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MANUAL DO

PROFESSOR

HISTÓRIA
ESCOLA E
DEMOCRACIA
9 o
ano

Flavio de Campos
Componente curricular:
Regina Claro HISTÓRIA
Miriam Dolhnikoff
Flavio de Campos
Bacharel e licenciado em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Mestre em História na área de História Social e doutor em Ciências na área de História Social pela
Universidade de São Paulo (USP). Professor doutor do Departamento de História da Universidade
de São Paulo (USP). Coordenador científico do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre
Futebol e Modalidades Lúdicas (Ludens-USP). Autor de livros didáticos e paradidáticos.

Regina Claro
Bacharel em História pela Universidade de São Paulo (USP). Mestre em Ciências na área
de História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Desenvolve projetos de capacitação
para professores da rede pública na temática História e Cultura Africana e Afro-americana,
em atendimento à Lei nº 10.639/03. Autora de livros didáticos e paradidáticos.

Miriam Dolhnikoff
Bacharel e licenciada em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Doutora em Ciências na área de História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP).
Professora doutora do Departamento de História e do curso de Relações Internacionais
da Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise
e Planejamento (Cebrap). Autora de livros didáticos e paradidáticos.

HISTÓRIA
ESCOLA E DEMOCRACIA

9 o
ano

Componente curricular: HISTÓRIA

MANUAL DO PROFESSOR
1a edição

São Paulo, 2018


Coordenação editorial: Leon Torres
Edição de texto: Angela Duarte
Gerência de design e produção gráfica: Cia. de Ética
Coordenação de design e projetos visuais: Didier Moraes, Marcello Araújo
Projeto gráfico: Didier Moraes, Marcello Araújo
Capa: Didier Moraes, Marcello Araújo
Foto: DigitalVision/Image Source/Getty Images
Coordenação e edição de arte: Didier Moraes e Marcello Araújo
Editoração eletrônica: Cia. de Ética/Cláudia Carminati, Fernanda do Val, Luciano Pessoa,
Márcia Romero, Mônica Hamada, Ruddi Carneiro
Edição de infografia: A+com
Ilustrações de vinhetas: Didier Moraes, Marcello Araújo
Ilustrações: Lucas C. Martinez
Revisão: Cia. de Ética/Ana Paula Piccoli, Denise Pessoa Ribas, Fabio Giorgio, Luciana Baraldi
Coordenação de pesquisa iconográfica: Cia. de Ética/Paulinha Dias
Pesquisa iconográfica: Cia. de Ética/Angelita Cardoso
Mapas: Mário Yoshida
Tratamento de imagens: Pix Arte Imagens
Fechamento de arquivo: Cia. de Ética/Mônica Hamada, Ruddi Carneiro
Impressão e acabamento:

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Campos, Flavio de
História : escola e democracia : manual do
professor / Flavio de Campos, Regina Claro, Miriam
Dolhnikoff. -- 1. ed. -- São Paulo : Moderna, 2018. -
- (História : escola e democracia)

Obra em 4 v. do 6º ao 9º ano.
Bibliografia.

1. História (Ensino fundamental) I. Claro, Regina.


II. Dolhnikoff, Miriam. III. Título. IV. Série.

18-20775 CDD-372.89

Índices para catálogo sistemático:


1. História : Ensino fundamental 372.89
Maria Paula C. Riyuzo - Bibliotecária - CRB-8/7639

ISBN 978-85-16-11655-2 (aluno)


ISBN 978-85-16-11656-9 (professor)

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Todos os direitos reservados
EDITORA MODERNA LTDA.
Rua Padre Adelino, 758 - Belenzinho
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Vendas e Atendimento: Tel. (0_ _11) 2602-5510
Fax (0_ _11) 2790-1501
www.moderna.com.br
2018
Impresso no Brasil

1 3 5 7 9 10 8 6 4 2
Sumário

PAPO ABERTO, V
HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA, VI
O historiador e seu ofício, VI
A renovação teórico-metodológica, VI
A política e a cultura, VII
A História e a construção da cidadania, VIII
África: reflexões sobre História e Historiografia, VIII

PROPOSTA DE ENSINO, X
A produção do conhecimento histórico: livro didático, estímulos e significações, X
Uma história crítica, XI
Um impulso lúdico para o ensino da História, XI
Conteúdos, estrutura da coleção e suas seções, XII
Seções, XII
Projetos interdisciplinares do livro de 9º ano, XIII
Quadro de conteúdos, XIV
Distribuição dos capítulos por bimestres, XIV
A Base Nacional Comum Curricular, XV
Competências Gerais da BNCC, XV
Competências Específicas de História para o Ensino Fundamental, XV
Unidades temáticas, objetos de conhecimento e habilidades, XVI
Unidade temática 1 – O nascimento da República no Brasil e os processos históricos
até a metade do século XX, XVI
Unidade temática 2 – Totalitarismos e conflitos mundiais, XVII
Unidade temática 3 – Modernização, ditadura civil-militar e redemocratização:
o Brasil após 1946, XVIII
Unidade temática 4 – A história recente, XIX

TEXTOS SUPLEMENTARES, XX
História da África, XX
Oralidade e tradição nas culturas africanas
HAMPATÉ BÂ, A. A tradição viva, XX
As rotas comerciais transaarianas (1100-1500)
NIANE, D. T. Relações e intercâmbios entre as várias regiões, XXI
O cristianismo na Etiópia e no Sudão
ILIFFE, J. Os africanos: história dum continente, XXIII
Evolução política na floresta ocidental (séculos XI-XV)
ILIFFE, J. Os africanos: história dum continente, XXIV
A África no imaginário político português
ALEXANDRE, V. Velho Brasil/Novas Áfricas: Portugal e o Império (1808-1975), XXV
Fronteiras e construção do Estado-Nação
BARRY, B. Senegâmbia: o desafio da História regional, XXVII
O entre-lugar do discurso africano
REIS, E. L. L. Pós-colonialismo, identidade e mestiçagem cultural: a literatura de Wole Soyinka, XXVII
Identidades africanas
APPIAH, K. A. Na casa de meu pai: a África na filosofia da cultura, XXIX
Um renascimento africano?
M’BOKOLO, E. África Negra: história e civilizações (do século XIX aos nossos dias), XXIX
Teóricos e metodológicos, XXXII
Sobre documentos históricos
LE GOFF, J. “Documento/Monumento”. História e memória, XXXII
Sobre história oral
BOM MEIHY, J. C. S. Manual de História oral, XXXIV
Sobre música
NAPOLITANO, M. História e música: história cultural da música popular, XXXV
Sobre leitura e leitores
DARNTON, R. História da leitura, XXXVI
Sobre periódicos
CAPELATO, M. H. R. Imprensa e História do Brasil, XXXVI
Sobre obras de arte
PANOFSKY, E. Estudos sobre iconologia, XXXVII
Sobre arquitetura
FOCILLON, H. Vida das formas, XXXVIII
Sobre fotografia
BURKE, P. A arte de ler retratos, XXXIX
Sobre cinema
FERRO, M. Cinema e História, XL
Sobre mapas e cartografia
GOMES, M. do C. A. Velhos mapas, novas leituras: revisitando a História da cartografia, XL
Sobre a questão racial
PENA, S. D. Ciências, bruxas e raças, XLIII
Sobre os jogos
HUIZINGA, J. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura, XLIII

BIBLIOGRAFIA, XLV
Educação e ensino de História, XLV
História da África, XLV
Teoria, metodologia e historiografia, XLVI
Jogos, esportes e modalidades lúdicas, XLVII

LIVRO DO ALUNO COM ORIENTAÇÕES


Educação Legal: Constituição, leis, resoluções, pareceres, 1
Competências Gerais da BNCC, 2
Apresentação/ Competências Específicas de História, 3
Por dentro do livro, 4
Passo a Passo: Análise de documentos visuais; Leitura de textos/Roteiro para análise de filmes, 6
Passo a Passo: Leitura de mapas; Pesquisando na internet/ Letramento digital, 7
Sumário/ Habilidades da BNCC por capítulos, 8
Capítulo 1. A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa, 14
Capítulo 2. O período entreguerras, 38
Capítulo 3. A Primeira República, 54
Capítulo 4. A Segunda Guerra Mundial, 92
Capítulo 5. O Brasil sob Vargas, 106
Capítulo 6. A Guerra Fria, 128
Capítulo 7. A democracia populista, 148
Capítulo 8. A América Latina, 176
Capítulo 9. A descolonização e o Terceiro Mundo, 196
Capítulo 10. A era da contestação, 216
Capítulo 11. A ditadura militar no Brasil, 238
Capítulo 12. A democratização do Brasil, 256
Capítulo 13. A nova ordem mundial, 278
Índice remissivo, 300
Referências bibliográficas, 303
Papo aberto

Não vês que o olho abraça a beleza do mundo inteiro? É a janela do O olhar deseja sempre mais do que lhe é dado ver. E o papel de
corpo humano, por onde a alma especula e frui a beleza do mundo, aceitan- um livro crítico é o de estimular desejos. Desejos por olhares mais di-
do a prisão do corpo que, sem esse poder, seria um tormento. versos. Desejos por olhares mais profundos. Desejos por olhares mais
Leonardo da Vinci surpreendentes. Desejos por olhares mais livres. Desejos por olhares
mais críticos. Desejos por olhares despidos de intolerâncias. Desejos
O livro é um pássaro com mais de cem asas para voar.
que não se confundam com a satisfação pura e simples de prazeres in-
Ramón Gómez de la Serna dividuais, mas que estejam orientados e limitados pelas precondições
Se quiséssemos estabelecer uma história dos sentidos humanos, da vida coletiva.
ao olhar seria destinado um lugar especial, sem dúvida alguma. Tal- Em 1962, o escritor Umberto Eco estabelecia o conceito de obra
vez o mais espiritual dos sentidos, o olhar estimulou a elaboração aberta para referir-se à estética contemporânea. Grosso modo, a aber-
das mais belas metáforas e analogias da cultura ocidental. Olhares tura referida na definição remetia para a possibilidade de se ampliar a
perigosos como os da Medusa. Olhares punitivos como os de Édi- capacidade de indagação e questionamento das obras artísticas e lite-
po. Olhares contemplativos como os de São Bento de Núrsia. Olhares rárias. No lugar de uma análise predeterminada do texto, o estímulo à
destemidos como os de Giordano Bruno. Olhares furtivos como os de intervenção do leitor, a valorização da sua capacidade criativa, inter-
pretativa e analítica.
Shakespeare.
Nesta coleção, procuramos oferecer uma obra aberta, cuja intenção é
Pintores renascentistas chegaram a revelar que enquanto olhavam
contribuir para o processo de formação dos estudantes do Ensino Fun-
sentiam-se vistos pelas coisas. Locke, no século XVII, afirmava que nós
damental II sem considerá-los meros receptores de informações e de-
conhecemos o mundo porque as partículas dos objetos ferem os nos-
finições. Assim, tentamos valorizar suas experiências, seus repertórios
sos olhos. Merleau-Ponty acreditava que a pintura possuía uma fala
culturais e suas referências sociais no desenvolvimento dos mais diver-
própria, através da qual se comunicava conosco.
sos conteúdos conceituais da programação curricular desse segmento
De um modo muito especial, nossos olhares situam-se em uma espé-
de ensino.
cie de fronteira entre nós e o mundo, entre nós e os outros. Do abade
Na mesma direção, tentamos desenvolver possibilidades de explica-
Suger, o célebre arquiteto medieval das catedrais repletas de vitrais, a
ção múltiplas, que superassem uma explicação causal linear e/ou de-
Bill Gates, o proeminente construtor de janelas virtuais contemporâne-
terminada a um único nível de existência humana. Procuramos estimu-
as, a cultura ocidental sustenta-se numa contínua educação do olhar.
lar uma diversificação do olhar. E, nesse sentido, utilizamos uma vasta
A escola é, assim, uma importante instituição de fronteira. Um posto
gama de documentos históricos, balizados por uma perspectiva que
avançado nas múltiplas rotas e caminhos da cultura.
não circunscreve tal definição apenas aos documentos escritos, valo-
No seu dia a dia, cada disciplina procura refinar o olhar dos estudan-
rizando, também, os documentos visuais.
tes com base em práticas e teorias específicas. Não foi por acaso que
Ao longo dos capítulos inserimos orientações aos professores. Tra-
o termo grego theoria foi traduzido por contemplatio pelos romanos, ta-se de um conjunto de propostas de encaminhamento para as ati-
que significa “olhar por admiração”. vidades, informações complementares, lembretes sobre a distribui-
No cotidiano, os agentes envolvidos e comprometidos com o proces- ção dos conteúdos e até eventuais demarcações historiográficas. É um
so de educação procuram ampliar o olhar dos estudantes sobre si mes- papo aberto, comentários e conversas sobre possibilidades de desen-
mos, sobre os outros, sobre as relações que definem os lugares sociais volvimento e utilização do material didático.
e os pontos críticos de nosso país e de nossa época. Procuramos elaborar um Manual do professor que mantivesse tal di-
O ensino de História é indispensável à qualificação e à sofisticação álogo e que servisse de ferramenta aos professores para uma interven-
desses olhares, aos quais procuramos revelar o que talvez esteja menos ção ativa no processo de transformação educacional em curso no Brasil.
aparente ou despertar para perspectivas diversas e questionadoras. Assim, na primeira parte estabelecemos um balanço resumido acerca
Referimo-nos a belezas e tristezas. Elementos que estimulam o riso ou das atuais tendências da historiografia. Evidentemente, tal balanço
provocam o choro, como a comédia e a tragédia, as duas máscaras jus- é apenas uma pequena contribuição para um intrincado debate sobre o
tapostas que representam o teatro e que têm a função de comover o ser qual não nos furtamos de um posicionamento. A seguir, apresentamos
humano e levá-lo a reconhecer suas virtudes e suas potencialidades. algumas reflexões a respeito da questão da cidadania hoje, o papel
Olhar é reconstruir o real, é emancipar cores, decifrar enigmas, provo- do ensino de História a esse respeito e uma reflexão acerca da Histó-
car vertigens na mente. Não importa se o foco é um pôr de sol, uma onda ria da África e sua historiografia.
perfeita, um passo de balé, uma jogada de futebol, uma situação de injus- Na segunda parte apresentamos nossa proposta de ensino de
tiça social, uma crise política ou a desigualdade frequentemente aceita. História, com destaque para a inserção de modalidades lúdicas como
O que importa é aprender a olhar o mundo através dessas muitas repertório a ser considerado na formação dos estudantes. Dando
janelas que compõem a existência humana. E conservar a indignação prosseguimento, oferecemos um panorama da estrutura da coleção,
diante das injustiças. Mesmo quando a indignação se torna cada vez suas seções e o quadro de conteúdos desenvolvidos ao longo dos
mais fora de moda. quatro volumes.

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano V


Além disso, apresentamos um quadro com a distribuição dos ca- dos e perspectivas com trabalhos de outros pesquisadores sobre
pítulos por bimestres, as competências gerais da BNCC, as com- tais assuntos.
petências específicas de História para o Ensino Fundamental, Na quarta parte listamos algumas referências bibliográficas dividi-
e tabelas com as unidades temáticas, objetos de conhecimento das em: educação e ensino de História, História da África, teoria, me-
e habilidades. todologia e historiografia e modalidades lúdicas.
Na terceira parte apresentamos um conjunto de textos suple- Esse papo aberto que pretendemos estabelecer completa-se com o
mentares, divididos em textos de apoio para História da África e desejo dos autores desta coleção em receber críticas e sugestões dos
textos teóricos e metodológicos. No primeiro caso, fizemos uma colegas professores que vierem a tomar contato e/ou utilizar nossos li-
seleção de obras (excertos) que podem contribuir para a formação vros em sala de aula. Fruto da experiência didática dos seus autores, a
dos professores em uma área na qual os estudos acadêmicos, a pro- coleção atual é também o resultado de uma série de observações, pro-
dução intelectual e a circulação bibliográfica são relativamente re- postas e críticas que chegaram até nós. Em algumas situações, feitas
centes. No segundo caso, como nossa coleção oferece atividades não apenas por professores, mas até mesmo por alunos, que devem
baseadas em uma vasta diversidade de documentos históricos, pro- também ser considerados produtores de conhecimento e capacitados
curamos enriquecer as discussões e o aproveitamento dessas ope- a avaliar o nosso trabalho.
rações por meio de textos específicos, alguns considerados clássi- É desse diálogo que esperamos obter subsídios para superar deter-
cos, outros mais recentes. Evidentemente, tais textos são um convite minados limites de nosso projeto, corrigir eventuais equívocos e buscar
para que os colegas examinem as obras citadas com maior profun- o aprimoramento dessa prática social que é o ensino de História.
didade e extensão e que possam também confrontar seus postula- Os autores

História e historiografia
Quando o historiador busca estabelecer, no lugar do poder, as regras e/ou coletiva que foi considerada relevante e transformadora para a
da conduta política e as melhores instituições políticas, representa o prín- vida social em determinada época.
cipe que não é; analisa o que deveria fazer o príncipe. Esta é a ficção que Salientar tal característica do ofício do historiador permite-nos repen-
abre ao seu discurso o espaço onde se inscreve. Ficção efetiva por ser ao sar o papel da subjetividade na construção do objeto de análise. Há mui-
mesmo tempo o discurso do senhor e do servidor – de ser permitida pelo to tempo, a História, bem como as outras ciências sociais, abandonaram
poder e defasada com relação a ele, numa posição onde o técnico, resguar- a concepção positivista de uma verdade calcada na exposição e encade-
dado, como mestre de pensamento pode tornar a representar problemas de amento de fatos. Sabemos que a História não significa uma mera exposi-
príncipe. Ele depende do “príncipe de fato” e produz o “príncipe possível”. ção de datas, acontecimentos, nomes e grandes vultos e heróis.
Michel De Certeau, A escrita da História Não se trata de retornar a uma velha e já ultrapassada discussão.
Ora, a história é a matéria-prima para as ideologias nacionalistas ou Cabe, no entanto, buscar e definir o sentido político e social de nossa
étnicas ou fundamentalistas, tal como as papoulas são a matéria-prima ação como historiadores, como elaboradores de discursos e seleciona-
para o vício da heroína. O passado é um elemento essencial, talvez o ele- dores de determinados conteúdos que implicam determinado percurso
mento essencial nessas ideologias. Se não há nenhum passado satisfató- reflexivo a ser trilhado por nossos colegas e alunos. Ou seja, explicitar
rio, sempre é possível inventá-lo. [...] nossa intervenção política na sociedade, que não descarta nossa parti-
Nessa situação os historiadores se veem no inesperado papel de ato- cipação efetiva nos sindicatos, partidos políticos e movimentos sociais.
res políticos. Eu costumava pensar que a profissão de historiador, ao con- Pelo contrário, complementa-a.
trário, digamos, da de físico nuclear, não pudesse, pelo menos, produzir da- Nosso trabalho, como historiadores, não é meramente técnico. Não
nos. Agora sei que pode. Nossos estudos podem se converter em fábricas se restringe ao ambiente acadêmico nem à exploração de nossos diver-
de bombas, como os seminários nos quais o IRA aprendeu a transformar sificados campos documentais. Não se trata de uma especialidade di-
fertilizante químico em explosivos. vorciada das tramas sociais e políticas que dão sentido à nossa socie-
Eric Hobsbawm, Sobre História dade no tempo presente. Pelo contrário. Em nossas aulas, em nossas
leituras, em nossas pesquisas, em nossos livros, em nossas apostilas e
O HISTORIADOR E SEU OFÍCIO em nossos textos produzimos “saberes” que têm implicações políticas
Segundo Michel De Certeau (1982), o historiador padece de uma frus- e ideológicas.
tração originária. Suas pretensões são políticas, na mesma medida que seu
ofício e labor. Não é senão por acaso que o historiador deixa o palco para A RENOVAÇÃO TEÓRICO-METODOLÓGICA
os sindicatos, classes sociais, grupos revolucionários, líderes religiosos e se Aparentemente, o esgotamento de dogmas intelectuais e de paradig-
encerra, a contragosto, nos bastidores do grande teatro do mundo. mas que até meados da década de 1980 haviam exercido influência
Em seu recolhimento, o historiador reconstrói a vida coletiva, identi- decisiva nas ciências humanas (materialismo histórico, funcionalismo e
fica a lógica de determinados sistemas, busca as conexões entre os fe- estruturalismo e, em termos historiográficos, a Escola dos Annales) con-
nômenos de ordem religiosa e as bases econômicas que sustentam o duziram ao que já foi definido como a “multiplicação do insignificante”,
meio social. De tal modo que “fazer história” traz embutido um duplo ou a fragmentação excessiva da operação historiográfica (BURKE, P.,
sentido: ação do sujeito que opera o conhecimento e a ação individual 1992; DOSSE, F., 1992). De um lado, vivemos a multiplicação de pes-

VI HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


quisas que perdem a dimensão do conjunto e que, renunciando à edi- História, sem princípios incontestáveis, o historiador sente-se mais inde-
ficação de qualquer totalidade, retraem-se acabrunhadas às particula- feso e inseguro. É conduzido a afirmar suas dúvidas, a expor suas contra-
ridades de seus objetos. Uma espécie de ecletismo temático, voltado dições teóricas e epistemológicas, a relativizar suas conclusões e críticas,
para temas triviais (FONTANA, J., 2004). a oferecer suas reflexões como “obra aberta”, passível de ser completa-
Além da excessiva fragmentação, preserva-se uma não menos inquie- da e questionada por outras pesquisas e por seus leitores. Em nenhuma
tante plasticidade metodológica, característica pronunciada desde a cha- outra época a perspectiva democrática, da divergência e do contraditó-
mada terceira geração dos Annales. Os historiadores ainda lançam mão rio, vinculou-se de forma tão estreita ao ofício do historiador.
de conceitos polêmicos e polissêmicos sem muito critério: consciente/ No mesmo processo podemos assistir ao surgimento de diversos
inconsciente coletivo, mentalidades, imaginário, cultura e representação, modelos historiográficos que possuem uma vasta área de intersecção
para ficarmos nos mais atuais. de elementos comuns e que são tributários dessa mesma reação ao es-
As imprecisas fronteiras entre a economia, a sociedade, a política e gotamento dos paradigmas do pós-Segunda Guerra: a Micro-História
a cultura tornaram-se obsoletas. A transdisciplinaridade tornou-se um (GUINZBURG, C., 1991), a História Sociocultural ou Nova História
imperativo. A fértil aproximação da História com a Antropologia e a Lin- Cultural (CHARTIER, R., 1990; HUNT, L., 1992; DARNTON, R., 1996;
guística, registrada pelo menos desde a década de 1960, trouxe novas BURKE, P., 2005), a História do Quotidiano e História da Vida Pri-
interrogações e conceitos, ampliando o universo da ação política e da vada (HELLER, A., 1972; MAFFESOLI, M., 1984; DE CERTEAU, M., 1998;
intervenção social. A cultura, tratada sobretudo em sua vertente erudita ARIÈS, P. e DUBY, G., 1990).
(BURCKHARDT, J., 1990; HUIZINGA, J., 1978), foi buscada entre os gru- No horizonte dessas últimas soluções, pode-se vislumbrar um vasto
pos subalternos, em suas ramificações populares e nas inter-relações programa historiográfico: “Uma historiografia política e social que não
entre estas e a cultura das elites (THOMPSON, E. P., 1981; VOVELLE, esquecesse as dimensões culturais, os sujeitos e suas interpretações
M., 1983; GINZBURG, C., 1987; BURKE, P., 1989; LADURIE, E. R., 1975; das coisas. Uma história social que não esquecesse a política, o que
ARIÈS, P., 1977; BAKTHIN, M., 1993). tem sido reivindicado repetidamente, ao mesmo tempo em que a histó-
A completa ausência de consenso, um volume imenso de reflexões ria cultural não se esqueceria das estruturas e processos sociais (ARÓS-
teórico-metodológicas e uma superprodução historiográfica podem TEGUI, J., 2006, p. 231). De certo modo, são estas as linhas tendenciais
significar uma salutar busca de novos caminhos. O que pode parecer dominantes na historiografia nesse início do século XXI, ou pelo menos,
sintoma de uma das mais profundas crises da História, capaz de abrir o horizonte de preocupações e intenções que norteiam as discussões
espaço para o relativismo desmedido dos pós-modernistas (LYOTARD, J. e produções atuais.
F., 1993; HARVEY, D., 1992; CONNOR, S., 1993) ou até mesmo o anún-
cio do fim da História (FUKUYAMA, 1992), pode ser compreendido
A POLÍTICA E A CULTURA
como a expressão de um momento de extraordinária renovação dessa A problematização do cotidiano e da vida privada, os estudos da lin-
disciplina. E de redefinições. guagem e do repertório simbólico das classes subalternas e a atenção
Desde meados da década de 1970, operara-se um giro linguístico aos conflitos sociais – mesmo com a redução da escala de observação
(ARÓSTEGUI, J., 2006), ampliado e potencializado pelo pós-modernis- no caso da Micro-História – representaram uma ampliação investigati-
mo, que promoveu uma atenção primordial à linguagem. A análise da va em direção a temas considerados prosaicos: cumprimentos, etiqueta,
linguagem como “representação” do mundo, em suas múltiplas ex- alimentação, comunicação oral, gestualização, sexualidade, relações de
pressões, conduziu, por sua vez, à análise do discurso (FOUCAULT, M., gênero. Em torno desses temas os pesquisadores procuraram estabele-
1998; PÊCHEUX, M., 1999) e à identificação da História como uma for- cer nexos e desvendar articulações sociais tão determinantes e decisivas
ma literária (WHITE, H., 1994). para a vida coletiva quanto as conjunturas econômicas ou as estruturas
De certa maneira, a crise dos paradigmas permitiu o fortalecimento sociais. Muitos conseguiram empreender tais práticas sem perder de vis-
dessa crítica pós-moderna que questionava a possibilidade de um co- ta as implicações políticas de seus objetos. Outros trabalhos, como já ob-
nhecimento objetivo e científico considerado ingênuo e ilusório. A ação servamos anteriormente, acabaram sucumbindo e reduziram-se à parti-
interpretativa e uma renúncia a toda teoria e a um conhecimento to- cularidade e à especificidade de seus objetos e temas.
talizante procurava substituir a ação explicativa, vinculada aos princí- Na busca de significados e da compreensão do funcionamento das
pios de causalidade. sociedades, as mais diversas linguagens tornaram-se objetos privilegia-
Na esteira de tal postura resignada e a despeito do imenso avanço dos para a análise, vistas, cada vez mais, como metáforas da realida-
qualitativo verificado após a Segunda Guerra, tomaram fôlego formas de. Os variados discursos (escritos, orais, arquitetônicos, urbanísticos,
tradicionais da história. Muitas vezes travestidas de novas roupagens e iconográficos, musicais, gestuais, rituais) passaram a ser decodifica-
aproveitando-se da instabilidade conceitual, ressuscitou-se o empirismo, dos com maior frequência, procurando-se também a apreender neles
a erudição ensimesmada, o fetiche pela documentação escrita, a história os elementos que remetem a tensões sociais e a sentidos históricos,
política tradicional, e o neoinstitucionalismo (CHIFFOLEAU, J., 1994). Serí- além de identificar sua produção, circulação e apropriação num dado
amos tentados a identificar uma postura política conservadora animando meio social.
e avivando tais procedimentos historiográficos, em consonância à guina- Dito de outra forma, registrou-se a expansão do território tradicional
da também conservadora que marcou a década de 1990. da política e das lutas sociais, dos lugares mais evidentes (Estado, sin-
Apesar disso, acreditamos que em nenhuma outra circunstância a ope- dicatos, partidos, associações) para áreas onde até então não se atri-
ração reflexiva do historiador aproximou-o tanto da diversidade e da plu- buía grande relevância (escola, família, cultura). Ou seja, a identificação
ralidade características de nossas complexas sociedades. Sem verdades de elementos da “Micro-História” (LEVI, 1992) e sua valorização diante
estabelecidas, sem a metodologia “correta”, sem um “sentido” para a da tradicional “Macro-História”. A História sociocultural impõe, nesse

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano VII


sentido, uma possibilidade de revalorização da política e sua identifica- ras sociais travadas nas grandes cidades do Terceiro Mundo. Essa ética
ção em todos os poros do tecido social. dissemina o cinismo com respeito às questões sociais e provoca um
Ao mesmo tempo que se registrou tal redirecionamento entre os es- perturbador deslocamento daqueles que combatiam os diversos mo-
tudos históricos, operou-se também um alargamento do escopo das lu- vimentos da sociedade civil para o interior desses mesmos movimen-
tas sociais na sociedade contemporânea. No Brasil, como em diversas tos, muitas vezes como pretensos líderes que servem na verdade como
outras regiões do planeta, assistiu-se à multiplicação de movimentos testas de ferro, não por acaso, de poderosos interesses internacionais.
que requereram (e requerem) o estabelecimento de garantias legais e a Mas, principalmente, no nosso cotidiano, essa ética oriunda da globali-
implementação de políticas públicas que erradicassem discriminações zação fragiliza as imunidades sociais frente às diversas formas de precon-
e condições sociais que promovem a degradação da convivência huma- ceito, enfraquecendo os anticorpos que seriam capazes de desencadear
na. Mesmo em conjunturas de refluxo dos movimentos sociais afirma- uma reação à ofensiva da intolerância em seus diversos matizes. Essa éti-
-se uma cultura política diversificada e plural. ca estimula a passividade ao transformar o cidadão em um mero espec-
Essa verdadeira “Era dos Direitos” (BOBBIO, 1992) compreende a tador. Ou, o que é até mais pernicioso, em um ator de um grande espetá-
luta contra os preconceitos raciais, religiosos, sexuais, físicos, regio- culo que submete as pessoas pelas imagens e cujo roteiro e direção não
nais, estéticos, geracionais e tantos outros. Não se trata mais de afirmar se ousa questionar. All that jazz. O show não pode parar.
apenas os direitos fundamentais do homem e sim estabelecer mecanis- A competição desenfreada provoca medos coletivos e individuais. E
mos de proteção e defesa dessas regras elementares para a vida coleti- um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer com que as coi-
va. Nesse sentido, nos dias de hoje, o debate desloca-se da esfera filo- sas pareçam o que não são, como afirmou Miguel de Cervantes. Por
sófica para o universo jurídico-político, tendo como cerne a edificação causa desses medos e da inércia de um olhar direcionado a enaltecer
de uma cidadania participativa e democrática. as benesses do espetáculo da globalização, banaliza-se a violência e
acumula-se um explosivo arsenal de estereótipos e estigmas que visam
A HISTÓRIA E A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA desqualificar o outro como forma de alavancar o sucesso pessoal ou
Não sou de Atenas, nem da Grécia, mas do mundo. então de suportar a própria mediocridade.
Tão letais quanto os explosivos, as armas químicas e os artefatos
Sócrates
nucleares que frequentam os noticiários são essas munições de into-
Quis ser cidadão para ser melhor historiador, sempre me preocupei em lerância que se alojam em nossas casas, em nossas famílias, em nos-
ser um homem do meu tempo para ser melhor um homem do passado. sas escolas e universidades. Como professores e educadores, temos
Jacques Le Goff de nos posicionar diante de uma corrida armamentista muito mais
sutil e dissimulada.
Um dos principais desafios do nosso tempo, no Brasil e no mundo,
Não se trata de desarmar nossos alunos. Trata-se de armá-los contra a
é erradicar o vírus da intolerância. Verdadeira endemia que em deter-
intolerância. Trata-se de provê-los de um refinado repertório cultural que
minados momentos assume a feição de febre social, a intolerância é
seja condicionado por uma formação crítica e pluralista. Trata-se de coibir
transmitida, sobretudo, por olhares deformadores.
discriminações, exclusões e perseguições que fazem da violência uma tri-
Discriminações étnicas, estereótipos sociais, preconceitos regionais
vialidade socialmente aceita.
ou estigmas sexuais têm um mesmo denominador comum: a negação
A tão desgastada palavra “cidadania” não se esgota em programas
do outro. No limite, o desejo de eliminar aqueles que são diferentes.
assistencialistas, governamentais ou não. A tolerância não se reduz à
Uma postura violenta de quem está doente dos olhos.
caridade ou a espetáculos de generosidade de efemérides e de afe-
O ensino de História tem de enfrentar essas questões. Trata-se de
tos súbitos.
uma tarefa difícil, em um momento em que a competitividade parece
A tolerância solidifica-se simultaneamente à construção de uma ci-
ter atingido níveis jamais imaginados. Historicamente, é o momento do
dadania participativa e crítica que requer preparação constante e não
triunfo da ideologia do trabalho, triunfo de uma disciplina introjetada
sentimentos de ocasião. Preparação dos olhares destinados a ler e a
que não se volta apenas para o desenvolvimento das potencialidades entender o mundo, que supere a observação passiva em prol de uma
e habilidades de cada indivíduo, mas que o direciona para um embate intervenção firmemente contrária a qualquer tipo de intolerância. Prin-
– uma verdadeira guerra social pela sobrevivência e pela disputa por cipalmente, contra aquelas que nos possam ser convenientes.
espaços e dignidades cada vez mais exíguos.
Há uma ética que emerge da globalização, consolidada nos últimos ÁFRICA: REFLEXÕES SOBRE
vinte anos e que apresenta um télos social, um destino a qual todos de- HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA
vem se submeter. Uma ética capaz de universalizar a classificação dos A introdução dos estudos de História da África nos meios acadêmicos
homens entre winners e losers – tão estadunidense – e eleger o suces- e escolares brasileiros não representa apenas um acerto de contas com
so como uma espécie de prova inconteste das capacidades individuais. uma malfadada consciência europeia acerca das conquistas de territórios
Ou de associar a manifestação da graça divina à expansão de uma pa- e explorações de povos e nações, transformados, ao mesmo tempo, em
rafernália tecnológica que se assemelha a amuletos contra a solidão e símbolos de sua dominação nos últimos séculos. Muito menos a aceita-
o vazio existencial. Uma tecnologia teleológica, viciosa e estimuladora ção de uma espécie de mea-culpa dos dominadores em busca de uma
de uma compulsão consumista que consome os próprios consumidores. absolvição por suas práticas históricas.
Essa ética torna o solo fértil para a semeadura de alucinógenos mais A inclusão da temática africana deve ser vista como uma continui-
perigosos que a cocaína e o ópio, que se propagam viciosamente tan- dade das lutas e resistências dos povos da África e dos africanos escra-
to no estímulo aos terrores das ações características das guerras ét- vizados na América. Como as guerras contra o invasor, como as fugas e
nico-culturais quanto na anestesia em relação aos horrores das guer- os quilombos, o reconhecimento da História da África e da História dos

VIII HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


Afrodescendentes impõe-se como a preservação e a reconstituição da -se pela negação da historicidade dos africanos. Nessa perspectiva, os
memória de uma história tão desfigurada e violada quanto o foram as africanos seriam incapazes de fazer e contar suas histórias. Somam-
formações sociais e as culturas africanas. -se ainda a influência das teorias raciais às análises feitas pelas ciên-
Constituída a partir das pressões e do trabalho dos movimentos ne- cias sociais, de modo que resultam em uma classificação dos africanos
gros, que explicam as deliberações governamentais de janeiro de 2003, como primitivos e inferiores.
a obrigatoriedade da inclusão da temática africana nas programações A África era considerada um continente a-histórico por excelência.
escolares amplia as pioneiras experiências de grupos de professores da Hegel (1770-1831) definiria explicitamente essa posição em sua Filo-
rede de ensino de todo o país que já atuavam nesse sentido. sofia da História, onde afirmava:
Trata-se de um momento de renovação de nossas práticas de ensino. A África não é uma parte histórica do mundo. Não tem movimentos,
Um momento de transformações da nossa história e de intervenção so- progressos a mostrar, movimentos históricos próprios dela. Quer isto dizer
cial. Após a renovação dos estudos históricos com a ampliação de temas que sua parte setentrional pertence ao mundo europeu ou asiático. Aquilo
e objetos e com a já consolidada e fértil relação transdisciplinar com ou- que entendemos precisamente pela África é o espírito a-histórico, o espíri-
tras áreas do conhecimento, os estudos sobre a História da África abrem to não desenvolvido, ainda envolto em condições de natural e que deve ser
um novo capítulo da escrita da história brasileira. Assim, busca-se um aqui apresentado apenas como no limiar da história do mundo.
novo eixo para a formação do Brasil, busca-se reavaliar as chaves inter-
(Apud FAGE, J. D., in KI-ZERBO, J., 1982, p. 48).
pretativas que permitiram analisar a história do país.
A ausência de estudos sobre a História da África foi uma das maio- Para os historiadores do século XIX ou da virada para o século XX,
res lacunas no sistema educacional brasileiro e teve consequências da- a História da África teria começado no momento em que os europeus
nosas sobre a população brasileira, principalmente a afrodescendente. passaram a estabelecer relações com as populações do continente.
Tal ausência acabou por permitir a criação de uma série de estereótipos Não somente pela ação de registrar e relatar, feita por viajantes, admi-
que dificulta a construção de uma identidade positiva sobre as nossas nistradores, missionários e comerciantes dos séculos XV ao XIX, mas
origens e permite a formulação de hipóteses preconceituosas e desin- principalmente pelas mudanças introduzidas pelos europeus. Tal con-
formadas, criando uma profusão de ideias equivocadas e reforçando cepção foi exposta com ênfase em 1923, pelo professor de História Co-
uma visão eurocêntrica acerca do nosso passado. lonial do King’s College, Arthur Perival Newton (1843-1942), em uma
O conhecimento da História da África é condição para o entendimen- conferência da Royal African Society de Londres sobre “A África e a
to da formação da sociedade brasileira. As tecnologias, costumes, cul- pesquisa histórica”.
turas, estruturas políticas, econômicas e sociais trazidas pelos africanos Segundo ele, a África ao sul do Saara não possuía “arte ou escrita an-
não são devidamente reconhecidos e integrados à História do Brasil. tes da chegada dos europeus. A história começa quando o homem se
Nossa formação, via de regra, apresenta-se reduzida a uma extensão põe a escrever”.
da história europeia com pinceladas exóticas das culturas indígenas Essa opinião forjada no século XIX continuou a ecoar até bem
e africanas, transformadas nos famigerados capítulos denominados pouco tempo. Na década de 1960, em pleno processo de desco-
“contribuições da cultura africana”: capoeira, feijoada (que não é dos lonização do continente africano, o professor de História Moderna
escravos e sim portuguesa), samba, música, candomblé. da Universidade de Oxford, Hugh Trevor-Hoper, em uma série de en-
Além disso, a África é a região do mundo de mais longa historicida- saios sentenciava:
de. Berço da humanidade, esse continente foi palco de diversas expe- Pode ser que no futuro haja uma história da África para ser ensinada. No
riências sociais e uma multiplicidade de fenômenos culturais, inclusive presente, porém, ela não existe; o que existe é a história dos europeus na Áfri-
do aparecimento da sociedade egípcia – uma das primeiras do mundo ca. O resto são trevas e as trevas não constituem tema de história. O mundo
antigo, e certamente a mais duradoura, prolongando-se por mais de 3 atual [...] está a tal ponto dominado pelas ideias, técnicas e valores da Europa
mil anos. No entanto, uma operação conceitual recorrente nos livros ocidental que, pelo menos nos cinco últimos séculos, na medida em que a his-
didáticos e no ensino de História remove o Egito de sua vinculação ao tória do mundo tem importância, é somente a história da Europa que conta.
continente africano associando-o à Mesopotâmia e Palestina. Trata-se Por conseguinte, não podemos nos permitir divertirmo-nos com o movimento
do conceito de Crescente Fértil, criado pelo orientalista estadunidense sem interesse de tribos bárbaras nos confins pitorescos do mundo, mas que
James Henry Brestead, na década de 1920. Por mais operativo e didá- não exerceram nenhuma influência em outras regiões.
tico, o conceito tem claras implicações ideológicas, provocando o es- (Apud FAGE, J. D., in KI-ZERBO, J., 1982, p. 49).
vaziamento da importância da história africana. Ele não é diretamente
eurocêntrico, mas é etnocêntrico. Podemos identificar um segundo grupo de pesquisas predomi-
Com efeito, a tarefa de integrar adequadamente a História da África nantes entre 1950-1980, articulado ao período das independên-
às grades curriculares da rede de ensino alia-se à tarefa de revisão do cias africanas e composto sobretudo de intelectuais e pesquisadores
próprio conceito de História da África. Conceito que reclama uma re- africanos engajados. É designado como corrente da superioridade
leitura livre de preconceitos, anacronismos ou formulações aberrantes. africana, marcado pela reação ao colonialismo e ao racismo e pelo
No intuito de oferecer um panorama geral sobre a historiografia afri- reforço às noções de negritude e de unidade decorrentes das propos-
cana, apresentamos sua produção dividida em três grandes tendên- tas do pan-africanismo.
cias. Evidentemente, trata-se de uma classificação provisória e simplifi- Esse novo contexto de afirmação permitiu o surgimento de uma his-
cada, sujeita a questionamentos, mas de certo modo aceita por grande toriografia africana, produzida inclusive por africanos, comprometida
parte dos estudiosos de temas africanos. com o resgate de seu passado e a dissolução de estereótipos, sobretu-
Um primeiro grupo de trabalhos, produzido entre 1840 e 1950 cos- do a ideia de um continente sem história ou fontes confiáveis. Reforça-
tuma ser denominado corrente da inferioridade africana. Identifica- -se a noção do continente como um todo ainda que articulado em suas

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano IX


diversas partes. As investigações focavam as histórias dos reinos e so- lutas pela libertação em Guiné-Bissau e Angola e com a chamada polí-
ciedades africanos e sua capacidade de organização e transformação tica externa independente promovida por Jânio Quadros.
independentemente dos padrões europeus. É também desse período a criação de três importantes núcleos de es-
Durante as décadas de 1970 e 1980, foram publicadas diversas tudos africanos em atividade até hoje: o Centro de Estudos Afro-Orien-
obras de introdução à História da África, trabalhos de síntese e divulga- tais (CEAO), fundado em 1959, na Bahia, o Instituto Brasileiro de Estu-
ção, e pesquisas sobre diversos aspectos da realidade africana, feitos dos Afro-Asiáticos (IBEAA), fundado em 1961 e ligado à presidência da
com o intuito de dar conta de todo o espaço continental. Um grande República, o Centro de Estudos e Cultura Africana, fundado em 1963,
exemplo é a coleção publicada pela Unesco, História Geral da África, em São Paulo, e ligado à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Hu-
8 vols.; Nações negras e culturas (DIOP, C. A., 1955); Companhia do manas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e hoje Centro de Es-
Senegal (LY, A., 1958). tudos Africanos (CEA). Além desses, em 1973, foi criado o Centro de
Por outro lado, a ascensão das independências no continente africa- Estudos Afro-Asiáticos (CEAA) no Rio de Janeiro. Hoje também conta-
no, ao mesmo tempo que abria novas perspectivas aos povos africa- mos com o Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) na Universidade
nos, também apresentava certa divisão entre dois objetivos contraditó- de Londrina (Paraná), o Núcleo de Estudos Africanos da Universidade
rios: a unidade africana e a construção dos Estados-Nação. de Brasília e o Núcleo de Estudos Africanos da Universidade Federal de
A partir da década de 1980 surgiu uma nova escola de historiadores Santa Catarina.
africanos denominada Nova Escola de Estudos Africanos. A partir de A Universidade Federal da Bahia é pioneira no ensino de História da
então, a História da África passa a ser enriquecida com uma diversida- África e cultura afro-brasileira e pode-se verificar a inclusão de disci-
de de temáticas para investigação como estudos ligados a elementos plinas de História da África nos departamentos de História de diversas
culturais e artísticos, ao cotidiano, às novas tendências da economia e universidades em todo o país nos últimos 15 anos. A dispersão dos tra-
da ciência política, às relações de gênero, à religiosidade. Mantém-se, balhos desenvolvidos vem sendo superada pela promoção de diversos
contudo, a atenção aos temas “clássicos”: escravidão, colonização e os encontros, seminários e congressos. Sem dúvida nenhuma, trata-se de
recentes processos de independências. uma fase de constituição de uma massa crítica sobre a História da Áfri-
No Brasil, há uma significativa tradição em estudos africanos nas áre- ca, que começa hoje a conquistar o espaço que de direito lhe pertence
as de antropologia, sociologia, literatura e linguística. Não se deve es- no campo da pesquisa e do ensino de História.
quecer o trabalho pioneiro e valioso de José Honório Rodrigues, Brasil
e África: outro Horizonte, de 1961. Sua obra coincide com o início das

Proposta de ensino
Nosso teatro precisa provocar o prazer do conhecimento, organizar a Escrever uma coleção didática de História envolve uma série de desa-
brincadeira, a alegria da mudança da realidade. fios. Ser professor no Brasil é também um grande desafio. Sem dúvida, o
Bertolt Brecht livro didático tem de ser acessível aos alunos. E deve ajudar o trabalho
cotidiano dos professores.
A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO HISTÓRICO: A coleção deve atrair a atenção, deve despertar o interesse. Deve pro-
LIVRO DIDÁTICO, ESTÍMULOS E SIGNIFICAÇÕES vocar reflexões. Deve trazer conteúdos e assuntos que sejam relacioná-
veis à diversidade social dos alunos brasileiros. E deve ser aperfeiçoa-
O processo de mudanças no ensino brasileiro sofreu uma acelera-
da, a partir das críticas, sugestões e observações feitas por aqueles que
ção nas últimas décadas. Após o estabelecimento dos PCN (Parâmetros
lidam com ela no dia a dia. Ou seja, alunos e professores.
Curriculares Nacionais) e a disseminação do ENEM como instrumento
O material didático é um instrumento, uma ferramenta para ser usada
de avaliação e ingresso em universidades em todo o país, temos agora
nessa oficina que é a sala de aula. O livro didático deve abrir possibilida-
as orientações da BNCC.
des de análise, deve abrir janelas a serem investigadas, deve suscitar nos
Sepulta-se, assim, a chamada história tradicional, voltada para o acú-
alunos a curiosidade científica e criteriosa. Porque o leitor, ainda jovem,
mulo de informações, para a mera memorização de dados ou a repeti-
é também um agente de transformação histórica. É um sujeito social que
ção de definições. Em seu lugar, afirma-se uma história transdisciplinar, deve ter um papel ativo no processo de elaboração do conhecimento his-
operativa, que requer um conjunto de competências cognitivas e habi- tórico. O estudante deve ser estimulado a desenvolver sua autonomia.
lidades instrumentais. Nosso material não pretende substituir o professor. Até porque
Produzir conhecimento torna-se, desse modo, o objetivo não apenas essa coleção é o resultado de muitos anos de atividades pedagógicas
da História como disciplina específica, mas também para todo o con- de seus autores. Procura auxiliar o professor ao oferecer uma visão
junto das ciências humanas (e também para as Linguagens, Matemáti- de história que tenta incorporar a historiografia recente e também ao
ca e Ciências Naturais). propor uma série de atividades diversificadas, das mais simples ope-
Esta coleção de História procura estar sintonizada com tais mudan- rações de verificação e compreensão de leitura até análises de ima-
ças. Evidentemente, as escolhas efetuadas carregam muito da trajetória, gens, de documentos escritos e mapas, instigando relações, associa-
dos limites e das reflexões de seus autores a respeito dessas questões. ções e comparações.

X HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


A lição, já se disse muitas vezes, sabemos de cor. Resta aprender. tória, que permitem identificar as permanências e transformações e
Os conteúdos conceituais não podem ser considerados um fim em si acompanhar as variações nesses diversos níveis da existência huma-
mesmos. Mas são meios pelos quais se desenvolve um conjunto de na. No consagrado esquema de Braudel, tentamos articular o tempo do
competências e habilidades fundamentais para a ação social e cogni- evento ao tempo conjuntural e ao tempo estrutural.
tiva desses estudantes. No entanto, a privatização do espaço público e o consequente estrei-
Estudar é semelhante ao trabalho de um detetive que investiga um de- tamento do exercício da cidadania operaram-se conjuntamente com a
terminado assunto. O bom detetive é aquele que considera o maior núme- discriminação social a partir de elementos culturais. Apresentar tais tra-
ro de hipóteses e escolhe aquelas que julga mais convincentes. Para fazer ços por meio das mais variadas linguagens (iconografia, letras de mú-
isso, ao contrário do que se pode pensar, é importante ter dúvidas. Todos sicas, arquitetura, propaganda, textos literários etc.) possibilita não só
têm dúvidas. Do mais importante cientista ao mais humilde trabalhador. a compreensão dessas engrenagens passadas como também suas per-
O que faz um trabalho de investigação ser bom é a capacidade de manências e transformações na sociedade contemporânea.
organizar essas dúvidas e tentar solucionar o maior número delas. Em Em suma, trata-se de um livro engajado nas lutas sociais que procura
qualquer área profissional, há sempre questões em aberto, onde as re- não ser panfletário, cujo objetivo é oferecer, por intermédio da compre-
flexões e as investigações ainda não obtiveram respostas conclusivas. ensão crítica da História em suas diversas significações e linguagens, um
A pesquisa dá respostas sempre provisórias. Sempre é possível ampliar exercício de cidadania.
e reformular as respostas obtidas anteriormente. O diálogo com outras disciplinas, desde há muito, vem se revelan-
Elaborar um livro com esse intuito significa enfrentar as simplifica- do profícuo e indispensável às análises históricas. Como a vida huma-
ções da História. Significa não banalizar os conflitos sociais reduzindo- na não pode ser reduzida a um único nível, a perspectiva de História
-os a esquematismos caricatos ou a maniqueísmos vulgares. que tem pretensões totalizadoras deve resgatar os diversos aspectos
As lutas sociais não podem ser compreendidas em sua complexidade da existência: econômico, político, social, cultural.
se forem apresentadas como lutas do bem contra o mal. É necessário Além disso, determinados conteúdos, denominados temas trans-
recuperar os interesses em jogo, as ambiguidades e contradições dos versais, tornam-se também indispensáveis para o ensino de História
agentes envolvidos e até mesmo o lugar social de onde os autores, os que se pretenda crítico e atento às questões do cotidiano dos alunos.
professores e os alunos partem para a análise das questões. Sem dúvida, entre todos os temas transversais, este livro estabelece
Todavia, sobre o estudo da História paira a maldição do anacronis- uma aproximação mais estreita com a ética e a cidadania e com a pers-
mo. É uma espécie de pecado capital do historiador. Isso significa que pectiva da pluralidade cultural.
o nosso trabalho é operacionalizado no fio da navalha. Devemos apro-
ximar os conteúdos da realidade dos alunos. Devemos problematizar UM IMPULSO LÚDICO PARA O ENSINO DA HISTÓRIA
as questões. Devemos estabelecer o diálogo entre passado e presente. O meu jeito de brincar é dizer a verdade. É a brincadeira mais séria
Devemos operar com várias temporalidades simultaneamente. do mundo.
Os valores morais e sociais, as formulações políticas e os princípios Bernard Shaw
éticos são historicamente condicionados. Assim, é preciso preservar a
historicidade de cada situação. Para estimular o interesse dos estudantes para o ensino da História
Devemos ter o cuidado de não transformar as análises em julgamen- é necessário que a disciplina tenha significação para eles. Não basta
tos arbitrários e autoritários. A avaliação de determinados comporta- simplesmente afirmar que o objetivo a ser alcançado é situar o aluno no
mentos deve, sempre, levar em consideração as características cultu- momento histórico em que vive, nem que se pretenda que ele seja ca-
rais e mentais de cada época. Aquilo que Lucien Goldmann chamou de paz de estabelecer relações entre sua vida cotidiana e as estruturas so-
“consciência possível” (1972) e que a Escola dos Annales desenvolveu ciais e que proceda a “idas e vindas” na apreensão das temporalidades.
em diversas vertentes desde Lucien Febvre e Marc Bloch. É necessário identificar elementos especiais, comuns e significativos
que se estabeleçam como canais de comunicação entre o universo in-
UMA HISTÓRIA CRÍTICA fantojuvenil e o universo adulto. De nossa parte, acreditamos que o
A proposta desta nossa obra é possibilitar, por meio do estudo de elemento lúdico pode ser um canal privilegiado dessa comunicação.
História, a compreensão do funcionamento de diversas sociedades ao A questão do jogo foi motivo de profícuas indagações e reflexões nas
longo do tempo e o resgate das lutas políticas e sociais entre os gru- mais diversas áreas do conhecimento. Segundo Schiller (Cartas sobre
pos subalternos e os grupos dominantes em seus mais diversos níveis. la Educación Estética del Hombre, p. 94) o homem só pode conside-
Não basta a um livro de História apenas denunciar os problemas que rar-se humano pelo exercício lúdico, que lhe confere a experiência da
se constituíram no Brasil e em várias partes do mundo ao longo de sé- plenitude existencial. Para Karl Groos, o jogo está diretamente relacio-
culos (concentração de renda, concentração fundiária, analfabetismo, nado com o desenvolvimento da inteligência (Apud COUTNEY, R., Jogo,
exclusão e privilégios sociais). É necessário pôr a nu os mecanismos teatro & pensamento, p. 24-25.). Para Walter Benjamin (Obras Esco-
sociopolíticos e culturais que geraram tal situação e que garantem sua lhidas: magia e técnica, arte e política, p. 252-253), a essência da
perpetuação, limitando o exercício pleno da cidadania. brincadeira é a repetição e, assim, a brincadeira está na origem de to-
Quando possível, procuramos estabelecer as inter-relações dos vários dos os hábitos. Para Johan Huizinga (Homo ludens, p. 3-31) tal dado
níveis da vida social, a multiplicidade das representações do real, a plu- fundamental alicerça os mitos, rituais, práticas coletivas, relações de
ralidade de lógicas. E, sobretudo, procuramos resgatar as diversas moda- classe e estruturas sociais. Ou seja, o impulso lúdico é o próprio cerne
lidades discursivas, as variadas linguagens que compõem o “fazer” coti- do ímpeto construtivo do ser humano. O jogo cria uma ordem particu-
diano da História. Uma história viva, não esquemática e não reducionista. lar, uma realidade fascinante com seu tempo e espaço definidos, com
Assim, pareceu-nos importante recuperar os ritmos variados da His- suas tensões, regras e valores.

