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2ª Prova Diagnóstica – 2019 – 3ª Série

SEDUCE-GO – Português - Ens. Médio

ESCOLA: ________________________ Não vi nela nem um único momento de


Prof.:____________________________ autocomiseração. Não se trata de otimismo demais ou
Nome: ___________________________ de falta de informação sobre a própria saúde. Minha
amiga apenas não tem pena de si e não quer que
tenham pena dela. É um choque para os que chegam
oferecendo consolo. Espera-se de alguém doente que se
deixe abater, que fique triste, que chore muito e com
tudo isso construa uma cama quentinha para receber o
medo e suas consequências. Além disso, qualquer
debilidade preventiva atrai uma solidariedade
reconfortante. O sofrimento costuma ser garanti a de
companhia. Quem abandona um ser que sofre? Ela,
porém, decidiu que não seguirá o modelo coitadinha-
de-mim-eu-tenho-câncer. Está viva, trabalhando,
divertindo-se e seguindo todas as recomendações
médicas para que a doença seja apenas mais um dos
“pedágios da idade”, como ela costuma dizer.
A atitude positiva diante do infortúnio não é
comum, mas é ainda mais impactante porque estamos
falando de uma mulher. Jamais descreveria minha
Leia o texto e, a seguir, responda as questões 1, 2, 3. amiga como uma pessoa frágil, mas certamente como
Pedágios da idade alguém de grande sensibilidade. Frágil e sensível são
Ana Paula Padrão adjetivos bem diferentes, tenho aprendido, e se escrevo
esse texto tentando me livrar de qualquer pieguice é
Ela não corresponde a nenhum dos estereótipos para que ele seja digno de sua protagonista. A coragem
de uma pessoa doente. Doença grave. Aquela que muita que ela demonstra para enfrentar seu destino com
gente não diz o nome. Tinha todos os motivos para tamanha altivez me inspira a apreciar ainda mais a vida
raiva, revolta, inconformismo. Afinal, é boa moça. em seu momento presente e planejar menos o futuro.
Sempre fez tudo que os médicos mandam. Não fuma. Tenho muito orgulho de minha amiga. Gosto,
Consome pouco álcool. Nunca se drogou. Faz exercícios cada vez mais, de quem faz a primeira piada sobre si
físicos. Não guarda rancor. Curte a vida. E é jovem, mesmo, de quem brinca com sua própria condição, de
acaba de passar dos 50 anos! Ainda assim, na hora do quem não arrasta correntes. Ninguém escolhe os
checkup, lá estava o danado. Mieloma múltiplo. Um dos próprios obstáculos, mas podemos decidir como
malvadões. A medula enlouquece e começa a produzir atravessá-los: carregando todo o peso do desafio ou
plasmócitos em excesso, o que pode provocar tumores pairando qual anjo sobre eles.
nos ossos, falência renal e inflamações no coração. Disponível em: https://istoe.com.br/373551_PEDAGIOS+DA+IDADE+/. Acesso em: 07 jan.
2019.
Acho que ela chorou um pouco no início. Não há
quem não se abale diante da notícia de um câncer. D7 Questão 1 –––––––––––––––––––––––––––◊
Depois, focou toda sua energia em providências práticas Assinale a alternativa que traz a tese do texto.
– verificar o que o plano de saúde pagaria, identificar o (A) “Ela não corresponde a nenhum dos estereótipos
melhor médico para a circunstância, estudar o de uma pessoa doente.”.
tratamento. Fez tudo isso em menos de duas semanas. (B) “Não há quem não se abale diante da notícia de um
Desde então, o que mudou é que minha amiga anda câncer.”.
com a bolsa cheia de remédios, pois parte da (C) “Não se trata de otimismo demais ou de falta de
quimioterapia é via oral, e não desgruda de uma garrafa informação sobre a própria saúde.”.
d’água: a hidratação protege os rins. Outro dia me disse (D) “A atitude positiva diante do infortúnio não é
que precisava sair para ajudar uma colega que estava comum.”.
com um problemão. Não pude evitar o ar de espanto. (E) “Ninguém escolhe os próprios obstáculos, mas
Quem é que tem um problemão? Morremos de rir podemos decidir como atravessá-los.”.
juntas! “Eu não tenho problema nenhum, quem tem é a
minha medula e ela vai ter que trabalhar duro para
resolver! Já avisei que a bagunça aqui dentro acabou! ”

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2ª Prova Diagnóstica – 2019 – 3ª Série
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D14 Questão 2 –––––––––––––––––––––––––––◊ redefinir, com urgência, o significado de URGENTE”.


