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PUHLIC.\ÇÔES D.\ BIBLH >TEC.\ ~.

\CIO~AL

INÉDITOS

O PROCESSO
DOS TÁVORAS
.
Prefaciado e anotado por PEDRO DE AZEVEDO
t.t)SSERYA.PUR DA SECÇÁU DE )IANli5CRI1·os DA BIBLIOI"t:CA. t-ôA.CIOSA.L

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LISBOA
TlP. D.-\ BIHI.IOTECA :'1/ACIO:'IIAL
1~:11
,
PREFACJO •

1. O processo original; cópias e partes falsificadas dn original.-


o rm~esso original da conjumção ~hamada dos Távm·as cn~on­
tranl-sc cm 27 d\! Abril de 1767 cm poder do escrivão da Suprcn.1a
Junta do .Juito da ln\:ontidencia . .lnsc Ant1>nio de Oliveira .\\achado,
que nessa data mandou tirar ccrtidücs de todos os intcrrogatôrios
relati' os aos jcsmt<ls, c de outras peças existentes nCic para o pro-
curador da Coroa.
Estas ~crtidôcs foram l'Xtra.ída~ por Ck·mcntc lsidnro 13randão,
otici.·l da secretaria de Estado, dos prnprios autos c publi~dda"
cm 176R na Dedução Clmmologica.
E' pronhd que já neste tempo o .\lari..1ucs de Pombal guardasse
l'm casa o pro~esso, por\.]Uc depois da saída dele d0 ministerio, em
,·irtudc da sindicànóa ús secretarias de estado deu-se u por falta de
quantidade de documentos públicos muitos dos quais se diúam es-
tan:m entre os papeis particulares do ministro. Senhor absoluto da
administração. fazia cm sua casa o verdadeiro archi,·o do reino.
Faltavam os processos do conselho de E:-.tado rclati,os aos infantes
de PalhaYã I! a tantos fidalgos encan.:crados- ta h ez nunca se cs~rc­
,·cssem - ; o dos Távoras c duque de .-h·eiro, guardados por ele
cm logar secreto, alegava. com medo que deles se apoderassem .os
jcsuitas.•> (1)
F cita a restituição em 1777 (2), tirou-se uma certidão completa
do pro~csso cm 1 784.

11) Lúcio de \ze,·edo, {J .\lm·que;_ de Pombal e .1 sua époc.:z. 1909,


P· .po.
• 21 "~l··moria c re Ilação dos papeis, que tenho mandado á real Pre-
sença da Ra,·nha ~linha Senhora, para os fazer pôr em s_!.!gura .:ustodi3.
pelo Ex. mo e ne, .m" Bispo de Pcnafid seu confessor.
Fm sahhadn 1. do (orrente 'lez de 'lar~o de 1777·
0
'

-.
Terminado êsse trabalho, naturalmente Yoltaria o processo para
a secretaria do Estado, onde se encontraria ainda hoje, a não dar-se o
episódio da destruição, que o autor ( 1) dos Processos celebres do lv/ar-
que~ de Pombal, pt~blicados em 1882, assim conta: <~A este respeito
ouYimos o seguinte a pessoa que .YÍYia o meado seculo: O contra-

Sentença Original da surrema Junta da Inconfidencia e Autos tão bem


uiginaes do Execrando Attentado de 3 de setembro de- 17S8, com todos os
seus Appensos, e Provas nos mesmos Originaes.
No mesmo dia I. 0
Assentos do Conselho êle Estado, e papeis originaes, pertencentes; á
temeraria sedição machinada pelos Jesuítas, pelo nuncio Acciauoli, e pelo
Conde de Merle embaixador de França, com que corromperam o espírito
dos Senhores Dom Antonio, e Dom Joseph; e á Reclusão dos ditos Senho·
res no Deserto de Bussaco. ·
Na segunda Feira 3.
Entreguei tudo o aue pertencia á outra sedição, com que os mesmos
Jesuítas, corrompendo o" Commissario dos Terceiros de S. Domingos, e as
Pre1adas do reformado mosteiro do Sacramento, situ no Bairro da Pampu·
lha, levantaram hum a seita, e procuraram concitar hum horroroso :\latim, que
na noite de 24 de 1\larço de 17ÕS não deixaria, nem Pessoa alguma Yiva.
nem pedra sobre pedra, no Palacio de Sua :\lagestade, nas cazas dos seus
Ministros, e em todas as outras da cidade de Lisboa, que attacasse um
Povo enganado, e enfurecido pelo Fanatismo; representada a funestissima
tragedia de outro horroroso Motim, que no ano de 1So6 recebeo da Egreja
do mesmo convento de São Domingos de Lisboa: E executando assim os
referidos Jesuítas da Cidade de I .is boa o mesmo identico e diabolico Plano
que na noite de Domingo de Ramos do ano proximo seguinte, foram exe-
cutar na corte de Madrid: nmdo que tinha transpirado a malvadez e sacrí-
lega sedição, com que tinham determinado assassinar Quinta feira de En·
doenças toda a Real Família de Hespanha, no tempo em que fosse;: ,·isita-r
as Igrejas.» Etc. ·
Pombalina, cod. 6g5, fi. 35.
(1) O autor é Brito Aranha. Pg. 36.
movimento da re,·olução de 1820 entrara no paço tão osten-
sivamente, que todos sabiam que a rainha D. Carlota Joaquina,
influindo no animQ de seu marido, el-rci D. João Yl. preparava
desde muito os elementos para agradar á nobreza. e sobresair
(Om dia n'uma conspiração cm que contavam com a abdicação do
soberano. Julga-se que le,·ado por essa influencia. um dia D. João VI
chamou o R1inistro da justiça. que era José da Silva Carvalho, e
lhe dissera mui particularmente que mandasse procurar e lhe trou-
~esse o processo original da fallada conspiração dos Távoras.
~ilva Carvalho apresentou effecti,·amente a sua magestade o dito
processo, e, logo que D. João YI o recebeu, mandou vir um bra-
teiro, e sendo testemunha o ministro redutiu a ciP-tas todos os pa-
pets ... ,,
A perda do original do processo ~ a todos os respeitos para
lamentar.
Felizmente cm virtude da revisão do processo e para seu pró-
prio uso, a comissão da Suprema Junta da Inconfidência resolvera.
~orno já fica referido. na conferência de 7 de Janeiro de 178-t, que se
rizesse um traslado autêntico. Este traslado guardou-se no Paço real
até 191 1 ou 191 2, em cuja data transitou para a secção de manus-
aitos da Biblioteca ::'\acional. onde tem o n. 0 9161.
A aaeditar n-o autor anónimo dos citados P1·ocessos celebres, pa-
rcLC que temos a esperança de ainda aparecer uma segunda cópia
'"to processo original desastradamente destruído por D. João VI.
Ouçàmo-lo; - ·
.. Pcrder-sc-hia este processo. como cllc então existiria? Parece
..1uc não. O fallccido Antonio Joaquim ~loreira. empregado bene-
merito da .\Lademie real das sciencias, tão (onhccido e apreciado
por suas investiga~ões historicas, tinha antes podido tirar peça por
peça uma coria. a qual foi, no leilão de seus liHo~ e papeis, ven-
dida ao conde de Lavradio. ministro plenipotenciario em Londres
e Roma, onde se finou. Ignoramos a que mãos foi parar esta copia.
:\a relação dos mss. pertencentes áquellc diplomata. Yendidos cm
18í 5 por c6nta do Banco de Portugal, f.lão a Ycmos com tudo lá in-
cluída.»
Do único traslado autentico do. processo tirou-se uma c<lpia
particular guardada no Ministério da Justiça, que' cio a ser ( 1) fonk
das informações rclati,·as ao atentado. de que se utilizaram o ro-
mancista Campos Junior e o académico Lúcio de Azevedo. Encon-
tra-se como o apógrafo da Casa Hcal na secção dos mss. da Biblio-
teca Nacional com a cota gooS e tem o ·seguinte título: ~<Copia ti~
rada por ordem do Senhor Ministro c Secretario do Estado do:-.
i\egocios Ecclesiasticos e de Justiça. Julio :'\1arques_dc Yilhena, de
um lino pertencente a Sua ~lajestadc El Rei o Senhor Dom Lui7
Primeiro, .. n Constitui um grosso Yolume encadernado, de 28S pá-
ginas, escrito em papel azul do Prado.
Foi consultada a primeira Yez pelo romancista António de
Campos Junior, para o romance Jlarque:;_ de Pombal. Em nota
descreve-a, crendo que o apógrafo, que se conscrYaYa na Casa
Real, era o processo original. da seguinte forma: <<-:'\o archiYo do
ministerio da justiça existe encadernado Um YOlumoso livro manus- .
cripto, que tem este titulo: Traslado autentico do processo crime
que tem por objecto o execrando insulto da Í1!{mtsla noite de .J de
setembro de 17S8. O original existia, ao que parece, no archiYo
da Casa Real. O processo encerrou-se com 38í meias folhas.
Sendo ministro da justiça. o sr. conselheiro Julio de Vilhena obtcYc

(I) Júlio Dantas, in-.hz.Ús das Bibl .. e .h·quiros, II. p. I3I: Antonio
Ferrão, Os .ll·quivos e Ribliotec.1s em Porfll.!f•11, 1920, p. 222.
permissão de el-r~i D. Luiz para mandar tirar o traslado autên-
ti~o a que nos referimos, e que. nos foi dado ler e examinar dc-
moradamente naqucllc ministcrio. graças a uma insigne fineza do
primoroso esaitor e illustrc academico sr. conselheiro Sih·cira da
.\lotta. director geral d'aquclla secretaria de estado. Poucas pes-
soas terão ,·isto ó primitivo processo ~ão o viu o sr. Simão Jose
da Luz Soriano, como se dcprchende de um trecho de paginas 366,
do tomo I da sua· Historia do reinado de el-rei D. Jose. Quando a
sua obra se publicou ainda não estava feito o traslado que nos foi
da~..ln con:mltar." ( 1)
O traslado ·autentico não supre o original desaparecido. O
.\larquês de Alorna. uma das vítimas do reinado Josefino, no re-
querimento aprcsl.!ntado ao prín~ipc Regente, assevera «que está o
pro~csso original cheio de letras di,·crsas, c nenc se vê que. assim
.\linistros de Estado. como ministros da Justiça; foram naquclle pro-
~esso, ora Presidentes. ora Juizes. ora Escri,·ães. c ora varias des-
tas coisi.ls ao mesmo tempo. n
:\o mesmo requerimento estü escritO" .. ouvindo a um destes ul-
timos o Scactario de Estado Presidente, que tambem a sua ,-ida
tinha estado cm perigo, poz no processo uma nota marginal desta
noticia. c a poucos passos apparcceu com um depoimento da sua
propria letra. tirado em sua casa a um denunciante, que sen·ia para
regular um novo intcrrogatorio. feit-o d'ahi por diante a tantos pre-
tendidos reos, que então se mandaram tratear. n (2l

pI Tom. II. F'· 13~, da ediçãu de 1~101.


12 I )larques de .\'i la e de Rol ama. A .\lm·.:;ue{a de .lloru,t, Lisboa,
1~16, p. '-P· H~.!nriqves Seco . .\lemori,ts. ~~~o. p. 31)".!. conjectura que o
processo fosse truncado.
(2) ld. P· I3g.
O autor do Tratado apologetico. publicado em 1867. a
p. 146 escreveu: << .1\ão sabem já muitos que destes mesmos ·au-
tos e da mesma sentença se arrancaram algumas folhas e se me-
teram outras? :\ão existe ainda uma grande parte d'aquelles in-
nocentes que· naquelle tempo, sendo perguntados pelo ministro
se queixaram depois que lhe tinham falsificado as suas respos-
tas?>> ·
Estas irregularidades não se podem estudar no traslado au-
têntico, onde figura como escrivão dos autos o desembargador Oli-
"\ eira Machado.
Mas ao passo que na cópia desaparect:m vestígios das irregu-
laridades subjectiYas, surgem nesta mesma êrros, que nos fa.zem ter
pouca te nela e mo.stram a leviandade com que foi feita. apesar de o
pequeno rol das salvas tender a mostrar o contrário ..
São os nomes .dos meses e o~ números as irregularidades
que nos saltam mais à vista, as quais·prova,·clmente não existiam
nos autos originais. Assim, nas páginas g3, g; e 1 I 1 lê-se setem-
bro em logar de janeiro e dezembro; e a pgs. IOj e qo falta a
menção do mês. A pg. I 20 acham-se· "segundas perguntas» cm
logar de terceiras; e a pg. 1 24 dá-se ao cabo de esquadra Brás
José Romeiro a idade de vinte anos, quando devia ter idade mais
aYançada.
Estes êrros, ainda que pequenos, fazem mais uma vez deplorar a
perda dos autos originais, para por eles se poder avaliar com a má-
xima precisão a boa fé dos interrogantes.

:t. Manuscritos e outros mommzentos para a história do atelltado.


-São numerosos os trabalhos, que se escreveram por motivo da
sentença de I3 de Janeiro ou ·ocasionados por ela, o que pro,·a
quanto a e>..ecução dos conjurados apaixonou em todos os tempo~
•' púhlko portugues t 1), havendo alguns dele:. já sofrido o prdu,
mas a maior parte jaz manuscrita ou talvez perdida para sempre.
U mais notável é por certo a Se11/ença da revista com:edida ás
casas de Tal'Ora e Atouguia, impressa em 1 8o8 na impressão imp$!-
rial c real de Lisboa. Esta sentença é datada de 23 de .Maio de 1791 e
dela se passou certidão em 20 de Agôsto de 1 79 1, com declaração de
não ter ate ent<i.o tido execução. Alem de não ter surtido efeito, só na
cpoca do governo intruso francês ela póde ser publicada (2). ..
Em 1 ~39, publicou ,-on Olters um trabalho intitulado Uber
.ien JfnrdJh'rsuclz gegen de11 K. Jusc:plz, etc. fundado sôbrc o pro-
~esso revisorio rRevisiunsacten), que julgava inedito, e de que tinha
cópia entre os papeis de um procurador da coroa da época de·
D. Jose.
Ao 'larques de Alorna se deve a curiosa notícia das prisões da