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano XI


Para a criança, o jogo é o centro da infância, uma busca incessante No livro de 6º ano o eixo é dado pela questão da diversidade cultural
do prazer das vitórias e das competições. A essência do brincar não nas diversas formações sociais abordadas. Apresentamos um longo per-
é “fazer como se” mas “fazer sempre de novo”, repetir à exaustão de- curso da História da humanidade, desde as suas origens na Pré-História
terminadas situações e saborear prolongadamente a excitação dos até a formação da Europa feudal. Um dos elementos articuladores é o con-
desafios. O jogo desempenha em sua vida o mesmo papel que o tra- junto de crenças e práticas religiosas, utilizados como justificativas para a
balho representa para o adulto. Aquela sente-se forte por suas proe- origem das organizações sociais e dos conhecimentos e saberes. Por essa
zas; este, por suas obras. Por outro lado, o mundo do jogo constitui-se razão, optamos por reforçar as articulações entre as religiões monoteís-
também em uma antecipação do universo adulto: a criança brinca de tas do tronco abraâmico (judaísmo, cristianismo e religião muçulmana).
profissões e ocupações desempenhadas pelos mais velhos. Ao mes- No livro de 7º ano, que se ocupa da longa transição do feudalismo
mo tempo, nas brincadeiras infantis projeta-se o imaginário social, para o capitalismo, o eixo é a questão dos Estados e suas articulações
os desejos, as fantasias sociais e as utopias. A imitação é própria do com as variadas relações de trabalho. Apresentamos um percurso da
jogo: os brinquedos/brincadeiras constituem-se em um diálogo sim- história marcado pela expansão europeia nos séculos XV e XVI e pela
bólico entre o universo da criança e o universo dos adultos. É nes- conquista de terras e possessões na América, África e Ásia, com o esta-
se diálogo que pretendemos incluir a História: no centro da vida da belecimento de uma série de regras, instituições e mecanismos de con-
criança e esta no centro da História. trole sobre os diversos continentes.
Articular jogos/brincadeiras e História não é apenas uma forma mais No livro de 8º ano o eixo reside na questão das revoluções e nas trans-
estimulante de organizar e produzir o conhecimento histórico. É aliar formações aceleradas que propiciaram o surgimento da sociedade tec-
as habilidades instrumentais e competências cognitivas do jogo às da nológica. Uma Era das Revoluções, como propôs Hobsbawm. O elemento
reflexão. É valorizar o repertório infantojuvenil sem realizar a apologia central que articula os diversos capítulos são as transformações políticas,
do senso comum e muito menos da ausência de significação. É ten- econômicas e sociais a partir do século XVII com as Revoluções Inglesas
tar apresentar uma história viva e desenvolver a capacidade operativa e com os componentes culturais associados à Ilustração e às chama-
e decodificadora das engrenagens sociais simultaneamente à compre- das ideologias: liberalismo, nacionalismo, socialismo e anarquismo.
ensão e ao contínuo exercício de práticas lúdicas. É tentar salientar e No livro de 9º ano o eixo repousa sobre conflitos ideológicos, direitos
disseminar o prazer das operações reflexivas. Como na Grécia Antiga, civis e movimentos sociais, iniciando pela questão do imperialismo
procura-se estabelecer a paidia (os jogos) em sua estreita vinculação que desemboca na Primeira Guerra Mundial. É possível entender o pe-
com a paideia (educação). ríodo contemporâneo como a Era dos Direitos, de acordo com Bobbio.
Assim como as estruturas sociais, os jogos/brincadeiras também se Direito à liberdade para os escravos no final do século XIX. Direito dos
constituem a partir de regras, permissões e interditos. O funcionamento afrodescendentes à igualdade social. Direito à independência dos po-
de determinadas sociedades pode, portanto, ser compreendido a partir vos africanos, conquistada pelos movimentos anticolonialistas. Direito
da análise de determinados jogos característicos: futebol para o Brasil, à democracia contra as ditaduras latino-americanas e contra os regimes
xadrez para a Europa medieval e moderna, jogos olímpicos para a Gré- autoritários do Leste Europeu. Direitos dos excluídos e explorados. Di-
cia ou o beisebol para os estadunidenses. reitos iguais para mulheres e homens. Direito à paz e à vida contra as
Ao mesmo tempo que se descortina o funcionamento de dadas so- políticas militaristas. Direito a outra globalização, que não represente a
ciedades pelos seus jogos, rituais e brincadeiras, desenvolvem-se no- exclusão social e a concentração de poderes e conhecimentos. Direito
ções de regras, organização, princípios éticos e participação política. à organização da sociedade e à contestação política.
Estimula-se a noção de direitos procurando discutir as características
SEÇÕES
históricas do processo de formação da cidadania no Brasil e no mundo
Ocidental, seus limites e contradições, por meio das relações entre os A seguir são apresentadas as seções de cada capítulo:
cidadãos e o poder público, estabelecendo paralelos com as dinâmicas Na parte introdutória é oferecida aos alunos uma seção intitulada Pas-
dos jogos, competições e brincadeiras. so a passo (páginas 6 e 7 de cada um dos livros). Trata-se de roteiros
Há uma história de Andersen em que se narra a existência de um livro para a leitura de textos, imagens, mapas e pesquisa pela internet. Para 6º
caríssimo, cujo preço valia a metade do reino. Era um livro vivo. Os pássa- e 7º anos, com orientações um pouco reduzidas para facilitar a sua com-
ros cantavam e os homens saíam das páginas e falavam. Era um livro de- preensão e o manuseio por parte dos alunos. Evidentemente, não são
licado, até um pouco confuso, em razão da movimentação dos animais e as únicas formas de procedimento nesses casos. No entanto, podem ser
das diversas pessoas. Mas o seu valor essencial não residia nas páginas úteis para que os alunos se habituem à sucessão de passos necessários
que saltavam aos olhos das crianças. O que lhes prendia a atenção não ao melhor aproveitamento de determinados registros textuais ou visuais.
era a contemplação, mas a intervenção penetrante e lúdica que lhes sa- Nossa sugestão é que essa introdução, por tudo o que oferece aos
ciava a curiosidade e lhes instigava a criatividade e a participação. alunos, seja visitada com regularidade. Tanto para a compreensão e
assimilação da estrutura da coleção quanto para a assimilação desses
CONTEÚDOS, ESTRUTURA DA COLEÇÃO E SUAS SEÇÕES procedimentos. Sobretudo com respeito à análise de imagens, que não
A coleção estrutura-se em quatro livros, cujo número de capítulos é são meras ilustrações coloridas. Trata-se de uma linguagem muito pró-
variável e que procura dar conta da programação curricular do Ensino xima do universo visual de nossos estudantes e que merece ser traba-
Fundamental II, desde a Pré-História até os dias atuais, de acordo com lhada com rigor. O exercício constante com tais imagens procura aper-
a BNCC. feiçoar o olhar dos alunos e capacitá-los ao exercício crítico frente ao
Nos quatro livros da coleção, procuramos destacar as questões relati- turbilhão de imagens com as quais lidam cotidianamente.
vas a relações de gênero e o manuseio das fontes históricas, com ênfa- Jogo aberto: atividades introdutórias estimuladas por imagens que
ses variadas dependendo da série e dos conteúdos específicos. visam estabelecer uma sondagem prévia sobre o conteúdo a ser traba-

XII HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


lhado com os estudantes, ativar seu repertório acerca desses assuntos perspectiva a elaboração de um dicionário como resultado do trabalho
e oferecer elementos que serão abordados e posteriormente retoma- e das atividades dos quatro anos letivos.
dos ao longo do capítulo. A seguir oferecemos uma Leitura complementar (documento escri-
Texto básico: é o texto geral do capítulo que reúne os conteúdos con- to, texto historiográfico, artigo de jornal ou revista, trecho de livro etc.)
ceituais e dados informativos e serve como fio condutor para os estudos cujo objetivo é ampliar um pouco mais os conhecimentos sobre os as-
dos estudantes. suntos desenvolvidos no capítulo.
Tá ligado?: atividades de verificação de leitura do texto básico e dos Por fim, três seções extremamente importantes: Olho no lance, na
mapas. Serve como um roteiro simples para a compreensão e organi- qual há um exercício de leitura ou produção de imagem; Permanências
zação dos conteúdos apresentados ao longo do capítulo. Esse recurso e rupturas, em que se propõe algum tipo de relação com outras tem-
foi utilizado de maneira mais abundante no livro de 6º ano, como fer- poralidades, destacando os ritmos do desenvolvimento histórico; Salto
ramenta para auxiliar a leitura do texto pelos alunos. Nos livros subse- triplo, com sugestões de filmes, livros e sites para aprofundar ainda
quentes, o número de atividades é um pouco menor devido ao desen- mais os conteúdos desenvolvidos ao longo de cada capítulo. Além des-
volvimento crescente da competência leitora dos estudantes. sas sugestões, em alguns capítulos, procuramos oferecer aos estudantes
Bate-bola: trata-se de um quadro do capítulo que apresenta uma ima- dicas de acessos a sites educativos, museus, acervos digitais e outros
gem e/ou um pequeno texto seguido de questões que visam aprofundar portais para pesquisa e aprofundamento com a seção Tá na rede!. Por
os conteúdos apresentados, oferecer um documento de época (visual ou meio de um QR Code, o estudante pode acessar tais conteúdos utilizan-
escrito), estabelecer relações com o presente, ou sugerir algum tipo de do um smartphone, conferindo maior dinamismo ao material impresso.
polêmica ou controvérsia com respeito ao que está sendo estudado. Va- Ao longo dos livros da coleção indicamos a possibilidade de se de-
riável, essa é uma seção que permite relações transdisciplinares e que se senvolver projetos interdisciplinares.
orienta no sentido de possibilitar relações e associações entre temporali-
dades diversas e discussões sobre conteúdos atitudinais. PROJETOS INTERDISCIPLINARES DO LIVRO DE 9º ANO
Quadros complementares: acrescentam informações e imagens ao 1. O realismo soviético
conteúdo que está sendo desenvolvido pelo Texto básico. Alguns des- História + Arte
ses quadros possuem um ícone temático que os identificam: 2. A ciência e a Primeira Guerra
História + Ciências
África 3. Cultura e arte da Bauhaus
História + Arte

Relações África-América anglo-saxã 4. Minha cidade tem História VI


História + Geografia + Língua Portuguesa + Arte
5. Minha cidade tem História VII
Relações África-América Latina
História + Geografia + Língua Portuguesa + Arte
6. A ciência e a Segunda Guerra
Jogos História + Ciências
7. Minha cidade tem História VIII
Povos indígenas História + Geografia + Língua Portuguesa + Arte
8. Por dentro da ONU
Relação de gênero História + Geografia
9. Festival de teatro e cinema na escola
História + Arte + Língua Portuguesa
Relação de gênero e diversidades
10. Minha cidade tem História IX
História + Geografia + Língua Portuguesa + Arte
Cidadania
11. Arte latino-americana
História + Arte + Língua Portuguesa + Espanhol
Oralidade 12. O esporte e as tentativas de superação da segregação racial na África
do Sul
Olhares diversos História + Geografia + Educação Física + Inglês
13. Diversidade sexual
História + Ciências + Geografia + Língua Portuguesa
Direitos humanos
14. Minha cidade tem História X
História + Geografia + Língua Portuguesa + Arte
Patrimônio
15. Minha cidade tem História XI
História + Geografia + Língua Portuguesa + Arte
Quebra-cabeça: atividades variadas que visam aprofundar a leitu-
16. Biomedicina, avanços científicos e os lucros das empresas
ra sobre algum quadro do capítulo, organizar informações e conceitos, farmacêuticas
propor desafios criativos e apresentar sugestões de pesquisa. É pro- História + Ciências + Língua Portuguesa
posto que o conjunto de conceitos selecionados seja organizado sob 17. Tempo para analisar
a forma de um pequeno dicionário conceitual. Pode ser interessante História + Língua Portuguesa + Arte
desenvolver tal proposta de maneira cumulativa, ou seja, tendo como

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano XIII


QUADRO DE CONTEÚDOS

• Primeira Guerra Mundial • Coronelismo • Industrialização e • Movimentos pelos


• Nacionalismo • Economia brasileira desenvolvimentismo direitos civis
• Revolução Russa e • Nazifascismo • Populismo • Contracultura e
bolcheviques • Antissemitismo • Trabalhismo movimento hippie
Conteúdos
• Estado republicano • Crise do liberalismo • Guerra Fria • Ditadura militar no Brasil
conceituais
brasileiro e política • Segunda Guerra Mundial • Descolonização e e na América Latina
oligárquica • Era Vargas Terceiro Mundo • Redemocratização do
• Revoltas urbanas e rurais • O continente africano Brasil
no Brasil • A nova ordem mundial
• Desenvolvimento da • Desenvolvimento inicial • Desenvolvimento • Identificação de
capacidade lecto- de coleta de dados e da capacidade de permanências e rupturas
-escrita informações elaboração de linhas do • Observação e
• Identificação e análise de • Identificação de ritmos e tempo comparação de estruturas
Competências documentos escritos temporalidades diversas • Desenvolvimento e divisões sociais
cognitivas e • Desenvolvimento da • Organização sequencial e da capacidade de • Desenvolvimento da
habilidades capacidade de leitura cronológica de eventos classificação de capacidade de leitura e
instrumentais e análise de imagens fenômenos sociais interpretação de mapas
(ilustrações, fotos, • Estabelecimento • Estímulo à produção de
charges, pinturas, de relações entre desenhos e imagens
esculturas, cartazes de situações de diversas
propaganda) temporalidades
• Relativização dos padrões • Identificação e • Postura crítica diante • Postura crítica com
culturais ocidentais historicização da da dominação sobre relação à sociedade
• Crítica ao conceito de construção do espaço os povos africanos e tecnológica e ao
colonialismo e colonização público e da cidadania americanos consumismo
• Postura crítica em relação • Questionamento crítico • Valorização da • Postura crítica com
Conteúdos
ao eurocentrismo sobre as várias formas de participação política relação à política
atitudinais
violência social • Valorização da brasileira atual
democracia
• Postura crítica com
relação aos preconceitos
e discriminações sociais
• Jogos Olímpicos de 1896, • Jogos Olímpicos de 1924, • Futebol, capoeira, Copas • Jogos Olímpicos de 1964
1900, 1908 e 1912, 1928 e 1932, futebol, do Mundo de futebol de e1968, boxe
atletismo, ciclismo, Copas do Mundo de 1934 e 1938 • Futebol, Copa do Mundo
esgrima, ginástica, tênis, futebol de 1930 e 1934 • Jogos Olímpicos de de futebol de 1970
tiro ao alvo, natação, • Futebol, capoeira 1948, 1952, 1956, • Copas do Mundo de
levantamento de peso, • Jogo do Bicho, futebol 1960, 1964, 1968, futebol 1974, 1982,
luta greco- • Jogos Olímpicos de 1936, 1972, 1976, 1980, 1990, 1994, 2002 e
Modalidades
-romana, corridas, Olimpíada Popular de 1984 e 1988, xadrez 2014
lúdicas
maratona, rúgbi, pentatlo, Barcelona de 1936, • Futebol, Copas do • Copa do Mundo de
equitação, cross-country, lançamento de dardo, 10 Mundo de futebol 1950, futebol 1990 e 2010,
futebol mil metros rasos, 1954, 1958, 1962 e Jogos Olímpicos de 1960,
100 metros rasos 1966, teatro 1996 e 2008
• Copa do Mundo de
futebol 1978
• Jogos Olímpicos de 1972

DISTRIBUIÇÃO DOS CAPÍTULOS POR BIMESTRES

1º Bimestre 2º Bimestre 3º Bimestre 4º Bimestre


Capítulos 1,2 e 3 Capítulos 4,5 e 6 Capítulos 7,8,9 e 10 Capítulos 11,12 e 13

XIV HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


A Base Nacional Comum Curricular

A versão homologada da BNCC, apresentada em 2017, ofereceu referencias nacionais para o ensino e apren-
dizagem da Educação Básica definindo conhecimentos essenciais e progressivos e o sequenciamento das
habilidades.
A BNCC estabeleceu dez competências gerais, inter-relacionadas e sete competências específicas de História
para o Ensino Fundamental. Na BNCC, competência foi definida como como a mobilização de conhecimen-
tos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para
resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho.

COMPETÊNCIAS GERAIS DA BNCC 9. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a coo-


1. Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos peração, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao ou-
sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e ex- tro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da
plicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a cons- diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes,
trução de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de
2. Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria qualquer natureza.
das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, 10. Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade,
a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com
testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis
(inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das dife- e solidários.
rentes áreas.
3. Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS DE
das locais às mundiais, e também participar de práticas diversifi- HISTÓRIA PARA O ENSINO FUNDAMENTAL
cadas da produção artístico-cultural. 1. Compreender acontecimentos históricos, relações de poder e pro-
4. Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, cessos e mecanismos de transformação e manutenção das estru-
como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem turas sociais, políticas, econômicas e culturais ao longo do tempo
como conhecimentos das linguagens artística, matemática e cien- e em diferentes espaços para analisar, posicionar-se e intervir no
tífica, para se expressar e partilhar informações, experiências, mundo contemporâneo.
ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos 2. Compreender a historicidade no tempo e no espaço, relacionan-
que levem ao entendimento mútuo. do acontecimentos e processos de transformação e manuten-
5. Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e ção das estruturas sociais, políticas, econômicas e culturais,
comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas bem como problematizar os significados das lógicas de organi-
diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comuni- zação cronológica.
car, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, 3. Elaborar questionamentos, hipóteses, argumentos e proposições
resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pes- em relação a documentos, interpretações e contextos históricos
soal e coletiva. específicos, recorrendo a diferentes linguagens e mídias, exerci-
6. Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apro- tando a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos, a cooperação
priar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem en- e o respeito.
tender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas 4. Identificar interpretações que expressem visões de diferentes su-
alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com jeitos, culturas e povos com relação a um mesmo contexto histó-
liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. rico, e posicionar-se criticamente com base em princípios éticos,
7. Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis,
democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários.
para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e deci-
5. Analisar e compreender o movimento de populações e mercadorias
sões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a
no tempo e no espaço e seus significados históricos, levando em
consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito
conta o respeito e a solidariedade com as diferentes populações.
local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao
6. Compreender e problematizar os conceitos e procedimentos nor-
cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.
teadores da produção historiográfica.
8. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional,
7. Produzir, avaliar e utilizar tecnologias digitais de informação e co-
compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas
municação de modo crítico, ético e responsável, compreendendo
emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar
seus significados para os diferentes grupos ou estratos sociais.
com elas.

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano XV


UNIDADES TEMÁTICAS, OBJETOS DE CONHECIMENTO
E HABILIDADES
A BNCC estabeleceu um conjunto de habilidades, ou seja, aptidões ou terizar, associar, conceituar, relacionar, associar, analisar e estabelecer.
destrezas para a realização de determinadas tarefas específicas. Nesse Para que tais habilidades sejam acionadas, a BNCC definiu uma série
sentido, vale destacar o emprego de comandos operatórios como iden- de objetos do conhecimento e estabeleceu as operações básicas que de-
tificar, descrever, comparar, formular, conhecer, discutir, explicar, carac- vem relacioná-los.

Unidade temática 1
O nascimento da República no Brasil e os processos históricos até a metade do século XX
Habilidades
Objetos de conhecimento Habilidades
Capítulos Páginas
(EF09HI01) Descrever e contextualizar os
p. 54-63
principais aspectos sociais, culturais, econômicos Capítulo 3
p. 88-89
e políticos da emergência da República no Brasil.

Experiências republicanas e práticas p. 54-72


autoritárias: as tensões e disputas do p. 80-81
mundo contemporâneo (EF09HI02) Caracterizar e compreender os p. 84-89
Capítulo 3
A proclamação da República e seus ciclos da história republicana, identificando p. 90-91
Capítulo 5
primeiros desdobramentos particularidades da história local e regional até p. 106-107
1954. Capítulo 7
p. 110-125
p. 148-158
p. 164-173
p. 66-67
(EF09HI03) Identificar os mecanismos de inserção p. 74-75
dos negros na sociedade brasileira pós-abolição e Capítulo 3 p. 78-79
A questão da inserção dos negros no
avaliar os seus resultados. p. 88-89
período republicano do pós-abolição
Os movimentos sociais e a imprensa p. 122-127
negra; a cultura afro-brasileira como p. 66-67
elemento de resistência e superação (EF09HI04) Discutir a importância da participação p. 74-75
das discriminações da população negra na formação econômica, Capítulo 3 p. 78-79,
política e social do Brasil. p. 88-89
p. 122-127
Primeira República e suas (EF09HI05) Identificar os processos de p. 56
características urbanização e modernização da sociedade
Capítulo 3 p. 74-83
Contestações e dinâmicas da vida brasileira e avaliar suas contradições e impactos
na região em que vive. p. 88-89
cultural no Brasil entre 1900 e 1930
p. 106-111
O período varguista e suas (EF09HI06) Identificar e discutir o papel do p. 117-125
contradições trabalhismo como força política, social e cultural Capítulo 5
p. 148-159
A emergência da vida urbana e a no Brasil, em diferentes escalas (nacional, regional, Capítulo 7
cidade, comunidade). p. 164-173
segregação espacial
p. 251
O trabalhismo e seu protagonismo
político (EF09HI07) Identificar e explicar, em meio a
lógicas de inclusão e exclusão, as pautas dos
A questão indígena durante a Capítulo 11 p. 251
povos indígenas, no contexto republicano (até
República (até 1964)
1964), e das populações afrodescendentes.

(EF09HI08) Identificar as transformações ocorridas p. 73-75


no debate sobre as questões da diversidade p. 80-83
Capítulo 3
no Brasil durante o século XX e compreender o p. 88-89
significado das mudanças de abordagem em Capítulo 5
p. 111
relação ao tema. p. 174-175
Anarquismo e protagonismo
feminino p. 73-75
(EF09HI09) Relacionar as conquistas de direitos Capítulo 3 p. 80-83
políticos, sociais e civis à atuação de movimentos Capítulo 5 p. 88-89
sociais. Capítulo 7 p. 111
p. 174-175

XVI HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


Unidade temática 2
Totalitarismos e conflitos mundiais
Habilidades
Objetos de conhecimento Habilidades
Capítulos Páginas

p. 14- 25
p. 28
Capítulo 1
(EF09HI10) Identificar e relacionar as dinâmicas p. 34-37
Capítulo 6
do capitalismo e suas crises, os grandes conflitos p. 128-141
mundiais e os conflitos vivenciados na Europa. Capítulo 8
p. 144-145
O mundo em conflito: a Primeira Capítulo 9
p. 178-179
Guerra Mundial
p. 208-213
A questão da Palestina
A Revolução Russa (EF09HI11) Identificar as especificidades e os
desdobramentos mundiais da Revolução Russa e Capítulo 6 p. 146-147
A crise capitalista de 1929
seu significado histórico.

p. 14-15
(EF09HI12) Analisar a crise capitalista de 1929 Capítulo 1 p. 26-37
e seus desdobramentos em relação à economia
global. Capítulo 2 p. 113
p 38-51

A emergência do fascismo e do
(EF09HI13) Descrever e contextualizar os
nazismo Capítulo 2 p. 38-53
processos da emergência do fascismo e do
A Segunda Guerra Mundial
nazismo, a consolidação dos estados totalitários e Capítulo 4 p. 92-105
Judeus e outras vítimas do
as práticas de extermínio (como o holocausto).
holocausto

(EF09HI14) Caracterizar e discutir as dinâmicas do


colonialismo no continente africano e asiático e as
Capítulo 9 p. 198-207
lógicas de resistência das populações locais diante
das questões internacionais.
O colonialismo na África
(EF09HI15) Discutir as motivações que levaram à
As guerras mundiais, a crise do
criação da Organização das Nações Unidas (ONU)
colonialismo e o advento dos Capítulo 6 p. 142-143
no contexto do pós-guerra e os propósitos dessa
nacionalismos africanos e asiáticos
organização.
A Organização das Nações Unidas
(ONU) e a questão dos Direitos (EF09HI16) Relacionar a Carta dos Direitos
Humanos Humanos ao processo de afirmação dos direitos
fundamentais e de defesa da dignidade humana,
Capítulo 6 p. 142-143
valorizando as instituições voltadas para a defesa
desses direitos e para a identificação dos agentes
responsáveis por sua violação.

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano XVII


Unidade temática 3
Modernização, ditadura civil-militar e redemocratização: o Brasil após 1946
Habilidades
Objetos de conhecimento Habilidades
Capítulos Páginas

O Brasil da era JK e o ideal de uma


(EF09HI17) Identificar e analisar processos
nação moderna: a urbanização e
sociais, econômicos, culturais e políticos do Brasil Capítulo 7 p. 148-173
seus desdobramentos em um país
a partir de 1946.
em transformação

(EF09HI18) Descrever e analisar as relações p. 159


entre as transformações urbanas e seus impactos
Capítulo 7 p. 162-163
na cultura brasileira entre 1946 e 1964 e na
produção das desigualdades regionais e sociais. p. 172-173

(EF09HI19) Identificar e compreender o processo p. 148-149


que resultou na ditadura civil-militar no Brasil e Capítulo 7 p. 164-173
discutir a emergência de questões relacionadas à
memória e à justiça sobre os casos de violação dos Capítulo 11 p. 238-250
direitos humanos. p. 252-255,
Os anos 1960: revolução cultural?
p. 238-250
A ditadura civil-militar e os processos
(EF09HI20) Discutir os processos de resistência Capítulo 11 p. 252-255
de resistência
e as propostas de reorganização da sociedade
As questões indígena e negra e a brasileira durante a ditadura civil-militar. Capítulo 12 p. 258-264
ditadura p. 276-277

(EF09HI21) Identificar e relacionar as demandas


indígenas e quilombolas como forma de
Capítulo 11 p. 250-251
contestação ao modelo desenvolvimentista da
ditadura.

(EF09HI22) Discutir o papel da mobilização da p. 256-264


sociedade brasileira do final do período ditatorial Capítulo 12
até a Constituição de 1988. p. 276-277

(EF09HI23) Identificar direitos civis, políticos


e sociais expressos na Constituição de 1988 e p. 256-257
relacioná-los à noção de cidadania e ao pacto da Capítulo 12 p. 264
O processo de redemocratização sociedade brasileira de combate a diversas formas p. 276-277
A Constituição de 1988 e a de preconceito, como o racismo.
emancipação das cidadanias
(analfabetos, indígenas, negros, (EF09HI24) Analisar as transformações políticas,
jovens etc.) econômicas, sociais e culturais de 1989 aos p. 264-273
dias atuais, identificando questões prioritárias Capítulo 12
A história recente do Brasil: p. 275-277
para a promoção da cidadania e dos valores
transformações políticas,
democráticos.
econômicas, sociais e culturais de
1989 aos dias atuais (EF09HI25) Relacionar as transformações da p. 264-273
Os protagonismos da sociedade sociedade brasileira aos protagonismos da Capítulo 12
sociedade civil após 1989. p. 276-277
civil e as alterações da sociedade
brasileira
(EF09HI26) Discutir e analisar as causas da
A questão da violência contra violência contra populações marginalizadas
populações marginalizadas (negros, indígenas, mulheres, homossexuais, p. 269
Capítulo 12
O Brasil e suas relações camponeses, pobres etc.) com vistas à tomada de p. 274-277
internacionais na era da globalização consciência e à construção de uma cultura de paz,
empatia e respeito às pessoas.

p. 231
(EF09HI27) Relacionar aspectos das mudanças
econômicas, culturais e sociais ocorridas no Brasil Capítulo 10 p. 234-235
a partir da década de 1990 ao papel do País no Capítulo 12 p. 264,
cenário internacional na era da globalização.
p. 272-273

XVIII HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


Unidade temática 4
A história recente
Habilidades
Objetos de conhecimento Habilidades
Capítulos Páginas

p. 128-141
A Guerra Fria: confrontos de dois
modelos políticos p. 144-147,
(EF09HI28) Identificar e analisar aspectos da Capítulo 6 p. 185
A Revolução Chinesa e as tensões
Guerra Fria, seus principais conflitos e as tensões
entre China e Rússia Capítulo 8 p. 190-194
geopolíticas no interior dos blocos liderados por
A Revolução Cubana e as tensões soviéticos e estadunidenses. Capítulo 9 p. 198-209
entre Estados Unidos da América e p. 212-237
Cuba
p. 296-297

(EF09HI29) Descrever e analisar as experiências


ditatoriais na América Latina, seus procedimentos p. 176-177
e vínculos com o poder, em nível nacional e Capítulo 8
internacional, e a atuação de movimentos de p. 186-194

As experiências ditatoriais na contestação às ditaduras.


América Latina (EF09HI30) Comparar as características dos
regimes ditatoriais latino-americanos, com especial
atenção para a censura política, a opressão e o uso Capítulo 8 p. 186-194
da força, bem como para as reformas econômicas
e sociais e seus impactos.

Os processos de descolonização na (EF09HI31) Descrever e avaliar os processos de p. 196-209


Capítulo 9
África e na Ásia descolonização na África e na Ásia. p. 212-215

p. 195
(EF09HI32) Analisar mudanças e permanências
associadas ao processo de globalização, Capítulo 8 p. 278-285
considerando os argumentos dos movimentos Capítulo 13 p. 288-291
críticos às políticas globais.
p. 294-299
O fim da Guerra Fria e o processo de
(EF09HI33) Analisar as transformações nas
globalização
relações políticas locais e globais geradas pelo p. 278-287
Políticas econômicas na América Capítulo 13
desenvolvimento das tecnologias digitais de p. 290-297
Latina informação e comunicação.

(EF09HI34) Discutir as motivações da adoção de


diferentes políticas econômicas na América Latina, p. 188-189
Capítulo 8
assim como seus impactos sociais nos países da p. 195
região.

(EF09HI35) Analisar os aspectos relacionados ao p. 210-211


Os conflitos do século XXI e a fenômeno do terrorismo na contemporaneidade,
Capítulo 9 p. 284-285
questão do terrorismo incluindo os movimentos migratórios e os choques
entre diferentes grupos e culturas. p. 296-297
Pluralidades e diversidades
identitárias na atualidade p. 181
As pautas dos povos indígenas no Capítulo 8
(EF09HI36) Identificar e discutir as diversidades p. 184
século XXI e suas formas de inserção identitárias e seus significados históricos no início Capítulo 9
p. 214-217
no debate local, regional, nacional e do século XXI, combatendo qualquer forma de Capítulo 10
internacional preconceito e violência. p. 222-235
Capítulo 13
p. 278-281

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano XIX


Textos suplementares

É, pois, nas sociedades orais que não apenas a função da memória é


HISTÓRIA DA ÁFRICA mais desenvolvida, mas também a ligação entre o homem e a Palavra é
mais forte. Lá onde não existe a escrita, o homem está ligado à palavra
ORALIDADE E TRADIÇÃO NAS CULTURAS AFRICANAS que profere. Está comprometido por ela. Ele é a palavra, e a palavra en-
cerra um testemunho daquilo que ele é. A própria coesão da sociedade
HAMPATÉ BÂ, A. A tradição viva. In: KI-ZERBO, J. (Org.). História geral da África. repousa no valor e no respeito pela palavra. Em compensação, ao mes-
São Paulo: Ática/Unesco, 1982. v. 1. p.179-218. mo tempo que se difunde, vemos que a escrita pouco a pouco vai substi-
tuindo a palavra falada, tornando-se a única prova e o único recurso; ve-
Quando falamos de tradição em relação à história africana, referimo-
mos a assinatura tornar-se o único compromisso reconhecido, enquanto
-nos à tradição oral, e nenhuma tentativa de penetrar a história e o espíri-
o laço sagrado e profundo que unia o homem à palavra desaparece pro-
to dos povos africanos terá validade a menos que se apoie nessa herança
gressivamente para dar lugar a títulos universitários convencionais.
de conhecimentos de toda espécie, pacientemente transmitidos de boca
Nas tradições africanas – pelo menos nas que conheço e que dizem
a ouvido, de mestre a discípulo, ao longo dos séculos. Essa herança ain-
respeito a toda a região de savana ao sul do Saara – a palavra falada se
da não se perdeu e reside na memória da última geração de grandes de-
empossava, além de um valor moral fundamental, de um caráter sagra-
positários, de quem se pode dizer: são a memória viva da África.
Entre as nações modernas, onde a escrita tem precedência sobre a ora- do vinculado à sua origem divina e às forças ocultas nela depositadas.
lidade, onde o livro constitui o principal veículo da herança cultural, du- Agente mágico por excelência, grande vetor de “forças etéreas”, não era
rante muito tempo julgou-se que povos sem escrita eram povos sem cul- utilizada sem prudência.
tura. Felizmente, esse conceito infundado começou a desmoronar após Inúmeros fatores – religiosos, mágicos ou sociais – concorrem, por
as duas últimas guerras, graças ao notável trabalho realizado por alguns conseguinte, para preservar a fidelidade da transmissão oral. Pareceu-
dos grandes etnólogos do mundo inteiro. Hoje, a ação inovadora e cora- -nos indispensável fazer ao leitor uma breve explanação sobre esses fa-
josa da Unesco levanta ainda um pouco mais o véu que cobre os tesou- tores, a fim de melhor situar a tradição oral africana em seu contexto e
ros do conhecimento transmitidos pela tradição oral, tesouros que per- esclarecê-la, por assim dizer, a partir do seu interior.
tencem ao patrimônio cultural de toda a humanidade. Se formulássemos a seguinte pergunta a um verdadeiro tradicionalista
Para alguns estudiosos, o problema todo se resume em saber se é pos- africano: “O que é tradição oral?”, por certo ele se sentiria muito emba-
sível conceder à oralidade a mesma confiança que se concede à escrita raçado. Talvez respondesse simplesmente, após longo silêncio: “É o co-
quando se trata do testemunho de fatos passados. No meu entender, não nhecimento total”.
é esta a maneira correta de se colocar o problema. O testemunho, seja O que, pois, abrange a expressão “tradição oral”? Que realidades vei-
escrito ou oral, no fim não é mais que testemunho humano, e vale o que cula, que conhecimentos transmite, que ciências ensina e quem são os
vale o homem. transmissores?
Não faz a oralidade nascer a escrita, tanto no decorrer dos séculos Contrariamente ao que alguns possam pensar, a tradição oral africana,
como no próprio indivíduo? Os primeiros arquivos ou bibliotecas do com efeito, não se limita a histórias e lendas, ou mesmo a relatos mitoló-
mundo foram o cérebro dos homens. Antes de colocar seus pensamen- gicos ou históricos, e os griots estão longe de ser seus únicos guardiães
tos no papel, o escritor ou o estudioso mantém um diálogo secreto con- e transmissores qualificados.
sigo mesmo. Antes de escrever um relato, o homem recorda os fatos tal A tradição oral é a grande escola da vida, e dela recupera e relaciona to-
como lhe foram narrados ou, no caso de experiência própria, tal como ele dos os aspectos. Pode parecer caótica àqueles que não lhe descortinam o
mesmo os narra. segredo e desconcertar a mentalidade cartesiana acostumada a separar
Nada prova a priori que a escrita resulta em um relato da realidade tudo em categorias bem definidas. Dentro da tradição oral, na verdade, o
mais fidedigno do que o testemunho oral transmitido de geração a gera- espiritual e o material não estão dissociados. Ao passar do esotérico para
ção. As crônicas das guerras modernas servem para mostrar que, como o exotérico, a tradição oral consegue colocar-se ao alcance dos homens,
se diz (na África), cada partido ou nação “enxerga o meio-dia da porta de falar-lhes de acordo com o entendimento humano, revelar-se de acordo
sua casa” – através do prisma das paixões, da mentalidade particular, com as aptidões humanas. Ela é ao mesmo tempo religião, conhecimento,
dos interesses ou, ainda, da avidez em justificar um ponto de vista. Além ciência natural, iniciação à arte, história, divertimento e recreação, uma vez
disso, os próprios documentos escritos nem sempre se mantiveram livres que todo pormenor sempre nos permite remontar à Unidade primordial.
de falsificações ou alterações, intencionais ou não, ao passarem sucessi- Fundada na iniciação e na experiência, a tradição oral conduz o ho-
vamente pelas mãos dos copistas – fenômeno que originou, entre outras, mem à sua totalidade e, em virtude disso, pode-se dizer que contribuiu
as controvérsias sobre as “Sagradas Escrituras”. para criar um tipo de homem particular, para esculpir a alma africana.
O que se encontra por detrás do testemunho, portanto, é o próprio va- Uma vez que se liga ao comportamento cotidiano do homem e da co-
lor do homem que faz o testemunho, o valor da cadeia de transmissão da munidade, a “cultura” africana não é, portanto, algo abstrato que possa
qual ele faz parte, a fidedignidade das memórias individual e coletiva e ser isolado da vida. Ela envolve uma visão particular do mundo, ou, me-
o valor atribuído à verdade em uma determinada sociedade. Em suma: a lhor dizendo, uma presença particular no mundo – um mundo concebi-
ligação entre o homem e a palavra. do como um Todo onde todas as coisas se religam e interagem.

XX HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


A tradição oral baseia-se em uma certa concepção do homem, do seu Através da boca de Tierno Bokar, o sábio de Bandiagara, a África dos
lugar e do seu papel no seio do universo. Para situá-la melhor no contex- velhos iniciados avisa o jovem pesquisador:
to global, antes de estudá-la em seus vários aspectos devemos, portanto, “Se queres saber quem sou,/Se queres que te ensine o que sei,
retomar ao próprio mistério da criação do homem e da instauração pri- Deixa um pouco de ser o que tu és/E esquece o que sabes.”
mordial da Palavra: o mistério tal como ela o revela e do qual emana. [...]
[...] Para a África, a época atual é de complexidade e de dependência. AS ROTAS COMERCIAIS TRANSAARIANAS (1100-1500)
Os diferentes mundos, as diferentes mentalidades e os diferentes perío-
NIANE, D. T. “Relações e intercâmbios entre as várias regiões”. In: História geral da
dos sobrepõem-se, interferindo uns nos outros, às vezes se influencian-
África. São Paulo: Ática/Unesco, 1988. v. 4. p. 629-637.
do mutuamente, nem sempre se compreendendo. Na África, o século XX
encontra-se lado a lado com a Idade Média, o Ocidente com o Oriente, o Entre 1100 e 1500, a África foi um parceiro privilegiado nas relações
cartesianismo, modo particular de “pensar” o mundo, com o “animismo”, intercontinentais do Velho Mundo. Tanto através do Mediterrâneo como
modo particular de vivê-lo e experimentá-lo na totalidade do ser. Os jo- através do oceano Índico, um comércio intenso, mais frequentemente in-
vens líderes “modernos” governam, com mentalidades e sistemas de lei, termediado pelos muçulmanos, ligava a Europa e a Ásia ao continente
ou ideologias, diretamente herdados de modelos estrangeiros, povos e africano. Deve-se enfatizar que vários tipos de comércio organizado no
realidades sujeitos a outras leis e com outras mentalidades. Para exem- interior da África já existiam desde a Pré-História. [...]
plificar, na maioria dos territórios da antiga África ocidental francesa, o có- Parece que no plano econômico e comercial a África estava em plena
digo legal elaborado logo após a independência, por nossos jovens juris- expansão nos séculos XIV e XV; mas os contatos com o Ocidente aber-
tas, recém-saídos das universidades francesas, está pura e simplesmente tos pelo tráfico de escravos significaram a interrupção de um impulso vi-
calcado no Código Napoleônico. O resultado é que a população, até en- goroso, que teria mudado o curso da história da África, caso o comércio
tão governada segundo costumes sagrados que, herdados de ancestrais, se tivesse desenvolvido com mercadorias de fato. Grandes correntes de
asseguravam a coesão social, não compreende por que está sendo jul- intercâmbios culturais atravessaram o continente em todas as direções,
gada e condenada em nome de um “costume” que não é o seu, que não confundindo-se por vezes com as correntes de comércio. Não havia mais
conhece e que não corresponde às realidades profundas do país. regiões isoladas, pois nem florestas nem desertos constituíam barreiras
O drama todo do que chamarei de “África de base” é o de ser frequen- intransponíveis. Hoje, as escavações arqueológicas, o estudo das línguas
temente governada por uma minoria intelectual que não a compreende africanas e das tradições orais abrem novas perspectivas para a pesquisa
mais, através de princípios incompatíveis com a sua realidade. histórica e já começam a esclarecer o problema das migrações, da trans-
Para a nova “intelligentsia” africana, formada em disciplinas universi- ferência de tecnologia e das relações entre regiões bastante afastadas.
tárias europeias, a Tradição muitas vezes deixou de viver. São “histórias O papel do Islã, tanto na difusão de ideias como no comércio, foi de ex-
de velhos”! No entanto, é preciso dizer que, de um tempo para cá, uma trema importância à época, como ilustram as viagens de Ibn Battuta para
importante parcela da juventude culta vem sentindo cada vez mais a ne- a China e pela África oriental e ocidental. Nossos conhecimentos sobre as
cessidade de se voltar às tradições ancestrais e de resgatar seus valores populações no período que ora tratamos muito devem aos trabalhos dos
fundamentais, a fim de reencontrar suas próprias raízes e o segredo de geógrafos, viajantes e historiadores muçulmanos.
sua identidade profunda.
Por contraste, no interior da “África de base”, que em geral fica longe O Saara e o Sahel: um espaço privilegiado para a pesquisa no
das grandes cidades – ilhotas do Ocidente –, a tradição continuou viva e, estudo das relações exteriores
como já o disse antes, grande número de seus representantes ou deposi- Em meados deste século, historiadores europeus tentaram explicar o
tários ainda pode ser encontrado. Mas por quanto tempo? atual atraso tecnológico da África pela existência do Saara, que, segundo
O grande problema da África tradicional é, em verdade, o da ruptura diziam, teria isolado a África negra do mundo mediterrâneo. Na realidade,
da transmissão [...]. mesmo quando se tornou desértico, o Saara nunca constituiu uma barreira.
[...] Estamos hoje, portanto, em tudo o que concerne à tradição oral, Afinal, não era desabitado. Era a terra dos nômades, que mantinham con-
diante da última geração dos grandes depositários. [...] tatos estreitos com os povos sedentários do norte e do sul. Entre 1100 e
Para que o trabalho de coleta seja bem-sucedido, o pesquisador de- 1500, o Saara serviu como zona de passagem privilegiada, e pode-se dizer
verá se armar de muita paciência, lembrando que deve ter “o coração de que esse período correspondeu à idade de ouro do comércio transaaria-
uma pomba, a pele de um crocodilo e o estômago de uma avestruz”. “O no. A partir do século X, o comércio de ouro da África ocidental com a Áfri-
coração de uma pomba” para nunca se zangar nem se inflamar, mesmo ca setentrional desenvolveu-se com regularidade. O Saara foi comparado,
se lhe disserem coisas desagradáveis. Se alguém se recusa a responder com procedência, com o mar: o Sahel sudanês e as fronteiras meridionais
sua pergunta, inútil insistir; vale mais instalar-se em outro ramo. Uma dis- da África setentrional seriam seu litoral. No sul, Tichit, Walata, Tombuctu,
puta aqui terá repercussões em outra parte, enquanto uma saída discre- Tirekka e Gao eram os terminais mais importantes das caravanas de Ta-
ta fará com que seja lembrado e, muitas vezes, chamado de volta. “A pele mdult, Sidjilmasa, Tlemcen, Wargla e Ghadames. Só o dromedário se pres-
de um crocodilo”, para conseguir se deitar em qualquer lugar, sobre qual- tava para a travessia do deserto, que levava dois meses, senão três. Isso
quer coisa, sem fazer cerimônias. Por último, “o estômago de uma aves- explica a importância das grandes pastagens ao norte e ao sul do Saara, re-
truz”, para conseguir comer de tudo sem adoecer ou enjoar-se. servadas à alimentação e à criação de dromedários, e também as disputas,
A condição mais importante de todas, porém, é saber renunciar ao há- às vezes violentas, entre os nômades pelo controle desses pastos.
bito de julgar tudo segundo critérios pessoais. Para descobrir um novo Tanto ao norte como ao sul, o comércio transaariano estendeu-se bem
mundo, é preciso saber esquecer seu próprio mundo, do contrário o pes- além dos “portos” mencionados; o Tuat e o Ghura, o Djarld tunisiano e os
quisador estará simplesmente transportando seu mundo consigo ao in- oásis líbios foram tão importantes para o comércio transaariano quanto
vés de manter-se “à escuta”. os próprios “portos”. Do Sahel à savana florestal, as vias terrestres e flu-

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano XXI


viais completavam o sistema transaariano. Certamente é este o caso da O sal servia de moeda comercial para os sudaneses, assim como o
atual República do Senegal, sendo bem conhecido o sistema constituído ouro e a prata. Cortavam-no em pedaços para negociá-lo. Apesar de o
pela bacia superior do Níger. As mais recentes pesquisas realizadas em burgo de Teghazza ser de pouca importância, ali se comercializava gran-
Burkina Fasso (ex-Alto Volta) e nas Repúblicas de Gana e da Nigéria su- de quantidade de pó de ouro.
gerem que se desenvolveram relações comerciais entre a África ao sul O sal era muito caro no Sudão. O preço era quatro vezes maior em Nia-
do Saara e o Magreb. A área em questão situa-se na savana, e há muitas ni e Walata; provavelmente os povos da floresta pagavam-no ainda mais
evidências arqueológicas de que era bem frequentada. No norte da atual caro. O sal-gema cortado em pedaços pequenos servia de brinde ou di-
República Federal da Nigéria, essa corrente de circulação certamente en- nheiro miúdo para os comerciantes itinerantes. Da mesma forma, as nozes-
contrava a que vinha da atual República do Chade [...] -de-cola provenientes da floresta serviam de moeda nos mercados das al-
Os nômades, senhores do deserto, foram muito beneficiados pelo co- deias. Começa a parecer provável que os povos da floresta obtivessem sal
mércio transaariano, pois as caravanas levavam-lhes cereais e tecidos em por outros meios, como, por exemplo, pela queima de plantas salíferas. O
troca de carne, sal e água. Assim, os nômades e os povos sedentários sal também vinha da costa, embora em pequena quantidade. [...]
complementavam-se. As caravanas necessitavam de guias na imensidão O cobre também era artigo importante no comércio da África ocidental e
do Saara; estes lhes eram fornecidos pelos nômades, que conheciam as de outras partes do continente. Pesquisas de anos recentes começam a re-
rotas e eram pagos a preço de ouro. A travessia do Saara tinha que ser velar as formas mais antigas do comércio do cobre na África ocidental. [...]
preparada minuciosamente; os camelos eram alimentados durante vá- Os habitantes de Takedda eram prósperos e gozavam uma vida abas-
rias semanas. Para chegar ao Sudão, Ibn Battuta foi a Sidjilmasa, ponto tada, tendo grande número de escravos de ambos os sexos. As escravas
de encontro dos que partiam do Marrocos para o sul, e anotou: “Nes- instruídas só raramente eram vendidas, e por um preço alto. Ibn Battuta
ta cidade comprei camelos, que alimentei com forragem durante quatro teve dificuldades para comprar uma, já que os que as possuíam recusa-
meses”. A caravana era liderada por um chefe, que a todos comandava vam-se a vendê-las. Conta que um habitante que concordou em vender-
como um capitão de navio. Começada a viagem, ninguém deveria atra- -lhe uma delas arrependeu-se tanto que quase “morreu com o coração
sar-se ou avançar muito rapidamente, nem se afastar do grupo, pois po- partido”. Infelizmente não nos relata em que consistia a educação dessas
dia se perder no imenso deserto. [...] mulheres escravas, tão requisitadas. É muito provável que fossem procu-
No Sudão, acumular ouro era uma antiga tradição, ao passo que em radas por seus talentos culinários ou por sua grande beleza.
Gana o rei tinha o monopólio sobre as pepitas encontradas nas minas [...] De Takedda, Ibn Battuta partiu para Tuat numa grande caravana, com cer-
No entanto os sudaneses sempre mantiveram os muçulmanos na mais ca de 600 mulheres escravas. Esse é um dado muito revelador, pois nos
completa ignorância quanto à localização das minas de ouro e à forma de informa quantos escravos uma caravana podia transferir do Sudão para o
explorá-lo. O mansa Musa I, sem mentir e fornecendo várias explicações, in- Magreb, e também que o objetivo do tráfico de escravos era fornecer em-
clusive sobre a exploração das minas, não deu maiores esclarecimentos aos pregados domésticos, às vezes bem especializados em algumas atividades,
habitantes do Cairo que lhe fizeram perguntas sobre seu fabuloso império. para a aristocracia árabo-berbere. Os soberanos sudaneses também impor-
Isso explicaria como o rei do Mali manteve sua reputação de rique- tavam escravos, sobretudo do Cairo, para formar sua guarda pessoal. [...]
za extraordinária. Pouco mais de uma geração após sua peregrinação, o Para os soberanos e a aristocracia, o que contava era ter uma comitiva
mansa apareceu segurando na mão sua pepita de ouro no famoso atlas bem dotada e leal.
de Maiorca feito para Carlos V da França. Os maiorquinos só poderiam ter Alguns autores tentaram atribuir importância injustificada à exporta-
sabido dessa história pelos muçulmanos. Hoje está praticamente esta- ção de escravos para os países árabes. No período ora estudado, esse co-
belecido que, além das conhecidas jazidas de Galam, Burem e Bambuku, mércio não constituía uma hemorragia, pois o que mais interessava aos
o ouro das regiões pré-florestais e florestais – atuais Repúblicas da Cos- árabes no Sudão era o ouro, cuja necessidade para cunhagem se fazia ur-
ta do Marfim, de Gana e da Nigéria – alimentava o comércio setentrional gente ao redor do Mediterrâneo. Raymond Mauny arriscou uma estimati-
daquela época. É sabido que o comércio de ouro do Mali foi muito impor- va do número de escravos negros exportados para o norte da ordem de
tante na Idade Média, mas seria arriscado adiantar estimativas sobre a 20 mil por ano, ou 2 milhões por século. Os árabo-berberes não tinham
quantidade do metal exportada. A generosidade dos mansa leva à supo- tanta necessidade de mão de obra para uma demanda tão grande. É im-
sição de que o montante de ouro acumulado era considerável. No Sudão, portante lembrar o famoso tratado, referido como o bakt, assinado pelos
o ouro era tido como “sagrado”, ou, ao menos, dotado de poder miste- dirigentes do Egito e pelos reis da Núbia. Estipulava ele que o rei da Nú-
rioso. No pensamento tradicional, apenas o rei podia dominar o “espíri- bia deveria mandar 442 escravos anualmente para o Cairo, assim distri-
to” do ouro. A mesma concepção prevalecia nas regiões florestais do sul, buídos: 365 para o tesouro público, 40 para o governador do Cairo, 20
onde as chefarias possuíam muito ouro. para seu delegado em Aswan (Assuã), 5 para o juiz de Aswan e 12 para
os 12 notários da cidade. O tributo exigido pelo sultão do Cairo prova que
O sal e outras mercadorias
as necessidades da Corte não eram enormes.
O sal teve um papel preponderante no comércio transaariano, bem O tráfico transaariano de escravos, se foi permanente do século VIII ao
como no de outras regiões africanas. Muitos dirigentes da África ociden- XVI, nunca ultrapassou certo limite. Para alimentar esse comércio, os sobe-
tal constantemente tentaram abaixar seu preço. Oficiais alfandegários ranos guerreavam com o sul, preferindo poupar as reservas disponíveis em
controlavam rigorosamente as exportações e importações de sal. As mi- seus Estados. Os árabo-berberes não só procuravam ouro, como também
nas de Teghazza supriam os mercados do Sudão ocidental; as regiões do marfim. As presas de elefantes africanos eram muito valorizadas na Arábia
rio Senegal obtinham sal-gema em Awlil, mas a distribuição desse sal di- e na Índia por serem mais moles e, portanto, mais fáceis de esculpir do que
ficilmente ultrapassava o interior da curva do Níger. as dos elefantes da Ásia, extremamente duras. O Sudão também vendia
Grande parte da renda da Coroa provinha da taxação do sal, e isso se peles, ônix, couro e cereais para os oásis do Saara. No século XIV, quan-
manteve no século XIV. [...] do do apogeu do Mali, a rota mais frequentada era a que foi utilizada por

