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ERGOMOTRICIDADE

Autoria: Rodrigo Canto Moreira

1ª Edição
Indaial - 2020

UNIASSELVI-PÓS
CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI
Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito
Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC
Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090

Reitor: Prof. Hermínio Kloch

Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol

Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD:


Carlos Fabiano Fistarol
Ilana Gunilda Gerber Cavichioli
Jóice Gadotti Consatti
Norberto Siegel
Julia dos Santos
Ariana Monique Dalri
Marcelo Bucci

Revisão Gramatical: Equipe Produção de Materiais


Diagramação e Capa:
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Copyright © UNIASSELVI 2020


Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri
UNIASSELVI – Indaial.

Impresso por:
Sumário

APRESENTAÇÃO.............................................................................5

CAPÍTULO 1
ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS,
CONCEITOS E MÉTODOS AVALIATIVOS.......................................7

CAPÍTULO 2
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE
DE TRABALHO APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E
FISIOLOGIA HUMANA....................................................................67

CAPÍTULO 3
ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO
DA SAÚDE E BEM-ESTAR...........................................................125
APRESENTAÇÃO
A Ergomotricidade faz parte do cotidiano do trabalho humano dia após
dia. Discute a relação entre a psicomotricidade e ergonomia, observando o ser
humano desde sua origem até o seu estado de desenvolvimento neuropsicomotor
atual e o ambiente em que o indivíduo é exposto como um grande contribuinte
para mudanças particulares.

A constituição da ergomotricidade como ciência parte de pura aquisição de


conhecimento, análise e intervenção, um ciclo que não deve se esgota até que
se atinja o bem-estar pleno do trabalhador. A partir da prática de aquisição de
conhecimento, a ótica do profissional atuante em ergomotricidade se expande em
direção a soluções eficazes para a prevenção e promoção da saúde. Por tanto,
no presente material didático, inicia-se essa busca pelo conhecimento para que
a percepção dessa mais nova vertente da psicomotricidade seja completamente
dominada pelos psicomotricistas.

A análise dos fatores que envolvem as peculiaridades do mundo do trabalho,


faz os psicomotricistas descobrirem que ainda há uma grande área científica a ser
explorada e, isso motiva a busca de soluções para os diversos problemas que o
labor pode trazer para a saúde física e psicológica.

Durante a simples observação é possível perceber que o mundo do trabalho


funciona como uma engrenagem. A ergomotricidade entra neste contexto como
uma peça essencial para a manutenção e/ou a recuperação da harmonia entre
o corpo e a mente dos trabalhadores. Agregado o bem-estar do trabalhador no
ambiente de trabalho, o bom desempenho empresarial vem à tona e revela que
não há resultado coletivo se dentro da engrenagem (empresa) uma peça não
funciona bem (trabalhador).

Durante o processo de intervenção o psicomotricista humaniza a empresa.


Traz em sua bagagem a habilidade de “manipular” o corpo e a mente em
benefício da satisfação mútua entre empregado e empregador. A atuação em
ergomotricidade vai desde a conscientização de boas práticas no trabalho até a
aplicação de métodos que direcionem o trabalhador a olhar para o seu interior.

Durante toda a presente obra, a missão de avaliar quais são as prioridades


demandas que o ambiente laboral carrega é sempre ressaltada. Afinal, a atuação
da psicomotricidade no trabalho não surtirá efeitos se não houver um estudo
prévio da situação da empresa e do trabalhador. Cada caso demanda de uma
intervenção distinta, pois cada empresa tem suas peculiaridades.
Cada capítulo apresenta uma dimensão do trabalho que deve ser alvo da
observação da psicomotricidade devido à influência que tem sobre a saúde e
bem-estar do trabalhador. O ambiente de trabalho, as tarefas/atividades às quais
o trabalhador está exposto (o modo de executar seu trabalho), e os aspectos
físicos e psicológicos do trabalho.

O Capítulo 1 busca apresentar a ergomotricidade como área de estudo e


intervenção da psicomotricidade, envolvendo a aplicação de métodos e técnicas
integrativas voltadas ao bem-estar físico e mental no ambiente laboral; além
de apresentar as normas que regem o cuidado em prevenção da saúde do
trabalhador e sugerir metodologias de avaliação que auxiliam no conhecimento do
seu estado de saúde física e mental.

O Capítulo 2 convida o leitor a entrar na empresa e observar a influência do


ambiente de trabalho na saúde dos trabalhadores. Neste momento, o mobiliário,
o habitat, a rotina, a imposição do tempo, os modos de produção, as sobrecargas
físicas que a atividade exige são foco de análise para que seja possível o
entendimento de que em um ambiente doente não há como salvaguardar a
saúde dos trabalhadores, por tanto, não há resultado nas intervenções da
ergomotricidade se antes o psicomotricista não estiver atento para a causa dos
problemas físicos e psicológicos dos trabalhadores.

O Capítulo 3 busca elucidar os prejuízos físicos e psicológicos que o


profissional da saúde comumente se depara em uma organização (empresa),
apresentando o modo de trabalho/atividade que está relacionado às patologias
do trabalho. Ao mesmo tempo, apresenta as possíveis intervenções de
ergomotricidade envolvendo a biomecânica corporal e os exercícios básicos que
contribuem para a proteção e promoção da saúde.
C APÍTULO 1
ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE:
ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS E
MÉTODOS AVALIATIVOS

A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes


objetivos de aprendizagem:

• Conceituar a ergomotricidade enquanto ciência.


• Conhecer a legislação que trata sobre a regulamentação da ergonomia e a
aplicação de normas legais.
• Indicar métodos de avaliação em ergomotricidade e como executá-los.
• Perceber a aplicação do conceito da ergomotricidade no cotidiano.
• Identificar como a ergonomia deve ser aplicada em consonância a regulamentos
e padrões normativos.
• Compreender quando e quais métodos de avaliação em ergomotricidade
devem ser aplicados em diversas situações cotidianas.
ErGomoTriCiDADE

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ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

1 CONTEXTUALIZAÇÃO
O presente capítulo traz como primeiro tema abordado a apresentação da
ergomotricidade como área do conhecimento responsável pela integração física e
psicocognitivas no trabalho; como o conceito vem sendo trabalhado no cotidiano
da psicomotricidade, que atua em consonância com seus princípios adaptados
aos trabalhadores e ao seu cotidiano.

Para introduzir o tema, apresentam-se os princípios da ergonomia junto a


psicomotricidade como forma de elucidar a origem da ergomotricidade no estudo
do indivíduo, por meio de seu movimento e da interação social no trabalho.
Reafirma-se que as interações cognitivas, sensoriomotoras e psíquicas no
desenvolvimento da expressão das capacidades corpóreas do movimento
devem fazer parte da dimensão psicossocial. Sinaliza-se que os conhecimentos
psicofisiológicos, antropológicos e inter-relacionais permitem que o ato motor seja
o mediador entre o sujeito com seu ambiente interno e externo.

A ergonomia, por ser um dos pilares da ergomotricidade, precisa ser


conhecida a fundo pelo ergomotricista. Seus conceitos estão explícitos nas leis
que regem as normas ergonômicas. A etiologia da palavra “ergonomia” se refere
a leis (nomia) do trabalho (ergo), e o psicomotrista que acessa este universo deve
conhecer da lei que dá base à atividade ergonômica, norteando os parâmetros
mínimos de conforto e segurança ao adaptar o trabalho ao homem (BRASIL,
2002).

Para o psicomotricista que atua no ambiente de trabalho, o conhecimento das


normas ajuda na identificação de quais são os principais fatores que interferem na
integração entre o corpo e a mente e como os padrões ergonômicos podem ajudar
a minimizar os efeitos críticos do trabalho na saúde humana, facilitando, assim, o
exercício da psicomotricidade junto ao trabalhador. Em tempo, o conhecimento
das normas impede que fatos e correlatos no cotidiano do trabalho possam ser
um entrave para uma boa resposta do trabalhador às intervenções propostas na
psicomotricidade.

Para o desfecho do presente capítulo, contribuições de áreas afins à saúde


do trabalhador, são apresentadas através da discussão de medidas de avaliação
que podem ser usadas pela psicomotricidade no trabalho. Estas avaliações
norteiam a posterior intervenção ao fazerem o diagnóstico do estado de saúde
físico e mental dos trabalhadores e, em certos casos, da empresa como um todo.
São métodos básicos e de avaliação superficial, porém credíveis e com ampla
utilização na área da saúde.

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ErGomoTriCiDADE

2 ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE,
CONCEITOS E DEFINIÇÕES
Para iniciar o estudo de toda e qualquer ciência, torna-se imprescindível
esclarecer quais são os seus princípios através de seus conceitos e definições
legais e metodológicas. Para a ergonomia, os trabalhadores são o centro das
atenções e o trabalho é o fator a ser modificado. Em alguns casos, hábitos dos
trabalhadores também fazem parte do estudo da ergonomia que está sempre
atenta na relação entre o homem e o trabalho.

Dentro da ergonomia, outras ciências buscam solucionar problemas


cotidianos com o intuito de facilitar a execução das tarefas diárias. Algumas tarefas
extrapolam os muros das empresas e profissionais de diversas áreas utilizam
os conceitos de ergonomia para propor novas soluções que trazem conforto a
população de um modo geral, como quando um móvel multiuso é criado ou um
relógio resistente a impactos é aprimorado constantemente com outras funções.

Falar de ergonomia, em muitos casos, é o mesmo que falar sobre inovação.


Por tanto, nem sempre a ergonomia está organizada o que está fora de lugar
ou transformando utensílios inúteis em algo útil. Para a ergonomia, mudanças
também podem ter origem da necessidade constante do ser humano em ser cada
vez melhor e estar em lugares cada vez mais agradáveis, com ferramentas cada
vez mais avançadas.

2.1 CONSTRUINDO O CONCEITO DE


ERGONOMIA
De acordo com Rebelo (2017), a ergonomia deve ser observada de modo
abrangente e multidisciplinar e, para que seja possível essa compreensão, todas
as dimensões que a etiologia da palavra consegue captar. Muitos, que ainda não
conseguem refletir sobre a existência da ergonomia no cotidiano do ser humano,
traduzem a palavra ergonomia em seu sentido literal etimológico, oriundo do
grego ergonomus, que significa ergo (trabalho) e nomus (lei).

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ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

Vale a reflexão: será que a ergonomia está voltada


exclusivamente para o trabalho? Será possível encontrar ergonomia
no dia a dia de cada indivíduo? O estudo da ergonomia sempre leva
ao ambiente de trabalho de um determinado indivíduo? A resposta é
não!

Quando a palavra “ergonomia” traz em sua etiologia “trabalho”,


o leitor deve ficar atento para observar que não há referência direta
ao labor, mas sim a toda e qualquer atividade. Por tanto, o conceito
de ergonomia faz mais sentido se observado enquanto norma/lei
das atividades cotidianas, que possui em seu escopo um caráter
multidisciplinar e multiprofissional.

A ergonomia é utilizada de forma corriqueira para designar que determinado


objeto, espaço físico ou posicionamento corporal estão em perfeita harmonia
com o ambiente. Esta harmonia é definida por normas e leis que regulamentam
o uso de padrões que definem o modo onde e o que deve envolver as atividades
cotidianas. Afinal, habitualmente os anúncios de cadeira, canetas, mesas,
mochilas, dentre outros, trazem a palavra “ergonômico” para dar ao observador a
impressão fácil utilização, boa adaptação e, principalmente, conforto.

A palavra “conforto” é amplamente utilizada pelos ergonomistas devido à


ideia de promoção do bem-estar das pessoas ao utilizarem um objeto ou durante
o acesso a um ambiente agradável. O objetivo da ergonomia vai além do conforto
por buscar maximizar a saúde e a segurança dos membros de um determinado
ambiente, o que nem sempre é confortável para aqueles que já possuem vícios
posturais e adaptação corporal a estes vícios (REBELO, 2017).

Órgãos internacionais como Organização Internacional do Trabalho (OIT)


mencionam que a ergonomia existe desde que o homem adaptou os seus
primeiros instrumentos de caça, suas ferramentas de trabalho, com a intenção
de aperfeiçoar as atividades laborais humanas. Desse modo, a ergonomia é um
conjunto de tecnologias que procura ajustar, de forma confortável e saudável, o
trabalho ao homem (COUTO, 2014).
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ErGomoTriCiDADE

Para conceituar ergonomia, faz-se necessário observar a evolução da visão


dos ergonomistas no curso da história. O conceito mais antigo remete à década
de 1940, em que, na Inglaterra, a Ergonomics Research Society estabeleceu o
primeiro conceito que afirmou que “ergonomia é o estudo do relacionamento entre
o homem e o seu trabalho”. A frase fora atribuída a Kenneth Frank Hywel Murrell
no ano de 1949 (LÁUAR et al., 2010; IIDA; BUARQUE, 2016).

Para ter acesso a outros conteúdos da Ergonomics Research


Society, acesse o site https://ergonomics.org.uk//.

Atualmente, todos os conceitos estabelecidos ressaltam o trabalho a serviço


do homem e a adaptação do ambiente como forma de intervenção. No Brasil,
um dos conceitos mais utilizados pelos ergonomistas é oriundo das normas
que regulamentam e fornecem orientações sobre procedimentos obrigatórios
relacionados à segurança e à saúde no ambiente laboral, mais especificamente
daquela conhecida como Norma Regulamentadora nº 17 (NR-17).

O primeiro item da NR-17 (17.1) indica a finalidade do documento e


se confunde com a finalidade geral da ergonomia, que tem como objetivo
“estabelecer parâmetros que permitam a adaptação das condições de trabalho
às características psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar um
máximo de conforto, segurança e desempenho eficiente” (BRASIL, 2002, s.p.).

Para Iida e Buarque (2016), a ergonomia busca adequar o trabalho ao


ser humano, conceito muito similar ao proposto pela NR-17. Por tanto, para a
ergonomia, o conforto não está dissociado da saúde e da segurança do indivíduo,
tampouco os fatores físicos e psicológicos devem ser desconsiderados.

Hoje, na prática, o fator educacional e instrutivo do ser humano para lidar


com ambientes ergonômicos é tão importante quanto a adequação do trabalho
ao homem. Pouco se fala sobre a instrução do ser humano quanto ao seu
comportamento diante do ambiente. Em contrapartida, a ergonomia deve
considerar que a relação entre o ambiente e o indivíduo deve ser harmônica,
e não há possibilidade de harmonia se o ambiente estiver em consonância às
normas ergonômicas e o indivíduo não souber como agir diante de adaptações.

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ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

Segundo Couto (2014), graças ao estudo da ergonomia é possível encontrar


melhores formas de trabalhar com maior produtividade nas atividades laborais.
A prática desta área de conhecimento permite o planejamento de móveis,
equipamentos eletrônicos, carros, até mesmo de uma casa ou de sala onde
funciona um escritório, com um mínimo de riscos à saúde.

Para que se tenha uma compreensão adequada sobre o campo de atuação


da ergonomia, os elementos que constituem a prática ergonômica também devem
ser compreendidos. Assim, deve-se vislumbrar quatro elementos que dão base
aos estudos ergonômicos: elemento físico; elemento sensorial; elemento
psicocognitivo; e elemento ambiental.

Para que se possa entender melhor como cada elemento é importante para o
estudo da ergonomia, a rotina de um repositor de estoque de supermercado é um
ótimo exemplo.

FIGURA 1 – REPOSITOR DE ESTOQUE EM ATIVIDADE

FONTE: Adaptado de <http://blog.comercialigara.com.br/wp-content/uploads/2017/06/


padroniza%C3%A7%C3%A3o-de-processos-640x410.jpg>. Acesso em: 8 jun. 2020.

O repositor de estoque usa o carrinho para deslocar caixas de produtos


através dos corredores, passa vários minutos empurrando o carrinho, posicionando
os produtos em prateleiras para que estejam organizados para os clientes. Ao
final da atividade, pode-se observar que o colaborador supostamente utilizou
sua estrutura física para se deslocar pelo supermercado, etiquetar, organizar os
produtos nas prateleiras e empurrar o carrinho. O local e forma como organizar os
produtos foi conduzida pela função cognitiva deste sujeito. O ambiente onde ele
esteve inserido proporcionou facilidade de condução das compras pela existência
do carrinho. Logo, todos estes fatores são objeto de estudo da ergonomia por
estarem relacionados à atividade executada e, principalmente, por serem fatores
modificáveis e/ou controláveis.

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ErGomoTriCiDADE

O elemento físico faz referência à estrutura corporal do ser humano, a


parte física, palpável e tangível. A análise junto ao indivíduo considera que as
características estruturais, biomecânicas, a antropometria, a integração entre os
sistemas e a fisiopatologia dos distúrbios corporais fazem parte da prática habitual
de estudo. Observando somente o elemento físico do repositor de estoque do
exemplo proposto, foram utilizados os músculos, articulações, ligamentos,
ossos e outros sistemas integrados para a execução de seus trabalhos, de suas
atividades.

O elemento sensorial é diretamente integrado ao elemento físico, já que não


há funcionalidade corporal, caso exista qualquer fator de interferência entre eles.
O elemento em questão comanda as ações corporais através do processamento
de estímulos que, em algumas vezes, recebe demanda sensorial para direcionar
suas respostas. Sensações como dor, calor, toque, pressão, equilíbrio, vibração,
visão, audição, olfato e gustação fazem parte das manifestações sensoriais que
constituem esse elemento.

O elemento psicocognitivo está relacionado ao intangível, a expressão


das funções mentais do trabalhador quanto à capacidade de raciocínio, memória,
cálculo, coordenação motora, linguagem, aprendizado, orientação espacial,
sentimentos, percepção de qualidade de vida, dentre outros.

A seleção do local e forma como organizar os produtos durante o trabalho,


relatados no exemplo do repositor de estoque, pode traduzir o uso da memória,
precisão e cálculo como formas de expressão do elemento psicocognitivo.

Apesar da função psicocognitiva estar integrada ao


processamento de informações no sistema nervoso central, já a
sensorial está relacionada ao periférico e podem incluir órgãos dos
sentidos. Além disso, elemento psicocognitivo não tem como enfoque
o estudo de estrutura, já que o elemento físico já apresenta essa
característica.

O elemento ambiental é todo aquele componente do ambiente cujo indivíduo


se insere e que possui a capacidade de estimular os elementos físico, sensorial
e psicocognitivo do ser humano. Dentre eles, a névoa, a radiação, a iluminância,

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ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

o ruído, a temperatura e a umidade do ar. Os objetos e o espaço físico, como um


todo, podem ser também fatores de análise.

O carrinho de compras do supermercado também deve ser considerado um


elemento ambiental que interfere no desempenho das atividades corporais, já que
apresenta a função de facilitar o transporte de mercadoria. O carrinho, por ser
uma estrutura resistente e deslizante sobre o solo devido suas rodas, diminui o
trabalho dos músculos na atividade de carregar as compras. Em contrapartida, ao
etiquetar os produtos, o trabalhador executa inclinação corporal sobre as caixas
devido ao carrinho ser baixo para a estatura do repositor, sendo considerado um
movimento prejudicial à saúde física, provocado pelo ambiente.

Ressalta-se que os elementos que constituem a visão do


ergonomista foram isolados momentaneamente dentro do estudo
da ergonomia, para que seja mais fácil compreender quais são
as disciplinas que compõe o estudo ergonômico como um todo.
Os fatores físicos, sensoriais, psicocognitivos e ambientais são
indissociáveis para os ergonomistas e devem ser integrados sempre.

Alguns conceitos de ergonomia trazem consigo uma visão singular e limitada


de ambiente relacionado ao clima, tempo, ar etc., ou seja, ambiente passa a
ser reduzido a ideia de habitat. Desconsideram que as máquinas fazem parte
do ambiente e tudo que extrapola a barreira corpórea do ser humano faz parte
do ambiente externo. O ar, a luz, o mobiliário e as máquinas fazem parte de um
mesmo universo, o universo dos itens contidos no ambiente extracorpóreo. Todos
os elementos extracorpóreos devem ser entendidos como parte do Elemento
ambiental.

Um habitat ou hábitat corresponde a área ecológica ou ambiental que abriga


uma determinada espécie de animal, planta ou outro organismo. O lugar ou
espaço físico onde a espécie pode encontrar condições favoráveis para a sua
sobrevivência. Em suma, habitat corresponde à área habitada por determinada
espécie ou animal.

Após a exposição de vários conceitos de autores distintos, do objeto de


estudo da ergonomia e da sua finalidade, o conceito proposto na presente obra
autoral extrapola a relação do homem e o labor, e afirma que a ergonomia é a

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ErGomoTriCiDADE

ciência que se dedica ao estudo da relação entre homem-ambiente, em busca


das melhores práticas de adaptação mútua, visando a proteção e promoção da
saúde humana com maximização de resultados para as atividades cotidianas da
vida.

O estudo da ergonomia inicia-se na avaliação, que tem como ponto de partida


o levantamento de dados dos elementos físicos, sensoriais, psicocognitivos e
ambientais, para que sejam identificados fatores que necessitam de intervenção/
correção. Por tanto, a aplicação a ergonomia depende da particularidade
humana e dos fatores ambientais aos quais o sujeito está inserido, o que,
consequentemente, culmina em recomendações ergonômicas distintas para cada
indivíduo.

A ergonomia está presente em todos os lugares, sem exceção.


A organização do ambiente e a interação com ele dão sentido
a toda prática ergonômica. A busca incessante da melhor forma
de estabelecer o relacionamento com o ambiente é tarefa do
ergonomista, que identifica problemas existentes nessa dicotomia e
os soluciona.

A catalogação de informações contribui para a padronização de métodos, o


que permite que seja feito um constante registro histórico de práticas que buscam
a harmonia entre o homem e o seu ambiente. O registro cronológico permite a
criação de hipóteses e possibilidade de estabelecer estatísticas que possam
responder se as intervenções ergonômicas são positivas para cada problema
observado pelo ergonomista. Logo, colher informações e catalogar dados em
registros históricos faz a ergonomia ser reconhecida como ciência de caráter
técnico, educativo e corretivo.

O trabalho pode ser feito dentro de um ambiente domiciliar, na escola,


nas empresas, nas indústrias, no comércio, no campo, num clube de lazer,
dentre outros. Por tanto, esta é a razão pela qual a ergonomia é um campo de
conhecimento multidisciplinar e multiprofissional, por abranger praticamente todos
os ambientes os quais o homem está inserido.

A visão limitada da ergonomia exclusiva ao ambiente empresarial não


reflete a sua grandiosidade. Moreno, em 1975, já tinha uma visão além do seu
tempo, ressaltava que apresentar a ergonomia apenas no aspecto de prevenção

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ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

de acidentes ou de casos de adoecimento no trabalho, é uma atitude muito


reducionista, esquecendo o avanço do tema nas áreas de projetos, desenho e
engenharias industriais e na adaptação do ambiente urbano às pessoas.

O problema do ambiente de trabalho deve oferecer um campo aberto para


a investigação científica em todos os aspectos que o compõem; daí a grande
responsabilidade que têm os ergonomistas, os professores de ergonomia e, até
mesmo, os cursos de professores de ergonomia. O trabalho dos ergonomistas
deve continuar, apesar da grande falta de recursos a nosso favor, o que não
significa que se deva limitá-lo ou apresentá-lo sob forma puramente publicitária
(MORENO, 1975).

Para ter acesso a outros conteúdos da Ergonomics Research


Society, acesse o site https://ergonomics.org.uk//.

Os conflitos entre interpretações clássicas e modernas sobre o tema


“ergonomia” parecem ser facilmente solucionados adjetivando a palavra, prática
que comumente se observa na literatura cientifica. Por exemplo, quando o leitor
se depara com os termos ergonomia odontológica, que está focada na prática
cotidiana da odontologia através de padrões de postura e mobiliário; ergonomia
física, que está alicerçada na repercussão física da utilização itens pessoais
desconfortáveis do cotidiano, como salto-alto; e ergomotricidade, que possui
como objeto de estudo a psicomotricidade aliada à ergonomia; os problemas de
interpretação das vertentes da ergonomia e suas finalidade são sanados (SALA et
al., 2013; ROVIDA et al., 2015; RIBEIRO, 2013; GARBIN, GARBIN, DINIZ, 2013).

2.2 ERGOMOTRICIDADE
A Ergomotricidade remonta aos primórdios da psicomotricidade e da
ergonomia. Sua base está alicerçada na capacidade mental e os seus processos
de transformação, bem como o reflexo do processamento cognitivo ao
comportamento motor humano. Em suma, a ergomotricidade é entendida como
a aplicação da psicomotricidade em prol do melhor desempenho do trabalhador
em suas tarefas, utilizando métodos que beneficiam o desenvolvimento das
habilidades psicomotoras do trabalhador para prevenir ou minimizar possíveis
agravos à saúde física e mental oriundos do trabalho. Ela também vai de

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ErGomoTriCiDADE

encontro ao bem-estar, à qualidade de vida no ambiente de trabalho e além dele


(VERTHEIN; MINAYO-GOMEZ, 2000).

O olhar diferenciado sobre o ser humano deve ir além da compensação de


distúrbios motores na visão da ergomotricidade. Os níveis psíquico, sensorial
e cognitivo devem ser integrados ao físico para que haja harmonia das ações
individuais em prol da execução de tarefas de modo eficaz e, idealmente, sem
riscos.

Para Ribeiro (2013), a ergomotricidade não traz soluções prontas e


não carrega a premissa de que as instruções ergonômicas obedecem a um
padrão estático. As recomendações são distintas, a depender do conjunto
de conhecimentos psicológico, fisiológicos, antropológicos e relacionais que,
utilizando o corpo como mediador, permite abordar o ato motor humano como
meio de integração das pessoas em seu íntimo e com o mundo.

O envolvimento da psicomotricidade com a ergonomia indica uma nova


concepção do modo como a psicomotricidade é desenvolvida. Até então, o
olhar da ergomotricidade pode parecer tendencioso por haver dois universos
de interesse aparentemente distintos. De um lado a ergonomia, do outro a
psicomotricidade. Essas áreas são complementares a partir do momento em que
a psicomotricidade é entendida como a área de estudo, pesquisa e intervenção
do movimento corporal como mediador entre o mundo interno e o mundo externo.

Para Barreto, Nunes e Baechtold (2000), a ergomotricidade pode ser aplicada


não só no ambiente de trabalho, mas além dele. Os autores supracitados, assim
como vários outros, direcionam o olhar da ergomotricidade para a sua área de
interesse, no caso, a atividade laboral; o que não deixa de ser uma ótima forma
de aprofundar os saberes sobre essa tão nova área de conhecimento. De modo
similar, os educadores e psicólogos veem a ergomotricidade como alternativa
para análise e intervenção, direcionada a integração corporal e cognitiva, como
forma de desenvolvimento de habilidades em situações patológicas e preventivas.

Em meio a todas as percepções a respeito da ergomotricidade e seu potencial


de despontar como mais um ramo científico, ainda não há um conceito firmado
que possa abranger todas as suas vertentes, já que a ergomotricidade transita por
várias outras ciências.

A dificuldade em se estabelecer o conceito de ergomotricidade perpassa pela


baixa quantidade de pesquisas cientificas envolvendo o tema e pela dificuldade
em serem estabelecidos os seus limites de atuação. A cada dia novos olhares
para essa área de estudo acabam por confundi-la com outras áreas como
psicomotricidade, psicopedagógica clínica, fisioterapia pediátrica, dentre outras.

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ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

Apesar das semelhanças, a atuação em ergomotricidade não pode ser


limitada a uma única vertente. Os princípios avaliativos e os métodos de
intervenção também estão contidos em algumas áreas da saúde mental e ciência
da motricidade humana. Estes princípios e métodos não são exclusivos somente
um campo de estudo, por exemplo, as práticas lúdicas são presenciadas durante
a intervenção fisioterapêutica e por psicopedagogos, junto a pessoas com
distúrbios de aprendizagem, assim como a psicomotricidade utiliza estas práticas.
A ergomotricidade, enquanto vertente da psicomotricidade, vale-se também de
técnicas de intervenção que exercitam a ludicidade como forma de integração
entre o cognitivo e o aparato físico do ser humano em benefício das atividades
laborais.

Atualmente, o prefixo “ergo” detém um adjetivo que vai além do seu


real significado, que é “trabalho” como já destacado nesse mesmo capitulo.
Ao relacionar o prefixo ou a palavra “ergonômico” a qualquer substantivo (no
presente caso, a psicomotricidade), a ideia que vem ao imaginário popular
é positiva, como se a psicomotricidade ganhasse um caráter mais tecnicista e
padronizado, concentrada no movimento corporal. Todavia, essa concepção não
está equivocada.

Já que a ergomotricidade tem foco na capacidade motora para a atividade/


trabalho, o mais apropriado é identificar como ela pode ser abordada em cada
fase do desenvolvimento motor do trabalhador. Os mais idosos não possuem
a mesma habilidade motora de adultos, assim como os idosos manifestam sua
motricidade de acordo com as perdas gradativas e naturais do envelhecimento
fisiológico.

Em linhas gerais, pode-se dizer que a ergomotricidade busca estudar


o comportamento humano e o ambiente para avaliar, acompanhar e intervir, a
fim de estabelecer a harmonia entre corpo-mente-ambiente. A forma como as
avaliações, o acompanhamento e as intervenções são conduzidos dependem de
uma série de fatores.

Na literatura científica, poucas são as referências quanto ao conceito de


ergomotricidade. A mais de 20 anos, Barreto (1998) apresenta em linhas gerais
uma visão contemporânea ao que hoje se conhece sobre a ergomotricidade,
quando afirmou na obra “Psicomotricidade, Educação e Reeducação” que
a ergomotricidade visa “atuar sobre todo o ser por meio de programas de
alongamento, de respiração, relaxamento (nível neuromuscular), relaxação
(nível neuropsíquico) e mudança cognitiva, desenvolvidos no próprio posto de
trabalho, isso elimina o problema da faltas de tempo, normalmente acusado pelos
trabalhadores, visando-se paralelamente a melhoria da qualidade de vida dos
trabalhadores e o aprimoramento da qualidade de produtos e serviços”.

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ErGomoTriCiDADE

A ergomotricidade atua tanto na prevenção quanto na intervenção junto ao


trabalhador. A prática de exercícios é muito comum como forma de intervenção e
visa o desenvolvimento da consciência corporal em prol dos processos cognitivos
(MARTINS; SILVA, 2005). Os exercícios devem ter como foco os principais
problemas de saúde psicofisiológica oriundos de certas atividades laborais. O
estresse é um bom exemplo de um problema originado de uma rotina de trabalho
intensa com elevada carga horária e que pode ser alvo de intervenção.

A ginástica laboral executada por fisioterapeutas e educadores


físicos aparentemente se confunde com a ergomotricidade na
execução de exercícios em prol da prevenção em saúde. Esse fato
pode gerar futuros conflitos de ideias sobre os limites de cada prática
intervencionista, já que ambas utilizam o movimento para atender a
demandas físicas e psicológicas dos trabalhadores.

3 ASPECTOS LEGAIS DA
ERGONOMIA (NORMA
REGULAMENTADORA 17)
Após a compreensão sobre a base da ergomotricidade, o conhecimento
sobre a legislação que contribui para nortear a prática profissional da ergonomia
passa a ser complementar à compreensão de quais regras já existem e como são
aplicadas no cotidiano. Intuitivamente, as leis nacionais que regem a ergonomia
abarcam a motricidade humana devido ao fornecimento de condutas aplicáveis
durante certas atividades cotidianas.

A legislação oficial que rege a ergonomia no Brasil é a NR-17 (Norma


Regulamentadora sobre ergonomia, do Ministério do Trabalho, Lei nº 6.514 de
22/12/1977 e a Portaria nº 3.751 de 23/11/1990). Esta é uma das 36 normas
regulamentadoras elaboradas pelo Ministério do Trabalho, na década de 1970,
para nortear as atividades de saúde e segurança no trabalho dentro do território
nacional.

20
ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

Devido a ser um dos únicos documentos oficiais que norteiam a atividade


ergonômica no país, sua relevância para o entendimento da atuação em
ergonomia é indiscutível. Seus itens trazem valorosos conhecimentos sobre boas
condutas para a proteção e promoção a saúde física e mental. Vale ressaltar que
o primeiro item do documento traz o conceito da avaliação ergonômica do trabalho
e sua preocupação com o a integridade física e psicológica do trabalhador.

O 1º item da NR-17, em seu manual de aplicação da norma,


afirma que “Esta Norma Regulamentadora visa a estabelecer
parâmetros que permitam a adaptação das condições de trabalho
às características psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo
a proporcionar um máximo de conforto, segurança e desempenho
eficiente” (BRASIL, 2002, s.p.).

As características psicofisiológicas englobam o ser humano. As estruturas


corporais e o conhecimento de como o funcionamento psicológico do trabalhador
recebe e processa as informações do meio para responder de forma adequada
através de uma ação corporal, faz com que seja obrigatório o conhecimento de
todo o funcionamento do corpo humano pelo especialista em psicomotricidade.

O manual de utilização da NR-17, aponta para as possibilidades de variação


de características psicofisiológicas do ser humano, em que também pode ser
observada a variabilidade de possibilidades de comportamento humano a partir
das características próprias dos indivíduos. No manual (BRASIL, 2002) constam
situações conflituosas que influenciam no comportamento do trabalhador, e para
lustrar melhor, quatro delas foram retiradas do documento e listadas a seguir.

• prefere escolher livremente sua postura, dependendo das


exigências da tarefa e do estado de seu meio interno;
• prefere utilizar alternadamente toda a musculatura corporal e
não apenas determinados segmentos corporais;
• tolera mal tarefas fragmentadas com tempo exíguo para
execução e, pior ainda, quando esse tempo é imposto por uma
máquina, pela gerência, pelos clientes ou colegas de trabalho,
ou seja, prefere impor sua própria cadência ao trabalho;
• tem capacidades sensitivas e motoras que funcionam dentro
de certos limites, que variam de um indivíduo a outro e ao longo
do tempo para um mesmo indivíduo (BRASIL, 2020. s.p.).

21
ErGomoTriCiDADE

A norma em questão garante que o trabalhador será ouvido quanto a sua


percepção global de suas condições de trabalho. A frase “proporcionar o máximo
de conforto”, que está contida no primeiro item da NR-17, passar a ser sinalizada
a participação do trabalhador que, inevitavelmente, expressará sua opinião
quanto à sensação agradável ou desagradável frente ao seu posto de trabalho e
sua rotina dentro da empresa.

Durante a aplicação das normas dentro da empresa, alguns


funcionários podem se sentir coagidos a não demonstrarem a
realidade da empresa em seus relatos. Isso ocorre geralmente
quando algum problema existe e o alto escalão da empresa busca
omitir informações que possam denegrir a imagem da empresa e/ou
de seus líderes.

Leia mais sobre o assédio moral e sua relação com o adoecimento


na empresa em: SCHLINDWEIN, V. de L. dal C. Histórias de vida
marcadas por humilhação, assédio moral e adoecimento no trabalho.
Psicologia & Sociedade, v. 25, n. 2, p. 430-439, 2013.

No documento são listadas as condições de trabalho dando enfoque a cinco


temas centrais que, potencialmente, acarretam prejuízos físicos e psicológicos,
são eles: o levantamento, transporte e descarga individual de materiais; o
mobiliário e os equipamentos dos postos de trabalho; as condições ambientais
de trabalho e a organização do trabalho. A seguir, cada condição será abordada
de forma específica, para que, no decorrer da presente obra, a compreensão dos
fatores que influenciam no surgimento de demandas psicomotoras seja facilitada.

22
ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

3.1 LEVANTAMENTO, TRANSPORTE


E DESCARGA INDIVIDUAL DE
MATERIAIS
Quando se fala em atividades de esforço físico envolvendo o levantamento,
o transporte e a descarga de materiais, é intuitivo que seja envolvida a utilização
das mãos como forma de agarre, bem como a possibilidade de auxilio por outras
partes do corpo, como quando há o transporte de sacas de cimento posicionada
na cabeça do carregador de uma loja de materiais de construção, ou quando os
ombros auxiliam o transporte de roupas em trouxas para a lavanderia.

As atividades de levantamento, transporte e descarga individual de materiais


compreendem aquelas realizadas sem auxílio de dispositivos e ser completo,
sem qualquer auxilio de outrem. Por tanto, para que seja caracterizado como
transporte manual de cargas, o peso da carga deve ser suportado apenas por
uma pessoa que deve realizar o agarre do item, a elevação, a condução e o
deposito no destino final.

FIGURA 2 – TRANSPORTE MANUAL INCORRETO DE CARGAS (CIMENTO)

FONTE: <https://pt.dreamstime.com/illustration/saco-do-
cimento.html>. Acesso em: 26 fev. 2020.

Imagine que um determinado sujeito, durante sua jornada de trabalho, tem


a tarefa de transportar várias sacas de cimento do caminhão do fornecedor
para dentro do galpão de uma empresa. Seu posicionamento se assemelha ao
desenho representado na imagem anterior.

23
ErGomoTriCiDADE

Ao observar o modo de carregar a saca de cimento na imagem apresentada


anteriormente, você considera que este modo é correto ou há algo errado?

De fato, a algo errado. O transporte de um material tão pesado deve ser


conduzido de acordo com a capacidade física do condutor e em locais que não
gerem riscos a sua saúde física e psicológica. Esses dois fatores comentados,
dentre vários outros, são itens que os ergonomistas observam ao determinar o
modo correto de conduzir individualmente materiais.

O item 17.2.2 da NR-17 (2002) aponta que “não deverá ser exigido nem
admitido o transporte manual de cargas, por um trabalhador cujo peso seja
suscetível de comprometer sua saúde ou sua segurança”.

O corpo, de fato, é utilizado como um todo nas atividades de transporte


individual de cargas, mas vale salientar que existem várias formas de realizar isso
sem o auxílio de máquinas ou ferramentas, umas corretas e outras incorretas. O
que determina se a forma de transportar é correta, envolve a análise de diversos
fatores, como, principalmente, o tempo gasto para a execução da ação, a energia
despendida, se há prejuízo à saúde e se é seguro para as pessoas que estão nas
proximidades.

Para o transporte individual de cargas, gera prejuízos psicológicos na medida


em que a repetitividade está presente na atividade, assim como a repercussão
física de dor e fadiga apresentam potencial de repercutir negativamente nos
aspectos psicológicos, o que diminui a capacidade de concentração e atenção
para com as atividades corriqueiras do trabalho.

Um estudo ergonômico brasileiro de uma empresa de cimento publicado


por Martins et al. (2017) utilizou exatamente os trabalhadores de uma fábrica de
cimentos no setor de produção. Dentre as atividades dos auxiliares de produção,
o que mais ocasionou afastamentos do trabalho por motivos de saúde foi o
transporte individual de cargas (sacas de cimento), chegando a quase 50% do
total de afastamentos da empresa. O curioso é que os trabalhadores receberam
treinamentos periódicos pelo setor de segurança e higiene do trabalho, e com o
passar do tempo, o problema foi se agravado.

24
ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

Para ter acesso ao artigo na integra, acesse: https://revista.feb.


unesp.br/index.php/gepros/article/view/1627/766.

De acordo com o autor citado no parágrafo anterior, a excessiva prática


de levantamento e transporte manual de peso e movimentos repetitivos
(principalmente na flexão do tronco), foram tidos como as causas dos problemas
de saúde dos carregadores da empresa, mesmo que os trabalhadores estejam
passando por instrução. Vale ressaltar que o peso médio da saca de cimento era
de 50kg.

Outros fatores devem ser levados em consideração para que o transporte de


cargas esteja sendo feito individualmente de forma correta: o agarre; o volume do
material transportado; a velocidade do transporte; o uso dos membros inferiores
para a aproximação da carga rumo ao solo (sem inclinação acentuada de tronco)
são fatores observáveis para que se possa definir qual a melhor maneira de
transportar cargas.

FIGURA 3 – TRANSPORTE MANUAL CORRETO DE CARGAS (CIMENTO)

FONTE: <https://www.cimentomaua.com.br/wp-content/uploads/2017/12/
Ilustras_ok-1024x311.jpg>. Acesso em: 8 jun. 2020.

O treinamento para o transporte de cargas é obrigatório para aqueles que


manuseiam cargas não leves, ou seja, as consideradas com peso intermediário e
as pesadas. A NR-17 não indica como deve ser feita essa mensuração, tampouco
seu manual deixa claro qual seria o modo de chegar ao peso dito “leve”.