( 1) Em Inglaterra publicaram-se estes dois: A.11 autlzenlick from .\b·. Hu-


f,hes a Geut/enz.w ,·esi.:ling at Lisbon, to lzis Londou; coutainiug seN1"<tl
czwisous Jnd iute,·estin!{ Parlzcul.trs in Rel.tlwu to tlze [,tte Conspi,·a•:r
.tg..tillst tlze King of Ptwlug.tl; witlz a cir·cumstautia/ .m.:l ..t.ffectÍ1lf!.. Accozmt
of llze Belzaviour of lhe principal Co11spir·ators .tt tlze P/,tce ol Executiou,
Jvlw su{lers .ti Lisbo11, Londun, 17S~l. tti pp.; .l Full. c/e,u·, and Authorised
accomzt ol tlze late L"011spir.tcy l1l Po,·tu[!:al; lhe lwrrid Attempt upou tlze
L~le oj lzis Mos/ FJitlzeJitl .\!Jjes~,-; tlze re..tl .\lmmer of discoJ-•erÍil!{ tlze
Plot ... lu a /ett.>t· ji·om ~ .\liuister ol StJ/e iu Porlup:J/, tu 1/ze Euvo_•· u.f
..t For·eigu Court iu l:"ugl.w.:l, London, 17:.~1; em França: R.:puuse au .lésuite
.lutem· de la Letln! a a sujet de l.t düow•e,·te .ie /.t cm~jur.tlion fonllée .:ou-
Ire /e Roi de Portugal (z;- VII- 17:.9)· Em italianu .\"OJ•e/le iute,·ess.mti i11
proposito .iegli .:zj/~tri de/ Porto~al/o, e .fe/l',tltelll.tlo commesso .i Ire Set-
temb,·e. t~6o, 1, tres \"olumes.
ttl { muito notá\·el e digna de ponderação a ..:ritica que l.atinu Cuc-
lhu tez a esta sentença na Histori.t poliliút, tum. I.
Junqueira, de que há numerosas ~ópias e que em I 857 e r 882 fc1
publicar o P.e Amado.
Em I 867 imprimiu-se cm Lisboa o Tratado apologetico da Í11-
1WCt!llcia dos jesuítas 110 attentado de .3 de setembro de 1 iS 8 coutra a
sagrada pessor:z e preciosa JJida do jidelissimo rei o sr. Dom José Pri-
meiro ou demonstração da calumniadora sentença de 12 de janeiro
~~~- -

~um liHo que intitulou A Afarque1a d~ Aloma, a p. I35, publi-


cou o Marquês de A 'Til a e de Bolama cm I 9 I 6 o rcqucrime1ito apr_c-
sentado pelo .Marquês de Alorna, o preso da Junqueira, cm que re-
sume a análise das injustiças e perversidades que se prati.caram no
denominado processo dos Távoras, deduzida do exame dos mesmos
amos. Para a revisão do primitivo processo apresentou o .\lar-
quês noventa e tantas testemunhas. Tornam êste livro valioso os
documentos publicados, quanto ao mais a falta de metodo e ~om-
plcta. '
De grande importància e a publicação tambem feita em I 9 I 6,
em Pontevedra, das .JL!nwrias da ultima Condessa de Atouguia, pelo
P.e Valerio Cordeiro, e que são precedidas de uma bela introdução.
Em catálogos de livrarias postas ú venda encontram-se alguns
manuscritos relativos ao processo.
Assim a p. ro do catálogo de lnnocêncio, "datado de I877,
acham-se Papeis rela!iJios á conspiração de r í58 (algumas mimtlas
emendadas pela mão do marquês de Pombal) e outros documentos que
parece terem-lhe pertencido, maço com 33 peças.
:'\o catálogo dos Marqueses de Castclo--'1clhor, de Is,~. a P-
24, encontra-se o .Afan!fc:slo da imwcencia dos jesuítas portugueses na
causa da Sll1>'POSta COI?iuração e a!/entado contra o Fidelliss. Rei e Sr.
D. Ju_sé I. Exlrahido da mesma seutença em que foram declarados
cumplices daquelle delicio. Dedicado aos mesmos jui1es por um ano-
'!..'mo uo auo de '1/!J . .\ls. in tol. de 1 ~ 1 folhas. Doi!'!> e~emplare!\.
E' prován:l que seja o Tratado apnlogctiLo, impresso cm 1867.
~o mesmo ~atálogo c pag. encontra-se um trabalho do P." fi-
móteo ~.te Oliveira in~itulado: Apologia da Companhia dt.• Jesus fie:
Portugal e seus domiuios na qual se c.·ucoJllra Cl'laentemente a sua iu-
nocenâa. e se com•encc:m e se fal.em 1•er. com os olhos c tocar com as
mãos as inumeraJ'<.'IS inl'ectil'as~ falsidades e calumuias com que 11este
. . . .
remo se maqw_1wu a sua ruma.
~o Ca."a!ogue d'unc: col!ectiou. de li1•res rares e/ de manuscripls
preci~·ux. impresso cm Lisboa no ano de 188J. a p. 7, tigura a Con-
trariedade feila ,w rape!. ou libello intitulado: «A mentira man!festa
por si mesma. ou alhllis.: d.1 sell/ença prf?_{eri'da em r 2 de ja11eiro de
r;ig ... contra o duque de A.1•eiro e maisfidal{{os etc.)), obra de um
ex-.Jesuita desterrado. inimigo jurado e capital da J'erdade contestada
por doutos e tâo irre_{i"tlf:ilJ'es documelllo..; e IIUJilliiiU'ntns. Obra de /wm
portuguc1. honrado. amigo da z•erdade, e derno aboua.tor das sempre
illustres e immortaes acçoem e nobres .t~·itos do Augusto Senhor Re_1·
Dom Jose Primeiro. e de seu !{rande primeiro e sem segundo Jiiuistro
de Estado Jlarquej de Pombal. ln:f"o/. -
~o mesmo Cah1/ogue, p. I..J., c:-- tá um nh. Je .\1 anud Jose :-\a- '
turnino Lom Embargos contra " causa dos parric.·1~ias do Senhor Rey
D. Jose I. e contra os embargos que ne/la ft:i o Dr . .João Pereira Ra-
mos de Ai,eJ•edo Coutinho. ln ti)l.
.\ p. 1 ~o do catülo~o da liHaria Jo LonJc de linharc:--, publi-
Lado cm I8g5. mcnciona,·a-sc uma L<'~pia feita por .\. L Caminha
Ja Represeuh1ção .fimdada em direito qt.e á Rainha ~Y. 5i. D. ~llaria I
fe; V. Jlartiulw Jlascanwhas derois de stlir da prisão que tolerou por
causa do insulto em que entrou Jeu ra_1~ o Duque dt.• Areiro. '"'· in-
-J-.0 Je 162 fts .
.\ fi. 184 Jo mc~mo catálogo estão os Documentos relatiJ•os ao
prvcessv dos .lifarqueses de Tavora~ Duque de Aveiro, e libellos contra
v ..l:farqtte{ de Pombal 17S8 a 1 iii· Sentença de rehabilitaçáo; copia
authentica do requerimento de D. J.l:lartinho de .VIascarenhas, do ori-
ginal apresentado á Rainlw.D. J:laria I. que deu motivo a ser dester-
rado da corte.''
Na livraria do Àlarques de Valada, confqrme consta d9 catá-
logo publicado cm I 8g6 c a p. 208, guardava-se ((A ...VIentira mani-
festa por si mesma. ou analyse da sentença proferida em 12 de janeiro
contra o duque de A.1•eiro e mais fidalgos ~1s. in-fol. de fis. 272
!\a loja de um alfarrabista encontrava-se à venda em certa
ocasião um processo judicial de grande valor para o estudo da epoca
pombalina. provavelmente datado de 17S9 e que eram os Autos da ·
de1•aça de inCOI!fidencia que sem limitação de tempo nem de numero
de testemunhas foi S . ..l:f. servido pm· seu real decreto mandar tirar. ( 1)
Apesar de ter a apan!ncia de apócrifo, não se deve deixar de.
mencionar a carta de um ministro de Estado de Portugal ao enviado
de uma côrte estrangeira em Inglaterra, traduzida do original portu--
guês, que se encontra em A full. Clear, anà Authorised Accmmt qf
• the late couspiracy in Portugal. publicada em Londres cm I 7Sg. Como
êsse ministro de Estado usava Dom, a nenhum dos tres que regiam
Portugal caberia a autoria da carta senão a D. Luís da Cunha (2).
~-

-
( 1) Dr. Silva Can alho, Jledicos e cur.w.leiros, 1~1'7' p. 11Õ.
(2) Para futuras averiguações, pois é possivel que haja alguma cousa
aproreitá\ el, transcrevem-se \'árias páginas da pretendida .:ana. na parte
qm: Jiz respeito ao descobrimento da conjuração:
.. ~ly lntelligencers, bcfore tht: :.\liddle of October. wcre able to direct
our Pursl!it aJ.ter the objeas t.lf Justice. Th~) uni,·crsally agreed that, .t~erc
was an A1r ot \h·sten·, and, at the same T1mc. a concealed .Jov \·ery YISible
in thc Familics u.l -'las.:arenhas and Tavora; that they frequenily held ~Ice-
O pro~csso, "lllc se publica agora não ~ontem pt!~as alt!m de
~crta cpo(a. no entanto n sr. Lúóo de AzeYcdo diz que em 26 de

tings together and rhat Elcanor de Tavura úsited Joseph .\lascarenha:.


perpetually. Th.is Reconciliatiun bctween twu Houscs who, though so nc-
arly allied. I was sensible. burc the must biner H atred tu one another. still
enereased. my Susp~cions, that from that Sour.::e, the ~ation had been SIJ
shamdully injurcd in the Attempt upon the Life of its nursing Father. Thc
Air of ~lystery Joseph :\lascarenhas put on, bis Assiduit) ar Court, which
was extraordinary, bis frequent and particular Enquiries after the Hcahh
of bis :\lajest\", conrirmed me in this Belief- ..
· "-\t thc "Beginning of :\ovembcr, we gained almust a positi\ e Proof ui
what we suspected. One :\liguei Sen eira, a Glover of Lisbon, and who had
some Obligatiuns to me, came late at :\ight to my Huusc, and, at bis pres-
:-.ing Desire, was introduced to me. He therc, aher cxpressing his Sorrow
at thc Accidcnt that had happened to our SO\·ereign, said, that. hearing his
.\lajesty was wounded by B:underbusses, he had no Rest tor some ""ceks
within himself, because of a Circumstan..::c that he belieH·J might tcnd tu
rhe Discoverv of thc Authors of that Insult.
• H e added. tremblingly, that une Anthony -\h·arez Ferreira, whum hc
knew to be a desperatc and bold Ruffian, hat borrowed a Blundcrbuss uf
him on thc 3oth Day of August, which he rcturned him again on the ~th
of September, and that whcn he brought it home, he madc {"se of these
Expressions. I tlwnl..- )'Oil for tlus Faz_•ow·- I h.td better- Spm·t JVith it th.w
t•z_•er· I h.ui ;, ll!J" Life. 5truck with this, I asked him, whcre the said An-
thony had mosth· been scen since that time. and had fur answer. that fie II'.J.S
smmi eh .llthe Ditke uf. h•eU"o"s th.:tt he im.tp.iue.i he w.1s t.1ken inio /tis Sen•ice.
You will acknowledge, my Lord, that this beamed Com-iction, almost
uf the Turpitude of :\lascarenhas: Howewr, I shewed no Emotions befur~
my lntormant, contenting myself with giving him a Sum of .\lont=y, and or-
dering him to be in the wa\". whenc\·er) sem for him. Some Da,·s afterward.
une of my Spies intormed me, that in a little Hcdgc TaYern; the Persons
who kept it being bis Relations, he fell into Company with one Russolier,
a Frenchman. who. he und~:rstuod taught Fencing at Count Cniacrs.
Janeiro toram interrogados tres moços Ja cavalariça do Duque, que
não o haviam sido anteriormente à execução dos pretensos reus e
----------.
and talking uf the late Attempt upon the King. the log:Uaciuus Frenchman • I

said, amongst other Things: Iam sure, ~l it could be p1·m•ed, that his Jl.:t-
jesly had been jh·ed at JJ'it-h Pistols, I should suspect a fhend of mine, one
Fe1Tei1·a. 71'110 borroJJ'ed a B1·ace of me, out /.he Day be.fu,·e lhe .lccident, in
()l·de1· tu IIT them, and ,-eturned them n•ith a fi·il·olous Exwse, IJVO DaJ·s
.:tfterlJ'.lrds; tlwugh I knom lh'=-r n•ou/d stand Proof :.\Iy ;\lan enquired pãr-
ticulary who this Ferreira was, and I found, by his Account, that hc was
the sa111e Person, that had, abotit the s·ame Time also borrowcd a Blunder-
buss, and putting these Circumstances togethcr. I could not help concluding
that this Anthom· Ah·arcz Ferreira, was one of the .\ssassins. Howe\·er, I
kept ali this to myself, and unly made use of the Precaution of secw·ing the
Persons of Rossolier and :.\liguei Seneira, in the most pri\'atc :.\Ianner, who
I kept dose at m~ Country H ouse, under a Guard of my Sen ants, for fear
they might through their Indiscretion, sa~ more than I wíshed at .present
the\· shoold ...
· "ln order thcrcfore to procure better and more unexceptionable E,-j_
Jence, I formed a Plan, which was this. As I knew :.\lascarenhas and Ta\·o-
,·as were pusse!>scd of many Friends in ;he Brazils and the East-lndies, I
made no doubt but thcy would, by the first opportunity, let these Friends
lmow what had bcen transa..:ted in Portugal. and as no \"esse) would sai I
for two :.\lunths to uur Settlements; upun the Gu\·ernmerl}J{" Account, I got
Pedro .\lcndui'a. Captain of the Brig. Seust1·a Seultor.1 1L Uuda, who was
to be dcpcnded upun, to petition the Secretaries uf State, for lca\'e to makc:
a \·oy.q~e to the Coasts of .Brazil, upon the Business of making some new
Oi:-.co\·crics. I imagined by this Opportunity, the (~onspirators would cndca-
\ uur tu send Leners. and it happened to turn out according to my Expe-
..:tations. :\lendota, as soem as thc I iberty was ~ranted, and his Destination
madc: publid\, had large Packcts sent him from );umbcrs of Hands. and
sct. sail the R~ginning of :'1\?Yember. I ga,·c him lnstructions, sealed up,
wluch hc was not to open. nll he carne to the Azures, when hc was there-
by directc:d to deli\·er ali his Lettcrs and Pa.:kets to Don Julian de ~lcllo,
que cm 'larço o fôra o holiciro do 'larquc::-. Luiz de Tánlra . .\ntónio
Jnsê ( 1) •
.-\ il:onogratia cstü menos mal rcprc:-.entada .. \ c~ccução d11s
rcu::-. foi objcLto de uma publicação conll'mpnrc.'tnca. que foi reprodu-
zida por Pontes .-\taidc c .-\t.c,·cdo na A Administração. eh.:., t8 ..p:
por Camilo. no Perfil do marqués de Pombal. 18~:!; _por Correia de
Barros nos .1/tos feitos do marquc.;s de Pombal; c ainda cm 17S9 no
mencionado A.ccmmt.
Os retratos dos "ar'-lucscs de Tánlra c de .\!urna tilram pu-
blicados nas ohras de Camiro c do .\\arques de Axila e de Bolam:.L
'uma Yida do .\\arques de PombaL ms. datado de 1 H10. dcsaito
a p. 15 do Catalogue. jú mencionado, cncontrantm-sc os retratos de
D. Leonor de Tá'"'1ra 1_a lápis, copiados por .\lr. Gerard do original.
que possüia o '\arques de .-\lorna scnior), Jos~ .\laria de Tánlra.
Luis Bernardo de T<hora. Jerónimo de .-\taide tCondc de .\touguial,
Francisco de Assis de T<h·ora c José 'lascarcnhàs tDth.JUC de .-\Ycirn·L
Para o estudo do atentado de 17:íR c tambcm indispensán:l a

thc King's Commissarv at thosc J:...lanJ, who after inspe.::ting them, and kcc
ping su.::h as he founJ it nc.::essary to keep. was to re-ddiHr him thc rcsl:
with whi.::h he was to procecd on his Yoyage to thc Bra7ils, carrying some
.\d\ices from the King of grcat lmportancc. This was ali trans<Kted as l
would haYe it, Don Julian, by his \lajesty's Fri~atc, thc .\n:hangel, in thrce
weeks Time, rcrurned me twcntv-tl\e I .etters, \\Trinen by :\\alagrida and :\lar-
tos two Jesuits; by :\las.::arenl-ias. by Elcanor de Ta\·ora, b\- Francis and
Lewis de Ta,ora and others, plainly a\·owing the late horrid .\.:tion, with
Threats of future Yengean.::e, in .::omplction of their accursed Design, and fil-
lcd with .\lenaces and Calumnics against the .\dministra.::tion ".
Pg. 8S de .I Fu/1, C/ em·, .md Autlwrise.{ . k.:mmt r!l de f..tlt• omspi-
, .•tly ;, Porluf(.:tl. London, •;S9.
1 1., f J .\lm·que;. ;/e Pumb.tl e .t st~<l epo«t, p. "!."!.i.
...

~om.ulta de mapas ou plantas das freguesias da Ajuda e Belem


naquele tempo. .
Seria tambem de grande ~onveniência saber-se em face dos
rois das desobrigas, qual seria a criadagem das casas detidas por
motivo da conspiração ou, como então se dizia, da família,.mas essa
tarefa é inútil fazê-la, em virtude da destruição qêsses valiosos có-
dices da freguesia da Ajuda. ( 1)
.-\ casa·do Duque de Aveiro, segundo o processo, compunha-se
de (apelão, estribeiro (cavaleiro da ordem de Cristo), secretário.
guarda-roupa. porteiro, moços de acompanhar, moço da copa, sota-
(avalariça. bolieiros, (OCheiro, moço da casa dos arreios, moço da
estrebaria, moço da cavalariça. Do pessoal feminino apenas nos c
(cmscn·ado o nome da moça da câmara das filhas do duque.
Das dos \1arqueses de Távora e Condes de Atouguia é muito me-
nor o rol, dc,·endo nbsen·ar-sc que o escudeiro da Nlarquesa D. Te-
resa era ca,·aleiro de Cristo. A Condessa de Atouguia, na autobio-
grafia (p. -t3i, diz que a família de sua casa compunha-se de 40
pessoas ·
Emquanto os fidalgos 121 eram rc(olhiJos nas prisões do Estado,

1 1 I .lctualmellle .:un~ervam-~c em bum es tadu us róis das freguesias da


Encarnação, S. Catarina. S. Isabel, S. Engrácia, ~lártires, )lerces e San-
tos, c estáo muito danificados ou perdidos os da Ajuda, Sacramento. Santa
.Justa, S. ~lan-iedc c S. Paulo. Em uma destas ultimas. esses li\Tos desa-
pare.:eram por ocasião das obras na respe.:ti\"a igr~ja. _
l~l ·~moço :\largues de GoU\"t:U, sem qualquer culpa no atcntadu, \e-
gctou miscr<n elmente na Junqueira 18 anos. Em 17:,0 Bento António ofere-
ceu a êste filho do Duque de Aniro um folheto de 18 pag. intitulado .Alde.1
11.1 Corte e .\"nites de l"er.fo. Cf. Dr. Hi.:ardo Jorge, Rer. da Cnil•. de
Coimbra. VII. P· ;3. Este Bento António figura no processo, ao que
L ra-
reçe.
principalmente nos cárceres da Quinta do \1eio, a~ senhoras e as
crianças eram conduzidas aos mosteiros, onde seria possível encon-
trar-se alguma nnth::ia da obscura vida '-}UC elas a1 passaram; ~c
um incêndio recente na Secretaria de Finanças do distrito de lis- ....
hoa não tivesse liquidado de uma vcl para sempre os rcspcctin>s
cartórios.

3. As proJ•as ocultas do processo. -Fr. Cláudio da Conceição, no


tomo XIY do Gabinete Histórico. publicado em 182g, a pg. 6, dá a
lista dos ministros que procederam ás prisóes c dos militares que O!'>
coadjm·aram. Foram eles os desembargadores José António de Oli-
veira \lachado, João Inácio Dantas Pereira, .\ntóni;) Alves da Cunha
e Araujo, Jose de Seabra da Silva, Eusébio Ta,:ares de Sequeira.
\gostinho de ~ovais c Campos. Esthão Pedro de Can·alho, c Joa-
quim de Oliveira Rrandão c n corregedor Jose Amaro Ja Cunha c
La~oas.
Os oticiais militares que os acompanharam toram o capitão de
dragóes João \lanuel da Costa \loreira. o coronel \lanuel Pereira
de \latos, o tenente coronel Baltasar Júcome do Lago, o brigadeiro
Henrique Garcez Palha de Almeida, o sargento-mor de ca,·alaria
Domingos Correia, o capitão de cavalaria Jose \liguei, o brigadeiro
Jose Leite de Sousa, o capitão Baltasar \lanuel Pereira do Lago c
o tenente coronel \lanucl de Bastos. (r)
Alguns dêstes desembargadores tizcra.m parte da Junta da
InconfidênLia, que condenou os rcus c para a qual foram nomeado~
em -l de Janeiro de 1759, conforme consta do processo adiante pu-

1 1 1 Luz Soriano reprudut esta lista na Hist .•iu ri!Íil.1do de I J• .lusl!.


sem indicar a fome.
blicado. a p. 8: O autor· da Dedução, p. I, diY. XV publicada em
1 7ó8, nüo pode ser ma i:-. anuh-cl com os juizes da referida Junta
a quem chama doutos. sabios. prw•t!ctos c graduados se11adores. Do
dcscmbargad<>r Pedro Gonça!Ycs Cordeiro Pereira diz que era um
mini:-.trn de ucuja ~raduacüo, authoridade, distincta literatura, exem-
plar probidade, c con:-.umada expcricncia lhe tinha estabelecido uma
eximia reputa~ão no conceito uni,·ersal desta Corte, c Rcyno.>> A
e:-.tc. dc:-.embar~adnr nomeado jui7 da inconfidcncia e como ta1 re-
lator do processo foram adjuntos "ministros muito distinctos por
letras c ,-irtudes de todos os Tribunacs Supl'finrcs da sua corte. n
Assim respondia o ~larquês de Pombal às criticas que chm·iam
de t•Jdo~ os· lados a respeito das incongruências notadas na sen-
tença CCJndcnatr>ria. alegando que no processo banam intcn·indo
os mini~trns de justiça mais altamente colocados, instrüidos e inde-
pendentes do reino c que se tinham mantido todas as formalidades
do Direito.
Porem, esses juizes tiYcram de assinar um termo cm 9 de Ja-
neiro, cm Yirtudc do qual dc,·iam «obserYar a respeito dellc todo o
mais im·iola ,-eJ e mdindrozo segredo em tudo o que não hom·er
de ser escrito ao fim de se parti c i par aos R c os c seus procurado-
res>> por ser uimportantissimo immcdiatamcnte á Real Pessoa do
mesmo Senhor, c seu Rcgio Estado." ( 1)
O referido termo explica as palanas que põe na boca do de-
:-.embargador Nlarques Bacalhau, tah·cz um dos poucos magistrados.
qqc fizeram tímidas obseryaçõcs ao processo, o n·atado aptJlogetico.
p. 17 ( 2·1, a propósito da sentença: ,, porque o ministro presidente

fI) Pg. 9· .
(2 l O autur dê~ te trabalho não conhecia <> proce:-.so e por isso em mlll~
lo'- lugares combate a sentença sem ter fundamento.
dissera que tudo o que nella se continha, esta,:a provado, e purifi-
cado de toda a duvida; e que Sua ~lagestade tinha na sua mão as
provas convincentes, que não admitiam excepção."
Estas palavras estão em flagrante contradição na parte essen ..
cial com o que ~c diz na tradução portuguesa de uma obra publi-
cada em 1 786: "E' notorio que alguns mcmhros daquelle tribunal
não quiLerãn proferir a sentença, senão depois de um maduro exame
do delicto: podemos citar para prm·a João .\I arques Bacalhao. » ( 1)
Apesar de todo o recato, é possínl descortinar nas primeiras
prcguntas feitas no processo ao Duque de Axciro o ti..mdamento que
El-Rei tinha para crer na culpabilidade do seu mordomo-mór (2),
pois o próprio Duque confirmou nelas que falara com a real amante
D. Teresa de Távora no dia seguinte ao do atentado, do qual êle
houvera notícia na manhã seguinte em sua casa transmitida pelo
bolieiro da ~Iarquesa. Este passo do Duque foi do conhecimento de
D. José, ou melhor oo futuro Conde de Oeiras, e só a .\Iarquesa esta-
ria em situação de lho revelar, como tudo o mais que se passava na
intimidade dos Tá,·ora~.
Estes c o Duque de .-\veiro aproveitariam a amizade da pa-
renta com El-'~ei para alcançar as vantagens que desejavam, a que
por certo Sebastião de Can·alho se opunha, não vendo nela lucros
para a sua pessoa. com o que fácilmente cresceriam recriminaçóes
dos parentes, a~ \.1uaes a .\larquesa confiava a El-Rei. De todos os
Tá,·oras a pessoa que mais inftüiria no ànimo de D. Teresa seria a
mãe, a .\Iarquesa D. Leonor, e por ela no proc.edimento real, pondo
.assim reias à administração que depois se chamaria pombalina.

( 11 Pontes .\taidt· e Azevedl•, .l .dministr.lção etc.. II, p. 1 ·~·


(2•Pg .• s3.
2
r'\ão temos proYa:-. de qw.: ~\1alagrida, qual otllro profeta de
Israel, censurasse em público ou em particular o duplo adultério de
El-Rei e da Marquesa, mas é muito para aaeditar que êle pro(u-
rasse demoYer a Marquesa moça de tal situação, atendendo a ser
director espiritual da Marquesa velha e da Condessa de Atou-
guia ( 1).
Na autobiografia, que hoje corre impressa desta senhora, não se
faL nenhuma alusão ú favorita do rei D. José, apenas a :\1arquesa
':elha, na ocasião de ser presa, pede á Condessa, que avise suas ir-
mãs c cunhada da Yiolência.
El-Rei na sua neurastenia julgou que o atentado partira daqui;
se não foi o próprio Sebastião de Can·alho que lhe sugeriu a idéa,
para inutilizar de vez a modesta rivaL .
_ Foi com estas ténues provas em·oh·idas nos silogismos do se-
cretário de Estado, que o chamado tribunal teve de julgar em pou-
cas horas as vidas de onze pessoas, anteven~ os juizes a prisão
perpétua ou perenes mercês régias, conforme desobedecessem ou
obedecessem às insinuações do chefe de Estado. E' muito possínl
que as provas convincentes, que ~l-Rei tinha em seu poder (ontra

( 1) Como intrigas da côrte de\·em ser consideradas as relações do rei


D. José com a Duquesa de Aveiro, mencionadas por Camilo, no Pe1jil.
p. 219. Outro tanto o que vem na Réponse au Jesuite, p. 8o: cd,es motifs
de la prétendue conjuratiun,' qui a causé tant de troubles dans le Portugal.
unt pris leur source du trop de penchant que le Rui aYuit pris pour la ieune
filie de cet illustre infortuné, le Duc d'AYeiro. On sair que la nrtueuse·
Demoiselle ne pouvant pas se voir libre des sollirations emprcssées du Rui,
avoit été obligée d'en faire part a ses Parcnts; il est tres-cunstant l)Ue
son Pere. jaluux de son honneur & de la réputation de sa filie, avoit pro~
jétté. de l'envoyer en France, & que Ie passionné J\lonarque ne le \'Oulut
)amars.•>
os T âYoras, deYam ser antes entendidas por motivos que o soberano,
inftuen~iado pelo secretário de Estado, tinha para quebrar as rela-
ções t:om essa família.
Ulteriormente à morte do rei D. José, os al.h ogados dos con-
denados c a pr{,pria sentença de rc,·ista cncarecl:m as cautelas com
que os decretos mandam formar o processo c que segundo êlcs não
f(>ram mantidas na c:xecução do mesmo. E~sc encarecimento, po-
rem, não passa de pretexto para separar as responsabilidades de
El-Rei c de Seba::.tiãn de Can·alho c os inimi~os deste poderem a
~aiYo àtacar o ministro sem comprometer a memória de D. Jose,
nem a dignidade judicial.
Em seguida à queda de Pombal apareceram outras proYas
lll_·ultas, mas estas já não para uso dos magistrados, mas do público.
Em 1786 publicou-se uma obra em quatro volumes intitulada
L 'admim"stration de Scbastim-Joseph de Can•a/lw et Jlélo, e logo no
2. vol. a pag. 1 5o se diz que um portugues ao scn·iço do ministro
0

fôra encarregado da leitura dos papeis cn~ontrados cm casa dos


criminosos, o que tez dcst:obrir grande numero de ~ulpados de que
não havia noticia c que ha,·iam escapado ao rigor das leis. E' no
entanto lícito du,·idar que a leitura dêsses papeis fosse deixada para
tão tarde durando o processo um mês. O anónimo, que segundo al-
guns, c o cnYiado Desoteux ( 1 ), transcren!u os seguintes trechos de
cartas dirigidas ao Duque de .-\ veiro: «d'ai lu le plan que Yotrc
E:xccllencc m'a en,·oyé sur la grande affaire, ii est bicn concer-
te; s'il est e:xccuté comme ii est projetté, je le ~egarde comme imman-
quable_,,
(( rapprouve \"Otrc desse iri. Dans retat actuei dcs choses, ii n ·y

til lno~en~io. IJiL". V, p. :!~'7·


a point d'autre parti a prendre. Pour aneantir I'autorité du Roi
Sebastien, ii faut détruire celle du Roi Joseph.''
,, E~cellence! si vous a vez besoin d'un Acteur dans la ptece
nouvelle, je vous offre mes services: je suis excellent pour Ie grand
tragique: je meurs d'envie de jouer Ie rôle de Brutus: mettez-moi
donc aux prises avec César.»
A conjuração era contra toda a verosimilhança tão pública que
algucm escreveu ao duque cartas onde se continham os seguintes
avisos: '' Prenez-garde au tigre & au lion; si vous tombez dans la
fosse, ils vous dévoreront. »
<de crains bien que votre conseil ne soittrop nombreux: lors-
que quinze personnes sont du secret, ii cesse d'en être un. Dan~ ces
occasions, ii suffit de trois têtes dans un bonnet. ,,
Esta correspondência só prova o que já se sabia da culpabili-
dade do Duque, mas tem todo o aspecto de falsificada, como é evi-
dentemente o seguinte bilhete pretendido anónimo: «.Je donnc avisa
Votre Excellence, qu'on vient d'arrêter un de ses domestiques; j'ignorc
s'il aura parlé; mais tout ce que je sais, c'est qu'il n 'a plus paru. » E'
evidente que, estando o criado preso, não podia mais aparecer! ;\e-
nhum dos servidores do Duque interrogados no processo se pode
identificar com êste detido antes do amo.
Em casa do Marquês de Távora, pai, foram encontradas apenas
duas cartas, em que se acham êstes trechos comprometedores para o
destinatário: "La tranquiiiité de cct homme m'etfraie; ii paroit
n'avoir aucune inquiétude sur cc qui vient de se passer. Je le con-
nois assez pour être persuadé qu'il se prépare a une ,·engeancc bar-
bare. Prenez vous mesures là-dessus, & arrangez-nms en consé-
quencc. Jc sais bien qu'il ne vous reste qu'un parti extrême; mais
de tous les spectacles, ii faut evitcr le plus infàmc. •>
<de ,·ous préviens que j'ai des avis certains que l'Argus de la
Cour a tout lu. tout vu, tout su, con~ernant la grande atlaire. Je
vous conseille donc de ,-ous adresscr à Dicu; ~ar du côté des hom-
mes. je crois qu 'il n ·y a plus de ressource. n •
De facto, sendo voz corrente em todo o reino que os Tá,·oras
tinham sido autores do atentado, não teria sido impossiYcl que al-
guem, no longo espaço de tres meses de boatos, aYisasse o chefe da
~asa disso, mesmo sem acreditar na culpabilidade dele, ao contrá-
rio do que mostram os autores das cartas.
Oesoteux pregunta: "Quelle est dnnc la ~a use de ~dte scn!rite
qui porta cc ~linistrc à faire arrctcr tant de Grands?,, e a seguir
diz ccest-iJ temps de déchirer la \"OÍle qui la COUHC, pour Ja fairc
passer à la posteritc."
Assim os signatários destas cartas ~onfidentes dos segredos dn
Estado, apesar de se denunciarem, quer por a~onsclharem o Du'-lue
à prática do crime. quer por prevenirem o .\larquês do descobri-
mento da conjuração, não consta terem sido incomodados.
As tontes legitimamente portuguesas ignoram a existência da!>
cartas c dão outras <:xplicaçóes, nuns casos; e noutros são os pro-
prios interrogatórios do de Aveiro, agora publicados, '-Iuc mostram
donde partiu a indicação do nome do cunhado imaginada pelo ter-
ror, ao que parece.
Em todo o caso, se estas cartas fossem autênticas, nenhuma ou-
tra prova seria precisa para ~.:rermos na criminalidade dos dois fi-
dalgos. principalmente o Duque. c no ~onhecimcnto prévio da ~on ·
juração pelos signatarios.

-1-- Os jesuitas e os Tál'Oras.-~ão ha indicio de que qualquer je-


suíta intcn·iesse na ~onjuração e muito menos a Companhia de Jesus.
c só o Duque de Aveiro nos ultimos interrogatórios acusa alguns pa-
dres de lhe sugerirem a idea do assassinato de El-Rei. cm ,-irtudc
Jc êste protelar o ~asamcnto da filha com_ o depois O. Pedro III. Se
era êste o desejo dos padres, de El-Rei c do proprio Sebastião
José, não se percebe para que os primeiros ocultassem o breYe de
dispensa no cubículo do fale~ido Carhone (t) c os segundos não im-
petrassem noYo brcYe, Yisto ser o desaparecimento do diploma pon-
tifício o único óhice à desejada união. O autor da Dedução pretende
'-}UC os jesuítas enganassem o Duque neste ponto, cmKeito que não
exdui a probabilidade de pretender o autor daquela ohra por sua
Yez enganar o púhlico com êsse pretexto.
As testemunhas declaram unicamente que o Duque e os jesuí-
tas se YisitaYam, sem que logrem con,·encer-nos, de que se realizas-
sem as Yisitas do Duque em colégios da Companhia, mas nenhuma
delas sahe dizer o objecto das conversas. E' LUrioso que as notkias
das entreYistas são ohtidas pelo tormento e com a obsen·ação que ó
Duque recomenda,·a à criadagem segredo nestas relações.
O autor do Tratadu apulugetico l2) dá uma explicação rlausín=l
Jas 'isitas dos padres ao Duque, o qual como Presidente do Dcsem-
hargo do Paço tinha mais ou menos o dcYcr de atende-los, principal-
mente ao p~dre procurador, como a criadagem confessou no potro. •
Llm padre da Comp~nhia atirma cm carta transcrita no pro-
cesso, que o Duque tora sempre inimigo deles l3). Este passo não foi
aproYeitado; pelo contrário uma notícia encontrada cm outra tem
a honra de tigurar na Dedução Chrunolugica. A notícia reza assim:
"Enganei a Vossa ReYerencia no correyo passado com huma noticia
hoa, porque sahio para nós muito m1.\, nenhum resultado houq~ da
parte que se deo a doze deste: A treze de manhã se prenderão etc. 11

t 1) Dedução C/wonolop,ica. Parte 2. Di'. X\·.


(2) Pg. 58.
r3) Pg. 65.
O autor da Dedurão pretende que a noticia má t(lra a das pri-
~ões, mas não nos reYcla qual seria a notkia boa, que se não ,-cri-
ticou c '-}UC constaria de uma carta, que nos não toi transmitida.
Grama_ticalmente a notkia da prisão é independente da notícia hoa
~o]lle Sal li I11Ü.
Se pelo lado do Du ..1ue de A' ciro se não pode mostrar a cum-
plicidade dos jesuitas no atentado; pelo lado da ~larquesa de Tá-
,·ora, apesar de toda a dialéctica dos desembargadores c dos secrc-
túrios de Estado, a cumpliódadc fica indeterminada .
.-\ corrcspondcnôa de .\lalagrida encontrada cm ~..:"asa das suas di-
rigida:-. nunca foi publicada, o que não obsta a que o autor da Repunse.
p. 32, diga: «da "arquisc de TaYora, par ses conseils & par lcs cxhor-
tations pathC:tiqucs COntcnues dans lcs lcttrcs qu'cllc ~11 rcCCYOit, per-
:-.uadoit ú sa famille de se mettrc sous la dircction de cc Jesuitc. n
.\s memórias da Cóndessa de .\touguia recentemente publica-
das proporcionam ao historiador uma dara ,.i:\ão das relações de
"alagrida com a .\larqucsa mãe c com esta sua rilha, apesar de
que elas são cYidentcmcntc redigidas no propósito de responderem
ao que dela se diLia na sentença.
'\esta:-. a Condessa rcdama para si a parte principal na:. rela-
ções com o padre ~lalagrida, ticando cm plano subalterno a ~lar ..1ucsa
de Tá,·ora ( 1 ). '\unca se tentaYa, segundo essa s~:nhora, quer no confis-
sionário, quer na-; instruções, senão do aperfeiçoamento da alma. De

t 1 1 \ estas duas senlpras JUnt;wa-sc a .\larquesa de Angcja na dirc


.;ãu espiritual de :\bla~rida, aquela mesma a .:asa de quem El-Rci se ti,j
tratar depois du atentado! Em 1 76o, puhli.:ou-sc l.'m l.uganu um upus.:ulu
de 120 pag. .:om o seguinte titulo: CUI!/t'7"c.'1l"l·l spil-ilu.zle 11·.1 ii .\/. R. P.
Gabn.ele .\lal.lf!l"i.-i.t Gesuit.t. e .\l.z.i.wt.t la .\/.z,-du·s.t D. Ffe,mm-.1 de 7:t-
,.,,.a.

notável nas memória::. é tambcm a insistência do padre cm pro~urar


quem pudesse avisar El-Rei do risco que corria a sua vida, o que
se sabia já por outras fontes. Para isto não era preciso ser visioná-
rio, pois a soma de interess~s feridos durante os oito anos do rei-
nado de D.José bradaYam bastante alto. Já em 17 de Agosto de 17Sh
havia sido criado o tribunal da Inconfidt?:ncia, por causa das amea-
ças contra a Yida dos ministros, e dois anos depois mais elas subi-
- riam em número e cm grau da pessoa em foco.
:\"ão é preciso ir em Portugal muito longe nem muito atrá~
para encontrar situação semelhante.
O desenlace violento que andava no espírito da população é
explicado por Pombal do seguinte modo: "ht1m dos estratagemas.
de que sempre usou nos casos semelhante!'. a dita Companhia cha-
mada de Jesus, foi o de fazer passar como mysteriosas, e anticipa-
das predicções as noticias dos insultos, c dos assassinatos, que o seu
Governo tinha determinado; não só para assim prepararem os po-
vos,e lhes fazerem menor a estranheza, que he inseparavel de tão
horrorosos atentados etc.,, (I) ·
A· fórça de construções lógicas, Pombal encontrou como man-
datário do atentado de I 3 de Setembro de 1 7S8 o geral da Compa-
nhia, posto não encontre uma prova, por mínima que seja, para o
acusar.
l\lalagrida não escapou, porém, ao suplício, ainda que por ou-
tro delito, mas tendo sempre o mesmo -acusador, o pn",prio Sebastião
José, que o denunciou ao Santo Oficio (2).
A Marquesa de Távora já tora antes assassinada sem prm as,
sem ser om ida, nem mesmo defendida. pois o advogado mais tratou

p) Dedução, Parte I, divisão XV, § 8g8.


12)Jordão de Freitas, O JU,n·que'{_ de Pomb.1/ e •l inquisiçãu.
de alegar '-]U~ dia era inocente dos crimes praticados pelo marido,
do que dos que se lhe assaca,·am.
O ódio ou rc~eio _que ha,·ia contra essa senhora nuJKa nos sera
revelado.
O :\larqucs de Tánlra c seus filhos seguiram a sorte do Duque
de .-\ vciro por tomarem parte cm cmhoscadas c em conciliábulos
yue eles des(onheceram.

;. O atentado.- A noite de 3 de Setembro de '7;~ foi a seguinte


a da lua nm·a 1_ 1) c apesar da escuridão reinante, que obrigou a fa-
zer-se acompanhar o Duque de .-\seiro de um archote na saída do
Paço real, algumas cousas nessa noite sc declararam que exigiam
luz abundante para se obsen·arcm .
.\o ~ontrá"'o do que diz a sentença na fe do cocheiro e da con-
fissão do próprio Duque, não e verosímil que êste tivesse ah·ejado u
tiro o condutor da sege real, facto que a dar-se teria sido ú>mhinadn
previamente (Om os criminosos, para cYitar a surpresa destes ao
<?li' ir a detonação inesperada. As ní.ria:o, emhoscadas e a mobiliat-
çáo de ca,·alos são contada~ pelas testemunhas com tal imprecisão .
..1ue as tornam muito dll\·idosas .
.-\ pretendid~ reunião nocturna no jardim do Duque depoi~ do
atentado deve ter por fonte a criada Mariana, que ali viu o amo (Om
o guarda-roupa. Dois criados do Duque (pags. 83 c y:~) quási es-
pontaneamente confessaram que a ouYiram referir-se à entrevista.
como declarou o namorado Durão e não como ela ~onfessou no úl-
timo interrogatório. Este pormenor precisava de acarca~ão. mas a

- (I) Dia,.io Edesiastico para q5b.


celeridade com que o processo correu impediu esta pnn-a essencial,
como em todos os outros casos.
O percurso que El-Rei tomou ainda não estú devidamente ave-
. riguado; cm todo o caso, para abreviar caminho, seguiu pelf> inte-
rior da quinta indo desembocar na calçada do Gaivão e esquina da
travessa do Guarda .\lor da Saudc, prova,·elmcntc a que hoje se
chama travessa do Pátio das Vacas. O sitio do atentado foi cele-
brizado pela igreja que a piedade de O. Jose ali tez le,·antar e onde
figurava como eX-J 1otn um braço de madeira atra,·essado por duas
balas.
O negúcio que o k~vava a sair do palácio Ja Ajuda nunca foi
,·entilado, mas é prova,·el que a criadagem da ~Iarqucsa Teresa de
TáYora o soubesse a primor, pois no dia seguinte bem cedo já um
criado dessa senhora comunicava o atentado ans da casa de. Avei-
ro. O segrêdo que os Angejas conüdentcs de El-Rci guardaram não
o cumpriram os familiares da régia favorita.
Em contrárin do que consta ainda hoje c de que se tizcram eco
os oticios das embaixadas c a pn"1pria Ga1.eta de Lisboa. a notícia
do atentado c os nomes dos pretensos mandatários tornaram-se logo
pasto da pública fama c voz. O Tratado apologetico (p. 8o) diz:
"Hom·e quem ~n-eriguou na Ribeira, entre as quatro c cinco horas
da manhã do dia 4 de setembro, se começou a fallar nisto entre
os que a taes horas concorrem naquclle Jogar, que, como todos sa-
bem, não são os mais curiosos de nm·idades, nem os mais ins-
truidos nas circunstancias. E' de notar que ás mesmas horas, por
ser então maré, partiam os barcos para a .\loita, para Aldea __Gal-
lega, para Santarem, e para outras pa'rtes. Eu sei, qi.te aos cinco deu
esta noticia em Beja um Franciscano chamado Fr. José dos Santos
o qual affirmara a ouvira na Hibeira ao embarcar para a .\loita_,,
<> con...-eito Jo aut( 'r do Tratado de que foi o próprio Pombal
'-lue a manJara Jiniigar não den~ ter fundamento.<) público, sahendo
das rdaçôes de El-Rci com a ~larquesa e d-as circumstàncias em que
o atentado se dera, apontou lop;o a família dos T~horas como man-
datária do caso, tornando-a mais cheia de pundonor, do que real<-
mente seria. () Duque de .-\ Yeiro também se agarrou a c:-. ta tábua
de sah·a~ão c as testemunhas eram do mesmo parecer. El-Rei man-
dando proceder a essas prisões quási não fez mais do_ que obedecer
ú imposi~ão da opinião pública e ao desejo intimo do futuro conde
de Oeiras, assim recompensado, ape~ar de o não dilct- o respccti' o
diploma, comei denunciante do·s reus do atentado.
• O mandato de prisão Ja .\larqucsa de Tá,·ora que se puhlica
;.l\.liante no b1dice crmwlngico iói Ja,-raJo deixando o espa~o cm
branco para a data. a qual sll fói prcenLhida em g, o que se reco-
nhe..:e pela diferença Je cor da tinta. r· curioso que a Condessa de
.-\ touguia diga nu Autobiog-rafia '-}Ue a .\I arquesa sc"1 fôra transpor-
tada para o Grilo em q. pelo Dr. ~làrque:-. Bacalhau. cm oposi~ão ú
urp;ência imposta pelo rcteriJo mandato.
"\enhum dos presos por motin1 do atentado ti)i posto cm li-
herdade, :-.cnão por morte ou pela morte de EI-Rci.
~a\:lemos pela prnpria Condessa de :\touguia ~ 1) que ainJa o

111 Dom Luis de .-\taide. filho da Condessa • ..:omo seu primo o "al"ljUês
de .\!orna, fale..:ido em 1 ~ 12 em Küniw,berg, entrou ao sen·iço de França •
.:ontr·a a pütria e ..:ontra os ingleses ..\ r e\ olução anti-britani.:a de 1 ~:!o per-
doou aos trünsfugas, que a morte havia poupado, mas ll. LUis nllJKa per-
doou a .:asa de Bragança o martírio dos parentes. Cf. .José L.iberato Freire
de Can·alho, .\lemori.ts. ,s:;:;, p. 94: "~<i o posso deixar de men..:ionar ou-
tro homem notanl que alli en..:ontrei, e que dcs.:endente da mais alta fidal-
guia da nossa terra, era um tristíssimo exemplo da degradação a que podl"
.:hcgar a espe.:ic humana, de.:ahida do cxplendor Ja grandeza. c mergulhada
Conde não fôra (;ondenado e já os desembargadores estaYam pro\:c-
dendo â Yenda do recheio da casa. De,·ia ser grande a sofreguidão
das autoridades!
A· mesma sofreguidão se deYe que a sentença da revista não
tiYesse sido posta cm execução, apesar de serem postos em liber-
dade Os sobreYiYcntes da chamada conjuração.
Os bens immobiliários das trcs grandes \:asas ha,·iam sido
adscritos a outros pretendentes c êstes não rcstitüiriam de boa mente
o que julgaYam definitiYamente seu. O próprio procurador da Coroa,
que se opôs a execução da sentença de rcYisão, não' fica ilibado de
qualquer suspeita. A influência da administração pombalina conti-
nuou mesmo depois da queda do autor c ainda hoje a glorificação
do '-larquês e um credo político, em alguns pontos justificada.

6. Descrição do códice.- O códice que ofereceu o processo que


se publica agora tem as dimensões o"',359X0 ,225. A encadernação
10

de carneira. com ornamentações e letras dourarias na lombada.


é solida.
A tinta de óleo encontra-se no rosto o monograma DC sobre-
pujado da coroa real, o que quer dizer Rei Dum Carlos.

no lodaçal da mi seria e despreso. Fui D. Luiz de A ta ide, ri lho c neto dessas


familias desgraçadas. a quem o ine~uravel grande :\Iarquez de Pombal sa-
crificou sobre o horroroso altar do poder absoluto: e de quem até preten-
deo riscar os numes de sobre a superricie da terra~ Era filho do Conde de
Atouguia, e neto do :\larquez de Tavora. Em n~rdade, era digno de ser
obsen ado por quem podesse bem a\·aliar o que são, e podem ser os desti-
nos do animal chamado homem~ Quem o ,·ia, e não sabia quem era, só o
po~ia ter _por um bai~o ~ s?rdido moço_ de ca,·alhariça. ~a sua figura e seu
tra,e trazia tudas as ms1gmas das IUaldiçóes humanas: e nas suas pala\ ras
O título da lombada com as abrcYiaturas dcsem·olvidas e o
seguinte:
TRASL.\DO .\l:Tf-JE:'\TICO DO PROCESSO CRI:\11:\IAI ,'
~l T TE:\ I POR OR IECTO O EXECRA 'IDO I~Sl"L TO 0.\ 1:'\FAl"ST A :\01 TE
DE 3 DE SETEMBRO DE 17S8

O códice tem 2~2 tolhas rubriLadas por ~lcndanha c no final


contém as assinaturas dos desembargadores.
A esaita é de duas mãos: a primeira acaba ao meio da fi.
109 v. e a segunda Yai até finaL O enLerramento é do punho de
\lendanha Benc,·idcs Cirne.
As emendas não são raras, bem como os digos. que foram
suprimidos na publicação. O concêrto com o original, aresar da
declaração final, parcLc ter sido feito com leYiandadc.
A leitura não oferece difiLtlldadcs; só não foi possi,-cl ,-criticar-
a leitura certa, nas folhas 1 1S Y. e 28o, de duas palavras.
Os trechos em latim csta,·am de tal forma estropiados que tiYc-
ram de ser emendados em face dos respectiYos trabalhos impressos.
A ortografia é a usual dos fins do seL. xvm e cm geral parece
indicar a Yulgar do sul de PortugaL Assim o· s inten·ocálico é uni-

não havia senão rancor e odio; e e:.se rancor e odio tão profundos e inve-
terados, quantos eram os annos desde que pôde conhecer as suas miserias .
.\ quem lhe fali asse na Casa de Bragan.;a, respondia com rugidos de leão:
parecia que lhe salta,·am os olhos pela cara fóra, estimulados pela rai,·a, e
só socega,·a depois que desafogava o coração ukerado com imprecações hPr-
ri,eis. Para elle só ::'\apoleão era o rei legitimo de Portugal. e tal era a af-
feição que lhe tinha, que haYendo, não sei por..JU~ artes, ganhddo uma grand~
porção de dinheiro, a ti>i entregar a :'\lassena, assim qu~ entrou em Purtu-
!!al. Este lha aceitou. e ag•·adeceo. declarando-lhe ao mesmo tempo. que ella
tormcmentc rcprcs'entado pelo 1:; c os ss e o ç confundem-se frcqüen-
tcs yczcs. Para os termos menos Úsados e grafias especiais, Yeja-se
o respcctiYo Yocabulário.
A ortografia c na sua maior parte a pontua~ão foram conser-
Yadas na presente obra.
O estilo da sentença (c tambem de todo o processo) é caracten-
zado do seguinte modo a pg. 16 do Tratado apologetico: '' ... dureza
de estilo c muitas yczcs de grammatica; ... concurso de palavras,
aspero c Yiolcnto; modos de explicar desusados e escuros; vozes,
'-lue ainda sabida a sua significação, não se sabe o que alli signifi-
cam; transiçócs cm que o discurso não só salta, mas se precipita;
embaraços c confusões de ideias impenetraveis; declamaçóes per-
petuas; conclusões inconcxas; e muitas vezes oppostas ás permis-
sas; inYCrisimilhanças e hypcrboles monstruosas, supposições inad-
missiYeis, contradicções palpaYeis, c sobretudo, o que se póde ter por
seu especial caracter a audacia de dar por verdades notorias, o que
são calumnias manifestas; por proYas conninYcntes as inepcias mais
futcis. e as iIlações mais ridículas por demonstraçóes gcometricas."

7· Co11clusqo.-A publicação do processo Yulgarmcntechamado


dos Távoras .não Ycm esclarecer o mistério da noite de 3 de Se-
tembro de 17 58 c a respectiva conjuração, esclarece apenas a sen-

lhe seria restituida cm Paris. :-.c para là fus::-c. CCJnsta-me, que alli ..:um etfeito
a recebera. e depois lambem a IIi ..:asàra . .\las como casou~ Constou-me tam-
bem que alli Yasculcjara as ultimas fezes da sociedade para encontrar uma
mulher que fosse digna delle. e que a achara~ Reduzido na sua terra <i in-
fima sorte de um Pâ1·ia .ia I11dia, qui7 no seu mesmo aviltamento \·er se po-
dia tambem aditar. como elle dizia, algumas gota!' de sangue que lhe circulas-
sam no corpo. c fossem dessas que animavam a Familia Real Porn1gueza !»
'

tcnça de 1:! de Janeiro de 17S9 no~ pontos mais ou meno~ (r!th.:a,·ei~


e obs(uros qw.: nela se (ontinham.
E' possiYcl no entanto que (0111 um trabalho persistente de ai-
ti(a c com o emprego de nm·os s_ubs!djos se l.icsYcndcm alguns Jos
tit(torcs do drama. que influi dcsfayora,·clmcntc na a~m.!(iação do
trabalho administratiYo de Pombal. aprc(iaçõcs que todaYia dcnm
hcar independentes de qualquer sentimento.
Em seguida ao texto do( tra~lado autênti(o do pro(csso seguem-se
~ ~

os seguintes indiccs. '


'I. Indi(e aonoló~i(o dos do(umcntos c intcrro~atórios do pro-
cesso c de outras peças, que, apesar de não Yirem nele, são de Yalor
para êste ~studo.
Sendo curtas essas peças nío reproduzidas.
II. Indice alfabéti(o de pessoas e Je terras, mcn(ionadas no
texto, com esclarcómentos obtidos cm diYcrsos lugares, os quai~
nem sempre concordam uns com os outros, quando prcwcm de fon-
tes impressas.
III. Lista do pessoal da casa dos tidalgos presos.
I\". \"ocabulário dos termos menos n1l~ares, c de ortografia
especial. • ·
*
O processo dos Táyoras é o primeiro ,·olume dos Iueditos da
RibliotecaSacional, e a importância, que êle tem, justifica plenamente
a escolha.que se fez para o início dessa scrie. ( >portunamcnte se dan1
a lista dos mss. dêssc cstabele(imento que já sofreram a impressão.
o que se não faz agora por (ausa das pesquisas demoradas que
ela exige.

PFDRO DE AzEYEilo.

TRASL ..-\D() l)OS .AUTOS SEGUI~TES

~IIL SETECENTOS SI~COENT.A E OITO

COW\IISS.\0 D.\ SU'RE:\1.\ Jl-NT.\ DA 1:'\CO:"\FIDE::"'CIA

Autuação dos Decretos de Sua :.\lagestadc, c para se


fazerem as diligencias, c averi&uaçoens deste sacrilego caLo,
e appenços ao diante junhls. '
Rubrico, c numero este processo comn na conferencia
de homem sete de Janeiro de mil c setecentos e oitenta e
quatro se rczoh·co. de que f~tço no seu principio este termo, c
no fim outro de Enserramento, os quais escrevo, e assigno
por ser o Escrivão que ~ua :.\lagcstaJe se dignou de nomear
para a revista do mesmo. l.isbua oito de Janeiro de mil c
setecentos, e oitenta, e quatro= Henri4ue Jw·é de :.\lcndanha
Bena,·ides Cime.
~liL SETECE~TOS Sl~COE~T.\ E OITO

Sl"PRE~l.\ C<):\DIISS5.o

Autua.;ão dos Dc(:retns de Sua ~lagestade, c Edital.

.\nno do ~,1scimento de ~osso Senhor Jezus Clu·istu de mil c sete-


centos e sincocnta c oito annos, aos non~ dias do mcz de Dezembro do dito
anno neste Pala.::io de ~ussa Senhora da Ajuda, n,t caza em que pre7entc-
mentc se tem o despa.:hn das Secretarias de Estado, estando prczentcs os
lllustrissimus. c Excellentissimos Sccretarios de Estado Sebastião .Jozé de
Can·alho c :\lello. Dom Lui1 da Cunlu, Thomé Juaquim da Costa Corte
Real, o Duutur Pl.!dro Gunsah·cs. Cordeiro Pereira, Dezembargador du
Pa.;o, ·Juiz da ln.::onfidcn.::ia, .::omigo Jozé Antonio de Oliveira ·~Ia.::hado,
Dezembargador da Ca1.a da. Supplicaçãu, e nomeado por Sua .\lagestade no
seu Real De.::retu para escre\·er nesta dili~en.::ia .::om toda a fé publica, pelo
dito Ju ·z da In.::ontiden.::ia me forãu entregues os Decretos de Sua ~lages­
tade, e o Edital, para que tudo autuasse, o que tl/, e ao diante se segue, e
Eu José Antonio de Olh·eira :\lachadu, que o escre\·y.

DECRETO
'
Pela experiencia, e satisfação que tenho do zelo fidelidade, e prestimu
.:um que me tem ser\' ido o Doutor Pedro Gunsah es Cordeiro Pl.!reira do
meu conselho, Dczcmbargador do Paço. Deputado da :\leza da Cons.::icn-
.::=a. c Ch,mceller da Caza da Supplicação: Hey por bem nomea-lo Juiz da
In.::onfidencia com todas as honras, distinções, pro\·entos, jurisdição, c al-
çada, com que o dito Lugar fui exerc'tado pelos ~linistros que athé agora o
o.:cuparãu: Para que pro.::csse, e julgue todas as .::auzas pertencentes á
mesma In.::unlidcn.:ia cm conferencias particulares com os Adjuntos que Eu
.
lhe nomear: E ordeno a todos os ~linistros, Officiais de Justiça. Fazenda,
-
4

Guerra, Auxiliares, e ordenansas, que em tudo, e por tudo cumprão, e au-


"\Íiiem os Mandados, e cartas do sobredito Juiz da lnconfidencia, e as dili-
gencias nelles, e nellas determinadas, e declaradas: ~a certeza de que não
cumprindo exactamente tudo o referido [o que delles não esperoJ ou tendo
qualquer negligencia culpavd; ficarão responsaveis na minha Real, e Imme-
dwta Prezença. Belem a noYe de Dezembro de mil setecentos e sincoenta e
oito.= cc Com a rubrica de Sua l\lagestade. = Registado.

CLTJ\IPRBIEI\TO

Cumpra-se e se registe nas partes donde tocar. Belem nove de De-


zembro de mil setecentos sincoenta e oito.= Cordeiro.

:\liL SETECEI\TOS SINCOENTA E OITO

SUPREMA COMMISSÃO

Autuação rara se fazereni. as diligencias e averiguaçoens na fórma do


Decreto de Sua 1\lagestade, que ao diante se segue:

Anno do Nascimento" de Nosso Senhor Jczus Christo de mil setecen-


tos, sincoenta e oito annos, aos nove dias do mez de Dezembro do dito anno,
neste Palacio de Nossa Senhora da Ajuda, e caza em que prezentemente se
faL o despacho das Secretarias de Estado em prezença dos Illustrissimos,
e Excellentissimos Secretarias de Estado Sebastião Jozé de Can·alho e l\lello,
Dum Luiz da Cunha, e Thomé Joaquim da Costa Corte Real, e o Doutor
Pedro Gonsah·es Cordeiro Pereira, Dezembargador do Paço e Juiz da ln-
confidencia, se mandou fazer este auto para se vir no conhecimento das Pes-
soas, que commetterão o Exacrando ddicto de trez de setembro do dito
anno, ou que para elle derão conselho, ajuda, ou favor, ou o não declarão
antes delle comettido, ou depois delle perpetrado, e para se prenderem as
Pessoas, que se achassem indiciadas, e concurrerão para o mesmo insulto.
E ordenarão se fizesse corpo de delicto na carruajem, e vestido do mesmo
Senhor. E de tudo mandaram fazer este auto de averiguação, e diligencias,
que comigo. assignarão, e Eu José Antonio de Oliveira .l\lachadu, que o es-
crevy, e ass1gney.

DECRETO

O Doutor Pedro Gonsalves Cordeiro Pereira do meu Conselho, e


Dezembargador do Paço, Deputado da :\leza da Consciencia, e Ordens, e
Chanceller da Caza da Supplicaçáo, a quem tenho nomeado Jui;r da lncon-
fidencia, proceda logo a todas as informaçoens, diligencias, perguntas, e
exames, que necessarios fur<>m para se descobrirem, prenderem, e castiga-
rem os Réus do sacrílego, e execrando insulto, que na noite de trez de
Setembro pro~imo passado, se cumetteo contra a :\linha Real Pessoa na
fórma declarada no Decreto, e Edital da mesma data deste, que baixando
com ellc assignado por Sebastião JoLé de Carvalho e :\lcllo do meu conse-
lho, c Seaetariu de Estado dos :\cgucius Jo Hcinu, ll:ni tanto credito como
o ml·smu original. E para que n ~eral escandalu quc se se~uiu do mesmo
insulto, \cnha a cessar- pela cx~cução de hum prompto, e sc\eru castigo,
que tranquili:te ao mesnlll tempo os meus ticis \" assallus com a certeza de
lJUc entre elles não anda algum Jus horri\·cis monstros, que cometterão tão
t:nurme. e barb.1ru ..:rime: Sou scn·ido, que assim us cabeças. como os
mais sequazes da conjuraçiio que abortou tiio infame Jclicto sejão autoa-
.dos, c julgados cm processos simplesmente ,·crbai~, c summarissimos pelos
quais conste Je mero facto Ja verdade das culpas, observados somente os
termos de Direito :\aturai, c Di\"ino, sem alguma attcnção as formalidades,
ou nullidaJcs pruvcnicntes Jas DispoLisoens de Direito, commum c P Jtrio :
Porque todas Hcy por dispensadas neste c~uo, para nellc se proceder lam-
bem sem a limitação Je tempo, c sem o determinado numero de testemu-
nhas, que se achão estabelecidos sobre as Dc\·assas urdinarias: E para que
todas as \ezcs que hou\·cr prnva bastante, para pur ella se julgar se
possãu sentenciar junta, ou scparadamcntc todos, ou cada hum dos Réus,
que se acharem culpados: Proferindo-se as sentl·nças neste meu Real
Palacio e Lugar dellc. onde prezentemente se faz o despacho das Secretarias
de Estado: PrcúdinJo os trc~: Sccretarios de Estado, uü os que dellcs nao
ti\ ercm justo impedimento, assim as perguntas, que se tl7crcm aos Réus,
como üs Juntas, e conferencias cm que se proferirem os despachos interlu-
cutorios, e sentenças defini ti\ as. que necessarias forem, sendo sempre Relia-
ror o sobreJito Juiz da lnconfidencia, para julgar, assim as refendas inter-
lucuturias. como as Jetlniti\ as com os Adjuntos, que Eu lhe nomear:
Escre\·enJo nos autos com fé publi..:a, para os processar o Duutor José .\n-
tonio de Oliveira ~\achado, Daembargador da Caza da Supplicação: Execu-
tando-se as sentenças que se derem- contra os Réus. nu mesmo Jia cm que
se proferirem, irrcmissi\·clmcntc: E obsen·ando-se tudll o referido, e mJo
o mais, que consistir cm meios ncccssarios para os sobreditos rins, sem
embargo de quaisquer Lei._, Dispo7isoens de o=reito commum e Patriu, ou
costumes que sejão cm contrario; Porque todos e todas H ey por dcrogadus
para este elleito s~1mente, tlcando aliüs sempre em seu ,-igor. Bclcm nove
Jc Dezcmhro de mil setecentos c sincuenta c oito= Com a Rubric~1 de Sua
:\Ltgestadc. =Registado.

DECRFTO Pl)R EDITAL

Por quanto sendo exemplarissima a religião com que os \" assallus da


minha Corua, cultivando sempre, como im iulaveis, c como sacrosancros, o
respeito, o amor, e a fidelidade a seus Re\·s, e naturais senhores, tlzerão
com que os Portuguezes cm todos os scculÕs se distinguissem, e assinalas-
sem entre as mais :\açocns da Europa no escrupulozu, c delicado dezcm-
penhu destas impretcri,·eis obrigaçucns: E porque nãu obstante me haverem
Jado us meus ti eis \" <lssallus por hum a cxpericncia successivamcnte .:un-
tinuada desde os principias du meu Governo athé agora as mais estima-
veis, e concludentes pro\ as do seu geral reconhecimento, aos muitos, e
grandes beneficios, que tem recebido Ja minha p<ttcrnal, e infatiga,-d pro-
videncia: Houve ainda assim infdi/mentc entre os naturais destes Remos
alguns particulares, que barbar<lmentc esquecidos daquelles antigos. c mu.1ca
excedidos e:xemplos, e daquelles honrozos, e indispensanis vínculos de gra-
tidão, e de tiddidade, sem qu~ reprimissem à sua atrucissima cobiça, nem
a formU?ura daqudlas bem cultivadas virtudes, nem a torpeza dos enormis-
simos ddictus em que hião precipitar-se, nem o incomportavcl pelo da res-
tituisão em que ficariam as suas depravadas consciencias á utilidade pu-
blica destes Reinos, e :.\ honra commua de todos os Yassalos del!es que não
podia deixar de padecer a mais sensível quebra, em quanto delles se não
separassem os Réos de hum tão horroroso attentado se atre,·erão a machi-
nar entre si com diabolicos intentos huma conjuração tão sacrílega, e tão
abominavel, que depois de haver procurado suggerir, e espalhar clandestina,
e maliciozamente [por modo que se fingia misteriozo, para com elle abuzar
da sinceridade das pessoas de animo mais pio, em quem podião fazer mais
impressão aquellas suggestoens] que a minha Real vida não podia ser de
grande duração, ouzando athé limitar o prazo della ao mez de Setembro
proxrmo precedente, depois de ha' e r a mesma conjuração preparado os
animas com aquellas malignas perdicçoens, passou á maior temeridade de
as n:rificar pelo horrorozo insulto com que no dia trez do referido mel de
Setembro, proximo passado, pelas onze horas da noute ao tempo em que
Eu sabia da porta da Quinta chamada a do 1\'leyo, para passar pelo pequeno
campo, que a separa deste Palacio da minha Rezidencia a recolher-me nelle,
havendo-se postado trez dos dítos conjurados montados a cavallo perto da
referida porta encubertos com as cazas, que <!- ella se seguem, discarrega-
rão com infame, e exacranda alei,·ozia sobre o espaldar da carruagem, que
me transporta,·a, trez bacamartes, ou roqueiras tão fortemente carregadas
de grossa. munição, que ainda errando hum delles fogo, farão bastantes os
dois, que o tomarão para nãõ só fazerem no dito espaldar duas brechas es-
fericas de disforme grandeza, mas tambem além dellas o geral estrago, com
que despedaçando todo o dito espaldar, não deixarão ao juizo humano
modo algum de comprehender á vista delle como a minha Real Pessoa se
pudesse sah·3r em tão pequeno espaço como da referida carruagem no meio
de tantas, e tão gré.ndes ruinas, só com o damno das gra,·es feridas, que
alli recebeo, se a minha Real vida não houvesse sido poziti,·amente prezer-
vada por hum ,·izi,·cl milagre da mão Omnipotente, entre os estragos
daquelle horrorozissimo insulto. E porque achando-se por elle barbara, e
sacrilegamente olfendidos todos os princípios mais sagrados dos direitos
Divino, Natural, Ci\·il, e Patrio com hum tão geral horror da Religião, e
da humanidade, se faz tanto mais indispeRsavel a reparação do mesmo in-
sulto, quanto maior, e mais pungente he o escandalo que dellc tem rczul-
tado á fidelidade Purtugueza; cujos lou,·aYeis sentimentos de honra, de
amor, e de gratidão ü minha Real Pessoa não poderião nunca tranquili-
zar-se, sem a moral certeza de que aquela exacranda conjuração se acha
arrancada, pelas suas venenozas rai1es, c de que entre os meus fieis Y as-
sallos não anda algum dos horri,·eis monstros, que conspirarão para tão
abominaveis crimes: Estabeleço que todas as pessoas que descobrirem [de
sorte que 'eririquem, o que declararem J qualquer, ou quaisquer dos Reos
da mesma infame conjuração, sendo os Declarantes Plebeias, serão lugc;>
por mim criados nobres, sendo Nobres, lhes mandarei passar Ah·arás d'Us
foros de ~laço fidalgo, e de Fidalgo ca,·alleiro, com as competentes mura-
dias, sendo Fidalgos dos sobrt:ditus furos lhes farei mercê dos Títulos de
Viscondes, ou de Condes, conforme a graduação em que se.. acharem, e
sendo Titulares os accrecentarei aos outros Titulus, que immediatamc:ntc
se seguirem aos que jú ti\ erem: .\lem de cujas merces, farei aos sobredi-
tos I>edarantes as outras mercês uteis, assim peccuniarias como de ollicios
de Justiça, ou Fa7enda, e de bens da Coroa, e ordens tJUe re.1.crvo a meu
Real arbítrio regular, conforme a qualidade, c a importancia do sen·iço,
que c~tda hum dos ditos Dcclar~mtcs me: ti.1.er. O que he,· outrosim por bem,
que tenha lugar, ai!lda quando as declaraçoens, l"t•rcm (citas por alguns dos
cumplices da mesma conjuração, os quais H e~ desde logo por perdoados,
cunHamo, que niio sej;io dos principais cabeças ...iella ..\os '\inistros que
aprehenderem os H~us deste dclicto farei as mcrccs de honras, c de acre-
ccntamentos, que forem proporcionadas ü importancia do sen·iço, que ao
dito respeito me fizerem, além das mais asima referidas, no ca7o de serem
Declarantes. Para que ninguem possa occultar por ignorancia tão pcrniciu-
zos Réos pela falsa aprehens<Ío de que os Denunciantes süo pessoas abjec-
tas: .-\.d,·irto a todos os meus ,. assallos, que este reparo que se costuma
'ulgarmente fa.1.er nas matcrias que dizem respeito á Fatenda, não só não
tem lugar nestes crimes de .::onjuraçãu contra o -(Príncipe Supremo, e de
alta traição, mas que nelles muito pelo contrario o sih:ncio, ~.;. a t<l.::Íturni-
dade dos que sabendo de similhantes crimes os não dclatãu cm tempo opo'r-
tuno tem anexas as mcsmas penas, e a mcsma infamia, a que são condem·
naçios os Réos destes rerniciozissimus dclictos, de sorte que nem os Pa,-s
são rclentdos encobrindo os ti lhos, nem pelo contrario- os filhos encobrindo
os Pays, porque pre\·aleçe a obrigaçam ant~riur d<l consen·açam do seu
Rey, e da sua Patria, que tambem são Pays communs, quando se trata de
crimes de tanta atrocidadc,-e prejuízo publico. E pon.1ue hum t<io horri\el
cazo f;_v indispcnsa\·elmente necessaria toda a maior facilidade, que couber
no possi,-eJ para a prizão dos Reos: ~ou sen ido fazer commulativas todas
as jurisdições dos )\agistrados destes Reinos, .>cm e)o.cepsáo de alguma das
terras da minha Coroa, c das de Dunatarios, por mais pri,·i!egiadas que
sejão, de tal sorte, que nestas possão entrar, sem no\ a ordem os )iinistros
da Coroa, e naquellas os )linistrus dos referidos Donatarios, pelo qut: per-
tencer á captura dos Réus deste ddicto: Os quais sou sen·ido outrosim
que possão ser aprehendidos athé pelas pessoas particulares, que deites ti·
'erem noticias, e os furem por ellas seguindo, fuendo as capturas cm qual-
quer lugar, em que os encontrarem, com tanto que depois de hanrem sido
pre.1.os, os Je,·em logo ,.;,1 rect.1, á preLensa do )linistro de ,·ara branca,
que lhes ficar mais vi7inhu para os transportar a esta Corte com toda a se-
gurança. O Doutor Pedro Gunsalws Cordeiro Pereira do meu Con'ielho
bezembargador do Paço. Deputado da )leza da Conscicncia, e Ordens, e
Cha,,celler da CaLa da Suppli.:ação, que nella sene de Regedor, e a quem
tenho nomeado Jui7 da lnconfidencia o execute assim pelo que lhe per-
tence, fazendo affi)o.ar este Decreto, por Edital em todos os lugares publi-
cas da Cidade de Lisboa, e seu "termo, e remetendo-o debaixo do seu nome
a todas as outras Cidades, e \"i lias destes Reino:-, porque os exemplares,
que forem por elle assignados, mando que tenháo o mesmo .::redito, deste
propriu original, sem embargo de quaisquer Leys, Dispozisoens, ou costu-
mes contrarias, ainda sendo daquellas, ou da ...1uelles, que necessitão de es-
pecial derogação. Belem a nove de Dezembro de mil sctt:centos e sir;Koenta
e oito.= Com a Rubrica de ~ua )\a~estade. =~e bastião .lo7é de Can·alho
e )\ello. '
CC.\lPRil\lEl\;TO

Cumpra-se o Decreto do mesmo Senhor, e se autue, c se proceda na


forma que nelle se determina, e manda. Belem nO\·e de De7cmbro de mil
setecentos sincoenta e oito.= Cordeiro .

.1\'IIL SETECEl\;TOS Sll\COENTA E ~OYE.

SPPREl\lA CO;"\IISSÃO

Autuacão do Decreto de Sua ;"\lagestade, porque há por befD nomear


Juizes, para· o cazo de que trata.

Anno do i\ascimento de Nosso Senhor Jezus Christu de mil setecen-


tos sincoenta e no\ e annos, aos quatro dias do mez de Janeiro do anno,
neste Palacio de l\;ossa Senhora da Ajuda, estando prezentes os Illustrissi-
mos, e Excellentissimos Secretarias de Estado, Sebastião Jozé de Can·alho
e .\lello, D. Luiz da Cunha, e Thomé Joaquim da Costa Corte Real, o
Doutor Pedro Gonsah·es Cordeiro Pereira Dezembargador do Paço, e Juiz
da Inconfidencia comigo Jozé Antonio de Oii,·eira .Machado, Dezembarga-
dor da Caza da Supplicação, e nomeado para escre,·er nesta diligencia, ahi
me foi dado o Decreto junto, e mandarão se autuasse o que fiz, e he o que
se segue e Eu Jozé Antonio de Olinira .1\lachado que a escren·.

DECRETO

Por quanto pelo Decreto de no,·e de Dezembro do anno proximo pas-


sado, em que dei fórma aos procedimentos, que se devião ter para o exame,
e castigo dos Réus do exacrando, e sacrílego insulto, .que contra a minha
Real Pessoa se cometteo na noite de trez de Setembro do anno proximo
passado, rezenei a nomeação dos Ministros, que dc,·em constituir a Juntá
da lnconfidencia, em que hão de ser processados, e sentenciados os sobre-
ditos Réos: Sou senido nomear os Doutores João Pacheco Pereira de
Ya!õconcellos, João .1\larques Bacalháo, l\lanoel Ferreira de Lima, Ignacio
Ferreira Souto, e Jozé Antonio de Oli\'eira .1\lachado, do meu Conselho, e
Dezembargo, para julgarem as cauzas dos sobreditos Réos, como Adjuntos
do Doutor Pedro Gonsah·es Cordeiro Pc1 eira do meu Conselho, que será
sempre nellas Rellator. Para os dezempates no cazo em que succeda haver
igualdade de Yotos, nomeio os Doutores João Ignacio Dantas Pereira, Cor-
regedor do crime da corte e caza, e Antonio Ah·ares da Cunha e Araujo,
Corregedor do crime da Corte : Aos quais todos confiro por este Decreto
somente, e sem a dependencia de outro algum despacho, toda a illm1itada
jurisdição, e alçada que necessaría lhes for para julgarem os ·sobreditos
Réos, e fazerem executar as sentenças contra elles proferidas, na conformi-
dade do Decreto de commissão asima indicado, e dirigido ao mesmo Dou-
tor Pedro Gonsah·cs Cordeiro Pereira, como Jui7 da lnconfidencia. Belem
a quatro de :Janeiro de mil sete centos e sincoenta e no,·e.=Com a rubrica
de Sua .1\lagestade. =Registado.
Cl" .\1 PH 1.\\ 1-:7'\Tt l

. Cumpra-se, e ~c ajunte aos autos. Bc:lc:m ~tuatro de Janeiro de: mil


sc:tc:~entos
sitKOl'nta. c no\"l'. - Cordeiro.

Termo ~1ue ~ua :\laAcstadc ordenou se lizc:ssc:, antes de se proporem


os autos, c processo cm que se contem as culpas dos· Héus do c:xacrando
insulto, commc:ttido na infaustissima nuutc de trcz de ~etcmbro ~tu anno
prox.imo passado Jc mil sctc~l'ntos sincocnta c uuto.

Pur,tuanto ~ua :\1:tgcstadc, attc:ndendo ü summa gra,·iJaJc:, l' Jdi~a­


Jc/.a deste iLUportantissimu nc:gucio, c: de algumas das matcrias, que ndlc
se invuh-cm, foi sc:r\'idn ordenar, que antes de se: proporem os autos, se
intimasse aos .\\inistros que tem nomeado Juizes ..idles, que sendo o mesmo
negocio náu daquc:lles, que se trarão dl· mudo ordinario, mas sim hum ne-
gocio importantíssimo immediatamentc ü Hcal Pessoa du mesmo Senhor, e
seu Hcgiu Estado, se dc:\·c ubscn·ar a respeito dc:llc tudo o mais im·:ola,·cl,
c mclindrozo segredo cm tudo o '-lue a que não hom er de ser escrito ao
lim de se: participar aos Héos. c seus Procuradores: ( kdcnando ao Exc~l­
lcntissimo ~c:bastião .lo1.é de Can·alho, e :\\ello, Secrc:tario de Estado dos
~egucios do Heyno, que: assim o intimasse nesta Junta, para se obsen·ar
Jc:bai\.o da comminaçiio de perdimento dos lugares, e de outras serias dc:-
nwnstraçoens do H cal de/agrado, Sl·ndo tudo o referido· participado aos
:\\inistros abai\.O assignados assim o prumettcram cumpt·ir, e ob"cn·ar com
a comminação ordenada pc:lo ..ii to Senhor, du que cu Jozé .\ntunio de (>li-
vcira :\bchaJo nomeado por Sua :\bgcstadc para cscre,·er nestes autos fi7
u pre1.cntc termo que todos assi!-!narão comigo na mesma Junta aos no,·c
dias do mcz de Janeiro de mil sl:tecentos sincocnta e no\·c = Jozé .\ntunio
de Olin:"ira ;\\achado= Sl'bastiüo .Tuzé de Canalho, e Mel lo= João ~lar­
qucs Bacalhüo- .loüo Pacheco Pereira de Y asconcdlos = ~lanucl Ferreira
d"c Lima= João lgnacio Dantas Pereira= lgnacio Ferreira Souto= Doutor
.\ntonio .-\ h·ares da Cunha c Araujo- Euzcbio TaYarcs de Siquc:ira = Ju7é
~'mocns Barboza Jc .\zambuja.

DECI\ETO

Por quanto cn1 Decreto de no\ c Jl' Dc1.cmbro do anno proximo pas-
sado attcndcndo ao escandalo, que tl:m rl'zuhaJo ú tiJc:lidadc Portugueza
du horruroto insulto, que contra a minha 1\eal Pessoa se cumetteo na noite
de trez de ~c:tcmbro du anno proxin~u passado, e a tjUc nem o amor, e o
reconhecimento dos meus leais Yassallos, ü minha 1\eal Pessoa, c sen iço,
nem o louva\·c\ zelo da sua prupria honra se poJeriáo tranquilizar, sem a
ccrtc:za de se achar arrancada pelas ~uas ,·cnenuzas rai7es a exacranda con-
juração, que ahortt•u aquellc cnurmissimo cr.me·: Ordenei, que os Réus
delle fossem julgados, e sentenciados cm processos verbais, c summarissi-
mos de plano, e pela Yerdadc prü\·ada, conforme o Direito ~aturai, sem
<lltenção ás formalidades. ou nullidadcs rrm·cnicntes das disruzisucns que
as I .eis estabelecc:nío, para a ordem dos processos nos ca1.os ordin.:trios. E
1- purquc hé justo, c nc:cessario, que neste mesmo cspirito se curte tucio, o

' '
10

que pode dar muti,·o a demoras incompatíveis, com a urgencia de hum tão
estranho, e üío instante ca;ro: Sou servido, que us Réus do mesmo delicto,
que tiverem, e forem tendo .:ulpas pnn·adas, para serem julgados, alleguem
todas as defczas, que tiverem no mesmo identi.:o processo, e por hum só, e
unico Pru.:urador, yue por ora determino, yue seja o Doutor Eu7ebio Ta-
,·ares de Seyueira, Dezembargadur da Caza da· Suppli.:aç:ío: Ao qual or-
deno, qul" sem es.:uza, ou repli.:a allegue a favor de tPdos, e cada hum dos
subreditus Héos tudo o que dl" feito, e de Dirl"itu a.:har, que pode conduzir
para os defender, de sorte, que nem padeça a innocen.:ia, nem ainda a
mesma culpa seja castigada, alem da proporção, que .:om ella de\·e sempre
ter a pena, para que a Justiça, e ·a .1\lizeri.:ordia se consen·e no justo equi-
líbrio, que sempre faz o impreterível objecto de todas as minhas Reaes
Dispw:isuens; e que não he da minha intensâu que seja excedido, nem ainda
com os pungentes estímulos de huma t<Ío nun.:a vista, e táu inaudita atroci-
dadl". Belem a quatro de Janeiru de mil setecentos e sincoenta e nove.= Com
a Rubri.:a de Sua Magestade.

ct: ~IPRL\1 ENTO

Cumpra-se, e se autue. Belem quatro de Janeiro de mil set~.:entos


sincuenta e nm·e. =--.c Cordeiro.

AUTOS DE CORPO DE DEUCTO

De.:retos dl" Sua .1\lagestade que os authenticuu.

DECRETO

Sendo-me prezentes os autos de corpo de deltcto, feitos no vestido,


com que me a.:hava no tempo do insulto que se commetteu·cuntra a ~linha
Real Pessoa na noute de trez de Setembro do anno proximo passado, e na
segc que me transportava ao tempo, em que no espaldar della se dispa-
rarão us sacrílegos tiros, que abortou a temeridade dos Reus d'aquelle
l"nurme crime: Suu servido .confirmar, e authenti.:ar os factos, que se adüiu
expressos nus referidos dous Autos de corpo de delicto, .:omo fa.:tos certo,-;,
c verdadeiros; que pur haverem passado na .1\linha Real Prezença se dc\Cl11
ü vista desta minha Declaraç<io, julgar induhitaveis. Belem a yuatro de
Janl"iro de mil sete.:entus, e sin.:uenta l" nove.= Com a Rubri.:a de Sua 1\la-
gestade.

COMPRIMENTO

Cumpra-se, e se ajunte aos autos. Belem quatro de Janeiro de mil


sete.:entus sin.:uenta c nove.~- Cordeiro.
li

CLHTID.\< >

.\ntunio ~oares Br;uhhío C;l\·alleiro professo na ( )rJem Je Christu,


8

Cirurgi<io da Camara Je SLía :\lagestade Fiddissima, Jus seus Exerótos, c


Cirurgi<io .\lúr do Reynu, c suas conquistas &:'
Certitico que no dia trct. de ~etembro dcsh: p•·e1entc .mno, depois
das onze horas da ·noute, ,-i, c curei a El Rcy :\~•sso ~cnhor que Deus
guarde de humas feridas cumbustas, c dislaceradas, feitas com armas de
fogo ao meu parec ..:r maiores que as espingardas urdinarias, carregadas
estas com chumbo grosso, as quais feridas prin.:ipia\·ãu desde o ( )moplata,
nu espadoa direita, dc.:endo pelo humbro, c braço abai:\o, athé o Clllo\"elo,
e tuJo pela parte posterior, cumprchcndendo lambem u peito da mesma
parte, no qual tambem recebeu du dlllmbo seis ureticios. mas na parte
superior do braço perto da articulação c sobre o musculu Deltuides, foi a
maior ti.m;:a da carga, que pdus dfcitus Jo estrago me pareccniu os tiros
dados a queima roupa; de surte, que fez na sua entrada huma grande ca\"1-
dade, com muita perda Je substancia, grande deslacerasão. Ja qual rezul-
tou muita perda de sangue, c passou o chumbo cmbuxadu, junto, e .pur
sima dos processos da articulaçüo Jo humbro ,\ parte interior donde fL't.
hum grande tumor, 110 l)UaJ fui per.:Í7U fazer huma incit.áu, C Se tiruu pur
esta parte chumbo, c fragmentos da carruagl.'m, tudo cm muita quantidade,
excepto o chumbo, que jü se tinha tiraJu pela sua intraJa, e na continuação
da cura se tirarão mais por di,·ersas partes do braço trinta· e o i tu grãos do
mesmo chumbo, c algumas pursucns do n~stiJo, e por ser tudo verdade o
juro pelo habito de Christo de que suu professo. Junqueira a ,·inte de De-
lembro de mil e setecentos sincuenta c ui tu.= .-\ntunio Suares Brandão.

DEPODI El\TO

Depuimcntu du Sargento :\lór Pedro T eixt:ira .

.\nno do :Sascimento Jc :\osso Senho1· Jezus Christo de mil e sete-


centos sincuenta e non~ annos. au segundo dia do mez de Janeiro do mesmo
;u1no, neste Real Palacio Je :\.,ssa ·~enhura da Ajuda, c lugar delle donde
ao pre1ente se faz o desracho das Secretarias de Estado, perante os Se.:re-
tarius de Estado Sebastiüo Joté Je Canalho e :\lcllo, Dom Luiz Ja Cunha,
Thomé Joaquim Ja Costa Corte Real, e o D~zembargadur do Paço Pedro
(;onsah es Cordeiro Pereira, Juit. Ja Incontiden.:ia. apparecec o sargento
:\ló1· Pedro Teixeira de mandado de nos sol'reJitos ~linistros, au qual
sendo deferido o juramento Jus Santus Enmgelhos em que poz a sua mão
direita, prometendo debaixo do mesmo juramento dizer wrdade, e guardar
segredo cm tuJo o que lhe fosse perguntado: E depois de ha\·er decla-
rado que era morador no lugar de Bdcm, e que tinha de idade quarenta
annos pouco mais, uu menus, e que ·a occupa.;iío que tem he Je criado
particular d'EI Rcy :\osso Senhor, sendo int]uiridu sobre o que prczen-
ciara, c sa~'ia a respeito do cxacrando, e malvado insulto, que na nuuh:
de trcz de Setembro pruximo passado se commetteo contra a Suprema
:\lagestade Jo mesnw Senhor, Jice, que vindo clle testemunha na carrua-
gen1 com El Rey :\nssu Senhur na ll••ut~ infaustissima de l)UC se trata
1:!

para entrar pela porta da Quinta de baixo, que está junto á tra\ essa do
Guarda 1\lór da saude, e pertendendo abrir a dita porta, achara que lhe
não era possível em razão de yue, ha,·iãu intupidu o lugar por onde a chave
entra na dita fechadura, de tal sorte, que nella não põde nunca introduzir a
referida chave: Que porem fazendo alimpar a dita fechadura, e sahindo
Sua 1\lagestade com elle testemunha pela referida porta, tomara pela cal-
çada, que dclla \·ai por entre o muro da referida Quinta, e as cazas, e terra
do official maior da Secretaria de Estado Antonio JoLé Gaivão, hindu a sege
a passo thé a esquina, e arco, que ficão ao Norte das cazas da Quinta do
me\· o, ou Patio das Yacas: Que depois de h<n·er dobrado a dita esquina,
rq.;arou em que o bolieiro Custodio da Cost·a apressara inesperadamente
os passos dos t·eli:ridus machos: Que tendo avançado qum·enta, ou sincuenta
palmos pelo caminho asima, oU\· ira hui11 grande estrondo de tiros: Que Iugo
successi\·amente se sentira El R ey Nosso Senhor gr<t\·emente ferido: Que
elle testemunha percebera, yue os mesmos tiros o tinhão. oftendidu: E que
o subredito bolieiru, se principiou. a queixar, de yue se acha..-a tambem cum
a grave lezáo, que depois se manifestou, adiando-se o sobredito bulieiro
tudo cri,·ado de grossa munisão: Que successi\·arnente se achou o dito
Senhor com o horrorozissirno estrago, que elle testemunha prezenciou na
mesma fôrma que consta da certidão do Cirurgiüu 1\lór do Re:no Antonio
Suares Brandüu, a que se refere: E que emtim e~aminando depois por onde
hm ião penetrado os referidos tiros, Yio elle testemunha, que furam dispa-
rados contra o espaldar da carruagem, que transporta\·a o dito Senhor,
abrindo ncllc duus buracos muilü grandes, e disformes, e arruinando quazi
tudo o espaldar com a muita copia de munisüo, que nelle penetrou. E
acrescentou que ao tempo em que Sua 1\lageMade se sentio ferido consi-
derando com a insseparavel serenidade, e heroica constancia do seu Au-
gusto animo, que todos os passos que desse para o seu Real Palaciu o
poriãu mais distante do Cirurgiüo 1\lur, que de,·ia cura-lo, mandando voltar
pela calsada grande, que está por fora dos lluarteis du Regimento de ln-
fanteria, e das Reaes cavalharices, passou a caza do dito Cirurgi<ío 1\Iór,
onde depois de ha\'er recebido com rdigioLissima piedade a absolvição
sacramei1tal, permittio, que se descobrissem as feridas, c com ellas o hor-
rorozissimo estrago, que todos deploramos, para se lhe applicarem, como
applicarãu os proprius rernedios, o que tudu elle testemunha dice que sabia,
pur ter visto, e prezensiado tudo na referida forma: E assignou no mesmo
dia rnez, e anno asima declarado.= Sebastião Juzé de Can·alho e 1\lello
= Dum Luiz da Cunha= Thomé Joaquim da Casta Corte Real= Pedro
Gonsakes Cordeiro Pereira= 'Pedro Teixeira.

DEPOIMENTO

Custodio da Costa, cocheiro de Sua Magestade, morador nu lugar de


Bellcm de idade que dice ser de sincoenta annos pouco mais, ou menus,
testemunha por urdem desta Cummissãu chamada au h!gar deste Real Pa-
lacio de Nossa Senhora da Ajuda onde prczentemente se tem o despacho
das Secretarias de Estado, e a quem se deo o juramento dos Santos Evan-
gelhos, em que poz sua mã_u direita, e prometeu dizer ,·erdade. E sendo
·perguntado sobre os factos relatados nu depoimento as ima do Sargento ~lúr
Pedro Teixeira, respondeu, l)Ue toJos passará•' na verdade, assim como no
mesmo depoimento '\C achão declarados, e que a ellcs se refere: Sendo
todos os referidos factos, escritos, assim como passarão na verdade, l)Ue
ellc testemunha prezen.:iou por ser u mesmo iJenticu boliciro, que na in-
faustissima nuute de tret. Je setembro pro:-, imo passado, guia\ a a sege em
que El Rey :\osso Senhor p:tssa\·a da Quinta de b.tixo para o seu Heal
Pala.:io au tempo cm que contra a Suprema :\lagestaJe Jo mesmo Senhor,
se cometteu o barbaro, e sacrilegt> insulto, de que se trata: E que só ac.:res-
centa, que o motivo que te\ e para acelc:rar u passo dos machos, que con-
duziãu a subredita sege, ao tempo cm que esta passa\"a do arco que esta,·a
da esquina das caLas da Quinta do :\\cyo p~lra O :\orte, foi por haver \"isto
sahir trez homens a ca\"alln de debaixo do referido arco, hum dos quais
desfechou contra l:lle testemunha hum tiro, que elle testemunha viu que
errara fogo, sendo quazi a queima roupa, disparado para matar a elle tes-
temunha, que por isso procurou sah·ar a Real Pessoa de Sua \lagestade
com os passos apressados, que deu,. sem comtudo haver declarado ao dito
Senhor o moti,·o d"aquella pressa: E que hum pouco mais assim a lhe parecera
,·er h uns 'uhos a ca,·allo da parte Jo muro nu\·o ao tempo em que se dis-
pararão os referidos tiros, o que elle testemunha sabe pelas rat.oens, qu'e
dito tem, e assignou com nosco no mesmo dia e anno, assima declarado, e
por não saber ler, nem escre\ er rogou a m;m Thomé Juaqurm da Costa
Corte Real, que por elle assignasse =Sebastião Jozé de Carvalho e :\lello
=-Dom Luit da Cunha= Thomé Joaquim da Custa Corte Real= Pedro
Gonsalves Cordeiro Pereira'--=.-\ rogo e da testemunha de Custodio da
Costa= Thomé Joaquim da Costa c;)rte Real.

TER:\10 DE CO:\CLl"Z ..\0

.\os nu\·e dias do mcz de Janeiro de mil setecentos sincoenta e nove


annos neste Palacio de :\ossa Senhora da .\ juda, ahi estando preLentes os
Excellentissimos Secn:tarios de Estado, e :\linistros nomeados manJarão
fazer estes autos condut.os á mesma .Junta, de que fiz este termo Joú An-
tonio de Oli\"eira :\tachado nomead•> por Sua :\lagestade para escre\"er
nesta diligencia que o escre\ y. ~Conduto.

,\CORD.-\0

.-\cordão O'\ du Conselho, e do Dezembargo d'El Re,· :\osso Senhor,


que obrigão a prit.iío em que se achão os R~os Dom J~zé :\lascarenhas
Duque que foi de .\\"eyru, Dona Leonor de Tan>ra :\larqucza que foi de
Ta,·ora, Francisco de _\o.;siz de TaH>ra, :\ttrquet. _que fui do mesmo, Luiz
Bernardo de Ta\·ura, :\larquez que fui de Ta,·ura, filho dos sobreditns,
Dum Jeronimo de .-\ta~ de, Conde que foi de .\touguia, Juzé :\laria de Ta-
vora, Ajudante das Ordens do dito seu Pay, em quanto foi General, Braz
Jozé Romeiro, cabo de Esquadr.t, e comprador que foi de Luiz Bernardo
Je Ta\"ora, Antonio .\J,ares Ft:rreira, :\lanoel \h-ares Ferreira, guarda-
roupa que foi do dito Dum .lo7é :\lascarenhas, João \liguei cri~ldo d~.:
acompanhar do subredito, e mandão se passem as ordens necessarias para
ser prezo Jozé Policarpio por andar auzente. Palacio de :\ossa Senhora
d'Ajuda em noYe de janeiro de mil setecentos sincoenta e nm·e =-Cordeiro
=Com trez rubricas= Bacalháo =Pacheco= Lima= Souto= Oli\eira
:\lachadu =
DATA, E CO:'\CLCZÃO

E logo no mesmo dia mez, e anno a<>sima declarado me farão dados


estes autos com o despacho assima, us quais tornei a fazer concluzos á