XXII HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


Ibn Battuta; uma outra rota, bastante usada pelos peregrinos do Mali, ia de Os soberanos do Sudão rodeavam-se de juristas e conselheiros ára-
Tombuctu a Kayrawãn (Kairuan), passando por Wargla. [...] bes, que, em sua maioria, seguiam o culto maliquita. No entanto, no sé-
É bem provável que o papel das comunidades judaicas nesse comércio culo XIV, Ibn Battuta menciona a existência de caridjitas brancos entre os
tenha sido muito importante. A pesquisa de T. Lewicki revelou a participa- Diafununke do Mali.
ção dos judeus de Tuat já desde os séculos VIII e IX [...] Em todo caso, há O papel cultural e econômico dos muçulmanos foi mais notável no sul
muitas referências a judeus: no início do século XVI, o português Valentim do Saara. Ao voltar de sua peregrinação, o mansa Müsa I trouxe em sua
Fernandes fala dos “judeus” ricos, mas oprimidos, de Walata. comitiva escritores e um arquiteto que empregou para construir a famo-
No século XV, com a ofensiva da Reconquista, os cristãos estabelece- sa sala de audiência, onde Ibn Battuta foi recebido em 1353 pelo mansa
ram-se no Magreb. Muitos comerciantes italianos foram atraídos para o Solimão, irmão e sucessor de Müsa I.
Sudão, pois sua riqueza em ouro tornara-se lendária. Benedetto Dei, via-
jante e escrivão florentino, afirma ter errado pela região até Tombuctu en- O CRISTIANISMO NA ETIÓPIA E NO SUDÃO
tre 1469 e 1470. O genovês Antonio Malfante é conhecido pela famosa
carta que enviou do Tuat a sua casa comercial em Gênova. Malfante vi- ILIFFE, J. Os africanos: história dum continente. Lisboa: Terramar, 1999. p. 59-61.
sitou o Tuat e recolheu valiosas informações sobre o Sudão nigeriano e
sobre o Tuat enquanto encruzilhada de comércio. Mas o contato direto A Igreja copta era uma igreja missionária. A primeira região em que se
entre a Europa e o Sudão deu-se pelo Atlântico, no século XV, com os na- expandiu foi a Etiópia. Após a queda de D’mt, entre os séculos V e III a.
vegadores portugueses. C., vários pequenos estados que lhe sucederam ocuparam o planalto do
Ibn Khaldun nos informa que havia caravanas de 12 mil camelos indo norte da Etiópia. O incremento do comércio no Mar Vermelho, no período
do Sudão ao Egito. A travessia do Saara em linha reta era difícil devido ptolomaico, enriqueceu a região e ligou-a às atividades mediterrânicas
às tempestades de areia na diagonal Níger-Nilo; assim, era raro as cara- através do seu porto mais importante, Adulis, célebre pelo marfim. Du-
vanas irem diretamente para o Egito. Nas rotas normais do Níger ao Ma- rante o século I d.C., numa época que se caracterizou por uma precipita-
greb, as caravanas tinham em média mil camelos. ção invulgarmente generosa, surgiu um reino em Axum, que continuou a
unificar a região, herdando uma grande parte da cultura do Sul da Arábia
A difusão de ideias e técnicas
e embelezando a sua capital com edifícios apalaçados em pedra, gran-
Como resultado do comércio transaariano, muitos árabo-berberes se des estelas de pedra que assinalavam túmulos reais e uma zona envol-
estabeleceram nas cidades do Sudão – Walata, Niani, Tombuctu e Gao, vente constituída por vivendas rurais. Dois séculos depois, o reino cunha-
entre outras; a maioria dessas cidades tinha um bairro árabe. Os casa- va moedas segundo modelos romanos.
mentos criavam laços de parentesco que os genealogistas sudaneses A introdução do cristianismo em Axum atribui-se tradicionalmente a Fru-
adoram deslindar. mêncio, um jovem mercador cristão raptado quando viajava de Tiro para a
Os historiadores ainda discutem se foi pelo contato com os árabo-ber- Índia. Tornou-se tutor do futuro rei Ezana, que adoptou oficialmente o cris-
beres que se introduziu a filiação patrilinear no Sudão. Na época do Impé- tianismo por volta de 333, depois de Frumêncio ter sido consagrado em
rio de Gana, a sucessão ao trono não era por linha direta, mas colateral; o Alexandria como primeiro bispo de Axum. Esta tradição simplifica em de-
herdeiro era sempre o sobrinho do rei (o filho de sua irmã). Foi difícil para o masia um processo complexo, porque o cristianismo era apenas uma das
Mali do século XV aceitar a sucessão direta (de pai para filho). A influência várias religiões (incluindo o judaísmo) da Corte de Ezana; mais de um sécu-
muçulmana não foi um fator decisivo nesse caso em particular. Se exami- lo depois da sua suposta conversão, um sucessor registrou o sacrifício de
narmos as regiões florestais do sul, vamos encontrar dois tipos de descen- cinquenta cativos a Mahrem, o deus local da guerra. É provável que Ezana
dência, e é difícil falar de influência islâmica no Congo a essa época. tivesse tentado proteger todas as religiões, incluindo o cristianismo, cuja
A islamização da África negra nesse período não se deu pela violência, presença nas suas moedas sugere que ele o exibia especialmente, mas
mas pacificamente, pela influência dos comerciantes árabo-berberes, os não em exclusivo, aos estrangeiros. Como o cristianismo chegou a Axum
Wangara e os Haussa. Além do episódio belicoso dos Almorávidas, houve vindo de Alexandria, a Igreja etíope tornou-se monofisita e foi chefiada por
poucas guerras com o objetivo de propagar o islamismo. A nova religião monges coptas de Alexandria até meados do século XX. Além disso, como
levava em conta as antigas práticas das sociedades tradicionais; mas Ibn o cristianismo foi o primeiro a influenciar a corte, tornou-se uma religião
Battuta admirou a devoção dos muçulmanos negros, sua assiduidade às de Estado, que a pouco e pouco os sacerdotes e os monges difundiram ao
orações e sua fidelidade ao culto coletivo, obrigando mesmo seus filhos povo com o apoio real. Entre os séculos V e VII, as Escrituras foram traduzi-
a seguirem seu exemplo. Os Wangara, sempre indo de aldeia em aldeia, das para Ge’ez (a língua franca semita de Axum, escrita num alfabeto ins-
construíram mesquitas em vários centros comerciais, como marcos ao pirado no alfabeto do Sul da Arábia), o cristianismo e o domínio de Axum
longo das rotas das nozes-de-cola. Em virtude da tolerância tradicional estenderam-se a sul, ao planalto etíope, e os templos pagãos de Axum e de
dos negros, podiam orar até nas aldeias pagãs. Adulis foram transformados em igrejas. Mas a partir do final do século VI, a
Na cidade, o árabe tornou-se a língua dos letrados e cortesãos; se- prosperidade de Axum decaiu, primeiro porque a guerra entre Bizâncio e a
gundo al-’Umari, o mansa Müsã I falava corretamente o árabe; este go- Pérsia desviou o comércio, depois porque a expansão muçulmana destruiu
vernante pode ser considerado o responsável pela introdução da cultura Adulis e por fim porque o apoio crescente na agricultura coincidiu com o
muçulmana no Mali. declínio das chuvas. Axum cunhou a sua última moeda no início do século
Nasceu uma literatura africana de expressão árabe, que floresceu na cur- VII. O rei, que morreu em 630, não foi sepultado na capital, mas mais para
va do Níger, principalmente no século XVI, sob os askiyas. Do século XIV ao sudeste, onde a amálgama da cultura de Aksum e das culturas indígenas
XVI, houve intercâmbios constantes entre as Universidades do Sudão e do de Cush iria dar origem à Igreja histórica e ao reino da Etiópia.
Magreb. No século XIV, porém, o Cairo foi o grande centro de atração para As origens cristãs da Núbia diferiam das de Axum, em parte porque
os sudaneses; situado na rota de peregrinação, tinha muitos habitantes. a Núbia se juntou logo ao Egito cristão. Depois da queda de Méroe, no

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano XXIII


século IV d. C., os dirigentes de língua núbia criaram três reinos no vale do portanto eram raras nesta região. O exemplo mais importante é o dos Tiv
Nilo: Nobatia, no Norte, cuja capital era Faras, Makuria, no centro, com o do Vale do Benue, cuja história é pouco conhecida. Mais vulgares eram
quartel-general na Antiga Dongola, e Alwa, no Sul, sediada em Soba (nos ar- as aldeias autônomas de pioneiros, chefiadas ou por um Homem Gran-
redores da moderna Cartum). Os mercadores egípcios trouxeram consigo o de, cujas características pessoais atraíam os parentes e os clientes, como
cristianismo pelo menos no século V, porque os arqueólogos descobriram muitas vezes sucedeu nas zonas florestais dos Camarões, ou pelo descen-
igrejas dessa época em Faras e em Qars Ibrim, em Nobatia, enquanto, ao dente mais velho do colono pioneiro, como aconteceu em muitas regiões
que parece, os cristãos de Axum visitavam Alwa. Em Nobatia, só os túmulos mais a ocidente. Povos do litoral como os Jola do Senegal não constituí-
da gente vulgar continham objetos cristãos, sugerindo que ali, ao contrário ram um estado e a sua sociedade apoiava-se em ritualistas hereditários
de Axum, o cristianismo evoluíra de baixo para cima, impressão reforçada que agiam como mediadores, enquanto outros recebiam uma orientação
pela supressão da Igreja em Faras e pela manutenção, até 535, do hábito mínima indispensável dos dirigentes de estados vizinhos, cuja autorida-
anual de levar uma estátua de Ísis de Philae para o Egipto, para abençoar de teriam rejeitado se ela se manifestasse de outro modo, como foi o
as colheitas núbias. Quando o imperador bizantino Justiniano baniu a ceri- caso dos povos sem estados que bordejavam o Benim. Talvez as institui-
mônia nesse ano, as igrejas ortodoxa (bizantina) e monofisita (copta) envia- ções religiosas mais comuns que mantinham a coesão com comunida-
ram missões à Núbia. O missionário monofisita chegou primeiro a Nobatia, des sem estados fossem as sociedades secretas nomeadamente as so-
em 543, “e eles renderam-se imediatamente, cheios de alegria”, como es- ciedades iniciáticas Poro e Sande, destinadas a homens e mulheres cuja
creveu o cronista João de Éfeso, “repudiaram o erro dos seus antepassa- importância nas florestas da Guiné e da Serra Leoa foi atestada por an-
dos, e reconheceram o Deus dos cristãos”. Vestígios de igrejas nas aldeias tigos visitantes portugueses. Essas instituições não se excluíam umas às
e da rápida adoção de sepulturas cristãs confirmam este relato, embora so- outras. Os povos sem estados mais numerosos em África pertenciam ao
brevivessem templos pagãos em Nobatia durante mais dois séculos. Alwa grupo linguístico mais tarde conhecido por Igbo, no sudeste da moderna
também se mostrou disposta a aliar-se ao mundo maior. Quando o mis- Nigéria. Apesar da relativa densidade populacional e de uma atividade co-
sionário Longinus lá chegou em 580, vindo de Constantinopla, “dirigiu ao mercial considerável, os Igbo mantiveram-se decididamente sem estados
rei e a todos os seus nobres as palavras de Deus, e eles abriram o seu en- utilizando quase todos os sistemas referidos. Um dos seus chefes rituais
tendimento, e ouviram com júbilo o que ele dizia; e depois de alguns dias foi talvez o notável sepultado em Igbo-Ukwu no século IX. Os Igbo do oci-
de aprendizagem, o rei foi baptizado com todos os seus nobres; e depois, dente viviam à sombra do Benim, enquanto os do norte se apoiavam em
ao longo do tempo, também o seu povo”. Durante cerca de um milénio, os grupos etários e sistemas de títulos nos quais os homens iam avançando
reis núbios foram cristãos. Nobatia e Alwa foram monifisitas desde o início; à medida que eram mais velhos, mais ricos e mais influentes.
Makuria, ou já era ou tornou-se monofisita pouco depois. Aparentemente, Em termos políticos, a distância entre um chefe ritual ou um Homem
os bispos núbios terão sido nomeados em Alexandria e a Igreja datava os Grande da aldeia e um chefe territorial era pequena, e é fácil imaginar
acontecimentos pela era copta dos mártires. Mas a Igreja copta do Egito de- como os povos da floresta e os seus vizinhos criaram os pequenos es-
pressa caiu sob o domínio muçulmano, e os dirigentes núbios voltaram-se tados que terão surgido no final do primeiro milênio d. C., inicialmen-
cada vez mais para o imperador cristão em Constantinopla. Os belos murais te na região dos modernos Ioruba, Edo, Nupe e lukun que contornam a
da catedral de Faras, desenterrados da areia durante os anos [19]60, come- orla meridional da floresta-savana do território Haússa. O pequeno es-
çaram por ser de estilo copta e depois transitaram a pouco e pouco para o tado mais antigo já identificado pelos arqueólogos foi Ife, precisamente
estilo bizantino, embora revelassem características locais distintas. A língua na zona limítrofe da floresta. É grande a incerteza que envolve as suas
litúrgica era o grego; só a pouco e pouco certas partes da liturgia e da Bíblia origens, mas havia pequenos aglomerados populacionais nessa zona,
foram traduzidas para núbio, escritas na forma copta do alfabeto grego. A nos séculos IX ou X, e indícios de urbanização, casas pavimentadas com
arquitetura das igrejas revela que o papel litúrgico dos leigos diminuiu com fragmentos de barro e esculturas em terracota nos séculos XI ou XII. A
o tempo. Os reis assumiam poses sacerdotais e os bispos realizavam ceri- cidade erguia-se sobre uma pequena mina de ouro e estava bem loca-
mônias de Estado à moda bizantina. Alguns historiadores atribuem o desa- lizada para comerciar e interagir com a savana e a costa, mas os seus
parecimento final do cristianismo núbio a uma incapacidade de adaptação vestígios não denunciam grandes contatos deste tipo e sugerem antes
à cultura local, ao contrário do cristianismo etíope, que estava mais isola- a existência de uma economia agrícola que contribuía para um sistema
do das influências externas. As pinturas núbias, por exemplo, representam de comércio regional com a produção de contas de vidro. Desta forma,
sempre Cristo e os santos com pele branca, ao contrário dos núbios, uma Ife foi a capital de um reino importante talvez entre os séculos XII e XV. A
distinção que não existe na arte etíope. Mas os destinos diferentes das duas sua fama assenta em magníficas esculturas de terracota e de latão; que
Igrejas devem muito a diversos tipos de relacionamento com o islamismo. representam seres humanos, mais do que os objectos naturais repre-
EVOLUÇÃO POLÍTICA NA FLORESTA OCIDENTAL sentados em Igbo-Ukwu. As terracotas foram feitas em primeiro lugar. É
(SÉCULOS XI-XV) provável que muitas fossem oferendas destinadas a santuários. Repre-
sentavam com todo o realismo um espectro de situações humanas, dos
ILIFFE, J. Os africanos: história dum continente. Lisboa: Terramar, 1999. p. 104-
reis e dos cortesãos aos doentes e aos executados. Nos séculos XIV e
107. XV, a tradição da terracota transferiu-se para o latão. Conhecem-se me-
nos de trinta objetos de latão. Produzidos com moldes de cera e dota-
Nas florestas da África Ocidental e nas pastagens vizinhas, os estados dos de um realismo idealizado, quase todos representam reis no auge
formaram-se mais lentamente do que na savana e eram mais pequenos, dos seus poderes e se caracterizam por uma majestade serena nunca
e muitas sociedades não tinham estados constituídos quando os euro- ultrapassada na arte humana. Por razões que desconhecemos, os lato-
peus as descreveram pela primeira vez. As sociedades de linhagem seg- eiros de Ife nutriram um apreço pelo ser humano que iria sobreviver de
mentar, onde a ordem assentava apenas na ameaça de retaliação, exis- uma forma mais popular no humanismo e na afirmação da vida das xi-
tiam essencialmente no seio de povos que se dedicavam à pastorícia, e logravuras dos Ioruba, muito depois de outras comunidades organiza-

XXIV HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


das terem isolado Ife das suas fontes de latão e de poder, reduzindo-a séculos XIV ou XV. Seguiram-se os reinos Mossi de Uagadugu (no final do
a uma prioridade meramente ritual. século XV) e de Yatenga (em meados do século XVI). As origens dos che-
O mais antigo sucessor de Ife que se conhece foi o reino Edo do Be- fes são incertas, mas é provável que fossem forasteiros, pois reclamaram
nim, o único outro estado florestal importante da época. Aqui, os vestí- apenas o poder político e deixaram o controle da terra nas mãos dos indí-
gios de que o reino nasceu de aldeias mais antigas são particularmente genas, satisfazendo-se com tributos. Neste aspecto o seu comportamen-
claros, a avaliar pelos 10 000 quilômetros de sebes de terra construídas to diferiu acentuadamente das alterações políticas que se registraram na
pelos seus fundadores no início do segundo milênio. A cidade de Benim, floresta, no seio dos povos de língua Akan do Gana. O homem já se ins-
na orla ocidental, terá dado origem a um centro religioso, mas foi trans- talara nessa região desde o princípio do primeiro milênio, mas os aldea-
formada nos séculos XV e XVI por reis guerreiros que reclamaram origens mentos foram esparsos até o século XVI, quando uma nova tradição de
Ife e introduziram inovações Ioruba. O primeiro e o mais importante des- cerâmica substituiu a antiga, a colonização se expandiu rapidamente e
ses reis foi Ewuare, que se diz ter conquistado 201 cidades e aldeias, na região começaram a surgir os estados florestais mais importantes da
subjugando os pequenos estados envolventes, reinstalando as suas po- África Ocidental. O motor desta transformação foi o ouro. Não se sabe ao
pulações e transformando a cidade na capital de um reino com 120 qui- certo quando começou a sua exploração. Begho, o centro de comércio
lômetros de largura. Ewuare terá construído o palácio e as fortificações que ligava os Akan ao norte, a Jenne e ao Mali, era habitado desde o sé-
da cidade. Converteu o governo numa burocracia patrimonial, nomeando culo XI, e Bono Manso, a capital do primeiro estado Akan, desde o século
homens livres para chefes militares e administrativos que suplantavam XIII, mas ambas progrediram muito nos séculos XV e XVI. O ouro fornecia
os chefes dos grupos hereditários. Ele ou os sucessores terão sido res- os recursos necessários à compra de escravos para desbravar a floresta,
ponsáveis pelo alto nível de envolvimento estatal no comércio com o es- cuja conquista modelou sempre a cultura Akan. Os pioneiros foram Ho-
trangeiro, que os portugueses encontraram quando chegaram em 1486. mens Grandes típicos, os abirempom, cujos descendentes de homens de
O regime protegeu os latoeiros que fundiram as célebres cabeças reais clãs matrilineares e de escravos formaram os núcleos dos estados da flo-
do Benim e outras esculturas magníficas, combinando o metal europeu resta, conferindo-lhes uma resistência, um espírito empreendedor e uma
com técnicas de cera que se supõe serem originárias de lfe, embora os singularidade que impressionaram os europeus que comerciaram com
especialistas modernos não estejam de acordo quanto a este ponto. A eles no litoral, a partir do final do século XV.
arte do Benim era uma arte da corte, criada por artesãos hereditários que
viviam no interior do palácio, separados por um abismo da cultura popu- A ÁFRICA NO IMAGINÁRIO POLÍTICO PORTUGUÊS
lar. Quando chegaram os primeiros europeus, o Benim era o estado mais
importante da floresta da África Ocidental e impressionou-os fortemente ALEXANDRE, V. Velho Brasil/Novas Áfricas: Portugal e o Império (1808-1975).
Porto: Afrontamento, 2000. p. 219-222.
com a sua riqueza e a sua sofisticação. Mas, no século XVII, os chefes mi-
litares e administrativos sobrepuseram-se ao rei, reduzindo-o a uma figu-
A historiografia sobre a questão colonial nos séculos XIX e XX tem sido
ra ritual isolada, guerreando entre si e despovoando a cidade.
marcada, nas duas últimas décadas, por uma reacção contra a teoria do
No século XV, vários outros reinos loruba coexistiram com lfe, cada um
imperialismo não econômico, até então dominante por influência sobretu-
com uma capital muralhada, um rei que se reclamava de origem lfe, chefes
do do livro de R. J. Hammond Portugal in África 1815-1910, que estabe-
das cidades que dirigiam poderosos grupos de descendentes corresiden-
leceu um padrão de interpretação muito espalhado e muito duradouro do
tes e aldeias distantes. É provável que o comércio fosse importante em vá-
colonialismo português: o que o filiava, não em razões econômicas, nesta
rios agregados políticos, sobretudo o comércio com mercadores itineran-
perspectiva inexistente ou de pouco peso, mas num comportamento de
tes de Songai, pois a língua loruba ainda conserva muitos termos Songai
tipo nostálgico e sentimental, que viveria do passado, sonhando com a res-
que designam conceitos islâmicos, comerciais e equestres. Um dos novos
tauração do prestígio perdido. Refutando esta tese, vários autores têm vin-
reinos, ljebu Ode, terá [teria] ganho [ganhado] forma em 1400 e, um sécu-
do a estabelecer pacientemente o mapa dos interesses econômicos por-
lo depois, era “uma cidade muito grande”, enquanto que Owo, no século
tugueses ligados às colônias e a medir o seu grau de influência na política
XV, era um centro artístico que rivalizava com lfe e Benim. A vinda de ca-
dos governos de Lisboa. A tais trabalhos cabe pelo menos o mérito de de-
valos de guerra do Norte constituiu outro estímulo político. Até então, os
povos da floresta tinham mantido a iniciativa nesta região. As esculturas monstrarem que esse é um aspecto da realidade que não pode descurar-
em latão da Ife do século XIV tinham passado para norte, para o reino de -se – abalando definitivamente a teoria do “colonialismo de prestígio”, nos
Nupe, na savana. Tsoede, que segundo a tradição foi o fundador de uma termos em que Hammond a formulava. Mas parece evidente que a simples
nova dinastia Nupe no princípio do século XVI, era filho de uma mulher constatação de tais interesses não permite concluir de imediato que eles
que falava Edo. No entanto, pouco depois, os exércitos Nupe e Baribá do são “a força motriz subjacente à expansão imperialista”, como pretende
norte invadiram o território loruba, talvez com cavaleiros. Atacaram sobre- Clarence-Smith na sua síntese O Terceiro Império Português. “Tal ideia –
tudo Oyo, o reino mais ao norte de loruba, situado na savana. Oyo reagiu escrevi na recensão que dediquei ao livro – só poderia ser eventualmente
adoptando a cavalaria na guerra e, no século XVII, era o estado loruba aceita depois de sopesados todos os fatores, de estudadas as condições
mais poderoso. É possível que processos semelhantes tenham estado na em que surge e se desenvolve o projeto colonial para África, nas suas várias
origem de Allada e Whydah, os primeiros reinos constituídos por povos versões e nas suas diversas fases, e nas suas relações, não apenas com a
de língua Aja (Ewe e Fon) que ocuparam a garganta de Daomé. É provável economia, mas também com a política portuguesa no seu todo”.
que os dois reinos existissem no século XV, embora a maioria dos povos Seguindo a via assim traçada, o primeiro ponto que chama a atenção é
de língua Aja vivessem ainda em pequenos reinos tribais. o peso que a questão colonial assume na história portuguesa dos últimos
Mais para noroeste, nas regiões da savana do Gana e de Burkina, os dois séculos – mais evidente em épocas de crise como o da partilha de Áfri-
cavalos de guerra permitiram que pequenos grupos de cavaleiros fun- ca (entre várias outras), mas também muito clara nas fases de acalmia, es-
dassem uma série de estados no seio dos povos indígenas de língua vol- tando sempre presente, não apenas num ou outro autor, neste ou naquele
taica, a começar pelos reinos de Mamprussi e de Dagomba no final dos texto mas no conjunto da argumentação política, pela relação estreita que

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano XXV


mantém com o problema central da identidade e da própria sobrevivência rie”, onde “nem a luz da religião nem a da civilização” penetrava, onde
do país. Por isso mesmo, todas as correntes do nacionalismo português se era “tudo escravo dos chefes e das paixões selvagens”; essa “população
defrontam, de uma forma ou de outra, com a opção ultramarina. selvagem”, em “estado de grande embrutecimento”, que não conhecia
Nesta perspectiva, o projeto colonial é irredutível ao simples jogo dos “nenhum dever social”, nem o “sentimento do amor à família” ou o “amor
interesses econômicos – embora também lhe não seja por inteiro alheio. do próximo”. Libertando alguns negros deste “mundo primitivo”, a com-
Tanto a tese do “imperialismo econômico” como a do “colonialismo de pra de escravos no interior – o “resgate”, na velha terminologia colonial,
prestígio” parecem prejudicadas, como o estará também qualquer ou- que continuava a aplicar-se – teria de ver-se, ao fim e ao cabo, como um
tra explicação de natureza monocausal que se pretenda sobrepor a um ato humanitário, permitindo salvar a vida dos prisioneiros de guerra, dos
fenômeno tão complexo como a expansão imperial na África. Por isso criminosos, sujeitos à tortura e à morte nas suas sociedades de origem, e
mesmo, tentando evitar interpretações redutoras, recorremos na nossa submetendo-os à influência benéfica da civilização.
análise não ao conceito de ideologia (que remete para um conjunto es- O outro dos grandes temas de ideologia esclavagista estava na natu-
truturado de noções com um certo grau de coerência interna) mas ao de reza que atribuía ao negro em si – pintando-o como ser “essencialmente
mito, entendido como modo de apreender a realidade no seu todo, de indolente”, “inteiramente boçal”, dado à embriaguez e ao roubo, dotado
pensar e de sentir, integrando fatores econômicos e não econômicos e, de uma “grosseira sensualidade” e de uma aversão inata pelo trabalho.
em qualquer deles, tanto os aspectos racionais como os irracionais. Este quadro fornecia as premissas para a conclusão fundamental da te-
Dois desses mitos terão tido um papel central como sustentáculos do oria: a de que o africano não se prestava a servir voluntariamente, sendo
projecto colonial. O primeiro deles – a que chamaremos o “mito do Eldo- sempre necessário obrigá-lo “a receber a educação do trabalho”.
rado” – tem como pano de fundo a crença inabalável na riqueza das co- É certo que, a par desta ideologia, uma outra se afirma, tributária do pen-
lónias de África, na sua extrema fertilidade, nos tesouros das suas minas samento iluminista, que vê na escravatura uma instituição altamente ma-
por explorar. Dominante logo nos primeiros anos do liberalismo, após léfica, a abolir logo que possível, e nos africanos seres decerto atrasados,
1834, o tema aparece-nos então em dezenas de artigos, nos periódicos devido a circunstâncias históricas acidentais, mas capazes de progredir e
de todas as facções políticas, servindo de base à defesa do projecto colo- de se integrarem como cidadãos no corpo nacional. Mas esta corrente –
nial como via privilegiada para a regeneração da nação, compensando a personificada em Sá da Bandeira – é extremamente minoritária durante
perda do Brasil. Sob formas menos primárias, mais elaboradas – voltadas a maior parte do século XIX: só na década de [19]70 se detecta uma vira-
para um Eldorado longínquo, no qual se cumpriria o destino da nação, gem, com a emergência de novas elites políticas e intelectuais que, mais
que recuperaria finalmente o estatuto de grande potência –, o mito per- abertas aos ventos do exterior e mais conscientes da necessidade de mo-
siste ao longo de todo o império, ganhando um caráter estrutural. dernizar os processos de exploração colonial, viam na persistência dos fa-
Um segundo tema ideológico – que designaremos pelo “mito da heran- tos da escravatura uma mancha na imagem de nação civilizada e europeia
ça sagrada” vê na conservação de toda e qualquer parcela do território ul- que queriam para Portugal. Miraculosamente, o “lunático” Sá da Bandeira
tramarino um imperativo histórico, tomando os domínios sobretudo como dos anos [19]50 e [19]60, geralmente atacado pelas suas “manias” filan-
testemunhos da grandeza dos feitos da nação, que não os poderia perder trópicas, vê-se agora recuperado como símbolo e testemunho dos senti-
sem se perder. Geralmente latente, o tema vem à superfície sempre que se mentos antiesclavagistas do país: ele é o “Wilberforce português”, “infa-
configuram casos de perigo e de iminência de perda, real ou suposta, de tigável paladino da liberdade”, atacando “em suas últimas fortificações a
qualquer das possessões ou de zonas sobre que se reivindicava a sobera- ideia velha, que permitia a escravização do homem pelo homem”.
nia portuguesa, contribuindo para afastar a tentação de abandono, não só Tendo como seu principal expoente político o ministro Andrade Cor-
da via colonial em si, mas também de cada um dos territórios em particular, vo, que é também o seu teorizador mais importante, esta nova tendência
por mais difícil que se afigurasse a sua exploração e conservação. ganha expressão jurídica com a abolição do trabalho servil nas colônias
Também o “mito da herança sagrada” tem um caráter permanente, es- decretada em 1875 – a primeira medida abolicionista promulgada pelo
trutural, que lhe resulta da sua estreita relação com dois elementos de Parlamento liberal português (todas as outras haviam emanado do Po-
fundo do nacionalismo português: a consciência, sempre presente nas der Executivo).
elites políticas, da vulnerabilidade de Portugal (que as tornam especial- Mas os seus efeitos são, em fim de contas, superficiais: preocupados
mente sensíveis às ameaças externas); e sobretudo a ideia, muitas vezes em primeiro lugar com a imagem e a retórica, essas mesmas elites dei-
expressa, de que a própria sobrevivência da nação dependia da existên- xam subsistir quase sem resistência formas de trabalho forçado próximas
cia do império, como contraponto necessário à força de atração da Espa- da escravatura. E sobretudo, o impulso humanista e liberalizante esgota-
nha no conjunto da Península Ibérica. -se rapidamente, afetado pelas pressões nascidas da partilha da África e
Ligado, como vemos, a uma determinada imagem do país, o projeto pela forte reação nacionalista por elas provocada em Portugal.
colonial implica igualmente uma certa visão dos povos a ele submetidos Neste contexto, o “mito da herança sagrada” ganha novos contornos,
(no nosso caso, sobretudo da África e dos africanos), visão de sujeito a passando a justificar, não apenas a conservação dos antigos territórios
objeto, marcada do mesmo modo pelo nacionalismo, que toma modali- coloniais, mas também a expansão para zonas até então não ocupadas,
dades e aspectos diversos consoante as conjunturas, flutuando entre o a partir de uma perspectiva maximalista para a qual toda a região do
etnocentrismo e formas mais ou menos explícitas de racismo. Congo e ainda outras vastas terras de África estavam naturalmente vota-
Durante uma longa primeira fase, que dura até aos anos 70 do sécu- das ao domínio português, por direito de descoberta e pela influência aí
lo XIX, a imagem das sociedades africanas é profundamente influencia- exercida historicamente. Assim tomava corpo o novo mito: a espoliação
da pela ideologia esclavagista de Antigo Regime – uma ideologia que do império por parte da Grã-Bretanha.
repousava, em primeiro lugar, na negação de qualquer vida cultural (ou As mesmas pressões externas, em particular o Ultimatum britânico de
mesmo, nas fórmulas mais radicais, de qualquer traço de humanidade) 1890, contribuem decisivamente para sacralizar o império: já atuante,
às sociedades do interior da África – esse sertão “sepultado na barbá- como referimos, nas décadas anteriores, o “mito da herança sagrada”

XXVI HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


alcança agora um predomínio avassalador, derrotando em definitivo as outro das fronteiras tornam-se terras de ninguém, abandonadas pelos
correntes mais pragmáticas que aceitavam a recomposição e mesmo a Estados-Nações, que concentram seus esforços de desenvolvimento nas
redução do território imperial. Doravante, o projeto colonial é o elemento zonas úteis do litoral, onde se situa a maior parte das capitais. Do norte
central do nacionalismo português, remetendo-se a sua eventual contes- ao sul, Praia, Nuakchott, Dacar, Banjul, Bissau, Conakry, Freetown, Mora-
tação para a categoria ético-jurídica da traição à pátria. via, Abidjan, Accra, Lomé, Cotonu e Lagos – ou seja, treze Estados entre
dezesseis – têm suas capitais na costa e a economia voltada para o exte-
FRONTEIRAS E CONSTRUÇÃO DO ESTADO-NAÇÃO
rior, deixando todo o interior no abandono total.
Esse desenvolvimento voltado para fora reforça o caráter arcaico das fron-
BARRY, B. Senegâmbia: o desafio da História regional. Rio de Janeiro: Centro de
teiras, que contribui assim para reduzir as trocas entre os Estados da África
Estudos Afro-Asiáticos, 2000. p. 74-76.
Ocidental. Em todos os casos, para os países pequenos, assim como para
A ascensão à independência abre novas perspectivas aos povos afri- os grandes, o desenvolvimento separado muito rapidamente mostrou seus
canos, que se encontram divididos entre dois objetivos contraditórios, limites no contexto do Estado-Nação. À crise econômica somou-se a crise
o da unidade e o da construção do Estado-Nação. Apesar dos ideais do política, que revelou as fragilidades do Estado-Nação baseado em forte cen-
movimento pan-africano, os novos Estados sacralizam na conferência da tralização e na prática despótica do partido único. Tudo isso contribuiu para
OUA [Organização da Unidade Africana] em 1963 as fronteiras herdadas reforçar os desequilíbrios sociais e políticos, que ameaçam profundamente
da colonização com o objetivo de evitar conflito. Essa decisão abre a via os fundamentos dos Estados-Nações no interior de suas fronteiras.
para a construção do Estado-Nação e para a aventura individual no curso É paradoxal constatar que as crises atuais, que ameaçam a integrida-
do desenvolvimento. de de Estados como Serra Leoa, Libéria ou Guiné-Bissau, não resultam
Exceto a breve federação de Mali, que liga Senegal e Sudão, ou a União dos conflitos de fronteiras que os opõem a seus vizinhos. Na maior parte
Ghana-Guiné-Mali, sem futuro, a unidade política permanece um símbo- dos casos, as populações têm dificuldades de se exprimir no interior das
lo inscrito nas constituições dos Estados-Nações, que optaram por con- fronteiras de seus Estados respectivos, onde vivem sufocadas. Esse mal
solidar as fronteiras coloniais. Na África Ocidental, as estruturas federais de viver no interior das fronteiras tomou diferentes formas em crises que
da AOF são desmanteladas, com exceção da moeda, que daí em diante arriscam afinal precipitar a implosão dos Estados.
liga os novos Estados entre eles, mas que, sobretudo, continua a ligá-los Isso se traduz na guerra de secessão de Biafra a Nigéria, da de Casa-
todos em conjunto à França. Em seguida, Guiné, Mali e Mauritânia vão mansa ao Senegal, sem contar as guerras civis de caráter étnico em Ser-
forjar a própria moeda, assim contribuindo para maior fragmentação da ra Leoa e Libéria, e a rebelião Tuareg em Mali e Níger. E é preciso acres-
África Ocidental, à imagem do que se passa na África Oriental, no seio da centar o conflito senegalês-mauritano, que terminou, fato excepcional,
ex-Federação que reunia Quênia, Uganda e Tanzânia. no repatriamento sistemático das populações respectivas de um país ao
A fisionomia da África Ocidental é ainda mais fragmentada pois, fora o
outro, criando com isso o problema das relações entre mouros, de um
uso do inglês, francês ou português, nenhum laço orgânico no plano polí-
lado, e populações de origem wolof, peul e soninké, do outro. Pior, esse
tico vem consolidar as relações entre os dezesseis novos Estados, que se
conflito fixa não só o rio como fronteira entre os dois Estados, mas ainda
fecham a chave no interior de suas fronteiras nacionais. Mesmo a Guiné-
como linha de demarcação étnica entre mouros e outras populações ne-
-Bissau e as ilhas do Cabo Verde, que bateram armas pela independên-
gras que refluíram para o Senegal. Esses novos refugiados vêm se juntar
cia, sob direção de um partido unificado, cindem-se em dois Estados dis-
aos tuareg que deixaram Mali e Níger e foram para países vizinhos, per-
tintos. Daí para frente, no contexto do Estado-Nação, são reforçados os
turbando assim o equilíbrio regional em seu conjunto.
controles nas fronteiras assim como as barreiras alfandegárias, reduzin-
Todos esses conflitos recolocam de maneira indireta o problema das
do as trocas oficiais entre os Estados, que se voltam as costas.
fronteiras, cuja gestão se revelou um grande handicap em relação à inte-
Entretanto, durante os primeiros anos das independências são raros
gração regional. O problema com certeza não está em modificar as fron-
os conflitos de fronteiras fora da oposição Mali – Burkina Faso e Senegal
teiras atuais com o fim de criar novos desequilíbrios, mas em suprimir
– Guiné-Bissau, que terminaram por regular pacificamente os litígios. Ao
tudo o que pode contribuir para frear uma verdadeira política de reinte-
contrário, se assiste a uma maior fragmentação do espaço na medida em
que a Guiné se fecha aos vizinhos, Senegal e Costa do Marfim, durante gração do espaço ocidental africano, caracterizado por uma fragmenta-
longos anos, por razões de divergências políticas entre os líderes. O mes- ção grande demais sem uma lógica interna de desenvolvimento de todos
mo ocorre com Mali, que se fecha ao Senegal, para se abrir em direção os seus componentes. Isso implica uma visão nova da noção de fronteira
à Costa do Marfim depois do rompimento da Federação, rompendo as- em relação aos imperativos da integração regional.
sim os elos seculares criados por Dacar – Níger. Do mesmo modo, Gana
O ENTRE-LUGAR DO DISCURSO AFRICANO
e Costa do Marfim se voltam as costas, agudizando a competição entre
duas economias fundadas sobre o cacau, ao sabor das divergências po-
REIS, E. L. L. Pós-colonialismo, identidade e mestiçagem cultural: a literatura de
líticas entre Kwame Nkrumah e Huphuete Boigny. Os conflitos políticos Wole Soyinka. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999. p. 85-105.
entre os Estados daí para frente ritmam o fechamento ou abertura das
fronteiras, sem se levar em conta os interesses das populações, que con- A fronteira é ao mesmo tempo uma abertura e um fechamento. É na fron-
tinuam a se deslocar em função de suas necessidades e sobretudo em teira que acontece a distinção do e a ligação com o meio ambiente. Todas as
função da valorização externa dos Estados. fronteiras, inclusive as membranas dos seres vivos, inclusive as fronteiras das
Assim, o Rio Senegal que, no decorrer de toda a história, em si mesmo nações, são, ao mesmo tempo, não só barreiras, mas também lugares de co-
nunca constituiu uma fronteira, daí para frente se transforma em barrei- municação e de intercâmbio. Elas são o lugar de desassociação e associação,
ra entre Senegal e Mauritânia, que fecham a travessia do rio após o con- de separação e articulação.
flito entre os dois países em 1988. Ainda pior, os espaços de um lado e Edgar Morin

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano XXVII


Dizem os mitos iorubás que, a princípio os deuses viviam na Terra com que um homem idoso possa se referir a uma criança como Baba (“pai”
os homens, porém uma falta humana fez com que voltassem a seu mun- ou “ancião”) se as circunstâncias da vida dessa criança parecerem retros-
do. O longo isolamento entre deuses e homens deu origem a uma barreira pectivas ou o sinal de uma reencarnação. Segundo Soyinka, esse princí-
intransponível entre eles, uma espécie de intrincada floresta feita de ma- pio contribui para uma harmonização social, já que atenua as geralmente
téria e não matéria. Angustiados com a sensação de incompletude devido inflexíveis hierarquias etárias características das sociedades tradicionais.
à separação, os deuses sentiram a necessidade de se ligarem novamente A coexistência e a interdependência desses três mundos impedem a
aos homens. O único que conseguiu a façanha de destruir a barreira entre emergência de qualquer noção de centro. Na verdade, o fato de os mun-
os mundos foi Ogum, que, usando o primeiro instrumento, feito de ferro, dos não serem considerados entidades distintas, está associado à visão
abriu caminho para si e para os outros deuses, restabelecendo o contato holística do Universo, que se baseia na ideia de totalidade cósmica: o ho-
entre deuses e homens. Devido a uma falta trágica, contada em outro mito, mem recebe sua essência do Grande Ancestral e com ela participa da to-
Ogum é obrigado a repetir essa viagem anualmente em favor dos homens, talidade de uma consciência universal que inclui todos os seres. A vida e
mantendo sempre aberto um canal de comunicação entre os mundos. a morte são partes integrantes de um continuum: o homem tem em si a
A noção de tempo cíclico presente na viagem periódica de Ogum refle- essência divina que lhe confere não só a espiritualidade e o poder criati-
te-se no seu emblema, a serpente que morde a própria cauda, represen- vo, mas também a possibilidade de, ao findar a vida, passar para o mun-
tando a condenação eterna à repetição, os ciclos contínuos de criação do dos espíritos e então agir como uma força positiva sobre os vivos. Os
e destruição e a recorrência dos padrões humanos de comportamento. mortos, os vivos e os ainda por nascer compõem a ordem cíclica eterna.
A imagem da serpente e a ideia de eterno retorno estão marcadas pela O sangue, a principal força entre os vivos, une-os aos mortos, de modo
noção de fatalidade inerente à figura do círculo: a serpente engole a pró- que nenhuma família diminui: os ancestrais, transformados em divinda-
pria cauda e um novo ciclo recomeça. Embora Soyinka [escritor nigeriano des menores, ligam-se pelo sangue a seus descendentes e funcionam
vencedor do Prêmio Nobel de 1986] chame a atenção para o fato de que como seus guias e protetores. Em suma, uma comunhão, uma linha ativa
não se trata do eterno retorno do mesmo, mas do retorno com uma di- de comunicação mantém os três mundos interligados: a cerimônia de li-
ferença, ele sente que, para expressar com maior precisão suas ideias, bação ou invocação junta os mortos, os vivos e os não nascidos e, através
a serpente de Ogum precisa ser traduzida para uma metáfora semelhan- do ritual, renova os laços que unem todos os seres.
te, porém mais aberta e livre. Daí sua escolha de uma imagem ocidental Os rituais servem, assim, para transformar o que poderia ser um es-
equivalente à serpente de Ogum para representar o sistema de pensa- paço intransponível entre os mundos – chamado por Soyinka de gulf ou
mento iorubá e sua própria cosmovisão: a Faixa de Möbius, uma inter- abyss – em “canais de força”, que estabelecem uma ligação contínua
pretação pessoal do mito de Ogum e de uma visão holística do Universo. entre eles. Essa concepção cosmológica depende da existência do tem-
Geralmente representada pelo sinal grego de infinito (∞), a Faixa de po ritual, que cria um intervalo em que o passado é momentaneamente
Möbius indica uma sequência sem princípio nem fim, portanto, sem um negado, suspenso ou anulado e em que o futuro ainda não começou. É
centro fixo, constituindo uma perfeita imagem de descentramento e de essa suspensão do tempo que torna possível juntar o passado e o futuro
relações não hierarquizadas. Sendo uma imagem da unidade na diversi- num longo presente. [...]
dade, a Faixa de Möbius representa o que Soyinka chama de “consciên- Partindo da função principal de Ogum, a de mediador entre os vários ní-
cia do entrelaçamento cósmico” presente na cosmovisão africana, isto é, veis da existência, a relação com Soyinka é clara: sujeito cultural híbrido,
a consciência da interdependência entre todas as coisas e a ideia do Uni- Soyinka transita entre as tradições, incorporando-as e organizando-as em
verso como uma rede de relações. [...] novas combinações. O resultado só pode ser também híbrido, como o fer-
Nas sociedades tradicionais o tempo é um fenômeno bidimensional, ro de que Ogum faz seu machado: “uma fusão de energias elementares”,
composto de um longo passado, o presente e, virtualmente, nenhum fu- “uma força que junta corpos e propriedades díspares”, como o projeto de
turo. O conceito ocidental de tempo, representado graficamente pela fle- unir as tradições africanas à tradição ocidental e, eventualmente, a outras.
cha e caracterizado por um passado indefinido, o presente e um futuro Como Ogum, Soyinka se faz e trabalha na passagem, na transição,
infinito, opõe-se ao sistema de pensamento tradicional que praticamente no “espaço cultural intersticial”, nas palavras de Abdul Jan Mohamed; na
ignora o futuro: como os acontecimentos futuros ainda não se tornaram “liminaridade” ou “inscrição dupla”, na “dimensão internacional” da cul-
realidade, não constituem tempo propriamente. Os eventos que certa- tura, nos termos de Homi Bhabha. Afinal, na dimensão transnacional do
mente ocorrerão e aqueles que integram o inevitável ritmo da natureza mundo contemporâneo, diz H. Bhabha, não se pode mais opor dentro/
são considerados como tempo potencial, e não real; na verdade, apenas fora. As fronteiras foram substituídas pelos espaços intersticiais “através
o presente tem valor intrínseco. [...] dos quais se negociam os sentidos da autoridade cultural e política”. As-
Também ao contrário da concepção ocidental, nas sociedades tradi- sim, a função do artista e do intelectual acaba sendo funcionar como o
cionais africanas o tempo não se mostra como mudança e sucessão, mas que Gayatri Spivak e Trinh Minh-Ha chamam de shuttle, termo que pode
como o contínuo fluir de um presente permanente que abrange todos os ser tornado em seu sentido duplo, tanto como naveta ou lançadeira de
tempos. Segundo Soyinka, a cosmologia iorubá distingue três realidades máquina de tecelagem (a peça que leva o fio de um lado para o outro)
simultâneas: o mundo dos vivos, o dos mortos/das divindades e o dos quanto como veículo que faz um trajeto de ida e volta numa rota curta
que ainda vão nascer. Esses três mundos não constituem entidades se- (shuttle bus espace shuttle, por exemplo). [...]
paradas, já que o sistema de pensamento iorubá baseia-se na simulta- A descolonização faz-se, assim, não pela recusa da cultura colonial, mas
neidade dos tempos, o que faz com que os mortos, os vivos e os não nas- pela sua “assimilação inquieta e insubordinada, antropófaga” e pela es-
cidos habitem um tempo em que a periodicidade é ignorada. [...] colha de um lugar enunciativo “terceiro”: um entre-lugar. É essa posição
Como os três mundos são igualmente antigos e importantes – na ver- liminar que vai caracterizar o discurso de Wole Soyinka, sujeito cultural em
dade eles coexistem – os vários níveis de existência são percebidos como trânsito permanente como o orixá Ogum, num mundo construído como a
interligados, o que acaba por afetar os princípios sociais, fazendo com cosmovisão iorubá, imagem tanto de descentramento quanto de relação.

XXVIII HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


IDENTIDADES AFRICANAS põem uma identidade: que podemos escolher, dentro de limites amplos
instaurados pelas realidades ecológicas, políticas e econômicas, o que
APPIAH, K. A. Na casa de meu pai: a África na filosofia da cultura. Rio de Janeiro: significará ser africano nos anos vindouros. [...]
Contraponto, 1997. p. 241-251. Penso que existem três lições cruciais a serem aprendidas através
desses casos. Primeiro, que as identidades são complexas e múltiplas,
Toda identidade humana é construída e histórica; todo o mundo tem
e brotam de uma história de respostas mutáveis às forças econômicas,
seu quinhão de pressupostos falsos, erros e imprecisões que a cortesia
políticas e culturais, quase sempre em oposição a outras identidades.
chama de “mito”, a religião, de “heresia”, e a ciência, de “magia”. Histó-
Segundo, que elas florescem a despeito do que antes chamei de nosso
rias inventadas, biologias inventadas e afinidades culturais inventadas
“desconhecimento” de suas origens, isto é, a despeito de terem suas ra-
vêm junto com toda identidade; cada qual é uma espécie de papel que ízes em mitos e mentiras. E terceiro, que não há, por conseguinte, muito
tem que ser roteirizado, estruturado por convenções de narrativa a que o espaço para a razão na construção – em contraste com o estudo e a ad-
mundo jamais consegue conformar-se realmente. ministração – das identidades. [...]
Muitas vezes, quem diz isto – quem nega a realidade biológica das ra- Por fim, eu gostaria de sugerir que realmente não surpreende que uma
ças ou a verdade literal de nossas ficções nacionais – é tratado pelos na- identidade continental esteja se transformando numa realidade cultural e
cionalistas e pelos “adeptos da raça” como se estivesse propondo o ge- institucional através de organizações regionais e sub-regionais. Compar-
nocídio ou a destruição das nações, como se, ao dizer que literalmente timos um continente e seus problemas ecológicos; compartimos uma re-
não existe uma raça negra, estivesse obliterando todos aqueles que afir- lação de dependência perante a economia mundial; compartimos o pro-
mam ser negros, e, ao duvidar da história de Okomfo Anokye, estivesse blema do racismo, na maneira como o mundo industrializado pensa em
repudiando a nação achanti. Essa é uma hipérbole que não ajuda; mes- nós (e permitam-me incluir aqui, explicitamente, a África “negra” e a “ma-
mo assim, deve haver contextos em que uma afirmação dessas verdades grebina”); compartimos as possibilidades de desenvolvimento dos mer-
é politicamente inoportuna. Sou aplicado o bastante para me sentir atra- cados regionais e dos circuitos locais de produção; e nossos intelectuais
ído pela enunciação da verdade, mesmo que o mundo venha abaixo; e participam, através das contingências comuns de nossas histórias diver-
sou animal político o bastante para reconhecer que há lugares em que a sas, de um discurso cujos contornos tentei delinear neste livro.
verdade prejudica mais do que ajuda. [...] diz um provérbio akan: o crocodilo não morre embaixo d’água para
Mas, pelo que posso ver, não temos que optar entre esses impulsos: que possamos chamar o macaco para celebrar seu funeral. Cada um de nós,
não há razão para crer que o racismo seja sempre – ou mesmo usual- pode-se usar o provérbio para dizer, pertence a um grupo com costumes
mente – promovido pela negação da existência das raças; e, embora haja próprios. Admitir que a África, sob esses aspectos, possa ser uma identida-
uma certa razão para desconfiar que os que resistem aos remédios legais de utilizável é não esquecer que todos pertencemos a comunidades diver-
para a história do racismo poderiam utilizar a inexistência das raças para sificadas, com seus costumes locais; é não sonhar com um Estado africano
se posicionar – nos Estados Unidos, por exemplo – contra uma ação afir- único e esquecer as trajetórias complexamente diferentes das inúmeras lín-
mativa, essa estratégia, em matéria de lógica, encontra uma oposição fá- guas e culturas do continente. “Africano” certamente pode ser uma insígnia
cil. Pois, como nos lembra Tzvetan Todorov, a existência do racismo não vital e capacitadora; mas, num mundo de sexos, etnicidades, classes e lín-
requer a existência de raças; podemos acrescentar que as nações são guas, de idades, famílias, profissões, religiões e nações, mal chega a sur-
bem reais, por mais inventadas que sejam suas tradições. preender que haja ocasiões em que ela não é o rótulo de que precisamos.
Levantar a questão de saber se essas verdades são verdades a serem
enunciadas é ser forçado a encarar de frente a verdadeira questão políti- UM RENASCIMENTO AFRICANO?
ca: a questão, tão velha quanto a filosofia política, de quando devemos
endossar a mentira enobrecedora. No mundo real da prática política, das M’BOKOLO, E. África Negra: história e civilizações (do século XIX aos nossos dias).
alianças cotidianas e das mobilizações populares, uma rejeição das raças Salvador/São Paulo: EDUFBA/Casa das Áfricas, 2011. Tomo II. p. 704-710.

e nações, na teoria, só pode fazer parte do projeto de uma prática políti-


ca coerente se pudermos mostrar mais do que o fato de que a raça negra 1. Os agrupamentos regionais
– ou a tribo chona, ou qualquer dos outros modos de autoinvenção que Com efeito, mantendo-se ciosamente fiéis à sua soberania, os Estados
a África tenha herdado – enquadra-se no padrão comum de se basear africanos tinham-se empenhado na constituição de agrupamentos de vo-
em algo menor do que a verdade literal. Precisaríamos mostrar, não que cação técnica, monetária e financeira, econômica e política bastantes nu-
a raça e a história nacional são falsidades, mas que elas são, na melhor merosos à escala das diferentes regiões ou “sub-regiões”. No contexto
das hipóteses, falsidades inúteis, ou – na pior – perigosas: que um outro dos anos 1980 e 1990, só duas comunidades demonstraram alguma
conjunto de histórias nos construirá identidades através das quais possa- eficácia: a CEDEAO (Comunidade Econômica dos Estados da África Oci-
mos fazer alianças mais produtivas. [...] dental, ECOWAS em inglês) e a SADCC (Comunidade de Desenvolvimen-
A “raça” nos incapacita porque propõe como base para a ação comum to da África Austral), cujo dinamismo iria servir para o relançamento da
a ilusão que as pessoas negras (e brancas e amarelas) são fundamental- ideia pan-africana.
mente aliadas por natureza e, portanto, sem esforço; ela nos deixa des- Formada em 1975 pelo conjunto dos Estados independentes da África
preparados, por conseguinte, para lidar com os conflitos “intrarraciais” Ocidental (que eram 15 na altura, tendo-se-lhes juntado Cabo Verde, após
que nascem das situações muito diferentes dos negros (e brancos e ama- a sua separação da Guiné-Bissau), a CEDEAO foi a primeira estrutura de
relos) nas diversas partes da economia e do mundo. [...] integração a superar efetivamente as clivagens entre países “anglófonos”,
Para que uma identidade africana nos confira poder, o que se faz ne- “francófonos” e “lusófonos” herdadas da colonização a tentar federar as
cessário, eu creio, não é tanto jogarmos fora a falsidade, mas reconhe- energias de Estados muito diversos pela dimensão, pela história e pelas es-
cermos, antes de mais nada, que a raça, a história e a metafísica não im- truturas políticas e econômicas. A CEDEAO foi criada apesar das reticências