A frase do texto que mostra uma opinião é (Caixa alta, na internet, é grito.) “Parece que as pessoas
(A) “Sempre fez tudo que os médicos mandam.”. perderam a noção do sentido da palavra”, comentou,
quando perguntei por que tinha postado esse protesto/
(B) “Outro dia me disse que precisava sair para ajudar
desabafo no Twitter. “Urgente não é mais urgente. Não
uma colega.”.
tem mais significado nenhum.” Ele se referia tanto ao
(C) “Não pude evitar o ar de espanto.”. urgente usado para anunciar notícias nada urgentes nos
(D) “Frágil e sensível são adjetivos bem diferentes, [...].”. sites e nas redes sociais, quanto ao urgente que invade
(E) “Aquela que muita gente não diz o nome.”. nosso cotidiano, na forma de demanda tanto da vida
pessoal quanto da profissional. Depois disso, Gabriel
D2 Questão 3 –––––––––––––––––––––––––––◊ passou a postar uns “tuites” provocativos, do tipo:
O termo “ela” que inicia o texto, “Ela não corresponde “Urgente! Acordei” ou “Urgente: hoje é sexta-feira”.
a nenhum dos estereótipos de uma pessoa doente. ”, A provocação é muito precisa. Se há algo que se
refere-se à perdeu nessa época em que a tecnologia tornou
(A) doença grave. possível a todos alcançarem todos, a qualquer tempo, é
o conceito de urgência. Vivemos ao mesmo tempo o
(B) minha amiga.
privilégio e a maldição de experimentarmos uma
(C) muita gente.
transformação radical e muito, muito rápida em nosso
(D) sua energia. ser/estar no mundo, com grande impacto na nossa
(E) boa moça. relação com todos os outros. Como tudo o que é novo, é
previsível que nos atrapalhemos. E nos lambuzemos um
pouco, ou até bastante. Nessa nova configuração,
D16 Questão 4 –––––––––––––––––––––––––––◊
parece necessário resgatarmos alguns conceitos, para
Leia o texto e responda. que o nosso tempo não seja devorado por banalidades
como se fosse matéria ordinária. E talvez o mais urgente
desses conceitos seja mesmo o da urgência.
[...]
Que tipo de efeito terá sobre as novas gerações a
ideia de que não há limites para alcançar, ocupar e
consumir o tempo/corpo dos pais e amigos e mesmo de
desconhecidos? Assim como não há limites para ter o
próprio tempo/corpo alcançado, ocupado e consumido?
[...]
A grande perda é que, ao se considerar tudo
urgente, nada mais é urgente. Perde-se o sentido do
Disponível em: https://blogterralivre.wordpress.com/category/meio-ambiente/. Acesso que é prioritário em todas as dimensões do cotidiano. E
em: 14 fev. 2019. viver é, de certo modo, um constante interrogar-se
A ironia do texto está no fato de sobre o que é importante para cada um. Ou, dito de
(A) o homem desrespeitar a natureza. outro modo, uma constante interrogação sobre para
(B) o homem mandar cortar as árvores. quem e para o quê damos nosso tempo, já que tempo
(C) o papel ser feito a partir da celulose das árvores. não é dinheiro, mas algo tremendamente mais valioso.
(D) o homem mandar cortar as árvores para fazer o Como disse o professor Antônio Candido, “tempo é o
código florestal. tecido das nossas vidas”.
Essa oferta 24 X 7 do nosso corpo simbólico para
(E) o empregado com a serra olhar de modo estranho
todos os outros – e às vezes para qualquer um – pode
para o outro homem.
ter um efeito bem devastador sobre a nossa existência.
Um que sequer é escutado, dado o tanto de barulho que
há. Falamos e ouvimos muito, mas de fato não sabemos
Leia o texto e responda as questões 5, 6 e 7. se dizemos algo e se escutamos algo. Ou se é apenas
É urgente recuperar o sentido de urgência ruído para preencher um vazio que não pode ser
Eliane Brum
preenchido dessa maneira.
Dias atrás, Gabriel Prehn Britto, do blog “Gabriel Será que não é este o nosso mal-estar?
quer viajar”, tuitou a seguinte frase: “Precisamos
