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TERAPIA COGNITIVA:

O CASO SALLY
Terapeuta cognitiva – Judith Beck

TTP3 – Abordagem Cognitiva


Curso de Psicologia
Profa. Emília Modesto
MODELO COGNITIVO – TERAPIA
COGNITIVA: O CASO SALLY

 A hierarquia da cognição:

Crenças Nucleares

Crenças Intermediárias (regras, atitudes
pressupostos)

Situação

Pensamentos Automáticos

Reação (emocional, comportamental, fisiológica
O CASO SALLY

 Sally, 18 anos, é uma estudante universitária de


primeiro ano que buscou terapia devido à tristeza,
ansiedade e solidão, persistentes.

- Sua terapeuta de admissão verificou que ela sofria de


um episódio depressivo maior de severidade
moderada.

- Tal episódio iniciou durante o primeiro mês, na


Faculdade, quatro meses antes de sua entrada em
terapia.
O CASO SALLY

 A maioria das perguntas feita a Sally, na avaliação


inicial, foi de perguntas padrão Entrevista de Triagem.

 Porém várias outras foram acrescentadas para que o


terapeuta pudesse começar a formar uma conceituação
cognitiva (anamnese e hipótese diagnóstica).

- A terapeuta perguntou a Sally quando ela se sentia mais


angustiada – em que situações e/ou momentos do dia.

• Respondeu que se sentia pior na hora de dormir, deitada


na cama, tentando adormecer.
O CASO SALLY

 A terapeuta fez as seguintes perguntas-chave:

- O que pensa nesses momentos?


- Que pensamentos e/ou imagens específicos você
tem?.

• Sally respondeu:

“Eu nunca vou conseguir terminar o meu trabalho de


conclusão de curso. Provavelmente vou perder e ser
reprovada. Nunca vou conseguir fazer nada na vida”.
O CASO SALLY

 A paciente também relatou uma imagem, um pensamento


automático que vinha à sua mente em lampejos:

• Ela se via curvada pelo peso de uma mochila, andando


sem direção, e humilhada e desesperada.

- No transcorrer da terapia, a terapeuta de Sally


completa sua conceituação.
- A terapeuta organiza sua compreensão, através de:

1. Uma Minuta Resumo de Caso.


2. Diagrama de Conceituação de Caso.
AS CRENÇAS CENTRAIS DE SALLY

 Quando criança, Sally tentou dar sentido a si


mesma, aos outros e ao seu mundo.

 Ela aprendeu e construiu suas crenças centrais:

- Através de suas próprias experiências

- Por meio de interações com outros

- Através de observação direta, do seu mundo, por


intermédio de mensagens explícitas e implícitas
dos outros a ela.
AS CRENÇAS CENTRAIS DE SALLY

 A paciente tinha um irmão mais velho, ela


comparava seu desempenho com o dele.

• Geralmente perdia, nessas comparações.

• Percebeu, desde cedo, que não faria nada tão


bem quanto ele.
• Começou a acreditar, embora não falasse
sobre isso, que era incapaz e inferior.

 Sally frequentemente pensava “Eu não sei desenhar


tão bem”, “Ele pedala a bicicleta melhor do que eu”, “Eu
jamais serei tão boa leitora quanto ele”.
AS CRENÇAS CENTRAIS DE SALLY

 Nem todas as crianças com irmãos mais velhos


desenvolvem esses tipos de crenças disfuncionais.

 Mas as idéias/pensamentos de Sally foram


reforçadas por sua mãe, que a criticava com
frequência:

- “Você fez um trabalho horrível arrumando o seu quarto.”


- “Você não sabe fazer nada direito?”
- “Seu irmão trouxe um boletim bom. Mas você? Você
nunca será nada.”
AS CRENÇAS CENTRAIS DE SALLY

 Sally, como a maioria das crianças, colocava


enorme confiança às palavras de sua mãe, achava
que ela quase sempre estava certa. Então, quando:

- A mãe de Sally a criticava implicitamente ou;


- Explicitamente a chamava de incompetente, Sally
acreditava.
AS CRENÇAS CENTRAIS DE SALLY

 No 2º Grau, Sally se comparava aos colegas. Era


estudante acima da média, porém se comparava
apenas com os melhores, e sentia-se inferior.

• Ela tinha pensamentos como “Eu não sou tão boa


quanto eles”, “Eu jamais serei capaz de entender
esse assunto tão bem quanto eles”.

- A idéia de que ela era incapaz e inferior continuou


sendo posta como mais significativa.

- Sally, desconsiderava informações positivas que


contradiziam essas idéias.
AS CRENÇAS CENTRAIS DE SALLY

 Quando Sally recebia uma nota alta em um teste,


pensava para si mesma: “O teste foi fácil.”

- Quando aprendeu balé e se tornou uma das


melhores dançarinas no grupo, pensou:

• “Eu nunca serei tão boa como a minha professora.”