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano XXIX


de alguns Estados “francófonos” que mantinham ligações estreitas com a blica Democrática do Congo (1997). A coexistência no seio deste conjun-
França e que tinham entre si poderosos laços econômicos e financeiros no to de Estados que dispunham de industrias mais ou menos fortes (África
quadro da Comunidade Econômica da África Ocidental (CEAO), à qual su- do Sul e Zimbabwe), de Estados mineiros (Angola, Congo-Kinshasa, Na-
cedeu em 1994 a União Econômica e Monetária Oeste-Africana. Este su- míbia e Zâmbia) e de países agrícolas parecia promissora para o seu fu-
cesso teve como principal artesão a Nigéria: apoiando-se no seu peso de- turo econômico. Mas, em virtude das suas origens, as preocupações po-
mográfico e econômico, graças ao petróleo, a Nigéria pôs em prática uma líticas assumiram nela um lugar de primeiro plano.
diplomacia ativa, feita de pressões e promessas, para obter a adesão de Foram precisamente as questões políticas que puseram a SADC à prova.
todos os Estados oeste-africanos. O projeto recebeu também o apoio de- A criação, em 1996, de um “Órgão de Política, Defesa e Segurança” não
cidido do Togo e dos empresários do setor privado reunidos no seio da Fe- conseguiu obter a unanimidade. E, sobretudo, a guerra na República De-
deração Oeste-Africana das Câmaras de Comércio. mocrática do Congo opôs, a partir de 1998, os Estados que acorreram em
O tratado fundador de 1975 limitava o seu campo de ação à econo- auxílio do Estado congolês (Angola, Namíbia, Zimbabwe) aos que observa-
mia, adotando como objetivo “a promoção da cooperação e do desen- vam, oficialmente, uma prudente expectativa. O mesmo se passou com a
volvimento em todos os campos da atividade econômica”, de maneira a atitude a assumir face à politica de expropriação fundiária conduzida pelo
dar aos Estados a capacidade de contarem com as suas próprias forças. governo do Zimbabwe relativamente aos agricultores brancos, que emba-
Em 1979, juntou-se a isto a livre circulação no interior do espaço comum raçava outros Estados da SADC, em especial a África do Sul e a Namíbia:
dos cidadãos de todos as Estados-membros, bem como das mercadorias estes haviam herdado do seu passado colonial estruturas agrárias tão pro-
e dos capitais. Em 1981, foi aceito pelos Estados-membros um protocolo fundamente inigualitárias como as do Zimbabwe e temiam um efeito de
de não agressão, tendo a maioria deles (13 no total) assinado um pacto contágio. Por último, a gravidade da epidemia da Aids, com taxas de soro-
de assistência mútua em matéria de defesa. A revisão do Tratado, reali- positividade superiores a 25% (África do Sul), ou ate 33% (Botswana, Swa-
zada em 1993, alargou consideravelmente os domínios da cooperação zilândia, Zimbabwe), constituía um grave desafio para o futuro. Contudo, o
em matéria econômica e integrou explicitamente a cooperação política. peso da África do Sul (33% da população da SADC, 75% do seu PNB) so-
Passava a tomar-se como objetivos construir um mercado comum, ado- mada ao ativismo e a eficácia da sua diplomacia africana fazia da organi-
tar uma moeda única e estabelecer um parlamento oeste-africano, bem zação uma das zonas de integração mais promissoras na África. Esse país
como um conselho econômico e social e um tribunal de justiça da CEDE- iria desempenhar, como a Nigéria, um papel de primeiro plano no relança-
AO, objetivos que não ficaram letra morta, embora não tenham faltado os mento da dinâmica unitária a escala continental.
obstáculos que retardaram a sua realização, em especial, a considerável
2. Da OUA à União Africana: a África e os desafios africanos do
extensão do espaço econômico assim constituído, as múltiplas contradi-
século XXI
ções e defeitos de ajustamento entre três legados coloniais, a desarticu-
lação das redes de comunicação, a manutenção de relações comerciais De fato, o novo contexto – caracterizado por aspirações sociais premen-
preferenciais com as antigas potências coloniais e a mediocridade das tes, por conflitos de tipo novo no interior dos Estados e entre os Estados,
trocas comerciais entre os parceiros, a violação frequente dos princípios por mutações rápidas à escala da economia mundial e no funcionamen-
da livre circulação pelos Estados sempre ciosos da sua soberania, bem to dos Estados africanos, pela renovação gradual das equipes dirigentes
como o medo frequentemente agitado de ver a Nigéria exercer a sua so- – acelerou o processo de integração, obrigando a OUA a conceber o seu
berania sobre o conjunto. aggiornamento e suscitando projetos pan-africanos alternativos.
Mesmo assim, a CEDEAO conseguiu dar origem a numerosas institui- Já em 1979 os responsáveis africanos tinham acordado criar um co-
ções econômicas, financeiras, sociais e culturais a escala oeste-africana mitê de revisão da Carta da OUA. Em 1980, uma alteração à Carta pro-
e, sobretudo, mostrou-se muito ativa na gestão dos conflitos e na manu- pôs-se definir três novas missões essenciais: a manutenção da paz e da
tenção da segurança. segurança, a proteção dos direitos humanos e a rápida resolução das
Com efeito, logo que a guerra civil na Libéria foi declarada, a CEDEAO crises. A mudança de atitude dos chefes de Estado só se tornou percep-
propôs-se em 1990 atuar como mediadora e mobilizar tropas dos Esta- tível em 1990, no auge do surto de democratização, quando adotaram
dos-membros para garantir um cessar-fogo e a manutenção da paz. Cria- a “Declaração sobre a situação socioeconômica na África e as mudanças
do na altura, o ECOMOG (Grupo de Observadores Militares da CEDEAO) fundamentais que estão ocorrendo atualmente no mundo”. Continuando
mais do que sobreviveu às numerosas críticas e prosseguiu ativamente preocupados com as questões relativas a segurança, faziam suas as ima-
as suas intervenções nas crises posteriores por que passaram a Serra gens então em voga sobre a “marginalização da África” e comprometiam-
Leoa e a Costa do Marfim. -se a “trabalhar em conjunto com vista a rápida resolução de todos os
O nascimento da SADC foi quase contemporâneo ao da CEDEAO. Com conflitos que o continente conhece”, dando à OUA os meios adequados
efeito, as suas origens remontam a duas reuniões realizadas em Arusha para “reduzir as tensões e resolver os conflitos existentes na África, com
(1979) e em Lusaka (1980), durante as quais os “Estados da Linha da o objetivo último de criar as condições de paz, de estabilidade e de jus-
Frente” (Angola, Botswana, Lesoto, Malawi, Moçambique, Namíbia Swa- tiça social que são imprescindíveis para garantir o desenvolvimento eco-
zilândia, Tanzânia e Zâmbia) decidiram constituir a SADCC (Conferência nômico e social dos povos africanos”.
para a Coordenação do Desenvolvimento da África Austral), com o obje- Retomando as ideias mestras do Plano de Ação de Lagos, o tratado de
tivo de harmonizar os seus esforços de desenvolvimento e sobretudo re- Abuja, assinado em 1991, instituía a “Comunidade Econômica Africana” e,
duzir a muito longa dependência das suas economias relativamente a da para garantir a sua aplicação prática, encarregava o secretariado da OUA
África do Sul do apartheid. O colapso do apartheid e a instauração de de trabalhar com todos os Estados-membros com vista a “lançar bases só-
um regime democrático na África do Sul levaram a SADCC a transformar- lidas para as Comunidades Econômicas regionais que deverão servir de pi-
-se em SADC em 1992 e a abrir as portas a novos membros: a África do lares para a Comunidade Econômica Africana”, cuja formação progressiva
Sul (1994), mas também a Ilha Maurícia (1995), as Seychelles e a Repú- deveria estar concluída em 2028. Era, de certa maneira, um regresso às po-

XXX HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


sições de 1963, salvo que agora se assumia claramente a ligação entre os cretariado da defunta OUA. A União Africana retomou a antiga reparti-
agrupamentos regionais e a união continental, da qual aqueles seriam ou- ção da África em cinco “regiões” (Norte, Oeste, Leste, Centro, Sul), mas
tras tantas etapas e simultaneamente um laboratório. Em 1993, o “Meca- acrescentou-lhe uma sexta “região” constituída pelas diásporas africanas
nismo da OUA para a prevenção, a gestão e a resolução de conflitos”, cujo decorrentes do tráfico negreiro e das migrações contemporâneas. Numa
princípio fora adotado no ano anterior, surgiu efetivamente. Mas a acele- altura em que persistiam a crispação nacional e os particularismos étni-
ração dos acontecimentos a nível continental voltou a surpreender os res- cos e religiosos em certos países, constituiu como que um símbolo o fato
ponsáveis africanos. Já assoberbada pela guerra civil da Libéria e pelo con- de a União Africana ter sido lançada em Durban: negros, brancos, india-
flito somali, a OUA apenas pôde assistir passivamente aos conflitos mais nos, mestiços, as diferentes componentes da nação “arco-íris” sul-africa-
graves que o continente conheceu desde a sua independência: o genocí- na acolhiam outros africanos, negros, brancos, mestiços, indianos rea-
dio ruandês (1994) e a guerra do Congo-Kinshasa (1998-2002). firmando assim, no alvorecer do século XXI, os valores da solidariedade
Coube ao chefe de Estado líbio, Mouammar Kadhafi, precipitar a deci- continental que tinham feito a força do pan-africanismo desde o fim da
são que visava substituir a OUA por uma organização mais ambiciosa e Segunda Guerra Mundial. [...]
mais eficaz, a União Africana. Essa decisão foi tomada durante a cúpula Paralelamente à gestação da União Africana, novas propostas emer-
extraordinária reunida por sua iniciativa em Syrte (setembro de 1999). giam com vista a assegurar o desenvolvimento a escala do continente.
Adotado em Lomé em julho de 2000, o Ato Constitutivo entrou em vigor As reflexões organizaram-se em torno de dois projetos, o “Plano Ome-
em maio de 2001 e a União Africana foi solenemente lançada em Dur- ga”, de Abdoulaye Wade, e o “Programa do Milênio para o Renascimento
ban em julho de 2002. A Declaração de Syrte não visava apenas acelerar Africano”, proposto pelos presidentes Abdelaziz Bouteflika, Thabo Mbeki
o processo de união à escala da África. Embora o projeto inicial do seu e Olusegu Obasanjo. Da convergência desses projetos ia nascer a NEPAD
promotor – a criação dos Estados Unidos da África, congregando os 53 (Nova Parceria para o Desenvolvimento da África), adotado pelos chefes
Estados existentes – tenha sido consideravelmente alterado, o advento de Estado africanos em 2001. Renunciando às ambições do Plano de
da União Africana consagrou uma nova abordagem dos problemas da Ação de Lagos (1980), a NEPAD apresentava-se modestamente como
integração, que visava “fazer face aos desafios multiformes com que se um catálogo realista de múltiplos programas concebidos no espírito do
confrontam o nosso continente e os nossos povos, à luz das mudanças liberalismo econômico, social e cultural, suscetíveis de serem financiados
sociais, econômicas e políticas que ocorrem no mundo”. Especial aten- separadamente. Durante esses debates, Thabo Mbeki inspirou-se cons-
ção era dada aos conflitos: segundo o Ato Constitutivo, “o flagelo dos tantemente na experiência vitoriosa dos combatentes da liberdade na
conflitos constitui um obstáculo fundamental ao desenvolvimento socio- África do Sul para voltar a par em relevo a noção de “renascimento africa-
econômico do continente”; é necessário “promover a paz, a segurança no”. [...] Essas afirmações pareceram novas às gerações africanas nasci-
e a estabilidade, como condição prévia à execução da nossa agenda no das apos as independências e surpreenderam o mundo exterior, mas, na
domínio do desenvolvimento e da integração”. realidade, iam beber no viveiro ideológico alimentado constantemente
Para lá do reconhecimento da necessidade de “promover a boa go- desde o século XVIII por numerosos intelectuais, pensadores e homens
vernança e o Estado de direito”, reconhecimento que se tornara habitu- de Estado como Anthony Amo, Edward W Blyden, Nnamdi Azikiwe, Kwa-
al desde o início dos anos 1990, as principais inovações incidiam sobre me Nkrumah, Leopold Sedar Senghor, Julius Nyerere ou Kenneth Kaunda.
vários pontos: a definição de uma política comum de defesa; o direito de A complexidade dos processos sociais e culturais que percorrem a
ingerência dos Estados-membros num país da União culpado de crimes África desde as independências constitui um dos sinais mais seguros da
contra a humanidade; o direito de intervir para restabelecer e manter a vitalidade do continente. Hoje como ontem, a África negra, vista do ex-
paz e a segurança num Estado-membro, a pedido deste; a participação terior, continua a suscitar imagens contraditórias. Concebidas por olha-
nos assuntos da União de “todas as componentes da sociedade civil, em res estrangeiros, na sua maioria apressadas, prisioneiras do espetacu-
especial as mulheres, os jovens e o setor privado”; a instauração, tanto à lar, sensíveis aos dramas do cotidiano, impressionadas pela sucessão e
escala da União como dos Estados, da igualdade efetiva entre os homens pela precipitação dos acontecimentos, essas percepções, o mais das ve-
e as mulheres. Os responsáveis africanos declaravam que se inspiravam zes, foram negativas e pessimistas quanta ao futuro do mundo negro.
no modelo da União Europeia. Contudo, decidiram admitir sem qualquer Ora, não temos razão para nos desesperar pela África. Sem menospre-
condição todos os antigos membros da OUA, sem consideração pelo es- zar a crônica do tempo curto e dos acontecimentos que passam, o olhar
tado da sua economia, nem por sua observância das regras do Estado de perscrutador do historiador tende a demorar-se em períodos de maior
direito. Ao proclamar que seria uma união dos povos e não uma simples duração, no interior dos quais os fatos ganham sentido. A efervescência
união dos Estados, a União Africana pretendia não ser uma mera repeti- perceptível a todos os níveis da vida social na África prende-se com um
ção da defunta OUA. prazo mais longo caracterizado por uma vontade tenaz de sobreviver às
Assim, os Estados deveriam transferir algumas das suas competências provações mais temerosas, como o tráfico negreiro e o choque colonial,
para a União nos domínios prioritários em que iam ser rapidamente im- por uma capacidade permanente de inovar, tanto com os recursos pró-
plementadas políticas comuns: paz e segurança continentais; integração prios, como recorrendo a recursos bebidos no exterior, numa palavra, por
das economias e coordenação das políticas e das ações de desenvolvi- uma aptidão constante para surpreender. As numerosas atitudes indivi-
mento; segurança alimentar e erradicação da pobreza; proteção do am- duais aliadas a estratégias coletivas foram e continuam a ser os procedi-
biente; luta contra as epidemias e pandemias; liberdade de circulação mentos inventados para contornar as falências econômicas, para evitar,
dos homens, dos bens e dos capitais. Além disso, um parlamento repre- contestar e rejeitar a pesada tutela de Estados ditatoriais ou ainda para
sentante dos povos participaria plenamente na tomada de decisões re- afirmar raízes e identidades múltiplas. Assim, contra o desencanto, ao
lativas à governança, ao desenvolvimento e a integração econômica. Se- observarmos o movimento real das sociedades africanas, cabe procla-
guindo o modelo europeu, instituiu-se também uma comissão, órgão mar hoje, como em outros tempos o declarou François Rabelais: “A África
chave da organização dotado de poderes mais extensos do que o se- sempre traz alguma coisa nova.”

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano XXXI


to e realização que estão expressos, por exemplo, nos “Monumenta Ger-
TEÓRICOS E METODOLÓGICOS maniae historica”, e marcados, segundo ele, não pela chancela da ciên-
cia, mas pela do patriotismo.
SOBRE DOCUMENTOS HISTÓRICOS Pode-se, então, falar do triunfo do documento sobre o monumento.
Lento triunfo. Quando, no final do século XVII, Mabillon publica o seu De
LE GOFF, J. “Documento/Monumento”. História e memória. Lisboa: Ed. 70, 2000. re diplomatica [1681], fundamento da história “científica” que aceita-
v. 2. p. 103-115.
rá utilizar criticamente o documento e de certa maneira criá-lo, trata-se
apenas ainda de monumento. [...]
1. Os materiais da memória coletiva e da história
2. O século XX: do triunfo do documento à revolução
A memória coletiva e a sua forma científica, a história, aplicam-se a
documentária
dois tipos de materiais: os documentos e os monumentos.
De fato, o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passa- Com a escola positivista, o documento triunfa. O seu triunfo, como bem
do, mas uma escolha feita quer pelas forças que operam no desenvolvi- o exprimiu Fustel de Coulanges, coincide com o do texto. A partir de en-
mento temporal do mundo e da humanidade, quer pelos que se dedicam tão, todo o historiador que trate de historiografia ou do ofício de historia-
à ciência do passado e dos tempos passados, os historiadores. dor recordará que é indispensável o recurso ao documento. [...]
Tais materiais da memória podem apresentar-se sob duas formas prin- Os fundadores da revista Annaies d’histoire économique et sociale
cipais: os monumentos, herança do passado, e os documentos, esco- (1929), pioneiros de uma nova história, insistiram sobre a necessidade
lha do historiador. de alargar a noção de documento: “A história faz-se com documentos es-
A palavra latina monumentum remete para a raiz indo-europeia men, critos, sem dúvida. Quando estes existem. Mas pode fazer-se, deve fazer-
que exprime uma das funções essenciais da mente (mens), a memória -se sem documentos escritos, quando não existem. Com tudo o que a
(memini). O verbo monere significa “fazer recordar”, donde “avisar”, “ilu- inventiva do historiador lhe permite utilizar para fabricar o seu mel, na
minar”, “instruir”. O monumentum é um sinal do passado [...] falta de flores apropriadas. Logo com palavras. Marcas. Paisagens e te-
As características do monumento são ligar-se à capacidade voluntária lhas. Com as formas do campo e das ervas. Com os eclipses da Lua e os
ou involuntária – de perpetuar as sociedades históricas (é um legado à arreios dos cavalos de tiro. Com os exames de pedras feitos pelos geó-
memória colectiva) e reenviar para testemunhos que só numa parcela mí- logos e com as análises de metais feitas pelos químicos. Numa palavra,
nima são testemunhos escritos. com tudo o que, pertencendo ao homem, depende do homem, serve o
O termo latino documentum, derivado de docere, “ensinar”, evoluiu homem, exprime o homem, demonstra a presença, a atividade, os gostos
para o significado de “prova” e é amplamente usado no vocabulário le- e as maneiras de ser do homem. Toda uma parte, e sem dúvida a mais
gislativo. É no século XVII que se difunde, na linguagem jurídica francesa, apaixonante do nosso trabalho de historiadores, não consistirá num es-
a expressão titres et documents e o sentido moderno de testemunho forço constante para fazer falar as coisas mudas, para fazê-las dizer o que
histórico data apenas do início do século XIX. O significado de “certidão elas por si próprias não dizem sobre os homens, sobre as sociedades que
justificativa”, especialmente no domínio policial, por exemplo, demons- as produziram, e para constituir, finalmente, entre elas, aquela vasta rede
tra a origem e a evolução do termo. O documento que, para a escola de solidariedade e de entreajuda que supre a ausência do documento
histórica positivista do fim do séc. XIX e do início do século XX, será o escrito?” [Febvre, 1949]. [...]
fundamento do fato histórico, apesar de ser o resultado de uma esco- É uma revolução ao mesmo tempo quantitativa e qualitativa. O interesse
lha, de uma decisão do historiador, parece apresentar-se por si mesmo da memória coletiva e da história já não se cristaliza exclusivamente sobre
como prova histórica. Parece possuir a objetividade que se contrapõe à os grandes homens, os acontecimentos, a história que avança depressa,
intencionalidade do monumento. Além de mais, afirma-se essencialmen- a história política, diplomática, militar. Interessa-se agora por todos os ho-
te como um testemunho escrito. mens, suscita uma nova hierarquia mais ou menos implícita dos documen-
No final do século XIX, Fustel de Coulanges pode ser tomado como um tos; por exemplo, coloca em primeiro plano, para a história moderna, o re-
testemunho válido de como documento e monumento se transforma- gistro paroquial que conserva para a memória todos os homens [...]
ram para os historiadores. Os dois termos encontram-se, por exemplo, nas Da confluência destas duas revoluções nasce a história qualitativa,
clássicas páginas do primeiro capítulo de La monarchie franque [1888]: que repõe em discussão a noção de documento e o seu tratamento. De-
“Leis, cartas, fórmulas, crónicas e histórias, é preciso ter lido todas estas sejada em primeiro lugar pelos historiadores da economia, obrigados a
categorias de documentos sem omitir uma única... Encontraremos no cur- tomar como documentos de base séries de verbas ou de dados numéri-
so destes estudos várias opiniões modernas que não se apoiam em do- cos [cf. Marczewski, 1961], introduzida depois na arqueologia [cf. Gardin,
cumentos; deveremos estar em condições de afirmar que não são confor- 1971] e na história da cultura [cf., por exemplo, Furet e Ozouf, 1977], a
mes a qualquer texto, e por esta razão não nos cremos com o direito de história quantitativa altera o estatuto do documento. “O documento, o
aderir a elas. A leitura dos documentos não serviria, pois, para nada se dado, já não existem por si próprios, mas em relação com a série que os
fosse feita com ideias preconcebidas... A sua única habilidade (do histo- precede e os segue, é o seu valor relativo que se torna objectivo e não a
riador) consiste em extrair dos documentos tudo o que eles contêm e em sua relação com uma inapreensível entidade ‘real’” [Furet, 1974].
não lhes acrescentar nada do que eles não contêm. O melhor historiador A intervenção do computador permite uma nova periodização na me-
é aquele que se mantém o mais próximo possível dos textos”. mória histórica: produz-se, a partir de então, um corte fundamental no mo-
É claro que para Fustel, como para a maior parte dos historiadores em- mento em que se podem formar séries [sobre a história serial, entre os
bebidos de um espírito positivista, vale: documento = texto. A esta his- seus numerosos escritos, cf. Chaunu, 1972]; tem-se, doravante, uma idade
tória, fundada em documentos que se impõem por si próprios, Fustel de pré-estatística e uma idade quantitativa. Mas é necessário observar que,
Coulanges opõe o espírito e a realização da história erudita alemã; espíri- se este corte corresponde a um grau de diferença das sociedades históri-

XXXII HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


cas em relação ao levantamento estatístico – indiferença ou desconfiança Confrontando os textos latinos e os testemunhos em língua vulgar da
em relação ao número, por um lado, atenção sempre maior e mais precisa, época, Paul Zumthor quase identificou escrito e monumento: “O escrito,
por outro –, a história quantitativa, como o demonstra a arqueologia, pode o texto é mais frequentemente monumento do que documento”. Mas,
transpor alegremente esta fronteira histórica. Porque a história quantitativa mais adiante, admite “que houve monumentos a nível de expressão vul-
não é nem uma revolução puramente tecnológica, nem a consequência da gar e oral” e que existiram “tradições monumentais orais” [ibid.]. O que
importância assumida pelo número na história. Não é imposta nem pelo distingue a língua monumental da língua documental é “esta elevação,
computador nem pelo passado. Como observa Glénisson, no século XIX, esta verticalidade” que a gramática confere a um documento, transfor-
no início estava o documento; hoje, no início está o problema. É uma “revo- mando-o em monumento. Por isso, a língua vulgar, que provisoriamen-
lução da consciência historiográfica” [Furet, 1974]. te permaneceu no plano documental, só pouco a pouco se transformará
A revolução documentária tende também a promover uma nova uni- em “francês monumental” [ibid.]. Por outro lado, duas observações de Zu-
dade de informação: em lugar do facto que conduz ao acontecimento e mthor conduzem-nos ao centro do problema. “O futuro ‘francês’ foi iden-
a uma história linear, a uma memória progressiva, ela privilegia o dado, tificado como uma entidade linguística particular na medida em que pas-
que leva à série e a uma história descontínua. Tornam-se necessários no- sou... conforme as necessidades do verdadeiro direito do rei, ao estado
vos arquivos, onde o primeiro lugar é ocupado pelo corpus, a fita mag- monumental”. E ainda: “O testemunho dos monumentos mais numero-
nética. A memória coletiva valoriza-se, organiza-se em patrimônio cultu- sos, mais antigos e mais explícitos revela-nos quanto deve ter influído, na
ral. O novo documento é armazenado e manejado nos bancos de dados. tomada de consciência linguística da Alta Idade Média, a revolução polí-
Surge uma nova ciência que balbucia ainda e que deve responder simul- tica que então se operava nos reinos mais orgânicos da România: Gália
taneamente às exigências do computador e à crítica da sua sempre cres- merovíngia, Espanha visigótica, Lombardia” [ibid.].
cente influência sobre a memória coletiva. Assim, Paul Zumthor descobria o que transforma o documento em mo-
numento: a sua utilização pelo poder. Mas hesitava em transpor o fosso
3. A crítica dos documentos: em direção aos documentos/ que consistia em reconhecer em todo o documento um monumento. Não
monumentos
existe um documento objetivo, inócuo, primário. A ilusão positivista (que,
Não nos devemos contentar com esta verificação da revolução docu- bem entendido, era produzida por uma sociedade cujos governantes ti-
mentária e com uma reflexão crítica sobre a história quantitativa de que nham interesse em que não houvesse mudanças), a qual via no docu-
esta revolução é o aspecto mais espetacular. Recolhido pela memória co- mento uma prova de boa-fé, desde que fosse autêntico, pode muito bem
letiva e transformado em documento pela história tradicional (“na histó- encontrar-se ao nível dos dados mediante os quais a atual revolução do-
ria, tudo começa com o gesto de pôr de parte, de reunir, de transformar cumentária tende a substituir os documentos.
em ‘documentos’ certos objectos catalogados de outro modo”, como es- A concepção do documento/monumento é, pois, independente da re-
creve Certeau [1974]), ou transformado em dado nos novos sistemas de volução documentária e entre os seus objetivos está o de evitar que esta
montagem da história serial, o documento deve ser submetido a uma crí- revolução necessária se transforme num derivativo e desvie o historiador
tica mais radical. [...] do seu dever principal: a crítica do documento – qualquer que ele seja –
Mas os fundadores dos “Annales” davam início a uma crítica em pro- enquanto monumento. O documento não é uma mercadoria invendida do
fundidade da noção de documento. “Os historiadores ficam passivos, de- passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações
masiado frequentemente, perante os documentos, e o axioma de Fustel de força que nela detinham o poder. Só a análise do documento enquanto
(a história faz-se com textos) acaba por se revestir para eles de um senti- documento permite à memória coletiva recuperá-lo e ao historiador usá-lo
do deletério”, afirmava Lucien Febvre [1933], que lamentava não já a au- cientificamente, isto é, com pleno conhecimento de causa.
sência de sentido crítico nos historiadores – que praticavam todos, mais Michel Foucault [1969] colocou a questão em termos duros. Antes de
ou menos, a crítica dos documentos preconizada pela École des Chartes mais, ele declara que os problemas da história se podem resumir numa
e a história positiva do século XIX –, mas o fato de que se pusesse em só palavra: “o processo ao documento”. E logo recorda: “O documento
discussão o documento enquanto tal. Por isso, Marc Bloch teria escrito: não é o feliz instrumento de uma história que seja em si própria, e com
“Não obstante o que por vezes parecem acreditar os principiantes, os pleno direito, memória: a história é um certo modo que uma sociedade
documentos não aparecem, aqui ou ali, pelo efeito de um qualquer im- tem de dar estatuto e elaboração a uma massa documentária da qual
perscrutável desígnio dos deuses. A sua presença ou a sua ausência num não se separa” [ibid.].
fundo arquivístico, numa biblioteca, num terreno, dependem de causas Segue-se-lhe a definição de revolução documentária em profundidade e
humanas que não escapam de forma alguma à análise, e os problemas da nova tarefa que se apresenta ao historiador: “A história, na sua forma tra-
postos pela sua transmissão, longe de serem apenas exercícios de técni- dicional, dedicava-se a ‘memorizar’ os monumentos do passado, a trans-
cos, tocam, eles próprios, no mais íntimo da vida do passado, pois o que formá-los em documentos e em fazer falar os traços que, por si próprios
assim se encontra posto em jogo é nada menos do que a passagem da muitas vezes não são absolutamente verbais, ou dizem tacitamente coisas
recordação através das gerações” [1941/42]. diferentes do que dizem explicitamente; hoje, pelo contrário, a história é
Mas era necessário ir mais longe. que transforma os documentos em monumentos e que, onde dantes se de-
Já Paul Zumthor [1960] tinha aberto a via a novas relações entre docu- cifravam traços deixados pelos homens e se descobria em negativo o que
mento e monumento. Tratando-se de um muito pequeno número de tex- eles tinham sido, apresenta uma massa de elementos que é preciso separar,
tos, os mais antigos em língua francesa (século VIII/IX), ele propôs uma reagrupar, tornar pertinentes, relacionar, constituir em conjunto” [ibid.] [...]
distinção entre os monumentos linguísticos e os simples documentos. Os A intervenção do historiador que escolhe o documento, extraindo-o
primeiros respondem a uma intenção de edificação, “no duplo significado do conjunto dos dados do passado, preferindo-o a outros, atribuindo-
de elevação moral e de construção de um edifício”, ao passo que os segun- -lhe um valor de testemunho que, pelo menos em parte, depende da
dos respondem “apenas às necessidades da intercomunicação corrente”. própria posição na sociedade da sua época e da sua organização men-

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano XXXIII


tal, insere-se numa situação inicial que é ainda menos “neutra” do que de apreensão de narrativas feita por meio de meios eletrônicos e desti-
a sua intervenção. O documento não é inócuo. Antes de mais, é o re- nada a recolher testemunhos, promover análises de processos sociais
sultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, da do presente e facilitar o conhecimento do meio imediato. A formulação
época, da sociedade que o produziu, mas também das épocas suces- de documentos mediante registros eletrônicos é um dos objetivos da
sivas durante as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as história oral que, contudo, podem também ser analisados a fim de fa-
quais continuou a ser manipulado, também pelo silêncio. O documento vorecer estudos de identidade e memória cultural.
é uma coisa que fica, que dura, e o testemunho, o ensinamento (para A História oral é um conjunto de procedimentos que se iniciam com a
evocar a etimologia) que traz devem ser em primeiro lugar analisados elaboração de um projeto e continuam com a definição de um grupo de
desmistificando o seu significado aparente. O documento é monumen- pessoas (ou colônias) a serem entrevistadas. O projeto prevê: planeja-
to. É o resultado do esforço realizado pelas sociedades históricas para mento da condução das gravações; transcrição, conferência da fita com
impor ao futuro – voluntária ou involuntariamente – determinada ima- o texto; autorização para o uso; arquivamento e, sempre que possível,
gem de si próprias. No limite, não existe um documento-verdade. Todo publicação dos resultados, que devem, em primeiro lugar, voltar ao gru-
o documento é mentira. po que gerou as entrevistas. [...]
Cabe ao historiador não passar por ingênuo. Os medievalistas, que [...] A História oral mantém um compromisso de registro permanente
tanto trabalharam para construir uma crítica – sempre útil, de fato – do que se projeta para o futuro sugerindo que outros possam vir a usá-la
falso, devem superar esta problemática porque qualquer documento é, de diferentes maneiras; por isso, é importante separar as etapas: grava-
ao mesmo tempo, verdadeiro – incluindo, e talvez sobretudo, os falsos – ções de entrevistas, estabelecimento de textos e, finalmente, suas aná-
e falso, porque um monumento é em primeiro lugar uma roupagem, uma lises. A primeira etapa é obrigatória por ser germinal, a segunda e a ter-
aparência enganadora, uma montagem. É preciso começar por desmon- ceira dependem das determinações estabelecidas no projeto. Pode-se
tar, demolir esta montagem, desestruturar esta construção e analisar as dizer que três elementos constituem a relação mínima da história oral,
condições de produção dos documentos-monumentos. e um não faz sentido sem os outros: 1) o entrevistador; 2) o entrevista-
Ora, esta desmontagem do documento-monumento não pode fazer-se do; 3) a aparelhagem de gravação. Todo projeto de história oral precisa
com o auxílio de uma única crítica histórica. Numa perspectiva de desco- ter no mínimo um diretor ou coordenador, que pode ser também o exe-
brimento dos falsos, a diplomática, cada vez mais aperfeiçoada, cada vez cutante do processo. É comum existir projetos de grande alcance, que
mais inteligente, sempre útil, repetimo-lo, é suficiente. [...] demandam mais de um entrevistador, além de transcritor e revisor. Boa
Mais ainda do que estes múltiplos modos de abordar um documento, parte dos projetos é feita por uma só pessoa, que assume a responsa-
para que ele possa contribuir para uma história total, é importante não bilidade de todas as tarefas. Os entrevistados são as pessoas ouvidas
isolar os documentos do conjunto de monumentos de que fazem parte. em um projeto e devem ser reconhecidos como colaboradores. As esco-
Sem subestimar o texto que exprime a superioridade, não do seu tes- lhas e todos os procedimentos de contato e condução das entrevistas
temunho mas do ambiente que o produziu, monopolizando um instru- devem ser feitos de acordo com o projeto. Comumente se fazem entre-
mento cultural importante, o medievalista deve recorrer ao documento vistas individuais, realizadas com gravadores ou câmaras portáteis, de
arqueológico, sobretudo àquele que utiliza o método estratigráfico, ao preferência com microfones embutidos a fim de tornar menos ostensivo
documento – iconográfico, às provas que fornecem métodos avançados o ato da gravação. [...]
como a história ecológica, que faz apelo à fenologia, à dendrologia, à pa- [...] A presença do passado no presente imediato das pessoas é a ra-
linologia: tudo o que permite a descoberta de fenômenos in loco (a se- zão de ser da história oral. Nessa medida, ela não só oferece uma mu-
mântica histórica, a cartografia, a fotografia aérea, a fotointerpretação) é dança do conceito de história, mas, mais do que isso, garante sentido à
particularmente útil. vida dos depoentes e leitores, que passam a entender a sequência his-
O novo documento, mais completo do que os textos tradicionais, trans- tórica e se sentem parte do contexto em que vivem.
formado – sempre que a história quantitativa é possível e pertinente – [...] Oralidade é o conjunto amplo de expressões verbais e compreen-
em dado, deve ser tratado como um documento/monumento. Daí a ur- de a mais larga gama de manifestações sonoras humanas. Pode-se di-
gência de elaborar um novo saber capaz de transferir este documento/ zer que, desde que se organize em códigos comunicantes, a oralidade
monumento do campo da memória para o da ciência histórica. é o repertório dos sons humanos articulados e caracterizados pela exis-
SOBRE HISTÓRIA ORAL tência em sentido puro e precário. Deve-se notar a distinção entre orali-
dade e fontes orais. Apesar de ser comum a confusão entre as duas ma-
nifestações, elas são diferentes: a primeira não é gravada; a segunda
BOM MEIHY, J. C. S. Manual de História oral. São Paulo: Ed. Loyola, 2002. p. 13-19. só é “fonte” porque foi registrada mecanicamente. Fontes orais são as
diversas manifestações sonoras, gravadas, decorrentes da voz humana
É difícil definir história oral em poucas palavras, pois essa prática, e que se destinam a algum tipo de registro passível de arquivamento ou
além de nova, é bastante dinâmica e criativa, o que torna provisória de estudos. As fontes orais são sempre decorrentes de projetos de gra-
qualquer conceituação. Pode-se, no nível material, considerar que his- vação, como bancos de entrevistas ou pesquisas dirigidas. [...].
tória oral consiste em gravações premeditadas de narrativas pessoais, [...] Documentação oral é mais que fonte oral ou que história oral;
feita diretamente de pessoa a pessoa, em fitas de vídeo. Tudo prescrito é todo e qualquer recurso que guarda vestígios de manifestações de
pela existência de um projeto. oralidade. Entrevistas esporádicas, gravações de músicas, registros so-
História oral é um recurso moderno usado para a elaboração de do- noros de ruídos, absolutamente tudo que é gravado e preservado se
cumentos, arquivamento e estudos referentes à experiência social de constitui em documento ou fonte oral. Portanto, no âmbito dessas ma-
pessoas e de grupos. Ela é sempre uma história do tempo presente e nifestações, história oral é um procedimento mais específico e, sobre-
também reconhecida como história viva. A História oral é uma prática tudo, programado; é o resultado de entrevistas indicadas em projetos

XXXIV HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


previamente existentes. Por outro lado, muito do que é verbalizado ou cos que devem ter origem em várias Ciências Humanas, como a sociolo-
integrado à oralidade, como o gesto, a lágrima, o riso ou as expressões gia, a antropologia, a crítica literária, a comunicação social, os estudos
faciais – na maioria das vezes sem registros verbais garantidos em gra- culturais como um todo. [...]
vações – pode integrar os discursos que devem ser trabalhados para [...] A questão metodológica central, que vem emergindo dos deba-
dar sentido ao que foi expresso numa entrevista oral. Muitos autores tes, é problematizar a música popular, e particularmente a canção, a
usam fontes orais integradas às histórias orais. Isso, aliás, é bastante partir de várias perspectivas, de maneira a analisar “como” se articu-
comum nos casos de projetos que envolvam músicos e folcloristas, que lam na canção – musical e poeticamente – as tradições, identidades
sempre se valem de exemplos consagrados na transmissão oral. Nes- e ideologias que a definem, para além das implicações estéticas mais
sas alternativas, pessoas narram suas vidas e contam como algumas abstratas, como um objeto sociocultural complexo e multifacetado [...]
tradições musicais integraram suas histórias pessoais. [...] [...] Neste sentido, é fundamental a articulação entre “texto” e “con-
[...] A literatura oral é outra manifestação eloquente das fontes orais, texto” para que a análise não se veja reduzida, reduzindo a própria
compreendendo-se por literatura oral todas as narrativas transmitidas importância do objeto analisado. O grande desafio de todo pesqui-
oralmente e com estrutura de conto, poesia, “causos” não escritos e sador em música popular é mapear as camadas de sentido embuti-
mantidos na tradição popular; esse manancial constitui a base da or- das numa obra musical, bem como suas formas de inserção na so-
ganização cultural de um grupo que, sem isso, não teria garantida sua ciedade e na história, evitando, ao mesmo tempo, as simplificações
identidade. No caso da literatura ora propriamente dita, convém des- e mecanicismos analíticos que podem deturpar a natureza polissêmi-
tacar no Brasil o significado do cordel – os poemas chamados de “his- ca (que possui vários sentidos) e complexa de qualquer documento
tórias” ou “romances” conforme seu conteúdo político ou de caso de de natureza estética. Portanto, o historiador, mesmo não sendo um
amor – como manifestação da poesia popular [...] musicólogo, deve enfrentar o problema da linguagem constituinte do
[...] Ainda que alguns bons trabalhos de história oral tenham deriva- “documento” musical e, ao mesmo tempo, “criar seus próprios crité-
do de experiências clínicas, as entrevistas de consultórios de psicólo- rios, balizas e limites na manipulação da documentação”. No campo
gos ou de psiquiatras em si só valem como motivos para a história oral da história, duas abordagens têm sido comuns, em torno do tema da
quando se enquadram em projetos [...] música (popular): ou uma importação, nem sempre bem-sucedida, de
modelos teóricos ou o “primado do objeto”, muitas vezes um eufemis-
SOBRE MÚSICA mo para uma abordagem puramente descritiva da obra, do contexto
ou da biografia dos autores [...]
NAPOLITANO, M. História e música: história cultural da música popular. Belo
[...] O pesquisador deve levar em conta a estrutura geral da canção,
Horizonte: Autêntica, 2002. p. 7-80.
que envolve elementos de natureza diversa e que devem ser articula-
A música, sobretudo a chamada “música popular”, ocupa no Brasil dos ao longo da análise. Basicamente, estes elementos se dividem em
um lugar privilegiado na história sociocultural, lugar de mediações, fu- dois parâmetros básicos, que separamos apenas para fins didáticos, já
sões, encontros de diversas etnias, classes e regiões que formam o nos- que na experiência estética da canção eles formam uma unidade. São
so grande mosaico nacional. Além disso, a música tem sido, ao menos eles: 1) os parâmetros verbo-poéticos: os motivos, as categorias simbó-
em boa parte do século XX, a tradutora dos nossos dilemas nacionais licas, as figuras de linguagem, os procedimentos poéticos e 2) os parâ-
e veículo de nossas utopias sociais. Para completar, ela conseguiu, ao metros musicais de criação (harmonia, melodia, ritmo) e interpretação
menos nos últimos quarenta anos, atingir um grau de reconhecimento (arranjo, coloração, timbrística, vocalização etc.). Na perspectiva histó-
cultural que encontra poucos paralelos no mundo ocidental. Portanto, rica, essa estrutura é perpassada por tensões internas, na medida em
arrisco dizer que o Brasil, sem dúvida uma das grandes usinas sonoras que toda obra de arte é produto do encontro de diversas influências,
do planeta, é um lugar privilegiado não apenas para ouvir música, mas tradições históricas e culturais, que encontram uma solução provisória
também para pensar a música. Não só a música brasileira, no sentido na forma de gêneros, estilos, linguagens, enfim, na estrutura da obra de
estrito, mas a partir de uma mirada local, é possível pensar ou repensar arte. Na canção, a sua “dupla natureza” verbal e musical acirra o cará-
o mapa-múndi da música ocidental, sobretudo este objeto-não-identi- ter instável do equilíbrio estrutural da obra (seja uma canção ou mesmo
ficado chamado de “música popular”. [...] uma peça instrumental). [...]
[...] Chegamos num momento, nesta virada de século, em que não se [...] O ponto de partida de qualquer análise é o resultado geral de
podem mais reproduzir certos vícios de abordagem da música popular, uma estrutura poético-musical (no caso da canção) que chega até os
sob o risco de não ser integrado ao debate nacional e internacional. Em nossos ouvidos pronta e acabada, bem ou mal resolvida, mais ou me-
minha opinião, esses vícios podem ser resumidos na operação analí- nos complexa, pouco ou muito bem articulada em suas diversas par-
tica, ainda presente em alguns trabalhos, que fragmenta este objeto tes. Cabe ao pesquisador tentar perceber as várias partes que com-
sociológica e culturalmente complexo, analisando “letra” separada de põem a estrutura, sem superdimensionar um ou outro parâmetro. Foi
“música”, “contexto” separado da “obra”, “autor” separado da “socie- muito comum, até o passado recente, a abordagem da música popu-
dade”, “estética” separada da “ideologia”. [...] lar centralizada unicamente nas “letras” das canções, levando a con-
[...] Minha perspectiva aponta para a necessidade de compreender- clusões problemáticas e generalizando aspectos parciais das obras e
mos as várias manifestações e estilos musicais dentro de sua época, da seus significados. [...]
cena musical na qual estão inseridos, sem consagrar e reproduzir hie- [...] Se numa primeira abordagem é lícito separar os eixos verbal e
rarquias de valores herdadas ou transformar o gosto pessoal em medi- musical, para fins didáticos, procedimento comum e até válido, deve-se
da para a crítica histórica. [...] ter em mente que as conclusões serão tão mais parciais quanto menos
[...] A música, e os próprios musicólogos o reconhecem, torna-se tan- integrados estiverem os vários elementos que formam uma canção ao
to mais compreensível quanto mais forem os focos de luz sobre ela. Fo- longo da análise [...]

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano XXXV


SOBRE LEITURA E LEITORES listas de subscrição não proporcionam uma visão acurada do leitor. Dei-
xavam de lado os nomes de muitos subscritores, incluíam outros que atu-
DARNTON, R. “História da leitura”. In: BURKE, Perter (Org.). A escrita da História. avam como patronos e não como leitores, e normalmente representavam
São Paulo: Editora da Unesp, 1991. p. 203-211. mais a venda de alguns empresários do que os hábitos de leitura do pú-
blico educado, segundo uma crítica um tanto devastadora que Reinhard
[...] Em suma, seria possível desenvolver uma história e também uma
Wittmann dirigiu contra a pesquisa das listas de subscrição.[...]
teoria da reação do leitor. Possível, mas não fácil; pois os documentos ra-
[...] Os registros das bibliotecas de empréstimo oferecem uma oportu-
ramente mostram os leitores em atividade, moldando o significado a par-
nidade melhor para se fazerem conexões entre os gêneros literários e as
tir dos textos, e os documentos são, eles próprios, textos, o que também
classes sociais, mas poucos deles sobrevivem. [...] Os microanalistas fize-
requer interpretação. Poucos deles são ricos o bastante para propiciar
ram muitas outras descobertas – tantas, de fato, que se defrontam com
um acesso, ainda que indireto, aos elementos cognitivos e afetivos da lei-
o mesmo problema dos macroquantificadores: como reuni-las? A dispa-
tura, e alguns poucos casos excepcionais podem não ser suficientes para
ridade da documentação – catálogos de leilão, registros notariais, listas
se reconstruírem as dimensões interiores dessa experiência. Mas os his-
de subscrição, registros de bibliotecas – não tornam a tarefa mais fácil. As
toriadores do livro sempre exibiram uma grande quantidade de informa-
diferenças nas conclusões podem ser atribuídas mais às peculiaridades
ção sobre a história externa da leitura. Tendo estudado a leitura como um
das fontes que ao comportamento dos leitores [...]
fenômeno social, podem responder a muitas das perguntas de “quem”,
[...] Assim, já sabemos bastante sobre as bases institucionais da leitura.
“o que”, “onde” e “quando”, o que pode ser de grande ajuda na aborda-
Temos algumas respostas para as perguntas de “quem”, “o quê”, “onde”
gem dos mais difíceis “por quês” e “comos”.
e “quando”. Mas os “por quês” e os “comos” nos escapam. Ainda não
O estudo de quem lê o quê em diferentes épocas recai em dois tipos
descobrimos uma estratégia para o entendimento do processo interno,
principais: o macro e o microanalítico. A macroanálise floresceu acima de
através do qual os leitores compreendem as palavras. Nem mesmo en-
tudo na França, onde se nutre de uma poderosa tradição de história so-
tendemos a maneira como nós mesmos lemos, apesar dos esforços dos
cial quantitativa. Henri-Jean Martin, François Furet, Robert Estivals e Fré-
psicólogos e neurologistas para traçarem os movimentos dos olhos e ma-
déric Barbier traçaram a evolução dos hábitos de leitura desde o século
pearem os hemisférios do cérebro. [...] Em primeiro lugar, creio que seria
dezesseis até os dias de hoje, utilizando séries de longo prazo, construí-
possível aprender mais sobre os ideais e as suposições subjacentes à lei-
das a partir do dépôt legal, dos registros de direitos do livro e da publica-
tura no passado. Poderíamos estudar as descrições contemporâneas da
ção anual da Bibliographie de la France. [...]
leitura na ficção, em autobiografias, escritos polêmicos, cartas, pinturas e
[...] Toda essa compilação e computação proporcionaram algumas
gravuras para descobrir algumas noções básicas daquilo que as pessoas
orientações para os hábitos de leitura, mas as generalizações parecem
imaginavam ocorrer quando liam [...].
às vezes amplas demais para serem satisfatórias. A novela, como a bur-
guesia, parece sempre estar em ascensão; e os gráficos caem nos pon- SOBRE PERIÓDICOS
tos esperados – mais especialmente durante a Guerra dos Sete Anos na
feira de Leipzig, e durante a Primeira Guerra Mundial na França. A maior CAPELATO, M. H. R. Imprensa e História do Brasil. São Paulo: Contexto, 1988.
parte dos quantificadores classifica suas estatísticas em categorias va- p. 13-35.
gas como “arte e ciências” e belles-lettres, que são inadequadas para se
identificarem fenômenos particulares como a Controvérsia da Sucessão, É fascinante ler a história do Brasil através dos jornais. Em cada pá-
o Jansenismo, o Iluminismo ou o Renascimento Gótico – exatamente os gina nos deparamos com aspectos significativos da vida de nossos an-
temas que atraíram mais atenção entre os estudiosos de literatura e os tecessores, que permitem recuperar suas lutas, ideais, compromissos e
historiadores culturais. A história quantitativa dos livros precisará refinar interesses. Manancial dos mais férteis para o conhecimento do passa-
suas categorias e aguçar seu foco, antes de provocar um impacto impor- do, a imprensa possibilita ao historiador acompanhar o percurso dos
tante nas correntes tradicionais da erudição. [...] homens através dos tempos. O periódico, antes considerado fonte sus-
[...] Apesar de toda a sua variedade e ocasionais contradições, os estu- peita e de pouca importância, já é reconhecido como material de pes-
dos microanalíticos sugerem algumas conclusões gerais, algo semelhan- quisa valioso para o estudo de uma época. A imprensa registra, comen-
te à “desmistificação do mundo” de Max Weber. Mas isso pode parecer ta e participa da história. Através dela se trava uma constante batalha
por demais cósmico para servir de consolo. Aqueles que preferem a pre- pela conquista dos corações e mentes – essa expressão de Clóvis Ros-
cisão podem recorrer à microanálise, embora essa em geral se dirija ao si define bem a atividade jornalística. Compete ao leitor reconstituir os
extremo oposto – o excesso de detalhes. Podemos apresentar centenas lances e peripécias dessa batalha cotidiana na qual se envolvem múl-
de listas de livros nas bibliotecas, desde a Idade Média até nossos dias, tiplas personagens.
mais do que qualquer um poderia conseguir ler. Mas a maioria de nós Desde os seus primórdios, a imprensa se impôs como uma força
concorda que um catálogo de uma biblioteca particular pode servir como política. Os governos e os poderosos sempre a utilizam e temem; por
um perfil do leitor, ainda que não tenhamos lido todos os livros que nos isso adulam, vigiam, controlam e punem os jornais. Os que manejam
pertencem e tenhamos lido muitos livros que nunca adquirimos. Esqua- a arma-jornal têm uma variada gama de opções entre o domínio das
drinhar o catálogo da biblioteca de Monticello é inspecionar as provisões consciências e a liberdade; os alvos que procuram atingir são defini-
da mente de Jefferson. E o estudo das bibliotecas particulares tem a van- dos antes da luta, mas o próprio movimento da história os leva a mu-
tagem de unir o “o quê” com o “quem” da leitura. [...] dar de rumo.
[...] Ele deve, por isso, buscar outras fontes. As listas de subscrição têm Acompanhar a trajetória sinuosa dos sujeitos da produção jornalísti-
sido as preferidas, embora em geral cubram apenas os leitores abasta- ca é tarefa complexa. Para compreender a participação de um jornal na
dos. [...] Mas mesmo durante sua Blütezeit [período de florescimento], as história, o pesquisador faz, de início, algumas indagações: quem são

XXXVI HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


seus proprietários? A quem se dirige? Com que objetivos e quais os re- SOBRE OBRAS DE ARTE
cursos utilizados na batalha pela conquista de corações e mentes? Com
esses dados preliminares é possível delinear um perfil provisório do pe- PANOFSKY, E. Estudos sobre iconologia. 2. ed. Lisboa: Estampa, 1995.
riódico eleito como objeto/fonte de estudo. O primeiro levantamento p. 19-23.
fornece pistas para definir os caminhos a serem investigados.
O uso do jornal como fonte histórica implica dificuldades de tal or- A Iconografia é o ramo da História da Arte que trata do conteúdo temá-
dem, que historiadores do passado chegaram a se desencorajar. Hoje, tico ou significado das obras de arte, enquanto algo de diferente da sua
muitos enfrentam o desafio obtendo resultados altamente compensa- forma. Tentemos, pois, definir a diferença entre conteúdo temático ou
tórios. Nas últimas décadas, observa-se, no Brasil, um crescente inte- significado e forma [...]
resse com relação a esse tipo de documento. Ao repensarem o seu ob- 1. Conteúdo Temático Natural ou Primário,
jeto, os historiadores vencem os receios e preconceitos, passando a subdividido em Factual e Expressivo
reconhecer a importância da imprensa nos estudos históricos. Várias É apreendido pela identificação de formas puras, ou seja, certas con-
pesquisas têm sido realizadas nesse campo, mas o terreno começa figurações de linha e cor, ou certas massas de bronze ou pedra de forma
apenas a ser desbravado, necessitando ainda de muitas outras contri- característica, de representações de objetos naturais tais como seres hu-
buições para que se torne fértil. manos, animais, plantas, casas, instrumentos etc.; identificando as suas
[...] A reconstituição das lutas políticas e sociais através da imprensa tem relações mútuas como fatos; e percebendo as qualidades expressivas,
sido o alvo de muitas das pesquisas recentes. Nos vários tipos de periódi- como o caráter triste duma pose ou dum gesto, ou a atmosfera doméstica
cos e até mesmo em cada um deles encontramos projetos políticos e vi- e pacífica dum interior. O mundo das formas puras, reconhecidas como
sões de mundo representativos de vários setores da sociedade. A leitura portadoras de significados primários ou naturais, pode ser chamado o
dos discursos expressos nos jornais permite acompanhar o movimento das mundo dos motivos artísticos. Uma enumeração destes motivos consti-
ideias que circulam na época. A análise do ideário e da prática política dos tuiria uma descrição pré-iconográfica da obra de arte.
representantes da imprensa revela a complexidade da luta social. Grupos
se aproximam e se distanciam segundo as conveniências do momento; 2. Conteúdo Secundário ou Convencional
seus projetos se interpenetram, se mesclam e são matizados. Os conflitos Percebemo-lo quando verificamos que uma figura masculina com uma
desencadeados para a efetivação dos diferentes projetos se inserem numa faca representa S. Bartolomeu, que uma figura feminina com um pêssego
luta mais ampla que perpassa a sociedade por inteiro. O confronto das fa- na mão é o símbolo da Verdade, que um grupo de figuras sentadas a uma
las, que exprimem ideias e práticas, permite ao pesquisador captar, com mesa numa determinada combinação e numa certa atitude representam
riqueza de detalhes, o significado da atuação de diferentes grupos que se a Última Ceia, ou que duas figuras lutando representam o Combate do Ví-
orientam por interesses específicos. cio e da Virtude. Ao fazê-lo, relacionamos motivos artísticos e combina-
Há muitas maneiras de se estudar a história das ideias políticas e so- ções de motivos artísticos (composições) com temas e conceitos. Aos
ciais através da imprensa. Alguns autores utilizam a linguística na análise motivos, assim reconhecidos como portadores dum significado secun-
da ideologia; outros se preocupam com a identificação das matrizes das dário ou convencional, podemos chamar imagens e as combinações de
ideias, procurando compreender os pressupostos dos projetos políticos imagem são aquilo a que os antigos teóricos da arte chamavam inven-
veiculados nos jornais; alguns escolhem a imprensa como fonte primor- zioni e nós chamamos de histórias e alegorias.
dial para esse tipo de investigação, e há também os que dela se servem A identificação de tais imagens, histórias e alegorias pertence ao cam-
como fonte complementar para o estudo de um determinado tema. po da iconografia no sentido mais restrito da palavra. Na realidade, quando
Os pesquisadores que se dedicam às análises político-ideológicas falamos vagamente de “conteúdo temático como oposto a forma, “referi-
privilegiam os editoriais e artigos que constituem, por excelência, a par- mo-nos especialmente à esfera do conteúdo secundário ou convencio-
te opinativa do jornal. Com isto não quero dizer que a opinião só se nal, isto é, ao mundo dos temas e conceitos específicos que se manifes-
expressa nesses espaços; ela se manifesta também no noticiário e até ta através de imagens, histórias e alegorias, por oposição à esfera do
mesmo na forma pela qual o periódico se apresenta. conteúdo do primário ou natural que se manifesta em motivos artísticos. A
Os jornais oferecem vasto material para o estudo da vida cotidiana. “análise formal”, no sentido em que usava Wölfflin, é sobretudo uma aná-
Os costumes e as práticas sociais, o folclore, enfim, todos os aspectos lise de motivos e combinações de motivos (composições); para fazer uma
do dia a dia estão registrados em suas páginas. Neste tipo de aborda- análise formal, em sentido estrito, haveria inclusivamente que evitar ex-
gem, o pesquisador pode recorrer às colunas sociais, aos faits divers, pressões como “homem”, “cavalo”, ou “coluna”, já para não falar de ava-
às ilustrações, às caricaturas e às diferentes seções de entretenimento. liações tais como “o feio triângulo formado pelo espaço entre as pernas
O noticiário tem grande importância para as investigações históricas. É do David de Miguel Ângelo”, ou “a admirável clareza das articulações dum
utilizado nas análises econômicas, nos estudos sobre as condições de corpo humano”. É evidente que uma análise iconográfica correta no seu
vida, relações e lutas sociais [...] sentido mais estrito implica uma identificação correta dos motivos. [...]
[...] O conceito de jornal como fonte suspeita merece revisão. A his-
toriografia mais recente tem refletido muito sobre o significado do do- 3. Significado Intrínseco ou Conteúdo
cumento e foi a partir de redefinições nesse campo que as “suspeitas” Percebemo-lo analisando os pressupostos que revelam a atitude bá-
contra a imprensa desapareceram [...] sica de uma nação, uma época, uma classe, uma crença religiosa ou fi-
[...] A imprensa oferece amplas possibilidades para isso. A vida co- losófica assumidos inconscientemente por um indivíduo e condensados
tidiana nela registrada em seus múltiplos aspectos, permite compre- numa obra. Desnecessário se torna dizer que essas normas de condu-
ender como viveram nossos antepassados – não só os “ilustres”, mas ta se exprimem e portanto se esclarecem pelos “métodos de composi-
também os sujeitos anônimos. ção” e pelo “significado iconográfico”. Por exemplo, nos séculos XIV e