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Viver no tempo do outro – de todos e de qualquer familiar e pode levar à perda de autoridade. Eu só
um – é uma tragédia contemporânea. chamo meus empregados pelo sobrenome: Ribeiro,
Disponível em: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/
noticia/2013/04/e-urgente-recuperar-o-sentido-de-urgencia.html. Acesso em: 10 fev.
Matos, Souza... Só. E quero que o senhor me chame de
2019. Sr. Mendonça. Bem, agora quero saber: Qual é o seu
nome? O empregado responde:
D7 Questão 5 –––––––––––––––––––––––––––◊ − Meu nome é João Amorzinho.
Qual alternativa traz a tese defendida pela autora do − Tá certo, João. Pode ir agora...
texto? Disponível em: https://www.piadas.com.br/piadas/piadas-de-empregados/piada-do-
chefe-e-o-sobrenome-do-funcionario. Acesso em: 14 fev. 2019.
(A) Vivemos uma transformação radical.
(B) A necessidade de resgatar o sentido de urgência. O efeito de humor da piada fica evidente no momento
(C) É previsível que nos atrapalhemos com o novo. em que o
(D) Tempo não é dinheiro, mas é algo valioso. (A) novo funcionário usa um tom informal ao se
(E) Viver no tempo do outro é uma tragédia apresentar.
contemporânea. (B) chefe é mal-educado ao falar com o novo
funcionário.
(C) chefe é insistente em saber o nome completo do
D14 Questão 6 –––––––––––––––––––––––––––◊
novo funcionário.
De acordo com o texto, a opinião do blogueiro Gabriel (D) funcionário revela o seu nome completo.
Prehn Britto, quanto à ideia de urgência, está presente
(E) chefe manda o funcionário voltar ao trabalho.
em
(A) “‘Urgente não é mais urgente. Não tem mais
significado nenhum’.”
(B) “Se há algo que se perdeu, é o conceito de Leia o texto e responda as questões 9, 10 e 11.
urgência.”. SÃO BERNARDO
(C) “Essa oferta 24x7 do nosso corpo simbólico para [fragmento]
todos os outros [...].” Nove horas no relógio da sacristia.
(D) “[...] ao se considerar tudo urgente, nada mais é O Nordeste começou a soprar, e a porta bateu
urgente.” com fúria. Mergulhei os dedos nos cabelos.
− Que estás fazendo, peste?
(E) “Viver no tempo do outro (...) é uma tragédia
O cabrito fugiu.
contemporânea.”.
Nem sei quanto tempo estive ali, em pé. A minha
raiva se transformava em angústia, a angústia se
D16 Questão 7 –––––––––––––––––––––––––––◊ transformava em cansaço.
Ao tuitar “Urgente! Acordei” ou “Urgente: hoje é − Para quem era a carta?
sexta-feira”, a provocação de Gabriel pretende ser E olhava alternadamente Madalena e os santos
(A) descabida. do oratório. Os santos não sabiam, Madalena não quis
(B) mentirosa. responder.
(C) agressiva. O que me espantava era a tranquilidade que havia
(D) irônica. no rosto dela. Eu tinha chegado fervendo, projetando
matá-la. Podia viver com a autora de semelhante
(E) falsa.
maroteira?
À medida, porém, que as horas se passavam,
D16 Questão 8 –––––––––––––––––––––––––––◊ sentia-me cair num estado de perplexidade e covardia.
Leia o texto e responda. As imagens de gesso não se importavam com a
Empresa séria minha aflição. E Madalena tinha quase a impassibilidade
O gerente chama o empregado recém-admitido à delas. Por que estaria assim tão calma?
sua sala e inicia o diálogo: Afirmei a mim mesmo que matá-la era ação justa.
− Qual é o seu nome? Para que deixar viva mulher tão cheia de culpa? Quando
− João − responde o empregado. ela morresse, eu lhe perdoaria os defeitos.
− Olhe − explica o gerente − eu não sei em que As minhas mãos contraíam-se, moviam-se para
espelunca você trabalhou antes, mas aqui nós não ela, mas agora as contrações eram fracas e espaçadas.
chamamos as pessoas pelo seu primeiro nome. É muito − Fale, exclamei com voz mal segura.
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− Para quê? D10 Questão 10 –––––––––––––––––––––––––◊