mesma Junta, e eu Jozé .\.ntoJniu de Oli,·eira ~lachado, que o escrevy =
Conduzo
ACORDÃO

Acordáu os do Conselho, c do Dczembargo d"EI Rcy :'\usso Senhor,


que \·is tu u Decreto do dito Senhor, atrocidaJe du ddicto, e prm·a que
renilta contra us Réos, fazem os autos summarios, e mandão que digáo de
facto, c Direito em termo de \·inte e quatro horas, pelo Procurador nomeado
pelu mesmo Senhor o Doutor Euzcbio Ta\ ares de Sequeira. E como noto-
riamente consta que Dom .Tuzé )la~carenhas, Francisco de Assi7 de TaYora,
e Dom .Tcronimo de .\tavdc são commendadores, e Cavalleiros das Ordens
:\lilit.tres, mandão que às suas culpas se rcmetáo ao Tribunal da .\le7a da
ConsGiencia, e Ordens para os sentenciarem, como fur justiça na forma do
.\h·ará do mesmo ~enhor. Palacio de :'\assa Senhora da Ajuda nove de
.Janeiro de mil setecentos sincoenta e nu\ c= Cordeiro= Com trcz rubricas
=- Bacalháo =Pacheco= Lima= Suuto = Oli\·eira .\lachado =Fui prezen-
te = Com h uma rubrica.
DA T.\, E RE:\IE~SA

E logo no mesmo dia assima declarado me foráo dados estes autos


com u A cordão assim a, e cm observancia deli e se remeter.ío_ao Tribunal
das Ordens constituído por Sua .\lagestade, as culpas, que se achão forma-
das a cargo dos Cavalleiros, e Cummendadores Dom .Tozé Mascarenhas
ante-Duque de Avl:'iro, Francisco de Ass;z de T avara, que foi )larquez de
T an>ra, e Dom Jeronimo de A tayde, que foi· Conde de Atouguia. Palacio
de que fiz este termo que assigney de remessa que assigney. Palacio de
:'\ussa Senhora da Ajuda aos nove de Janeiro de mil setecentos sincoenta e
no\·e = Juzé Antonio de Oli\·eira .\lachado .

.\PREZE:'\T.\ÇÃO

Aos no\·e dias do me7 de .Janeiro de m;l setecentos sincoenta e nove


nie foi entregue pelo De7e!11hargador do Paço Pedro Gonsaln~s Cordeiro
Pereira do Conselho de Sua T\lagestade, c .Juiz da fnconfidencia o Decreto
do dito Senhor, que ao diante s~ segue. J),J que fiz este termo. E eu .Tot.é
Antonio de 0\i\·eira :\lachado que o 'cscre\·y.
l:l

.\l'TO DE C< >HPO DE DEJ .ICTO I-TITO 1-::\1 Hl":\1.\ C.\ZAC.\,


E \ESTE DE ~L\ :\l.\GEST.\DE

.\nno do :\ascimcnto de :\osso Senhor Jczus Christu de mil sete-


centos sincocnta c nu\'C annus cm os trc1 dias du mcz de Janeiro do
dito anno neste Real Palacio de 1\ossa Senhora da .\juda, c cata em que
actualmente se fazem os despachos das Secretarias de Estado, ahi sendo
prctentes us Illustrissimos, c Excellentissimos Senhores Sebastião JoLé de
Carvalho c :\lello Secretario de Estado dos ::\c~ocios do Reino; o Senhor
Dnm l.uit da Cunha Secretario de EstadtJ dos :'\egocios Estrangeiros, e da
Guerra, o Senhor Thomé Joaquim da Costa Corte Real, foi \indo o Dezcm-
bargador do Paço Pedro Gonsalvcs Cordeiro Pereira Jui1 da lncontidcncia,
que' tambcm sen·e de Regedor, comigo Jozé Antonio de l )li,·cira :\ta-
chado, Dctembargador da Cata da Supplicação, Jui1 Commissario, neste
lugar de Rdlcm, e suas vizinhanç<~s c m•mcado para escrever na im-
portantissima diligencia desta Suprema cummissãu para ctfcito de fazer
corpo de dclicto cm huma cataca, c ,·este de Sua :\lagcstadc, que o
dito Senhor tinha vestido na infausta noutc de trcz de setembro proximó
passado na occa1ião, que contra a sua .\ugusta, c Real Pessoa se dis-
pararão os dois infames, c sacrilegos tiros. E logo ahi mandarão \'ir a
sua, C nossa pre/.CilÇa hum.a Ca/aCa, C huma VCStc de drop;ucte castor preto,
forradt> de gorgurãu de seda da mesma côr, cm que ,·im1 •s, e achamos: I'\ a
manga da dita cazaca, e ,·este c no hombro dirl·ito, junto ao pegamento
dcllas, que inclina para as costas, hum grande buraco, pelo ~1ual cabe huma
mão com os dedos unidos, que passa o forro, c pessa da mesma cazaça, c
veste, c ambas com huns bocados rasgados, llUC mostrão serem feitos com
tiro de munisão, dado por dctntL, cm forma, que parte do tiro rcsYalou, e
fc1 o estrago dos pedaços cm figura de rasgados. Com quinze crivaduras,
uu buraquinhos, junto, c da parte de trat do dito buraco gràndc, que mos-
tra,·ão ser feitos com grãos de chumbo. E debaixo do braço das mesmas
mangas, desde a costura do soYacu athé au canhão da mesma cantca, se
'io toda criYada, c cheia de buracos maiores, e mais pequenos, que os mais
dellcs passarão a pcssa, c o forro da mesma cazaca, que bem mostrava
serem feitos com carga de chumbo. E da mesma parte, c quarto dianteiro
da dita caLaca ,·imos e achümos dois buracos grandes, pelos quais cabem
quatro dedos, e outros dois buracos mais pequenos, pelos quais cabem dois
dedos em forma de resvalados por não passarem o forro. E mais ,·inte e
trez cri,·aduras, uu buraquinhos na mesma circumferencia, dos quais dez,
passarão o forro da mesma cantea. E junto ü costura do quarto desta que
divide o dianteiro da mesma parte direita, e das costas por sima da cintura,
estão quatro cri,·aduras, ou buracos res\·alados que não passarão o forro.
E na veste por baixo do sovaco tem quatro crintduras, ou buraquinhos,
que da mesma sorte mostra res,·alarão, por não _passarem o forro. E de
todo o referido porto fé pass~r na ,·erdade. De que. os ditos senhores,
mandarão continuar este auto de corpo de dclictu, que todos assignarão. E
cu Jozé .\ntonio de OliYcira .\ladtado que o cscrcn·, e assignc\". = Sebas-
tião JoL~ de CarYalho c :\ldlo Dom l.uiz da C Linha-- Thon1~ Joaquim
da Custa Corte Real- Pedro Gunsah es Cordeiro Pereira Jnzé Antonio
de OliYeira :\lachadu.
AUTO DE CORPO DE DELICTO FEITO EM HLL\1A SEGE
DE SUA ~IAGESTADE

Armo do 1\ascimento de Nosso Senhor Jezus Christo de mil sete-


centos fiincoema, e no,·e aos trez dias do mez_ de Janeiro do dito anno neste
lugar de Bellem, e Quinta de Sua .Magestade, chamada a de baixo, c pateu
.della chamado dos bichos, em huma cocheira do dito pateo, aonde sendo
,·indos os lllustrissimos, e Excellentissimos Senhores Sebastião Jozé de
Carvalho e ;'\lello, Secretario de Estado dos Negocias do Reino, o Senhor
Dum I ,uiz da Cunha, Secretario de Estado dos Negocias Estrangeiros, e
da Guerra, o Senhor Thomé Joaquim da Costa Corte Real, Secretario de
Estado dos Negocios da l\larinha, e o Dezembargador do Paço Pedro Gon-
sal\'es Cordeiro Pereira, Juiz da lnconfidencia que tambem serve de Rege-
·dor, comigo Jozé Antonio de Oliveira !\lachado, Dezembargador da Ca7a
da Suppllcação, e Juiz commi'isario deste dito lugar, e 'lUas vizinhansas,
nomeado pelo dito senhor para escrever na importantíssima diligencia de
que esta Suprema Commissão trata, para effeito de fazer corpo de delicto na
sege em que barbara, e detestavelmente, furão dados os abominaveis, e
sacrílegos tiros, contra a Augusta, e Suprema l\lagestade d'EI Rey Nosso
Senhor na noite de trez de Setembro proximo passado. E vendo na dita
cocheira huma sege a cáxa pintada de pardu, e os filetes dourados com os
couros de Yaca, c quatro masanetas de metal dourado, forrada de pano
uul escuro, cum galoens de retroz azul claro, com bolças nos lados do
mesmo pano, c cordões do mesmo retroz azul claro. Almofada, e Almofa-
dã,1, ou encosto de moscó,·ia. E no espaldar da mesma sege pela parte de
fora na circumfcrencia de palmo, e meio de comprir:nento, e hw11 palmo de
largura, achamos, dous buracos grandes, hum asrma do outro na mesma
direitura, mediando só quatro dedos entre hum, e outro, e que por qualquer
delles cabia huma mão fechada, ficando em migalhinhas algumas pequenas
partes do couro, que por pouco prendiãu nos mesmos buracos. Com cento
quarenta e nove cri,·aduras, ou buraquinhos á roda, e dentro da dita circum-
ferencia,'quc mostravão ser feitos com grãos de chumbo, que todos passa-
rão de h uma parte á outra; E por dentro achámos hum só buraco do
comprimento do ditu palmo, c meio, sem ter a separação que tem por fora
os ditos dous buracos em figura rodundos, por ser hum só pur dentro do
tamanho dos dous de fura. E isto no Jogar do meio, que sentada huma
pessoa dentro da dita sege de qualquer dos lados principia do hombro athé
ao cutovclo. Que de tudo porto minha fé \'er na forma assima contheuda.
E visto tambem pelos ditus senhores Hssima referidos, mandarão continuar
este autu de corpo de delictu, que todos assignámos. E eu Jozé Antonio
de Oliveira l\'lachado, que o escre\'y, e assigney. =Sebastião Jozé de Car-
valho e l\1cllo =Dum Luiz da Cunha-= Thomé Joaquim da Costa Corte
Real-~ Pedro Gunsalves Cordeiro Pereira = Jozé Antonio de Oliveira
)lachado.

REPREZENTAÇÃU

Senhor. Como os Procuradores dos ..'\lesteres são obrigados a nos


darem parte dos neguei os_ gra\ es que se lhes prupozerem na 1\leza da y c-
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reação, para que com o Conselhn dos vinte e quatro, hajãu de proceder
com o zelo, e fidelidade ao seniçu de \' ossa ~lagestadc, que faL o caracther
d'esta cant, se lhe propol' hoje a copia de um dcmentiss;mo Dc.::retu, com
a data de no\ c do pre7cnte mcz de Dc/emhro, cm que Vussa ~lagestadc,
fui sen·idu ordenar se ponha n.t sua Real Prel'cnça tudo o que p.tre.::er con-
veniente, para se des.::obrirem, e prenderem os Heos do sacrílego insulto,
que contra a prc.::iuzissima vida de \ ossa ~la.~e~tade intentou o diabolico
furor de quem não mere.::e o nome de racion.tl, mas só de féra, c que na
posteridade não só ha de ser desconhecido por Purtugue7, mas tido pelo
monstro mais detestan~l de que ha memoria na sociedade civil.
E ainda que o nos"u p:trecer se n:íu co,.tume separar dos votos, que
na ~leLa da vereação se subscrevem pelos ditos nossos Procuradores, como
a gravidade de huma olfcnsa, feita contra o l 'n,~idu do Senhor, e hum so-
berano de tantas virtudes, que faz as delicias de todos os que tem a fortuna
de vi\'erem debaixo da sua .\ugustissima Prutecçáo, pede que esta caza se
distinga nu zelo do seu Real sen iço. assim como sempre se distinguia no
amor, e lldclidade acs seus Reys, e Senhores naturaes, esperão os ,-inte e
quatro, que Yossa :\lagestade seja scr\'ido ha\·cr por bem, que a mesm,..t
ca7.t"ncsta humilissima representação, a~radeça com hum prnfundo respeito
a in.::umpara\ cl honra, com que \' ossa ~Ltgestadc fui sen ido tratar o seu
Juiz do Pu,·o, e receber os sin.::erus votos, que com lagrimas de sangue, lhe
mandou ulfere.::er a fidelidade desta capital. _
Tambcm agradecemos com o mesmo respe;tu as sabias prO\ idcn.::ias,
com que Yussa ~lagcstade, fui sen·idu proceder contra hum attentado, de
que nunca holl\ e exemplo neste Reino, pois bastand1) qualquer dellas para
fazer a admiração de toJo o ~l·.udo, hé .:erro que toda<> juntas excedem o
que se pude confiar de fursas humana<>, e prm·ãu com e\·idcncia, que a m:io
poderosa de Deus, que prezen-ou a prc.::iu1issima vidá de Vos_3i1 ~la~estade,
e nella a consen a.;:ão dos seus fieis \' assallos, o dirige de forma em todas
as suas Reais acções, llUe mais parecem illustradas, que dirigidas por dis-
• cursos para que não concorre a assisten.:ia Di,·ina .
Este \erdadeiro conhecimento nus dispensa de rcprezentarmos a Yussa
:\lagestade o que se nos pudia inspirar, pant o procedimento ulterior, sobre
que \'ossa ~lagestade foi sen·idu manJar um·ir os ditos nossos Procurado-
res, pois ainda que Deus rc\·cle algumas 'e1es ao<> pequenos, o que occulta
aos sabins, e grandes do :\lundu, não se pude representar couLa alguma a
Yossa ;\la,gestadc, que não seja sabiamente prc\·ista, e maduramente ponde-
rada pda sua Real, e .\Ira comprchensão, e pela notaria fidelidade dos seus
:\linistrus, mas para que \" ossa :\la~estade se deixe persuadir do zelo que
temos do seu Real Scn·iço lhe rogamos com muita instancia seja sen·ido
ordenar, que neste dctesta,·el attentado se admitão denuncias em segredo, e
que nellas não haja abertas, nem publicadas para que os delatores, possão
com liberdade, e sem perig~ fa1er as dedaraçoens du que souberem para
se casti~arem os culpados, e se C\ irarem as rezultas do seu delicto.
Tambem pedimos humildemente a Yossa :\lagestade seja sen·ido sus-
pender neste .:azo a sua Real. e innata clemencia. para mandar dar tortura
aus que furem legitimamente indkiados deste sacrilc~o insulto não só na
sua cahcça mas na alhêa, e que sendo cum·cncidos, e julgados Réus da sua
i:~audita atrocidade, se declarem Iugo por peregrinos, c estrangeiros. pois
nunca a caza dos 'inte e quatro, e o fiel Po,·o de Lisboa oU\· irá com inditf..:-
..
~
rença que se chame Portuguez, quem não for leal ao seu Rey, e Senhor
natural, e especialmente a Vossa )lagestade, a quem os seus fieis Vassallos
de,·em o que nenhuns outros da Europa, merecerão athé agora aos seüs So-
beranos: sem embargo do que \Tossa :'llagestade mandará o que for servido.
Cua dos ,-ime e quatro em dezeseis de Dezembro de mil setecentos sincoenta
e oito.= , O Juiz do Po,·o Balthazar João da Silva= Antonio Rodrigues de
Almada= André ~unes :'llartins = João )largues de :'lloraes =Silvestre Car-
reira= Thomé Lopes= _:'llanoel Ferreira= Jozé Gonçah·es Ribeiro= Juzé
Gomes da Costa= Luiz :'llartins =-=Lucas Dias=----= Luiz de Barros Pereira=
Thomaz da Fonceca Leal__:___ Luiz Antunes de )lendonça =Domingos Pires
=Antonio Francisco Rouzado =Faustino Francisco :'!loira= =Jozé de Fi-
gueiredo= João Rodrigues de Penim--= Thomaz.Atfonço Silva= Jozé dos
Santos. Duarte= .\ntonio Ju1i Pereira Coutinho= Pedro Dias de Azevedó
=Joaquim Lopes.

DECRETO

.\ttendendo, á justa, e zcloza reprezentação, que a fidelidade, e honra


do Pm o da minha sempre leal Cidade de Lisboa me fez com muita instan-
cia, para que á ,·ista da nunca athé agora cogitada atrocidade do execrando
insulto cumettido contra a Minha Real Pessoa na noite de trez de Setembro
proximo passado, não só suspendesse neste cazo a minh-a innata clemencia,
para mandar que se sujeitassem ao exame do tormento as pessoas, que fos-
sem legitimamente indiciadas de ha,·erem tido parte, naquelle enormissimo
delicto, assim na sua propria cabeça, como na alhêa, mas tan1bem, para que
todos os que fossem convencidos como Reos de tão inaudita atrocidade se
-declarassem antes de outro procedimento ulterior por peregrinos, e vaga-
mundos: de sorte que ficassem inteiramente separados de hum Povo tão
fiel como o da dita cidade de Lisboa, ao qual se faria intoleravel, que se
chamasse Portuguez, quem não fosse fiel ao seu Rey, e Senhor natural, e
não mostrasse na sua lealdade o geral reconhecimento, que todos os meus
Yassallos de, em á :'!linha Paternal Benignidade, e PrO\·idencia: Sou s.en-ido,
que nos exames, e sentenças, que se hom·erem de fazer, e proferir sobre o
mesmo enormissimo insulto, se proceda na sobredita forma a ambos os re-
feridos respeitos, assim como pelo que a elles pertence, me foi representado
por parte do Povo de Lisboa. Os Ministros a quem tenho dado commissão
para os mesmos exames, e sentenças, o tcnhão assim entendido, e executem,
não obstantes quaisquer dispozisoens, ou costumes, que sejão em contrario.
= 'Belem a vinte de Dezembro de mil sete centos e sincoenta e oito.= Com
a Rubrica de Sua ~lagestade. =Registado.

Cl~:'IIPRDIE~TO

.
Cumpra-se, e se ajunte aos autos. Relem ,·inte de De1embro de mil
s.:tccentos, sincocnta e oito.-= Cordeiro.
I~)

Jozé Antonio de ( )Jivcira ~\achado, De.~:embargador da Caza da Sup-


plica.;áo, e por Decreto de Sua ~lagestade nomeado para escrever nesta di-
li~encia: Certifico, que na forma do despacho no appenso au diante junto dado
pelos ~linistros da ~lcza da Consciencia, e ordens, nomeados pelo dito Se-
nhor, notifiquei aos Hcos Cummcndadores e Cavalleirus da Ordem de
Christo Dom kzé ~lascarcnhas, que foi Duque de A \·eiro, Francisco Jc
.\ssiz de Tavora, que foi ~larquez Jc ravora, Dom Jerunimo de Atavdc,
que foi Conde de Atouguia, e a Jozé ~lanocl da Si I va Bandeira, que foi- Es-
tribeiro do dito Dom Jozé, para que no termo de vinte e quatro horas, di-
cessem ·de facto, e de Dirc1to na forma do mesmo despacho. E na forma
do .\cordão retro da Suprema Junta da lnconfidcncia, o intimei aos Reos
Lui7,: Bernardo de Tavora, ambos filhos do dito Francisco de Assií', a Bral'
José Romeiro, cabo de esquadra, e. comprador que foi do dito Luiz Ber-
nardo, a Antonio Alvares F errcira, a ~lanoel.\.h·ares Ferreira, guarda roupa
que foi do dito Dom Jozé ~lascarcnhas, e a João :\liguei, criado de acom-
panhar ao mesmo Dum Jozé. E isto no dia de hoje dei' de Janeiro do meió
dia athé as sinco horas. E au Dezembargador Euzebio Tavares de Sequeira
Procurador nomeado dos mesmos Reos, entregut:i logo no mesmo dia o re-
... zumo das culpas de cada hum dos sobreditos. Que de tudo passei a pre-
zentc, de que porto fé, que assigney. Quinta chamada de baixo da de Ja-
neiro de mil setecentos sincoenta e no,·e, ~obredito a escre\ y, c assigne) =
Juzé Antonio de Oliveira ~\achado.

Ol-TRA CITAÇ:\0

E outro sim declaro, lJUe na mesma forma e tempo notifiquei a Dona


I eonor de Ta\·vra 'larquc7a que foi de Ta,·ora, e mulher do dito Franci<;co
de Assiz de Tavora, dia meí', e anno assima declarado, sobredito porto fé,
escrevy, e assigney =- Jozé -\.ntonio de Oliveira ~\achado.

TER '10 DE .-\PREZE~T


. .\CÃO .
.-\os onze dias do mel' de Janeiro de mil setecentos sincocnta c nove
me foráo dados pelo Doutor Eu.~:ebio Tavares de Sequeira, Dezembargador
dos .-\ggra\·os da Caza da Supplicação as allegaçoens, e artigos que ha\ ia
feito em nome_ dos Reo<;, como seu Procurador, nomeado por Sua ~lages­
tadc. E tudo juntei a estes autos por appenso. E eu Jozé Antonio de Oli-
,·eira ~lachado a escrcvy nu mesmo dia assima pel_as seis ho_ras da tarde.

TER~lü DE APREZE:\T.\ÇÃO

E logo no mesmo dia mez, e anno assima declarado, me forán dados


pdo Dc.~:en1bargador do Pa.;o Pedro Gonçalves Cordeiro Pereira o Decreto
20

'
de Sua l\Iagcstade, expedido em Yinte de Dezembro do anno proximo pas-
sado, subre jl repre7entação, que o Juiz do Povo da Caza dos 'intc e qua-
tro, ha,·iáo feito ao dito Senhor em dezeseis do sobredito mr7 com a mesma
repreLentação original referida 'flo mesmo Decreto. Do que fiz este termo
que ao mesmo dia me7, e anno assim a declarado. E eu Jozé Antonio de
Oliveira :\Ia.::hado que o cscr~vy.

CO?\CLCSÃO

E haYendo juntado todos os sobreditos papeis, fiz estes autos condu-


70S, ao mesmo Dezen1bargador do Paço Juiz Rellator delles no mesmo dia
onze pelas sete horas. da tarde= Conduzo.

ACORDÃO

Acordão os do Conselho, e Dezembargo d'El Rey Xosso Senhor &. 3


Que deferindo à justa, e 7eloza reprezentação, que o JuiL do Po,·o, e caza
dos Yinte e quatro da sempre leal cidade de Lisboa, fizerão a Sua :\Iages-
tadc: supplicando ao mesmo Senhor com muita instan.::ia, que a vista da
atrocidade nunca athé agora cogitada ent(.e os Purtuguezcs do exe.::rando
insulto, que fora comettido na nuute de trez de Setembro do anno proximo
passado_ contra a Real Pessoa do dito Senhor, se sen·isse Sua .:\lagestadc
de segregar antes de tudo da sociedade ciYil de seus fieis Yassallos todos
os que fossem conYencidos de tão enorme sacrilegio: :\!andando que antes
de outro procedimento ulterior, fossem desnaturalizados, e declarados por
peregrinos ,·agamundos, e de nenhuma sorte pertencentes a hum Povo tão
tiel, como o da dita cidade de Lisboa, o qual receberia a maior desconsola-
ção de que se ticasse denominando Portugucz, quem não mostrasse na sua
lealdade, não só a sujeição ao seu Re,·, e senhor natural, mas tambem
muito especialmente aquelle reconhecimento, que todos os Y assallos de Sua
.:\lagestade dewm aos beneticios, que tem recebido do mesmo Senhor, com
ventajem a tudo o que- athé agora tem praticado com os seus Yassallos os
outros soberanos: Hão por desnaturalizados todos os Reos deste execrando
delicto, indicados na Relação, que será com este, declarando-os por pere-
.. grinos, yagamundos, e a nenhuma sociedade civil pertencentes; c por pri,·a-
dos com a naturalidade, e denominação de Portuguczes de todos os pri,ile-
gios, e honras, de que indignamente gozarão, como naturais deste Reyno. E
mandão que como tais peregrinos, vagamundos, e alheios de t1-1da a socie-
dade ci,·il, sejão declarados, e denunciados: Remcttendo-se logo copias com
o theor desta sentença ao Senado da Camara da mesma cidade de Lisboa,
para a participar á caza dos 'inte e quatro, e se regi~tar nos LiHos do
mesmo Senado, e ca7a, e nas mais partes, que ne.::essario for, para se fazer
esta publica, e notoria, não só ao Po,·o da dita cidade de Lisboa, mas tambem
a todos os Habitantes destes Reinos, e seus Domínios. Pala.::io de ::\nssa
Senhora da \juda, ome de Janeiro de mil setecentos sin.::oenta e nove=
Com trcz rubricas = Cordeiro -= Bacalh<io = Pacheco =-= Lima=- Souto-
OJi,·eira ~lachado =Fui prezente =-=Com hum a rubrica.
'.!I

TUUH > DE .\l'HFZI·.:\T.\C.\( >

.\c •S dot.e ·dias do ma Je Janeiro de mil setecentos sincoenta e no\·e


me for;Ío dados estes autos com o Acordüo ncllcs junto pelo Det.embarga-
Jor dt> Paço Pedro Cunsah·es Cordeiro. c .luit da lnconlidcncia. Jc LJUC lit
esle lermo no dia assima JcclaraJu: E eu .loté .\ntunio Jc ( Hiwira "a-
cha,lo l>ell~mbargador da Cata da supplicac;<ío que o escre\'y. ·

TER:\1< > I>F APHEZF:\ r.\ C.\( l

Aos doze dias do me1 de Janeiro de mil setecentos sincocnta e no,·e


me foráo dados esles autos pelo l>ctcmbargador do Pa.;:o P~dro Gunsah cs
Cordeiro Pereira Juiz da Incontidencia com <l consulta ao dianlc junta. F cu
Jot.é .\ntuniu de ( )Ji,·cira \tachado DcLembargaJor da ca1.a da supplicação
lJUe o cscren·.

:\lll. SETECI-::\TOS SI"\C:OE:\T.\ L·: :\OYE

Autos crimes de culpas que ,·ierüo remetidas da Junla da lncontiden-


cia para este Tribunal da :\teta da consciencia, e ordens,· constituído por
Sua ~lagcstade nu seu Real Palacio de :\ossa Senhora da .\juda em que hé
.\utor o De/embargador João lgnaciu llantas Pereira. cumo Promotor Fis-
cal das mesmas o;-dens, e Heu~ Dum .loté .:\lascarcnhas, yue foi Du,lue de
_.\ ,·eiro. Ca,·alleiro, e Cmnmendador da ( )rdcm de Siio Tiago, Francisco de
Assit de TanJra, que foi :\larque1 de Ta,·ora, e Dom .leronimo de .\ta~ de,
que Iili Conde de .\tl•uguia, CaYalleiros, e commendadores da or,fem de
Clu·isto, e S;ío Bento de .\ Yil..

E depois de ha\cr autuado o .\had do dito Senhor com o cum-pn1-sc


nelle posto, na mesma data desle lermo, e com os dois Decrelos de nuYC de
Dctembro prm..imo precedenle, d. LJUC o mtsmo .\h ará Regi o se acha refe-
rido fiz estes aulos condezus ao mesmo Tribunal da :\leta da consciencia,
c ordens cm mwe de Janeiro Je mil setecentos sincuenra e nu\·e: E eu Jozé
Anton~o de ( )\i,·cira :.\lachadu, que o ~scre,·y, e=. Cot1Liut.os.

~E:\TE:\<~.\

\"isto o Al\"arü. e o~cr~IO de Sua :\lagcstadc, como 1<-:y, e Supremo


Prolect1.1r dos seus Reinos, c Yassallos, e como Gram :\lestrc das ( )rdens
~lilitares; .-\nendenJo a escanJalon torpcta, e notoriedade do sacrile~o in-
sulto de que se trata: 1-: deferindo ao re~.Juerimcnto ,·erbal d1.• Promotor Fis-
cal das mesmas Ordens, nomeado pelo mesmo ~cnhur:. H;ío por h1a a
pronuncia dos l<eos os Commendadorc:-. Dum Joté :\lasLatl:'nhas, Du,llll' que
foi de A,:eiro, Francisco de Assiz de Tavora, que foi Marquez de Tavura,
Dom Jeronimo de Ataidc, que fui Conde de Atouguia: E pronunciando o
ca\·alleiro Jozé 1\bnoel da Silva Bandeira: Fazem estes autos summarios a
todos os sobreditos Reos. E mandão que digão de feito e de Direito no
termo peremptorio de ,·ime e quatro horas, allegando todos em hum unico
conte>..to, e por hum só Procurador, que será o Dczembargador Euzebio
Tavares de Sequeira, na forma do Decreto do dito Senhor. Palacio de Nossa
Senhora da Ajuda em 1\'leza de no\'e de Janeiro de mil setecentos sincoenta
c nove=Com oito rubricas=Üliveira M.achado.=Fui.prezente=Com huma
rubrica.

ALYAR ..\.

· Eu E! Rev, como Rey, e Supremo Senhor, e Protector dos meus Rei-


nos, c Y assallos para consen ar entre· elles a Paz, e publico socego, e como
Governaqor, e perpetuo Administrador que sou dos Mestrados, e Cavalle-
rias das ordens de Nosso Senhor Jesus Christo, de São Tiago da Espada, e
de São Bento de A\'iz: Faço saber a todos os que este Alvará vivem: Que
sendo informado de que entre os Reos do sacrílego; e execrando insulto,
que na noute de trez de Setembro do anno proximo passado, foi comcttido
contra a 1\linha Real Pessoa, com a inaudita atrocidade, que se acha indi-
cada no Decreto da copia que baixa com este [a qual hindo assignada por
, Sebastião Jozé de Carvalho e Mello do meu Conselho, e Secretario de Es-
tado dos Negocias do Reino, terá tanto credito, como o mesmo original:]
se comprehendem alguns, que por se~;.em ca,·alleiros, e commendadorcs de
algumas das referidas ordens, tem ainda assim gozado do pri,·ilegio do foro
em cazos similhantes, nos quais forão remetidos ao Tribunal da Xleza da
consciencia, e Ordens, e nelle· sentenciados na conformidade da Bulia du
Santo Padre Gregoriu Decimu terceiro, sobre a accuzação do Promottor
Fiscal das· ditas ordens, como Reos do crime de Leza 1\Iagestade de pri-
meira cabeça: Sou servido, que as culpas, que nos processos verbais c su-
marisimus, que tenho mandado formar contra todos os sobreditos Reos na-
quellas partes, que respeitarem aos que forem cavalleiros, ou commendado-
res das sobreditas ordens, sejão remetidas ao Tribunal- da Meza da cons- •
c1encia e ordens, para nelle serem sentenciadas, conforme a referida
Bulia, e Dispozisoens de Direito commum, e Patrio em quanto as penas
que hão de ser impostas aos que se acharem cmwencidos por legitimas
pro\ as: Obsenando-sc porem pelo que pertençc á ordem do processo
o mesmo procedimento verbal, e summarissimo, que tenho determinado
por Decreto da data de nove de Dezembro proximo passado [cuja copia
será tambem com este assignada por Sebastião Jozé de Carvalho e 1\lello
do meu Conselho, e terá tanto credito, como o proprio original] para
se autuarem, e julgarem os outros Reos do mesmo enormissimo dclicto, que
se achar que são do foro secular: E porque hum cazo de tão inaudita, e
nunca ·Yista atrocidade, e o geral clamor, e escandalo, que elle justamente
cauzou na honra, e fidelidade Portugueza, requerem de hum procedimento
extraordinario, e proporcionado aos sobreditos motivos, e á urgencia delles.
Sou outro sim servido, que o Tribunal das ordens em que se hão de julgar
os Reos de tão enorme crime, tenha as suas s~ssoens dentro neste meu Real
..
:.!.l

I \ti aLio, c lugar dei h:, onde pn:lcnh:mciltc se f,t/ o de:-padto das ScLrcta-
rias de Estado: Prc1idindo ncllas, ou todos, ou a,tuellcs dos ScLrctarius de
Estado, que se adlarl·m dcsimpcdidos, aos quais LOmo Ca\ allcirus, c Pes-
soas das mesmas urdcns, Lonstituo .\linistros ddlas, para ttido o LJUe for
pcrtCllLcnh: aos mesmos deli.: tos: o>mpondn-se o dito Tribunal d.ts ( )rden<>
em '-jUe hãl-t de ser julgados os sobrcdllos Hcus, dt>S Dq,utados <tLtuais Pe-
dro Gun:-ah cs Cordeiro Pereira, que scn-ira de Hclator, .\Ltnod Ferreira
de Lima, Caetano .\lhcrto de Ossuna, c J01:é Simoens Barhu~:a de .\~:am­
buja, que \ otarão Lumu adjuntos: Sendo-o lambem os l>otHurcs João .\lar-
~tucs l3aLalháo, lgna.:io Ferreira Souto, c .lo/é .\ntuniu de Oli\cira \laLhado
do meu Conselho, c De/embargo: .\os quais LOmo Ca\ allcirus das mesmas
Ordens, c Pessoas Jdlas, LUnLcdo t.unbcm para este La/o toda a Lomprida
jurisdição di.:' .\I inistros das sobrcditJ.s ordens; E csLn:\·cndo o ultimo dclll.:'s
nos autos LOill fé publiLa, e \o to, Lomu :\otario, e Lomu .I ui/ dclles: Sou
scnido outro sim, 'JUC neste Lazo faça o utli.:io de Promutur FisLal das
mesmas ( lrdi.:'Rs cm que hé professo, u Doutor Juão lgna.:io llantas Pereira,
Corregedor do ai me da Cone, c Caza: E LJUC tudo u sobrcdito s~ ubscn c,
c eXeLutc, não obstantes quaisquer leis, Dispu.t.isucns, lktiniçocns, ou Cos-
tumes LOntrarios. E este Sl! LUmprir<i cm tUdl•, e por tudo como nelle se
Lunthcm, sem d_ll\·ida, uu embargo algum. _
Pelo que: .\I ando aos Scactarios de Estado Juiz d.t lnLuntidcnLia, De-
putados do mesmo Tribunal da .\laa da LOnsLit:nLia, c Ordens, e mais .\li-
nis~rus do meu Conselho, e Dezcmbargo assima dedar.1dus, LJUe tudo LUm-
práo, ohscncm, c CXCLUtl.:'m na mesma forma em que por .\lim lhes hLa
ordenado. Dado neste meu Real Pala.:io de Udlcm aOS""LJUatro de Janeiro de
mil seteLcntos sinLoenta e nm·e. = R c\·. - Sebastião .lo/é de Can·alho c .\ldlo.
Al\"ar;.i. porque Yossa .\lagcstãde he scrrido, LOmo Hcy, e Supremo
Sc.:nhur, c ProteLtor Jus seus Reinos, c Yassallos, e como Gm crnadnr c Per-
petuo :\dministrador dos .\lcstrados, e C:l\·allcirus das Ordens .\lilitarcs,
mandar remeter ao Tribunal Ja .\lc.:~:a da Cons.:icn.:ia, c l)rdcns, constituído
no seu Real PalaLio, as culpas dos Reos do enormiss"mo insulto, que LOn-
tra a sua Hcal Pessoa se Lometteo na nuutc de trc/ de Setembro do annu
prm.:imo passado: ~a forma assima dc.:darada Para Yossa .\laHcstade \ cr.
Filippe Jo7é da Gama o feL.
Registado na Seactaria de E!>t::tdo dos l\cgoLius do Reino.

Cl".\IPRI.\IE:\TO

Cumpra-se o \h-ará de Sua .\Ltgestade, c se autue rara se proceder


looo na forma determinada, pelo Jito Senhor. Palaóo de :\ossa Senhora da
..\juda nove de .Janeiro de mil seteLcntos sinLoenta e no\'e =Com oito ru-
bricas.= Oli\"cira.

DECRETO POR EDlT.\1.

Por quanto sendo exemplarissima ~ r~ligiá~ com que os Y assallos da


minha Coroa cultivando sempre como mnola\·ets, e LOillt_> saaosanL.tos,_ o
respeito o amor c a fidelidade. a ~.:us Rc\·s, c naturacs ~cnhorcs, tuerau
' ' -
com que os Portuguezes em todos os sectJlus se distinguissem, e assinalas-
sem entre as mais 1'\ações da Europa, no escrupulozo, e ddicado dezempe-
nho destas impreteriveis ubrigaçoens: E porque não obstante me ha\·erem
dado us meus fieis Vassallos, por uma experiencia successi\ amente conti-
miada, desde os principias do meu governo athé agora as mais estima\·eis,
e concludentes pnn-as do seu geral reconhecimento, aos muitos, c grandes
beneficias, que tem recebido da minha Paternal, e infatigawl prO\·idencia:
Hom·e ainda assim infelizmente entre os naturaes destes Reinos alguns
particulares, que barbaramente esquecidos d'aquelles antigos, c nunca
excedidos exemplos, e d'aquelles honrozos, e indispensaveis vinculas de
gratidüo, e de fidelidade: sem que reprimisssem a sua atrocissima cobiça,
nem a formozura daquellas bem cultivadas virtudes; nem a torpeza dos
enurmissimos delictos cm que hão precipitar-se; nem o incumportavel pezo
da restituisão em que ficariáo as suas depra\'adas consciencias á utilidade
publica destes Reynos, e á honra commua de todos os Yassallos delles, que
não podia deixar de padecer a mais sensível quebra em quanto delles se não
separassem os Reos de hum tão horrorozo attentado, se atreverão a machi-
nar entre si com diabolicos intentos huma conjuração tão sacrilega, e tão
abominawl, que depois de haYer procurado suggerir, e espalhar clandes-
tina, c maliciozamenrc [por mudo 'que se fingia misteriozo, para com ellc
abuzar da sinceridade das pessoas de animo mais pio em qul m podião fa-
zer mais impressão aquellas suggestõcs] que a minha Real ,-ida não podia
ser de grande duração, ouzando athé limitar o prazo dt:lla, ao mez de Se-
tembro proximo precedente; depois de hm·er a mesma conjuração preparado
os animas com aquellas malignas prcdicçoens, passou á maior temeridade
d.: as verificar pelo hurrorozo insulto com que no dia trez do referido mez
de Setembro proximo passado pelas onze horas da noutc ao tempo cm que
Eu sahia da porta da (!uiul<1 chamada a do Jle_ro, para passar pelo pequeno
campo, que a separa deste Palacio da minha rezidencia, a recolher-me ndlc;
ha\·endu-sc postado trcz dos ditos conjurados, montados a ca,·allo, perto da
referida porta, encubertos com as cazas, que a ella se seguem, descarrega-
rão com infame, e exacranda alei\·ozia sobre u espaldar da carruagem que
me transporta\·a, trez bacamartes, .ou roqueiras tão fortemente carregadas
de grossa munisão, que ainda errando hum delles fogo, furão bastantes os
dous que o tomarão, para não só fa?erem no dito espaldar duas brechas
esfericas de disforme grandeza; mas tambem além deli as o geral estrago,
com que despedaçando todo o dito espaldar, não deixarão ao juizo humano
modo algum de comprehender á ,·ista delle como a minha Real Pessoa se
podl:'sse salvar em tão pequeno espaço, como da referida carruagem no meio
de tantas, e tão grandes ruinas, só com u damno das graves feridas, que
alli reccbeo, se a minha Real Yida não hom·esse sido poziti\·amente prc7er-
vada por hum 'izi,·d milagre da mão Omnipotente entre os estragos d'aquel-
le horrorozissimo insulto. E porque achando-se por elle barbara, e sacrile-
gamcnte oll"endidos todos os principias mais sagrados dos Direitos Di,·ino,
Natural, Ci,·il e Patrio com hum tão geral horror da Religiiío, c da huma-
nidade, se faz tanto mais indispensa,·cl a reparação do mesmo insulto quanto
maior, e mais pungente hé o escandalu, que delle tem rezultado Li fidelidade
Portugueza, cujos luuvaveis sentimentos de honra, de amor, e de gratidão á
minha Real Pessoa, não poderião nunca tranquilizar-se, sem a moral certeLa
de que aquclla exacranda conjuração se acha arrancada pelas suas ,·encnozas
raizes, c de que entre os meus freis \'assallos não anda algum Jus horri,-els
monstros, que ..::onspirão para tão abomimn eis ..:rimes: Estahcleço que tu-
das pessoas que descobrirem l Je sorte lllle verifiquem u ~1uc Jedararcm;
quaL1uer, ou quaisquer Jos Heos da mes'ma infame conjuração. sendo os
dc.:larantcs Plebeios, serüo logo por mim ..::riadus :\ubrcs, senJo :\obres lhes
manJarei passar .\karüs dt'S toros de -'loço fidalgo, e de Fidalgo Ca,·alleiru
..:um as competentes moradias, sendo Fidalgos Jus sobrcditos liwos, lhes
farei mcr..::c Jus Titulus Je \'is..::onJcs, ou de Condes, conforme a graduação
em que se a.:harcm, e scn ..-lo Titulares os a.:..::res.:cntarei aos outros Titulos,
que immediatamcnte se seguirem aos lJUc já ti\ crem: .\lem de cujas mcr-
..::es, farei aos sobreJitos Dcd,trantes as outras mcrces uteis, assim pe..::unia-
rias, ..::umo Je olli.:ios Je Justiça, ou FatcnJa, c Je bens da Curoa, c nr-
dcns, que rezcn·o a meu Heal arbitriu regular, conforme a qu,tlidade, e a
importancia do sen·i,;u. llUe cada hum dos ditos l>i:darantcs me lizcr: ()
que Hcy outrosim por bem, yue tenha lugar ainda quando as dedaraçoens
forem feitas por alguns Jus ..::umrli..::cs da mesma conjura.;ãu, os quais Hc~
desde logo por perdoados, contan-to que não scjáo dus prin..::irais cabe.;as
d'ella ..\os -'linistros que aprchendcrem us Rcos deste dcli.:to t~lrei as mer-
cês de honras, c de a..::..::res..::cntamcntus. que forem propor..::ionad,ts á impur-
tan.:ia do- sen·iço, que ao ~-tito respeito me tiJ"crem, úlem das mais assima
referidas, no C3ZO de serem Dcdarantes. Para ~1ue ninguem possa u..::..::ultar
pur ignoran..::ia táu perni..::iozos Heos pela falsa aprchensüu de que os De-
nun.:iantes sáo pessoas abjectas: .\dvino a todos os meu-s \'assallus, que
este reparo, que se costuma \ ulgarmente f<Ver nas ma terias, que dizem res-
peito á fazenda, não só não tem lugar, nestes .:rimes de conjuração, contra
o Príncipe Supremo, e de alta traição, mas que nclles muito pelo contrario
o silencio, e a taciturnidade dos tJUe sabendo de similhantes ..:rimes, os não
delatão em tempo oportuno, tem annexas as mesmas penas. c a mesma in-
famia a que são ..::ondemna~-los os R~os destes perni.:iuJ.:issimus deli..::tus, Je
sorte que nem os Pais sãu rele\·.tdos en..::ubrindo os tilhus, nem pelo contra-
rio os filhos en..::ubrinJo os Pais, porque prc\·ale..::~ a obrigaç<io anterior da
..::onserva.;ão do seu ReY, e da sua Patria, que tambem são Pays ..::ommuns,
quando se trata de ..::rini~s de tanta atro..::idad•:, c prejuízo publico: E porque
hum tão horri,·el ..:azo, faz indispensa,·elmcntc nc.:cssaria toda a maior fa.:i-
lidade, que couhcr no possin:l, para a prizáo dos Reos: Sou scn·ido fazer
commulat't-.-as todas as jurisdiçocns Jus .\la~istr,tdus d'estes Rcino_s, sem
excepção de algumas das Terras da minha Coroa, e das de DunJ.tanos por
mais pri\ ilegiadas. tluc scjão, .de tal sorte, que n'est<~s. possão cntr<.~r ~cm
nO\·a ordem os )lmJ:>tros da Coroa, e na~1ucllas os -'luliStros_ dos rclend~_~s•
Donatarios, pelo que pertencer a captura Jus Reus deste dcl~..::tu: .Os qua1s
sou sen·ido outro sim, que ·possãn ser aprchendidos athé pelas pessoas par-
t=..::ulares , llUC dcllcs ti\·erem noticias, e os forem por ellas seguindo,
' fazendo.
as capturas em qualquer lugar em que os en.:ontrar, com tanto q~e- depu1s
de ha\erem sido pre~:os,_ os len~n l(_)~O l'i~l n!t.'la ·~ prezença do -'lu11str_o de
vara branca, que lhes h..::ar ma1s \'1/.lnho, par<l os t~ansp_ortar a ~sta Curte
com toda a segurança. l) Doutor Pedro Gonsah es Lorde1ru P~re1ra_ do _meu
Conselho, Dezembargador do P,tço, Deputado da :\leza da Cons.:Jen.:.a, c
Ordens, e Chan..::cller da C;.va da Suppli..::a.;ão, que nella senc de Regedor,
e a quem tcnl~o nnmea~o Juiz da ln..::ontiden.:ia ~> _c:o-..e.:ute assim, pelo qu~
lhe perten.:e. tazcndu ah'\J.r este De.:rct•J por Ldnal cm todos us lugare~

,
:!li

publicos da Cidade de Lisboa, e seu termo, e remetendo-o debaixo do seu


nome a todas as outras Cidades, e Villas destes Reinos, por que os exem-
plares, que forem por elle assignados, mando que tenhãu u mesmo credito
deste proprio original, sem embargo de quaisquer Leis, Dispuzisoens, ou cos-
tumes cuntrarios, ainda sendo daquellas ou daquelles. que necessitão de es-
pecial derogaçáo. Belem a no\·e de Dezembro de mil setecentos c sincoenta
c oito.=- (4.1111 a Rubrica de Sua Magestadc =Sebastião Jozé de Carvalho
e Mello.
'
COPIA DO DECRETO

Copia. O Doutor Pedro Gonsah·es Cordeiro Pereira do meu Conse-


lho, Dezcmbargadur do Paço, Deputado da 1\Icza da Consciencia, e Ordens~
c Chanceller da Caza da Supplicação, a quem tenho nomeado Juiz da ln-
confidencia, proceda Iugo a todas as informaçoens, dilig_encias, perguntas, e
exames que necessarios furem, para se descobrirem, prenderem, e castiga-
rem os Reos du sacrilegu, e exacrando insulto, que na noute de trez de Se-
tembro pruximo passado se cumetteu contra a minha Real Pessoa, na forma
declarada nu Decreto, e Edital da mesma data deste, que baixando com clle
assignado por Sebastião Juzé de Carvalho e .Mello du meu Conselho, e Se-
cretario de Estado dos Ncgocios do Reino, terá tanto credito, como o mesmo
original. E par~1 que o geral escandalo, que se segu:o du mesmo insulto \"C-
nha a cessar pela execução de hum prompto, c sen~ru castigo, que tranqui-
lize au mesmo tempo os meus fieis Vassallos, com a certeza de que entre
elles não anda algum dos horri\·eis monstros, que cummeterão tão enorme,
c barbaro crime. Sou servido, que assim os cabeças, cumo os seq~1azes da
conjuração, que abortou tãu informe delicto sejãu autuados, e julgados em
procéssos s:mplczmentc \·crbais, e summarissimos pelos quais conste de
mero facto da \·erdade das culpas, ubsen·ados somente us termos de Direito
Natural; e Di\·ino, sem algurna attenção üs formalidades, uu nullidades pro-
venientes das Dispozisocns de Direito cõmum, e Patrio: Porque todas Hey
por dis-pensadas neste cazo, para nelle se proceder tambem sem a limitação
de tempo, e sem u determinado numero de testemunhas, que se achãu es-
tabelecidas sobre as Devassas ordinarias: E para que todas as \·ezcs que
houver prova bastante para por ella se julgar, se possão sentenciar junta,
ou separadamente todos, ou cada hum dos Reos, que se acharem culpados:
Proferindo-se as sentenças neste meu Real Palacio, e lugar delle, onde pre-
~entemente se faz o despacho das Secretarias de Estado: Prezidindo os
trez Sccretarios de Estado; ou os que delles não ti\·erem justo imped.mento,
assim as perguntas, que se fizerem aus Reos, cumo as Juntas, e Conferen-
cias, em que se proferirem os despachos interlocuturius, c sentenças defini-
tivas, que necessarias forem: Sendo sempre Rellator o subredito JuiL da ln-
confidencia para julgar assim üs· referidas interlocuturias, como as definiti-
\·as com os Adjuntos, que Eu lhe nomear: Escre\·endo nus autos com fé
publica para us processar o Doutor Juzé Antonio de Oli\·cira Machado Dc-
zembargador da Caza da Supplicação: Executando-se as sentenças, que se
derem contra os Reus no mesmo dia em que se proferirem irremissi\·el-
mente: E ubsenandu-se tudo u referido, e tudo o mais que consistir, em
meios necessarius para os subreditos fins, sem embargo de quais ljUcr Leis,
Dispozisocns de Direito commum, e Patrio, ou costumes que scjáo em con-
t!ario: Po_rquc todas, c todos ~ey por derogados para este elfeito, somente
h(:;mJo altüs sempre em seu '•gur. Bdcm a nm c de l>ctcmbro de mil sete-
centos sincoenta e oito=( :um a Rubrica J'El-Re,· :\,,sso Senhor=- Bclem a
lJUatru de Janeiro de mil sitecentos sin.:ocnta c- non!= Sebastião Joté Jc
C;•n·alho e .\ldlo.

1:\TI.\l.\C.\.0

Jozé .\ntoniu de ( )li,·eira ~lachadu, Dczcmbargador da Caza da Sur.-


plica.;:ão, e nomeado para es.:rc,·cr nesta diligcn.:ia, Certifico, c porto 1~.
l{liC intimei u despacho d.1do pelos ~linistrus da ~leza da Consciencia, c
Ordens, na fortna delle, aos quatro Commendadores, e Ca,·alleiros da Or-
dem de Christo Dom Jozé .\lascarenhas, Duque que foi de .\ ,·ciro, Fran-
cisco de .\ssiz de Tan)ra, ~lar4ueJ.: lJUc foi de Tan1ra, Dum .Jeronimo
Conde que foi da Atougui~ c a J~.vé Manocl da Sih·a Bandeira, Estribciro
que foi du dito Dom Jotc .\lascan:nhas, para no termo de ,·inte c quatro
horas, dizerem de facto, c de Direito por seu Procurador u Dc7cmbargaJur
Euzebiu Tavares de Sequeira, nomeado por Sua ~lagcstade para o dito
etl"eito no Decreto de ljlJatro de Janeiro Jcstc pre7entc anno a qual intimaçiio
lhe fiz no dia de hoje dez Jc J.meiro de mil setecentos ~incoenta e nu\·e, de
que porto minha fé, sobredito o escre,·i, c assigney em Relem dito dia me~:,
e anno: E dcda1·o que logo entreguei ao dito Procurador o rezumo das (:UI-
pas pela sincu horas Ja tarde- Juú Antonio de ( )Ji, eira ~bdmJo.

D.\ T.\. E cn:\cu·z.\o


Aos onze dias do mcz de Janeiro de mil sete.:cntos sincocnta c no\·c
pelas seis horas da tarde me foram dados estes autos pelo Dezcmbargador
dos Aggra\·os Eu1ebio Ta,·ares de Sequeira com as razoens, c artigos, que
logo ajuntei por appenso aos mesmos autos. E os fiz ümduzos ao Tribu-
nal da :\leza das Ordens na forma do .\l•;lrá de Sua .\bgestadc. E eu Jozé
Antonio de OJi,·eira .\tachado que o escrc,·y =- Concluzos ao dito Tribunal
nu mesmo dia onze Je Janeiro, pelas nu\·c horas da noute.

SE:l\TE:\Ç.\

\"istos estes autos, Ah·arã de Sua .\lagestade, e Ordem nelle dada,


como Rcy, e como :\lcstre, pela qual !"orão remetidos a. este Tribunal com-
petente para conhecer das cauzas cnmes dos Ca' alle1ros, c. Commenda-
dores das Ordens Militares, ainda quando estes commettcm cnme de I eza
:\laocstadc c de Traição, e rebellião contra a Pessoa Real, e contra o Es-
tad~, na c~nformidade da Bulia do Santíssimo Padre Gregurio Decimo ter-
ceiro, que concedeo jurisdição au Tri~unal da .\le7.iJ. da Conscie!"lcia, e Or-
dens para tomar conhecimento das duas culpas, e as sentenc•ar ~om as
penas de Direito, c .:om as de Expulsão, e Degradação: E sendo nstas as
:.h:~uzasoens, que nesta ~leza propoz o Promotor Fiscal das ditas Ordens
nomeado para este effeito, contra Dum Jozé l\lascarenhas, Duque de A \·eyro,
e Commendador da Ordem de São Tiago, Francisco de Assiz de Tayora,
.:\larquez de 'LI\·ora, Dum Jcronimo de Atayde, Conde de Atouguia, Cum-
mendador da Orden1 de Christo, e Jozé :\lanõcl da Si!Ya Bandeira, CaYal-
leiro da mesma Ordem, as quais accuzasoens, e autos pela turp·eza Jus
crimes, que nellas, c ncllcs se trata, prm·a c notoriedade de tão atrotes
culpas, se fi7erão summarios, na forma _da Ley, e Ordem do dito Scnhu1·,
assignando-se aos sobreditos Reos Yinte e quatro horas percmptorias, para
dizerem de facto, e de Direito pelo Procurador, que lhes foi numeado: ,\o
qual sendo primeiro citados os H.eos cm suas pessoas se dêu Yista para ai-
legar no referido rermo tudo o que lhe parecesse, que pudia fazer a bem da
just=ça dos mesmos Reos, segundo o merecimento dos autos. Pelos lluais se
mostra que sendo os Reos por origem, nasc"mcntl\, e habitação naturais
d"este Reino, subditos, c Yassallos do dito Senhor, llllc era o que basta\·a,
c sendo ülem disso o Heo DCJm .lu7é Mas..:arcnhas ..:riado t:lo ..:hegado ü sua
Real Pessoa, o Reo Franósco de .-\ssiz de Ta\·ora General, e Dirc..:tor Ge-
ral de toda a CU\·aller:a do Reino, e Conselheiro de Guerra, u Reu Dom
Jcrunimo Je ,\taydc, utli..:ial das Tropas, en..:arrcgadas de fazerem a guarda
do Pala..:iu Ju mesmo Senhor: E sendu ..:u_mo seus \"assa !los ..:riadusintimos,
c ufti..:iais da mayor ..:onfiansa, indispensaYelmcnte obrigados a guardar a
Sua :\lagcstade huma inteira lealdade, e a mais exacta fidclid.:dc, athé pelo
rcconhc..:imcnto dus muitos, e grandes beneficios, que da Real Grandeza, c
Benignidade ha\·ião recebido~ os H cus " fizerãu tantu pelo contrario, que
sem tcmur de Dcos, sem respeito ús Leis Di\·inas, e hUJ!lanas, c sem serem
de alguma surte scnsiYeis ao reconhecimento dos bencficius, como u sãu athé
as mesmas Féras com rebellião, traição, e ingratid:ío, nun..:a athé agora
\'Ístas, nem esperadas, conjurando-se com uutr~ts pessoas, igualmente ~tbo­
minaveis, c prc\·ersas, consp ·rarão de commum acordo, não nienos do que
contra a Preciozissima, e Gloriozissima YiJa de Sua l\lagestadc, niío só
machinando-lhe todos a morte do dito Senhor, mas tambem chegando a pôr
em execução o seu sacrílego, e exacrando intento, pelo enormissimo atten-
tado com que na noute de trez de Setembro do anno proximo precedente
insultariío a Suprema .:\lagcstade Jo mesmo Senhor, disparando contra a
st!a Real Pessoa de propuzito deliberado, e cum precedente cunfeJer<lção a
elle ordenada os infames, e temerarius tiros de bacamarte, que na car-
ruagem, que transporta\·a Sua Magestade da Quinta do Meyo para a de
sima nus Yestidos, que orna,·ão o mesmo Senhor na sua Beal Pessoa, fi-
zerão us horrorozus estragos e as graYissimas ·feridas que constão dos autus
do curpo Jo Jelicto, commettenJo os mesmos Reos pela conjuração, e confe-
deração, que abortiirão aquellc enormissimo insulto, c pela exacranda atro-
cidade dclle os horri\·eis crimes de Parrecidio, Alta traiçiío, e rebellião con-
tra seu Rey e Senhor, contra seu Mestre, contra seus Estados, contra a
Patria cm que nascerão, e contra as Ordens :\Iilitares deste Reino em que
professarão. (} que tudo \·isto com a notoriedade Jas referidas culpas, e
crimes de Leza Magestade da primeira cabeça, cm que estão com·encidos:
A saber o Rcu Dom Jo7é ~lascarcnhas pelas suas proprias confissoens,
muitas \·czes repetidas, geminadas, c ratificadas cm forma judicial, ülem das
outras muitas testemunhas de \"Ísta, c facto 1~roprio, que manifestamente o
con·:lemnariãu ainda quando se tratasse de outro qualquer crime em que a
r rm a fosse menos pri,·ile~iada, c os Heos Fran.:isco de .\ ssil' de Ta\ ora, e
)om Jeronimo de \ rayde, por,JUC suppostu, liUC pcrtinumcntc negassem
ha\·cr-sc achado no referido insulto se a.:hão tamhcm plenamente êonYcn-
cidos por hum ~rande numero de testemunhas de ,·ist.t, c de fa.:ro proprio,
que cm qual,tuer .:ato, fazem proYa, .::unforme a Direito, para se concluir,
lJUC os ditos lh·os não so c.sta\·ão na conjuração, e confcderaç;ío, que se ti-
terão em ordem a se C(•mmetrcr o dito sacrilc~o insulto, mas rambcm lJUC
nelle· se a.::harãu para auxilia-lo com as suas Pessoas. E cm consideração de
tudo o referido, dccl.tr<Ío, que os snbrc,litus trct Heos, tem in.:urrido no
.:rime de L ela :\lagcstadc de primeira cabeça, de .\ lta traição, rehellião; e
Parrc.:idin, c como dc,lcais, rebeldes, traidores, c Parrecidias, contra seu
Re,· e Senhor lc~itimo, c natural, .::ontr·a seu :\h·str·e, c contra a sua Patria
os -hão por expl~lsos d.ts orJ.ns cm liUe furão Professos, c os priYãu dos
Habitos, PriYilcgios, Commendas, e Bens dt:lla:-.; alem do qm: us condcmnãu
cm confiscação, e perdimento de todos os seus bens, para o Fis.::u, e \.a-
mara Real, ha\ cndu-os por incur:-us nas mais pena~ estabelecidas cm Di-
reito, contra similhantes Delinquentes, e os dc~radão. c relaxão <i. curia, c
Justiça secular, condcmt)ando-os nas .::ustas dos autos. Pelo que pertence,ao
outro Reo Ca,·aleiro .Tozé 'lanocl da Sih·a Bandcir.t, Estrihciru que fui do
sobredito Dom .Tuzé :\bscarcnhas, attendendo-se a não hawr contra ellc
prO\· a sufficienh:, para ser relaxado peJa. culpa, que a seu cargo está de m1n
ha\ er delatado alguns dos Rcns deste dclictu, tendo nnti.::ia d'clles, depois
de o haYcrcn' Cvmmettido, n condcmnão a que \"Ü degradado por toda a vida
para o Reino de .\ngola, c cm .::onlis.::ação, e pcrd;mento de todos os seus
bens, pdra o Fisco, c Camar.!l Real, c nas custas dos autos. Palacio de
:'\ossa Senhora da Ajuda cm :\leta das ( kdcns :'\lilitarcs unte de Janeiro
de mil setecentos sincoenta c no\·e Com oito rubricas 0\i, eira '1achat4o.
=Fui pre7cntc = Com huma rubrica.

D.\ T.\

E logo no me::-mo dia mct, c annu asima dcdarado, me fur:to dados


estes auto~ pelo Dctembargador •do Paço Pedro Gonsah es Cordeiro, De-
putado da :'\ll"ta da Conscicncia, c Ordens, e .luil' Rdlator desta cauza. para
notiri.::ar a mesma Sentença aos Rcos ndla condemnadus: E cu .Jozé Anto-
nio de Ofi,·eira 'lad-IaJo, Dc~:embargador da Caza da Supplicação que o

CERTID.\l > DE 1:\TDL\<.:.\.l >

Jo7é Antonio de Oli,·cira ~la.::hadt~, Dczcmbargador da Cata da Sup-


plicaçãu, e nomeado para escrc,·cr nesta diligen.::ia, certifico, c porto fé, que
cu intime• a Sentença aos Hcos n 'cll.t assima declarados, que cllcs muito
bem intenderão pelas sete horas da manhã do dia de hoje dul'e de Janeiro
de mil setecentos sincoent.t c no\ e, sobredito o cs.::rc\·i, c assi~ne\". Bclcm
dia mel', c anno assima dc.:larado Juzé .\ntonio de Oli,cira :'\tachado.
CONSCLTA
/
Senhor. Nesta Junta se tem visto os autos do Sacrílego, e Exacrando
Insulto, que com detestavel premeditação, e Diabolica confederação, se
commetteo na noute de trez de Setembro do anno proximo passado, contra a
Real, e Sagrada Pessoa de Vossa ~laJestade: Pcrtendendo os Barbaras Reos
d'aquelle ferozissimc, e nunca athé agora cogitado delicto, não só arruinarem
na mais ama\·el, e suspirada Vida, com o benificentissimo, e gloriozissimo
Governo de Vossa .Magestade, o maior mais importante, e mais incompa-
ra\·el interesse, que á utilidade publica d"estes Reinos, ou conseguia, ou se
-animou a esperar por beneficio da .Mão Omnipotente, desde a primeira
Epócha da sua fundação, athé o dia de ho' ·, mas tambem exherdarem ao
mesmo tempo, aquelles infames particulares Monstros da Sociedade Ci\·il
os Vassallus, que a Clementissima BeRignidade de Vossa Magestade bent:-
ficiou, alimentou, e honrou sempre como Filhos da commua reputação
d'aquella incorrupta lealddde,. e iilibada fidelidade, que os seus Mayores lhes
transmitirão, em inaliena\·el Patrimonio para as conservarem sempre, c<:>mo
inviola\·eis, e como sacrosanctas. E porque nem as Leis Patrias athé agora
escriptas, derão, ou podião dar toda a necessaria providencia, para se cas-
ttgar huma ferocidade tão inaudita, tão inopínada, tão insolita entre os Por-
. tuguezes, nem a just:ssima aflição, e universal clamor dos Povos destes
Reinos, se puderão socegar, sem verem os mesmos Nefandos Reos puni-
dos, em tal form:1, que as penas possão ter a possível proporção com as
suas abomina veis culpas; nem os e:-..emplos, que as Historias offerecem dos
cazos similhantes, permittem a esperança, de que na prudente censura das
Cortes Estrangeiras, se julguem reparação competente de tão atrozes cri-
mes, e do horroroziss=mo escandalo que delles rezultou, os castigos, que as
ditas Leis tem estabelecido, para os crimes ordinarios: Supplica a mesma
Junta humilissimamente a Vossa :'\'lagestade,- que suspendendo por hora em
commum .socego de seus Fieis \' assallos, e satisfação athé dos mesmos Es-
trange.ros, a sua innata, adorawl, e nunca athé agora alterada Clemencia,
se sin·a de ampliar a Jurisdiçãu, e Alçada, que tem conferido aos Minis-
tros, de que se compoem a dita Junta, para extenderem o castigo destes in-
fames Reos, álem do que as Leis do Reino determinão, athé as outras pe-
nas, que pela pluralidade dos \·otos se vencer, que são mais proprias de
hum tão horrorozo, tão insolito, e tão estranho cazo. Palacio de Nossa Se-
nhora da _\juda em onze de Janeiro de mil setecentos sincoenta e nove=
Com trez rubricas= Pe.:l.ro Gonsah·es Cordeiro Pcreira=João l\larques B<i.-
calháo=Juão Pacheco Pereira de Yasconcellos=-=l\'lanoel Ferreira de Lima
=João lgnacio Dantas Pereira=-= Doutor Antonio A h-ares da Cunha e
Araujo.

REZOLCÇÃO,

Como parece. Belem onze de Janeiro de mil setecentos sincoenta e


nove =-o Com a Rubrica de Sua :\lagestade.
Da Junta de lnconfidencia, unLc de Janeiro de mil scteccnlos sin-
coenta c nove.
Sobre ampliar Sua :.\lagcstadc a Jurisdição, c .\Içada, guc tem con-
ferido aos :.\linistros de l]UC se compoem a mesma Junta para extenderem
álem do que as Leys do Reino dctcrminão, o castigo dos Heos, que cum-
metterãu o horronuo dclicto, infaustamente perpetràdo na noite de tre/ de
Setembro de mil setecentos sin.::ueitta c uitu, c da conjuração, lJUC abortou
o mesmo dcli.::to.

1>.\T.\ E CO:\CI.l"Z.\0
• E junta a referida Consulta, no mesmo dia mcz, c anno ass;ma e atraz
declarado tiz estes autos conduzos ao Dczembargadur do Paço Pedro Gun-
sah·es Cordeiro Pereira, Juiz da In.:ontidcn.:ia. E eu Jus~ :\ntunio de Oli-
veira :.\la.::hado, Dczembargador da ( :aza da Supplicação que o es.::rc\ y =
Conduzo.

A.::ordão os do Con~elho, e Dezembargo d"EIRe\· :\osso Senhor &a


Yistos estes autos, gue na forma da Ley, e D'e.:retos de- Sua :.\lagcstade, se
tizerão summarios aus Reos Jol!é :.\lascarenhas, que foi Duque de :\,·c iro,
Dona Leonor de Tavora. que foi :.\larqueza d"este titulo, Fran.:is.:o de As-
siz de T avora. que foi :.\larqucz do mesmo titulo. l.uiz Bernardo de Ta-
,·ora, que foi :.\larquez do dito titulo, Dum .lc~tonimo de Ataydc, que foi
Conde de Atouguia, Jozé :.\laria de Ta,·ora, Ajudante que foi das ( )rdens
do :.\Iarqucz seu Pay, Bra7 Jwé Homeiro, cabo de Esquadra da Compa-
nhia do Reo Lui7 Bernardo de "Ln·ora. Antonio ..\h·ares Ferreira, Jozé Po-
licarpio de .\ze,edo. :.\lanuel .\h·ares Ferreira Guarda roura do Reo Jo7é
:.\las.:arenhas, e João :.\liguei moço de a.:ompa;;itar do mesmo Reo Jozé Mas-
carenhas; Autos de corpo de deli.:ro, perguntas, c mais depoimentos, e pa-
peis juntos. allegaçoens, artigos, e defezas pelos mesmos Reos olferecidas
&_.a &.a &.a

E .:orno plenamt'nte se mostra pru,·ado pelas cunlissoens da mayor


parte dos mesmos Reos, e por muitas testemunhas de 'is ta, e facto pro-
prio que .:om e! las concordãu que o Reo Dum Jozé :.\lascarenhas ha\ ia
concebido huma temeraria, sa.:rilega. e inplac~n·el ira contra a .\ugusta, e
Sa.:ratissima Pessoa d"EI Hey :\osso Senhor ror ha,·er Sua :.\lagcstade dc-
zarmado com as suas Rcaes Pro,·idencias. e justissimas ordens as ma.:hi-
naçoens, com que o mesmo Heo tinha procurado artcticioza. e temeraria-
mente, não so arrogar-se no a.:tui,\1 felicissimo governo destes Reinos toda a
pernicioza influencia, que no mesmo go,·erno ha,·ia tido nos ultimas annus
do Reinado proximo pre.:edt'nte, mediante a authoridade de seu Tio Frey •
G.lspar da ln.:arnação, e não só que se julgassem inherentes aos bens Re-
gias, e patrimoniacs da Casa de :\' ciro. as importantes commcndas que ti-
nhão andado em ,-idas nns .\dministraJorcs da mesma caza, e cm que ~por
militarem ncllas as me:-.mas regras Jus Benelicios Ecdeziasti.:osj não pudia
o dito Réu pertender algum direito, sem o fundar no titulo pessoal, de lluc
t
32

absolutamente carecia, mas lambem pur lhe ha\·er o dito Senhor da mesma
sort~ impedido a celebração do marrimoniu, que acelerada, e cobiçozamente
havia ajustado entre seu filho o ~larquez de Gom·ea, e Dona Margarida de
Lorena, Irm::í immediata du Duque de Cadantl Dum :\"uno Caetano de
:\'lcllo, com o verosímel objecto de confundir pelo meio daquelle matrimo-
nio, como accessorio da sua propria caza a ·IIlustrissima Caza do Cadaval,
cujo actual AdmH-listrador menor, e sujeito ainda ao perigo das bexigas ~tão
funestas para a sua família~. alem de se achar no estado do celibato, pro-
curava elle Reu embarassar no mesmo tempo que passasse ao estado do
matrimonio, suscitando-lhe, e fnmentando-lhe pleitos, e execuçoens, que
p~IZessem as rendas do mesmo Duque menor em hum tal embarasso, que
nellas nãu hou,·essem os meios necessarios para se fazerem as despezas do
ca7amento, com que o mesmo Duque do Cada,·al de,·ia procurar a conti-
nuação da sua Illustrissima, e digniss:ma Caza. ( 1)
s .,-·

'lostra-se mats que o mesmo Reo Dom Jozé 'lascarenhas, sendo dia-
bolicamente concitado por aquelles malignos espíritos de soberba,. e_ ambi-
ção ·de cobiça, c de Í!"a implacavel contra a Au.~ustissima, e benificentissima
pessoa de Sua !\lagestade, passou logo a abrir o caminho aos outros absur-
dos, em que depois se deslizou pelas diligencias de alliciar, e atrahir ·a si
todas as pessoa-;, que sabia que se acha,·ão, ou justamente separados do
Real agrado du mesmo Senhor, uu iniquamente discontentes dll fclicissimu
gu,·crno de Sua 'la•.{est~-:ie: Procurando aliena-las, ainda mais com os per-
n;ciozissimos nemplos da sua sacrílega detracção, c do seu adio ao Real
serviço: Fugindo infamemente deli e: Che,.{ando a proferir a blasfemia de
que para elle Reo era o mesmo mandarem-no hir au Paço do que curta-
rem-lhe as pernas. 1'2) E chegando o seu temerario dezacordo a ltzongear-se,
e ouvir com approvaçáo, e consentimento, que jú não tinha para onde su-
bir, se n~ío para u throno sendo Rey. tJ)

~- 3_
'lastra-se mais, que o subreditu Reo, proseguin.fu este infernal, e
c~acrando systema, de uJio e s2diç<íu infames; ao mesmo tempo em que

( 1) Us factos de ha\·er pretentlido este Rco tornar a arrogar-se o t!ispotismo que


teve nos ultimas annos do Reinado proximé passado, ou pre.:e,\entc de penender a uzur-
paçfw das commendas, e de intentar tambem unir a sua caza á do Cadaval por e:aes
meios; são notorios a toda esta cone. e a todos os :'\linsstros que tem al~um conheci-
mento dos negocias do tempo prezente. E a sacrílega, e inplacavel ira, que o Reo conce-
beu contra a Real PesS'Ja de S. :\lagcstade com aquelles estímulos se acha expre,;sa-
mente confessada na reposta que fez á decima sexta das suas primeiras perguntas, e con-
cludentissimamente confirmada pelos outros factos abaixo de,luzidos. •
(2) Consta dos depoimentos do SJta co.:heiro Fran.:isco da C o na no appenso n.o ti
tio D. l'_aulo d'Annunciação, no outro appenso n. 10., e ~.: confirma p 1r IOdo.> os factos,
0

que ah~uxo se sq~uem. _


(li Pro\'a-se pelas testemunhas dom~sticas Fr:mcisco da Costa sola co.:heiro do
mesmo Reo no appenso 11. 0 ti .. \ntonio Dias seu .:riado .:oulidentt:, no <JUtro appenso n, 0 -l:l
e _s.: conlirma tambem por todus os fact·JS subsequentes.
33

entre di:!, e os Rdigiozos Jezuitas, ha,·ia a implaca,·el a\ ersão, c declarada


guerra, que por todo o tempo du ministerin do dito seu Tio Frcv Gaspar
da Incarnação, fel' em toda esta Corte, e Reino, hl.m tão geral,· c estron-
do/o escandaiG, e cm que depois do falecimento do dito Frcv Gaspar, ha-
via continuado notoriamente a mesma implaca,·cl ;n crsáo, entre elle Heo, c
os sohreditos Rcligiozos Jctuitas, Iugo l{Ue estes furão despedidos dus Con-
fessionarios de Suas ~\a~cstadcs, c .\!teLas, e que geralmente lhes foi pro-
hibido o ingn:sso no Paço, com os justissimos, e urgcntissimos muti\'os das
machinaçoens, t{Ue tinhão feito pall'a alien:trem da amitade, e união de Sua
~lagestade algumas Cortes Estrangeiras. e das ti,rnutes n:beliuens, e de-
claradas guerras com qtte ha\"ião inquietado o mesmo Senhor no l;raguay,
e no ~laranlüío, .devendo o Reo nestes termos cm raJ"áo do seu officio, e
Yassalajcm, fugir dos ditos Religiozos da Companhia, como de homens ern-
pestados, o fez tanto pelu contrario, que artcticiUJ:a, e deligentemente com
huma rcownsiliação repentina, e incompatível com a sua intlexivel soberb;:.,
tratou de se unir, e familiarizar com os mesmos Rdi~io.ws: \"izitando-os
cm todas as suas cazas com frequencia: Recebendo-os da mesma sorte na
sua propria caza: Tendo com elles muito largas sessoens; Pre\eninJo os
seus familiares, domesticos para lhe darem recado logo, que chegassem os
tais Religiozos: E recomcndanJo hum im·iohl\·el, caurelozo, e insolito se-
gredo sobre as reciprocas vizitas, que passaúio entre: elle, e os sobreditos
Religiozos Jetuitas. (t)

. ~ltlstra-se mais que os cxacrandos effcitos daquella rcconsiliação [tão


incompativcl com a soberba delle Rco, como com a conhecida arrogancia,
c Yingati,·o espirito dos ditos Religio7os~, forão hum o colligarem-se todos
os sobreditos, e declararem-se por inimigos da Auguc;tissima Pessoa de
Sua !\la~estadc, e do seu fclicissimo, c gloriozissimo gm·erno: Outrosim pas-
sarem com aquella confederação athé o horrorozo excésso de se assentar
entre todos elles de commum acordo nas conferencias, que com o mesmo
Reo se ti,·erão em Santo Antão em Santo Roque; e na sua propria caza=
que o unico meio que ha\-ia para se effeituar a mudança do goYerno do
Reino, que fazia o commum, ambiciozo, e detestavel objecto dos mesmos
confederados, era o de se ma("hinar a morte de El Rey ~osso Senhor:
Continuando todos a tratar cm cauza commua, sobre este sacrilego, e in-
fame projecto: Promettendo os mesmos Religio7os indcmnidade ao dito
Reo na execução daquelle infernal Parricidio com a reflexão, de que tudo
se ha,·ia de compõr, logo que acabasse a precio.~:issima, e glorio7issima vida
de Sua ~lagestade: Opinando os mesmos Rcligiozos. que não peccaria, nem
Ie\ emente, quem tosse parri..:ida do mesmo Senhor; E sustentando-se todos

(t) Prova-se plenissimamente por muitas testemunhas domesticas e de vista, como


s1n o Estribeiro Jozé :'\lanoel no appcnso 3. o Po:rteiro \lanoel da Costa no appenso .J.· o
Bolieiro Fran~·isco d.t Co,ta no appenso ti, o :\Inço da Estribeira Antonio \lartins nn
appenso n. 0 7· o \1oço de acompanhar. e contillcnt.: .\ntnnin Dia~ no appensu X. 11. Paulo
da .\nnun.:iação no appenso to., .: tudo se acha corroborado pela propria contissáu .lo
H.eo na resposta sobre a primeira das segund.ts pergunta:;, que lhe forão fei:as,
3-J.

estes 1\lacha,·elicos, detesta~·eis, e -ferozes enganos, piarum aurium, offen·


ciYos nos repetidos conventiculos, que entre os ditos Religiozo.s, e o mesmo
Reo, e outrQS seus socios no delicto se tiverão sobre esta infame, e abo·
minavel cunjuraçáo. ( 1)

§. 5.

::\lostra-se mais, que proseguindo o Reo, e os sobreditos Religiozos a


mesma confederação detestavel, e infernal conjuração, e obrando todos de
acordo commum, passarão a meter nellas a ~largueza Duna Leonor de
Tavora, apezar de toda a natural, e antiga aversão, que sempre tinha ha-
Yido entre a dita ~larqüeza, e o mesmo Reo, assim pela oppozição dos ge-
nios, como pela contrariedade dos interesses: Pois que não obstante, que
sempre houvera entre a dita l\larqueza, e o Reo huma declarada competen-
cia, sobre qual se hm·ia de exceder na ambição, e no orgulho, não obstante
a pungentissima inveja, com que a _mesma l\larqueza se afligia de ver a caza
do sobredito Reo exaltada sobre a de T avara em honra, e fazenda, e não
obstante haver o mesmo Reo feito ainda muito mais picante aquelle odio
com o muito que forcejou por aproveitar a auzencia do l\larquez Francisco
de Assiz de Tayora no Estado da lndia para no tempo della o privar dos
Prazos de 'largaride, e bens livres da sua caza, (2) apenr de tudo o refe-
rido de tal sorte obrou por huma parte a malicia dos ditos Religiozos Je-
zuitas, e pela outra a malicia do Reo, que effectivamente conseguirão me-,
ter a dita Marqueza na sua infame confederação.

§. 6.

~lostra-se mais em confirmação do referido, que entrando a dita ~lar­


gueza na referLda confederação assim ella, como os ditc.s Religiozos Jezui-
tas, tratan"io de persuadir a todas as pessoas do seu conhecimento, e ami-
zade, que Gabrid ~lalagrida, Religiozo da mesma filiaçam, era homem pe-
nitente, e santo, fazendo a dita ~largueza, como fez exercicios espirituais,
guiada pela direcção do dito Religiozo, mostrando que seguia inteiramente
os seus dictames, e conselhos, e cauzando com estas ostentaçoens de crença
no dito Gabriel l\lalagrida, e de s~1jeição ao seu espirita, damnos tão gra-
' es, e tão perniciozos, como farão: Primeiro fazer esta Ré a sua caza h uma
quotidianna assemblea de improperios, e calumnias para concitar aversão, e
odio contra a Real Pessoa de Sua ::\'lagestade, e seu fdicissimo gm·erno: •
Segundo: ser a conYersação ordinaria da mesma caza, hum a continua pra-
tica de traiçuens, e machinaçóes, contra a Real Pessoa do mesmo Senhor, as-

(•) Prova-se pelas testemunhas citadas na Nota n.o 4· pelas proprias confissões do
mesmo Reo na resposta sobre a primeira das segundas perguntas, ntificada, e repetida
na f•Utra resposta, sobre a _primeira das terceiras per~untas: E tudo confirmado pelos
outros diabohcos factos que abaixo se seguem.
(2) Ambos e:-tes fac10s da antecedente oppozi.;ão entre o Rco, e a Caza de Ta-
,·or<~, e das diiigencias que o mesmo Reo fez para uzurpar os Prazos e bens livres da
mesma caza sf10 a todos notoriQS.
35

sentando-se ndlas, cm que seria muito util, c}uc: o mesmo Senhor deixasse
de dn~r, c fal'endo-sc: sobre este abominav.e prin.:ipio na ca/a da mesma
:.\larque.la muitos dos ajustes, e confeJc:raçõcs para se commetter, e sus-
tentar o sa.:rilc:Ju ins~lito da noutc: de trc.l de setembro do annn proximo
passado: Ter..:eiro: Confederar-se a m~sm..t :\l:tr,pcza por aqudla confor-
midade de sentimentos dctesta,·eis .:um o Ou,JUC de .\\·eiru, a..:hando-se com
ellc: nos outros ajustes, c machinaçoens. qne se tit.c:r.ío em .:aLa do .mesmo
Duque. para se pri,·ar El Rc:y ~osso S~:nhor da sua pre.:iozissima, e glo-
• rioússima Vida. atim que assim cessasse o feli.l go\'l!rno du mesmo Senhor:
Quarto: Confederar-se tambcm a dit.I :\br,Jucza, álem do rd.erido Gabriel
:\lalagrida, seu continuo, e absoluto Dire.:tor. tambem com os Jczuitas .João
de :.\latos, e João .\lexandrc, e outros; (I) Quinto: Constituir-se a mesma
:\tarqueLa huma das trez prin..:ipais cabeças desta barbara, e hurrivc:l conju-
ração, para a propagar, procurando com a sua al:nhuriJade e artifi..:io pel-
los meios assima declarados, e outros, metter na mesma conjuraçüu toJas
as pes-,;oas, que lhe foi possi\"el iIludir: Sexto: Em fim assosíar-se a mesma
Ré imm~:diatamente ..:om os per.fidos, e sacrílegos executores do cxa..:rando
insulto da noute de trcz de Setembro do anno proximo passado, contri!
buindo com dezeseis moedas para parte do premiu que se deo aos infames,
e detesta,·eis monstros, que n 'aquella in faustissima noute dispararão os sa-
crile5os tiros, qu-! fizcrão os enormissimos estragos, que toJos deplora-
mos. l2) '

:.\\ostra-se mais, que proseguindo a mesma :\larqueza aquelle abomi-


navel plano. e tendo-se arrogado a dispoti.:a dire..:ção de rodas as acçoens
do :\larquez Francisco de .\ -;siz de Ta, ora seu nurido, de seus filhos, e fi-
lhas, genros, cunhados, e uutras pessoas, abuzando infamemente daquella
authoridade, com que a todos dirigia para os pen·errer: Foi a que arreba-
tada por um espírito da Lu.:iferina soberba de dominar, e da hydropica co-
biça de adquirir, associando-se a estes fins ..:om o Duque de A \·e iro, e com
os ditos Religiozos Je7uitas, ..:omo ti.:a mostrado; illaqueuu ímpia, e deshu-
manamente na mesma confederação, e n6 horri\·el insulto da noute de trez
de Setembro do anno proximo pa-;sado, os ditos seus marido, filhos, genros,
cunhados, e amigos, como se \"erü logo servindo-se para instrumento desta
infernal obra, não só da opinião, que tingia. ter da chamada santidade do
sobreditu Gabriel :\lalagrida, mas tamhem das ..:artas que ellc frequente-

( 1) .\ssim se pron~ pelos depoimentos. e fa~!Os proprios de. pessoas tão conjuncta~,
.::orno são o :'llarquez l.utz Bernardo de Tavora tHho desta abomma,·el Rc no appenso h.
o conde dt: "\toup:uia, p:enro da mesma Ré no oulro appenso 7· o Duque ~e .\velro, cu-
nhado da mesma Ré, no oulro appenso t8; e nelle na resposla sobre a dectma nona das
primeiras pergun1as, na outra resposla sobre a decima das lerceiras perguntas, e no
arrenço n. 0 t.5. Antonia- .luzé I t:l!iío, escudeiro da S•"lbrcdila.
(:!) .hsim o .terõz de factn prnprio o mesmo OulJUe de :heiro na resposta sobre a
nona ,bs 1er.::eiras pcrgumas que: lhe furão fci1as, depois de haver declarado as conas
panes, cüm que c.tJa hum dos oulros sucios havid .:oncurrido para aquelle sor,lidis~imv
premio.
3fi

mente lhe escreYia para persuadir a todos os seus parentes, a que fossem
tomar exerci cios a Setubal com elle :\la\ agrida. ( 1)

§. 8.

.\lustra-se ma1s que em consequencia daquelles diabolicos anteceden-


. tes o primeiro dos sequazes, que mizera,·elmente se precipitou na infamia ..
da dita conjuração, foi o ::\larquez Francisco de 1\.ssiz de Ta,·ora,. sendo ar-
rastado a cahir no mesmo precipício, pelas presuasoens da dita Marqueza
sua mulher, do Duque de Aveiro seu cunhado, e dos ditos Religiozos Je-
zuitas: De sorte que chegou a fazer a SLÚl caza huma infame officina de
confederaçuens, traiçoens, e machinaçoens, contra a Alta repmação, e pre-
ciozissima Yida de Sua ::\lagestade. achando-se tambem .com os mesmos abo-
minaYeis fins nas prenici~zas praticas e confederaçoens, que ti,·erão, e fi-
zerão em caza do Duque de Axeiro, para se mudar o governo de Sua ::\la-
gestade, e se privar o mesmo Senhor da 'Sua preciozissima \"ida: De sorte
que chegou a le,·ar ao mesmo Duque doze mbedas, ou sincoenta e sete mil
e seiscentos reis. que lhe couberão pela sua quotta parte no ,·ilissimo pre-
mio que se dêo aos dois Assassinos ao diante declarados, antes de commet-
terem o insulto de trez de Setembro çlo anno proximo passado (2 ). De
sorte que logo ao tempo do mesmo insulto pela publica ,·oz, e fama, e pela
opinião e sciencia certa dos familiares de ambas as cazas, e dos socios do
subredito insulto. foi reputado, ·e declarado o dito ::\larquez Francisco de
.Assiz por hum dos curréos daquelle exacrando delicto: ProYando-se sobre-
tudo espesificamente, que para elle concurreu, e que nelle se achou em huma
das emboscadas, que infamemente se armarão naquella funestissima noute
de trez de Setembro do anno proximo passado, para que se E\ Rey Nosso
Senhor escapace de humas, fosse cahir nas ouu·as (3): De surte que de-
pois do referido delicto na mesma noute delle foi ,·isto quando se recolhia
das ditas emboscadas, na terra, que fica por detraz do Jardim do mesmo
Duque de Aveiro, praticando com os outros corréos, sobre o mesmo deli-

(1) Assim o prováo as concludentes testemiJilhas que ficá o indicadas nas notas mar-
ginaes n.u 7· e 8. e o confirma ;nteiramente o qu~:: a este respeito depoem o .\larquez Luiz
Bernardo de Tavora no appenso n. 0 6. E o corrobora hum grand~:: numero de canas ori-
ginaes do mesmo ~lalagrida achadas no Gabinete da dita l\larque7a, que vfto juntas aos
autos. ·
(2) Assim o depozeráo de vista, e facto proprio no appcnso n." o :\larquez Luiz
Bernardo de Tavora no outro appenso n." o conde de ,\ tnuguia, e no outro appenso
n." o l>uque de Aveiro: a saber na rcsposra sobre a decima nona das primeiras pergun-
'
~a~. na outra resposta sobre a segunda das ditas terceiras perguntas, e na outra resposta
sobre a quinta das mesmas terceiras pergunias. ·
(3) .\ssim o provão concludentissimamente no appenso 3. o depoimento de Jozt!
l\lanoel Estribeira do Du..:jue de A,·eiro no appenso 6. Francisco da Costa Bolieiro do
mesmo Duque no appenso 8. Antonio Dias, Moço de acompanhar, e contid~::nre do mesmo
Duque no appenso t3. Braz Jn7é, Cabo de Esquadra do i\larquez de Ta,•ora filho, e
grande confidente deste e ,\o :\larquez seo Pai no appenso n." o mesmo :\larqueJ:
Lui7 Bernardo filho do Rco de qu~:: se trara tlf• oU'! ru <tppcnso n.• o C(J'lde de Arou-
guia genro d,, mesmo Reo no appenso 1 ;_ João Ucrnardo Moo;u de acompanhar do me~mo
:\1arquez.

..
'
c to, que todos acaba,·ãn de au:-..ili.tr: ( 1 1 E de sorte, lJUC tambcm se ..1chou
na. Junta ~os parentes, ou antes conciliabulo, que na manh<í pro\ ima se-
gum_re a? msultu de trez de Setembro se _tc\·e cm ca1a do mesmo l>uque de
.-\ H!lro, m.:repando nellc huns aos .\~sa~!>II10s, porque não ha\ ião c\ccutado
o golpe _.:_um tu?o o seu pernicio~issimo ~feito, ~ jactando-se outros, de que
o ha\·enao a.ss1m executado se 1·.1-Rey :\osso Senhor hoU\éS~c p;t~sado pc-
las emboscadas, onde clles se ach;l\ ãu de mão posta p.u·a o esperarem (~J •

..\l•)Stra-sc mais que o segundo dos sc~1ua1es, que a dita ..\la•·qucn


Dona l.eonor de Ta\ ora, o Duque dt: .\ ,-eiru, e os ditos Religio1us com el-
les confederados, mctterüo na mesma infame conjuração, illudindo-o pelas
upinioens Jus ditos Rcligiozos Jcluitas, pelo espírito de (~ahriel ..\lalagrida,
c pelas calumnias contra a Augustis;Sima Pessoa de Sua ..\la~cstade, c con-
tra o felic!ssimo e gloriozissimo gm·erno do mesmo Senhor, fui o ..\larquc1
Luiz Bernardo de Tan>ra, proY:.mdu-se contra este Réo que ou concurria cm
caza do Duque de .\\·ciro quazi todos os dias, ou era por elle ,-ilitadu: (3l
Que por isso se achou prelcntc <is perni.:ioli-ssimas praticas de calumnias
sacrílegas, e de conjuraçocns infames que se ti\·erãu cm casa dos ..\lar..:tue7es
seus Pais, e do Duque de .\ wiru: q) Que com t:lfeitu entrou na s1 •hredita
confederação, olfereccndo armas c ca\·allos para se commcttcr o sacrílego
insulto: (S) Que dois dias antes de ellc ser cummctido, ha,·ia mandado
com cautdoza prcn~nção dois cantllos apparclhados, c cubertos com teli1-es
para a ca\·alhcriça do Duque de A\·eiro: (l11 Que depois de ha\er estado
contra o seu costume na tarde do mesmo dia de trez de Setembro pro:-..ima
precedente ao mesmo insulto de que se trata, recatado, e fechado com o
..\larquez seu Pai, com Juzé ..\laria de Ta\ ora, seull·mão, c outros, tratando

{I) Pro\· a-se no appenso .!. pdos milagroz<1s dcpoiJ!l~ntos lle Sah·ador Jo7~ Durão,
e lle ~larianna Thereza nu appensu n. 0
o Duque de :\veuo nas re.;postas que deo sobn:
a primeira das quanas per~unlas que se lhe fizerão no appcnsu t5. João Bernardo :\l<1t;O
de acomranhar do mesmo Mo~rquez.
. (2 .\ssim o proYáo no a prenso 3. Jo~ê Manoel da Silva, Estribciro do Duque ~e
.-\vetro no appenso 4- Manoel da Custa, Portetro do mesmo L>uque no appenso n.• Lutz
Bernardo dt: T:n-ora filho de~te R. no appensu n.• u Duque de .\veiro na resposta ~ue
dC:o sobre a se1ima das terceiras perguntas no appenso 15. Jozé .\ntonin Bol~eiro do dato
:\larquez no mesmo appenso, João Bernardo, )1oço de acompanhar do dno ::\larq~ez.
jj) Assim o prova no appenso n.• 3. Jozé :\lanoel Estribe1ro do Duque de ._\n:aro;
no appenso -1-· :\lanoel.da Cosia, Porteiro do mesmo Duque: no appenso 7· Amomo Mar-
tins, :\loço da Estribeira, que acompanhava o me~mo Duque: nu appenso 9· :\lanoel .-\l-
vares Ferreira. Guarda roupa do mesmo Duque.
. (-1-) .-\ssim se prova dos mesmos depoimentos proxir11t! supra, o~de const~ da sua
conunua assistt:ncia naquellas cazas, onde somente se trat.tva -llestas ult1mas prau~·as, e o
confessa este mesmo Reo no app.:nso n.• . .
(5) .Assim o proví10 no appenso 3. o depoimento de Jozé ~lanoel, _Estnbe~ro ~o
I?uque de_ Aveiro no appenso n.• ~~~. o mesmo l}uque nas dedara..;oes que tez a pnm~1ra
tlas terceuas perguntas, e na resposta. que de o sobre a se~unda das mesmas tt:rc.:uas
perguntas, e sobre a 11. e 12. dellas. conhrm.mdn-se tudo .:xuberanlem.:me pelo~ que su.:-
ce.;siyamenre se seguirão.
(6).


38

sobre o mesP1o insulto, se achou com effeito nas embuscadas, que naquella
funestissima noute de trez de Setembro do anno proximq_ passado se arma-
rão contra a Augustissima, e preciozissima vida de Sua Magestade, para
que se escapasse de humas, não podesse dei:-..ar de perecer nas outras, que
se acha vão postadas, entre as duas Quintas: ( 1) E que em fim na manhã
proxima seguinte ao dito insulto da noute de trez de Setembro proximo pas-
sado se achou tambem na junta de parentes, ou antes conciliabulo, que se
teve em caza dos Duques de Aveiro, increpando nella alguns dos circuns-
tantes aos Assassinos que disp:1rarão os sacrílegos tiros, com o pretexto de
r:ão terem estes produzido todo o seu detestavel effeito, e lizongeando-se
outros, de que o mesmo abominavel delicto, se teria consumado, se a car-
ruajem de El Rey Nosso Senhor, houvesse passado pelo lugar, donde a
espera vão os que fazião esta barbara, e sacrílega jactancia: (2J

§. 10.

1\lostra-se mais que o Terceiro dos Sequazes, que os mesmos trez se-
diciozos, e detestaveis ·chefes meterão nesta infame conjuração, e precipita-
rão neste sacrílego e barbara delicto, foi o Conde de Atouguia Dom Jero-
nimo de Ataíde, genro dos sobreditos Marquezes Francisco de Assiz, e
[\:>na Leonor de Tavora, o qual se prova, que quazi todas as noutes, con-
curria com a condeça sua mulher nas sediciozas, e abominaves prat:cas, que
se tinhão em caza dos Marquezes seus sogros; (3) Prova-se que nas mes-
mas praticas, foi pervertido pela dita sua sogra e mulher athé ao ponto. de
seguirem tudo e por tudo os abominaveis dictames da dita Marqueza sua
sogra, e as detestaveis doutrinas dos Religiozos Jezuitas, inspiradas por
Gabriel MalagriJa, João de Manos, e João Alexandre, e de cobrar huma
grande aYersão á Real Pessoa, e ao feliz governo de El Rey Nosso Se-
nhor: (..t-) Prova-se que por isso concurreo a condeça mulher deste Reo
com oito moedas para o indignissimo premio dos Assassinos que dispara-
rão os sacrílegos tiros, e que entrara con1 os Jezuitas, Malagrida, João de
1\Iattos, João Alexandre nesta conjuração: Provando-se finalmente que este
Reo foi sacio nas esperas que se fizerão a Sua 1\Iagestade na mesma in-

(t) Assim o provão tambem concludentemente no appenso 3. Jozé Manoel da


Silva Estribeira do Duque de Aveiro: no appenso 6. Francisco da Costa Bolieiro do
mesmo Duque: no appenso 8. Antonio Dias criado de acompanhar, e confidente do
mesmo Duque: no appenso t3. Braz Jozé, Cabo de Esquadra, comprador,.e confidente
deste mesmo Reo, e do 1\larquez seu Pai: no appenso 14- Domingos Marques, Moço da
cavalharice do Duque de A,·eiro.
{2) Assim o provão no appenso 3. Jozé Manoel da Silva Estribeira do Duque, de
Aveiro: no appenso 4· Manoel da Costa, Porteiro do mesmo Duque: no appenso n. o
mesmo Du9.ue na resposta sobre a setima das terceiras perguntas: no appenço t5. Jozé
Antonio Buheüo do Marquez Pai.
. (3) As~im. se acha liquido no appenso n.• pela propria confissão deste Reo, re-
peuda em dots dtfferentes Jogares, e o confirmão os factos subsequentes.
· (4) Assim o prováo no appenso n.• o l\Jarquez Luiz Bernardo de Tavora, cu-
nhado deste Reo no appenso n:• o confessa o mesmo Reo no outro appenso n.• o
Duque de A~eiro na resposta da decima nona das primeiras perguntas, e na outra res-
posta sobre a oitava das terceiras pergumas .


faustissÍf!!tl noute de treL de Setembro do anno proximo passado: ( 1) E
que por 1sso a Condeça sua mulher se achou na fatua, e desorden.tda junta,
ou .\ssemblea de parentes, que na manhã prm.ima seguinte ao insulto se
teve na forma assima declarada nas cazas ·do Duque de \'e iro, si tas no