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano XXXVII


XV (o exemplo mais antigo data de cerca de 1310) o tipo tradicional da incapazes de mudar. E, na verdade, é bem assim, uma vez que, por sua
Natividade, que mostra a Virgem Maria estendida numa espécie de lei- própria essência e finalidade, é no espaço real que esta arte se exerce,
to, começou a ser substituído frequentemente por um outro, que mostra aquele em que nos movemos e que é ocupado pela atividade do nos-
a Virgem ajoelhada em adoração perante o Menino. Do ponto de vista so corpo. Mas consideremos o modo pelo qual a arquitetura trabalha e
da composição, esta mudança significa, em termos gerais, a substituição pelo qual as formas se harmonizam para utilizar esse domínio e, talvez,
dum esquema triangular por um retangular; dum ponto de vista iconográ- para lhe dar uma nova feição. As três dimensões não são apenas o es-
fico, no sentido mais estrito da palavra, significa a introdução dum tema paço da arquitetura, são também a sua matéria, assim como o peso e
novo, formulado literariamente por escritores como o Pseudo-Boaventu- o equilíbrio. A relação que une essas dimensões em um edifício não é
ra e Santa Brígida. [...] nunca nem aleatória nem fixa. A ordem das proporções intervém no seu
A descoberta e a interpretação desses valores “simbólicos” (geral- tratamento, dando à forma a sua originalidade e modelando o espaço
mente ignorados pelo próprio artista e que inclusivamente podem ser segundo um cálculo das conveniências. A leitura da planta seguida do
muito diferentes daquilo a que o artista tencionava exprimir) é o obje- estudo da elevação dão apenas uma ideia muito insignificante dessas
to daquilo a que chamamos iconografia num sentido mais profundo: relações. Um edifício não é um conjunto de superfícies, mas um con-
um método de interpretação que surge mais como síntese do que como junto de partes cujo comprimento, largura e profundidade se harmoni-
análise. E como a identificação correta dos motivos é a condição prévia zam de um determinado modo e constituem um corpo sólido original,
para uma correta análise iconográfica no sentido mais estrito, a análi- que comporta um volume interno e uma massa externa. Sem dúvida,
se correta de imagens, histórias e alegorias é a condição prévia “duma a leitura de uma planta diz muito, faz conhecer o essencial do projeto
correta interpretação iconográfica num sentido mais profundo [...] e permite que a visão se exercite em apreender as principais soluções
em termos de construção. Uma memória que guarde informações pre-
SOBRE ARQUITETURA cisas e exemplos abundantes pode reconstituir teoricamente o edifício
a partir da projeção sobre o solo, e o ensino das escolas permite prever,
FOCILLON, H. Vida das formas. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1943. p. 38-47. para cada espécie de planta, todas as consequências possíveis na ter-
ceira dimensão, bem como ensina a melhor solução, a mais exemplar,
[...] O espaço é o lugar da obra de arte. Mas não é suficiente dizer que para uma determinada planta. Mas essa espécie de redução ou, se qui-
ela acontece nele. Ela o trata segundo as suas necessidades, define-o sermos, essa abreviação dos procedimentos de trabalho, não abrange
e mesmo o cria tal como necessita dele. O espaço onde a vida se mo- toda a arquitetura, antes a despoja do seu privilégio fundamental que
vimenta é um dado ao qual ela se submete, o espaço da arte é matéria é o de possuir um espaço completo, e não apenas como um objeto ma-
plástica e variável. Nós temos, talvez, uma certa dificuldade em admiti- ciço, mas como um molde vazio que impõe às três dimensões um novo
-lo, uma vez que estamos sob o império da perspectiva albertiana: mas valor. As noções de planta, de estrutura e de massa estão indissoluvel-
há várias outras, e a própria perspectiva racional, que constrói o espaço mente ligadas e é perigoso abstraí-las umas das outras. [...]
da arte como o espaço da vida, é, como veremos, mais móvel do que se [...] Mas é incontestável que as massas arquitetônicas são rigorosa-
costuma pensar habitualmente e capaz estranhos paradoxos e inven- mente estabelecidas de acordo com a relação das partes entre si e des-
ções. Precisamos fazer um esforço para admitir como tratamento legíti- sas com o todo. Além disso, um edifício é raramente uma massa única.
mo do espaço tudo o que escapa às suas leis. Além disso, a perspecti- Na maioria das vezes, ela é uma combinação de massas secundárias e
va só se aplica à representação de um objeto em três dimensões sobre de massas principais [...]
um plano, e isto é apenas um dos problemas dentro de uma série mui- [...] É que, se as proporções são necessárias à definição da massa,
to extensa de questões. Devemos observar, em primeiro lugar, que não não bastam para essa definição. Uma massa suporta mais ou menos
é possível examinar todas essas questões in abstracto e reduzi-las a ousadias, mais ou menos brechas, mais ou menos efeitos. Reduzida à
um certo número de soluções generalizadas que comandariam as apli- mais sóbria economia mural, adquire uma estabilidade considerável,
cações particulares. A forma não é indiferentemente arquitetura, escul- pesa fortemente sobre o seu pedestal, apresenta-se aos nossos olhos
tura ou pintura. Quaisquer que sejam as trocas entre técnicas, por mais como um sólido compacto. A luz a toma de maneira uniforme e como
decisiva que seja a autoridade de uma delas sobre as outras, a forma é, que de um só golpe. Ao contrário, a multiplicidade de focos de lumino-
antes de tudo, qualificada pelo domínio específico em que se exerce, e sidade a compromete e abala [...]. [...] Sob essas alternativas incessan-
não por um desígnio da inteligência; o mesmo acontece com o espaço tes, a arquitetura se agita, ondula e se desfaz. O espaço que pesa de
que ela exige e que compõe para si. [...] todos os lados sobre a integridade contínua das massas é imóvel como
[...] Fundo visível ou escondido, base que permanece aparente e es- elas. O espaço que penetra os vazios da massa e que se deixa invadir
tável entre os signos ou que se mistura às suas trocas, plano que se pelo crescimento dos seus relevos significa mobilidade. [...] A massa
mantém uno e fixo ou que ondula sob as figuras e se mistura às suas externa e a interna podem depender uma da outra, e há casos em que
correntes, trata-se sempre de um espaço construído ou destruído pela a composição externa nos faz perceber imediatamente a disposição de
forma, animado, moldado por ela. No entanto, como já observamos, seu conteúdo. Mas essa regra não é constante [...]
especular acerca do ornamento é especular acerca da força de abstra- [...] Mas é, talvez, na massa interna que está a originalidade profunda
ção e dos infinitos recursos da imaginação, e pode parecer por demais da arquitetura como tal. Ao dar uma forma definida a esse espaço va-
evidente que o espaço ornamental, com seus arquipélagos e o litoral zio, ela cria, verdadeiramente, o seu universo próprio. Sem dúvida, os
e os monstros de tais arquipélagos, não é propriamente espaço e se volumes externos e seus perfis fazem intervir um elemento novo e intei-
apresenta como a elaboração de dados arbitrários e variáveis. Parece ramente humano no horizonte das formas naturais, elemento esse que,
acontecer exatamente o oposto com relação às formas da arquitetura, por mais bem calculado para se harmonizar com elas, sempre acres-
submetidas da maneira mais passiva, mais estrita, a dados espaciais centa algo de inesperado [...]

XXXVIII HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


SOBRE FOTOGRAFIA 1. Comecemos pelos casos mais extremos. Como sugeriu Hine, “os menti-
rosos podem fotografar”. Eles podem retocar as fotos ou manipulá-las de
BURKE, P. “A arte de ler retratos”. São Paulo: Folha de S.Paulo, 29 de novembro outras maneiras montagem, por exemplo – para enganar o observador.
de 1998. Um caso famoso de manipulação é um filme feito pelos socialistas alemães
que “mostra” o kaiser Guilherme conversando com Krupp, o maior fabricante
Costumava-se dizer que “as câmeras não mentem”. De fato, um dos de armas da época, para demonstrar a ligação entre o capitalismo e o milita-
motivos do entusiasmo pela fotografia na época de sua invenção foi exa- rismo alemão na época da Primeira Guerra Mundial.
tamente a sua objetividade. No século XIX a fotografia era considerada o 2. Os fotógrafos que não desejam enganar os observadores podem en-
produto do “lápis da natureza”, pois os próprios objetos deixam traços na tretanto desejar incentivá-los a assumir certas posições. Por exemplo,
chapa fotográfica quando ela é exposta à luz, sem outras intervenções podem querer convencer o público a ver a guerra, ou uma determina-
da parte do fotógrafo. da guerra, como gloriosa, enfatizando a coragem e as vitórias, ou ter-
Desde aquela época, a objetividade da fotografia tem sido muito criti- rível, mostrando crianças vietnamitas nuas fugindo de um ataque de
cada. Lewis Hine, um norte-americano famoso por sua “fotografia social” napalm. Ou podem estar envolvidos num projeto de “conscientização”
de trabalhadores, imigrantes e cortiços, disse que, “embora as fotografias do público sobre determinados problemas sociais.
não possam mentir, os mentirosos podem fotografar”. Mas a ilusão de ver o O próprio Hine, como seus contemporâneos Dorothea Lange e Margaret Bourke-
mundo diretamente quando se olha para fotografias – o “efeito realidade”, -White, fez “fotografias sociais” como publicidade para campanhas de reforma
como o chamou Roland Barthes (1915-1980) – continua difícil de evitar. social. Os três fotógrafos trabalharam para instituições que tentavam mudar a so-
Esse efeito, parte do que Barthes chamou de “retórica da imagem”, é explo- ciedade, como a Charity Organisation Society, o National Child Labour Committee
rado nas imagens de fatos recentes que aparecem nos jornais e na televi- e a California State Emergency Relief Administration. Daí a sua ênfase ou o seu
são e é particularmente vívido no caso de antigas fotos de ruas das cidades. “enfoque” nos acidentes de trabalho, na vida nos cortiços, no sofrimento das mães
Quando essas fotos são ampliadas, como no caso de algumas foto- e nos olhos mortiços de crianças que trabalharam demais e comeram de menos.
grafias de São Paulo exibidas numa mostra na avenida Paulista alguns 3. Os fotógrafos que não desejam enganar os espectadores ou induzi-los
anos atrás ou como as fotos da cidade feitas por Claude Lévi-Strauss nos a determinadas conclusões ainda podem intervir nas cenas sociais
anos [19]30 e expostas há alguns meses, é difícil resistir à sensação de que desejam registrar, arranjando-as para que pareçam mais autênti-
que estamos realmente parados no lugar onde o fotógrafo esteve e que cas. Na Inglaterra vitoriana, um fotógrafo de crianças de rua contratou
podemos entrar na fotografia e caminhar pela rua no passado. Um dos um menino para se vestir com farrapos e sujou seu rosto com fuligem
motivos para a dificuldade de nos afastarmos desse efeito de realidade para torná-lo mais “autêntico”. Sabe-se que alguns fotojornalistas que
é sem dúvida a “cultura do instantâneo”: nossa prática cotidiana de tirar chegaram a campos de batalha depois da remoção dos mortos pedi-
fotografias da vida, registrando a história de nossa família e de amigos e ram a soldados vivos que se deitassem e se fingissem de cadáveres,
como no caso da mais famosa foto da batalha de Gettysburg, na Guer-
também, é claro, moldando nossas lembranças dessa história.
ra Civil dos EUA. No mínimo, eles dizem às pessoas onde se colocar e
Então por que não devemos confiar nos fotógrafos? Afinal, os tribunais
se devem ou não fazer gestos.
consideram as fotos e os vídeos provas cabais de furto, assassinato ou vio-
4. Amadores e profissionais que não arranjam as cenas que fotografam
lência policial (como no notório caso em Los Angeles alguns anos atrás).
também podem ser influenciados – consciente ou inconscientemen-
O escritor francês Paul Valéry (1871-1945) sugeriu que nossos pró-
te – por suas lembranças de outras fotografias ou mesmo de quadros,
prios critérios de veracidade histórica passaram a incluir a pergunta: “Po-
seja na escolha de temas ou de ângulos. Por exemplo, já se cogitou
deria tal fato, assim como é narrado, ter sido fotografado?”. Ele não teria
que as fotografias do século XIX dos engenhos do Recife são reminis-
ficado surpreso ao saber que os historiadores estão cada vez mais cons-
centes dos quadros de Frans Post (1612-1680), enquanto as imagens
cientes de que as fotografias, pinturas, filmes e outras imagens podem
da vida rural na Inglaterra do século XIX foram influenciadas por pintu-
ajudá-los em suas tentativas de reconstrução do passado. ras holandesas do século XVII, muito populares entre a classe média
Por exemplo, um historiador norte-americano do Brasil, Robert Levine, vitoriana. Esses são apenas dois exemplos entre vários possíveis de
publicou vários livros de fotografias com comentários sobre sua possível como as imagens podem influenciar o modo como todos nós perce-
utilidade para escrever história social. Outros, como Robert Rosenstone, bemos a realidade. Uma lembrança dessa influência é a palavra “pito-
defendem a “escrita” da história por meio da realização de filmes, o que foi resco”, originalmente empregada para significar que certas paisagens
chamado de “historiofotia”, substituindo ou se aliando à “historiografia”. ou cenas da vida social eram tão bonitas ou interessantes quanto uma
Alguns estudiosos defendem com entusiasmo essa tendência, en- pintura. Ainda esperamos que o mundo real se assemelhe a determi-
quanto outros a rejeitam, alegando que a câmera não é confiável. Nesse nadas fotografias, como as praias nos folhetos turísticos, sempre enso-
debate, minha opinião é que o uso crescente de fotografias e outras ima- laradas e limpas e nunca apinhadas de gente.
gens como fontes históricas pode enriquecer muito nosso conhecimen- 5. No caso dos chamados “documentários”, precisamos de uma crítica
to e nossa compreensão do passado, desde que possamos desenvolver da narrativa visual assim como das fotografias individuais, examinan-
técnicas de “crítica da fonte” semelhantes às que foram desenvolvidas há do por que o filme começou e terminou com determinadas imagens,
muito tempo para avaliar depoimentos escritos. por exemplo, e prestando atenção aos padrões de justaposição, repe-
Como já notou o crítico inglês John Ruskin no século XIX, o depoimento tições, contrastes e – não menos importantes – omissões.
de fotografias, assim como o de testemunhas no tribunal, “é muito útil se Para não sermos enganados por fotografias, sejam fixas ou móveis, precisamos
soubermos fazer um exame cruzado”. Enquanto aguardamos a elaboração – assim como no caso dos textos prestar atenção à mensagem e ao remeten-
de uma crítica sistemática das evidências fotográficas e cinemáticas, vale a te, perguntando quem está tentando nos dizer o quê e por que motivos. Numa
pena lembrar cinco pontos, não apenas aos historiadores, mas a qualquer sociedade como a nossa, saturada de imagens, as escolas poderiam dar uma
pessoa tentada a ver nas fotografias registros precisos do passado. grande contribuição à democracia e à responsabilidade cívica ensinando aos

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano XXXIX


estudantes uma espécie de “crítica da imagem”, revelando as técnicas das comércio, declarações ministeriais, ordens operacionais, discursos. Além
agências de publicidade e de fotojornalismo e as intenções das instituições do mais, como confiar nos jornais cinematográficos, quando todo mundo
que as contratam. sabe que essas imagens, essa pseudorrepresentação da realidade, são
escolhidas, transformáveis, já que são reunidas por uma montagem não
SOBRE CINEMA controlável, por um truque, uma trucagem. O historiador não poderia se
apoiar em documentos dessa natureza. Todos sabem que ele trabalha
FERRO, M. Cinema e História. São Paulo: Paz e Terra, 1992. p. 79-87. numa redoma de vidro: “Aqui estão minhas referências, aqui estão mi-
nhas provas” [...]
[...] Seria o filme um documento indesejável para o historiador? Muito [...] [O filme] está sendo observado não como uma obra de arte, mas
em breve centenário, mas ignorado, ele não é considerado nem sequer sim como um produto, uma imagem-objeto, cujas significações não são
entre as fontes mais desprezíveis. O filme não faz parte do universo men- somente cinematográficas. Ele não vale somente por aquilo que testemu-
tal do historiador. nha, mas também pela abordagem sócio-histórica que autoriza.
Na verdade, o cinema ainda não era nascido quando a história se cons- A análise não incide necessariamente sobre a obra em sua totalidade:
tituiu, aperfeiçoou seus métodos, parou de narrar para explicar. A “lin- ela pode se apoiar sobre extratos, pesquisar “séries”, compor conjuntos. E
guagem” do cinema revela-se ininteligível e, como a dos sonhos, é de a crítica também não se limita ao filme, ela se integra ao mundo que o ro-
interpretação incerta. Mas essa explicação não é satisfatória para quem deia e com o qual se comunica, necessariamente. Nessas condições, não
conhece o infatigável ardor dos historiadores, obcecados por descobrir seria suficiente empreender a análise de filmes, de trechos de filmes, de
novos domínios, sua capacidade de fazer falar até troncos de árvores, planos, de temas, levando em conta, segundo a necessidade, o saber e a
velhos esqueletos, e sua aptidão para considerar como essencial aquilo abordagem das diferentes ciências humanas. É preciso aplicar esses mé-
que até então julgavam desinteressante. todos a cada um dos substratos do filme (imagens, imagens sonorizadas,
No que diz respeito ao filme e outras fontes não escritas, creio que não não sonorizadas), às relações entre os componentes desses substratos;
se trata nem de incapacidade nem de retardamento, mas sim de uma re- analisar no filme tanto a narrativa quanto o cenário, a escritura, as relações
cusa em enxergar, uma recusa inconsciente, que procede de causas mais do filme com aquilo que não é filme: o autor, a produção, o público, a críti-
complexas. Fazer o exame de quais “monumentos do passado” o histo- ca, o regime de governo. Só assim se pode chegar à compreensão não ape-
riador transformou em documentos e depois, hoje, que “documentos a nas da obra, mas também da realidade que ela representa [...]
história transformou em monumentos”, levaria a uma primeira forma de
SOBRE MAPAS E CARTOGRAFIA
compreender e ver por que o filme não aparece [...]
[...] Um outro fato se verifica nas histórias da História. O historiador es-
GOMES, M. do C. A. “Velhos mapas, novas leituras: revisitando a História da
colheu esse ou aquele conjunto de fontes, adotou esse ou aquele méto- cartografia”. In: GEOUSP. Espaço e Tempo. São Paulo, n. 16, 2004. p. 68-76.
do de acordo com a natureza de sua missão, de sua época, trocando-os
como um combatente troca de arma ou tática quando aquelas que utili-
zava perdem sua eficácia [...]. I – A constituição da história da cartografia como disciplina
[...] Nessa época, as fontes utilizadas pelo historiador consagrado for- O geógrafo inglês J. Brian HARLEY (1987), um dos teóricos que mais
mam um corpo que é tão cuidadosamente hierarquizado quanto a socie- influenciaram o processo renovador da história da cartografia (HC), em
dade à qual ele destina sua obra. Como essa sociedade, os documentos um dos seus ensaios seminais, mostrou como esse campo disciplinar
estão divididos em categorias, entre as quais distinguimos sem dificul- consolidou-se ao longo do século XIX, quando se intensificou o inte-
dades os privilegiados, os desclassificados, os plebeus, o lumpen. Como resse pela pesquisa dos mapas antigos, enquanto uma arena distinta
escreveu Benedetto Croce, “a história é sempre contemporânea”. Ora, no da cartografia contemporânea. Segundo esse autor, o impulso principal
início do século XX essa hierarquia reflete as relações de poder: à frente desse movimento crescente, especialmente após 1850, decorreu da
do cortejo vão, prestigiosos, os Arquivos do Estado, com manuscritos ou emergência e institucionalização da Geografia enquanto ciência, alia-
impressos, documentos únicos, expressão de seu poder, do poder das do ao crescimento dos acervos cartográficos das nações em formação
Casas, parlamentos e tribunais de contas. Em seguida vem a legião dos e ao desenvolvimento, na Europa e nos Estados Unidos, de um merca-
impressos que não são secretos: inicialmente textos jurídicos e legislati- do antiquário de mapas.
vos, expressão do poder, e a seguir jornais e publicações que não ema- O desenvolvimento da Geografia e o surgimento das bibliotecas espe-
nam somente dele, mas da sociedade cultivada inteira. As biografias, as cializadas em mapas antigos, favoreceram a infraestrutura institucional
fontes da história local, os relatos dos viajantes formam a parte de trás do para o estudo histórico da cartografia, enquanto que os colecionadores
cortejo: quando levados em consideração, esses testemunhos ocupam privados e o comércio de antiquários contribuíram na pesquisa e na es-
uma posição mais modesta na elaboração da tese [...] crita da HC, ainda que marcada pela ênfase excessiva na apreciação ar-
[...] Além do mais, no início do século XX, o que é o cinematógrafo para tística dos mapas, especialmente da Renascença.
os espíritos superiores, para as pessoas cultivadas? “Uma máquina de Esses fatores condicionaram os objetivos e métodos da HC e molda-
idiotização e de dissolução, um passatempo de iletrados, de criaturas ram parte essencial da tradição acadêmica da disciplina, até meados do
miseráveis exploradas por seu trabalho”. O cardeal, o deputado, o gene- século XX. Considerada como um campo auxiliar da história da Geogra-
ral, o notário, o professor, o magistrado compartilham desse julgamen- fia, a qual, por sua vez, compreendia basicamente a história dos desco-
to de Georges Duhamel. Eles não frequentam esse “espetáculo de pá- brimentos e das explorações, a HC tradicional permaneceu marcada por
rias” [...]. Sem pai nem mãe, órfã, prostituindo-se em meio ao povo, a essa origem, e epistemologicamente condicionada pela ideia de que de-
imagem não poderia ser uma companheira dessas grandes personagens veria servir primeiramente para tornar os documentos cartográficos aces-
que constituem a sociedade do historiador: artigos de leis, tratados de síveis a outros domínios do conhecimento. [...]

XL HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


II – Balizas do processo de renovação: ideias, livros, eventos e para compreender como o poder opera através do discurso cartográfico,
personagens e os efeitos desse poder na sociedade.
Com um profundo questionamento do conceito e do estatuto de objetivi-
II.3 – Comemoração e reflexão
dade dos mapas, o processo de renovação, ou mais propriamente, o alarga-
Dois importantes programas comemorativos de eventos históricos fo-
mento dos horizontes teóricos e metodológicos da HC, pode ser claramente
ram também determinantes no estímulo às novas produções e reflexões
observado entre as décadas de 1980 e 1990, com ricos desdobramentos
ligadas ao tema: o bicentenário da revolução francesa em 1989 e os 500
no momento atual. Como todo movimento ligado ao trânsito das ideias,
anos da descoberta da América, em 1992 [...]
muitos fatores contribuíram para seu impulso e desenvolvimento.
Em artigo publicado à época, Harley e Woodward propuseram mais re-
II.1 – Projetos institucionais abrem os caminhos flexão e menos comemoração, conduzindo sua análise da cartografia das
Como marcos cronológicos iniciais, podemos identificar duas obras mo- descobertas e da colonização em direção a um explícito manifesto polí-
numentais que, mesmo em suas diferenças, foram igualmente férteis na tico: [...] ao mesmo tempo em que inventariava os lugares descobertos
proposição de caminhos: de um lado, a exposição cartográfica promovi- pelos europeus e identificava as terras para a evangelização, o espaço
da pelo Centro Georges Pompidou e seu respectivo catálogo, denominado coordenado dos novos mapas era instrumental na apropriação simbóli-
Cartes et figures de la Terre, publicado na França em 1980; de outro, o ca do território dos nativos americanos. Reconhecendo os povos indíge-
projeto enciclopédico iniciado em 1982 na Universidade de Chicago, sob nas como vítimas da cartografia europeia nós também reinstauramos sua
o título The History of Cartography Project. A iniciativa francesa – exposi- contribuição nos registros cartográficos da história americana [...]
ção e publicação – reuniu uma constelação de pesquisadores para analisar Toda a HC desenvolvida nos EUA nos anos noventa seria profunda-
os mapas nos seus mais diversos ângulos [...] Tanto a exposição, como o mente marcada por essa ótica pós-colonialista.
catálogo, buscaram exprimir a diversidade das abordagens no domínio da
II.4 – Dois autores, um desafio comum
cartografia, e não seguiram uma ordem cronológica ou temática. Propuse-
ram uma visita e uma leitura em diagonal do conjunto de mapas, as quais Além do marco comemorativo dos 500 anos, o ano de 1992, distingue-
contrabalançavam três pontos de vista: viajar, que concebia o mapa como -se pela publicação de duas obras individuais de enorme relevância nessa
um sistema de imagens a serviço da relação do homem com o território; le- vaga de reflexões epistemológicas sobre a HC: os livros L’empire des car-
vantar, voltado para as operações de leitura do território, sua tradução, sua tes, (JACOB, 1992) e The power of maps (WOOD, 1992). Em seu erudito e
transcrição; decidir, que mostrava o mapa como instrumento de controle desafiador ensaio, o pesquisador francês Christian Jacob considerou que o
político, de gestão e transmissão de conhecimento. [...] novo programa da HC somava aos seus objetos tradicionais – descobertas
progressivas das partes do globo, fontes de informação e dos modelos, da-
II.2 – Brian Harley: a história da cartografia nunca mais seria a tação e atribuição de documentos – um especial interesse pela dimensão
mesma técnica da carta e pelo contexto social – meio dos cartógrafos, dos gravado-
Com o seu trabalho editorial à frente do projeto The History of res, dos impressores, das livrarias, dos encomendantes e dos usuários. Ja-
Cartography, Brian Harley consolidou o seu papel como o mais influen- cob desenvolveu largo esforço teórico na conceituação do mapa, percebido
te intelectual no campo da HC de sua época. Já consagrado historiador da como um artefato resultante de um conjunto de operações e escolhas gráfi-
Geografia e da cartografia, Harley passou a publicar trabalhos dedicados à cas (geometria, traços, imagens figurativas, ornamentos, escrita), que acio-
discussão teórica e epistemológica sobre o estatuto do documento carto- nam códigos de representação organizados em uma verdadeira linguagem.
gráfico e sobre os objetivos e métodos da HC. Criticou as abordagens tradi- Esse artefato é um meio de comunicação que permite a transmissão visu-
cionais, as quais considerava fundadas em três paradigmas: o darwiniano, al de informações que se prestam também a manipulações retóricas (per-
o old-is-beautiful e o nacionalista. Harley não estava sozinho nessa em- suasão, engano, sedução, decisão). Tanto por sua complexidade semióti-
preitada e suas ideias inovadoras provocaram intenso debate no meio aca- ca como pelas instâncias sociais que o produzem, utilizam ou controlam, o
dêmico, produziram muitos adversários e um maior número de seguidores, mapa é um instrumento de duplo poder, no qual a eficácia não se reduz à
com grande repercussão até os dias de hoje. A partir de leituras de autores representação objetiva de um fragmento da superfície. Como acontece com
como Erwin Panofsky, Roland Barthes, Michel Foucault e Jacques Derrida, a linguagem escrita e falada, não se presta atenção à carta no seu uso coti-
Harley formulou um novo programa para a HC. Convidou os pesquisado- diano ou técnico. A condição de sua eficácia intelectual está precisamente
res a adotarem os conceitos e as posturas analíticas dos filósofos france- nessa suposta transparência. Jacob discutiu também as possibilidades de
ses na análise dos mapas (como o desconstrucionismo), a ver os mapas um novo programa epistemológico para a HC. Será sempre preciso conduzir
como imagens carregadas de juízo de valor, como um modo de imaginar, as pesquisas na dimensão diacrônica, mas repensando o estatuto da evo-
articular e estruturar o mundo dos homens. Harley foi um incansável divul- lução, das mudanças e do chamado progresso. Jacob propôs uma história
gador de uma concepção alargada de mapa, que não menosprezava a sua que privilegiasse o objeto por ele mesmo, e não pelos seus conteúdos geo-
dimensão técnica, da qual era profundo conhecedor. Recusava-se, porém, gráficos. Uma história do mapa e não uma história da descoberta da Terra.
a ver toda a cartografia e, consequentemente, a sua história, reduzida a O livro The Power of Maps, do americano Denis Wood, não é propria-
uma questão técnica, como era até então tradição nesse campo disciplinar. mente um trabalho de ou sobre a HC, e sim um contundente ensaio sobre
Brian Harley apontou para as diferentes formas de traduzir as imagens as bases epistemológicas da própria cartografia em fins do século XX. Mas
cartográficas como representações culturais carregadas de mensagens a perspectiva crítica de Wood, que apontou diretamente para a relação en-
políticas, seja nos seus conteúdos explícitos, nas distorções e ausências, tre mapa e poder, pode ser largamente aplicada às produções e práticas
nos signos convencionais ou no claro simbolismo das decorações de cartográficas mais antigas. Questionando a pretensa neutralidade dos car-
suas margens, cartuchos e vinhetas. Sublinhou também a necessidade tógrafos, o autor mostrou como a naturalização dos mapas na cultura oci-
de estudos mais aprofundados sobre cada contexto histórico específico, dental, ou seja, a aceitação de sua autoridade como perfeita representa-

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano XLI


ção do território e fonte de informação objetiva, foi uma construção social II.7 – A História da Cartografia atual: uma história dos
e histórica. Para Wood, o mapa não registra silenciosa e inocentemente mapeamentos
uma paisagem, mas responde a atos deliberados de identificação, seleção Abordar a cartografia sob o ângulo das práticas cientificas e culturais é
e nomeação do que é observado, mostrando ou escondendo elementos de uma tendência que se verifica, com especial vigor, na produção anglo-sa-
acordo com os interesses em jogo no projeto cartográfico. xônica. No final dos anos 90, Denis COSGROVE (1999) organizou o livro
Mappings, com ensaios que privilegiavam os processos de mapeamen-
II.5 – Desdobramentos: uma nova constelação de interesses
tos, explorando contextos e contingências que determinaram os atos de
Deflagrado no início dos anos oitenta, o processo de renovação da HC
visualização, conceitualização, pesquisa, representação e criação gráfica
desdobrou-se em congressos, exposições e iniciativas editoriais diversas,
de espaços. Para Cosgrove, uma história dos mapeamentos se adequa
que buscaram dar vazão e impulso a uma produção crescente sobre as
melhor à concepção do mapa como um produto cultural, um elemento
cartografias dos diferentes períodos históricos e regiões do globo [...]
da cultura material.
O pesquisador inglês Denis COSGROVE (1999) chegou a identificar
O livro de M. EDNEY, Mapping an empire (1998), pode ser citado
uma explosão de interesse e fascinação pelos mapas para além do cir-
como exemplar dessas novas abordagens da HC. Em resenha na revista
cuito dos especialistas, espalhando-se pelos domínios dos estudos cul-
Imago Mundi, Christian JACOB (1998) considerou o trabalho de Edney
turais e da produção artística. Para Cosgrove, as novas práticas de espaço
como um modelo metodológico para a HC, pela amplidão das fontes uti-
decorrentes das novas tecnologias, o redesenho geopolítico do globo e a
lizadas e das interpretações que a pesquisa suscita. Três fios condutores
superação definitiva das técnicas tradicionais de mapeamento conduzi-
estruturam o trabalho: uma reflexão sobre o poder e a natureza dos ma-
ram a um questionamento do estatuto de autoridade do mapa no mundo
pas no momento em que se dá a lenta transição das técnicas da cartogra-
contemporâneo. A onda de interesse carregou consigo um desafio epis-
fia de gabinete para uma cartografia baseada na triangulação sistemáti-
temológico que a HC tradicional não poderia resolver: dar conta da com-
ca do território (fins do século XVIII e primeiras décadas do século XIX);
plexidade das relações culturais que sustentam a autoridade do mapa
uma interrogação mais ampliada sobre os atores, individuais ou coleti-
significava tratar o mapa como um produto cultural e inseri-lo nos circui-
vos, que, em graus e modalidades múltiplas, intervêm em um dado pro-
tos de uso, troca e significação de cada sociedade.
cesso cartográfico; e, por fim, uma reflexão sobre o lugar da cartografia
II.6 – Trocas e empréstimos com outros campos disciplinares na política colonial e no projeto de construção de um espaço imperial [...]
O alargamento do objeto da nova HC não se produziu isolada ou interna- II.8 – Um trabalho inaugural no Brasil
mente à disciplina, mas constitui uma resposta a um processo de trocas e Pouco se tem produzido nesse campo no Brasil, quase intocado pelos
empréstimos com outros campos disciplinares correlatos. É o caso da reno- debates e movimentos de renovação teórica aqui comentados. A maio-
vação da história da ciência, que tem se voltado para a dimensão material, ria dos trabalhos relativos à HC brasileira tem sido realizada por histo-
técnica, econômica e discursiva das produções científicas. Em artigo sobre riadores portugueses e tratam do período colonial, com especial ênfase
a nova história social e cultural da ciência, Dominique PESTRE (1995) in- na cartografia dos descobrimentos. Podemos afirmar que, de forma ain-
ventariou novos objetos e abordagens com os quais podemos relacionar da esparsa, alguns trabalhos acadêmicos pioneiros têm surgido em res-
trabalhos específicos de HC, como a história dos instrumentos, das práticas posta ao movimento de renovação e alargamento do campo da HC. Uma
científicas, dos protocolos de prova, e das instituições [...] exceção é a tese da geógrafa brasileira Enali DE BIAGGI (2000), intitula-
Parte significativa da nova HC é também um desdobramento das no- da La Cartographie et les représentations du territoire au Brésil. Ao
vas abordagens da história do imperialismo e do nacionalismo, inscri- conceber os mapas como construções sociais e enfatizar sua dimensão
tas nos chamados estudos pós-coloniais. Nessa produção revisionista, os discursiva, De Biaggi, como tantos autores aqui analisados, se mostra de-
empreendimentos cartográficos são analisados como processos estraté- vedora das proposições teóricas e epistemológicas de B. Harley e C. Ja-
gicos do estado-nação moderno que visavam a construção de territórios cob. A tese apresenta um painel histórico da produção cartográfica no e
e o controle dos seus recursos, fossem populacionais ou naturais. O livro sobre o Brasil, a partir de uma preocupação essencialmente geográfica,
de Jeremy BLACK, Maps and history (2000), insere-se nessa gama de qual seja a de revelar a contribuição da cartografia na construção des-
estudos que tomam a cartografia como instrumento político, estratégi- se grande território. Mas a autora empreende também uma investigação
co no processo de expansão do nacionalismo e seu desdobramento, o histórica sobre os contextos científicos e políticos que conduziram à rea-
imperialismo. O livro trata dos atlas históricos, ou seja, do mapeamento lização das cartas geográficas, colocando em evidência os atores sociais
e da mapeabilidade do passado. Usualmente considerados como obras envolvidos e as relações entre a produção cartográfica internacional e a
de referência (como dicionários, cronologias e enciclopédias), na obra de produção local [...] Por outro lado, tal dimensão permite à autora cons-
Black os atlas históricos ganham estatuto de fonte documental. São ana- truir uma primeira periodização do tema e equilibrar sua análise entre os
lisados como imagens visuais que concorreram na criação e sustentação diferentes períodos, escapando à forte tradição dos estudos da cartogra-
de determinadas situações históricas, como na emergência das nações fia brasileira de privilegiar o período colonial. A importância do trabalho
modernas como comunidades políticas imaginadas [...] de De Biaggi reside essencialmente no ponto de visada – para usar uma
A forte tendência dos novos estudos, que inserem os mapas nos seus metáfora cartográfica – de sua análise: a trajetória da cartografia brasi-
contextos socioeconômicos, atinge também disciplinas como a história leira nos seus processos específicos, processos que engendram as repre-
da arte, por muito tempo um campo refratário às mudanças. Não é mais sentações próprias do território brasileiro. Tais representações têm, evi-
suficiente, também para os historiadores da arte, estudar os mapas nos dentemente, origem na cartografia europeia, mas são construídas em um
quadros das chamadas national schools; agora é necessário considerar contexto específico, no qual a tradição ocidental é confrontada com uma
o desenvolvimento econômico, social e cultural que permitiu o apareci- nova paisagem, um outro contexto social, diferentes relações de poder e
mento das formas cartográficas. padrões culturais.

XLII HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


III – Considerações finais: o mapa e sua herança distorcida De acordo com o historiador Hugh Trevor-Roper, o declínio da perse-
Consideremos as reflexões do historiador da cartografia David BUISSE- guição às bruxas foi em grande parte causado pela revolução científica
RET (2003), em seu mais recente livro, The mapmaker’s quest. Buisse- no século 17, que tornou impossível a crença continuada em bruxaria.
ret comenta o incremento do número de pesquisadores interessados em Analogamente, o fato cientificamente comprovado da inexistência das
HC nas duas ou três últimas décadas, ao qual correspondeu um crescente “raças” deve ser absorvido pela sociedade e incorporado às suas convic-
entendimento da relevância histórica dos mapas. Entre os avanços teóri- ções e atitudes morais. Uma atitude coerente e desejável seria a valoriza-
cos originados dessa vaga de interesse, Buisseret destaca a redefinição ção da singularidade de cada cidadão.
de mapa – cujo conceito tornou-se igualmente mais extenso e mais pre- Em sua individualidade, cada um pode construir suas identidades de
ciso –, a preocupação com a inserção dos mapas nas redes sociais e eco- maneira multidimensional, em vez de se deixar definir de forma única
nômicas de sua produção e, finalmente, o entendimento de que o impul- como membro de um grupo “racial” ou “de cor”.
so de mapear parece ser um traço universal das sociedades humanas [...] Segundo o nobelista Amartya Sen, todos nós somos simultaneamen-
A chave para o entendimento do aspecto mais profundo dessa reno- te membros de várias coletividades, cada uma delas nos conferindo uma
vação reside, a nosso ver, no alargamento do foco dos estudos. Ao in- identidade particular.
teresse pelos mapas antigos enquanto fontes objetivas para uma outra Assim, um indivíduo natural de Ruanda pode assumir identidades múlti-
história (da Geografia, da Arte ou da Ciência) somaram-se os estudos do plas por ser, por exemplo, africano, negro, da etnia hutu, pai de família, mé-
artefato cartográfico e dos processos de mapeamento como objetos de dico, ambientalista, vegetariano, católico, tenista, entusiasta de ópera etc.
uma história em si mesma reveladora e significativa. Nesses termos, o A consciência de sua individualidade e dessa pluralidade lhe permite
produto mapa – a imagem codificada – é parte substantiva, mas não ex- rejeitar o rótulo unidimensional de “hutu”, que, como tal, deveria neces-
clusiva, da HC, e o estudo do processo cartográfico necessariamente con- sariamente odiar tútsis.
duz à interrogação histórica mais complexa e abrangente. Pelo contrário, em sua pluralidade de identidades ele pode comparti-
lhar interesses e encontrar elementos para simpatia e solidariedade com
SOBRE A QUESTÃO RACIAL um outro indivíduo que também é ruandês, negro, africano, colega médi-
co, tenista e cantor lírico, e que, entre tantas outras identidades, também
PENA, S. D. “Ciência, bruxas e raças”. São Paulo: Folha de S.Paulo, 2 de agosto é da etnia tútsi.
de 2006. p. 3. Em conclusão, devemos fazer todo esforço possível para construir uma
sociedade desracializada, na qual a singularidade do indivíduo seja va-
Do ponto de vista biológico, raças humanas não existem. Essa constata-
lorizada e celebrada e na qual exista a liberdade de assumir, por escolha
ção, já evidenciada pela genética clássica, hoje se tornou um fato científi-
própria, uma pluralidade de identidades.
co irrefutável com os espetaculares avanços do Projeto Genoma Humano.
Esse sonho está em perfeita sintonia com o fato, demonstrado pela ge-
É impossível separar a humanidade em categorias biologicamente sig-
nética moderna, de que cada um de nós tem uma individualidade genô-
nificativas, independentemente do critério usado e da definição de “raça”
mica absoluta que interage com o ambiente para moldar a nossa exclu-
adotada. Há apenas uma raça, a humana.
siva trajetória de vida.
Sabemos, porém, que raças continuam a existir como construções so-
Alguns certamente vão tentar rejeitar essa visão, rotulando-a de elitista e
ciais. Alguns chegam mesmo a apresentar essa constatação com tom de
reacionária. Mas, como ela é alicerçada em sólidos fatos científicos, temos
inevitabilidade absoluta, como se o conceito de raça fosse um dos pila-
confiança de que, inevitavelmente, ela será predominante na sociedade.
res da nossa sociedade.
Talvez isso não ocorra em curto prazo aqui no Brasil, principalmente se
Entretanto, não podemos permitir que tal construção social se torne de-
o Congresso cometer a imprudência de aprovar o Estatuto da Igualdade
terminante de toda a nossa visão de mundo nem de nosso projeto de país.
Racial, o qual forçará os cidadãos a assumirem uma identidade principal
Em recente artigo na Revista USP, eu e a filósofa Telma Birchal de-
baseada em cor.
fendemos a tese de que, embora a ciência não seja o campo de origem
Um pensamento reconfortante é que, certamente, a humanidade do fu-
dos mandamentos morais, ela tem um papel importante na instrução
turo não acreditará em raças mais do que acreditamos hoje em bruxaria.
da esfera social.
E o racismo será relatado no futuro como mais uma abominação histó-
Ao mostrar “o que não é”, ela liberta pelo poder de afastar erros e pre-
rica passageira, assim como percebemos hoje o disparate que foi a per-
conceitos. Assim, a ciência, que já demonstrou a inexistência das raças em
seguição às bruxas.
seu seio, pode catalisar a desconstrução das raças como entidades sociais.
Há um importante precedente histórico para isso. Durante os séculos SOBRE OS JOGOS
16 e 17, dezenas de milhares de pessoas foram oficialmente condena-
das à morte na Europa pelo crime de bruxaria. HUIZINGA, J. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 4. ed. São Paulo:
As causas dessa histeria em massa são controversas. Obviamente, a Perspectiva, 2000. p. 5-7.
simples crença da época na existência de bruxas não é suficiente para
explicar o ocorrido. O jogo é fato mais antigo que a cultura, pois esta, mesmo em suas de-
É significativo que a repressão à bruxaria tenha vitimado primariamen- finições menos rigorosas, pressupõe sempre a sociedade humana; mas
te as mulheres e possa ser interpretada como uma forma extrema de con- os animais não esperaram que os homens os iniciassem na atividade
trole social em uma sociedade dominada por homens. lúdica. É-nos possível afirmar com segurança que a civilização humana
Mas, indubitavelmente, a crença em bruxas foi essencial para alimen- não acrescentou característica essencial alguma à ideia geral de jogo. Os
tar o fenômeno. Assim, podemos afirmar que, na sociedade dos séculos animais brincam tal como os homens1. Bastará que observemos os ca-
16 e 17, as bruxas constituíam uma realidade social tão concreta quanto chorrinhos para constatar que, em suas alegres evoluções, encontram-se
as raças hoje em dia. presentes todos os elementos essenciais do jogo humano. Convidam-se

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano XLIII


uns aos outros para brincar mediante um certo ritual de atitudes e gestos. “Está tudo muito bem, mas o que há de realmente divertido no jogo? Por
Respeitam a regra que os proíbe morderem, ou pelo menos com violên- que razão o bebê grita de prazer? Por que motivo o jogador se deixa absor-
cia, a orelha do próximo. Fingem ficar zangados e, o que é mais importan- ver inteiramente por sua paixão? Por que uma multidão imensa pode ser
te, eles, em tudo isto, experimentam evidentemente imenso prazer e di- levada até ao delírio por um jogo de futebol?”. A intensidade do jogo e seu
vertimento. Essas brincadeiras dos cachorrinhos constituem apenas uma poder de fascinação não podem ser explicados por análises biológicas. E,
das formas mais simples de jogo entre os animais. Existem outras formas contudo, é nessa intensidade, nessa fascinação, nessa capacidade de ex-
muito mais complexas, verdadeiras competições, belas representações citar que reside a própria essência e a característica primordial do jogo. O
destinadas a um público. mais simples raciocínio nos indica que a natureza poderia igualmente ter
Desde já encontramos aqui um aspecto muito importante: mesmo em oferecido a suas criaturas todas essas úteis funções de descarga de energia
suas formas mais simples, ao nível animal, o jogo é mais do que um fenô- excessiva, de distensão após um esforço, de preparação para as exigências
meno fisiológico ou um reflexo psicológico. Ultrapassa os limites da ati- da vida, de compensação de desejos insatisfeitos etc., sob a forma de exer-
vidade puramente física ou biológica. É uma função significante, isto é, cícios e reações puramente mecânicos. Mas não, ela nos deu a tensão, a
encerra um determinado sentido. No jogo existe alguma coisa “em jogo” alegria e o divertimento do jogo.
que transcende as necessidades imediatas da vida e confere um sentido Este último elemento, o divertimento do jogo, resiste a toda análise e
à ação. Todo jogo significa alguma coisa. Não se explica nada chamando interpretação lógicas. A palavra holandesa aardigheid é extremamente
“instinto” ao princípio ativo que constitui a essência do jogo; chamar-lhe significativa a esse respeito. Sua derivação de aard (natureza, essência)
“espírito” ou “vontade” seria dizer demasiado. Seja qual for a maneira mostra bem que a ideia não pode ser submetida a uma explicação mais
como o considerem, o simples fato de o jogo encerrar um sentido implica prolongada. Essa irredutibilidade tem sua manifestação mais notável,
a presença de um elemento não material em sua própria essência. para o moderno sentido da linguagem, na palavra inglesa fun, cujo sig-
A psicologia e a fisiologia procuram observar, descrever e explicar o nificado mais corrente é ainda bastante recente. É curioso que o francês
jogo dos animais, crianças e adultos. Procuram determinar a natureza e não possua palavra que lhe corresponda exatamente e que tanto em ho-
o significado do jogo, atribuindo-lhe um lugar no sistema da vida. A ex- landês (grap e aardigheid) como em alemão (Spass e Witz) sejam neces-
trema importância deste lugar e a necessidade, ou pelo menos a utilida- sários dois termos para exprimir esse conceito3. E é ele precisamente que
de da função do jogo, são geralmente consideradas coisa assente, cons- define a essência do jogo. Encontramo-nos aqui perante uma categoria
tituindo o ponto de partida de todas as investigações científicas desse absolutamente primária da vida, que qualquer um é capaz de identificar
gênero. Há uma extraordinária divergência entre as numerosas tentativas desde o próprio nível animal. É legítimo considerar o jogo uma “totalida-
de definição da função biológica do jogo. Umas definem as origens e fun- de”, no moderno sentido da palavra, e é como totalidade que devemos
damento do jogo em termos de descarga da energia vital superabundan- procurar avaliá-lo e compreendê-lo.
te, outras como satisfação de um certo “instinto de imitação”, ou ainda Como a realidade do jogo ultrapassa a esfera da vida humana, é impos-
simplesmente como uma “necessidade” de distensão. Segundo uma teo- sível que tenha seu fundamento em qualquer elemento racional, pois nes-
ria, o jogo constitui uma preparação do jovem para as tarefas sérias que se caso, limitar-se-ia à humanidade. A existência do jogo não está ligada
mais tarde a vida dele exigirá, segundo outra, trata-se de um exercício de a qualquer grau determinado de civilização, ou a qualquer concepção do
autocontrole indispensável ao indivíduo. Outras veem o princípio do jogo universo. Todo ser pensante é capaz de entender à primeira vista que o
como um impulso inato para exercer uma certa faculdade, ou como dese- jogo possui uma realidade autônoma, mesmo que sua língua não possua
jo de dominar ou competir. Teorias há, ainda, que o consideram uma “ab- um termo geral capaz de defini-lo. A existência do jogo é inegável. É pos-
-reação”, um escape para impulsos prejudiciais, um restaurador da ener- sível negar, se se quiser, quase todas as abstrações: a justiça, a beleza, a
gia despendida por uma atividade unilateral, ou “realização do desejo”, verdade, o bem, Deus. É possível negar-se a seriedade, mas não o jogo.
ou uma ficção destinada a preservar o sentimento do valor pessoal, etc.2. Mas reconhecer o jogo é, forçosamente, reconhecer o espírito, pois o
Há um elemento comum a todas estas hipóteses: todas elas partem do jogo, seja qual for sua essência, não é material. Ultrapassa, mesmo no
pressuposto de que o jogo se acha ligado a alguma coisa que não seja o mundo animal, os limites da realidade física. Do ponto de vista da con-
próprio jogo, que nele deve haver alguma espécie de finalidade biológica. cepção determinista de um mundo regido pela ação de forças cegas, o
Todas elas se interrogam sobre o porquê e os objetivos do jogo. As diversas jogo seria inteiramente supérfluo. Só se toma possível, pensável e com-
respostas tendem mais a completar-se do que a excluir-se mutuamente. preensível quando a presença do espírito destrói o determinismo abso-
Seria perfeitamente possível aceitar quase todas sem que isso resultasse luto do cosmos. A própria existência do jogo é uma confirmação perma-
numa grande confusão de pensamento, mas nem por isso nos aproximarí- nente da natureza supralógica da situação humana. Se os animais são
amos de uma verdadeira compreensão do conceito de jogo. Todas as res- capazes de brincar, é porque são alguma coisa mais do que simples seres
postas, porém, não passam de soluções parciais do problema. mecânicos. Se brincamos e jogamos, e temos consciência disso, é por-
que somos mais do que simples seres racionais, pois o jogo é irracional.
Natureza e significado do jogo Ao tratar o problema do jogo diretamente como função da cultura, e
Se alguma delas fosse realmente decisiva, ou eliminaria as demais ou não tal como aparece na vida do animal ou da criança, estamos iniciando
englobaria todas em uma unidade maior. A grande maioria, contudo, preo- a partir do momento em que as abordagens da biologia e da psicologia
cupa-se apenas superficialmente em saber o que o jogo é em si mesmo e o chegam ao seu termo. Encontramos o jogo na cultura, como um elemen-
que ele significa para os jogadores. Abordam diretamente o jogo, utilizan- to dado existente antes da própria cultura, acompanhando-a e marcan-
do-se dos métodos quantitativos das ciências experimentais, sem antes do-a desde as mais distantes origens até a fase de civilização em que
disso prestarem atenção a seu caráter profundamente estético. Por via de agora nos encontramos. Em toda a parte encontramos presente o jogo,
regra, deixam praticamente de lado a característica fundamental do jogo. A como uma qualidade de ação bem determinada e distinta da vida “co-
todas as “explicações” acima referidas poder-se-ia perfeitamente objetar: mum”. Podemos deixar de lado o problema de saber se até agora a ciên-

XLIV HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


cia conseguiu reduzir esta qualidade a fatores quantitativos. Em minha Notas
opinião não o conseguiu. De qualquer modo, o que importa é justamente 1 A diferença entre as principais línguas europeias (onde spielen, to play, jouer,
aquela qualidade que é característica da forma de vida a que chamamos jugar significam tanto jogar como brincar) e a nossa nos obriga frequentemente
“jogo”. O objeto de nosso estudo é o jogo como forma específica de ativi- a escolher um ou outro destes dois, sacrificando assim à exatidão da tradução
dade, como “forma significante”, como função social. Não procuraremos uma unidade terminológica que só naqueles idiomas seria possível. (N. do T.)

analisar os impulsos e hábitos naturais que condicionam o jogo em geral, 2 Sobre estas teorias, consultar H. Zondervan, Het Spel-bij Dieren, Kinderen
en Votwassen Menschen (Amsterdã, 1928) e F. J. J. Buytendijk, Het Spel van
tomando-o em suas múltiplas formas concretas, enquanto estrutura pro- Mensch en Diet als openbaring van levensdriften (Amsterdã, 1932).
priamente social. Procuraremos considerar o jogo como o fazem os pró- 3 Também em português a palavra divertimento é apenas a maneira menos ina-
prios jogadores, isto é, em sua significação primária. Se verificarmos que dequada de exprimir esse conceito, que para o autor corresponde à própria
o jogo se baseia na manipulação de certas imagens, numa certa “imagi- essência do jogo (v. infra), e está ligado também a noções como as de prazer,
nação” da realidade (ou seja, a transformação desta em imagens), nossa agrado, alegria etc. (N. do T.)
preocupação fundamental será, então, captar o valor e o significado des-
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XLVIII HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


BRASIL. Parâmetros Curricula-
Flavio de CAMPOS Flavio de Campos res Nacionais (PCN’s): terceiro
Graduado
BacharelemeHistória pela PUC-SP.
licenciado Mestre
em História emPontifícia
pela História Social pela USP. Professor
Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). e quarto ciclo. História. Brasília:
Doutor do Departamento de História da USP. Coordenador Científico do Ludens- MEC/Secretaria de Educação
Mestre em História na área de História Social e doutor em Ciências na área de História Social pela
-USP (Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Modalidades Lúdicas). Fundamental, 1997. Disponível em: <https://
Universidade de São Paulo (USP). Professor doutor do Departamento de História da Universidade
Autor de livros didáticos e paradidáticos.
de São Paulo (USP). Coordenador científico do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre goo.gl/jChduQ>. Acesso em: 20 ago. 2018.
Futebol e Modalidades Lúdicas (Ludens-USP). Autor de livros didáticos e paradidáticos. BRASIL. Presidência da República. Lei nº
Miriam DOLHNIKOFF 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei
Graduada em História pela PUC-SP. Mestre em História Social pela USP.
Regina Claro
Professora Doutora do Departamento de História da USP. Professora Doutora
nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que
estabelece as diretrizes e bases
Bacharel
do curso em História
de Relações pela Universidade
Internacionais de São Paulo
(USP). Pesquisadora (USP). Mestre
do Cebrap (Centro em Ciências na área da educação nacional, para in-
de História
Brasileiro Social
de Análise pela Universidade
e Planejamento). dedeSão
Autora Paulo
livros (USP).e Desenvolve
didáticos paradidáticos.projetos de capacitação cluir no currículo oficial da rede
para professores da rede pública na temática História e Cultura Africana e Afro-americana, de ensino a obrigatoriedade da
Regina emCLARO
atendimento à Lei nº 10.639/03. Autora de livros didáticos e paradidáticos. temática “História e Cultura Afro-Brasileira”,
e dá outras providências. Brasília, 2003. Dis-
Graduada em História pela USP. Mestra em História Social pela USP. Doutoranda da
Miriam Dolhnikoff
Faculdade de Educação da USP. Especialista em História e Cultura Africana e Afro-
ponível em: <https://goo.gl/aeKRNK>. Acesso
em: 20 ago. 2018.
-americana.
BacharelDesenvolve projetos
e licenciada de capacitação
em História para professores
pela Pontifícia da redeCatólica
Universidade pública de São Paulo (PUC-SP).
em atendimento
Doutora emàCiências
Lei 10.639/03. Autora
na área de livros didáticos
de História Econômica e paradidáticos.
pela Universidade de São Paulo (USP). BRASIL. Presidência da República. Lei nº
Professora doutora do Departamento de História e do curso de Relações Internacionais 11.645, de 10 de março de 2008. Altera a
da Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise Lei no 9.394, de 20 de dezem-
bro de 1996, modificada pela

NOS
e Planejamento (Cebrap). Autora de livros didáticos e paradidáticos.
Lei nº 10.639, de 9 de janeiro
de 2003, que estabelece as di-
retrizes e bases da educação nacional, para

HISTÓRIA:
HISTÓRIA
incluir no currículo oficial da rede de ensino
a obrigatoriedade da temática “História e Cul-
tura Afro-Brasileira e Indígena”. Disponível

e
em: <https://goo.gl/3TnLvN>. Acesso em: 20

ESCOLA
ago. 2018.
ESCOLA E DEMOCRACIA BRASIL. Conselho Nacional de
Educação (CNE/CP n. 003) de

DEMOCRACIA 9
10 de março de 2004, CNE/CP
o 003/2004 - parecer para as Di-
ano retrizes Curriculares Nacionais para a Edu-
cação das Relações Étnico-Raciais e para o
Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e
Africana na Educação Básica” disponível em:

9
<https://goo.gl/T9QVBo>. Acesso em: 20 ago.
2018.
Componente curricular: HISTÓRIA BRASIL. Plano Nacional de Im-
plementação das Diretrizes
Curriculares Nacionais para a
Educação das Relações Étnico-
-Raciais e para o Ensino de História e Cultu-
ra Afro-brasileira e Africana. Brasília: MEC/
SECAD, 2009. Disponível em: <https://goo.gl/
1a edição nef2FT>. Acesso em: 20 ago. 2018.
BRASIL. Pareceres e Resoluções
São Paulo, 2018 sobre Educação das Relações
Étnico-Raciais. Disponível em:
<https://goo.gl/KfVUXc>. Acesso
em: 20 ago. 2018.
BRASIL. Ministério da Educação e Conselho
Nacional de Educação. Resolução CNE/CP
Nº 2, de 22 de dezembro de 2017. Institui
São Paulo • 3a edição • 2018
e orienta a implantação da Base
Nacional Comum Curricular, a
ser respeitada obrigatoriamente
ao longo das etapas e respecti-
vas modalidades no âmbito da Educação Bá-
EDUCAÇÃO LEGAL: sica. Disponível em: <https://goo.gl/yWAVjF>.
CONSTITUIÇÃO, LEIS, RESOLUÇÕES, PARECERES Acesso em: 20 ago. 2018.