− Há uma carta. Eu preciso saber, compreende? O narrador do texto é do tipo personagem; sua
Meti a mão no bolso e apresentei-lhe a folha, já narrativa é em 1ª pessoa e fortemente marcada pela
amarrotada e suja. Madalena estendeu-a sobre a mesa, subjetividade, pela emoção.
examinou-a, afastou-a para um lado.
Essas características são melhor exemplificadas pela
− Então?
alternativa
− Já li.
(A) “Nove horas no relógio da sacristia.”.
A vela acabou-se. Acendi outra e fiquei com o
fósforo entre os dedos até queimar-me. (B) “Madalena estendeu-a sobre a mesa, [...].”.
− Diga alguma coisa. (C) “E olhava alternadamente Madalena e os santos do
Pareceu-me que havia ali um equívoco e que, se oratório.”.
Madalena quisesse, tudo se esclareceria. O coração (D) “O coração dava-me coices desesperados, [...].”.
dava-me coices desesperados, desejei doidamente (E) “E Madalena tinha quase a impassibilidade delas.”.
convencer-me da inocência dela.
− Para quê? Murmurou Madalena. Há três anos
vivemos uma vida horrível. Quando procuramos D2 Questão 11 –––––––––––––––––––––––––◊
entender-nos, já temos a certeza de que acabamos
Em “...afastou-a para um lado.”, o termo “a”, que
brigando.
aparece complementando o verbo, refere-se a
− Mas a carta?
(A) ela.
Madalena apanhou o papel, dobrou-o e entregou-
me: (B) carta.
− O resto está no escritório, na minha banca. (C) folha.
Provavelmente esta folha voou para o jardim quando eu (D) mulher.
escrevia. (E) Madalena.
− A quem?
− Você verá. Está em cima da banca. Não é caso
para barulho. Você verá. D2 Questão 12 –––––––––––––––––––––––––◊
− Bem.
Leia o texto e responda.
Respirei. Que fadiga!
− Você me perdoa os desgostos que lhe dei, Os animais vivem se mexendo
Paulo? Há animais que não têm pernas, mas conseguem
− Julgo que tive as minhas razões. ir pra frente, apertando o corpo contra o chão e dando
− Não se trata disso. Perdoa? um impulso.
Rosnei um monossílabo. A minhoca é comprida e fininha e, pra se mexer,
− O que estragou tudo foi esse ciúme, Paulo. encolhe o corpo e depois o estica. Ao se mover dentro
RAMOS, Graciliano. São Bernardo. 12.ed. São Paulo, Martins, 1970. p. 218-9. da terra, faz furos que vão deixando a terra fofinha, já
que é bom para a agricultura.
Nordeste: vento que sopra desse ponto.
As cobras se movem mexendo uma parte do
Maroteira: velhacaria, malandrice, patifaria.
corpo pra cá, parte pra lá, parte pra cá, parte pra lá ...
Perplexidade: qualidade ou estado de quem está
como se escrevessem várias vezes a letra S. O caracol
admirado, espantado, atônito.
vai soltando uma gosminha que o ajuda a se mover,
Impassibilidade: qualidade de impassível, indiferente à
deslizando aos poucos.
dor ou à alegria. FERREIRA, Marina Baird. Os animais vivem se mexendo. In: O Aurélio com a turma da
Mônica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003. p. 86. *Adaptado: Reforma Ortográfica.

D10 Questão 09 –––––––––––––––––––––––––◊ Na frase “O caracol vai soltando uma gosminha que o
Que fato deu início ao enredo desse fragmento? ajuda a se mover...”, o termo “que” refere-se à/ao
(A) A carta que Madalena estava escrevendo. (A) terra.
(B) O relógio da sacristia ter marcado nove horas. (B) corpo.
(C) O vento Nordeste começar a soprar. (C) caracol.
(D) A porta ter batido com força. (D) minhoca.
(E) gosminha.
(E) O cabrito ter fugido.

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