A Associação Brasileira de Normas e Técnicas (ABNT) também não


faz referência a como chegar ao peso ideal, nem a Consolidação das Leis
Trabalhistas do Brasil (CLT) indicam isso. Esta última, instituiu o peso máximo a
ser transportado por uma só pessoa em seu artigo 198 (Decreto- Lei nº 5.452, de
1º de maio de 1943), que equivale a 60 kg para homens e 25 kg para mulheres.
25
ErGomoTriCiDADE

O peso de 60 kg é considerado abusivo do ponto de capacidade


física humana. Este peso foi estipulado na década de 1940 e
tinha como base as sacas de café que pesavam 60 kg. As normas
internacionais são muito mais razoáveis quanto ao transporte
individual de cargas.

Na década de 1990, a National Institute for Occupational Safety and Health


(NIOSH), instituiu um limite de 23 kg como máximo de peso a ser suportado em
condições ideais para o levantamento de cargas. Dependendo das características
do material transportado e das condições de trabalho, este valor pode até ser
reduzido.

Um rapaz de 22 anos foi designado para a função de carregador


de bagagens por uma empresa aérea. Ao entrar na empresa foi
instruído quando às normas e aos procedimentos aeroportuários,
recebendo treinamento específico para o transporte individual de
cargas. O treinamento foi feito com base na NR-17, complementado
pela norma internacional NIOSH quanto aos parâmetros de carga
e descarga de materiais, ficando instituído como peso limite para
transporte individual 23 kg. Durante o treinamento, foi desafiado a
responder a seguinte pergunta feita pelo instrutor: “caso o senhor
esteja diante de 23 kg de chumbo e 20 kg de lã, qual componente
você se sentiria mais confortável a carregar?”. A resposta imediata
do colaborador foi “20 kg de chumbo”. O instrutor não aceitou essa
como sendo uma boa opção.

Após ler atentamente ao enunciado, faça o levantamento dos


reais motivos pelos quais o instrutor não aprovou a resposta do novo
colaborador.

R.:

26
ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

Caso haja dificuldade ou impossibilidade do transporte individual por questões


de pega ou capacidade física do trabalhador, a legislação instrui que deverão ser
usados meios técnicos apropriados para facilitar este transporte. Para que ainda
seja caracterizado como transporte individual, nenhum outro indivíduo deverá
participar do transporte. Dentre os meios técnicos, incluem-se acessórios como
carro de mão, carrinho pantográfico, cordas, cintas catraca para compactação do
volume, dentre outros.

A faixa etária também deve ser considerada para estabelecer o peso


transportado individualmente. Para jovens acima de 14 anos e abaixo de 18 anos,
assim como toda e qualquer mulher, o limite máximo de peso suportado deve ser
menor que o praticado para os homens.

Fisiologicamente, as mulheres possuem estrutura corpórea diferenciada


do homem. Os hormônios liberados pelas mulheres conferem características
próprias que não favorecem o ganho de força e trofismo muscular, apesar de
apresentarem maior resistência física ao esforço e demorarem mais para chegar
ao estado de fadiga. Logo, o peso considerado para mulher deve ser menor por
questões fisiológicas impostas pela própria natureza do gênero.

Quanto aos jovens, a capacidade física deve ser considerada como a


principal influência ao estabelecimento do peso transportado individualmente.
A estrutura física do jovem abaixo dos 18 anos ainda está em formação e não
deve ser sobrecarregada para que não haja prejuízo no seu desenvolvimento,
especialmente direcionado as estruturas esqueléticas.

O esqueleto humano completa sua maturação entre os 18 e 21


anos, período que ocorre a calcificação das epífises de crescimento.

3.2 MOBILIÁRIO DOS POSTOS DE


TRABALHO
As principais discussões sobre o mobiliário dos postos de trabalho envolvem
a organização do trabalho. O trabalho estático e dinâmico são modos de execução
do trabalho exigidos pela natureza da atividade, que pode demandar tanto um
mobiliário que facilite a mobilidade pelo dinamismo da atividade, quanto o máximo

27
ErGomoTriCiDADE

conforto de um mobiliário pela exigência do trabalho por longos períodos junto ao


mesmo mobiliário.

De acordo com a NR-17, o trabalho manual sentado ou em pé devem garantir


os requisitos mínimos de conforto. A visão do profissional atuante nas condições
de saúde física e mental deve priorizar o cumprimento das especificações métricas
de todas as mobílias dispostas no ambiente de trabalho. Estas mobílias devem
proporcionar boa postura, visualização e operação eficiente para a execução do
trabalho.

A Norma Regulamentadora 17 e o seu manual (2002) trazem no item 17.3.2


as seguintes instruções para o trabalho sentado:

• ter altura e características da superfície de trabalho


compatíveis com o tipo de atividade, com a distância requerida
dos olhos ao campo de trabalho e com a altura do assento;
• ter área de trabalho de fácil alcance e visualização pelo
trabalhador;
• ter características dimensionais que possibilitem posicionamento
e movimentação adequados dos segmentos corporais.

O mobiliário ideal para qualquer tipo de atividade atende as exigências


do corpo, proporcionando mobilidade e possibilidade de ajustes, conforme a
necessidade física e psicológica de quem ocupa o posto de trabalho. Por tanto,
a boa postura, visualização e operação eficiente devem ser consideradas na
escolha do mobiliário por envolverem as instruções contidas na norma.

28
ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

FIGURA 4 – POSICIONAMENTO DO MOBILIARIO DE ACORDO


COM A POSIÇÃO DO TRABALHADOR (EM PÉ/SENTADO)

FONTE: <http://bp2.blogger.com/_VlBlP4Ftk78/SGk2AhKZJcI/AAAAAAAAABU/
r3rlqHjvL3k/s400/abcErgonomia1.gif>. Acesso em: 8 jun. 2020.

Na NR-17 o entendimento de algumas instruções pode ser


difícil, já que o texto da norma é generalista em certas instruções e
abre margem para múltiplas interpretações. Nestes casos, o modo
de entendimento das instruções pouco específicas depende da
visão do ergonomista, que detém conhecimentos suficientes para
apontar quais são as metragens ideais de mobiliário para cada tipo
de atividade exigida.

Para a norma regulamentadora de ergonomia, o trabalho em sedestação


(sentado) deve ser priorizado em detrimento da postura de bipedestação (apoio
nos dois pés), o que pode ser contraditório quando se considera o que já foi
exposto até o presente momento nesta obra, já que anteriormente afirmou-se que
o posto de trabalho deve ser ajustado conforme as necessidades de locomoção e
da percepção de bem-estar de cada trabalhador.

29
ErGomoTriCiDADE

A norma, ao afirmar que “sempre que o trabalho puder ser executado na


posição sentada, o posto de trabalho deve ser planejado ou adaptado para essa
posição”, não obriga o trabalhador a se posicionar a todo momento na posição
sentada, mas prioriza esta posição em detrimento da postura em pé (BRASIL,
2002). Certas questões de cunho físico e psicológico envolvem essa recomendação
e a análise de cada postura em separado, facilitando a compreensão do motivo
pelo qual a sedestação deve prevalecer quando for possível.

a) Benefícios da sedestação – Quando o corpo está posicionado na


posição sentada, há uma sensação de redução de gasto de energia, o que de fato
acontece. A exigência muscular diminui consideravelmente pois a utilização dos
membros inferiores (pernas) é praticamente nula, já que o ponto de apoio do corpo
em superfície passa a ser a região de glúteo/quadril. Além disso, os músculos
da perna ficam relaxados e isso facilita a circulação sanguínea em membros
inferiores, prevenindo varizes e edemas indesejados, que potencialmente causam
dor e incapacidade de evolução gradativa.

b) Malefícios da sedestação – A redução da mobilidade (hipomobilidade)


é uma das características da posição sentada, o que reduz a atividade muscular
em membros inferiores quando mantida por longos períodos, em especial quando
o assento entra em contato com região poplítea e dificulta o retorno venoso. Para
a coluna vertebral, a redução da mobilidade corporal propicia o ressecamento de
articulações, que são melhor lubrificadas quando estão em movimento.

A curvatura fisiológica da coluna vertebral apresenta risco de não se manter


íntegra na posição sentada, fazendo com que o a região lombar seja a mais
prejudicada por estar exposta à retificação de sua curvatura e à compressão de
discos intervertebrais entre as vertebras L3-S1. A longo prazo, apresenta risco de
perder permanentemente a curvatura fisiológica devido a alterações estruturais
parcialmente reversíveis.

A posição sentada, mesmo trazendo riscos à saúde em vários aspectos,


ainda é a melhor posição para o trabalho. Observe que todos os malefícios dessa
postura podem ser facilmente prevenidos, o que não ocorre na posição bípede.

a) Benefícios da bipedestação – A possibilidade de movimentação em vários


planos corporais é a principal vantagem dessa posição. A atividade muscular é
mais intensa e melhor distribuída, dinamizando o funcionamento corporal como
um todo e levando o trabalhador uma melhor condição de saúde. Para que isso
ocorra, algumas condições que envolvem com controle de sobrecarga física
devem ser obedecidas.

30
ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

b) Malefícios da bipedestação – Há um maior gasto energético em


comparação à posição sentada, além de causar sobrecarga das articulações de
membros inferiores, com destaque a articulação de joelho. O desgaste físico é
rapidamente perceptível pelo trabalhador, que busca compensar a fadiga gerada
como consequência do gasto de energia e alterna o apoio de cada membro sobre
o solo. Essa atitude reduz a sobrecarga de um dos membros, porém sobrecarrega
o lado oposto. Nesse revezamento de apoio das pernas, o colaborador adota
posturas inadequadas para os membros inferiores e para a coluna vertebral. As
posturas inadequadas levam a um desvio postural importante que pode evoluir
com diversas patologias ortopédicas musculares e articulares da coluna, quadril e
membros inferiores como um todo.

O trabalho sentado, apesar de ser aquele que proporciona


menor movimentação com consequente sedentarismo, é o mais
indicado. Assim, aponte as vantagens do trabalho sentado frente ao
trabalho em pé.

R.:

A norma deixa claro que aqueles trabalhos que possam ser realizados na
posição sentada devem ser adaptados para tal postura, mas isso não impede que
o trabalhador possa escolher a sua melhor postura para o trabalho. A adaptação
deve ser oferecida como forma de opção ao trabalhador.

Caso o trabalhador não possa realizar trabalhos sentados, a posição de


bipedestação só é permitida diante das seguintes condições, de acordo com o
Manual de utilização da NR-17 (2002):

• a tarefa exige deslocamentos contínuos como no caso de


carteiros e rondantes;
• a tarefa exige manipulação de cargas com peso igual ou
superior a 4,5 kg;
• a tarefa exige alcances amplos frequentes, para cima,
para frente ou para baixo; no entanto, deve-se tentar reduzir
a amplitude desses alcances para que se possa trabalhar
sentado;
• a tarefa exige operações frequentes em vários locais de
trabalho, fisicamente separados;

31
ErGomoTriCiDADE

• a tarefa exige a aplicação de forças para baixo, como em


empacotamento.

Cadeiras para o descanso sentado devem ser fornecidas no ambiente de


trabalho como forma de evitar agravos à saúde daqueles que são limitados a
permanecer em somente uma posição.

O cuidado com o trabalhador sentado deve ser tão importante


quanto o cuidado que se tem com o trabalhador que permanece em
pé. Caso a postura o ou mobiliário não estejam de acordo com as
especificações ergonômicas mínimas, o trabalho sentado pode ser
tão nocivo quanto o trabalho em pé.

Durante a eleição do mobiliário para os trabalhadores, o fácil alcance de


instrumentos de trabalho proporcionados pela ampla mobilidade e a possibilidade
de mudança postural constante devem ser priorizados. Alguns modelos de
mesas e cadeiras podem ser ajustados de acordo com as necessidades físicas
e psicológicas de cada trabalhador, que, por vezes, criam um ambiente de
irritabilidade/estresse caso não estejam bem acomodados.

Para que os problemas de saúde envolvendo a posição sentada sejam


eliminados, algumas recomendações são feitas para a aquisição da cadeira e da
mesa do trabalhador. Para a cadeira, o encosto para as costas deve respeitar
as curvaturas fisiológicas do corpo, acomodando a região lombar para a redução
de sobrecarga; a altura do assento e do encosto devem ser ajustáveis; a borda
frontal do assento deve ser arredondada e a base deve conter pouca ou nenhuma
conformação. Quanto às mesas, a regulagem de altura é suficiente por contribuir
de modo relevante para a mudança do posicionamento corporal geral do
trabalhador possibilitando trabalhos em pé e sentado em várias alturas (BRASIL,
2002).

32
ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

FIGURA 5 – MODELO DE MESA REGULÁVEL

FONTE: <https://teckflex.com.br/wp-content/uploads/2017/08/
mesa-1g.png>. Acesso em: 8 jun. 2020.

3.3 EQUIPAMENTOS DOS POSTOS


DE TRABALHO
Os equipamentos, assim como o mobiliário, podem provocar afecções
físicas e psicológicas. A má adaptação dos equipamentos na exigência da tarefa
é motivo de grande preocupação para os ergonomistas, já que prejudica o
profissional que executa a tarefa trazendo prejuízo a sua saúde, em certos casos,
a sua segurança também. Como conclusão, a empresa sente o reflexo da falta de
adaptação do equipamento para a tarefa, já que o trabalhador tende a ser menos
produtivo devido a um conjunto de possíveis fatores como lentidão, produção
fora do padrão de qualidade, perda de matérias-primas por erro de produção,
dentre outros contratempos que são reflexo dos prejuízos físicos e psicológicos
ocasionados pelos equipamentos.

A NR-17, em seu item 17.4, traz basicamente para a discussão o tópico


que envolve equipamentos dos postos de trabalho voltado para as condições de
trabalho intelectual. Ressalta que os equipamentos devem permitir ajustes que
proporcionem conforto ao colaborador. Indica o uso de suporte adequado para
documentos nos trabalhos de digitação, datilografia ou mecanografia, assim como
restringe o uso de papel brilhante que possa ocasionar reflexo de luminosidade
ou qualquer outro tipo de documento que possa dificultar a boa visualização de
materiais de leitura.

33
ErGomoTriCiDADE

Segundo Blehm et al. (2005), a Síndrome de Fadiga Ocular


ao Computador (SFOC) ou Astenopia Digital (AD), é uma patologia
causada por um conjunto de fatores diversos e de cunho transitório.
Suas manifestações clínicas podem ser observadas a nível físico
(exemplo: visão turva, olhos cecos, dores de cabeça e fadiga ocular)
e psicológico (irritabilidade, perda de concentração e memória e
distúrbios do sono).

Os equipamentos que necessitem ser constantemente visualizados como a


tela, o teclado e o suporte para documentos, devem estar posicionados de tal
modo que sejam priorizadas as mesmas distâncias para os olhos. Essa medida
evita fadiga ocular e suas consequências. Outros equipamentos como apoio para
os pés e mousepad devem obedecer ao máximo a fisiologia do corpo humano,
evitando sobrecargas articulares durante o uso.

Do ponto de vista da saúde humana, as preocupações com os equipamentos


não se limitam ao posto de trabalho em computador e equipamentos afins. Todas
as atividades demandam de adaptação.

FIGURA 6 – MODELOS DE APOIO PARA OS PÉS INCLINAÇÃO VARIÁVEL


(A ESQUERDA) E SUPORTE PARA DOCUMENTOS (A DIREITA)

FONTE: <https://www.reliza.com.br/wp-content/uploads/2018/08/
apoio-para-pes-magnetico-e-massageador_6750-1.jpg>; <https://www.
idesan.com.br/porta-texto-mesa/>. Acesso em: 7 mar. 2020.

Os computadores e outros equipamentos similares devem conter teclados


independentes de telas, ou seja, o uso de notebooks só deve ser permitido se
houver a aquisição de teclado independente que possa permitir o posicionamento

34
ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

correto das telas para evitar patologias ortopédicas de coluna cervical e torácica,
causado por posicionamento inadequado, e problemas oculares como astenopia
digital por ofuscamento nos olhos por reflexos.

Caso a tela do computador não apresente possibilidade de ajuste em sua


estrutura, deverá ser posta sobre suporte independente confeccionada em
material leve, resistente e com possibilidade de ajuste de altura.

FIGURA 7 – EQUIPAMENTO (MONITOR) NÃO REGULÁVEL


OCASIONANDO DESVIO POSTURAL

FONTE: <https://www.centralnacionalunimed.com.br/viver-bem/saude-em-pauta/
postura-errada-saiba-como-evitar-dores-musculares>. Acesso em: 8 jun. 2020.

Algumas empresas costumam realizar adaptações de forma


improvisada para evitar despesa com aquisição de novos mobiliários.
Certas medidas podem ser perigosas e comprometer a segurança do
ambiente de trabalho.
Sendo assim, analise as assertivas a seguir que trazem duas
situações hipotéticas. Ao final, responda corretamente.
Assertiva 1 - O trabalhador apoia o monitor sobre livros para
chegar à altura desejada.
Assertiva 2 - O trabalhador usa um caixote como apoio de pés

Em qual situação o trabalhador tende a não solucionar o


problema ergonômico usando a criatividade e o improviso? Justifique
sua escolha.

R.:

35
ErGomoTriCiDADE

3.4 CONDIÇÕES AMBIENTAIS DE


TRABALHO
O ambiente de trabalho possui grande influência sobre a capacidade física
e psicológica para o trabalho. Situações insalubres devem ser minimizadas ou
eliminadas como forma de proteger a saúde do trabalhador. De acordo com a
NR-17, o ruído, a umidade e velocidade do ar, a temperatura e a iluminância,
devem ser quantificados para que estejam de acordo com padrões mínimos
preestabelecidos.

a) Temperatura

O corpo humano realiza constantes trocas com o meio ambiente e uma


das principais formas é a transferência de energia térmica. Para o trabalhador,
a agressão pelos extremos de temperatura carrega consigo uma sensação
desconfortável que pode causar, além de fatores psicológicos como irritação,
desvio de atenção e perda de concentração, desordem no funcionamento de
diversos sistemas importantes para a realização do trabalho e que podem ser um
empecilho para o desempenho psicomotor.

Os trabalhadores se expõem frequentemente a temperaturas variáveis do ar,


que recebe influência de outros fatores significativos para o conforto térmico do
corpo humano como a radiação, velocidade deste ar e sua umidade relativa, esta
última essencial para a percepção/sensação térmica do ser humano.

A temperatura registrada pelos equipamentos de medição


depende exclusivamente da medição feita no ar. Em contrapartida,
a avaliação da sensação térmica é o reflexo do relato subjetivo da
pessoa exposta quanto a temperatura percebida. A velocidade,
umidade e densidade do ar conseguem alterar esta sensação,
transformando um ambiente com temperatura agradável num
ambiente desconfortável do ponto de vista térmico.

A temperatura fisiológica do corpo humano é frequentemente alterada por


fatores de adaptação ao meio ambiente. Em humanos, a temperatura considerada
normal para em valores que podem oscilar desde 35,8 ºC a 37,1 ºC (EPSTEIN et
al., 1998). Valores abaixo de 35 ºC ou acima de 38 ºC podem trazer problemas

36
ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

de saúde e devem ser acompanhados e evitados dentro da empresa pelos


profissionais que lidam com o bem-estar

A alteração térmica considerável no corpo humano gera uma série de sinais


e sintomas que preveem problemas de saúde. Aqueles observados acima de
38 ºC são as dores de cabeça, câimbras musculares, náusea, rubor, exaustão
e respiração acelerada. Abaixo de 35 ºC são observados tremores, dormências,
pulsação fraca e, em casos de frio mais intenso, perda de controle de membros.

A troca de calor acontece quando dois ou mais corpos com temperaturas


diferentes são colocados em contato em um mesmo ambiente (sistema isolado) e,
depois de certo tempo, alcançam o equilíbrio térmico.

A importância das informações de temperatura para a ergomotricidade


envolve a capacidade que o frio tem de reduzir a capacidade muscular e a cinética
corporal. Os músculos perdem capacidade contrátil, os nervos manifestam
redução de impulsos elétricos e as articulações tornam-se mais rígidas, portanto,
o desempenho no trabalho sofre um grave reflexo.

A ergomotricidade, por estudar a interação entre corpo e


mente atuando na prevenção e promoção da saúde, deve abordar
a possibilidade de a temperatura ser um empecilho para a atuação
junto aos trabalhadores, já que o calor ou frio excessivos podem tirar
a atenção do trabalhador nas tarefas propostas.

Quando o trabalhador exerce suas atividades em ambientes obrigatoriamente


frios ou quentes, acima da média, como aqueles que trabalham em frigorifico; a
temperatura do produto que está em contato com o trabalhador deve ser alvo de
análise, e este contato deve ser restrito com certas limitações para que se possa
evitar contato constante e agravos à saúde como dormência, arteriosclerose e
formação de trombose venosa profunda.

37
ErGomoTriCiDADE

Trabalhadores de frigorífico estão propensos a uma série


de agravos e, dentre eles, a perda de sensibilidade térmica
permanente nas extremidades dos dedos e outros. Trabalhadores
que permanecem expostos ao calor excessivo, como padeiros,
estão propensos a outros tipos de agravo, como impotência sexual
(homens), alterações do ritmo cardíaco e pressão arterial. Sendo
assim, de que forma o fator climático pode dificultar o trabalho em
ergomotricidade?

R.:

A legislação preconiza que a temperatura ambiente deva ser


mantida entre 20 ºC e 23 ºC.

b) Umidade do ar

A avaliação da umidade do ar é importante para vários aspectos do trabalho,


além de contribuir para a manutenção de produtos como os gêneros alimentícios
e desenvolvimento da atividade pecuarista, também tem função estratégica para
a saúde e produtividade dos trabalhadores.

A umidade é essencial para a manutenção da boa sensação térmica, já que


a variação de umidade pode acentuar a sensação de frio ou calor. Além de manter
uma boa sensação térmica, o controle da umidade ajuda a evitar problemas de
saúde, principalmente aqueles relacionados ao sistema respiratório e outras
regiões do corpo que mantêm contato com o ar ambiente e demandam de
constante lubrificação, como o sistema visual/globo ocular.

A intervenção em ergomotricidade pode ser dificultada se o ambiente de


trabalho não beneficiar o trabalhador. O ambiente com baixa umidade pode
ocasionar sangramentos nasais espontâneos, oriundos de ressecamento de vias
aéreas superiores, tosse seca, irritabilidade, desencadeia crises alérgicas, dentre
outros. Por outro lado, a alta umidade do ar traz menos prejuízo à saúde, pois

38
ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

depende de outros fatores, como a temperatura e a disposição de microrganismos


patológicos, sendo fungos e bactérias os principais beneficiados.

O desequilíbrio hídrico do ar pode predispor o trabalhador a condições


que afetam gravemente o desempenho físico, o que gera a impossibilidade de
executar com presteza suas atividades na empresa, bem como integrar-se às
ações de psicomotricidade propostas na empresa.

“[...] com a umidade entre 12% e 20%, é importante não fazer


exercícios físicos ao ar livre, entre 10h e 16h. Outra medida é evitar
aglomerações em locais fechado”. Disponível em: https://g1.globo.
com/pe/petrolina-regiao/noticia/2019/11/19/apac-faz-alerta-para-
baixa-umidade-do-ar-e-alta-temperatura-no-sertao-de-pernambuco.
ghtml.

A legislação preconiza que a umidade do ar ambiente deva ser


mantida acima de 40%.

c) Velocidade do ar

O desconforto por correntes de ar é uma das principais justificativas para


o estabelecimento de limites máximos para a velocidade do ar, as patologias
estão relacionadas à qualidade do ar e a velocidade tem grande interferência na
classificação de conforto.

Estudos revelam que quanto mais o trabalhador está exposto a ambientes


fechados com condicionadores de ar, apresenta preferência por ambientes
arejados e com ventilação natural. Neste contexto, o trabalhador que está exposto
à velocidade de ar praticamente nula, tende a sentir maior conforto em ambientes
com boa circulação de ar e ventilação de suporte (exemplo: ventiladores)
(CÂNDIDO et al., 2010).

Devido as características do trabalho, aqueles que desenvolvem suas


atividades em ambiente fechado, expostos ao trabalho estático, são os que mais
39
ErGomoTriCiDADE

estão presentes nas atividades de ergomotricidade dentro da empresa, esse


perfil de trabalhador prefere ambientes ao ar livre e com maior circulação de
ar, o ergomotrista pode ter maior sucesso em sua intervenção quando expor o
trabalhador a ambientes ao ar livre e arejados.
A velocidade do ar
consegue aumentar A velocidade do ar consegue aumentar ou diminuir a sensação
ou diminuir a
térmica. As preferências e a aceitabilidade do movimento do ar estão
sensação térmica.
As preferências e fortemente relacionadas a questões subjetivas dos usuários.
a aceitabilidade do
movimento do ar As teorias mais modernas entendem que a ventilação traz bem-
estão fortemente estar ao colaborador e deve ser estabelecida a partir de padrões
relacionadas a mínimos, não máximos. Atualmente, o padrão instituído pela NR-17 é
questões subjetivas
menor ou igual a 0,75m/s., em contrapartida, a baixa circulação de ar
dos usuários.
contribui para a retenção de microrganismos em ambientes fechados, o
que pode ser prejudicial à saúde do trabalhador (BRASIL, 2002).

Valores acima de 0,80 m/s e até 1,60 m/s são apontados como
positivos para climas quentes e úmidos. Para valores acima de 28
ºC, os trabalhadores preferem a adoção de ventiladores.

As intervenções em psicomotricidade levam o trabalhador a conectar a mente


e o corpo. A escola do ambiente ao qual as intervenções são feitas, são decisivas
para a boa prática cognitiva. O estímulo de atividades ao ar livre e em movimento
contribuem para o desenvolvimento de habilidades motoras como caminhar,
equilibrar-se, saltar e, principalmente, estabelecer o contato com elementos que
não estão diretamente ligados à atividade laboral.

Uma das patologias mais curiosas da atualidade envolve a


qualidade do ar. Conhecida como Síndrome do Edifício Doente,
está relacionada à temperatura, à umidade e à velocidade do ar.
A descrição completa desta patologia, que vem sendo estudada
desde os anos 70, está disponível em: http://g1.globo.com/bemestar/
noticia/2014/06/ma-qualidade-do-ar-no-ambiente-de-trabalho-pode-
levar-sindrome.html

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ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

d) Iluminância

Um ambiente de trabalho agradável traz reflexos muito positivos à saúde dos


trabalhadores e ao desempenho eficiente das tarefas, e o bem-estar corporativo
já é considerado como um fator estratégico para o desenvolvimento das
empresas, que já destinam investimentos para a qualidade de vida no trabalho
como forma de estabelecer um diferencial frente ao mercado. Para que se chegue
ao desempenho eficiente, oriundo do conforto no trabalho, alguns itens citados
anteriormente são essenciais. Agora, a iluminação será ressaltada como uma
das formas mais relevantes de aquisição de bem-estar para os fatores físico e
psicocognitivo no trabalho.

A luminosidade de um ambiente destaca-se como contribuinte direta


para o pleno exercício do trabalho, por ser estimulante ou trazer sensações
desagradáveis para o trabalhador. Ressalta-se que somente os níveis de
iluminamento não são suficientes para motivar os trabalhadores. Dentre vários,
outros fatores, em conjunto aos níveis de iluminamento, levam à motivação e
precisam estar harmonicamente disponíveis ao trabalhador, como carga horária
compatível com a atividade, ferramentas adaptáveis ao biotipo do trabalhador,
remuneração e reconhecimento no trabalho.

Um experimento foi feito nos Estados Unidos da América,


nos anos 20, que envolveu iluminância do ambiente e impactou os
administradores, principais interessados nos resultados. Conhecido
como Experiência de Hawthorne, o estudo apresentou duas
variáveis dispostas em grupos distintos. O grupo 1 foi exposto à
iluminação variável e o grupo 2 à iluminação constante. Ao final, não
houve diferença significativa na produção, derrubando a hipótese de
que os elevados níveis de iluminamento eram estimulantes para o
ser humano. Em contrapartida, o fator psicológico foi ressaltado nas
justificativas do estudo e a motivação foi entendida como resultado
de um conjunto de fatores.

A NR-17 traz consigo certas exigências quanto à iluminação que beneficiam,


especialmente, a saúde psicológica do trabalhador. Dentre elas, destacam-se,
segundo a NR-17 (2002):

41
ErGomoTriCiDADE

• em todos os locais de trabalho deve haver iluminação


adequada, natural ou artificial, geral ou suplementar, apropriada
à natureza da atividade;
• a iluminação geral deve ser uniformemente distribuída e
difusa;
• a iluminação geral ou suplementar deve ser projetada e
instalada de forma a evitar ofuscamento, reflexos incômodos,
sombras e contrastes excessivos.

FIGURA 8 – ILUMINAÇÃO ARTIFICIAL E NATURAL COM BOA DIFUSÃO

FONTE: <https://oeo.com/wp-content/uploads/2018/10/tube-
warehouse-1100x550.jpg>. Acesso em: 8 mar. 2020.

A NR-17 está apoiada sobre uma outra norma-padrão específica para


os níveis de iluminamento e que garante o bem-estar físico e psicológico dos
trabalhadores, a Norma de Higiene Ocupacional 11 (NHO 11), que estabelece
os padrões adequados que a NR-17 instrui ao ergonomista observar durante
a análise da iluminação do ambiente de trabalho. São observados os níveis de
iluminância que chegam às superfícies do ambiente de trabalho como um todo.
Ao mesmo tempo, busca atender os diferentes tipos de ambientes de trabalho que
demandam de necessidades distintas de iluminação, ou seja, não há um padrão
de iluminação para todos os ambientes de trabalho. Cada ambiente demanda de
quantidade específica de luz para o maior conforto do trabalhador e desempenho
eficiente (CUNHA et al., 2018).

42
ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

Para informações detalhadas sobre os níveis de iluminamento de


cada tipo de ambiente, acesse a biblioteca virtual da FUNDACENTRO,
disponível em: http://www.fundacentro.gov.br/biblioteca/normas-de-
higiene-ocupacional/publicacao/detalhe/2018/8/nho-11-avaliacao-
dos-niveis-de-iluminamento-em-ambientes-internos-de-trabalho.

A NHO 11 padroniza os níveis de iluminamento em diferentes


A NHO 11 padroniza
ambientes, dentre eles indústria de alimentos, padarias, locais de os níveis de
assistência médica, aeroportos, construções educacionais, dentre iluminamento
outros. em diferentes
ambientes, dentre
A iluminação inadequada gera problemas físicos como a fadiga eles indústria de
alimentos, padarias,
visual e redução do estímulo palpebral voluntário de oclusão dos olhos,
locais de assistência
com consequente ardência pela redução da lubrificação do globo ocular médica, aeroportos,
aberto (efeito da iluminação excessiva). Efeitos psicológicos como construções
alteração do relógio biológico (sono reduzido), ansiedade e estresse são educacionais, dentre
observáveis em alguns casos. outros.

A boa iluminação do ambiente permite a visualização de todos os elementos


dispostos ao redor do trabalhador, o que potencialmente reduz a ocorrência
de acidentes de trabalho ocasionados pela combinação entre desatenção e
visibilidade baixa. Logo, a iluminação do ambiente de trabalho é um fator de
segurança imprescindível.

Como já apontado anteriormente, durante a explanação da “Experiência


de Hawthorne”, os níveis de iluminação para a metodologia aplicada na década
de 1920, não foi capaz de identificar diferenças significativas para o trabalho
executado em ambientes com modos de iluminação distintos. Viola et al.
(2008) contrapõe este resultado ao concluir que a iluminação pode beneficiar o
desempenho das funções e alerta diurno, melhora do humor e redução de fadiga
ocular, e bom funcionamento do ciclo circadiano (do sono). A referida pesquisa
apresentou esses resultados positivos com o tom de cor de lâmpada branco-
azulado.

Devido ao esforço contínuo dos músculos intraoculares para a adaptação de


nitidez ao ambiente escuro, exigido um esforço maior da visão, o trabalhador fica
exposto a astenopia (fadiga visual) e possíveis dores de cabeça. Com o passar
do tempo, o trabalhador tem o seu quadro agravado pela necessidade de lentes
corretivas.
43
ErGomoTriCiDADE

e) Ruído

O ruído é mais um fator ambiental que gera efeitos físicos e psicológicos,


seus níveis de tolerância para a ergonomia estão dispostos na NBR 10152 de
1987. Os efeitos fisiológicos podem ser devastadores para a audição, a depender
do tempo de exposição e intensidade do ruído. Os efeitos psicológicos podem
ser mais facilmente solucionados com medidas de proteção auditiva e outras
intervenções especificas.

De acordo com o Ministério do Trabalho, o ruído é visto como elemento do


ambiente que produz efeitos psicológicos e fisiológicos, respectivamente, sendo
que esses últimos, na maioria das vezes, são irreversíveis.

Para as estruturas do ouvido, a exposição elevada ao ruído leva a lesões


no tímpano e/ou desarticulação da cadeia ossicular do ouvido, o que pode gerar
surdez na pior das hipóteses. Além da perda de audição, problemas sistêmicos
podem decorrer do susto gerado pelo ruído excessivo. O sistema endócrino libera
hormônios, como a adrenalina, que catalisam as funções fisiológicas autônomas
do corpo humano, gerando alterações momentâneas em certas estruturas a
exemplo do sistema nervoso, o coração, pupilas/olhos, pulmões e intestino.

A adrenalina é um hormônio endócrino que está diretamente


relacionada a cargas de estresse excessivas. Atua no corpo como
elemento desencadeador de um mecanismo que aguça a atenção e
ajuda a manifestar reações frente ao perigo eminente.

Os níveis de ruído devem ser compatíveis com o conforto acústico para cada
ambiente. Hospitais, escolas, escritórios, áreas residenciais e outros possuem
seus próprios limites de ruído. Este ruído deve ser, obrigatoriamente, medido
próximo à zona auditiva do trabalhador e vários equipamentos, atualmente, já
fornecem a adaptação a zona preterida.

Os cuidados com os níveis de ruído protegem, principalmente, a estrutura


da audição do trabalhador exposto a maquinários pesados e outros tipos de
instrumentos que geram grande ruído. Por outro lado, trabalhadores que executam
atividades que necessitam de mais concentração, tendem a sofrer efeitos do
excesso de estímulos sonoros a nível cognitivo com perda de concentração e
surgimento de estresse.

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ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

O ruído excessivo pode ser um perigo para a vida de qualquer trabalhador.


Acidentes de trabalho estão ligados ao ruído excessivo, o que é confirmado pela
Associação Brasileira de Medicina do Trabalho (ANAMT): protetores auriculares e
abafadores de som são recomendados para minimizar os efeitos nocivos do ruído.

FIGURA 9 – MODELOS DE PROTETOR AURICULAR E ABAFADOR DE SONS

FONTE: <https://www.mapadaobra.com.br/wp-content/uploads/
post/45i2yqnlt.jpg>. Acesso em: 8 jun. 2020.

“Pode-se considerar que buscar a redução de ruído nos


processos produtivos é um grande negócio. Mais do que atender
às exigências legais, especialmente do eSocial, referente a
gerenciamento de risco e melhorias no ambiente de trabalho, esta
ação tem impacto em melhor qualidade de vida para os trabalhadores
(conforto, disposição, motivação, saúde), menores custos com saúde,
menores riscos de doenças e acidentes, melhoria no desempenho
e produtividade, melhor qualidade do produto, menores gastos com
questões trabalhistas e previdenciárias e, consequentemente, maior
competitividade da indústria”. Disponível em https://www.anamt.org.
br/portal/2018/10/08/alerta-ao-ruido-ponto-de-atencao-com-a-saude-
do-trabalhador/

45
ErGomoTriCiDADE

A audição é uma das principais ferramentas que o corpo utiliza para o


trabalho e na integração sensorial entre estímulo ambiental e comportamento
respondente. Para pessoas que já apresentam prejuízo auditivo relacionado ao
trabalho, a ergomotricidade é fundamental para o estímulo proprioceptivo do
trabalhador, integrando o corpo e a mente em benefício do desenvolvimento de
habilidades motoras desencadeadas sem o completo o reforço auditivo. Por tanto,
apesar do estímulo auditivo ser importantíssimo para as relações sociais dentro
do ambiente laboral, ainda há formas de adaptação do trabalho ao ser humano.

3.5 ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO


A organização do trabalho faz referência à rotina de trabalho dentro da
empresa, que está atrelada ao controle das normas de produção; do modo
operatório; da exigência de tempo; da determinação do conteúdo de tempo;
do ritmo de trabalho e do conteúdo das tarefas. Este é um dos tópicos mais
importantes para a psicomotricidade que figuram a NR-17, devido ao fator
psicológico ser predominante em vários aspectos da rotina de trabalho imposta
pela empresa.

Para que se possa compreender o conteúdo da organização do trabalho


para a ergonomia, o quadro a seguir sintetiza cada item exposto na NR-17, em
consonância ao manual da Norma.

QUADRO 1 – CONTEÚDO DA ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO (NR-17)


a) Normas de produção Regras pré-estabelecidas para a execução do trabalho.
Envolve a forma como o trabalhador executa suas tarefas para
b) Modo operatório atingir a finalidade do seu trabalho. Isso inclui a forma como usa seu
corpo e os instrumentos para o trabalho.
Velocidade a qual a empresa impõe para que o trabalhador execute
c) Exigência de tempo
sua tarefa.
Determinação do Se dedica ao conhecimento de quando e o que fazer para a concep-
d)
conteúdo de tempo ção do trabalho num determinado espaço de tempo.
Velocidade a qual o trabalhador executa suas tarefas, podendo ser
e) Ritmo de trabalho
de modo espontâneo ou ditado pela atividade.
Envolve o que deve ser feito durante o processo produtivo para que
f) Conteúdo das tarefas
o produto ou serviço final sejam concebidos.
FONTE: Brasil (2002, s.p.)

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ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

Juliana é uma enfermeira que sente que algo está errado em


sua rotina de trabalho. Observa que todos os outros enfermeiros
entram e saem do serviço no hospital HRRS no mesmo horário,
porém ela não. Sempre ultrapassa seu horário de trabalho fazendo
horas extras, mesmo não tendo pacientes graves ou qualquer outro
motivo aparente para ultrapassar sua carga horaria diária. Juliana
sempre se queixou por não ter tempo para fazer todas as tarefas,
mesmo recebendo a mesma demanda de serviço que os demais.

A coordenação da enfermagem chamou o SESMT (Setor


de Saúde e Segurança do Trabalho) que sabiamente indicou um
ergonomista para solucionar a questão. Durante uma análise
aprofundada do caso pelo ergonomista da empresa, observou-
se que a funcionária tem agilidade em seus atendimentos, porém
vai mais vezes à farmácia do hospital para pegar medicamentos
quando comparada aos outros enfermeiros. Às vezes, direciona-se
à farmácia do hospital mais de três vezes em menos de meia hora.
Sendo assim, observado o Quadro 1, responda qual fator (conteúdo)
precisa ser modificado dentro da organização do trabalho de Juliana?

R.:

O item “organização do trabalho” contido na NR-17 traz à tona o tempo e a


forma como o trabalho é executado, revelando intuitivamente como essas variáveis
podem influenciar na saúde e segurança do trabalho. Para a ergonomia, todos
os itens descritos anteriormente devem fazer parte de uma análise ergonômica
do trabalho. Assim, faz-se a catalogação do trabalho real para que sejam feitas
adaptações na prescrição das tarefas, otimizando a produtividade, aturando na
redução de afastamentos por motivos de saúde e na promoção da qualidade de
vida.

Em algumas empresas, uma forma de incentivar a produtividade é induzir


o trabalhador a acelerar seu ritmo de trabalho e buscar formas mais ágeis de
executar suas tarefas. Sistemas de remuneração por produtividade não são
maléficas ao desempenho do trabalhador, mas podem ser caso não haja um limite
para que esse sistema ocorra, e esse limite deve considerar, acima de tudo, a
capacidade humana para o trabalho.

47
ErGomoTriCiDADE

A NR-17 instrui que “todo e qualquer sistema de avaliação de desempenho


para efeito de remuneração e vantagens de qualquer espécie devem levar em
consideração as repercussões sobre a saúde dos trabalhadores”. Portanto, as
metas para o trabalho devem ser estabelecidas sem que a produtividade seja
priorizada frente a saúde do trabalhador.