BRASIL. Presidência da República. Lei nº BRASIL. Base Nacional Comum


BRASIL. Presidência da República. Lei nº
9.394 de 20 de dezembro de 1996. Revoga a Curricular (BNCC) homologa-
4.024 de 20 de dezembro de 1961. Estabe-
Lei 4.024/61 e estabelece as Diretrizes e Ba- da. Disponível em: <https://goo.
lece as Diretrizes e Bases da Educação Nacio-
ses da Educação Nacional. Disponível em: <ht- gl/HTLkLJ>. Acesso em: 20 ago.
nal (texto original). Disponível em: <https://
tps://goo.gl/qAnfvQ>. Acesso em: 20 ago. 2018. 2018.
goo.gl/g58FY1>. Acesso em: 20 ago. 2018.
BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional BRASIL. Presidência da República. Lei nº
BRASIL. Presidência da República. Constituição da Repú-
(LDB). Edição atualizada. março de 2017. Disponível em: 13.146 de 06 de julho de 2015. Institui a Lei
blica Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: <https://
<https://goo.gl/RtX9r7>. Acesso em: 20 ago. Brasileira de Inclusão da Pessoa com Defi-
goo.gl/eisZfE>. Acesso em: 20 ago. 2018.
2018. ciência. Disponível em: <https://
goo.gl/LfvHGP>. Acesso em: 20
ago. 2018.

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano 1


COMPETÊNCIAS GERAIS
BNCC Coordenação editorial: Leon Torres
Edição de texto: Angela Duarte
1. Valorizar e utilizar os conhecimentos his- Gerência de design e produção gráfica: Cia. de Ética
toricamente construídos sobre o mundo físi- Coordenação de design e projetos visuais: Didier Moraes, Marcello Araújo
Projeto gráfico: Didier Moraes, Marcello Araújo
co, social, cultural e digital para entender e Capa: Didier Moraes, Marcello Araújo
explicar a realidade, continuar aprendendo e Foto: DigitalVision/Image Source/Getty Images
colaborar para a construção de uma socieda- Coordenação e edição de arte: Didier Moraes e Marcello Araújo
de justa, democrática e inclusiva. Editoração eletrônica: Cia. de Ética/Cláudia Carminati, Fernanda do Val, Luciano Pessoa,
Márcia Romero, Mônica Hamada, Ruddi Carneiro
2. Exercitar a curiosidade intelectual e re- Edição de infografia: A+com
correr à abordagem própria das ciências, in- Ilustrações de vinhetas: Didier Moraes, Marcello Araújo
cluindo a investigação, a reflexão, a análise Ilustrações: Lucas C. Martinez
crítica, a imaginação e a criatividade, para in- Revisão: Cia. de Ética/Ana Paula Piccoli, Denise Pessoa Ribas, Fabio Giorgio, Luciana Baraldi
Coordenação de pesquisa iconográfica: Cia. de Ética/Paulinha Dias
vestigar causas, elaborar e testar hipóteses,
Pesquisa iconográfica: Cia. de Ética/Paulinha Dias
formular e resolver problemas e criar solu- Mapas: Mário Yoshida
ções (inclusive tecnológicas) com base nos Tratamento de imagens: Pix Arte Imagens
conhecimentos das diferentes áreas. Fechamento de arquivo: Cia. de Ética/Mônica Hamada, Ruddi Carneiro
3. Valorizar e fruir as diversas manifestações Impressão e acabamento:
artísticas e culturais, das locais às mundiais,
e também participar de práticas diversifica-
das da produção artístico-cultural.
4. Utilizar diferentes linguagens – verbal
(oral ou visual-motora, como Libras, e escri-
ta), corporal, visual, sonora e digital –, bem
como conhecimentos das linguagens artísti-
ca, matemática e científica, para se expres-
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
sar e partilhar informações, experiências, (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
ideias e sentimentos em diferentes contex-
tos e produzir sentidos que levem ao enten- Campos, Flavio de
História : escola e democracia / Flavio de Campos,
dimento mútuo. Regina Claro, Miriam Dolhnikoff. – 1. ed. -- São
5. Compreender, utilizar e criar tecnologias Paulo : Moderna, 2018. – (História : escola e
democracia)
digitais de informação e comunicação de for-
ma crítica, significativa, reflexiva e ética nas Obra em 4 v. para alunos do 6º ao 9º ano.
diversas práticas sociais (incluindo as esco- Bibliografia.

lares) para se comunicar, acessar e dissemi- 1. História (Ensino fundamental) I. Claro, Regina.
nar informações, produzir conhecimentos, II. Dolhnikoff, Miriam. III. Título. IV. Série.
resolver problemas e exercer protagonismo
e autoria na vida pessoal e coletiva. 18-20773 CDD-372.89
6. Valorizar a diversidade de saberes e vi-
Índices para catálogo sistemático:
vências culturais e apropriar-se de conheci-
1. História : Ensino fundamental 372.89
mentos e experiências que lhe possibilitem
Maria Paula C. Riyuzo - Bibliotecária - CRB-8/7639
entender as relações próprias do mundo do
trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exer- ISBN 978-85-16-11655-2 (aluno)
cício da cidadania e ao seu projeto de vida, ISBN 978-85-16-11656-9 (professor)
com liberdade, autonomia, consciência críti-
ca e responsabilidade.
7. Argumentar com base em fatos, dados e Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
informações confiáveis, para formular, nego- Todos os direitos reservados
ciar e defender ideias, pontos de vista e de- EDITORA MODERNA LTDA.
Rua Padre Adelino, 758 - Belenzinho
cisões comuns que respeitem e promovam São Paulo - SP - Brasil - CEP 03303-904
os direitos humanos, a consciência socioam- Vendas e Atendimento: Tel. (0_ _11) 2602-5510
Fax (0_ _11) 2790-1501
biental e o consumo responsável, em âmbito www.moderna.com.br
2018
local, regional e global, com posicionamen- Impresso no Brasil
to ético em relação ao cuidado de si mesmo, 1 3 5 7 9 10 8 6 4 2
dos outros e do planeta.
8. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua
saúde física e emocional, compreendendo-
-se na diversidade humana e reconhecendo
suas emoções e as dos outros, com autocríti-
ca e capacidade para lidar com elas.
9. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolu-
ção de conflitos e a cooperação, fazendo-se
respeitar e promovendo o respeito ao outro
e aos direitos humanos, com acolhimento e
valorização da diversidade de indivíduos e
de grupos sociais, seus saberes, identidades,
culturas e potencialidades, sem preconceitos
de qualquer natureza.
10. Agir pessoal e coletivamente com auto-
nomia, responsabilidade, flexibilidade, resi-
liência e determinação, tomando decisões
com base em princípios éticos, democráti-
cos, inclusivos, sustentáveis e solidários.

2 HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


Apresentação
COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS
DE HISTÓRIA PARA
Há muitas definições para a história. Uma das mais difundidas e aceitas a considera O ENSINO FUNDAMENTAL
o estudo dos seres humanos no tempo. Assim, nossos olhares e interesses não devem
1. Compreender acontecimentos históricos,
se dirigir apenas para o passado, mas também para o presente, articulando tempos relações de poder e processos e mecanis-
diversos, procurando significações, nexos e relações. mos de transformação e manutenção das
Se a história é uma ferramenta para o manuseio do tempo, a escola é uma instituição estruturas sociais, políticas, econômicas e
de fronteira entre o ambiente familiar e o conjunto da sociedade. Ambas são marcadas culturais ao longo do tempo e em diferentes
pela transição. A primeira pela multiplicidade de tempos. A segunda pela ampliação dos espaços para analisar, posicionar-se e inter-
horizontes e pela compreensão científica e sistematizada das dinâmicas sociais. vir no mundo contemporâneo.
É na interface dessas transições que situamos a proposta desta coleção. Além dos 2. Compreender a historicidade no tempo
e no espaço, relacionando acontecimentos
elementos econômicos, sociais, políticos, religiosos e culturais, procuramos conside-
e processos de transformação e manuten-
rar aspectos muito próximos do repertório dos estudantes, visando a uma aprendiza- ção das estruturas sociais, políticas, econô-
gem significativa. micas e culturais, bem como problematizar
Por essa razão, resgatamos elementos lúdicos desenvolvidos nos períodos e nas os significados das lógicas de organização
sociedades analisados. Os jogos são dados culturais, desenvolvidos ao longo da história cronológica.
para divertir e tornar a existência humana mais agradável. São permanências que devemos 3. Elaborar questionamentos, hipóteses, ar-
entender e analisar como temas privilegiados para a compreensão das diversas formações gumentos e proposições em relação a do-
sociais ao longo do tempo. cumentos, interpretações e contextos his-
tóricos específicos, recorrendo a diferentes
Os jogos podem nos oferecer parâmetros para o entendimento de regras, meca-
linguagens e mídias, exercitando a empatia,
nismos e, sobretudo, valores de respeito, diversidade e tolerância, elementos funda-
o diálogo, a resolução de conflitos, a coope-
mentais para o convívio coletivo em uma sociedade democrática. ração e o respeito.
Os autores 4. Identificar interpretações que expressem
visões de diferentes sujeitos, culturas e po-
vos com relação a um mesmo contexto histó-
rico, e posicionar-se criticamente com base
em princípios éticos, democráticos, inclusi-
vos, sustentáveis e solidários.
5. Analisar e compreender o movimento de
populações e mercadorias no tempo e no es-
paço e seus significados históricos, levando
Seleção brasileira comemora o pentacampeonato de futebol. Estádio de Yokohama, Japão, 30 jun. 2002. JORGE GONTIJO/EM/D.A PRESS em conta o respeito e a solidariedade com as
diferentes populações.
6. Compreender e problematizar os concei-
tos e procedimentos norteadores da produ-
ção historiográfica.
7. Produzir, avaliar e utilizar tecnologias digi-
tais de informação e comunicação de modo
crítico, ético e responsável, compreendendo
seus significados para os diferentes grupos
ou estratos sociais.

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano 3


Por dentro do livro
Atividades da coleção e competências
específicas de História para o Ensino É importante que você compreenda como organizamos este livro. Cada capítulo oferece algumas
Fundamental. ferramentas para facilitar seu estudo. Cada uma das seções dos capítulos tem o propósito de
ajudá-lo(a) a desenvolver um tipo de conhecimento e habilidade.

tre
es
m

Bi
JOGO ABERTO


Capítulo
A democratização
12
3

CYNTHIA BRITO/OLHAR IMAGEM


do Brasil
Cada capítulo tem uma abertura com imagens
Projeto da anistia é intocável,, Jorge Araújo. Praça da Sé, São Paulo, São Paulo (Brasil), 21 ago. 1979.
1 e questões. Sua função é iniciar os trabalhos.

JORGE ARAÚJO/FOLHAPRESS
JOGO

? Você vai perceber que é capaz de lembrar de


ABERTO

Na seção Jogo aberto propomos OBSERVE AS IMAGENS

1. alguns dados, informações e até mesmo de


uma sondagem de saberes prévios. Os
No seu caderno, des-
creva a situação repre-

chegar a algumas conclusões iniciais, ou seja,


sentada em cada uma
das fotos.
Manifestação de mulheres por eleições diretas, Congresso Nacional. Brasília, Distrito Federal (Brasil), 1984.
2. Como ocorreu a transi-

conhecimentos dos estudantes não es- ção da ditadura para a


democracia no Brasil? 4

muitas vezes você já tem conhecimentos sobre

MÍDIA NINJA
A manifestação pela anistia dos presos políticos e exilados

tão limitados apenas às informações os assuntos que vão ser tratados. Imagens e
reuniu cerca de 5 mil pessoas na região central da cidade.

GERALDO GUIMARÃES/ ESTADÃO CONTEÚDO


que possuem, mas também às suas atividades servirão de estímulo. O jogo está
crenças, à sua forma de ver e explicar aberto para que você inicie suas reflexões.
o mundo. Assim, ao solicitar que regis-
trem as respostas tomando por base 256 Capítulo 12 | A democratização do Brasil
Eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral. Brasília, Distrito Federal (Brasil), 15 jan. 1985.

REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO


Manifestantes diante do Congresso Nacional. Brasília, Distrito Federal (Brasil), 18 jun. 2013.

NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA A democratização do Brasil | Capítulo 12 257

apenas seus conhecimentos, preten-


de-se possibilitar que os alunos orga-
TEXTO BÁSICO
nizem suas ideias para aproximá-las
Cada capítulo tem um texto geral que
UMA DÉCADA DE MUDANÇAS PROFUNDAS Terra e tornou-se herói na União Soviética. Por intermédio dele o mundo fi-
SPACE FRONTIERS/GETTY IMAGES

GETTY IMAGES
do conteúdo cientificamente organi-
cou sabendo que a Terra era azul.
A década de 1960 foi repleta de acontecimentos que questionavam cer- Foi realmente um duro golpe para os estadunidenses, pois a conquista
tezas aparentemente inabaláveis. do espaço não significava apenas superioridade científica, mas, sobretudo, a

trata de um ou mais temas. Sua função


A corrida espacial transformava em realidade as previsões que a ficção superioridade do sistema político-ideológico adotado pelos soviéticos.
científica fazia desde o século XIX e excitava a imaginação das pessoas: viajar A reação foi imediata. A partir daí os Estados Unidos investiriam pesado

zado que será apresentado no decor- pelo espaço sideral, encontrar novas formas de vida, outras sociedades, che-
gar à Lua, transpor os céus sem a ajuda divina, desenvolver ilimitadamente as
no sonho de levar um cidadão do país à Lua. Em 20 de julho de 1969, o astro-
nauta Neil Armstrong, comandante da nave Apollo 11, e o piloto Edwin Aldrin
potencialidades humanas por meio da tecnologia – tudo isso parecia agora
ao alcance das mãos.
Jr. tornaram-se os primeiros seres humanos a pisar na superfície lunar. O mun-
do todo parou para assistir, pela televisão, ao que parecia impossível no come- é oferecer informações, explicações,
rer do capítulo. Desse diálogo, espera-
Entre as esquerdas discutia-se à exaustão os rumos que a revolução so- ço do século XX. A bandeira dos Estados Unidos era fincada na Lua. Pôster comemorativo do
lançamento de Yuri Gagarin

análises e interpretações do estudo


Lançamento do foguete cialista deveria tomar. A Revolução Cubana alimentava o sonho daqueles
ao espaço a bordo da cápsula
Saturn V da missão Apollo
Saturn V, que pretendiam destruir a sociedade capitalista. Tornava possível uma até Vostok 1. Rússia, 1961.
10. Centro Espacial Kennedy,
Flórida (EUA), 1968. então improvável contestação ao poder dos Estados Unidos. A GUERRA DO VIETNÃ

se a reformulação dos conhecimentos


Acalorados movimentos pacifistas desafiavam a política militar da Guer
Guer-
A Guerra do Vietnã foi um prolongamento da Guerra da Indochina (1946-

de História. É o momento de atenção


Nesse dia, a
ra Fria, como se o sonho pudesse se contrapor à realidade, como se os dese-
-1954). espaçonave Apollo 11
jos e as paixões fossem capazes de frear os interesses econômicos e sociais. aterrissou na Lua. As
O Vietnã era uma antiga colônia francesa que foi dividida em dois paí-
As contestações de 1968 na França e na Tchecoslováquia e o movimen- manchetes dos jornais
ZIGY KALUZNY/GETTY IMAGES

ses após a descolonização (1954) por um acordo firmado em Genebra. O brasileiros festejaram o

prévios e a construção de conceitos


to hippie forneciam as referências para as pessoas que apostavam em uma
Norte, pró-socialista, liderado por Ho Chi Minh, com capital em Hanói, e o

e de leitura cuidadosa. Ao longo


acontecimento como o
revolução comportamental que alterasse os costumes considerados tradi- início de uma nova era.
Sul, pró-capitalista, com capital em Saigon. Os norte-vietnamitas aceitaram
cionais e no poder jovem como o principal instrumento de renovação de um
a divisão com a promessa de que se realizassem eleições gerais com vistas à

AGÊNCIA O GLOBO
mundo considerado ultrapassado.
reunificação do país.
Novas propostas musicais como o rock’n’roll ditavam o ritmo das revo-

científicos a partir daqueles esponta- desta seção, há outros quadros, como


O adiamento das eleições, previstas para 1956, foi o estopim para o con-
luções. A pop art questionava a sociedade de consumo e a arte exposta nos
flito, que durou de 1964 a 1975. Diante da possibilidade de vitória de Ho Chi
museus. Os movimentos artísticos e intelectuais contestavam a cultura esta-
Minh, o presidente estadunidense apoiou a formação de um governo ditato-
belecida.
rial no Vietnã do Sul, cedendo armamentos e oferecendo treinamento militar,

se fossem janelas, com imagens e


Movimentos negros questionavam a dominação branca, estabelecida há
com o argumento de defender a democracia no mundo.

neamente adquiridos, investindo-se,


séculos, com a exploração da África e dos afrodescendentes. Movimentos fe-
Em 1960, a resistência comunista fundou a Frente Nacional de Liberta-
ministas desafiavam o controle masculino estabelecido há milênios no proces-
Bandeira dos Estados Unidos ção do Vietnã do Sul, criando o Exército Vietcongue.
sendo queimada, s/d.
so de constituição da chamada “civilização humana”. No ano seguinte, os Estados Unidos começaram a enviar tropas para o

informações complementares.
Em plena Guerra Fria, o mundo estava em chamas. E os sonhos, nas alturas. Vietnã do Sul, em defesa do governo. Durante o conflito, os estadunidenses

em uma aprendizagem significativa.


perderam cerca de 50 mil soldados e tiveram um prejuízo de 200 bilhões de Capa do jornal O Globo, de 20
CORRIDA ESPACIAL: O CÉU É O LIMITE dólares. O número de vietnamitas mortos é estimado entre 1 e 3 milhões. jul. 1969.
A maior derrota militar da história dos Estados Unidos ocorreu em duas
A corrida espacial foi um componente da corrida armamentista entre Es- frentes de batalha. No Sudeste asiático, foram derrotados pelas tropas regu-
ARQUIVO PESSOAL

Portanto, estimulamos a elaboração


tados Unidos e União Soviética, durante a Guerra Fria. A tecnologia conquis- lares do Vietnã do Norte e pelos vietcongues, guerrilheiros sul-vietnamitas.
tada com os voos espaciais era utilizada na indústria de armamentos. O impressionante poderio militar estadunidense começou a ser destroçado
Em 1957, os soviéticos iniciaram a corrida espacial com o lançamento com a Ofensiva do Tet, iniciada com os festejos do início do ano lunar viet-
do Sputnik 1, o primeiro satélite espacial a ser posto em órbita ao redor do namita, em janeiro de 1968.

de questionamentos, hipóteses, argu-


planeta. Em novembro do mesmo ano foi a vez do Sputnik 2, que, levando a Internamente, a derrota foi desenhada pela contestação da pre-
bordo a cachorra Laika, permaneceu dez dias no espaço. sença de tropas dos Estados Unidos no Vietnã, que era cada vez maior. TÁ LIGADO
Nos quatro anos seguintes, Estados Unidos e União Soviética lançaram Em 1956, eram centenas de assessores militares estadunidenses. Em
naves não tripuladas, incluindo algumas que serviram de ensaio para futuras 1963, o número chegava a 20 mil. Em 1965, o total de soldados envia- 1. Defina vietcongue.

TÁ LIGADO?
missões tripuladas. dos à guerra chegava a 184 mil. Em 1967, 485 mil. Um ano depois, ul- 2. Explique os fatores que

mentos e proposições em relação aos O impulso é dado para uma


luta prolongada. Pôster, Paris
(França), 1968.
Em 12 de abril de 1961, os soviéticos surpreenderam os estadunidenses
com o lançamento do Vostok 1, pilotado por Yuri A. Gagarin, o primeiro ser
humano a viajar pelo espaço. Gagarin deu uma volta completa ao redor da
trapassava meio milhão de soldados. Em sua imensa maioria, jovens.
A mesma potência tecnológica que conquistava o solo lunar não
conseguia manter suas posições militares em terras vietnamitas.
levaram os Estados
Unidos a se envolverem
na Guerra do Vietnã.

documentos visuais apresentados, o 218 Capítulo 10 | A era da contestação REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA A era da contestação | Capítulo 10 219

Como um roteiro de leitura, há questões


exercício da construção de interpreta- e propostas de atividades para auxiliar a
ções e o estabelecimento de contextos compreensão do texto básico.
históricos específicos. BATE-BOLA OBSERVE AS I MAGENS

BATE-BOLA
Cinema de propaganda
Tudo era meticulosamente
planejado para virar filme.

TÁ N A R E D E !
SÜDDEUTSCHER VERLAG BILDERDIENST, MUNIQUE, ALEMANHA

REPRODUÇÃO/O TRIUNFO DA VONTADE, LENI RIEFENSTAHL

São quadros com atividades,


localizados ao longo do texto GREVES DE
TRABALHADORES NO TÁ NA REDE!
básico. É um jogo rápido, um INÍCIO DO SÉCULO XX
Em alguns
treinamento com atividades Digite o endereço abai-
xo na barra do navega- capítulos, dicas
inserido no decorrer do dor de internet: <https://
de sites para
bit.ly/2QoWJcb>. Você pode
? capítulo. Há sempre uma aprofundar seus
A seção de atividades Tá ligado?
A cineasta Leni Riefenstahl, com Adolf Hitler em segundo Congresso do Partido Nazista em Nuremberg. Cena extraída do
plano, dirige as filmagens sobre a celebração do Dia do
Partido. Nuremberg (Alemanha),1936.
filme O triunfo da vontade, dirigido por Leni Riefenstahl.
Alemanha, 1934. também tirar uma foto
O cinema acabou servindo, no decorrer do século XX, como instrumento para as mais variadas ideo- imagem ou um pequeno texto com um aplicativo de
conhecimentos.
tem como objetivo auxiliar os estudan-
logias. Do marxismo ao fascismo, passando pela democracia liberal estadunidense.
QrCode para saber mais so-
seguido de algumas questões.
Artistas eram convocados a doutrinar o povo. O ministro Goebbels fazia experimentos em cinema e
televisão, trabalhando com os efeitos das cores e formas sobre o cérebro e o corpo. No cinema hitlerista
o grande destaque foi a diretora Leni Riefensthal, que ajudou a criar a imagem da superioridade ariana,
bre o assunto. Acesso em:
Também pode
tes a realizar a leitura do texto bási-
em filmes como O triunfo da vontade (1934) e Olimpíadas (1936).

Sua função é aprofundar e 2 out. 2018. Em francês.


O triunfo da vontade registrou o congresso do Partido Nazista, em Nuremberg, em 1934. Os prepa-

ser acessado por


rativos do congresso foram planejados em sintonia com o roteiro do filme, com o objetivo de torná-lo
material de propaganda. Segundo a diretora, o desenrolar das cerimônias, as paradas, os desfiles, os

co e, eventualmente, de determinados
movimentos de multidão, tudo isso foi determinado em função da câmera.

1. Aponte a importância do cinema e da televisão na propaganda de uma ideologia.


complementar conteúdos, O site apresen-
ta uma série de um aplicativo
mapas. Evidentemente, sua utilização
2. Escolha um filme ou cena em particular que faça propaganda direta ou indireta de alguma ideologia.
Justifique sua escolha no caderno.
levantar algum tipo de polêmica cartões postais
de greves entre QrCode.
deve ser balanceada de acordo com as
NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA O período entreguerras | Capítulo 2 49
ou estabelecer alguma relação 1901 e 1914.

com o presente.
necessidades de cada grupo de estu-
dantes. Com tal recurso, pretendemos
4 REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO
estimular a compreensão dos aconte-
cimentos históricos e as lógicas de or-
ganização cronológica, seus processos,
suas estruturas sociais, políticas e eco-
? ?
nômicas. Com a análise de determina- Na seção Bate-Bola, procura-se estimular a ela- Com o recurso do Tá na rede!, procuramos utilizar
das representações cartográficas, pro- boração de questionamentos e proposições acerca tecnologias digitais de informação e comunicação,
curamos incentivar a leitura de mapas de documentos recorrendo a diferentes linguagens. de modo positivo e responsável, para a apreensão
e os movimentos de ocupação, fixação Em alguns casos, é possível identificar expressões de informações, documentos, contextualizações e
e deslocamento humano e da sua pro- de opiniões controversas e o encaminhamento de resgate de elementos do cotidiano.
dução material. questões baseadas em princípios éticos, democrá-
ticos e inclusivos.

4 HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


ES Ícones para o(a) professor(a)
ÍCOCONLEÇÃOIA
DA R
ISTÓ
DE H

África relação de gÊnero


Em 1917 entrou em vigor uma nova Constituição, fortemente na-
cionalista, com amplas concessões aos trabalhadores urbanos e uma
reforma agrária não tão radical como queria Zapata. Com a promul-
TÁ LIGADO
7. Liste as conquistas
Lei 10.639 em ação
RelaçõES
gação da Constituição, apesar dos enfrentamentos pela terra con- sociais garantidas pela
tinuarem, encerrou-se o ciclo revolucionário que havia custado ao Constituição mexicana

relação de gÊnero
Lei 11.645 em ação
de 1917.
México um milhão de vidas.

África-América
e diversidades
O Exército Zapatista de Libertação Nacional

A história do México e a trajetória de Emiliano Zapata aju-


dam a entender a base da organização guerrilheira Exército Za-
Subcomandante Marcos, líder do Exército
Zapatista de Libertação Nacional (EZLN).
México, 2006.
QUADROS anglo-saxã
COMPLEMENTARES
patista de Libertação Nacional (EZLN), que, a partir de 1994,

RelaçõES África-
AFP/GETTY IMAGES
comandado pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena,

Cidadania proposta pedagógica


tem no subcomandante Marcos sua liderança evidente. A face
nunca foi, de todo, visível.
Esse neozapatismo reivindica reforma agrária, maiores direitos
-América Latina
Janelas em que estão
para os grupos indígenas de Chiapas (descendentes dos maias) e,
ao mesmo tempo, se opõe ao Nafta (bloco econômico formado
por México, Estados Unidos e Canadá), que representaria uma
forma de submissão do país ao capital estrangeiro.

presentes textos jogos Oralidade interdisciplinaridade


BAIN NEWS SERVICE/INTERIM ARCHIVES/GETTY IMAGES

variados, imagens,
mapas ou gráficos Povos indígenas olhares DIVERSOS
Retrato do líder revolucionário Emiliano Zapata
(sentado, ao centro) e seus homens. México, 1914.

complementares. Sua cidadania


GARANTIAS SOCIAIS
A Constituição mantinha a propriedade privada, mas com uma função so-
cial. Reduzia-se a jornada de trabalho para oito horas diárias e garantiam-se os
direitos de organização e de greve. Por fim, foram estabelecidas medidas vi-
função é inserir novas direitos humanos patrimônio
informações e relações patrimônio
sando retomar o controle nacional sobre a mineração e a extração de petróleo.
A força da revolução havia alterado as estruturas sociais do México. O pro-
grama de reformas não era radical, mas estava carregado de avanços sociais.
Zapata foi assassinado, em 1919, por um oficial do Exército que apoiava
Carranza. Sua morte não representaria o fim do movimento. As outras lide-
ranças juraram manter sua luta. Rapidamente correu um boato de que haviam
“matado um substituto”. Zapata estaria vivo e fora visto cavalgando nas mon-
com os conteúdos
do capítulo.
tanhas. Nas proféticas palavras de Porfirio Díaz, em 1911, o tigre estava solto.

NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA A América Latina | Capítulo 8 181

Direitos Humanos
LEITURA COMPLEMENTAR

Leia com atenção o texto de Milovan Djilas, um dissidente comunista que chegou à vice-presidência
da Iugoslávia. Foi preso durante anos devido às suas críticas ao regime.
A seguir, trabalhe as questões propostas.
LEITURA Inclusão
A NOVA CLASSE

OLHO NO LANCE
Na URSS e em outros países, os acontecimen
tos diferiram das previsões dos líderes [...] Eles es
peravam que o Estado desaparecesse rapidamen
dade comercial e artesanal. Há exceções, segundo
as condições nacionais, mas o proletariado dos paí-
ses economicamente subdesenvolvidos, atrasados,
COMPLEMENTAR
te, e a democracia se fortificasse. Foi o contrário constitui a matéria-prima para a nova classe.

Olhares diversos
que aconteceu. Esperavam uma rápida melhoria Há outras razões pelas quais a nova classe age
A Avenida Rio Branco e a história da República
Avenida Central (atual Avenida Rio Branco), Augusto Malta. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (Brasil), 1906.
OBSERVE AS IMAGENS

1 OLHO NO LANCE
do nível de vida – e houve pouca modificação a
esse respeito; nos dominados países do Oriente
europeu o padrão de vida chegou a declinar. Em
todos os países o padrão de vida deixou de se ele-
sempre como campeã das classes trabalhadoras.
Ela é anticapitalista e, consequentemente, depen-
de das camadas trabalhadoras. A nova classe é sus-
tentada pela luta proletária e pela fé tradicional que
Textos de diversos
tipos (artigos de
var em proporção com o índice de industrializa- o proletariado deposita numa sociedade socialista,
AUGUSTO MALTA/INSTITUTO MOREIRA SALLES, SÃO PAULO, BRASIL

ção, que foi muito mais rápido. comunista, sem explorações brutais. É vitalmente

Apresenta uma imagem A maior ilusão foi a de que a industrialização e


a coletivização na URSS, e a destruição da proprie-
importante para a nova classe assegurar um ritmo
normal de produção, de forma a não perder nunca

jornais e revistas,
dade capitalista, trariam como resultado uma so- seu contato com o operariado.
ciedade sem classes. Em 1936, ao ser promulgada O movimento da nova classe em direção ao poder

ou conjunto de imagens. Museu virtual


a nova Constituição, Stálin anunciou que a “classe resulta dos esforços do proletariado e dos pobres. São
exploradora” tinha deixado de existir. O capitalismo eles a massa para a qual o partido ou a nova classe

depoimentos, literatura,
e outras classes antigas tinham de fato sido destru- deve inclinar-se, e a eles estão mais estreitamente
ídos, mas uma nova classe, antes desconhecida na ligados os seus interesses, até que ela possa impor

Sua função é ajudar você


história, se havia formado. seu poder e autoridade. Acima e além disso, a nova
[...] Na URSS [...] a nova classe formou-se defini- classe interessa-se pelo proletariado e pelos pobres
damente após a subida ao poder. Sua consciência apenas na medida em que eles lhe são necessários
teve de desenvolver-se antes de seu poder econô-
mico e material [...] A promessa de um mundo ideal
para o aumento da produção e a repressão às forças
sociais mais agressivas e rebeldes.
trechos de livros etc.)
a desenvolver habilidades aumentava a fé nas fileiras da nova classe e semeava
ilusões na massa, ao mesmo tempo que inspirava gi-
O monopólio que, em nome da classe traba-
lhadora, se estabelece sobre toda a sociedade, é
retornar
de outros autores,
A reurbanização do Rio de Janeiro foi encaminhada pelo então prefeito Pereira Passos e deu ares gantescos empreendimentos materiais. exercido principalmente sobre essa mesma classe
europeus à cidade. Augusto Malta foi um fotógrafo engajado em valorizar os benefícios das reformas
[...] As raízes da nova classe germinaram num trabalhadora. É um monopólio a princípio intelec-
urbanas. A partir de 1912, a antiga Avenida Central passou a chamar-se Avenida Rio Branco.

em interpretar e analisar
partido especial, do tipo bolchevique. Lênin tinha tual, sobre a chamada vanguarda proletária, daí se
razão ao considerar o seu partido como uma exce- estende a todo o proletariado. [...]

seguidos de questões.
Manifestação do CGT na Avenida Rio Branco, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (Brasil), 1962. ção na história da sociedade humana, embora não Antigos filhos da classe trabalhadora são os
2 suspeitasse que ele seria o princípio de uma nova mais afoitos membros da nova classe. [...] Neste

documentos visuais. avançar


classe. [...] caso, uma nova classe dominante e exploradora
ACERVO ICONOGRAPHIA

A origem social da nova classe está no prole- nasceu da classe explorada.


tariado, assim como a aristocracia nasceu de uma

A intenção aqui é
DJILAS, Milovan. A nova classe: uma análise do sistema
sociedade camponesa e a burguesia de uma socie- comunista. São Paulo: Círculo do Livro, 1980. p. 41-45.

Algumas vezes, a partir 1.

desenvolver ainda mais


Stálin afirmou em 1936 que a classe exploradora tinha desaparecido na União Soviética. De acordo com

imagem
o autor do texto, isso não teria acontecido. Identifique:

de textos ou de questões
a) a classe exploradora na União Soviética de acordo com Milovan Djilas;
b) a origem social dessa classe exploradora.

sua capacidade de
2. De acordo com Djilas, essa nova classe agiria como “campeã das classes trabalhadoras”. Aponte as
relações existentes entre essa classe exploradora e as classes trabalhadoras.

apresentadas no capítulo,
leitura e ampliar seus filme
146 Capítulo 6 | A Guerra Fria REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO

pediremos a você que


Setores do movimento operário organizaram ruidosas manifestações pelo retorno do
presidencialismo e por reformas sociais no Brasil. Em 1962, foi criado o Comando Geral
conhecimentos.
dos Trabalhadores (CGT), que procurava unificar as reivindicações operárias no país.

elabore um desenho e dê
172 Capítulo 7 | A democracia populista REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO

asas à sua criatividade. livro


PERMANÊNCIAS E RUPTURAS

As relações entre Cuba e Estados Unidos durante o governo de Obama


Portal Terra, 12 maio 2015.

Obama está colocando uma pá de cal sobre o


ser respondido. A medida encontra resistência
do Partido Republicano. [...] PERMANÊNCIAS E site
túmulo do último fantasma da Guerra Fria.” É o O fim do embargo financeiro precisa de apro-

RUPTURAS
que acredita o professor de relações internacio- vação do Congresso dos Estados Unidos, mas o
nais da Universidade de Brasília Argemiro Procó- acordo diplomático já prevê medidas que podem
pio Filho. Ele se refere à retomada das relações facilitar o envio de recursos para a ilha. Entre elas
diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba. está a ampliação da remessa financeira trimestral

Conteúdo digital
[...] Algumas medidas, no entanto, só foram ofi- para Cuba. O valor máximo de US$ 500 passará

Atividades que
cializadas recentemente, como a autorização para o para US$ 2.000. Os cidadãos norte-americanos
transporte marítimo de cargas e passageiros. Outras também terão permissão para importar até US$
ainda precisam da aprovação do Congresso dos Es- 400 em produtos cubanos. [...]
tados Unidos, como o fim do embargo comercial. [...] As negociações para a retomada das relações

procuram relacionar
A libertação de prisioneiros políticos foi um dos diplomáticas entre os dois países incluem tam-
A Conferência Afro-Asiática de Bandung, na Indonésia, entre os primeiros passos da reaproximação. Os Estados bém abertura de uma embaixada norte-america-
TÁ LIGADO
dias 18 e 24 de abril de 1955, foi a primeira manifestação política dos Unidos já deram liberdade para cinco agentes cuba- na em Cuba, embora ainda não exista uma data
novos países independentes que surgiam no cenário mundial. Essa 13. Explique o que são os nos que estavam presos desde 1998. Já o governo para a inauguração [...]

algum assunto
conferência foi organizada por iniciativa dos governos da Birmânia países não alinhados. de Raúl Castro prometeu soltar 53 pessoas. [...] Embora também precise de aprovação do

QUEBRA-CABEÇA
[...] os presidentes de Cuba e dos Estados Unidos Congresso dos Estados Unidos, a expectativa é
(atual Myanmar), Ceilão (atual Sri-Lanka), Índia, Indonésia e Paquis- 14. Explique o que foi
apertaram as mãos na abertura da Cúpula das Amé- que, em breve, o turismo de norte-americanos
tão. Dela participaram, ainda, mais 24 nações: Afeganistão, Arábia a Conferência de para Cuba seja liberado. [...]
ricas, realizada em abril, no Panamá. Foi a primeira
Saudita, Camboja, China, Costa do Ouro (atual Gana), Egito, Etiópia, Bandung de 1955.

desenvolvido no
vez que um líder cubano participou da conferência. Disponível em: <http://goo.gl/6zUZnX>.
Filipinas, Irã, Iêmen, Iraque, Japão, Jordânia, Laos, Líbano, Libéria, 15. Liste os pontos defendi- Em seu discurso, o presidente Raúl Castro elogiou o
Acesso em: 25 set. 2018.
Líbia, Nepal, Síria, Sudão, Tailândia, Turquia, República Democrática dos pela Conferência de norte-americano Barack Obama, a quem chamou de
do Vietnã e Vietnã do Sul. Bandung.
Conjunto de atividades “homem honesto”. [...] 1. Identifique e comente a profunda alteração nas

capítulo com questões ?


Bandung também apontava para o conflito Norte-Sul que se [...] a expectativa é que, a partir de setembro, em- relações entre os governos de Cuba e dos Es-
16. Explique o que são
anunciava. O mundo dividido entre os países ricos do Hemisfério Nor- presas americanas já ofereçam o serviço de ligação tados Unidos durante o governo de Obama.

A seção Leitura complementar visa


países de:
entre os dois países. No entanto, a legislação norte-

diversificadas
te e os países pobres, em sua maioria localizados no Hemisfério Sul. a) Primeiro Mundo.
-americana ainda proíbe que seus cidadãos viajem 2. Liste as medidas apontadas na matéria.
A Conferência Afro-Asiática defendia: b) Segundo Mundo. para a ilha, salvo em situações extraordinárias.

da atualidade. O
• a cooperação entre os países afro-asiáticos na luta contra o co- c) Terceiro Mundo. 3. Comente a afirmação de que tal situação “põe
O presidente Barack Obama enviou ao Con- uma pá de cal sobre o túmulo do último fantas-
lonialismo; gresso dos Estados Unidos o pedido para que

relativas ao texto oferecer expressões e visões diversas


ma da Guerra Fria”.
• a condenação da segregação racial; Cuba seja retirada da lista de países que patroci-
• o direito de os povos determinarem seu destino; nam o terrorismo. O documento foi encaminhado 4. Acompanhe as mudanças em curso e aponte


a necessidade de se resolver os confrontos de forma pacífica;
o direito de não se alinhar com as duas superpotências;
no dia 14 de abril e tem um prazo de 45 dias para outras medidas não citadas na matéria acima.

objetivo aqui é utilizar


• a proibição de armas nucleares.
básico e aos quadros SALT
O
e/ou complementares aos conteúdos
triplo
a História como uma
Paralelamente à consolidação do grupo de países não alinhados também
se construía a noção de Terceiro Mundo. O chamado Primeiro Mundo seria for-

complementares.
mado pelos países desenvolvidos do bloco capitalista. O Segundo Mundo seria
do. A viagem, realizada em uma moto, faz Sites

conceituais oferecidos nos capítulos


constituído pelos países desenvolvidos do bloco socialista. Os países não alinha-
Filme com que os jovens compreendam a pro-

ferramenta capaz de
(Acessos em: 25 set. 2018)
dos – Terceiro Mundo – procuravam uma terceira via de desenvolvimento. funda desigualdade social e a miséria da
Diários de motocicleta população pobre dos países que visitam. <http://goo.gl/H67UMe>
EUA, 2004.

Tem como objetivo


Lista das ditaduras estabelecidas na
Direção de Walter Salles. Livro América Latina durante a Guerra Fria.

analisar também o e estimular posicionamentos críticos


Che Guevara era um estudante de medici- Explorando a América Latina <https://bit.ly/2zZa3hZ>
na que, em 1952, decide viajar pela Amé-
rica do Sul com o amigo Alberto Grana- MACHADO, Ana Maria. São Paulo: Áti- Fotos de Ernesto Che Guevara desde
Quais fatores impulsionaram o processo de eman- ca, 2000.

propor desafios,
a sua infância.
cipação política das colônias europeias localizadas

NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA A América Latina | Capítulo 8 195

presente. acerca da análise documental e da pro-


. Siga as instruções
estimular pesquisas e
dução historiográfica.
Passo a

SALTO TRIPLO
(p. 7), utilizando as palavras-chav
e abaixo:

organizar conceitos
Mahatma Gandhi
Kwane Nkrumah Ho Chi Min
Patrice Lumumba
Samora Machel
e informações.
• política de partição • kibutz

Indicações de filmes, livros e sites para


província Al Fatah
Holden RobertoAgostinho Neto
• •

ultramarina • OLP


bôeres
bantustão


Intifada
países não
Amílcar Cabral Jonas Savimbi
Nelson Mandela Yasser Arafat
aprofundar temas desenvolvidos nos capítulos
• townships alinhados

NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA A descolonização e o Terceiro Mundo | Capítulo 9 213

e ampliar sua capacidade de pesquisa.


Como na modalidade atlética, três impulsos ?
complementares para auxiliar sua aprendizagem. Na seção Permanências e rupturas,
entrelaçamos temporalidades diversas
de maneira a traçar comparações en-
NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA 5
tre processos sociais e acontecimen-
tos, problematizando conceitos e pro-
cedimentos norteadores da produção
? historiográfica reforçando os princí-
Nas variadas atividades da seção Quebra-cabeça, pios éticos, democráticos, inclusivos,
? resgatamos textos para o aprimoramento da capa- sustentáveis e solidários. Nessa se-
Na seção Olho no Lance, por meio de documentos
cidade de lecto-escrita, estimulamos a compreen- ção procuramos oferecer uma aprendi-
visuais, procuramos estimular os questionamentos,
são factual e cronológica da História, bem como as zagem significativa e responder às le-
interpretações e confronto de visões controversas
transformações processuais das estruturas sociais, gítimas e necessárias perguntas que
no sentido de propor a reflexão e posicionamento
provocamos a formulação de hipóteses e questiona- muitas vezes são formuladas pelos es-
crítico por parte dos estudantes calcado em princí-
mentos, e a produção de pesquisas em meio digital, tudantes: “Por que estamos estudan-
pios éticos e democráticos.
entrevistas e resgatamos sistematicamente as for- do isso?”; “O que isso tem a ver com
mulações de conteúdos conceituais. Como eixo nor- a minha vida e/ou com o mundo con-
teador, reforçamos os princípios éticos, democráti- temporâneo?”
cos, inclusivos, sustentáveis e solidários.

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano 5


Passo a passo
ROTEIRO PARA ANÁLISE
DE FILMES Para a análise de imagens e textos, elaboramos alguns roteiros que vão ajudar nesse trabalho.
Sugerimos um conjunto de procedi- É bom dizer que os roteiros propostos não são a única maneira de analisar esses materiais, eles
mentos para análise de filmes. Tais não servem apenas como dicas e guias de orientação para seu estudo.
foram inseridos no livro do aluno, e sim
reservados para o Manual do professor

COLEÇÃO ANTONY BRYAN/© BANCO DE MEXICO/


DIEGO RIVERA & FRIDA KAHLO MUSEUMS TRUST, MEXICO, D.F./
AUTVIS, BRASIL, 2018
TÁ LIGADO
Apesar da intensa mobilização popular, o número de votos entre O PERÍODO DEMOCRÁTICO Consumidor confere preço de produto em
supermercado. São Paulo, São Paulo (Brasil), 1986.
os parlamentares não foi suficiente para alterar a legislação eleitoral.

ALEXANDRE TOKITAKA/FOLHAPRESS
a fim de que o docente o utilize ao exi-
5. Explique o que foi a A transição democrática seria mais lenta que o desejo popular. Em 14 de março de 1985, um dia antes da posse, Tancredo
campanha das Diretas Diante disso, uma parcela dos integrantes do PDS formou a Frente foi submetido a uma cirurgia. Viria a falecer no mês seguinte.
Já!. Liberal (que depois iria se transformar em um partido, o PFL) e fechou Em seu lugar, assumiu a presidência o vice-presidente eleito,
6. Descreva como se for
for- acordo com o PMDB. Juntos, formariam uma chapa única para disputar José Sarney. O PMDB chegava ao poder, mas por meio de um
mou a Frente Liberal e a a presidência da República no Colégio Eleitoral, denominada Aliança político identificado com o regime militar.
Aliança Democrática. Ao fim da ditadura, o país estava mergulhado em uma

bir trechos ou filmes inteiros, caso con-


Democrática. Militares da “Sorbonne” viam com bons olhos esse acoracor-
do, que manteria no poder muitos daqueles que participaram do regi- crise econômica. A má distribuição de renda, as dificuldades
me desde 1964. em dinamizar a economia, a alta inflação eram os principais
Tancredo Neves (1910-1985), um político de centro que gozava da con- desafios a enfrentar.
fiança dos militares (havia sido primeiro-ministro na época de João Goulart),
foi o escolhido para encabeçar a chapa do PMDB. Como vice-presidente, O PLANO CRUZADO

sidere conveniente.
José Sarney, ex-presidente do PDS e da Arena. Em janeiro de 1985, a oposi-
ção vencia no Colégio Eleitoral. Os diversos governos que sucederam o regime militar se
empenharam em encontrar soluções para acabar com a infla-
ção após a ditadura. Em fevereiro de 1986, era lançado um
A Copa do Mundo de 1982 plano de estabilização econômica que ficou conhecido como
Plano Cruzado. Os preços foram congelados. Nenhum au-
mento poderia ser feito sem prévia autorização do governo.
Em Barcelona, em 1982, a seleção do

ORLANDO BRITO
Procedimentos para análise
A moeda nacional, o cruzeiro, foi substituída pelo cruzado. Os salários O governo conclamou a
Brasil voltou a jogar um futebol bonito. O população a fiscalizar os
também foram congelados e só podiam ser reajustados quando a inflação
técnico Telê Santana formou uma seleção preços. Surgiram então
atingisse 20%. Sem aumentos de preços e de salários não haveria inflação. os “fiscais do Sarney”,
de craques: Valdir Perez, Leandro, Oscar,
O principal desafio da equipe econômica era fiscalizar os estabeleci- pessoas comuns que,
Luisinho, Júnior, Cerezzo, Falcão, Zico, Só- com a tabela dos preços
mentos comerciais do país de modo a impedir os aumentos. Para isso con-
crates, Serginho e Éder. Além das vitórias, a oficiais em punho, iam aos
tou com ampla adesão da população, disposta a colaborar na fiscalização supermercados verificar

de filmes
seleção dava show: 2 a 1 na URSS; 4 a 1 na
dos preços. se não havia ocorrido
Escócia; 4 a 0 na Nova Zelândia; 3 a 1 na Ar- aumentos. Quando eram
Em março, a taxa de inflação foi negativa, ou seja, os preços caíram. No constatados, chamavam a
gentina. A imprensa do mundo todo anun-
ciava o Brasil como favorito. entanto, em longo prazo, o plano não teve sucesso. Houve uma explosão de fiscalização para fechar e
consumo. A população, depois de anos de altos preços inflacionados, passou multar o estabelecimento.
Em uma partida decisiva contra a Itália, Os jogadores Sócrates e Casagrande no comício pelas Diretas Já!
a seleção precisava apenas de um empate realizado no Vale do Anhangabaú. São Paulo, São Paulo (Brasil), a comprar mais. As mercadorias começaram a faltar nas prateleiras dos super
super-
para passar à semifinal. Em um jogo difícil, a
16 abr. 1984. mercados. A produção não conseguia atender ao aumento do consumo.
seleção italiana venceu por 3 a 2. Estimulados pela vitória, os italianos venceriam a seleção da Alemanha Quem quisesse comprar tinha de pagar mais do que o estipulado pela

• O professor deverá destacar que os fil-


Ocidental na final da Copa por 3 a 1 e se sagrariam tricampeões mundiais. tabela oficial. Isso significava, na prática, a volta da inflação. O quadro se
A torcida brasileira chorou, como em 1950 quando perdeu para o Uruguai. Só que, dessa vez, joga- agravou pela queda nas exportações, comprometendo o pagamento da dí-
dores e torcedores vestiram-se de amarelo. vida externa. O governo foi obrigado, então, a declarar a moratória, ou seja,
Sócrates, o capitão da seleção, era também o líder da Democracia Corinthiana e participou ativa- sua incapacidade de pagar a dívida externa.
mente da campanha pelas Diretas Já!, que vestiu o Brasil quase inteiro de amarelo. Ele, como tantos ou- Para evitar o fracasso do plano, era preciso implementar sua segunda

mes contam histórias por meio de ima-


tros cidadãos brasileiros, desejava o fim da ditadura militar. fase, prevista desde o início, que consistia na liberação dos preços, sob o
O movimento pelas eleições diretas foi emocionante. Empolgou o Brasil. Mas, como a seleção de controle do governo, de modo a retirar o congelamento artificial sem que
Telê, não conseguiu vencer. A primeira eleição direta depois da ditadura só ocorreria em 1989. Foi uma a inflação voltasse. Mas os interesses políticos se impuseram. Com o Plano
disputa difícil, marcada por grandes comícios em todo o país. No segundo turno, os eleitores brasilei- Cruzado, o governo Sarney atingiu 92% de aprovação. Em novem-
ros tiveram de decidir entre dois candidatos: Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva. Col- bro de 1986 ocorreriam eleições para governador, deputados e se-
lor foi eleito presidente. TÁ LIGADO

gens, sons, diálogos e efeitos especiais,


nadores, e o PMDB, partido que estava então no governo, preten-
Zico chegou a trabalhar para o governo Collor. Sócrates esteve ligado a administrações do PT, parti- dia beneficiar-se dessa popularidade. Para isso, o congelamento dos 7. Explique o que foi o
do de Lula. Democracia, afinal de contas, requer respeito pelas diferenças. E pelas opiniões contrárias. preços foi mantido. Plano Cruzado.