 Sally geralmente fazia interpretações negativas que


confirmavam suas crenças disfuncionais.
AS CRENÇAS CENTRAIS DE SALLY

 Quando a mãe de Sally gritou com ela por tirar um B


em um teste, pensou:

• “Mamãe está certa. Eu sou burra.”

 Sally, interpretava eventos negativos como se


eles demonstrassem suas falhas.

 Quando eventos positivos ocorriam, como ganhar


um prêmio, ela muitas vezes os descontou:

• “Eu tive apenas sorte.”


AS CRENÇAS CENTRAIS DE SALLY

 Esse processo de construção cognitiva levou


Sally a desenvolver uma crença central
negativa sobre si.

- Entretanto, as crenças negativas de Sally não


eram sólidas.

- Seu pai, embora não estivesse perto tanto quanto


sua mãe, em geral era encorajador e a apoiava.

 Quando ele a ensinou a rebater uma bola de


baseball, elogiou os esforços dela. “Essa foi boa...
bom giro... você está pegando.. continue.”
AS CRENÇAS CENTRAIS DE SALLY

 Alguns dos professores de Sally


também elogiavam seu desempenho na
escola.

 Sally teve experiências positivas com amigos. Ela


viu que, se tentasse e se esforçasse arduamente,
poderia fazer algumas coisas melhores do que
seus amigos ou outras pessoas - jogar baseball.

 Sally também desenvolveu uma crença positiva,


de que ela era competente em alguns aspectos.
AS CRENÇAS CENTRAIS DE SALLY

 As crenças centrais/nucleares de Sally sobre si,


seu mundo e sobre outras pessoas eram, em
grande parte, positivas e funcionais.

 Em geral ela acreditava que:

1. As outras pessoas eram amistosas, dignas de


confiança e receptivas.

2. Percebia seu mundo como relativamente seguro,


estável e previsível.
AS CRENÇAS CENTRAIS DE SALLY

 As crenças centrais de Sally sobre si mesma, os


outros e seu mundo eram suas crenças mais
básicas.

 Sally nunca havia articulado essas crenças


nucleares até entrar em terapia.

 Na adolescência, suas crenças centrais mais


positivas foram dominantes:

a. Até que ela se tornou deprimida;


b. Então, suas crenças centrais intensamente
negativas tornaram-se ativadas.
CRENÇAS INTERMEDIÁRIAS:
ATITUDES, REGRAS E PRESSUPOSTOS DE SALLY

 Um pouco mais passíveis de modificação que as


crenças centrais, são as crenças intermediárias de
Sally.

- As atitudes, regras e suposições se desenvolveram


do mesmo modo que as crenças centrais.

- À medida que Sally tentou entender o seu mundo, os


outros e a si mesma, principalmente, através de
interações com sua família e outros significativos,
desenvolveu novas crenças.
CRENÇAS INTERMEDIÁRIAS:
ATITUDES, REGRAS E PRESSUPOSTOS DE SALLY

 As novas crenças estão relacionadas as atitudes, regras


e pressupostos, tais como:

• “Deveria ser excelente em tudo o que eu tento fazer.”


• “Eu deveria sempre dar o melhor de mim.”
• “É terrível desperdiçar o seu potencial.”

 Como ocorreu com suas crenças centrais, Sally não


articulara plenamente essas crenças intermediárias.

 Porém, as suas crenças influenciaram seu


pensamento e orientaram seu comportamento.
CRENÇAS INTERMEDIÁRIAS:
ATITUDES, REGRAS E PRESSUPOSTOS DE SALLY

 No segundo grau, Sally, não se candidatou para o


jornal da escola (embora isso a interessasse) porque
supôs que não escreveria tão bem:

- Sally se sentiu tanto ansiosa antes dos exames, ao


pensar que não se sairia bem, como culpada, ao
pensar que deveria ter estudado mais.

 Quando suas crenças centrais mais positivas


predominaram, ela se viu mais positiva, embora não
acreditasse completamente que era competente.
CRENÇAS INTERMEDIÁRIAS:
ATITUDES, REGRAS E PRESSUPOSTOS DE SALLY

 Sally desenvolveu a suposição:

• “Se eu trabalhar duro, posso superar minhas falhas


e ir bem na escola.”

 No entanto, quando se tornou deprimida, Sally não


acreditou mais nessa suposição e a substituiu pela
crença:

• “Devido às minhas deficiências, eu jamais serei coisa


alguma.”
AS ESTRATÉGIAS DE SALLY

 A ideia de ser incompetente foi muito dolorosa para


Sally.

- Então, ela desenvolveu determinadas estratégias


comportamentais para enfrentar ou compensar o
que encarava como falhas.

- Extraído das suas crenças intermediárias, Sally


trabalhava arduamente na escola e nos esportes.

- Preparava suas tarefas com zelo excessivo e


estudava muito para os testes.
AS ESTRATÉGIAS DE SALLY

 Sally ficava vigilante/atenta para sinais de


inadequação e redobrava seus esforços caso
não conseguisse dominar a fundo alguma coisa
na escola.