lugar de Relem. (2)
§. 11.

:\lustra-se mais que o Quarto sequa.t que os sobreditos trcz Chefes,


ou_ cab~ças i_llaqucarão nest~ conjuração pelos modos que tido relatados,
fm Joze :\lana de Ta\ora, AJudante das Ordens do :\larquez de Ta\ura seu
Pai: Pois que se prova, que sendo este moço, e. \·erde otlicial, pervertido
pda :\larqu~7a sua :\lãy nas pernicioLiss=mas praticas, que em sua ca?a ti-
nha, como hca mostrado, não so entrou na confederação dos outros socios
deste horri,·cl ddicto, dando-se por discontcnte, e aggra\"ado do gm erno de
Sua :\lagestadc: l3) mas qmbcm yue se achou nas incidiozas, e sacrílegas
emboscadas, que na dita jnfaustiss·ima nome de treL de Setembro do ai1no
proximo passado se armarão contra a prc.:io7issima ,-ida do dito Senhor: i..J.l
Que da mesma sorte concorreu com os outros socios do dclicto no conô-
liabulo, que fizerão na mesma nuute delle, depois de commenidu, quando
se congregarão na terra, que fica ao ::\orte do Jardim do Duque de .\ \"eiro,
junto á pranchada que d;i senintia ás suas obras t:.). E que emfim se achou
tambem no outro conciliabulo chamado Juntâ', ou Assemblea, que na ma-
nhã prox ima seguinte ao insulto se te\ e nas caLas do Duque de A\ e iro,
sendo este Reo o que alli feferindo-se ao facto milagro7o, de se ter sal\"adu
a preciozissima vida de Sua :\lagest..tdc j proferiu as barbaras, e ferozes ra-
Ianas= câ pelo homem 11.io IJ,u•i,t de esc.:1p.n· = t•i ).

(1) Assim o pro\"áo no appenso íi. Francisco da Costa. Boliciro do Duque de


Aveiro no appe:-~so R Antonio Dias. moço de acompanhar, e confidente do mesmo Duque:
no appenso n.o o i\IDrquez Lui.l Bernardo de Tavora, cunhado deste R.:o: no outro
appenso n.o o mesmo Duque de A\·eiro na resposta sobre a primeira das quartas per-
guntas: no appenso J5. o moço de acompanhar do :\larque.l Pai João Bernardo. {
(2) Assim o provão no appenso ~- Manoel da Custa, Porteiro do Duque de .\veiro:
no appenso n. 0 , Luiz BPrnardo de Tavora, cunhado do mesmo Reo. O mesmo Duque
de Aveiro na resposta da 17. das terceiras perguntas; havendo deposto na resposta sobre
a de 13.• das mesmas 3.•• perguntas, que a sobredita condeça se communicava, sobre a
conjuração de que se trata, não só com as pessoas, que assistirão na dita .\ssemblea. mas
com outras di,·ersas: no appenso t.5. João Bernardo moço de acompanhar do Marquez Pai.
(3) .\ssim o prováo no appenso n. 0 " :\larquez Luiz Bernardo de Tavora irmão
deste Heo, no appenso n.o o Duque de .\,·eiro seo Tio, pela resposta que deo sobre a
oitava das 3.•: perguntas, e se confirma tudo pelos facws su~scquenre~. .
(~) Ass1m o provão no aprenso 3. Jozé :\lanoel da S•h·a, Esmbe1ro do Duque de
A,·eiro: no appenso n. 0 o :\larquez Luiz Bernardo de Tavora. Irmão deste Reo: no
outro appenso n. 0 o Conde de Awuguia, cunhado do mesmo Reo: no outro appenso
n. 0 o mesmo Duque de A,·eiro no preambulo das 4.•• perguntas, que_lhe Corão feitas·: no
appenso n. 0 t5. João Bernardo, moço de acompanhar do :\larquez P:u. .
(;) Assim o provão no appens? "l. Salvador Juz.! Durilo, que o p~ez~nctou : no
outro appenso n. 0 o Duque de A\etru, na resposta, que dco sobre a pnme1ra das 4·""
perguntas.
(6) Assim o· prová o no appenso n.0 o \lar~uez Luiz Bernardo rl~ Ta\ ora, 1rf!1áO
deste Reo: no outro appenso n. 0
o Duque de Avetro na resposta que deo sobre a seuma
das 3.•· perguntas.
§. 12.

~lostra-se mais, que o Quinto sequaz, que os sobreditos trez chefes,


ou cabeças desta infame conjuração, metterão nella, e no sacrilegu insulto,
que della se seguiu, foi Braz Jozé Romeiro, constando pela sua propria con-
fissão, que desde o anno de mil setecentos quarenta e nm·e viwra sempre
com os :\larquezes de Ta,·ora Francisco de Assiz, e Dona Leonor de Ta-
vara, com os quais foi naquelle anno para a India, e com os quais voltou
da mesma India: Passando de caza destes para a de seu filho o ;'\larquez
Luiz Bernardo de Ta,·ora: E sendo cabo de Esquadra da sua companhia,
comprador da sua caza, e grande seu \·a lido: ( 1 1 Por cujas qualidades se
manifesta na sua mesma confissão, (2) que o dito :\larquez Luiz Bernardo
de Tavora, não só lhe hm-ia confiado o que na tarde proxima precedente á
noute do insulto, ha,·ia passado com seu Pay, e Irmão nos conventiculos,
que com elle fizerão, mas tambem, que os ditos Marquezes de Tavora Pay,
e filho o encarregarão, pedindo-lhe segredo de guiar os trez cavallos, que
na· noute do insulto mandarão apparelhar, armar, e derigir ás terras, onde
foi commettido o mesmo insulto_: (3) Provando-se sobre todo o referido
que este Reo com effeito, se achou nas sacrílegas emboscadas, que na noute
em que se commetteo aquelle exacrando delicto, se armarão para esperarem
a Sua l\lagestade, sendo em huma dellas o socio que esteH na companhia
do :\larquez Francisco de Assiz de Tavora: (41 E constando que tambem
se achou no conciliabulo, que os socios das ditas emboscadas foram fazer
depois, que sahirão dellas, na terra que fica ao Norte do Jardim do Duque
de Awiro t5).
§. x3.
:\lustra-se mais que o Sexto, e Setimo Sequazes, que o chefe desta
conjuração Jozé :\lascarenhas [antes Duque de AveiroJ metteo ·nella, furão
os Reos Antonio Ah·ares Ferreira, guarda roupa, qu tinha sido do mesmo
Jozé :\lascarenhas, e Jozé Pulicarpio de Azewdo, cunhado do mesmo Anto-
nio Alvares: Provanqo-se plenamente, que o dito Jozé Mascarenhas, encar-
regou o seu actual guarda-roupa :\lanuel Ah-ares de mandar chamar o dito
seu Irmão Antonio AIYare~: Que este com effeitu viera fali ar ao dito Juzé
Mascarenhas; Que o mesmo Juzé ~lascarenhas, fallando-lhe em uma bar-
ráca que está por de traz do Jardim das suas cazas de Bellem, lhe partici-
pára em grande segredo o mandato para esperar a carruagem, que conduzia

(t) Asstm se prova no appt:nso t3j pela propria confissão deste Reo, e se confirma
pelos factos subsequentes.
(:J.) No mesmo appenso J3.
(3) No mesmo appenso J3. pela propria confissão deste Reo.
(-J.) Assim o prova no appenso n. o= o mesmo Marquez Luiz Bernardo de Tav01 a:
no outro appenso n. 0 =o Conde de Atouguia: no outro appenso n." =o Duque dt:Aveiro
na resposta que deo sobre a quarta das 3.•• perguntas, denominando-o pelo cabo de Esquadra
de quem se costumava fiar o !\larquêz, que hé o que basta, constando da Pessoa, e tornando
a ratificar o mesmo nas declaraçoens, com que_ fez preambulo ás quartas perguntas.
(5) No appenso 1 •- Salvador José Durão, sendo combinado com o que depõz o
Duque de Aveiro nas declarações, que fez ames das quartas perguntas, vendo-se que este
Reo, foi o dos calções brancos, que o dito Salvador Joze não tinha conhecido.
-P

Sua ~lagcstaJc da Quinta do ~lcyo para a Quinta de sima, on~le cst;í o seu
Real Palaóo, c de atirar cm companhia Jclle Ju.fé ~lascarenhas com duas
armas de fogo curta~. contra a dita carruagu11: Que muJandu dcpQis
a-1udle parecer, assentarão ambos, cm que cllc .\muniu .\h ares, faltasse
ao dito José Policarpio, lJUe era seu cunhaJo, para que u associasse ao e'-a-
crando crime de que se trata: Que com dfeito assim sucedera; de sorte
que ambos ticar:üo praticando com ellc Jozé ~lascarenhas, sobre as dispozi-
socns, para se commcttcr o mesmo dctest.tvel dclictu: Que com ctfcito fi,rüo
ambos os ditos Heos repetidas \etes a pé, c a cavallo cm comp:mhia dcllc
Jozé ~lascarenhas para lhes dar a conhecer a dita carruagem: Que para o
etfeito lhes mandara o•mprar dois ca,·allos dt·sconhccidos, como ellcctiva-
mente ct•mprou o Hco .-\nll•nio Ah·arcs, hum dcllcs a Lttiz de Horta. mo-
rador ao pateo do Soccorro por (jaatro moedas. outro a hum sigano cha-
mado ~lanocl Soares, morador em ~lan ilia por quatro moedas, c meia:
Que tambem lhes mandara o dito Jozé Mas.:arcnhas comprar armas desco-
nhecidas. as quais o sobreditu Reo .\nton·o .\!,·ares. não comprara. senin-
do-sc com o dito seu cunhado de húma .:ravina sua, de outra emprestada. c
de duas pistolas, I.]Uc pedira a hum E~trangciro. debaixo do pretexto de as
experimentar, morador cm ca1.a do Conde de ( rnh:io, e ~Juc Iugo depois do
insulto lhas h:n·ia tornado a restituir: Que estas forãu as armas, que os di-
tos Antonio Ah·ares. e Jozé Policarpio, h:l\·ião disparado contra a carrua-
gem. que conduzia Sua ~lagestadc, na mesma fune~tissima noute de trez de
Setembro do anno proximo passado. cm que se comctteo o insulto: Quc o
premio, que por elle receberão estes duus ferocíssimos Rcos do dito man-
dante Jozé ~lascarenhas. forão I.]Uarcnta moedas dezescis por huma vc1.,
I.]Wltro por outra. e vinte pur outra: Que logo I.]Ue descarregarão as ditas
armas sobre o espaldar Ja carruagem. I.]Ue transportava o dito Senhor. vie-
rão elle An~onío Alvares. e o dito scu cunhado, correndo pelas terras athé se
metterem na .:alçada I.]UC ,·ai por for;~. da Quinta Jo ~Ieyo. da qual sahinJo
pela tra\·essa do Guarda ~lor Ja SauJc. se retirarão lu~,, para a Cidade Jc
Lisboa: E I.]Ue emrim \indo o Réo .\ntonio Alvares Ferreira Juis dias depois
a caza do sobredito Heo mandante por ha\·er sido por clle chamado. o in-
crepara muito, dizendo-lhe que os til·os n.fu h.ll'i.fo p1·es!.1do, proferindo ~com
o dedo na bôca. c muito dc1.afogado J as pala \Tas=- C.zlur.i.z que nem o 1Ji.1bo
o pode saber, se tu o não .iiceres~ e rccommcndanJo-Uie que 11.fo ren.iesse lo!(o
os car.zllos por se 1;ãu suspeit .zr: De sorte I.]Uc estes _horrorutissimos Reos An-
tonio .-\h-ares Ferreira, e seu cunhado Jol.é Policarpio Je Atc\'cdo, furão
indubita,·clmente os dois ferocíssimos monstros que disparar.io us tiros. Jc
I.]Ue a Real Pessoa Je Sua ~lagestade recebeu os"sacrilegos golpes. I.]Ue a
honra, a rideliJaJc, e o amor filial Jus Yassallos destes Reinos Jeplorãu
com infinitas lagrimas t 1).

11) Assim o prová o plenissimamente: no appcnso 11. os dcpoimentqs de :\lanoel


Alvares Feneira, Guarda-roupa do Mandante Jozc! :\las.:arcnhas. E foi o ~ue chamou eo;te
Reo mandataria, e a pessoa a ~uem elle cunfeo;sou lut:o .:omn Irmão o sacrilego dclicth,
que. tinha commetti~o: :'llo arpenso 12. a~ o.:o~fissoens e dedara.;oens do mesmo Reo .\s-
sassmo, e· !\landatano .\ntomo -\h·ares .fer.-etra, e se conobora tudo no appenso n. 0 -
pelas outras confissões do :\lan.Iante <Jrig;nario Jozc! :\lascarenhas na resposta que este
dt!o sobre a Jli. das primeiras pcr~ulll.b, ratificalias, e confirmadas nas terceiras. se~undas.
e -1uanas. ·
41

§. '-l·

Mostra-se mais que o Oita\o sequaz, que o mesmo chefe Jo7[:\lasca-


renhas, metteo nesta conjuração, foi o Reo Manoel AlYares Ferreira, o qual
mandou chamar, e chamou repetidas Yezes o sacrílego Assa~sino Antonio
Alvares Ferreira seu Irmão; o qual ministrou ao mesmo Jozé Mascare-
nhas os capotes. c cabelleiras, com que se disfarçou na noute do insulto: o
qual guardou em profundo silencio, athé o tempo em que foi pre7o. o claro
conhecimento, que o dito seu Irmão Antonio Ah·ares lhe ha\·ia dado trez,
• ou quatro dias ·depois do insulto da noute de trez de Setembro do anno
proximo passado, do mandato que recebera do dito Jozé Mascarenhas, para
o mesmo insulto, é da sa.:rilega execução que lhe haYia dado: E o qual em-
11m foi o que na Quinta de Azeitão commetteo a rezistencía, com que tirou
a espada da cinta ao EscriYáo Luiz Antonio de Leiro, quando honrada, e
rezolutamente suspendeu o sobredito Jozé ;\lascarenhas na fugida que inten-
tou fazer. t 1}

§. I:>.

:\lostra-se mais. que o Nono Sequaz, que os referidos chefes metteráo


nesta conjuração, foi João Miguel criado de acompanhar, e grande confidente
do sobredito Reo Dom Jozé Mascarenhas; (2) o qual constando pelo nome
de João, que na dita noute de trez de Setembro do anno proximo passado,
foi hum dos socios do insulto de que se trata; (3) Veio depois a declarar
seu mesmo amo que este Reo João ~liguei era o João que com elle se
achava associado debaixo do Arco, donde o mesmo Jozé Mascarenhas dis-
parou o tiro, que errou fogo contra o Bolieíro. (4)

§. t6.

Mostra-se mais, que com todas as confederaçoens sociedades, e auxi-


lios, que ficão relatados, dispozerão, e executarão os sobreditos trez Che-
fes, ou Cabeças desta conjuração, e seus socios assima declarados, o horro-
rozissimo insulto da referida noute de trez de Setembro do anno proximo
passado, com huma tal premeditação, crueza, e ferocidade, que sendo o

(1) Assim o prod\o concludentemente no appenso 12. o depoimento do dito An-


tonio Alvares Ferreira. No outro appenso n.• =a resposta que o dito Jozé Mascarenhas
dêo sobre o 16. das primeiras perguntas: e no appenso 11. as proprias confissões deste
Reo. ,
(2) Pro\ a-se no appenso 3. pelo depoimento de Jozé Manoel Bandeira, e no appenso
~~· pela propria confissão Jeste Reo. _
(3) Nu appenso 2. pelo depoimento de Sah-ador Jozé, onde s.: ,-ê, que este Reo ha-
via estado. em companhia do Duqut: de AYeiro, ao qual perg:.mtuu hum dos socios no
conciliabulo que tiveriio na mesma noite. logo depois du insulto. Q11e hé Jeito do
k~t ' •
(4) O Duque declarou no outro appt:nso n.• tK c no fim das repostas que dêo sobre
a primt:ira das quartas pt:rgunt1!'s, que o sobredito João era 6 Rt:o João Mi~ud.

--
.p•I

mesmo insulto de incomparavel atrocidade, e cscandalo pela sua substancia,


ainda se fez muito mais aggra,·antc, e muito mais escandalozo, e pungente
pelo modo, com que foi perpetrado na maneira seguinte.

§ .• ,.

:\lostra-sc mais que depois de se ha\ cr cstabdccido pelos dois chefes


desta infame conjurao;:ão Jo~:é :\lascarcnhas, c Dona l.eonor de Tavora huma
sordidissima collecta, em que contribuirão os outros socios assima declarados,
para se prcfazcr a insignificante quantia de cento e non:nta e dois mil réis,
que se dcrão em premio aos dois barbaros, c ferozes Assassinos .\ntonio
.-\1\"ares Ferreira, c Jozé Policarpio: ( 11 Dcpois de haver o R. Luiz Ber-
nardo de Ta,·ora mandado dois dias antes do jnsulto os dois C:t\ ali os pre-
parados, c armados. 4ue para clle se commcttcr havia posto de prc,·enção
na cavalhariça do Reo Jozé :\lascarenhas ;-1 21 Depois de II<l\·cr o outro Reo
Francisco de .-\ssiz de Ta,·ora, tari1bcm mandado para a mesma ca,·alhariça
do Reo Joú :\lascarenhas os outros trez cavallos, que para ella dirigirão
na noute do insulto, o cabo de Esquadra Braz Jo7é Romeiro, e o Bolieiro
.\ntonio Jozé,- t3) depois de ha,·er o mesmo Jozé :\lascarenhas mandado na
mc~ma noute preparar tambcm, c postar nas terras, que licão por detraz da
Barraca do seu Secretario Antonio Jozé de ~lattos, os outros ca,·allos do
seu proprio serviço, chamados Serr-.t. e Guard.wwr, com As duas facas cha-
madas P.tlhal'.i. c Coimb,-.t: (-t-l Depois 4ue com os sobreditos mwe ca\ ai-
los, 9ue com os dois dos infames, e ferozes executores Antonio Akares,
c Joze Policarpio prelizerão o numero de onze ca\·allos, e outros tantos so-
cios do delicto. que a clle forão montados: se postarão todos di' ididos em
ditferentes partidas, ou emboscadas no pe4ueno espaço de terra, que
mcdea entre a extremidade septemtrional das cazas da Quinta chamada a
do .\leJ·o, e a outra extremidade meridional da Qi.linta chamada a /Je
cima {S) por onde EIRey :\osso Senhor costuma recol~er:se ql!ando sahe
particularmente, como sucedeo na nome do horrorozassamo msulto, de
que se trata nestes autos, para que escapando das primeiras das ditas
esperas, perecesse nas outras. que a ella se scguião a precio~:issima vida
de Sua :\lagestade.

(J) O Duque de À\"Ciro na resposta sobre a quint<J .las tcr.::eiras perguntas: na ou-
tro resposta sobre a nona d<Js mesmas perguntas no appcno;o n. 0 =o Conde .te Atouguia
mt re:-.posta 9· e 10. .tas primc:iras perguntas.
(2) No appen:-.o n. 0 3 contis:;fto do Esuihc:iro Jozé !\lanuel_ n~ appenso n.~ 11.. con-
fissão Jo Guarda roupa ~lanoel AI'" ares: No appc:n:-.o n.0 12. conlissao de Antomo Ah·a~es
Ferreira: no appenso n. 0 =a confis~áo _de_ Braz Joz~: no appenso n. 0 =:=_o Duque de A,·e1ro
nas declarações ft:itas sobre a p~m1c1ra dds terceiras perguntas, e 1h1dem nas respostas
sobre a terceira. e quarta das refendas perg~ntas. · . _
(3) No appenso 13. Braz Jozé Rome1ro de fa.:to propno: no appenso q .. JoaqUim
dos Sai-11os Cquceiro.
(~)-
(5) Assim o pro\"áo no appenso .pnme1ro· - os dc:pOJmentos
· c?m que se rorma 1·1zou
o corpo do delicto: Na aprenso 2. as duas opu mas testem~mhas de \"1St a, que nelle se con-
tem: E tudo se acha liquido no appenso n. 0 IR reta propna confissão Jo mc:smn Reo Jnzc:
.\lascarenhas na resp()sta que deu sobre a prime1ra das quartas perguntas.
§. I)).

~lostra-se mais, que ha,·endo o mesmo Senhor dobrado a esquina da


-dita extremidade septemtrional das referidas cazas da Quinta do ~leyo Iugo
immediatamente sahira do Arco, que no dito lugar se achava o sobredito
chefe da conjuração Jozé ~lascarcnhas, o qual associado com o seu criado,
e confidente Juãu ~liguei. e u outro dos Reos de~te deiicto desfechou contra
u cocheiro Cu~tudio' da Custa, que conduzia Sua 1\lagestade hum tiro de
bacamarte, ou caravina, o qual errando fogo, e a,·izando o dito cocheiro com
a pancada que deu, e lume que ferio. o obrigou a que sem declarar a Sua
~bgestade o que ha' ia ,·isto, e ou\·ido, apressasse os machos de tal sorte,
que elle cocheiro podesse escapar aos mais tiros, que iemeo, por ter visto
desfechar aquelle que errou fogo, com o intento de o matarem: (_I!- sendo
o erro dc~te tiro disparado contra o dito cocheiro o primeiro milagre. com
que a Di,·ina Omniputencia socorreu naquella funestissima noute a todos
estes Reinos, com a persena.;ão da preciozissima Vida de ~ua :\lagestade,
que seria impossi,·el, que podesse escapar, se havendo cahido morto o dito
cocheiro .daquelle infame tiro, ·ficasse sacrificado o mesmo Senhor nas mãos
dos hutri,·eis monstros, que se acha,·ão armados, contra a sua Augustissim.a,
e preciuzissima \Tida, em tantas, c tão proximas emboscadas.

Mostra-se mais, que cm razão dos acelerados passos, com que o so-
bredito cocheiro, procurou sah·ar-se dos referidos tiros que viu contra si
ameassados, náu poderão os duus ferozissimos Executores Antonio Ah·ares,
e Jozé Policarpio, que se acha,·ão postados na espera, que pro\:Ímamente se
seguia, junto au boqueirão do muro novo, que alli se Jeyantou ultimamente,
discarregar com tanta facilidade como pertt'ndiáo os seus infames tiros, so-
bre o Espaldar da carruagem, que transporta\·a o dito Senhor, escolhendo
o Jogar para os dispararem: Pelo que seguindo a galope a dita carruagem
discarregarão como lhes foi possi,·el sobre o mesmo Espaldar della os dois
sacrílegos, e exacrandos tiros, que depois de ha,·erem feito na mesma car-
ruag,..m, e nos ,·estidus, que orna,·ãu o mesmo Senhor, todos os t'Stragos, e
ruínas, que se manifestão dos mesmos autos de corpo de delicio, passarão
a fazer na augustissima, e sacratissima Pessoa de _Sua :\lagestade as gra,-is-
simas, e perigozissimas feridas, e deslaceraçoens, !-1Ue desde o humbro, e
braço direito, athé o cotuvdo pela parte de fura, e de dentro do mesmo
braço fizerão álem das ditas feridas, e deslacerasoens, huma considerm·el
perda de substancia, com grandes cavidades, e ditferentes golpes dos quais
chegarão seis a otfender o peito, sahindo de todos hum grande numero de
grossa munissãu: 12) o que bem manifestou por huma parte a ferocidade
com que a dita grossa munissão, se preferili ás bülas, para assim se segu-
rar com mais certeza o funestissimo objecto daquelle barbaro, e sacrilt'go

(I)
(:!) ~o appenso 1. se pro\':1 plenamente, ass1m pelos autos do corpo de ddicto,
como pd.1 ..:.:rtiLiâo do cirurgif1o l\lur d•, Reino qut: dirigio a ..:ura d.: Sua :\la!;t:slade.
insulto: 1-: pela outra parte que este foi o segun~o dcci7iH> milagre, que a
Di' ina l linnipotcn..:ia obrou naquel!a infaustissima noutc em commum bene-
tkio destes Reinos. c todos os seus Domínios, pois que não cabe na ordem
dos sucessos, nem se pode reduúr de nenhuma sorte a t:\'entualidade dos
acazos, que no pequeno espaço de huma carruagem entrassem duas cargas
de grossa munissão, disparadas por similhantes armas, sem destruirem, to-
tal, e absolutamente as Pessoas., que fossem, na dita carruagem, ,-endo-se
por isso com eYiden..:ia ..:!ara, que sú a miio do Omnipotente podia ter for-
ças em tão funesto ac..:idente, para desvio.u· os mesmos sa..:rilegos tiros, de
sorte que hum só oll"endesse de raspão a parte exterior do dito hombro, e
braço, e que o outro passasse pur entre o mesmo braço e o l.1do direito du
~orpu, l!ll'e!ldendo as exterioridades, sem l}Ue tocasse parte alguma, que
lusse prmc1pal.

\lustra-se mais, liUe a este segundo milagre se acumulou uutro \er-


• ceiro. igual, ou ainda maior: Puis que serYindo-se Deus :'\osso Senhor
naquella tão critica conjunctura_ do Heroi..::o Yalor, e const<mtissima ·sereni-
dade, que tão distinctamentc brilhão entre as Hcgias. c Augustissimas \"ir-
tudes de Sua ~lagcstade. para persen·ar em beneficio. inc~>mpara,·el nosso,
a sua preciozissima, c bcneficentissima \"ida, sen·indo-se. digo, Deus :'\usso
Senhor destas Reaes ,·irtudes, eomo de instrumentos da sua [)j,·ina Omni-
potencia, para nos manifestar o~ seus prodígios, não só padcceo Sua .\la-
gestade na sua Real Pessoa aquellcs inopinados, e dolorozissimos estragos
sem proferir huma só pala \Ta que soasse a lJUci\a; mas ponderando logo n<~­
quelle funcstissimo momento ..:tlll1 illuminadu. e constante acordo, que tudos
os passos lJUe adiantasse para o seu Real Palacio. o poriiio cm maior distan-
..:ia do sirurgião .\lor do Reino, lJUe yj,-c na JlllllJUeira, e que a grande perda
do seu Regio sangue. que esta\·a fa7cndo, não podia dar-lhe tempo para as
trez demoras que faria cm passar ao Pala..:io de :'\ossa Senhora da .\juda,
em se mandar dclle ü Junqueira, para se chamar o sirurgião .\lor do Reino,
e em Yir este da Junqueira au dito Pala..::io; tomou Sua dita ~lagestade a
prodigioza rczolução de mandar logo retroceder a carruagem, para passar
immediatamente do lugar cm que se achava á caza do dito cirurgião .\lor
do Reino: ( 1) onde não permittindo, que se lhe descobrissem as feridas,
sem dar ao Supremo Senhor as graças pelo meyo do Sacramento da Peni-
tcn..::ia, aos pés de hum ~linistro Enmgelico, com quem se confessou pelo
incompara,·cl beneficio que lhe haúa feito cm lhe sah·ar a ,·ida de tão
grande perigo, passou com o mesmo silen..:io. serenidade. con;-tan..:ia a
sofrer o trabalho da cura, ..::ujo acerto tomou tambem a J)j,·ina Omnipo-
ten..:ia por outro instrumento, para felicitar-nos com a conseryação da prc-
ciozis.Sima e bencticcntissima Yida de EI ReY :'\osso Senhor: sendo o heroicu

(t) .\ssim o provi10 de facto proprio no appenso 1. o Sargento :\1•1r Pedro Tei-
xeira. c o co..:hciro CustoJio da Costa, <jUC na<juclle funcstis•imo momento a..:ompanhariio
Sua :\la~o~cstaJc. E assim o ..:onlirmãu tambcRl .te fa.:w propriu as •Jutras testemunhas <jliC
vão inJi..:atlas na ~ota proxima seguinte. .


silencio de Sua !vlagestade no tempo do insulto, e a sua illuminada rezo-
lução, com que retrocedeo, depois daqudlc ferino attentado. os que consti-
tuirão este terceiro milagre da Di,·ina Omnipotcncia, porque assim evitou
Sua dita Magestade os outros perigos, de que não poderia _escapar. seguindo
o caminho por onde se costumava recolher ao seu Palacto, quando no- tal
caminho, havia de ser perc;zamente encontrado pelas differentes embosca-
das dos outros mah·ados socios do delicto, e Reos deste nefando, e horrível
insulto, que no mesmo caminho 'esta vão de mão posta, armados para espe-
rarem ao dito Senhor, no cazo que sucedeo d~ se haver salvado da crueldade
das primeiras duas das ditas emboscadas. (I)

§. 21.

Mostra-se mais, que os sobreditos Reos associados para aquelle de-


testa\·el, e enormissimo delicto, se achavão nelle tão cruel, e tão barbara-
nlente endurecidos, e dezemparados dos auxílios da Divina Graça, que de-
pois de se haverem retirado pelas ditferentes veredas, e desvios que constão
deste~ autos: (21 Por h uma parte ajuntando-se logo outra vez ainda na •
mesma noute depois das sobreditas retiradas, no caminho que passa pela
extremidade septemtrional do Jardim do Reo Dum Jozé Mascarenhas: em
,·ez de darem signais, de que tinhão os coraçoens rotos de dor na conside-
ração do enormissimo, e perniciozissimo mal, que pouco antes tinhão feito;
muito pelo contrario se jactarão, e gloriarão delle, huns com os outros, bat-
tendo o Reo Jozé .Mascarenhas, então Duque de Aveiro em humas pedras
com a cara,·ina, ou bacamarte, que lhe tinha errado fogo contra o dtto co-
cheiro Custodio da Costa, e dizendo com ira, e enfado contra a mesma ca-
ra ,·in'a as infernaes palavras- J "a/hão-te os Diabos que quando te quero, 11ão
me sen•es:- Fali ando o Reo Francisco de Assiz [então .Marquez de Ta-
v~ra J com dm·ida sobre haver Sua !\lagestJde perecido nos sacrílegos tiros,
que s-e ha,·ião disparado: Tornando o mesm::> ReJ Jozé Mascarenhas a pro-
ferir as outras pala\'ras infernaes- Nlfo importc1, que se não mm·reo, mm·-
,·erâ:- Replicando a estas pala \Tas outro dos ditos so.:ios com a blasfemia
da ameassa.- O ponto hé elle sahir: &.a-· E perguntando o out~o Reo Jozé
Maria com grande dezenfado pelo socio João ~ligud, porque ainda alli não
ha,·ia chegado: (3 1 E pela outra parte, tornando logo a congregar-se em
caza do sobredito Reo Jozé Mascarenhas na manhã proxima seguinte ao so-
bredito exacrandu insulto, em huma Assemblea,· ou conciliabulo de paren-
tes. continuarão nella por effeito da mesnn infl~XÍ\•el crueza. barbara dezes-
pcração, e lastimozo dezamparu dos auxilios de Deus, em accuzarem huns
os Assassinos Antonio Alvares, e Jozé Policarpio, por que não hadão ap-
plicado os tiros de sorte. que consumassem todo o !ieu perniciozissimo in-
tento em se jactarem outros, de que haveriáo consum:1do o mesmo exacrando

(1) Fica assima pmvados nas Nota~ n."' 11. 17. 25. e n.• 31.
(2) No appenso n.• 18. ~e prO\·a pelas rcspnstas que o Duque de Aveiro dco snhre
a decima sexta das primc:iras perguntas, c: sohre a primeira ,tas <.JUartas.
(3) Assim o provrw no appensu 2. as duas· tc:stc:m unhas de 'ista. 'jUe ndle Jepoze-
rão, e as mais que ficáo indicadas nas Notas n.o• 12. 26. e n. 0 32.
-l7

intento. se EIRey :\osso Senhor, homcsse passado, pcllas emboscada!i,


onde dlcs se acha,·ão de m:io posta para o esperarem, e em ce,·arem outros
a sua ferocidade com a retl.!xão de que Sua -'b~cstadc não haveria escapado
com vida, se h<wesse proseguidu o caminho por unje ordinariamente se cos
tumava recolher. assim como tinha retrocedido pela calsada para o citio da
J unq.ueira. t 1)

§. 2:.?..

~lustra-se mais, que ainda quando houvessem faltado, como costumão


faltar em similhantes cazus todas as exorbitantes, e concludentes provas as-
sima referidas, que nestes autos verificáo com outro evidente milagre, a
torpe existencia desta horrenda conjuração, c as culpas de cada hum dos
Reos por ella cunfederadns, bastarião as prczumpsóes de Direito. que con-
demnão os Chefes, ou cabcssas da mesma conjuração, para serem por ellas
castigados com todas as penas de Direito, e com as mais, que Sua )lages-
tade fosse servido permittir: Pois que sendo cada h uma das mesmas pre-
zumpsóes de Direito reputada por ,·erdade omnimoda, e por prova pleni~­
sima, e liquidissima, que dezohriga de outra qualquer rro,·a, c que grava
aquelle, que a tem contra si, com o encargo de fazer outras provas contra-
nas, que sejão táo efficazes, e fortes, que concluão: l2 l :'\ão hé hum<t só,
mas muitas as prezumpsóes de Direito, que contra si tem os mesmos Chefes
desta conjuração. principalmente Jozé )lascarcnhas, que foi Duque de A ,·eira,
e os pervertidos Religiozos da Sagrada Companhia de .Jczus.

§. 23.

~lastra-se mais em confirmação do referido, que prezumindo o Direito,


que aquelle que foi mão hum:t \·ez,o será sempre ein outras maldades do mesmo
gcncro, da que tem commetido: (3; não foi huma só, mas antes furão mui-
tas as iniquidades, que estes dois Chefes machinarãu contra a Augusta Pes-
soa, c contra o fdicissimo gov~rno de EIRey :\osso Senhor, por huma scrie
de fa-ctos continuada, desde os princípios do felicíssimo Reinado de Sua
)lagestade.

~lustra-se mais· pelo que pertence aos Rdigiozns Jezuitas, que \"Cndo
estes que a superioridade das IUJ:es, e o incomparavd discernimento do-
dito Senhor os privava de todas as esperansas de consen•arem nesta Corte

(1) Tambem fica verificado pelas provas assima indicadas nas :-.lotas n.o• t3. '9·
2J. e 27. .
(2) Ex professu Fr.mcis(·us Herr:11l.n111s in l"ract. (}11is tene.l111r prob.tre neg.lliv.tm
n. + ubi multa i';lra, 1~1uh?sque IJIJ. congerit: Escobar de: puritat. p. 1. q. 3. 1;i 3. n." ~7-
0

q. S.~ 2. n.'" 3. + ). et o. ub1 latt: et d.• q. 8. § 3. n.o :.!-J.


(3) X.• rutam = semel malus semper prresumitur mulus cum ,·ulg.
o disputismo, que nos nego..: tos de !la se t!nh:ío arrugado: Yendu que sem
aquelle seu absoluto disputisnn, não poderiáo de nenhuma sorte cobrir as
uzurpaçoens, que tinhão feito na .\frica, America, e Azias Purtuguezas e
muito menos palliar a declarada guerra, que tinhãu acendido com huma for-
mal rebelliáo no ::"nrte, e no Sul do Estado do Brazil: ::\lachinarão as mais
calumniozas, e d~testa\·eis suggestuens, e intrigas, contra a alta reputação
de Sua )la~estade, e contra o socego· publico destes Reinos, para assim
alienarem do mesmo Senhor os Xacionaes. e Estrangeiros, ha\·endo repeti-
das n:zes tenta.:l.o dill"erentes projectos exacrandos, para excitarem sediçoens
dentro na mesma Corte, e Reino, e concitarem contra o mesmo Reino, e
Yassallos delle o flagelo da guerra: ( 1) concluindo-se por tudo o referido,
que ha\·endo comettido os sobreditos Religiozos todas aquellas iniquidades
contra El Rey :\fosso s~nhor, e contra o seu Reino, se achão por"isso nus
proprios termos da sobredita regra, e presumpsão de Direito, que della se
tiraria sempre, quando o mais faltasse para se intender, que elles depois,
farão os que m:.J.chinaráo o insulto de que se trata, em quanto não mos-
trassem que ourros farão os Reos delle por modo concludente.

§. 2J.

:\lastra-se mais em maior confirmação de tudo o referido, que não


pre;rumindo o Direito, que hum grande delicto, se commetta, sem hum grande
inkresse: Prentmindo por isso, que o que no mesmo delicto tem o interesse,
fui aqucllc, que cometteo o tal delicto, em quanto se não justifica eviden-
temente, que outro foi o Autor delle: (2) E tendo os sobreditos Religiozos
todos os grandes interesses, que fi•ão relatados, e que manifestarão pelos
seus proprios faétos nesta conjuração, em fazer cessar com a preciozissima
,-ida de El Rey .i\ osso Senhor o felicíssimo go\·erno de Sua :\lagestade: Esta
só prezumpsãu de Direito, bastaria tambem para se ha\·er por liquidissima
prm·a conforme a Direito, de que os tais Religinzos. farão os Reos deste
e\.acrando delicto, principalmente quando se considera, que só a sua ambi-
ção de conguistarem os Domínios deste Reino, podia ter alguma proporção,
e paridade com o insulto infaustamente commettido na t·eferida noute de trez
de Setembro do anno proximo precedente.

§. 2ti.

:\lustra-se mais a;nda em maior confirmação das prm·as. que nestes


autos se ach;.ío contra os ditos Religiozus, e das que tambem contra elles
rczultão d:1s prezumpsoens de Direito, assima declaradas, que todas as re-

(1) Assim se prova plenissimamente pelas testemunhas de vista, e facto proprio,


I.JUe constá o do 3J'penso n. 0 =sendo as mesmas, I.J:.Ie pela s·.Jce.;;iva s.!rie dos tempos \·irão
a.; canas originais, que 03 dit'ls Hegulare~ escreverão. para denigrirem o Augusto nome de
Sua .\lagestadc, c para machinarem imri~as, c Sc<lio;o.!ns, crmtra o seo glrHI07.is,imo so-
n:rno.
(2).
49

fcridao; proYas se faLem dc força invcncin~l, quando se considcra, q;1e ao


mesmo passo cm '-JUC El Hcy i\osso Scnhor fui desconcertando, c dczar-
mando. aqucllas m<tdlinaçocns dos ditos Hcligiozos. dcspcJindu os Confes-
sores Hcgios da'-Juclla profissão, c pruhibindu .1 hJdos os outros Hcligio,ros
deli a tl ingresso no Paço: se 'io por huma parte. que quando ;i ,-is ta de.
tantos dczcnganos deYiüo humilhar-se, o titcriio tanto pclo contrario, que
publica. e dcscobertamentc l(lnio crescendo em arrogancia, c soberba, ja-
ctando-se publicamente de que quanto mais o Paço os desviava, mais a no-
breza se lhes unia, amcassandu com igual publicidade, castigos de l>cos,
contra o mesmo Paço. e suggcrindn por si, e pelos seus sequatcs athé os
tin!> do mez de Agosto prm.imo passado, que a preciotissima \"ida de ~ua
:\lagcstade ha,·ia de ser brc,·e, a\"Ízando-o assim em repetidos correios a
dill"crcntcs Paizes da Europa. -chegando a explicar, que o meL de Setembro
do sobredito anno, proximo passado. haYia de ser o termo da sua augustis-
sima c prcciozissima Yida: Escre,endu Gabriel :\lalagrida a dilfcrcntes pes-
soas desta corte os ditos funestis~imos prognosticas em tom de profe-
cias: lt) E se viu pela outra parte, contradictoria. e repentinamente, que
sendo prezas os Rcos nesta horrível conjuração na madrugada do dia tra,e
de Dezembro proximo precedente, logo no correio immediatamemc seguintc,
deteno,·c do referido mez de Dezembro, escrevcndu para Roma o Pnn·in-
cial João Henriques, e outros dos seus Rcligiozos, os quais antes só escri-
,·ião as ditas arrogancias •. soberbas, e profecias de castigos, e mortes, uLa-
rão no dito correio de dezenO\ c de Dezembro dos termos ri1ais submissos,
e mais humiliantcs para a,·izarem : Que se tinluio prczus os :\larque7es de
TaYura, e de Alorna, o conde de .\tuuguia, :\lanoel Jc Ta,·ora, o Du.1ue Jc
A ,-eiro, e lllltros pelo insulto de tre1 de St:tcmbro proximo passado : Que
tinhão guardas militares as caza-; da sua Hcligião : Que os Padres de Ruma
os encomendassem a Deos como muito necessita\·ão: Que não podiiio con-·
trastar o que temiüo: Que toda a CommunidaJc, fica\ a atlicta recorrendo aos
exercícios do Padre :\lalagrida: Que o ~lundo os implicava no referido in-
sulto de tre1 de Setembro, e os sentenciava a p!"itoens, extermínios, e t•.lt.ll
expulsão da Curte, e do Reino: Que fica\ãu nas maiores angustias, c na
ultima calamiJaJe, cheios de sustos, e receios. sem algum ali\·io, ncm espc-
ransas delle: &.a Retultandn da combinação destes dois cnntradi.:torios ter-
mos de escrever assim na substancia, como no modo, antes do referido in-
sulto, e depois delle. n:io menos do que huma clara demonstração para se
concluir: Que antes do mesmo insulto, se fia\·ão na conjuração, que abor-
tou a<..juelle ·horrendo attentado, e na esperansa, de que elle produziria o
seu pcrniciozissimo elfeito, para fallarem. e escreverem com tanta soberba
temporal, e com tanta arrogancia espiritual em tom de profecias funestas, e
sacr"lcgas : E que depois das pritoens de trete de Dezembro proximo pas-
sado. ,·endu-se descobertos os que com elles se tinhão conjurado. perdidos,
e em termos de serem castigados; cahio necessariamente toda aquella chi-
merica machina da soberba, c da arrogancia no ne.::eso;ario desfalecimento,
que traz comsigo a convicção da culpa. e a falta de meios para encobrir, e
para sustentar o fingimento, com que hé commettida.

(I).

4
:lO

§. 27·

Mostra-se mais, pelo que pertence ao outro chefe, ou cabeça da mesma


conjuração Dom Jozé .\lascarenhas [antes Duque de AveiroJ que tambem se
acharia debaixo da mesma dispozição para ser condemnado pela plena
prova que constituem as sobreditas prezumpsoens de Direito, ainda que
nada mais hom·esse : Pois que quanto á primeira das ditas prezumpsoens,
que diz respeito á maldade, e costumes do mesmo Reo, hé notorio, que
antes do fallecimento do Senhor Rey Dom João o quinto, que Deos chamou
a sua Gloria no mesmo tempo em que falleceo aquelle Augustissimo .Mo-
narcha, logo depois de elle ser fallecido, e deste então athé agora ordio as
inumeraveis intrigas, e caballas de que encheo a Corte de E\ Rey ~osso
Senhor, para surprender, e bloquear as rezoluçoens d'EI Rey Nosso Senhor,
assim nos Tribunaes, como no Gabinete por Ministros, e Pessoas da facção
de seu Tio Frev Gaspar da Incarnação, e da propria facção do mesmo Reo,
de sorte qtie riem a verdade podesse chegar á Real prezença do dito Se-
nhor, nem tomar-se nella a rezolução, que nãe fosse obrepticia, subrepticia,
e fundada em informasões falsas, e captiozas : Pois que quanto á segunda
parte das ditas prezumpsóes, que consiste nas grandes cauzas, e nos gran-
des interesses para commetter este grande delicto, já fica mostrado, que são
manifestas, e de infa\iyeJ certeza nestes autos: E pois que emfim pelo que
pertence á confirmação que se tira para se crer como certo pelos proprios ·
factos deste Reo, que elle foi o que commetteo o e~acrando insulto de que se
trata, basta reflectir-se, em que antes, e depois delle praticou o mesmo, que
praticarão os Religiozos Jezuitas, sendo certo por huma parte, que antes do
sobredito insulto era a sua soberba, e a sua arrogancia taes, e tão geral-
mente escandalozas, como hé manifesto: E sendo igualmente certo que de-
pois que o mesmo exacrando insulto não produziu o horribilissimo etfeito,
a que foi ordenado; E que E! Rey Nosso Senhor se foi restabelecendo;
toda aquella soberba, e toda aquella arrogancia cahirão no mais desorde-
nado dezalento com que o dito Reo não tendo já constancia, para appare-
cer na Corte, fugio della confuzo, e medrozo a refugiar-se na Quinta de
Azeitão, onde foi prezo, procurando primeiro saiYar-se com a fugida, e de-
pois com huma dezesferada rezistencia.

§. 28.1

Mostra-se mais emfim, que o mesmo milita a respeito de Dona I .eo-


nor de Ta,·ora, antes Marqueza deste titulo, e terceira cabeça desta conju-
ração infame : sendo notorio por huma parte o seu espirita de soberba Lu-
ci feri na. de ambição insasiaYel, e de orgulho o mais ouzado, e intrepido,
que athé agora se vi o em alguma pessoa do seu sexo, para a incitarem· a
se arrojar aos maiores insultos, e em especial ao de que se trata; sendo
igualmente nutorio, que concitada por aquellas cégas. e ardentissimas pai-
xões, se atre,·eo a repre?entar com seu marido a E\ Rey Nosso Senhor,
que o fi...:esse Duque, ao mesmo tempo cm que todos us seus insignificantes
serviços, hm·iãu sido despachados nu anno de mil setecentos quarenta e
noye, em que partiu para o Estado da lndia, c em que nãu haYia exemplo
nas chance\larias deste Reino, de que alguem fosse despachado com o titulo

-- •
de Duque, por serviços ainda tão rele\ antes, ~omo o dos muitos, e grandes
H erôes, l}Ue illustní.o a H i:-.toria Portu~ue1a com os seus assignalados fei-
tos; sendo igualmente noturio, que ambos os sobreditos Reos, sem reparo,
nem pejo perscguirüu in~essantemente o Se~retario de Estado dos :\cg• cios
do Heyno por aquelle despacho, que não cabendo na graça regulada, pe-
di,í.o. C postUhl\"ÜO alti\·a, e incessantemente COmO huma divida de Justiça:
sendo igualmente certo que o mesmo Se.:retari J de Estado, fui constran-
gido para moderar aquellas ardentes instancias, e as sücessivas recrimina-
soens, que ddlas rezulta,·ão, a fa1er cumprehender aos mesmos Reos cinl,
e decoronmente, que a sua pertençüo não tinha exemplo, que a apadri-
nhasse: E sendo cmfim este necessario de1engano, o que constituía invo-
luntariamente a paixão, e o inreresse cum que a sobredita )larqueLa Dona
Leonor se foi reconciliar com o Duque de .\ veiro, e se declarou por hum
dos chefes da barbara conjuração por elle intentada, p<tra ganhar com o
fa,·or do mesmo Duque, depois das ruínas da :\lagcstade, e d<t :\lonarchia
aqudle titulo de Duque, com que t_ambem a incita\·a a ardentissima inveja
de igualar no mesmo titulo o dito seu cunhado. E sendo emfim igualmente
notorio, que toda aquella soberba ambiçüo, e orgulho praticados athé a fl\-
nestissima Epocha do exacranJo insulto de tret: de Setembro do anno pro-
ximo precedente, cahirão dennimados depois do mesmo insulto em huma
confu1ão, e desfale.:imento manifestos.
O que tudo vi~to, e o mais dos autos com a rezolt!çáo, que o dito
Senhor foi sen-ido tomar em consulta desta Junta, ampliando a Jurisdição,
e Alçada della, para que possa e\tender as penas merecidas por estes infa-
mes, e sacrílegos Reeos, cm forma que possão ter a possível proporsão
com as suas exacrandas, e escandalozissimas .:ulpas : Condemnão ao Reo
Jozé )las.:arenhas, que já se ad1<1 desnaturalizado, e\authorado das honras
e pri,·ilegios de Portuguez, de Yassallo, e criado; degradado da ordem de
São Tcago de que foi Commendador; e relaxado a esta Junta, e justiça
secular, que nella se administra; a que com baraço, e pregão, como hum
dos trez cabeças, ou chefes prin.:ip<tis desta infame conjuração, e do abo-
mina,·el insulto, que della se seguio, seja levado á Praça do Cais do lugar
de Belem, e que ndla em hum cadafako alto. que será le,·antado de sorte,
que o seu castigo seja \·isto de todo o Pmo, a quem tanto tem otfendido o
escandalo do seu horrorozissimo delicto, depois de ser rompido \ ivo, que-
brando-se-lhe as oito canas das pernas, e dos braços seja exposto em huma
roda para satisfação dos pret:entes, e futuros Yassallos deste Reino: E a
que depois de feita esta execuç<í.o seja queimado ,-j,·o o mesmo Reo com o
dito cadafalço, em que for justiçado athé que tudo pelo fogo seja reduzido
a cinza, e pô, que serão lansados no mar, para qu,e delle, e de sua memo-
ria não haja mais noticia: E posto que como Reo dos abomina,·eis crimes
de rebelião, sedição, Alta traição, e Parricídio, se acha já condemnado pelo
Tribunal das Ordens, em confiscação. e perdimento de todos os seus bens
para o Fisco, e Camara Real, como se tem praticado nos cazos, em que se
commetteo crime de Len :\lagestadc de primeira cabeça: comtudo attenden-
do-se a ser e"te cazo tão inopinado, tão insolito, e t~o estranhamente hor-
rorozo, e in~ogitado pelas l.eis, que nem ellas dcrão para elle prm·idencia,
nem nelle se pode achar castigo, que tenha proporção com a sua desme-
dida torpeza; pelo que cum este moti,·o se supplicou ao dito senhor em
consulta desta Junta, com cujo parecer, fui Sua ~lagestade sen·ido~ confor-
52

mar-se a ampla jurisdição de estabelecer todas as penas, que se vencessem


pela pluralidade dos ,·otos, alem das que pelas Leis, e dispozisoens de Di-
reito estüo determinadas: E considerando-se que a mais conforme a Direito
h é a de escurecer, e desterrar por todos os modos da lembrança o nome, e
a recordação de tão enormes delinquentes: condemnão outro sim ao mesmo
Reo não só nas penas de Direito commum para serem derribadas, e picadas
todas suas armas, e escudos em quaisquer lugares em que se acharem pos-
tas, e as ca7as, materiais, e edificios da sua habitação demolidos, arrazados
de sorte, que delles não fique signal, reduzidos a campo, e salgados, mas
que tambem todas as cazas formais, ou vínculos por elle administrados
naquellas partes em que hom·erem sido constituídos em bens da Coroa, ou
que houverem sahido deJla, por qualquer modo, maneira, ou titulo, que
fosse, como por exemplo, o forão os bens declarados nas Doações da Caza
de A Yeiro, e os mais similhantes, sejão confiscad~s, e perdidos desde logo
com effecti,·a re,·ersão, e incorporação na mesma coroa, donde sahirão, sem
embargo da Ordenação do Livro quinto, titulo sexto, parrafo quinze, e de
quaisquer outras dispozisoens de Direito, e clauzulas das Instituiçoens, e
Doações por mais exuberantes, e irritantes que sejão: Consultando-se ao
dito Senhor esta decizão com a supplica de mandar cassar, a,·erbar, e tran-
car na Torre do Tombo, e nas mais partes onde pertencer os sobreditos
titulos, para que como cassados, e anullados se não possão mais extrahir
copias delles, nem serem admittidas em Juizo, ou fora delle as que já se
acharem extrahidas em mãos particulares, nas quais não terão fé, ou cré-
dito algum. para se--poderem allegar, produ1ir, ou attender em algum .-\u-
ditorio, ou Juizo; mas antes logo que furem apparecendo, serão sequestra-
das, e remetidas ao Procurador da Coroa, para serem laceradas, e rôtas,
como nullas, para como tais não poderem em cazo algum produzir etfeito,
ou prestar impedimento. O mesmo mandão, que se ~bserve pelo que res-
peita aos Prazos de qualquer natureza que sejáo, com a pro,·idencia estabe-
lecida sobre a ,·enda ddles em beneficio dos direitos senhorios, pela orde-
nação do Li \To quinto, titulo prime iro, parrafo primeiro. Pelo que pertence
porem .aos outros morgados, constituídos com ben~ patrimoniais dos Insti-
tuidores, que os fundarão, declarão que se dew obsen-ar em beneficio dcs
que nelles houwrem de suceder, o que se acha determinado pela Ordena-
ção do Li\To quinto, titulo sexto, parrafo quinze.
l'\as mesmas penas condemnão ao Reo Francisco de Assiz de Tavura
tambem cabeça da mesma conjuração persuadido pela Ré sua mulher, e
igualmente desnaturalizado, exauthorado, e relaxado pelo Tribunal das Or-
dens a esta Junta, e Justiça secular, que nella se administra. E ponderan-
do-se com a seriedade, e circunspecção, que erão indispensa\ eis neste c azo,
que não s(> o dito Reo, e a Ré sua mulher se fizerão cabeças pessoaes desta
nefanda conspiração, traição, e parricídio, mas que tambem fizeram estes
enormissimus delictos communs á sua família, conseguindo associar nelles
a maior parte da mesma familia, e jactando-se com fatua e petulante vaidade
de que a união della lhe bastaria para se manterem naquellas horroro7issi-
mas atrocidades: ~landão que nenhuma pessoa de qualquer estado, ou con-
dição que seja, possa da publicação desta em diante uzar do appellido de
Tan>ra, sub pena de perdimento de todos os seus bens para o Fisco, e Ca-
mara Real, e de desnaturalização destes Reinos, e Senhorios de Pnnugal, e
perdimento de todos os pri\ ilegios, que lhe-pertencerem como naturais "llel!es.
.\us duus ferozes monstros .\ntuniu .\h·arcs Ferreira, e J111é Poli-
carpiu de :\1.cv~do, que dispa~arãu os sa..:rilegos tiros, de que ã Suprema
)lagestade de El Rey ~osso ~enhor rc..:ebco a ullensa ~ ..:undemnáo a que
.:um baraçu, e rrcgãu sejãu h:' ados ü mesma Praça, e que sendo nella le-
vantados cm d01s postos altos, se lhes punha fogo, que 'Í\"os os ..:unsuma
ath~ se reduzirem seus ..:orpos a cin1.a, c a pu, que serão lansadus no mar
na sobredita forma: E isto ülem das mais penas de ..:untiscação de todos os
seus bens para o Fis..:o, e Camara Real, demolição, e arrat.amento das ca1.as
cm que monwão sendo proprias, em cuj11 ca1.o senío tambem salgadas : E
porque o Rco Jozé Pulicarpiu se a..:ha au1.ente, o hão por bannid~, e man-
dão as Justiças de Sua ~lagestade, que appellidem ..:untra cllc toda a
terra para ser prezo, uu para que cada hum o possa matar não sendo seu
inimigo, c no cazu cm que seja aprczcntadu prezo nos Domínios deste
Re,·no ao Daembargador do Paço Pedro Gonsalvcs Cordeiro Pereira Jui1.
da -lncunlldcncia, mandar<i gratificar Li vista a Pessoa, ou Pessoas, que o apre-
lentarem com o premio de dc1 mil-..:nlladus, ou vinte mil cruzados, sendo
apr~hendido em Pai1. Estrangeiro, alem das despezas, que na jornada se fizerem .
.-\os Reus Lui1. Bernardo de Tavura, Dom .Jeronimu de .-\ta\·de Jozé
~L1ria de Tavora, Braz Juze Romeiro, e João 'liguei, e -'lanoef .\!vares,
condemnãu a que com baraçu c- pregão sejüo levados ao cadafalso, que for
erigido para estas execuçuens. nu qual depois de haverem sido estrangula-
dos, e de se lhe ha,·erem successiramente rompido as canas Jus braç~>s, c
das pernas, serão tambcm rodados, e os seus corpus feitos por fogo em
pó, e lansadus ao mar na subredita forma: E os condemnãu outro sim em
confiscação, e perdimento de todos os seus bens para o Fisco, e Camara
Real, c ainda os que furem de ,-inculo. constituídos em bens da Coroa. na
forma assima declarada. ou ai_nda de Prazos, alem da infamia., em que hão
por incursos seus filhos, e nettos, e de lhe serem demolidas, arratadas, e sal-
gadas as cazas das suas habitaçoens, sendo proprias. e de se derribarem, e pica-
rem todas as· Armas, e Escudos daqudles, que os houverem tido athé agora.
E á Ré Duna Leonor de Tavura, mulher do Rcu Fran..:isco de .-\ssiz
de Tavora, por algumas justas consideraçoens Lrele\ ando-a das maiores pc-
nas, que por suas culpas merecia 1 a condcmnão somente, a que com b<lra-
çu, e pregão seja levada ao mesmo cadafalçu, c que nelle morra morte na-
tural para sempre, sendo-lhe separada a cabeça do corpo. o qual depois
será feito pelo fogo em pó, e lançado no mar tambem na sobredita forma:
condemnão outro sim a mesma Rc em contlscacão de todos os seus bens
para o Fisco, e Camara Real, comprehendend,; nesta confiscação os de
vínculos, que furem constittiidos de bens da Coroa. e os Prazos com todas
as mais penas, -que !leão estabelecidas. para a extinção da memoria dos
Reos Jozé )lascarenhas, e Francisco de Assi1. de Tavura. Palacio de ~ossa
Senhora da Ajuda cm Junta de doze de Janeiro de mil e setecentos sin-
cuenta e no\ e= Com trez rubricas= Cordeiro= Pacheco= Bacalháu =
Lima= -Souto= , Oliveira "achado=--- Fui pretcntc .:__Com huma rubrica.

DATA

E logo no mesmo dia, mez, e anno assima declarado, me forão dados


estes autos, pelo Dezembargador Pedro Gonsalves Cordeiro Pereira, do
Conselho de .Sua Magestade, e Juiz da lnconfidencia, para notificar a sen-
tença assima, e retro escripta aos Reos, que por ella se acháo condemna-
dos. E eu Juzé Antonio de Oliveira Machado Dezembargador da Caza da
Supplicaçáo, que o escrevy.

CERTIDÃO DA IKTII\'IAÇÃO

Jozé Antonio de Oliveira ~{achado, Dezembargador da Caza da Sup-


plicaçáo, e nomeado para escrever nesta diligencia, certifico, e porto fé, que
eu intimei a sentença aos Reos nella assima declarados, que elles muito
bem intenderão, e isto desde as sete horas da menhá athé ás nove do mesmo
dia de hoje doze de Janei o de mil setecentos sincoenta e nove. Sobredito o
escrevy. e assigney. Belem dia, mez, e anno àssima declarado= Jozé Anto-
nio de Oliveira 1\lachado.

APREZENTAÇÃO DOS PREGOES

Aos treze dias do mez de Janeiro de mil setecentos sincoenta e nove,


neste lugar de Belem, e Quin_ta de Sua 1\lagestade, chamada a do 1\leyo me
foráo dados pelo Porteiro Domingos Nogueira os déz pregões ao diante
juntos. Jozé Antonio de Oliveira Machado Dezembargador da caza da Sup-
plicaçáo que o escrevy.

uEM EXECUÇÃO DE SENTENÇA QUE MANDA EL REY


NOSSO SENHOR

Justiça que manda fazer El Rey Nosso SenhÕr nesta 1\lulher, que
ha\'endo sido Pàrtugueza e ~largueza de Ta' ora, fui desnaturalizada, e
condeninada, por ~e ter feito Monstruo da sociedade civil com as suas atru-
cissimas culpas de conjuração, alta Traição, e Parricid:o. Jozé Antonio de
Oliveira Machado Dezembargador da Caza da Supplicação, e Secretario da
Suprema Junta da Inconfidencia que o escrevy. Palacio de Belem, e Caza
das Secretarias de Estado treze de Janeiro de mil setecentos sincoenta e
nove= Pedro Gonsalves Cordeiro Pereira.n

CERTIDÃO

Domingos Nogueira Porteiro dos Conselhos desta cidade de Lisboa,


certifico que eu fui em companhia da Ré assima declarada, e lhe dei os
pregões na forma do bilhete assima declarado do que passo por fé a pre-
Lente certidão. Dada em Bellenl' aos treze de Janeiro de mil setecentos sin-
coenta e nove annos =Domingos Nogueira.

uEI\l EXECUÇÃO DE SENTENÇA Ql~E 1\L\NDA


EL REr KOSSO SE:\"HOR •

Justiça que manda fazer El Rey Nosso Senhor neste Homem, que
havendo sido Purtuguez, e 1\larquez de'" Tavora, foi desnaturalizado, e con-
demnado por se ter feito ~lonstruo da sociedade ci,·il. com as suas atrocis-
simas culpas de conjuração, alta Traição, e Parricidio. Joté .\ntonio de
Oliveira ~lachado Dczembargador da caLa da Supplicação, e Secretario da
Suprema Junta da lnconfidencia, que o csere\,.. P.tlacio de Bdem, e CaLa
das Secretarias de Estado treze de Janeiro de mil setecentos sincocnta c
non~ = Pedro Gonsal' cs Cordeiro Pereira11.

CERTID.\0

Domingos ;\ugucira Porteiro dos Conselhos desta cidade de Lisboa,


certifico que eu fui em companhia do Reo assima declarado, c lhe dei os
pregoens na forma do bilhete assim,t do _que passo por f~ a preLente certi-
dão. Dada em Belcm aos trete de Janeiro de mil setecentos sincoenta e
nove annos =Domingos ;\ogueira.

,, E~l EXECCÇÁO DE SE:\TE;\Ç.\ Ql"E ~1.\:\D.-\.


. El. REY ~OSSO SE;\HOR

Justiça que manda fazer El Rei ;\osso Senhor neste Homem, que ha-
vendo sido portuguez, e Conde de .\touguia, foi desnaturaliLado, e con-
demnado por se ter feito ~lonstruo da sociedade ci,·il, com ·as suas atrocis-
simas culpas de conjuração, alta traição, c Parricidio. José .\ntonio de Oli-
,·eira ~lachado .Dczembargador da caza da supplicação, e Secretario da
Suprema Junta da lnconfidencia, que o escren·. Palado de Belem, e can
das Secretarias de Estado treze de Janeiro de mil setecentos sincocnta e
nm·e. =Pedro Gonsalves Cordeiro Pereira.

CERTIDÃO

Domingos :\ogucira Porteiro dos conselhos desta cidade de Lisboa,


certifico que eu fui em companhia do Rco assima declarado, e lhe dei os
pregoens na forma do bilhete assima, do que passo por fé a prezente cer-
tidão. Dada em Bellem aos treze de Janeiro de mil sete centos sincoenta e
nove annos. =Domingos :\ogueira .

.. E~l EXECGCÃO DE SE~TE:\CA QCE ~L\:\D.\


El: REY :\OSSO SE:\;HOR

Justiça, que manda fazer El Rey ;\osso Senhor n~te Homem,_ qu~
havendo sido Portuauez, e Ajudante das Ordens ·do General seu Pat, fm
desnaturalizado, e c~ndemnado. por se ter feito ~lunstruo da sociedade ci-
vil, com as suas atrocissimas, culpas de conjuração, alta Traição, e Parri-
cidio. José Antonio de Oliveira ~lachado, Daembargador da caza da sup-
plicação, e Secretario da Suprema Junta da Inconfidencia, que <? escrev~:­
Palacio de Belem e caza das Secretarias de Estado treze de Janetro de mtl
· '
sete centos, smcoenta c1ro 1~ ere1ran.
e nove.= Pedro G onsa I ves C ord. .
..
:JO

CERTIDÃO

Domingos Nogueira, Porteiro dos Conselhos desta cidade de Lisboa,


certifico que eu fui em companhia do Reo assima declarado, e lhe dei os
pregões, na forma do bilhete assima declarado, do que passo por fé a pre-
tente certid<io. Dada em Bdem aos treze de Janeiro de mil sete centos, sin-
coenta e nove annos.=Domingos Nogueira.

uEM EXECL"ÇÃO DE SEl\TE~ÇA QCE ~IA~DA


EL REY :;-..;osso SEI\HOR

Justiça que manda fazer El Rey Nosso Senhor neste Homem, que ha-
rendo sido Portuguez, foi desnaturalizado, e condemnado por se ter feito
1\lonstruo da Sociedade civil, com as suas atrocissimas culpas, de conjura-
çáo, alta Traiçáo, e Parricídio. José Antonio de Oliveira Machado, Dezem-
bargador da cazii da Supplicação, e Secretario da Suprema Junta da lncon-
fidencia, que o escre,·y. Palacio de Belem, e can das Secretarias de Estado
treze de Janeiro de mil sete centos, sincoenta e no\·e. =Pedro Gonsah·es
Cordeiro Pereiran.

CERTIDÃO

Dommgos I\ogueira, Porteiro dos Conselhos desta Cidade de Lisboa,


certifiw que eu fui em companhia do Reo assima declarado, e lhe- dei os
pregoens na forma do bilhete assima, do que passo por fé a prezente cer-
tidão. Dada em Belem aos treze de Janeiro de mil sete centos sincoenta e
nove annos. =Domingos .:\ogueira. .

"E:\l EXECL"ÇAO DE SEI\TEI\ÇA QL"E MA~DA


EL REY I\OSSO SENHOR

Justiça que manda fazer El Rey Nosso Senhor neste homem, que ha-
,·endo sido Portuguez, foi desnaturalizado, e condemnado, por se ter feito
:\lonstruo d,/ sociedade civil, com as suas atrocissimas culpas de conjuração,
alta Traição, e Parricidio. José Antonio de 01 iveira :\lachado, Dezembarga-
dor da caza da Supplkação, e Secretario da Suprema Junta da lnconfiden-
cia que o escrevy. Palacio de Belem, e caza das Secretarias de Estado,
treze de Janeiro de mil sete centos, sincoenta e nove.=- Pedro Gonsalves
Cordeiro Pereira>>.

CERTIDAO

Domingos l\ogueira, Porteiro dos Conselhos desta cidade de Lisboa,


certifico, que eu fui em companhia do Reo assima declarado, e lhe dei os
pregoens na forma do bilhete .assima, do que passo por fé a prezente cer-
tidão. Dada em Belem aos treze de Janeiro de mil sete centos, sincoenta e
no\·e annos. =Domingos l';ogueira.
.
='7

.. 1-:~1 EXI·:ct·t.:.\o DE ~FXTE;\<.:.\ <Jl'E ~1.\;\D.\


El. RFY :\OSSO SEXHOH

Justiça qtre manda fa;.cr El Rcy :\osso Senhor ncstl: Homem, l]Ue ha-
vendo sido Purtuguez. fui desnaturalitadu, e cundcnmado por se ter feito
.\lonstruo da Su~iedade ~i\ ii, ~om as suas atrucissimas ~ulpas de ~unjura­
.;:ão, alta Traição, e Parrkidiu. Jot.é Antonio de ( >Iiveira .\la~hado Det.em-
bargadur da ~aza da supr•li~a.;:ãu, c Se~rc:tariu da Suprema Junta da ln~un­
tidencia, que o es~re\·y. Palaciu de Bclem, c ~aza d..ts Se~rctarias de Es-
tado treze de Janeiro de mil sete ~cntus, sin~oenta c nO\ c.== Pedro Gon-
salves Cordeiro Pereira>~.

CERTID-'.0

Domingos :\ogueira, Porteiro dos Conselhos desta Cidade de Lisboa,


~ertiti~u.que cu fui em ~ompanhia do Reo assima dc:~larado, e lhe dei os
prcgucns na forma do bilhete assima, do que passo por lc a prc7cnte ~c:r­
t;dão. Dada cm l3elc:m aos treze de Janeiro de mil sete ~cntos, sin~ucnta 'e
no\"e annos. = Domingos ;\ogucira.

uE.\1 EXECCÇÃO DE SE::\TE::\ÇA QL'E .\1.-\~D.\


EL REY :\OSSO SE;\HOR

Justiça, que manda fazer E\ Rcy ;\osso Senhor neste Homem. que
ha\"endo sido Portuguez, Duque de .\ \·ciro. e .\1m-domo .\lór de Sua .\la-
gestadc, e commcndador das Ordens de São T cago, fui desnaturalit.ado, c:nau-
turado (sic), c degradado por se ter feito .\lonstruo da Sociedade ~ivil, ~om
as suas atro~issimas ~ulpas de ~abeça de ~onjuração. a!ta Traição, c Parri-
~idio. Jozt! Antonio de Oli\'Ci1 a .\la~hado, Dczcmbargadur da.~at.a da Sup-
plkaçáo, c Sc~retario da Suprema Junta da ln~ontidc:n~ia, que o cs~rcvy.
Pahtcill de Bdem, c ~an das Sc~rc:tarias de Estado, treze de Janeiro de mil
sete ~entos sin~ocnta c no\·e. =Pedro Gunsal\"cs Cordeiro Pereira.,.

CERTIDÃO

Domingos r\ugucira, fortciro dos Conselhos desta ~idade de Lisboa,


~crtiti~oque eu lui cm companhia do Rco assima de~larado, c lhe dei os
preguens na forma do bilhete assim a. ·do que passo por fé a pre7cntc ~erti­
dão. Dada em Belem aos tre7e de Janeiro de mil sete ~entus, sin~ucnta c
nu\·e. = Domingos ~ugueira. ·

ccE.\1 EXECCÇ..\.0 DE ~EXTEXÇA Ql'E .\1.\:-\D.\


El. REY :\OSSO SEXHOR

Justiça, que manda fa7cr El Rc\· :\osso Senhor neste Homem, que
hanndo sido Portuguet.. .\larquez de 'Ta\·ora. General, Dirc~tor Geral da
Cavallaria, e commendador da Ordem de Christo: Foi desnaturalizado enau-
turado (sic), e degradado por se ter feito ~lonstruo da Sociedade civil com as
suas atrocissimas culpas de cabeça de conjuração, alta Traição, e Parricidio.
Jozé Antonio de Oli,·eira ~lachado, Dezembargador da caza da Supplicação,
e Secretario da Suprema Junta da lnconfidencia, que o escrevy. Palacio d::-
Belem, e caza das Secretarias de Estado treze de Janeiro de mil setecentos
sincoenta e no,·e. =Pedro Gonsah·es Cordeiro Pereira».

CERTIDÃO

Domingos ~ogueira, Porteiro dos Conselhos desta cidade de Lisboa,


certifico que eu fui- em companhia do Reo assima declarado, e lhe dei os
pregoens na forma do bilhete assima, do que passo por fé a prezente certi-
dão. Dada em Bel em aos treze de Janeiro de mil sete centos sinco ~nta e
no,·e annos. =Domingos l\ogueira .

.. E~l EXECCÇÃO DE SE:'\TE~ÇA QCE ~L-\~DA


EL REY l\OSSO SE:\HOR

Justiça, que manda fazer El Rey l\osso Senhor neste Homem, que
havendo sido Portuguez, foi desnaturalindu por se ter feito )lonstruo d~
Sociedade ci,·il, com as suas enormissimas culpas de conjuração, alta Trai-
ção, Assassinado, e Parricidio. Jozé Antonio de Oli,·eira Machado, Dezem-

I
bargador da caza da Supplicação, e Secretario da Suprema Junta da lnc~m­
fidencia, que o escreYy. Palacio de Belem, e caza das Secretarias de Estado,
treze de Janeiro de mil sete centos, sincoenta e no,·e. =Pedro Gonsah es
Cordeiro Pereiran.

CERTIDÃO

Domingos .;\ogueira, Porteiro dos Conselhos desta cidade de Lisboa,


certifico que eu fui em companhia do Reo assima declarado, e lhe dei os
pregoens na forma do bilhete assima, do que passo- por fé a prezente certi-
dão. Dada em Belem treze de Janeiro de mil sete centos sincoenta e noYe
annos. =Domingos Kogueira.

CERTIDÃO

· Jozé Antonio de Olin:ira ~lachado, Dezembargador da caza da sup-


plicação, e numeaâ.o para escre,•er nesta diligencia, certifico, e porto fé, que
eu assisti a execução, que por urdem de Sua ~lagestade em execução da
sentença assima, e retro dada, se fez nas Pessoas na .m~sma sentença decla-
radas na forma della, cuja assistencia fi7 athé a final execução no Largo do
Cais grande neste lugar de Belem em o dia treze do mez de Janeiro de
mil sete centos sincoenta e nove annos, dito dia mez, e anno que o escreYy
e assigney. = Jozé Antonio de Oli,-e;ra ~lachado. -
.
'9

I PHOYIDF:\CI.-\S)

Sendo ~onsiderada eelus ~linistros abaixo assi~nados, a ~rande urgen-


óa, que ~onstituiu a pubh~açãu da sentença, proferida em du/.e do corrente,
contra os Reos do barbaro, e saaile~o de/.a~atu, que em tre/. de Setembro
do anno proximo preterito, se cummcttco ~untra a Suprema ~lage!.tade d'EI
Rcy :\osso Senhor, por que fa/.endo-sc por ella noto rios, os absurdos, c
erros Thcologi~os, ~\orais, c Politi~us, cm que se preópitarão os Rcli~iuzus
da ~ompanhia de Jezus para arrastarem ~om as suas pestilen~iais doutrinas
os mesmos Reos, athé os persuadirem a que servissem de instrumentos
int~tmes para lllo\·erem as ma~hinas das insasia,·eis, c aucis ~ubiça, e ambi-
ção dos mesmos H.cligiozos, e sendo muito para se prc~a' cr os outros insul-
tos, a que clles pelos seus dctestaYeis prin~ipius, e ~ostumes, se pudem
arroiar ,·endo-se publi~amentc dcs~obcrtos, e por ~onsequen~ia ne~cssaria
perdidos, se faz perózu u~~urrer üs suas ma~hinaçuens, ~om prm·idencias
tão efi~azes, e tãu promptas, que ~esde logu dezarmcm, e des~on~crtem
tudu, quanto elles possão idear, em prejui/.o de Sua ~lagestade, e do su~ego
publi~u dos seus tieis \'assa \los. E estas prO\·idcn~ias pare~ e que sendo o •
Jito Senhor sen·ido· appnH"a-las, pudem ser as seguintes: '
A primeira hé a de se passarem Iugo ~artas gcr.1is a todos os ~linis­
tros desta corte, e Pro,·inóas do Reino, onde tem bens us ditos Religiozus,
cumprehendidas as Ilhas adja~cntes, para que punhão em sequestro geral
todos os bens dos ditos apparentes Religio70s de qualquer natureza que
sejão, nomeando para clles Depozitarios abonados, que re~cbão cm cofre de
tr~ ~ha,·es os seus produ.:tos, dando de tudo ~unta ao Dczembargador do
Paço Pedro Gonsah·cs Cordeiro Pereira, Juiz da ln~onfiden~:a, para pro,·er
no cumprimento dos I .egados, e mais Despezas, que ti\·erem trato su~es­
si' o, o qual se não possa liôtamente suspender: E mandando-se tambcm
sequestrar, e entrar no mesmo ~ofrc todas as ordinarias, e pensuens, que
os mesmos Religiozos, athé agora wbrarão pela Fazenda Real, debaixo de
qualquer titulo, que seja, com o que tirando-se aos ditos Religiozos assim
todos os ~abedais, perderão algumas das prin~ipais forças ~om que tem of-
fendido, e podem utfendcr.
Em segundo lugar pare~e. que para quebrar aos mesmos Rcligiozos
as outras forsas, que lhes tem dado a hypo~rizia ~um os pernióo/.issimos
ell"eitos, que todos deploramos, se dc\·e es~rever huma ~arta Regia, que seja
cir~ular para todos os Bispos, .\r~cbispus, e Prellados Regulares destes
Reinos, Ilhas Adja~entcs, parti~ipando-se-lhes os e:\emp\a~es da dita sen-
tença, e signifi~ando-se-\hes, que de\·cm sah1r ~om Pastorms, em que dcsa-
buzem os seus Diocezanos, e subditns d.ts pernkio/.issimas doutrinas, e ~a­
lumnias veneno/.as, que os mesmos Rcligiozos tem introdu7ido, como peste
para infi~ionarem ~om o ~ontagio dcllas a todos estes H.cinos. . .
Em ter~eiro lugar pare~e, que ha\·end~ _mostrado ~ expenen_c1a, que
as expulsões, q_ue se fi7erúo d~s mesmos Rehg1o7os em ·\_cncza ~ ~ r~nça, e
a que neste Remo ordenou o Senhor Rey Dom ~lanocl, nau subs1st1rao pela
mesma razão, com que ha pou~os annos su~edeo o mesmo a outra expulsão.
~'-!m que a lmpt>ratriz Rainha lançou os ~_lebre?s d~Js seus Est~~os. por~JUC
hmdo em grande numero para outros. Pa17es, hzcrao nelles umoes, e aha!l-
ç_as, ~om que adquirirão p~dero7<lS rrote~ÇÓ~S, para Se~em OUtra \"C/. adn11t-
tldos: Pare~e que por ob\ 1ar a este m~om·emcnte cm 'ez de se lansarcm do
l~o

Reino us sobrcditos Religiozos, se den~m dividir, c espalhar ndle, e seus


Dominios, de surt<e que perdendo toda a consistencia da união, com que se
fazem furtes, fiquem dispersos, e enfraquecidos em forma, que não possam
fazer movimento, que seja considera,·el. O que se pode praticar sendo Sua
Magestade servido: .Mandando-se os do quarto voto que não se acharem
decrepitus para fazerem Jmissiiu nas Ilhas de São Thomé, do Principe, de
Anno Bum, de Bissau, de S<.\o Teagu, e no continente de Africa, em Ca-
cheu, e mais Feitorias daquella Costa, debaixo da inspecção dos seus Go-
,·ernadorcs, Administradores, e Feitores: .Mandando-se os outros, que im-
mediatamente se seguirem para os Conventos das outras Religioens, repar-
tidos de sorte, que não caiba mais de hum, dous athé trez ·a cada hum dos
ditos com·entus, conforme o numero dos seus Religiuzos. Abrindo-se a porta
aos mais, que ficarem, para que possão sahir para onde bem lhes estiver, e
dando-se-lhes faculdade, para proseguirem os seus Estudos nas C ni,·ersida-
des. c emfim reduzindo os que ainda restarem a certos, e determinados
lugares, onde ,·iváu claustrados, e separados de todo o cummerc=u, debaixo
da custodia dos guardas, ou sintinellas, que Sua I\1agestade ordenar .
• Em quarto lugar parece, que será necessariu, que o dito Senhor dê
providenc·a, c faculdade, para que o subredito l\linistro Juiz da Inconfiden-
cia, c os Adjuntos, que com elle expedirem este grande negocio, mandem
fazer pelo cofre du sequestro as despezas precizas, para os transportes dos
Religiozos, que houvereni de passar ao LTltramar, para as dietas dos que
hom·erem de ser repartidos, pelos com·entos das outras Religioens, e para
o sustento quotidiano, dos que hom·erem de ficar reduzas nos lugares assima
referidos ..
Em quinto lugar parece. que se de,·em expedir ordens circulares ás
Universidades de Coimbra, Evura, e mais terras do Reino, onde os sobre-
ditos Padres tem Escolas abertas, .para que logo sejão fechadas, dando o
mesmo Senhor juntamente a providencia de ordenar ás Camaras, que po-
nháo Editais, para pro,·erem Mestres de ler, escre\·er, e contar, e de latim
com ordenados competentes, que podem sahir do mesmo cofre do seques-
tro, para que elejáo pessoas capazes por costumes, c sciencia, que bem
cumpráo com as suas obrigações: ApprU\·ando estas eleiçoens os correge-
dores das commarcas com recurso para a ::\leza do Dezembargo du Paço, a
favor dos Oppozitores mais capazes que se considerarem preteridos por in-
justos empenhos: E isto interinamente em quanto Sua Mauestadc, não der
outra geral, e mais ampla providencia ao estabelecimento dos Estudos dos
seus Vassallos, que na mesma providencia receberão o maior beneficio entre
os muitos que tem devido, e dc,·erão á paternal, e infatigavel clemencia,
com que o mesmo Senhor nus tem t;.\o repetidas ,·ezes mostrado, que pa-
rece que só reina para beneficiar, e proteger os Pu,·os, que a Di vi na Omni-
putencia confiou au seu gluriozissimo Governo. • •
Em sexto, c ultimo lugar, pelo que pertence aos Estudos das Artes
em Coimbra se de,·em pro,·cr as cadeiras dellas por concurso, como as das
mais Faculdades, ficando as mesmas Artes inteiramente separadas dos tais
Religiozos. E .relo que pertence a Evora se faz percizo, que Sua l\lagestade
nomeie, hum Reitor Clerigu du Habito de S. Pedro cum os lentes de Filo-
sophia do mesmo Habito, que necessarios furem, substituindo no lugar da
Theologia Esculastica, que athé agora se lêo na mesma C ni,·ersidade infru-
ctuoz::lmente, hl!lma cadeira de Historia, e Disciplina Ecclesiastica, e outra
Gt

de Th~ologia Polemi~a, e llo~mati~a, que ~nsinc a susl~ntar vigorulamente


as 'crd:td~s. ~atholi~as, ~ontra os sophismas h~r~ticus, aos quais os referi-
dos Thculogos Es~ula!>ti~us não sabem responder, nem huma só palavra.
Pala~iu de ::\,>ssa ~cnhura da Ajud.t cm Junta de dci'Uitu de Janeiro de mil
sete ~cntos sin~uenta. e nove. ~~bastião Jozé de Canaiho c "dlo - João
"arques Ba~alh<i.o- Pedro Gonsah·cs Cordc;ro Pereira -João Pacheco Pe-
reira de \' asconccllos - "•moei Ferreira de Lima - -João Ignacio Damas
Pereira= Doutor .\ntonio .\h· ares da Cunha e .\raujo = Jo~:é .\ntoniu de
Oli,·eira .\tachado= Ignacio Ferreira ~ou to= Jo~:~ da Costa Ribeiro .

.\PPE:\<.:0 1.
0

Certifico eu Antonio .lozé Gah·ão official maior da ~e~retaria de Es-


tado dos ::\cgocios Estrangeiros, e Ja Guerra, deputado por ~ua .\lagestade
para o exame das corrcspondcn~ias suspeitozas, que pelos correios passãu
para as cortes Estrangeiras, que do uflicio do ..:orreyu mor 'ierão á m:nhh
prezença, e dos meus utli~iais, destinados pelo mesmo ~cnhor para os ditos
exames abaixo declarados, as ~artas origina:s das letras costumadas dos
seus pruprios Autores, segundo o que nas mesmas ~opias se declarão, re-
met;das nus currcyos respc~ti\·us ás suas datas as cartas que fielmente se
trasladarão, como ~onsta das copias seguintes; e por passar na wrdade fiz
a prczente que assigney com os subreditos meus utliciais. Bdcm a onze de
Janeiro de mil sete centos sincocnta e noYe. = .\ntoniu Juzé Galúi.o.= =-O Be-
neficiado Francisw Bra,·o de .\guiar= Francisco da Costa.

De hum Padre da Companhia sem nome. Coimbra quatro de Dezem-


bro de mil sete ~entos sincocnta e oito para o Padre F1 ancisco Pessoa.
(<.\luito tem mortificado a minha paciencia esta demora das lndulgen-
_~ias, c ainda mais agora esperando Yenha a ~arta ~om encomendas: man-
de-me Vossa Caridade dizer que Indulgencias são estas da Prima Primaria
para ao m~os as dizer a quem me persegue, e cuide muito bren!mente em
pedir ao Papa as que eu lhe mandei, porque sem isso nada posso adiantar
esta Irmandade, pois ningucm cre nclla sem indulgencias. Yossa caridade
me diz qne das nossas ~oiLas h<i. lü melhores noticias. neste correyo lhe hirá
a que agora sahio em I .ísboa, c foi mandar u Cardeal ordem ao Prm incial,
que não mudasse sujeito algum sem lhe dar parte, não só de hum cullcgio
para outro, se não das occupaçoens em que esta,·ão. \'amos para peior, c
para tudo ha Direitos, e Theolugias, mas Deos acudirü. Há grandes movi-
mentos nos .\lilitares deste Reino, e se ajuntão na corte muitas Tropas, e
fa~:cm de no,·o soldados, o para lJUe hé mistcriu oc~ulto. O .\\aranhão oiço
di~:er que está inteiramente perdido, e que os lndios, tem abalado para os
matos, donde se segue, não ha,·er quem fabrique as terras. Yossa Caridade
mande assim nO\·idadcs, e não seja tão laconico .\ Deos & 3 n.
E por passar na verdade, e ser copiada do original fiel, e verdadeira-
mente o juramos aos ~antus E\ angdhos. =Antonio Joz~ Gah·ãu Fran-
cisco da Custa. Sendo ncccssariu u juro ;, l'f.'rbo s.h.f.'l"•lotis. O Benefi-
ciado Franós~t• Bra,-u dt' Aguiar.
IÍ2

Ou Padre Joáo Henriques da companhia para o Padre Joáo de Gus-


mão. Da mesma Lisboa dezenove: de Dezembro de mil sete centos sin-
coenta e outo.
"A que:ixa do estumago. que ainda continua, e a suma affiição com que
estou só permittem dizer a Vossa Reverencia, primeiro, que recebi a sua
carta de quator7e de ::'\0\·embro, segundo que todas as nossas cazas em
Lisboa, esüio com numeroza guarJa de soldados. Terceiro, que o Eminen-
tíssimo Reformador, não quer que os superiores das ditas cazas deixem
sahir fóra os nossos athé nova ordem sua= por justos motivos do serviço
de Deos, de Sua l\lagestade, bem da Relegião= :\'landei com preceito aos
mesmos superiores, que fi:;r,essem o que Sua Eminencia queria, e assim o
,·ão faze:ndo. Quarto, que agora fazemos em Lisboa muitas penitencias, e
rogativas a Deos. Quinto, que ainda não sei a que veyo o Padre Mala-
grida &.a».
E por passar na verdade, e: ser copiado do original fiel, e verdadei-
rame:nte o juramos aos Santos Evangeihos.=Anton·o Jozé Galvão.=Fran-
cisco da Custa.= Sendo necessario o juro iu z•e1·bo sace1·dotis. O Bene-
ficiado Francisco Bravo de Aguiar.
_,
De hum Padre da companhia que se ass'na todo seu a:-r.igo, para o
Padre Procurador Luiz da Sih·a. Lisboa dezenove de Dezembro de mil sete
centos sincoenta e oito.
', u Enganei a , . . ossa Rt:,·erencia no correyo passado con1 hun1a noticia
boa, porque sahio para nós muit<J má, nenhuma rezulta hom·e da parte que
se deo a doze deste : A treze de manhã se prenderáo os dois 1\larquezes de
Tavora, :\larquez de Alorna, Conde de Atouguia, 1\lanoel de Tavora, .Jozé
Maria de Tavora, e outros que não sei, e decêo aos Tribunais, e se fixou
Edital que declara o insulto de trez de Setembro em que atirarão a Sua
Magestade dois, ou trez tiros ; pozerão-se, e estão guardas a todas ·as ca-
zas, e famílias dos prezos, e na mesm:J. tarde se pozerão tambem, e conti-
nuão em todas as cazas da companhia, no dia imm~diato, ou mediato, che-
gou tambem prezo de A7eitão aonde estava o Du-=tue de Aveiro com seu fi-
lho: Athé o que se sabe, dizem que huntem, e hoje se processão, para o
que estão todos os Tribunaes permanentes em Selem, e a ca,·allaria sobre
as armas. Encomende-nos Yossa Re,·erencia a Ocos, que be:m o necessita-
mos todos os que tivemos a infelicidade de: estarmos em Lisboa em tais
conjuncturas, em que toda a prudencia humana não pode conter, nem con-
trastar \Ontades pen·ersas. Toda esta afticta communidade, fica em exerci-
cios que dá o Padre :\lalagrida, hoje hé o terceiro dia, e receio muito que
nem elle, nem nós os acabem'JS; toJos andamJs consternados, porque não
temos as virtudes, que a ella lhe dão hunn ntraordinaria constancia de
animo, para tudo o que delle dispo7erem; e este hé o unico ati,·io que te-
mos. O mundo de que totalmente estamos separados, porque athé os Estu-
dantes se prohibem entrar nas cazas, e Aulas dês que nos implicão no in-
sulto de trez de Setembro, o porquê, ou como, não o posso alcansar, e por
isso já nos sentencca, quando menos a prizões, e extermínios, e total ex-
pulsão da Corte, e do Reino: O Senhor Cardeal no mesmo dia treze, man-
dou ordem, para que nenhum nosso sahisse fixa, o Padre Pru,·incial que
na mesma tarde a fe:z publicar em todas as cazas, se bem j<i todos esta\ a-
mos no mesmo arbítrio. Disto que h é só o que posso alcansar, discorra

\"ossa Ren~renôa as angustias em lJliC ficamos, c o lJliC podl."remos esperar


entre tantos horrorl."s, c tais circunstancias de tempo: quando \" ossa Heve-
renôa ·ti,·cr noticia da minha morte, peso-lhe mais huma missa como ami-
go &·•.,.
E por passar na verdade, c ser copiada do original fiel, c \crdadeira-
mcnte o juramos aos Santos Evangl."lhos. ·= .\nton1o .Julé Gaivão= Fran-
cisco da Costa.

Do Padre Jovão de ~1attos Ja companhia, para o Padre Pc:dro lgnacio


Ahamirano da mesma companhia. l.isboa São Hoque de7oito dl." Dc:1cmbro
de mil sc:tecentos sincol."nta e outo.
((Recebi a de \"ossa Rc,·ercnóa de outo de Dezembro da qual ,·ejo tc\·c
a magoada noticia do falescimcnto do estima\ d Padre ~lanod de Campos,
antecipada ü que csac,·i: Logo remeti as cartas aos Padres Procuradores,
e supponho responderão, por que athé o tempo que esta escrevo, não te-
mos embarasso para cartas: nu ma_is lá terü \" ossa Reverenda individuais
noticias da consternação em que nos achamos, os que assistimos nesta
Corte, pois sendo cü publicas, não faltani natural desse Heino, que as es-
ae,·a, e nesta só digo, chegamos a ultima calamidade, cheia ainda de sus~
tos, e receios, e sem algum alivio, nem esperansa deste; pois só de Ocos o
podemos esperar, c de: dia, c noutc nesta cala lho pedimos, estando hum,
e hum Irmão de hora em hora diante do Santissimo, e esta noute fizemos
voto de celebrar a festa do Coração de .lc:zus, c fazer cxercicio cada mez:
Yossa Rc\"Crenóa, e os mais Reverendos Pad~es nos ajudl."m com as suas
oraçoens e ss. ss. porqul! todos somos, filhos do mt'smo Pai, e da mesma
.\lãv &a,,.

De .Jozé Rozado da companhia de .Je1us para Pedro Ignacio Altami-


rano da mesma companhia. I .is boa dezoito de Dezembro de mil setecentos
sincoenta e oito.
"A nossa companhia Portugueza t'm outros tempos glorioza em 'irtu-
des e letras. não sei por..1uê reduzida a ultima mi1.eria. Ocos queira que
tantos trabalhos seja para a purificar, e tornar ao seu primitin) fan1r &a,.
E por passar na ,·crdadc, e ser copiada do original fiel, e ,·crdadeira-
mente o juramos aos Santos E \"angclhos =Antonio .Jozé Gahão = Fran-
cisco da Costa.
'
Do Padre .João Henriques Pro\ incial da companhia para o Padre
João de Gusmão assistente pela companhia em Roma. I .isboa vinte e sinco
de Dezembro de mil setecentos sincoenta e oito.
"Yai continuando a tormenta com maior whemencia, hoje h é dia de
~atai, e ainda estão as nossas ca1.as com guardas, ante hontcm vierão ~1i­
nistros Regios dar busca <is mesmas cazaS: mas a Deos graças não acharão
fa7endas de contrabando, nc:m outras couzas prohibidas, ·que se dizia que
tinhamos escondidas. Htmtem fui a cala do Eminentissimo Senhor Refor-
mador, para lhe fallar, o qual me mandou diter, que se aJmira,·a de que
eu fosse lü SC!fl1 ordt'm sua: respondi-lhe por lJUI!m trouxe o recado, que
eu não tinha pruhibição de Sua Eminen~ia para sahir fora, pois só me ti-
nha mandado eseft'\·er, que ordenasse aos Prellados das cazas desta corte
prohibissem aos Religiozos das suas cazas o sahir fora, athé nm·a ordem,
a isto mandou o· dito Senhor por repósta, que não me podia fallar, e que
a prohibição comprehendia a subditos, e superiores, como todos estomos -
assim prezus, e atribulados, clamamos continuamente ao céo dizendo Da
p<tcem I Jomiue in diebus 1lostris, qu i,1 11011 est ,1/ius, qui pugilei p1·o nobis
uisi lJms uoster, pois sõ Deos pode remediar-nos, como Vussa Reveren-
cia diz na sua carta de vinte c dois d~ .i'-/o\·embro, que agora recebo, e es-
timo muito pela noticia da sua boa saude, que nella me manda. Tambem
recebo agora carta do ;\/osso Muito Reverendo Padre, escrita aos vinte c
hum, mas não posso agora escrever-lhe, n:ío só pela graflde consternação
em que estou, senão tambem, por que me sobre,·eio um defluxo, que fez
decubito ao peito. Os cathalogus da Província, não se podem agora pôr em
ordem, porque ninguem anda em si, e assim não esperem lá por dles tão
depressa. Peço a S. B. e os SS. SS. de Vossa Reverencian.

Do Padre Jozé Rozado da companhia para o Padre Assistente João


de Gusmão em Ronn. Lisboa vinte e seis de De7embro de mil setecentos
sincoenta e oito.
cc§. 1'\o mesmo dia treze se expoz hum Edital em que S'e diz ter ha,·ido
conspiração contra, e para matarem o nosso Rey, e se promettem grandís-
simos premios a quem descobrir os a~grcssores, que atirarão a Sua Ma-
gest:Ide, quando na noute de trez de Setembro se recolhio para sua caza.
Sabbado se deu huma busca cm todas as nossas cazas e em outras de pes-
soas particulares, o que se fez por Dezembargadores, acompanhados de
:\linistros de Justiça, e de soldados, dizem que buscavão armas, porem
nest1 cazinha, não acharão couza que com isso se parecesse, e o mesmo
creio sucederia nas mais . .i'-/áo hé necessario dizer a Vossa Reverencia, o
como estaremos, só lhe digo de mim que me sinto animado, o Padre Jozé
de Araujo fica perigo7o por cauza de hum pleuri7 &.an.
Antonio Jozé Gah·ão =Francisco da Costa.

Do Padre Jozé de Oli,·cira da companhia, para o Padre João de Gus-


mão assistente em Roma. Lisboa vinte c seis de Dezembro de mil sete cen-