Apesar de muitos empregadores utilizarem o recurso da


avaliação de desempenho, a norma instrui que o número de toques
no teclado para aqueles que trabalham em atividades de digitação
não deve ser usado como forma de avaliação de desempenho para
efeito de remuneração e outros tipos de bonificação.

A ergomotricidade, por conseguir trazer ao trabalhador maior conhecimento


sobre suas capacidades físicas e cognitivas, contribui para o desempenho do
trabalhador, que fica satisfeito ao alcançar suas metas sem prejudicar sua saúde.
Dessa forma, passa a conhecer seus limites e o profissional da ergonomia
delimita, através de critérios técnicos, até onde o trabalhado consegue executar
suas tarefas sem comprometer sua saúde.

Dentre as alternativas disponíveis para o ergonomista controlar a organização


do trabalho, as convenções ergonômicas instruem a consecução de pausas para
descanso (10 minutos a cada 50 minutos trabalhados); retorno gradativo ao
trabalho após afastamento igual ou superior a 15 dias; enriquecimento da tarefa;
prescrição das atividades considerando a biomecânica corporal; espaço para
descanso destinados ao trabalhadores de teleatendimento; limites de toques no
teclado para trabalhos de digitação; dentre outros específicos.

A norma traz dois anexos para atividades específicas que


necessitam de cuidados individualizados. O primeiro faz referência
aos trabalhadores de checkout e o segundo aos trabalhadores de
teleatendimento/telemarketing. Há uma previsão de novos anexos
serem instituídos no procedimento de modernização da NR-17.

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ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

4 MÉTODOS E TÉCNICAS DE
AVALIAÇÃO EM ERGOMOTRICIDADE
A motricidade humana é totalmente dependente do aparato sensorial
desenvolvido com a evolução da espécie. As habilidades de preensão, resposta
a estímulos aversivos (dor), a coordenação motora, o controle postural, dentre
outras habilidades motoras, só é possível graças ao processamento de comandos
motores para envio aos tecidos efetores de movimento, os músculos.

A avaliação psicomotora investiga a integração entre a porção motora e


psicocognitiva do indivíduo para que seja possível o levantamento de distúrbios
que possam interferir no seu desempenho cotidiano. Pela reduzida quantidade de
instrumentos, em específico na ergomotricidade, que avalia o desempenho motor
e psicocognitivo integrados, por vezes são aplicados instrumentos que avaliam as
dimensões de forma independente.

Os métodos avaliativos atuais voltados à psicomotricidade são vastos para


as crianças, já que a psicomotricidade tem na neuropediatria seu grande alicerce,
o que proporciona o conhecimento integral sobre a integração neuromotora
da criança. Nesse sentido, as baterias de testes motores para as crianças são
ferramentas importantes para avaliar o desenvolvimento motor e identificar os
possíveis déficits motores.

Em contrapartida, o adulto, até o presente momento, foi menos investigado


quanto a métodos de avaliação psicomotora, o que dificulta o levantamento de
métodos específicos para observação da influência das estruturas neuronais na
função motora e vice-versa, devido haver diferenças de desenvolvimento global
entre crianças e adultos.

Os métodos avaliativos utilizados em crianças podem ser


adaptados aos adultos. Testes devem ser feitos através de estudos
com amostram para que a efetividade seja comprovada diante de
diferenças inquestionáveis entre a área neuropsicológica adulta e
infantil.

49
ErGomoTriCiDADE

O modelo de avaliação psicomotora amplamente utilizado em crianças e


que abrangem várias funções integradoras entre o físico e psicológico é a Bateria
Psicomotora (BPM). Para o adulto, a avaliação psicomotora geralmente é voltada
à suspeita patológica congênita relacionada ao desenvolvimento neuromotor.
Para o adulto no trabalho, as patologias neuromotoras não estão diretamente
relacionadas a fatores congênitos, e sim adquiridos. Sendo assim, a avaliação
deve contemplar os fatores laborais que influenciam no surgimento de distúrbios
psicofisiológicos, assim como investigar as alterações presentes no trabalhador
para posterior intervenção.

A ergonomia possui um caráter preventivo e todos os métodos


avaliativos devem ser direcionados ao coletivo e não somente
aqueles que já apresentam sinais de distúrbios neuromotores. A
ergomotricidade, enquanto vertente da ergonomia, também deve
direcionar esforços ao bem-estar da empresa como um todo ao atuar
de forma coletiva e, em certos casos, individual.

As especificidades da atividade laboral frente as atividades cotidianas são


um outro obstáculo na avaliação psicomotora voltada ao trabalhador. No trabalho,
ferramentas avaliativas voltadas à saúde do trabalhador envolvem os fatores
físicos, psicológicos, o ambiente e a percepção do indivíduo no meio o qual está
inserido. Ainda é difícil integrar o estado de saúde psicológico com o motor devido
a fatores pessoais, sociais e organizacionais não serem considerados em alguns
métodos avaliativos.

Como já visto anteriormente neste mesmo capítulo, a consulta ao trabalhador


quanto à percepção de qualidade de vida faz parte de um dos itens da norma
regulamentadora da ergonomia. Certos instrumentos de avaliação trazem consigo,
dentre outras, as dimensões motoras e psicológicas do trabalho como forma de
quantificar o impacto destas variáveis na percepção global de qualidade de vida.

Os métodos WHOQOL-BREF (1998); SF-36 (1992); modelos de Werther


e Davis (1983); Westley (1979), Walton (1973), Hackman e Oldham (1975)
e Nadler e Lawler (1983) são os mais utilizados para identificar fatores
relacionados à qualidade de vida do trabalhador. A seguir, serão apresentados
quatro métodos de avaliação amplamente utilizados, sendo o primeiro o
WHOQOL-BREF, que está voltado para a vida cotidiana geral do trabalhador; o

50
ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

segundo é o QVT WESTLEY, voltado para a qualidade de vida exclusivamente


no trabalho; o terceiro é o Modelo Demanda-Controle de Karasek e o último é o
Diagrama Corlett-Manenica que coleta relatos de dor no corpo do trabalhador.

4.1 WHOQOL-BREF
Essa ferramenta foi desenvolvida pela Organização Mundial de Saúde (OMS)
(WHOQOL, 1998). Possui 26 questões divididas em quatro domínios relacionados
a questões físicas, psíquicas, sociais e ambientais. A pontuação desse instrumento
fornece valores referentes à qualidade de vida no aspecto geral e específico para
cada domínio.

Dentro de cada domínio, há uma quantidade de facetas/itens que,


direcionados ao trabalhador em forma de pergunta, possibilitam respostas
positivas e negativas sobre diversos aspectos que envolvem a qualidade de vida
geral como reflexo do cotidiano do trabalhador, dentro e fora do local de trabalho.
Ao todo, são 26 perguntas com respostas curtas, objetivas e de fácil compreensão.

Dentre as 26 perguntas, duas são direcionadas a aspectos gerais da vida


do trabalhador não fazem parte de nenhum domínio específico. A seguir, seguem
os domínios e suas descrições correlacionados às numerações das perguntas
feitas ao trabalhador, sendo que a autoavaliação da qualidade de vida (itens 1 e 2)
devem ser observadas separadamente, já que refletem a percepção de qualidade
de vida sem considerar fatores técnicos.

As questões gerais de qualidade de vida (Como você avaliaria


sua qualidade de vida? Quão Satisfeito você está com a sua saúde?)
não fazem parte de nenhum domínio, mas podem ser utilizadas
como comparativo entre a percepção geral de qualidade de vida e a
quantificação proporcionada pelos domínios do questionário.

51
ErGomoTriCiDADE

QUADRO 2 – DOMÍNIOS DO WHOQOL-BREF


DOMÍNIO 1 – DOMÍNIO FÍSICO
3. Dor e desconforto
4. Energia e fadiga
10. Sono e repouso
15. Mobilidade
16. Atividades da vida cotidiana
17. Dependência de medicação ou de tratamentos
18. Capacidade de trabalho
DOMÍNIO 2 – DOMÍNIO PSICOLÓGICO
5. Sentimentos positivos
6. Pensar, aprender, memória e concentração
7. Autoestima
11. Imagem corporal e aparência
19. Sentimentos negativos
26. Espiritualidade/religião/crenças pessoais
DOMÍNIO 3 – RELAÇÕES SOCIAIS
20. Relações pessoais
21. Suporte (Apoio) social
22. Atividade sexual
DOMÍNIO 4 – MEIO AMBIENTE
8. Segurança física e proteção
9. Ambiente no lar
12. Recursos financeiros
13. Cuidados de saúde e sociais: disponibilidade e qualidade
14. Oportunidades de adquirir novas informações e habilidades
23. Participação e oportunidades de recreação/lazer
24. Ambiente físico: (poluição/ruído/trânsito/clima)
25. Transporte
FONTE: Fleck (2000, p. 179)

A coleta deve ser feita, preferencialmente, sem mediação de um pesquisador,


ou seja, a melhor forma de fazer a coleta é explicando o preenchimento do
formulário para que o próprio trabalhador possa preencher. Essa medida evita
que perguntas que causam possível constrangimento como no tema “vida sexual”
sejam respondidas da forma mais fidedigna.

Após a coleta, seus resultados são tabelados e o domínio com menor índice
é aquele que necessita de atenção.

52
ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

Em tempo, ressalta-se que o questionário deve ser preenchido


como reflexo da percepção do cotidiano do trabalhador nas duas
semanas anteriores ao dia do preenchimento do WHOQOL-BREF.

Apesar de ser uma das inúmeras ferramentas que não correlaciona os


fatores físicos e psíquicos de forma direta, consegue indicar onde há necessidade
de maior intervenção, já que os resultados de cada faceta/item são descritos
individualmente. Portanto, o fator que influência mais negativamente na percepção
de qualidade de vida do trabalhador pode ser identificado facilmente, podendo
envolver fatores físicos ou psicológicos, o que contribui para justificativa de
intervenção em ergomotricidade.

4.2 MODELO DE QUALIDADE DE VIDA


NO TRABALHO DE WESTLEY (QVT
WESTLEY)
Esta ferramenta foi publicada nos anos 1970 e aponta quatro indicadores
como influenciadores da percepção de qualidade de vida no trabalho: a política
(insegurança); a econômica (injustiça); a psicológica (alienação); e a sociológica
(anomia). Na sequência, serão descritos os indicadores de modelo QVT
WESTLEY:

• Econômico – Este indicador buscar reconhecer a influência de


determinadas demandas que envolvem as condições financeiras do
trabalhador como equidade salarial (mesmo salário entre empregados,
sem distinção de sexo, raça, nacionalidade etc.), remuneração adequada,
benefícios, inclusive resgata fatores que indiretamente estão ligados
à remuneração, ao local de trabalho, à carga horária e ao ambiente
externo.
• Político – Segurança no emprego; atuação sindical retroinfomação;
liberdade de expressão; valorização do cargo; e relacionamento com a
chefia.
• Psicológico – Realização potencial; nível de desafio; desenvolvimento
pessoal; desenvolvimento profissional; criatividade; autoavaliação;
variedade de tarefa; e identidade com a tarefa.

53
ErGomoTriCiDADE

• Sociológico – Participação nas decisões; autonomia; relacionamento


interpessoal; grau de responsabilidade; e valor pessoal.

Perceba que o modelo QVT WESTLEY não apresenta nenhum


indicador físico sobre aspectos físicos, porém consegue ser muito útil
para identificação de aspectos psicológicos. Os métodos avaliativos
utilizados em crianças precisam ser adaptados aos adultos e para que
a efetividade seja comprovada diante de diferenças inquestionáveis
entre a área neuropsicológica adulta e pediátrica.

Para que se possa entender as diferenças entre o sistema nervoso do


adulto e da criança quanto à expressão motora, o estudo da neuroplasticidade
se faz necessário, já que em um passado pouco distante acreditava-se que o ser
humano nascia com a quantidade de neurônios que precisa para o resto de sua
vida, portanto, a quantidade de neurônios não sofria variação.

Atualmente, sabe-se que o volume de conexões neurais é variado de acordo


com a idade, assim como o tamanho do encéfalo de uma criança não é igual
ao de um adulto. Afinal, o cérebro de um adulto não permanece do mesmo
tamanho e com as mesmas conexões da idade infantil, assim como os idosos
também apresentam alterações estruturais importantes no sistema nervoso como
consequência do avanço da idade.

Devido à formação de conexões entre neurônios (sinapses), sabe-se que


a substituição de neurônios destruídos através do processo de apoptose (morte
natural), gera novos processos neurais, o que promove a manutenção da
quantidade de neurônios caso o sistema nervoso central seja adequadamente
estimulado, o que origina a plasticidade sináptica.

54
ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

Para aprofundar seus conhecimentos em neuroplasticidade


e sinapses, consulte: MAUREIRA, F. Plasticidad sináptica, BDNF y
ejercicio físico. EmásF: revista digital de educación física, n. 40,
p. 51-63, 2016.

“A plasticidade sináptica é a capacidade que tem o sistema nervoso para


mudar a morfologia ou a funcionalidade de desenvolvimento, além de potencializar
um amplo campo no principal mecanismo de plasticidade que permite gerar
memórias de dias, meses ou anos” (MAUREIRA, 2016).

4.3 MODELO DEMANDA-CONTROLE


(MDC)
Os primeiros estudos relacionados ao estresse no trabalho, remetem à
década de 1960. Robert Karasek, na década seguinte, identificou que existiam
fontes específicas de desenvolvimento do estresse no trabalho. Naquela época,
conseguiu agrupar em uma escala de perguntas que envolviam demanda e
controle no trabalho. Logo, sua iniciativa vem sendo replicada até os dias atuais
através do Modelo Demanda-Controle (MDC) (KARASEK,1979).

O referido modelo contribui de forma muito importante para o trabalho em


ergomotricidade, já que a própria análise dos scores já direciona a intervenção do
ponto de vista psicomotor, onde padrões estabelecidos nas dimensões avaliadas
indicam qual será o foco da atividade em ergomotricidade para um determinado
trabalhador ou um grupo de trabalhadores de um setor.

55
ErGomoTriCiDADE

O modelo de Karasek é descrito como “teórico bidimensional”


por relacionar dois aspectos – demanda e controle no trabalho
– ao risco de desenvolvimento de doenças. Apesar disso, o apoio
social também é avaliado, podendo ser considerado uma dimensão
flutuante, devido aos fatores sociais dentro do ambiente de trabalho
acentuarem e minimizarem a previsão dos problemas psicológicos.
(Exemplo: o bom relacionamento com chefes pode minimizar a
demanda psicológica elevada).

Segundo o modelo proposto, existem duas versões para aplicação do método


avaliativo, um expandido e outro resumido, sendo o resumido mais utilizado devido
à credibilidade de seus resultados e agilidade na aplicação. Na versão resumida,
as dimensões são distribuídas num questionário de cinco perguntas diretas para
avaliar as demandas psicológicas, seis para o controle sobre o trabalho e seis
para quantificar o apoio social, totalizando, na versão resumida, 17 perguntas.

As respostas dos trabalhadores são dadas através de qualificadores que


geram uma pontuação específica em escala tipo Likert (1-4). Os qualificadores
são: nunca ou quase nunca (1 ponto); raramente (2 pontos); às vezes (3
pontos); e frequentemente (4 pontos). A dimensão de apoio social possui outros
qualificadores que são: discordo totalmente (1 ponto); discordo mais que concordo
(2 pontos); concordo mais que discordo (3 pontos); e concordo totalmente (4
pontos).

Na aplicação do questionário, um detalhe importante não pode


ser esquecido. O aplicador deve pontuar as questões 4 e 10 de modo
invertido, ou seja, nunca ou quase, nunca vale 4 pontos.

Cada dimensão contida no modelo possui um escore específico, em que,


para as demandas psicológicas, variam de 5 a 20 pontos, para o controle sobre o
trabalho de 6 a 24 pontos, e para o apoio social de 6 a 24 pontos.

56
ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

Ao final da aplicação do modelo de demanda-controle, deve-se fazer a soma


dos domínios, ou seja, somar as questões de 1 a 5 para obter o valor da demanda.
Somar as questões de 6 a 11 para obter o valor do controle e, por último, somar
os valores das questões de 12 a 17 para obter o valor do suporte social. Com os
valores obtidos, torna-se possível identifica qual domínios apresenta valores altos
ou baixos.

Após a aplicação, inicia-se a análise dos dados coletados utilizando a média


dos valores obtidos em cada domínio (demanda, controle ou apoio social). Os
valores médios dos domínios de todos os trabalhadores (análise coletiva do
setor/empresa) ou de cada trabalhador (análise individual) serão classificados de
acordo com o exposto no quadro a seguir:

QUADRO 3 – CLASSIFICAÇÃO DE DOMÍNIOS DO MODELO


DE DEMANDA-CONTROLE DE KARASEK
Alto Baixo
Demanda psicológica >14 ≤14
Controle sobre o trabalho >16 ≤16
Apoio social >19 ≤19
FONTE: O autor

Com os resultados das médias em mãos e após conhecer a classificação


entre alto e baixo, os resultados são observados em um esquema clássico, criado
por Karasek, que demonstra o padrão de trabalho ao qual o colaborador está
exposto. Esse esquema, apresentado na Figura 10, apresenta a caracterização
do trabalho como trabalho ativo, trabalho passivo, trabalho de baixo desgaste
e trabalho de alto desgaste.

• O trabalho é considerado ativo se a demanda for alta e o controle também


for alto.
• O trabalho é considerado passivo se a demanda for baixa e o controle
também for baixo.
• O trabalho é considerado baixo desgaste se a demanda for baixa e o
controle for alto.
• O trabalho é considerado alto desgaste se a demanda for alta e o controle
for baixo.

57
ErGomoTriCiDADE

FIGURA 10 – ESQUEMA DE RESULTADOS DO MODELO


DE DEMANDA-CONTROLE DE KARASEK

FONTE: Rego et al. (2019, p. 100)

O quadrante ativo é considerado o ideal, pois o trabalhador consegue ditar


seu ritmo de trabalho, conduzir suas atividades de acordo com sua capacidade
físicas e mentais, sente-se motivado para desenvolver novos padrões de
comportamento. Já o quadrante de alto desgaste, reflete o pior resultado
possível, já que o trabalhador apresenta grande demanda psicológica, o que
leva ao desgaste mental e sofrimento físico com possibilidade de surgimento de
patologias físicas.

Os trabalhadores, o setor ou a empresa que se enquadra no


quadrante de alto desgaste é aquele que mais precisa de intervenção
em ergomotricidade, devido ao risco de repercussões físicas e
psicológicas oriundas do trabalho.

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ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

O modelo de demanda-controle não indica quais trabalhadores estão ou não


estressados. Apesar de ser uma avaliação de estresse, ao final da aplicação da
escala é possível identificar qual dentre as três dimensões (demanda, controle,
apoio social) necessitam de atenção para a intervenção em ergomotricidade.

Você deve estar se perguntando: onde aplicarei aos resultados de apoio


social? A resposta é simples. Quando o apoio social for considerado alto (>19),
o avaliador deverá considerar que esse domínio pode contribuir para reduzir
os efeitos ruins do estresse no cotidiano do trabalho ou aumentar o bem-estar.
Nesse contexto, o apoio social é visto como reforçador positivo no combate
ao estresse. Caso o apoio social for baixo (≤19), deve-se ter atenção, pois as
demandas psicológicas podem ser acentuadas, assim como o alto controle pode
ser prejudicado, o que direciona o trabalhador a uma condição de alto desgaste
(pior quadrante do esquema clássico – Figura 10).

4.4 DIAGRAMA DE CORLETT-


MANENICA
O Diagrama de Corlett-Manenica foi criado em 1980 e é utilizado como
instrumento de avaliação para sintomatologia da dor. É facilmente aplicável por
contar com um modelo representativo do corpo humano em posição anatômica,
dividido em 24 segmentos, o que facilita a identificação das regiões de dor pelo
corpo.

Sua importância para ergomotricidade se dá pelo fato de ser uma ferramenta


de fácil aplicação, que consegue refletir os sinais álgicos que necessitam e
atenção para um grupo de pessoas de uma empresa (por setor, por atividade, por
tarefa e até mesmo de toda a empresa). Por ter a finalidade de avaliar grupos,
seus resultados podem refletir as reais necessidades que as empresas têm
quanto à prevenção e promoção da saúde física, já que a dor é um sinal de alerta
que faz parte do grupo dos sinais florísticos da inflamação.

A classificação de desconforto varia em oito níveis, em que zero significa


“nenhum desconforto” e sete “extremamente desconfortável”. Por tanto,
quando maior é a intensidade da dor, maior é a numeração referida (CORLETT;
MANENICA, 1980).

59
ErGomoTriCiDADE

FIGURA 11 – DIAGRAMA DE ÁREAS DOLOROSAS DE CORLETT-MANENICA

FONTE: <http://www.def.ufla.br/marcoantonio/wp-content/uploads/2014/10/
An%C3%A1lise-postural-pelo-m%C3%A9todo-CAPTIV.pdf>. Acesso em: 18 mar. 2020.

Os resultados do Diagrama Courlett-Manenica podem ser classificados em


porcentagem e apresentados em forma de gráficos ou tabelas. A informação deve
ser compartilhada com o setor de saúde da empresa, se for conveniente.

Recomenda-se que a aplicação deste diagrama seja feita antes do início


das atividades propostas pela ergomotricidade e após a conclusão de uma
rotina de intervenções, para que seja possível a comparação da efetividade das
intervenções na saúde física dos trabalhadores.

5 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
Os alicerces da ergomotricidade ainda vem sendo construídos com a prática.
Sendo o corpo a origem das aquisições cognitivas, afetivas e orgânicas, a
psicomotricidade aplicada ao trabalho ainda tem um amplo caminho a percorrer,
já que lida com trabalhadores, pessoas adultas que já passaram pelos principais
períodos de aquisição cognitiva.

60
ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
E MÉTODOS AVALIATIVOS

O estímulo neuropsicomotor no adulto que trabalha não se limita apenas ao


tratamento e prevenção de patologias. Novos olhares precisam ser criados para
que as habilidades físicas e cognitivas que não foram despertadas possam ser
desenvolvidas no adulto em prol do seu cotidiano, principalmente para o trabalho.

O trabalho demanda de habilidades específicas, que ao serem estimuladas


corretamente, conseguem gerar mudanças significativas. A empresa se beneficia
por ter ao seu dispor um colaborador com múltiplas habilidades, incluindo
maior destreza e equilíbrio corpóreo, raciocínio e memória, bem-estar físico e
psicológico.

Devido à ergomotricidade ainda ser um ramo da psicomotricidade pouco


explorado, os profissionais habilitados necessitam conhecer o mundo do trabalho
e os fatores que envolvem a saúde do trabalhador. Outras áreas do conhecimento
como a fisioterapia, terapia ocupacional, psicologia, as engenharias, segurança do
trabalho, pedagogia, enfermagem e medicina, trazem experiências do ambiente
laboral que devem ser consideradas para a construção de identidade dessa nova
área de conhecimento.

A legislação trabalhista e as pesquisas científicas, ao preconizarem a saúde e


o bem-estar do trabalhador frente ao labor, abrem as portas para a psicomotricidade
adentrar ao ambiente de trabalho. Os resultados das intervenções são a porta de
entrada para que a ergomotricidade conquiste seu espaço dentro das empresas,
eles mostram o reflexo benéfico da instalação deste tipo de serviço, que valoriza
o trabalhador, traz lucro e produtividade ao empregador, bem como reduz gastos
com afastamentos por motivos de saúde.

Ferramentas utilizadas por outras áreas que cuidam da saúde do trabalhador


devem ser replicadas para o acompanhamento dos resultados das intervenções
em ergomotricidade, tornando as práticas cada vez mais credíveis e replicáveis.
O uso de instrumentos para avaliar a qualidade de vida, fatores físicos e fatores
psicológicos relacionados ao trabalho geram informações básicas que todo
psicomotricista deve deter para orientação de suas atividades junto aos grupos de
trabalhadores.

61
ErGomoTriCiDADE

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ERGONOMIA E ERGOMOTRICIDADE: ASPECTOS LEGAIS, CONCEITOS
Capítulo 1
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65
ErGomoTriCiDADE

66
C APÍTULO 2
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO
AMBIENTE DE TRABALHO APLICADAS À
NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes


objetivos de aprendizagem:

• Reconhecer como a percepção ambiente pode influenciar na relação do homem


com o trabalho.
• Conhecer de que forma o trabalhador demanda de habilidades físicas e
psicocognitivas para a execução do trabalho.
• Apresentar o comportamento sensorial diante do ambiente de trabalho.
• Correlacionar as demandas de trabalho com as habilidades psíquicas,
cognitivas, sensoriais e motoras do trabalhador.
• Relacionar a capacidade corporal com as demandas especificas de cada tipo
de trabalho.
• Identificar quais estratégias de integração sensorial podem ser desenvolvidas
junto ao trabalhador para o benefício de seu desempenho.
• Avaliar os fatores de risco para doenças ocupacionais a partir da exposição do
trabalhador aos fatores de risco.
• Compreender como o conhecimento das neurociências e fisiologia humana
ajudam a compreender os problemas de saúde gerados pelo trabalho.
ErGomoTriCiDADE

68
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

1 CONTEXTUALIZAÇÃO
Conhecer o ambiente de trabalho e as exigências físicas e psicológicas as
quais os trabalhadores estão expostos, é primordial para que se entenda quais
são as prioridades na intervenção em ergomotricidade. Dependendo de cada
demanda oriunda dos trabalhadores quanto a sua saúde física e psicológica, a
intervenção é direcionada e pode sofrer constantes adaptações à medida que
há algum sinal de melhora. Por tanto, a intervenção não pode ser padronizada
como uma receita de bolo, em que sempre são executados os mesmos métodos
terapêuticos para todos os trabalhadores.

Apesar das técnicas psicomotoras, que serão vistas ao final da presente obra,
direcionarem quase sempre o psicomotricista a realizar atividades em grupos, há
de se considerar as diferenças fisiológicas de cada trabalhador e, se for o caso,
buscar soluções individualizadas ou que atendam um grupo especifico de pessoas
que executam atividades similares e/ou que estão expostas ao mesmo ambiente
de trabalho.

O presente capítulo é iniciado com a apresentação das exigências motoras e


biomecânicas diante do trabalho, relacionando o trabalho estático e dinâmico com
a fisiologia humana frente a ambas condições de trabalho. A coordenação motora
é apresentada como parte das demandas motoras, apesar da inquestionável
participação cognitiva do sistema nervoso central para a concepção dos
movimentos coordenados finos e grossos.

As reações fisiológicas musculares também são retratadas nesta etapa e


servem como base para o tema a ser explanado no próximo capítulo, que tratará
das consequências negativas de cada modelo de atividade em forma de afecções
neuromotoras. As afecções psicológicas também serão tratadas futuramente,
logo, o presente capítulo também aponta desde já as principais exigências
psicocognitivas que o trabalho impõe, incluindo a orientação espacial, a memória
e o aprendizado.

O ambiente de trabalho, por estimular os sentidos de diferentes formas,


traz valiosas informações ao psicomotricista. A recepção e o processamento
de cada estímulo merecem ser descritos de forma minuciosa para que possam
ser compreendidos e estimulados adequadamente. Sendo assim, grande parte
do presente capítulo se dedica a apresentar a repercussão fisiológica sensorial
diante de elementos ambientais do trabalho.

Elementos abstratos do trabalho também são abordados, incluindo a


exigência do tempo nos processos, baixa motivação e ausência de pausas

69
ErGomoTriCiDADE

para descanso, com a finalidade de dar base ao entendimento dos distúrbios


psicomotores comuns do trabalho.

2 O TRABALHO E A EXIGÊNCIA
DE HABILIDADES MOTORAS E
BIOMECÂNICAS
Segundo Amadio (2000), o corpo humano pode ser definido como sistema
de segmentos articulados que se mantém em equilíbrio estático ou dinâmico,
e o movimento é produto de forças internas que geram deslocamento dos
seguimentos corporais. Esta tarefa chega a ser considerada complexa devido
ao conjunto de estruturas envolvidas. Para que se possa entender melhor o
movimento como ciência, torna-se necessária a descrição, análise e modelagem
dos sistemas biológicos, o que leva ao surgimento da prática Biomecânica.

A Biomecânica é entendida como um dos métodos para estudar a maneira


como os seres vivos, principalmente o homem, adaptam-se às leis da mecânica
durante a realização de movimentos voluntários, ou seja, a biomecânica leva em
consideração as características do aparelho locomotor (AMADIO; SERRÃO, 2011).
Ela deve ser vista como uma ciência altamente interdisciplinar dada a natureza do
fenômeno investigado e, para o trabalho, seu entendimento é fundamental para
que se chegue ao conhecimento do funcionamento das estruturas em atividade.

O trabalho exige constantemente habilidades inerentes ao ser humano, e


o trabalhador geralmente é recrutado para as atividades compatíveis com sua
capacidade motora. Em certos casos, o trabalhador necessita aperfeiçoar esta
habilidade. Em outros, quando não há compatibilidade entre a capacidade e a
necessidade física do indivíduo, a alternativa mais viável é o aprendizado motor.

A aplicabilidade da biomecânica é muito vasta e perpassa pelos esportes,


reabilitação, ambiente escolar, ambiente domiciliar e trabalho, assim como outros
tipos de áreas de atuação menos exploradas.

70
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

QUADRO 1 – APLICABILIDADE DA BIOMECÂNICA


Área de atuação Exemplos de aplicação
Diagnose da técnica de movimento e condição física; redução de
Esporte de alto nível de sobrecargas ao aparelho locomotor; sistematização e otimização
rendimento do rendimento esportivo; identificação do regime de treino ótimo
etc.
Estudo dos processos de aprendizagem; adequação de sistemas
Esporte escolar e recreação
e equipamentos com feedback pedagógico etc.
Desenvolvimento de métodos, procedimentos e técnicas aplica-
Prevenção e reabilitação
dos à terapia; descrição de padrões patológicos; adequação e
orientados à saúde
desenvolvimento de equipamentos etc.
Estudo da postura e da locomoção humana; classificação e
Atividades do cotidiano e do sistematização de movimentos nos postos de trabalho; análise da
trabalho interface homem, máquina e meio ambiente, eficiência, saúde e
segurança nas tarefas da vida diária e do trabalho
FONTE: Adaptado de Amadio (1989)

A avaliação do movimento humano pode ser considerada um dos pilares da


atuação em ergomotricidade no ambiente ocupacional. A identificação dos fatores
de risco que determinam a realização de movimentos e posturas inadequados
e a decisão sobre a melhor intervenção a ser utilizada ou recurso preventivo a
ser empregado, ocorre em função dos resultados da avaliação. A avaliação
biomecânica pode ser baseada na coleta de dados qualitativos e quantitativos
suficientes e precisos, bem como na observação sistemática e descrição das
alterações do movimento identificadas.

Dentre as definições de biomecânica, o conceito de biomecânica ocupacional


é diferenciado por considerar a integração corporal com o ambiente de trabalho.
Segundo Chaffin, Anderson e Martin (2001), a biomecânica ocupacional é o
estudo da interação física entre trabalhadores e seus instrumentos, máquinas
e materiais com o objetivo de aumentar a performance e reduzir os riscos de
distúrbios musculoesqueléticas. Para Iida (2005), a biomecânica ocupacional trata
basicamente da questão das posturas corporais no trabalho e aplicação de forças
as quais estão relacionadas ao tipo de trabalho muscular, estático ou dinâmico,
e aos tipos de alavancas existentes no corpo humano durante a execução dos
movimentos.

71
ErGomoTriCiDADE

Tanto os esforços estáticos quanto dinâmicos podem ocasionar


lesões articulares e no disco intervertebral. Isso depende de como a
dinâmica corporal do trabalhador acontece.

2.1 PARTICULARIDADES DO
TRABALHO ESTÁTICO E TRABALHO
DINÂMICO
Os esforços dinâmicos estão relacionados a deslocamentos corporais com
tarefas que exijam mudança constante de angulação do tronco e membros,
com ou sem transportes de cargas. Ao passo que os esforços estáticos ocorrem
durante sustentação de cargas externas com manutenção da força ou demanda
do próprio peso corporal com restrições de movimento impostas pela própria
atividade. Os esforços estáticos geram trabalho estático e os esforços dinâmicos
geram trabalho dinâmico, e ambas as formas de trabalho são amplamente
estudadas em benefício a saúde do trabalhador e a produtividade organizacional.

Como exemplo de trabalho estático, podemos citar as


atividades administrativas, de vigilância predial, educacionais e de
teleatendimento, já o trabalho dinâmico está presente na construção
civil, na zeladoria, no ato de cozinhar e lavar roupas.

Do ponto de vista estrutural, há de se considerar a reação muscular diante


dos dois modos de trabalho. Assim, para dois tipos de atividade laboral temos
dois tipos de trabalho muscular, que devem ser observados: o trabalho muscular
dinâmico (movimento) e o trabalho muscular estático (postura). De acordo com
Kroemer e Grandjean (2005), os músculos se comportam das seguintes formas
nas respectivas situações:

• O trabalho dinâmico caracteriza-se pela alternância de contração


e extensão, portanto, por tensão e relaxamento. Há mudança no
comprimento do músculo, geralmente de forma rítmica.
72
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

• O trabalho estático, ao contrário, caracteriza-se por um estado de


contração prolongada da musculatura, o que geralmente implica um
trabalho de manutenção de postura.

De acordo com os mesmos autores, o trabalho dinâmico pode ser expresso


com resultante da força desenvolvida e do encurtamento dos músculos (trabalho
= peso × altura; aqui, peso × altura que é levantado). Já no trabalho estático,
o músculo não muda seu comprimento e mantém alta tensão, o que leva à
manutenção de uma constante de força. Logo, pode-se dizer que para a atividade
laboral em si, o trabalho estático não é nada útil por proporcionar elevado gasto
de energia sem que dele seja produzido algo para o trabalho.

a) Exigências motoras e biomecânicas do trabalho estático – Esforços


musculares mantidos sem variação de tensão, obviamente levam os vasos
sanguíneos a serem pressionados pelos músculos, interrompendo o correto fluxo
sanguíneo. Isso ocorre comumente em atividades cuja postura sentada ou em pé
são adotados por longos períodos, fazendo com que a energia seja despendida
do corpo a partir de grupos musculares invariáveis, ou seja, os mesmos músculos
são exigidos sempre durante posturas repetitivas.

Quando o trabalhador se movimenta pouco e adota uma postura fixa, o fluxo


sanguíneo diminui e os tecidos deixam de receber a quantidade necessária de
nutrientes para a sua manutenção, passando a acumular substâncias residuais.
A água, os açúcares, o oxigênio e as proteínas em forma de aminoácidos
deixam de chegar nas células e os tecidos utilizam suas próprias reservas para o
funcionamento correto do músculo.

Para que se possa exemplificar como o trabalho estático traz mais malefícios
do que benefícios à saúde do trabalhador, a figura a seguir traz um diagrama
utilizado por Kroemer e Grandjean (2005) que exemplifica as demandas
musculares de irrigação sanguínea frente a cada tipo de trabalho.

73
ErGomoTriCiDADE

FIGURA 1 – DEMANDAS MUSCULARES DE IRRIGAÇÃO SANGUÍNEA NO TRABALHO

FONTE: Iida (1990, p. 84)

O mecanismo de acúmulo de resíduos nos músculos gera


desconforto e alterações importantes na consistência do sistema
osteomioligamentar, o que leva à dor aguda da fadiga muscular.

O excesso de repetições vem sendo relacionado aos microlesões tanto


no trabalho estático quanto no dinâmico. No trabalho estático mais ainda, nos
trabalhos de linha de produção e de montagem, na indústria moderna, os mesmos
movimentos são continuamente repetidos: por exemplo, quando se costura uma
roupa ou se trabalha como caixa nos computadores ou, ainda, quando se embala
produtos.

O compositor Robert Schumann perdeu a habilidade de tocar com a mão


direita devido à lesão por esforço repetitivo adquirido durante o uso do piano.

A ocorrência de distúrbios musculoesqueléticos oriundos dos efeitos


cumulativos dos esforços repetitivos, tornou-se um problema difundido nos
trabalhos, especialmente os manuais. A intervenção deve ser direcionada à
frequência das atividades manuais e seu conteúdo, especialmente quanto à força
muscular imposta pelo trabalhador na execução de uma determinada atividade,
assim como a adoção de posturas adequadas durante a execução do movimento.

As habilidades motoras finas são muito presentes para este tipo de atividade

74
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

laboral. Realizar a contração muscular de forma coordenada e precisa demanda


de habilidades desenvolvidas com a prática e paciência. Algumas pessoas, no
decorrer da vida, desenvolveram estas habilidades intuitivamente e na fase adulta
apresentam destreza em tarefas de precisão. Portanto, os estímulos vivenciados
desde a infância são importantes para o desenvolvimento neuropsicomotor do
adulto.

A coordenação motora grossa, a marcha e o equilíbrio são demonstrações de


comportamentos neuropsicomotores demandados pelo trabalho. Para o trabalho
estático, a marcha e o equilíbrio são menos demandados quando comparadas à
coordenação motora.

b) Exigências motoras e biomecânicas do trabalho dinâmico – Os


músculos são o motor de propulsão do corpo. Eles convertem energia química,
extraída da comida e bebida, em força mecânica útil, transferida para os membros.
Para tanto, eles dependem dos subsistemas circulatório, respiratório e metabólico
do corpo. Os músculos podem facilmente desempenhar trabalho dinâmico bem
organizado, mas os limites para que não ocorram sobrecargas precisam ser
muito bem definidos, e o psicomotricista que atua no ambiente de trabalho deve
conhecer o comportamento motor durante as atividades que demandam de
esforço físico para conseguir intervir de modo adequado.

A quantidade de fibras musculares ativadas durante a contração muscular


indica quanto de força um movimento pode vir a ter. Ao mesmo tempo, não há
plena contração muscular sem a atuação do sistema nervoso, que encaminha aos
músculos o comando contrátil que necessitam para desencadear o movimento
com intensidade de força específica. Logo, a intensidade da força muscular
depende também dos impulsos nervosos oriundos do sistema nervoso central
rumo ao músculo, tido como tecido efetor de movimento.

A rapidez das contrações musculares determina a velocidade da contração


muscular como um todo, o que influência na velocidade de movimento para o
trabalho. A velocidade do movimento no trabalho não deixa de ser influenciada
pela a ação dos nervos, que encaminham o estímulo motor em um certo intervalo
de tempo para a efetiva contração muscular. Por tanto, no trabalho dinâmico,
o tempo de transporte do estímulo ao movimento proporcionado pelos corpos
celulares dos neurônios motores, somado à capacidade contrátil do músculo é
quem definem a velocidade o qual uma ação pode ser executada.

A velocidade de um movimento depende do número de fibras musculares


que se contraem pelo estímulo neuronal. Quando uma contração muscular é lenta
e harmoniosa no trabalho dinâmico, as fibras musculares são recrutadas para
contração alternada e sucessiva, o que proporciona períodos de repouso para
menor ocorrência de fadiga.
75
ErGomoTriCiDADE

O trabalho dinâmico gera momentos de tensão e relaxamento alternados para


um mesmo grupo muscular, o que é benéfico para vários aspectos fisiológicos do
corpo humano, porém, a depender de como o trabalho é feito, o trabalho dinâmico
pode ser mais prejudicial que o estático.

Durante a contração muscular do trabalho dinâmico, o sangue é expulso dos


músculos, enquanto que o relaxamento subsequente favorece o retorno do estado
original do volume sanguíneo para o músculo. Por este mecanismo, a velocidade
e pressão de sangue se elevam para que este consiga chegar a diversas partes
do corpo. Durante este esforço dinâmico (como quando se caminha), o músculo
age como comprimindo e descomprimindo vasos, o que para alguns autores o
mecanismo assemelha-se com uma bomba de fluidos.

Um músculo pode receber até vinte vezes mais sangue do que


quando está em repouso.

O aumento do fluxo sanguíneo no corpo do trabalhador, proporcionado pelo


trabalho dinâmico, faz com que o aporte de glicose e o oxigênio seja aumentado
nos tecidos e, ao mesmo tempo, há remoção de subprodutos formados a partir das
reações celulares para produção de energia, ou seja, os resíduos são retirados
para serem excretados.