- Raramente pedia ajuda aos outros, por temer


que eles reconhecessem a sua inadequação.
OS PENSAMENTOS AUTOMÁTICOS
DE SALLY
 Sally não articulava as crenças centrais e
intermediárias (antes da terapia), entretanto estava
um pouco ciente dos seus pensamentos automáticos
em situações específicas.

 No segundo grau, momento em que ela não estava


deprimida:

- Conseguiu entrar para o time de softball e pensou:


“Eu pedirei ao meu pai para praticar rebate comigo.”
- Falhou em entrar para o time de hockey, ficou
desapontada, mas não autocrítica.
OS PENSAMENTOS AUTOMÁTICOS
DE SALLY
 Na Universidade, Sally tornou-se deprimida
durante seu primeiro ano.

- Quando ela quis jogar uma partida de baseball


informal com colegas do seu alojamento, sua
depressão influenciou seu pensamento:

• “Eu não presto. Eu nem conseguirei acertar na bola.”

- Quando, similarmente, ela recebeu um “C” em um


exame de literatura inglesa, pensou:
• “Eu sou tão burra, provavelmente não passarei nessa
disciplina. Eu jamais vou conseguir me formar.”
OS PENSAMENTOS AUTOMÁTICOS
DE SALLY

 Sally em seus anos de segundo grau não-deprimidos, as


crenças centrais positivas estavam ativadas e ela teve
pensamentos mais positivos, e mais realistas.

 Em seu primeiro ano de Faculdade, porém, suas


crenças negativas predominaram durante sua
depressão, o que a fez:

a. Interpretar as situações de forma muito negativa.


b. Ter pensamentos predominantemente
negativos/distorcidos, e irrealistas.
OS PENSAMENTOS AUTOMÁTICOS
DE SALLY

 Tais pensamentos distorcidos também a levavam a se


comportar de forma autodestrutiva, o que provocou
pensamentos automáticos sobre seu
comportamento.

 Em vez de interpretar sua evitação como um sintoma


da depressão, ela pensou:

• “Eu sou um caso perdido”

 Isso levou a um aumento na disforia e ao


comportamento desadaptativo.
A SEQUENCIA QUE CONDUZIU SALLY À
DEPRESSÃO

 Como Sally tornou-se deprimida?

- As suas crenças negativas ajudaram a predispô-la à


depressão.

- Quando saiu de casa, para a Faculdade, ela teve


várias experiências que interpretou de uma forma
excessivamente negativa.
A SEQUENCIA QUE CONDUZIU SALLY À
DEPRESSÃO

 Como Sally tornou-se deprimida?

- Na primeira semana, em conversa com as calouras


ouviu sobre colocação avançada de aprovação par
entrar no curso e, dos exames que as isentaram do
básico.

 Sally pensou quão superiores essas estudantes são


em relação a ela.
A SEQUENCIA QUE CONDUZIU SALLY À
DEPRESSÃO
 As crenças de Sally a tornaram vulnerável a
interpretar situações de uma forma negativa.

- Ela não questionou seus pensamentos


negativos, mas os aceitou sem críticas.
Pensamentos e crenças isolados, por si só,
não causam a depressão.

- Os sintomas da depressão se estabeleceram e as


cognições negativas influenciaram seu humor.

 A depressão de Sally foi causada por vários


fatores biológicos e psicológicos.
Situação: Sally se sente exausta (desencadeante
fisiológico) quando acorda.

Pensamento automático:
“Estou muito cansada para levantar. Não adianta sair da
cama. Eu não tenho energia para ir à aula ou estudar.”

Emoção: Tristeza

Resposta fisiológica: Peso no corpo

Pensamentos automáticos:
“E se meu professor de química fizer um teste surpresa?
E se ele não me deixar recuperar o teste? E se isso
pesar na minha nota?”[Imagem de uma nota baixa no
seu boletim]

Emoção: Ansiedade

Resposta fisiológica: O coração começa a acelerar.

Situação: Percebe a taquicardia.

Pensamento automático:
“O meu coração está batendo tão rápido. O que há de
errado comigo?”

Emoção: Aumento da ansiedade

Resposta fisiológica: Sente o corpo tenso; o coração
continua a bater rapidamente.

Pensamento automático:
“É melhor eu ficar na cama.”

Emoção: Alívio

Resposta fisiológica: Diminuição da tensão e do
batimento cardíaco.

Comportamento: Fica na cama.

Sally finalmente se levanta, chega à aula com 20


minutos de atraso, e então tem uma série de
pensamentos automáticos sobre estar atrasada e ter
perdido parte da aula expositiva.

Sequência Complexa do Modelo Cognitivo


BIBLIOGRAFIA

• BECK, Judith S. Terapia cognitivo-comportamental:


teoria e prática. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
Cap. 3, pp. 62 - 69.

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