tos sinco~nta e oito. Trata das prizoens, c que se lhe pozerão guardas, e
continua:
"~- As guardas que cuntinuáo [dizem~ que são por costume das Curtes
de a<; m:mdarem pôr a todos os que estão no dezagrado dellas, e quando
se descobre conjuraçã , outros dizem, que por receio de que fomentemos
algum le,·antamcnto. como fizerão dois D0minicanos no tempo d"El Rey
Dum 1\lanoe\. A prohibiçãu dos Estudantes, di-zem nasceo de dizerem os
cabos das guardas, que os Estudantes eráo tantos, que não podião toma-los
a rói. seja o que fiw, parece-nos que a nenhum de nós remorde a conscien-
cia de ser cumplicc, nem ainda sabedor do referido delicto, olferecemos a
Deos a occaziãu que com isto tomou o Pm·o para di7er de nós quantas
mentiras lhes occorre.
Aos Yinte e trc7 se dêo bu!-.ca por Dezembargadores, officiais de jus-
tiça, e soldados, dizião que procuravão tabaco, porem pelo que vimos, pro-
cura,·áo outra cuuza, o que se confirmou, buscando cazas de seculares, re-
procurando-se barris de polvora. e caxões de armas, soubemos depois, que
-o n1lgo espalhou tínhamos armazens deli as cm Arroyos, espc.: ia Imente ü
cerca da proYa dos prezas, se Jizcm contraditorios, e não vi tempd em que
~·.

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Exccuç.J:r, d,t \l.trqucsa de Tav•Jr.t


GS

se mentisse tanto; nós o experimentamos, e ro,orremos só a Deus, qui.t


11011est .tlius &." \·ossa Revercnôa me (:onccda a S. S. 13 B.
P. S. Esquecia-me: estamos livres de h uma balela, que hum:t das Ilhas se
levantara a(:damando o Duque de \\·eiro (foi ellc sempre inimigo nussol c
(JUC o levamamento fora indução nossa, já tudu está conheôdo por falço. U
Padre :\lalagrida está em Santo Antão, mandado vir pelo Cardeal, e che-
gou um dia antes das prizocns,,.
-
De huma letra disfarsada, e assinada ''Dum Jo1é Solisn. Para o Pa-
dre Pedro lgna,io Altamiranu em :\ladrid. Lisboa vinte e sinco de Dclem-
bro de mil scte(:entos sin,oenta 'c oito.
"Tenga \". R. salud coo mu,has felicidades, e porque sei dezeja noti-
cias de sus RR. PP. Jesuítas digo '-)Ue elos estan de su mc!'ma manerã
que cscrebi : tienen soldados de guardia peru no perturban entrada v soo
mui raras las personas que alia van, e ninguna de distincion en la lglelia
gira una sentinela mirando se habl:~n pero ninguno P.e vienc a la lglezia
se no a di,er missa, a los 23. antivespera dei nascimento "ino un ministro de
just. a com otficiales y soldados a todas sus cazas, c examina roo sus utfici-,
nas, puerta e apolcntos ~ todo lo que tenian peru no papielcs, diziendo pro-
curaban tabaco: y nadie hallaram y a la ,·erdades que tcnian di,ho algunos
dei pueblo, que ellos tenian armas y se alia es,ri,·ieren hallaron armas, 0
dineros, tudo es falso ni hasta que esta escriba se halla p~ezo Jesuíta al-
guno: Cierto me (:Ompadesço de lo mu,ho que los tienen caluniado v fal-
sos rumores que tienen corrido. Dios los fa,·ores(:a: pucs se hallan prezos
· cn sus ca1as y collegios, y alia !legar not.a (:Ontra dlos no la acredite pues
los quieren caluniar.
De Roma algo me parese tiene n:nido a su fabor segun lo affirman
los que tienen not.as de aquella ciudad peru cn esta nadie salle a su fabor.
El Rev fidelíssimo se halla restabele,ido de su herida v se há (:antado el
Te de1im en todas lglesias. Los hidalgos que se prendieràn estan en sus pri-
siones y no se tiene hasta aur~ hcd1o execucion Y se ,·an haziendo prisio-
nes, y se ticne procurado n1rias calas se tienc tabaco o armas peru no se
hallan. Dias guarde a \". R. &.a,,. _
E por passar na nrdade, e ser copiada do original, fiel, e verJadei-
ramente o juramos aos Santos E,·angelhos =Antonio Joz~ Gah·ão = Fran-
ôs.:o da Costa.
A\TLSA

De letra disfarpda, e sem nome com subscripto ceAI mui lllustre


~.or Sah·ador Ossorio mi s.or G.cle Dios assistente en el de Jesus de la Corte
de Roman.
u:\{ui lllustre S.or mio. JustoS respc(:tOS han Ínterronp=do OUeStra COr-
rcspond. a Lo que por ao r a ai de nucnl afuera de lo que se es,ribio en la
puesta pre,idente, es que fueron reclusas en munasterios reformados las
muperes de los principales prelos de Est. 0 <i cer(:a destas se habla coo va-
riedad por lu que respeta al motÍ\ o dei delicto, que algunos no se persua-
den fue se no zelos, y despique de honor, mal pensando pues una macula
no se purifi,a dcdtandÕ lc en sima otra tanto mas suzia, quamo es mas hor-
rible que tod~1s la de un atentado contra la vida de un Rey la sentencia
s
GG

que segun dizem saldra impresa quanto antes, con la execucion quitara las
dudas, los miserables prezos han padecido terribles torturas: los Jesuítas
mue,·en a compassion por que ~stan prezas en sus co_~1bentos, y com guar-
dias de soldados quanto se enttende para ha1erlos aht y en todo el mundo
suspechozos en su lealdad. En este Reino no tienen sino a Di~Js por que los
inimigos hablan, los amigos callan por miedu. ~lvns. or ~uncio parece haz
las partes de la Corte d'e Roma, por que quiere e! capelo en esta promo-
ciun Papalina a exemplo de Oddi, e de la de Lisbona, por que quiere la
Protectoria de este Reino por muerte de Corsine, que se halla en edad
abançada yo que no soi puesta a Jesuítas tambien callo por no grangear
in;migos. Y. S. a me hon·rre com sus mandatos &. a nu\·e de Janeiro de mil
setecentos. sincoenta e noYen.

o
Do Padre João de ~lattos da companhia de JelUs, para Padre Pe-
dro Ignacio Altamirano em ;\ladrid. Lisboa nove de Janeiro de mil setecen-
• toS sincoenta e nove.
nRecebi a de Yossa Rnerencia de Yinte e nove de Dezembro, e estimo
logre Yossa Re,·erencia saude, nós ,-amo~ olferecenJ.o a Deos os ultrajes,
que temos na tribulação que ainda continua, a qual me parece hia indi,·i-
duada na carta de Dom Jozé Solis: e algum cuidado me cauza não poder
entender desta de Yossa Re,·erencia se lhe foi entregue pois me parece foi
escrita no mesmo dia dezoito em que foi feita a minha que \' ossa Reveren-
cia diz recebeo, e pur nessa hir tudo o que tinh~ sucedido, e juntamente os
papeis, ou Editais impressos: pur isso só dizia em geral o que passa,·a, e
pedia nos encomendassem a Deos, e agora agradeço a Vossa Re\·erencia, e
a todos os Reverendos Padres dessa Prm·incia a companhia que nos fazem
nesta consternação, e pedirem a Deos se lembre de nós, pois só delle pode-
mos esperar remedia, quando for sen-ido de nos om·ir.
:\ós ainda estamos com a soldadesca de guarda <is portas ainda que
não impedem a communicação dos que quizerem ,-ir, e só tomão a rol us
nomes de pessoas gra,·es, as quais nãu vem. :\a Igreja não impedem, nem
perguntão, e entra quem quer, já na carta de Dom Jozé Solis leria Yossa
Re,·erencia a busca que nos derão em todas as cazas desta Corte, exami-
nando officinas, cubículos, e tudo o que nestes esta,·a, mas não em papeis,
por que nada acharão do que busca,·ão, as guardas dos soldados só se po-
zerão nas cazas da companhia, e em nenhuma outra cummunidade, só nós os
Je1uitas hé que temos guarda de soldados, e nistu respondo ao que Vossa
Rnerencia me per·guntava nas ultimas clauzulas da sua, e desta pergunta
de alguma sorte infiro, lhe fui entregue a de Dum Jozé Sulis, e não ter
mandado em meu nome estas noticias com indi,·iduaçáo. foi receio, de que
nos bulissem com as cartas, mas athé agora o não tem feito.
Depois que se prenderão os Cundes de Obidos, e Ribeira, que forão
para a Torre de São Julião. não se tem feito prizão a Fidalgos, se não de
alguma gente ordinaria, como criados do Duque de Aseiro. A semana pas-
sada furão mandadas a Condeça de Atouguia para hum com·ento de Frei-
ras em Saca\·em, a Duque1a de .\,·eiro para as Trinas, e as filhas para as
Freiras de Santa Thereza: a -'larqueza de .-\!urna para o com·ento das
conegas de Santo .\gostinho.
' \'ierãu mais alguns corpus --le suldad•JS para esta Curte, nenhum
nosso tem sido prezo: ainda l)lle o Pun1 tem dito serem muitos us que
furão pret.os, o Padre \Ltla:~rida foi dtamado pelo Cardeal Reformador, e
o mandou fallar com o Sc.:retariu de cstadn, mas veio logo outra vez para
~anto .\-ntão. :\áo se tem feito athé agora exe..:uçáiJ alguma &.dn.

D" Pa,frc .Joté de Oliveira da ..:ompanhia de .Jctus para o Padre .\s-


~i~tcntc cm Homa. Lisboa nm·e de .Janeiro de mil setecentos sin..:oenta
c non•.
"\" ussa H.e,·eren..:ia legre boa saude, e se conforme com a vontade de
Dcos. como nós vamos fazendo, postos na mesma prizão com as mesmas
~uarJas, e cllas com or'-fcm de nos impedir a sahida, de ubsen·ar se per-
tendemos sahir, ou por portas, ou por muros Laos quais os soldados, por-
que são só quinte em cada cata nossa hum T cnente, hum Sargento, c hum
tambor, 1 c de n.~s levar cm sc.~ura custodia aú cardeal se quit.ermus sahir,
isto h é certo. ~a semana passada forâo metidas a Duquet.a de A n~yro no
com·ento dos Remedi os de CampoliJc h·ulgo o Rato,~ a \larqueza de A Iur-
na no de Cheias, e a Cundcça de .\tuuguia no de Saca,em. Os filhos, e
filhas yue são criansas, li•rão m.:tiJos elles na caza da Congregação da
\lissáo, e dias em hum com·ento das Carmelitas descalças, que ouço hé o •
de Santo Alberto: D~sta dispozisão inferem alguns, que esta semana serà a
execução: á cerca da prm·a dos Hcos suas confi'isoes &:' se dizem muitas
couzas, e algumas inconcordaveis, humas com outras; por isto não me
canço em escre,·e-las. :\;ío dcixl,) de_ approvar a nomeação do Padre .João
.\lexandre cm Procurador da sua ProYincia, mas não sou eu só o llUe re-
paro nu tempo que parece não era para se alterar couta alguma, pois ou
se desse parte an Cardeal, ou não cm qual,luer cou7a ha incom·cniente, e
com especialidade, não podendo isto occultar-sê int,·,t domesticos JMn"t!les, e
devendo saber-se na caza da lndia [onde sabe Deus se se dcspachanío agora .
as cuuzas da companhia, pois ouço ainda se nâo concedeu despacho aos do
:\I aranhão, do que lhes veio ha tantos mezes l mas tambem na corte de :\la-
drid, onde se anda,·a diligencian-do o Legado da Rainha Catholica, porem
sempre venero as dispoziçoens dos Prellados, c não !l1e metto no que me
não toca. Ainda por meus peccadus estou nesta Galé, pois o Padre Antonio
da Costa dizem não \Cio escuzo da Patente, e o Padre .João da Yeiga não
póde agora ser mudado, nem hé bem entrem nossos de novo cm I.isboa, as
mais novas se as lui lá as escre\"i\o outros &. 3 n.
. E por passar na ,·erdade, e ser copiada do original fiel, e verdadeira-
mente o juramos aos Santos E,·angdhos. =Antonio .Jozé Gah·ão = Fran-
cisco da· Costa=- ~endo necessario o juro ;, 1'1!1"bo s.1ardutis =O Benefi-
ciado Francisco Bravo de Aguiar.

De .\ntonio de Torres da companhia de .Jczus para o Padre Assis-


tente em Roma. Bra~ança dezoito de Dezembro de mil setecentos
sincuenta e oito.
uSupponho que chegarão duas postas juntas, por que me acho ncst~
correio com duas de Yossa Reverencia, huma de ,-inte e sinco de Outubro,
outra do primeiro dia fatal de ~ ovembro, em que Yossa Re,·erencia já re-
colhido a Roma, dctcjo que fosse com saudc, c pr-Jvcito na ,-igiliatura: a
minha proscgue, c tambem as estimasocns: veremos como se passa o ln-
,·ernu, cm 'llle jü entramos, ..:ujos frios, aind.t são tolcra\'eÍs. S~r<Í ddiciJ a
restitúisio em que \' ossa Rc,·erencia; antes de se çon.:luir o negoçio, e este
tiS

ainda que em hum Tr:bunal ache favor, em outro tem o vento pela proa,
e tarde se chegará a porto de salvamento: não sei quando nos ha de vir
huma noticia," que nos console nas grandes aftiçoens, que padecemos, vendo-
nos álem do mais privados do exercicio dos principai<> ministerios da com-
panhia: eu quazi vou de? esperando de ver estas couzas compostas em m-eus
dias: louvado seja o Senhor que tanta materia nos dá para merecer. Agra-
deço muito as novas, as de cá saberá Vossa Reverencia quazi ao mesmo
tempo em que aqui nos chegáo, chegando aqui me dão a noticia de se fe-
charem nesta manhã Editais honorificas para estes franciscanos, pelos quais
este Excellentissimo lhe tira a suspensáo que lhe tinha posto o Bispo de
confessar,. e pregar nos com·entos das Freiras, a nossa dorme. Hum com-
primento aos Padres &. 3 JI. =Antonio Jozé Gah·ão = 'Francisco da Costa.

Do Padre Este;ão Lopes da companhia de Jezus para o Padre Subs-


tituto. Lisboa nove de Janeiro de mil setecentos sincoenta e nove.
"Recebi de seis de Dezembro do anno scorso em tempo de Festas do
Santo :\atai. as quais tem sido este anno muito parecidas, ás que o .:\lenino
Deos veio buscar á terra: graças infinitas lhe sejão dadas por nos fazer
participantes neste pouco do muito que elle quiz padecer por nosso amor!
A carta de Vossa Re\·erencia me consolou muito, e a todos os que ouvirão
ler o prodigio, que o Santo Xavier obrou em i\ apoies: outros favores es-
peramos alcansar de Deos, por intercessão· do glorioso Apostolo, sendo
para gloria do mesmo Senhor e bem nosso. A censura tão efficáz do Lino
do Padre Brecier denota mudança no animo do homem, paciencia, basta
que tenhamo::! a Deos por nós. Continuão as guardas de soldados nas nossas
cazas desde treze de Dezembro, as ordens que se observão são náo deixar
entrar ninguem, sem primeiro dar o nome, officio, ba:rro em que mora, e
quem procura, e tudo se escrne. ::\a Igreja em quanto há Po,·o tem senti-
nellas com bauneta na bôca d'arma para não deixarem fazer magotes de
Conversasão, nem deixar entrar para dentro da Sacristia, e caza. Alem de
se nos prohibir o egresso de caza por ordem do Senhor Cardeal, tem os
soldados ordem para não deixarem sahir nenhum nosso, sem mostrar ill
scriptis do dito Senhor Cardeal licensa, e querendo sahir sem esta o lewm
em custodia ao mesmo Senhor. Náo se permitte virem Estudantes á classe,
por que os guardas tem ordem para os impedirem. ::\áo obstante não se
achar nas nossas cazas couza alguma do que se buscava, se es-palhou no
Povo, que se tinhão achado nas nossas cazas muitas mil armas, polvora,
bala, &. a por que entravamos na conjuração &. 8 Estas, e outras vozes se
espalharão pelo Povo de Lisboa, e de todo o Reino, que como ignorante,
tudo acredita, e olha-nos como homens facinorozus, por que os cordatos
não dão credito a estas impostur~s, se diz que brevemente ha de haver exe-
cuçoens, quem deve bem hé que pague, por que hé crime dos mais atrozes,
que pode haver. I'\ a Bahia hé Reformador o Arcebispo. O Vice-Rey mandou
carta aos nossos para não hirem ao seu Palacio. O mesmo ordenou o Ar-
cebispo ,·espectil•é ao seu: foi ordem para se nos tirarem as Aldeas. Estas
as noticias que posso dar, nem nos comunicamos com ninguem para saber-
mos mais &. a,,, L

E por passar na verdade, e ser copiada do original, fiel. c wrdadei-


ramente o juramos aos Santos Evangelhos.= Antonio Jozé Gah ãó = Fran-
cisco da Costa= O Beneficiado Frailcisco Era' o de Aguiar.
lle João Henr"ques da companhia de .Jetus p tra n PaJre \ssistente .
.. ~<to posso saber se o lrm.lo \"irissimo :\unes insiste t:'m querer h=r
par~ a rua, \·cremos o que c.::llc diz dcpo;s que isto a-.Jui.:tar, '-Jue náo
• sera tão depressa, se esta prizão durar muito kmpo, muito km ~o.JUl' pa-
decer os Padres de Süo Roque, porque sem os Esmo leres. poderem hir
pedir as esmolas, n;lo podem sustentar-se. Deus nos acuda por sua infinita
mize1 icordia. O Padre João ~larques dco á pouco tempo os e\.crcic.os do
:-.losso Santo Padre aos homens em Braga com grande fervor, e fructo, este
Padre tem especialmente takntu, e fructo para as ~lissões, e por isso o
appliquei a este ministcrio. .\s angustias em que estou mio permittem es-
crever mais, não tenho tanto medo do pn IL~sso ·em que Yossa Re\ e-
rencia falia, como das couzas que aqui estou vendo, queira Deos põr tudo
cm bem''·
E por passar na verdade, e ser copiada do original fiel, e verdadeira-
mente o juro aos Santos Evangelhos.=· Antonio José Galn\o. = -Francisco da
Costa= c Sendo necessario o juro in l't!l·bo s.lú!l·dotis. =O Beneficiado Fran-
cisco Bravo de .-\gui;tr.

De :\l.trtinho Gah·ão da companhia para o Padre Assistente em Roma.


Evora sinco de Janeiro de mil setecentos sincoenta e nove. '
.. como esta h~ a primeira deste anno muito cheio de fclicidctdes, de-
zejo a Yossa Reverencia, a quem se tenho mandado algumas novas falíveis
hé por que as da\ áo por ,·erdadeiras, porem os nossos \"it.inhos Espanhoes,
são os primeiros, que trucão de falso, e agora ,-ierão a Elvas comprimen-
tar o novo Reitor, e dicerão outras similhames, são muito amigos do doce
de Portugal; em Lisl:-oa continua o cerco, e as prizoens &.11.

Do P<tdre Francisco Duarte da companhia de Jezus para o Padre As:


sistente em Roma. Lisboa nu\·e de Janeiro de mil setecentos sincoenta
e no\·e.
,, D11mingo _antes do passado foroío pre7os para a prizáo mais ali-
' iada o Conde de 01:-idos, e o Conde da Ribeira athé certa a\·erigua-
ção, e furão para a Torre de S. Gi,\o, se~ta feira passada, veio hum
destacamento de cento e sessenta soldados do Regimento de Setubal,
para se alojarem nas classes do Collegio de Santo ~Antão, e estando já
formados defronte dL~Ias no pateo, ainda esperando as ultimas ordens,
'cio a\·izo do General para se hirem alojar a outra parre, e tendo entrado
pda portaria du carro aonde hé o corpo da guarda, sahio pelo patio, e
porta dos Estudos, tendo já os Padres as classes abertas para o seu aloja-
mento, e tendo tirado de !las alguns Li\ ros, e instrumentos de fizica, e ma-
thematica. Agora espêra-se bre\·emente a execução das cauzas, e sentenças
para depois se renovarem, e continuarem os mais exercidos de Estudos, e
occupaçoens da Republica, pois se achão embarassa~as, nem sahe pessoa
alguma de Lisboa, sem passaporte, que mostra ás guardas que estão tam-
bem por outras terras. O Padre :\lalagrida tendo vindo de Sdubal dêo
exercícios aos Padres de Santo .\ntão, que os receberão. Depois foi cha-
mado ao Cardeal, que sem lhe fallar o mandou ao Secretario de Estado:
toi a pratica das couzas do :\laranhão, e dos crimes que impt~ta,·ão ao~ ~a­
dres, protestou o Padre serem falsos, e refutando-os do I.JI:-ello saunco,
aroi.mdo a ,-erdade do que di7ia o mesll)O Padre com esta expressão, que

El Rey não tinha premias, nem castigos para b obrigar a dizer huma men-
tira le' e, e que se era necessario affirmar de outra sorte, que elle pedia
áquelle Senhor [pegando no Christo que traz ao peito~ que se não era Yer-
dade o que diz"a, que logo diante de Sua Excdlencia despedisse hum raio,
que matasse a elle Padre, e o reduzisse a cinzas, não dice mais o St:creta- •
rio senão que não punha a culpa a elle, mas aos Padres Portuguezes, c
sem mais fructo yeio para o Collegio. Logo que se pozerão as auardas, e
sentinellas nas portas da cerca, e aberturas do muro, mandou o Cardeal ao
Padre Prm·incial, que pozesse preceito para não sahirem os Padres, e de-
pois de dez dias yeio ordem da corte aos cabos da guarda, para não dei~a­
rem sahir os Padres, couza Já escuzada, e ainda antes não era necessario
mais que uma simplez ordem dos Prellados. No PoYo há como sempre
muita gente contra os Padres, e estão esperando que cada dia os mandem
sahir, e os prendão, e tem espalhado cada dia mil mentiras &11.
E por passar na Yerdade e ser copiada do original fiel, C\ Yerdadeira-
mente o juramos aos Santos EYangelhos. =Antonio José Gah·ão= =Francisco
da Costa= Sendo necessario o juro iu z•e1·bo sacerdotis. =O Beneficiado F ran-
cisco BraYo de Aguiar.

Attestamos que todas· as copias das dezesete cartas asima escritas,


forão extrahidas bem, e fielmente dos seus originais, e outro sim, que CIJl
outras cartas da correspondencia dos mesmos Padres da companhia, escri-
tas desta cidade, para a de Roma, e dirigidas para Padres tambem da
companhia nellas escreYerão que tinhão por si muita gente, e parte da ~o­
breza, e Fidalguia da Corte, e por passar o referido na Yerdade, sendo ne-
cessario, o affirmamos debaixo do juramento dos Santos E\·angelhos. Belem
aos onze de Janeiro de mil setecentes sincoenta e noYe. =Antonio José Gal-
,;ão =Francisco da Costa== Sendo necessario o juro in J'el·bo s.1cerdotis =
O Beneficiado Francisco BraYo de Aguiar.

APPENÇO 2.

DIOPOníENTOS DIO S.\LVADOR JOZÉ DURÃO, E DE ~l:\RI.\:-1:-1.\ THl:.REZA POR JôttE REfERIDA

À.

Aos quinze dias do mez de Dezembro de mil setecentos e sincoenta e


oito neste Real Palacio de :\assa Senhor~ da Ajuda, e lugar delle, onde
grezentemente se tem o despacho das Secretarias de Estado, appareceo
Salvador Jozé solteiro, morador na rua de São Jeronimo do lugar de Be-
lem, e Page do Padre Frey Antonio Alia de idade que dice ser de de7eno,·e
annos, testemunha que pois de haYer tomado o juramento dos Santos Evan-
gelhos, e de h-a,·er debaixo delle declarado perante nós o lllustrissimo, e
Excellentissimo Sebastião Juzé de Can·alho, e Dom Luiz da Cunha, e o
Illustrissimo, e Excellentissimo Thomé Joaquim da Costa Corte Real, to-
dos Secretarias ~de Estado, que nada tinha que dizer ao costume, declarou ,
o seguinte âebaixo do mesmo juramento.
i I

Que tendn clle testemunha ~ommuni~ação parti~tdar ~om huma mossa


de ~cniço de ~ala du Dth]Ue de Aseiro p-or nome ~lananna Thercza, ~om
a qual se. ~orrespondia por escrito, c ha,·cndo-lhe esta mandado diter, lJUC
na noute de trez de Setembro pro~imo pass.tdo lhe poderia fallar da meia
noutc por diante fora ~nm clreito esperar a o~~a/.iáo de fallar ;\ dita mossa,
es~ondido dcbai~o de huma ponte de püo, que est,í ao lado do .Jardim do
Duque de A ,-eiro, defronte das jancllas das ~atas do Guarda morde Bel km,
que cahcm para a parte das terras ao :\une.
Que estando ellc testemunha naqudle lugar es~undido a tempo que
scrião duas horas da noutc, pou~o mais, ou menus segundo o seu parc~er,
porl]Ue não tinha rclugio para se gO\·ernar, vira dtcgar dois homens muito
t'mbussados, e a pé dos quais hum t'ra o Duque de .\\·eiro, que tirou huma
-pistolla, ou bacamarte, ~om o qual ·baten trct ,·czcs cm huma pedra,. di-
zendo em \'OZ, que elle testemunha ~onhe~eu ser do mesmo Duque : 1·,1-
/h,l-/e os I Ji,tbus, que qu.wdo eu /e q1ii!I'O uâo se1·res.
Que o nutro que Yinha com o Duque lhe pareceu que era Jozé :\laria
de TaYora .\judante das Ordens do :\\arque/. de Tanwa seu Pai, o qual
Juzé :\laria ·diceFa para o Duque: Que hé Jeito de Jo,io '! •
Que logo cm breYe espaço de tempo Yierão outros dois rebussados
unir-se aos do~ asima referidos, os quais elle testemunha não conheceu, c
só om·io, que hum ddles que tinha calçoens brancos dicera ao Duque:
·Que Ji1e11ws que Fl-Re1· p.trece-me que mm.,-eo (sic;.
Que a estas pala \Tas respondera o Duque: .Y,fo impm·t.t que se I!Lfo
morreo mmTe1·â; ao que acrecentou outro do rancho : O puulo lu.! e// e
s.thiJ·.
E porque sendo-lhe lido o sobredito depoimento o achou elle teste-
munha em tudo conforme ao que tinha ,-isto, e oU\·i.:lo na sobr:.edita noutc
de trez de setembro proximo passado o ratificou na subredita forma.
E sendo perguntado pela razão que tiYera para não ha,·er dcdarado
mais sedo hum sacrile~gio tão exacrando, c iiio abomina,·cl, han:ndo tido
hum tão grande conhecimento dos Reos dellc: Respondeu, que logo no dia
seguinte de quatro daquelle infaustissimo me7 de Setembro, o quizera de-
ch~rar, pu rem que o não tl7era por medo, e por um· ir dizer, que se tinha
posfo pena de morte, a quem fallasse no referido ~azo, mas que ,-e111..io
agora prezos os ditos Reos, c aconselhando-se ~om Bernardo da Fonceca,
que assiste nas mercearias de Bellem, e dizendo-lhe este que logo de,·ia
declarar o referido, o 'iera depor na sobredita forma.
E por não ter mais que declarar assinou comnosco no mesmo lugar
dia mez. e anno asima declarado.= Sal\'ador Jozé Durão= Sebastião Jo7é
de Can·alho e Mello =Dom J.ui7 da Cunha= Thomé Joaquim da Costa Corte
Real. ~

PERGUNTAS FEITAS A 1\1.\RI.\:S~.\ THEREZ.\ ~IOSSA DA CAMERA


D.-\S FII.H.\!' DO [)UQUE DE .\VEJRO

Aos dezesete dias do mez de Dezembro de mil sete~entos sincoenta.


e oito na cadea deste sitio de Bellem aonde eu Jozé Antonio de Oli\·eira
:\b~hado Dezembargador da ca/.a da Supplicaçãn, e .Juiz commissario deste
mesmo sitio, vim para effeito de fazer perguntas a :\larianna Thereza mossa
da Camera das filhas do Duque de Aveiro, preza em segredo, á ordem de
Sua .Magestade, as quais lhe fiz pe-la maneira seguinte :

I.

' \

E perguntada corno se chamava, de quem era filha, aonde morava, e


que idade tinha, e donde era natural.
Respondeo, que se chamava 1\'larianna Thereza, que era natural de
l\luntemor o nm o, filha de Bernardo Rodrigues, mestre pedreiro, e que
ha de haver déz para onze annos, que mora en' caza do Duque de Aveiro
na occupação de mossa de Camera de suas filhas, e que tem de idade
dezoito annos.
2.

E perguntada se sabe, ou suspeita a cauza da sua prizão.


Re!>pondeo que não sabe nem suspeita a cauza da sua prizão.

3.
E instada que deve declarar pois su,<,peita a cauza porque foi preza,
tendo entendido, que se dicer a verdade uzará Sua Magestade com ella da
sua innata piedade, e se encobrir a mesma verdade será muito severamente
castigada.
Respondeo que tem dito a verdade em dizer que não sabe, nem sus-
peita ao cauza da sua prizão.


E perguntada se na noute de trez de Setembro proximo passado tinh::t
ella Respondente dado hora a Salvador Jozé Durão para lhe hir fallar de-
pois da meia noute ao Jardim do Duque pela banda das terras. E que
tambem consta, que na referida noute não fora fallar ao dito seu amante,
como de antes lhe tinha promettido. E assim deve declarar com toda a
,·erdade para seu inteiro livramento, qual foi a razão, que teve para não
hir naquella noute ao dito lugar, que tinha apontado, e quais farão os impe-
dimentos que para isso teve.
Respondeo, que era verdade, que ella gostava do dito Salvador Jozé
Durão, e cum elle se carteava, e fallara algumas veze<>. E que tambem era
verdade, que na sobredita noute de trez de Setembro lhe tinha promettido
fallar na janella do Jardim do dito Duque da banda das terras, porem que
isto era para o fim de cazar com elle, mas que lhe não podera fallar nessa
noute, como tinha ajustado com o dito Durão, e gue a cauza fora: porque
hi11do el1.1 Responde11le para o dito Jardim nelle vira andar passeando ao
dito Duque, e que audm•a só embntlhado em hum capote, cauza por que
ella Respondente se retirara, por não ser sentida. E que como isto era ainda
antes da meya noute, passada ella tornara outra vez, e tornara a \er ao
dito 1Juque, sentado em hum Puyal, c que tambem esta\"a só, cauza porque
se tornara a retirar. E que isto mesmo, mandara .clla HcspunJente diter au
dito Sah·adur no dia seguinte cm huma carta, porLJue esta tinha sido a
,·crdade.
5.
E perguntada se sabe, ou ou,·io ditcr, LJUe na nuute, e horas, que ella
Respondente tem declarado, furão ,·istos quatro homens armados entrar no
dito Jardim, c sahir Jelle pela banda das terras. E tambcm dc,·e declarar
quem en1o os ditos homens, a que horas pouco mais, uu menos sahirãu, e
entrarão, e o mais que ellcs tizerão, ou dicerão. Declarando tambem o
modo com que hiüo ,·estidus, e armados.
Respondeu que não ,·io nem oll\·io couza alguma do que na pergunta
antecedente lhe hé feita.
ti.

E instada que .diga a 'erdade, c ,·eja se com·ence de falsa a sua re-


posta, porque tendo confessado, que vindo primeira, e segunda ,·cz para
fallar ao dito seu amante como lhe tinha prometido, hé certo, que esta,·a
esperando, quç o dito Duque sahisse com os mais com quem sahio, e por
forsa os havia ver estar com o Duque na sahida, ou na entrada, quando
estes chegarão fura de horas, e lhe impedirão o poder fallar, e retirar-se do
dito Jardim. E muito mais se está mostrando .:um encida pelas considera-
çoens que estü fazendo como LJUem quer, e não se atre,·c a dizer a n:rdade,
fundando-se em que não hé possi,·el que pessoa alguma a 'isse. E fazendo
que chora sem lansar lagrima, sem dar razão alguma ás instancias sem
resposta, que se lhe tem teito.
Respondeu que tem dito a ,·erdade. ·
E por hora lhe não foráo feitas mais perguntas, que sendo-lhe lidas,
dice esta\"áu na \·erdade, que as appro,-a,·a, e ratitic;.n-a. E eu Juzé Antonio
de Oli,·eira ~lachado que o escrny, e com a Respondente -assigney. =Jo7é
Antonio de Oli,·eira ~tachado= ~larianna Thereza.

Sl·:Gn;ll.\S I'ERC.U~T.\S, E GEMIK\~:.\o D.\S I'RI\IEIR.\S

Aus 'inte dias do mez de Dezembro Je mil setecentos sin.:oenta e


oito annos nesta cadea de Belcm, aonde eu Juzé Antonio de Oliveira ~ta­
chado, Dezembargador da Cata da Suppli.:ação vim para elfeito de fazer
segundas perguntas a ~larianna Thereza, preza em segredo nesta mesma,
á ~rdem de Sua ~lagestade que lhe ti7 pela maneira seguinte.

I.

E perguntada sendo-lhe lidas as primeiras perguntas, se est:n·áo na


forma que" lhe forão feitas, e ella tinha respondido, c se tinha alguma cou7a
lJUe acrescentar, diminuir, ou de.:! arar.
. Respondeo que esta\ ão as perguntas na forma que lhe tinhão sido
feitas, e ella t"nha respondido, e que as appnn·a, e ratifica, e que o que
tem que declarar hé. ·
Que era Yerdadc, que sendo na coute em que sucedera o fatal cazo
de atirarem huns tiros a Sua :\lagestade, tendo ella Respondente ajustado
como tem dito com Sah-ador Jo7é Durão para na dita nuute lhe fallar da
janella do Jardim, e hindo com ~f!eito pam lhe j:1l/<n· depois da meia noute,
\"ira que esta\·ãu 11-e"í. J•ultos todos fiY\ juntos, e juntos da JWI·ta do dito
.h1rdim da parte de dentro, e ahi não \ io, que esti,·esse o Duque, sah·o se
este esta\·a tambem, mas da parte de fora, que ella Respondente o não
pôde vêr, c que tah·e7 fosse algum dos trez que com o susto com que ella
Respondente ficou, e pressa com que se retirou o não pôde conhecer, nem
lhe dera lugar a reparar. E ainda. assim intende ella Respondente que fora
sentida dos ditos homens, porem que nada lhe dicerão, talvez, porque dia
Respondente, fizera que os não vi a, e fora passando de hum a escada· para
a outra, e se fura embora, e não tornara mais ao dito Jardim, por sorte
que trez ,.e7es fora a elle, a primeira quando virá a.1dar passeando o Duque,
a segunda quando o ,·iu estar sentado, e a terceira quando ,·io us ditos
homens. E que nada mais tinha que declarar.

2.

E perguntada que dne dL-clm·ar quem erão os tra homens, que con-
fessa YÍra, fora o Duque, que muito bem os haYia conhecer, pela pouca dis-
tanc,ia, ou ao menos pela falia. E depois de \·arias instancias :
Respondeo que conhecera tanto .pela falia, quanto pela altura que hum
delles e1·a o 1\larque;_ de .T.:u•o1·a Pai. E que a razão que tem para assim o
diLer hé, porque como o dito ;\larquez hé Irmão da Duqueza costumava hir
sempre, c estar com esta, e sempre ella Respondente o ,-ia, e om·ia fallar.

3.
E perguntada que era o que o dito :\larquez dicera, pois que om·indo-
lhe a ,·óz, e conhecendo-o pela falia, ha,·ia om·ir o que dizia.
Respondeo que ella só ouvira o écco da ,·oz, mas que não percebera
o que dicera. ·

E perguntada que de,·e declarar, quem erão os mais homens, porque


assim como conheceo ao dito :\larquez, tambcm ha\-ia conhecer aos mais,
que ha,·ião ser pessoas, que costumassem hir a caza do dito Duque, e
acompanhar com o dito :\larquez, e principalmente, porque estes tambem
havião fallar com o dito :\larquez.
Respondco, que ella Respondente não conhecera, nem om·ira outra
falia, senão a do dito .:\larquez, como tem declarado. E que nada mais tem •
que declarar.
E por hora lhe não furão feitas mais perguntas, que send"o estas lidas,
i'
.
Jicc cst;n·áo na forma. que lhe tinh:ío s:do fei1as, c dia tinha respondido,
'-JUe apprm·ant, e ratificava. E logo lhe deferi u juramento dos Santos
E' angelhos, se bem, e na wrdadc a tinha dito, pelo que respeita\ a a Ter-
ceiro. E recebido d;ce que tinha dito toda a n:rdade, pelo que respeit;n·a a
T crceiro. Que de tudo fiz este auto de peq~untas, e termo de juramento,
que comigo assignou a Respondente, c o cscre\ ,._ = .loi'e ~\ntoniu de ( )Ji\·cira
~I achado= ~larianna Thercla. ·

.\os \·intc c du:s dias do mcz de Oczemhro de mil setecentos c sin-


coenta e oito annos nesta cadea de Bclem, aonde eu Jozé .\muniu de Oli-
,·cira ~lachado Yim para ctfeito de fazer perguntas <i. Respondente \larianna
Thet·cza, '-JUe lhe Iii' pela maneira seguinte:
E perguntada sendo-lhe lidas as perguntas antecedentes se estado na
ti.lfma que lhe tinhãu sido feitas,· e dia tinha respondido, e se tinha que
acrescentar, diminuir, ou declarar :
Respondeu, que esta,·ão na forma que lhe tinh;ío sido feitas, c eHa
tinha respondido, que apprO\·a, e ratifica nO\·amente, e que não tem mais
que acrescentar, diminuir. ou declarar. Sem embargo das mais instancias,
que lhe furão feitas.

E por hora lhe não for(io feitas mais perguntas, que sendo-lhe lidas
dice estado na nrdade, que comigo assignou. E cu Jozé Antonio de Uli-
\ eira ~I achado que o escre,·y, c as~igney. Joú Antonio de Oliveirit ~la­
L

chado = ~larianna Thereza.

APPE~<.:O 3.

llEI'On.IENTOS llE J0,\0 FERREIR \ E ()E JOZI~ ~1.\~0EL ll.\ SIL\"A H.\~ll"IRA 1
E:'TRIHEIRO DO l•t:QUE hE .\\"EIR0 1 E SEl" JR~IÁO, E Flf.HO REFERJI)OS
TO[)O:' PELO SOHREiliTO J<ÚO FERREIR.\

c.

hFI'OI\IE:\TO [)E J0.\0 FERREIR:\

Aos vinte e seis dias do mez de Dezembro de mil setecentos e sin-


cuenta e ouro, appareceo nesta caza da minha rezidencia, sita no lugar de
:'\ussa Senhora da Ajuda, João Ferreira solteiro natural dos Ar..:us de \"ai
de YeL, Arcebispado de Braga, filho de .\ngda de Antas YiuYa da frcguezia
de São João Baptista de Rio Frio, de idade de ,-inre, e quatro annos, teste-
munha jurada aos Santos EYangelhos, em que põz sua mão direita, e pro-
meteu di1er ,·erdade, e do costume dice nada. E fallandu au ponto dice de-
baixo do mesmo juramento. que clle era cazeiru de Jozé :\lanoel, Estribeiro
que foi du Duque de .\ Hiro, e lhe trat;.l\ a da sua quinta. que tem no lugar
de Cama.rate, chamada a quinta de São Pedro: E que achando-se ao tempo
das prizoens, que se fizerão do Duque de A veiru, e dus mais Fidalgos, que
com dle farão aprehendidos, o dito Jozé Manuel refugiado na referida
quinta. E fazendo cmwersasão com seu filho Jozé Maria [que hé afilhado
do Conigo Jozé Maria de Tavora] e com seu Irmão o Padre Dom .Manoel
Religiuzo de São Caetano : lhes ,·e.feril-a em huma noute o que passara a
respeito dos tiros que se derão em Sua 1\lagestade, contando-lhes, que elle
Jozé i\1anuel fizera sdlar os dous cavallus do Duque de A ,-eiro, chamados,
o P.1lha1•ãa e o Sen·a e nelles forãu esperar Sua i\lagestade, junto á en-
trada da Quinta da Ajuda, com armas de fogo, que alli esta,·ãu de mão
posta; de sorte que se Sua 1\lagestade escapasse dos tiros que se derão
junto <i Quinta do .l\'Ieyo, mio escapasse dos outros, que estavão de rezerva
na forma asima referida: E que se u mesmo Senhor assim como tomou
o caminho pela calçada abaixo, tomasse o caminho direito para o seu Pa-
lacio, era impossi,·el, que podesse escapar: Acrescentando a tudo que depois
de se haver comettido o referido insulto, se tinhão todos divertido na caza
do Duque com huma serenata: o que tudo elle testemunha sabe por que a
dita cunn~rsasão se fez junto a huma porta das cazas da referida Quinta,
de- traz da qual se ad1ava elle testemunha, om·indo muito bem o que os
subreditos dizião na referida conversasãu, na qual hom·e mais alç;umas pa-
lanas, que elle testemunha não pôde percebe-las. E acrescentou debaixo do
mesmo juramento, que estes furão os motivos, com que veio denunciar o
dito Jozé i\lanoel para ser prezo: E que depois da sua prizão, om·ira em
outra conversasão ao dito Padre Dom Manuel, fallandn com sva cunhada,
e com o dito seu sobrinho, que não tinhão que recear, por que se seu Ir-
mão não confessasse, _nada se poderia provar contra elle. Vltimamente dice,
que o mosso da dita caza por nome Francisco, que trabalha na quinta, ou-
via tambem depois da prizão do dito Jozé Manuel Jifferentes palavras per-
tencentes á mesma materia ao sobreditu Padre Dom .l\Ianuel. E por que sen-
do-lhe lido este depoimento o achou em tudo conforme ao que tinha dito,
assinou aqui comigo na prezensa do Dezembargador Pedro Gçmsalves Cor-
deiro Pereira, Juiz da lnconfidencia no mesn1o dia assima declarado= Se-
bastião Jozé de Can·alho, e Mello ==Pedro Gonsalves Corde-iro Pereira=
Da testemunha João Ferreira huma cruz.

DEF

PERGllNTAS FEITAS AO REO JOZÉ MANOEI.

Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezus Christo de mil setecen-


tos sincoenta e oito annos aos ,-inte e sete dias do mez de Dezembro do dito
anno em este lugar de Bellem~ e Quinta de Sua 1\lagestade, chamada a do
Mevo, a onJe farão vindos os Illustrissimos, e Excellentissimus Senhores
Sebastião Jozé de Carvalho e ~lello, Secretario de Estado dos Negocius do
Reino, e Thomé Joaquim da Costa Corte Real, Secretario de Estado dos
Negocias da ),larinha, e o Dezembargador Pedro Gunsalves Cordeiro Pe-
reira, Dezcmbargador do Paço e Juiz da Inconfidencia, que tambem serve •
de Regedor, comigo Jozé Antonio de Oliveira :\tachado, Dezembargadur
77

da Cant ~la Suppli.:ação, Jui~: Commissario neste dito lugar por De.:reto de
Sua :\lagestade c nomeado para cs.:re\er nesta diligenc;a, para etl"eito de se
fazen:m perguntas ao Reo .Ju7é "anoel, prezo em segredo na cadea deste
dito lugar, á ordem do dito Senhor, as quais se lhe ri~.:erão pela maneir.t
seguinte:
).

E perguntado .:omo se .:hama\ a. de quem l!ra filho, da onde era natu-


tural, e morador, que oc.:upaçáo, e que idade tinha.
Respondeo que se chamava Jozé :\lanoel da Silva Bandeira, que era fi-
lho de Alexandre da Silva Handeira, natural de Lisboa, e freguezia da Sé,
morador em ca?a do Duque de A\·eiro neste lugar, e que era 'Estribeiro do
mesmo Duque, de idade de sincoenta annos. ·

2.

E perguntado se sabe, ou suspeita a cauza da sua rrizáo.


Responden, que suspeita ser a cauza da sua prizáo a cata do Duque
de .\veiro, e pertencer a ella.

3.

E perguntado, que ra7ão tem para intender, que a cata do Duque foi
a cauza da sua prizáo.
Respondeu que a razão que tem para assim o intender hé a prizão do
Duque, e o Edital. que se ari:-..ou nos lugares publicus.

--1-·

E perguntado se antes do sacrílego insulto commettido na nome de


trez de setembro prm.imo passado, ou na mesma noute, ou nos dias a ella
rro:-..imos seguintes sôbe alguns factos pelos quais viesse a conhecer, ou a
suspeitar os Reos do mesmo insulto em todo, ou em parte.
Respondeo que tendo visto nos tempos pro'i.imos precedentes ao dito
insulto, que os dois :\larque~:es de Tavora Pay, e filho haviáo tido muitas
praticas rarticulares com o dito Duque em sua cata em huma delas mais
rezervada: vendo tambem, que na referida noute de trez de Setembro con-
tra todo o costume, ·que antes havia de estarem de noute fechadas as janellas.
que cahé para o pateo, e para a rua, n.tqudla infausta nome se abrirão
todas para se fazer ostentação publica de hum baile em que andoú envolta
toda a família da caza. e:-...:epto elle Respondente: E observando que ha-
vendo estado no dito baile o )larquez de Tavora filho, a~tsim este como o
~larquez seu P.t) continuarão em ter as mesmas particulares conferencias
com o sobredito Duque, depois d'aquelle dete:.ta\·el ddicto: unindo todas
estas circunstan.:ias, formara por ellas hum juizo, de que os referidos Du-
que de .-\\·eiro, e ~larquezes de Tavora ha\·ião entre si machinado, e e\.~-
cutado o sobredito delicto, fazendo o baile com aquella ostentação insulita,
para o disfarsarem.

:I.

E sendo perguntado se tin~ra mais alguma razão, para corroborar o


sobredito juizo.
Respondeu que a..:crescera- o reparo que fi;.era em se ter o mesmo
Duque separado do jogo, que nelle era habitual couza de dois, ou tres me-
zes. antes do referido delicto, passando a gastar na con\"ersasão o tempo
que antes occupava no jugo. Em cujos termos perguntando elle Respon-
dente aos criados da sege da referido Duque, ou a Antcnio Diaz mosso de
acompanhar, e principal confidente do Duque, onde este h=a fazer aquellas
con\"ersasoens nocturnas: Respondera o dito Antonio Diaz, que o Duque
hia com·ersar a ..:aza de Jozé :\laria, sem declarar se o tal Jozé M.aria era o
Tio Cunigo, ou o sobrinho Ajudante das Ordens. E acrescentou, que na
ca\·alharice do Duque ha\-ia geral ordem dada ao sóta Manoel do ~asei­
menta para se dar a toda a hora hum ca,·allo prompto ao sobredito Anto-
nio Diaz: E que o outro mosso, que acompanha,·a o Duque era João )li-
guei, o Bolieiro Francisco da Costa, e o mosso da estribeira, ou ferrador
era Antonio :\lartins; o P.1g.1dm· de alcunha.

ii.

E perguntado se na mesma noute do referido insulto antes que elle


fosse commetido, teve elle Resp~ndcnte, ou outra alguma pessoa, que elle
s:1iba, ordem para se celarem. c prepararem alguns cavallos na cavalhariçe
do Duque, quais furão os ditos ca\"allus, e quais os preparos com que se
apparelharão.
Respondeu, que nada sabia ao dito respeito, se não que o cavallo em
que o Duque costumava andar era o chamado Guard.unm·, cuja célla, e
apparelhos tinha sempre na sua mão o mosso da caza dos arreios, por nome
:\lanoel da Silva. o Padilha.

E perguntado se na noute do referido insulto depois de elle haver


sido commettido soubera alguma couza. a respeito das pessoas que o com--
metteráo dos lugares onde as tais Pessoas tinhão esperado a Sua :\lagestade,
da cau7a pela qual o. mesmo Senhor, depois de ha\·er recebido os primeiros
infames, e sacrílegos tiros, escapou das aleivosas esperas, que se acha,·ão
infamemente pre\"enidas em outros lugares para aquelle cazo de escapar dos
primeiros refcridos infames, e sacrilcgos tiros.
Rcspondco, que nada sabia aos ditos respeitos, mas que sómentc
se lcmbra,·a de que alguns dias, antes do rcfcrido insultn o chamara o Ou-
que ao seu quarto para lhe perguntar \.}UC com elfeito p~'rguntara, quantos
-q

pares de pistolas tinha elle Hcspondcntc cm seu puder : E que rcspondcn,lo-
lhc que tinha sú trc7 pares lhe ordenara o Du,luc que entregasse .:omo cn-
tre~ou dous pares deli as ao guarda roupa .:hamado Manocl A l\"arcs. u Llual
as levou Iugo para o seu (JUartu.

llE~I'.\CIH >

\'isto o Dc.:rct11 de ~ua 'lagestadc por 4uc hé servido mandar ~c


possãu Jar tratos a estes Rcos, ,-ista a qualidade da .:ulpa. que rc1ulta, c
forma .:um que o Reo Joté ~bnucl respondeu üs percruntas, que lhe furão
feitas, e estar cm termos surrusta a gra,·idadc du dcli.:tu de ser mcttidu
a tormento. mandando-se-lhe dar tratos pelo (jUc to.:a a T er.:cirus, mandão
que ao subrcditu Reu se dem dois tratos espertos, se tanto poder tolerar a
jui1o do Cirurgi<ío. afim de que dedare a ,·crdade, pelo que respeita a Tcr-
.:eirus. Bdcm de Dezembro vinte e sete de mil sete .:entus sin.:ucnta e oito.=
Com huma rubri.:a=Cordeiroo= Oli,·eira.

lliLIGt:~CI.\ llUS Til \TOS ll.\UOS .\0 RÉO .JOZI~ :\1.\~0EI.

Aos ,-inte c sete dias do mez de Dezembro de mil setc.:cntos sin.:ucnta


c oito nesta Quinta de Sua ~lagestade, .:hamada do 'len>, ·aonde se a.:h;n·a
o lllustrissímu. e Ex.:cllentissimo Senhor ~ebastiãu Juzé de Canalho c :\leio
~e.:retario de Estado dos ~egu.:ius du Reino, e o Dezembargadur Juit. da
ln.:unfiden.:ia .:omigu Jozé ..--\muniu de Olinira 1\la.:hadu e Domingos 'lon-
tciru Ramalho~ .:irurgiãu apprm·ado da .:aza da saude, e dos .:arccres
secretos du ~antu Otfi.:io, ahi foi mandado ,·ir o Rcu Jo1~ \lanucl, e lhe fi7e-
rão perguntas· que declarasse quem tinha atirado os sacri!cgus tiros a EI Rey
:\osso Senhor. e por mandado de l]UCm, e relu que to.:a,·a a Ter.:ciros, ~e lhe
deferiu juramento Jus ~antus E' angdhos, e debaixo deli e fitesse a dcdara-
.;ão, e recebido por elle u dito juramento, assim o premctteo fazer. E pelo
dito Reo dizer, que nada sabia, se mandou L]Ue o cirurgião tizcssc a diligen-
.:ia sobre a saude do R eu, e de..olarasse se tinha alguma infirmidade, que impe-
disse a dar-se-lhe tratos. E por .:onstar que tinha saude, c sem impedimento
algum para se lhe darem tratos, assim o d~.:larar debai:-..o do juramento
de seu Ofi.:io, de que fi1 este termo, que todos a!.signamus. E cu Juzé An- ,
tonio de Oli,·eira -'la.:hado que o esae,·y.~Com huma rubrica=Cordciro
= Oli,·eira.

E logo fui mandado. L]Ue o Rco fosse posto nu Potro, e atado. E exe-
cutado assim, ao primeiro trato foi dito pelo R cu, que .e li e queria dcdarar
a nrdadc, c que 'inha a ser: .
Que ellc Respondente oll\·ira que o Duque Ji.:era á Duqueta sua mu-
lher que 11.-\.ss:m cumú fui por huma parte, se fósse pela outra. que não
~.:aparian o L]Ue sabe relo OU\ ir cllc RL"spondcntc na sohredita forma,
passando lic hum 4uarto para outro nu dia da manhã pro:-..imo seguinte ao
insulto, a tempo L"l11 que o mesmo IJUlJUc Ji1ia as referida..; pala\Tas <i Du-
'-]uet.a sua mulher <i entrada da porta da .:aza grande.
E declarou mais, qt e em huma das esperas estavão os dois 1\larque-
7es de Ta,·ora Pay, e filho: Em outra Jozé .\laria, sem declarar qual delles,
sendo que u conego não costumava hir a caza do dito Duque, e que Jozé
:\laria, Ajudante das Ordt.ns era o que frequenta,·a mais a referida caza. O
que sabe por que na mesma manhã, pruxima seguinte ao insulto, estando
elle Respondente de t1·az de hum reposteiro da mesma caza grande, na
porta que della sahe, para sala vaga, om·io conversar os :\lesmas ::\larque-
zes de Tavura Pay, e Fill o com o Duque, e Duqueza, e isto depois das
dez horas da mesma manl ã, pouco mais, ou menos, sobre o delicto, que
na noute precedente, havião commettidu: Dizendo o dito l\larquez filho na
tal conversasão, ou cunventiculo estao; formais palavras ((Cá pelo homem
não escapava''· " -
Declarou mais: Que dois ou trez dias antes do sobredito insulto,
ha,·ia o !\larquez de Tavora filho, mandado para a cavalharice do dito
Duque de Aveiro alguns cavallus celladus, e enfreados, e cobertos com
tellizes. ...
Declarou mais, que sobre o que tem referido nestas declaraçoens
ha,·ia com·ersado na sua '~uinta de Camarate, depois que a ella se reco-
lhera com sua mulher Dona ::\largarida Thereza de Gom·ea, e com seu
filho Jozé :\laria da Sih·a B1ndeira, e com seu Irmão Dom :\1?-noel Jozé da
Sih·a Bandeira, Religiozo ~a Divina Providencia: Passando-~e a dita con-
versasão junto de huma porta.
E sendo-lhe lidas as sobreditas declaraçoens que tinha feito no tor-
mento, depois de ha,·erem passado trez horas, desde que foi ali,·iadu delle :
Dice que por ser \·erdade o contheudo nellas, as ratificava debaixo do
mesmo juramento na mesma forma que nellas se continha.
E sendo perguntado que Religiuzos da companhia de Jezus, cos-
tuma\·am h ir ·a caza do sobredito Duque, quanto tempo havia, que
tinhão entrada na referida caza, e a que horas costumavam vir a ella.
Respondeu, que o Religiozo, que mais frequenta,·a a "dita caza era
hum Religio7o alto, e magro, que lhe parecia ser o Procurador· Geral Jozé
Perdigão : Que álem d'este hião mais dois Religiozos da mesma compa-
nh:a, cujos nomes não sabe, sendo o principal delles baixo do corpo, re-
feito, e alvo dn cara: Que o dito Duque tinha dado ordem para se lhe dar
recado logo que chegasse o dito Religiozo Jozé Perdigão : E que este se
jactara disso mesmo com elle Respondente. E que o primeiro dos 'ditos Re-
iigiuzos custuma\·a hir de menhã, e os outros de tarde, hindo o dito Perdi-
gão só e em sege.
E por hóra se lhe não fiLerão mais perguntas, que sendo-lhe estas
lidas, dice esta\·ão na forma que lhe furão feitas, e elle -tinha respondido, u
que no\·amente apprO\ a,·a, e ratifica~·a. E se lhe deferia juramento não só
pelo que respeita\·a a Terceiros, mas tambem de segredo para o não de-
clarar a pessoa alguma. E recehido por elle u dito juramento, d;ce que
tinha dito a verdade, pelo que respeit:n-a a Terceiros, e que sempre guar- •
daria segredo do que tinha dito. E de tudo fi7 este auto de perguntas, e
termo de juramento, que como se não acha,·a capaz de assignar, roga,·a a
_mim Dezembargador. que por e1le ass=gnasse. o que fiz. a rOJO do sobredito, c
u escren-. =Sebastião Ju7é de Can·alho e 'lello ~ ~Pedro Gonsah·es Cor-
deiro Pereira= Jozé Antonio de Oli,·eira :\I achado= A rogo do Respon-
dente= Jozé Antonio de Oliveira .\lachado.
)).

I'FI!<;t.::\ L\S FEIT_\S _\ 110M ~L\~OVI. J07E

_\nno do ~ascimentu de :\osso ~cnhor Jctus Christo de mil setecen-


tos, sincoenta e outu annus em os trinta e hum· dias do mC7 de Dctcmbro
do dito anno neste lugar de Belem. c <)uinta de Sua ~lagcstadc chamada
do ~lc\·u, aonde foi 'indu o lllustrissimo, c Exccllcntissimu Senhor Scb.ts-
tiáo .TÜzé de Carvalho e ~ldlu. Secretario de Estado dos :'\c~ocius do
Hcino, c o Dezembargador do Paço Pedro (~nnsalves Cordeiro Pereira,
.Juiz da Incontidcncia. que tambem scnc de Regedor, comigo Jot.é .\ntonio
de Oli,·eira :\lachadu, Dczcmbargador da cata da ~upplica~iio, c nomeado
para escrewr nesta diligencia. para ctfcito de se fazerem perguntas a Dum
~lannel .Tozé, Rcligiuzu da Di,-ina Prm·idcncia reduzo por urdem de ~ua
~lagestadc, as quais lhe furão feitas pela maneira seguinte:

I.

E perguntado como se chama,·a, de quem era nlho da onde era natu-


ral, que uccupação, c idade tinha.
Rcspondeo que se chama,-a Dom \lanocl Jozé da ~ih-a Bandeira.
que era filho de Ak-xandre da ~i h a Uandeira, ~JUC era natural dl' Lisboa
da freguezia da ~é ( )ricntal, chamada Santa ~laria 'Ltyor, que hé Rcligiow
d<l Divina Pnn-idencia, e que tem de idade quarenta e dois annus.

2.

E perguntado se sabe, uu suspeita a cauza da sua prit.ãu.


l~espundco,que não sabe, nem suspeita a cauza da sua prit.áo .

..
-'·
E perguntado se achando-se na Quinta de Camarate em companhia
de sua cunhàda Dona ~largarida JllZefa Theren de Gom-ca. c seu sobrinho
.Tuzé \laria da Sih·a Bandeira, e de seu Irmão Jot.é ::\lanoel da ~ih·a Ban-
deira om io contar a elite algumas couzas do que tinha m1údo fali ar ao
Duque de Axerro, e aos seus parentes ücerca dos exacrandos, c sacrilegõs
tiros, que na noute de trcz de Setembro pruximo passado se dispararão
com diabolica, e nunca 'ista ouzadia contra a Real Pessoa ,fFI Hc,· :'\osso
~cnhor. ·
Rcspondeo que nada tinha ou\ ido a respeito do que lhe h é rergun-
tado, ou que se om ira, se não lembra\ a. ·

E por ora lhe n;ío fnráo feitas mais perguntas, que sendo-lhe lidas,
dice esta\ ãu na forma, que lhe furão feitas, c cllc tinha rcspnn,iidl•. o l)UC
-
6
82

approva, e ratifica ; de que fiz este auto de perguntas que comnosco a~si­
gnou digo que só lhe lembra, que conversando com o dito seu Irmão em
huma vez lhe dicera este que tinha ouvido em caza do Duque de Aveiro,
que Sua ~lagestade, não escaparia dos tiros, que se dispararão contra a
sua Real Pessoa, se assim, como tomou por hum caminho, tomasse pelo
outro. E que tambem referira o dito seu Irmão, que tinha ouvido na mesma
caza du Duque, que os T avoras foráo os que derãu os tiros. E que na
nuute em que se reprezentou huma comedia em caza do Marquez de Ta-
vora filho havião sahido da mesma caza trez mascarados : ao que elle Res-
pondente replicou que nem debakk, se punha em Lisboa a culpa dos so-
breditos tiros aos Ta,·oras. E por não ter mais, que declarar.
E por ora lhe não forão feitas mais perguntas, que sendo-lhe lidas,
di c e estavão o a forma; que tinha respondido, que affirmaya, appnn·a va,
e ratificava: E logo se lhe deferiu o juramento dos Santos Evangelhos,
pelo que respeitava a Terceiro, e recebido o dito juramento, dice que tinha
dito a verdade, de que fiz e:;te auto, e este termo, que comnosco assignou.
E eu Jozé Antonio de Oliveira Machado, que o escrevy.=Sebastião Jozé
de Carvalho e Me !lo= Pedro Gonsalves Cordeiro Pereira =--o Jozé Antonio de
Oliveira 1\Iachado ==Dum ~·Ianoel Juzé da Silva Bandeira, Clerigo.

E.

E perguntado como se chama\·a, de quem era filho da onde era natu-


ral, que occupação e idade tinha.
Respondeo que se chamava Jozé Maria da Silva Bandeira, filho de
Jozé 1\lanoel da Silva Bandeira, natural de Lisboa da freguezia da Sé, que
tem de idade quatorze para quinze annos.
E perguntado se sabe, ou suspeita por que o prenderão.
Respondeo, que suspeita, que a cauza puderia ser ~or- algumas pala-
vras que seu Pai dicesse a respeito do cazo, ou tiros, que se tinhão dado
em Sua Magestade, e que supposto se não lembra,·a bem comtudo algumas
palavrª-s lhe ouvira, e que em tudo se refere ao que seo Tio Dom ~Ianoel
tem dito, que o appro,·a, e ratifica. E de tudo se fez este auto, que comnoscu
assignuu. E eu Jozé Antonio de Oliveira 1\lachado, que o escrevy. = Sebas-
tião Jozé de Carvalho e 1\1ello =Pedro Gonsalves Cordeiro Pereira= Jo1é
Antonio de Oli,·eira ~lachado = dozé ~Iaria da Sih·a Bandeira.

APPENÇO 4·

I'ERGUNT.\S FEIL\S .\ :\tA:-.;OEL D.\ COSTA I'ORTEIRO 110 DUQUE DE .\VEIRO


,.--

Auto de perguntas feitas a Manoel da Costa Porteiro da Caza do Du-


que de A ,·eiro .
.\nno do Nascimento de ~osso Senhor Jezus Christo de mil setecentos
sincoenta e nove annos, aos sinco dias do mez de Janeiro do dito anno neste

--
R3

lu~ar de Bc..-llem. e Quinta de Sua ~lagestade chamdda a do ~levo, aonde


fu1 vindo o lllustrissimo, e Exccllentissimo Senhor Sebastião Juz"é de Car-
valho e .\lello Secretario de Estado dos Negocios do Reino, e o Dczembar-
~adur Pedro Gonsah·es Cordeiro Pereira Juiz da Inconfidencia. que tambem
sern: de Regedor comigo .Jozé Antonio de OJi,·eira .\{achado, De~:embar-
. Aador da Caza da Supplicação, e nomeado pl'lo dito Senhor para escrever
nesta diligencia, para etfcitu de fa~:er perguntas ao Reo .\lanwcl da Custa
reduzo por ordem do dito Senhor, as quais lhe foráo feitas pela maneira
seAuinte :

I.

E perguntado como se chama,·a, de quem era filho da onde era natu-


ral. e morador, que uccupação e idade tinha.
. Rcspundeo que se chama,·a .\lanod da Custa Calheirus, filho de .\la-
noel da Costa natural da cidade do Porto, Porteiro da Sala do Duque de
A ,-eiro em Bel cm, de idade de sincoenta e tre/. annos.

2.

E perguntado se sabe, ou suspeita a cauza de sua prizão.


Rcspondeo que suspeita ser a cauza da sua pri/.âo pur ser criado do
Duque de .-\xeiru,, e este estar prezo, e que elle Respondente o seria para
declarar alguma cuiza.
.,
-'·

E perguntado que hé o que ellc Respondente sabe sobre a cauza da


prizão do Duque. E que he o que elle Respendcnte tem a declarar.
Respondeo: Que elle Respondente ou,·ira dizer a ntrias pessoas. e
principalmente ao mosso da cópa da caza do Duque ·chamado Bento Pe-
reira que o dito Duque fura prezo por que elle, e o J\larquez- de Tavora ·
Pa,-. e o Conde da Atuuguia. forão quem tinhão dado os tiros em El Rev
:\"osso Senhor. ·
E que huma mossá da Duqueza estando para fallar, uu fallando na
noute do dito insulto com hum mosso com quem anda,·a de amores, sentira
vir o Duque a pé jü muito tarde pela porta do Jardim, se retirara, ou es·
condera. e que che~ando o dito Duque dera cum huma arma no chão, di
zendo ",. alha-tc o Diabo, que me não sen-ist-en ou pala \Tas similhantes,
que da,·ão a intender que a dita arma lhe tinha errado fogo;
Que na nome do referido insulto fora o Duque ao Passo, c que dila-
tando-se pouco não se lembra a que horas 'i era, c· achara h uma rebeca to-
cando. E reparou elle Respondente que contra o costume esta,·ão as jancllas
da varanda, que cahe para a rua abertas, c depois que soube o cazo, inten-
deo que isto era disfarce naquella occaziáo para o referido ca7o.
Que para o mesmo cazo, tinha o Conde de Atouguia dado dois, ou
trez cavallos.
E que isto era o que sabia, tt nada mais.
E perguntado, quem estivera em caza do Duque na referida noute, que diz.
Respondeo, que só se lembra que estivera o Marquez de Tavura filho,
e de fo~a mais ninguem. _ .
E que agora lhe lembra, que _a Duqueza lhe d1cera a elle Respondente
que se fosse l?erguntado dicesse, que o Duque na referida noute tinha vindo
do Paço ás dez horas, e meia, e que não sahira mais fura na mesma noute.

5.
E perguntado, que pessoas mais frequentemente ,-i7itavão ao Duque.
Respondeo, que as pessoas, que mais custumavãu hir a caza do dito
Duque erão u Marquez de Tavora filho, quazi todos os dias, o 1\larquez de
Tavora Pay muitas vezes, 1\'lanoel de Tavora tambem muitas vezes, e pou-
cas o Conde de Atouguia. e que ninguem mais.

6.

E perguntado se costumavã~ tambem hir alguns Religiozos da Com-


panhia. quantos, e quais erãu; quantas \'ezes, e quanto tempo se dilatavão.
Respondeu, que só via, que o Padre Jozé Perdigão com hum compa-
nheiro Leigo, hé que há muitos tempos, antes, e depois do referido insulto,
hé que costumava hir a caza do Duque, e com este se· dilata\· a couza de
huma hora, pouco mais ou menos. E que mais nenhum vira que fossem bus-
car ao Duque.

E perguntado que visse bem o que dizia, porque consta legitimamente
que mais Padres buscavão ao Duque, e que elle Respondente tinha ordem
do mesmo Duque para lhe dar parte quando elles viessem.
Respondeo que era menos verdade, por que de nada mais sabia.

DESPACHO

\'isto o Decreto de Sua Magestade por que h é servido mandar se pus-


são dar tormentos a estes Reos, e vista a prova que rezulta, e forma com
que respundeo o Reo l\lanoel da Costa, e estar em termos, supposta a gra-
vidade do delicto de ser mettido a- tormento, méi!:ndão, que ao dito Reo se
dem dois tratos espertos, se tanto poder tolerar a juizo do cirurgião, afim
de que declare a verdade, pelo que respeita a· Terceiros. Belem de Janeiro
sinco de setecentos e sincoenta e nove.= Oli,·eira l\lachado.

E logo mandarão vír a Domingos Xlonteiro Ramalho Cirurgião ap-


provado da caza da saude, e dos carceres secretos do Santo Oficio, e estan-
do u dito Reo lhe tornarão a fazer perguntas, deferindo-lhe u juramento dos
Santos Evangelhos, pelo que tuca,·a a Terceiros, e recebido o dito jura-

'
mentn, assim o prometteo. E por tornar a di7cr, que nada sabia, mandarão.
que u dito Cirurgião ti1esse a ddigenda sobre a saudc du Reu, se tinha al-
gum impedimento para se lhe darem tratos, c por constar não ter impedi-
mento, e assim o dedarar debai~o do juramento de seu ufficio fi1 este ter-
mo, que comnosco assignou. E eu Juzé .-\ntonio de ( )Ji, eira :\lachado que
o escrcn·. = ()liveira ~lachado.

E Iugo fui mandado que o dito Reo fosse posto no Potro, e ndle ata-
do, u que assim se c\.ecutou pelos oficiais para isso determinados, e estando
assim atado, e dado o primc1ro grão do primeiro trato, e ainda incompleto
o dito _primeiro grão, dicc que queria dedarar a\ erdadc, e que esta ,-inha a ser.
(Jue era verdade, que pouco antes do saailego insulto de trez de Se-
tembro proximo passado costuma,·ão muitas \'ezes hir <r caza do dito Duque
Thimoteo da Oliwira, João de :\lattos, Jacinto da Custa, e Jozé Perdigão,
rodos quatro Rcligiozos da companhia de Jezus, e que thé ao tempo do re-
ferido insulto, continuarão estas ,-izitas. E que depois do mesmo insulto só
continuara a hir o dito Jozé Perdigão, e poucas vezes o dito João de :\lattos.
E que o dito Duque lhe dicera, que ,-indo os ditos Padres lhe desse parte~
que nunca os ditos Religiozus hi<íc juntos, mas cada hum per si, e que de
urdinario se dilatavãu hora c meia pouco mais ou menos.
E que tambem era ,-erdade, que no dia seguinte ao referido insulto se
ajuntarão em caza do dito Duque de manhã o :.\larquez de Ta,·ora Pay, e a
~larqueza .May, e mulher deste, o 'larquez de Ta,·ora filho, e a mulher
deste. a Condeça da .-\touguia. e que de tarde fura ~lanoel de Tm·ora.
E que tambem era ,-erdade que a dita DuqueLa lhe dicera a elle Res-
pondente, que se viesse a juramento dicesse:
Que quando os Irmãos della DuqueTa, que erão o :.\larquez de Ta-
,-ora Pay, e 'lanoel de Tm·ora hião a caza do Duque, que este s~ escondia
delles. e lhe não queria fallar. -
E que não dedarara logo todo o referido. porque lhe não lembra\ a.

E por ora lhe não fizerão mais perguntas, as quais sendo lhe lidas, e
suas repostas. dice que tudo esta,·a na verdade, o que approva, e ratifica
debaixo do juramento dos Santos Evangelhos. que já tinha recebido. E de
tudo tiz estes autos de perguntas. e termo de juramento, que comnosco as-
signou. E eu Jozé Antonio de Oliveira :.\lachado que o escrevy, e assigney.
= Pedro Gunsalves Cordeiro Pereira= Jozé Antonio de Oli,·eira ~lachado
= ~lanoel da Costa Calheiros.

.APPE:\ÇO 5.

PERGUN f.\S FEif:\S A ~l.\)101-:l. DO :-1.\SCHlE!\TO SOT L\ CA\" \LHARICE DO flt.:~,tUE

OE .\\'EIRO

Auto de perguntas feitas a :.\lanoel -do :\ascimenro sutta- cavalhariça


do Duque de .-\ ,-eiro .
.-\.nno do ~asdm.:nto de :\osso Senhor Jezus Chrístu de mil setecen-
tos sincoenta e nove annos aos quatro dias do mez de Janeiro do dito annu.
neste lugar de Belem e Quinta de Sua :\lagestade chamada a do :\leyo,
aonde foi ,-indo o lllustrissimo, e Excellentissimo Senhor Sebast;áo Jozé de
Carvalho e 1\lcllo Seeretario de Estado dos 1'\cgocios do Reino, e o Dezem-
bargador do Paço Pedro Gonsah·es Cordeiro Pereira, Juiz da lnconfidencia,
queL tambem sen·e de Regedor, comigo Juzé Antonio de Oli,·eira :\lachado
Dezembargador da caza da Supplicaçáo, Juiz Commissario neste dito lugar,
e nomeado para escrever na importantíssima diligencia de que trata esta
Supremà Commissáo, para effeito de fazer perguntas ao Reo Manoel do
-:\ascimento, prezo em segredo na cadea deste dito lugar, á ordem do dito
Senhor. as -1uais lhe forão feitas pela maneira seguinte:
E perguntado como se chama,·a, de quem era filho, da onde era na-
tural. e morador, que occupação, e idade tinha
Respondeo, que se chamava 1\lanoel do !\ascimento, que era filho de
lgnacio Luis. nantral da \"illa da Yidigueira (?)que he sona cavalhariça do Du-
qLue de Aveiro, e morador- em sua caza em huma barraquinha defronte das
ca7as do mesmo Duque, e junto á praya, chamada Sardinha, e que tem de
idade sessenta e seis annos pouco mais, ou menos.
E perguntado se sabe, ou suspeita a cauza da sua prizão.
Respondeo, que suspeita ser a cauza da sua prizáo por estar o Duque
seu amo prezo, e elle Respondente ser seu criado, e que por esta cauza
seria prezo para fazer algumas declaraçoens a respeito de alguns cavallos,
que sahissem da ca,·alhariça do dito Duque.
E perguntado que hé o que elle Respondente sabe ao dito respeito
que diz.
Respondeo que sabe por ser publico, que o dito Duque fura prezo,
por concurrer, para os infames tiros, que sacrilegamente se derão na Au-
gusta, e Real Pessoa de El Rey _:-..;osso Senhor, porem elle Respondente o
não sãbe. E só ~abe por lho dizer ha poucos dias, hum mosso da ca,·alha-
riça, ..;hamado Domingos Rodrigues, que outro mosso chamado .-\nton;u,
que trata,·a dos 1\lachos pardos, lhe tinha dito estas palaHas: ••Seria esta
historia por cauza de em huma noute mandar o guarda roupa Manoel Al-
vares cellar hum ca,·allo chamado o Coimb1·a, e o le,·ar elle Antonio á porta
do Jardim do dito Duque••· Porem que o dito Domingos lhe não dicera a
a elle Respondente, nem que historia era, nem que noute, nem o para que
fora o dito cavallo, e que nada mais sabe a este respeito.
E instado, que 'eja o que diz, porque pela prova da Justiça consta
muito mais do que elle diz.
Respondeo, que nada mais sabe, como tem dito.
E perguntado se elle Respondente tinha ordem para dar hum ca,·allo
a algum mosso todas as vezes, que este o pedisse : De,·e declarar quem
lhe dera a ordem, e quem era o mosso.
Respondeo, que nunca ti,·era ordem para dar ca,·allo algum a nenhum
mosso. E logo dice: Que era ,·erdade que Jozé 1\lanoel Estribeiro do dito
Duque lhe dera ordem para que todas as vezes que Antonio Dias, mosso
de acompanhar pedisse algum cavallo, lhe desse elle Responderue o cavallo
do Cirurgião. E que com etfeito muitas 'ezes de dia, e de noute sahira o dito
mosso em o dito cavallo, porem elle Respondente nunca soubera para
onde hia. .
E perguntado, que deve declarar, que ca,·allos sahiráo da cava01ariça
do Duque na noute de trez de Setembro proximo passado, quem lhe deo
a ordem, ~uem os preparou, ~uantus, e quais cavallos, e para onde furão,
e a que horas.
Hxspondeo, que nada sabia do que lhe era perguntado.
E perguntado que deve declarar se alguns dias antes da diw noute do
insulto, tn~z de setembro . proximu passado, vierão alguns cm allus para a
cavalhariça do Duque; quantos Ca\"allos erüu, de quem erüu; quem os man-
dou, e quem os trouxe.
Respondeo com outra absoluta negati,·a.
E perguntado se na dita nuute de trez de ~etembru prm..imo passado,
mandara elle Respondente appardhar as Facas P.1//z,v•,1m, c Coimbr,l, para
onde as mandara elle Respondt·nte, c a que horas, e por urdem de quem.
Hespundeo que em huma noutcJ. lJUe lhe não lembra qual fura, lhe
trouxera a elle Respondente hum rec·adu, que dizi<i mandasse apparelhar as
Facas P,l/lz,tram, e Coimbr.1, e que supposto nãu estü certo ~uem lhe dera
este recado, com tudo o estü I.}Ue fura, Ull o dito Antonio Dias, uu u dito
guarda roupa ~lanoel Ah·ares; e qu_e elle Respondente mandara apparelhar
as ditas duas Facas, e o dito Antonio Dias montara em huma, c le,•ara a
outra á mão, e ,·ira ellc Respondente que fora para a banda das terras, qqe
ficam por de traz do Jardim do dito Du~ue, e que isto era jü de nuute, ~ue
não sabe que horas erãu. E que nada mais passara.
E perguntado, que deYc dedarar, ~uem forão os d· 1us, que nas d;tas
terras montarão nas ditas duas F<lcas.
Respondeo, que nada sabia.
E perguntado a que horas trouxerão as ditas duas Facas; e quem as
trouxera para a ca,·alhariça.
Respondeu que nada sabia.
E sendo instado, ~ue veja o que diz; por que consta do lugar cm que
forão postadas as ditas duas Facas aonde dous mossos das cavalhariças as
forão buscar, e as trouxeráo.
Respondeo que nada sabia.

DESPACHO

Visto o Decreto de ~ua l\lagestade, por que se mostra se possão dar


tratos a estes Reos, c vista a ~ualidade da culpa, e forma cum que depocm
o Reo .Manuel do .1.\ascimento ás perguntas, ~ue lhe furão feitas, e estar
em termos, supposta a gravidade do dclicto, de ser mcnido a tormento,
mandando-se-lhe dar tratos pelo ~ue toca a Terceiros, mandão, ~ue ao dito
Reo se lhe dem dous tratos espertos, se tanto poder tolerar a Juizo do Ci-
rurgião, afim de que declare a verdade, pelo que toca a Terceiros. Belcm
de Janeiro quatro de setecentos sincoenta e no,·e. = · OJi,·eira _)lachado.

E logo no mesmo dia asima declarado, mandarão vir a Domingos


Monteiro Ramalho, cirurgiüo approvado da caza da saude, c dus carceres
secretos do ~anto Otliciu, e estando ahi o dito Reo lhe tornarüo a fazer as
sobreditas perguntas, deferindo-se-lhe o juramento dos ~antos Fnmgelhos,
pelo que respeitava a Terceiros, e recebido o dito juramento, assim o pro-
metteo, e por tornar a dizer, ~ue nada sabia, mandarão ~ue o dito Cirur-
gião fizesse a diligencia sobre a saude du Reo, se linha al,~um impedimento,
para se lhe darem tratos. E por constar não ter impedimento para se lhe
darem tratos, e assim o declarar fiz este termo que comnosco assignou. E
cu .Juzé Antunio de OliYeira .Machado que o escn~vy -. Oli,·eira l\lachado.

E logo foi mandado, que o dito Reo fosse posto no Potro, c nelle
atado, o que assim se executou pelos officiais, para isso determinados. E
dando-se-lhe trez gnios do primeiro trato, dice que queria confessar, e de-
clarar a ,-erdade, com effeito dice, e declarou :
Que era verdade: Que na noute de trez·de Setembro proximo passa~u,
pelas nu\·e, ou dez horas sahirão da Cavalhariça do dito Duque dois cavallos,
a que cha.mavão o Guardamor, e o Sen·a, cdlados, e enfreados:
Que dois dias antes da dita noute do referido insulto, vierão de caza
do Marquez de Tavura filho duis cavallos cellados, e enfreadus para a cava-
lhariça du dito Duque de Aveiro. e que os trouxe hum mosso que acom-
panha o dito l\larquez, e que tambem he Bolieiro, chamado Antonio Jozé.
E que na dita noutc os cellara, e Ie,·ara não sabe para onde hum mosso
que trata,-a dos cavallos, que era du l\larquez de Guu,·ea, e se chama
Domingos .Marques.
Que era verdade, que na noute du referido insulto de trez de Setembro
proximo passado, lhe dicera a ellc Respondente o mosso de acompanhar
Antonio Dias, que o Duque mandava apparelhar as ditas Facas Palhm•.1m,
c Coim[,.,1, que com etfeito mandara apparelhar, e o ditu Antonio as lnara
para as terras, junto á Barraca de Antonio Jozé de Manos, e isto pelas dez
horas da dita noute pouco mais, ou menus, como tem declarado. E que não
está bem lembrado, se o dito Antonio Dias, levara tambem com as ditas
duas Facas os dois cavallos, que vierãn de cala du dito Marquez de Ta-
vora filho, ou se levara só as ditas duas Facas, mas está lembrado, que na
mes'ma nuute, occazião, e horas sahirão os ditos quatro cavallos todos para
a mesma parte : Porem elle Respondente não sabe quem forão os quatro
que montarão, por que ficou na cavalhariça. Como tambem não sabe a que
horas vierão_, por que se fora deitar, o que poderão dizer os mussos da dita
cavalhariça. E qu~ neste particular nada mais sabia. .
E Iugo sendo mandado aliúar, e dezatar lhe furão lidas, primeira, e
segunda vez _as s·uas repostas, dice que esta vão na forma, que elle tinha
declarado, o· que novamente approvava, e ratificava debaixo do juramento
dos Santos Evangelhos, que recebido tinha, pelo que respeita,-a a Terceiros,
por ser tudo o referido verdade, de que fiz este auto de perguntas, e termo
de juramento, que por não poder assignar me rogou por elle assignasse
comnosco, o que fiL a seu rogo. Eu Juzé Antonio de Oliveira .Machado, que ·
o escrc\·y, e assigney. = Jozé Antonio de Oliveira :\I achado= A rogo do
Respondente= Jozé Antonio de Oliveira Machado.

APPEt-.;ÇO 6_

PERGUNT.\S FEITAS A FRANCISCO D.\ COSTA BOLUEIRO DO DUQUE DE AVEIRO

Auto de perguntas, feitas a Francisco da Costa sotta Cocheiro do Du-


que de A niro.
Annu do Nascimento de ~usso Senhor Jczus Christo de mil setecen-
tos sincocnta e no\e annos aos sinco dias do mez de Janeiro du dito anno
neste lugar de Bclem, e Quinta dl." ~ua ~lagestadl." chamada a do ~lcyn alu
Ji)i ~·indu o lllustrissimu, c Exü·lll"ntissimo Senhor ~cbastião Joté de Car-
,·alhu e ~ll"llo ~l"Crctario de Estado dos :\cgocius do Ht"ino, e o l>ezembar-
gador Pedro Gonsah·es Cordeiro Pereira Juiz da lnconlidencia, l>ol."mbar-
gadoJ· do Paço, que tambem serve de Regedor, comigo Jozé Antonio de
( >li\·l."ira ~tachado, l>e.1.embargador da Caza da Supplicação, e nomeado
pdo dito ~e.nhor para escren~r nesta diligencia para elfcito de fazer per-
guntas ao Reo Francisco da Costa Sotta Cocheiro do Duque de A niro, e
prezo em segredo na cadca deste dito lugar, á ordl"m do dito ~l"nhor, as
quais lhe furão feitas pela maneira seguinte:
E pl"rguntado, como se chaman1 de quem era filho, da onde era na-
tural, e morador. que occupaç;.'io, e idade tinha.
Respondeu que se chama,·a Francisco da Costa, filho de lgnacio da
Costa, natural da cidade dl." Braga, que era sotta cocheiro do Duque de
A ,-~iro, morador em sua caza, e que tinha quarenta annos de idadl." pouco
n1a1s, ou menus.
E perguntado s:: sabé, ou suspeita a cauza da sua prizáo.
Respondeu, que suspeita ser a catua da sua prizão por ser criado ~o
dito Duque, que tambem se acha prezo, c que cllc Resplmdente o seria para
fa.1.er algumas dedaraçocns.
• E perguntado por que cauza fora prezo o dito Duque, e que dedara-
çoens, tem elle Respondente que fazer.
Respondeu, que cm quanto á prizáo do Duque hé publico, e fama
constante, que fora prezo por cauza de l)uns tiros que sacrilegamente se
tinhão dado em El Rey r\osso Senhor, o que elle Respondente om·ira dizer
a muitas, e varias pessoas, principalmente aos criados de libré do dito Se-
nhor, e que o Duque t=nha sido o· cabeça deste infame insulto. O que ellc
Hespondcntc confirma, porque sen·indo ao dito Duque hü dezoito annos
sempre 'io, que o mesmo Du ...JUC tinha muito mü consciencia, por que nunca
pagara a quem deúa, nem a quem o sen ia. Que t;nha pessimo genio, c
peior condição, que parecia hercje, summ<unente soberbo, e desprezador de
todos, por que a todos os criados descompunha sobre lhe não pagar, e de
ningucm faz1a c azo, tanto que dizendc-lhe elle Respondente algumas ,·e1es:
uQue elle Duque era mais bern servido, que El Rey"• lhe respondia com so-
berba, e desprezo: u{J_ue me importa cá ElRey; Cabrão, filho da puta.,,
Que na occaziáo que Sua :\lagestadc ha\·ia hir a primeira vez á Tribuna
depois do referido insulto, ti,·era o dito Duque carta do Paço para ,·ir a
clle, dera cm resposta, que não podia vir, por estar Cl m a gotta cm hum
pé, sendo certo, que nada tinha nessa occazião, c anda,·a bom, que por não
querer \·ir se escutou com aquelle pretexto.
' Que pouco antes de João de Tavora cunhado do Duque hir para
Chaves, om·io elle testemunha dizer ao mesmo João de Ta,·ora, ao dito
Duque em caza deste, pondo-lhe a mão no hombro esta~ pala\'ras: ,,Agora
Duque, d'aqui para Rey,, com o que o dito Duque se alegrara asenandn
com a cabeça que sim.
Que na \·espera do dia em que o dito Duque l~1ra prezo, fora hum
mussu dos Frades de São Domingos de Azeitão, e dera a noticia, de que cü
se tinhão preLo varios Fidalgos, e que cm Casilhas se esta,·ão dezembar-
candu muita can1lleria. E logu na mesma noutc, mandara u dito Duque ao
Escudeiro do :\larquez seu filho, chamado Diogo Jnzé, e o mosso de acom-
panhar Antonio Dias a Coina saber para que, e para onde hia a sobredita
ca\·alleria, porem que elle Respondente não sabe, que resposta trouxerão.
Que u dito Duque costumava muitas vezes sahir na sua carruagem, e
de nuute aonde lhe parecia, mandava alugar sege em que se metia, tiran-
do-se da sua que mandava alli, ou cm outra parte esperar, e hia para onde
dle Respondente não sabia e depois de largo tempo tornava para se metter
na carruagem para ,-ir para caza, e quasi sempre tarde.
Que o mesmo Duque tinha dado ordem para que na ca\·alhariça se
desse hum ca,·allo ao mosso de acompanhar Antonio Dias, fodas as vezes,
que elle quizesse, e que com etfeito muitas ,-ezes sahia de dia, e de nuute,
para onde dle Respondente sabe.
Que elle Respondente om·ira dizer ao mosso da cavalhariça do Duque
chamado Domingos: Que dois dias antes da noute, em que sucedera o
referido insulto, tinha mandado o Marquez de Tavora filho dois cavallos
apparelhadus para a cavalhariça do mesmo Duque, e que os tinha levado
hum Bolieiro do dito Marquez de Tan>ra filho, e que tambem acompanhava
com elle a cavallo, chamado Antonio Juzé. Porem que não sabe nem uuvio
dizer para que ,-ierão os· ditos cavallos, nem quando sahiráo da dita
cavalhariça.
Que publicamente ou\"Ío dizer, que os socios do dito Duque para o
referido insulto tinhão sido o ~larquez de Ta,·ora Pay, o Marquez de Ta-
,·ora filho, e o conde de AJ.uuguia. _
Que na noute do referido insulto sahira o Duque para ~ Paço da onde
recolhera mais sedo, que serião nove horas pouco mais, ou menos, e vio
elle Respondente, que na mesma noute houvera huma Rabeca em caza, e
nesta estava o .Marquez de Ta,·ora Pay, e o 1\larquez filho deste.
Que depois do dito Duque ser prezo em Azeitão logo a Duqueza
dicera a elle Respondente:- Que poderia ser prezo, e se fosse perguntado
dicesse: Que o Duque quando vinha de fora sempre vinha publico, e que
nunca se apeara á porta do jardim, mas sim na principal porta do Pateo.
Sendo certo, que o dito Duque, muitas vezes se apeava á dita porta do
jardim.
E que depois de ,·irem de Azeitão, e já aqui em Bellem lhe tornara a
ri1esma Duqueza a dizer a elle Respondente: Que se fosse perguntat:lo,
dicesse que na referida noute do insulto, tinha o Duque ,·indu do Paço pelas
dez horas, e meia da noute, e se tinha apeado á porta do dito Pateo, e que
nunca mais nessa noute tinha sahido fora. E que este mesmo recado soube
elle Respondente dera a dita Duqueza aos mais mossos, que forão Antonio
Martins, o Pa~ador, que acumpanha,·a ao Duque como ferrador, Antonio
Dias, e João Miguel, que acompanhavão na taboa, tanto da primeira ,·ez
em A~.:eitão, como na segunda ,-ez em esta caza de Belem.
Que o dito Duqutt costumava hir mais frequentemente a caza do 1\lar-
quez de Tavora filho, a caza do .Marquez de Tavora Pay, a caza do Conde
de Atouguia, e a caza de Dom :\lanoel de Sousa o Calhariz, ao Collegio de
Santo Antão, e mais vezes a Sãu Roque, e Arroyos só lhe lembra fora
huma vez a ,-izitar hum Padre, que dizião ter ,-indo de Coimbra, e esta
antes do referido insulto. E a caza dos mais hia antes, e depois do mesmo
insulto. E que se costuma,·a cartear o dito Duque com o dito Dom 1\lanod
de Souza, porem que o dito Dom :\lanoel hé que costumava mandar pelos
seus mdssos as cartas, e pelos mesmos, respondia Iugo o Duque. E que
cllc Respof!dcnte não sabe ~1uc Padres da companhia hia o Dul}UC 'i-
zitar, porl}ue como cst;l\·a a ca,·allo, manda,·a recado pelo mosso Anto-
nio Dias.
E que finalmente na cavalhariça do ditu Dul}uc nunca paran\o mossos,
que l}llal'i sempre se hião huns, c ,·inhão outros. E que só o dito Domin~os
h~ '-luc se tem conservado mais tempo, que lu\ mais de hum anno.
E que isto h~ que tem que declarar tanto a respeito do dito Duque,
como do mais, que tem dito. c que só sabe pelas ditas razoens.

E por ora lhe não furão feitas mais perguntas, que sendo-lhe estas
liJas, dice que cstavão na fi)rma que lhe tinh<io sido feitas, e elle tinha res-
pondido, o l}UC tudo apprU\·a, ratiti.:a. E logo lhe foi deferido o juramento
dos Santos E,·angclhos, para que debaixo dellcs declarasse se o que tinha
dito, c respeita,·a a terceiros cm quem tem fallado hé ,·erdadc. E recebido
o dito juramento debaixo dclle dicc, que tudo o que tinha dito, e respeitava
a terceiros era Yerdadc, e de tud.u fiz este auto de perguntas, e termo de
juramento, que comnosco assignou. E eu Jozé Antonio de Oli,·eira ~lachado,
que o escrevi, c assignci. =Pedro Gonsalws Cordeiro Pereira =-o Jozé An-
tonio de Oli,·cira ~la.:hado..:...... Do Respondente Fran.:is.:o da Costa huma ..:ruz.

APPEi\ÇO 7·

PERGt::ST.\S FEI"L\S .\ ANTONIO DI.\S MOSSO DE .'\C0!\11'.\NH.\R,


E CO:SFIIlE:STE DO Dt:Qt:E DE A\"EJRO

Auto de perguntas feitas a AntcniÓ Dias.


Anno do :\as.:imento de :'\osso Senhor Jents Christo de mil setecentos
siricocnta e nove annus, aos quatro dias do mez de janeiro do dito anno
neste lugar de Selem e Quinta de Sua ~lagestadc, chamada a do ~le\·o
aonde foi ,·indo o lllustrissimo c Excellentissimo Senhor Sebastião Jozé "Jc
Can alho c ~lcllo, Secretario de Estado dos ~egocios do Reino, c o Dezcm-
bargador do Paço Pedro Gonsah·es Cordeiro Pereira, JuiL da Incontidcncia,
que tambem sen·e de Regedor, comigo Jozé Antonio de Oli,·cira ~tachado,
Dezembargador da caza da supplicação, e nomeado para escrever nesta
diligencia para ctfcito de fazer perguntas ao Reo Antonio Dias prezo na
cadca deste dito lugar em segredo á ordem do d1to Senhor, as quais lhe
furão feitas pela maneira seguinte:
E perguntado como se chama,·a, de quem era filho, da onde era natu-
ral, e morador, que occupaçáo tinha, c que idade.
Respondeu que se chamava Antonio Dias, filho de Pascoal Pimenta
natural da Yilla de Ponte de Lima, que era mosso ·de acompanhar ao Duque
de A ,·eiro, morador em sua caza, e que tinha quarenta. c dois mm os de
idade.
E perguntado se sabe, ou suspeita a caun da sua prizáo.
Respondeu, que suspeita ser a cauza da sua prizáo por elle Respon-
dente ser aiado do dito Duque, o qual se acha prezo, c que elle Respondente
o seria, para declarar alguma cousa a respeito do dito Duque.
E perguntado se sabe a cauza porque o dito Duque fora pre7o.
R~spondeo, que ouYira dizer, que o dito Duque se tinha achado na
nuute em que sacrilegamente s~ derão huns infames tiros em El Rey Nosso
Senhor em companhia dos yue os derão.
E perguntado quem forão os mais, que diz se acha,·ão com o dito
Duque na occazião que declara.
Respondeu que ouvira dizer, que na noute em que se derão os ditos