Durante o esforço físico, os músculos do trabalhador atuam como um motor


térmico, utilizando energia na forma de oxidação de glicogênio e produzindo
resíduos, como o ácido lático e ácido racêmico que elevam as taxas de acidez
sanguínea. O processo e acidose repercute nos sistemas vascular e respiratório,
aumentando o calibre dos vasos sanguíneos e a frequência respiratória. Tudo isso
ocorre em prol do equilíbrio entre a demanda e o suprimento de oxigênio para
os músculos. Somente ao fim da atividade os níveis fisiológicos são plenamente
estabilizados, o que temos algo em torno de 6 minutos (IIDA, 2005).

A postura, apesar de ser predominantemente observada no trabalho estático,


também deve ser alvo do trabalho dinâmico. A biomecânica corporal e as
estruturas que compõe o sistema osteomioligamentar devem ser respeitadas no
sentido de não haver sobrecarga ao corpo do trabalhador. Posturas inadequadas,
pesos excessivos, inexistência de momentos de repouso muscular, podem levar o
trabalhador a lesões físicas e esgotamento energético (estafa).

76
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

Também conhecida como fadiga, a estafa é um desgaste do


organismo que compromete nosso desempenho em diversas
atividades rotineiras, sejam elas físicas ou intelectuais. Disponível
em: https://exame.com/ciencia/6-sinais-de-que-voce-esta-perto-da-
estafa/.

A natureza do trabalho determina se os fatores de saúde do trabalhador


apresentam bons indicadores. Os trabalhadores que consegue se exercitar dentro
do trabalho, excluindo aqueles que realizam trabalhos repetitivos, os indicadores
de saúde física e psicológica apresentam melhores índices.

Obviamente, nada do que vem sendo apresentado deve ser visto como
regra. Patologias físicas e psicológicas podem acometer qualquer trabalhador.
Neste contexto, fatores nutricionais, sociais, econômicos, fisiológicos, a cultura e
o estilo de vida conseguem influenciar substancialmente na condição de saúde a
qual o trabalhador se encontra.

As micropausas no trabalho servem para que o trabalhador


possa compensar o desgaste físico de suas atividades laborais,
que estão presentes tanto no trabalho estático quanto o trabalho
dinâmico. O trabalho estático, quando comparado ao trabalho
dinâmico, traz mais malefícios à saúde física. Tento em vista tudo o
que foi apresentado até o presente momento no capítulo, responda
porque o trabalho estético traz mais malefícios físicos quando
comparado ao trabalho dinâmico?

R.:

77
ErGomoTriCiDADE

2.2 COORDENAÇÃO MOTORA FINA E


GROSSA
Coordenação motora corresponde à capacidade do nosso corpo de realizar
movimentos articulados e com certa harmonia, de tal modo que o ato motor seja
feito com o máximo de precisão. Apresenta-se como resultado da interação entre
a intenção e a ação, envolvendo os sistemas muscular, esquelético, nervoso e
sensorial em prol da execução da ação corporal diante ao ambiente. Graças a ela
que somos capazes de andar, correr, escrever, transportar objetos, deslocar os
membros e o tronco em direções especificas, dentre outros.

Esta habilidade corporal pode ser aperfeiçoada durante toda a vida,


da infância a fase adulta. Com o passar do tempo, o corpo humano realiza
movimentos cada vez mais precisos ao interagir com o ambiente em prol de
algum objetivo. Ao nascer, os movimentos de um bebê não apresentam a destreza
necessária para a execução de movimentos coordenados. Na infância, quando as
habilidades corporais começam se desenvolver, o corpo já responde de forma
integrada com os estímulos psicocognitivo sem grande destreza. Na vida adulta,
após o desenvolvimento neurológico e sensório-motor estar completo, o indivíduo
experimenta o máximo potencial corporal quanto à capacidade de interagir com
o meio. Portanto, quanto mais complexas são as tarefas a serem executadas,
maiores são os níveis de coordenação exigidos para o desempenho eficiente.

O ser humano necessita manter sempre estímulos


neuropsicomotores, inclusive na fase adulta. Por volta dos 30
anos de idade, o corpo começa a apresentar um mecanismo de
morte celular programada, conhecida como apoptose celular. Nos
neurônios, esta morte celular gera perda gradativa do potencial de
coordenação motora e de outras habilidades corporais, assim como
a falta de estímulos reduz a quantidade de sinapses (conexões) entre
neurônios.

No trabalho, a coordenação motora é constantemente exigida, seja na


montagem de acessórios ou na digitação de documentos, o cérebro humano
sempre está coordenando seus estímulos às ações motoras corporais. Em
atividades laborais, novas habilidades vão surgindo e a destreza para os
movimentos coordenados aperfeiçoam-se à medida que são estimulados.
78
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

O ato de digitar é um exemplo clássico de habilidade coordenativa adquirida


no trabalho, já que a velocidade de digitação aumenta à medida que a utilização
das teclas do computador passa a ser automatizada pelo cérebro, que passa
se familiarizar cada vez mais com a posição das letras e números, bem como a
distância entre as teclas a fim de coordena os movimentos.

Como já apontado anteriormente, a coordenação motora está presente tanto


no trabalho estático quanto no trabalho dinâmico. A depender da natureza da
atividade, pode-se observar maior ou menor exigência de coordenação motora
para a execução das tarefas. Sendo assim, para facilitar a compreensão de
como a coordenação motora é exigida no trabalho estático ou dinâmico, deve-se
considerar a divisão da coordenação entre motora fina e motora grossa.

a) Coordenação motora fina – Apesar de não ser um pré-requisito para


todas todos os tipos de trabalho estático e estar presente em algumas funções
que exijam dinamismo, a coordenação motora fina está destinada às tarefas mais
delicadas e de precisão, nesse caso, observa-se o envolvimento de pequenos
músculos. A manipulação de pequenos objetos como agulhas e pinceis é sempre
feita com o movimento de pinça e envolve a coordenação motora fina.

FIGURA 2 – CORTE DE TECIDO EXIGINDO COORDENAÇÃO MOTORA FINA

FONTE: <https://certificadocursosonline.com/wp-content/uploads/2018/07/
curso-de-corte-e-costura.jpg>. Acesso em: 15 jun. 2020.

b) Coordenação motora grossa – Assim como a coordenação motora fina


não é exigida somente no trabalho estático, a coordenação motora grossa não
é exigida exclusivamente pelo trabalho dinâmicos. Envolve habilidades menos
delicadas, maior amplitude de movimentos e está relacionada a grandes grupos
musculares. A atividade laboral que pode exemplificar este tipo de coordenação é
a manipulação de carros de mão na construção civil.

79
ErGomoTriCiDADE

FIGURA 3 – LIMPEZA DO AMBIENTE EXIGINDO COORDENAÇÃO MOTORA GROSSA

FONTE: <https://bit.ly/2AF6XTp>. Acesso em: 12 abr. 2020.

Todo e qualquer movimento corporal demanda de coordenação


para que seja feito com destreza e perfeição. A coordenação motora
integra o sistema nervoso e o sistema musculoesquelético, para que
juntos possam atuar na execução de uma atividade proposta no
ambiente de trabalho. Sendo assim, estabeleça a relação numérica
entre as colunas utilizando 1 para atividades que exijam coordenação
motora grossa e 2 para atividades que exijam coordenação motora
fina.

Fazer crochê
Arar a terra manualmente para a plantação
Carregar sacas de cimento
Digitar um texto no computador

R.:

2.3 EQUILÍBRIO E CONTROLE


POSTURAL
O equilíbrio é um fator de grande importância para o desenvolvimento das
atividades cotidianas, pois sem ele seria impossível realizar qualquer tarefa,
80
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

mesmo aquelas mais simples. Para o trabalho, a exigência do equilíbrio é


constante, especialmente nas atividades que exigem certo grau de dinamismo
corporal.

Toda e qualquer atividade corriqueira exige certo grau de equilíbrio, desde a


manutenção tônica do tronco, durante a postura sentada ao ato de subir escadas.
Enquanto habilidade sensório-motora, o equilíbrio envolve a ação muscular
e o posicionamento articular no espaço a partir da integração entre os centros
motores no encéfalo com a recepção de informações do aparelho vestibular,
localizado próximo ao aparelho auditivo humano. O aparelho vestibular é formado
por estruturas ósseas, membranosas e líquidas que são responsáveis por enviar
ao cérebro as informações proprioceptivas do corpo no espaço. Dentre todas as
estruturas corporais, três se destacam quanto ao equilíbrio postural:

• Sistema somatossensorial: para que o reflexo postural aconteça, fusos


musculares, órgão tendinoso de Golgi, receptores articulares e cutâneos
fornecem informações somatossensoriais ao sistema nervoso para o
estímulo motor adequado.
• Sistema visual: proporciona a identificação dos elementos dispostos no
ambiente para direcionar o ato motor voluntário equilibrado e harmonioso.
• Sistema vestibular: a partir da posição da cabeça, o encéfalo atua na
orientação do corpo no espaço, bem como busca adequar os movimentos
apendiculares (braços e pernas) e axiais (tronco e cabeça) para as
mudanças súbitas e involuntários de posicionamento (ex.: controle
corporal durante ônibus em movimento).

No trabalho, os estímulos proprioceptivos beneficiam o controle motor


a executar determinada ação de maneira eficaz. Diversos inputs sensoriais
provenientes do labirinto e córtex visual agem por ajustes posturais involuntários,
com destaque para o trato vestíbulo-espinhal na musculatura tônica antigravitária.

Propriocepção, também conhecida como cinestesia, refere-se


à capacidade de reconhecer a localização do corpo no espaço, sua
posição e orientação, a posição de cada parte do corpo em relação
às demais, sem utilizar a visão.

81
ErGomoTriCiDADE

Deve-se ressaltar a dificuldade na mensuração da importância de cada


sistema sensorial, uma vez que o corpo humano apresenta grande capacidade
de adaptação, como observado em indivíduos deficientes visuais, que mantêm de
forma satisfatória o equilíbrio, com pequena perda de precisão.

O controle postural de cada indivíduo é completamente dependente do


equilíbrio corporal por estar intimamente relacionado aos mecanismos neurais
semelhantes aos mecanismos de equilíbrio para manter a posição do corpo no
espaço. A estabilidade no ambiente e a orientação espacial são características
que ligadas ao controle motor que contribui para adoção da postura desejada.
As vias neuronais vestibulares, cerebelares, proprioceptivas e de certas áreas de
integração sensório-motoras no encéfalo são responsáveis pelo controle postural
e, coincidentemente, pelo equilíbrio (MENEZES et al., 2015). Em suma, o controle
postural deve ser considerado como uma manifestação do equilíbrio.

2.4 FORÇA E RESISTÊNCIA FÍSICA


O trabalho físico extenuante exige muita atuação das estruturas
musculoesqueléticas. Para os trabalhadores que desenvolvem esse tipo de
atividade, a estrutura corpórea e a resistência são bons pré-requisitos que
influenciam, inclusive, no processo admissional para certas funções. A experiência
profissional, a ausência de perda funcional por patologia prévia e o bom estado
estrutural corpóreo são fatores importantes, especialmente no trabalho dinâmico.

A carga imposta ao corpo repercute nas estruturas musculares influenciando


no desempenho para as atividades melhorem gradativamente e a consistência
muscular, na forma de tônus, seja incrementada; assim como o volume muscular,
na forma de trofismo, sejam aumentados. Os tendões dos músculos mais exigidos
na atividade laboral passam a ser mais resistentes, assim como os ligamentos
recebem um maior auxílio para manutenção da estabilidade articular.

Os músculos são constituídos por grande quantidade de fibras musculares


que variam de comprimento entre 5 mm e 140 mm. O diâmetro da fibra muscular
possui algo em torno de 0,1 mm e um músculo pode conter até 1 milhão de fibras.
Em músculos longos, as fibras estão dispostas em série e nas extremidades de
qualquer músculo estão presentes um emaranhado de tecido conjuntivo pouco
elástico que conecta o os ossos ao ventre muscular, os tendões (KROEMER;
GRANDJEAN, 2005).

A biomecânica muscular possui características primordiais para sua atuação


no movimento. A capacidade contrátil do músculo envolve a resistência, a força
e a elasticidade, sendo esta última importante do ponto de vista biomecânico

82
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

por proporcionar durante a contração muscular a redução do comprimento


muscular em até 50% do seu volume em repouso. O trabalho do músculo em uma
contração completa aumenta em função de seu comprimento, ou seja, o trabalho
é proporcional ao comprimento do músculo.

A estrutura muscular necessita de estímulos para que consiga, através do


aumento dos tônus e trofismo, melhor desempenho para as atividades laborais.
O próprio trabalho consegue proporcionar estímulos que induzem o corpo a se
adaptar a futuras demandas. O processo de aquisição de força e resistência
física envolvem, no músculo, a constituição de cada fibra muscular. As proteínas
estruturais do músculo, actínia e miosina, que têm papel de destaque na
contração muscular pela sua capacidade de deslizar uma sobre a outra, levando
ao encurtamento do músculo, citado anteriormente.

FIGURA 4 – REAÇÃO DA ACTÍNA E MIOSINA DURANTE


A CONTRAÇÃO E RELAXAMENTO MUSCULAR

FONTE: <https://cienciadotreinamento.com.br/wp-content/uploads/2015/05/
contra%C3%A7ao.png>. Acesso em: 15 jun. 2020.

No processo de contração e relaxamento muscular, a intensidade de carga


imposta sobre os músculos causa microlesões que, quando consideradas
isoladamente, são benéficas ao trabalhador por proporcionarem a agressão
muscular necessária para o incremento de tônus e trofismo, preparando o tecido
muscular para novas e mais fortes agressões futuras. Obviamente, para que
isso aconteça, o repouso e boa alimentação são fundamentais. Seus efeitos
cumulativos podem trazer graves lesões.

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ErGomoTriCiDADE

FIGURA 5 – TECIDO MUSCULAR INTEGRO (A ESQUERDA)


E COM MICROLESÕES (A DIREITA)

FONTE: <https://bit.ly/30KecEl>. Acesso em: 15 jun. 2020.

O local de trabalho não deve ser um lugar que permanentemente testa


os limites do corpo. Caso contrário, o desenvolvimento de doenças se torna
corriqueiro. O empregador deve entender que seus colaboradores possuem limites
físicos e psicológicos que podem ser aperfeiçoados com a aplicação correta de
métodos e técnicas que proporcionam o desenvolvimento de habilidade motoras
e cognitivas. O elevado nível de exigência físico na execução dos processos é
geralmente seguido de sintomas como dores, fadiga, estafa e, em piores casos, as
microlesões se convertem em lesões mais graves com risco de ruptura muscular
parcial ou completa.

Segundo Iida (2005), o corpo humano é similar a uma máquina, detentor de


um sistema de alavancas promovido pela contração muscular, o que proporciona
a possibilidade do ser humano a realizar diversos tipos de trabalho, mas, mesmo
as máquinas possuem limitações e fragilidades, e com a “máquina humana”
não seria diferente. Essas limitações precisam ser consideradas no projeto e
dimensionamento do trabalho.

Além da velocidade, força e resistência muscular, o trabalho


dinâmico também pode exigir bom equilíbrio, marcha e coordenação
motora. Diferentemente do trabalho estático, em que a principal
habilidade para o trabalho envolve quase que exclusivamente a
coordenação motora, o trabalho dinâmico envolve o movimento
global do corpo. O deslocamento do trabalhador para a execução
suas atividades leva o corpo a utilizar habilidades psicomotoras tão
complexas que tendem a gerar maior bem-estar físico.

84
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

3 DEMANDAS PSICOCOGNITIVAS
GERADAS NO TRABALHO
Para a ergonomia, a saúde do trabalhador deve ser sempre observada em
seu aspecto mais amplo, cujas manifestações psicocognitivas possuem a mesma
importância em comparação às manifestações motoras. Dentre as manifestações
psicocognitivas, há uma desproporcionalidade quanto às demandas oriundas do
ambiente de trabalho. Para algumas atividades, como a de guarda-volumes, a
memória evocada constantemente; já em outras, a memória é demandada com
bem menos intensidade, como a atividade de embalador de supermercado.

Levando em consideração as diferenças existentes entre as atividades


laborais, a seguir, serão apresentadas as habilidades mais demandadas no
ambiente de trabalho e que devem ser foco das práticas em ergomotricidade.

3.1 ORIENTAÇÃO ESPACIAL E


TEMPORAL
O espaço tem ampla variedade de significados, podendo ser relacionado ao
abstrato (espaço sideral), a uma extensão exata de metragem (medidas) e ao
intervalo cronológico entre eventos (segundos, horas). Por esse motivo, a noção
de espaço é relativa, a depender da ótica de cada pessoa.

O ambiente de trabalho é sempre carregado de informações espaciais na


forma de máquinas, mobiliário, ferramentas, sinalizadores de segurança, tamanho
de galpões, salas, tipo de piso, dentre outros. O sistema perceptual humano capta
todas as informações ambientais necessárias para o controle do espaço a sua
volta, para que a interação com o ambiente seja harmoniosa. Esta capacidade de
percepção do ambiente envolve a sensibilidade cutânea, a sensibilidade espacial
(órgãos do sentido) e a propriocepção, sendo está relacionada à capacidade do
indivíduo em perceber seu corpo no espaço.

Uma das funções perceptuais do nosso sistema nervoso central, ainda


pouco explicada do ponto de vista fisiológico, apesar de amplamente discutida
na comunidade cientifica, é a capacidade de perceber os elementos do ambiente.
A manutenção do equilíbrio dinâmico interno dos organismos é feita pela ação
integrada e coordenada dos sistemas nervoso, que resulta em padrões de
respostas comportamentais e fisiológicas adequadas às condições externas
e internas dos indivíduos, e permite perceber e interagir com o ambiente. Esta
capacidade, apesar de similar a propriocepção, possui em seu conceito diferenças
importantes.
85
ErGomoTriCiDADE

Orientação espacial é traduzida como a capacidade que o indivíduo tem de


situar-se e orientar-se em relação ao ambiente a sua volta, tendo como referência
o próprio corpo ou elementos do ambiente. É saber localizar o que está à direita
ou à esquerda; à frente ou atrás; acima ou abaixo de si, ou ainda, um objeto
em relação a outro. É ter noção de longe, perto, alto, baixo, longo, curto (JOSÉ;
COELHO, 2002).

A propriocepção está relacionada à capacidade do indivíduo em perceber e


localizar o seu próprio corpo; a orientação espacial considera a localização de
elementos tendo como referência seu próprio corpo ou elementos do ambiente.
A propriocepção, por lidar com o próprio corpo, não depende o sistema visual
para se manifestar, já a orientação espacial, pode se valer ou não da visão para
a localização de elementos ambientais. A visão geralmente é usada para orientar
o observador quando a referência é um elemento do ambiente, excluindo o seu
próprio corpo.

A utilização da visão para orientação espacial usa pistas visuais (elementos


do ambiente) para que o indivíduo passa reconhecer o que está a sua volta.
Nesse contexto, a memória participa da evocação do comportamento cognitivo.

Até o presente momento, o que se sabe sobre orientação espacial, do ponto


de vista das neurociências, é que entre as diversas vias sensoriais capazes de
despertar a orientação espacial, estão inclusos o sistema visual, sensitivo tátil, a
propriocepção, o sistema auditivo e o sistema vestibular.

A orientação temporal também merece destaque por ser uma manifestação


cognitiva que pode ser utilizada como habilidade para o trabalho. Algumas
profissões utilizam o tempo como item que influencia nos processos e na tomada
de decisão, afinal, o educador físico trabalha na preparação de atletas utilizando
uma rotina de treinamento a partir de uma ordem cronológica; os fisioterapeutas
utilizam estimativas cronológicas em conjunto com sinais clínicos dos pacientes
para determinar as fases agudas e crônicas de uma lesão; os meteorologistas
utilizam previsões de tempo a curto, médio e longo prazo a partir de dados
meteorológicos, ou seja, a orientação temporal está diretamente ligada a várias
áreas de atuação por envolver noções de organização, rotina, planejamento e
previsão.

A orientação temporal tem certas semelhanças com a orientação espacial


em que o ambiente é o foco. Funções corporais como o movimento, e intelectuais
como o canto, recebem influência da noção temporal. Durante a caminhada,
o movimento coordenado de braços e pernas só é possível pela capacidade
de diferenciação entre o tempo de alternância entre os membros. No canto, o
uso da voz em sincronia com os sons instrumentais evoca o ritmo, que é uma
manifestação de controle temporal.
86
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

• Visão: possibilita a identificação de forma (dimensões) dos objetos e


nas relações entre eles e com o observador. Dentro do olho humano,
especificamente na retina, a imagem bidimensional do mundo externo
é projetada. Ao considerar a recepção de informações nos dois olhos
e o transporte destas informações para o sistema nervoso central,
o cruzamento de informações ambientais, com levas diferenças em
cada olho, pode ser o motivo pelo qual uma imagem tridimensional é
experimentada pelo cérebro, beneficiando não só a visualização de
tamanho, como também de profundidade e um maior detalhamento entre
a distância entre os elementos ambientais. De acordo com Buys e Lopez
(2004), indivíduos que perderam a visão de um dos olhos tem dificuldade
em perceber a profundidade e distância de elementos ambientais,
isso reforça a teoria proposta para a contribuição do sistema visual na
orientação espacial.
• Propriocepção e informações vestibulares: as informações
vestibulares fornecem informações sobre a posição do corpo no
ambiente com a possibilidade de viabilizar informações de geométricas
e de lateralidade. As informações provenientes dos órgãos tendinosos
de Golgi, que são direcionados à propriocepção e ajudam a correlacionar
informações como forma de transformar o corpo como um ponto de
referência, centrado no indivíduo. Essa função, envolve o córtex parietal
posterior na área intraparietal lateral (LIP) (BISLEY; GOLDBERG, 2003).
• Tato: no córtex parietal direito, os estímulos táteis são integrados para
a concepção da estereognosia, ou seja, reconhecimento da forma de
um objeto. Portanto, todo o percurso da sensibilidade tátil é importante
para a detecção de elementos ambientais, principalmente os receptores
táteis/pressão, os Corpúsculos de Vater-Pacini, Meissner e Merkel, que
serão apresentados com maior detalhamento no próximo capítulo.
• Audição: o estímulo sonoro se comporta semelhante ao estimulo visual
quanto à função para a orientação espacial. A manifestação auditiva
de distância de um objeto é possível graças a diferenças de recepção
auditiva entre os dois ouvidos. Enquanto um ouvido recebe determinado
estímulo, o outro recebe o mesmo estímulo com certo atraso ou
com perda de intensidade devido ao distanciamento. O raciocínio
proporcionado pelo processamento sensorial bilateral dos ouvidos indica
a distância do estímulo sonoro para o receptor, que consegue, inclusive,
indicar corretamente o ponto de origem do som (GERENTE; PASCOAL;
PEREIRA, 2008).

87
ErGomoTriCiDADE

A todo momento o trabalhador demanda de orientação espacial,


sendo os motoristas a classe trabalhadora que supostamente é a
mais exigida quanto a essa função cognitiva. Por tanto, quais atos
do cotidiano da atividade de motorista demandam de orientação
espacial?

R.:

Os operadores de máquinas também são muito exigidos, inclusive aqueles


que conduzem guindastes que, apesar de estarem fixos num determinado lugar,
precisam direcionar seus braços de alavanca na direção correta, projetando a
ação da máquina através dos sistemas contidos dentro da cabine.

Na engenharia e arquitetura, o espaço em forma de medida é constantemente


demandado. Aqueles que projetam prédios, obras de saneamento, vias de trânsito,
estações de tratamento de água e esgoto, a todo momento são instigados a
utilizar suas habilidades espaciais para execução do planejamento bem-sucedido,
tendo em vista que projetos são, como o próprio nome se refere, projeções de
algo a ser criado e a capacidade de raciocínio vislumbrando dimensões futuras
demandam precisão através de cálculos, medidas e imaginação da concepção do
projeto acabado em consonância às possibilidades apresentadas pelo espaço a
ser manipulado.

3.2 MEMÓRIA E APRENDIZADO


No encéfalo humano, não há estrutura cerebral que seja reconhecida como
a única armazenadora de informações de memória, embora se acredite que o
lobo temporal tenha grande participação nesse processo. As áreas encefálicas
responsáveis pelas memórias episódicas e semânticas são o hipocampo e o
córtex entorrinal, localizadas no lobo temporal do telencéfalo. Elas são integradas
ao córtex cingulado e ao córtex parietal.

88
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

FIGURA 6 – ÁREAS ENCEFÁLICAS RESPONSÁVEIS PELA MODULAÇÃO DA MEMÓRIA

FONTE: <http://fisio2.icb.usp.br:4882/wp-content/uploads/2016/02/
PsicologiaAula52016.pdf>. Acesso em: 15 abr. 2020.

Várias teorias tentam explicar com exatidão como se dá a recepção,


o processamento e o armazenamento da memória. Ainda não se conhece
definitivamente o mecanismo ou os mecanismos, pelo qual o cérebro se organiza
para a concepção da memória. Na tentativa de esclarecer esta manifestação
cognitiva tão importante, algumas teorias já foram propostas para explicar os
mecanismos neurais envolvidos. Atualmente, três teorias buscam explicar como o
cérebro humano e suas unidades neuronais se comportam diante da necessidade
de armazenamento da informação.

A primeira teoria faz referência aos circuitos elétricos reverberantes presentes


entre os neurônios, estabelecendo sinapses e carregando consigo informações
captadas no ambiente, e que transitam entre neurônios para estímulo de
reativação direcionadas ao próprio corpo celular do neurônio. Esse mecanismo
vem sendo relacionado à manutenção das informações de memória de trabalho e
de curto prazo (VELASCO-SUÂRE, 1980).

89
ErGomoTriCiDADE

A segunda também faz referência às sinapses formadas entre neurônios,


mas, diferentemente da teoria anterior, o estímulo elétrico dá espaço às reações
químicas contidas entre os neurônios. Supõe-se que as sinapses químicas
formariam uma codificação que estimula o neurônio, como uma chave para a
informação. Esse modelo supõe que esta teoria é mais completa ao apontar o
ARN (Ácido Ribonucleico) como substância responsável por conter um código
da memória da mesma forma que o ADN (Ácido Desoxirribonucleico) contém a
codificação genética.

Apesar de mais completa, a teoria sináptica química é menos


aceita, pois acredita-se que essa síntese seja responsável mais pelo
funcionamento celular do que pela criação de um código químico de
memória.

A terceira teoria, a conexionista, pressupõe a alteração das conexões entre


os neurônios. As ramificações neuronais em forma de dendritos e axônios podem
ser estimulantes ou inibitórias para a célula a que se destinam. A transmissão
do impulso nervoso é feita entre as sinapses e a célula-alvo e a teoria se baseia
na formação de novas conexões, o que altera a função sináptica, gerando novos
circuitos neuronais que codificariam as informações. Assim, acredita-se que a
memória é uma manifestação do aumento da função sináptica ou da criação de
novas sinapses (MELLO; GRZECHOTA; ZIMMER, 2015).

A teoria conexionista é aquela mais aceita atualmente, por ter sido


comprovada experimentalmente o aumento da resposta sináptica com a aplicação
de estímulos repetitivos, estímulos estes que podem ser vistos no próprio
ambiente de trabalho.

Um fato que reforça a veracidade da teoria é a atenuação das lembranças


que ocorre em virtude da diminuição da função sináptica causada pela redução
do estímulo e, como consequência, a memória fica cada vez mais difícil de
ser acessada com o passar do tempo. Esta teoria também está relacionada à
expressão da aprendizagem (MELLO; GRZECHOTA; ZIMMER, 2015).

Em toda e qualquer função laboral, a memória é evocada com maior ou


menor intensidade. Para funções relativas às ciências exatas, a memória é muito

90
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

demandada, especialmente no uso de cálculos e fórmulas. Na culinária, a memória


tem grande importância na execução do ato de cozinhar pelas lembranças
relativas ao uso, sequência e quantidade de ingredientes. Já em funções como de
vigilante, a memória é pouco demandada pelo perfil da atividade.

A memória pode ser classificada de diversas formas, porém, analisando a


memória quanto ao tempo de armazenamento das informações, a classificação
pode ser feita em memória sensorial, de trabalho, de curto prazo e memória de
longo prazo.

• Memória de longo prazo: retém a informação por longos períodos e de


forma definitiva, o que proporciona ao indivíduo a evocação dos fatos por
muito tempo após o armazenamento. As situações marcantes da vida de
cada indivíduo tendem a ser armazenadas por mais tempo, assim como
o conhecimento adquirido e reforçado.
• Memória de curto prazo: armazena dados por algumas horas até que
sejam gravados de forma definitiva ou sejam esquecidos pela falta de
reforço.
• Memória de trabalho: os dados obtidos nas áreas correspondentes a
essa classe de memória são imediatamente perdidos após o uso.
• Memoria sensorial: está relacionada às sensações proporcionadas
pelo sistema sensorial (exemplo: memória olfativa – lembrança de certos
odores).

A memória de longo prazo, como o próprio nome sugere, corresponde


à retenção de informações tidas como “valiosas”, que serão recrutadas com o
passar do tempo pela sua importância. O tempo de retenção dessas memórias
é relativo, podendo durar semanas, meses ou até mesmo anos. A importância
dessa memória para o trabalho envolve diretamente o processo de aprendizagem,
já que o aprendizado para o trabalho envolve a retenção de informações usadas
por um longo período em prol da execução das tarefas cotidianas.

A memória de curto prazo contribui no trabalho para a execução de processos


rápido e com pouca demanda intelectual. A habilidade para a realização de
uma tarefa momentânea tende a não ser reforçada e, caso não venha a ser
constantemente evocada, pode ser esquecida. A memória de curto prazo tende a
ser mantida por um curto espaço de tempo e não é perdida imediatamente após
a sua utilização.

Um dos tipos de manifestação da memória que, para alguns faz parte da


evocação da memória de curto prazo, é conhecida como “memória de trabalho”.
Esta tem por finalidade manter a informação que está sendo utilizada em tempo
real por alguns segundos, não deixando rastros ou arquivo após a sua utilização,

91
ErGomoTriCiDADE

ou seja, as informações são completamente perdidas. Nesse caso, caso a


informação seja novamente solicitada em um curto espaço de tempo, deverá ser
novamente colhida.

Um exemplo clássico da memória de trabalho pode ser visto


quando alguém diz um número de telefone para ser discado e,
essa informação pode ser guardada, se for um número que nos
interessará no futuro ou ser descartada imediatamente após o uso. A
última manifestação é tipicamente associada à memória de trabalho.

A memória sensorial é acionada a todo momento no cotidiano do ser humano.


Ela contribui para certas tarefas de trabalhado como a ausculta pulmonar, feita
pelos profissionais da saúde, que precisam reconhecer o tipo de ruído emitido
pela respiração nos pulmões, na perfumaria e vinicultura, cujo odor dos produtos
sinaliza qualidade etc.

O aprendizado tem relação direta com a memória por buscar constantemente


fixar aquilo que pode ser útil para o indivíduo. Os mecanismos neurais cognitivos
da aprendizagem se assemelham com os processos neurológicos da memória.
O estímulo constante ao aprendizado proporciona maior fixação daquilo que
se quer aprender, assim como o desuso da informação aprendida promove o
esquecimento.

O aprendizado pode ser classificado de várias formas, a depender da sua


finalidade. O aprendizado motor, por exemplo, ocorre desde o nascimento até a
aquisição de movimentos complexos, que se aperfeiçoam com facilidade até algo
em torno dos sete anos de idade. Para o adulto, o aprendizado é mais difícil pela
bagagem histórica que as conexões cerebrais trazem; o que difere da mente de
uma criança. Quando uma criança se dispõe a aprender algo, tem mais facilidade
devido a sua mente ser “um caderno em branco”, já que o histórico de conexões
sinápticas na infância é baixo quando comparado ao adulto.

O adulto, por possuir grande quantidade de informações armazenadas


obtidas no decorrer de sua trajetória de vida, apresenta o desenvolvimento
neurológico mais completo e complexo. A capacidade de raciocínio permanece
inalterada e se torna, inclusive, mais complexa para algumas tarefas às quais
foi treinado. Já que raciocínio e aprendizado não são a mesma coisa, não há
garantias de que um trabalhador que apresenta excelente desempenho para a
função de atendente terá o mesmo desempenho como administrador.
92
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

A pesquisa confirma o que todo mundo que já aprendeu ou


está aprendendo um outro idioma sabe: aprender uma língua nova
quando somos crianças é mais fácil. Por que isso acontece?
Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/
Neurociencia/noticia/2014/08/por-que-aprender-um-novo-idioma-
e-mais-facil-quando-somos-criancas.html.

Durante o trabalho, o aprendizado motor pode ser facilitado pela


ergomotricidade, assim como o despertar para novas habilidades psicocognitivas.
O autoconhecimento é a melhor forma de aprender, assim como ser estimulado
de modos distintos, principalmente quando se consegue associar o conhecimento
a emoções.

O cargo de escrivão apresenta atribuições diversas no seu dia a


dia de trabalho. Uma delas se refere a ouvir as partes envolvidas,
vítimas, averiguados, autores, testemunhas, no distrito ou onde
se possam encontrar, buscando realizar a lavratura de boletins
de ocorrência, flagrantes ou prisões cautelares. Observando
a descrição destas atividades que o cargo desenvolve, pode-
se dizer este trabalhador utiliza predominantemente um tipo de
memória. Relate qual o tipo de memória é mais demandado por esse
profissional ao exercer a atividade descrita no enunciado e justifique.

R.:

3.3 ATENÇÃO
Vários pesquisadores das áreas da psicologia, da neurociência cognitiva,
biologia, fisiologia já se detiveram ao estudo da atenção humana devido a ser
considerada um importante caminho compreensão da percepção e funções
cognitivas em geral. Ela se apresenta função relevante para a interação entre

93
ErGomoTriCiDADE

indivíduo e ambiente, além de participar da organização e seleção de processos


mentais.

A principal característica da atenção é a seleção de estímulo, já que a


recepção de estímulos ambientais é intensa e nem tudo consegue ser captado e
armazenado no sistema nervoso. Nesse processo, o sistema nervoso seleciona
informações oriundas dos órgãos sensoriais, dirigindo a atenção somente para
aquilo que é interessante, o que garante a eficácia na interação do indivíduo com
o meio o qual está inserido (BRANDÃO et al., 2001).

No mundo do trabalho, a atenção é pré-requisito para praticamente toda


tarefa e não há trabalho que não exija atenção mínima. Algumas funções
demandam de mais atenção pelo seu gral de seriedade e impossibilidade de
erros. Controladores de voo são altamente exigidos quanto a essa habilidade
cognitiva, assim como motoristas e profissionais da saúde.

A falta de atenção no trabalho pode causar desde problemas na condução


de trâmites administrativos (exemplo: advogados que comumente perdem
documentos e datas de audiência) ao surgimento de erros que geram risco
eminente de morte (exemplo: pedreiros que caminham em área proibida na obra).

Os mecanismos de atenção analisam qual informação será útil para guiar


nosso comportamento. Pesquisas envolvendo mecanismos de neuroimagem e
outras medidas neurobiológicas vem desvendando como ocorre o processamento
do sistema cerebral de atenção (LIMA, 2005).

Os achados científicos indicam que os processos neurais


presentes no tronco encefálico são o ponto chave para a concepção
da atenção. Lima (2005) aponta que as projeções do sistema
ativador reticular ascendente (SARA) estimulam o córtex cerebral na
evocação de múltiplas conexões, além de proporcionar a manutenção
do alerta e a escolha das respostas comportamentais. Acredita-se
que esse processo seja mediado neuroquimicamente por neurônios
dopaminérgicos provenientes do núcleo dessa região.

Do ponto de vista neuropsicológico, é fundamental compreender os


mecanismos de atenção, na medida em que representam a base de todos os
processos cognitivos e encontram-se alterados na presença de sintomas clínicos.

94
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

Para Robert Lent (2010), autor da celebre obra “cem bilhões de neurônios”,
a atenção está relacionada basicamente a dois aspectos: o alerta e a própria
atenção. O primeiro representa a atuação dos órgãos sensoriais e manutenção
do tônus cortical em prol da recepção dos estímulos; o segundo perpassa pelo
estado de alerta com foco em processos mentais e neurobiológicos (LENT, 2010).

LENT, R. Cem bilhões de neurônios. Conceitos fundamentais


de neurociência, v. 2, p. 631-639, 2010.

Vários estímulos ambientais no trabalho são tidos como alerta, incentivando a


tomada de decisão através da atenção. A agilidade para a execução do trabalho e
a eficácia com que ele é desempenhado dependem da entrega ao que se propõe
a fazer. A entrega, no trabalho, pode ser vista como a quantidade de atenção que
se tem para a execução de uma determinada tarefa. Quanto maior a entrega,
maior é o estado de atenção e menor a chance de erros e retrabalho.

O retrabalho é uma das principais chagas dentro de uma empresa. O tempo


perdido para que algo seja refeito causa insatisfação de todos os envolvidos, assim
como pode causar custos de tempo, material e hora/atividade do trabalhador, que
deixa de se dedicar a outras tarefas inerentes ao seu cargo para suprir possíveis
erros decorrentes da fata de atenção.

4 SENSIBILIDADE CORPORAL E O
AMBIENTE DE TRABALHO
O conforto é constantemente buscado pelos trabalhadores na atualidade,
o que estimula a busca por conhecimentos mais detalhados sobre o mobiliário,
as ferramentas de trabalho, a sensação térmica, iluminação, ruído, o modo
operatório, o uso do tempo no trabalho, o detalhamento das tarefas em atividades
coordenadas, o uso de tecnologia, dentre outros. Portanto, o ambiente vem
ganhando destaque no mundo do trabalho por ser aquele que consegue interferir
positivamente ou negativamente no desempenho do trabalhador, principalmente
na manutenção de sua saúde física e saúde financeira da empresa, sendo este
último relacionado a maior produção e menos afastamentos do trabalho.

95
ErGomoTriCiDADE

Os ambientes, de modo geral, interagem a todo momento com o ser


humano. As sensações são recebidas pelo corpo de várias formas e interpretadas
para que seja gerada uma resposta, consciente, que não está relacionada,
necessariamente, ao movimento. A inibição de resposta motora ao estímulo
também depende do processamento de informação neural que leva à inativação
muscular a partir da vontade do indivíduo.

Por outro lado, o comportamento neuropsicomotor também pode ser


dependente de interpretação neural estimulada pelo ambiente. Sendo assim, a
ergomotricidade, além de se preocupar com a interação entre o aparato físico
humano e as suas manifestações sensoriais e psicocognitivas, deve estar atenta
em como o ambiente pode influenciar na modulação do comportamento do
trabalhador.

A palavra “comportamento” na presente obra deve ser observada


em seu mais amplo sentido, cujo comportamento pode se manifestar
como processo cognitivo, percepção de sensações (comportamento
sensorial) comportamento motor, cumprimento de regras,
dentre outros. Sendo assim, ao citar a palavra comportamento,
necessariamente, um adjetivo será agregado e o leitor deve estar
atento a mudanças de conotação para a palavra.

Vários fatores estão relacionados ao ambiente como moduladores do


sistema nervoso para a concepção de comportamentos diversos, desde as cores
das paredes ao ajuste térmico agradável. Para a neurociências, há várias formas
de modular o comportamento que podem trazer benefícios aos trabalhadores e
aos mecanismos perceptuais, bem como os fatores ambientais relevantes para a
ergomotricidade serão abordados a seguir.

4.1 SENSIBILIDADE TÉRMICA,


AMBIENTE DE TRABALHO E
ERGOMOTRICIDADE
Aspectos legais já foram discutidos na presente obra quanto ao ambiente
e temperatura (Capítulo 1), porém a importância de manutenção do conforto

96
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

térmico ainda precisa ser esclarecida. Antes de tudo, vale ressaltar que há grande
variabilidade de exposição ao calor no trabalho. A exemplo disso, as operações
industriais podem ser feitas em diversos ambientes, inclusive em ar ambiente
ou em elevadas temperaturas (exemplo: próximo a caldeiras). Em contrapartida,
as atividades administrativas deste mesmo ramo de trabalho conseguem ser
mantidas em ambiente termicamente controlado com condicionadores de ar.