262 Capítulo 12 | A democratização do Brasil REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA A democratização do Brasil | Capítulo 12 263

que conduzindo o espectador por meio Autorretrato: o tempo voa, Frida Kahlo. Óleo
sobre placa de fibra, 1929.
de uma narrativa recheada de mensa-
gens e informações. LEITURA DE TEXTOS
ANÁLISE DE DOCUMENTOS VISUAIS
Lembre-se: no momento da leitura, temos que es-
• O professor deverá verificar se é preciso Para a análise de imagens, precisamos estar aten-
tar concentrados. Conversas e brincadeiras atrapa-
passar o filme na íntegra ou apenas partes tos a diversos detalhes. É como assistir a um espe-
lham. Imagine um jogador de futebol ao cobrar um
táculo teatral ou a uma partida de futebol. Temos
selecionadas, e se a obra contém cenas pênalti. Para não chutar de bico ou mandar a bola
que identificar o palco onde se desenrola a ação e
impróprias para a faixa etária dos alunos. por cima do gol, ele fica atento a todos os detalhes.
as personagens em cena, o campo de jogo, os uni-
• Esclarecer que o filme representa um epi- formes dos atletas, o juiz, as jogadas, os esquemas 1. Em uma primeira leitura, identifique o autor,
táticos, a torcida. a data, o título e o gênero de texto (artigo
sódio histórico, mas não é a realidade.
de jornal, poesia, literatura, trecho de livro,
O primeiro ponto a se levantar em uma 1. Identifique o autor, a data e o tipo de
discurso etc.).
aula de História é que tanto os filmes imagem, ou seja, o seu suporte material:
pintura, baixo-relevo, fotografia, escultura, 2. Faça uma lista com as palavras que você não
quanto os documentos são representa-
gravura, cartaz etc. entendeu.
ções da realidade.
2. Faça um passeio pelo interior da imagem 3. Organize suas dúvidas. Faça no seu caderno
• Discutir com os alunos o fato de que o fil- antes de começar a analisá-la. Observe-a três listas. A primeira com palavras que você
me é uma forma de conhecimento, e não atentamente. poderia arriscar o significado. A segunda com
mero entretenimento. O filme é uma vi- 3. Uma pintura, por exemplo, cria espaços.
palavras que você entendeu pelo texto. E a
são particular do roteirista e do diretor, terceira com aquelas que realmente você não
Alguns estão mais perto, outros mais
que se baseiam em fatos históricos. Para tem ideia do que signifiquem.
distantes. Alguns são mais fechados, outros
isso, selecionaram e interpretaram as in- abertos. Algumas cenas estão no centro da 4. Consulte o dicionário. Escreva o significado
formações de que necessitavam. imagem, outras estão nas laterais. Identifique das palavras que você não conhecia. Confira as
esses espaços. outras palavras e corrija.
• Preparar um roteiro de perguntas como
4. Identifique os elementos da imagem: 5. Faça uma nova leitura do texto e identifique
forma de orientação para que os alunos
pessoas, animais, construções, a paisagem. as ideias mais importantes de cada parágrafo
percebam os conflitos, o tema, as perso- e o assunto central do texto. Para essas
Anote no seu caderno.
nagens. tarefas você pode fazer um levantamento das
5. Observe qual é o lugar, a posição e o
• Antes da exibição, retomar alguns con- palavras-chaves.
tamanho de cada um desses elementos.
ceitos já desenvolvidos no ano letivo e Veja o que está em destaque, no centro, nas 6. Investigue alguns elementos do texto, como
que podem ser relacionados e destaca- laterais, no alto e embaixo. Anote no seu título, subtítulo e imagens. Esse tipo de
dos com o filme. caderno. estratégia ajuda na previsão daquilo que vai
ser discutido no texto e a levantar hipóteses
• Distribuir o roteiro de perguntas. Suges- 6. Observe as ações retratadas. Identifique as
sobre ele.
tões: “De que trata o filme?”; “Onde se principais e as secundárias.
7. Depois resolva as questões propostas nas
desenvolve a maior parte das cenas?”; 7. Qual é o tema ou assunto da imagem?
seções.
“Que cenas mostram conflitos?”; “Qual a 8. Faça um novo passeio pela imagem.
mensagem?” 9. Depois, responda às questões propostas.
• Durante a exibição é importante que os
alunos possuam material para fazer ano-
tações e registros. O professor deve des- 6 REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO

tacar previamente cinco ou seis aspectos


a serem observados.
• Ao final, o professor poderá propor a ela-
boração de um texto que desenvolva cri-
ticamente algum aspecto importante do
tema associado ao filme.
• O filme também pode ser utilizado para
se iniciar a discussão de um assunto que
ainda não tenha sido abordado. O pro-
fessor pode propor uma questão para
ser investigada. O aluno deverá perceber
o contexto histórico a que o filme se re-
fere, o que ele está mostrando, que fenô-
menos e fatos são retratados.

6 HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


LETRAMENTO DIGITAL

Desde seu surgimento e emprego nos


PAÍSES DO EIXO VERSUS FORÇAS ALIADAS
meios acadêmicos, o letramento (ou al-

MÁRIO YOSHIDA
fabetismo) vem ampliando seus sen-
tidos. Ao falar-se de letramento di-
gital, a referência é a cibercultura (ou
cultura da tela), sua linguagens (que
usam sons, sinais gráficos etc.), gêne-
ÍF
IC
O
ros (blog, e-mail, apresentação visual,
S
C

ciberpoema, twit etc.), recursos (presen-

NDICO
A
P

OCEANO
O
N

ÁRTICO
EA

ciais e físicos, a distância ou virtuais),

NO Í
OC

EA
a história de sua construção, as conse-
OC quências de suas práticas e como o in-
<http://www.manifestocrespo.org>

PESQUISANDO NA INTERNET divíduo pode inserir-se nessa cultura.


O
C
EA
NO
AT

Navegar é preciso! As pesquisas na internet podem A participação da cibercultura, as lingua-
ser mais eficientes e seguras se tivermos palavras-
NTI 020 km
CO

gens digitais e suas transformações li-


-chave estabelecidas com critérios e atenção. Com
gam-se a um passado recente, cujos
essas ferramentas, a navegação pela internet tam-
bém será mais precisa e eficaz. principais efeitos vêm sendo sentidos
Na linguagem da internet, costuma-se utilizar tag e levam os pesquisadores de diferentes
como sinônimo para palavra-chave. Na verdade, campos do conhecimento, entre eles, o
LEITURA DE MAPAS tag em
 em português significa etiqueta. É uma forma de educacional, a olhar para o futuro social.
O mapa é a representação de um determinado classificar e orientar a pesquisa. Assim, ao utilizar um
É possível falar, hoje, para além de al-
espaço geográfico. Deve ser lido como uma com- tag estamos aplicando uma espécie de bússola que
nos orienta em nossas pesquisas pela internet. Você fabetizados e analfabetos, de nativos di-
posição de texto e imagem. Com essa finalidade,
vamos destacar alguns procedimentos necessá- pode criar esses tags ou apenas utilizar as sugestões gitais (indivíduos que, desde o seu nas-
rios para a sua leitura. fornecidas na seção “Quebra-cabeça” presente em cimento, estão mergulhados na cultura
cada capítulo do seu livro. De posse desses tags: digital, também denominados ciberna-
1. Leia o título do mapa. Nele está contido o
tema representado. 1. Elabore uma definição resumida para cada tag tivos), imigrantes digitais (indivíduos
a ser pesquisado. que estão se adaptando às mudanças
2. Identifique as partes do mundo retratadas da cultura do papel para a digital, tam-
(continentes, países, regiões, localidades 2. Escolha um site de busca confiável para aplicar
bém denominados cibernaturalizados)
etc.). seus tags.
e excluídos digitais (indivíduos que estão
3. Identifique os oceanos, rios e mares. 3. No menu do site de busca escolha o suporte distantes da participação digital).
desejado (web, imagens, vídeos).
4. Verifique se há representação de relevo ou Educa-se, hoje, para a cibercultura, uma
vegetação. 4. Para textos, aplique seus tags em pesquisas para
cultura de simultaneidade de lingua-
web.
5. Verifique se há representação de cidades, gens, da viagem pelos sentidos em teias
reinos, impérios ou outra divisão política no 5. Para fotos, desenhos, pinturas, gráficos e variadas. Cabe ao professor conhecer
mapa. mapas, aplique seus tags em pesquisas para mais essas teias, participar de suas prá-
imagens.
6. Perceba quais são as partes destacadas. ticas, refletir criticamente sobre elas,
6. Para vídeos e trailers de filmes, aplique seus para tornar-se um mediador mais efi-
7. Leia com atenção as legendas e
tags em pesquisas de vídeos. ciente das relações de seus alunos, ora
identifique no mapa os símbolos e as cores
correspondentes. São informações muito 7. Para cada pesquisa realizada, selecione pelo nativos, ora excluídos digitais, com es-
importantes. menos cinco fontes que você considera mais sas mesmas práticas em sala de aula.
interessantes. Adote como critério de seleção
8. Faça agora uma leitura global do mapa.
a definição resumida conforme o item 1. Bibliografia
Procure identificar as informações
oferecidas. 8. Verifique se há contradição entre a definição BONILLA, M. H. S.; PRETTO, N. L. (Orgs.). In-
inicial e as informações encontradas durante a clusão Digital: polêmica contemporânea.
9. Relacione o assunto e as informações Salvador: EDUFBA, 2011.
pesquisa.
trazidas pelo mapa ao tema desenvolvido
no capítulo. 9. Selecione as informações de cada fonte que GEREMIAS, B. M. Entre o lápis e o mouse:
você considerou relevante para melhorar a sua práticas docentes e tecnologias da comu-
definição inicial. nicação digital. Dissertação de Mestrado.
Universidade Federal de Santa Catarina, Flo-
10. Reelabore a sua definição inicial com base nos rianópolis, 2007.
dados selecionados.
HENRICHS, M. R. Práticas de letramento digi-
tal na formação de professores: um desafio
NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA 7 contemporâneo. Dissertação de Mestrado.
Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de
Fora, 2012.
MARCUSCHI, L. A.; XAVIER, A. C. (Orgs.). Hi-
pertexto e gêneros digitais: novas formas de
construção de sentido. Rio de Janeiro: Lucer-
na, 2005.
SANTAELLA, L. Linguagens líquidas na era da
mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007.
________. Navegar no ciberespaço: o perfil
cognitivo do leitor imersivo. São Paulo: Pau-
lus, 2004.
SOARES, M. Letramento: um tema em três
gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.
XAVIER, A. C. S. A era do hipertexto: lingua-
gem e tecnologia. Recife: Ed. Universitária
da UFPE, 2009.

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano 7


Habilidades
Sumário
Capítulo 1

1º Bimestre
A Primeira Guerra
(EF09HI10) Identificar e relacionar as di-
nâmicas do capitalismo e suas crises, os
1 Mundial e a Revolução
Russa
2 O período entreguerras

grandes conflitos mundiais e os conflitos


vivenciados na Europa. Jogo aberto, 14 Jogo aberto, 38
(EF09HI11) Identificar as especificidades A Belle Époque europeia, 16 Os Estados Unidos no pós-guerra, 40
e os desdobramentos mundiais da Revo- Os Jogos Olímpicos da era moderna, 16 A Quebra da Bolsa de Nova York, 40
lução Russa e seu significado histórico. O amadorismo e as elites, 17 A Grande Depressão, 41
Olimpíadas, alianças e rivalidades políticas, 17 O New Deal, 41
Capítulo 2 O fascínio pela tecnologia, 18 A crise se espalha pelo mundo, 42
(EF09HI12) Analisar a crise capitalista de O imperialismo e a disputa por mercados, 18 Mussolini e o fascismo, 42
1929 e seus desdobramentos em relação As políticas de alianças, 19 Os fascistas no poder, 42
à economia global. Os bálcãs e o início da guerra, 19 A Marcha sobre Roma, 43
(EF09HI13) Descrever e contextualizar os O internacionalismo operário e a guerra, 20 A República de Weimar, 44
processos da emergência do fascismo e A guerra de trincheiras, 21 Hitler e o nazismo, 44
do nazismo, a consolidação dos estados A entrada dos Estados Unidos e a saída da Rússia, O Partido Nazista, 45
totalitários e as práticas de extermínio 23
O crescimento eleitoral dos nazistas, 46
(como o holocausto). Os 14 pontos de Wilson, 25
A ditadura nazista, 46
O Tratado de Versalhes, 25
Capítulo 3 Rússia: um país de camponeses, 26
Desfiles militares, 47
Bate-bola: Cinema de propaganda, 49
(EF09HI01) Descrever e contextualizar Bolcheviques versus mencheviques, 26
Perseguições: professores, judeus e
os principais aspectos sociais, culturais, A Revolução de 1905, 27 artistas, 50
econômicos e políticos da emergência A Revolução de Fevereiro de 1917, 28 Quebra-cabeça, 50
da República no Brasil. Os sovietes, 28 Leitura complementar: [A prisão de Antonio
(EF09HI02) Caracterizar e compreender A Revolução Bolchevique, 28 Gramsci], 51
os ciclos da história republicana, identi- A Terceira Internacional, 29 Olho no lance: Conduzidos pelo nazismo, 52
ficando particularidades da história lo- A União Soviética, 29 Salto triplo, 52
cal e regional até 1954. O planejamento econômico, 30 Permanências e rupturas: Neonazistas, 53
(EF09HI03) Identificar os mecanismos A política bolchevique, 30 Quadros do capítulo
de inserção dos negros na sociedade A Nova Política Econômica, 31 As bases sociais do fascismo, 43
brasileira pós-abolição e avaliar os seus • A Escola Bauhaus, 45 • Esportes no período
Os planos quinquenais, 32
resultados. entreguerras, 48
Camponeses, 32
(EF09HI04) Discutir a importância da
O realismo socialista, 33
participação da população negra na for-
A perseguição às oposições, 33
mação econômica, política e social do
Brasil. Bate-bola: Trotsky e a revolução desfigurada, 34 3 A Primeira República
Quebra-cabeça, 35
(EF09HI05) Identificar os processos de
Leitura complementar: [Testemunho de um Jogo aberto, 54
urbanização e modernização da socie-
combatente de guerra], 35
dade brasileira e avaliar suas contradi- A modernização das cidades, 56
Olho no lance: Tropas alemãs em Bruxelas, 36
ções e impactos na região em que vive. Miséria e criminalidade nas cidades, 56
Salto triplo, 36
(EF09HI08) Identificar as transformações Miséria no campo, 57
Permanências e rupturas: Guerra e ciência, 37
ocorridas no debate sobre as questões da As oligarquias e a Primeira República, 57
diversidade no Brasil durante o século XX Quadro do capítulo
Os governos militares, 58
e compreender o significado das mudan- Fatos interessantes sobre a guerra de trincheiras,
ças de abordagem em relação ao tema. O Encilhamento, 58
22 • Futebol de Natal nas trincheiras, 23 •
Mulheres e a guerra, 24 • Ideologia, 31 Reação oligárquica, 59
(EF09HI09) Relacionar as conquistas de
direitos políticos, sociais e civis à atua-
8 REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO
ção de movimentos sociais.

Tabela completa da BNCC na página


XVIII do manual

8 HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


Capítulo 4
A eleição de Deodoro, 59 Quadros do capítulo (EF09HI13) Descrever e contextualizar os
A Revolta Federalista, 60 As eleições presidenciais na Primeira República, processos da emergência do fascismo e
A Revolta da Armada, 61 63 • A América para os americanos... do Norte, do nazismo, a consolidação dos estados
O fim dos governos militares, 61 65 • Mulheres rebeldes: Maria, Marias, 73 • A totalitários e as práticas de extermínio
arte de saia: o carnaval e o samba, 74 • Mestre- (como o holocausto).
A República das Oligarquias, 62 -sala dos mares, 79 • Mulheres potiguares:
O coronelismo: exclusão da maioria, 62 pioneirismo no voto feminino, 80 • O jogo do Capítulo 5
A Política dos Governadores, 63 bicho, 89
(EF09HI02) Caracterizar e compreender
Conflitos entre as oligarquias, 64
os ciclos da história republicana, identifi-

2º Bimestre
A política de valorização do café, 64 A Segunda Guerra
O café e a industrialização, 64 4 Mundial
cando particularidades da história local e
regional até 1954.
Aliança com os Estados Unidos, 65 (EF09HI03) Identificar os mecanismos
Bate-bola: O futebol e os setores populares, 66 Jogo aberto, 92 de inserção dos negros na sociedade
O cangaço, 68 brasileira pós-abolição e avaliar os seus
Os Jogos Olímpicos em Berlim, 94 resultados.
Cangaceiros, 68
Derrotas nazistas, 95
Milagreiros e beatos, 69 (EF09HI04) Discutir a importância da par-
A Guerra Civil Espanhola, 96
Padre Cícero e a Revolta do Juazeiro, 69 ticipação da população negra na forma-
A política expansionista alemã, 97 ção econômica, política e social do Brasil.
A Guerra do Caldeirão, 69 O início da guerra, 97
A Guerra de Canudos, 70 (EF09HI06) Identificar e discutir o papel
Blitzkrieg, 98 do trabalhismo como força política, social
Campanhas contra Canudos, 71 A Batalha da Inglaterra, 98 e cultural no Brasil, em diferentes escalas
A Guerra do Contestado, 72 A invasão da URSS, 99 (nacional, regional, cidade, comunidade).
A reurbanização do Rio de Janeiro, 76 A Resistência, 99 (EF09HI08) Identificar as transformações
As favelas, 76 Os Estados Unidos na guerra, 100 ocorridas no debate sobre as questões da
A Revolta da Vacina, 77 A vitória dos Aliados, 100 diversidade no Brasil durante o século XX
Governo suspeito, 78 Repercussões da guerra, 101 e compreender o significado das mudan-
A Revolta da Chibata, 78 ças de abor dagem em relação ao tema.
Bate-bola: República de Vichy, 103
A crise do regime oligárquico, 80 Quebra-cabeça, 104 (EF09HI09) Relacionar as conquistas de
O movimento operário, 80 Leitura complementar: No fundo, 104 direitos políticos, sociais e civis à atuação
de movimentos sociais.
A greve geral de 1917, 81 Olho no lance: Hitler em Liliput, 105
A fundação do Partido Comunista Brasileiro, 81 Permanências e rupturas: Pearl Harbor e as torres (EF09HI11) Identificar as especificidades
gêmeas, 105 e os desdobramentos mundiais da Revo-
O Modernismo brasileiro, 82
Salto triplo, 105 lução Russa e seu significado histórico.
A Semana de 22, 83
O tenentismo, 85 Quadros do capítulo
A Coluna Prestes-Miguel Costa, 85 Os atletas negros desmentem a superioridade
ariana, 95 • Os campos de concentração, 99 •
A crise de 1929, 86
Para ler o Zé Carioca, 102
A Revolução de 1930, 87
Direitos trabalhistas, 87
A revolta armada, 88
Quebra-cabeça, 89
5 O Brasil sob Vargas
Leitura complementar: [A Aliança Liberal], 90
Olho no lance: Literatura de cordel, 90 Jogo aberto, 106
Tabela completa da BNCC nas pági-
Permanências e rupturas: Partidos operários, 91 A industrialização em larga escala, 108 nas XVIII do manual
Salto triplo, 91 Substituição de importações, 108

NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA 9

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano 9


Sumário (cont.)
Habilidades
Capítulo 6 A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), 109 A corrida armamentista: o planeta em perigo,
137
Ainda o café, 109
(EF09HI10) Identificar e relacionar as di- Um novo arranjo institucional, 110 Alianças militares, 137
nâmicas do capitalismo e suas crises, os Espionagem: CIA versus KGB, 138
A Revolta Constitucionalista de 1932, 110
grandes conflitos mundiais e os conflitos A guerra das imagens: o impacto cultural, 139
vivenciados na Europa. A Assembleia Constituinte, 111
Aliança Nacional Libertadora, 112 A coexistência pacífica, 140
(EF09HI11) Identificar as especificidades Bate-bola: A Organização das Nações Unidas, 142
A Revolta Comunista, 113
e os desdobramentos mundiais da Revo- Os Jogos Olímpicos durante a Guerra Fria, 144
lução Russa e seu significado histórico. Movimento Integralista, 115
Quebra-cabeça, 145
Bate-bola: Fascismo e integralismo, 115
(EF09HI15) Discutir as motivações que le- Leitura complementar: A nova classe, 146
O Estado Novo, 116
varam à criação da Organização das Na- Olho no lance: Emblemas socialistas, 147
ções Unidas (ONU) no contexto do pós- Censura e repressão, 117
Permanências e rupturas: Consumismo, 147
-guerra e os propósitos dessa organização. Uma nova política, 118
Salto triplo, 147
(EF09HI16) Relacionar a Carta dos Direi- A migração, 118
Controle sobre os trabalhadores, 119 Quadros do capítulo
tos Humanos ao processo de afirmação
dos direitos fundamentais e de defesa da A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), 120 A Revolução Chinesa, 135 • O cinema e a Guerra
Fria, 138 • A guerra esquenta nos tabuleiros de
dignidade humana, valorizando as insti- Sindicalismo oficial, 121 xadrez, 141
tuições voltadas para a defesa desses di- Futebol, capoeira e Carnaval, 122
reitos e para a identificação dos agentes
A seleção brasileira de futebol, 123

3º Bimestre
responsáveis por sua violação.
(EF09HI28) Identificar e analisar aspec-
A capoeira, 123
O Carnaval, 124
7 A democracia populista
tos da Guerra Fria, seus principais confli-
Quebra-cabeça, 125
tos e as tensões geopolíticas no interior
Leitura complementar: [Discurso de Getúlio Jogo aberto, 148
dos blocos liderados por soviéticos e es-
tadunidenses. Vargas], 125 O fim do Estado Novo, 150
Olho no lance: Retratos do Brasil, 126 A oposição a Vargas, 151
Capítulo 7 Permanências e rupturas: Qual é a música?, 127 Golpe militar, 151
Salto triplo, 127 Reorganização partidária, 152
(EF09HI02) Caracterizar e compreender
os ciclos da história republicana, identifi- Quadros do capítulo Trabalhadores e comunistas, 152
cando particularidades da história local e Mulheres na Constituinte, 111 • O fim da III Instabilidade política, 153
regional até 1954. Internacional, 113 • A deportação de Olga A volta de Vargas, 154
Benário Prestes, 114 • Nas ondas do rádio, 118 Nacionalismo, 155
(EF09HI06) Identificar e discutir o papel
do trabalhismo como força política, social Capital estrangeiro, 155
e cultural no Brasil, em diferentes escalas A oposição a Vargas, 156
(nacional, regional, cidade, comunidade). 6 A Guerra Fria O suicídio de Vargas, 156
(EF09HI17) Identificar e analisar proces- O governo de Juscelino Kubitschek, 157
sos sociais, econômicos, culturais e políti- Desenvolvimento industrial, 158
Jogo aberto, 128
cos do Brasil a partir de 1946. O Plano de Metas, 158
(EF09HI18) Descrever e analisar as re- A Guerra Fria e os blocos antagônicos, 130 Capital externo e déficits orçamentários, 159
lações entre as transformações urbanas Os acordos de paz do pós-guerra, 131 Indústria e integração nacional, 159
e seus impactos na cultura brasileira en- A Conferência de Yalta, 131 Bate-bola: Bossa nova, 160
tre 1946 e 1964 e na produção das desi- A Conferência de Potsdam, 132 A construção de Brasília, 162
gualdades regionais e sociais. Bipolarização, 133 A inflação, 162
(EF09HI19) Identificar e compreender o A reconstrução da Europa, 133 A eleição de Jânio Quadros, 164
processo que resultou na ditadura civil- O Bloqueio de Berlim, 134 João Goulart: vice de novo, 164
-militar no Brasil e discutir a emergência A Guerra da Coreia, 136 O governo Jânio Quadros, 164
de questões relacionadas à memória e à
justiça sobre os casos de violação dos di- 10 REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO
reitos humanos.

Capítulo 8
(EF09HI10) Identificar e relacionar as di-
nâmicas do capitalismo e suas crises, os
grandes conflitos mundiais e os conflitos
vivenciados na Europa.

Tabela completa da BNCC na página


XVIII do manual

10 HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


(EF09HI28) Identificar e analisar aspec-
tos da Guerra Fria, seus principais confli-
O rápido desgaste político, 165 Ditaduras latino-americanas, 192 tos e as tensões geopolíticas no interior
A renúncia de Jânio Quadros, 165 Nicarágua: da ditadura à revolução, 192 dos blocos liderados por soviéticos e es-
A experiência parlamentarista, 166 Quebra-cabeça, 193 tadunidenses.
O governo de João Goulart, 167 Leitura complementar: [Evita], 194 (EF09HI29) Descrever e analisar as ex-
As Ligas Camponesas, 167 Olho no lance: Madres de la Plaza de Mayo, 194 periências ditatoriais na América Latina,
A radicalização política, 168 Permanências e rupturas: As relações entre Cuba e seus procedimentos e vínculos com o po-
O golpe civil-militar, 168 Estados Unidos durante governo de Obama, 195 der, em nível nacional e internacional, e a
Quebra-cabeça, 170 Salto triplo, 195 atuação de movimentos de contestação
Leitura complementar: [O golpe militar de 1964, o às ditaduras.
Quadros do capítulo
PTB e os trabalhadores], 171 O Exército Zapatista de Libertação Nacional, 181 (EF09HI30) Comparar as características
Olho no lance: A Avenida Rio Branco e a história • Frida Kahlo, 182 • Evo Morales e as tradições dos regimes ditatoriais latino-americanos,
da República, 172 indígenas, 184 • Eva Perón, 186 • Campanha com especial atenção para a censura po-
Permanências e rupturas: A carta de Goiânia, 174 militar, 189 lítica, a opressão e o uso da força, bem
Salto triplo, 175 como para as reformas econômicas e so-
ciais e seus impactos.
Quadros do capítulo A descolonização
Futebol: nacionalismo e contestação política, 9 e o Terceiro Mundo (EF09HI32) Analisar mudanças e perma-
nências associadas ao processo de globa-
150 • A Copa de 1950: o Brasil chorou, 154 • A
seleção do Brasil na Copa do Mundo de 1954, lização, considerando os argumentos dos
157 • Garrincha: a alegria do povo, 163 Jogo aberto, 196 movimentos críticos às políticas globais.
Guerra Fria e descolonização, 198 (EF09HI34) Discutir as motivações da
Índia, 199 adoção de diferentes políticas econômi-
8 A América Latina Indochina, 200 cas na América Latina, assim como seus
impactos sociais nos países da região.
África, 201
Congo, 202 (EF09HI36) Identificar e discutir as diver-
Jogo aberto, 176 sidades identitárias e seus significados
As colônias portuguesas, 203
A Revolução Mexicana, 178 históricos no início do século XXI, com-
Os movimentos de libertação, 203
Descontentamentos sociais, 179 batendo qualquer forma de preconceito
A África austral, 204
A luta armada, 179 e violência.
O Apartheid, 205
O governo de Francisco Madero, 180 Contestações ao Apartheid, 207 Capítulo 9
A radicalização, 180 Oriente Médio: conflitos entre árabes e israelenses,
Garantias sociais, 181 208 (EF09HI10) Identificar e relacionar as di-
A questão agrária, 182 nâmicas do capitalismo e suas crises, os
A criação do Estado de Israel, 208
grandes conflitos mundiais e os conflitos
A arte muralista, 182 Os conflitos entre palestinos e israelenses,
vivenciados na Europa.
Bate-bola: Mártires revolucionários, 184 209
A Argentina e o peronismo, 185 Bate-bola: Terra Santa, 211 (EF09HI14) Caracterizar e discutir as di-
O Terceiro Mundo, 212 nâmicas do colonialismo no continente
Tensões com os Estados Unidos, 185
africano e asiático e as lógicas de resis-
Segundo mandato de Perón, 186 Quebra-cabeça, 213
tência das populações locais diante das
O retorno de Perón, 186 Leitura complementar: O testemunho de uma questões internacionais.
A ditadura militar, 187 jovem senegalesa, Sow Ndeye, 214
Olho no lance: A segregação sinalizada, 215 (EF09HI28) Identificar e analisar aspec-
A democracia, 187
tos da Guerra Fria, seus principais confli-
Néstor e Cristina Kirchner, 188 Permanências e rupturas: Os BRICS, 215
tos e as tensões geopolíticas no interior
A Revolução Cubana, 190 Salto triplo, 215
dos blocos liderados por soviéticos e es-
A guerrilha de Fidel Castro, 190 Quadros do capítulo tadunidenses.
O confronto com os Estados Unidos, 190 Desobediência civil, 200 • Apartheid, 206 (EF09HI31) Descrever e avaliar os proces-
Che Guevara, o mito pop e revolucionário, 191 • Atentado terrorista em Munique, 210
sos de descolonização na África e na Ásia.
(EF09HI35) Analisar os aspectos rela-
NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA 11
cionados ao fenômeno do terrorismo na
contemporaneidade, incluindo os movi-
mentos migratórios e os choques entre di-
ferentes grupos e culturas.
(EF09HI36) Identificar e discutir as diver-
sidades identitárias e seus significados
históricos no início do século XXI, com-
batendo qualquer forma de preconceito
e violência.

Tabela completa da BNCC na página


XVIII do manual

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano 11


Sumário (cont.)
Habilidades
Capítulo 10

4º Bimestre
A ditadura militar
(EF09HI26) Discutir e analisar as causas
da violência contra populações margina-
10 A era da contestação 11 no Brasil
lizadas (negros, indígenas, mulheres, ho-
mossexuais, camponeses, pobres etc.) Jogo aberto, 216 Jogo aberto, 238
com vistas à tomada de consciência e à
Uma década de mudanças profundas, 218 A ditadura militar, 240
construção de uma cultura de paz, empa-
tia e respeito às pessoas. Corrida espacial: o céu é o limite, 218 Prisões e cassações, 240
(EF09HI28) Identificar e analisar aspec- A Guerra do Vietnã, 219 Ditadura duradoura, 242
tos da Guerra Fria, seus principais confli- Uma guerra desigual, 220 Novos Atos Institucionais, 242
tos e as tensões geopolíticas no interior A contracultura hippie, 220 A Constituição de 1967, 243
dos blocos liderados por soviéticos e es- A estética hippie e o mercado capitalista, 221 A cultura de contestação, 243
tadunidenses. A arte na década de 1960, 222 A música, 244
(EF09HI36) Identificar e discutir as diver- A pop art, 222 As artes plásticas, 245
sidades identitárias e seus significados
Relações de gênero, 222 Os confrontos de 1968, 245
históricos no início do século XXI, com-
O direito de ser mulher, 223
batendo qualquer forma de preconceito A luta armada contra a ditadura, 246
e violência. O feminismo, 224
Os anos de chumbo, 246
Bate-bola: O que o amor tem a ver com isso?, 226
Os grupos guerrilheiros, 247
Capítulo 11 O direito de ser negro, 227
A Guerrilha do Araguaia, 248
Martin Luther King, 227
(EF09HI19) Identificar e compreender o O “milagre econômico”, 248
processo que resultou na ditadura civil- Racismo na terra do blues, 228
Obras militares, 250
-militar no Brasil e discutir a emergência Malcolm X, 228
Propaganda: a alma do negócio, 252
de questões relacionadas à memória e à O Poder Negro, 229
justiça sobre os casos de violação dos di- A Copa do México de 1970, 252
Os Panteras Negras, 230
reitos humanos. Bate-bola: A devastação da Amazônia, 253
Protestos na África, 230
(EF09HI20) Discutir os processos de re- Quebra-cabeça, 254
O movimento negro no Brasil, 231
sistência e as propostas de reorganização Leitura complementar: Pra não dizer que não falei
1968: Ano da contestação, 232
da sociedade brasileira durante a ditadura das flores, 254
A Primavera de Praga, 233
civil-militar. Olho no lance: Fotografia e a crítica política, 255
Protesto nos Jogos Olímpicos do México, 234
(EF09HI21) Identificar e relacionar as de- Permanências e rupturas: Propaganda política, 255
mandas indígenas e quilombolas como Quebra-cabeça, 235
Salto triplo, 255
forma de contestação ao modelo desen- Leitura complementar: [Televisão, alienação e
volvimentista da ditadura. consciência], 235 Quadros do capítulo
Olho no lance: Arte e reprodução técnica, 236 Estado de direito, 241 • Caindo no ridículo, 249
Capítulo 12 Salto triplo, 236 • Tortura, 250 • A questão indígena: do general
Permanências e rupturas: Solte o seu cabelo e Rondon ao general Médici, 251
(EF09HI20) Discutir os processos de re-
prenda o preconceito!, 237
sistência e as propostas de reorganização
da sociedade brasileira durante a ditadura Quadros do capítulo
civil-militar. Protesto sutil, 220 • Stonewall e o direito
(EF09HI22) Discutir o papel da mobiliza- à diversidade sexual, 225 • Muhammad Ali, 229
ção da sociedade brasileira do final do pe- • Eu sou Angela Davis, 230 • O Movimento
ríodo ditatorial até a Constituição de 1988. de Consciência Negra, 231 • A revolução nos
muros, 232
(EF09HI23) Identificar direitos civis, políti-
cos e sociais expressos na Constituição de
1988 e relacioná-los à noção de cidada-
nia e ao pacto da sociedade brasileira de
combate a diversas formas de preconcei-
to, como o racismo.
12 REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO

PROJETOS INTERDISCIPLINARES
?1. O realismo soviético 4. Minha cidade tem História VI 7. Minha cidade tem História VIII
História + Geografia + Língua Portuguesa + História + Geografia + Língua Portuguesa +
História + Arte Arte Arte
Capítulo 1, Página 32 Capítulo 3, Página 66 Capítulo 5, Página 118
2. A ciência e a Primeira Guerra 5. Minha cidade tem História VII 8. Por dentro da ONU
História + Ciências História + Geografia + Língua Portuguesa + História + Geografia
Capítulo 1, Página 36 Arte Capítulo 6, Página 142
3. Cultura e arte da Bauhaus Capítulo 3, Página 82
9. Minha cidade tem História IX
História + Arte 6. A ciência e a Segunda Guerra História + Geografia + Língua Portuguesa +
Capítulo 2, Página 44 História + Ciências Arte
Capítulo 4, Página 98 Capítulo 7, Página 174

12 HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor


(EF09HI24) Analisar as transformações
políticas, econômicas, sociais e culturais
de 1989 aos dias atuais, identificando
A democratização questões prioritárias para a promoção da
12 do Brasil 13 A nova ordem mundial cidadania e dos valores democráticos.
(EF09HI25) Relacionar as transformações
Jogo aberto, 256 Jogo aberto, 278 da sociedade brasileira aos protagonis-
mos da sociedade civil após 1989.
A crise do “milagre”, 258 O fim da Guerra Fria, 280
Manifestações na China, 280 (EF09HI26) Discutir e analisar as causas
Abertura lenta e gradual, 258
da violência contra populações margina-
A repressão se intensifica, 259 A queda do muro de Berlim, 280
lizadas (negros, indígenas, mulheres, ho-
O pacote de abril, 260 A desintegração do bloco soviético, 281
mossexuais, camponeses, pobres etc.)
Um novo movimento operário, 260 A nova ordem mundial, 282 com vistas à tomada de consciência e à
O pluripartidarismo, 261 A nova oposição Ocidente versus Oriente, 283 construção de uma cultura de paz, empa-
A campanha pelas eleições diretas, 261 A Guerra do Golfo na TV, 283 tia e respeito às pessoas.
O período democrático, 263 Os ataques de 11 de setembro, 284
(EF09HI27) Relacionar aspectos das mu-
O Plano Cruzado, 263 A doutrina Bush, 284
danças econômicas, culturais e sociais
O “eixo do mal”, 285 ocorridas no Brasil a partir da década de
Uma nova Constituição, 264
O neoliberalismo, 285 1990 ao papel do País no cenário interna-
As eleições de 1989, 264
A globalização, 286 cional na era da globalização.
O breve governo de Fernando Collor, 265
O poder das megaempresas, 287
Corrupção e o impeachment, 266
Opositores da globalização, 289 Capítulo 13
O governo de Itamar Franco, 266
A África e os senhores da guerra, 290
O governo de Fernando Henrique, 267 (EF09HI28) Identificar e analisar aspec-
A presença imperialista chinesa na África, 291 tos da Guerra Fria, seus principais confli-
A reeleição de FHC, 267
A indústria farmacêutica, 292 tos e as tensões geopolíticas no interior
O governo Lula, 268
Barack Obama e a crise de 2008, 293 dos blocos liderados por soviéticos e es-
Programas sociais e o Mensalão, 269
A reeleição de Obama, 294 tadunidenses.
O governo de Dilma, 270 A crise mundial, 294
As jornadas de junho, 271 (EF09HI32) Analisar mudanças e perma-
Indignados ocupam Wall Street, 294 nências associadas ao processo de globa-
As eleições de 2014, 271 Grécia e Espanha: giro à esquerda, 295 lização, considerando os argumentos dos
O impeachment de Dilma, 273 A eleição de Donald Trump, 295 movimentos críticos às políticas globais.
O governo de Temer, 273 Bate-bola: Modernidade, 296
(EF09HI33) Analisar as transformações
Bate-bola: Torcidas: política, violência e Quebra-cabeça, 296 nas relações políticas locais e globais ge-
intervenção social, 274
Leitura complementar: [O entusiasmo dos jovens radas pelo desenvolvimento das tecnolo-
Quebra-cabeça, 276 na Praça Porta do Sol], 297 gias digitais de informação e comunicação.
Leitura complementar: [Diretas Já!], 276 Olho no lance: A crítica de Banksy, 298
(EF09HI35) Analisar os aspectos rela-
Olho no lance: [Censura], 277 Permanências e rupturas: Ideologia, 299
cionados ao fenômeno do terrorismo na
Permanências e rupturas: Carta aberta à Salto triplo, 299
contemporaneidade, incluindo os movi-
presidência, 277
Quadros do capítulo mentos migratórios e os choques entre di-
Salto triplo, 277
A Copa do Mundo de 1990: regionalismo e ferentes grupos e culturas.
Quadros do capítulo nacionalismo, 281 • Sanitário high tech, 286 • (EF09HI36) Identificar e discutir as diver-
A Copa do Mundo de 1982, 262 • Futebol Megaeventos olímpicos, 288 • A Copa da África
sidades identitárias e seus significados
exportação, 268 • 2014 e 2016: Copa do Mundo do Sul em 2010, 292
históricos no início do século XXI, com-
e Jogos Olímpicos, 272
batendo qualquer forma de preconceito
Índice remissivo, 300 e violência.

Referências bibliográficas, ?
303 MATERIAL DIGITAL
Plano de desenvolvimento anual
NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA 13

10. Arte latino-americana 13. Minha cidade tem História X 16. Tempo para analisar
História + Arte + Língua Portuguesa + História + Geografia + Língua Portuguesa + História + Língua Portuguesa + Arte
Espanhol Arte Capítulo 13, Página 298
Capítulo 8, Página 182 Capítulo 11, Página 250
14. Minha cidade tem História XI
11. O esporte e as tentativas de superação da
História + Geografia + Língua Portuguesa +
segregação racial na África do Sul
Arte
História + Geografia + Educação Física + Inglês
Capítulo 12, Página 270
Capítulo 9, Página 206
15. Biomedicina, avanços científicos e os
12. Diversidade sexual lucros das empresas farmacêuticas
História + Ciências + Geografia + Língua História + Ciências + Língua Portuguesa
Portuguesa Capítulo 13, Página 286
Capítulo 10, Página 224

Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano 13


tre
es
m
A Primeira Guerra

Bi

EF09HI10
Capítulo

1
EF09HI11

Mundial e a
?
MATERIAL DIGITAL
Plano de desenvolvimento bimestral
Revolução Russa
1

BIBLIOTECA DE DOCUMENTOS GOVERNAMENTAIS, UNIVERSIDADE DO TEXAS, EUA


JOGO ABERTO JOGO
ABERTO
É importante que os alunos levantem
o máximo de suposições em relação às
OBSERVE AS IMAGENS
questões propostas, as quais serão, du-
rante o estudo do capítulo, revisadas
em função dos conteúdos aprendidos.
1. No seu caderno, identifi-
que: o suporte, a data e
1
os elementos presentes
Imagem 1: litografia colorida, 1918. Tra- em cada uma das ima-
ta-se do cartaz do primeiro filme oficial de gens referentes à Primei-
guerra dos Estados Unidos. Em primeiro
ra Guerra Mundial.
plano, um comandante militar em seu ca-
valo. Logo atrás, um corpo coeso de sol- 2. As imagens apresentam
dados empunhando espingardas com uma mesma visão da
baionetas e carregando duas bandeiras: guerra? Justifique sua
dos Estados Unidos e do Corpo de Fuzilei- resposta utilizando os
ros. Ao fundo, em segundo plano, cavalei- elementos identificados.
ros cruzados medievais. No alto, à direita,
3. Essas imagens podem
uma águia, símbolo nacional estaduniden-
ser consideradas docu-
se, carregando um brasão com as cores da
mentos históricos? Justi-
bandeira dos Estados Unidos.
fique sua resposta.

PROJETO INTERDISCIPLINAR
?1. Página 32 / 2. Página 36

OBJETIVOS DO CAPÍTULO

• Compreender as alterações promovidas


pela Primeira Guerra Mundial, instaurara-
Os cruzados de Pershing, Signal Corps/UN Army. Cartaz de propaganda do primeiro filme de
doras de uma nova ordem mundial. Tecno- guerra oficial dos Estados Unidos, litografia colorida, 1918.
logia militar e guerra de trincheiras criam
um novo cenário no front. O ano de 1917
14 Capítulo 1 | A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO
ganha destaque especial para a compreen-
são das alterações geopolíticas, pelo am-
plo significado da saída da Rússia e entra-
da dos Estados Unidos na guerra. Por fim,
as repercussões da guerra evidenciam as mudanças socialista e, de outro, pelo processo crescente de pode ser desenvolvida por meio do quadro da pági-
em relação ao “longo século XIX”: o deslocamento burocratização e centralização política. na 23, com a atividade 1 do Quebra-cabeça da pági-
do centro econômico da Inglaterra para os EUA, fo- na 35 e com a exibição do filme Feliz Natal, sugerido
mentando sentimentos revanchistas, e o desmem- SUGESTÕES PEDAGÓGICAS na página 23.
bramento dos antigos impérios. Neste capítulo é importante reforçar com os estu-
• Apresentar as peculiaridades históricas que permi- É importante também destacar as tensões nacio- dantes o conceito de ideologia, desenvolvido no
tiram o estabelecimento da revolução socialista na nalistas e rivalidades entre as potências capitalis- quadro da página 31. Tal conceito é importante
Rússia e as perspectivas leninistas de organização tas que se manifestavam claramente desde os Jo- para a compreensão dos capítulos seguintes.
partidária e de encaminhamento do governo revo- gos de 1900. Além disso, pode-se destacar o processo de consti-
lucionário. Identificar a aplicação de um conjunto A importância do futebol como elemento da cultu- tuição da ditadura a partir do Politburo (página 30)
de medidas orientadas, de um lado, pela ideologia ra das sociedades europeias no início do século XX e o processo de stanilização (páginas 31-34).

14 HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor | Capítulo 1


Imagem 2: fotografia, 1917, é possível
2
identificar uma grande manifestação popular
POPPERFOTO/GETTY IMAGES

da qual participam soldados e trabalhado-


res, no contexto da Primeira Guerra Mundial.
Imagem 3: cartaz italiano de propaganda,
1917. Quatro soldados empunham suas
armas, tendo atrás de si bandeiras dos Es-
tados Unidos, França, Itália e Reino Unido.
No alto, a inscrição pela liberdade e a civi-
lidade do mundo. Logo abaixo: “subscre-
vam o empréstimo nacional”.
Imagem 4: cartaz de propaganda, 1915.
Duas mulheres britânicas e uma criança ob-
servam de uma janela soldados marchan-
do. No alto, a inscrição: “Mulheres britâni-
cas dizem – Vão!”.
2 As imagens mostram duas visões da
guerra. As imagens 1, 3 e 4 são propagan-
Guarnição militar une-se aos trabalhadores, anônimo. Petrogrado (Rússia), 27 fev. 1917. da militar, com figuras heroicas prepara-
das para os sacrifícios. O óleo sobre tela de
3 4 Singer mostra a guerra marcada pela violên-
MUSEU IMPERIAL DA GUERRA, LONDRES, INGLATERRA

MUSEU IMPERIAL DA GUERRA, LONDRES, INGLATERRA

cia e pelo sofrimento dos soldados.


3 Sim, podem ser consideradas docu-
mentos históricos já que são documentos
visuais portadores de posicionamentos
e perspectivas acerca da Primeira Guerra
Mundial.

Pela liberdade e civilidade do mundo, Marcello Dudovich. Cartaz de Mulheres britânicas dizem – “Vão!”, E. V. Kealley. Cartaz de
propaganda, Atelier Butteri, Torino, 1917. propaganda, Hill, Siffken & Co., 1915.

MARABINI, J. A Rússia durante a Revolução de


Outubro. São Paulo: Cia. das Letra/Círculo do
Livro, 1989.
NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa | Capítulo 1 15
PASTERNAK, B. O Doutor Jivago. Rio de Janeiro:
Record, 2002.
PERROT, M. História da vida privada: da Revo-
lução Francesa à Primeira Guerra. São Paulo: Cia. das
SUGESTÕES DE LEITURA PARA O PROFESSOR HENING, R. As origens da Primeira Guerra Mundial. São Letras, 1991. v. 4.
Paulo: Ática, 1991. REED, J. Os dez dias que abalaram o mundo. Porto Ale-
COGGIOLA, O. A Revolução de Outubro. São Paulo: HERF, J. O modernismo reacionário. Tecnologia, cultura e gre: L&PM Pocket, 2004.
Xamã, 1998. política na República de Weimar e no 3º Reich. São Pau- REIS FILHO, D. A. As revoluções russas e o socialismo so-
COSTA, A. M.; SCHWARCZ, L. M. 1890-1914: no tempo lo: Editora Ensaio, 1993. viético. São Paulo: Unesp, 2004.
das incertezas. São Paulo: Cia. das Letras, 2000. HILL, C. Lênin e a Revolução Russa. Rio de Janeiro: Jor- REMARQUE, E. M. Nada de novo no front. Porto Alegre:
EISENSTEIN, S. Memórias imorais: uma autobiografia. ge Zahar, 1977. L&PM Pockets, 2004.
São Paulo: Cia. das Letras, 1987. HOBSBAWM, E. J. A era dos extremos. São Paulo: Cia. das RICHARD, L. (Org.). Berlim, 1919-1933. A encarnação
FERRO, M. A Revolução Russa de 1917. São Paulo: Pers- Letras, 1994. extrema da modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
pectiva, 1974. KEEGAN, J. História ilustrada da Primeira Guerra Mun- Editor, 1993.
GAY, P. A cultura de Weimar. Rio de Janeiro: Paz e Ter- dial. São Paulo: Ediouro, 2003. VIRILIO, P. Guerra e cinema. São Paulo: Boitempo Edi-
ra, 1978. KLEIN, C. Weimar. São Paulo: Perspectiva, 1995. torial, 2005.

Capítulo 1 | Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano 15


A BELLE ÉPOQUE EUROPEIA

IOC MUSEU OLÍMPICO, LAUSANNE, SUÍÇA


EF09HI10 Os países da Europa ocidental experimentaram um período de re-
lativa tranquilidade a partir de 1871, com o encerramento da Guerra
Franco-Prussiana e a repressão à Comuna de Paris.
O desenvolvimento tecnológico provocou uma profunda alteração
nos comportamentos sociais. A incorporação da fotografia, do cinema,
do automóvel, da bicicleta, da eletricidade e do telefone ao cotidia-
no dos habitantes das grandes cidades interferiu na cultura da época,
criando uma atmosfera de bem-estar e divertimento. Por todas essas
razões, o período que se estende de 1871 até 1914 é denominado Belle
Époque (Época Bela).
Tal situação ocorria simultaneamente ao avanço das potências ca-
Cartaz dos Jogos Olímpicos de Atenas.
Litografia colorida, 1896. pitalistas europeias sobre a África e a Ásia. O controle imperialista das
áreas fornecedoras de matérias-primas e consumidoras de produtos
industrializados sustentava o bem-estar da burguesia e das classes médias
da Europa.
?
Pode ser interessante revisitar o tex-
to suplementar sobre os jogos, loca-
OS JOGOS OLÍMPICOS DA ERA MODERNA
lizado na página XLIII do Manual do
Professor, para enriquecer a leitura e As realizações científicas e tecnológicas do século XIX estimularam tam-
discussão desta seção. bém um novo olhar sobre o corpo humano. A partir de então, afirmava-se a
necessidade da educação física e do desenvolvimento de atividades espor-
tivas para o aperfeiçoamento do ser humano. A modernização dos corpos
acompanhava a modernidade que se instaurava. Corpos sadios e atléticos
Contexto: Pode-se sugerir aos alunos
deveriam ser a expressão da civilização tecnológica.
que essa nova edição dos Jogos pu-
nha fim a um banimento de quinze sé- Em um primeiro momento, as atividades esportivas foram praticadas por
culos. Os Jogos Olímpicos haviam sido integrantes das elites europeias, como uma forma de se diferenciarem da
proibidos pelo Imperador Teodósio, em classe operária. Os esportes tornaram-se um dos principais veículos do pa-
393, por pressões da Igreja Cristã. Com drão especificamente burguês de lazer e de estilo de vida.
a adoção do cristianismo como religião Com essa motivação foram organizados os Jogos Olímpicos de Atenas,
oficial do Império Romano, iniciou-se em 1896, por Pierre de Freddy, o barão de Coubertin, que propunha resgatar
uma ofensiva contra os rituais pagãos. o espírito dos antigos jogos gregos por meio de uma competição ama-
IOC MUSEU OLÍMPICO, LAUSANNE, SUÍÇA

Os jogos gregos, originalmente ligados dora, desprovida de interesses econômicos.


a cultos fúnebres, passaram, a partir do
Para o barão, “o profissionalismo se constituiu no pior inimigo dos
Período Arcaico (séculos VIII a VI a.C.),
esportes”. Ou seja, as modalidades deveriam ser praticadas sem remu-
a ser dedicados aos deuses do Olimpo.
neração, evidentemente por aqueles que não precisassem trabalhar e
Um politeísmo inaceitável aos olhos do
monoteísmo triunfante do século IV. dispusessem de tempo livre para se dedicar aos esportes. Como entre
os cidadãos gregos da Antiguidade, que podiam participar dos Jogos –
e também das atividades políticas, militares e culturais – graças a um sis-
tema escravista que lhes oferecia a devida retaguarda econômica.
Foi apenas no contexto da Revolução Industrial que se criaram as
condições para o resgate dos ideais olímpicos. Na Inglaterra, as práti-
cas esportivas foram introduzidas na programação curricular. Coesão de
classe, disciplina e força física seriam também elementos fundamentais
Cartaz dos Jogos Olímpicos de Paris.
Litografia colorida, 1900.
na formação da elite que comandava o Império Britânico.

16 Capítulo 1 | A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO

16 HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor | Capítulo 1


O AMADORISMO E AS ELITES

IOC MUSEU OLÍMPICO, LAUSANNE, SUÍÇA


Por tais motivos, os esportes amadores representavam a linha social divi-
sória entre as classes sociais. As intensas discordâncias em torno do amado-
rismo versus profissionalismo, ao final do século XIX e nas primeiras décadas
do século XX, significavam impedir ou permitir que a classe operária tivesse
acesso às modalidades esportivas que se organizavam em escala mundial.
A edição dos Jogos de Atenas de 1896 reuniu 311 atletas, de onze paí-
ses. As modalidades foram divididas em nove categorias: atletismo, ciclismo,
esgrima, ginástica, tênis, tiro, natação, levantamento de peso e luta greco-
-romana. As provas de corrida continuaram a ser as mais prestigiadas, mas as
extensões percorridas foram modificadas: 100, 400, 800, 1 500 metros e 100
metros com barreiras. Além disso, em homenagem ao herói grego Feidípe- Cartaz dos Jogos Olímpicos
de Londres. Litografia colorida,
des, que em 490 a.C. teria percorrido 42 195 km para levar a Atenas a notícia 1908.
da vitória dos gregos sobre os persas, foi introduzida a prova da maratona.
Entre velhas e novas modalidades, uma característica a destacar: a valoriza-
ção das competições individuais em prejuízo das competições em
equipes. Ecos de um individualismo que procurava triunfar. TÁ LIGADO TÁ LIGADO ?