tiros se ad'tara o referido Duque, o l\larquez de Ta,·ora Pay, e o ~larquez
filho, e o conde de Àtouguia. E que tão bem o dito Duque tinha mandado cha-
mar algumas noutes a Antonio Ah·ares, porem que não sabe para que etfei-
to, e que tambem hum cunhado deste se achara cá em Belem muitas ,·ezes,
mas tambem não sabe o para quê.
E perguntado a quem ouvira elle Respondente dizer o referido.
Respondeu, que o que tem referido o om·ira dizer a hum criado, que
hé Bulieiru da Marqueza de Tavura mossa, mulher do Marquez Luiz Ber-
nardo de TaYora, e isto no segundo dia depois dos referidos tiros. E que
em quanto au Duque mandar chamar Antonio Alvares, o sabe elle por lho
dizer l\lanoel Ah·ares, Irmão du sobreditu Antonio Alvares.
E perguntado se os sobreditos que tem declarado, forão a pé, ou a
cavallo.
Respondeu que não sabia.
E perguntado que cavallos sahirão da c<n-alhariça do Duque na noutc
cm que se derão os referidos tiros.
Respondeu, que não sabia. _
E perguntado a que partes mais frequentemente costuma,·a hir o Duque,
antes e depois do dito cazo sucedido.
Respondeu, que as partes frequentes e em que mais se dilatava o dito
Duque, erão : Em Falhavam com Dum Paulo, em caza do Marquez de
TaYora filho, em caza do 1\larquez de Tavora Pay, e em caza do Conde de
A touguia. E que todos estes, e suas mulheres, costuma vão tambem Yir a
caza do Duque.
E p~rguntado se elle Respondente tinha licensa ampla na Ca\·alha-
riç~ du Duque, para lhe darem hum c<n·allo todas as vezes que o
qlllzesse.
Respondeu, quo.! era verdade, que o Duque dera ordem ao Estribeira
Juzé Manuel para que a désse ao sotta cavalhariça para darem hum ca,·allo
a elle Respondente, todas as vezes, yue o quizesse, e com etfeito lho dm-ão
c sahira muitas ,·ezes naquelle que sucedia.
· E perguntado, a que parte custuma,·a elle Respondente hir nos ditos
c;n·allos. .
Respondeo, que era para ellc Respondente lc,·ar alguma cana- a huma
chamada a Grücia, cum quem tratava.
E perguntado, que deve declarar se na noute du referido insulto
levara dle Respund~nte recado ~w sotta c;n-alhariça do dito Duque, para
mandar apparelhat· as Facas chamadas Pallwram, e Coimb,·.1 para onde as
le,·ou elle R~spondente, e quem montou nellas.
Respondeu, que nada do referido sabia.
E instado que veja o que diz, que consta u contrario, c que declare a
verdade.
Re!-.pondeo que nada sabia .


DESP:\CH(l

\"isto (omo o l>cacto de Sua .\lagcstadt: porqut: hé scnido mandar


se possão dar tratos a estes Rcus, e ,-ista a prU\·a que rczulta. c forma
(om que respondeu o Rco Antonio Dias, c estar cm termos. supposta a
gravidade du deli(tu de ser mt:tido a tormento. mandando·sc-lhc dar tratos
~m (abeça alhca. mandão que ao dito Reo se lhe deem dnus tratos espertos,
se tanto poder tolerar a juizo do Ciruqiiio, ali.m de que dcdare a verdade
pelo que respeita a T er(cirus. Bdem de Setembro quatro de set~:centus
sincuenta e nove.= Cordeiro= Oliveira .\lad1ado.

E logo nu mesmo dia asima declarado mandarão ,·ir a Domingos


.\lunteiro Ramalho Cirurgião apprO\·ado da Cat.a da Saudt:, c dus carcercs
do Santo Ofli(iu. E estando ahi o dito Rco lhe tornarão a fazt:r perguntas,
dderindu.sc-lhc juramento dns Santos E\·o.mgclhos, pelo que respeita a
T er(eirus. c rc(ebido o dito juran1ento assim o prometteu. E por tornar a
dizer, que nada sabia, mandarão, que u dito Cirurgião li1esse a diligencia
sobre a saude do Reu, se tinha algum imped=mcnto para se lhe dare.rn
tratos, e por constar, não ter impedimento. para se lhe darem tratos, c
assim o declarar debaixo do juramento de seu oflicio ri1 este termo, que
comnus(O assignou. E eu Jozé Antonio de Oli,·cira .\lachadu que o cscren·.
= Olinira .\l..Khadu. ·

E logo foi mandado, que u dito Reu fosse posto no Potro, e ndle
atado, u que assim se exe(Utuu pdus ofliciais para isso dctt:rminados. E
estando assim atado perfeitamente dice o mesmo Rco, qut: queria (Onfessar
toda a ,·crdadc, que vinha a ser: · _
Que era 'erdade. que na noute de trez de Sett:mbro lhe dera a elle
Respondente o dito Duque ordem pelas da horas, ~ meia pouco mais ou
menus, para que mandasse apparelhar as duas Fa(as, chamadas P.1/lz,zl',Ull,
e Coimbr.z, e tambem os dl•is cavallos. que dois dias antes, tinha mandado
o .\larquez filho. preparados para a cavalharke do Duque; como elle Res-
pondente viu; E que (om etfeito dera a -~i ta ordt:m au sotta (avalhariça,
. que mandou preparar todos quatro, os qua1s ellc Respondentt: le,·ara pelas
rcdeas. dois cm (ada mão para as tt:rras. e junto da Barraca de Antonio
Jozé de :\lattos, como o dito Duque lhe tinha ordenado.
E que ahi montarão cm hum o .\larque1 de To.n·ura Pa,·, t:m outro o
.\larquez de Tavora filho, em outro o Conde. dt: Atougui<i.. e em outro
o cunegu Jo1é .\laria de Ta,·ora. E não está lembrado, por não rt:parar,
que armas levaváo, e partirão pelas terras asima.
E que depois de partirem os quatro se achara tambem alli o subreditu
Antonio Alvares em hum ca\ alinho, e então o Duque a pé. e embussado
cm hum capote. fura (0111 o dito _\ntonin Alvares pela estrada, e muro da
Quinta de Sua .\lagestade asima, thé au rim da."> (<ll.as da mesma.
E que passados dois dias da sobredita noute lhe did~ra a dlc Res-
pondente ht!ma mossa da Duqueza chamada .\larianna Thereza. que se
acha pre7a, que estando ella para fallar a hum mosso (Om quem queria
.:azar <i porta, ou jandla do Jardim. c que lhe não pudera fallar, porque
viera o Duque. c mais outros, que crãu dous. uu trcz, c que nessa o(Ca7ião,
di(era u Du~1ue atirando (um bum.1 arma ao (hão, uu dan ..io (om clla nas
pedras estas pala\Tas: "Valha..te o Diabo, que agora me havias faltar [ou
errar fogo 1quando me eras perciza.,. E que esta era toda a n~rdade do
que sabia.
E sendo logo dezatado o Reo, ratificou tudo quanto tinha dito em
nossa prczença.
I
E por ora l·he não fiLeráo mais perguntas, as quais sendo-lhe lidas
primeira c segunda vez, dice que estavão na verdade, como lhe tinhão sido
feitas, as quais novamente approvava, e ratificava debaixo do juramento
dos Santos Evangelhos, que já tinha recebido, pelo que tocava a terceiros,
que de tudo fiz este auto, que comnosco assignou. E eu Jozé Antonio de
Oli\eira 1\lachado que o escrevy, e assigney. =Pt'dro Gonsalves Cordeiro
Pereira= Jozé Antonio de Oli,·eira )lachado =Antonio Dias.
E logo declarou mais. Que tambem era verdade, que o dito Duque
costuma,·a muitas vezes hir a São Roque a procurar o Padre João de
1\'lattos, e a Santo Antão procurar o Padre Procurador Geral Jozé Perdigão,
o Padre Thimotco de Oli,·eira, e o Padre Jacinto da Costa. E que tambem
foi o dito Duque a hum Hospicio d9s mesmos Padres a Arroiol-i a buscar
hum Padre que tinha vindo de Coi'mbra. E em outra occa1ião, fora ao
Noviciado da Coto,·ia outra ,-ez. E que tambem era frequente em_ Falhavam,
a procurar a Dom Paulo da Annunciação.
E que a Duquen mulher do dito Duque lhe dicera a elle Respondente
em Azeitão, depois que hum ~linistro lá foi a fazer-lhe humas perguntas,
que se elle Respondente fosse perguntado, que dicesse, que o Duque nunca
se apeara á porta do Jardim, mas sim do Pateo publicamente. E que depois,
que a mesma Duqueza viera para Belem, tambem lhe dicera a elle Respon-
dente, que .sendo perguntado, dicesse, que na noute do referido insulto,
tinha o dito Duque vindo do Paço pelas dez horas e mcya, e que apeando-se
á porta do Pateo, subira para simà, e que nessa noute não sahira mais
fora. E que este mesmo recado desse elle Respondente a outro mosso de
acompanhar João ~liguei, ao Pagadm-, ou ferrador que acompanhava ao
Duque, e ao sotta Francisco da Costa. E que supposto elle Respondente,
lhe dera o dito recado como a Duqueza lho mandara, tambem lhe dice que
dicessem elles o que lhe parecesse. Por quanto a ,·erdade era que o Duque
muitas 'ezes se apea,-a á porta do Jardim. E qüe na noute do insulto
sahira o dito Duque como tem declarado.
E que ultimamente os ditos Religiozos da companhia, que tem decla-
rado, c quem o dito Duque hia procurar, tambem os mesmos, vinhão a
caza do Duque a procura-lo a clle.
E que <i mesma, c maior amizade trata\·a o dito Duque cum seu
cunhado João de Tavora thé ao tempo em que este fui para Cha,·es, por
que assistindo este na Barraca das terras atraz du Jardim apenas se levan-
tava da cama, logo ·hia ter á cama do Duque, e com este esta,·a athé noute,
que torna,·a para a barraca. E em huma occazião lhe ou,·io elle Respon-
deme dizer estas pala \Tas: "Duque daqui para Rey.,. Com o que o Duque
se alegrara, e rir:a com este dito, mostrando que gostara dellc.
E que o mesmo Duque trata,·a amizade com Dom ~lanoel de Souza
Calhariz, antes deste ser exterminado. E que na occazião em que o foi se
avistarão ambos em Coina. c ahi esti\·erãu fallando bastante tempo, que o
Duque hia para .\zeitão, e Dum )lanuel para_ Calhariz.
E que qu~m fora a Coina na noute antecedente au dia em que o l>lii..JUC
fi1i prezo, fui Diogo Jozé Escudeiro du Duque, e Joã,> :\I igucl, como h a de
di;rer u dito Diugu Jozé, c não dle Respondente, como equJYucadamcntc:
se diz.
E mais nãu dc:daruu, e com nosco assignou de baixo du mesmo jura-
mento dos Santos EYangclhus, que tinha r~ccbido; E cu .fo;ré Antonio de
Oli\ eira Mach<_Jdo, _lJlle o cscreYy, c assignc:y. =Cordeiro=- OliYcira :\\a-
chado= Antomo Dws.

APPENÇO ~-

I'ERGD>T.\S FEIT.\S .\ .\l'>TO:"IO :\1.\RTI:"S. O /'.IG.J/IOR IIE .\I.CUXI-1.\. ~lOCO

11.\ ESTRIIIEIR.\. QI"E .\C0:\11'.\:"IIH:\\'.\ O lll"Ql"E IIE \\"EIIW

.-\utu· de perguntas feitas a Antonio :\lartins ferrador da caza do Du-


que de .-\\·eiro, o Po.11-fo.hiol· de Akunha .
.-\nno du ~ascimc-ntu de !\osso Senhor Jczus Christu de mil setecentos
sincoenta e nm·e annos, aos quatro dias do mcz de Setembro (sic) do dito anno
neste lugar de Relem, e Quinta de Sua ;\lagestadc:, chamada a du :\leyo,
aonde fui \·indo o Illustrissimo, e Excdlentissimo Senhor Sebastião .lo7é" de
Carvalho e :\ldlo, Secretario de Estado dus l'\egocius du Reino, e o Dezem-
bargador du Paço Pedro Gunsalvc:s Cordeiro Pereira, Juiz da lnconti.dencia,
que tambem serYe de Regedor, comigo Juzé Antonio de Oli,·cira \lachadu,
DezembarJador da Caza da Supplicaçãu, Jui.t Commissario neste dito lugar,
e nomeado para cscrc,·er na importantíssima diligencia desta Suprema Com-
missão, para elfeitu de fazer perguntas au Reo .\ntonio \lartins o Po.1f.(adm-
Je akunha, prezo em segredo nesta cadea de Relem, ü urdem do dito Se-
nhor. que com ell"eito se ·lhe fizerão pela maneira seguinte.

I.

E perguntado como se chama\ a, de quem era ti. lho, da onde era na-
tural, que occupação, e idade tinha.
Respondeu, que se chama,·a Antonio :\lartins, o P.1g.. zdor de alcunha,
filho de Sih·estre de Jezus, natural da villa de Portel, que acompanha\ a ao
Duque de .-\. veiro, como ferrador, que era morador cm h uma Barraca do
dito Duque, de fronte das cazas deste, junto üs cocheiras, e que tinha qua-
renta e sinco annos pouco mais, ou menus.

".!.

E perguntando se sabe, ou suspeita a cauza da sua prizão.


Respondeu, que só suspcita,·a ser ;1 catua da sua priz;íu, por terem
prendido ao Duque seu amo, e a outros criados mais, por cauza de ouYir
dit.er publicamente, que o dnu Duque, e outros Fidalgos, tinhão siJo prc-1.0s .


g6
I

por causa de huma conjuração, que tinhão feito contra El Rey Nosso Se-
nhor, de que rezultara atirarem huns tiros ao dito Senhor na noute de trez
de Setembro proximo passado.
3.
E perguntado a que partes mais frequentemente costuma\·a hir o dito
Duque, antes, e depois da noutc que diz de trez de ~etembro proximo pas-
sado.
Respondeu, que as partes mais frequentes a que costuma\·a hir o dito
Duque de dia, e de noLite, erão a caza do ~larquez de Tavora filho, e que
alJUi se dilatava mais tempo, esti,·esse, uu não o dito Marquez em caza. E
a caza do Marquez de Tavora Pay, e muitas ,·ezes a caza do Conde de
Atouguia, e algumas ,·ezes a caza do Conde de Obidos, e que isto antes, e
depois da dita noute do insulto. E ·que da mesma sorte, costuma vão vir de
dia, e de noute a caza delle Duque os sobreditos ~larquezes, e :\larquezas
de Ta\ ora, Conde, e Condeça da Atouguia, e o Conde de Obidos. E que
no tempo em que Jozé ~laria o Conego morava em huma barraca das ter-
ras de Akolena, que ficão por de traz do Jardim do dito Duque, costumava
este estar lllta7i sempre com o dito conego Jozé !\laria. E que depois que
este se mudou para Alcantara só ,·ira, que fora o dito Duque duas, ou tre7
\·ezes. E que quando se mudou para a Coto\'ia fora a sua caza outras tantas
vez_es. E que nada mais vira, ainda que poucas vezes deixava de acompa-
nhar ao dito, quando hia na carruagem.


E perguntado, que deve declarar que tempos antes de suceder o in-
sulto, contra o costume que o Duque tinha de jog~r, se costumava h ir con-
,·ersar para caza do dito Juzé :\laria, ou do sobrinho tambem chamado Jozé
~laria.
Respondeu, que já tem declarado, que o dito Duque tivera grande com-
municação com o dito conigo Jozé i\laria no tempo que este,·e (sic) mora,·a nas
ditas terras. E que depois só o ,·ira hir as vezes, que tem declarado. E que
em quanto a outro JO?é ~laria só ,·ira como tem dito, que o dito Duque
costumava hir antes, e depois do insulto a caza do :\larquez de Tavora Pay,
aonde mora,·a o dito filho Jozé ~laria, e não sabe, se então tratava, ou con-
versava com elle.
5.

E perguntado, que deve declarar, que cavallos sahirão da cavalhariça


do Duque na dita noute trez de Setembro proximo passado.
Respondeo, que elle Respondente não ,·ira sahir cavallus alguns da
ca,·alhariça do Duque, aonde nunca entrava, ou muito poucas ,·ezes, salvo
a atacar alguns cravos, e que na noute do dito insulto ,·iera com o Duque
do Paço, que serião nove, ou dez horas, e largando o ca,·allo em que vinha
<i porta do Pateo, se fora para a dita sua caza, e logo tornara a buscar a sua
cêa, e comendo-a logo se deitara. e não sabe o que passara na dita noute .


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F por ora lhe não furão feitas mais perguntas, que sendo-lhe estas
hdas, dice esta\·;ío na ,·erdade, lJUC appro\·a,·a, e ratific..n·a. E se lhe deferiu
juramento dos Santos E,·angelhos, pelo que toca,·a a Terceiro, ·que recebido
dice tinha dcdarado a yc:rdadc, de que tiz este auto, que conmosco assi-
gnou. E eu .Jozé Antonio de ( >liveira .\tachado, que o escrevy. -=Pedro
Gonsah·es Cordeiro Pereira Juzé Antonio de Oliveira :\lachado=.\ntonio
.\lartins P<1~<1dm-.

E logo foi perguntado, que de\ e declarar se o Duque ,·i7itava a miudo


os ReligioLos da companhia de Jczus em Sâo Ro-1ue, Santo Antão, e Ar-
ro) os, e a quem, com quem procurava, e fallava.
Hespondeo, que a São Roque só fora o dito Duque hum a 'e7 em dia
do Santo Burja, e isto desde o t1..·rramoto para ca, c que a Santo Antão fora
outra ,·ez, por occaziáo de humas conduzoens desde o mesmo tempo, e a
.\rro\·os nunca lá fora.

E sendo-lhe dito que 'istas as suas repostas, e culpa que lhe rczulta,·a,
est;l\·a condcmnado a darem-se-lhe tratos. O -1ue ouvido pelo Reo di c e.:
Que n deixassem considerar hum pouco sobre o que se lhe tinha pergun-
tado. E logo dice : ·
Que ~era ,·erdaJc, c agora lhe lembrava, que o dito Duque costuma ..·a
hir muitas ,·ezes, antes, e depois do referido insulto a Sáo Roque a fallar
com o Padre João de :\lattos a Santo _\ntãõ, com Jo7é Perdigão, com Thi-
moteo de OJi,·eira, e com Jacintl' da Costa, e com este trata\·a, e fallava
mais ,·ezes do que ainda com os outros. E que tambem fora algumas ,·ezes
a _\ rroyos a procurar um Doutor, que tinha ,·indo de Coimbra, e que tam-
bem era Reli~iozo da Companhia. E que algumas voes, fora tambem ao
:'\oviciado· da Cotovia, porem que menos ,·e7es. E que muitas falia\ a com
JoLé :\loreira, antes, e depois, 1..1ue foi expulso do Paço, e que esta era a
verdade, que tinha que declarar, o que sendo lida dJCe que apprm·ava, e
ratifica\ a, de baixo do juramento dos Santos E,·angelhos, que já tinha re-
cebido que comnosco assignou. E cu sobredito o escre,·y. e assigney. .
E mais declarou : Que a cauza de não declarar logo o ~ue tem dito,
fora por que o Duque lhe dizia, que em tempo nenhum dicesse que elle hia
buscar aos ditos ReligioZI\S.
E que agora a' Duqueza lhe mandara diter por Antonio Dias, mosso
de acompanhar, que se elle Respondente viesse a juramento dicesse que o
Duque tinha ,·indu do Paço as dez hora!->, e meva da noute do referido in-
sulto. e não sahira mais fora na l.'lita noute. Sobredito o cscre,·y, e assigney.
- Cordeiro= OJi,·eira .\bchado =--Antonio :\lartins J><1g<1<ior.

APPE~ÇO g.
I'ERGl"YL\S FEl L\S \ J0.\0 'IIGUEL -'!OSSO f\E .\CO,IP,\:'1-IHR. E CO"FipE:"TE.
E SOCIO llO IIUQUE LIE .\\.FIRO

Auto de perguntas f~itas a João .\li~uel .


.\nno do ~ascimcnto de ~osso Senhor .Jezus Christo de mil s~tecentos
sincoenta e. nove annos, aos quatro dias du mez de Janeiro do dito anno
7
neste lugar de Belem, e Quinta de Sua Magestade, chamada a do 1\leyo,
aonde fui vindo o Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Sebastião Jozé de
Can·alho e 1\lello, Secretario de Estado dos Negocias do Reino, e o Dezem-
bargador Pedro Gonsalves Cordeiro Pereira Juiz da Inconfidencia, que
tambem serve de Regedor, comigo Jozé Antonio de Oliveira .Machado,
Dezembargador da caza .da supplicação, e nomeado para escrever nesta
diligencia, para efteito de fazer perguntas ao Reo João Miguel, prezo na
cadea deste dito lugar por ordem de Sua )lagest'lde, as quais lhe foráo
feitas pela maneira seguinte:
I.

E perguntado, como se chamava, de quem era filho, ctonde era na-


tural, e morador, que occupação e idade tinha.
Respondeo, que se chamava João .Miguel, que era filho de Gregorio
!\liguei, que era natural de Galiza, e Bispado de Tuy, que há dezesete ao-
nos está em Lisboa, que hé mosso de acompanhar ao Duque de Aveiro, e
que tem quarenta annos de idade.
2.

E pergunta~o se sabe, ou suspeita a cauza da sua prizão.


Respondeo, que não sabe, nem suspeita a cauza da sua prizão.

3.

E perguntado aonde costumava hir mais frequentemente o Duque seu


amo, antes, e depois da infausta noute de trez de Setembro proximo passado.
Respondeu, que o dito Duque, hia mais frequentemente, antes, e de-
pois do dia trez de Setembro proximo passado a caza do 1\larquez de Ta-
vara filho, aonde se dilatava mais tempo, e isto de dia, e de noute, e da
mesma sorte a caza do Marquez Pay, ainda que menos vezes, e tambem a
caza do Conde de Atouguia. E que da mesma sorte os ditos )larquezes, e
1\larquezas, Conde, e Condeça vinhão a caza do dito Duque; E que tambem
costumava o dito Duque hir a caza do conigo Jolé Maria, que morava á
Patriarchal, e que estas erão as partes, que mais frequentava o dito Duque.


E perguntado que deve declarar, por que consta, que o dito Duque,
contra o costume que tinha de jogar, costumaYa hir mais Yezes a caza do
dito Jozé :\laria. ·
Respondeo, que o dito Duque nunca deixara o jogo, e que poucas
Yezes hia a caza do dito Jozé )laria.

5.
E perguntado, que caya\los forão os que na dita noute de tre7 de Se-

.-
tembro prox.imo passado sahirão da ~avalhariça do Duque, cdlados, c ar-
mados, quem os levou, e para onde furão.
Hespondeo, que nada sabia.
1.3.

E perguntado aonde fura ellc Respondente na dita noute do insulto.


Respondeu, que ás .-\ve :\larias da dita noute, sahira com o Duque na
~arruagem para o Paço, da onde viera pelas dez horas, e meia, e que
~e ando logo se fora deitar, c que nunca mais sahira fora.



E instado, que veja bem o que diz, por que consta, que elle Respon-
dente sahira outra ,·ez fora com o mesmo 'DuL1ue, que deve declarar, aonde
fora, aonue estin:ra, e para quê.
Respondeu, com huma absoluta negativa.

DESPACHO
-
\'isto o Decreto de Sua )lagcstade por que hé servido mandar se
pllssão dar tratos a estes Reos, e Yista a qualidade da culpa, e forma ~om
que tem respondido o Reo João :.\liguei üs perguntas, que lhe furão feitas,
e estar em termos, supposta a atrocidade, e gra,·idade do ddicto, de ser
mettido a tormento, mandando-se-lhe dar tratos em cabeça alhea, e pelo
que toca a Terceiros, mandiio que ao dito Reo se lhe dem dois tratos es-
pertos, se tanto poder tolerar a jui1o do cirurgião, a fim de que declare a
verdade, pelo que toca a terceiros. Bdem de Janeiro quatro de setecentos
sin~oenta e nove.= 'Cordeiro= Oli,·eira :.\lachado.

E logo no mesmo dia asima declarado mandarão vir a Domingos


:.\lonteiro Ramalho, cirurgião approvado da caza da saude, e dos carc~res
secretos do Santo officio, e estando ahi o dito Reo, lhe tornarão a fazer as
mesmas perguntas, deferindo-se o juramento dos Santos Evangelhos, pelo
que respeitava a Terceiros, c recebido o dito juramento, assim o prumetteo.
E por tornar a dizer, que nada sabia, mandarão, que o dito cirurgião, fi-
zesse a diligencia sobre a saude do Reo, se tinha algum impedimento para
se lhe darem tratos. E por constar não ter impedimento para se lhe darem,
e assim o declarar debaixo do jurJ.mento de seu officio, fiz este termo, que
~omnoscu assignou. E eu Jozé Antonio de Oliveira :.\lachado que o escren·.
=Cordeiro=-= Oli,·eira :.\lachado. ·

E logo foi mandado, que o dito Reo fosse posto no Potro, e nelle
atado, o que assim se ext:~utou, pelos officiais para isso determinados, e
dando-se-lhe dois tratos espertos, e tornando-lhe ? faLer perguntas, perti-
nazmente insistiu o Reo em di1er, que nada sabia. E por dizer o cirurgião,
que por ora não podia levar mais tratos, o mandarão aliviar delles, t: qut:
fosse rt:culhido para se curar, de que fiz este auto, que o RL"() me rogou
100

que por elle cumnosco assignasse. E eu Jot:é Antonio de Oliveira 'lachado,-


que o es.:revy, e assigney. = Pedro Gonsalves Cordeiro Pereira =Jozé An-
tonio de Oliveira Machado.

APPENÇO 10.

PERGUNT.\S FEITAS A llO!'vl PAULO lJ.\ ANNUNCIA~:;\o. E P.\PEIS C.\UTELOZO~


POR ELLE DIRIGIDOS AOS MINISTROS llE SU.\ i\IAGEST.\UE

N.

Auto de perguntas, feita.> t Dom Paulo.


Anno do Nascimento de Nosso ~enhur Jezus Christo de mil setecen-
tos sincoenta e oito annos, aos Yinte e seis dias du mez de De7embro do
dito anno neste lugar de Belem, e Quinta de Sua ~lagestade, chamada a do
:\le\·o, aonde foi Yindo o Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Sebastião
Joz-é de Canalho e 1\lello, Secretario de Estado dos Negocios do Reyno, e
o Dezembargador Pedro Gunsa\yes Cordeiro Pereira, Dezembargador do
Paço, Juiz da lnconfidencia, que tambem sen·e de Regedor, comigo Jozé
Antonio de Oli\·eira :\!achado, -Dezembargador da caza da supplicação,
Juiz Commissa·rio neste dito lugar por Decreto do ditu Senhor. e nomeado
para escrever nesta diligencia, para effeito de fazer perguntas a Dom Paulo,
reduzo em segredo, a ordem do dito Senhor, as quais lhe forão feitas pela
maneira seguinte:

E perguntado, como se chaniaYa, de quem era filho, donde era natu-


ral, e morador,· e que_ idade tinha. .
Respondeo, que se chamaYa Dom Paulo- da Annunciaçáo, filho de
João Pacheco Fabiáo, natural de Coimbra, e morador no seu convento de
São Vicente de Fora, de idade dé sincoenta e sete annos.
E perguntado se sabe, ou suspeita a cauza da sua prizão.
Respondeo, que intendia que Sua 1\lagestade o mandara recolher pelos
moti\ os, que se acháo indicados no papel, que em quinze de Dezembro
dirigio a elle Juiz da lnconfidencia, e na carta que no dia dezeseis do
mesmo mez escreveo a elle ll!ustrissimo, e Excellentissimo Secretario
de Estado.
E perguntado, se reconhecia por seus escritos pela sua propria mão o
sobredito papel, e carta. .
Respondeo, que a dita carta, e papel eráo seus, por elle dirigidos, es-
critos de sua propria mão.
E perguntado se na conformidade do dito papel, e carta entendia ter
exonerado a sua consciencia, e cumprido com as obrigaçoens, que o Direito
Natural, e DiYino lhe impoem indispensaYelmente de declarar em benefu:io
de El Rey Nosso Senhor, e da Patria, que são Pays communs de todos os
habitantes destes Reinos, e seus Domínios, tudo o que sabia a respeito do
sacrílego insulto comettido na noute de trez de Setembro deste prezente
to I

anno: ~.":omo intende, que fui aprt!hendido pela referida cauza, depois de
ha\·er ft!itu as tais declaraçoens.
Hespundco, cuarctandu inteiramente a prezumpsáo que contra cllc
havia a ~.":au/as, c factos negati\·.ts da mesma prczumpsão, de tal sorte! \"t!-
rosimeis, c tüo signiticantes, que conferindo-se sobre ellcs com toda a pon-
dcraçüo, c prudcncia possi\·cis, se assentou cm que este Hcligiozo se achava
pro\·a\dmcnte innoct!nte, no que pertence au sacrílego insulto, de que se
trata, peh• que a respeito do mesmo Rcligiozo, tem thé <1<·, prczentc cons-
tado. lJe que liz este auto na pret.ença dos .\linistros asima declarados,
assistindo tambem com ellcs o Illustrissimu, e E:-..cellcntissimo Senhor
Thome Joaquim da Costa Corte Real Secretario de Estado dos :\egocios
l"ltramarinos, que o dito Rcligiozo assinou. E cu Jozé Antonio de Oli,·eira
:\lad1ado, que o cscre,·y. =-c Sebastião Juzé de Can·alho e :\lei lo-= Thomé
Joaquim da Costa Corte Real . Pedro Gonsahcs Cordeiro Pereira =.fut.é
Antonio de O li\ C! ira :\lachado =Dum Paulo da Annunciaçãu.

E declarou, que hindu alguns tempos antes do terramoto as cazas do


IJJ.tque de A wiro, si tas por dctraz das Cruzes da S~, aly achara Dom ,\'/,z-
nod dt! Sou\.l em grande amizade com o referido Duque, e cm com crsasáo
tõlo livre, c dissoluta, que nclla alfirmava, que já se nõlo podia crer na In-
quiLiçiío, depois que nclla se tit.era Familiar Pedro .\lanço e seu cunhado.
E que em etl'c-ito da mesma amindc, pedindo ao_ referido Duque seu Primo
o Rdurmador Reitor da l"ni,·crsidade de Coimbra,.Dom Francisco da .-\n-
nunciaçüo hum bencliciu simplez na Lounm dt! lote de duzentos mil reis
para huma pessoa da sua obrigação, elle Duque lho negara, para o dar a
hum filho do ditb Dom :\lanocl de Souza, sem este lho pedir: E que pon-
derando-lhe ellc Dum Paulu da Annunciação, que mio era boa conjunctura
para fazer ao dito Dom Manuel aquella publica demonstração da sua ami-
zade, quando se acha\·a no dezagrado de El Rey :\osso Senhor, c em de-
gredo na Quinta de Calhariz, respondera u Duque irritado: Que nãp im-
portava: E que sen1pre era bom fazer esmolla. Sendo is\o contra o seu
costume.
E declarou mais que toda a oppuziçiío que o referido Duque tinha
aos Religiui'Os da Companhia cessara depois que El Re~ :\osso Senhor os
e"\cluio du Paço, de tal sorte, que pedindo o mesmo Duque huma Igreja ao
Sereníssimo Senhor Infante Dum Pedro, e negando-lha .Sua Alteza, dicera
o mesmo Duque a elle Dom Paulo, que hia buscar .Jacinto da Costa da
mt!sma companhia para obter pela Stt.l iult!n•euçâo ,1 reJerid.z Igrej.1. por-
que ainda, que se acha\·a excluído do Paço, sempre era hum (sic::J ou\·ido, ou
consultado por sua dita .\!tez a, que nada fazia, sem o parecer do referido
Jacinto da Costa: Que comtudo não sabe o mais qüe se seguia da negocia-
ção du Duque com o sohredito Religio1.0. . ~
E declarou mais, que u referido Duque costuma\·a alliciar, e atrahir
a si todas as pessoas, que ,·ia discontentes do gO\·erno, e apartadas do Real
agrado de. Sua :\lagcstadc, dizendo que era o mesmo hir ao Paço, que cor-
tar-lhe as pernas.
E por não ter por ora mais que declarar lhe deferiu clle Dezemb:lr-
gadur Juiz da lnconlidencia o juramento dos Santos E\·;.mgclhus, pelo que
respeitava a T erceirus, cm que tinha fali ado, se era \·erdade o que dito ti-
nha, e rel.':cbidu dicc ser \·crdade, d\:" que tit. este termo, que l.':om os sobt·e-
10'2

ditos Senhores assignou, e comigo que o escrevy. =Sebastião Jozé de Car-


valho e :\lello = Thomé Joaquim da Costa Corte Real= Pedro Gonsalves
Cordeiro Pereira=- Jozé Antonio de Oliveira :\lachado ==Dom Paulo da
Annunciação.
CARTA.

JEZL"S, ~IARIA, JOZE

lllustrissimo, e Excellentissimo Senhor= :\leu Senhor a \"irgem l\laria


~ossa Senhora assista a Yossa Excellencia com a saude, e felicidades que
lhe dczejo.
\ endo-me na ip1possibilidade de fallar a Yossa Excellencia, do modo
que me hé passivei, tendo a honra de cheg·ar á sua prezença, para lhe dizer,
que supposta fosse notaria a amizade que tive con'l o Duque de Aveiro,
talvêz que não seja igualmente sabida a decadencia qué ella foi experi-
mentando, depois da morte de seu Tio o Rewrendissimo Padre Reformador,
que Deos haja. Creia Yossa Excellencia, que não ·hé crivei a violencia, com
que eu apparentemente o cultivava com o unico fundamento da memoria de
ser sobrinho do nosso Prellado, a quem os seus subditos, devem o ser. Posso
dizer a Yossa Excellencia esta verdade, sem o perigo de parecer ingrato,
pois como elle de mim não dependia, para couza nenhuma, e conhecia pela
experiencia, que os meus dictames, ou conselhos, somente sen·ião para o
chegar á maior obsen-ancia das Leis Divinas, e humanas, e que eu lhe ro-
ga' a muitas vezes, que quizesse olhar para si, e para a sua caza, e pessoa,
desmentindo o que todos publicavão de jogos, e outros defeitos, e que lho
pedia pela memoria de seu Tio o dito Reverendíssimo Padre Reformador,
pois esta havia ser a sua vontade certamente, se elle fosse vivo, me respon-
deo poucos tempos depois da morte do dito Reverendissi{l10 Padre Refor-
mador, que eu lhe não devia fallar no que elle me não falia' a, e que eu
dicesse huma missa pela alma de seu Tio, que este era o melhor sufragio,
que elle queria, ou necessitava.
Depois desta resposta, que me dêo, deixo á consideração de Yossa
Excellencia, o como eu terei com elle conservado huma amizade, que prin-
cipiou em tempo que elle se persuadia que lhe podia prestar para alguma
couza, e hoje me reputava como inutil. -
Tambem cobrou a. amizade que tinha com S. AA., e ainda que dava
algumas cauzas, estas não podião ter subsistencia, depois de eu mesmo lhe
dár mil satisfações. e algumas competentes, mas nada o satisfazia quando
lhe faltava a vontade, que este dictame de não ceder era muito proprio do
seu genio, por se persuadir superior a todos na comprehensão das materias.
Finalmente por conta da minha honra, e fidelidade de Y assallo, pois
de7ejava ter mil vidas que perder, se todas fossem percizas para a conser-
vação de nosso Rey, a quem devo as maiores honras, e mercês, me rezolvi
a escrever em hum papel tudo quanto sabia na materia prezente, e su-
jeito á consciencia de meu amigo o Dezembargador Pedro Gons"alves Cor-
deiro,~ que com as suas letras, e virtudes examine a sua materia, e rezolva-
se segundo o meu estado Ecclesiastico, posso sem escrupulo dar as respe-
ctivas noticias, pois tudo quanto sei ingenuamente o aponto no dito papel.
Na mesma conformidade estou prompto.
..,
III.)

JE7US. 111.\RI.\. JOSI::

Protesto diante de Deos, que não hé o meu animo, que estas not1c1as
sejáo dadas de sorte, que eu tique o'fendcndq as l.cis Divinas, e humanas,
nem o meu estado Ecdesiastico, c honra da minha pessoa, por que nestes
pcrcizos termos as sujeito juntamente com toda a minha consciencia nas
m5os da pessoa tão sabia, como catholica, a quem entrego este papel, con-
fiando das letras, e virtudes da mesma pessoa, se digne ponderar bem este
ponto, porque eu nada mais deJ"ejo, nem pertendo, que satisfazer ao que sou
obrigado, como honrado \" assallo, c que daria se percizo fosse mil vidas s~
as tivesse, pela conservação do seu Rey, e athc por n:conhecimento das mui-
tas honras, e favores que lhe sou devedor ( 1). · ·
Ainda que seja notoria a amizade, que tive sempre com o Duque de
.\'e iro, talvez não- seja sabida a. decadencia, que esta teve depois da morte
de seu Tio o Reverendíssimo Padre Frey Gaspar, pelo que respeita a sua
'arte, pois não admittia conselhos; que não fossem, para fazer tudo quanto
f he 'inha ao pensamento, e recebia com desprezo todos os dictames que cu
lhe dava, para melhor obsen·áncia das Leis Divinas, e humanas, de que pu-
deria eu allegar muitos e:o..emplos, e b.tst.u-â di;er que 110 tempo de Coimbr.1.
em que er-ão me11os os meus .umos, lhe tirei huma má occa~iáo ara hum
convento, sem lho dar a saber, e finalmente só para fazer -couza
bem feita, hé que me oll\·ia, e esta hé a mesma realidade (2 l.
Affirmo com a maior certeza que hé possível, que nunca tinha om·idu
cow:a, que pudesse lembrar-me, que ha,·ia succeder a horroroza fatalidade
do dia trez de Setembro deste anno, tempo em que me acha,·a de cama ha-
Yia dias, com huma molestia, e estando oa inteligencia, que a molestia de
Sua ~lagesta"'de tiçha sido alguma Yertigem, passad_os alguns dias., Yeio o
· Duque_ de cáminho para o convento da Luz, segundo elle dice, e vizitandu-me
lhe falei de cama, e perguntando-lhe eu como estav:t Sua :\lagestade, me
respondeu, que se hia curando, e Yendo elle, que eu discorria na molestia
do dito Senhor, como 'ertigem, me perguntou se eu falla\·a pullitic9, e res-
pondi, que não, pois era discurso que fazia á ,-ista das noticias, que currião .
.\o que elle acrescentou, chegando-se mais para o pé da cama, que a mo-
lestia de Sua Magestade era hum tiro, que lhe tinhão dado, com o que eu •
fiquei tão subresaltadu, que me assentei na cama, como pasmado, e fora de
mim, e dice: ((Jezus i"\ome de Jezus,, e como tonto lhe perguntei: «e quem fez
taln, ou ((por que se diz lho derãon, responden, que erão t'~ntas as partes, donde
se podia esperar, que não se saberá, donde lhe ,-eio, porem com meias pa-
lanas, dice elle: ((eu sempre intendo que será por cauza de mulheres)), ao
que eu respondi : uquem o fez, intendo que se sujeitou a tudo, o que lhe
pudesse suceder,, e instando eu que talve7 seria mentira o tal tiro, res-
pondeu que era .\·erdade, pois lho dicera o Senhor Infante Dom Pedro em
segredo, e na forma seguinte:
Que perguntando o Duque ao dito Senhor Infante, como estava Sua
~lagestade, lhe respondera, que dera huma queda_, e que reparando, que o
'

(t) Falsidade c"nvencida.


(2) Sabe-se o contrario.
mesmo Senhor se secava, lhe replicara, que Sua Alteza não dizia tudo o que
haYia, e que Sua Alteza antãu lhe contara o que tinha sucedido, e cuido que
o mesmo Senhor declarou, que o soubera por Caetano de Andrade, c que
encontrando a Rainha a Sua Magestade lhe dicera, que não fora queda, au
que o mesmo Senhor respondeo: 11agora não hé occazião de fallar nisso,
vamos a curarj• e continuou o Duque a dizer-me que Sua Magestade esca-
para por milagre de Deos, e que ser.ião oraçoens da Rainha 1\lay, que es-
tarú no ceo, e vindo o mosso com o meu jantar se foi o Duque eií1bura, di-
zendo estas palavras: eco Secretario de Estado dos Negucios do Reino, não
ha de estar muito contente com este sucesson.
Passados alguns dias se entrou a fallar pelo Povo, que forão" os Ta-
n>ras, e no motivo desta dezordem, e Iugo a3sentei comigo de não tornar a
caza do Duque, em quanto não Yisse em que parava esta fatalidade,_ por
não ter occazião de f~llar em tal materia, e faLer escrupulo de fazer algum
juizo temerario, e por conta da minha honra.
Tornou o Duque a Palha\'á com o pretex.to afectado, ou verdadeiro
de ver na Livraria de S. AA. a origem dos Prezidentes do Dezembargo do
Paço, e cum etfeito fali ou com o Padre Dum João. de Santa Maria, e che-
gando eu de fora encontrei ao dito Duque quazi de caminho, e depois dos
comprimentos, lhe pedi noticias de Sua Magestade, e respondeu que hia
muito ,h_ttm, e instando eu com alguma malícia, se o dito Senhor, fallava aos
seus cf1ados, dle respondeo, qüe lhe beijav<ío a mão, e sahião para fora, e
que Sua ::\lagestade, bem sabia que nenhum dos que lá entradíu lhe tinha
feito o mal, e se foi com esta resposta embora.
Porem devo dizer sincerah1ente, que não sei o que achava na cara do
Duque, que me dava susto no meu coração, e o que me lembrava era que
elle sabia alguma couza, que não se atrevia a declarar, mas pedia a Deus
que me tirasse esta lembrança da cabeça. ·
Procurei uccaziüu de fazer \·ir fallar-me o seu Secretario Antonio Jozé
de 1\lattos, e lhe pedi me aliviasse de hum grande cuidado cm que andava
pois visto o que dizia o Povo me vinha ao pensamento se seu amo entraria
nesta historia, e que tinha om·ido a S. AA., que o virão ao Duque com o
.\larquez de Tavora Pay, e que quando S. AA. se recolhião, estava a sege
do Duque á porta do mesmo 1\1arquez de Tavora, du que eu não tinha gos-
tado muito, pois antes estimaria, que elle estivesse mal com elles nesta oc-
ca7iáo, que então não me lembraria o referido.
A isto me respundeo o dito Antonio Jozé de Mattus, que Ta\·oras tal
não tinhão feito, e que se fallava em Pedro Teixeira, que hia a huma Quinta
de hum Estrangeiro perto de Bclem, e que dera huma bofetada em hum
1\lilttar, c que este não apparecia, e que taln~z cuidasse, que na scge hia
somente o tal Pedro Teixeira, e lhe atirasse, e que assim não serião os ti-
ros para Sua Magestade. Dice mais que o Duque estivera athé muito tarde
com El Rey, e se recolhera do Paço muito tarde, e que em caza achara hum
divertimento de dança em que estava o 1\larquez de Tavora filho, e o Pay esti-
vera athé muito tarde com o Sr. Secretario de Estado dos Negucios do Reino,
e que descansasse eu, que o Duque não ha.via ser tão criansa,_que tal prat=ca
admittisse, e eu lhe dei hum abraço por agradecimento desta se5urança.
Porem ao mesmo tempo eu via na cara do dito Antonio ~u7é llllns tais
signais, que confesso ingenuamente, que fiquei ainda na mesma duvida. por
mais que dle me persuadia, que não havia que ter susto de tal.
.
10::'1

Passados pou~os dias, vindo o Duque a \VIlar o :\larquez de Pcnah·a,


quando morreu, n:io a Palha,·am, c perguntando-lhe como estava Sua :\la-
gcstadc, me respondeu '-luc huns dizião, que hia bem, c outros mal, e la-
mentando cu os aggrcssurcs de tão enorme dclict~,, me respondeu, que quem
tal tinha-fcitu, que h:tYia sc~urar bem o segredo, e que pdos meios ordina-
rios era impossi,·el u saber-se; a isto repliquei que Deus nunca dcixél\·a á
maldade tudo fran~o, mas pcrmittia sempre o mudo de se descobrir, c me
respondeu, que cu me enganava no que entendia, e como quem não queria
mais prati~a, conduio ~um estas p,J!a\Tas, ((se vos admirais, ainda lá vem
mais, e por um pouco, que não cst:ío huj·e as couzas mudadas de toJo,, e se
foi embora .
.:\a ,·crdadc, que h•tuei imcndcndo destas couzas, que o dito criado
Antonio Jlvé lhe teria dito, que cu anda,·a asustado, temendo que seu amo
ti,·esse parte na tcrri,·d dezordcm sucedida, e que por isso me respondia
por meias pala \Tas, que cu esta,·a enganado; mas como não sei o que ,·ia
nas caras, nas cxpressocns, e modtJ:-..de ambos, confesso que sempre ric·a,·a
com desconriança, ou de que ellcs sabião, ou que seria em mim demaziado
dezejo, de que tal não rizcssem. •
Depois destes su~essos, c dcsconriansas tambcm me lembrei, que huma
,-cz muito antes do dia trez de Setembro, pnl\:urando cu o _Duque o a~hci
para sahir para os touros da banda d'alt.>m, e pedindo-lhe eu, que fizesse
prezentc ao Senhor Se..:rctariu de Estado dos :\cgocios do Reino hum re-
querimento muito justo, respondeu estas pala nas, "Yussa Re,·ercndissima
não '-lucr crer, que nós estj.mos de baixo", e continuou, ~<estamos cm tt.>mpo,
que não será admiração apparc~crmos hum dia todos degolados, sem sa-
ber o por quê,, e a isto lhe dei cu huma grande n?ada, dizendo: ((ora Senhor
não se pode esperar essas ~ouzas, sem cauza,,, e elle muito enfadado res-
pond.eu: «Yossa Rc,·crendissima ri~c, c o cazo hé para chorarn, e como·
d1cgou o :\larquc7 de T :l\·ora Pay, que h ia tambem para os touros, me des- .
pedi, c os deixei, pois csta,·ão para om·ir missa, c partirem.
Lembrou-me lambem, que muito tempo antes da dita o~cazião do§
• touros, hindu cu fallar ao Duque, me contoü que o ~onde de São Lourenço
referia, que o Padre ~lalagrida dkcra, qllc manJara pedir licensa a Sua
~lagestadc para lhe falar, porque importm·a muito á sua ,-ida, porque esta
se acha\·a cm grande perigo. ..
Esta noticia a ~ontci no mesmo dia a S ..\..:\. em Palha,·ã na inteligen-
cia unica, qt~ ou seria mentira, ou sendo o dito Padre hum Santo, poderia
ser •·e,·elação, e confesso que nunca me Yeiu ao pensamento outra ~uun.l.
l\las depois do sucesso lastimozo referido, algum pensamento tive, de que
al1uclla noticia, não era do tal Padre l\1 ai agrida, c digo isto por não deixar
de dizer o que sei, e o l)Ue me parece, segtindo u que tenho ouvido.
Por cunduzão de todas as referidas noticias, que he na realidade tudo
quanto sei, e debaixo dos protestos, que tenho feito, por não ser justu, que
eu faça o que Deus ao mt'u estado me não pcrmitte, c confiado nas ,·irtudcs,
c-letras da pessoa a quem entrego este papel, pois o não quiz communi~ar
a pessoa alguma, digo que me persuado pelos signais que ,-i nas caras, c
modos das pessoas que dias sabião dos tiros. e lhe nãt) vi a~ção alguma
ror onde eU me persuadisse ao Contrario; pun·m ~Omu somente hé dis~ursu,
e nada sei com ccrte7a puziti,·a bem poderei enganar-me, c por isso para
me _liuar de todo u cscrupulo, me re7oh·i a cs..:re\·er, neste papd as mcs-
toG

mas pala\ r as, que se passarão em substancia, que são as mesmas com
muito pouca differença. .
T ambem me persuado por tudo o que já fica referido, que os trez
monstruos da maldade exacranda, não serão outros, fora dos que o Povo
tem apontado, e se achão prezos, ou o menos, que não seráp desconhecidos
delles mesmos, e protesto que tudo hé discurso, c não certeza, que tenho,
por que nada mais substancial sei, que não tenha referido, o" que se neces-
sario hé o juro aos Santos Evangelhos, et i11 l'l!l"bo sacerdotis, e por honra
de fiel Yassallo de Sua l\lagestade, fiz este papel aos quinze de Dezembro
de mil setecentos sincoenta e oito.= 'Dom Paulo da Annunciação.
Prompto para tudo quanto possa saber ou seja necessario, que eu obre,
e com a maior ,·ontade, ·amor, e obrigação, e espero que Vossa Excellencia
que assim se persuada, e pelo dito Ministro o Dezembargador Pedro Gon-
salves Cordeiro, constará a Vossa Excellencia de tudo o que pode caber em
demnnstracão desta verdade.
Fico' á obediencia de Vossa Excellencia com a maior rezignação, gosto
e respeito, que de,·o á pessoa de Vossa Excellencia que Deos guarde mui-
tos annos. Paço de Palhavã em dezesets de Dezembro de mil setecentos sin-
coe~ua e oito. =De Vossa Excel!encia. =,O mais re,·erente Cape lião, e obri-
gadissimo =Dom Paulo da Annunciação. · •

APPEI\ÇO I I.

1\ECI..\R.\COE:-.IS. E l'ERGU:IIT.\S FEITAS A M.\~OEL .\L\'.\RES FERREIR.\.


GUARI>.\-ROl"J> \ 1>0 DUQUJ,' l>E A\'EIRO

G.

Termo dê declaração que assina Manoel Alvares, guarda roupa do


Duque de AYeiro, e prezo cm segredo na cadea deste sitio .
.-\os dezeseis dias do mà de Dezembro de mil setecentos sincoenta e
oito annos neste sitio de Belem, e cadea delle, aonde eu Jozé Antonio de
OliHira l\lachado, Dezembargador da caza da Supplicação, e Juiz commis-
!?ario neste mesmo sitio por Decreto de Sua l\lagestade, aonde vim por re-
querimento que ao carcereiro da dita cadea fez para que mo fizesse a mim
:.\lanoel ..\h-ares, guarda roupa do Duque de A,·eiro, prezo á minha ordem •
na occazião, que o foi o dito Duque. E pelo dito l\lanoel Alvares, foi dito,
que era verdade ter elle pedido ao dito carcereiro me desse parte, que ellc
queria fazer certa declaração, posto que não sabia se isto prejudicaria a al-
gumas famili.as. E que a sua declaração ,·inha a ser:
Que sendo poucos dias antes de suceder o fatal cazo de atirarem huns ti-
ros em huma noute a E!Rev Nosso Senhor, lhe dicera a elle declarante o
Duque de Aveiro seu amo, que mandasse chamar a Antonio A h· ares Irmão
delle Declarante, que tinha sido guarda roupa do dito Duque, e hoje sen·e
hum officio de guarda do tabaco da Alfandega, cujo officio hé de hum cunhado
do dito Anton!o Alvares, chamado Jozé Policarpio, e morador o dito An-
tonio Alvares ao chafariz de dentro em huma rua que vai ter ao Salvador:,
chamada a Rigueira em um beco chamado do Almotacé, porque a elle Du-
que lhe importa\·a fallar ao Irmão delle Declarante. Que com etfeito elle

.-
flcch;rante o fura chamar. c lhe ,-i era falar por duas, ou trcz n~zcs. E que
passado trez, ou quatro dias do sohrcdito fatal cazu lhe diccra u dito seu
Irmão. (.2uc esta,·a muito sentido do que lhe sucedia, por que o Duque o t;-
nha mandado chamar, .para lhe dizer, que chamasse tambcm ao dito seu
cunhado Jo1é Policarpio, que hé cazadu, e mora aos O li' ais, c que n<ío tem
oflicio, m;~is que o sohrcdito, que não scn·c, c o mais do tempo assiste, ou
cm can do Duque, ou cm cat:a do dito Irmão d'clle Declarante, c que cum
dl"cito ,-indo ambos, fallarão no Jardim duas, ou trez noutes com u dito
Duque (como elle Declarante úo] e que o dito DuqUt: lhe dicera: Que am-
bos hanão ir esperar huma segc, que ha,·ia sahir do Patco da Quinta de
Sua 'lagestade, que tem as portas para o T crrciru deste Cais grande, e am-
l,os lhe h;:,·ião atirar á me.sma sege com duas espingardas, e que com cll"eito
u mesmo Duque lhe tinha dado huma. E que tambem com etreito, forão
ambas. e que ambos atirarão <i dita scgc, na occazião cm que esta passara,
e que já a tinhão esperado. por duas, ou trez veles, que não tinha passado.
E que como u dito Duque lhe não tinha dito, quem erão os que ha,·ião hir
na dita sege, c nu dia seguinte, ouvira dizer, que o dito Senhor esta,·a doente,
e que lhe tinhão atirado hum. ou dois tiros, que.elle esta,·a muito sentido, s~
seria EIRe,· a quem tinha atirado. porque o não sabia. E lhe pedira a ellc Decla-
rante, que nada dicesse, porque ainda não tinha certe1a deste cazo. Porem que
como elle Declarante vê agora os termos, em que este cazo está, quiz dezenca-
regar a sua consciencia, fazendo esta declaração, que o dito seu Irmão lhe fizera.
E declara mais, que o dito seu Irmão lhe declarara, que o dito Duque
lhe dicera, que a quem elle Duque lhe manda,·a atirar era pessoa que tam-
bem o quiz matar a elle Duque. E que o dito seu Irmão intendera sem em-
bargo desta razão do Duque, que seria ao Excellentissimu Secretario de
Estado Sebastião Jozé de C1rvalho e 'lello, bem que, ainda duvidava, qu_c
o dito Duq1.1c mandasse fazer tal, a hum homem tão grande, como o dito
Exccllcntissimo Secretario de Estado. Porem que o dito Duque, não sabia,
que cllc Declarante, sabia deste cazo, que lhe contara o dito seu Irmão, e
que nada mais 'tinha que declarar. E logo eu dito Dezembargador, deferi o
juramento dos Santos Evangelhos ao dito Declarante ~Lmocl Ah·arcs, c lhe
encarreguei debaixo dellc se tinha feito a dita declaração, bem, c na ,·cr-
dade. sem dolo, malícia, simulação, ou engano, para culpar, ou disculpar
pessoa alguma. ou disfigurar o cazo, como na ,-crdade tinha sucedido. E
recebido o dito juramen~to pelo dito ,l.moel, fo: dito, que tinha declarado
_ toda a verdade, como o dito seu Irmão lhe tinha dito. E de tudo fiz este termo,
_que assigney, com o dito ~lanucl Ah·ares Ferreira, que agora dicc ter mais
este sobrenome. E cu Jozé Antonio de Olinira ~lachadn, que o cscre,·y, c
assigney. = Jozé Antonio de Oliveira Machado= ~lanoel .\!vares Ferreira.

PERC.l'YL\S FEIT.\S .\ M.\C\OEL AL\'.\RES FERREIR.\. GU.\Ril.\ ROl"P.\


llO TlUQUE llE A\'EIRO

Ànno do :\ascimcnto de :\osso Senhor Jczus Christo de mil setecentos


sincocnta c oito annos, (sif) nesta cadca de Selem, aonde cu Jo1é Antonio de·
Oli,·cira ~tachado, De1embargador da Caza da Supplicaçãu, c Juiz cummis-
- sario deste mesmo sitio por Decreto de Sua l\lagestadc, aonde ,-im para
etfcito de fazer perguntas ao Reo ~[;moei .\h-ares Ferreira, prezo cm segredo
á minha ordem, que lhe tiz pela maneira seguinte:
lO~

I •

E perguntado, cumu se chama\·a, de quem era filho, donde era natural,


e morador, que ufficio, e idade tinha.
Respondeu, que se _chama,·a .Manoel Ahares Ferreira, filho de outro
do mesmo nome, nawral da fregúaia de :\egrellus; Arcebispado de Braga,
que era morador em caza do Duque de Aveiro, de quem era guarda roupa,
e que t~nha de idade trinta e sinco annos, pouco mais, ou menus.

2.

E perguntado, quem o prendera, e se sabe, ou suspeita a cauza da


sua prizãu. -•
Respundeo, que o prendera elle Dezembargado• na Quinta que o dito
Duque tem em Azeitão, e que a caw:a da sua prizão, fur-a, porque hindo
elle Dezembargadur em companhia do seu Escri,·áo Luiz Antonio de Leiru,
á dita Quinta de Azeitão na manhã de quinta feira quatorze do prezente
me7, a procurar o Duque, que escuzando-se este de lhe fallar, mandara a
Duqueza para saber o que queria, e logo o Duque o mandara chamar a elle
Respondente, que quando fui já o Duque vinha, uu para querer fugir, ou a
escutar- o que elle Dezembargadur dizia á Duqueza, e que perguntando elle
Respondente a hum mosso para onde o Duque tinha passado, lho dicera, e
<.JUe como u dito Escri\ ão esta\·a na mesma caza, fura seguindo a elle Res-
pondente para a parte para onde elle Respondente hia, e o mosso lhe tinha
dito, passara o Duque, que achando-o então o dito Escrivão, pedira ao
Duque lhe ,-iesse fallar a elle Dezembargadur, que esta,·a com a Duqueza.
·E dizendo-lhe o Duque, que Iugo hia, que se queria vestir, que elle Escrinío
se fosse. E não querendo este, mas antes instando, que ,·iesse fallar a elle
Dc7embargadur, que importa,·a a bre\·idadc, o Duque não quiz, mas antes
foi fugindo pelas cazas, thé que o dito Escri,·áu pegou nu Duque, dizendo-
lhe, que ha,·ia hir fallar a elle De7embargador, e porque aqui se agastou o
Duque por que lhe pegm·à, o Escri,·ão lhe intimara que estava prezo ~i
Ordem d"El Rey, e sempre o Duque insistira em não <.JUerer hir fallar a
clle Dezembargador, thé que o Escri,·ão, gritou pela guarda, e o Duque se
enfureceu, dizendo ~<qmrl Guarda, nem meia Guarda .. fazendo força por
fugir. e dizendo ao Escri,·ão, se sabià-em quem pega,·a, e se u conhecia,
que era o Duque de A ,-e iro, que .o largasse logo, u que o dito Escrivão não
quizera. mas antes puxara de huma faca, dizendo-lhe que .se não hia fallar
a elle lk1embargadur, e se se não da\·a á prizáo, que o mata,·a; e como
elle Respondente estm·a prezente com outros criados, vendo a atlição em
que o Duque est;wa, entüu elle Respondente, pegara no braço dü dito Es-
cri,·áo para soltar o Duque, e não dm·ida que lhe pegasse tambem na espada,
porem a náu chegara a tirar, que o dito Esc rido se -defendia com a faca, e
que o Duque jü não pudia fugir, porque esta,·ãu as portas já tomadas, a
tempo que elle Dezembargadur, e soldados, chegarão, c acudirão ás \ uzes
do Escri,·ão, e rebuliço que j<í ha,·ia, e então se deu o Duque á priáiu. E
que por esta acção Je querer li\Tar ao Duque, hé que -eilc Dezembargador
o prendera, e que não sabe seja outra a cauza .

.-
10~1

o-
3.

E perp,umadn s~ sabe a .:auza por que o dito Duque fora preto, c u


que ~abcneste parti.:talar.
Respondeu, que intende ser a .:auza da priôo do Duque u mandar
este dar us tiros cm Sua ~\agcstadc, .:umo j<i tem dcdaradu.

E perguntado, se \ira cllc Rcspon~h·ntc ~1ue na noutc dos ditos tiros o


Du~1ue sahira fora, com que vestidos, .:um que armas, com quem, c a que horas.
Respondeu, quc era verdad~, qu~ na dita noute, scrião dez horas
ddla. puucu mais, uu menus, () ou~IUC o .:hamara a dlc Respondente, para
lhe dar huma Burjaca encarnada, qu~ ,·estira, c huma cabeleira dc bolsa,
c hum .:apot~ es.:uro, ~ sem mais arma alguma sahira para o .Jardim, e aqui
lhe dicera a di~ R~spondentc, que lhc fosse buscar huma r~ru.:a redunda
que põz, tirando a que tinha, e assim sahira pela porta du Jardim, que esti.Í
para a parte du ~larquez de Alcgrete, lhe dic~ra a ell..; Respondenk, ~1tic
esperas::.c alli, c alli este,-~ elle Respondente thé aus tret quartos para a
meia nuutc, que o Duquc ,·iera, e alli tornou a mudar de cabelleira, pondo
a mesma com ~1ue tinha sahido do seu quarto, e escondendo elle Respon-
dente a dita peruca, e assim fora o Duque para o seu qi.1arto, e despira
a Burjaca, c ,·estira u sobretud .. , com que costuma\·a andar por caza. E
ahi o deixara clle Respondente, que se não lembra, para onde então o Du-
~1ue fura, porque elle Respondente fura para a cópa.

5.

E perguntado, se elle Respondente vira ou sentira, que o Duque fora


em .:umpanhia de mais alguma pessoa, ou p~ssoas.
Respondeu, que como elle Respondente não chegara <i. porta do Jardim,
não põdc ver se o Duque fora cum alguem, qu~ estiv~se da parte de fura,
esperando por elle, o que facilmente, podia ser, -;em elle Respondentc 'er.
E mais facilmente, puderia ser ~starem na Barra.1uinha das terras, por
quanto tendo sido a dita Barraquinha de um .:riado gra,·e, que se mudou,
então o Duque lhe mandara a dle Respondente, que prcparasse a dita
Barraquinha cum estcirões, cad~iras, e huma menza, u que elle Respun-
d~nte fizera, pondo-lhe só hum esteirão, e duas cadeiras. E que nãu tendo
cha,·e o Duque lh<l mandou por, e pregar uma janella que tinha. E que elle
Re.~pundente desconfiara desta no,·idade, c cuidando que isto fosse para
fallar a alguma mulher, ,-ja que o Duque não manda,·a lá pór .:ama, e ficou
intendendo, que era para alguma tratada, e muito mais quando o Irmão
ddle Respondente lhe di.:e, que na dita Barraquinha hé que hia fallar ao
Duque alguma \ c1.., alem das ~1ue lhe falla,·a no Jardim sempre em segredo.
E que o Duque lhe tinha dado a chan~ para na dita Barraquinha deixarem
as armas. E por estas razi)es bem facilmente poderia scr, que esti,·essem na
dita Barraquinha, e dclla sahissem com u Duque na dita noute. O que ellc
Respondente acaba de cun_firmar, por que na mesma noutc, que posto lhe
110

não lembrão as horas, era já tarde, lhe dicera o Duque a elle Respondente,
que no dia seguinte fosse chamar u Irmão delle Respondente para saber da
resposta du que lhe tinha encomendado. Hindo com elfeito elle Respondente,
o dito seu Irmão lhe dicera, e contara, o que na dita noute tinha passado,
e dado os tiros. E supposto que elle Respondente não está bem certo se
nesta occazião, ou logo depois o dito seu Irmão lhe contara este cazo, está
com tudo muito certo, que o dito Irmão lhe dicera, que na dita noute esti,·era
com o Duque, por sinal que o tinha procurado a elle Respondente na sua
Barraca que tem no dito Jardim; porem que lhe não dicera se fora antes,
uu depois dos ditos tiros. Porem de qualquer sorte que fosse, intendeu elle
Respondente depois, que seu Irmão lhe contou o cazo, que o Duque tinha
hido com os dous que era o Irmão delle Respondente, e seu cunhado a
dispor aquelle cazo, e que o manda-lo chamar era para saber o que lhe
tinha sucedido, e se tinhão chegado a s~h·o a sua caza, e que a resposta
que seu Irmão lhe deo fora: Que naquelle dia, ou no outro lhe viria fallar,
que com elfeito veio no dia seguinte.
E tambem lhe dicera o dito Irmão, que o Duque lhe tinha dado vinte
moedas, e ao cunhado quatro, com a promessa de o fazer Resposteiro da
caza Real.
6.

. E perguntado, que pessoas costumaváo vizitar ao Duque com mais


frequencia, e falla,·ão em particular.
Respondeo, que o ~larquez de Tavora filho, quazi todas as noutes
hia para caza do Duque, pri11cipalmente depois do cazo sucedido, e commu-
mente joga,·a com a Duqueza, mas que o não ,·ia fallar em particular coni
o Duque, bem que podia, sem elle Respondente ,-er. E que tambem costu-
mava hir o :.\larqueL de Tavura Pay, mas que menos ,-ezes, que o filho. E
só ,·ira que depois do cazo sucedido esti\·era fallando em particular com o
Duque em huma das cazas, que tem janella para a varanda, que cahe para
a rua;' o que foi em huma manhã poucos dias depois do dito cazo. E que
nas I•espe1·as d.t noule, ou dia, em que Dom ..U.moel de Sou\a o Calhariz
foi prezo, escre,·era ao Duque, e este lhe respondeo pella sua mão. E que
outras poderião hir, que elle Respondente não ,-isse.
· E pór ora lhe nãu forão feitas mais perguntas, que sendo-lhe lidas,
dice esta\·ão na forma que lhe tinhão sido feitas, e elle respondido, que
apprO\·a, e ratifica. E logo lhe deferi o juramento dos Santos E\·angelhos--;
pelo que diz respeito a Terceiro, se bem e na verdade a tinha dito. E recebido
dice debaixo delle, que tudo o que tinha dito, e respeita,·a a Terceiro era pura
\·erdade. E de tudo fiz este auto de perguntas, e termo de juramento, que
comigo assignou. E eu Jozé Antonio de Oliveira :.\lachado, que o escre,·y,
e assignei.=Jozé Antonio de Oli,·eira :.\iachado= ,:\lanoel Ah·ares Ferreira.

' SEGli:"õO.\S PERGU:--IT.\S FEIT.\S .\0 REO M.\:"õOEL .\L\"ARES FERREIRA.


GU.\R[lA ROUP.\ QUE FOI 00 OUQl'E OE .\\"EIRO

Anno do :'\ascimento de :\osso Senhor Jezus Christo de mil setecentos


sincoenta c oito, nesta Quinta de Sua :.\lagestadc chamada do :.\leyu, aos
III

vinte c se h: do mcz de sctcmb.-o fsic) do dito anno, ahi estando prezcnte o lllus-
trissimQ, c Excc:llentissimo Senhor Sebastião J11zé de Carvalho, c Mello,
Secretario d.e Es_tado do~ !'icw>cios do R~ino, ~ o Dc.:zembarradur l~edro
Gonsalvcs Cordeiro Pere1ra, Ju1z da lncunhdcnc•a cum1go Jozt: Amonto de
Oli,·cira :\\achado, Dczcmbargador da Caza da Supplicação, para etfeito de
fazer segundas· perguntas ao Heo ~lanocl .\h·ares, prezo cm segredo na
cadca deste lugar de Bclcm por minha ordem, as quais lhe furão feitas pela
maneira seguinte:
E perguntado sendo-lhe lidas as perguntas precedentes, se estado na
forma que lhe furão feitas, e cllc tinha respundidc~, e se tinha que declarar.
Respondco, que cstavão na forma, que lhe fiJrão feitas, c cllc tinha
ít:spondido, e que nada tinha L)Ue acrescentar.
E perguntado que deve declarar os passos que o dito Duque deo,
desde que despiu a Burjaca encarnada, a peruca rodonda, c capote pardo
para sahir pelo Jardim, thé que se recolheo.
Respondeu, que nada sabia.
E perguntado se depois que ·o dito Duque sahio do Jardim, foi a pé,
ou a cavallo.
Respondeo, que só vio, que sahiu, c entrou a pé. ·
E perguntado se o dito Duque sahiu só ou acompanhado, esperando-o
alguem, fora do Jardim, quantas, e quais erão as pessoas, que o espera,·ão.
Respondeu que a ninguem \"ira.
E perguntado u mesmo pelo que pertence ü retirada quando se rcco-
lheo, e se falluu ou fora, ou dentro do dito Jardim com algumas pessoas
na dita retirada, quantas eráo as pessoas e que vestidos tinhãu.
Respondeo, que a ningucm vira, como já tem declarado.
E perguntado, se sabe, ou ouviu, que Sua i\lagcstade fosse esperado
na noute do delicto, não só nu logar onde elle fui cumettido, mas tambem
em outros differentcs lugares, para que se escapasse de hum, não escapasse
.do outro.
E perguntado se na manhã pruxima seguinte ao dito dclictu vicrãu
alguns Fidalgos a caza do Duque de A ,-eiru, quem furão esses Fidalgos, e
a que hora vierão.
Respondeo, que nada sabe.
E perguntado se a caza do mesmo Duque costuma,·ãu ,·ir alguns Reli-
giOzos da companhia, antes do referido delictu, e quais crão.
Respondeu, que não ,-ira, nem sabe couza alguma, do que lhe hé
perguntado. ...
DESPACHO

Yistu o Decreto de Sua ~lagcstade por que hé servido mandar se


possão dar tratos a estes Rcos, vista a 4ualidadc da culpa que rezulta, e
forma com que o Reo Manuel Alvares respondeu ás perguntas, que lhe
forãu feitas, e estar cm termos, supposta a gravidade do dclicto de ser
mettido a tormento, mandando-se-lhe dar tratos, pelo 4uc toca a terceiros.
:\landáo que ao dito Reo se dem dous tratos espertos, se tanto poder tole-
rar a juizo do cirurgião, a fim de que declare a ,·crdadc, pelo que respeita
a T crceiros. Bel em de Dezembro ,·inte e sete de setecentos sincuenta e ou to.
=-Com hum a rubrica- Cordeiro"' Oli,·eira :\lachado.
112

lliLIGENCL\ llOS TR.-\TOS lHIIOS .\ :\L\:\OEI. .\1.\'ARES I'ERRFIR.\

.-\os ,-inte e sete dias do mez de Dezembro de mil setecentos sincoenta ·


e outo nesta Quinta de Suâ l\lagestade chamada do 1\leyo aonde se achava
o Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Sebastião Jozé de Can·alho e
:\lellll, Secretario de Estado çlos Negocias do Reyno, e o Dezembargador
do Paço Pedro Gonsah·es Cordeiro Pereira, Juiz da lnconfidencia comigo
JoLé .\ntonio de Oli,·eira :\lachado, Dezembargador da Caza da Supplicação,
e Domingos :\lonteiro ~amalho Cirurgião apprO\ ado da Caza da Saude, e
dos carceres secretos do .santo officio, ahi foi mandado vir ao Reo 1\lanoel
..\h-ares, e lhe fizeráo perguntas, que declarasse, qut"'ll tinha sahido, e
entrado com o Duque de A\·eiro, na noute em que se derão os sacrílegos
tiros em Sua :!\lagestade, e pelo que toca a Terceiros se ihe deferiu jura-
mento dos Santos Evangelhos, e debaixo delle fizesse a declaração, e rece-
bido por elle o dito juramento, assim o prometteo fazer. E pelo dito Reo
dizer que nada sabia, !ie mandou que o cirurgião fizesse diligencia sobre a
saude do Reo, e declarasse se tinha alguma infirmidade, que impedisse o
dar-se-lhe tratos. E por constar, que tinha saude, e sem impedimento algum,
para se lhe darem tratos, assim o declarar debaixo do juramento de seu
otficio, de que fiz este termo que todos assignamos. E eu Jozé Antonio de
O li\ eira :\lm:hado, que o escrevi.= Com h uma rubri-ca= Cordeiro= O li-
'eira :\I achado.

E logo foi mandado, que o dito Reo fosse posto no Potro, e atado, e
executado assim, se lhe mandou declarasse a verdade pelo que respeita\·a
a Terceiros. E por nada declarar, e dizer o cirurgião, que não podia }e,·ar
mais tratos, se mandou ali,·iar, e recolher para se curar. E de tudo se fez
este auto que todos assinamos. E por dizer o Reo, que não estava, nem
podia assignar, rogou a mim Jozé .\ntonio de Olinira 'lachado, que por
elle assignasse, o que fiz, e o es\:re,·y. = Sebastiáo Jozé de Carvalho e
.:\lello = -Pedro Gonsalves Cordeiro Pereira= Jozé Antonio de Oli,·eira
.:\I achado= A rogo do Reo = Jozé Antonio de Oli,·eira ~tachado.

APPE~ÇO 12.

PERGl":\T.\S I'EIT.\S A .\:\TONIO .'I.LY.\RES FERREIR \

Anno do ~ascimento de :\osso Senhor Jezus Chrig'lo de mil setecentos


sincoenta. e oito annos em os ,·inte e hum de Dezembro do dito anno na
cadea deste lugar de Belem, aonde eu Jozé Antonio de Olinira ){achado,
Dezembargador da Can da Supplicação, e Juiz Commissario neste mesmo
lugar por Decreto de Sua Magestade, ,·im para etfeito de fazer perguntas
ao Reo Antonio Ah·ares Ferreira, prelo em segredo á minha ordem, as
quais lhe fiz pela maneira seguinte:

I.

E perguntado como se chama\·a, de quem era filho, da onde era


natural, e morador, que officio, e idade tinha.
Respondeu, que se chamava Antonio :\h·ares Ferreira, filho de \lanoel
-\h·ares Ferreira, natural da freguczia dc.~cgrcllos, .\rccbispado de Brhga,
morador na rua da Higucira ao chafari.t de dentro, l)UC hé Feitor do Jardim
do Taba.::o, l]Ue tem de idade quarenta <tnnos pou.::o mais, ou menus.

2.

E perguntado l]Uem o prendera, c se sabe ou suspeita a cauza da sua


priúo.
Respondeu, que o prendera hum quadrilheiro do Bairro da Ribeira, e ,
que suspeita ser a .:auLa da sua prizão, por ter sido guarda roupa do Duque
de ,A,·eiro, e a razão hé por l]UC tem uu,·ido dizer, que o dito Duque se
acha prezo, c todos os seus criados. E da mesma_ sorte o .\larquez de
Ta,·ora, e seus filhos e parentes, e isto pelos tiros, que barbara, e sacrile-
gameme tinhão dado em Sua :'\lagestadc huma nmlte.

3.
E perguntado, o que sabe ellc Respondente, ou o que tem oll\·ido
dizer nesta matcria, ou a cauza por que se prenderão as dita~ pessoas.
Respondeu, pondo-se de joelhos com as mãos postas, que ellc qucr:a
dc1cnc_arrcgar a sua conscicncia, c sah-ar a sua alma, dizendo toda a \cr-
dade, e que esta era.
Que antes da fatal noute em que sucedeu este .:azo, trez mezes pouco
mais, ou menos, mandara o Duque de .\\·ciro chamar a elle Respondente
por hum seu Irmão, chamado .Manoel .Alvares, c que importava muito lhe
fallasse logo. E como clle Respondente tinha sen·ido ao dito Duque onze, .
ou doze annos, como tem dito na occupação de seu guarda roupa, lhe veio
logo fallar. E o dito Duque o levou para huma Barraquinha nas ten·as
defronte do Jardim das suas cazas, e ahi lhe dice: Que ellc Respondente o
tinha sen-ido tantos annos, e tinha conhecido, que clle Respondente era de
segredo, e fidelidade, e assim que fiava delle Respondente hum grande
segredo, e que só dclle o fia, a, que se. o re,·elasse curria c\·idcnte perigo a
vida delle Duque, e a delle Respondente, e que vinha a ser. Que a ellc
Duque o anda,·ão esperando para o matarem, e que já lhe tinháo atirado
hum tiro, e o tinhão errado, c que assim para se liHar deste perigo, queria
que elle Respondente o acompanhasse para matar a quem o queria matar
a clle Duque, e assim que ambos ha,·ião hir cm huma sege com duas
Espingardas curtas, esperar huma sege, que havia descer pela calsada da
Ajuda, e que ha,·ião esperar em sima no largo asima das ca1as do Excel-
lentissimo Secretario de Estado o Senhor Sebastião Jozé de Can-alha e
:\lcllo, e que ahi havião desperar (sic) ambos a hum tempo á dita sege em que
vinhão duas pessoas. E logo lhe tornou a dizer: Que o h irem cm sege podia
ser perigozo, que o melhor era hirem ambos de ca,·allo, e assim que elle
Respondente comprasse dois Ca\·allus, hum para clle Duque, eoutro para
clle Respondente, para o que o mandou esperar cm quanto chega,·a a caza,
e ,-oltandu logo lhe dêo dczcseis moedas de ouro para comprar us ditos
dois ca,·allos. E com effeito elle Respondente, comprara os dois .::avallos,
8
Iq_

hum por quatro moedas a hum homem chamado Lui? da Horta, yue mura
au Pateo do Socorro, e outro a hum sigano chamado i\lanoel Soares, que
mura em :\larvilla por outras quatro moedas. E agora lhe lembra que o
primeiro, custou quatro moedas, e meia. E que vindo elle Respon-
dente com os dois ca,·allos na mesma semana em que o Duque lhe fal-
lara. Este montara em hum, e elle Respondente em outro, e lhe dicera
que lhe queria hir mostrar a sege. E com elfeitu ambos forão esperar
no sitio que tem declarado, aonde estiverão thé as dez horas, e meia,
e que como não passara a sege, que espcravão, se furão ambos embora.
E que dessa ,·ez não levarão armas algumas. E que passados trez, ou
quatro dias, tornarão a pé ao mesmo sitio para o mesmo effeito de o
Duque lhe mostrar a sege a ellc Respondente, que tambem fnrão sem
armas, e que esperando thé ás mesmas horas não pa~sara a d;ta sege, e
-:la mesma surte se recolherão. E que depois lhe dicera o dito Duque a
elle Respondente, que daguella forma não fazião bem, porque elle Du-
que era muito conhecido, que o melhor era dizer elle Respondente a seu
cunhado Jozé Policarpio de AzeYedo, que lhe fosse fallar a elle Duque, que
cumu tambem · era de segredo, e com reJolução ambos pudião fazer bem
aqudla diligencia. E com elfeito elle Respondente dera o recado ao dito
seu cunhado, da parte du dito Duque, e lhe dicera o para que era. E o dito
seu cunhado ,·iera fallar com o Duque e este lhe dicera o mesmo, que lhe
tinha dito a elle Respondente. E se ajustarão a hirem todos .trez para lhes
mostrar, e verem, c conhecerem a dita segc. :'\las que chegando asima das
terras, e defronte do Pateu du dito Excellentissimo Senhor Secretario de
Estado, ahi mandou o Duque a dle Respondente, que ficasse com os cavai-
los, e elle foi mais o dito Juzé Pulicarpio ao mesmo s"tio, e ahi então
diceráo que tinha passado a dita segl:', que o dito seu çunhado ficou
conhecendo.
E que depois fora dle Respondente, e mais o dito seu cunhado muitas
vezes, que serião doze, ou quinze vezes fa7er que hiãu esperar a dita sege,
e que suppostu algumas \ezes a yirão passar, não quizerão atirar, e hião
sempre dar parte ao dito Duque, que nãu tinha passado.
Athé que ultimamente l:'lll hum Domingo segundo lembrança delle
Respondente lhe dicera o dito Duque, que nessa noute certamente h~nia
pas~ar ~ dita sege, q~e fuss~m dles .sem t~t!~a, l?l!r que elle Duque tambem
hana h1r. E cum efte1to forao, e u Duque nao tn1. E elle Respondente, e o
dito seu cunhado esti,·erãu esperando as·ma da Quinta do :'\leyu da banda
das terras, junto au muro que estava por acabar, e ahi passara a dita sege
a tempo, que já tinhão dado onze horas da nuutc:, e disparando ambos ao
mesmo tempo as espingardas nas costas da sege, se retirarão a currer pelas
terras abaixo direitos á tra,·essa do Guarda mur, l:' metl:'ndu-se na rua direita
deste lugar seguirão para Lisboa. Por sinal gue quando derão us ditos
tiros, tinha passado Bento ;\ntunio, e ainda o 'ierão encontrar, quazi no
meyo do muro da Quinta.
E que passados dois dias, 'i era elle Respondentt! fali ar au dito Duque,
e este sem elle Respondente lhe diLer couza alguma, lhe dicera: Que
aquillo não prestara para nada, porque tinhãu atirado ao meio, e não tinháo
chegado ás portinh .. las da sege cum as pistolas, como c:lle Duque lhes tinha
dito. E elle Respondente se disculpara, diLcndo-lhc: quando tirarão cum as
espingardas fora a tempo, que passara gente, cauza porque ·mío furão com

--
I t:l

as pistolas ü sc~e. .\u que lhe respondera ucstá feito, está feito,. E lJUe
nada mais passara,

...J.·

E perguntado que armas levara clle Hespondente, c o dito seu cu-


nhado. c quem lhas dera, e com que as carregarão.
Hespondco, que ellc Respondente, levava huma espingarda curta, I..JUe
lhe tinha dado o mesmo Duque, c seu cunhado outra 1.1uc era sua, com que
costuma\·a hir <Í caça, e que só com chumbo as carre~arão, c por sinal que
t<Ío perto delle Respondente tirara o dito seu cunhado, que ainda lhe afo-
guiara a orelha csq~crda, como mostrara. E que clle Respondente tambcm
lev:n·a duas pistollas piqucnas no cinto, porque como o Duque lhe tinha
dito, que não queria levassem pistolas de sua caza, por se nãu saber nclla,
que elle Rcspun ..icntc as comprara _das de7eseis moedas, que lhe dera, cauza
por que fallandu elle Respondente com hum Estrangeiro, que dicc estava
em ca7a du Conde de Cnhão, que hé despachmte na Alfandega, c costuma
mandar ,-ir canos, c armas de fura t,lmbem para vender, este lhe otferccera
para lhe cumprar as ditas duas pistolas, c dle Respondente, lhas pedira,
para as ver, c experimentar, e estas h~ que levara na dita occazião, c de-
pois as tornara a dar a~1 mesmo Estran.~eiro. a quem não sabe o nome. F
que o dito seu cunhado, lcvan1 huma pistola de akanse, que era do Pay de
.Jozé I .uiz da Costa; porem que. nem este nem o Pay souberão, que lhe
tinhão lc,·ado a dita pistola, por que o dit•l Jozé I uiz, tern cm sua caLa ao
dito seu cunhaJo. E agora mais bem lembrado, declara, que elle Respon-
dente le,·a,·a huma ..ias d;tas duas pistolas curtas, e a de akançe, e o dito
seu cunhado lc,-a,·a só a outra pistola curta.

E perguntado, se a sc~e a que atirarão hia ã boléa, ou a cordocns, c


que criado Ic\·a,·a, uu que casta de farda.
Respondeu I..JUC a dita segc hia á bolca, c que não ,·ira que casta de
farda, levava o Rolieiro, que só lhe pareceu, que era escura.

li.

E perguntado, que ·declare com toda a 'erdadc se o dito Duque lhe


di.:cra, a quem os manda,·a atirar. ou ~e- elle Rcspondcnte, ou seu cunhad11
sabião, ou se suspeitado a quem hião atirar. ·
Respundco, que o Duque só lhe dicera que era quem já lhe tinha
atirado hum tiro, que o tinha errado. E que nem elle Respondente, nem
seu cunhado sabião quem era, e que só suspeita\·áo, que como o dito Duque
andava mal encaminhado com huma chama,ia a Grücia, inlcndcriín que
seria algum parente· desta, ~ quem " DUI.Jlle manda,·a atirar, por lh~ ter
atirado crradu como o Duque diLia.
116


E perguntado se elle Respondente depois soubera a quem tinhão ati-
rado, e se o dicera ao Duque, e este o que lhe dicera.
Respondeo, que da primeira vt;z, que elle Respondente fallara ao
Duque, ainda não sabia, cuja era a sege, nem em quem tinhão dado os
tiros, porem que depois ouvira dizer, que se tinhão dado os tiros em Pedro
Teixeira, criado particular de Sua 1\'lagestade, e que o dito senhor estava
molestado de huma queda, por cauza de huma vertija, que lhe dera. Porem
que logo deJ?ois fora constante, que os ditos tiros, farão dados no dito Se-
nhor, e em Pedro Teixeira. E que ,-indo elle Respondente dizer isto ao
Duque, este sem susto algum lhe pozera a mão na bóca, dizendo-lhe: <<Ca-
lurda que nem o Diabo o pode saber, se tu o não diceresn. E tambem lhe
dicera: Que não vende<>se logo os cavallos, por se não suspeitar.

8.

E pergtlntado que premio lhe' promettera o dito Duque a elle Respon-


dente, e ao dito seu cunhado por esta diligencia, ou o que lhe dera.
Respondeo, que o Duque promettera ao dito seu cunhado, que o
havia fazer Resposteiro da Caza Real, e lhe dera logo quatro moedas. E
que a elle Respondente nada lhe promettera, e só lhe dera alem das dezeseis
moedas, que tem dito, mai<> vinte moedas que erão para palha, e cevada
dos ditos ca\ allos, que dizia não vendesse.


E perguntado se elle Respondente sabe,· ou ouvia dizer, quem sou-
besse deste particular, ou se elle Respondente o comunicou a mais alguma
pessoa.
Respondeo, que elle l)ão sabe, nem ouvia dizer, quem mais soubesse
deste particular. E que nem elle Respondente o communicou mais, que tão
somente a seu Irmão Manoel Alvares. ·

10.

E perguntado, que tem dito, que dados os tiros currerão pela


banda das terras abaixo direitos á travessa do Guarda mór, -que deve
declarar quem estava á porta do Jardim do Duque, que está na mesma
tra\·essa.
Respondeu, que hé verdade como tem dito virem currendo pelas
terras abaixo, porem que, ou fosse pela pressa, ou fosse porque ninguem
esta\·a á porta do dito Jardim, hé certo, que elle Respondente ninguem \'ira
á dita porta, posto que estava como sempre aberta, salvo se csta\·a da
parte de dentro. E que não quizerão alli parar, porque o Duque assim lho
di cera .

.-
117

II.

E peq~untado se elle Respondente sabe que o- Duque sabia a quem


mandava attrar.
Respondeu que o Duque lho niio dicera, porem·que pelo modo, ~om
que lhe falava, e prin..:ipalmente quando dll' Respnndente lho di~e, firme-
mente intende, que o Duque o sabia.

E por ora lhe não furão feitas mais perguntas, que sendo-lhe estas, e
suas respostas lidas, dice estavão na verdade, como tinha respondidü, o
que apprO\·a, e ratifica. E logo lhe deferi o juramento dos Santos E\·ange-
lhos, pelo que tocava a Ter~eiro, debaixo do qual lhe en~arreguei se bem,
e na ,-erdade a tinha dito, pelo que toca\"a a Ter~eiros, e recebido dice que
tudo o que tinha declarado, e respeitava a Terce•ros era verdade, que de
tudo fiz este auto de perguntas, respostas, e termo de juramento, que
comigo assignou o dito Respondente. E eu Jozé Antonio de OliH~ira :\la-
chado que o escren· e assigney. = Jo7é Antonio. de Oli,·eira :\I achado=
Antonio Al\"ares Ferreira.

Aos \"inte c dois dias do mez de Dezembro de mil setecentos sincoenta


e oito nesta cadea de Belem, aonde eu Jozé Antonio de Oli,·eira :\lachado,
Dezembargador- da Caza da Supplicação, e Juiz commissario deste lugar,
'im para etfeito de fazer segundas perguntas ao Reo Antonio Al\"ares,
L

pre7o em segredo á minha ordem, as quais lhe fiz pela maneira seguinte:

I.

E perguntado, sendo lidas as primeiras perguntas, se esta\ão na


forma, que lhe tinhão sido feitas, e elle tinha respondido, e se tinha alguma
couza que acrescentar, diminuir, ou declarar.
Respondeo, que tudo esta,·a na \"erdade, como elle Respondente tinha
dito, e que nada tinha que acrescentar, diminuir ou declarar.

2-
.
E perguntado, que tem dito que o Duque o mandara chamar a pri-
meira vez por seu Irmão, e que elle Respondente lhe ,·iera fallar, que de\"e
declarar, em que dia, ou noute lhe falou, e aonde, e quem mais estava ahi
prezente.
Respondeu, que já tem dito, que trez mezes, pouco mais, ou menos,
antes de suceder este cazo, o mandara o Duque chamar na forma que tem
declarado, e que no mesmo dia que lhe não lembra qual foi lhe ,·iera fallar,
e intrando pela porta do Jardim, e isto de tarde, dicera a seu Irmão, que
dicesse ao Duque, que elle esHl\"a alli, e seu Irmão lhe trouxera em res-
posta que o Duque dizia, fosse elle Respondente esperar a huma Barra-
guinha, que tem nas terras defronte do Jardim para onde fui. E logo o
Duque fura tambem para a mesma Barraquinha embrulhado em hum ca-
pote, com huma bengala na mão, c J:lbrindo a porta com a chan~ que le-
vava. ahi lhe dera o recado, que já tem declarado, e isto seriãu quatro
horas da tarde.
.,
-'·

E perguntado, que tem dito, que ellc Respondente, fora com o Duque
ambos a cavallo, para lhe mostrar a sege em huma nuutc, que deve decla-
rar, que noute fora, e se alguem mais o vira, ou acompanhara.
Respondeo que passados qu'!tro dias, viera elie Respondente com os
dois cavallus, como tem dito, c isto logo á noute, c se pozera a esperar
nas terras, como o buque lhe tinha determinado, e ahi 'iera o mesmo
Duque, e montando ambos, farão, e estÍYerão thé as dez horas da noutc,
que não passara a sege, como tem dito, c que ninguem os vira, nem acom-
panhara. · I

E perguntado, que tem dito, que segunda vez furão a _pé para espe_rar
a sege, que deve declarar, em que noute fora, e quem ma1s fora, ou vtra.
Respondeo, que passados oito dias, viera elle Respondente mais seu
cunhado Jozé Policarpio, como tem dito, e indo ambos com o Duque a pé
cm nuute que lhe não pode lembrar, ficara clle Respundente com os dois
ca,·allos em que ambos tinhão vindo da banda d<ts terras, c o Duque e o
dito seu cunhado, farão mais para sima esperar a dit<t scge, c quando
vierão, lhe dicera o dito seu cunhado, que já tinha visto, e conhecido a ·
sege, e isto seriiio dc1 horas. e meia. E que entiio se foriio embora, e o
Duque para sua caza.
::>.

E perguntado, que tem dito, que u Duque lhe dicera, que elle Res·
pondente desse recado a seu cunhado para lhe vir fallar. Quando lhe dera
este recado, quando viera o dito seu cunhado, e aonde fallara ao Du'-]ue.
Respundeo, que elle Respondente logo dera o recado a seu cunhado
nos Olivais, aonde hé morador, e que passados alguns dias que lhe não
lembra quantos farão, vierão ambos por mar, e chegando a noute fonío ao
Jardim, e cllc respondente dera recado a seu Irmão para que o desse ao
Duque, que elle esta' a alli, e porque o Duque estava fora esperarão por ell<!
thé as dez horas, e meia que veio, e logo lhes \·eio fallar ao Jardim em que ·
esta\ ão ~sperando, e passara o mais que tem dito, e essa noute ficarão na
Barraca do Irmão delle Respondente, e no dia seguinte furão para Lisboa.

G.
E perguntado, que tem dito, que muitas vezes furão esperar a scge, e
que suppusto algumas nzes a virão, sempre vinhão dizer ao Duqu·e, que

.-
I I~)

não tinha passado; que de,·c ·dcdarar cm qut= parte, ou lu~ar da,·ão esta
parte, e se alguma ,·ez os ,-ira. ou prc1cnsiara alguma pessoa.
Respondeu, que clle Hc~pondc:~te, c o dito seu cunhado ,·inh<ío logo
à nuutc, c hiJo cear a ca1a do Pas?clciro, lJUe mora debaixo dos arcos, e
..iepois, que daúio dez horas, se o Duque estava cm caza, hiüu .f<ller a es-
pera, e se não csta,·a, hião-sc embora, c no dia seguint~.: ,·inha clle Respon-
dente, ou u dito seu cunhado a dar ·parte ao Duque, que não tinha passado,
c isto de noutc nu Jardim, que manda,·a recado pelo Irmão ddle Rcspon-
,lcnte.

I.

E perguntado, que tem dito, que passados dois dias de sucedido o


cazo, \"iera dar parte ao Duque, do 'lue tinh.t sucedido, aonde, ou diante
de lJUem lhe dera esta parte. .
Respondeu, que logo no dia seguinte, o Du ..tuc o mandara chamar a
clle Respondente pelo dito seu Irmão, e elle Respondente lhe dicera, que
na nuute antecedente, tinha estado com o Duque, porem que isto fora dis-
farçar para seu Irmão, não perceber, c que elle ,-iria fallar ao Duque, que
com elleito ,-eio, e mandar_a recado ao Duque pdo dit~J seu Irmão, e isto
no Jardim, e isto seria meia noute, porque o Duque esta\·a nu Paço, e sem