O corpo humano, por ser um sistema termodinâmico, sofre variação de


temperatura através da termorregulação corporal que recebe influência parcial
do ambiente extracorpóreo. A sensação térmica é recebida por termoreceptores
localizados na pele (corpúsculos de Krause – Frio / corpúsculos de Ruffini
– Quente) que desencadeiam, no sistema nervoso periférico, estímulos
eletroquímicos em direção ao sistema nervoso central, que faz a interpretação
destes estímulos recebidos. A termorregulação é importantíssima para a
manutenção da vida por estabilizar funções corporais e manter o pleno
funcionamento das células. O calor corporal catalisa reações elétricas e químicas
do corpo, adaptando-se às demandas fisiológicas em um ciclo indispensável par
a vida.

FIGURA 7 – RECEPTORES SENSITIVOS DA PELE

FONTE: <http://www.biowiki.com.br/lib/exe/fetch.
php?hash=d1c4d2&w=500&media=http%3A%2F%2Fwww.biowiki.com.
br%2Fimg%2FHistologia%2FHistologia_receptores.jpg>. Acesso em: 16 jun. 2020.

Na tentativa de equilibrar a temperatura em parâmetros fisiológicos para o


corpo, o organismo reage a variações de temperatura através de mecanismos
como vasodilatação, poliúria (aumento do volume de urina/micção) e sudação.
Essas reações corporais podem ser perigosas para o trabalhador caso há doença

97
ErGomoTriCiDADE

subjacente associada. Como bom exemplo disso, a vasodilatação, ocasionada


por ambientes quentes como fornos e caldeiras, pode agravar quadros de
arteriosclerose, trombose venosa profunda, varizes, aneurisma cerebral, dentre
outros problemas adjacentes.

Vale lembrar que a temperatura corporal humana está


compreendida entre 35,8 ºC a 37,1 ºC. Variações superiores ou
inferiores a esse limiar geram repercussões que podem evoluir
gravemente.

Como consequências para o labor e para a vida cotidiana, o calor excessivo


no trabalho predispõe ao cansaço precoce com consequente sonolência, reduz
a perspicácia e aumenta a tendência de falhas. Em outros casos, o indivíduo
experimenta irritabilidade, a depender de critérios particulares de conforto.

Para que se tenha noção do quanto o calor no trabalho extenuante pode


reduzir as reservas energéticas corporais, Nadel e Cullen (1994) apontam em seu
estudo que o corpo em atividade extenuante pode gerar de 80 a 700 kcal/hora de
calor. Caso esteja exposto ao sol, são somados 150 kcal/hora e cada caloria por
quilograma de peso corporal adicionada, a temperatura corporal aumenta em 0,8
ºC. Em suma, o trabalho extenuante pode gerar uma perda energética de 210-400
kcal/hora e numa jornada de trabalho de 8 horas/dia, pode chegar a 3.200kcal.

Temperatura corporal que ultrapassa 40 ºC ocasiona


vasodilatação periférica e abertura de capilares e direcionamento
de fluxo sanguíneo para as extremidades corporais, o que pode
desencadear insuficiência circulatória e alterações na pressão arterial
com risco de choque térmico.

98
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

O psicomotricista que atua no ambiente de trabalho deve conhecer as


características dos ambientes os quais cada trabalhador está exposto para que
possa propor intervenções que protejam sua saúde. Para aqueles que atuam
em ambientes demasiadamente quentes, recomenda-se a não aplicação de
atividades que possam aumentar de forma importante o gasto energético.

Toda e qualquer intervenção para este tipo de público depende do horário


disponível do trabalhador para as atividades psicomotoras. Antes do início da
jornada de trabalho frente ao calor excessivo, o recomendado é a execução
de técnicas psicomotora que preparem o corpo e a mente para a atividades.
Durante a jornada, as técnicas devem buscar compensar sobrecargas físicas e
psicológicas oriundas da atividade laboral. Ao final de um dia de trabalho, técnicas
voltadas ao relaxamento trazem benefícios para a mente e corpo.

As atividades de relaxamento não são indicadas antes ou após ao início da


jornada de trabalho, por facilitar o quadro, anteriormente exposto, de cansaço
precoce com consequente sonolência, com potencial de prejudicar o desempenho
e comprometer a segurança no trabalho.

A utilização de ambiente refrigerado para atividades de ergomotricidade deve


ser monitorada com muito cuidado. O choque térmico pode acarretar problemas
de saúde simples, podendo ser fatais e levar ao óbito. Para que seja feita a rotina
de atividades com segurança, recomenda-se que não haja troca brusca de clima
para o trabalhador. Se a atividade de ergomotricidade for destinada ao perfil de
trabalhador em questão, deve ser feita uma aclimatação prévia, permitindo a troca
gradual de temperatura corporal do trabalhador.

“Devido a mecanismos de circulação em vasos periféricos e


centrais, a pressão sanguínea tende a cair quando a pessoa sai de
um ambiente frio para o quente. Nesse caso, pessoas que já têm
hipotensão podem ter a condição acentuada e sentir sintomas como
mal-estar e vertigem. Quando o choque é do quente para o frio a
pressão aumenta, o que eleva os riscos de acidentes vasculares
cerebrais e de outros problemas relacionados a picos hipertensivos”.

FONTE: <http://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2016/02/medico-alerta-sobre-
choque-termico-e-da-dicas-de-cuidados-em-juiz-de-fora.html>. Acesso em: 16 jun. 2020.

99
ErGomoTriCiDADE

A realização de atividades de ergomotricidade durante o trabalho em


ambientes de climas distintos não está completamente contraindicada. Há
de se concordar que devido aos riscos oferecidos aos trabalhadores pela
troca de temperatura ambiente, essa prática deve ser evitada. A aclimatação
corporal demanda tempo, o que reforça tal recomendação já que a atuação do
ergomotricista na empresa pode gerar tempo ocioso. Por tanto, o ergomotricista
não deve se preocupar somente com o trabalhador e as práticas propostas nas
sessões de ergomotricidade. Elas não devem atingir o fluxo de trabalho a ponto
de prejudicar o andamento das tarefas e o bom funcionamento da empresa.

Para o trabalho realizado em ambientes com baixas temperaturas, os


cuidados devem ser igualmente levados a sério, já que o trabalho diante do
frio consegue gerar condições preocupantes para a manutenção da saúde do
trabalhador. No frio, o trabalhador está sujeito a modificações metabólicas que
induzem a produção de mais energia para a liberação de calor. Este mecanismo
termorregulatório evita a hipotermia (temperatura corporal baixa por falência da
termorregulação (TALAIA, 2015).

Parsons (1993) provou em seu estudo que há uma relação entre o


desempenho funcional das mãos e o frio. Em baixas temperaturas, as habilidades
manuais apresentam pior performance quando comparadas à exposição a
temperaturas apropriadas ao organismo humano. Consequentemente, atividades
como transporte individual de cargas, trabalhos de precisão manual e digitação
são desempenhados com menor desenvoltura pelo trabalhador pela interferência
da fisiologia diante ao frio.

A redução das habilidades manuais vai além do déficit de


desempenho. Em temperaturas muito baixas, a possibilidade
de ocorrência de acidentes aumenta pela redução da eficiência
no trabalho. Essa situação de colapso corporal diante do frio, é
conhecido como estresse térmico, que pode ser tão intenso a ponto
de evoluir com comprometimento das extremidades corporais,
circulação sanguínea, condução da sensibilidade global no corpo e
pulmões. Num ambiente com temperaturas baixas, a respiração pode
ficar dificultada e dar origem à taquicardia e a episódios asmáticos.
Sendo assim, a temperatura elevada pode ser considerada como a
melhor opção para a execução do trabalho? Justifique sua resposta.

R.:

100
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

O corpo exposto ao frio tende a reduzir a elasticidade dos tecidos e


aumentar a viscosidade dos fluidos corporais, além de propiciar a redução de
estímulos sensório-motores. Estes fatores têm potencial de interferir na prática
em ergomotricidade por caracterizarem alterações fisiológicas de bloqueio entre o
aparato físico, psicológico e o sensório-cognitivo do trabalhador.

O ergomotricista deve garantir em suas atividades, junto aos


trabalhadores, que a temperatura corporal do trabalhador não
comprometerá os resultados das intervenções, ou seja, deve-se
averiguar sempre o conforto térmico e a sensação de bem-estar do
trabalhador antes de qualquer atividade.

As empresas que expõe o trabalhador ao ambiente quente ou frio já são


instruídas a obedecerem a normas que protegem a saúde do trabalhador. Uma
delas é a NR-15, que aborda o trabalho em condições insalubres e está indicada
para direcionar o trabalho no ambiente frio, quando houver caracterização de
insalubridade na atividade do trabalhador. A NR-36 trata sobre o trabalho nas
empresas de carne e abate, que inevitavelmente expõe alguns trabalhadores
de sua linha de produção a ambientes frios com muita exigência de habilidades
manuais.

FIGURA 8 – TRABALHO EM CÂMARAS FRIGORIFICAS

FONTE: <https://www.reportermt.com.br/storage/webdisco/2019/07/23/658x494/
ce706516555b8a7eb4d1b97a5ebde952.jpg>. Acesso em: 16 jun. 2020.

101
ErGomoTriCiDADE

Não obedecer às normas regulamentadores de saúde e segurança no


trabalho podem ser fatais para a saúde financeira da empresa. O empregador
que desobedece às normas fica sujeito ao pagamento de multas, indenizações e
a perda do funcionário, que pode ser essencial para o bom andamento da linha de
produção.

Em resposta ao estresse térmico, o empregador deve fornecer vestimenta


adaptada ao frio e que proporcione o isolamento térmico. Para isso, a proteção
mais adequada ao frio permite trocas gasosas a nível de pele e impede a
penetração de ventos e umidade, já que vários modelos de roupas impermeáveis
impedem esses processos devido ao alto grau de isolamento.

Durante a aplicação das intervenções em ergomotricidade, imediatamente


o ergomotricista deve imaginar que o uso de atividades extenuantes facilita a
manutenção da temperatura corporal, e isso de fato acontece. Deve-se pensar
também no custo dessas atividades para a saúde do trabalhador.

Atividades intensas geram gasto energético e o frio consegue reduzir


as reservas do corpo devido ao consumo acentuado para manutenção da
homeostase. A aceleração do metabolismo gera liberação de calor em resposta
à temperatura ambiente baixa e, quando somados ao gasto energético do
metabolismo e à atividade física extenuante, a resposta pode ser a fadiga para
o trabalho. Logo, a atuação em ergomotricidade para trabalhadores que exercem
suas atividades laborais no frio, deve considerar todas as reações fisiológicas do
corpo humano para não o sobrecarregar.

No frio, a coordenação motora e as sensibilidades (principalmente a tátil,


a térmica e a dolorosa) são muito prejudicadas. Essa reação corporal ao frio
restringe o trabalho da ergomotricidade em ambientes frios para que a integração
sensório-motora esteja adequada para as respostas esperadas diante das
atividades propostas. O trabalhador deve ser retirado do ambiente frio, quando
possível, para a garantia do sucesso das intervenções em ergomotricidade.

Tendo em vista tudo o que foi abordado, as atividades que exijam menos
energia e que estimulem a sensibilidade, a elasticidade dos tecidos corporais, a
coordenação motora e controle das funções manuais, devem ser priorizadas pela
ergomotricidade quando o frio envolver o cotidiano do trabalhador. Além disso,
alguns sinais como perda de sensibilidade, fadiga, patologias de cunho vascular
e manifestações pulmonares devem estar no radar do ergomotricista para que
possa participar do processo de prevenção em saúde do trabalhador dentro da
empresa, bem como direcionar sua prática junto aos trabalhadores.

102
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

Muito se discute sobre a influência da prática de atividade física


em baixas temperaturas e queda na performance, porém o que
se sabe é que os efeitos do frio no desempenho e nas respostas
fisiológicas ao exercício dependem da intensidade do frio e da
natureza do exercício. Para saber mais sobre os efeitos do frio no
corpo humano diante de atividades físicas, acesse: https://www.ativo.
com/fitness/treinamento-fitness/a-influencia-do-frio-sobre-a-pratica-
de-atividade-fisica/.

4.2 SENSIBILIDADE DOLOROSA,


AMBIENTE DE TRABALHO E
ERGOMOTRICIDADE
O Sistema Nervoso é dividido em Sistema Nervoso Central (SNC), composto
pelo encéfalo e pela medula espinal, e Sistema Nervoso Periférico (SNP), formado
por todos os nervos e seus componentes fora do SNC. O Sistema Nervoso
Periférico é constituído pelos nervos e gânglios; sua função é conectar o sistema
nervoso central às diversas partes do corpo humano. Os nervos periféricos são
classificados em sensitivos, motores e mistos (NETTER, 2008).

Os nervos sensitivos ligados à pele atuam como condutores de informações


aferentes térmicas, vibratórias, táteis e dolorosas, que conduzem impulsos
elétricos gerados pelo contato do corpo com o ambiente, rumo ao sistema nervoso
central.

Estímulos aversivos ao corpo humano geram sensações específicas que


são interpretadas como sinais de alerta. Estas sensações específicas diante
de estímulos aversivos são conhecidas como dor. Segundo Silva e Ribeiro
Filho (2011), a dor é definida como "uma experiência sensorial e emocional
desagradável relacionada ao dano real ou potencial de algum tecido ou que se
descreve em termos de tal dano".

Os eventos que originam o fenômeno doloroso envolvem a transformação


dos estímulos agressivos em potenciais de ação através das fibras nervosas
periféricas em direção ao sistema nervoso central. Sequencialmente, a recepção
das informações de dor no corpo humano é feita pelas terminações nervosas

103
ErGomoTriCiDADE

livres contidas na pele. Em seguida, as terminações nervosas de fibras dos tipos


A (mielínicas – com bainha de mielina) e C (amielínicas – sem bainha de mielina)
sofrem alterações em suas membranas para a transformação dos estímulos
aversivos térmicos, químicos ou mecânicos, em impulsos elétricos. Estes impulsos
carregam a informação de dor que é conduzida pelo sistema nervoso periférico
à medula e encaminhada ao córtex cerebral para o devido processamento e
possível resposta (BESSOU; PERL, 1969).

FIGURA 9 – FIBRAS NERVOSAS LIGADAS AOS DIFERENTES TIPOS


DE RECEPTORES NA PELE, MÚSCULOS E ÓRGÃOS INTERNOS

FONTE: <http://www.geocities.ws/neurokidsbr/Images/axon.gif>. Acesso em: 16 jun. 2020.

A Bainha de Mielina é um revestimento de tecido adiposo que


envolve os axônios de alguns neurônios. Estas células possuem a
função de isolamento elétrico da célula, assim como aumentam a
capacidade de condutibilidade de estímulos. No sistema nervoso
central são produzidos pelos oligodendrócitos, e no sistema nervoso
periférico pelas células de Schwann.

104
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

Os eventos dolorosos do corpo humano, quando bem compreendidos,


proporcionam uma intervenção correta para a eliminação do problema. As
neurociências são indissociáveis dos processos fisiológicos e patológicos gerados
pelo contato entre o corpo e os fatores ambientais. Especificamente, tratando-
se de dor, há uma substancial interferência negativa nas relações entre mente-
corpo e corpo-ambiente; e no ambiente de trabalho não é difícil estabelecer o
nexo causal entre distúrbios dolorosos e as atividades inerentes ao trabalhador.

Dores relacionadas ao trabalho são consideradas por alguns pesquisadores


como um problema de saúde pública, por serem motivo de constante demanda
aos serviços de saúde, bem como causam prejuízo às entidades privadas e ao
estado.

Em geral, as dores oriundas do trabalho são geradas por três tipos de


mecanismos: a sobrecarga estrutural, impactos mecânicos ou distúrbios
ortopédicos de origem psicológica. Logo, a dor é um sinal importante a ser
observado pelo psicomotricista no ambiente de trabalho, já que há grande
incidência de quadros álgicos gerados por alterações cognitivas e de ordem
emocional.

“Na presença do estresse, os músculos ficam tensos, causando


dores específicas. A tensão, por sua vez, aumenta o cortisol no
sangue, alterando o ritmo cardíaco. Tudo isso altera o organismo
de uma forma geral, inclusive a musculatura, ficando tensionada e
refletindo-se em dor. Além disso, a pessoa com alteração emocional
e deprimida tende a manter uma postura errada e acaba não
realizando exercícios, ocasionando assim dores musculares”.

FONTE: <https://www.minhavida.com.br/bem-estar/listas/30598-11-dores-
ligadas-ao-seu-estado-emocional>. Acesso em: 16 jun. 2020.

A dor física de origem emocional é, indubitavelmente, a manifestação clínica


mais próxima da vivência terapêutica na ergomotricidade. A harmonização entre o
físico e o psicológico está presente em praticamente todos métodos de intervenção
da psicomotricidade. Fatores como mobiliários inadequados, estabelecimento
de metas inatingíveis, sobrecarga de atividades, baixa remuneração, baixo
reconhecimento e incentivo, baixas perspectivas de crescimento, baixa
flexibilidade nos processos e repetitividade de atividades são alguns fatores que
levam o trabalhador a manifestar distúrbios de ordem psicológica.
105
ErGomoTriCiDADE

O profissional especialista em ergonomia, através da análise ergonômica do


trabalho, consegue fazer o levantamento dos fatores estressores no ambiente de
trabalho e propor soluções que envolvem a atuação do psicomotricista dentro da
empresa. Portanto, o ergonomista tende a conhecer os agentes causadores de
desordem físicas e psicológicas dos trabalhadores para direcionar a atividade de
psicomotricidade dentro da empresa, quando necessário.

Para alguns distúrbios ortopédicos, como os de origem tensional,


alongamentos à própria movimentação do corpo, através de cinesioterapia ativa
livre, contribuem para a melhora do quadro álgico do trabalhador. Ao mesmo
tempo, a observação da postura durante as atividades laborais deve fazer parte
da avaliação dos trabalhadores feita pelo ergomotricista, devido a possível
adoção de posturas inadequadas induzidas pelos distúrbios psicológicos comuns
ao ambiente de trabalho. Caso a postura seja negligenciada, a atuação em
ergomotricidade não surtirá o resultado esperado.

4.3 SENSIBILIDADE VIBRATÓRIA,


AMBIENTE DE TRABALHO E
ERGOMOTRICIDADE
Vibração pode ser entendida como a repetição de movimentos num
determinado intervalo de tempo. A informação vibratória é recebida no corpo
humano pela ativação de mecanorreceptores cutâneos denominados corpúsculos
de Pacini, que também respondem a estímulos sensoriais de pressão e tensão,
encontrando-se nas camadas profundas da pele, ligamentos e cápsulas articulares
(RIEMANN; LEPHART, 2002).

No trabalho, a vibração é um dos fatores ambientais muito presentes aos


operadores de máquinas pesadas e aos trabalhadores da construção civil. O
fato de os motores de acionamento manifestarem problemas de vibração por
características particulares de seus equipamentos, proporciona ao ser humano,
a sensação vibratória do sistema mecânico, chagando a ser integral em certos
momentos, o que pode ocasionar danos físicos e psicológicos ao trabalhador
(RAO, 2009).

As exposições a instrumentos de vibração de alta intensidade dentro do


trabalho são comprovadamente prejudiciais quando mantidos por longo período.
Como consequência grave da manutenção de equipamentos vibratórios junto às
mãos, a conhecida Síndrome de Raynaud, também conhecida como “doença
dos dedos brancos”, tem como característica a alteração do sistema circulatório

106
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

provocando o estreitamento dos vasos sanguíneos e nervos das mãos,


ocasionando a redução ou até perda tátil de um ou mais dedos, especialmente
nas pontas dos dedos, que se tornam brancos, frios e com risco eminente de
perda do membro (KROEMER; GRANDJEAN, 2005).

Certas atividades como motoristas de caminhão, serralheiros, marceneiros


e pedreiros são comumente expostas à transmissão de vibração do equipamento
que manipulam para o corpo. Essa transmissão ocorre de duas formas: por
segmento corporal (mão-braço) ou pelo corpo como um todo. Suas consequências
podem se manifestar através de um simples desconforto à perturbação do
desempenho no trabalho e na vida cotidiana. Sendo assim, os trabalhadores
expostos a ambientes de trabalho com vibração demandam de intervenção em
ergomotricidade devido às consequências psicofisiológicas negativas da interface
entre homem-máquina.

Distúrbios fisiológicos, patológicos e psicológicos são presentes


nos trabalhadores expostos à vibração. A intensidade desses
distúrbios é variável e alguns deles ocorrem simultaneamente,
dificultando a realização de uma triagem entre o desenvolvimento de
cada manifestação visando à prevenção.

Na ergomotricidade, a principal finalidade de intervenção vem a ser a


possibilidade de identificar quais são as demandas neurológicas apresentadas
para que seja possível atuar na prevenção. Trabalhadores que possuem
atividades tipicamente vibratórias podem manifestar alterações sensitivas durante
as intervenções do psicomotricista, que deve estar atento aos sinais típicos como
a perda sensibilidade tátil, mãos frias e esbranquiçadas.

Técnicas de estimulação tátil como o toque de diferentes texturas,


movimentação ativa livre de mão e punho, tarefas de precisão com uso de
musculatura intrínseca da mão, assim como tarefas de preensão palmar grossa
com uso de força são estratégias que o ergomotricista pode utilizar para contribuir
com a manutenção e reabilitação do tato e do estimulo circulatório nos capilares
sanguíneos.

Como forma de minimizar os efeitos nocivos da vibração durante o trabalho,


Schutzer, Santos e Pontes Junior (2016) exemplificam os cuidados que podem

107
ErGomoTriCiDADE

minimizar as consequências nocivas da vibração em motocultivador, o que


também é valido para vários outros tipos de atividades que envolve vibração.
Eles recomendam o uso de luvas para que o impacto na mão do colaborador seja
minimizado e este possa operar seu maquinário por mais tempo. Recomendam,
ainda, o controle intensidade e da velocidade da vibração durante a operação,
já que velocidades e rotações altas elevam proporcionalmente a vibração para o
trabalhador.

4.4 SISTEMA VISUAL, AMBIENTE DE


TRABALHO E ERGOMOTRICIDADE
A visão contribui substancialmente o desenvolvimento das habilidades
humanas. Atua como mecanismo de integração ao estar harmonicamente
conectado a vários outros sentidos em prol da busca de informações do ambiente.
O olhar direcionado a uma fonte sonora ou a um objeto quando é tocado, são
exemplos importantes dessa integração com outros sentidos (RODRIGUES,
2002).

Algo em torno de 80% das informações do ambiente são potencialmente


recebidas pelo sistema visual. Seu grande potencial possibilita um registro
fidedigno da posição, distância, tamanho, cor e forma de objetos e ambientes,
sendo sofisticado a ponto de contribuir para o desenvolvimento das habilidades
motoras (RODRIGUES, 2002).

Atualmente, quase todas as profissões demandam de grande utilização do


sistema visual. Os operários e trabalhadores braçais utilizam a visão para orientar
a manipulação de ferramentas e máquinas. No setor administrativo, o trabalhador
costuma passar muitas horas em frente ao computador e o sistema visual está
sendo exigido a todo momento, durante a leitura e escrita. Para outros, como os
motoristas, a visão é tão importante que distúrbios oculares pouco graves podem
chegar a incapacitar o profissional para o trabalho, os daltônicos são exemplos
disso.

Além do sistema visual necessitar suprir a demanda que cada trabalho exige,
o ambiente também pode influenciar na recepção do estímulo visual. A redução
da luminosidade gera esforço excessivo dos músculos oculares, assim como a luz
excessiva pode ofuscar a visualização durante o trabalho, bem como prejudicar o
conforto visual causando irritabilidade e problemas adjacentes.

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DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

FIGURA 10 – REAÇÃO DA PUPULA DIANTE DE DIFERENÇA DE LUMINOSIDADE

FONTE: <https://www.draandreia.com.br/wp-content/uploads/2017/09/
aberr17-768x640.jpg>. Acesso em: 16 jun. 2020.

O excesso de luminosidade induz a contração da pupila e evaporação


maior da lubrificação ocular que gera ressecamento do globo ocular, que gera
vermelhidão e estímulo ao lacrimejamento, com consequente irritação e perda
de atenção para o trabalho. Da mesma forma, a baixa luminosidade proporciona
ressecamento dos olhos pela diminuição do estímulo de “piscar”, fazendo com
que os olhos permaneçam mais abertos e aumente a tensão sobre as estruturas
oculares.

A dilatação da pupila ocorre pela ação do músculo dilatador


da pupila. Logo, a leitura em ambientes escuros aumenta a fadiga
ocular já que esse músculo intrínseco do olho mantém a contração
em ambientes escuros, situação agravada quando o trabalhador
direciona seu olhar para detalhes do ambiente.

O ergomotricista deve ficar atento ao bom funcionamento da visão, pois sem


o desempenho apropriado, o aparelho visual produz insegurança para o trabalho
e aumenta o risco de acidentes. A perda de acuidade pode gerar momentos de
confusão durante o trabalho e pôr em risco a integridade física de todos. Um
exemplo de como essa observação é pertinente, está no trabalho dos operadores
de guindaste e outras máquinas pesadas, especialmente aqueles que realizam
trabalhos noturnos, já que o maquinário utilizado gera risco de acidentes e a visão
é extremamente exigida.
109
ErGomoTriCiDADE

Segundo Azevedo, Santos e Oliveira (2000), através da visão é possível


modular comportamentos diversos. A percepção de cores, por exemplo, depende
da refletância da luz sobre o objeto para a formação das cores no sistema visual
e interpretação cerebral. Elas podem gerar reações fisiológicas diversas como na
arquitetura, em que o elemento ambiental pode servir para organizar espaços e
causar satisfação. Na psicologia, as cores podem auxiliar na cura de pessoas
enfermas e despertam sentimentos nos pacientes.

QUADRO 2 – AS CORES E SEUS SIGNIFICADOS PARA A NEUROCIÊNCIAS

Amarelo: cor quente, estimulante, de vivacidade e luminosidade. Tem elevado índice de


reflexão, e sugere proximidade. Se usado em excesso, pode-se tornar monótono e cansativo.
Boa para ambientes onde se exija concentração, pois atua no SNC (Sistema Nervoso Central). É
utilizada terapeuticamente para evitar depressão e estados de angústia.
Azul: está associado na cultura ocidental, à fé, confiança, integridade, delicadeza, pureza e paz.
O azul escuro dá a sensação de frieza e formalismo.
Laranja: cor estimulante e de vitalidade. Está relacionada com ação, entusiasmo e força. Pos-
sui grande visibilidade, chamando a atenção para pontos que devem ser destacados.
Rosa: aquece, acalma e relaxa. Está ligada à fragilidade, feminilidade e delicadeza.
Verde: quando em tom claro, transmite sensação de paz e bem-estar. É uma cor que sugere
tranquilidade, dando a impressão de frescor. Tons escuros desta cor tendem a deprimir.

Vermelho: cor estimulante. Desperta entusiasmo, dinamismo, ação e violência. Dá sensação


de calor e força, estimulando os instintos naturais e sugerindo proximidade. Se usada em exces-
so pode irritar, desenvolver sentimentos de intranquilidade e despertar violência.
Violeta: em excesso, torna o ambiente desestimulante e agressivo, leva à melancolia e depres-
são. Sugere muita proximidade, contato com os sentimentos mais elevados e com a espiritua-
lidade. Assim como o vermelho, o azul escuro e o verde escuro, não se recomenda o uso em
grandes áreas.
FONTE: Azevedo, Santos e Oliveira (2000)

A cor vem sendo estudada como ferramenta de modulação


comportamental há muitos anos. Fonseca e Mont’Alvão (2004)
identificaram o aumento do rendimento escolar após o uso de
determinadas cores na sala de aula; bem como os relatos colhidos
de Lacy (1996), que relatou o uso positivo das cores em locais de
trabalho com intervenção em saúde (hospitais, maternidades, UTI’s,
clínicas); apontam a importância da utilização correta da cor ambiente
para evocar sensações.

110
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

A refletância é uma das características da luz e também deve ser considerada


por alterar a quantidade de luz ambiente disponível ao trabalhador. Quanto mais
refletância, maior será a difusão de luz ao trabalhador.

(i : reflectance, f : réflectance) fração do fluxo incidente sobre um


sistema que é por ele desviada para o hemisfério de origem, seja por
reflexão à superfície, seja por retroespalhamento devido a gases e
partículas em suspensão, seja por ambos os fenômenos. Disponível
em: https://www.dicionarioinformal.com.br/reflet%C3%A2ncia/.

Quando os elementos da edificação ou objetos estão expostos à luz solar,


por exemplo, podem transmitir a radiação solar com alguma perda de energia.
Isso ocorre quando o material é classificado como opaco. Para os materiais
translúcidos, há transmissão da radiação para além do material, impedindo o
ofuscamento dos olhos do trabalhador e evitando, assim, a absorção da radiação
solar no corpo e o risco de desenvolvimento de doenças dermatológicas (CASTRO
et al., 2003).

O excesso de luz nos olhos pode trazer incapacidade sensitiva os olhos,


especialmente quando estes recebem incidência direta da radiação solar ou
refletância. A córnea, por exemplo, pode ser tão agredida quanto a pele quando a
luz solar incide nos olhos. A queimadura de córnea, apesar de ser uma condição
relativamente pouco comum, é muito perigosa e deve ser evitada pelo setor de
ergonomia na prevenção em saúde dentro da empresa com medidas simples
como posicionamento correto do posto de trabalho do trabalhador e uso de
películas em janelas.

O câncer de pálpebra, cuja parte inferior da pálpebra é a que


apresenta o maior risco de desenvolver um melanoma ou carcinoma;
e a catarata, que é caracterizada pela lenta turvação e amarelamento
do cristalino (a lente do olho), que deixa a visão embaçada com
possibilidade de cegueira, são outros exemplos de patologias comuns
devido a exposição à luz. Disponível em: https://hospitaldeolhos.net/
dicas/3-problemas-de-visao-causados-pelo-excesso-de-luz/

111
ErGomoTriCiDADE

O ergomotricista necessita auxiliar a manutenção da integridade sensorial


do trabalhador para que os métodos de integração física e psicocognitiva sejam
facilitados. Sem boa integração sensorial, o trabalho em ergomotricidade fica
dificultado e o trabalhador pode não responder a contento.

Para evitar reflexos, as superfícies de trabalho, paredes e pisos, a equipe


de ergonomia deve instruir o empregador a organizar os leiautes dos postos de
trabalho dando preferência a materiais foscos e que absorvam a luminosidade
sem que os índices gerais de iluminância sejam prejudicados. No caso dos
computadores, o monitor deve apresentar tela antirreflexiva.

4.5 SISTEMA AUDITIVO, AMBIENTE


DE TRABALHO E ERGOMOTRICIDADE
A psicomotricidade utiliza de forma muito intensa os sentidos do corpo
humano. Estimula o indivíduo o comportamento respondente e busca o
aperfeiçoamento da interação psicocognitiva com as estruturas físicas motoras.
Nessa perspectiva de utilizar as sensações para regular as respostas corporais, a
audição também pode contribuir com o trabalho em ergomotricidade.

A audição do trabalhador precisa de cuidados para que possa ser utilizada


da melhor forma pelo ergomotricista, assim como os órgãos sensitivos já
apresentados no presente capítulo. Por tanto, vale ressaltar como o ruído interfere
na atuação do ergomotricista já que é um potencial fator prejudicial à saúde e
desempenho das atividades no ambiente de trabalho.

O perfil prelecionista está intrínseco em todos os atores da saúde do


trabalhador e com os que se dedicam a ergomotricidade não é diferente. O
ergomotricista deve conhecer quais são os estressores auditivos comuns no
ambiente de trabalho para que possa monitorá-los, evitando, assim, distúrbios
que pudessem diminuir a segurança no trabalho e a produtividade.

“O som é entendido como qualquer perturbação vibratória


que gera sensação auditiva. Já o ruído deve ser considerado
como um sinal acústico aperiódico oriundo da superposição de
vários movimentos vibratórios e frequências distintas” (SANTOS;
FERREIRA, 2008).

112
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

Vários tipos de atividade estão expostos ao ruído excessivo. Os ambientes


de trabalho apresentam ruídos oriundos desde condicionadores de ar ao motor
do caminhão e outros tipos de máquinas. Já que as fontes são diversas, o ruído
expõe vários tipos de atividades laborais em diversas classes de trabalhadores
como auxiliares de produção, controladores de voo, garçonetes, costureiras,
dentre outros.

A atenção para as atividades garante ao trabalhador maior segurança na


realização de suas tarefas, assim como contribui para o desempenho eficiente,
com menor ocorrência de erros. Ao mesmo tempo que o ambiente de trabalho
exige atenção, alguns fatores como o próprio ruído tem influência sobre a perda
de foco durante a tarefa por ser altamente estressor. Como consequência, o
trabalhador fica exposto a torções, ferimentos contusos, fraturas que atingem
membros superiores e inferiores, além da coluna vertebral (BAGGIO; MARZIALE,
2001).

Além do ruído levar ao surgimento de manifestações de estresse no trabalho,


aqueles que já apresentam sinais desta morbidade podem sofrer um agravamento
de tal condição, necessitando de intervenção psicológica. A depender da
gravidade, o estresse pode levar à incapacidade para o trabalho e contribuir para
o afastamento do trabalhador da empresa (MASLACH; JACKSON, 1981).

Maslach e Jackson (1981) estudaram a fundo o estresse dentro


do trabalho e caracterizaram a síndrome de Burnout como um
conjunto de sinais psicológicos e comportamentais que interferem
negativamente no desenvolvimento das atividades para o trabalho.

FONTE: MASLACH, C.; JACKSON, S. E. The measurement of


experienced burnout. Journal of organizational behavior, v. 2, n. 2,
p. 99-113, 1981.

O mais importante fator de risco atribuído ao ruído é a perda auditiva, que


gera grande transtorno ao trabalhador e pode ser irreversível do ponto de vista
fisiológico. Segundo Carvalho (1985), além lesão estrutural do aparelho auditivo,
a eficiência do processo de socialização pela incapacidade de ouvir e reagir a fala
de outra pessoa fica comprometida, o que direciona o trabalhador ao isolamento
social e pode gerar dificuldades para o trabalho em equipe e no cotidiano fora do
trabalho.
113
ErGomoTriCiDADE

FIGURA 11 – EXPOSIÇÃO DO TRABALHADOR AO


RUIDO E SEM PROTEÇÃO AUDITIVA

FONTE: <http://www.portalglauco.com.br/blog/wp-content/
uploads/2017/06/5-riscos-de-acidentes-no-ambiente-de-trabalho-e-
como-evitalos-810x540.jpeg>. Acesso em: 16 jun. 2020.

Obviamente, a incapacidade gerada pela perda auditiva no trabalho e a


surdez em si não conseguem ser corrigidas pela atuação em ergomotricidade,
porém, a audição é um elemento que precisa ser preservado no trabalhador, já
que as intervenções em ergomotricidade demandam de todos os sentidos do
corpo humano. Quanto maior a perda, mais difícil será a resposta do trabalhador
às condutas do ergomotricista em prol da integração sensório-motora durante
suas atividades.

Algumas condutas em ergomotricidade como a musicoterapia


e as práticas cinesiológicas, as que envolvem comandos verbais,
dependem da manifestação auditiva. Sem a plana integração entre a
audição e seus centros neurais, a resposta fica prejudicada.

O tempo acumulado de trabalho, a intensidade do ruído e a ausência de


Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como protetores auriculares e
abafadores, são os fatores que culminam em perda auditiva induzida por ruído
(PAIR), que pode levar a completa surdez.

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DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

De acordo com o Conselho Nacional do Meio Ambiente, a


PAIR é entendida como a perda sensorial da audição relacionada
ao trabalho, com diminuição gradual da acuidade auditiva em
decorrência da exposição continuada a níveis elevados de pressão
sonora. Disponível em: http://www2.mma.gov.br/port/conama/
legiabre.cfm?codlegi=252.

4.6 SISTEMA OLFATÓRIO, AMBIENTE


DE TRABALHO E ERGOMOTRICIDADE
Apesar de não ser prevista nas principais diretrizes de trabalho do
ergonomista, o odor de um determinado ambiente pode ser um fator que interfere
na sensação de conforto do trabalhador. A agressividade ao olfato tem origens
diversas que envolvem, geralmente, a inalação de elementos químicos e físicos.
Dentre os químicos, pode-se elencar uma extensa lista de gases como a amônia,
gás sulfídrico e acetaldeído; e dentre os físicos, a poeira, a névoa e a fuligem são
alguns exemplos.

Para obter a lista completa de agentes químicos e seus limites


de tolerância, acesse a NR-15, disponível no link: http://trabalho.
gov.br/seguranca-e-saude-no-trabalho/normatizacao/normas-
regulamentadoras/norma-regulamentadora-n-15-atividades-e-
operacoes-insalubres.

Triska (2003) destacam que nas sociedades industrializadas podem ser


vistas uma variedade de efeitos comportamentais a partir da percepção olfativa.
A ausência de odores do ambiente altera as respostas de tarefas visuais e nas
atividades elétricas do cérebro. A participação do olfato no cotidiano afeta o
comportamento, apesar de ser considerado como menos importante para alguns
cientistas, que desconhecem a conexão cognitiva entre odores e o comportamento
que pode ser gerado no indivíduo.

115
ErGomoTriCiDADE

Ainda, segundo a mesma autora, a abordagem ergonômica costumeiramente


está direcionada à execução dos estudos na área dos sentidos auditivos e
a visuais, em detrimento ao olfativo, que não vem sendo explorado da mesma
maneira. A dificuldade de tornar o estudo olfativo de conforto como parte de uma
ciência exata afasta a possibilidade de estudos de mensuração fidedignos. A
variabilidade de estímulos olfativos e suas intensidades é muito ampla, o que não
ocorre quando se estuda o efeito do ambiente sobre o sistema visual e auditivo,
que quantificam comprimento de onda de luz ou de som.

A categorização e a reprodutibilidade de estudos também são um entrave


quando se fala em pesquisas envolvendo o olfato no ambiente de trabalho.
Portanto, há uma latente dificuldade em quantificar e qualificar os odores, tornando
a avaliação olfativa um desafio para a criação métodos que possam revelar dados
credíveis.

As afirmativas feitas dentro do estudo de Triska e seus


colaboradores, apesar de datarem o ano de 2003, podem ser
perfeitamente aplicáveis na atual realidade do trabalho, já que
praticamente nada mudou quanto à consideração do conforto olfativo
dentro da ergonomia da data de publicação de sua obra até o
presente momento.

Segundo Lisboa, Pagé e Guy (2009), o ser humano possui 1000 de genes
responsáveis pelo olfato. Quanto à estrutura do aparelho olfativo, são encontradas
na cavidade nasal aproximadamente 50 milhões de células neuronais olfativas
que tem a capacidade de detectar algo em torno de 10.000 odores.

As experiências olfativas da vida de cada pessoa proporcionam um conjunto


de informações que são armazenadas no sistema nervoso central e podem
manifestar reações fisiológicas como alegria; afeto; saudade, tristeza; redução da
sensação de bem-estar e do prazer de realização de atividades cotidianas, como
comer, passear, dentre outros. Este armazenamento de informações é conhecido
como memória olfativa, o que torna a avaliação do bem-estar, proporcionado
através do olfato, o item sensorial mais complexo.

Manifestações aversivas do corpo aos odores já foram listadas, dentre elas


as enxaquecas, que podem cursar com náuseas, vômitos, cefaleias; as alergias

116
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

que podem manifestar dispneias, tosse, irritação nos olhos, nariz e garganta
etc. Existem, ainda, evidências de que certos odores podem induzir a alteração
fisiológicas e morfológicas, sobretudo do sistema respiratório cardiovascular
(MILAGRES et al., 2018).

O sistema olfatório detém um forte fator psicológico envolvido, já que


alguns odores podem causar efeitos associativos imediatos que dependem
de experiências pregressas. A manifestação de pensamento não garante a
manifestação do comportamento esperado. O estímulo olfativo não é capaz de
direcionar de forma segura que o corpo e a mente farão as mesmas associações
em pessoas distintas, o que torna impossível o estabelecimento de padrões
respondentes ao odor dentro e fora do ambiente de trabalho.

