político criado ao sabor das impro-
visações.
No entanto, em se tratando de ação política, ação
administrativa em qualquer dos campos das atividades'
sociais, e seja qual fôr a meta a ser alcançada pelo homem,
em sociedade politicamente organizada, nada se consegue
sem uma norma de conduta geral e obrigatória amparada
pela coerção artificial que só a lei lhe dá. E a lei é fato
jurídico. A lei é a cristalização dos usos e costumes. A lei
é o instrumento do político, do administrador, do econo-
mista, do professor, enfim, todos os que labutam numa
sociedade, seja para torná-la livre, seja para torná-la prós-
pera. Ela é tão necessária como o ar o é para a sobrevi-
vência biológica. Daí a necessidade de se desfazer o equí-
voco cuja generalização poderá acarretar sérios prejuízos
aos estados contemporâneos. O que prepondera é o fato
jurídico e o fato político. O fato econômico é desejável e
indispensável mas desde que respeite a modelagem de-
terminada pelos dois últimos.

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