1. Explique as 1. A Belle Époque (Época Bela), período


OLIMPÍADAS, ALIANÇAS E RIVALIDADES
características da Belle que se estende de 1871 até 1914, foi
POLÍTICAS Époque europeia. marcada por uma atmosfera de bem-estar
2. Explique o que e divertimento à burguesia e às classes
A organização das Olimpíadas de 1900, em Paris, enfrentou di-
estimulava o bem- médias. Isso porque os países da Euro-
versas dificuldades geradas pelo sentimento nacionalista. As lem- pa ocidental experimentaram um período
-estar na burguesia
branças da Guerra Franco-Prussiana, da década de 1870, mantive- de relativa tranquilidade a partir de 1871,
e nas classes médias
ram tensas as relações entre a Alemanha e a França. O clima de com o encerramento da Guerra Franco-
europeias.
hostilidade acompanhava atletas e torcedores em Paris. Uma partida -Prussiana e da repressão à Comuna de
de rúgbi entre franceses e alemães exigiu a intervenção enérgica da 3. Explique por que os Paris, além do desenvolvimento tecnoló-
polícia para controlar a torcida. esportes amadores gico que causou alterações nos comporta-
representavam a linha mentos sociais.
No contexto militarista, o pentatlo moderno fez sua estreia olímpi-
social divisória entre 2. O que estimulava o bem-estar na bur-
ca em Estocolmo, na Suécia, em 1912. As cinco modalidades que pas-
as elites e as classes guesia e nas classes médias da Europa era
saram a fazer parte da prova foram escolhidas com base nas peripécias subalternas. o controle imperialista das áreas fornece-
de um soldado encarregado de levar uma mensagem: ele inicia a via-
doras de matérias-primas e consumidoras
gem a cavalo (equitação), é obrigado a desmontar e enfrentar adver- de produtos industrializados.
sários em um duelo de espadas (esgrima), consegue escapar mas tem de abrir
3. O amadorismo era uma linha divisória
IOC MUSEU OLÍMPICO, LAUSANNE, SUÍÇA

caminho no campo inimigo a tiros (tiro ao alvo), cruza um rio a nado (natação),
social porque fazia parte da programa-
atravessa um bosque correndo (corrida de cross-country) e chega ao destino. ção curricular da elite, e nele se buscava
Era o clima de guerra se alastrando, apesar de muitos acharem possível uma coesão de classe, disciplina e força fí-
evitá-la. “Que a próxima Olimpíada possa contribuir, como esta, para o bem- sica, que seriam elementos fundamentais
-estar geral e o engrandecimento da humanidade. Possa ela ser preparada na formação dessa elite que comandava o
com um trabalho eficiente e em tempos de paz”, discursou Coubertin no Império Britânico.
banquete de encerramento da Olimpíada de Estocolmo, oferecido pelo rei
Gustavo V, da Suécia.
A cidade escolhida para sediar a próxima Olimpíada foi Berlim. Cou-
bertin e o comitê olímpico acreditavam que a indicação da Alemanha para
Cartaz dos Jogos Olímpicos de
sede da Olimpíada de 1916 poderia contribuir para a paz. Erraram. Os Jogos
Estocolmo. Litografia colorida,
Olímpicos não puderam se realizar em Berlim por causa da guerra. 1912.

NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa | Capítulo 1 17

Capítulo 1 | Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano 17


Estagnação O FASCÍNIO PELA TECNOLOGIA
Situação daquilo
EF09HI10 que está parado, Nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial, predominara o
sem progresso ou
desenvolvimento. fascínio pela tecnologia. Seus maiores defensores sustentavam que os seres
humanos eram conduzidos ao progresso e que, pela luz da ciência, se pro-
duziam pessoas cada vez melhores e mais sábias.
Museu Virtual O desenvolvimento da indústria cultural de massa, com cinemas, parques
de diversão e exposições internacionais, criava uma verdadeira celebração à
Museu alemão da ciência e
tecnologia. Uma ilusão acerca do poder do desenvolvimento tecnológico que
tecnologia de Munique
Considerados um dos principais mu- Capa da obra Zang Tumb seria desfeita a partir de 1914, com o início da Primeira Guerra Mundial.
seus de tecnologia do mundo, pos- Tumb: Adrianópolis – Outubro A racionalidade tecnocientífica produziu a mais devastadora guerra da his-
de 1912. Palavras em liberdade,
sui acervos sobre inventos, energia, Filippo Tommaso Marinetti.
tória da humanidade até então. O progresso técnico capacitou os combatentes
mecanismos e meios de transpor- Milano: Edizioni Futuriste di a se exterminarem com uma eficiência impressionante, equipando-os com ar-
Poesia, 1912.
te. Disponível em: <https:// mas químicas, aviões, bombardeiros e submarinos.

BIBLIOTECA DE OBRAS RARAS, UNIVERSIDADE DE YALE, EUA


bit.ly/2FNCQKc>. Acesso em: A Europa se converteu em um mar de sangue: cerca de 17 milhões de mor-
2 out. 2018. Em inglês. tos e 20 milhões de feridos. O desenvolvimento dos transportes e das comu-
nicações também foi decisivo para a ampliação do conflito em escala mundial.

O IMPERIALISMO E A DISPUTA POR MERCADOS


No início do século XX a tensão internacional era cada vez maior. A ne-
cessidade de matérias-primas para as indústrias europeias e de mercados
consumidores para os produtos das grandes potências desencadeou uma
intensa rivalidade. Operou-se uma política expansionista, denominada im-
perialismo, que significava dominação territorial, econômica e cultural de
Nas artes, o futurista países industrializados sobre regiões na América Latina, África e Ásia.
ítalo-francês Marinetti
(1876-1944) exaltava a Consequentemente, desde a segunda metade do século XIX, ocorreu a
beleza da tecnologia, a ocupação de áreas territoriais na África e Ásia, denominada neocolonialismo.
rapidez aterrorizante do Os governos da Inglaterra e da França temiam a crescente industriali-
fogo da metralhadora
e profetizava guerras zação da Alemanha. “O perigo para nós não é o engrandecimento da Ale-
químicas, elétricas manha, é a estagnação de nossa riqueza, de nossa população, de nosso
e robóticas.
comércio. A política colonial, apesar de tudo, representa nossa fonte de ju-
ventude”, escreveu o barão de Coubertin, refletindo a situação europeia no
BIBLIOTECA DE OBRAS RARAS, UNIVERSIDADE DE YALE, EUA

início do século XX.


O crescimento econômico ocorrido durante a Belle Époque acirrou as ten-
sões entre as potências capitalistas. As rivalidades econômicas, o nacionalismo e
a ampliação da capacidade destrutiva, possibilitada pelo desenvolvimento tec-
nológico, constituíram o combustível que incendiaria o mundo.
Nos Estados Unidos, desenvolviam-se os setores químico e automobilísti-
co. Na Alemanha, estabelecia-se uma forte produção de armamentos. A pro-
dução de ferro e aço dos dois países superava a inglesa. Nesse contexto, o
governo alemão exigia uma nova partilha dos territórios coloniais, para suprir
suas necessidades de mercados e de matérias-primas.
Capa da obra As palavras em
A Inglaterra, por sua vez, detentora do maior império colonial e do maior
liberdade futuristas, Filippo volume de exportações, para se defender e ampliar seus domínios, também
Tommaso Marinetti. Milano:
se militarizava rapidamente. Era uma corrida para produzir cada vez mais ar-
Edizioni Futuriste di Poesia,
1919. mas e, dessa forma, amedrontar o inimigo. Estabelecia-se a paz armada.

18 Capítulo 1 | A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO

18 HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor | Capítulo 1


AS POLÍTICAS DE ALIANÇAS TÁ LIGADO
A unificação da Alemanha, em 1870-1871, converteu o novo Es- 4. Explique as rivalidades TÁ LIGADO ?
tado em uma potência internacional que perturbava o equilíbrio de econômicas entre as
4. O grande combustível dessa rivalidade
poder na Europa. Acreditando que a Alemanha precisava crescer grandes potências no
era a disputa por mercado decorrente do
para não morrer, correntes nacionalistas pressionaram o governo no início do século XX.
crescimento econômico ocorrido durante
rumo da militarização, visando garantir mais mercados para o país. 5. Explique o que era paz a Belle Époque. As tensões entre as potên-
Otto von Bismarck (1815-1898), o líder da unificação alemã, ar- armada. cias capitalistas, as disputas econômicas,
quitetara uma política exterior cautelosa. Um de seus principais ob- o nacionalismo e a ampliação da capaci-
6. Aponte os países que
dade destrutiva, possibilitada pelo desen-
jetivos era manter a França isolada, sem aliados. participavam da Tríplice
volvimento tecnológico, apenas tornaram
Com a derrota na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), a França Aliança e da Tríplice
essa concorrência mais tensa.
perdera parte de seu território, a Alsácia e a Lorena, para a Alema- Entente.
5. A paz armada foi o processo de cor-
nha. Os nacionalistas franceses ansiavam por uma desforra contra os 7. Relacione as disputas rida armamentista que antecedeu a Pri-
alemães, mas o governo da França, ciente de sua inferioridade béli- econômicas entre as meira Guerra. Embora dissessem que não
ca naquele momento, não estava disposto a iniciar um novo conflito. potências europeias queriam guerrear, os países europeus pas-
A fim de manter a paz e as fronteiras alemãs, Bismarck forjou alianças no início do século XX saram a produzir armamentos em larga es-
complicadas. Na década de 1880, costurou a Tríplice Aliança com a ao nacionalismo e ao cala com vistas a um grande conflito. Era
militarismo. uma corrida para amedrontar o inimigo.
Áustria-Hungria e a Itália.
Com o objetivo de estabelecer uma política de aproximação com 6. A Tríplice Aliança era composta pela Ale-
a Rússia, os governantes franceses pressionaram seus banqueiros para A ilustração de capa do Le
manha, Áustria-Hungria e a Itália. A Tríplice
Petit Journal ironiza a disputa Entente era composta pela Rússia, Ingla-
que investissem naquele país, ao mesmo tempo que forneciam armas
pela região balcânica. À terra e França.
ao czar. Em 1894, França e Rússia estabeleceram uma aliança. esquerda, Francisco José I,
7. A construção do Estado nacional na Ale-
O isolamento imposto à França por Bismarck terminara. O gover- imperador da Áustria, anexa
a Bósnia e a Herzegovina. manha desequilibrou o jogo de forças no
no inglês também estava inquieto com o crescente poderio militar e
No centro, Ferdinand I continente europeu no final do século XIX.
industrial da Alemanha. O temor levou a Inglaterra a aproximar-se proclama a independência Promovendo um acelerado desenvolvi-
primeiro da França e depois da Rússia, formando a Tríplice Entente. da Bulgária. A direita, Abdul mento industrial, os alemães começaram a
A Europa se dividiu em dois grupos hostis: a Tríplice Entente Hamaid II, sultão do Império incomodar Inglaterra e França e a pleitear
Turco-Otomano, aborrecido,
(França, Rússia e Inglaterra) e a Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria- enquanto lhe são arrancados uma nova divisão das áreas de influên-
-Hungria e Itália). Fomentando o medo e a desconfiança mútua, es- “pedaços” de seu império. cia de cada país. Como chegara atrasada
à corrida imperialista, a Alemanha tinha
tava a corrida armamentista.

FINE ART IMAGES/HERITAGE IMAGES/GLOW IMAGES


poucas áreas à disposição para explorar
matérias-primas e exportar sua produção.
OS BÁLCÃS E O INÍCIO DA GUERRA Essa situação promoveu uma crescente
disputa entre as diversas nacionalidades e
No início do século XX, os Bálcãs (sudeste da Europa) eram a uma corrida armamentista que levou à Pri-
meira Guerra Mundial. O discurso naciona-
zona crítica da Europa. Os interesses das potências imperialistas pela
lista ajudou a inflamar os sentimentos de
região geravam um forte clima de tensão. A disputa pelo domínio todos os povos.
da Península Balcânica, após o desmembramento do Império Turco-
-Otomano, serviria de estopim para a guerra.
Os governos austríaco, russo e alemão buscavam ampliar sua in-
fluência naquela região e acabaram dando início a uma guerra que se
estendeu para quase toda a Europa, em virtude das alianças militares.
Em junho de 1914, o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro
do trono austríaco, viajou até Sarajevo, capital da Bósnia, para forta-
lecer a aliança entre os dois governos. Lá, foi assassinado por um jo-
O despertar da questão do Oriente. Le
vem terrorista, apoiado por uma sociedade secreta nacionalista sér- Petit Journal: Supplément Illustré. Paris,
via, a Mão Negra. no 935, 18 out. 1908.

NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa | Capítulo 1 19

Capítulo 1 | Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano 19


Sentindo-se ameaçado, o
BÁLCÃS (1878-1913)
governo da Áustria decidiu usar

MÁRIO YOSHIDA
IMPÉRIO
RUSSO
EF09HI10 Viena o assassinato de Francisco Ferdi-
nando como pretexto para atacar
Budapeste
a Sérvia. Com a aprovação do go-
IMPÉRIO AUSTRO-HÚNGARO
verno da Alemanha, sua aliada, a
Áustria intimou a Sérvia a inves-
tigar e resolver o assassinato em
48 horas. Os dirigentes russos, te-
REINO DA
? mendo que uma invasão austría-
MATERIAL DIGITAL IT
ITÁLIA
Constantinopla

Sequência didática 1 ca fosse apenas o primeiro passo


A Primeira Grande Guerra IMPÉRIO de um plano austro-alemão para
TURCO-OTOMANO
dominar os Bálcãs, resolveram
apoiar os sérvios.
Em 28 de julho de 1914, o
ESCALA
governo austro-húngaro declarou
0 195 390 km
CRETA
TA guerra à Sérvia. Dois dias depois,
com a certeza do apoio francês, o
Fronteira do Império
Turco-Otomano em 1800
T governo russo proclamou a mobi-
Fronteiras nacionais depois
das Guerras dos Balcãs
(1912-1913)
lização geral de suas forças. Em seguida, a Alemanha declarou guerra à Rús-
Império Turco-Otoman
em 1913
T o
sia e à França. Quando as tropas alemãs marchavam pelo território da Bélgi-
Fonte: Elaborado com base ca rumo ao francês, a Inglaterra declarou guerra à Alemanha.
em BLACK, J. (Dir.). World
Um século antes, tropas inglesas haviam combatido o Exército de Na-
History Atlas. Londres: DK
Book, 2008; PARKER, G. Atlas poleão para impedir que a França se apoderasse da Europa. Agora, lutaria
Verbo de História Universal.
contra os alemães pela mesma razão.
Lisboa/São Paulo: Verbo,
1996.

O INTERNACIONALISMO OPERÁRIO E A GUERRA

TÁ N A R E D E ! Àquela altura, o apelo nacionalista suplantava o internaciona-


lismo dos líderes socialistas. Desde meados do século XIX, seto-
GREVES DE res expressivos do movimento operário haviam se posicionado por
TRABALHADORES NO
uma articulação mundial dos trabalhadores em defesa de seus in-
INÍCIO DO SÉCULO XX
teresses comuns.
Digite o endereço abai-
xo na barra do navega- Em 1864 foi fundada a Associação Internacional dos Trabalha-
dor de internet: <https:// dores, conhecida como Primeira Internacional. A divisão entre anar-
bit.ly/2QoWJcb>. Você pode quistas e socialistas resultou na formação da Segunda Internacional,
também tirar uma foto em 1889, sob a liderança socialista.
com um aplicativo de
Os integrantes da nova organização internacional de trabalhado-
QrCode para saber mais so-
bre o assunto. Acesso em:
res dividiram-se com relação à participação na guerra que se iniciava
2 out. 2018. Em francês. em 1914. Uma parte de seus líderes era contrária a apoiá-la, pois con-
siderava um conflito entre Estados capitalistas. Outros, no entanto,
O site apresen-
ta uma série de
optaram por seguir as decisões de seus governos burgueses.
cartões postais Como resultado, operários de todo o mundo lutaram uns contra
de greves entre
1901 e 1914.
os outros. Situação muito diferente daquela que Karl Marx havia suge-
rido com a palavra de ordem: “Operários de todo o mundo, uni-vos!”.

20 Capítulo 1 | A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO

20 HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor | Capítulo 1


A GUERRA DE TRINCHEIRAS
Muitos soldados partiam para a guerra embalados por canções patrióti- Museu Virtual
cas, esperando um conflito de curta duração. Museu da Primeira Guerra Mundial
No início dos combates, políticos, líderes militares e os jornais naciona- O site apresenta uma excelente cro-
listas dos mais diversos países prometiam que os soldados já estariam em nologia da guerra, mapas das linhas
de combate e fotografias sobre a Pri-
casa nas festas de fim de ano. Poucos poderiam imaginar que seriam cerca
meira Guerra Mundial. Disponível em:
de quatro anos de derramamento de sangue.
<https://bit.ly/2P83cb6>.
Os militares alemães puseram em prática o Plano Schlieffen, que previa
Acesso em: 2 out. 2018. Em
atravessar a Bélgica, país neutro em relação ao conflito. Assim evitariam as inglês e francês.
defesas francesas da fronteira e poderiam ocupar Paris rapidamente.
Dois meses era o prazo previsto pelo plano. Depois as tropas seriam
conduzidas pelas ferrovias alemãs em direção à frente oriental para enfrentar
os russos. Tudo dependeria da rapidez das manobras. Paris deveria ser toma-
da antes que a Rússia pudesse invadir a Alemanha.
Apesar da vitória inicial sobre os franceses, o sucesso da Alemanha não
foi completo. Os russos invadiram a Prússia oriental, obrigando os generais
alemães a transferir suas tropas do front francês, dificultando o avanço por
aquele território. TÁ LIGADO ?
A 64 quilômetros de Paris, o Exército francês, reagrupado e apoiado pe- 8. Os integrantes da nova organização in-
los ingleses, resistiu ao avanço alemão. Para tentar garantir posições e im- ternacional de trabalhadores dividiram-se
pedir o avanço das tropas inimigas, foram construídas trincheiras: espaços com relação à participação na guerra que
defensivos escavados na terra, formando corredores onde os soldados se se iniciava em 1914. Uma parte de seus
abrigavam. Iniciava-se uma nova fase do conflito: a guerra de trincheiras. líderes era contrária a aderir à guerra, con-
“Não sei o que fazer, isto não é guerra”, declararia um militar inglês diante siderada um conflito entre Estados capi-
talistas. A maior parte, no entanto, optou
da lentidão da guerra de trincheiras, na qual não havia o combate corpo a cor-
por seguir as decisões de seus governos
po nem os confrontos de cavalaria, elementos fundamentais da guerra até en- burgueses. Como resultado, operários de
tão. Era um conflito estático em que, para milhões de homens, a ação consistia todo o mundo lutaram uns contra os ou-
em ficar posicionado por meses ou até mesmo anos. Em uma extensão de 640 tros. Situação muito diferente daquela
quilômetros, os lados em confronto construíram uma rede de trincheiras com que Karl Marx havia sugerido com a pala-
abrigos subterrâneos e cercas de arame farpado à frente delas. vra de ordem: “Operários de todo o mun-
Ganhos e perdas de posições eram medidos em metros. Em 1915, por do, uni-vos!”.
exemplo, após lançar numerosos ataques, a França havia conquistado cerca 9. Com o desenvolvimento da metralha-
dora e de outros armamentos podero-
de cinco quilômetros. Mas esse pequeno avanço lhe custara mais de um mi-
sos, os exércitos rivais não conseguiam
lhão de vidas.
avançar. Sempre que uma tropa ousava
Os soldados não conseguiam resistir ao desgaste de uma guerra sair das trincheiras era alvejada por raja-
com essas características. Aconteciam revoltas espontâneas, nascidas das de metralhadoras. Milhões de solda-
do desespero e do fracasso militar. Em várias partes eles detinham TÁ LIGADO dos morreram nas trincheiras nessas ten-
trens a fim de alcançar Paris e incitar a população contra a guerra. 8. Explique a divisão tativas. Durante quase dois anos, a guerra
A Itália, integrante da Tríplice Aliança, manteve-se neutra até ocorrida no interior da não evoluiu mais do que poucos metros
para cada lado, ficando paralisada nas
que, em 1915, atraída pela promessa de receber territórios austría- Segunda Internacional a
trincheiras.
cos, entrou na guerra ao lado dos franceses e ingleses. Os austría- respeito da participação
cos, após evitar diversos ataques ao longo da fronteira, assumiram na guerra.
a ofensiva contra a Itália. Em 1917, em Caporetto, os italianos retira- 9. Explique como se
ram-se desordenadamente, deixando para trás enormes quantida- travava a guerra de Neste ponto, pode ser interessante
des de armas. trincheiras. retomar a sondagem realizada na seção
Jogo aberto deste capítulo.
NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa | Capítulo 1 21

Capítulo 1 | Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano 21


Fatos interessantes sobre a guerra de trincheiras
EF09HI10
• Estima-se que, se todas as trinchei-

HULTON ARCHIVE/GETTY IMAGES


ras construídas ao longo da frente
ocidental fossem medidas de pon-
ta a ponta, somariam cerca de 40
mil quilômetros de comprimento.
• Devido às chuvas e bombas inimi-
gas era necessária uma manuten-
ção constante.
• Eram precisos 450 homens e 6 ho-
? ras para construir cerca de 250 me-
Pode ser interessante revisitar o tex-
tros de um sistema de trincheira.
to suplementar sobre fotografia, loca- • O termo “terra de ninguém” (no
lizado na página XXXIX do Manual do man’s land) indicava o espaço en-
Professor, para enriquecer a leitura e tre as trincheiras das duas forças
discussão deste quadro. em combate. Esse território não
pertencia a nenhum dos lados.
• A “terra de ninguém” era uma
área muito perigosa porque não
fornecia a cobertura que as trin-
cheiras proporcionavam. Soldados britânicos alinhados na trincheira, 28 out. 1914.

AS PRINCIPAIS FRENTES DE BATALHA DURANTE A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL


MÁRIO YOSHIDA

MPÉRIO
IMPÉRIO
RUSSO

IRLAN

Fro
nt
ru
ALEMANHA

ss
o
IMPÉRIO
ront AUSTRO-HÚNGARO
AU O
italiano

BULGÁRIA

PO IT
ESP
ESPANHA IMPÉRIO
OTOMANO
MANO

M a r
M
ríplice Entente
d
Aliança i
Zonas de operação t
e
r r
egião de guerra submarina â n e o
Estados neutros
Batalhas navais
Fronts em 1917
Fronts ÁFRICA

Fonte: Elaborado com base em CHALIAND, G. et RAGEAU, J. P. Atlas Politique du XXe siècle. Paris: Du Seuil, 1998.

22 Capítulo 1 | A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO

22 HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor | Capítulo 1


Futebol de Natal nas trincheiras

No Natal de 1914, soldados alemães, baseados na Bélgica, TÁ N A R E D E !


colocaram pequenas árvores, decoradas com velas, no para-
ESPORTES E GUERRA
peito de suas trincheiras e começaram a cantar canções nata-
linas. Do outro lado ouviam-se em resposta canções entoadas Digite o endereço abai-
xo na barra do na-
por ingleses e franceses.
vegador de internet:
Como alguns soldados alemães haviam trabalhado na Ingla-
<http://goo.gl/lP5gfV>. Você
terra antes da guerra e falavam inglês, resolveram propor uma pode também tirar uma
trégua de Natal, que foi aceita pela maior parte dos soldados Feliz Natal
foto com um aplicativo de
ingleses e franceses. França/Inglaterra, 2005.
QrCode para saber mais so-
Direção: Christian Carion.
Vencidos os receios de parte a parte, aconteceu em segui- bre o assunto. Acesso em:
20 set. 2018. Em francês. Pode ser interessante montar uma ati-
da algo totalmente surpreendente: os soldados abandonaram
vidade sobre a relação entre o futebol
as trincheiras para cumprimentar-se no meio do campo de ba-
No site há e a guerra com a exibição desse filme,
talha, usualmente chamada de “terra de ninguém”, e trocaram um exemplar
no qual retoma-se a noite de Natal de
presentes: pedaços de bolo, cartões-postais, cigarros, cerveja da revista
digitalizado com 1914 e a trégua firmada por soldados
e conhaque. fotos, desenhos alemães, franceses e ingleses para
Nos dias 25 e 26 de dezembro, travaram-se partidas de fu- e mapas do celebrar o Natal.
período.
tebol entre os soldados franceses, ingleses e alemães. Bolas e
traves improvisadas não impediram que a alegria do futebol
promovesse uma confraternização entre os combatentes.

BIBLIOTECA NACIONAL, BERNA, SUÍÇA


Terminada a trégua, os generais ordenaram aos seus co-
mandados que recomeçassem a atirar. Afinal, estavam em uma
guerra. Muitos obedeceram, mas erravam os alvos de propó-
sito, mirando dois ou três metros acima das cabeças dos ini-
migos. Finalmente, os comandantes perceberam que solda-
dos que haviam se abraçado para comemorar o Natal e jogado
partidas de futebol não conseguiriam mais se ver como inimi-
gos em guerra. As tropas foram então substituídas.

O guardião da meta. Ilustração extraída da revista esportiva


La Vie au Grand Air
Air, Paris, ano 19, n. 831, 15 dez. 1916.

Na imagem, uma relação entre o futebol e a guerra.


O goleiro com as cores nacionais francesas defende
uma bola à frente de sua meta, composta de fuzis.

A ENTRADA DOS ESTADOS UNIDOS


E A SAÍDA DA RÚSSIA
Em janeiro de 1917, o governo da Alemanha decidiu desfechar uma ofen-
siva que privasse a Inglaterra de suprimentos e a forçasse à rendição. Submari-
nos alemães torpedeavam todos os navios, tanto inimigos como neutros, que se
aproximavam da Inglaterra. Como os Estados Unidos eram o principal fornece-
dor dos ingleses, seus navios tornaram-se alvo dos alemães. Tal atitude precipi-
tou a entrada dos estadunidenses na guerra, os quais temiam também perder o
mercado europeu, caso os alemães passassem a dominar o continente.

NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa | Capítulo 1 23

Capítulo 1 | Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano 23


Em outubro, a Rússia abandonava o conflito, após viver um processo revo-
lucionário (tema do capítulo 2). Lênin, líder da chamada Revolução Bolchevique
EF09HI10 de 1917, argumentava que a Primeira Guerra era um conflito imperialista entre
potências capitalistas. Quando as tropas russas depuseram as armas, ocorreram
negociações entre o novo governo e a Alemanha, que levaram à assinatura do
Tratado de Brest-Litovsk (1918). A Rússia abria mão do controle sobre a Polônia,
Finlândia, Estônia, Letônia, Lituânia, Bielorússia e Ucrânia. Enquanto a revolução
socialista assustava as elites das nações capitalistas, o conflito caminhava para
Mulheres na Guerra (Woman at War) A nova amazona,
(1914-1918) François Xavier Sager. o seu final.
França, 2014. Direção: Fabien Be-
Cartão-postal, litografia A artilharia e as trincheiras travavam o avanço dos soldados no campo de
colorida, 1916. (detalhe)
ziat, Hugues Nancy. batalha. O impasse foi resolvido por uma invenção britânica: o tanque

COLLECTION DE CARTES POSTALES ANCIENNES, PARIS, FRANÇA


A presenta a vida e a trajetória de blindado. Essa nova arma foi utilizada pela primeira vez em 15 de setem-
mulheres que se destacaram na bro de 1916 na Batalha do Somme. A situação alemã na guerra se
Primeira Guerra Mundial. deteriorara, pois, com as derrotas da Turquia e da Bulgária,
o abastecimento de suas tropas na Europa central esta-
va seriamente prejudicado. Em 8 de agosto de 1918, os
ingleses, auxiliados pelos franceses e usando tanques
com grande eficácia, romperam as defesas alemãs.
Ciente da derrota, o Exército alemão tratou de con-
seguir um armistício imediato, com receio de que a
Museu Virtual Entente invadisse sua pátria e arruinasse sua reputa-
ção militar. Em 11 de novembro de 1918, o governo
Imperial War Museums (IWM)
alemão assinou a rendição, encerrando o conflito.
O IWM é composto por cinco museus e
locais históricos sobre conflitos desde
a Primeira Guerra Mundial até os dias
atuais. O IWM foi fundado com o intui- Mulheres e a guerra
to de preservar e contar as histórias de
todos os tipos de pessoas, não apenas
Em 1917, foi criado na Inglaterra um corpo feminino auxiliar do Exército (Women’s Army Auxiliary Corps: WAAC),
da Grã-Bretanha. A coleção online dis- com cerca de 40 mil mulheres. A pressão sobre elas foi enorme. Malvistas por alguns, eram acusadas de deson-
ponibiliza um acervo sobre as mulhe- rar o uniforme das forças armadas. O cartão-postal acima visava convencer os mais conservadores a aceitar a
res na guerra. presença feminina.
Disponível em: <http://
MUSEU IMPERIAL DA GUERRA, LONDRES, INGLATERRA

BIBLIOTECA ALEXANDER TURNBULL, WELLINGTON, NOVA ZELÂNDIA


bit.ly/2F2xqfm>. Acesso
em: 5 nov. 2018. Em inglês.

Primeira Guerra Mundial


(1914-1918): trabalho das mulheres
O site oferece informações e imagens
do cotidiano de trabalho das mulhe- Corpo Feminino Auxiliar (WAAC) em fila para receber a visita Desfile do Corpo Feminino Auxiliar (WAAC) ao final da Primeira
res durante a Primeira Guerra Mundial. da rainha Elizabeth (rainha-mãe) em Wimereaux, Ernest Brooks. Grande Guerra, Thomas Frederick. Londres (Inglaterra), 1918.
Pode ser uma ferramenta valiosa para França, 6 jun. 1917.

discutir relações de gênero e problema-


tizar os papéis sociais hegemônicos.
24 Capítulo 1 | A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO
Disponível em: <https://bit.
ly/1gvkD2M>. Acesso em: 3
out. 2018. Em inglês.

24 HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor | Capítulo 1


OS 14 PONTOS DE WILSON TÁ LIGADO
Em janeiro de 1919, representantes dos Aliados reuniram- 10. Em que consistia a TÁ LIGADO ?
-se em Paris para definir os termos da paz. Cerca de dois milhões proposta do presidente
10. Woodrow Wilson, presidente dos Es-
de pessoas foram às ruas para receber e saudar Woodrow Wilson Wilson para o acordo de
tados Unidos, propôs os 14 pontos para a
(1856-1924), presidente estadunidense de 1913 a 1921, e atirar-lhe paz em 1919?
paz mundial, com os quais pretendia dimi-
buquês de flores. Wilson propôs os 14 pontos para a paz mundial. 11. Explique o que era a nuir as penalidades impostas aos alemães.
Ciente de que os alemães, se tratados com dureza, poderiam Liga das Nações. Acreditava que se fossem tratados com
revidar, Wilson insistiu que deveria haver uma “paz sem vencidos muita dureza, os alemães iriam se vingar.
12. Aponte os termos do
nem vencedores”, mas o militarismo alemão, considerado por ele Propôs também a criação da Liga das Na-
Tratado de Versalhes.
ções. Daí a ideia de “paz sem vencidos nem
a principal causa da guerra, deveria ser eliminado. Para preservar a
vencedores”. A proposta fracassa em fun-
paz, defendia a formação de uma Liga das Nações, um Parlamento ção da resistência de algumas nações euro-
internacional para solucionar futuras disputas. peias, particularmente do governo francês.
Diante dos 14 pontos propostos, coube a Clemenceau, primeiro-ministro 11. Uma das propostas de Woodrow
francês, resumir a reação dos estadistas europeus: “Até o bom Deus, que é to- Wilson, a Liga das Nações seria um Parla-
do-poderoso, se contentou com dez mandamentos, e os americanos nos vêm mento internacional formado para solucio-
agora com 14!”. Predominou o que o dirigente italiano Vittorio Emmanuelle nar futuras disputas sem que houvesse ba-
Orlando chamava de il sacro egoismo (o sagrado egoísmo). Um orgulho que A gravura ironiza os talhas armadas.
14 pontos de Woodrow
ajudaria a causar uma nova guerra. Wilson, presidente 12. A Alemanha teve de devolver a Alsá-
dos Estados Unidos. cia e a Lorena aos franceses e ficou proibi-
A pomba da paz abre da de erguer fortificações na Renânia, re-
O TRATADO DE VERSALHES o bico para receber gião fronteiriça com a França. Além disso,
de Wilson um ramo foi criado e cedido à Polônia um corredor
Em 28 de junho de 1919, a Alemanha assinou o Tratado de Versalhes, de oliveira onde se lê:
“Liga das Nações”. que atravessava a Prússia ocidental e ter-
apelidado pelos alemães de “Ultimato” de Versalhes. A Alemanha teve de
Porém, o ramo é minava no porto báltico de Dantzig. A Ale-
devolver a Alsácia e a Lorena aos franceses e ficou proibida de erguer forti- pesado demais para a manha perdeu suas colônias na África e o
ficações na Renânia, região fronteiriça com a França. Além disso, foi criado pomba transportar. recrutamento militar foi proibido, para im-
e dado à Polônia um corredor que atravessava a Prússia ocidental e pedir o ressurgimento do militarismo; seu
terminava no porto báltico de Dantzig. Exército foi limitado a 100 mil voluntários;
A Alemanha perdeu suas colônias na África e o recrutamen- sua Marinha ficou restrita a uma força sim-
bólica, que não incluía submarinos. O tra-
to militar foi proibido, para impedir um ressurgimento do mi-
tado estabeleceu, ainda, que fosse paga
litarismo; teve seu Exército limitado a 100 mil voluntários;
uma pesada indenização aos países inva-
e sua Marinha ficou restrita a uma força simbólica, que didos. Considerada a culpada pela guerra,

CHINOOK MULTIMEDIA, EDMONTON, CANADÁ


não incluía submarinos. a Alemanha foi duramente punida.
O tratado estabeleceu, ainda, que fosse
paga uma pesada indenização aos países in-
vadidos. Considerada a culpada pela guerra, a
Contexto: Um pequeno resumo dos
Alemanha foi duramente punida.
14 pontos apresentados por Wilson: 1.
Os alemães repudiaram o tratado. Classifi-
Pactos de paz sem acordos diplomáti-
caram seus termos como humilhantes e vinga- cos secretos. 2. Liberdade absoluta de
tivos, destinados a manter o país enfraquecido navegação nos mares e águas fora do
economicamente. “Que justiça é essa – inda- território nacional, tanto na paz quan-
gavam – que condena unicamente a Alemanha to na guerra. 3. Abolição de todas as
por uma guerra que envolveu tantos países?” barreiras econômicas entre os países.
A recusa ao “Ultimato” de Versalhes iria tornar- 4. Redução dos armamentos nacionais.
-se, para os nazistas, um formidável instrumen- 5. Revisão da política colonialista e ob-
to de propaganda nacionalista. Excesso de peso, L. Raven-Hill. Charge extraída da Revista Punch, servação do princípio da soberania dos
Londres, v. 156, 26 mar. 1919. colonizados e colonizadores. 6. Retira-
da dos exércitos do território russo. 7.
NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa | Capítulo 1 25 Restauração da Bélgica. 8. Restaura-
ção da França e reincorporação da Alsá-
cia e Lorena. 9. Reajuste das fronteiras
italianas. 10. Reconhecimento do direi-
to ao desenvolvimento autônomo dos
povos da Áustria-Hungria. 11. Retirada
das tropas estrangeiras da Romênia,
da Sérvia e de Montenegro e direito de
acesso ao mar para a Sérvia. 12. Reco-
nhecimento da autonomia de parte da
Turquia. 13. Independência da Polônia.
14. Criação de uma entidade para ga-
rantir a diplomacia mundial.

Capítulo 1 | Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano 25


RÚSSIA: UM PAÍS DE CAMPONESES
EF09HI11 Em 1881, Karl Marx recebeu uma carta de uma jovem russa que per-
guntava se seria possível fazer a revolução socialista em um país de campo-
neses. A resposta de Marx foi curta e cautelosa. Dava a entender que cam-
poneses sem instrução talvez pudessem se rebelar e fazer a revolução. No
entanto, não tinha muita certeza…
O fato de o próprio Marx ter hesitado na sua resposta dá bem uma ideia
do desafio que seria fazer uma revolução socialista em um país ainda agrário.
Essa revolução, porém, acabou por se tornar realidade na segunda década
do século XX, em um caminho que foi pavimentado externamente pela Pri-
meira Guerra Mundial.
No início do século XX, a Rússia ainda era um país predominantemente
rural. A imensa maioria de sua população (80%) era formada por camponeses
pobres. No governo havia uma autoridade absoluta, o czar. Ele se apoiava
A imagem representa nos grandes proprietários de terra, nos funcionários públicos de elite e no
as péssimas condições Exército, que tinha como uma das tarefas principais a manutenção da ordem
de vida a que eram
interna. Não havia uma Constituição ou um parlamento que pudessem pres-
submetidos os
trabalhadores na Rússia. sionar o czar.
Um país muito distante
MUSEU ESTATAL TRETYAKOV, MOSCOU, RÚSSIA

das condições que Karl Marx


previra para a revolução que
substituiria o sistema capitalis-
ta. Para Marx, essa revolução
seria liderada pelo proletaria-
do das fábricas. Na Rússia, po-
rém, o operariado estava res-
trito basicamente às cidades
de Moscou e Petrogrado, e
o capitalismo industrial ainda
Os puxadores de barcaça do rio Volga, Ilya Yefimovich Repin. Óleo sobre tela. Museu Estatal,
São Petersburgo, Rússia. 1872. engatinhava.

BOLCHEVIQUES VERSUS MENCHEVIQUES


Vladimir Ilitch Ulianov (1870-1924), conhecido como Lênin, passou, em
1887, pela dor de ter seu irmão mais velho preso e executado por ter partici-
pado de uma conspiração para assassinar o czar Alexandre III.
A partir dali envolveu-se com atividades revolucionárias radicais que lhe
renderam a deportação para a Sibéria, onde permaneceu por cinco anos
(1895-1900).
Depois disso circulou por várias cidades europeias, travando discussões
com outros líderes socialistas e elaborando seu projeto de revolução. Para
Lênin, o proletariado jamais chegaria ao socialismo sem ajuda. Uma vanguar-
da formada por intelectuais e organizada sob a forma de um partido disci-
plinado guiaria o proletariado e o conduziria a uma vitória sobre o czarismo.

26 Capítulo 1 | A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO

26 HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor | Capítulo 1


No segundo congresso do Partido Operário Camarada Lênin limpa o lixo da Terra, Viktor N. Deni. Litografia
colorida, 1920.
Social-Democrata Russo (POSDR), realizado em

MUSEU ESTATAL, SÃO PETERBURGO, RÚSSIA


1903, a insistência de Lênin na importância do pro-
fissionalismo dos dirigentes do partido dividiu os
membros. Os seguidores de Lênin, que formavam
a maioria, passaram a chamar-se bolcheviques (em
russo, bolscinstvó, “maioria”), enquanto a oposição
era conhecida como menchevique (em russo, mens-
cinstvó, “minoria”), cujos membros viriam a ser ex-
pulsos do partido em 1912.
Os mencheviques consideravam que, diante do
atraso da Rússia e da ausência de um proletariado ur-
bano organizado, no país só seria possível uma revolu-
ção democrática e burguesa. Portanto, o proletariado
deveria unir-se à burguesia liberal e promover a derru-
bada do regime czarista. Uma vez no poder, a burgue-
sia garantiria o desenvolvimento do capitalismo e, a
partir daí, a formação de um proletariado organizado.
Para os bolcheviques, seria possível uma revolução
que pusesse fim ao czarismo a partir de uma aliança
entre proletários e camponeses. Ou seja, sem neces-
sariamente estabelecer uma composição política com
a burguesia. Lênin é representado
com uma vassoura
na mão varrendo do TÁ LIGADO ?
A REVOLUÇÃO DE 1905 planeta um padre, um
capitalista e dois reis. 13. Um país predominantemente rural com
Distante dessas discussões, em 1905, o czar Nicolau II envolveu a Rús-
a imensa maioria de sua população forma-
sia em uma catastrófica guerra contra o Japão, pelo domínio da Coreia e da
da por camponeses pobres. No governo ha-
Manchúria. Enquanto a guerra transcorria no front externo, uma manifesta- via uma autoridade absoluta, o czar. Não
ção de pacifistas pediu a retirada russa do conflito. Durante a manifestação, havia uma Constituição ou um parlamento
apesar de os pacifistas gritarem a palavra de ordem “Deus salve o czar!”, ele que pudesse pressionar o czar. O operaria-
ordenou o massacre dos manifestantes, em um episódio que ficou do estava restrito basicamente às cidades
conhecido como Domingo Sangrento. de Moscou e Petrogrado, e o capitalismo in-
TÁ LIGADO dustrial ainda engatinhava.
Em protesto contra o massacre explodiram greves, assassinatos
de autoridades, revoltas em nações submetidas pelo Império Russo, 14. Czarismo era o regime no qual havia
13. Aponte a situação da uma autoridade absoluta, o czar, que se
rebeliões camponesas e estudantis, que se multiplicavam em toda Rússia às vésperas da apoiava nos grandes proprietários de ter-
parte. Estava em curso a Revolução de 1905. A insatisfação com as Revolução de 1917. ra, nos funcionários públicos de elite e no
condições precárias levou à rebelião também os marinheiros do en- Exército, que tinha como uma das tarefas
14. Explique o que era o
couraçado Potemkin, igualmente massacrados por Nicolau II. As principais a manutenção da ordem interna.
czarismo.
greves paralisaram a economia do país. Não havia uma Constituição ou um parla-
15. Aponte quem eram os mento que pudesse pressionar o czar.
Ao final da guerra, derrotado, o czar assinou a paz nos termos
bolcheviques.
estabelecidos pelo Japão. Desmoralizado, e com o governo reduzi- 15. Os seguidores de Lênin, que formavam
do à mais completa desorganização, prometeu criar uma monarquia 16. Aponte quem eram os a maioria, passaram a chamar-se bolche-
constitucional, com um parlamento submetido ao seu poder, a Duma. mencheviques. viques (em russo, bolscinstvó, “maioria”).
Porém, quando esta começou a criticar sua atuação, Nicolau II a dis- 17. Explique o que era a 16. Se os bolcheviques eram maioria, a
solveu, voltando a adotar sua antiga política autoritária. Duma. oposição era conhecida como menchevi-
que (em russo, menscinstvó, “minoria”),
cujos membros viriam a ser expulsos do
NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa | Capítulo 1 27 partido em 1912.
17. Duma foi o Parlamento russo criado
em 1905 e submetido ao poder do czar.

Capítulo 1 | Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano 27


A REVOLUÇÃO DE FEVEREIRO DE 1917
EF09HI10 Quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, a Rússia, como os demais paí-
EF09HI11 ses, esperava um conflito breve, que lhe garantisse benefícios. No entanto,
mal equipado, seu exército sofria sucessivas e esmagadoras derrotas para os
alemães. Soldados russos desertavam em massa, enquanto os alemães avan-
çavam sobre seu território. O povo russo havia aderido à guerra com demons-
trações patrióticas, mas, em janeiro de 1917, os soldados, diante do número
Neste ponto, pode ser interessante de mortos (mais de um milhão e meio), perderam as esperanças no czar.
retomar os resultados da sondagem O caos se instalara no país: a indústria estava despreparada, as estradas
realizada na seção Jogo aberto, com o de ferro eram insuficientes e a administração encontrava-se desorganizada.
intuito de organizar e sistematizar as No fim de fevereiro, uma greve, agitações nas filas para adquirir alimentos e
respostas. manifestações de rua em Petrogrado, então capital do país, transformaram-
-se subitamente em uma movimento: a Revolução de Fevereiro, que derru-
bou Nicolau II e estabeleceu a República. Era o fim do regime czarista e da
dinastia Romanov, que governara o país durante trezentos anos (1613-1917).
Os mencheviques empenharam-se em dar uma Constituição ao país. De-
ATIVIDADE COMPLEMENTAR sejavam o avanço do capitalismo na Rússia e acreditavam na empresa privada
como fonte do progresso econômico. Buscando o apoio político e financeiro
Com base nas informações sobre a revo- das potências capitalistas, mantiveram a Rússia na guerra, frustrando boa parte
lução na Rússia, monte uma história em da população. A essa altura, quase dois milhões de soldados haviam deserta-
quadrinhos. Para isso: do e outros tantos teriam de ser desmobilizados por falta de alimentos.
a) Identifique as características das princi-
pais etapas da revolução, de 1905 até os OS SOVIETES
planos quinquenais.
Diante das dificuldades encontradas pelos mencheviques, ganharam es-
b) Represente as características sociais,
paço os sovietes – conselhos formados por operários, soldados e campone-
políticas e econômicas de cada etapa.
ses –, que eram dominados pelos bolcheviques. Lênin publicou então suas
c) Para cada etapa, defina as personagens
Teses de abril, defendendo “todo poder aos sovietes”, a nacionalização dos
principais.
bancos e da terra e a retirada russa da guerra.
d) Sua história pode ser contada em uma Em junho, uma gigantesca manifestação em Moscou, com mais de 300
ou duas páginas de uma folha em branco.
mil pessoas, exigiu a entrega do poder aos sovietes, revelando o apoio po-
e) Se você preferir elaborar a sua história pular conquistado pelos bolcheviques.
no computador, pode utilizar uma série
de aplicativos que auxiliam nessa tarefa.
Veja, por exemplo: <http://goo.gl/f2XQNL>. A REVOLUÇÃO BOLCHEVIQUE
Acesso em: 24 set. 2018.
Em outubro, Lênin chegou secretamente do exílio a Petrogrado (atual São
Resposta
Petersburgo) e traçou a estratégia a ser adotada pelas lideranças revolucioná-
Produção pessoal dos alunos.
rias. A revolução obteve um sucesso fulminante: os bolcheviques tomaram o
poder em apenas dez dias. O governo aprovou uma série de decretos revolucio-
nários: controle pelos trabalhadores de empresas com mais de cinco emprega-
dos, confisco das grandes propriedades rurais e sua distribuição a camponeses.
ATIVIDADE COMPLEMENTAR Em maio de 1918, o governo de Lênin submeteu-se ao Tratado de Brest-
-Litovsk com a Alemanha, pelo qual a Rússia entregava aos alemães a Letônia,
Os dez dias que abalaram o mundo a Lituânia, a Estônia, a Finlândia, a Polônia e a Ucrânia, sua principal base in-
dustrial e produtora de trigo, e se retirava ga guerra. Mas, no front interno, a
John Reed, um jornalista estaduniden-
se, escreveu Os dez dias que abalaram luta prosseguia: uma guerra civil opunha o Exército Vermelho, comandado por
o mundo, uma das reportagens mais fa- Leon Trotsky, ao Exército Branco, composto de contrarrevolucionários apoia-
mosas da história. O livro narra os acon- dos pelas potências estrangeiras.
tecimentos da Revolução Bolchevique.
Reed, um estrangeiro que não conhecia 28 Capítulo 1 | A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO

a língua nem os costumes do país, apai-


xonou-se pela Revolução.
Leia a seguir um trecho do livro em que
ele descreve a vida cotidiana em meio à revolução e res da pequena burguesia saíam todas as tardes 1. Esclareça os motivos de John Reed ao usar o título Os
depois faça as atividades sugeridas. para o passeio ou chá, levando consigo o minús- dez dias que abalaram o mundo para o seu livro sobre
Como sempre acontece em casos semelhan- a Revolução Russa.
culo açucareiro de ouro ou prata e um pãozinho
tes, a vida convencional e fútil da cidade seguia Resposta
escondido [...], repetindo nas conversas fúteis que
seu curso, ignorando a revolução tanto quanto O livro de John Reed é intitulado Os dez dias que abala-
faziam votos pela volta do czar [...]. A filha de um
possível. Os poetas faziam versos, mas não sobre ram o mundo em primeiro lugar por se tratar de uma re-
amigo meu chegou um dia a minha casa sufoca- portagem sobre os dez primeiros dias da Revolução de
a revolução. Os pintores realistas pintavam cenas
da com a indignação porque uma mulher, condu- Outubro. O verbo “abalaram” tanto pode ser interpreta-
históricas da Rússia medieval, mas não reprodu-
tora de bonde, a havia chamado de “camarada”. do no sentido editorial, de atrair a atenção dos leitores
ziam um só aspecto da revolução. As mocinhas e garantir boas vendas, como no sentido de a revolução
das províncias continuavam chegando à capital REED, John. Os dez dias que abalaram o mundo. São ter assustado as elites nos países capitalistas. O uso da
para aprender francês e estudar canto [...]. Mulhe- Paulo: Edições Sociais, 1978. p. 45. palavra “mundo” no título pode servir para refletir acerca

28 HISTÓRIA 9º ano | Manual do Professor | Capítulo 1


Para enfrentá-la, Lênin pôs em prática o comunismo de guerra.
TÁ LIGADO
Inspirado no modelo utilizado pela Alemanha durante a Primeira
Guerra, o líder bolchevique optou pela total centralização da pro- 18. Defina soviete. EF09HI11
dução e eliminação da economia de mercado. Toda a produção era 19. Aponte as medidas
confiscada pelo Estado em guerra. adotadas pelos
bolcheviques após a sua TÁ LIGADO ?
A TERCEIRA INTERNACIONAL chegada ao poder, em
18. Na Rússia, eram conselhos formados
1917.
por operários, soldados e camponeses.
Em 1919, em Petrogrado, lideranças comunistas de diversas
20. Explique o que foi o
partes do mundo, inspiradas pelo exemplo dos bolcheviques, fun- 19. O novo governo aprovou uma série de
comunismo de guerra. decretos revolucionários, como o contro-
davam a Terceira Internacional, organização que pretendia orientar
21. Aponte as característi- le pelos trabalhadores de empresas com
as ações revolucionárias em diversas partes do mundo. mais de cinco empregados e o confisco de
cas da Terceira Interna-
Cinco anos antes, diante do início da Primeira Guerra e do apoio cional. grandes propriedades rurais e a sua distri-
de partidos socialistas à participação de trabalhadores no conflito, buição a camponeses. Além disso, promo-
Lênin afirmara: “A Segunda Internacional está morta, vencida pelo veu a retirada da Rússia da guerra.
oportunismo”. Com o fim da guerra e a vitória bolchevique, uma nova orga- 20. Para enfrentar uma guerra interna,
nização socialista era criada, orientada pelo comunismo. Lênin pôs em prática o comunismo de
A partir de então, os integrantes da Segunda Internacional passou a ser guerra, inspirado no modelo utilizado pela
identificada com partidos de esquerda moderados, de modo geral defen- Alemanha durante a Primeira Guerra, o lí-
der bolchevique optou pela total centrali-
sores da chegada ao socialismo pela via democrática, conhecidos como so-
Cartaz de propaganda zação da produção e eliminação da eco-
ciais-democratas. do comunismo de guerra nomia de mercado. Toda a produção era
convocando a população confiscada pelo Estado em guerra.
a entregar a produção
A UNIÃO SOVIÉTICA para o Estado. 21. A Terceira Internacional foi uma orga-
nização que pretendia orientar as ações re-
Em 1921 os revolucionários saíram vitorio-

COLEÇÃO SERGO GREGORIAN, LONDRES, INGLATERRA


volucionárias em diversas partes do mundo
sos da guerra civil e assumiram a tarefa de cons- após a conquista do poder pelos bolchevi-
truir o socialismo no mundo a partir de sua pá- ques na Rússia, em 1917.
tria, denominada no ano seguinte União das
Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Na Ale-
manha, Itália, França, Inglaterra, Espanha e em Museu Virtual
diversas outras partes da Europa e da América,
Museu Estatal de História Contemporâ-
líderes operários tentariam também tomar o po-
nea da Rússia
der. Inaugurava-se uma época de intensa movi- Permite pesquisar fotos, pôsteres, tex-
mentação revolucionária. tos e reproduções de pinturas do pe-
Na URSS, os bolcheviques separaram a ríodo da Revolução Bolchevique e do
Igreja e o Estado de forma mais profunda do estabelecimento da União Soviética.
que se havia feito na Europa ocidental, durante Disponível em: <https://bit.
séculos: simplificaram o alfabeto; adotaram o ly/2DV0O6C>. Acesso em: 2
out. 2018. Em inglês.
calendário gregoriano, predominante no Oci-
dente capitalista.
Levaram para toda a população o teatro e
todas as artes, até então reservados à elite, e,
acima de tudo, eliminaram – pela expropriação,
discriminação, expulsão e execução – as elites
de burocratas, latifundiários, profissionais libe-
rais e industriais. Lembrem-se da fome!, Ivan Simalov. Litografia colorida, 1921.

NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa | Capítulo 1 29

da mundialização da economia e sobre o projeto inter- politização dos grupos sociais e das repercussões pos- 4. Por que a filha de um amigo do autor indignou-se ao
nacionalista dos marxistas. teriores aos acontecimentos presenciados. ser chamada de “camarada”?
2. As pessoas descritas no texto aceitavam a revolução? 3. Por que as mulheres da pequena burguesia deseja- Resposta
Justifique sua resposta. vam a volta do czar? Em uma sociedade em que os grupos sem privilégio ti-
Resposta Resposta nham de reverenciar as pessoas pertencentes aos gru-
Não. As pessoas descritas no texto não percebiam es- pos que desfrutavam de direitos, o fato de uma simples
O czarismo representaria a tradição, a manutenção dos
tar vivendo uma revolução. Segundo o texto, diversos condutora de bonde chamar uma moça de classe mé-
costumes. Aquelas mulheres, pelos hábitos descritos no
setores da sociedade continuavam a levar a vida nor- dia de camarada soava como um desejo de igualdade.
texto, admiravam o cotidiano das elites. Sonhavam com
malmente, como se nada estivesse acontecendo. Mui- tardes de chá, e não com uma revolução que pusesse
tas vezes a percepção da importância de certos acon- fim às diferenças de classe.
tecimentos vividos não é imediata. Depende do grau de

Capítulo 1 | Manual do Professor | HISTÓRIA 9º ano