Quanto à fisiopatologia voltada ao trabalho insalubre, com exposição


constante a certos tipos de substâncias químicas de odor específico, certas
alterações são facilmente encontradas no sistema respiratório e cardiovascular,
fato que pode se tornar um grave problema de saúde que impede o pleno
exercício do trabalho. Nesse caso, o que se leva em conta é a toxicidade do
conteúdo aspirado que pode, inclusive, atingir outras funções perceptuais do
corpo (ÁLVARES JUNIOR; LACAVA; FERNANDES, 2002).

Sabe-se a mais de duas décadas que perdas de visão de cor em


trabalhadores de fábricas de termômetro, postos de gasolina e tintas
diversas se dão pela exposição à inalação de substâncias químicas
como vapor de mercúrio, percloroetileno e outros solventes orgânicos.
Essas repercussões estruturais da inalação de substancias durante o
trabalho podem impedir a integração sensorial para o trabalho.

A dinâmica do uso dos óleos essenciais no dia a dia tem se mostrado uma
ferramenta eficaz no alívio e resolução destes sintomas, uma vez que o prazer e
bem-estar que proporciona acabam resultando em mudanças significativas nos
padrões de atitudes mentais e comportamentais do indivíduo.

Uma das técnicas utilizadas pela psicomotricidade na integração sensorial


olfativa e na manifestação cognitiva é a aromaterapia. Os odores emitidos por
óleos essenciais e pelos estratos de ervas podem contribuir para diminuir
a ansiedade e beneficiar funções fisiológicas do sistema cardiorrespiratório
(BASTOS et al., 2010).

117
ErGomoTriCiDADE

O sistema olfatório é essencial para a prática da aromaterapia, que pode ser


entendida como uma das terapias complementares usadas pela psicomotricidade,
no intuito de promover bem-estar geral, assim como atua para o tratamento de
problemas de saúde, incluindo distúrbios comportamentais e déficit cognitivo.

5 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
As habilidades motoras do trabalhador são fatores levados em consideração
pelo empregador no momento da contratação, já que algumas funções exigem
velocidade, força e resistência física. Existem também aquelas habilidades de
ordem psicocognitivas que são demandadas constantemente num determinado
cargo como a orientação espacial, a atenção, a orientação temporal, dentre outros.
Por tanto, o perfil de cada cargo e suas respectivas tarefas podem contribuir para
a rápida adaptação do trabalhador ao seu porto de trabalho.

Quando o perfil do trabalhador não está completamente adaptado ao cargo


pretendido, algumas empresas optam por contratar e acompanhar a evolução do
trabalhador com a dinâmica do trabalho. Neste momento, o trabalhador passa
a adquirir novas habilidades e aperfeiçoar seu desempenho com o contato
constante com a função que lhe foi confiada.

Para melhor observar as exigências físicas e psicológicas do trabalhador, os


profissionais da ergonomia comumente classificam o perfil de trabalho em dois
grupos de acordo com as características de demanda física de cada cargo, o grupo
que está exposto predominantemente a trabalhos estáticos e o que está exposto
predominantemente ao trabalho dinâmico. Aqueles que estão mais expostos
ao trabalho dinâmico realizam alternância de contração e extensão muscular,
portanto, por tensão e relaxamento. Há mudança no comprimento do músculo,
geralmente de forma rítmica, já os expostos ao trabalho estático passam por um
estado de contração prolongada da musculatura, o que, geralmente, implica um
trabalho de manutenção de postura.

O trabalho dinâmico, apesar de demandar de mais energia corporal, tende


a ser o que apresenta menos impactos negativos a saúde. Logicamente, esta
regra só pode ser tida como verdadeira quando em ambas situações de trabalho
todas as normas de conforto e segurança estão atendidas. A exigência de baixa
mobilidade corporal traz uma série de malefícios como a dificuldade da circulação
sanguínea em músculos expostos à contração constante, propiciando distúrbios
de ordem vascular e muscular; a menor lubrificação articular devido à diminuição
da mobilidade, sendo fator de risco para patologias nesta região; surgimento de
tenções musculares devido ao acúmulo de toxinas; e outras repercussões que
podem levar a incapacidade parcial ou completa do trabalhador.

118
DEMANDAS NEUROPSICOMOTORAS DO AMBIENTE DE TRABALHO
Capítulo 2 APLICADAS À NEUROCIÊNCIA E FISIOLOGIA HUMANA

Para que todo o processo de formação de distúrbios ortopédicos,


neurológicos, psicológicos ou cognitivos no trabalhador seja compreendido,
é necessário conhecer quais são as demandas que o trabalho impõe sobre os
sistemas musculoesquelético, sensorial e neurológico. Para a ergomotricidade,
a saúde do trabalhador deve ser sempre observada em seu aspecto mais
amplo, cujas manifestações psicocognitivas possuem a mesma importância em
comparação às manifestações motoras.

O comportamento neuropsicomotor pode ser dependente de interpretação


neural estimulada pelo ambiente. Sendo assim, a ergomotricidade, além de se
preocupar com a interação entre o aparato físico humano e as suas manifestações
psicológicas e sensório-cognitivas, deve estar atenta a como o ambiente pode
influenciar na modulação do comportamento do trabalhador. Logo, o estudo da
integração sensorial entre o trabalhador e seu ambiente laboral trazem muitas
informações para o direcionamento da atuação do ergomotricista.

O presente capítulo deu base para a compreensão do que está por


vir. As patologias comuns ao ambiente laboral, a formas de abordagem em
ergomotricidade com enfoque na prevenção e promoção da saúde do trabalhador,
bem como as sugestões de práticas psicomotoras para o adulto serão
apresentadas no capítulo seguinte.

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123
ErGomoTriCiDADE

124
C APÍTULO 3
ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E
PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes


objetivos de aprendizagem:

• Estabelecer quais são as patologias neuromotoras que comumente acometem


os trabalhadores na atualidade.
• Compreender quais são os agentes causadores e quais são os sinais e
sintomas psicogênicos apresentados pelos trabalhadores com transtornos
psicocognitivos em decorrência do trabalho.
• Indicar de que forma a ergomotricidade pode intervir para a promoção e
proteção da saúde física e mental do trabalhador.
• Identificar os sinais e sintomas que envolvem a instalação da fadiga no corpo
humano.
• Relacionar os fatores ambientais com os distúrbios motores e psicológicos em
situações cotidianas.
• Contribuir com a prevenção e promoção em saúde a partir da recomendação do
autocuidado e nas técnicas utilizadas pela psicomotricidade dentro do trabalho
e na vida cotidiana.
ErGomoTriCiDADE

126
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

1 CONTEXTUALIZAÇÃO
Os debates que norteiam os problemas relacionados à saúde do trabalhador
nas indústrias, no comércio e no terceiro setor são temas recorrentes em tempos
atuais, apontando para o surgimento de inúmeras inquietações e doenças, uma
vez que a pressão e o nível de exigência com a execução do trabalho, frutos da
competitividade e avanços tecnológicos, são fatores geradores de estresse, bem
como de doenças ocupacionais.

As principais doenças que acometem a população brasileira possuem


características musculoesqueléticas. As ocasionadas pelo trabalho são
conhecidas pela sigla “DORT” que significa “Distúrbios Osteomusculares
Relacionados ao Trabalho”. Elas causam um impacto relevante sobre os
trabalhadores e podem repercutir para distúrbios psicológicos que influenciam
na funcionalidade e capacidade para realização de tarefas laborais, levando ao
consequente afastamento do ambiente de trabalho.

Os distúrbios psicológicos, além de poder ter origem no transtorno causado


pela DORT, pode ser oriundo diretamente dos fatores ambientais em que o
trabalhador está exposto. A exposição a agentes químicos e acidentes de trabalho
podem trazer prejuízo irreversível para as funções psicocognitivas e sensoriais.
A organização do trabalho (prazos rígidos, horas extras, trabalho noturno, dentre
outros) está relacionada a transtornos psicogênicos que podem incapacitar o
trabalhador.

O comprometimento psicocognitivo do trabalhador leva a prejuízos nas


habilidades motoras, pois não se pode ignorar a integração entre os diversos
sistemas corporais. Sendo assim, o psicomotricista deve ter em mãos diversas
estratégias de intervenção direcionadas para cada perfil de trabalhador, tanto
para o aperfeiçoamento das capacidades psicomotoras e prevenção em saúde no
ambiente de trabalho, quanto para combater os efeitos nocivos da exposição aos
fatores ambientais de trabalho através da prática em ergomotricidade.

As práticas ergomotoras têm a capacidade de influenciar a vida pessoal e


profissional dos trabalhadores e, para isso, utiliza ferramentas como atividades
lúdicas, como jogos, atividade física no trabalho, prática artística, modos de
expressão corporal, integração sensorial, atividades paisagísticas e ao ar livre,
dentre outros tipos de intervenção que despertem interesse do público adulto e,
ao mesmo tempo, beneficiem sua psicomotricidade.

Por fim, a finalidade principal deste capitulo é o despertar definitivamente


o ergomotricista para uma visão clínica diante do trabalhador, uma visão crítica

127
ErGomoTriCiDADE

quanto à influência do trabalho na sua saúde, e uma visão criativa diante das
possibilidades que a psicomotricidade traz para a intervenção junto ao adulto.

2 DISTÚRBIOS FÍSICOS EM
DECORRÊNCIA DO TRABALHO
Com o passar dos anos, os modos de produção no trabalho foram
amplamente modificados e compartimentados, de acordo com os interesses
de cada ramo de atividade. Em meio a todo esse cenário, a mecanização e a
automatização foram as propulsoras da produção em larga escala e ocasionaram
em grandes modificações nas etapas de produção, fazendo com que o trabalho
se transformasse, para alguns, em rotineiro e monótono.

O operário que antes realizava várias atividades, foi nomeado a ocupar


cargos direcionados à realização uma única tarefa ou a um grupo limitado de
tarefas. Como consequência dessa nova organização do trabalho, as atividades
do trabalhador passaram a ser, em muitos casos, repetitiva e desconfortável.
A manutenção de uma única postura durante toda sua jornada de trabalho e
a pressão pela agilidade na execução do trabalho fizeram do operário uma
engrenagem dentro da revolução industrial.

Frederick W. Taylor (1856–1915) propôs uma revolução no método de


produção industrial, a partir da percepção de que os operários exerciam várias
funções e, como consequência, produziam menos, assim, surgiu o modelo de
produção em massa. O empresário Americano Henry Ford (1863–1947), por sua
vez, expandiu ainda mais o modelo de produção em massa iniciado por Taylor.

O método baseado na implantação de esteiras rolantes passou a produzir


mais em menos tempo, e, como consequência, as grandes indústrias obtiveram
maior estoque e vantagens de mercado. Apesar do aumento das cifras nas
indústrias, o custo das mudanças foi pago pelos trabalhadores, que tiveram o
aumento na ocorrência de problemas de saúde relacionados ao trabalho e se
viram diante de um novo perfil de adoecimento (MORAES NETO, 1989).

Leia mais sobre o processo de mudança dos modelos de


produção a partir das mentes de Taylor e Ford e sua influência para
o trabalhador em: MORAES NETO, B. R. de. Marx, Taylor, Ford: as
forças produtivas em discussão. São Paulo: Brasiliense, 1989.

128
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

As teorias de produção em larga escala dão base a certas atividades


industriais até os dias de hoje, e, a cada mudança no modo de produção e no
avanço tecnológico, novos perfis de adoecimento surgem. Assim, os problemas
físicos e cognitivos começaram a ser presenciados com maior frequência e
intensidade, influenciando negativamente no rendimento dos trabalhadores
(RIBEIRO; LEDA, 2015).

Os fatores como excesso de trabalho, condições precárias de higiene


ocupacional, a repetitividade, a ausência de pausas/descaso, a ausência de
reconhecimento e clima organizacional ruins são algumas condições que,
potencialmente, acarretam problemas de saúde e para qualidade de vida no
trabalho, além de gerarem custos consideráveis para a empresa, por serem
preditivos aos benefícios previdenciários por motivos de saúde, aos acidentes de
trabalho e ao absenteísmo.

A Higiene ocupacional se dedica às práticas de reconhecer,


avaliar e controlar riscos ocupacionais. Envolvem elementos
ambientais que podem causar doenças e danos à saúde dos
trabalhadores. Além disso, busca mecanismos que priorizem o bem-
estar dos trabalhadores em qualquer ambiente de trabalho.

Atualmente, os distúrbios de ordem física e psicológica de origem laboral são


tão característicos que para muitas pessoas podem se resumir nas expressões
LER (Lesão por Esforço Repetitivo) e DORT (Distúrbios Osteomusculares
Relacionadas ao trabalho). Em outros países de língua inglesa, estas siglas são
substituídas por Cumulative Trauma Disorders (CTD), Repetitive Strain Injury
(RSI), Occupational Overuse Syndrome (OOS) e Occupational Cervicobrachial
Diseases (OCD) (SHAH et al., 2016).

Dúvidas sobre LER e DORT são muito pertinentes. As principais perguntas


sobre o assunto são: Qual a diferença entre LER e DORT? Posso considerá-las
como doenças? As duas expressões têm o mesmo significado?

As respostas para estas perguntas são respondidas a partir do momento


que se entende que o uso da expressão LER serve para designar um conjunto
de distúrbios de ordem ortopédica, ocasionados pelo esforço repetitivo durante
o trabalho, portanto, LER não é doença e sim uma expressão que classifica um

129
ErGomoTriCiDADE

conjunto de doenças como tendinites, tenossinovites, artrites, síndrome do túnel


do carpo, bursite, hérnia de disco, dentre outras. A expressão DORT, de acordo
com o Ministério do Trabalho, possui a mesma incumbência que é a de designar
um conjunto de distúrbios de ordem ortopédica, ocasionados pelo trabalho
(CHIAVEGATO FILHO; PEREIRA JUNIOR, 2014).

Apesar da expressão DORT não ser adjetivada como “esforço


repetitivo”, para o Ministério do trabalho e para a literatura científica,
as expressões LER e DORT são indiscutivelmente equivalentes. Por
traz da existência das duas expressões, há um contexto histórico e a
expressão DORT é a mais moderna e usual.

As LER/DORT, em muitos casos, têm características comuns devido a atingir


praticamente as mesmas estruturas (bursas, tendões e ventres musculares,
ligamentos, nervos, fáscias). Dentre os sintomas mais comuns estão a dor, a
redução de amplitude de movimento (ADM), alterações de sensibilidade
As regiões corporais tátil.
de maior prevalência
de sintomas de LER/
As regiões corporais de maior prevalência de sintomas de LER/
DORT são a coluna
cervical e lombar; DORT são a coluna cervical e lombar; o ombro e cintura escapular; a
o ombro e cintura cintura pélvica, mãos; punhos e cotovelos.
escapular; a cintura
pélvica, mãos; Os sinais e sintomas de LER/DORT são múltiplos e diversificados
punhos e cotovelos. e, de acordo com manual de procedimentos para os serviços de saúde,
publicado pelo Ministério da Saúde (2001), destacam-se:

• dor espontânea ou à movimentação passiva, ativa ou contrarresistência;


• alterações sensitivas de fraqueza, cansaço, peso, dormência,
formigamento, sensação de diminuição, perda ou aumento de
sensibilidade, agulhadas, choques;
• dificuldades para o uso dos membros, particularmente das mãos, e, mais
raramente, sinais flogísticos e áreas de hipotrofia ou atrofia.

O aumento da ocorrência de LER/DORT a nível mundial vem motivando


pesquisas que objetivam identificar a origem dos problemas por meio de algumas
teorias. As teorias e a pesquisa baseada em evidências vêm mostrando o
predomínio de três fatores desencadeadores de agravos a motricidade dentro do
trabalho:
130
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

• fatores biomecânicos presentes na atividade;


• fatores psicossociais relacionados à organização do trabalho;
• fatores ligados à psicodinâmica do trabalho ou aos desequilíbrios
psíquicos gerados em certas situações especiais de trabalho na gênese
do processo de adoecimento.

Os fatores psicodinâmicos relacionados ao trabalho


desencadeiam processos fisiológicos que interferem no
funcionamento dos diversos sistemas corporais, incluindo o sistema
musculoesquelético. O problema é conhecido como somatização.
Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/
redacao/2018/12/12/quando-um-problema-fisico-pode-ser-coisa-da-
sua-cabeca.htm.

As LER/DORT que podem ser relacionadas ao trabalho e que,


especificamente, podem ser enquadradas como LER/DORT, que constam na lista
de doenças relacionadas ao trabalho do Ministério da Saúde e do Ministério da
Previdência Social, são: ciática (CID 10 – M54.3); lumbago com ciática (M54.4);
sinovites e tenossinovites (M65.-); dedo em gatilho (M65.3); tenossinovite do
estiloide radial (De Quervain) (M65.4); sinovite crepitante crônica da mão e do
punho (M70.0); bursite da mão (M70.1); bursite do olecrano (M70.2); fibromatose
da fáscia palmar: contratura ou moléstia de Dupuytren (M72.0); capsulite adesiva
do ombro (ombro congelado, periartrite do ombro) (M75.0); síndrome do manguito
rotador ou síndrome do supraespinhoso (M75.1); tendinite bicipital (M75.2);
tendinite calcificante do ombro (M75.3); bursite do ombro (M75.5); epicondilite
medial (M77.0); epicondilite lateral (cotovelo do tenista) (M77.1).

As LER/DORT’s são um conjunto de afecções neuromusculares


e articulares que cursam, geralmente, com um quadro inflamatório e
possível alteração estrutural do local afetado. Para saber identificar as
características de distúrbios ortopédicos inflamatórios, a observação
dos sintomas é importante. Baseado nessas informações, aponte
quais são os sinais flogísticos da inflamação.

R.:

131
ErGomoTriCiDADE

De acordo com Barbosa et al. (1997), as LER/DORT atingem, atualmente,


trabalhadores de diversas áreas, especialistas em medicina do trabalho estimam
que de 5 a 10% dos digitadores são portadores de LER/DORT, por exemplo. Na
França, este é o maior motivo de afastamento do trabalho e de comprometimento
da produtividade.

Grande parte das afecções ortopédicas cursam com repercussões


neurológicas periféricas, a depender da gravidade e local de lesão. A principal
sintomatologia ortopédica – a dor – está presente em diversas desordens motoras
e, dessa forma, o sistema nervoso sinaliza que a afecção está presente. Portanto,
por mais que este capítulo seja dedicado a distúrbios físicos, a neurologia se faz
presente por ser indissociável dos problemas ortopédicos.

A dor pode obedecer a certos padrões que contribuem para o diagnóstico


clínico. A depender da estrutura lesionada, o ergomotrista consegue identificar
qual tipo de tecido está sendo acometido por injuria tendo como informação o
simples relato da característica da dor no sistema motor do trabalhador. Segundo
Sikorski (1988), em sua obra “The orthopaedic basis for repetitive strain injury”
indica três padrões que podem ajudar no estabelecimento da relação causal entre
o trabalho e a dor:

• Dor músculo-tendinosa: é o tipo mais comum. Localiza-se sobre os


músculos ou tendões, é agravada pela contração muscular e possui
caráter difuso.
• Dor neural: localiza-se na distribuição dos nervos periféricos ou raízes
nervosas, pode ser acompanhada de parestesia e de entorpecimento na
mesma distribuição ou generalizada pelo corpo, irradiada a partir do sítio
de dor no membro superior.
• Dor articular: localiza-se em uma ou mais articulações.

Algumas dessas afeções comuns aos trabalhadores, relacionadas


anteriormente, possuem certas peculiaridades que precisam ser estudadas mais
afundo para que a fisiopatologia, a semiologia e os sinais clínicos possam ser
esclarecidos com intuito de proporcionar ao maior segurança nas intervenções
em ergomotricidade. Para isso, serão apresentados alguns distúrbios que foram
selecionados.

132
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

2.1 AFECÇÕES MUSCULOTENDÍNEAS


E MIOFASCIAIS
Os músculos são a unidade contrátil do corpo humano que interligam ossos
e outros tecidos para execução de movimento. A porção final dos músculos
– os tendões – fazem parte desse processo por conectarem o ventre muscular
contrátil e o tecido ósseo. Ao redor desses músculos e tendões, camadas de
tecido conjuntivo, denominadas fáscias, estão presentes para evitar o atrito entre
o músculo em atividade e suas regiões vizinhas, protegendo as unidades motoras
dos efeitos do atrito, que poderiam levar a lesões.

Os distúrbios musculares no trabalho são muito frequentes e suas


consequências podem ser tanto leves quanto devastadoras do ponto de
vista funcional. Por deterem as estruturas necessárias para a execução dos
movimentos, os músculos são muito exigidos no cotidiano do trabalho e acabam
sendo vitimados pelo excesso de atividade. As estruturas adjacentes, por estarem
tão expostas a lesões quanto os músculos, também sofrem as consequências da
atividade laboral realizada sem critérios mínimos de proteção à saúde física.

A baixa mobilidade também pode gerar consequências negativas ao músculo,


como já apontado no Capítulo 1. A redução dos tônus e trofismo muscular
pelo desuso faz com que o trabalhador fica mais exposto a lesões, bem como
o estímulo psicomotor reduz de intensidade e pode levar à redução e algumas
habilidades que não estão sendo treinadas no cotidiano.

Dentre os distúrbios musculotendíneos mais presentes no cotidiano do


trabalho, destacam-se as rupturas musculares (parciais ou totais), as mialgias e
as tendinopatias. Quanto às afecções miofasciais, a fascite é muito comum no
trabalhador, principalmente para aquele que realiza trabalho estático devido à
tensão constante de músculos, o que leva à formação de toxinas como o ácido
láctico que contribuem para a sensação de dor e aumento de tensão muscular.

Fascites são inflamações de fáscias e de ligamentos com


ou sem degeneração de suas fibras. O termo é aplicável a todo e
qualquer processo inflamatório que atinja fáscia em qualquer lugar
do corpo.

133
ErGomoTriCiDADE

Os músculos com elevada exigência de carga, inevitavelmente, apresentam


microlesões que causam dor suportável e podem ser benéficas para o aumento
de força, tônus e trofismo muscular (ver Capítulo 1). Quando há um acúmulo de
microlesões, a gravidade aumenta proporcionalmente e pode chagar ao ponto de
causar grande transtorno ao trabalhador. As lesões podem variar em graus de
acordo com sua gravidade, em que: o grau I faz referência à lesão leve, reversível,
mas que já inspira cuidados; o grau II representa o aumento da gravidade num
nível intermediário de lesão; e o grau III figura o pior desfecho para a evolução
destas microlesões, a ruptura muscular que impede o movimento.

FIGURA 1 – EVOLUÇÃO DAS LESÕES MUSCULARES EM GRAUS

FONTE: <https://cdn.shopify.com/s/files/1/1364/9045/files/13A_
GrausdeLesoes.jpg?v=1528472562>. Acesso em: 20 jun. 2020.

As tendinites têm alta prevalência no cotidiano do trabalhador e podem


ser entendidas como afecções de ordem ortopédica ou traumática nos tendões
musculares que cursam com perda parcial de funcionalidade ou disfunção
completa. Dentre as mais relevantes para o ambiente de trabalho estão a
síndrome do manguito rotador; dedo em gatilho; tendinite bicipital; tendinite
calcificante do ombro; tenossinovite do estiloide radial (De Quervain); epicondilite
medial (cotovelo de golfista) e epicondilite lateral (cotovelo do tenista).

Devido ao excesso de carga ou repetitividade de movimentos, os tendões


podem passar pela mesma evolução desastrosa dos músculos rompidos. Quanto
maior é a exposição aos estressores, maior é a gravidade da lesão.

134
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

As expressões “cotovelo de golfista” e “cotovelo de tenista” fazem


alusão a tendinites comuns em atletas de tênis e de golf. Essa lesão
se deve ao movimento repetitivo com a raquete de tênis e do taco
de golf durante a prática esportiva. No trabalho, comumente, essas
lesões estão presentes em costureiras, desenhistas e mecânicos,
estes últimos quando utilizam constantemente movimentos de
rosquear.

As tendinites podem ser de origem traumática, agudas, decorrentes de


acidentes típicos ou de trajeto, se forem relacionadas ao trabalho. Os casos
crônicos estão associados ao trabalho repetitivo aliado à exigência de força,
assim como as outras lesões de tecidos moles.

Cada lesão musculotendínea ou miofascial tem similaridade quanto ao


mecanismo de lesão, quadro clínico esperado. A perda funcional varia com a
gravidade da lesão e a atividade desenvolvida no trabalho, indubitavelmente,
tem relação direta com o surgimento de lesões. Quando uma determinada
atividade exigir o excesso ou a ausência de mobilidade de um grupo muscular
ou de uma estrutura específica, certamente aquela região será acometida por
doenças ortopédicas relacionadas ao trabalho. Portanto, o trabalhador precisa ser
direcionado a olhar para si mesmo, buscando a compreensão de seu corpo em
bom funcionamento para que rapidamente consiga identificar qualquer distúrbio a
tempo de tratá-lo.

2.3 ARTROPATIAS
As artropatias são um conjunto de doenças que acometem a articulação,
com possibilidade de repercussão para áreas adjacentes. As artroses, artrites,
sinovites e capsulites são exemplos de doenças articulares. As artropatias
geralmente cursam com sinais inflamatórios e, em casos mais graves, com
perda estrutural. Para o trabalhador, as doenças articulares geram grande
preocupação quando são oriundas de movimentos repetitivo. Em algumas tarefas,
a repetitividade das atividades é essencial para o processo produtivo e devido a
isso o afastamento do trabalhador de seu posto de trabalho pode ser definitivo.

135
ErGomoTriCiDADE

2.3.1 ArTroSES
As artroses, também conhecidas como osteoartrites, osteoartroses ou
artropatia degenerativa, são caracterizadas por alterações bioquímicas e
anatômicas progressivas e que interferem na estrutura e funcionamento das
articulações. As articulações de mão e punho, assim como o a coluna, quadril
e joelhos, que suportam o peso corporal durante o trabalho. O principal risco
ocupacional para o desenvolvimento desta condição é a repetição do movimento,
especialmente na mão e punho, cujos trabalhos manuais geralmente exigem
repetição (COIMBRA et al., 2004)

As artroses, em determinados grupos ocupacionais que realizam movimentos


ou impactos repetitivos sobre determinadas articulações, podem ser classificadas
como doenças relacionadas ao trabalho. Atentar para este detalhe é valido devido
à ocorrência da afecção a partir de fatores genéticos e por traumas cotidianos.

Os sintomas mais típicos são a crepitação (estalidos), sinais inflamatórios


discretos como dor e vermelhidão nas articulações acometidas. Casos de
deformidade das articulações são comuns quando a doença atinge estágios mais
avançados e compromete as estruturas ósseas próximas à lesão. Os quadros de
rigidez pós-repouso e limitação da amplitude de movimento (ADM) também são
vistos no trabalhador com frequência em casos de maior gravidade.

FIGURA 2 – ASPECTO DA MÃO COM ARTROSE


(ARTICULAÇÕES ALARGADAS COM VERMELHIDÃO)

FONTE: <https://www.graciemag.com/wp-content/uploads/2018/07/Sintomas-
da-artrose-nas-maos-do-lutador-Abi-Rihan.jpg>. Acesso em: 20 jun. 2020.

136
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

O termo osteoartrite leva frequentemente à confusão por sugerir


inflamação da articulação, porém não há resposta inflamatória, sendo
mais correto usar o termo osteoartrose.

A prevenção das artroses relacionadas ao trabalho requer atenção do


ambiente de trabalho e do modo de produção. O ergomotricista deve trabalhar com
uma equipe multiprofissional que considere as repercussões físicas, psíquicos e
sociais do trabalho, articulando as ações assistenciais e de vigilância em saúde. A
intervenção da equipe deve basear-se na análise global dos fatores envolvidos na
organização do trabalho, incluindo a Análise Ergonômica do Trabalho (citada no
Capítulo 1); as medidas de proteção coletiva e individual, em que o ergomotricista
atua; e a conscientização do autocuidado, que também pode envolver atividades
de domínio do ergomotricista.

2.3.2 SiNoViTES E TENoSSiNoViTES


As sinovites indicam processo inflamatório que acomete tecidos sinoviais
articulares, intermusculares ou peritendinosos, em qualquer local do corpo, com
ou sem degeneração tecidual. A articulação acometida pela sinovite apresenta dor,
aumento de temperatura, vermelhidão, aumento de volume articular e, de acordo
com a evolução da doença, restrição na movimentação. Seu acometimento
pode envolver diversas articulações, o que faz com que várias denominações de
sinovites sejam apropriadas para cada região acometida, por tanto, o diagnóstico
deve ser acompanhado da especificação dos locais envolvidos e de sua etiologia.

Os tendões também são revestidos em parte pelo tecido sinovial e essas


regiões podem sofrer processos inflamatórios devido a causas diversas. A
inflamação da membrana sinovial ao redor dos tendões que passem através de
uma capa ou de um conduto osteoligamentoso é conhecida como tenossinovite.
Assim como nas sinovites, pode se desenvolver em qualquer região do corpo
devendo ser especificado o local de acometimento.

Tanto para a tendinite quanto para a tenossinovite, a dor é o principal


sintoma. Além da dor, os pacientes queixam-se de vários outros sintomas, já
mencionados, que repercutem sobre o trabalho, com diminuição da produtividade;
sintomas gerais associados de ansiedade, irritabilidade, alterações de humor em
100% dos pacientes, distúrbios do sono em 91% dos pacientes, fadiga crônica em

137
ErGomoTriCiDADE

84% dos pacientes e cefaleia tensional em 61% dos casos, por tanto,
Em casos de
doença articular, as tenossinovites causam grande repercussão psicológica negativa
o relato de dor (MILLER; TOPLISS, 1988).
desencadeada
ou agravada pelo Em casos de doença articular, o relato de dor desencadeada ou
movimento repetitivo agravada pelo movimento repetitivo é comum e, em casos brandos, o
é comum e, em
simples repouso consegue eliminar o sintoma.
casos brandos, o
simples repouso
consegue eliminar o Uma das principais características de distúrbios articulares em
sintoma. decorrência do movimento repetitivo é uma condição conhecida como
derrame articular, que nada mais é que o excesso de líquido sinovial
dentro da cápsula articular na membrana sinovial oriunda da inflamação.

FIGURA 3 – DERRAME ARTICULAR PROVOCADO POR SINOVITE NO JOELHO

FONTE: <https://cdn.medicinamitoseverdades.com.br/_Static/image/contents/396-
a-gua-no-joelho-significa-derrame-na-articulacao.jpg>. Acesso em: 20 jun. 2020.

A descrição das capsulites se confunde com a descrição de


sinovites e tenossinovites quanto ao derrame articula, já que ambas
podem cursar com a mesma manifestação clínica.

138
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

2.3.3 CAPSuLiTE
A capsulite é a doença ortopédica que tem como alvo a cápsula articular.
Suas principais características são a limitação da amplitude de movimentos em
consequência da rigidez articular evolutiva e dor. Sua causa ainda é reconhecida
como idiopática, ou seja, não há causa completamente definida, já que pode estar
atrelada a uma ampla gama de outras afecções primarias, o que torna a capsulite
uma consequência de patologias principais. Dentre as causas reconhecidas como
primárias, estão o traumatismo – com ou sem fratura associada –, a cirurgia ou
causas sistêmicas – como a diabetes ou doenças da tireoide (LECH; SUDBRACK;
NETO, 1993).

O ombro é uma das estruturas mais complexas do aparelho locomotor, o


que se traduz na diversidade de síndromes resultantes de seu comprometimento,
muitas delas relacionadas ao trabalho.

A cápsula articular do ombro é mais acometida do corpo humano e acredita-


se que a sua ocorrência nessa região está atrelada a sua demanda, que apresenta
uma das articulações mais complexas do corpo e de grande amplitude de
movimentos, além de ser bastante utilizada nas atividades cotidianas, em especial
no trabalho. A capsulite adesiva figura como a doença da cápsula articular que
melhor representa este tipo de disfunção.

A capsulite adesiva apresenta outras nomenclaturas na literatura


científica e, também, é conhecida como “ombro congelado” ou
“periartrite do ombro”.

A motricidade fica significativamente prejudicada pela inevitável incapacidade


gerada pela doença em casos graves. A impressão que se tem é de fixação
do ombro devido a tamanha rigidez, e esta condição necessita de intervenção
precoce para que o estágio mais avançado da doença não gere lesões estruturais
permanentes que possam dificultar a motricidade do trabalhador após a regressão
do quadro.

139
ErGomoTriCiDADE

No ombro, a capsulite adesiva tem resolução espontânea com


melhoria gradual da amplitude de movimentos e resolução da dor, e
esta resolução geralmente ocorre entre 2 e 3 anos após o início do
quadro. Os mecanismos de reversão espontânea da doença ainda
carecem se explicações consistentes.

2.4 BURSITE
A bursite corresponde à inflamação aguda ou crônica de uma pequena
bolsa serosa de paredes finas, próxima à articulação que possui em seu interior
líquido sinovial. As regiões expostas à constante fricção são as mais acometidas
e, por conta deste fato, as bursas são muito importantes àqueles que realizam
movimentos repetitivos e esforços físicos com grande carga.

As lesões associadas à bursa também podem envolver inserções tendinosas


próximas à área, bem como as articulações adjacentes. Dentre as diversas bursas
do corpo humano, a que possui a localização mais conhecida e que serve como
referência devido a ser amplamente estudada, é a subacromial, nos ombros.

FIGURA 4 – BURSITES SUBACROMIAL (A), INFRAPATELAR


(B), TROCANTÉRICA (C) E OLECRANIANA(D)

FONTE: <http://1.bp.blogspot.com/_H9QThFjkT_A/SoRUyqiMKqI/AAAAAAAAABk/
KRHjnTMUx7s/s320/art_bursa.jpg>. Acesso em: 20 jun. 2020.

140
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

O quadro de bursite, comumente, é acompanhado pela inflamação de


regiões adjacentes, o que torna o tratamento mais complexo pelo envolvimento
de estruturas tendinosas, ósseas e ligamentares. Quando há o acometimento de
tecidos adjacentes, há possibilidade maior de evolução para incapacidade motora
no trabalho.

A exigência imposta pela sobrecarga mecânica na região é a principal causa


de bursite, a exemplo das bursites de joelho (infrapatelares), que são encontradas
com frequência em trabalhadores que executam suas funções ajoelhados, como
os aplicadores de carpetes, trabalhadores domésticos, faxineiros, religiosos
e mineradores. As bursites do ombro são oriundas do uso constante de braços
acima da linha do ombro, sendo as profissões de professores, os mecânicos, os
decoradores, os auxiliares de serviços gerais, dentre outros, as mais afetadas por
esse tipo de lesão.

Os distúrbios articulares podem ser diversos e acometerem


estruturas distintas, tendo em vista que a articulação é constituída
de vários componentes. Dentre as lesões articulares as bursites e as
sinovites são muito recorrentes, dada a fragilidade e reatividade dos
tecidos à lesão. Por tanto, estabeleça a diferença entre uma sinovite
e uma bursite, levando em conta a estrutura lesionada.

R.:

2.5 DISTÚRBIOS DA COLUNA


VERTEBRAL
Os distúrbios da coluna vertebral são muito comuns no ambiente de trabalho
devido a ser uma região que possui grande instabilidade nas regiões cervical e
lombar, bem como por suportar grande quantidade de carga no trabalho. Sua
denominação pode variar de acordo com o tipo de lesão presente na coluna, onde
as algias de coluna podem ser focais ou irradiadas para o tronco e membros.

141
ErGomoTriCiDADE

Algia equivale à palavra dor para a área da saúde. Portanto,


as lombalgias, cervicalgia e dorsalgias correspondem a dores
manifestadas em regiões distintas da coluna.

Na prática, três regiões apresentam maior comprometimento da coluna do


trabalhador, a cervical (C1 a C7), dorsal (T1 a T12) e lombar (L1 a L5). Estas
regiões juntas correspondem a mais de 70% da área total da coluna e estão
interligadas a praticamente toda a porção motora do corpo humano através da
inervação periférica, que se origina na medula.

Distúrbios oriundos da coluna e que interferem no funcionamento motor


normal do corpo humano e, geralmente, causam alterações de sensibilidade
tátil e dolorosa através de compressão neurológica, a partir das ramificações
raquidianas projetadas pela medula, são classificados como radiculopatias. Esta
condição causa déficit funcional ou orgânico pela fadiga neuromuscular, que pode
ter origem no trabalho devido à exposição a posicionamentos fixos, má postura,
movimentos repetitivos ou sobrecargas das estruturas por grandes esforços.

Problemas de alinhamento/posicionamento de vertebras (protração/retração),


condições estruturais das vértebras e hérnias discais estão muito relacionadas
às algias da coluna e radiculopatias pela possibilidade eminente de compressão
nervosa.

FIGURA 5 – ASPECTOS DAS CONDIÇÕES


FISIOPATOLOGICAS DA COLUNA VERTEBRAL

FONTE: <https://universosenior.webnode.com/_files/200001783-
667d967672/etapas-hernia-disco.png>. Acesso em: 20 jun. 2020.
142
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

Cada região da coluna possui características fisiopatológicas que demandam


de intervenção direcionada. Logo, o estudo de cada área se faz necessário para
que seja possível distinguir o modo de lidar com cada situação na intervenção em
ergomotricidade.

2.5.1 CErViCALGiA E SÍNDromE


CErViCoBrAQuiAL
A cervicalgia é a dor localizada exclusivamente na coluna cervical; já
a síndrome cervicobraquial, mais conhecida como cervicobraquialgia, está
relacionada à dor cervical relacionada com dor, dormência e/ou perda de força
para um ou para os dois braços. Suas causas orgânicas, com já explicitado
anteriormente, envolvem as deformidade e posicionamento de ossos da coluna
e de discos intervertebrais. Elas são geradas por fatores genéticos-fisiológicos,
assim como pelo trabalho.

Os casos ocupacionais de cervicalgia e cervicobraquialgia são associados


às atividades que envolvem manutenção de postura estática ou imobilização por
tempo prolongado de segmentos corporais como cabeça, pescoço ou ombros;
assim como podem ser provocadas por tensão crônica, esforços excessivos,
elevação e abdução (elevação lateral) de braços acima da altura dos ombros,
empregando força, e vibrações de corpo inteiro.

A cervicalgia é mais presente em casos cujos distúrbios


ligamentares ou musculares da região de ombros e pescoço
estão presentes, devido, principalmente, a tensões musculares e
inflamações de estruturas adjacentes, como as fáscias musculares
e tendões.

A cervicobraquialgia é a condição que causa mais prejuízo a funcionalidade


de membros superiores por interferir na transmissão de informações motoras aos
braços. Por haver compressão nervosa de forma segmentar, ou seja, de forma
direcionada a cada região cervical, as alterações funcionais também se dão de
forma segmentar (ALMEIDA et al., 2018).

143
ErGomoTriCiDADE

As raízes nervosas que se direcionam aos braços estão compreendidas entre


C5 e T1. Cada raiz nervosa que sai da medula inerva uma região específica do
braço/antebraço/mãos, e cada compressão nervosa vai repercutir em uma área
específica do membro. Todo este quadro limita o trabalhador no desenvolvimento
de atividades motoras com os braços, assim como dificulta a concentração nas
tarefas de cunho intelectual devido à presença da dor como forma de distração.

FIGURA 6 – INERVAÇÃO DOS MEMBROS SUPERIORES E SUAS


RESPECTIVAS ÁREAS DE ORIGEM RADICULAR

FONTE: Adaptado de <https://www.estrategiaconcursos.com.br/


blog/dicafisioplexobraquial/>. Acesso em: 20 jun. 2020.

O quadro de compressão nervosa cervical pode ser um fator limitante para


a proposta da psicomotricidade, a depender do grau da lesão e dos sintomas
apresentados pelo trabalhador. Os movimentos, assim como podem beneficiar
o condicionamento físico e a integração psicomotora, também pode interferir no
agravamento do quadro. Portanto, movimentos que exijam flexão excessiva do
pescoço/cabeça, bem como movimentos de rotação, podem agravar o quadro e
levar o trabalhador ao abandono da terapia psicomotora.

2.5.2 LumBAGo E LumBAGo Com CiáTiCA


O lumbago – lombalgia – e o lumbago com ciática, mais conhecido como
lobociatalgia, são condições da coluna vertebral que se assemelham às condições
já discutidas na região de coluna cervical pelas causas orgânicas, pelas causas
ambientais e pelos sinais e sintomas. Podem ser de origem tanto laboral quanto
por fatores genéticos-fisiológicos.

O termo “ciática” faz referência ao nervo ciático, que inerva postos-chave


dos membros inferiores e contribui substancialmente para as funções sensitivas e
motoras das pernas. Seu percurso costuma ser alvo de dor quando há compressão
da raiz nervosa na coluna, com capacidade de repercutir para membros inferiores.

144
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

Os casos de lombalgia são caracterizados por dor na coluna lombar que


piora com movimentos ou com aumentos de pressão intra-abdominal (tosse,
espirros e durante defecação). A dor lombar é um problema que afeta 80% dos
adultos em algum momento da vida (REFSHAUGE; MAHER, 2006). Está entre as
10 primeiras causas de consultas a internistas e, em cada ano, de 5 a 10% dos
trabalhadores se ausentam de suas atividades por mais de sete dias em razão
dessa doença (BASSOLS et al., 2003).

Já na lombociatalgia, a dor é irradia para membros inferiores, especialmente


pela face posterior da coxa até a região lateral do tornozelo/pé, devido à
degeneração do disco intervertebral, hérnia de disco, osteoartrose e/ou osteófitos
da coluna e traumas diversos, o que, eventualmente, leva o trabalhador à limitação
funcional.

O ergomotricista deve estar atendo aos sinais clínicos das afecções da


coluna, pois elas podem limitar a execução de determinados posicionamentos
durante as práticas ergomotoras. Um exemplo é o uso da flexão de tronco, rotação
de tronco ou saltos, que deve ser evitado para trabalhadores com sintomas de
comprometimento estrutural da coluna lombar.

FIGURA 7 – INERVAÇÃO DOS MEMBROS INFERIORES E SUAS


RESPECTIVAS ÁREAS DE ORIGEM RADICULAR

FONTE: <http://www.ebrafim.com.br/blog/dor-lombar-e-
facilitacao-medular/>. Acesso em: 20 jun. 2020.

145
ErGomoTriCiDADE

Durante o trabalho, as dores de coluna podem gerar déficit da atenção para


o trabalho, o que ocorre devido ao incômodo gerado na região que é visto pelo
sistema nervoso central como um alerta de agressão. Sendo assim, a resolução
de doenças de cunho físico beneficia os processos cognitivos no sentido de
deixarem de ser motivo de desvio de atenção.

A compressão nervosa causada pelas alterações estruturais da coluna


também gera insegurança ao trabalhador, especialmente àquele que necessita se
deslocar dentro da empresa, como os que realizam transporte manual de cargas
ou os que realizam trabalhos em altura. A perda de força e o “congelamento”
do movimento das pernas ocorre sazonalmente nos casos de comprometimento
moderado e grave da coluna. A falta de força para manutenção da postura traz ao
trabalhador a possibilidade de quedas e a imobilidade. Dependendo da atividade
realizada, estas consequências da compressão nervosa podem gerar acidentes
(ROCHA; ALENCAR, 2018).

A compressão do nervo ciático pode ser tão intensa que leva alguns
indivíduos à incapacidade para o trabalho, além de ser uma das principais causas
de análise de benefícios pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Os trabalhadores que atuam na indústria da construção, algumas atividades


de operação e de manutenção de equipamentos, como nas áreas petrolífera,
petroquímica, de eletricidade, de telefonia, portuária, de agricultura, de condução
de ônibus e caminhões, atividades em serviços de saúde, como manejo de
pacientes, macas e equipamentos são frequentemente acometidos pelas
lombalgias ou lombociatalgias devido à exigência física de suas respectivas
atividades (BRASIL, 2001).

A lista de doenças relacionadas ao trabalho pode ser consultada


no Manual de Procedimentos para os Serviços de Saúde, publicado
pelo Ministério da Saúde, em 2001, o manual contém a relação de
todas as patologias físicas relacionadas ao trabalho. Disponível em:
https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/doencas_relacionadas_
trabalho_manual_procedimentos.pdf.

146
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

A lombalgia e a lombociatalgia são afecções ortopédicas muito


semelhantes entre si, devido à origem do problema ser na coluna
lombar e seus sintomas serem muito similares. Para que seja possível
a distinção entre os dois problemas ortopédicos relacionados ao
trabalho, aponte uma diferença entre eles.

R.:

3 DISTÚRBIOS PSICOCOGNITIVOS
EM DECORRÊNCIA DO TRABALHO
A vida pós-moderna e dinâmica, agitada e complexa, associada à vida
sedentária com exigência de várias horas na posição sentada e inativa, vem
sendo responsável por uma grande quantidade de pessoas sofrendo de afecções
musculoesqueléticas na coluna lombar. As afecções possuem grande incidência,
gerando um impacto socioeconômico de grande proporção e resultando em
transtornos na saúde e na qualidade de vida do indivíduo (MAGNAGO et al.,
2010).

Os debates que norteiam os problemas relacionados à saúde do trabalhador


nas indústrias, no comércio e no terceiro setor, são temas recorrentes em tempos
atuais, apontando para o surgimento de inúmeras inquietações e doenças, uma
vez que a pressão e o nível de exigências no trabalho, frutos da competitividade e
avanços tecnológicos, são fatores geradores de estresse, bem como de doenças
ocupacionais (LIPP, 2010).

O trabalho ocupa lugar de destaque na vida das pessoas por ser fonte de
subsistência e garantia de uma boa posição social. A ausência de um ofício ou
a perda do emprego são causas importantes de sofrimento psicocognitivo, pois
ameaçam os projetos financeiros e metas de vida traçados pelo trabalhador e sua
família. Devido a frustrações, o trabalhador pode experimentar os sentimentos
de menos-valia, angústia, insegurança, desânimo e desespero, os quais são
característicos de quadros de depressão e ansiedade.

Estudo realizado pelo Ministério da Saúde no Brasil, em 2011, aponta


que as atividades trabalhistas e/ou as condições as quais são desenvolvidas

147
ErGomoTriCiDADE

potencialmente causam distúrbios psicocognitivos que culminam no afastamento


do trabalhador de suas atividades. O enfrentamento leva à erradicação do agente
causal e o absenteísmo pode ser eliminado por completo. Para que isso aconteça,
os profissionais da saúde que atuam no ambiente de trabalho devem conhecer
quais são os fatores psicocognitivas a serem analisados e tratados.

A seguir, serão apresentados os principais distúrbios psicocognitivos


relacionados ao trabalho e que devem ser conhecidos pelo ergomotricista.

3.1 DEMÊNCIA
Demência é uma síndrome que possui manifestação crônica e progressiva
relacionada a uma patologia encefálica adquirida; cursa com déficit de memória,
pensamento, orientação, compreensão, cálculo, capacidade de aprender,
linguagem e julgamento. Não há problemas de consciência e pode ser
acompanhada ou precedida por perda de controle emocional, de motivação e
dificuldade de relacionamento (GALLUCCI NETO; TAMELINI; FORLENZA, 2005).

Problemas de saúde, como epilepsia, alcoolismo, hipotireoidismo


e lúpus podem ser causa primária em casos de demência.

Quanto aos fatores ambientais do trabalho, a demência está


O traumatismo
cranioencefálico relacionada ocasionalmente pelos efeitos da exposição às seguintes
(TCE) pode ter substâncias químicas:
origem de vários
distúrbios cognitivos • substâncias asfixiantes: monóxido de carbono (CO), sulfeto de
e da mente, dentre hidrogênio (H² S);
eles, a demência
• sulfeto de carbono;
pode surgir como
sequela em lesões • metais pesados (manganês, mercúrio, chumbo e arsênio);
difusas. • derivados organometálicos (chumbo tetraetila e
organoestanhosos).

O traumatismo cranioencefálico (TCE) pode ter origem de vários distúrbios


cognitivos e da mente, dentre eles, a demência pode surgir como sequela em
lesões difusas.

148
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

O diagnóstico envolve a ocorrência de comprometimento ou incapacidade


para aprendizagem, memória, concentração, linguagem, atenção, nível de
inteligência, resolver problemas, juízo crítico e comportamento social; bem como
são vistos de forma global o comprometimento ou incapacidade pessoal para as
atividades da vida diária.

A prevenção e intervenção em saúde para a demência, bem como para todos


os outros distúrbios mentais e cognitivos, requer integração e articulação entre os
profissionais de saúde. Sendo assim, a presença de uma equipe multiprofissional
com abordagem interdisciplinar é indispensável para o suporte social e ao
sofrimento psíquico do trabalhador.

3.2 DELIRIUM
Esta síndrome tem como características principais o baixo nível de
consciência e distúrbio da orientação temporoespacial. A síndrome se
caracteriza por declínio cognitivo global do nível de consciência e da atenção,
atividade psicomotora aumentada ou diminuída (LIPOWSKI, 1990). A atenção
também pode estar prejudicada e associada ao comprometimento de outras
funções cognitivas. Portanto, é muito comum observar nos quadros de delirium
irritabilidade, alucinações visuais, pensamento delirante e demonstração de medo
com agitação comportamental.

O ciclo vigília-sono pode se inverter nestes pacientes na


ocorrência de sonolência diurna e agitação noturna.

O delirium tem uma série de fatores causais que, quando abolidos, o curso da
doença tende a ser encaminhado para rápida resolução. No trabalho, as causas
podem ser relacionadas aos efeitos da exposição às substâncias químicas, que
de acordo com Manual de Procedimentos para os Serviços de Saúde (BRASIL,
2001) são:

• substâncias asfixiantes: monóxido de carbono (CO), dissulfeto de


hidrogênio (H2 S);
• sulfeto de carbono; metais pesados (manganês, mercúrio, chumbo e
arsênio);

149
ErGomoTriCiDADE

• derivados organometálicos (chumbo tetraetila e organoestanhosos).

De acordo com o Ministério da Saúde (2001), o delirium pode ocorrer no


curso de uma demência ou evoluir para demência, assim como consegue cursar
para recuperação completa ou para a morte, a depender da gravidade que pode
chagar a estados muito graves.

Ainda, em consonância ao Manual de Procedimentos para os Serviços


de Saúde, os sinais de delirium no trabalhador correspondem às seguintes
manifestações:

• Rebaixamento do nível da consciência – traduzido pela redução da


clareza da consciência com relação ao ambiente, com diminuição da
capacidade de direcionar, focalizar, manter ou deslocar a atenção. É o
aspecto fundamental entre os critérios diagnósticos para o delirium.
• Alterações na cognição, tais como: déficit de memória, desorientação,
perturbação de linguagem ou desenvolvimento de uma perturbação
da percepção que não é explicada por uma demência preexistente,
estabelecida ou em evolução.
• Perturbação que se desenvolve ao longo de um curto período de tempo
(horas; dias), com tendência a flutuações no decorrer do dia.
• Existência de evidências a partir da história, exame físico ou achados
laboratoriais de que a perturbação é consequência direta ou indireta,
associada a uma situação de trabalho.

3.3 TRANSTORNO COGNITIVO LEVE


Distúrbios cognitivos cursam com uma grande variabilidade de manifestações.
Dentre elas, comumente, identifica-se déficit de memória, aprendizado, orientação
e concentração em tarefas prolongadas, dentre outros; sendo essa última
preocupante para os setores de segurança do trabalho. O setor de saúde deve
ficar atento a queixas de fadiga mental durante as tarefas mentais, assim como
quando o trabalhador oferece resistência a algo novo, colocando barreiras para o
aprendizado, por mais que consiga executar a bem tarefa.

Assim como os distúrbios da mente e do comportamento apresentados antes,


os metais pesados e solventes são agentes causais de distúrbios cognitivos por
intervirem no funcionamento do sistema nervoso. Os transtornos cognitivos leves
possuem agentes causais químicos e físicos específicos, que também geram
outros distúrbios cognitivos nos trabalhadores. De acordo com o Manual de
Procedimentos para os Serviços de Saúde, estes agentes são:

150
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

• Químicos – Brometo de metila; chumbo e seus compostos tóxicos;


manganês e seus compostos tóxicos; mercúrio e seus compostos tóxicos;
sulfeto de carbono; tolueno e outros solventes aromáticos neurotóxicos;
tricloroetileno, tetracloroetileno, tricloroetano e outros solventes orgânicos
halogenados neurotóxicos; outros solventes orgânicos neurotóxicos.
• Físico – Níveis elevados de ruído.

Acidentes de trabalho e outros tipos de mecanismos que geram lesão


encefálica, como acidente vascular encefálico, doenças degenerativas e tumores,
potencialmente podem cursar com distúrbios cognitivos leves. Todas estas
informações relacionadas a causas ambientais e fisiológicas são importantes para
que se possa determinar qual intervenção deve ser tomada para o controle de
novos casos e tratamento direcionado ao agente causador de transtorno cognitivo
no trabalho.

Perceba que os transtornos mentais e do comportamento no


trabalho estão amplamente relacionados à exposição aos solventes
e materiais tóxicos diversos, bem como a sequelas de acidentes ou
doenças envolvendo lesão encefálica.

O ergomotricista pode tentar diferenciar o transtorno cognitivo leve testado


a memória, o aprendizado ou de concentração de forma simples e direta no
ambiente de trabalho. Testes psicológicos, como o miniexame do estado mental,
podem indicar alterações importantes no funcionamento de tarefas básicas da
mente. Apesar de contribuírem para alertar que algo está errado, o diagnóstico não
pode ser dado sem que antes seja feita uma ampla avaliação psicológica. Muitos
sintomas são inespecíficos, e outras doenças da mente e do comportamento,
podem ser confundidas.

Um dado importante para ser levado em consideração pelo ergomotricista


é que a confusão mental do trabalhador pode estar ligada a causas externas ao
trabalho. Não se pode esquecer que as condições de vida do trabalhador também
devem fazer parte da avaliação para que não haja erro na identificação da causa,
que pode estar, inclusive, no domicílio do trabalhador.

151
ErGomoTriCiDADE

3.4 TRANSTORNO ORGÂNICO DE


PERSONALIDADE
Os transtornos de personalidade são mudanças de personalidade e
comportamento desencadeados a partir de uma lesão cerebral congênita ou
adquirida. Pode ser concomitante a uma doença adjacente ou ser manifestação
residual de alguma patologia. Numa análise global, suas características envolvem
alteração significativa dos padrões habituais de comportamento (principalmente
emocional), mudanças bruscas de necessidade e dificuldade no controle de
impulsos (CARLOTTO; CÂMARA, 2019).

As funções cognitivas podem estar comprometidas de modo particular ou,


mesmo, exclusivo nas áreas de planejamento e antecipação, como no lobo frontal
do cérebro que, ao ser lesionado, pode cursar com alterações motoras, pessoais
e sociais. As alterações cognitivas da lesão do lobo frontal caracterizam o distúrbio
conhecido como síndrome do lobo frontal, que pode ocorrer não apenas
associada à lesão no lobo frontal, mas também a lesões de outras áreas cerebrais
adjacentes. Sua forma mais comum caracteriza-se por labilidade emocional e
alterações no controle do impulso e do juízo social (DAMASIO, 2018).

O caso Phineas Gage

“Este caso é um dos mais famosos no âmbito da neuropsicologia.


Tudo começa quando Phineas sofre um acidente trabalhando, e, a
partir de então, já não volta a ser ele mesmo. Neste acontecimento
desafortunado, uma barra de ferro de 1 metro de comprimento lhe
atravessou o crânio. Surpreendentemente não só saiu com vida,
como não perdeu a consciência.
Este sujeito chegou a se recuperar completamente fisicamente,
mas alguma coisa mudou nele. Tornou-se irreconhecível para as
pessoas ao seu redor. As pessoas que o conheciam diziam que era
um homem responsável, mas depois do acidente se tornou irregular,
blasfemo, agressivo e impaciente. Seus relacionamentos sociais
foram seriamente prejudicados, assim como o seu rendimento no
trabalho.”.
Para mais informações, acesse: https://amenteemaravilhosa.
com.br/lobulo-frontal-gestor-personalidade/.

152
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

FIGURA 8 – PHINEAS GAGE E A REPRESENTAÇÃO


DE SUA LESÃO DO LOBO FRONTAL

FONTE: <https://sophiaofnature.files.wordpress.com/2016/11/
phineas_gage.jpg?w=300&h=244>. Acesso em: 20 jun. 2020.

Os transtornos orgânicos de personalidade têm sido relacionados


à exposição dos mesmos agentes tóxicos que causam transtorno
cognitivo leve. Sendo assim, aponte quais são os agentes químicos
que podem gerar os transtornos orgânicos de personalidade.

R.:

Para que seja associado ao trabalho, o transtorno de personalidade deve


reunir dados de histórico clínico esclarecedor, identificação de doenças ou lesões
cerebrais prévias que levam a esta condição (diagnóstico diferencial).

Diagnóstico diferencial é um método sistemático que utiliza


exclusão de outras patologias ou distúrbios para que seja possível
identificar o agente causal ou concluir um diagnóstico, ou seja, utiliza
o processo de eliminação para chegar em uma resposta.

153
ErGomoTriCiDADE

Quanto ao quadro comportamental observado no ambiente de trabalho,


comumente, o transtorno de personalidade apresenta como manifestações:

• Capacidade reduzida de manter o foco em atividades com fins


determinados, especialmente aquelas envolvendo períodos de tempo
mais prolongados e gratificação postergada.
• Comportamento emocional alterado com manifestação de alegria
superficial e imotivada, momentos de euforia durante o trabalho, assim
como brincadeiras frequentemente inadequadas para determinadas
situações; rápida mudança de humor, agressividade e apatia.
• Inconsequência de atos e perda do senso para convenções sociais,
com possíveis manifestações sexuais explicitas, descaso com higiene
pessoal, perda de padrões mínimos de etiqueta (comer com as mãos e/
ou ferozmente), dentre outros.
• Desconfiança excessiva, paranoia, preocupação notadamente
exagerada, apego excessivo ao abstrato (regras religiosas, politicamente
correto/ética).
• Alteração marcante da velocidade e fluxo da produção de linguagem
com aspectos, tais como: demora para concluir uma ideia e vontade
constante de escreve e desenha.
• Comportamento sexual alterado.

A vontade constante de escrever e desenhar é característica de


quadros de transtornos orgânicos de personalidade leves, conhecida
como hipergrafia.

3.5 EPISÓDIOS DEPRESSIVOS


Em casos de depressão, as principais manifestações giram em torno da
baixa autoestima e autoconfiança, ideias suicidas, pessimistas, de culpa e
inutilidade. Todo esse quadro leva a um déficit de concentração e comportamento
de isolamento. O sono pode sofrer alterações importantes e gerar fadiga durante
um dia de trabalho. A perda de peso em decorrência da falta de apetite (SILVA et
al., 2009).

Quanto ao quadro psicomotor, o trabalhador, em episódio depressivo, pode


manifestar muita agitação, bem como lentificação dos seus atos. A ansiedade
pode ser muito perceptível e gerar muita angústia.
154
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

De acordo com o Manual de Procedimentos para os Serviços de Saúde,


publicado pelo Ministério da Saúde (2001), nos casos depressivos, a ansiedade
tende a ser mais intensa pela manhã e sua classificação pode ser dividida em:
depressão leve, moderada, grave sem sintomas psicóticos ou grave com sintomas
psicóticos.

Alguns fatos ocorridos no ambiente de trabalho podem levar o trabalhador ao


quadro depressivo. O elevado nível de exigência de prazos e metas, as perdas
de produção, o controle hierárquico rigoroso, limitação de autonomia, ameaças
de perda de emprego, remuneração insuficiente para as despesas cotidianas,
redução do tempo disponível para relações sociais e outras frustrações podem
desencadear o episódio depressivo.

Similar aos transtornos orgânicos de personalidade, os episódios


depressivos também estão associados à exposição ocupacional por
substâncias tóxicas que causam transtorno cognitivo leve.

Quando o quadro depressivo aparece por exposição a agentes nocivos à


saúde, os sintomas passam a ser secundários a um problema de saúde de base
provocado pelo agente. Transtornos como o delirium, demência e o transtorno
mental orgânico são exemplos de causas primárias dos sintomas depressivos
oriundos de contato com materiais tóxicos no trabalho. Assim, quando houver
relato de contato com substâncias tóxicas no trabalho associado a sintomas
depressivos, deve-se investigar uma possível doença estrutural de base, como
uma lesão encefálica por intoxicação.

Sintomas como perda de interesse ou prazer por atividade supostamente


agradáveis, alteração de peso, insônia ou excesso de sono, agitação ou lentidão;
fadiga; sentimentos negativos, perda de concentração e, por fim, pensamento
suicida são comuns na depressão. Para que seja fechado o diagnóstico desses
distúrbios para o trabalho, deve-se observar pelo menos cinco destes sintomas
num período de até duas semanas.

155
ErGomoTriCiDADE

3.6 NEURASTENIA
A neurastenia, também conhecida como a “síndrome de fadiga relacionada
ao trabalho”, manifesta-se pela fadiga constante, que pode se manter por
muitas semanas quando não surge oportunidade para o descanso suficiente.
A fadiga observada pode ser tanto física quanto mental, assim como ambas as
manifestações podem surgir ao mesmo tempo.

Alterações na qualidade do sono, em algumas vezes com quadro de


dificuldade para adormecer também são comumente vistos, apesar do cansaço
constante. Quando envolve a irritabilidade, o desânimo, as dores de cabeça,
dores musculares, a perda do apetite e mal-estar geral, o trabalhador já está
manifestando um quadro crônico dessa doença ocupacional. Por tanto, o
diagnóstico depende, quase que exclusivamente, da anamnese que dever se
concentrar em perguntas relacionadas às condições de descanso e lazer do
trabalhador.

Os trabalhadores acometidos pela neurastenia geralmente estão expostos


ao ritmo de trabalho acelerado, ausência de pausas ou pausa sem conforto,
dupla jornada de trabalho, excesso de tempo despendido com o trabalho ou em
prol dele (retorno difícil no transporte para casa). Estes fatores de risco podem
ser controláveis e evitar que o problema continue prejudicando o desempenho
profissional do trabalhador e causando malefício a sua saúde física e psicológica.

A exposição ocupacional a agentes tóxicos pode causar a neurastenia.


Coincidentemente, os mesmos agentes tóxicos que causam transtorno mental
orgânico também podem gerar fadiga física e mental, sendo que o transtorno
pode ter duração de pelo menos três meses.

A neurastenia pode ser diagnosticada na pessoa desempregada


quando for identificado na anamnese que o quadro de fadiga foi
gerado pelas últimas atividades laborais do trabalhador que se
encontra inativo.

156
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

3.7 TRANSTORNO DO CICLO VIGÍLIA-


SONO
As alterações do ciclo vigília-sono são relacionadas à insônia, sono
excessivo e interrupção do sono durante o descanso, são muito relacionadas a
outros transtornos psicológicos que afetam a capacidade motora. Eles podem ser
de causa fisiológica ou não orgânica, como quando são relacionadas a fatores
ambientais do trabalho. O trabalho noturno fixo e a alternância de horários no
trabalho que incluem o trabalho noturno, em escala de turnos, é uma das principais
causas do problema. Quando há irregularidade diária nos horários de entrada e
saída no trabalho, também deve-se considerar como um possível fator de risco
(BENITES et al., 2013).

Na jornada de trabalho convencional diurna, o tempo de trabalho


está compreendido entre 6 e 18 horas. Nos trabalhos que envolvem
troca de turnos, os horários são modificados durante a semana ou
mês a mês.

Alguns fatores que alteram a psique do trabalhador e que estão relacionadas


a outros transtornos citados anteriormente, como as pausas inexistentes ou muito
curtas, além de descanso em lugares desconfortáveis, também podem gerar
alterações de vigília-sono. A imposição de ritmos de trabalho acelerado (certas
vezes, no ritmo das máquinas), pressão por cumprimento de prazos e metas,
podem gerar outras patologias de base que cursam com alterações no sono como
a ansiedade, fadiga crônica e depressão.

No diencéfalo, as funções de sono e vigília são controladas no corpo


humano. Essa estrutura cerebral depende de fatores ambientais e rotina para
adaptar o relógio biológico do trabalhador. Habitualmente, no período da noite
o corpo prepara-se para descansar e o hormônio conhecido como melatonina
contribui para organizar as funções cerebrais nesse sentido. Curiosamente, como
já apresentado na presente obra, a melatonina possui seu pico de produção
quando o ambiente escurece, o que ajuda o cérebro a compreender que é hora de
descansar e reduzir as funções vitais para o sono seja iniciado.

157
ErGomoTriCiDADE

As alterações de turnos por longos períodos provocam alteração na


produção da melatonina, e o corpo começa a responder a redução dos níveis
deste hormônio durante a noite. O resultado é a dificuldade em iniciar a dormida e
mantê-la com qualidade. Em função dos horários de trabalho em turnos e noturno
podem ocorrer tanto adiantamento quanto atraso de fases do ciclo vigília-sono e
qualquer padrão nesse sentido pode ser perdido.

Apesar de estar muito relacionado a outros quadros


psicogênicos, a presença de ansiedade ou depressão não excluem
o diagnóstico de transtorno do ciclo vigília-sono. Deve-se observar,
de fato, se a alteração de sono-vigília prevalece diante de outros
sintomas psicogênicos.

3.8 SÍNDROME DE BURNOUT


O “esgotamento” é a palavra que mais tem relação com esta síndrome, que
é caracterizada como uma síndrome profissional resultante de um conjunto de
estressores emocionais. O perfil deste trabalhador, que antes era uma pessoa
comprometida e dedicada as suas atividades, passa a ser de uma pessoa apática,
exausta emocionalmente, isolamento, perda de eficiência, o que demonstra
claramente que o ambiente de trabalho está fazendo mal. A necessidade de
manter a atenção e concentração, as pressões, as metas praticamente inatingíveis
podem levar a um quadro de esgotamento profissional (REIS et al., 2018).

A síndrome de Burnout também é conhecida como no meio


A síndrome de
cientifico como “síndrome do esgotamento profissional” e popularmente
Burnout também
é conhecida como conhecida como “estafa”.
no meio cientifico
como “síndrome Outros sintomas podem estar agregados ao perfil demonstrado
do esgotamento anteriormente, como alteração no sono-vigília, tristeza/apatia, angústia,
profissional” e tremores e inquietação. Esses sinais podem também caracterizar
popularmente
depressão e ansiedade, portanto, é comum que a Síndrome de Burnout
conhecida como
“estafa”. esteja associada com estes transtornos psicogênicos.

158
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

Antigamente, a CID-10 que mais se assemelhava ao quadro


apresentado pela Síndrome de Burnout era o de Neurastenia, dada
a semelhança. Algumas manifestações clínicas da Síndrome de
Burnout não se assemelhavam à Neurastenia, e então, um código
próprio para a Síndrome foi criado. Disponível em: http://www.ufjf.
br/pgsaudecoletiva/files/2016/03/Disserta%C3%A7%C3%A3o-final-
vers%C3%A3o-CD.pdf.

Os trabalhadores acometidos pela síndrome em questão sempre devem ser


interrogados quanto as suas expectativas iniciais no período em que foi contratado
para o trabalho, o seu comportamento e desempenho nas tarefas durante essa
fase e quais era suas prioridades. O psicomotricista deve fazer um paralelo com
o comportamento do trabalhador no passar do tempo para que chegue ao estado
motivacional atual para o trabalho.

Os colaboradores que convivem rotineiramente também podem trazer


valiosas informações, principalmente quando questionados com perguntas bem
direcionadas quanto ao desempenho psicomotor do trabalhador suspeito de
estafa.

4 ATUAÇÃO DA ERGOMOTRICIDADE
NO DESENVOLVIMENTO
NEUROMOTOR E PSICOCOGNITIVO
Como apontado até o presente momento, o trabalho pode interferir direta e
indiretamente na saúde física e mental do ser humano e isso ocorre a partir da
presença de fatores variados, geralmente envolvendo fatores ambientais como
exposição a agentes tóxicos e a complexa articulação de fatores relativos à
organização do trabalho, como a divisão e parcelamento das tarefas, as políticas
de gerenciamento das pessoas e a estrutura hierárquica organizacional.

As atividades propostas no ambiente de trabalho conseguem atingir o corpo


dos trabalhadores, produzindo lesões e disfunções, assim como levam a reações
psíquicas que desencadeiam processos psicopatológicos leves a graves.

159
ErGomoTriCiDADE

Assim, os transtornos físicos, mentais e do comportamento relacionados


ao trabalho não resultam de fatores isolados. A relação entre o corpo e aparato
psíquico dos trabalhadores deve ser preservado e a psicomotricidade consegue
enquadrar seus métodos e técnicas em prol da promoção e proteção à saúde
deste público.

Para a manutenção da integridade e recuperação física e cognitiva do


trabalhador, a psicomotricidade pode se valer de exercícios mentais, tais
como: tarefas envolvendo contas, jogos de habilidade com tabuleiro, leitura e
interpretação, jogos de percepção espacial como o quebra-cabeça, atividades
de raciocínio lógico, são alguns exemplos do que se pode chamar de “ginástica
cerebral” (ALVES et al., 2019).

Apesar do aparato físico e da mente não ser indissociável para fins didáticos,
a presente obra fará a divisão como proposta para melhor direcionamento das
práticas psicomotoras. Sendo assim, a aplicação da psicomotricidade para
o trabalho será dividida em: ergomotricidade neuromotora, ergomotricidade
neurossensorial e ergomotricidade psicocognitiva.

4.1 ERGOMOTRICIDADE
NEUROMOTORA
Para o aparelho locomotor, a psicomotricidade está envolvida pelas técnicas
amplamente difundidas de cinesioterapia laboral. Portanto, a ergomotricidade
física pode ser entendida como o uso da cinesiologia como forma de intervir na
prevenção e promoção da saúde do trabalhador, com enfoque no incremento
desempenho físico em situações patológicas e não patológicas.

Na ergomotricidade física, são estimuladas atividades de caminhada,


alongamento, exercícios aeróbicos, tai chi chuan, dança, atividades lúdicas como
gincanas, torneios esportivos, dentre outros. O estímulo à atividade física regular,
fora do trabalho, também envolve a prática ergomotora, que nunca deve ser
pensada de forma isolada, mas integrando vários profissionais, como educadores
físicos, fisioterapeutas, psicólogos, médicos, terapeutas ocupacionais,
enfermeiros, fonoaudiólogos, técnicos em segurança e engenheiros.

160
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

Inevitavelmente, a comparação entre a ginástica laboral e a


ergomotricidade física é feita pelos profissionais da educação física
e fisioterapia, que lidam diretamente com as mesmas técnicas em
seu cotidiano. Vale lembrar que a ergomotricidade possui caráter
interdisciplinar e multiprofissional e não busca substituir a intervenção
em saúde destes profissionais no trabalho, e sim complementar. Além
disso, a psicomotricidade faz parte do currículo de ambas profissões
que, por muitas vezes, utilizam a psicomotricidade sem conseguirem
identificá-la em seu cotidiano profissional.

As atividades físicas regulares promovem melhora na circulação sanguínea,


beneficiando o funcionamento cerebral devido ao aumento no aporte de oxigênio
às áreas menos irrigadas do cérebro, o que cria um ambiente propício para o
desenvolvimento de conexões neurais, com consequente reflexo positivo para as
funções cognitivas, integração sensorial e, inclusive, a motricidade como um todo
(ALVES et al., 2019).

No ambiente empresarial, gestores já implementam a ludicidade no ambiente


de trabalho, não somente para gerar momentos de descontração no ambiente
organizacional, mas também para melhorar o desempenho de seus funcionários
em habilidade físicas e cognitivas. As metas dessas vivências lúdicas podem,
ainda, ser adequadas às necessidades específicas de cada organização e de
seus colaboradores (LIMA et al., 2016).

A criação de um ambiente de trabalho menos estressante e mais harmonioso,


favorece os relacionamentos interpessoais e o desenvolvimento da socialização.
Indiscutivelmente, a descontração e o estabelecimento de laços positivos
apresentam-se como os benefícios mais perceptíveis após as atividades lúdicas
(LIMA et al., 2016).

Para a aplicação de atividades de lazer, Marcellino (1999) sugere que,


assim como o médico cuida da saúde física, um profissional técnico voltado à
recreação e lazer deve buscar o bem-estar social na empresa. Sabendo que o
psicomotricista detém qualidades necessárias para o desenvolvimento do lazer
na empresa. Seu dever é despertar a liderança dentro dos grupos de lazer, criar
um ambiente competitivo evitando conflitos, observar os interesses individuais e
torná-los coletivos, interagir com cada um dos participantes como o maestro das
atividades ou, até mesmo, como participante.

161
ErGomoTriCiDADE

As práticas de ludicidade, prática esportiva, alongamentos musculares,


condicionamento cardiorrespiratório, dança, são exemplos de práticas
ergomotoras que podem ser executadas no ambiente de trabalho ou em áreas
próximas, sem comprometer a rotina da empresa. Estas práticas precisam ter
horário pré-determinado e não deve oferecer riscos aos trabalhadores.

O trabalhador que sofre lesão física durante as práticas


propostas pelo psicomotricista, considera-se como vítima de acidente
de trabalho e pode ser afastado de suas atividades a depender da
gravidade da lesão.

Como forma de exemplificar as possibilidades de aplicação de atividades


ergomotoras, alguns exemplos foram destacados para melhor compreensão. São
eles:

a) Geocaching empresarial

• Descrição: semelhante ao jogo caça ao tesouro, em que um objeto é


escondido num determinado local e deve ser achado, este jogo pode
usar pistas para identificação do local de esconderijo de um recipiente
que deverá conter uma nova pista até que se chegue à recompensa final.
• Ferramentas: recipiente, papéis, caneta, recompensa final (estará no
recipiente), aplicativo de celular (opcional, pois o jogo pode ser feito com
auxílio de smartfone).
• Benefícios: trabalho em equipe, melhora na capacidade de resolução de
problemas, cooperação, estímulo à orientação espacial, desenvolvimento
de comunicação interpessoal e capacidade de persuasão.

162
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

FIGURA 9 – RECIPIENTE ESCONDIDO NO JOGO GEOCACHING


EMPRESARIAL (CAÇA AO TESOURO)

FONTE: <https://i.pinimg.com/236x/3f/f9/d1/3ff9d1da0c31d0504f286c3360645
3f0--geocaching-containers-hidden-spaces.jpg>. Acesso em: 20 jun. 2020.

b) Dinâmica do balão

• Descrição: após a formação de duas equipes, entregar balões de duas


cores distintas entre as equipes para serem enchidos. Um barbante
deverá ser fornecido para que todos amarrem seus balões na cintura.
Após o comando, as equipes deverão estourar os balões dos adversários,
vence quem manter maior número de balões. Cada participante da
dinâmica receberá dois balões e uma corda para amarrá-los na cintura.
Os participantes deverão estourar os balões da equipe rival e, à medida
que os balões forem estourando, o participante sai do jogo. Vence a
equipe que tiver mais balões em 30 segundos ou 1 minuto, a depender
da quantidade de participantes.
• Ferramentas: dois pacotes de balão (duas cores distintas) e barbante.
• Benefícios: atenção, deslocamento corporal global, trabalho em grupo,
velocidade de movimento, preensão motora grossa, fortalecimento da
musculatura expiratória e capacidade cardiopulmonar, fortalecimento e
melhora circulatória em membros inferiores.

c) Mímicas e adivinhação

• Descrição: alguns jogos de tabuleiro trazem consigo a necessidade de


utilização de mímicas como forma de expressão corporal. O ideal é que
as mímicas sejam realizadas por mais de uma pessoa ao mesmo tempo,
163
ErGomoTriCiDADE

para tornar a atividade mais dinâmica e interessante do ponto de vista


motor. Além disso, esta prática é ideal para empresas pequenas com até
15 pessoas.
• Para empresas com 15 pessoas, a tarefa conta com a divisão de três
grupos de cinco pessoas. Uma das pessoas será destacada para
adivinhar (tarefa cognitiva) e as outras quatro farão mímicas interagindo
entre si, no intuito de dar pistas para a adivinhação. Nada pode ser
verbalizado e a cada rodada deve ser feita a seleção de uma ficha que
apresentará a palavra a ser desvendada. O tempo deve ser cronometrado
e recomenda-se o tempo máximo de um minuto. Ganha a equipe que
adivinhar mais palavras.
• Ferramentas: fichas com as palavras que serão usadas nas mímicas e
cronometro.
• Benefícios: expressão corporal, autocontrole, propriocepção,
capacidade de trabalhar sob pressão, estímulo ao planejamento,
deslocamento corporal global, concentração, capacidade de resolver
problemas, estratégia, coordenação motora.

d) Arco dinâmico

• Descrição: primeiramente, faz-se a divisão em dois grupos ou mais com


a mesma quantidade de trabalhadores. Todos dão as mãos e incluem
na roda um bambolê (semelhante a imagem a seguir). A tarefa do jogo
envolve passar o bambolê por todos os trabalhadores sem soltar as
mãos uns dos outros. Vence a equipe que conduzir o bambolê ao seu
ponto de origem em menor tempo.
• Ferramentas: bambolê e cronômetro (opcional).
• Benefícios: flexibilidade, propriocepção, capacidade de trabalhar sob
pressão, estímulo ao planejamento, deslocamento corporal global,
estratégia, coordenação motora grossa.

FIGURA 10 – JOGO “ARCO DINÂMICO”

FONTE: <https://z6c581w6t6431l0x52324ung-wpengine.netdna-ssl.com/wp-
content/uploads/2019/02/diversaonotrabalho.jpg>. Acesso em: 20 jun. 2020.

164
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

e) Arvorismo

• Descrição: o psicomotricista deve ter o papel de coordenador da


atividade e selecionar o espaço aberto, preferencialmente descampado
nas dependências da própria empresa ou em locais próximos como
praças e bosques. Recomenda-se que a seleção das mudas e
instrução de plantio seja feita com auxílio de um especialista, que fará
demonstração para posterior execução dos trabalhadores, que devem
ser constantemente observados pelo psicomotricista que fará instruções
quanto à melhor forma de manusear as ferramentas (pega), instruções
sobre a forma de se abaixar para pegar objetos e o limite de peso para o
transporte individual de cargas.
• Ferramentas: espaço aberto, adubo, materiais para escavação (pá,
enxada etc.).
• Benefícios: uso da preensão motora grossa e fina, transporte de cargas
leves, uso de amplos movimentos de flexão e extensão do corpo em
projeção ao solo e busca por ferramentas.

A prática de plantar árvores pode, inclusive, se tornar um projeto


social para a empresa. Isso motiva os empresários e a comunidade
geral ao reflorestamento.

f) Ginástica laboral (GL)

A implantação de programas de GL possibilita a efetividade e a promoção


para a saúde dos trabalhadores deste setor em relação à saúde coletiva,
entendendo o cuidado à saúde em sua totalidade: melhoras no ambiente de
trabalho, segurança, alimentação, saúde física e mental, condições de moradia e
nível de atividade física e de socialização, causando no trabalhador uma mudança
de hábitos e uma consciência de uma vida mais saudável e comprometimento
com seu trabalho.

• Descrição: método centenário utilizado como prevenção em saúde


durante o trabalho. Utiliza práticas corporais localizadas e globais
específicas para cada momento no trabalho. Por tanto, existe a GL
aplicada no início do expediente (preparatória), durante o expediente
(compensatória) e ao final (relaxante). Obviamente, nem sempre todas
as modalidades são aplicadas no mesmo dia. O recomendado é que seja
feita uma análise previa para que se conheça o perfil dos trabalhadores
165
ErGomoTriCiDADE

que receberão a ginástica quanto às atividades que executam a rotina


de trabalho, para que a seleção da ginástica e o horário oferecido sejam
melhor selecionados. Suas práticas envolvem o movimento corporal
em si, com a execução de abaixamentos, alongamentos, flexões,
movimentos rítmicos, saltos, apoio unipodal (sustentação em um pé),
dentre outros, a depender da finalidade proposta.
• Ferramentas: aparelho de som (caso permitido o uso de música),
halteres, bastões, cones, bolas, colchonetes e diversos acessórios.
• Benefícios: fortalecimento muscular, integração sensorial, flexibilidade,
propriocepção, coordenação motora, planejamento motor, ganho de
amplitude de movimento, autoconhecimento, liberação de endorfinas,
melhora no condicionamento cardiorrespiratório e vascular.

FIGURA 11 – GINÁSTICA LABORAL

FONTE: <http://blogs.correiobraziliense.com.br/papodeconcurseiro/wp-content/
uploads/sites/14/2019/12/images-1-550x367.jpg>. Acesso em: 20 jun. 2020.

Uma modalidade de GL vem sendo utilizada por profissionais


da reabilitação no intuito de corrigir possíveis problemas físicos de
saúde, já instalados no trabalhador. Conhecida como ginástica laboral
corretiva, a modalidade envolve, inclusive, o acompanhamento
de pessoas com deficiência física que fazem parte do quadro de
colaboradores da empresa e atende um público mais específico.
Apesar de já ser praticada por algumas empresas, ainda carece de
estudos que indiquem seus benefícios.

166
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

g) Prática esportiva

• Descrição: os esportes costumam ter uma resposta física e psicológica


muito positiva para o trabalhador, que passa a perceber seus amigos
de trabalho como seres sociais. O momento de lazer em ambiente
completamente estranho ao ambiente de trabalho proporciona reação
imediata de descaracterização da rigidez que, por muitas vezes, o
ambiente empresarial impõe. Além disso, as práticas esportivas são
uma forma saudável e divertida de incitar o engajamento e a união entre
os colaboradores. Recomenda-se esportes seguros e populares, como
basquete, futebol, natação e voleibol.
• Ferramentas: cabe a cada modalidade.
• Benefícios: estímulo à orientação espacial, desenvolvimento de
comunicação interpessoal, capacidade de persuasão, capacidade
de trabalhar sob pressão, estímulo ao planejamento, deslocamento
corporal global, estratégia, capacidade de trabalhar em equipe,
liderança, interação social, capacidade de resolução de conflitos,
paciência, fortalecimento muscular, integração sensorial, flexibilidade,
propriocepção, coordenação motora, atenção, ganho de amplitude de
movimento, autoconhecimento, liberação de endorfinas, melhora no
condicionamento cardiorrespiratório e vascular, espirito de cooperação,
dentre vários outros benefícios percebidos para a vida pessoal dos
participantes e no trabalho.

Outros exercícios ao ar livre como canoagem e camping podem


ser usados para estimular a ludicidade e a integração entre a equipe
de trabalho. Ao planejar essas ações externas, é importante consultar
todos os funcionários e ouvir suas expectativas e opiniões.

Grandes empresas investem na prática esportiva de


campeonatos internos a subsídios financeiros para atividades físicas.
Disponível em: https://exame.abril.com.br/negocios/8-empresas-que-
incentivam-os-funcionarios-a-praticar-esporte/.

167
ErGomoTriCiDADE

h) Relaxamento visual

Cada olho humano possui seis músculos que contribuem para o


direcionamento do globo ocular, são eles: oblíquo superior, reto superior, reto
medial, reto lateral, reto inferior e oblíquo inferior. Devido ao trabalho, pode ocorrer
sobrecarga destes músculos e sensação de desconforto, e a dor acompanha esse
processo. A sensação de peso e cansaço das estruturas oculares é frequente
quando à atividade laboral exige a manutenção do olhar para uma direção
predileta, assim como quando os olhos são intensamente movimentados.

FIGURA 12 – POSICIONAMENTO DOS MUSCULOS EXTRAOCULARES

FONTE: <https://1.bp.blogspot.com/-XWEfj43d_zY/VYheVTBszYI/AAAAAAAABZo/-
bf5i8xei04/s320/musculos-extraoculares.png>. Acesso em: 20 jun. 2020.

A sobrecarga de movimentos oculares pode dificultar a atenção devido ao


incômodo proporcionado, que acaba por desviar a atenção do trabalhador para
a dor e o cansaço ocular. O trabalhador passa a sentir necessidade de pausas
sazonais para descanso, o que prejudica o desempenho do aparelho visual
para o trabalho. Dessa maneira, o alongamento da musculatura extraocular é
recomendado.

• Descrição: deve ser feito com estímulos visuais de forma particular


(psicomotricista/trabalhador). Recomenda-se que o psicomotricista deva
identificar previamente qual ou quais músculos apresentam fadiga. A
tarefa consiste na observação do objeto apresentado pelo trabalhador.
O objeto deverá ser posicionado a meio metro de distância do campo
visual e, em posse da informação de qual músculo deva ser alongado,

168
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

o psicomotricista direcionará o objeto para a direção que promova o


alongamento desejado.
• Ferramentas: objeto pendular (relógio de bolso é um bom modelo).
• Benefícios: redução da fadiga ocular, atenção.

4.2 ERGOMOTRICIDADE
NEUROSENSORIAL
O desenvolvimento das habilidades táteis e do sistema sensorial especial
(visão, audição, olfato e paladar) sofre constante aperfeiçoamento no decorres da
vida, à medida que o ser humano mantém contato com experiências ambientais
diversas. No trabalho, o ambiente pode ser pobre em estímulos que desenvolvam
o sistema sensorial, assim como pode demandar de grande especialização
neurossensorial.

Vale salientar que, para a ergomotricidade, as sensações gustativas e


olfativas repercutem mais na manifestação cognitiva de forma direta em detrimento
ao aparelho locomotor, que pode ser beneficiado secundariamente pela liberação
de hormônios estimulados pelo sistema sensorial e que agem sobre nervos e
músculos.

O trabalho na indústria tem características particularmente enriquecedoras


para o sistema sensorial, como a emissão de sons como forma de alerta de perigo,
a presença de odores dos materiais fabricados, a variação térmica de diferentes
setores demandada pela necessidade de aquecimento/resfriamento de produtos,
dentre várias outras características. A mesma variabilidade de sensações, assim
como podem ser positivas, conseguem trazer agravos à saúde do trabalhador,
caso não sejam controladas.

Como parte do controle ambiental, a presente obra citou vários meios de


intervenção para que as necessidades da empresa não impactem diretamente
na saúde de seus funcionários. No entanto, o papel do psicomotricista também
deve ser somado a estes esforços para a proteção e promoção a integridade
neurossensorial do trabalhador.

A ampla gama de possíveis intervenções em ergomotricidade possibilita que


a criatividade seja a ferramenta utilizada nas intervenções sensoriais. O contato
do trabalhador com diferentes texturas proporciona estímulo tátil, os momentos
lúdicos que propõe estímulo ao equilíbrio corporal que ativa o sistema auditivo, a
aromaterapia para o desconforto muscular do trabalhador, são formas de estímulo
neurossensorial, utilizadas pela ergomotricidade.

169
ErGomoTriCiDADE

O tipo de atividade que o trabalhador desenvolve deve sempre ser


considerado para a escolha das intervenções, já que, comumente, encontra-se
nexo causal entre problemas de saúdes específicos para determinados grupos de
trabalhadores, como a redução da capacidade olfativa daqueles que se expõe a
quantidades elevadas de solventes tóxicos.

Para exemplificar melhor como a ergomotricidade atua através de estímulos


neurossensoriais, alguns exemplos serão apresentados a seguir:

a) Sensibilidade olfativa – aromaterapia

Para o perfumista e pesquisador Holley (1999), a percepção, atenção,


memória, aprendizado, imaginação e linguagem são manifestações cognitivas
que podem ser disparadas pela sensação olfativa. Ele aponta que a natureza do
comportamento humano apresenta relação inevitável diante do odor, e que o ato
de cheirar promove ampla variabilidade de eventos emocionais.

A aromaterapia é um exemplo de terapia alternativa que estimula o olfato


e outros órgãos, e está voltada, principalmente, para os efeitos da absorção de
fluidos no sistema respiratório e pela pele, através de óleos essenciais para o
tratamento de doenças e manutenção da integridade física e psicológica. Este
método é usado desde as civilizações antigas e hoje vem sendo estudado para
que seja possível traçar quais efeitos terapêuticos cada óleo essencial apresenta.

O efeito é devido a sua constituição (ésteres, cetonas, hidrocarbonos, entre


outros) que atravessam a membrana celular, além de, na inalação haver contato
direto com as estruturas nervosas centrais, via bulbo olfatório. O aroma interfere
nas emoções por estimular o sistema límbico, que tem conexões com o bulbo
olfatório. O sistema límbico é responsável pela regulação de várias emoções
como o amor, a prazer, tristeza, a raiva, estresse (SILVA; LEÃO, 2004).

Meamarbashu e Rajabi (2013) utilizaram a ciência para comprovar a


efetividade do óleo de Mentha piperita (hortelã-pimenta), diluído em água, para
o aumento da capacidade pulmonar e melhora na apresentação do lactato no
sague enquanto subproduto do exercício físico. Logo, concluíram que atletas em
treinamento podem se beneficiar do uso da aromaterapia.

Para o ambiente de trabalho, o estudo do prazer olfativo deve abordar


a anatomofisiologia do olfato, seus aspectos cognitivos e emocionais,
principalmente ligados ao prazer ligada à olfação. São avaliados os odores
agradáveis relacionados aos óleos essenciais como possíveis agentes positivos
modificadores no comportamento, através de parâmetros que permitem verificar
mudanças nos estados emocionais e mentais do indivíduo, e sua repercussão no
trabalho.
170
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

Triska (2003, p. 93) realizou um estudo sobre a aromaterapia no trabalho


e relatou resultados positivos quanto aos métodos aplicados. Segundo a autora,
“o método de inalação demonstrou ser, por si só, capaz de ser aplicado em
ambientes de trabalho, por sua praticidade e eficácia, permitindo inseri-lo nas
rotinas, em diferentes horários, a serem definidos pelos grupos de trabalho [...]”.

• Descrição: aplicar os extratos aromáticos no corpo do colaborador em


sala destinada para este fim. Caso a intensão seja atingir um maior
número de pessoas, poderá ser feita a pulverização, através de velas
aromáticas ou aromatizadores de ambiente.
• Ferramentas: extratos aromáticos, pulverizadores (opcional), velas
aromáticas.
• Benefícios: estímulo à liberação de hormônios com consequente reação
positiva do sistema locomotor e das funções psicocognitivas

b) Sensibilidade visual e atenção

A nitidez de elementos vistos próximos da visão, assim como aqueles


vistos a certa distância, ocorre devido a atuação dos músculos ciliares que estão
conectados ao cristalino e comandam a curvatura deste componente. Quanto
mais próximo o objeto se posiciona do campo visual, maior é a contração do
musculo ciliar. Quando durante o trabalho há exposição ocular às atividades que
exijam proximidade de objetos ou a observação de objetos minúsculos, a tensão
nos olhos aumenta causando transtornos para a acuidade visual. Enquanto os
músculos ciliares se contraem, os ligamentos suspensores ou zonulares estão
relaxados e vice-versa.

FIGURA 13 – AÇÃO DOS MUSCULOS CILIARES E DO


LIGAMENTOS SUSPENSORES OU ZONULARES

FONTE:<http://psicod.org/pgina-fsica-aula-por-aula-termologia--ptica-
-ondulatria-v2.html?page=316>. Acesso em: 20 jun. 2020.

171
ErGomoTriCiDADE

Nesse sentido, atividades laborais que exijam utilização constante da visão


quanto ao recebimento da luz reduzida ou excessiva, na observação de objetos
em distâncias variadas, na manipulação de objetos minúsculos, são capazes de
prejudicar o conforto visual e ocasionar problemas de acuidade visual e fadiga
ocular.

• Descrição: a intervenção se baseia na exposição de dois ou mais objetos


para o trabalhador em distâncias distintas (sugestão: 0,15m/ 1m / 3m). A
tarefa envolve a visualização atenta de cada objeto por 15 segundos.
Após o trabalhador visualizar todos eles, deverá repetir o processo por 4
vezes. O psicomotricista pode auxiliar na seleção e posicionamento dos
objetos, na cronometragem do tempo e comando verbal. Recomenda-
se que os objetos estejam dispostos na altura do campo visual do
trabalhador como forma de proteção para os músculos extraoculares.
• Ferramentas: três objetos iguais ou semelhantes entre si quanto ao
tamanho e forma.
• Benefícios: redução da ocorrência de fadiga visual e prevenção de
problemas de acuidade visual como miopia ou astigmatismo.

Para aqueles que permanecem muitos expostos à luz, como os


trabalhadores que passam muito tempo de sua jornada em frente ao
computador, recomenda-se que o relaxamento dos olhos envolva a
ausência completa da luz. Para isso, o trabalhador deve descansar
os braços sobre uma mesa, fechar os olhos e tapar as pálpebras
com as duas mãos por 1 minuto.

c) Sensibilidade auditiva, equilíbrio e propriocepção – cabra-cega

As queixas de tontura representam um grande percentual de pessoas


acometidas, cerca de 10% das patologias tratadas nas clínicas neurológicas
cursam com esse sintoma. Diante disso, o problema é que há inúmeros elementos
que podem causar alterações cognitivas momentâneas (agudas) ou até mesmo
levar à morte e degeneração celular (crônicas). Esses elementos podem gerar
mutações genéticas, infecções virais, drogas psicotrópicas, intoxicação por
metais, poluição. Por tanto, além de questões biológicas, o ambiente pode ser
visto como grande gerador de distúrbios de equilíbrio corporal, especialmente no
trabalho.

172
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

A literatura científica internacional revela que um quarto da prática clínica


global está preocupada com doenças relacionadas ao funcionamento do sistema
nervoso, as quais provocam a perda do equilíbrio e déficits que se ligam a outros
sistemas, como o nervoso periférico e o músculo esquelético, e nem sempre há
medidas que garantam a prevenção dessas lesões neurológicas (MARCHIORI et
al., 2015).

Nesse sentido, Manzolin e Riskala (2005), mencionam que as patologias


do SNC têm potencial de influenciar o equilíbrio corporal. Logo, a alteração do
equilíbrio é definida como postura particular do corpo em que há oscilações que
vão das leves até as graves que tende a perturbar a orientação do corpo.

O equilíbrio e propriocepção passam pela integração das estruturas auditivas


com áreas do sistema nervoso, como o lobo frontal do encéfalo, o cerebelo e
a região vestibular. Portanto, o estímulo auditivo tem grande relevância para as
manifestações neuromotoras e psicocognitivas. O ouvido humano, ao captar sons
do ambiente, consegue evocar memórias, dar noção de distância de objetos e
amplitude de ambientes, estimula endorfinas, provoca emoções como tristeza,
raiva ou saudade, estimula o corpo ao estado de alerta, dentre várias outras
funções. As práticas propostas a seguir, apresentarão como aperfeiçoar a função
auditiva para o trabalho (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2002).

• Descrição: diferentemente da cabra-cega utilizada em brincadeiras


infantis, essa modalidade de jogo não promove correria, situações
potencialmente constrangedoras ou risco de acidentes. Para a empresa,
a cabra-cega deve começar com a seleção de dois trabalhadores para
serem vendados e um trabalhador para ser a “isca”. A isca fará uma
roda com todos os outros trabalhadores, com exceção dos vendados.
A roda formada circundará os participantes vendados, ou seja, a dupla
que estiver vendada ficará no centro da roda. O psicomotricista deverá
ter consigo uma série de placas com palavras a serem apresentadas aos
integrantes da roda. Os integrantes da roda, verbalizarão as palavras ao
mesmo tempo. A tarefa principal é a busca pela isca, que deve ser feita
somente da pista auditiva, aquele que encontrar a isca primeiro será o
vencedor.

173
ErGomoTriCiDADE

Eliminando pistas visuais, o sistema auditivo tende a ser


aperfeiçoado. Este fato pode ser observado no desempenho auditivo
extraordinário de pessoas cegas.

• Ferramentas: venda para os olhos e fichas com nomes diversos.


• Benefícios: equilíbrio, orientação espacial, propriocepção, memória,
planejamento motor, aperfeiçoamento do sistema auditivo, atenção.

d) Sensibilidade auditiva e planejamento motor – desenho cego

A audição pode proporcionar estímulo para o sistema locomotor por gerar


informação do ambiente para posterior resposta apropriada. No caso do desenho
cego, a importância do planejamento motor é ressaltada e a integração sensorial
com a motricidade humana são muito presentes para a execução desta tarefa.

• Descrição: a atividade do desenho cego deve ser executada em dupla,


um trabalhador verbaliza instruções para o desenho de um objeto e o
outro fará um desenho a partir das instruções verbais. O objeto a ser
desenhado deverá ser selecionado aleatoriamente a partir de um
conjunto de fichas apresentadas pelo psicomotricista. Somente uma
ficha deve ser selecionada pelo verbalizador, o ouvinte não deverá saber
o nome do objeto que irá desenhar, tampouco o verbalizado poderá
indicar o objeto a ser desenhado. O verbalizador estará autorizado a,
somente, dar pistas de como fazer os traços do desenho desejado.
Enquanto o verbalizador indica os traços do desenho e o ouvinte aplica-
os ao desenho, o tempo poderá ser cronometrado e vencerá a dupla em
que o ouvinte conseguir descobrir qual objeto está desenhando. Além da
tarefa motora proporcionada pela atividade, a atividade é instrutiva no
sentido de apontar que o mesmo fato ou evento pode ser interpretado de
modos diferentes pelas pessoas.
• Ferramentas: fichas com nomes de objetos, pincel, quadro branco ou
cavalete flip-chart, cronômetro (opcional).
• Benefícios: paciência, planejamento, capacidade de lidar com perdas,
cooperação, trabalho em equipe, autocontrole, estímulo a verbalização
inteligível, imaginação, atenção, memória, coordenação motora.

174
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

e) Sensibilidade auditiva e cognição – telefone sem fio

Este é um exemplo de tarefa sensorial que estimula exclusivamente o sistema


cognitivo. O estímulo à memória de curto prazo e a atenção são os principais
resultados para o cotidiano do trabalhador.

• Descrição: semelhante à brincadeira infantil, forma-se uma roda cuja


tarefa é, basicamente, a transmissão de uma informação para todo o
grupo. Um detalhe cerca a tarefa: a frase é sigilosa e só poderá ser dita
ao pé do ouvido. Uma pessoa será selecionada para iniciar a brincadeira
e dizer uma frase qualquer ao participante posicionado a sua esquerda.
Quem receber a frase deverá replicá-la sempre para o participante a sua
esquerda, até que todos os integrantes da roda recebam a informação.
Supostamente, ao final da tarefa, a informação verbalizada inicialmente
deveria ser a mesma recebida pelo último participante da roda. No
entanto, na maioria das vezes que essa brincadeira é aplicada, a última
frase recebida apresenta-se distorcida e diferente da frase inicial.

Este jogo traz, além de vários estímulos cognitivos, a lição de


que as informações transmitidas na empresa podem ser alteradas,
dependendo do entendimento de cada pessoa que às replica. É uma
ótima atividade para despertar a atenção dos colaboradores para
ruídos de comunicação na empresa.

• Ferramentas: fichas com frases pré-determinadas (opcional).


• Benefícios: estímulo à atenção, memória de curto prazo, autocontrole,
paciência, verbalização inteligível, imaginação, trabalho em equipe,
planejamento, interação, cooperação, capacidade de reconhecer erros e
limitações.

f) Tato

Como já apontado anteriormente na presente obra, o tato envolve diferentes


tipos de manifestações como dor, temperatura, vibração e pressão. Cada tipo
de sensação tátil pode ser estimulado ou inibido de acordo com a necessidade
apresentada pelo trabalhador. A dor, por exemplo, sempre é adjetivada como
aversiva e que deve ser inibida quando possível. As percepções térmica e de

175
ErGomoTriCiDADE

pressão são importantes sinalizadores de estímulos ambientais e novas. Portanto,


serão propostas, aqui, formas de inibição dolorosa e estímulo à integridade
tátil discriminativa (identificação de objetos), barestésica (pressão), vibratória e
térmica.

Lembre-se que a perda de sensibilidade tátil, térmica, vibratória e


barestésica pode ser encontrada em certos tipos de atividade laboral,
como trabalhos em câmaras frias e nos ambientes que proporcionam
crepitação segmentar, como no uso de britadeiras e motosserras.

O estímulo tátil é facilmente aplicado dentro de vários jogos, inclusive alguns


já propostos no presente capítulo, como a cabra-cega, que pode substituir pessoas
por objetos de diferentes formas e texturas; o arvorismo, que proporciona contato
com elementos da natureza e objetos de diversos tamanhos, densidades e pesos,
comumente, não manipulados pelos trabalhadores. Sendo assim, invariavelmente,
as atividades propostas a seguir buscam promover a sensibilidade ao extremo,
obviamente, sem que haja dor.

Para a psicomotricidade não há como lidar com intervenções que busquem


somente a intervenção na sensibilidade vibratória ou barestésica, ou seja, para o
trabalhador a melhor medida quanto ao reestabelecimento de suas funções táteis
é a redução ou, quando possível, a eliminação do fator ambiental que provoca
alteração de sensibilidade.

Para a psicomotricidade, a melhor conduta é observar e instruir quanto às


diferentes maneiras de trabalhadores que necessitam de estímulo tátil, o fator
ambiental, causador de alterações vibratórias, leva à redução ou à eliminação
das consequências danosas de estímulos táteis inadequados durante o trabalho
(exemplo: vibração da britadeira – ver Capítulo 1).

Os estímulos táteis estão diretamente relacionados ao contato com diferentes


formas e texturas. Portanto, seguem algumas intervenções em psicomotricidade
e suas respectivas finalidades em prol da manutenção e aperfeiçoamento das
funções táteis.

176
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

QUADRO 1 – OPÇÕES DE TÉCNICAS PARA ESTÍMULO TÁTIL

Estímulo Tipo de sensibilidade


O trabalhador se põe a marchar sobre uma bacia com 20 bolas de gude.
Assim como também podem ser utilizados materiais que provoquem es- Dolorosa
tímulos mais vigorosos, como milho e pequenas pedras, ou estímulos Barestésica
menos vigorosos, como areia branca. Também podem ser usados mate- Térmica
riais que proporcionem leve variação térmica, como pedras quentes em Discriminativa
uma bacia de madeira ou gelo.
Com os olhos vendados, o trabalhador tateia um objeto e relata o que Dolorosa
está pegando (evitar objetos que também proporcionem estímulos sono- Barestésica
ros). Objetos de temperatura distintas também podem fazer parte desta Térmica
atividade. Discriminativa
Com os olhos vendados, o trabalhador recebe uma pequena caixa com
cinquenta bolas de gude ou outros objetos iguais em tamanho e forma,
para selecionar qual é o mais pesado e qual é o mais leve. O psico-
Barestésica
motricista, com uma balança, fará a medição e premiará o trabalhador
caso acerte (importante utilizar bolas com materiais distintos para variar
o peso).
Jogo da cabra-cega utilizando objetos, a tarefa do trabalhador será en-
contrar um determinado objeto escondido dentro da empresa. Os olhos
Barestésica
devem estar vendados e pistas auditivas como “está quente” e “está frio”
Térmica
podem direcionar o caminho correto. Um tempo mínimo estabelecido
Discriminativa
para tornar a atividade mais dinâmica. O interessante é utilizar um espa-
ço rico em objetos para tatear.
Confecção de artesanato, usando tecidos de texturas variadas, argila,
tinta e massa de modelar. Nessa atividade, é importante utilizar sempre
um artesanato pronto como modelo para que o trabalhador estimule ou- Barestésica
tras habilidades psicomotoras. Além disso, seleção de artesanatos deve Térmica
ser pensada na possibilidade do trabalhador precisar interromper e con- Discriminativa
tinuar sua atividade psicomotora quando quiser, já que essa atividade
não deve interferir na rotina de trabalho.
FONTE: O autor

As patologias de cunho físico geralmente cursam com alteração sensorial.


As principais manifestações sensoriais são a dor e a parestesia (dormência) do
segmento neuronal acometido.

Para a psicomotricidade, não há estratégias voltadas ao estímulo vibratório.


A vibração, por ser um impacto mecânico que tem grande potencial de causar
diversos problemas de saúde quando disponível ao trabalhador sem controle
de intensidade e tempo, deve ser evitada sempre que possível. Portanto, a
prevenção quanto à exposição ao agente causal é a estratégia mais efetiva para a
manutenção da sensibilidade vibratória no sistema nervoso periférico.
177
ErGomoTriCiDADE

O trabalhador deve ser protegido com materiais que


proporcionem conforto e evitem o intenso contato com vibrações
dentro do ambiente de trabalho. Para mais informações acesse:
http://www.mundohusqvarna.com.br/coluna/os-efeitos-da-vibracao-
na-saude-do-trabalhador/.

O psicomotricista só deve expor o trabalhador à vibração como forma de


integração sensorial quando houver alguma patologia que curse com prejuízo
na percepção tátil, como trabalhador que passou por quadro infeccioso de
hanseníase e manifesta sequela ou em casos de lesão no sistema nervoso
central. Nesse caso, as técnicas de intervenção devem ser oriundas de um
trabalho multiprofissional e direcionadas ao contato com diapasão, massageares
vibratórias de 50hz, dentre outros tipos de ferramentas controláveis quanto a
intensidade de vibração proporcionada.

4.3 ERGOMOTRICIDADE
PSICOCOGNITIVA
No presente capítulo, algumas patologias psicocognitivas foram
apresentadas. Como pode-se observar, todas cursam com algum prejuízo
psicomotor, o que abre portas para a atuação do psicomotricista. Apesar disso,
em algumas situações específicas, cujas patologias já estão instaladas de modo
grave, é prudente o encaminhamento do trabalhador a outros especialistas.
A gravidade do transtorno pode indicar muita coisa, principalmente quanto aos
limites do psicomotricista em sua atuação com cuidados preventivos e protetivos.

A identificação do quadro do trabalhador é o primeiro passo para uma


intervenção bem-sucedida, cuja seleção correta da intervenção reflete na melhora
do quadro psicogênico. O psicomotricista deve entender que nem sempre a
solução está em suas mãos e a atuação de uma equipe multiprofissional sempre
é o mais indicado.

A prevenção em saúde mental é o principal foco da psicomotricidade


“ergomotricidade psicocognitiva” e, felizmente, para alguns trabalhadores,
as medidas de prevenção contribuem para o combate de certos sintomas
psicogênicos, o que faz da psicomotricidade uma área relevante no enfrentamento
inicial de distúrbios psicocognitivos.
178
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

Dentro de alguns transtornos psicogênicos, citados nesse capítulo, sintomas


foram apresentados e o combate a cada um deles é uma das alternativas usadas
para conter o avanço dos distúrbios ocupacionais gerados em função do trabalho.
Dentre os principais sintomas estão os distúrbios do sono-vigília, agitação ou
lentidão, pensamentos negativos, a perda de interesse pelo trabalho, a apatia, o
cansaço físico e mental em forma de fadiga, a perda de atenção/concentração e
instabilidade emocional.

A seguir, serão propostas algumas intervenções em psicomotricidade


direcionadas ao combate de sintomas psicogênicos que, em conjunto, podem
caracterizar um distúrbio psicocognitivo. Elas foram cuidadosamente selecionadas
para que sirvam, inclusive, para a manutenção da saúde do trabalhador após o
retorno ao trabalho quando este for afastado por motivos de saúde psicológica.

a) Yoga

O yoga é uma dais mais conhecidas terapias alternativas devido aos


resultados positivos comprovados. A yoga é uma prática que atua diretamente
sobre os efeitos da ansiedade e estresse no trabalho, devido a uma resposta de
relaxamento que leva a redução generalizada das funções corporais, por atuar na
redução da atividade nos sistemas nervoso parassimpático e nervoso autônomo,
que carregam estímulos entre diversos órgãos e tecidos (AIVAZYAN, 1990).

O yoga vem sendo confrontado com outras terapias quanto a sua eficácia
na redução de sintomas de depressão e ansiedade. Quase todos os estudos
identificam vantagem na aplicação da yoga. Quando os estudos submetem à
comparação de yoga com grupo-controle, a yoga gera resultados consideráveis, o
que reafirma seus benefícios quanto aos quadros sintomáticos.

Quase todos os estudos que examinaram os efeitos do yoga na ansiedade


relataram que tal intervenção diminui, consideravelmente, os níveis de ansiedade
e estresse, quando comparado ao grupo-controle. Além disso, quando o yoga é
confrontado com outras intervenções como o relaxamento, observa-se que ambas
as técnicas produzem reduções na ansiedade (VORKAPIC; RANGE, 2011).

Ribeiro (2018) aponta que as técnicas de yoga se enquadram em subtipos


de terapia, que podem ser divididas em:

• Ashtanga Vinyasa Yoga – Baseada em manutenção de posturas


especificas.
• Vinyasa Flow – Utiliza técnicas de respiração e movimento corporal.
• Hatha Yoga – Modalidade clássica que mistura o potencial psicomotor
do praticante.

179
ErGomoTriCiDADE

• Bikram Yoga (Hot Yoga) – Prática da yoga em ambiente com


temperatura controlada e elevada para aceleração do metabolismo com
fins terapêuticos.
• Iyengar Yoga – Tem como foco a postura e o correto alinhamento
corporal.
• Kundalini Yoga – Utiliza movimentos repetitivos e técnicas respiratórias
para a ativação da energia vital.

FIGURA 14 – YOGA NA EMPRESA

FONTE: <https://bit.ly/2BtcxZq>. Acesso em: 20 jun. 2020.

O yoga proporciona ao corpo a redução de cortisol, catecolaminas, taxa


metabólica e consumo de oxigênio, tudo como consequência de uma atividade
simpática reduzida (JETER, et al. 2015). Para ilustrar como o psicomotricista
pode utilizar o yoga em seu cotidiano, alguns métodos e técnicas dessa parética
milenar serão apresentados a seguir.

• Mantra – Utiliza o som das cordas vocais que segue uma métrica
de ativação da percepção interior, da concentração e meditação,
beneficiando a propriocepção e auto identificação de possíveis alterações
corporais.
• Yoganidrá – Técnica que leva o praticante a um estado de completo
relaxamento que pode levar o praticante a um estado de leve
adormecimento. Sua finalidade envolve o reestabelecimento energético
e o equilíbrio do funcionamento da mente durante o trabalho intelectual
exaustivo.

180
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

• Mudrá – Utiliza o movimento como forma de integração entre corpo


e mente, gerando estímulos diversos que podem ser de agitação ou
lentificação, por tanto, envolve diretamente sintomas psicogênicos
através da prática psicomotora. Sua finalidade é o acesso ao
subconsciente e inconsciente.
• Samyama – Envolve as técnicas de concentração, depois mentalização/
meditação e a manifestação da energia/luz interior. O yoga como um todo
está direcionado para esse exercício para apoio emocional e estabilidade
corporal.

b) Musicoterapia

A musicoterapia corresponde ao uso da música como método terapêutico


voltado à reabilitação e prevenção física e psicológica, num encontro entre ciência
e arte (PINTO, 2008). O método apresenta seis vertentes: a didática, médica,
cura, psicoterapeuta, recreativa e ecológica. Dentro dessa última, que envolve o
cuidado preventivo com enfoque nas famílias, locais de trabalho, comunidades,
sociedade e outros grupos; a musicoterapia ganha uma vertente dentro do
ambiente laboral, identificada como musicoterapia organizacional (OLIVEIRA,
2008).

Para Oliveira (2008), os benefícios da musicoterapia envolvem aspectos


como aumento da produtividade, a proatividade, melhora no relacionamento
interpessoal, melhora na adaptação e inserção no ambiente de trabalho. Ela pode
ser aplicada de duas formas: a musicoterapia ativa e a receptiva.

• Musicoterapia ativa: o próprio trabalhador participa da produção


musical, atuando na produção ou reprodução de uma música cantada ou
instrumentalizada.
• Musicoterapia receptiva: prioriza a recepção da música pelo
trabalhador, que passa a ser um expectador.

Cunha e Oliveira (2014) relataram o caso da aplicação de musicoterapia


para uma trabalhadora por quatro sessões de musicoterapia ativa e, concluíram
que durante a aplicação do método, a servidora reduziu seus níveis de estresse.
Esta modalidade terapêutica pode também ter atribuição lúdica, que incorpora
mais fortemente benefícios de socialização entre os empregados. Deve-se tomar
cuidado para que atividade longas não sejam programadas durante o trabalho,
como o caraoquê, para que não haja interferência no cotidiano do trabalhador.

181
ErGomoTriCiDADE

FIGURA 15 – PREPARAÇÃO DO CARAOQUÊ DENTRO DE UMA EMPRESA

FONTE: <https://s3.vermais.com/f/799/28311/2771202/
image.jpg?LbL>. Acesso em: 20 jun. 2020.

Vale salientar que o psicomotricista pode ter habilidade tácita


para trabalhar com musicoterapia e ele mesmo pode aplicar se tiver a
formação necessária para tal intervenção. Caso o psicomotricista não
conheça o método com profundidade, recomenda-se que programe a
musicoterapia junto a um especialista na área.

c) Atividades de autoconhecimento e conhecimento mútuo

O sucesso no trabalho depende de vários fatores. Alguns deles dependem


mais da percepção do trabalhador quanto a sua capacidade psicossomática do
que de fatores ambientais, e o autoconhecimento é um deles. O autoconhecimento
dever ser observado em seu amplo sentido, não somente na imagem que se tem
de si próprio, mas sim a capacidade de observar qual sua influência para o meio
o qual se insere.

As atividades de autoconhecimento e conhecimento mútuo ajudam os


trabalhadores a estreitar relações, solucionar conflitos e fortalecerem lações
afetivos. São excelentes para integração de grupo e transformam o ambiente
de trabalho, deixando a rotina mais leve a beneficiando a saúde psicológica dos
envolvidos.

182
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

• Descobrindo afinidades: cada colaborador deverá escolher três


características positivas de sua personalidade e colocá-las no papel com
seu nome. O psicomotricista irá receber os papéis e selecionar quais
são os trabalhadores que possuem as características mais semelhantes
para formar duplas. Aqueles que escolherem características que não
representam afinidade com nenhum outro colaborador, formarão dupla
entre si. As duplas selecionadas conversarão entre si para trocar
informações e verificar outras possíveis afinidades de personalidade.
Ao final, as duplas irão chegar a um consenso de qual seria a principal
característica positiva de personalidade comum entra si, explicando o
que levou a selecionarem a característica apresentada.
• Mostre e conte: esta atividade está completamente envolvida com a
pratica laboral. Para executá-la, basta que o psicomotricista se coloque
como mediador e peça para que todos os colaboradores, dispostos em
um grande círculo, coloquem um papel em uma urna. Um tema será
sorteado para que seja discutido de forma aberta, nunca direcionada.
O colaborador que depositou o papel permanecerá sempre anônimo
e os assuntos tratados podem ser relativos ao cotidiano fora da
organização, transportando todos para outro ambiente, em pensamento.
O conhecimento do grupo, seus desejos e anseios, suas angústias e
preocupações, suas alegrias e vários outros sentimentos passam a ser
aflorados, e isso, pode ser um grande trunfo para o psicomotricista que
conhecer cada trabalhador e estes se conhecerão cada vez mais.
• Dinâmica do desafio: dentro de uma caixa, são colocados desafios
que devem ser cumpridos pelos colaboradores. Os participantes formam
dois grupos e posteriormente se misturam novamente formando um
grande círculo. Os participantes de cada grupo deverão estar dispostos
intercalado, ou seja, não devem permanecer ao lado de membros
da mesma equipe no grande círculo. Quando o início da dinâmica for
autorizado, a caixa deve ser passada durante a execução de uma
música. Quando a música for interrompida, o participante que estiver
com a caixa escolhe aleatoriamente um dos desafios contidos nela. Em
seguida, o participante que tirou o desafio da caixa escolhe cumprir o
desafio que foi apresentado (garante 3 pontos para o grupo) ou indicar
uma pessoa do grupo rival para cumprir o desafio selecionado (o grupo
rival ganha 3 pontos). Caso ninguém cumpra o desafio, as duas equipes
não ganham e não perdem pontos. Ao final, o grupo que tiver o maior
número de pontos vence a dinâmica.
• Ferramentas: caixa não transparente, brinde (opcional – livre escolha),
aparelho de som, cadeiras (opcional).
• Benefícios: Os resultados para a saúde física e mental envolvem
atenção, mobilidade de membros superiores com velocidade e precisão,
trabalho em grupo, iniciativa, empatia, capacidade de enfrentar desafios,
busca por oportunidades e capacidade de lidar com perdas.
183
ErGomoTriCiDADE

As práticas psicomotoras de cunho lúdico aumentam a produção de endorfina,


o hormônio conhecido por proporcionar a sensação de bem-estar global, o que
pode retardar problemas cognitivos associados.

Várias outras práticas podem trazer benefícios psicocognitivos ao trabalhador.


Atividades como desenho, pintura, música e o contato com a natureza, podem
ser de grande valia na intervenção em ergomotricidade quanto a fatores
psicogênicos, pois ajudam a desenvolver as habilidades pessoais e novos hábitos.
O trabalhador exposto a desafios detém maior produção de sinapses em áreas
do cérebro responsáveis pela psicomotricidade, favorecendo, desta maneira, a
aprendizagem, a prevenção e promoção à saúde, bem como o desenvolvimento
pessoal para o trabalho.

5 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
O conhecimento técnico do profissional gerente ou supervisor aliado ao
rico conhecimento tácito do trabalhador que opera diariamente uma máquina ou
equipamento, podem trazer valiosas contribuições para situações inadequadas de
trabalho, muitas vezes sem custos significativos.

À medida que os colaboradores se sentem integrados deste processo


de melhorias, sentir-se-ão valorizados e serão motivados para incorporar os
princípios ergonômicos no seu comportamento, o que é fundamental para
disseminar a Ergonomia na cultura da empresa. Este é o caminho mais fecundo
para obter resultados satisfatórios e sustentáveis de melhorias nas condições de
trabalho, qualidade de vida, redução de acidentes, diminuição de absenteísmo e
consequente, ganho de produtividade.

Atividades lúdicas, o esporte, as terapias integrativas, dentre outras práticas


de prevenção e promoção à saúde na empresa proporcionam a manifestação da
liderança, a resiliência, empatia, o espírito competitivo e a cooperação. Além dos
benefícios organizacionais, os benefícios físicos e psicológicos são facilmente
perceptíveis. A melhora na atenção e a boa disposição para o trabalho são alguns
dos benefícios já mostrados.

O psicoterapeuta deve estar atento as diversas possibilidades de intervenção,


e estas devem estar direcionadas a cada demanda trazida pelo trabalhador e/ou
pela empresa. A avaliação das necessidades de cada trabalhador é o ponto chave
para uma boa intervenção em ergomotricidade.

184
Capítulo 3 ERGOMOTRICIDADE NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE E BEM-ESTAR

Sabe-se da dificuldade em moldar o comportamento psicomotor de um adulto,


que no decorrer de sua vida criou hábitos e reforçou todas as suas manifestações
comportamentais. Para que se tenha êxito com o adulto, o psicomotricista precisa
ser paciente, pois sua intervenção tende a ser longa e complexa, em certos casos
mais complexa quando comparado ao que se faz por uma criança.

O estresse, a falta do lazer, o estilo de vida acelerado, a falta de exercícios


pode levar à deterioração da saúde. Assim, a ergomotricidade vem se tornando
cada vez mais necessária no ambiente de trabalho por motivar boas práticas e
alertar o trabalhador para a importância da prevenção em saúde antes que seja
tarde.

O psicomotricista deve conquistar seu espaço no cotidiano organizacional e


se inserir na formação de Comitês Ergonômicos internos, discutindo e participando
efetivamente das soluções ergonômicas junto aos outros profissionais de saúde e
às diretorias, gerências, empregados e parceiros.

A instrução em saúde não pode ser desvinculada das medidas ergonômicas


que beneficiam os trabalhadores. Alguns deles podem não conhecer a
importância de tais medidas e as consequências quando houver descumprimento
das recomendações quanto ao acometimento patológico de sua saúde física e
psicocognitiva. Sendo assim, a realização de treinamentos, palestras ou oficinas
em saúde e segurança do trabalho, devem incluir frequentemente a participação
do psicomotricista no ambiente organizacional, pois ainda há um mercado muito
pouco explorado esperando pela intervenção ergonômica dos psicomotricistas.

Quanto às propostas de intervenção em ergomotricidade, há uma grande


escassez de métodos cientificamente comprovados, publicados em revistas
indexadas. Por fim, ressalta-se a importância de o psicomotricista buscar
consolidar esse ramo de trabalho com embasamento técnico-científico, pois
somente assim a ergomotricidade irá trilhar seu caminho e firmar-se como
participe do mundo organizacional.

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