elle Respondente lhe dizer couza alguma, o Du'lue lhe. dicera logo, qu~.:
nada tinhão feito, como já tem dito, e que isto tambem ninguem u prc7en-
..:iara : E que tambem lhe dicera o Duque, que elle não mandara o recado
para saber do sucesso, se não para -;aber se tinhãu chegado li\Tes a c:v:a.

8.

E perguntado, llUe tem dito, que depois que soubera, que os tiros,
furão dados em ~ua ~Iagestade, o ,·iera elle Respondente dizer ao Duque,
que este lhe di cera : "Cal urda &. 3 n 7 quando, c aonde passou isto, c se
algucm u ou,·io.
Respundeo, que passados dois ou trez dias desta ultima 'êz, que es-
ti\·era com o Duque, como tem dito, ''iera huma noute que serião üOLe
horas, e no mesmo Jardim passara o que tem dito. E que passados alguns
dias lhe dicera o dito Duque estas pala \Tas: ''Tomara que déssemos hum a
fumassa em Sebastião Jozé- que me tem d feito muito mal á minha caza, .
.\o que elle Respondente lhe não respondera, nem o Duque lhe tornara a·
fallar mais em tal.

~-

E perguntado, que tem faltado- á ,·erd~lde~ purque esta só hé, que


'-Juando se derüo os tiros, hiãu quatro companheiros, e se atirarão trez
·tiros, por sinal, que hum errou fogo. E há quem diga, que na mesm.t
nuute sahira o Duque, e assim dc,·e declarar, quem erão os outros dois, c
de qual errou a arma fogo. ·
Re.spondeu, qüe não sdbc mais que o que tem dito, c não du\·ida,
que o Duque sahisse a espreitar a elle Respondente, e ao dito seu cunhado,
1~0

porque lhe tinha dito, que tambem havia hir, porem que elle Respondente
o não vira.

E perguntádo aonde se acha o dito seu cunhado Jozé Policarpio de


Azevedo, e que casta de homem hé, e que feitio tem.
Respondeo, -que ·o dito seu cunhado estava em Azeitão para onde
tinha ido armar aos passaro.s com o l\larquez, e que se não sabe delle,
porque sua mulher lhe perguntara por elle a elle Respondente. E que hé
de estatura ordinaria, nem grosso, nem delgado, de idade de vinte e sinco
annos, trigueiro, barba preta, cabelleira de chicote, cazaca, e calção de
pano azul, veste de druguete escarlate, e que elle Respondente não sabe
·rara onde fora.

E por ora lhe não forão feitas mais perguntas, que sendo-lhe estas
lidas, dice esta\ão na verdade, que as approva\a, e ratifica\'a. E deferin-
do-lhe juramento dos Santos Evangelhos, para que debaixo delles .declarasse
se era verdade, o que tinha dito, pelo que respeitava a Terceiro, debaixo
delles dice, ser ,;erdade, tudo o que tinha dito, pelo que dizia respeito a
Terceiro, e de tudo fiz este auto, e termo, que comigo assignou. E eu Jozé
Antonio de Oliveira Machado, que o escrevi, e assigney. =Jozé Antonio de
Oliveira Machado= Antonio Alvares Ferreira.

TEHCEIR.\S PERGUNT.\S FEIT.\S .\0 REO A::\TOXIO .\LYARES FERREIR.\

Anno do Nascimento de Nos,o Senhor Jezus Christo de mil sete-


centos sincoenta e oito annos, nesta Quinta de Sua Magestade, chan1ada do
1\lcyo, aonde em os \ inte e sete dias do mez de Dezembro, foi Yindo o
IIILÍstrissimo, e Excellentissimo Senhor Sebasti<:io Jozé de Canalho e l\lello,
Secretario de Estado dos Negocios do Reino, e o Dezembargador do Paço
Pedro GonsaiYes Cordeiro Pereira., Juiz da lnconfidencia comigo Jozé An-
tonio de OJi,·eira :\lachado, Dezembargador da Caza da Supplicação, para
etfeito de fazer segundas perguntas ao Reo Antonio Alvares Ferreira, as
quais se lhe fizerão. na maneira seguinte:

I.

E perguntado, sendo-lhe lidas as primeiras perguntas se esta\'<Ío na


forma, que lhe tinhão sido feitas, e ellc tinha respondido, e se tinha que
acrescentar, diminuir, ou declarar.
Respondeo, que tudo esta\'a na forma que elle tinha respondido, e
que o mais diria nas re<>postas destas terceiras perguntas.

2.

E sendo instado, que tinha dito, que no Domingo trez de Setembro,


em que se derão os tiros em Sua i\lagestade, dicera o Duque de Aveiro a
111

elle Respondente, que naquella noute ha,·ia passar certamente a sege, de


que se trata\'a. E que dle Respondente, e seu cunhado Joz~ Pulicarpiu,
fossem dar sem falta os ditos tiros, porque elle Duque, tambem se havia
achar com dle Respondente: Deve declarar as horas do mesmo Domingo
trcz de Setembro, em lJUe o referido Duque lhe deo aquelle ultimo recado.
Respondeu, que o sohrcdito Duque lhe dera a sob1·edita ordem pelas
det. horas, e ~meia daqu:lla nuute de tre7 de Setembro pruximo passado,
lJUando se recolhco do Paço a sua caza.

3.
E sendo perguntado em que lugar, e em que traje se acha,·a o mesmo
Duque naquclla hora da nuute cm que deo a elle Respondente a sobredita
ordem.
Rcspondeo que o mesmo Duque lhe 1-iavia dado a referida ordem nas
terras que ticão ao Norte do seu Jardim, e nu meio de-lias hum pouco asima
da Barraca, onde assistio o Conde Rc7cndc: E que o mesmo Duque- se
acha' a a pé com hum a Borjaca n:stida, e por sim a deli a hum capote, com
que se cmbussa,·a, forrado de Peluça.


E sendo mais instado, que clle Respondente ha,·ia dito, que o mesmo
Duque, fora de companhia com elle Respondente, hindu ambos a ca,·allo,
pela primeira vêz em que lhe foi dar a noticia da sege, de que se trata.
Que outra ,-ez fora com elle Respondente a pé para o mesmo fim de lhe
dar a conhecer a referida sege. Que tambcm sahira com clle Respondente,
e seu cunhado Juzé Policarpio a cavallo, quando deixou a ellc Respondente
pegando nos ca,·allos na occazião em que foi mostrar etfecti,·amentc ao
dito Jozé Policarpio, como mostrou a referida sege. E concurrendo sobre
tudo isto haver o Duque dito a ellc Respondente, e ao dito seu cunhado
que se havia achar com elles, quando dessem os tiros: Dc,·e o mesmo Res-
pondente declarar a razão que o Duque lhe dêo naquella noutt: ao tempo
cm que lhe falluu junto á dita Barraca do Conde Rezendc, para se não
achar com elles na occazi<ío, em que derão os tiros, como antes era do seu
costume, e wmo depois lhes tinha promettido: Porque de todo o referido
se segue, que ou o mesmo Duque se achou no acto em que se despararão os
tiros, ou dcixt~u outra pessoa no seu lugar, uu se escuzou com o muti,·o de
hir esperar cm outra das emboscadas, que se tizeráo na referida noute.
Respondeo, que tendo-lhe dito o mesmo Duque au tempo ·cm que lhe
fallou asima da Barraca do Conde Rczende, que naquella nuutc não tinhão
disculpa, se não dessem os tiros, porque a sege, de que se trata havia
passar indubita\ cimente. E que a elle Duque por algumas razoens, lhe não
fazia conta hir com elle Respondente, e seu cunhado na mesma companhia:
\"irão logo pouco tempo depois vir hum vulto de homem, que pela pequena
estatura do corpo, _lhe parecera o referido Duque, posto que vinha com
differente capote, que parecia pardo, ha,·endo antes trazido outro, furado
de Peluça; E que tambem vinha ou sem cabellcira, ou com clla tirada, ou
tH

-
mettida debaixo do chapeo; de sorte, que mal se percebia. E acrescenta
elle Respondente, que tambem intendeo ser o referido vulto o subredito
Duque, por que intrepidamente veyo reconhece-lu, e a seu cunhado, quando
estaúiu junto ao muro nm·o da parte das terras, para passarem para a es-
trada, e lugar du delicto, sahindo u dito vulto debaixo do arco, que esta\·a
misticu ús cazas da Quinta ~o 1\Icyo, c au Norte dellas, ,-indo ao Boquei-
rão du referido muro, affir:mar-se para ,·criticar se alli se achaváu u mesmo
Respondente, c di tu seu cunhado, e voltando [depois que se segurou em
que alli esta,·ão] pelo caminho asima, junto ao muro para a banda da es-
trada~ que vai das cazas da Quinta do 1\leyu para o Real Palacio da actual
habitação de Sua 1\lagestade : Concluindo que entre o exame que o dito
-vulto- fui fazer para se segurar da existencia delle Respondente, e seu
cunhado nu referido lugar, junto do muro nm o, e a passajem da subredita
sege, e discarga dos tiros, que contra ella se dispararão, não medeuu mais
du que o espaço de de7 minutos quanto mais.

5.
E perguntado por que niío dispararão os tiros Iugo, que a segc de
Llue se trata chegou a passar a esquina das cazas da Quinta do .Mcyo, c o
. arco, que está junto dellas, e tilrãu disparar mais asima os referidos tiros.
Respundeo, que a razão disto fura por que sentindo vir rodando maís
de ,-agar a sobredita sege athé ao tempo cm que chegou á sobredita esquina,
e arco: dellc para sima curreo com tanta ,-iolcncia, que foi percizo currerem
de galope para a alcançarem: E que ainda assim não poden\o disparar os
tiros a queima roupa, ou immcdiatamcnte sobre o espaldar, como se lhe
tinha ordenado, cum a circunstancia de dispararem depois as pistolas nos
dois lados da sobredita sege, mas lhes foi precizo atirarem á mesma sege
da distancia de trinta palmos, pouco mais, ou menos pela wlocidade, com
que hia currendo : E que por isso não tiverão lambem lugar para descar- _
regarem as pistolas, como· u referido Duque lhes tinha ordenado: E que
arguindo-os este depois de não haYerem disparado as ditas pistolas, se escu-
zarão desta recriminação, com o muti,·o de ha,·erem sentido gente, e de
lhes ser por isso necessariu, cuidarem logo em fugir, como com cll"eitu ti-
zcráo na forma que tem dito.
6.
E sendo ainda· ins.tadu, que por quanto pela pnl\·a da Justiça consta,
que Sua 1\'lagestade não só fura esperado, na referida nuute, junto ao muro
no\·o, que estú fronteiro á extremidade setemptrional das cazas da Quinta
do Meyo, e lugar onde se dispararão os tírus, mas que lambem se achavão
de mão posta outras similll<intes embuscadas de homens armados cm outros
ditfcrentes lugares, athé a entrada de Palacio do ditu Senhor, para que no
cazo em que Sua ~lagestade escapasse do primeiro insulto delle Res-
pondente, e seu sociu, fiJsse cahir nas outras emboscadas: E L]Ue nestes
termos de\·e declarar, Ll que lhe constou, soube, ou,·iu, ou prezumiu assim
a respeito dPs lugares em que· se tizerãu as ditas embuscadas, como das
pessoas, que ndlas inten·ierãu, ou nellas se acharão.
Re ... pondeo, liUe nada lhe part1~1par.1 u rdi:rido Duque aos ditos re~­
peitos, que porem ti\·era por \ erusimcl, '-lue h:l\ ia gente da fa~ção do me ... mu
Duque nus lugares asima indi~adus, por quanto elle Duque prohibira puzi-
ti\ amentc a L'lle Respondente, c a ..,çu ~unhad'' e soóo no Jeli~tu, que fu-
_gissem para <t parte do :\orte, c '-lu Pala~io da a~tual habitação de Sua
.\lagcstade, ordL·nando-lhes, que se retirassem ~untrarianll:ntc, pela ~alçada
:thai xu, ~omo ~um ctfeito retirarão, sahindo pela tra\ c ... sa do Guarda mo r
da ~audl!, que estú junto a Ponte de madeira, que sern: para as obras, c
en~ontrandu Bento Antonio- na mesma ~alsada, Iugo a baixo das ~azas da
Quinta do .\l'-·yo, c quazi ao pé da porta du Quinta de Sua .\lagestadc, que
c ... rá junto ü mesma tra\·essa do Guard;.l mur, outro homem, que hia cur-
rcndo a ~a,·allu a meio galope em huma Fa~a, ou sendeiro pequeno, sendo
tambcm pequeno u homem. que hia ndlc montado, c de ~aputc es~uru, ~omo
aquelle ~om '-IUe ultimamente ha,·ia ,-isto o sobreditu l'u~-.1ue, ao tempo cm
que naquella noute de trc/ de Setembro proximo passado ~umo asima di~e lhe
appare~eo junto ao muro nonl dez minutos, antes de se_ dispararem os tiros,
~omo tem dito a~ima. ·

E por Ctlra lhe não h7crão mais perguntas, que sendo-lhe estas lidas,
di~e esta,·ão feitas na fi•rma, e maneira, que lhe tinhãu sido feiras, c clle
tinha respondido. . .
E logo lhe fi..•i deferido o juramento dos Santos . E ,-angelhus pelo
que respeita\" a a T er~ciros, c re~ebido o dito juramento, di~e que tudo,
quanto tinha dito, e rcspeita\·a a Ter~eirns era n'rdade, c que tudo apprU\ a,
c ratiti~a, que de tudo fiz este auto de perguntas, e termo de ju ramentu,
que ~om nos~o assignuu. E eu Jo7é .\muniu de OliYeira .\lad1<tdu que
o esaeYi. =Sebastião .fozt de Can·alho e .\lello =Pedro Gonsah-es Cor-
deiro Pereira -=- Juzt! .\ntonio de Olin:ira .\lad1ado =Antonio .\1\-arcs
Ferreira.

APPE~ÇO r3.

PFRGl":'õT.\S FEIT.\S \O REO llR.\Z .IOZF C.\1~0 ltE 1-:SilU.\IlR.\ 1>0 ~1.\RI~l"EZ

J.l"IZ I!Eil:'õ.\l!llO. E CO:'OFII•El'oTF I>EI.l.E. I·: ltF SFU 1'.\\

l\1

I'ER<;t":'OT.\S FEIT.-\S .\0 REO IIR.\Z JOzl'

.-\nno do :\ascimcnto de !\osso Senhor Jl:'Zus Christo de mil sctc~cntos


sin~oenta e oito annos aos trinta dias do mcz de Dezembro do dito anno
nesta Quinta ~hamada a do .\leyo, aonde forão vindos os lllustrissimos, c
Ex~ellentissimus Senhores Scbasti;.í.o Jo1é de Can-alho, c .\lello, Se~rerariu
de Estado dos :\cgucios do Reino, Thumé Joaquim da Custa Corte Real,
~cactario de Estado dos :\ego~ios da .\larinha, e o Dezcmbargador do
Paço Pedro Gonsah·cs Cordeiro Pereira, Juiz da In~ontidcnóa, ~omigo
Jozé Antonio de OIÍHira 1\la~hado, Dezembargador da ~aza da ~uppli~açãu
e nomeado para escre\·cr nesta di_ligen~ia, para ctfcitu de fa7cr perguntas ao
124

Reo Braz Jozé, prezo na çadeia deste sitio á ordem do dito Senhor, as quais
lhe forão feitas pela maneira seguinte. E eu Jolé Antonio de Oli,·eira .!\'la-
chado, que o escrevy.
I.

E per~untado como se chama\·a, de quem era filho, donde era natural~


que idad~ unha. .
Respondeo, que se chamava B"raz Jozé, filho de Bernardo Jozé Ro-
meiro, natural de Lisboa, e freguezia de São Sebastião da Pedreira, cabo
de Esquadra da Companhia do .Marquêz Luiz Bernardo de Tamra, de
idade de ,·inte (sic) annos, pouco mais, ou menos.

2.

E perguntado, aond~· tinha assistido d~sdc o fim do anno de mil sete-


c~ntos quarenta, ~ nove athé agora.
Respond~o, qu~ fora para a lndia na mesma monção em que foi o
~larquêz Francisco de Assis de Tavora, sendo então soldado de Cavallo
em E vora, na companhia de Manoel Veles Procel, onde o dito seu Pai hé
Alferes: Que voltou com o mesmo .Marqu~z Francisco de Assiz para este
Reino: Desde que chegou da lndia athé ao terramoto, assistio em caza de
Luiz de Sá, criado do mesmo i\larquez de Tavora: Que sete, ou oito mezes
depois do terramoto assentou praça de soldado de cavallo na companhia do
1\'larquez Luis Bernardo d~ Ta\'ora, o qual o fez cabo de Esquadra dahi a
hum anno: E que depois do v~rde ultjmo o ficara servindo em sua caza no
exercicio de comprador.
3.
E sendo perguntado se sabe ou suspe_ita a cauza da sua prizão.
Respond~o com huma absoluta negauva.


Sendo mars perguntado se sabia que dois dias ant~s do ddicto, que
sacrilegamente se comctteo contra a Real Pessoa de Sua 1\lagestade se ap-
parelharão na cavalhariça do dito Marquez Luis Bernardo alguns cavallos,
se estes se mandarão_ para outra cavalhariça, c qual foi estd cavalhariça,
para onde se mandarão os tais ca\·allos.
Respondeo com a mesma absoluta negativa.

5.
Sendo mars perguntado, se na sobredita nome de trez de Setembro,
proximo passado, em que se dispararão os sacrilegos tiros contra a Real
Pessoa de Sua .\lagestade, sahirão alguns cavallos da cavalhariça do Mar-
quez Francisco de ·Assiz de Tavora: Quais forão as pessoas, que montarão
nos ditos ca\·allos, e os lugares aonde furão as pessoas, que montarão nos
ditos cavallos na referida noute.
Respondeu com outra absoluta negativa.

G.
Sendo instado que \·eja o que diz porque consta da prova da Justiça,
que elle Respondente sabe muito bem quem fui nos ditos cavallos, onde
elles forão, e que assim deve declarar a verdade.
Respondeu com outra absoluta ncgati\·a.


Sendo mais perguntado se sabe que na referida noute de tre7 de Se-
tembro pro:\imo passado se post<issem algumas emboscadas de homens ar-
mados de pistolas, e chn·inas no caminho das terras, que estão sitas entre
a Quinta do :\leyo, e a Quinta de sima, I..JUe foi do Conde de Obidos, pàra
esperarem a El Rey Nosso Senhor, e dispararem barbara, e sacrilegamenre
as sobreditas armas, contra a carruajem de Sua :\lagestade, quando se re-
colhesse. Quantas furão as ditas emboscadas: Quantas, e 1..1uais furão as
pessoas, que nellas se acharão.
Respondeq com outra absoluta negati,·a.

8.
._,
Sendo mais perguntado, que por quanto se prm·a, que na mesma
noute de trez de Setembro proximo passado depois de se ha\·erem disparado
os tiros contra a mesma Suprema 1\lagestade de El Rey Nosso Senhor, e
depois de ha\·erem fugido aquelles, que os derão, se \·ierão ajuntar ás outras
pessoas, que tinhão estado nas outras emboscadas na terra que fica por de
traz do Jardim do Duque de Axeiro, junto á Pranxada, que se fez para ser-
vintia das obras do mesmo Duque: Quantas, e quais forão as ditas pessoas,
que se juntarão naquelle lugar, humas depois das outras: E o que no mesmo
lugar dice cada huma das ditas pessoas, ácerca dos sacrilegos tiros, que
antes se tinhão disparado, ácerca de hum que errou fogo, e ácerca dos
outros tiros, que não chegarão a poder disparar-se.
Respondeu com outra absoluta negativa.
'

DESPACHO

\"isto o Decreto de Sua :\lagestade, por que hé servido mandar, I..JUe


a estes Reos se possão dar tratos, e vista a culpa que renlita contra o Reo
Braz Jozé, e forma com que respundeo ;is perguntas, que lhe furão feitas,
mandão que \·ista a gra\ idade do delicto se dem ao Reo dois tratos cspcr-
tos, se tanto poder_ tolerar a juilo do Cirurg1;Ío. Relem de Dezembro trinta '
de setecentos sincuenta c oito. - Com huma rubrica-=- Cordeiro. c Oli\·eira
:\lachado.
126

I•ll.IGE~CL\ l•OS TR.\TOS 11.\IIOS .\0 HEO BR.\Z .IOZE

E Iugo no mesmo dia, c lugar asima declarado em nossa pre;rensa,


estando o Rco prezentc, e perguntado pela verdade pelo que tocava a Ter-
ceiros, e recebido o dito juramento assim o promctteo, e por di/er, que
nada sabia, se mandou, que o Cirurgião fizesse diligencia sobre a saude do
Rco, se tinha alguma infirmidade que a impedisse a dar-se-lhe tratos, e por
constar não ter couza que o impedisse, e assim o affirmar o dito Cirurgião
debaixo do juramento de seu officio se fe7 este termo, que assi~nuu com
nosco. = Com huma rubrica= -Cordeiro=- Oliveira ~I achado.

E logo mandarão que o Reo fosse deitado no Potro, e atado, o que


assim se executou pelos officiais para isso deterrninados, e estando assim
lhe fiz outra vez perguntas para que declarasse o que sabia a respeito de
Terceiros, debaixo do juramento, que recebido tinha, e por dizer que nada
sabia, lhe mandarão dar o primeiro trato, e por continuar na mesma nega-
ti,·a, se passou a dar-se-lhe mais meio trato, e estando nelle, pediu audien-
cia, para confessar, a qual sendo-lhe concedida, confessou com etl"eitu o
seguinte; a saber:
. Que na tarde do mesmo dia trez de Setembro, em que se commetteo o
detesta\·el insulto se juntarão, e conferirão o ~larquez Luiz Bernardo de
Ta\·ora, com seu Irmão Jozé ~laria de Tavora, sobre os ciumes que ao
primeiro dos sobreditos tinha da ~largueza sua mulher, assentando em que
se acha\·ão offendidos, e em que se havião de vingar na preciozissima ,-ida
de Sua \lagestade; o que elle Respondente sabia pelo om·ir dizer ao sobredito
~larquez Luiz Bernardo de Ta,·ora, e ao dito seu Irmão Juzé 1\laria.
Que na mesma tarde do referido dia trez de Setembro logo depois da
conferencia asima declarada' se fechou o mesmo ~'larguez Luiz Bernardo
em huma caza separada com seu Pay o Marque? Francisco de Assi.t:, e nella
esti\·erãu em segredo, sem que com tudo elle Respondente soubesse o que
passou naquclla recatada com·ersasão.
Que no mesmo dia esteve tambem o dito ~larguez Luiz Bernardo, seu
Tio o conego Jo.t:é ~laria de Ta\·ora.
Que pelas . de.t: horas da nOtlte do mesmo dia trez de Setembro pro-
ximo passado mandarão os ~larquezes de Ta\'ora, Pai, e filho apparelhar
trez cavallos na ca\·alhariça do dito ~larquez filho, os quais ca\·allos levou
elle Respondente, e o Bolieiro do dito ~larguez filho, chamado Antonio Jo/.é
para caza do ~1arquez Pai, hindo os ditos cavallos cellados, e enfreados
C<Jm pistolas nos coldres, carregadas, e pedindo os ditos Marquezcs segredo
a elle Respondente, e ao dito Antonio Jozé.
Que os ditos trez cavallos montarão os ~larque;res Pai, c filho, c forãn
logo sucessivamente para caza do Duque de .\ veiru, dizendo que h ião hi. jogar.
Que na mesma occazião om·io clle Respondente ao 'larquez Luiz
Bernardo de Ta\·ora, que elle, e o ~larquez seu Pay esti\·erão nas terras
que ficão por sima da <,.?uinta chamada a das Yacas. _esperando a El Rey
1\:osso Senhor na mesma noute de trez de Setembro proximo precedente.
· E que tambcm lhe lembrava ha,·er dito a ellc Respondente o mesmo
~larqucz Lui7 Bernardo de Tavora, que o Di.tque de .-\seiro lhe communi-
cara, que era necessario fazer-se outra espera ao Secretario de Estado
Sebastião Jozé, para lhe tirarem a vida.
E supposto se ~onhe~cr. que esta ~onlissão era diminuta. ~omtudo
por ha\ cr muito tempo, que o Heo cst:l\·a no '"rmcnto, se mandou ali\ iar
dcllc, c qut: ~cssassc, e se rc~olhcçc para se ~urar. E depois de ali\ iado,
~onfirmou, c ratilkou tudn quanto ha\ ia dcdaradn, c ~onfc.ssaJo; de que
de tudn se fez este auto c termo de perguntas., c juramento, que todos as-
. sinamos. c cu tambem a rogo do Hc~pondcntc por não puder assinar, c o
cs.:rt:\ i. = Sebastião Juzé de Carvalho c 'lcllo -Pedro Gonsah·cs Cordeiro
Pereira Ju1.i .\iitunio de l>li,·eira .\lad1ado -.\ rogo do Respondente=
.Jozé .\ntonio de Oliveira 'lad1ado.

TF.R\10 DE R.\TIFICAÇ\.0 QtTE F.\Z BRAZ JOZ~:

.\os trinta c hum dias do mcz de Dezembro de mil sett:~entos sin-


~oenta c oito annos nesta Quinta de Sua :\la_~cstade d1amada do "en>, c
apo1cnto em que se a.:ha prezo .o Rco Braz .fo1é, aonde foi ,-indo o lllus-
trissimo, e Ex~cllcntissimo Senhor Scbasti<ío .Jozé de Can·alho, c :\lcllu,
Scactario de Estado dos :'\cgo.:ius do Reino, e o Dczembargador do P.aço
Pedro GonsalYes Cordeiro Pereira, Dezembar~ador do Paço, c .Jui.t. da ln-
~onfidcnóa, que tambcm sen·e de Rt:gcdor, ~omigo Jo7t! .\ntonio de Oliveira
:\la.:hado. Daembargador da Ca7a da Suppli~ação, para elfeito de ratifi.:ar
as respostas, que tinha dado o dito Bra1 .Jo.t.é .. \s quais sendo-lhe lidas, c
declaradas. Di.:e que tudo esta\·a na forma que clle tinha respondido, e que
tudo apprm·a,·a, ~onfirma\ a, e ratifi.:a,·a, debaixo do juramento dos Santos
F ,·angdhos, que re.:ebido tinha, pdo que to~a\"a a Tcr~eiro; E que só
aaesccnta, I..JUC o :\larquo Luiz Bcrnaniu de TaYora dcpo;s do rdcridu
insulto da noute de trez de Setembro pro~imo passado, fi~nu unndo sem-
pre dt: pistolas, ~arrcgadas nos ~oldres, não ~óstumandu antes U7ar ddlas.
E que nada mais tinha que a~rc-s~entar, diminuir, ou declarar, de qut: de
tudo fiz este tt:rmu; qut: assinamos, e eu tambem a rogo do Rcspundcntt:,
c o ~::s.:re,·i. -= Sebastião .Ju1é de Canalho c :\lello =Pedro Gunsah·es Cur-
deim Pereira-=- Jo1t! Antonio de Olin!ira :\la~hado-= .\ rogo du Respon-
dente = .Jozé .\ntonio de Olin:ira .\la~hado.

APPE~ÇO 14-

I'ENGl':-;T.\~ 1"1-:IT.\S \ JO.\Ql"l\1 llOS S.\:-;TO~ COCHEIRO 110 lll"l~l"l.- IIF .\\"FiliO.
1>0:0.\1'\GOS \1 \RI]l"F~. \10~::,0 I>\ C.\ \".\LH.\RIC:E IUJ :0.11-;S:o.IO lll"l~l'E ..\1.\:-;IIEI

11.\ ro:-;~FC.\ BOIIEIR!) ll.\ I li l!l"I·:Z.\ I>E .\\"FIRO



.\I"TO IIF I'ENGI-:-;T.\S FFIT.\S .\ J0.\1._11"1\1 llOS S \'\TOS COCHEIRO lU) l>l"l~l"E I•F .\\TIRO

.\nno do :\ascimentu de :\osso St:nhur .fc7US Chri~to de nvl sete~entl)s


sin~nenta t: nun~ annos, aos oito dias do mez de .hnt:iro do dito annu.

I.

E per~untad~• .:orno se chamaYa de qut:m era filho, da onde era na-


tural, c morador, ...1ue u~..:upação tinha, c qut: idade.
Respondeo, que se chamava Joaquim dos Santos, filho de Pe~ro Dias,
natural da freguezia de Oe~Tas, que era cocheiro do Duque de Aveiro, mo-
rador em sua caza, e que tem trinta e trez annos de idade.

2.

E perguntado, se sabe, ou suspeita a cauza da sua prizão.


Respondeo, que suspeita ser a cauza da sua prizão, e dos seus com-
panheiros, pur ser prezo o Duque de Axeiro seu amo, e que o seria elle
Respondente, e os mais para declararem alguma couza. ·

3.
E perguntado porque fora prezo o dito Duque. E que hé o que elle
Respondente tem que declarar.
Respondeo, que· depois da prizão do Duque, dos Marquezes de Ta-
vora. Pai, e filho, Cunde de Atouguia, o conego Jozé ~'laria, e Manoel de
Tavora, om ira elle Respondente dizer publicamente, que o tinhão sido por
cauza de serem os que tinhão dado os tiros em El Rey Nosso Senhor, sendo
o dito Duque o cabeça deste insulto. E que sobre isto nada tinha que de-
clarar.


E perguntado que pessoas erão a quem o dito Duque mais frequente-
mente vizitava.
Respondeo, que as partes, e cazas, a que mais frequentemente o Du-
que costuma,·a hir, erão a caza do 1\larquez de Ta,·ota filho, do 1\larquez
de Tavora Pay, do Conde da Atouguia, e Conde da Ribeira, e Conde de
Obidos, e que nestas partes hé que se costumava dilatar mais.

;).

-
E perguntado a que mais partes costumava hir.
Respondeo, que a mais partes nenhumas, salvo a caza da Duqueza do
Cadaval. ,
6. •
E perguntado que veja o que diz, porque o Duque a mais partes cos-
tumava hir com frequencia,
Respondeo, que lhe não lembrava.


E perguntado, que Je\c declarar, se o ditu Duque costumava vizitar
os Religiozos da Companhia de Jezus.
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Respond\:o '-}li\: sú huma ,·ez fura a São Roque, cm dia do Santo
Xavier, c nun(a mais fora lá, n\!111 a outro algum ~utn-cnt•J dos ditos Rc-
ligitt/os.
X.
E insta,lo, que ,·cja bem o que di1, pontue ~onsta o ~ontrario.
Hcspondco, qu\: tem dito a \·crJadc.

E perguntado se os ditos Rcligiozos ~ostuma\"áo vizitar ao dito Duque,


e quais er~i.o.
Respondeu. que alguns Rdigiuzos de habito preto custumavão ,·izitar
ao dito Duque~ porem que não sabe se erãu da ~ompanhia.
E que agora lhe lcmbra\·a; que tambem o Duque ~ostumanl \"ititàr
~um frequcnóa ao ~oncgu Juzé ~laria de Ta\·ora, c que quando este estava
só se dilata\ a mais, c quando esta\·a com gente, dilatava-se menus.

lO.

E perguntado aonde esti\ era o Duque na tarde, e nuute do referido insulto.
Respondeu, que nesse tempo, não sahira fura.
E perguntado qu<: c<n allos sah=riíu da ca\·alhariça do Duque nessa
noutc do mesmo insulto.
Respondeu, que não sabia.
E perguntado que dc,·c dedarar, que ca\·allos furão huns, que dois
dias antes do insulto forão para a ~a\·alhariça do Duque, preparados, quantos
enio, c quem os mandou.
Respondeu. que nada sabia.

DESP.\CHO
\·isto o Decreto de Sua ~lagcstade, por que hé scn ido mandar dar
tratos a estes R cus, e 'is ta a ~ulpa, que rezulta ~onrra o Rco Joaquim dos
Santos, e forma com que respondeu ás perguntas, que lhe furão feitas. c
gra\ idade do dclicto, mandão que ao Rco se dcm dois tratos espertos, se
tanto puder tolerar .a juizo do Cirurgi;íu, a fim de de'-tlarar a verdade, pelo
que toca a Terceiro. Belem de Janeiro sete de setecentos sincocnta c no\·e.
=Oliveira ~tachado.

E logo mandarão vir a Domingos ~lonteiru _Ramalho, Cirurgião ap-


rovado da caza .da Saudc, c dos carceres do Santo officio, para que fizesse
ddigenóa sobre a saude do Rco, se tinha algum impedimento para se lhe
darem tratos, e por constar n;i.o tem impedimento por juramento de seu
officin. fiz- este termo, que ass ·gnou. Oli\·cira \I achado.
E logo mandarão pôr ao Rco no Potro e ndlc atar, o que asstm se
e\c..:utou, e tornando a fazer-lhe as perguntas asima pelo que tu..:a a Ter-
~eiro, tornou ã dizer, que nada sabia. E dand•J-sc lhe o primeiro trato, c
trez gráos do segundo, sempre insistiu em negar. E por dizer o Cirurgião,
que por ora não podia tolerar mais se mandou aliviar, e recolher para curar.
E de tudo fiz este- auto que assinamos. E eu José Antonio de Oliveira Ma-
chado que o escre\ i, e assigney. ==Pedro Gonsalns Cordeiro Pereira=
Jozé Antonio de OliYeira :\!achado .

.\lTO DE l'ERGll:\T.\~ FEIT.\S .\ 110:\11:\GOS :\1.\R(,!llES. )!OSSO lJ.\ C\ V.\LH.\RI~:.\


110 lll:Ql1E DE A \"EJRO

Anno do ~ascimento de ::\osso Senhor Jezus Christo de mil setecentos


sincoenta e no,·e annos, aos sete dias do mez de Janeiro do dito anno.

E perguntado, como se chama, de quem era fi lho, dé! onde era natu-
ral, e morador, que occupação tinha, e idade.
Respondeo que se chamava Domingos :\largues, filho de :\lanoej Fran-
cisco, natural do lugar de Bidoens, Commarca da Guarda, morador em caza
do Duque de .-\seiro, c mosso da sua ca,·alhariça, e que tinha vinte e seis
annos de idade.
E perguntado se sabe, ou suspeita a cauza da sua p!·izão.
Respondeu, que não sabe, nem suspeita a cauza da sua prizão.
E perguntado se sabe por que o dito Duque de ,~ ,·eiro fora prezo.
Respondeo, que sabe, que eu o fora prender, mas que não sabe o porquê.
E perguntado se ou\·ira di7er que na noute de trez de setembro proximo
passado se dessem infameiT!ente ~uns sacrílegos tiros em El Rey ::\osso Senhor.
Respondeo que ounra. d1zer ao Po,·o, o que a pergunta contem, po-
rem que não ouYio dizer quem os tinha dado. '
E perguntado que ca,·allos sahiJOáo da c a\ alhariçn do Duque na refe-
rida noute, quantos, e quais erão, e quem os le,·ou, e para onde.
Respondeo que não Yira sahir nenhuns cavallos da dita ca,·alhariça.
E perguntado que ca\·allos forão h uns, que 'ierão para a dita ca,·alhariça,
dois dias antes da referida noute, quantos erão, quem os mandou, e por quem. -
Respondeo, que nadà sabe. do que a pergunta contem.
E perguntado, que Yeja bem o que diz~ por que consta o contrario.
Respondco, que não sabe mais, do que o que tem dito.

DESPACHO

Visto como do Decreto de Sua :\lagestade consta que é sen·ido mandar se


possa dar tormento a estes Reos, e ,-ista a prU\·a que rezt.Ita contra este, e
forma com que respondeo ás perguntas, que lhe forão feitas, e gra,·idade
do delicto, mandão que se lhe- dem dois tratos espertos, se tanto poder to-
lerar a juizo do Cirurgião, a fim de dizer a 'erdade pelo que toca a Ter-
ceiros. Belem de Janeiro sete de mil sete centos sincoenta e noYe. = Oli-
wira :\tachado. - .
E logo' mandarão ,·ir a Domingos :\lonteiro Ramalho, Cirurgião ap-
prov~do da caza da saude, e dos carceres do Santo Officio, para clfeito de
fazer diligencia sobre a saude do Reo, e se tinha algum impedimento para
se lhe darem tratos, e por constar não ter impedimento, o que affirmou de-
baixo do juramento Jc seu otlkiu fit. este termo. ')UC assagnuu, c eu l}UC o
cs~re,·y. = Oli,·eira :.\la~hado.

E logo mandarão que o Rcu fosse posto nu Potro, e nelle atado, o que
assim se e\ccutuu pelos utticiais para isso Jctcrminadus, e dando-se-lhe meio
tratt•. dice que queria declarar a ,·crdade, que ,·inha a ser.
\.)uc era verdade l)UC dois dias antes da nuute, cm que se dcrãu os
sacrile~os tiros cm EI Rcy ~osso Senhor mandara o 'larquct: de Tavora Luit:
Bernardo dois ca,·allos apparelhados para a ca\·alhari~e do Duque, c que os
lc,·ava hum mosso do mesmo 'larquc7, chamado .\ntonio Jozé, l)UC h é Bu-
lieiro do dito :.\larltlii!Z.
E que na noutc do mah-ado insulto, lhe mandara a elle Respondente
o sutta Ca,·alhariça do dito Duque, chamado \\;moei do :"\ascimcnto, que
preparasse seis ca,·allus: a saber hum chamado J>,tfh.11'.llll, outro Gu.n·.i,t-
.\/tw, outro Si!IT.t, outro Coimbr.t. c os duus do dito :.\laryutz, que hum era
rossim, c ourro castanho. E ,Iuc· preparados ~s lc,·ara o dito .\ntunio .Juzé
HL•i=ciro do ;'\larqucz, c .\ntuniu Dias mosso de a~ompanhar do dito Duque,
c que isto serião de1. hora-; pouco mais. E que depois seria meia noute quatldu
\"Íerão, e os mesmos dois, que os lc,·arão, que furão para a banda das terras.
os mesmos dois os truuxerão, que seria meia noute, pouco mais, ou menos.
E que na nuute antecedente ao dia em que o dito Duque fora prezo,
pela meia nuutc, ti>ra João :.\liguei á ca,·a\harice, c tirara dois can1llos, que
montando cm hum, c outro que n<Ío sabe quem era. fi.>rãu para fura, c ,·ierão
de madrugada, c não sabe se furão a Coina. •
. E por ora lhe não furão feitas mais perguntas, yue sendo-lhe lidas,
dice esta\'ão• na \·erdade, ~umo tinha respondido. E sendo a\i,·iadu as rati-
ficou, e appron1u cm nossa prczensa. E se lhe deferia juramento dos Santos
E,·angclhus pelo '1ue toca,·a a Terceiros, c recebido, dice, e tornou a di7er.
que era verdade o que tinha dito, e respeita\·a a Terceiros, de que fiz este
auto, que comnosco assignou. E eu Jozé Antonio de 0\i,·eira :.\lachado, que
es.:re,·i, e assigne\·. = ·Pedro Gunsal \·es Cordeiro Pereira= Jozé Antonio de
Oli,·eira 'lach'ãdõ =Do Respondente Domin.~os .'\larques huma Cruz.

\I TO DE P.ERGl'~'L\S FEIT.\S .\ ~1.\ 'I;OFL 1>.\ FO~CECA 1301.1EIRO LI.\ IJU!..!l:EZ.\ IJE .\\'FIRO

Anno Ju ~ascimentu de ~osso Senhor .Jenas Christo de mil sete cen-


tos sincoenta e n<?\·e annos aos sete dias do mçz de Janeiro do dito anno.

E perguntado ~umo se chama,·a. de quem era filho, da onde era na-


tural, c morador. que o.:cupação c idade tinha.
Respondeu, que se chama,·a '\;moei da Fonceca, filho de .'\liguei da
Fonceca, natural da freguezia de Villa seca comarca de Yizeu, morador em
caza do Duque de A ,-~iro, que era Bolieiro da Duquet:a de A ,·e iro, e •que
tinha de idade trinta e dois annos.

E depois de varias perguntas, que lhe furão feitas só dice.


Que sabia pelo ,·cr, que a dita Duqueza, só ~ostuma\'a ir qua7i sem-
pre a caza da Condcça da Ribeira, a onde se dilata\·a thé depois das dct:
horas da nuutc, que ,-inha para ~a1.a. E 'lue algumas ,·czes hia a ~aza da
.'\larlJUCLa de "LI\·ura ;\lay. e filha, mas menus ,·et.cs, c de dia.
E por ora lhe não forão feitas mais perguntas, que sendo-lhe estas li-
das, dicc estm·ão na verdade, que approva, e confirma debaixo do juramento
dos Santos Evangelhos, yue lhe foi deferido, pelo que tocava a Terceiro,
de que fiz este auto, e termo que cumnosco assignou. E eu José Antonio
de Oliveira Machado que escrevi.~ Pedro Gonsalves Cordeiro Pereira=
Jozé Antonio de Oli,eira Machado= Do Respondente l\'lanoel da Fovseca
huma cruz.

APPE:r\ÇO 15.

PERGUJ'(T.\S FEIT.\S .\OS CRI.\IlOS 110 M.\R1.,1UEZ llF T.\\'OR~ 1'.\Y. JOZE FERN.\:\LJES,
SOTT.\ CA'ir.\LH.\RICE. JOZE .\1\TO:'IJIO BOLIEIRO. .10.\0 BERN.\RIJO, :\lOSSO
llE ACOMP.\:'IIH.\R, I'EilRO ll.\ SILVA. MOSSO llE C.\V.\LLOS ..\1\T0:\10 JOZE LEIT.-\0,
ESCUilEIRO IJA M.\RQUEZ.\ M.\ Y

\UTO I•E PERGUl'T.\S FEIT.\S .\ JOZE FERNA:\LJES SOlT.\ C.\ V.\LH.\RIÇ.\ 110 !11.\RQUEZ
LJE T.\ VOR.\ P.\ Y FRAKCISCO llE ASS IZ

Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezus Christo de mil sete cen-


tos sincoenta e nove annos, aos oito dias do mez de Janeiro do dito anno.

E perguntado como se chamava, de quem era filho. da onde ·era na-


tural, morador, que nccupação, e idade tinha.
Respondeo, que se chamava Jozé Fernandes, filho de Francisco Fer-
nandes, natural de Castel-branco, que era sota ca\·alhariça do l\I<Jrquez de
Tavora Pay, e em sua caza morador, e que tem trinta e quatro annos
de idade.
E perguntado se sabe, ou suspeita a cauza da sua prizão.
Respondeo, que suspeita, que a cauza da sua prizüo era pur ser criado
do ditu l\larquez de Ta\'ora Pay. e que este se acha prezo por se dizer que
fora quem dera llllns tiros em El Rey Nosso Senhor, e que elle Respon-
dente u seria para declarar alguma coun que soubesse. -
E perguntado, quem lhe dicera a cauza da prizão do dito l\larque7, e
que hé o que elle Respondente tem que declarar.
Respondeu, que depois de posto hum Edital, ouvira elle Respondente
dizer a huns homens, que não conhecera, que quem tinha dado os tiros em
Sua Magestade, tinhãu sido os Tavoras, e yue_ nada mais tinha que declarar.
E perguntado se na noute em que se derão os tiros sahira o dito ~lar­
quez fóra,_ se fui em carruajem, uu a cavallu, e as horas a que sahio, e ás
em que ve1o para caza.
Respondeu, que nada sabia.
E perguntado, que ,-eja bem o que diz, pur4ue tendo confessado, que
hé sotta cavalhariça do dito l\larquez por força havia saber em que bestas
o mesmo 1Vlarquez sahira, porque não podião séthir estas ·sem ordem delle
Respondente.
Repondeo, que náo sabia, como tem dito.
E perguntado quem costun(a\·a vizitar cum mais frequencia ao sobredito
1\lan1uez.
•l•)
J.l.)

Rcspondco, que quem hia com mais frequencia era sú :\lanóel de


·r.l\ ora,o Conde de .\ touguia, u Conde Obidos menos \ ezes, e o :\lar-
quez do l.ouriçal. ~
E perguntado se ta~bem custuma,·ão hir alguns Hdigio1os d,1 Com-
panhia de Jezus, c quem erão.
Respondeu, que nunca ,-ira hir os ditos Rcliginzus.
E perguntado se costumava tambcm hir o De1embargador .\ntonio
da Costa Freire.
Respondco, que não sabia. E isto por mais instan.:ias, que lhe forão
feitas, prmcipalmente sobre a sahida das bestas da ca,·alhariça.

DESP.\CHO

\"isto o Decreto de Sua :\lagestade pur que hé sen·idl~ mandar dar


tratos a estes Reos, e ,-ista a forma com que cstc depoem ás perguntas
que lhe furão feitas, e im·erosimilidadc que das suas respostas retulta,
qualidade, e gra,·idade do dclicro, mandiío se lhe de hum trato esperto. se
tanto poder tolerar a juizo do cirurgião, a fim de que declare a \·erdade, a
respeito de Terceiros. Bclem de Janeiro outo de setecentos sincucnta e
nU\ e.= Oli,·eira -'I achado.

E Iugo mandarão ,-ir a Domingos 'lunteiro Ramalh~, cirurgião <ippru-


,·adu da caza da saude. e dos carceres secretos Ju santo olticio, para elleitu
de fazer diligencia sobre a saude do Reo Jozé Fernandes, que estava pre-
zente. se tinha algum impedimento para se lhe darem tratos, e por constar
não ter impedimento fiz este termo que o dito cirurgi<ío assinou, debaixo
du jur<m1ento de seu officio, e eu que n escrevy. = OJi,·eira .:\lachadu.·

E logo sendo mandado pôr no Potro, . e at,,du ncllc, que assim se


executou pelos otticiais para isso determinados. E tendo-se-lhe dado hum
esperto só dice, que o dito .:\larque7 qua1i sempre costuma,·a ,·ir pelas onze
horas e meia noute, e que na dos referidos tiros não sahira a ca,·allo, que
sahiria de sege, por que lhe não lembrant a noute. E Iugo o mandarão ali-
,·iar, c recolher para se curar. de que tl7 este auto, que o rogo du Reo
comnosco assignou, e cu Jozé .\ntonio de Oli,·eira -'lachaJu que o escre\ i,
e assinei.- Pedro Gonsah·es Cordeiro Pereira= Jozé .-\ntoniu de Olin~ira
-'ladiado. = .\ rogo du Rcspondente = Juú Antonio de L) ti, eira -'lachado.

\t.:TO llF I'FRGl"~T.\S FFIT.\S .\ J07.i·: .\:\TO~IO:'BOI.IFIRO [)0 M.\RQl"EZ


llE T.\ VOR--\ FR.\:";CISCO fiE ASSIZ

-\nnu do :'\ascimcnto de :'\osso Senhor Jc7us Christo de mil setecentos


sincoenta e no' e annos, aos ou to dias do mez de Janeiro do dito annn.

t.

E perguntado, como se chama\ a. de quem era filho, da onde era


natural, que occupação, c idade tinha.
Respondeu, que se chamava Juzé Antonio, filho de ~1anuel Cardozo,
natural -da Yilla de Mello, que hé Bulieiro do ..\larquez de Ta\·ora Pay, e
morador em sua caza, e que tem trinta annos de idade.

2.

E perguntado se sabe, ou suspeita a cauza da sua prizão.


Respondeu, que suspeita ser a cauza., por que prenderão ao dito seu
amo, por se dizer que este com o Duque de A\·eiro, o i\larquez de Ta\·ora
Luiz Bernardo, Jozé Maria, Ajudante da sala, o Conde de Atouguia, e o
Conegu Jozé ..\1aria, que todos estes hé que tinhão dados huns tiros em
El Rey Nosso ~enhor. E que elle Respondente seria prezo, e os mais
criados para declararem alguma couza.

3.

E perguntado a quem om·ira dizer o referido, e que hé o que elle


Respondente tem que declarar.
Respondeo, que elle om·ira o referido publicamente. E que não tem
que declarar, salvo quando sabia o dito i\larquez para onde hia, e a que
horas recolhia, que era.
Sahir o ditu 1\larquez para os Bailes, e para o jogo, da onde recuJh=a
mais tarde, e algumas vezes para caza do dito Duque de A ,·e!ro, e al-
gumas vezes a caza do De~:embargador Antonio da Custa Freire, e que a
ma=s partes não hia. E logo dice que tambem hia a caza do Conde de Atou-
guia, e da Ribeira, e do dito Conego Juzé ..\Iaria. E que tambem hia a
Arroyos ao Collegiu da Companhia, que hia procurar hum Religiuzu, que
lhe não sabe o nome, e que só lhe lembra fora duas \·ezes ao dito Collegio.
E que não fora a mais partes, e isto depois do terramoto, que elle Res-
pondente serve ao dito ..\Iarquez.


E perguntado se ~dito ..\larque7, costuma\·a tambem hir a São Roque,
e au Cullegio de Santo Antão. ·
Resp~ndeo, que nunca vira, que fosse aos ditos com·entus.

5.
E perguntado a que tempo costumava hir üs ditas partes, principal-
mente a Arruyos, e caza do dito Antonio da Costa Freire, e que tempo se
dilata\·a.
Respundeo, que fóra do jugo, e Bailes aonde se dilata,·a mais era em
caza do Duque, que houve uccazioens, que sahira pela manhã, e dizião, que
estaYáu jogando. E yue üs mais parll."s hia de dia, e humas n~zes se dilatan1
huma, ou duas horas, e outras \·ezes mais, e menos.
ti.

E perguntado se o ditu ~larquez sahira fóra no dia, c nuutc em que


se dcráo us referidos tiros. para onde fura, c a que horas rc.:ulhcra, ou
aonde o deixara.
Hespundco, que lhe não lembra\ a.

E perguntado aonde fura o dito ~larqucz no dia seguinte á referida


noute dos d1t~s tiros.
Respondeu, que lhe não lembrava, c que só se lembra, que nesse dia
Jc tarde fura o dito ~larquez. <i pi.:aria.

DESP.\CHO

\"isto o I>e.:rcto de Sua ~lagcstade, por que hé servido mandar


se dem tratos a estes Reus. e vista a turma com que este respondeu ás
per~untas, que lhe forão feitas. e a prezumpsão 'ch~mente, e 'crusi-
milidade, que contra o Reo Balciro rsic) re7ulta, c vista a gra,·idadc do
ddicto, mandão que au Reo. se dem duis tratos espertos, se tantu puder
tolerar a juizo do Cirurgião, a fim de que dedare a verdade, pelo que
toca a Terceiros. Belem de Janeiro ouro de setecentos sincuenta e no\·e. =
Oliveira ~tachado.

E logo mandarão vir a Domingos ~lonteiro Ramalho, Cirurgião .ap-


provado da caza da saudc, e dos car.:eres secretos do santo officio para
elfeito de fazer diligencia subre a saude do Reo. se tinha algum impe-
dimento, para se lhe poderem dar tratos. E por constar não ter impedimento.
e assim o declarar o dito Cirurgião. deb.tixo do juramento de seu offi.:io,
fiz este termo que assignou. . otr,·eira ~la.:hado.

E logo fi.Ji mandado pôr o dito Reo no P•nro, e a dle atado, o que
assim se exe.:utou, pelos ufficiais para isso determinados, e dando-se-lhe
hum esperto, dicc queria declarar a 'erdade, que era.
Que na tarde pre.:edente á nuute, em que ;;e derão os referidos tiros,
sahira o dito ~larquet. seu amo na segc. e \'Íera para caza do Duque de
A,·c iro, e ahi esti,·cl'a thé a meia noute pou.:o mais, ou menos, e elle
Respondente esti\·cra espcr.mdo com a sege ã porta principal do Pateu,
athé que chegara, e se mettera na dita scge. c fora áquellas horas
para caza. · .
E que nu dia seguinte, tornara n mesmo )larquez para caza do dito
Duque, para onde tambcm \"iera a ~larqueza sua mulher, a cundeça de
Atouguia, e lhe pare.:c que tambem o Conde seu marido, e o Marquez Luis
Bernardo, e ourr~s pessoas Fidalgas, que não está bem lembrado, e ahi
estiverão toda a manhi.i..
E que depois dos ditos tiros cstü lembrado que o ditu 1\larquez fo'hl
·hum a \'eZ a caza de António da Costa Freire, e não está lembrado se tam-
bem a ÀtTo\·os, como costuma,·a.
E sen"do logo aliYiado Yeio á nossa prezença, que sendo-lhe lidas as
suas respostas, dice que esta\·áo na \'erdade, que as apprü\·ava, e ratific<n·a
debaixo do juramento dos Santos EYangelhus, que já se lhe tinha deferido,
e nü\·amente se lhe deferio, que recebido, tornou a confirmar u mesmo,
pelo que toca,-a a terceiros, de que tudo fiz este auto, ~ termo de juramen-
to, que comnosco assinou. E eu Juzé Antonio de OliYeira ~lachado, que o
escre\':, e assigne,-. :...=Pedro Gonsah·es Cordeiro Pereira= Juzé Antonio
de OliYeira ~lacha.do=-Do Respondente Jozé Antonio huma cruz .

.\l"TO li E PFRGI;:'\T.\S FEl L\S .\ JOÃO llER:'\ \RI lO. :\IOSSO !I E .\CO:I-1~ \1\H.\R
.\0 :\1.\RQUEZ P:\Y

Annu do ;\ascimento de Kosso Senhor Jezus Christo de mil setecentos


sincoenta, e nu,·e annus aos outo dias do mez de Janeiro do dito anno.

E perguntado como se chamava, de quem era filho, da onde era na-


nu·al, e morador, que occupação e idade tinha.
Respondeu, que se chama,·a João Bernardo, filho de Bernardo Ta\'a-
t·es, natuntl de: Palmas, Bispado de Coimbra. que et·a mosso de acompa-
nhar ao ~larque7 de Ta\'ora Pay, e morador em sua caza, e que tinha de
idade 'inte e seis annos.
E perguntado se sabe, ou prezume a cauza da sua prizão.
Respondeu, que suspeita ser a cau7a da sua prizão para dii!er u que
soubesse a respeito do dito seu amo, que se acha prezo, e om·ir dizer, que
por huns tiros, que se derão em El Rey ::\osso Senhor.
E perguntado, que hé o que elle Respondente sabe ao dito respeito.
Respondeu que nada sabia. -
E perguntado a que pessoas costuma\' a o dito· )larquez \'izitar mais
frequent~ente. .
Respondeu, que o dito ~larquez, costumanl hir mais continuadamente,
ames, e depois dos referidos tiros a caza do Duque de A wyro, da Condeça
da Ribe.:ra, do ~Lu·quez de Tayora seu filho, do Conde de A.touguia. do
Dezembargador Antonio da Custa Freire, e poucas ,-ezes a caza do Cond.e
de Obidos. E que em caza do Duque hc! que se costumaya dilatar tht! a
meia nuutc:, e duas horas depois della, em caza da Condeça da Atouguia
thé as dez horas, e em caza do dito Dezcmbargador Antonio da Costa
Freire hia de tarde, e dilata\'a-se menos tempo. '
E perguntado se o dito ~larquez costumaya hir a algum Comento
dos Rdigiozos da Companhia de Jezus.
Respundeo que nunca fora a cum·ento da companhia de .Tezus.
E perguntado aonde fora o dito ~larquez na tarde antecedente á noite,
ou na me!'>ma nOlHe dos referidos tiros.
Respondeu que não sabia. E L!Ue só se lembra que no dia seguinte
aos tiros referidos esti\·era o dito )larquez de tarde na Picaria de ~lanoel
de TaYora, e com este.
E perguntado que ,-eja o que diz, porque pela pro\' a da Justiça consta
1 1-
- I

o ..:ontrario, do qut· diz, c que de,·c dcdarar, aonde o dito ~larquez fóra, e
eo;tin·ra na t;trdc, c na noute dos rt•IC:ridos tiros, e manhã seguinte.
Respondl·o, que não esta.nt certo.

DESPACHO

\·i~to o Dc..:rl·to de Sua ~lagcstadc, por que hé scn·idu manJar se


pussão dar tratos a estl:'s Rl:'os, e vista a culpa, que rezulta ao destas j)(:r-
guntas, c forma ..:um que a cllas respondeu, c gnwidadc do dcli..:to, mandão
se lhe dcm dois tratos espertos. se tanto poder tolerar a jui.t.o do Cirurgião,
a tim de dcdarar a ,-erdaJc, pelo que tu..:a a terceiros. 13dem de Janeiro
oito de setecentos sin..:oenta c oito.= Oli,·cira ~la..:hado.

E logo mandarão \'ir Domingos ~lontciro Ramalho, ..:irurgião appro-


' ado da caza da saude. e dos ..:ar.ccres do Santo üfficio, para etfeitu de fa-
zer dili~en..:ia sobre a sauJc do Ren João Bernardo. se tinha algum impedi-
mento para se Jhc poderem dar tratos, e por ..:unstar não ter impcJimet\10 1
c assim o Jcdarar debaixo ._{~.: juramento de seu officio, ti1 este termo. lJUe
assinou. E eu .h11é Antonio Je Oliveira .\la..:haJu, que u escrevi.= -Oli,·eira
~la..:hado.

E Iugo manJarão que o Rl'o fosse posto no Potro, e nelle atado. o


que assim se executou pelos offi.:iais para isso det~:rminados. E sendo outra
wz perguntado pelas mesmas_ perguntas de baixo do juramento dos ~antos
E,·angcthos, que já se lhe hmia deferido, pelo que tu.:;n;l a Terceiros. E
por dizer que nada sabia se lhe deu o primeiro grüo do primeiro trato. E
por dizer que queria dedarar a ,-crJaJe, sendo admittido di.:e.
Que era ,·erJaJe, que na referida nuute de trez Je Setembro proximo
passado. cm que ~e deram os sacrílegos tiros en·, Sua 1\lagestade, fora_ já
perto da noute o d1to .\I arquez Pay na sege para casa do Duque de A ,-etro
..:um hum 'estidu de saragoça, forrado de encarnado, e ali i se apeara, e es-
ti,·cra athC: quüzi de madrugada, que ,-icra na mesma sege para caza. E que
na mesma noute, e caz::t do dito Duque esta,·a tambem o Conde de Atou-
guia, u Conegn .Jo1é ~laria, Irmão do dito 1\larquez; hum tilho deste, .:ha-
maJo tambem .Jozé .\laria, c não se lembra do .\larquez tilhu.
E que nõ dia seguinte ü dita nout~, e de manhã, tornara o dito .\1 ar-
quez Pay a caza do mesmo Duque, e aht se achara a .\larqueza sua mulher,
o conde. e condcça da .-\touguia. e outros. llUe se não lembra. porem llUe
derão jantar a caza.
E que tambcm o dito Marquez costuma,·a hir algumas vezes a hum
Hospi..:io dos Religiozos da companhia, que tem em .-\rroyos. antes, e depois
dos referidos tiros, porem que depois delles, hiria só duas, ou trez ,-eze;;s.

E logo o mandarão a[i,-iar, que \'indo á nossa prezença. sendo-lhe


lidas suas respostas, di.:e estaúio, na forma, que tinha declarado, que ap-
prova,·a, e ratitka,·a debaixo do dito juramento, pelo que to..:;lva a Tercei-
ros. de que tiz c~tc auto. e termo de juramento, que comnosco assinou. E
cu Jozé Antonio de Oli,·eira .\la.:hado. que o escren·. = P~dro Gonsah·cs
Cordeiro Pereira=- Jozé Antonio de üli,·eira ~la..:hàdo =João Bernardo.
Al'TO l>E PFRGC:-;T.\S. FEJT,\S .\ PFl>RO 1>.\ Sli.\'A ~!OSSO I>OS C,\ V.\LLOS l>O :0.1.\RQUEZ
l>E TA \"OR.\ P.\ Y

• Annu do :'\ascimentu de :!'\osso Senhor Jesus Christo de mil setecen-


tos sincoenta. e noYe annus aos outo dias do mez de Janeiro do dito anno.

E perguntado, como se chama,·a, de quem era filho, da unde era~ na-


tural. que ocêupação tinha, e que idade. .
• Respondeu, que se chama,·a Pedro da Sih·a, que hé natural de Braga,
filho de Jozé da Silva, que era mosso da ca,·alhariça do 1\larquez de Ta-
Yora Pay, morador em sua casa, e que tinha de idade de trinta e seis annos.
E perguntado, se sabe, ou suspeita a cau7a da sua prizão.
Respondeo, que intende estar prezo por cauza de seu amo o estar, e
di7erem, que era por uns tiros. que se derão em EI Rey :'\osso Senhor.
E perguntado u que sabe neste particular, e quem costumava vi7itar
u dito 1\larquez. . ·
Respondeo, que só lhe lembra que na noute dos referidos tiros, se-
gundo sua lembrança, sahira o ~larquez na sege, e recolhera quazi de ma-
drugada, e que perguntando elle Respondente au outro dia ao Bolieíro Joze
Antonio, que tinhão vindo muito tarde da onde tinhão ,·indo, o dito Bolieiro
lhe di cera, que tinhão estado em caza do Duque de A ,-e iro.
E que quem costuma\·a mais ,-ezes hir a caza du dito ~larquez; era o
Cu':de de Atouguia, ~lanoel de T a\·ura, o l\larquez filho, e que de nada
.mais sabe.
E por ora lhe não fizerão mais perguntas, que sendo-lhe lidas, dice
estado na nrdade, e se lhe defirio o juramento dus Santos Evangelhos, e
debaixo del!e approvuu, e ratillcou tudo o referido, de que fi7 este auto,
que comnosco assignuu. E eu Jozé Antonio de Oli,·eira :\lachado, que o
escre\T, e assinei.= Pedro Gonsalns Cordeiro Pereira= Jozé Antonio de
Oli,·eira :\lachadu =-c Do Respondente Pedro da Siln1 h uma cruz .

.\U ro l>E I'ERGt:::ST.\S FEIT.\S A .\:ST0:\10 JOZÊ LEIT.\0. ESCL"l>EIRO 11.\ :0.1.\RQUEZ.\
li E T .\ \"OR -\ 1>0:\A LEO:-iOR

Anno do ~ascimento de ~osso Senhor Jezus Christo de mil setecen-


tos sincoenta e no\·e annos, aos o itu dias do mez de Janeiro d? dito anno.

E perguntado, como se chamava, de quem era filho, donde era natu-


ral, e morador, que occupação, e idade tinha.
Respondeo, que se chamava Antonio Jozé Leitão, filho de Jozé .\nto-
nio Leitão Caldeira, natural da freguezia de São Julião, morador em caza
da Marque7a de T a\·ora Dona Leonor, de quem era Escudeiro, e que tinha
vinte e sete annos.
E perguntado se sabe, ou suspeita a cauza da sua prizão.
Respondeo, que suspeita ser preLo, porque o :\brquez seu amo u
fora, e que dle Respondente o seria para dizer alguma cuuza, que pu-
desse saber.
E perguntado por que caun, fora o dito :\larque7 prezo, e que hé o
que elle Respondente sabe.
Re!->pondco lJUC logo passados lJUatru, ou sin.:o dias, que se deráo
huns tiros cm Sua Magcstade, ou\ ira elle Respondente dizer, ljUC cul-
pa,·ãu nus ditus tiros au ~larquez seu amu, c au ~larquez tilho deste,
c au Conde de .\touguia; purem que não OU\"ira dizer a .:auza por ljUe
-
us cu Ipanto. J

E que só o que tem que declarar hl! : Que na dita nuute dos referidos
tiros, sahira o ditu ~larlJUC/. na sua segc, c não recolhera se não depois das
onze horas, mas não sabe a lJUe horas recolhera. porque ás .on.lc se fura
elle Respondente deitar.

E perguntado se no dia seguinte au du referido insulto, sal11ra fóra o


dito ~larlJUCZ,
c a )larqueza sua mulher, c aunde fura a dita ~larljucza.
Respondeu, que se lembra, que no dia seguinte au du referido insul-
to, sahira o ditu )\arque/. tora de manhã, e tambem a ~larqueza sua mu-
lher, porem que elle Respondente a não <Kompanhara.
E que agura se lembra, que n<l dita manhã sahira o dito ~\arqucz
com•a )larqucza sua mulher, porem 4ue niio oll\·ira dizet· para onde. E
que n'esse mesmo dia-á noute, OU\ ira di:ter aos criados, que na dita manhã
se tinhüo ajuntado cum outros criados cm huma caza, que não reparou 4ue
caza dicerãu.
E que tambcm se lembra, que passados quatro, ou sinco dias, estando
u )\arquez, a )largueza, e u filho Jozl! )\aria todos jantando, lhes dicera
clle Respondente, que se dizia tinhão dadu huns tiros cm Sua )lagestade,
ao que respondera u dito :\larquez Pay: uO cazo sempre fui grandc.n

E pL-rguntado quem era, que com mais frequencia \"izita\·a o dito


)larquez.
Respondeu, que os que mais frequentemente Yizita,·ão ao dito )br-
qucz, erão s~u filho )larquez, o Cundc de Atouguia, e principalmente )la-
noel de Ta,·ura, que este ainda depois de se lú· quem hia pro.:urar ao dito
)larqucz sempre fica\"a com este largo tempo, c athé fora Je horas. E que
não ,·ira lá hir Rdigiuzos da Companhia,ncm .Antonio .;h. Costa Freire, mas
sabia dos aiados, que o dito )\arque/., costuma,·a hir a caza do dito De-
/.embargador.
E perguntado a '-lucm costuma,·a a ~largueza \"i7itar, mais frequente-
mente. c quem a esta \"izita,·a.
Respondeu, que a dita )largueza, era continua a caza da condeça da
Atouguia, Duqucza de Aseiro, Condcça da Ribeira, e da )largueza de Ta-
\"Ora filha.
E que tambem a dita ?\largueza tinha huma gt·andc communi.:a-
ção . com hum Religiozo da companhia chamado o 1\lalagrida. com quem
.:ontinuamentc se .:artca\"a. E que ,·indo o tal. Religiozo a Santo .\ntão,
a dita )largueza o mandara logo ,·izitar por dlc Respondente com
hum recado au Religiuzo Diogo da Camera, para· este o dar da parte ddla
:\larqueza au dito ~lalagrida. E que hindu a dita ~larque7a a Arrabida pela
semana santa proxima passada, ~oubera ellc Respondente por hum guarda
roupa de Jozé ~laria tilho da mesma :\l.trqucza .:que ambos foriiu com dia.~
que o di tu )lalagrida em ~entbal ,·i era a .\rrabida <l fali ar. c estar com a
dita .Marqueza, e" não sabe us dias que. ahi se dilatou. E que o dito guarda
roupa se chama )lathias Ju/.é.
l...j.O

E por ora lhe não fizerão mais perguntas, que sendo-lhe lidas, e suas •
respostas, dice estaúi:o na forma, que lhe forão feitas, e elle respondido, o
yuc aftirmo debaixo do juramento dos Santos E,·angelhos, que lhe foi defe-
rido, pelo que tocaYa a Terceiros, que apprm·a,·a, e ratifica,·a, de que tiL
este auto, c termo de juramento, que com nosco assignou, e o escrevy. =
Pedro Gonsah-es Cordeiro Pereira= dozé Antonio de Oli,·cira :\lachado=
-\ntonio Jozé l.eitão Caldeira..

APPEl\ÇO 16.

I'ERGt::\T.\S FEIT.\S .\0 REO Lt:IS IIER:\.\RilO hE T.\\"ORA

I.

.-\nno do :\ascimento de :\osso Senhor Jezus Christo de mil e sete-


centos s;ncoenta e oito annos rsic).nesta Quinta de Sua :\lagestade chamada
do .\leyo, neste lugar de Bellem, aonde furão vindos os Illustrissimos, e Ex-
cellentissimos Senhores Sebastião Jozé de Canalho e .\ldlo, Secretario de
Estado dos :\"egocios do Reino, Tho~1é Joaquim da Costa Corte Real, e o
Dezembargador do Paço Pedro Gonsah·es Cordeiro Pereira, Juiz da lncon-
tidcncia, que tambem sen·e de Regedor, comigo Jozé .Antonio de Oliveira
.\lachado, Dezembargador da Caza da Supplicação, e nomeado para escrever
nesta delig~ncia, para effeito de fazer perguntas ao Reo Luiz Bernardo de
Tavora, prezo em segredo nesta mesma Quinta, a ordem do dito Re~edor,
as quais lhe furão feitas pela maneira seguinte.

\ I,

E perguntado, como se chamava, d. quem era filho, donde era natu-


ral, que occupação, e idade tinha. _
Respondeo, que se chama,·a Luis Bernardo de T a\·ora, ti lho do .\lar-
qucz de Ta,·ora, Francisco de .-\ssiz de Ta,·ora, natural da cidade de I .is-
boa, baptintdo na freguc7ia de São Sebastião da Pedreira, Tenente Coronel
do Regimento de Alcantara, e que tinha de idade trinta e sinco annos.

2.

E perguntado se sabe. ou suspeita a cauza da sua prizão.


Respundeo yue não sabia, nem suspeita,·a a cauza da sua prizão .

.,
.).

E sendo perguntado, se ellc Respondente concurreo para o sacrílego,


e horroro7o insulto, que na noute de trez de setembro pruximo preteritu~ se
commetteu com diabolica audacia. contra a Suprema .\lagestade de E! Rey
LI-•

~osso Senhor, dando (onst·ntimcnto, ou auxilio para se commettt•r aqudlc


e:~.acrando
ddicto.
Respondeu com huma absoluta negativa dos referidos factos.

-l·

Scndo instado, que ,·isse, que a sua ncgati,·a se conn:ncia; porquanto


consta da prova da .Justiça. que cllc Respondente concurreo para o dito in-
sulto com cavallos, que da sua ca,·alhariça sahir<ÍO para outra, c com pes-
soas da sua obrigação, que de urdem sua auxiliarão o referido insulto.
Respondeu, que se alguns t:a\·allos sahir;.ío da sua cavalhariça, não foi
por ordem delle Respondente, mas que seria por dc7ordcm du cabo de Es-
quadra Jo7..é Fran.:isco Rijo. que tratava dos mesmos C<H"allos.

='·
E sendo instado outra H!Z que a sobredita escuza o não rdc,·a, por
quanto se prova por parte da Justiça, que -us ditos cavallos, com ctleito
vierão dous dias antes do referido insulto para a cavalhariça do Duque de
_.\ veiro, apparclhados, cobertos com os seus Telizes, e que na mesma nuute
sahirão da dita ca,·alhariça para auxiliarem o dito insulto as pessoas que
nelles montarão.
Respondeo, que nada soubera ao referido intento: E que só hum
criado do Duque de A\·eiro, chamado Filippe Ferreira que mora á Espe-
rança tinha ordem, e tem dclle Respondente para se lhe dar na companhia
hum ca,·allo, cm cada ,·ez, que o pedisse, e que o tal ca,·allo poderia ser
que fosse para a ca,·alhariça do dito Duque de A n~iro.

6.

E sendo perguntado aonde passou a noute de trez de Setembro, pro-


\.imo passado. em que se commctteo o referido insulto, desde as de7 horas
da mesma noute, athé que se recolheo para sua c~ua: E que horas erão,
quando se recolheu, na mesma caza da sua habitação.
Respondeu, que costumand, • h ir todas as nuutes a caza do Duque de
.\,·eiro, e algumas a caza dos "arquezcs seus Pays. sem que h~i muitos
tempos passasse· as noutes cm outras partes, pcrcizamente ha,·ia estar cm
alguma das duas cazas asima referidas, mas que lhe não lembra, nem sabe
com certe.la em qual dellas passou a subredita noute.

I •

E sendo outra vel' in~ta •.:lo, que estes subterfugios se com·enccm; por
.quanto tudo que hé in,·ero!'>imcl se reputa por fa!so: F que não pode
ha,·er maiur in,·erúsimilidade, nem couza mais repugnante ao juizo humano~
por que não se lembrar elle Respondente onde este\·e em huma noutc tão
LP

infausta. tão estrundoza, e tüo nota,·el, pelo geral escandalu, como foi a
referida noute de trez de Setembro pruximo precedente; E que assim de,·e
declarar a verdade, que pertendeo encobrir debaixo du subterfugio daquelle
alfectado esquecimento. •
Respondeu com o mesmo, que ha\Ü ditu.

Sendo perguntado se sabia. que algumas pessoas de ambus os se~os,


e de difterentes Estados nos tempos antecedentes au d;to enorme attentado,
fizessem entre si juizo, e ajuste para se pri,·ar El Rey :\"osso Senhor da
sua preciozissima, e gloriozissima ,-ida, machinando a morte do mesmo Se-
nhor pelo meio daquelle diabolico, e sacrílego insulto dos tiros, que se dis-
pararüo em parte contra a Real Pessoa de Sua :\lagestade, e quantas, e
quais forüo as pessoas, que inten·ierüo nos referidos ajustes, e na machina-
çáo que ,·eio em tZonsequencia delles.
Respondeu, que nunca se achara em com·ersasáo alguma, em que se
tratassem as materias asima referidas. nem om·io couza alguma, que fosse
a dias pertencente. antes do referido delicto. e em ordem a elle.

~I-

Sendu mats perguntado se sabe quantas esperas, ou emboscadas de


homens armados se postarão na referida noute de trez de Setembro pro-
ximo precedente nas Terras que jazem desde a Quinta chamada a do :\leyo.
athé á entrada da outra Quinta, que fui do conde de Obidos, por onde
El Rey :!\osso Senhor costuma,·a recolher-se, para alli esperarem ao dito
Senhor, de sorte que escapando dos tiros da primeira emboscada, não pu-
desse escapar das outras, que adiante ddla se acha,·ão postadas, com dia-
botica arte, e dctestaYel intento: Declarando quantas furão as ditas embos-
cadas : E quantas, e quais furão as pessoas, que em cada huma dellas se
acharão naquella infaustissima noute.
Respondeu cum huma absoluta negati,·a.
'-

lO.

E sendo ainda Ínstadu, que repare no que dit., por que consta da
prm·a da Justiça, que elle Respondente foi informado de todos os referidos
factos: E que dew declarar a wrdade do que passou aos ditos respeitos,
para descargo da sua consciencia, e satisfação das suas obrigações, como
christão, e como \'assalto.
Respondeu com a mesma absoluta negati,·a.

11.

Sendu mais perguntado se sabia, que na manhã pro\ima seguinte ao

.-
q3

sobreditu insulto ~xacrando, uu na manhã de ."-luatru de Setembro proximu


passado se juntass~:m algumas pessoas, parentas. e conjunctas cm alguma
caza de.: pessoa grande, para cmwcrsarem sobre o <..JUC.: ha,·ião disposto, e
obrado na noute rroxima precedente, quando se commetteo () mesmo insulto
e sobre o que havião fazer em damno da \"ida d'El H.cy ~osso Senhor, c
prejui/o commum, e mal intendida utilidade particular ldepois deli c haver
sido commcttido1 das pessoas <..lliC se acharão na referida .Junta.
Respondeu cum outra abslllúta negati,·a.

DESP.\CHO

, \·isto o Decreto de Sua :\lagc.:stade por que he scn·iJn mandar se


possão dar tratos a estes Reos, e ,·ista a qualidade da culpa. "-lue rcltdta, e
forma cum que o Reo respondeu _;.is perguntas, que lhe furão lciras, e estar
cm termos. supposta a gra,·idade do ddict<;? de ser metido a tormento,
dando-se-lhe tratos pelo llUe toca,·a a T erce1rus, mandão se lhe dem dçus
tratos espertos, se tanto poder tolerar a Juizo do cirurgião. a fim de t1ue
declare a verdade, pelo que respeita a Terceiros. Bclc.:m de Dezembro ,·inte
e nm·e de sete.:entos sincocnta c ou tu.=-~ Com duas rubricas.= Cordeiro=
Oli,eira.

I>IIIGE:SCI.\ IIOS TR.\TOS 1>.\llOS .\0 REO I t'l7 IIFR~.\RilO IIE T.\\.OR.\

E logo no mesmo dia asima declarado fui mandado ao Reo Luiz


Bernardo de Ta,·ura, que declarasse quem erão os so.:ios dll deli.:to de "-lue
se trata, e por ser a respeito de T erceirus se lhe deferi o juramc.:nro dos
Santos E\·<mgclhos, e dcbai\:o dc.:lle fi1essc a dit<\ declaração, e recebido u
dito juramento, assim o prometteo. E pelo Reo di;rer que nada sabia, man-
darão que o .:irurgião fizesse diligencia sobre a saude do Rco, e declarasse
se tinha alguma infermidade. que impedisse o dar-se-lhe tratos. E pur cons-
tar que tinha saude. e sem impedimento algum para se lhe darem tratos,
assim o declarar debai\:o du juramento de seu utfic;o se fez este termo, que
comnos.:u assignou, e eu .Ju/é .\ntonio de Oli,·eira ~la.:hadu, que u escre,·y:
=Com huma rubrica. =Cordeiro= Oliveira ~\achado .

E Iugo foi mandado, que o Reu se deitasse no Potro. e se atasse, o
que assim se exe.:utou, pelos otfi.:iais para isso determinados. E eu lhe
tornei a dizer. que declarasse a ,·c.:rdade do que el\e Reu sabia a respeito
de Terceiros, c tendo tre/ quartos de tratos do primeiro trato, di.:e que
queria declarar a n~rdadc.:. E declarou sendo um·ido u seguinte.

(.

Que dle Respondente se achara com o :\larquez Fran.:isco de Assiz


de.: Ta,·ora seu Pai, c com a :\lan1ucza Dona Leonor de TanJra sua :\lay, •
c com o Du~1uc de .\ ,·eiru, cm .:aza du mesmo Duque, onde.: asscntarüo de
14-J.

commum acordo, que subindo o Senhor Infante Dom Pedro ao Throiw,


tornaria ao seu antecedente poder o gm erno deli e ~lurdomo ~lu r, e dos
Religiozos da companhia de Jezus.

2.

Que por este principio dezeja a dita ~largueza Duna Leonor de Tavora
a morte de EI Rey ~osso Senhor; considerando, que ddla rezultaria grande
beneficio aos ,·assallos. E que era castigo para todos o estar Sua Magestade
go,·crnando, pela aspereza d.o seu governo.

3.

Que tudo o referido se funda,·a na ~listica, e nos conselhos, e direc-


çoens de Gal-triel ~lalagrida da companhia de .Je?us.

+
Que o :\larquez Francisco de Assiz de Tavora seu Pai, era dos mes-
11l•>s sentimentos, persuadido pela dita 1\'larqueza Dona Leonor Ma\· delle
Respondente, porque o dito seu Pay só fai',., o que a referida :\largueza sua
mulher lhe aconselha.


Que o Conde de Atouguia, e o conego Jozé ~laria de Tavora, seguião
os mesmos dictames inspirados, ou antes pen·ertidus pelas mesmas doutri-
nas, c ma:\.imas do dito Gabriel :\lalagrida.

li .


Que-o :\larquez d' -\.lorna ha,·ia tambem feito exercícios espirituai::. em
Setubal com o mesmo Gabriel :\lalagrida.


Que a dita ~larquen :\lay delle Respondente, sendo guiada pelo que
lhe ha\"ia feito crer o dito Gabriel ~làlagrida, persuadira ã todos os sobre-
ditos, que EI Rey :\osso Senhor, ordena\ a o que queria o Secretario de
Estado Sebastião Jozé de Can·alho e ~lello, de sorte que todos os referidos
parentes o chegarão a crer assim, e chegou elle Respondente a dizer, que
o go\ erno esta\ a de sorte, que se elle fosse prezo, só seria pelo que niio
ha'-ia feito.
R.
Que emt1m na .:aza da :\larqucza de Tavora :\lay dellc.! Respondente,
ha\ ia huma .:ontinua murmuração .:ontr·a o governo do dito S~:nlwr, e
huma .:ontinua prati.:;t de traiçii.o c ma.:hinação, .:011tra a ({cal Pessoa de
Sua :\lag..:stade, assentando-se, cm que seria muito util que o mesmo Sc.!nhor
d~.:ixasse de YiYer.


Que por isso os ajustes, e .:onfederaçóens, que se ordenar;Ío a .:ommet-
tcr o saailego insulto na noute de trez de Setembro, proximo passado, forã o
feitos, .e .:on.:ordados em .:aza da dita :\larqueza sua :\by.

lO.

Que nas esperas, que na rderida nuute de trez de Setembro, se nzcr;ío


a Sua :\lagestaJ~: asima da que disparou os sa..:rilegus tiros, se a.:hou o
:\larquez Pay dclle Respondente, seu filho, e Ajudante das ordens Jozé
Maria de T aYora, e o .:abo de Es,luadra deli e Respondente, por nome
Braz Jozé.
II.

Que o Conde de .-\touguia Dom Jeronimo de .\taidc se a..:hou nas


mesmas esperas, pela aYersão, que tinha con..:ebido .:ontra o t'l0 0\"erno de
Sua i\lagestade.
12.

Que o Duque de ..\\·e iro, se a.: h ou nas mesmas esperas .:om alguns
..:riados seus, que armou para o dito et'feito.

J3.

Que na manhã proxima segLJinte á noute do _c:o._a..:rando insulto de que


se trata • .:om etfeito .:on..:urrerão em .:a; a do Duque de ..\ ,-eiro os :\larque-
zt:s de Ta,·ora Pais ddle Respondente, e Jozé :\bria .de Tavora, Irmão
delle ReSj"~Ondente, a Condeç:a de Atouguia, o mesmo Duque, e DuqueLa de
-\\·eiro: Dizendo a :\larqueza :\la~ delle Resp~__mdente, que El Rey ":\osso
::'enhor, estava .:om trez feridas mortais; Dizendo outros dos .:ir.:unstantes,
que o mesmo Senhor n.:io es.:apari3, se tomass·e pelo .:aminho direito do
Palaóo da sua habitação, para se re.:olher, assim .:omo retrocedeo pela
.:alsada para o lugar de Bellem: E arguindo outros os que se a..:haráo na
espera, que disparou os tiros, por não ha\·ercm .:om elles a.:ahado logo a
pre.:iozissima \ida de Sua :\lagestadc : E sendo tudo o referido preten.:iado
por elle Respondente na sobredita .:unwrsasáu, em que se a.:hou na rderi4a
manhã:
lO
q6

E por haYer feito as ditas declarações, e confissoens, mandarão ali,·iar


ao Reo do dito tormento, e aliviado, que foi, depois approvou, e ratificou,
tudo o que havia declarado, e confessado. De que de tudo se mandou fazer
este auto de perguntas, e termo de juramento que todos assinamos, e eu
pelo Respondente tambem, por dizer o não podia fazer, e o escrevi.=
Sebastião Jozé de Can·alho e Mello =--=Pedro Gonsah es Cordeiro Pereira
=Jozé Antonio de Oli,·eira Machado=A rogo do Respondente=Jozé
-\ntonio de Oli,·eira l\lachado.

TEIUiO DE RATIFICAÇ.\0, QUE FAZ O l\1.\H(,!UEZ LUIS BER:'\,\RDO LlE T•\\"OR-\

Aos trinta e hum dias do mez de Dezembro de mil setecentos sincoenta


e oito, nesta Quinta de baixo, que hé de Sua ,\lagestade, em o apozento
em que se acha prezo em segredo o :\larquez Luis Bernardo de Tavora,
por ordem do dito Senhor, aonde foi vindo o lllustrissimo, e Excellentissimo
Senhor Sebastião Joz~ de Can·alho e ::\lello, Secretario de Estado dos
1\ego~~:ios do Reino, e o Dezembargador do Paço Pedro Gonsah·es Cordeiro
Pereira, Juiz da lnconfidencia, que lambem sen·e de Regedor, comigo Jozé
Antonio de Oltveira !\tachado, Dezemb~rgador da Caza da Supplicação,
para etfeito de ratificar as perguntas, e respostas, que dera o dito ::\larquez
Luiz Bernardo de Ta,·ora. As quais sendo-lhe lidas, e declaradas, dice, que
tudo o que tinha declarado, respondido e confessado era tudo verdade, o -
que approva,·a, e ratifica\·a, debaixo do juramento dos Santos E\·angelhos,
que já tinha recebido, pelo que toca\·a a Terceiros, e que só tinha a declarar
debaixo do mesmo juramento, e era:
Que sabia, e via que o Conde de Obidos, tambem concurria naguellas
com·ersasões, que a respeito do governo do dito Senhor se fazião; porem
que não sabe se_ o dito Conde concurreo immediatamente para o referido
sacrílego insulto, de que se trata. E que nada mais tinha que acrescentar,
diminuir, ou declarar, que de tudo fiz este termo, que por não poder o dito
Respondente assignar, rogou a mim Jozé Antonio de O li\ eira :\lachado que
por elle assignasse, o que fiz a seu rogo, e o escre\·i. =Sebastião Jozé de
Can·alho e l\lello=- Pedro Gonsah·es Cordeiro Pereira=Jozé Antonio de
Oli,·eira :\lachado =A rogo do Respondente=Juzé Antonio de Oli,·eira
Machado.

APPEI\ÇO I 7·
PERGL:"TAS FEITAS -\0 REO DOM .IER0:\1:\10 DE \T.\IDE

Perguntas feitas ao Reo Conde de Atouguia.


Anno do Nascimento de Kosso Senhor Jezus Cristo de mil setecentos
sincoenta e outo em os trinta dias do mez de Dezembro do dito anno, nesta
Quinta de Sua Magestade chamada do :\levo. aonde foi vindo o Illustrissimo,
e Excellentissimo Senhor Sebastião Jo.t.e de Carvalho e !\lello, Seaetario
de Estado dos ?\egocius do Reino. e o Dezembargador Pedro Gunsah·es
Cordeiro Pt:Teira, Dezembargador do Paço, e Juiz da Inconfidencia, que

--
tambem serve de Regedor, comigo Jozé .\ntonio de Oliveira :Machado,
Oet:embargador da Cata da Supplicaç<ío, e nomeado para escrever nesta
,iiligencia, para elfeito de fazer perguntas ao Reo Conde de .\touguia,
prezo cm segredo nesta mesma Qu~nta, por ordem do dito Senhor, as
quais lhe furão feitas pela maneira seguinte.

J.

E perguntado como se chamava, de quem era tilho, da onde era
natural, que occupação, e idade tinha.
Respondeu, l]Ue se chama,·a Dom Jeronimo de Ataide, filho do Conde
de .\touguia Dom Luiz Peringrino de Ataide, natural da cidade de Lisboa,
e baptizado na freguezia dos l\lartires, e capitão de ca,·allos do Regimento
do Cais, e que tinha trinta e sete annos de idade.

2.

E perguntado se sabe, ou suspeita a cauza da sua pri7ao.


Respondeu, que não sabe, nem suspeita a cauza da sua prizão.

3.
E sendo perguntado se concurreo para o sacrílego insulto, que na •
noute de trez de Setembro proximo passado se commetteo com diabolico,
e nunca visto atrevimento, contra a Suprema l\lagestade de El Rey Nosso
Senhor, auxiliando, e ajudando com a sua pessoa o referido sacrílego insulto,
na nome em que foi commettido, e concurrendo nella com as pessoas, que
o commetterão.
Respundeo com huma absoluta negati\·a.


E sendo instado, que visse, que a sua negativa era convencida de
menos verdadeira; por quanto consta da pro\·a da Justiça, que elle Res-
pondente concurreo na mesma noute de trez de setembro proximo passado
com os que commetterão o referido insulto, achando-se de mão posta com
outra pessoa, em huma das esperas, ou emboscadas, que com arteficio dia-
bolico se postarão em dilferentes lugares para que o dito Senhor na passajem
que tit:esse da Quinta do :\leyo, para a da Sua Real habitação, se escapasse
de huma das ditas emboscadas, fosse cahir nas outras.
Respon.deo, com outra absoluta negativa.

='·
Sendo perguntado, onde passou aquella infausta noute de tre7 de
sl:lembro pru\.irno pass.1do, em l]Ue se commetteo o referido insulto, desde as
de/ horas da mesma noute athé as quatro da madrugada proximl! seguinte.
Respondeo, que na referida n•mte, e nas horas della asima declaradas,
passara recolhido• na sua propria caza. E que antes disso haYia passado
athé as dez horas da mesma nome em caza dos ~larquezes de Tavora seus
sogros, onde costuma,·a passar todas as noutes athé as dez, e onze horas,
quando mais tarde, em que se r~colhia para a sua propria caza.

6.

Sendo mais perguntado, que por quanto confessa, que passava todas
as nomes em caza dos ~larquezes seus sogros, e nas conversasóes, que
nella se faz ião: E consta da prm·a da Justiça, que nas mesmas com·ersasóes
se trata\·a ordinariamente de calumniar o felicíssimo, e glorio7issimo goYerno
d'El Rey ~osso Senhor, de se considerar ou persuadir com diabolicas
suggestóes, que~ mesmo goyerno era ,-iolento, e perniciozo; de se <tssentar
pela 2\lacha,·elica, e detestavel Theologia de Gabriel ~lalagrida, e outros
Religiozos Jezuitas da sua profissão, que era licito, e meriturio conspirar
contra a preciozissima, e gloriozissima 'ida do mesmo Senhor, porque
depois do pertenJido goYerno tiranu de Sua ~Iagestade, \"iria outro go' erno,
do qual a todos os que concurrião nas taes com·ersasoens, se seguirião
grandes utilidades : E que assim de,·e declarar por indispensa,·el discargo
da sua consciencia, e satisfação das suas obrigaçoens, comu christão, e como
vassallo, para tambem cumprir com a restituisão, que deYe ao dito Senhor,
e a Patria; quantas, e quais forão as tais peJisoas, que concurrerão nas
referidas com•ersasocns; e n que nellas dicerão, com·ierãu, e ajustarão, sobre
as falsas suppozisoens, de ser ,-iolento, e prejudicial o gm erno de Sua :\Ia-
gestade; sobre as esperansas, que fundaYão no outro goYerno futuro; e
sobre a machinação da morte;_ que infame, e barbaramente, se pertendeo
executar, pelo horrorozissimo insulto de trez de Setembro proximo precedente.
Respondeo, que nas conYersasóes, que se tinhão em caza dos 2\Iar-
quezes seus sogros, concurriáo ordinariamente os mesmos :\Iarquezes seus
sogros; elle Respondente; a Condeça sua mulher; :\lanoel de Tayora seu
tio algumas noutes; o :\larquez d"Alorna, e sua mulher, quando esta,·ão na
terra : E que tambem algumas noutes concurria :\lonsenhor Azevedo ; e que
tambem hia algumas wzes o l\larquez do Louriçal.
Quanto ao mais contheudo n(:sta pergunta, respQndeo que nada om·ira,
e que nada sabia.

·E sendo outra vez com muita charidade admoestado para que declarasse
a verdade pelo que pertencia aós ditos Terceiros; por quanto se proYa,·a,
que delles, e das suas perniciozissimas, e iniquissimas com·ersasoens, e
machinaçoens tinha elle Respondente, pleno conhecimento.
Respondeo prezist!ndo na mesma absoluta negativa.

8.
Sendo mais perguntado, se sabia quantas esperas, ou emboscadas de
homens armados se postarão na referida noute de trez de Setembrv pr·oxime


--
precedente nas terras, que jazem tlesde a extremidade da Quinta chamada
du .\lcyo, athé <i entrada da outra <Juinta, que foi do Conde de ( >bidus,
por onde Sua .\lagestade custumant recolher-se: Declarando quantas, e
tJUais furão as pessoas, que se acharão nas referidas emboscadas nal.judla
infaustissima nuutc. ·
Hcspondco com outra absoluta negati\ a.

Sendo outra vez charitatintmentc admoestado, lJUC a sua -neg;ui,·a se


c um encia de menos verdadeira; por l.JUantu con:-.ta da pro\ a da justiça, que
ellc Respondente ha,·ia tido conhecimento dos referidos factos.
Insistiu, com outr;.t ab:..;u\uta negati,·a.

I O.

Sendo mais perguntado se sabia, quantas, e quais furão as pessoas,


que na mesma noute de trez de Setembro, em l.JUe se cummetteo o referido
insulto, e depois, que ellc se commetteo, se ajuntarão para falarem sobre elle
na terra l.jlle cstü junto ao jardim do Duque de .h·eiru, a(,) pe da pranchada,
que se fez para o serviço das obras do Duque de Aveiro; quantas, e quais
furão as tais pessoa~; e o que dicerão, quando se ajuntarão: pois que cons-
tando o referido da pro\·a da Justiça, se acha elle Respondente indispensa-
velmente obrigado a dt"clarar, quem furão os referidos sucios, e o que
praticarão no sobredito lugar. ao tempo cm que .nellc se furão ajuntando.
Respondeu com outra absoluta ncgati,·a.

II.

Sendo suere tudo o referido instado, que por quanto consta da mesma
prm-a da Justiça, que na manhã de quatro de Setembro pruximo passado,
que fui a manhã pru~ima seguinte á noute do referido insulto, se juntarão
algumas pessoas parentes, e conjunctos em certa caza de pessoa grande
para cóm·ersarem sobre o que antes ha,·ião djspostu, e obrado na nnute
proxima precedente; e sobre o que depois de ha,·er errado o seu golpe o
mesmo sacrílego insulto, haviãu de fat.er cm damno da preciozissima ,-ida
d'El Rey ~osso Senhor; em geral prejuízo de todos us seus Reinos, e
Y assa \los : e em mal intendida utilidade particular das tais pessoas, que
concurrerão naquella diabolica Junta: Deve nestes tcrnws declarar o que
soube, e sabe a respeito das pessoas, que concurrcráo na referida Junta,
e das materias que nella se tratarão.
Respondeo com outra absoluta negativa.

DESP.\CHO

Yisto o Decreto de Sua .\lagestade por que he;; sen·idu mandar se


possão dar tormentos a estes Heus, e ,·ista a qualidade da culpa, que retulta,
DO

e forma com que o Reo Dom Jeronimo dt: Ataide respondeo ás pt:rguntas,
que lhe forão feitas, e estar em termos supposta a gra,·idade do delicto de
ser mettido a tormento, dando-se-lhe tratos pelo que toca,·a a Terceiros,
mandão se dem dois tratos espertos, se tanto poder tolerar a juizo do
Cirurgião, a fim de declarar a verdade, pelo que respeita a Terceiros. Belem
de Dezt:mbro trinta de setecent-os sincoenta e oito. =Com duas rubricas.
=Cordeiro= Oli,·eira 1\lachado.

DILIGENCIA DOS TRATOS DADOS A DOM JERONIMO DE ATAIDE

E logo no mesmo dia asima declarado se tornarEo a fazer perguntas


ao dito Reo, para que declarasse, quen1~forão os cumplices do referido, e mal-
vado insulto, e pelo que tocava a Terceiros se lhe dderio o juramento dos
Santos Evangelhos, e debaixo delle fizesse a dita declaração. E rt:cebido
pelo Reo o dito juramento assim o prometteo. E por dizer que nada sabia,
se mandou que o Cirurgião fizesse diligencia sobre a saude do Reo, e
declarasse, se tinha alguma infermidade, que o impedisse a dar-se-lhe tratos
e por constar, que tinha saude, e sem impedimento algum para se lhe darem
tratos, e assim o declarar debaixo do juramento de seu officio, se fez este
termo, que assignou.= Com huma rubrica.= Cordeiro= Oli,·eira )lachado.

E logo foi mandado, que o Reo se pozesse no Potro, e que nelle se


deitasse, o que assim se executou pelos officiais para isso determinados. E
eu o tornei a admoestar para que dt:clarasse a verdade do que elle Reo
sabia a respeito de Terceiros, e por dizer que nada sabia, se lhe deo o
tormento, que tolerou athé ha,·er sofrido hum trato es·perto inteiro, e hum
quarto mais em ametade do corpo. E requerendo então se lhe suspendesse
o tormento, por que queria dizer a verdade: E mandando suspender o
me!'mo tormento no gráo em que se acha,·a: Declarou nelle debaixo do
juramento que tinha tomado, pelo que respeitava a Terceiros o seguinte:

Que em caza do Duque de A' eiro se tinhão praticas com os parentes,


das quais elle Duque, e a Duqueza sua mulher persuadirão aos 1\larquezes
de Ta,·ora sogros delle Respondente, e a 1\lanoel de Ta' ora seu Tio a
necessidade que ha,·ia de se effectuar a beneficio de todos o cazamento da
Princeza 1\ossa Senhora com o Sereníssimo Senhor Infante Dom Pedro: E
o muito que importava para se efl"ectuar o dito cazamento, que se tirasse a
El Rey 1\osso Senhor a sua preciozissima e gloriozissima vida.

2.

Que em caza dos ditos .i\larquezes seus sogros, e principalmente a


.i\larqueza Dona Leonor de Ta,·ora, se falla,·a no governo d'EI Rey ?\osso
Senhor com a\·ersão, e odio, dirigindo-se a dita Ll\larqueza em tÜdo pelo
espirito, e conselhos do Padre ~lal~grida.

I :> I

3.

Que o ~Lirquet Fran..::is(:o de .\ssiz de Tavora sogro delle Respon-


dente, e seu (:Unhado .lozé ~laria de Tavora, filho do sobredito Marquet,
com ctfeito se ad1ar<Ío nas emboscadas, e esperas, que na nmlte de trez de
Sctemhro proximo passado. se fiterão, para ser e~ecutado o horroroLo in-
sulto, com que naquella nuute se attentou contra a Suprema i\lagestade
d'El Rey ~osso Senhor.

E que tambem hé \·erdade, que nas mesmas esperas, e emboscadas,


se achou o Duque de -\\·eiro com alguns dos seus criados na sobredita, e
infausta notne.

='·

E que emfim era tambem verdade, que nas mesmas esperas, e em-
boscadas se tinha achado Braz .lozé, cabo de Esquadra da companhia do
Marquez, cunhado ddle Respondente.

E logo foi mandado aliviar do tormento, que fóra delle, appro\ou, e


ratificou, o que tinha dito, e declarado debaixo do mesmo juramento, que
tinha recebido, pelo que tocava a Terceiros; que de tudo se fez este auto,
e .termo de perguntas, e de juramento, que todos assignamos, e eu a rogo
do Heo, por não poder assignar, e o escre\·i. =-Sebastião .lozé de Carvalho
e ~lello =Pedro Gonsalves Cordeiro Pereira=- .lozé Antonio de Oliveira
:\lachado. = A rogo do Respondente= Joté Antonio de Oliveira :\lachado.

TER~lü DE RA TIFIC-\ÇÃO

.\os trinta e hum dias do me7 de Dezembro de mil setecentos sin-


coenta e oito annos, nesta Quinta de Sua ~lagestade, chamada do :\leyo, e
apozento em que se acha prezo em segredo Dom Jcronimo de Ataide.
Conde de A touguia, ahi foi vindo o Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor
Seba!ootião Jozé je Carvalho e :\lello, Secretario de Estado dos Kegocios do
Reino, e o Dezembargador do Paço Pedro Gonsah·es Cordeiro Pereira,
Juiz da Incnntidencia, que tambem sen·e de Regedor comigo Jozé Antonio
de Oli\·eira ~tachado, Dezembargador da Caza da Supplicação, ahi estando
prezente o dito Dum Jeronimo de Ataidc, Conde de Atouguia, lhe foráo
lidas, e declaradas por mim as respostas, declai-açoens, e C<;ntissoens, que
ha\ ia feito, se tinha alguma: couza, que acrescentar, diminuir, ou declarar.

E pelo dito Respondente foi dito, que tudo esta\ a na \·erdade, como
eU e tinha confessado, o que novamente.! apprm a, e ratifica, debaixo do jura-
mento, que tinha recebido, pelo que tocava a Terceiros, e que nada mais
tinha que acreicentar, diminuir, ou declarar, de que tudo fiz este termo,
.
1:12

que comnosco assinou, e eu Jozé Antonio de Oliveira .\lachado que o escrevi.


=Sebastião Jozé de Carvalho e .\lello = ~Pedro Gonsah·es Cordeiro Pc~
reira= Oli,·eira .\I achado= Dom Jeronimo de Atai de.

E dicc mais, que tinha que declarar, que entre as pessoas, que fre-
quenta\ ão a can dos .\larquezes seus sogros. e nella falla,·ão com a\·ersão
ao go,·erno de Sua ~lagestade, se comprel~endia o Conde de Obidos, pela
amizade que tinha na sobredita caza. Porem que não sabe elle Responden-
te, que o dito Conde concorresse immediatamentc para o dito insulto na
noute de trcz de Setembro prm::imo passado; De que fiz este termu de de-
claração, que comnosco assignou, e eu Jozé Antonio de Oli,·eira .\lachado
que o escrevi.= Sebastião Jozé de Can·alho e "lei lo= Pedro Gonsah es
Cordeiro Pereira= Jozé Antonio de Oli\·eira .\I achado= Dom Jeronimo de
Ataide.

APPE!\ÇO 1 8.

PFRC.U!IOT.\S FFIT.\S .\0 llt:l_,!l"E llE .\\'EIRO

Auto de perguntas feitas ao DuqLÍe de A ,-eiro em \"Ínte e quatro dn


mez de De?embro de setecentos sincoenta e oito .

.-\nno do Nascimento de Nosso Senhor Jezus Christo de mil setecen-


tos sincoenta e oito annos, neste lugar de Belem, e Quinta de Sua .\lages-
tade, chamada do l\leyo, aonde foi ,-indo o Illustrissimo, e Excellentissimo
Senhor Sebastião Jozé de Carvalho e .\lellu, Secretario de Estado dos I\c-
gocios do Reino, e o Dezembargador Pedro Gonsah·es Cordeiro Pereira,
Dezembargador do Paço, Juiz da lncontidencia, que tambem sen·e de Re-
gedor. cm companhia de mim Jozé .-\ntonio.de Oli\eira .\lachado. Dczem-
bargador da caza da Supplicaçii.o, Juiz Commissario neste sitio, por Decreto
de Sua .\lagestade, e no~neado para escre\·er nesta diligencia, para etfeito
de fa7er perguntas ao Reo o Duque de .\.\·eiro, que lhe forão feitas pela
maneira seguinte.
a
I.

E perguntado, como se chamaYa. e aonde era morador, que idade


tinha, e com quem hé cazado.
Respondeo. que se chama\ a Dom Jozé "lascarenhas, que hé cazado
com Dona Leonor de TaYora, que hé morador no Lugar de Relem, e que
tem de idade sincoenta annos.

E perguntado se sabe ou suspeita a cau7a da sua prizãu.


Respondeo que não sabia de certo a cauza da sua prizão. E que so
suspeita\ a llliC podião ser os motiHlS ddla o~ tiros que se derãu em Sua
~bgesta~le.

·' ..
•1 I

E s!!ndo admoestado primeira, segunda, e terceira H:z, llUC Yisse, que


com a impenitenda, c com a negatiYa. fazia a sua culpa mais enorme;
por quanto se proYaYa plenamente, que dle sabia de scicncia certa a cauza
da sua pritão.
Respondco, que tinha dito, c ins;stio em que nada mais tinha que
accrcsccntar.

E perguntado, que n:ío senindo de nada a sua obstinada negati,·a,


contra a plena prova que hü, dt: que ellc Duque antes, c depois do sa.:ri-
lcgo insulto de trez de Setembro pruximu preterito, ouYio falar, c falou,
sobre clle com ditferentcs pessoas de Yarios Estados: DcYc logo dechtrar
quantas, e quais furão as ditas pessoas, o estado de cada huma dellas, os
diYersos tempos cm que lhes ouYio falar, c falou com as mesmas pessoas
<i cerca do referido insulto; e as cauzas, ou mutiYus, que para elle se com·
mctter furão imaginadas e assinadas pelas ditas pessoas.
Respondco insistindo em que nada soubera ü cerca do referido insul-
to, antes de commettido, I! que só depois do mesmo insulto, perguntando
ao :\larquez de Anjeja. qual tinha sido a cauza da queixa de Sua l\lagcsta-
dc, lhe respundeo, que fora huma queda. E que succcdco n.a tarde do dia
proximo seguinte ao dito insulto.

E instado, que nssc que falta,·a <i ,·erdadc, porque sendo esta, que
ellc na mesma manhã proxima seguinte ao insulto, mandara pedir <i .\lar-
queza de Ta,·ora Dona Thereza,. que lhe fallasse por hum criado de pe
Antonio Dias, em hum lugar Trecciro, que não fussc. nem a caza da ~lar­
llUC7a, nem a dellc Duque: E falando-lhe com ctfeitu cm caza de Caetano
Escarlate : lhe significara dlc Duque de .-\ ,·eiro, ~1ue estm·a muito assustado
do que um· ia, c que lhe dicesse o que haYia a respeito do referido insulto l• ).
E que como a dita ~larqueza Yerosimelmcntc o informara dcllc: E ellc
Dul.Jue, pelo susto com que tinha buscado a dita :\larqucnt, mostraYa bem
a precedente noticia liUe tinha do sobredit<;' insulto: se seguia que faltm a
à· wrdade em di1er qve a primeira noticia, que delle tiwra fora a que se
lhe participara pelo .\larquez de Anjeja na sobredita forma.
Respondeu, que clle não mandara o· dito· recado de manhã como se
intendia, mas sim de tarde, depois de haYcr fallado ao :\larquc1 de .\njeja,
e que a primeira scicncia, que ti,·era do r_eferido insulto, tura porque logo

1 1) Puz esta interlinha, e risquey estas trez regras e meia no mesmo acto d.1s rer-
guntas na rrezença dos Ministros assistentes a ellas. = Olin:ira =Com duas rubri.:as.
pela manhã proxima seguinte a elle, pelas sete, ou oito horas da manhã, o
fora avizar o Padre ;\lanoel Ignaciu assistente em sua caza, que no Paço
havia noYidade, porque tinhão sido chamados a elle Cirurgioens. E que
chamando logo outro criado de pé dos que acompanha,·ão a elle Duque
por nome João Miguel : E perguntando-lhe com que ràzáo havia dito ao re-
ferido Padre :\lanoel Ignacio, que muito bem sabia o que havia no Paço,
porem que o não havia dizer a ninguem, ainda que o matassem: Respon-
dera o dito João 1\liguel, que tinha ouvido a hum ·criado da 1\larqueza de
Tayora Dona Thereza, que era seu Bolieiro, chamado 1\'lanoel Jozé, que
naquella noute havião d~do hun·s tiros em El Rey Nosso Senhor, dos quais,
ou com os quais havião ferido ligeiramente a Sua l\lagestade em hum
braço: E que finalmente sendo elle Duque conduzido por esta nosçáo pre-
Yia, deli a se seguira o recado, que na tarde do mesmo dia, ha' ia mandado
ü dita ;\larqueza de Ta,·ora; o susto com que hm·ia chegado á sua prezen-
ça; e a pergunta com que inquirira della se sabia alguma couza dos referi-
dos tiros, receando, que estes fossem machinados por alguma idea, e des-
pique do 1\larquez de Ta,·ora, sogro, e Irmão della sobredita Marqueza.

,.
-a

E sendo instado outra 'ez, que visse, que esta solução ainda conclui a
mais evidentemente a falta de verdade com que respondera ás perguntas
proximas precedentes, que nada sabia, athé ao tempo, em que fora infor-
mado pelo 1\larquez de Anjeja no Palacio d'El Rey Nosso Senhor; por
quanto agora dizia contraditoriamente, que o soubera pela manhã pelas sete,
ou oito horas da manhã em sua caza pelo Padre 1\'Ianoel lgnacio, e pelo
criado João l\'Iigud.
Respondeo, que não tinha outra consiliaçáo dessa contrariedade, que
não fosse a de que quando dice, que a primeira noticia, que tivera fora a
que se lhe partic;para pelo 1\larquez de Anjeja, fallara da primeira noticia
certa: E que não fallara entáo nesta noticia, que lhe haYião dado os ditos
Manoel Ignacio, e João Miguel, por que ainda a não tinha por certa, e
decizi,·a.
s.a
E sendo outra ,-ez instado, que Yisse que esta cunsiliação deixm·a a
sua negativa no mesmo, ou em peior estado: porque sempre se provava
que as primeiras noticias furão as dos_ sobreditos l\lanoel Ignacio, e João
Miguel, referindo-se ao Bolieiro ;\lanoel Jozé, e sendo no conceito dellc
Duque tais, e tãa- poderozas, que o puzerão em todo o s~Isto com que bus-
cara a l\larqueza de Tavora, como tinha asima confessado. Donde rezultava
huma demonstração, de que nem a noticia do 1\1arquez de Anjeja, que re-
feriu a queda, foi a primeira, como elle Respondente havia affirmado; nem
elle Respondente podia ter crido similhante noticia, dq·ois das outras de
;\lanoel Ignacio, e Juão Miguel, que tinhão precedido: nem elle Respon-
dente, fizera das tais noticias de :\lanoel lgnacio, e João Miguel o pouco •
cazo, que agora pertende persuadir, pois lhe haYião cauzado o referido
susto, e lhe havião dado o urgente motivo de buscar a sobredita Marqueza,
com aqudla atllição para saber ~c . havia_ sido _u ~larquez ~c Tavora seu
lrm<ío, e suoru o que dera os rclendos trros; la.:ros os qua1s de nenhuma
sorte se poJem adoptar <i perfunctoria noticia da queda referida pelo ~lar­
qucz de .\njeja.
Respondeu que ha,·ia satisfeito com o que ha,·ia dito, porque assim
passara na verdade: porque não era inconsili.nt'l, liUe elle Responde.nc
procurasse a dita ~larqucza para o tirar do susto, nem o tendo elle conce-
bido pelas primeiras noticias.

E sendo mais instado sobre o referido, para que declarasse os justos,


e verosímeis motivos que tin~ra, para que sobre a nus.;:<ÍU geral, c indeter-
minada, de que se havião dado uns tiros em El Rey ::\osso Senhor, bus-
casse Iugo a referida ~larqucza- de Tavura Dona Thereza atribuindo com
cuidado, e susto ao subredito ~larquez seu sogro, e Irmão os referidos ti-
ros : sendo racionavelmente certo, que tais tiros não atribuiria ao dito
~larquez, se não tivesse alguma precedente pratica, ou nosção, de que elle
os pertendia dar. prin.:ipalmente quando era notoria a uniüo, e manifesta a
convivencia que havia, entre as referidas familias delle Respondente dos
~larquezes de Ta,·ora, Pay, e rilho. e do Conde da Atouguia: de sorte,
que ,-ivendo quotidianamente lmns com os outros não podia haver em alguma
destas famílias dispozição. ou movimento, que logo não transpirasse para
as mais, que vi,·ião naqudle frequente, e successivõ trato.
Respondeu, que a verdade era, que as referidas famílias tinhão tudo
o trato, e com·ivencia asima indicados. Porem que ta:-r.bem o era, que elle
ResponJ.ente, nunca fallara com os ~larquezes de Ta,·ora, e Conde de
.\touguia nos factos, a que depois au·ibuio o motivo dos referidos tiros ;
nem soube, que os ~lar'quezes de Ta,·ora, ti,·tSsem Jus referidos factos
algum conhecimento. E só se asustou, como tem dito porque havendo sa-
bido, que o .\larquez de T a\·ora Pai, percebera os referidos factos em h uma
festa que se fez em caza do ~larquez seu filho no dia vinte e no\·e de
Agosto: E conhecendo que o sobredito ~larquez Pay, fora sempre muiro
delicado nas materias de pudunur, e honra: receara que estimulado pelo
mesmo pudonor rompesse no referido ex.:esso ~ sem que da parte ddlt'
Respondente hom·essc outra alguma razão, que não fosse a do conheci-
mento do caracther do dito ~larque7 Pay para fundar o sobr~dito susto.

10. 3

E sendo instado, que esta resposta de nenhuma sorte rele,·ava, por-


que alem de ser atfectada, e im erosimel ; porque não cabia no juizo huma-
no, nem que os ditos ~larquezes de Ta\ ora, e as mais pessoas das famílias
referidas, ignorassem o que era notorio aos estranhos; nem que clle Res-
pondente ignorasse tão pouco, que os sobreditos ~larquezes er<Ío scientes
dus sobrcditos factos, nem que nas com ersasões domesticas, deixassem de
fali ar nelles huma, e muitas 'ezes; era notoriamente falso, e fingido o funda-
mento da dita resposta, quai era o pertendido pudonor do dito ~larquez
Francisco de Assiz de Tavora; porque nem no foro politico houve athé
agora olfensa capaz de produzir empenho, e duelo, se não entre particula-
res de uns para os outros, porque achando-se todos na mesma linha de
Vassallos, se dü entre elks, ou absoluta, ou respectiva competencia; nem
athé agora intentou V assa !lo algum em toda a Europa concurrer com a
Suprema 1\'lagestadc cm similhantes cazos pela dita razão de se achar o
Throno muitas Esferas asima da competencia, e da temeridade dos V assai-
los; nem a Historia deste Reino antiga, e moderna hé esteril, mas antes
muito fecunda de cazos similhantes sucedidos, com famílias, muito mais
opulentas, e de maior Yulto, assim no Reino, como fora delle, sem que de
tais cazos se seguissem outras algumas consequencias que não fossem, ou
o sacrafi.:io de hum profundissimo silencio, ou quando mais a dissimulasão
de hum prudente, c decorozo retiro; nem o sobredito 1\larquez de TaYora
hé tão mstico, e de tal sorte barbara, que ignorasse o refendo, sendo no-
torio a todos, e ainda aos mesmos \ ÍYentes que não sabem nem ler, nem es-
creYer; nem di e Respondente hé tão falto de uzo de razão, e do conhecimento
do Mundo, e da Curte, que tiwsse a sacrílega ouzadia de se persuadir a
que no dito ~Marquez podia caber a idea do despique com Sua 1\'l.agestade,
se nada mais hom·esse, e se outro não fosse o intento deste horrível sacri-
legio ; rezultando de tudo por clara consequencia, a indispensavel nec_essi-
dade, em que elle Respondente se acha de declarar quais furão os outros
certos, e percizos motin1s, com que se cometteo, e atribuio no receio delle
Respondente ao sobredito l\laryuez de TaYora Pai, tão exacrando, e detes-
tavel insulto. I •
Respondeu, que se referia, ao que já tinha dito.

E perguntado se na infaustissima noute de trez de Setembro proximo


passado, ou antes della, fallou a algumas pessoas na Barraca das terras,
no Jardim, e ü porta do mesmo Jardim, quantas, e quais farão as tais pes-
soas, a que horas pouco mais, qu menos fallou com cada huma dellas, o que
lhes dicer~ío, as tais pessoas; nayuellas occazioens em que lhe fallaráo; e
com quantas das ditas pessoas fallou de cada vez.
Respondeo, que nem antes do referido insulto; nem na noute em que
se commetteo fallou sobre elle com pessoa alguma nos lugares asima in-
dicados, nem chegou a alguns dclles na referida noute: mas antes vindo do
Paço pelas dez horas da nuute, caminho direito para sua caza, guiado de
hum archote, c assim introu na mesma caza; que nella achou o dansarino
Andre, e o i\larquez I .uiz Bernardo de Tavora : Que com elle, e com a fa-
milia da caza esteYe thé ü meia noute, em que se foi deitar. E isto hé o
yue na Yerdade passou.

E sendo perguntado se elle Respondente na dita barraca das terras,


mandou pôr algumas cadeiras, e bufete em lugar separado, e o mais neces-
sario para ali ter algumas particulares conferencias; quantas foráo as ditas
conferencias; as pessoas com quem se ti verão; e as materias, que nella se
tratarão.
Respondeu, que tudo era falçu.

,, a
f_l.

E sendo instado, qu~ 'isse o que dizia, porque os ditos l~tctos, se


achavão contra elle provados.
Respondeu, reduzindo-se à mesma absoluta, e total negativa.

E" sendo perguntado se mandara comprar alguns ca,·al\,,s desconheci-


d~o>s,
e armas de fogo a algumas pessoas da sua confiança, uu confidencia,
para se commetter aquclle horrorozissimo sacrilcgiu,
Rcspundeo com outra absoluta negativa de todos us referidos factos.

E sendo outra ,·ez admoestadl•, que ,·isse o que ditia. porque us re-
feridos factos se achãu contra elle pro,·adus: E que por discargo da sua
consciencia, sah aç;;íu da sua alma. e justa restituição du~ damnus, que ha-
via cauzadu com trato sucessi,·u, pelo tempo futuro, era obrigado a declarar
us cumpliccs de huma conjuração tão pernicioza; de tal sorte, que sem os
declarar, nem podia esperar absolvição de confessor prudente nem poderia
esperar com juilo christ;.io que Deos :\osso ~enhor lhe perdoü tão enormes
peccados, sem fazer cessar com a declaração dos mesmos cump\iccs, todos
os gra,·es dam•~os. c todo u prejuízo. de pessoas· :nnucentes, que os mesmos
cun1plices cauzarião. não sendo descobertos.
Respondeu com outra absoluta, e total negativa.

E sendo perguntado, q~1c por ser certo, que hum tão atroc-issi~1o de-
licto, se não podia humanamente commetter sem alguns fins tão enormes,
e exacrandos, como a torpeza do mesmo delicto : E achando-se delle con-
vencido o Reo de,·e precizamente declarar, quais furão aquelles diabolicos
fins; quais os seus inventores; e quais os machinadores dos abomina\ eis
meios, para se passar a tão infames fins·; ou das conjuraçoens. e confede-
raçoens, que se tor':Ilarão com aquelles detestéH"eis objectos.
Respondeu. que por discargo da sua conscicncia. dedara,·a. que ha-
verá trez mezes pouco mais. ou menos, llt.wd.u-,t ~.·h,un.u· pm· hum p:uurd.t
r·ou}ht. que actualmente sen·c a elle Resp•mdente por nome :\lanoel .\h·ares
a hum Irmão deste, chamado .lntunio .-lb·,u·es. morador em .\\fama. ou
nos Olintis. E que 'indu o dito .\ntonio .\h· ares fali ar a elle Respondente,
lhe propozera ser elle, o que ..:ommettc'>se o sacrílego insulto, debaixo da
e:xpressãu, de que h<n ia atirar a huma s~gc. que lun·ia passar pela calsada,
I 58

que vai da Quinta du ~leio p.ara o Paço de :'\ossa Senhora da .\juda: que
o dito .lntonio .lb•<1res se encarregou da referida diligencia, dizendo com
tudo, que elle a não podia e'\:ecutar por si somente : Que por isso fallou o
dito .lntonio .llmres a hum seu cunhado chamado ./ol_é Policurpio de
.l\eJ•edo, para associar nos referidos tiros, que elle Respondente mandara
dar na sobredita segc : Que unindo-se ambos, receberão ddle Respondente
dezeseis moedas por h uma ,·ez, quatro ·por outra 'ez, e Yinte moedas por
outra: Que pm· este premio somente executarão o referido mandato, discar-
regando os tiros, de que recebeo a otfença El Rey :'\osso Senhor:· Que de-
pois dt! lwrerem dudo os referidos til·os, fugirão logo nos ca\·allos que
ha,·ião comprado para este etfeito, sem que elle Respondente os tornasse a
ver naquella noute: Que mandando elle Respondente chamar dois dias de-
pois daquelle infaustissimo sucesso o mesmo aggressor Antonio Alvares~ e
,-indo elle com efteito de noute a can delle Respondente o ,·ira então pela
primeira vez depois de ha,·er sido commettido o referido insulto: Que então
lhe contara os effeitos, que havião tido os sacrilegus tiros, recomendou-lhe
o segredo daqudle horrendo cazo: Que os motiros, que tez•e elle Respon-
dente para se precipitar em hum tão inaudito, e tremendo absurdo, farão a
ira, e a paixão. que dezordenadamente concebera, contra a Real, e sacra-
tissima Pessoa de EI Rey :'\osso Senhor, por lhe haYer impedido com as
_suas Reais Ordens o vencimento da cauza das commendas, que tinhão an-
dado na Caza de .\xeiro, e a celebração do matrimonio, que tinha ajustado
com licença de Sua ~lagestade, entre o ~larquez de Gom·ea, filho delle
Respondente, e Duna ~largarida de Lorena, filha dos Duques do Cada,·al.

I~ a,.
E sendo perguntado sobre a confissão dos referidos factos, quais erão
os meios, que se tinháo proposto, para passar aos fins de obter as referi-
das commendas; e de etfectuar aquelle matrimonio ; sucedendo, ou depois
de suceder o infaustissimo, e tristissimo cazo, de se seguirem dos referidos
tiros todos os malignos elleitos a que foráo ordenados por elle Respon-
dente; quando era certo, que não podia occultar-se ao seu claro conheci-
mento, que depois de huma tão estranha, e insolita atrocidade, não podia
dei\.ar a Corte de ficar redll7ída a huma confw:ão, que traria após de si
muitas alteraçóes, a que elle Respondente não poderia rezistir, sem ter
feito confederação com pessoas capazes de poderem sustenta-lo no meio de
tão disformes perturbaçóes; principalment~, quando consta, cjue dle _Res-
pondente tinha a\·ançado nas terras de que são Dunatarias as referidas
commendas, ditferentes promessas, e esperanças, de que não importava,
que perdesse a cauza, julgando-se contra elle, porque sempre as commendas
ha,·ião ser suas.
Respondeu, que a mesma illuzão do Demonio, que precipitou a elle
Respondente em hum tão detestaYCl Parricidio o enganou tambem para
persuadir-se a que tirando du meio o gO\·erno d'El Rey :'\osso Senhor se
seguiria necessariamente a elle o governo do Serenissimo Senhor Infante -
Dom Pedro. E que tendo elle Respondente huma longa experiencia do
muito que a sua Pessoa era ~rata ao mesmo Serenissimu Senhor Infante
Dom PeJru; esperava conseguir facilmente de Sua .\lteza, tuJo o que
Sua -'lag~staJc lhe havia imp~Jido aos ditos respeitos das cummcnJas, e
Ju matrimonio Ja caza Ju Cada,·al.

.......
'"' a

E scnJo instado lJUC r~parc ml'ihur nu que tem Jito, porque sendo
.::crtu pela m~sma e,·iJcncia Ju f<Ktu, que nem o Sereníssimo Senhor Infante
Dum P~Jro, lhe continuaria o seu Real agrado, depois d'clle Respondente
. s~ achar indiciado, c suspeito cm tãu atroL dclicto, como naturalmente o
seria no juiLu de todos os -'linistros, e pessoas, que sabiii.o das suas per-
tenções asima referidas. n~m o m~smo Senhor Infaútc, tendo parte con-
sid~raYel no go,·~rno do Reino, se poderia confiar delle Respondem~,
ou de outra alguma pessoa, para lhe fazer, ou procurar tão e\.traordina-
rias mcrces acabando de ver seu Augustissimo RcY, ~ Irmão assassinado
por tão barbaro modo, em qu~nto tlão descobrisse, e separasse dos \·as-
sallus ti.~is os Reos de hum tão cnormissimu, e perniciuzissimn ddicto:
Vinha a ser nulla a sahida pr~textada na sobredita forma por elle f{es-
pundentc, com a esperança que persuadiu han~r fundado no favor do
m~smo Sercnissimn Senhor Infant~ Dom Pedro, fan)r que não podia ter
lugar em similhantes termos, para ser esperado por elle Respondente: E
vinha a ficar sempre em todo o seü ,·igor a mesma instancia, e a mesma
prczumpsáo de Dit·eito, que afunda para se intender, qu~ outro mayur, e
mais certo interesse fora o que elle Respondente espcr<n·a achar depois de
nos privar da \ugustissima Pessoa, e do gloriozissimo gU\·crnu d'El Rey
~osso Senhor. E este interesse para ter alguma proporção com tão grande
dclicto, não podia raciona,·elmente ser omro·intcresse, que não fosse o de ter
ellc Respondente segura, ao seu parecer huma confederação de pessoas
Ecdeziasticas, e Seculares, p<lra se sustentar a si, e as ditas pertcnçõcs,
cm tão tristes, tão inhabcis, e tão cscandalozas circunstancias. Donde torna
a rezultar a perci1a necessidad~, em que o constitue aquella prezumpsáo d~
Direito, que per si hc.! plenissima. e liquidissima prm·a de descobrir quais
furão . as referidas pessoas; quais os conselhos, que dcllas recebeo clle
Rcspond~ntc; e quais as confederaçuens que fez com as ditas pessoas.
Respondeu, que agora conhece que se poderia t~r enganado .:um a
~sperança que funda,·a no futuro fa, o r do Ser~nissimu Senhor Infame
Dom Pedro~ mas que não ti\·era, nem procurara outra segurança para se
defender a si, e sustentar os rt:f~ridos •scu.s interesses, depois que infclil-
mente sucedess~ a tremenda fatalidade, que fa o seu hnrrorozissimo objecto.

I~). ·•

E sendo outra 'ez admoestado, que esta solução nãu satisfa~:ia a ins-
tancia que se lhe tinha posto : por quanto por huma rarte ~ra certo que os
Religiozos Je1uitas, ha,·i<ío pmgnusticado. c feito crer a gt·ande parte do
Po,·u de L;sbua. c espalhando nus Rl.'inus Estrangeiros, tJlle a preciozissima
,·ida d"EI Rcy ;\osso Senhor, não pudia Sl'f de gran~ic duração, chcgandn
a limitar o pr<li:U da mesma .\ ugustissima, c importantíssima 'ida ao me~:
de Sctcmbr._, deste prclente armo; me/ cm cujo tcr.:ciro dia se procurará<J
itJO

por elle Respondente verificar estes infames prognosticas,. pelo horrendo


insulto, que todos deploramos, e deplorarão sempre nestes Reinos, a honra,
e a fidelidade dos mais remotos scculos: Por outra parte se v!o com outra
igual coherencia, que ao .mesmo passo, em que os sobreditus Religiozos,
procurarão calumniar nestes Reinos, e em toda a Europa a alta reputação
de Sua Magestade, e a honra de seus fieis ~linistrus, hia elle Respondente
<i mesma imita·;ão nnlquistando com queixas a'fectadas, e clandestinas o
governo dl>· mesmo Senhor, e a civilidade, e justiça do seu honrado, e recto
Ministerio, para lhe suscitar discontentes, e excitar inimigos nus tempos
proximos precedentes ao dito insulto, e logo depois delle: Por outta parte
se ,.ê com outra similhante coherencia, que estes ~lachavelicus meios de
malquistar com calumnias os Reis, e seus ;\linistros, e de lhes machinar a
morte quando não são uteis para os fins, que delles se pretendem, são os
mesmos identicos meios, que se achão escriptos, e indignamente tolerados
em ditferentes Escriptures da dita Religião da companhia: Por outra parte
hé igualmente certo, que os referidos Religiozos, escrevendo para todas as
cortes da Europa, athé o tempo do insulto de trez de Setembro proximo
precedente, -e ainda depois delle, em quanto durou a infermidade d'El Rey
Nosso Senhor, cheios de arrogancia, e de soberbo orgulho, que havião de
triunfar bre,·emente de todas as dispuzições d'EI Rey Nosso Senhor, com
o declarado motÍ\'!), de que ao mesmo tempo, em que a corte os tinha
abandonado,_ se hiãu cada ,·ez achando mais poderozos, pela união da No-
breza, que se lhe hia agregando; se vio contraditaria, e repentinamente,
desde a hora da prizão d'elle Respondente, e das famílias, com elle proxi-
mamente aparentadas rentre as quais ha\·ia pessoas, que recebião instrucçoens,
chamad:1s espirituais dos tais Religiozosl que toda aquella arrogancia, e
soberba cahirão desanimadas,· em hum tal desalento, que desde logo prin-
cipiarão a escrever ·para as mesmas Curtes Estrangeiras : Que esperando
hum grande bem, que esta\ a mui proximo, havião experimentado em lugar
delle hum mal grande, porque o Respondente, e as famílias de Tavora, se
achavão reduzidas a estreitas pri?oens ; Concluindo, que esta,·ão de todo
arruinados: E que lhes não fica,·a a que recorrer, se não ás oraçoens, que
fa7ião, e aos exercicios, que lhes dava o Padre :'\lalagrida: Acrescentando
que por instantes espera,·ão serem alguns encarceraJos, e todos expulsos
do Domínio de Sua ~lagestade. E rezultando de todas estas coherencias dos
factos delle Respondente, e seus Aliados, e Parentes com os factos, e com
os escriptos dos ditos B.eligiozos .Jezuitas huma demonstração evident~, de
que todos obravão de acordo commum com vs mesmos perniciozos fins de
arruinarem a aurhoridade Regia, o ~linisterio, e o Benificentissimo governo
de Sua I\lagestade: Demonstração, digo, a qual torna a constituir a elle
Respondente na indispensa,·el obrigação de declarar como, e porque modos,
e como, e por quem se tratarão os ajustes, e as confederaçoens, de que
rezultou aquella uniformidade de factos, e de sentimentos, entre tantas
pessoas tão diversas ? ·
Respondeo, que em nenhum tempo, tinha feito cvafederação, ou
ajuste com alguma das pessoas asima indicadas : E que nem sabia, nem
suspeitava, que entre os ditos Padres, e as famílias de Tavnra, houvesse
alguma confederação, ou uni5o, llt.1S sim, e t.io somente que entre o ~lar­
quez Francisco de· Ass=7 de Tavora, c os ditos Padres, havia estreita ami-
zade, e que u P<1d1·e 1\f,Jf,J[.!,rid,J t'l"<l 1Jin!cltw espirilu<Il d.t .\l.trqm•'la
tGt

mulher do subrediro, c de sua filha a condcça de .\touguia, tendo-o ambas


no conceito de homem penitente, e justo, e que nada mais tinha que acres-
centar, sobre esta instancia.

Sendo-lhe ponderado, que era impnssi,·el, que se advinhase, que


El Hc\· :\osso ~cnhor ha\·ia sahir do seu Palacio na noute do terceiro dia
do :\uio, e cnserro cm lJUc se acha\·a 'pclla falta da Senhora R;l\·nha Cathu-
lica: E que assim dc,·ia declarar quem fora a pessoa que deu o· ponto certo
de que Sua :\lagestadc havia sabido ü tal h~ra do mesmo Palacio para ser
esperado.
Respondeu, que nem se lhe dera o dito ponto, nem era ncccssario,
em ra1ão de que tinha scicncia certa de que o mesmo senhor ,·inha em
todos os Domingos ü nuutc <i Quinta, cm cuja sahida o esperarão os e\.e-
cutorcs do horrorozissimo sacrilcgio, que se commettco contra a sua respei-
ta\ d, c Augusta Pessoa.

E por ora se lhe não fizcrão mais perguntas. que sendo-lhe lidas,
dicc que csta\·iio na forma, que lhe tinhiiu sido feitas, e ellc tinha res-
pondido", o que apprü\·a, c ratifica. E logo pelo dito De1embargador
JuiL da Inconfidcncia, lhe foi dado o juramento dos Santos Evang~lhos,
para debaixo dcllcs declarasse, se bem, e n<~. \·erdadc a tinha dito, p~lo que
rcspcita,·a a Terceiros; e recebido o dito juramento, dice que tudo o que
tinha dito,_ que rcspcita\·a a Tcrccin?s, era tudo ,·crdadc, de que_ tudo fiz
este auto de perguntas, c termo de JUramento. que comnosco assmou, cm
prczença do Illustrissimo, e Exccllcntissimo Senhor Sebastião Jozé de Car-
,·alho e :\lcllo, Secretario de Estado dos ~egocios do Reino, c eu Jozé
Antonio de OJi,·eíra :\lachado, yuc o escrevi, e assignei. =Sebastião Jozé
de Can·alho e :\lello = Pedro Gonsah-cs Cordeiro Pereira= Jozé Antonio
de Oli\·cira :\lachado =Dom Jozé :\lascarenhas.

SFGU~D.\S I'ERGU~TAS. E GDli:'/.\Ç.iO IUS PRI:IIEIR.\S

-\nno do :\ascimcnto de ~osso Senhor Jezus Christo de mil setecentos


sincocnta c oito annos, aos ,·intc c sinco do mez de Dezembro do dito anno,
neste lugar de Belcm, c Quinta chamada do "eyo. aonde veio o Illus-
trissimo, c Excdlentissimo Senhor Sebastião Jozé de Can·alho c ~ldlo,
Secretario de Estado dos ::\cgocios do Reino, c o Dezembargador Pedro
Gunsah-cs Cordeiro Pereira, D'ezembargadnr dn Paço, Jui1 da 1;1confidencia,
que sen-e de Regedor, comigo Jo1é .\;ltonio de OJi,·eira 'lachado, De7cm-
bargador da caza da supplicação, c nomeado para escrc\·cr nesta diligencia,
para ctfeito de fazer perguntas ao Rco Dom Jozé 'lascarenhas, as quais lhe
torão feitas pela maneira seguinte :

E perguntado o;cndo-lhe lidas ali primeiras perguntas, se csta,·ão na


forma, que lhe forão feitas, c elle tinha respondido, c se tinha l}UC accrc-
ccntar, diminuir, uu declarar.
li
Respondeu que quanto á primeira parte, esta\-ãu as perguntas, e suas
respostas, na forma que lhe tinhãu sido feitas, c elle tinha respondido, que
apprO\·a, c ratifica. E que em quanto á segunda por discargu da sua
..:ons..:iencia, cumu tiel christão, em cumprimento das obrigaçoens que tinha
de con..:urrer por vi~1 de restituisão para a tranquilidade do gm·erno d'El Rey
i\ osso Senhor, e para u sucego publico dos seus fieis Vassallus: Declara va,
que .1 m·iK!!m, e primáro priucipiu deste enormissimo attentado, forão
humas praticas, ou conferencias, que dle Respondente te\·e em São Roque
com o Padre João de ~lattos, e com o Padre .lu7é Perdigão, e em Santo
Antão .:um os Padres Jacinto da Costa, e Thimuteo de Oliveira; os quais
hindu elle Respondente busca-los han~rá sincu mezes pouco mais, ou menus,
e pr.1tic.vtdo-se sobre os meios, que lwJ•e,·ia p<11"<1 se t:ff"ectuar o nwfl·ifnouio
da p,·iut:eí_<l Soss.t Seu!wra com o Sereuissimo Seulzm· Infante Dom
Pedro, se assenlou entre todos os sobre-ditos de uniforme acordo, que o
unicu meio que havia para se cffe..:tuar o dito matrimonio, era o de se
machinar a morte d"El Rey Nosso Senhor; que sobre a baze deste
temerario assento, foi elle Respondente continuando em tratar com os sobre-
Jitos Padres, sobre esta ma teria; humas ve7es, hindo-os clle Respondente
buscar ás sobreditas cazas Religiozas, outras vezes ,-indo o sobredito Pro-
curador Geral, buscar a elle Respundente a sua propria caza para este "'
ne~o..:io : Que pelo meio das sobreditas reciprocas ,-izitas, e praticas o pre-
cipitarão os ditos Religiozos em hum tão e~acrando absurdo, prometendo-
lhe nellc indcmnidade: e dizendo-lhe que depois de ha\·er sido feito o
Parricídio da Real Pessoa de El Rcv ~osso Senhor, tudo o mais se ha,·ia
depois compor. Que sobre este ajuste-, e promessa se executou o dito sacrí-
lego insulto: Que porem depois delle ha\·er errado o seu detestawl objecto,
não tornara, nem a São Roque, nem a Santo Antão. E que ainda que o
dito Procurador Geral .llvé Perdigão buscou algumas vezes a elle Respon-
dente, fui a horas, que não estava em caza.

'E por se acha!' in.:ommodado :,.e lhe não fizerão mais perguntas, que
sendo-lhe estas lidas, dice estavão na .forma, 4ue lhe tinhão sido feitas, e
elle tinha respondido, que appru\·ava, e ratifica\·a. E Iugo pelo dito Dezem-
bargador Juiz da lncunfidencia lhe fui deferido juramento dos Santos E\·an-
gelhus para que debaixo delle declarasse se tinha dito a verdade pelo que
respeitava a Terceiros, c recebido o dito juramento, dice que tinha dito a
'crdade pelo que respeita\·a a Terceiros, que de tudo fiz este auto de per-
guntas, e termo de juramento. que assignou com os Excellentissimos Senho-
res Secretarias de Estado, Sebastião Jozé de Canalha e :\lello, e Thomé
Joaquim da Costa Corte Real, e Juiz da lnconfidencia, e comigo Jozé Antonio
de Oliveira :\lachado, que o escrevi.= Sebastião JnLé de Carvalho e 1\lello
= Thomé Joaquim da Costa Corte Real= Pedro Gunsalves Cordeiro Pe-
reira=Jozé Anton;o de OJi,eira 1\lachado=Dom .Jo7é :\lascarenhas.

I"Eill'EIR \S PFRGJ":'\T.\S_ E DFCL\R.-\ÇJi.O QIT O RFO CO:'\ n-.;rou.


SOI\RF O Ql'F H.\ \"L\ llFl.l .\R.\1>0 K\S TIIT.\S PFRC~I'\'T.\S I'ROXJ\1.\S PREIFf>E:s"TES

<\nnu du i\a!->.:Ímento de :\osso Scnhur Jc7us Christo Jc mil scte.:entos


sincuenta, e uitu ann•Js, em ,-ime oito dias du me7 ~lc Dczembrll ~lu d:tu
anno, nesta Quinta d~ ~ua 'lagesta-.i~ chamada do 'lcyo, aonde li>i ,·indo
o lllustrissimo, c Exc~ll~ntissimo ~enhor- ~cbastião Jn1é de Can-alho e
'ldlo ~ccr~tario d~ Esta..Io dos :"oo~gocius do -Heino, c o D~t:embargador do
Paço p~,iro Gunsaln~s Cordeiro Pcr~ira Juiz -.ia lncontid~ncia, comigo Ju~.:é
.\ntonio de ( lli,·eira 'ladtado Dez~ml~argador da caza da supplicação, e
nomeado .para ~scn:,·~r n~sta deligencia, para elfeito de fazer perguntas ao
DlllJlle d~ \ n:iro, pr~i'O ~m segredo nesta dita Quinta, <i ordem de Sua
'lagcstade, as quais lhe furão feitas pela maneira seguinte:

E p~rguntado pelas matc.:rias, que nas ditas rerguntas pro~imas prc-


c~ ..i~ntes, dic~ niio pudia declarar rur se achar incommodado, sendo as
mesmas materias de muita importancia.
Respondeu, que o sacrílego insulto, de que se trata, te,·c por baze, c
prim~iro principio, hum discurso, que Jacinto da Costa da Companhia de
.lei'US te\·e a dlc Respondente associado de Thimuteo de OJi,·eira da mesma
Religião; ronderando no. dito discurso, que EI Rcy ;\osso Senhor dilata,·a
tiranamente o cazamemo· da Princeza Nossa ~enhora com o Sereníssimo
Senhor Infante Dom Pedro: Sendo a dilação do mesmo cazamentt' contraria
;i intensão dos Po,·os; e tambem contraria aos interesses do Reino, porque
este cahiria em Príncipe Estrangeiro, se o mesmo Sereníssimo Senhor
Infante Dom Pedro falecesse, pendente a dilação du sobredito matrimonio .
.AcrecentanJõ sobre este dt~lozo, e sacrílego pretexto, que não peccaria, nem
le,·emente, quem fosse Parricida d'El Rey Nosso ~enhor, tirando a ,-ida ao
mesmo Senhor, com o fim de fazerem cessar a tirania com que Sua ~lages­
tade impedia a celebração do dito matrimonio. E declarou mais que todo o
referido discurso fora apprm·ado pelo sobredito Timotheo de Oliveira. E
que sobre esta baze se furão continuando as praticas, e com-enticulos dus
outros dois Rdigiozus Jci'llitas João de 'lattos, e Jozé Perdigão.
Declarou mais, que communicara o referido discurso, e com·enção
sacrílega primeiro com seu cunhado Jo/iv dr! 7:u•cw.t, e depois com os JI.n·-
que,es Fr.mcisco de _tssi;- dr! T.tror.t, e Luiz Bernardo de Tavora, ani-
mando-os rara entrarem na conjuração com os mesmos pretextos, asima
referidos, isto hé do mal que os Povos toma,·ão a dilação do matrimonio
da Princeza :\assa Senhora, e da rertendida tirania do gm·erno de Sua
-'lagestade. e acrecentando, que nada ha,·ia que esperar do mesmo gm·erno,
e que por consequencia seria necessario desfazerem-se do mesmo gO\-cr"no.

E senJo instado p<lra que declarasse o etfeito que fez no espírito dos
sobreditos João de Ta,·ora e :\larqu~L Francisco de --\ssiz de Tavora, e
Luiz Bernardo de T an>ra h uma rropo!'ta tão temeraria, e de tão enorme
audacia, como a que clle Rcsrondenre lhes ha,·ia feito, na forma asima
declarada.
HespunJeo. que l~>go a.:hara .loiio ..I~ ·Ll\ ura prompto para ser dos
E~ccutures do *t.:rilegu insulto de lJUC se trata: Porem qu~, passados
alguns tempos reclamara aquelle sacrilegu offerecimento exortando pelo
c~ntrario a elle Respondente para que dezistisse de tão detestavel inknto,
pdu perigo a que se e:-..punha de perder-se a si, e a sua caza: E que neste
propuzito partira para a Província de TraL us .MontLs, e que não tornou
a haver cum elle pratica, ou escrípto, ácerca do referido insulto pelo que
pertence a elle Respnndente.
Que pelo que pertence aos dois Jfa,·que;es Fl·,wcisco de Assi\ de
TaJ'tJI"<l, e Luis Ren;,11·do de TaJ'ol·a, fallando com elles separadamente
subre a mesm<l proposta a receberão, e approvarão ambos, e entrarão com
elle Respondente na confederação, que com elle fizerãu, para se commetter o
sobredito insulto. Acrecentando, que lhe offerecerão cavallos, e o mais, que
necessario fosse, para se etlectuar o mesmo insulto, dandu por motivo para
a sua cooperação nu me!'mo insulto as grandes queixas, que elle l\Iarquez
Francisco de Assi1 de Tavora tinha du governo de Sua .i\lagestade por
falta de lhe não ha\·er dadu despachos competentes aos seus serviços.

E sendo a;nda instado para que declarasse quais forão os' auxílios, e
obras. com que os ditos dois Marquezes concurrerão para se effectuar o
mesmo insulto, na referida noute de trez de Setembro. ....
Respondeo: que o ;\largue? mosso, havia mandado dois cavallos para·
a cavalharice d"el\e Respondente, e que estes "servirão na noute do insulto
asima referido.

E sendo perp.untado quem foi nos referidos cavallos a auxiliar no


mesmo insulto na dita noute de trez de Setembro proximo passado em que
elle foi commettido. ·
Respondeu, que fora hum Cabo de Esquadra da companhia do 1\lar-
quez Luiz Bernardo de Tavora, de quem este costumava fiar-se, e hum
soldado da mesma companhia, ambos mandados pelo dito l\1arquez Luiz
Bernardo: E que os ditos Cabo de Esquadra, e soldado, se postarão no
alto da Quinta, que foi do Conde de Obidus, junto do lugar, por onde Sua
M.agestade entrava, quando se recolhia das Quintas de Baixo, e do Meyo,
para o Palacio da sua actual habitação.

" a
='·

E sendo outra vez instado para que declare u auxilio, cum que o '
l\larquez Francisco de Assiz de Tavora cuncurreo na mesma noute para o
sobredito insulto.
Respondeu, que havia dado a elle Respondente duze moedas de
quatro 111il e uutocentos para repartir pclus quatro executores do referido
insulto: a saber, seis moedas para os ditus Cabo de Esquadra, e soldado,
que furão manJados pelus ditos l\Iarque~:es: E outras seis para os que tlle
Respondente havia empregadtJ nu mesmo insulto, cum~ tem decl'aradu.
E sendo outra n:z instado que nja que as sobreditas repostas, não
satisfazem a pro\'a da Justiça, antes se achüo notavelmente diminutas; por
que consta, que na referida funestissima noute. andarão ma:s pessoas no
referido insulto ao tempo em que se commcttco, as quais depois fallarão com
ellc Respondente : E que dc,·c declarar quantas, e quais torão as tais pes-
soas, c os lu~ares cm que fallarão a elle Respondente, assim antes, como
depois dos rclcridos tiros, e as horas pouco mais, ou menos em que fallarão
com elle Respondente as ditas pessoas naquclla noute pela ultima vez.
Respondeu, que se não lembrava dos referidos factos, c que, requeria
careação com as testemunhas, que deites dcpozessem.

~ a
I.

~ E sendo perguntado se na manhã proxima seguinte á noutc do refe-


rido insulto, ou na manhã de quatro de Setembro proximo passado, hum·e
em caza dclle Respondente alguma conversasáo, sobre o mesmo insulto,
com jactancia de se haver commettido; quantas, e quais farão as pessoas,
que se acharão na referida com·crsasão, e o que nclla dicerão ao dito
respeito.
Respondeu que na sobrcdita manhã concurrcrão com ctfeito em ca7a
dclle Respondente os ~larquezes de Ta,·ora Pai, c filho Jozé ~laria de
Tavora, Ajudante· das Ordens do ~brqucz d~ Tavora seu Pai, J[,woe/ de
1~li'OJ",t, Irmão do mesmo ~larquez Pai, e a 1 Juque\,1 mulfle,. deli c Respon-
dente, e a Con.ie~·a .ie _ttoup:ui.t: E que quanto á conversasão que ti\ eráo
em ordem ao mudo, com que se tinha commcttido o i.1sulto. Dice cllc Rc~­
pondente, que não ha,·ia duvida em que de uniforme acordo de todos os
que se achaváo na dita com·ersasáo, ou conn:-nticulo, se accuzarão. e incre-
paráo os Executores do mandato dellc Respondente, que dispararão os dois
tiros sacrílegos; diLcndo todos os mesmos circunstantes, que furão muito
mal sucedidos, por não haverem penetrado por parte por onde acabassem
a Real ,-ida d"EI Rey :'\osso Senhor: (~ue 11.1 mesm,t com•er·s.tç.io, dice Jozé.
:\laria, "' judantc das ( )rdcns, estas formais pala\ ras: "Cá pelo homem não
havia escapan•. E que tambcm na mesma com·ersação, dissera o ~lan.]UCZ
de TaH>ra mosso, que use Sua ~lagestade, assim como tumou pela calçada
abai:\.o, tomasse pelo caminho de sima para se recolher ao Palacio da sua
habitação, que certamente. não escaparia com vida)). O que se referia á
emboscada que daquclla parte estava de rezen a, esperando o dito Senhor
depois dos primeiros tiros, que contra a sua Real Pessoa se tinháo disparado.

E perguntado, que queixa da,·ão o dito ~lanoel de Tavora, c o dito


Jo1é :\laria do goYcrno de Sua :\lagcstadc, cumu tambem a Conde.;a de
..\.tougia, para dczejarem ao mesmo Senhor hum mal tão grande, como a
morte; e para sentirem que esta se não hou\·csse !'>eguido _d'ayuelles infames,
e sacrílegos tiros.
Respondeo, que tudos assenta\·ão, em que u governo era máo, e que
delle se de,·ião dar todos por desconsolados; especialmente o dito .\bnoel
de Ta\·ora, por que lhe tinha Sua Magestade posto por coronel do seu Re-
gimento o Cunde de São Yicente, de\·endu-lhe dar a elle ~lan11el de Ta\·ura
~ mesmo Regimento; O dito Juzé l\laria de Ta,·ora por que Sua ~lagestade
u não tinha acrecentado, estando em capitão: e a dita Cundeça da Atouguia
pela disconsolação geral, e pela cauza cummua da Familia.

E perguntado, que auxilio, ou concurso derão a ~larqueza de Ta,·ora


Duna Leonor, a .Condeça da Atouguia, e seu marido o Conde, para a con-
federação, de que se trata, e para se commctter o insulto, que wyo em con-
sequencia della. ·
Respondeo, que a dita l\larqueza de Tavora Dona Leonor, haYia dado
dezeseis moedas ao ~larquez de Tavora seu marido, para este as dar a elle
Respondente; e para que este as desse em premio aos Executores du mal-
,·ado Parricidiu, que fazia o objecto da dita confederação cummua: Decla-
rando a dita 1\larqueza Dona Leonor, que dava uito moedas per si, e que as
outras oito erão pela dita Condeça de Atouguia sua filha.

lO. a

E perguntado com que obras concurreráu a dita 1\larqueza de TaYora


D. Leonor, e sua filha a Condeça da Atouguia, para fortificarem a dita con-
federação, e meterem nella gente, que se lhes agregasse.
Rcspondeo, que as sobreditas l\larqueza, c Condeça, meterão nesta
confederação Gabriel 1\lalagrida, João Alexandre, e Juão de 1\lattos~ todus
da Companhia de Jezus, com os quais communica\·ão, e se aconselhavão
sobre o mesmo insulto, e suas consequencias, participando sempre a efie
Respondente e seus socios, o que passa\·a ao dito respeito, com os sobre-
ditos abumina\·eis Rcligiozos.

E perguntado, que auxilio, e socorro prestou l\lanoel de T avora, para


a referida confederação, e para o sacrilego insulto, que fez o objecto ddla.
Respondeo que dera seis moedas para premiu dos Executores do re-
ferido insulto, e que não sabe que fizesse confederação, ou communicasse
subre ella cum outras pessoas, que não fossem os 1\larquezes de Ta,·ora,
Pait e filho, a .!\largueza de Ta,·ura Dona Leonor, e elle Respondente.

I 2. a

E perguntado se álem das referidas pessoas da fan1ilia de TaYora,


que tkão nomeadas, imrarãu na dita .:onfederação outras algumas pessoas
Ja mesma família, ou Parentes della: E quais sejão essas pessoas.
Respondeu llUe na mesma .:unfeJeração entrarão as Condeças da Ri-
beira ,\by, c filha, e o Conde Dom (~uido seu marido.

I 3. a

E perguntado com que pessoas communica,·ão as ditas Condeça, e


Conde Dom Guido sobre a mesma confederação, e o socorro com que au-
xiliarão o insulto.
Respondeu, que communica,·ão com Diogo da Camara, Religiu7n da
Companhia de Jezus com os :\larque7es de TaYora Pay, c filho; com a :\lar-
lJUeza de Tan,ra Dona Ll·unor; com a Condeça da .\touguia sua filha, com
elle Respondente, com a Duqucza sua mulher: E que concurrerão com seis
moedas para se perfalcrcm as ·quarenta, que se derão aos Exe~utores do
mesmo sacrílego insulto.

1-J-. a

I: perguntado se sabe, que algumas pessoas de outras famílias concur-


ressem para a mesma confederação, e insulto: E quais tl.>ráo essas pessoas.
Respondeu. que somente Dum :\lanoel de Souza, communicara com
elle Respondente, sobre esta materia nos mesmos termos, em que se com-
• munica,·a dentro da família, de sorte que elle D· 1m .\bnoel de Souza, sabia
muito bem, tudo o que passa\·a, communicandu-se com elle Respondente
por cartas de proprio punho, depois da sua auzencia para a Quinta de Ca-
lhari7, c de palaua quando se ajunta,·áo, de sorte que o mesmo Dom :\lanoel
de Souza, lhe tinha olferecido os seus \lulatos para executores do insulto.
Respondeu mais ~obre a mesma perguma, que tambem cun1llltmica\·a
com o De7embargador .\ntunio da Custa Freire, sobre o ponto de fazer
udiozu o goyerno de Sua :\lagestade, em ra7áo de saber, que u dito .-\ntonio
da Costa blasfema\a do mesmo go\"erno, s.:m regra, nem medida, alienando
assim, c Jesafl:içoandu do gu\·crnu do mesmo Senhor as gentes que u uu-
Yiáo: Que cultiYa\ a estreita ami7aJe com Dum ~lanoel de Souza: (~uc ·de-
pai~ do terramoto, soubera elle Respondente, que formara hum Plano de
huma Junta chamada da ProYidencia, para a mudansa do gm·erno do Reino;
o que sabe por lhu haYer participado o mesmo Antonio da Costa Freire,
dizendo que nisso, obra\ a de acordo cum o Conde de São I .uurcnço; que
porem que pelo quc pertence á exe.:uçáo do ultimo sacrílego insulto da
noute de trez de ~ctembro pro\.imu passado, não lhe comnumicou couza
alguma do sobredito. E que se alguma .:oun lhe cummunicassem só podcria
ser Dom :\lanoel de Sotll:a, cm razão da .:str.:ita amit:ade l]llC com clle tinha.

E perguntado se alguma outra urdem Rcligioza, ou outros alguns Re-


g~o~lares,
que não fossem da Companhia de Jews intrarão na dita confederação,
c a am.iliarão, ou prometterãu auxiliar, depois que fosse feito o referido insulto.
Respondeo, que somente Dom Paulo da Annunciaçáo, e outro Reli-
gio7o da sua mesma ordem, alto, magro, de oculos, cujo nome agora lh~
não lembra, e que sahio de Palha,·am, para Siio Yicentc, haverá pouco mais
de trez mezes, para ser Procurador Geral, segundo o seu p<\recer, sabe que
ti,·essem sciencia desta conjuração, porque elle Respondente lha communi-
cou, em ra1áo da intima amizade que com elles tratava: Participando ao dito
Dom Paulo, que se tinha machinado a morte d'El Rey ~osso Senhor: E
que depois della se lhe facil~aria o exito da pertençáo que tinha de ser Bispo
PrO\·izor do Senhor Dum Gaspar, Arcebispo Primáz; approvando o mesmo
Dom Paulo a dita proposta, pela esperança cm que ella o punha; Declarou
mais, que depois du mesmo sacrílego insulto, alguns dias depois, foi buscar
ao mesmo Dom Paulo, e com elle este\·e ponderando as consequcncias do
erro~ que haviáo tido os tiros da noute de trez de Setembro proximo pas-
sado, por não haverem produzido o detest<n-el effeito a que se ordenarão:
Acrescentando, que o mesmo Dom Paulo lhe·dicera, que tinha communicado
tudo o referido a outro Religioz9 asima declarado, como a seu Intimo amigo.

E por ora lhe não foráo feítas mais perguntas, que séndo-lhe estas li-
das, e suas respostas, dice que estaváo na forma, que lhe tinháo sido feitas
e elle tinha respondido, o que approva, e ratifica. E logo lhe fui deferido o
juramento dos Santos E\'angelhos, para que debaixo delles declarasse se
era verdade o que tinha deposto, pelo que toca,·a a Terceiros, em quem ti-
nha fallado: E recebido o dito juramento, dice que tudo quanto tinha dito
pelo que respeitava a Terceiros era tudo ,·erdade, de que fiz este termo,
que com nosco assinou, e com o Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor ..
Thomé Joaquim da Costa Curte Real, Secretario de Estado dos ~egocius
da l\larinha; e eu Jozé Antonio de OJi,·eira ~lachado, que o escrevy. =Se-
bastião Jozé de Carvalho, ~ l\lello = Thomé Joaquim da Costa Corte Real
=Pedro Gonsalves Cordeiro Pereira= J01é Antonio de Oli,·eira ~I achado
•Dom Juzé de Mascarenhas.
QUART\S PERGUNTAS. E R.\TIFIC.\CÁO l>AS PRIMEIRAS

Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezus Christo de mil setecen-


tos sincoenta e oito annos em os vinte e nove dias do mez de Dezembro do
dito anno nesta Quinta d.e Sua :\lagestade chamada- do ~leyo, onde foi ,·indo
o Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Sebastião· Jozé de Carvalho, e
~lellu, Secretario de Estado dos Negocios du Reino, e o Dezembargador
Pedro Gunsalves Cordeiro Pereira, Dezembargador do Paço, Juiz da tncon-
fidencia, que tambem sen·e de Regedor comigo Jozé Antonio de Oli,·eira
:\lachado, Dezembargador da Caza da Supplicaçáo, e nomeado para escre·
,-er nesta diligencia para ~!feito de fazer quartas perguntas, e geminar as
terceiras ao Duque de Aveiro Reo, prezo em segredo por ordem de Sua
l\lagestade, as quais se lhe fizerão pela maneira seguinte.

. I

E perguntado, sendo-lhe lidas as perguntas antecedentes, se esta,·ão


na forma, que lhe forão feitas, e elle tinha respondido, e se tinha algum~
couza que acrecentar, diminuir, uu declarar.
Hespondeo, que tudo est:n·a na verdade, e que tudo novamente appro-
,-a e ratitica, e que só acrecenta, que na noutc de tre/. de Setembro pro-
\imo precedente, tinhão posto elle Respondente, c seus socios asima rcfcri-
,..ios huma terceira emboscada de dois humen.;; armados no caminho das ter-
ras, que ja1em entre a extremidade septemtrional das cazas da Quinta do
:\leyo, e a ntremidade :\leridional da Quinta de Sua !\hgestade que foi do
Conde de Obidos, os l}Uais estavão a cavallo lhl F.tc.t, dl<Whtd.t Coimbr.t,
e 11<1 ouf1·,t F.tc.t ch.un.td.t P.t/h,u•,vn. que furão appardhadas para este ef-
feito na cavalharice deite Respondente, por ordem do sota cantlharice
J{,woe/ do .Y.tsdmenlo. Que depois das nove, ou de7 horas da noute,
mandou o dito .\l,woel du S.tsczmenlo. lentr os ditos duis cavallos para
as terras, e lugar deltas, que está junto á Barraca de .\ntonitl Juzé de
:\lattus: Que no dito sitio lhe fora elle Respondente dar as ultimas ordens
as dél horas da noute poucu mais ou menus, assignando-lhe o lugar em que
deviii.o esperar, e ordenando-lhes, que atirassem com duas clavinas, e dois
pares de pistolas, que elle Respondente tinha mandado buscar pelo seu
f!ll•ll·d.t roup.t .\l.woe/ .-lb·.tres, a caza donde as guardava o seu Estribeira
)uzé :\lanocl, sendo ellc Respondente o que da sua mão as deo aos ditos
homens, para atirarem á segc .de Sua Magestade, quando chegasse ao lugar,
aonde a espera\ ãu os referidos homens, os quais erão o Conde de .A tougu~a, e
Juzé :\Lu·ia de Tavura, Ajudante das Ordens do l\larquez de Tanmt, seu Pai.
Declarou mais, que o sociu do Cabo de Esqtt.tdra do Marquez Luiz
Bernardo de TanJra, que elle Respondente ha' ia dito, que era hum soldado,
fora na realidade o J\J.trqw!l. Fr.wásco de ~ lssil. de T,u•m·.t.
E declarou mais que depois de se haver executado o delicto: os d-ois
que o executarão disparando as armas fugirão logo pela calçada que tica
por detraz da Quinta do .\leyo, e pela Tra,·essa do Guarda-mor para Be-
lem, c por ali i para a éidade de I .is boa: Que os outros dois, que csta,·ão
montados nas Facas 1\tlll<ll'<llll, e Coimbr,t. quais erão Jo1.é J/.u·i,t, e o
Conde de .ltouKui.t, fugiriio para a parte do ~orte, e voltando pela calsada
da \juda, forão largar os ditos cavallos cm Belem, junto ás obras delle
Respondente, onde os furão depois buscar dois mossos d.t c.u•,t/h,trice; e que
os da terceira espera, que estavão junto á Quinta, que foi do Conde de Obi-
dos, quais erão o :\larque; Francisco de Assi7 de TanJJ·a. e o Cabo de Es-
quadra do :\larquez seu t],Jw, tendo hido em c.v·.tllos prop1·ios do mesmo
:\larqUt:L Pai. se retirarão caminho direito pela Quinta do :\leyo, e calsada
que vai por fura della para o lugar de Belem.
Dedarou mais, que depois de se haYercm retirado na sobredita forma
o dito Jo7é :\laria, e Conde de Atouguia, o _Jf,tl·que-:;. de T<trora P ..ti e u
cabo de Esquadra, que o associou 'ierão fali ar com elle Respondente sobre
o sucesso do referido insulto no lugar que estü fora dos muros do seu Jar-
dim, junto <i Ponte de :\ladeira, que se leYantou para servintia das obras
deli c Respondente: Yindu primeiramente os ditos Jozé :\laria, c Conde de
Atouguia, c pouco tempo depois chegarão o i\brquez de TanJra Francisco
de .-\ssiz, c o cabo de Esquadra, que o associou.
Declarou mais, que elle Respondente esperaYa tambem debai\o do
Arco, que estaYa cunti~uo ás cazas da referida Quinta do· :\leio, esperando
a pé associado de hum seu criado João :\liguei; sendo dle Respondente
quem disparou o tiro, que errou fogo, contra o Bolieiro, que conduzia ~ua
~lagcsta ..k na scge, a que logo depois se atirou.
_ Declarou mais, que a pratica, que ,naquella occazião te\·e com elle Res-
pondente u di tu Jozé !\laria, foi perguntar-lhe, crque hé feito de Joâ0>1, refe-
rindo-se ao dito João :\liguei, o qual ha\"ia ficado ainda no lugar do delicto:
Que- etie Respondente trazia na mão a clavina, que ha\·ia errado fogo, com
a qual batera nas pedras, enfadado, praguejando-a por lhe haver faltado
naquella occazião: (Jue quando dzegar,1 o J!arqueí_ F1·mzcisco de ~ lssií_ de
T,u•m·a, dice1·,1: Que lhe parecia, que El Rey Nosso Senhor morrera, por-
que se não queixara, quando recebera os tiros: Que elle Respondente ,-ol-
tara sobre estas pala\Tas, dizendo: ccQue não importa\ a, que Sua 1\iagestade
não morresse então, porque morreri-a depoisn. E que nisto assentarão todos
os circunstantes.

E sendo admoestado, para que declarasse todas as pessoas, que alem


das que tem declarado se acha\·ão com ellas colligadas, ou por Parentescos,
ou por amizades, ou por interesses para cooperarem para este delicto, e sus-
tentarem [depois que fosse perpetrado o mesmo delictoJ os aggressores
ddle: E isto sem impor falso testemunho a alguma pessoa por mais mize-
ra\·el que seja; e sem occultar algum dos cumplices de qualquer estado, e
condição em que se achem.
Respundeo, que alem dos que tinha deClarado, os quais forão só aque-
les com os quais elle Respondente communicou immediatamente, só lhe
constara, que esti\·essem na mesma confederação, o Conde de Obidos, o
:\Iarquez d'Alorna: E que isto sabe por lho ha\·er assim participado o ~Iar­
quez Francisco de Assiz de Ta\·ora, assegurando-lhe que tinha na sua con-
federação os ditos dous Fidalgos; a saber o Conde de Obidos; porque o
ha,·ia persuadido a :\larqueza Duna Leonor de Tan>ra, pela grande amizade
que com elle tinha, e frequencia, com que a úzitava, facilitando-se naquellas
com·ersasóes para dizer mal do go\'ernn de Sua Magestade, e para se de-
clarar quei\:ozo, e discontente delle: E o Jlarquez d'Alorna, porque o mesmo
.:\1arquez Francisco de Assiz de Ta\·ora, dice, e affirmou a elle Respondente
que \·endo-o tambem discontente do gü\·erno lhe communicara a idea, e
Plano desta infame conjuração, e o persuadira a que entrasse nella: Que
porem nunca constou a elle Respondente, que nem o dito Conde de Obidus,
nem o dito Marquez d'Alorna cuncurressem immediatameme para o horro-
rozo insulto da noute de trez de Setembro proximo passado, posto qut: delle
se lhes tinha dado conhecimento para o sustentarem depois de commettido. E
acrescentou, que a .\Jm·que\,1 JJona Leonor de Tayora lhe segurara a este
respeito do Conde de Obidos, e do Jlarque;_: d'Aiorna o mesmo~ que o l\Iar-
quez seu marido, tinha affirmado a elle Respondente: Dando por assentado
nas praticas que tinha com elle Respondente, e com os ni.ais confederados
seus Parentes asima referidos, que os ditos Conde de Obidos, e .:\Iarquez
, de Alorna se acha\·ão na mesma união.

E sendo ainda instado, que h:n·ia inf!Jrmação, de que dle Respondente


depois do sacrilego insulto de trez de Setembro pro\:imo passado, ameas-
Sarh.\o a rcp~tiÇ<ÍU ddie lit.~ra sobre clla a rctlcxáo d~ que por pOUCO St: náo
mu\.lara o governo do Reino, ainda antes do referido insulru: E que nestes
krmos \.\e\ ia \.ie.:l.trar qual era a razão que tivera para atlirmar que u ~ovcrno
\.lo Hei nu csti,·era proximo a ser acaba\.lo; qual o modo, porque naqucll~
sentido se havia acabar; c qual aqucll~ pouco, que havia faltado para se
acabar o rn~:-.mo governo.
Hl·spondeu que a raLáo qu~ tivera para aquclla allirmati\·a consistira nu
plano que .\ntonio da Costa Frei r~ ha,·ia feito depois do terramoto: para
estabelecer a Junta da Providencia, que havia abson er o mesmo go\·crno,
composta dos Duques de l.afocns, c .\ vcyro, dos 1\larquezcs de Anjcjà, c
~larialva Pay, o Cund~ de São Lourenço &. 3 : Que as diligencias, que então
se tizcrão por todos os modos que são prczentcs a Sua ~lagcstadc para s~
fazer ctfecti\ o o referido Plano, li.1rão as que constituirão o mudo porque
se havia acabar o dito governo: E qu~ o pouco que dlc Respondente dicc,
\.1ue· ha\ ia faltado, consistira cm lhe atlirmar o dito Antonio da Costa Freire,
que EI H.cy :1\osso Senhor tinba. recebido bem o- referido Plano. c estabde-
cim~nto da tal Junta da Provid~ncia, c que esta. h:ria o ctfeitu, que dcpoi.s
se ,·io, não havia tido, pdo que se bu:-.carao os outros mcyos que depo~-; se
f(wãu pntticando athé a ultima conjuração, d~ que se trata.
E por ora se lhe nüo tizeriiu mais perguntas, que sendo estas lidas, e
suas repostas, dice estavüo, na forma, que lhe tinhiio sido feitas, e ellc ti-
nha respondido, o que confirmava, c ratiticava. E logo lhe fui deferido o
juramento dos Santos E\ angelhos, para que dcbai\o ddlc declarasse se ti-
nha dito a verdade, pelo que respeitava a Terceiros, cm que tinha fallado;
c recebido o dito juramento, dice qu~ tinha dito a verdade, pdo que rcsp~i­
ta\·a. a Terceiros; e de tudo fiz este auto de perguntas. e termo de juramento,
que comnosco assignou; e cu .Tozé Antonio de Oliveira ~lachado, que o cs-
acvi, c assignci. =Sebastião Jozé d~ Carvalho, e ~h·llo =Pedro Gonsal-
\·cs Cordeiro Pereira · Jozé .-\ntunio de Oli,·cira l\ladHldo =Dom Jozé
~ttscarcnhas.

APPE:\(:0 19. r\. 0 I.

I'El{t;l"NT.\S FI·TL\S ,\ JOZF :\1.\RI.\ III·: T.\ \'OR.\

.\nno do :\ascimento de :1\usso Senhor Jezus Christu de mil setecentos


sincucnta c oito annos, aos \"Ínte c nove do má de Dezembro do dito anno;
nesta Quinta de Sua ~lagcstadc chamada do :\l~yo, aonde for;ÍO \"Índos os
IIIustrissimos. c E-.:ccllenrissimos Senhores Sebastião Juz~ de Can·alho c
:\ldlu, ~ccretario de Estado dos ::\cgocios do Reino, ~ Thumt! JoatJUÍm da
Costa Corte Real, Secretario de Estado dos ::\egocios da ~\arinha, e o Dl.'-
zcmbargador do Paço Pedro Gonsalvcs Cordeiro Pereira, Juiz da Incontl-
dí:ncia, comigo Jozé Antonio de Oliveira 1\lachado, Dezcmbargador da Caza
da Supplicação, c nomeado para est:re\ er nesta diligencia, para dfcito
de fat.cr perguntas a Jozé :\laria de ·r.l\·ora Rco prezo em segredo nesta
mesma a ordem de Sua :\l,•gestade, as quais lhe furão f~itas pela maneira.
s~guintc: •

...
I.

E perguntado, como se chamaYa, de quem era filho, da onde era na-


tural, e morador, que uccupaçãu, e idade tinha.
Respondeu, que se chamava Juzé Maria de Tavora, filho do l\larquez
de Tavora Dom Francisco de Assiz de Tm·ura, natural desta Corte, bapti-
zado na freguezia dos Martires, e morador junto ao Cruzeiro de Nossa Se-
nhora da Ajuda, capitão ·de Cavallos com exercicius das Ordens do General
seu Pai, e que tinha de idade vinte c dois annus,

2.

E perguntado se sabe ou suspeita a cauza da sua prizão.


Respondeu, que não sabe de certo qual seja a dita cauza; mas que
intende que seria atribuir-se-lhe alguma culpa no sacrilego, e horrorozo in-
sulto, feito contra a Augusta Pessoa d'El Rey Nosso Senhor na noute de
trez de Setembro pruximo precedente.

3.

E perguntado se elle Respondente interveio, ou concurreo com as pes-


soas, que perpetrarão o referido insulto na dita noute, em que foi com-
mcttido, achando-se em alguma das dilferentes esperas, que na mesma noute
se postarão no caminho por onde Sua Magestade se hm ia recolher, para
executarem aquelle horrurozo, e malvado de)icto.
Respondeu com uma absoluta negativa, de que concurresse a sua pes-
soa em alguma das subreditas esperas.

E sendo mais perguntado se sabe, que as sobreditas esperâs se fizes-


sem a Sua 1\lagestade na sobredita noute de trez de Setembro proximo pre-
cedente, e os lugares em que forão postadas as pessoas, por quem as mes-
mas esperas, ou embuscadas furão feitas.
Respondeu, que não sabia que tai!< esperas furão feitas, nem os luga-
res, em que se fizerão, e que só ouvin, que no Patio do 1\losteiro do Calva-
rio se tinhão dado huns tiros em Sua Magestadc.

5.

E sendo instado, que repare no que tem affirmado, porque constando


pela prova da Justiça por modo- concludente, que elle Respondente com ef-
feito sabe, nüo só das ditas esperas; c dos lugares, onde se postarão; as
pessoas que as fizerão, mas tambem, que elle Respondente foi hum dos que
nas mesmas esperas estiverão: Den~ declarar a verdade, do que passou aos

,
ditos n:spcitos, por discargo da sua consciencia, c das obrigaçoens que deve
a Deus como christão c a El Rc\· :\osso Senhor, como \ assallo.
Hcspondco, nc~ando absoiutamcnte a o;cicncia de todos os referidos
factos.
G.
E sendo mais perguntado se sabe que para se commencr o sobrcdito
sacrilego, e mah·ado insulto se tiiessem por Terceiras pessoas algumas
conferencias; quem furão as pessoas, que ndlas se acharão; o que tratarão
ao dito respeito; e os certos lugares, onde as mesmas pessoas conferirão,
ou costumaúio conferir mais ordinariamente.
Respondeu com a mesma absoluta negati\·a.


E sendo mais perguntado se depois de ha\·er sido cummettido a ·re-
ferido insulto fallou elle Respondente na mesma noute a algumas pessoas, ü
cerca du referido insulto, e do sucesso deli e; a que horas da noute ; e em
que lugar se te\·e a dita pratica.
Respondeo com outra absoluta negati\·a, pelo que pertence ao seu
pessoal.
8.

E sPndo mais perguntado se sabe, que outras Terceiras pessoas se


juntassem na mesma noute do insulto, depois de se dispararem os tiros,
que barbara, e sacrilegamente offenderáo a Real Pessoa de Sua :\lagestade,
para fallar no sucesso. que havião tido os m~mos tiros; o lugar, c hora em
que as ditas pessoas, ti\·erão a tal conversasão; e os discursos, que nella
se ti..:erão.
Respondeu com outra absoluta negati\·a.

E sendo mais perguntado se sabe, que na manhã proxima seguinte


ao sobredito insulto se juntassem algumas pessoas parentas, e conjunctas
em alguma caza de pessoa grande para conn:rsarem, e conferirem sobre o
mesmo insulto; sobre alguns dos factos dJs pessoas, que nelle se acharão;
e sobre o que depois do mesmo insulto se de,·ia fazer, a bem dos sobreditos
concurrentes.
Respondeu com outra absoluta negati\·a.

DESPACHO

Yi--to o Decreto de Sua :\lagestade. por que hé sen ido mandar, se


possáo dar tratos a estes Rcos, \'ista a qualidade da culpa, que rezulta, e
174

forma com que o Rcu Jozé .\laria de Ta,·ora respondeu ás per~untas, que
lhe furão feitas, e estar cm termos, suppusta a gra,·idade du deli.::tu de ser
mettido a tormento, mandando-se-lhe dar tratos, pelo que toca a Ter-
ceirus. .\landiio que ao subrcditu Rco se dem dois tratos espertos, se tanto
poder tolerar a juizo do Cirurgião. a fim de declarar a ,-erdade pelo que
respeita a Terceiros. Delem de Dezembro Ylllle e noYe de m;l setecentos
sinc1Jenta e ui tu.= Com duas rubricas= Cordeiro - OliYeira .\Ltchado.

IIIUGF'\CI.\ !lOS TIUTOS D.\llOS .\0 IH-:0 .IOZI~ :\1.\llL\ li E T.\ YOR.\

E lngu no mesmo dia asima·declaradu, e nu mesmo lugar, e em pre-


zença dos ditos Senhores, e de Domingos ;\lunteiro Ramalho, Cirurgi<íu
apprm·adu da caza da saude, e dos carceres secretos do Sarrtu Otticio, ahi
estando o Rcu .Tu7é :\hria de TaYora lhe ri7erão as perguntas asima, e pelo
que toc;wa a Terceiros se lhe deferio o juramooto dos Santos E\·angelhus,
para que debaixo delle declarasse a \·erdade, que recebido assim o prometteo.
E por di7cr que nada sabia se mandou, que o cirurgião fizesse diligencia
sobre a saude do Reo, e declarasse se tinha alguma infermidade que impe-
disse o dar-se-lhe tratos, e pur constar que tinha saude, e sem impedimento
algum para se lhe darem tratos, assim o declarar debaixo do juramento de
seu utticio, de que riz este termo, que todos assignamos, e eu Jozé Antonio
de Oliveira Machado, que u escrc,·y. =-c Com duas rubricas= Cordeiro.

E logo fui mandado, que u Reu fosse posto no Potro, e atado, que
assim se executou pelos guardas para isso determinados; e eu lhe tornei a
di7er que declarasse a verdade, do que elle Reu sabia sobre os cumplices
do delicto de que se trata. E pelu Reo dizer que nada sabia ao ditu respeito
porque haYi·a contra elle Reo pro\"a bastante; e por estar pertinazmente
negatiVL), e pur dizer u Cirurgião não podia tolerar, mais tormento, de-
pois de haYer sofrido trato, e meio, o mandarão tirar delle, e cesasse, e se
recolheçe para se curar. e de tudo riz este termo, que todos assignamos.=
Com duas rubricas-= Cordeiro=-= Oli,·eira :\lachado.

llEPOI\IE'\TOS. E llE'\U'\CI.\S QUE F.\ZE" .-\S PESSO.\S .\BAIXO l.JECL\R.\IJAS

Aos quatro dias do mez de Janeiro de mil setecentos sincuenta e nnn~,


nc:ste lugar de Belem, .e Quinta de Sua l\lagestade chamada a do i\leyo,
ahi estando prezente o Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Sebastião
Jozé de CarYalho e .\lello, e o De7embargadur do Paço Pedro Gunsah-es
Cordeiro Pereira, Juiz d,1 Incunridencia, que tambem sene de Re~edor,
comigo .T .. 7~ Antonio de "OJi,·cira .\lachadu, Dezembargador da Caza da
SupJ~Iicaçãu. e nomeaJu para escren~r nesta diligL"nLÍa, f;Jrãu man ..iados Yir
as testemunha~ abai:~.u declarad:1s pur ,ii7erem, tinh<íu que depôr na materia
desta Alta traição, e furão re(ebiJus seus depoimentos pela maneira seguinte:
-. Fran.:is~o X a\ i~r d~ Castro, morador na rua das Pretas a São Joté
Ja ~iJaJ~ Je ( .isboa, l(lle Vi\'~ Je !'>ll:tS fa7enJas J~ iJad~ J~ sin~ocnta annos
pou~o mais ao m~nos. t~stl'munha jurada aos ~antos E' angelhos, em que
prom~tteo dit.~r verdade, c do ~oslUme nada.
E perguntado pelo s~u depoimento di~e: Que sabe pelo 'c r. que na
\"illa do I .aHadio hti hum ~apitão da ordenança ~hamado :\lanucl .\lartins,
o qual hü muitos annos tem ami7ade cum Dom :\lanucl de ~out.a, e Dom
l.ui7 de Sou7a o Calhariz. E que tambem era publi~o tinha amin1de com o
Duque de .\\·e iro. c que por ser o dito capitão inquido, derão contra dle
huns capitulos por mão do l>ezembargador Jot.é P~dro Emaus; porem, que
us ditos papeis nunca apparccerão; porque o dito Duque os mettera em si,
e nun~a l}Uizera apparcccr com dlcs. o que sabe por assim lho dizer Jo7é
Anastacio. E era publico. que o dito Duque, fazia istv pur respeito do dito
~apitão, e do dito Dum :\lanoel de ~uuza. e se jacta\·a o dito capit<Ío depois
do insulto feito a Sua :\lagestade. que cm clle capitão dando hum üy, todos
o havião seguir, o que ellc testemunha sabe, pur ser publko, posto que o
não ouvio dizer ao dito~apitão. c mais não di.::c, e assignou.= Cordeiro=
Oli,·eira :\lachado- ·Francisco Xavier de Castro.

Salvador Fran.:is~o Xavier, morador na Carr~ira Jus Ca\ allos, jardi-


neiro de Sua \lagestade, de idade que di.::e ser de quarenta, c dois annos.
testemunha jurada _aus Santos E\·angelhos, cm que puL sua mão direita, e
prometteo dizer \·erdade, e do .::ostume dicc nada.
E perguntado pelo seu depoimento subre o negocio da Alta Traição,
de que se trata dice : Que pur r:lláo delle testemunha ser antigo na Cat.a
de ~uas .-\!teLas de Palhavam, c .::onhe.::er muito bem a Dom Paulo da
\nnun.::iação, sabe por este lho dit.er, c outras pessoas mais, yue já no
tempo em que o Dul}Ue de .\ \·eiro anda\·a em Coimbra, ti\·era .:um este o
dito Paulo huma grande, e intima amizade, e que este lhe .::unsiliara o conhe-
cimento, e grande poder que ll~\·e com o Padre Frey Gaspar d~ \los.::otu.
E pelo \·er sab~, que o dito Dom Paulo era o que re~ebia tudo o dinheiro,
que das ditfcrentes reparticoens da Fazenda se extrahiá!' para o :\lostciro
de São Vi~entc, com diversos pretextos, e elle testemunha fura cobrar
algumas \ ezes, dinheiros destes. F que tambcm pelo ver sabe, que depois
da morte do dito Dom Frey Gaspar, continuara a mesma, e maior amizade.
entre o dito Dom Paulo, e dito Duque. E por lho dizer Dom Juão o terceiro
da :\ladre de Deos. sabe ellc testemunha, que o dito Dom Paulo era o con-
fei·ente do dito Duque. em todus _os parti~ularcs, e ncgo~ios, que o dito
Duque tinha. E que tambcm. era o seu Jepozi\ario; que manda\·a o dito
Dom Paulo para ~a?a do dito Duque tudo quanto ha\·ia em Palha\·am. E que
\·endo elle testemunha muitas \"e7es, ainda em \·ida do dito Frey Gaspar, hir
a Palha\·am hum :\lanoel de l.uureiro. e depois a .\ntonin Joté de :\lattos,
ambos criados do dito Duque, e não sabendo a que hiüo, llw di~cra a elle
testemunha o ditu Dom Joãu-,' que tantn u Luun:iro. como depois o :\lattos
hião bus~ar dinheiro que o dito Dom Paulo lhe da\·a, c o Duque perdia
ao jogo, de que o dito Frey Gaspar o reprehcndera em huma o~~aziáo. E
que em outra perdendo o Duque ..,u.Irenta mil auzados, os mandara bus~ar
pelo dito \ntonio .Toté de :\lattos, e u dito IJom Paulo lhos mandara, dei-
\ando a ~ata dos dit~1s senhores de Palha\·am sem hum \ i11tcm. 1-: lJU~
depois du .\J\ o~pdo Jerunimo da Si h· a se au7entar de Palha\ am. mandara
o dito Dom Paulo em hum dia huma carroça com dois Baus de dinheiro de
Palha' ã para caza de Elias Poruuchun, o qual dinheiro sahiu da caza do
dito Paulo; o que elle testemunha sabe por lho dizer João de .\lmeida, que
hé sota ca,·alhariça dos ditos Senhores, que foi quem preparou, e mandou
o dito carro por hum mosso que elle conhece, e sabe isto, e muito mais. E
que depois do fatal cazo. que sucedera a Sua ~lagestade costuma' a o dito
Duque hi~ muitas ,-ezes de dia, e de noute de capote, e sem capote a fallar
particularmente com o dito Dom Paulo dentro ao ~eu quarto, sem procurar
a outra alguma pessoa~ o que muito bem Yia, e sabia, não só o guarda
roupa J01.:é Russi, que se queixa,·a disto, mas toda a mais família dos ditos
Senhores, que mormura,ãu. E que tambem sabe pelo ,·er, que o dito Dum
Paulo hé que go.-erna,·a ao Duque, e o que dizia hé qu@-..se faLia~ e não
da,·a o Duque passo,_ sem ser derigidu pelo dito Dum Paulo, o que hão de
di7er todos de Palha\ am. E pelo ou,·ir dizer ao mesmo Dom Paulo, sabe
elle testemunha, que o mesmo Dum Paulo mormura,·a, e maldi1ia deste
gO\·erno de Sua ~lagestade, e que o dito Senhor era hum Pasmado, e outras
sacrilegas imposturas, e da me~ma sorte maldizia do Excellentissimo Secre-
tario de Estado Sebastião Jozé de Can·alho e ~lello; e mais não dice, c
assignou. ="'Cordeiro= Oli,·eira ~I achado= Sah-ador Francisco Xa\"ier.

Jozé Fernandes, trabalhador, e morador na rua da ~lay da Agua á


CotoYia,. teS1emunha jurada aos Santos E,·angelhos. em que pô7 sua mão
direita, e prometteo dizer ,-erdade, de idade que dice ser de sincoenta e
quatro annos, e do costume díce nada. E sopre a ma teria em que depunha dice.
Que sendo em a noute de São Sih-estre proximo passado, chegando
elle testemunha á rua dos Condes, ahi se abaixara para hum canto, e logo
depois 'ira chegar trez homens de capotes e se pozerão a conYersar, e dizer:
Que tinhão feito muito mal em querer matar a El Re\' ~osso Senhor á
força de armas, que ha,ia ser com \eneno, tanto ao dito-Senhor. como ao
Sereníssimo Senhor Infante Dnm Pedro; porem que não tinhão ad' ertido,
que fica,·a ainda ahi o Senhor Dom ~lanuel. e o Senhor Dom João da Bem-
posta, que era o Diabo. E que ass;m o melhor era retirarem-se elles. antes
que se apertassem mais os passaportes. E que estando nesta conversasão,
chegara outro homem em huma sege, que mandou retirar, e se pôz a con-
\'ersar com os trez na mesma forma que tinhão d'antes falladu, e estando
assim hum pedaço se forão embora; porem que dle testemunha não conheceo
a nenhum. E que com esta pratica intendeu elle testemunha que erão homens,
que intenta\·ão fazer mal a Sua :\lagestade, e mais não dice, e assinou, e eu
Jo~é .\ntonio de Oli,·eira ~I achado, que o escre,·i. ='Cordeiro= Oli\·eira
'I achado= Jo/é Fernandes.

APPENÇO 20.

PERGU~L\S FEITAS AO ~1.\RQUEZ DE TA\"ORA PAI

Anno do ~ascimento de :\osso Senhor Je1us Christo de mil setecentos


sincoenta e oito annos, em os trinta dias do mez de De~:embro do dito
annu. nesta Qumta de Sua ~lagestade chamada a do ~leyo, aonde furão
,·indos. os Illustrissimos c: Ex\:dlc:ntissimos Senhores Sebastião Jo1.é de
Can alho e .\lc:llo, Sc:ac:tario de Estado dos ~c:gocios do Reino, e Thomé
.Joal.lUim da Costa Curte Real, e o Dc:zcmbar~adur do Paço Pedro Gonsal-
vcs Cordeiro Pereira, Jui1.. da lncontidcncia. que tambem scn·c de Regedor,
comigo Jozé .\ntonio de Oli,·eira .\ladtadu, Dezcmbargador da Caza da
Suppli\:açãu, e nomeado para escrever nesta diligcn\:ia para elfeito de
fazer perguntas au Rco o .\larquez de Tavura Pai, que lhe toráo feitas pela
maneira seguinte:
I.

E perguntado como se chamava. de quem era filho, da onde era


natural. que uc..:upação tinha, c que idade.
. Respondeu, que: se: chama,·a Dum Frap\:isco de Assiz de Tavora filho
de Bernardu .\ntunio de Ta,·ora Conde de .\lvor, natural da cidade de
l.isboa, baptizado na freguezia d·c s~U1tos, l\lestre de Campo General, Con-
selheiro de Guerra, General. e Director geral de toda a Cavalleria do Reino,
c que tinha de idade sincoenta e seis annos.

2.

E perguntado se sabe. ou suspeita a cauz:~. da sua prii.ão.


Rc:spunJc:u, que não sabia, nem suspeita a cauza da sua prizão.

3.

E sendo instado, l.JUe repare no que diz, _pur quanto da prova da


Justiça consta que: elle Respondente sab:a muito bem a \:auza da sua prizáo.
Respondeu, com a mesma negatiya.

-1-·
Sendo perguntado se con..:urreo com cooperação, aJu~te, ou confede-
ração, auxilio ,·erbal. ou pessoal para o sacrílego insulto, que na noute
infaustissima do Domingo tre7 de Setembro, proximo passado, se commetteo
com D=aboli.:n arteticio. e nun.:a visto. nem cogitado atrevimento, contra a
Suprema .\lagestade d"El Rey Nosso Senhor. '
Respondeo com absoluta negativa.

Sendo instado, que visse que a sua negativa se acha com·encida, de


menos verdadeira, por se achar constante pela pro,·a da Justiça. que elle
Hl.:'spondente em sua .:a/a, 1.:' fora ddla, ajuntando-se \:um pessoas da sua
\:ontidc:ncia. blasfcma,·ão \:ontra a Real Pessoa de Sua .\Ltgcstade. c \:ontra
o seu fc:li~issimu. c glorioi.Íssinw governo: Dacjandn ar~ientissim<tn11.:'ntc,
ll
que o goYerno do dito Senhor acabasse com a sua Augustissima vida. para
depois vir outro governo, em que elle Respondente tivesse maior parte :
Tendo por licito, e meritorio machinar-se a morte do mesmo Senhor_, debaixo
dos horrorozos pretextos de ser ,-iolento, e tiranico o goyerno de Sua ~1a­
gestade, e outros pretextos, igualmente temerarios, e sacrílegos.
Responde com outra absoluta negativa, dizendo que tais- factos, não
farão nunca delle Respondente, nem nelles concurrera.

6.

E sendo perguntado se sabia que p_ara os referidos abominaveis factos,


concurressem outras Terceiras pessoas de ambos os sexos, e dos Estados
Eccleziastico, e Secular: Quantas e quais farão essas Terceiras pessoas: O
que cada huma dellas persuadia, e ajustou aos ditos respeitos, o que tudo
se intende a respeito do tempo antecedente ao sobredito insulto de trez de
Setembro proximo preterito.
Respondeo com outra absoluta negativa.


Sendo perguntado, se na infaustissima noute de trez de Setembro
proximo passado ·se achou na sociedade das pessoas, que fizeráo as mah·adas
esperas, ou embuscadas, que se postarão desde a Quinta do 1\leyo athé á
Quinta, que foi do Conde de Obidos, e lugar della, por onde Sua ~'lages­
tade costumaYa entrar, quando se recolhia, e isto a fim de que o dito Se-
nhor na passajem que fi7esse da primeira das ditas duas. quintas para a
segunda dellas, se- escapasse de huma das ditas emboscadas, fosse cahir
nas outras, para nellas perecer a sua Augustissima preciozissima, e _suspl-
radissima \"ida.
Respondeo com outra absoluta negatiYa.

8.

Sendo mais perguntado pelo que respeita a Terceiros se sabe quantas,


e quais foráu as pessoas. que se acharão nas subreditas esperas, e embos-
cadas. e os lugares cm que estiwráo es_perando as mesmas emboscadas.
Respondeo com outra absoluta negattva.

Sendo mais perguntado onde passou elle Respondente aquella horro-


rozi!>sima noute do Domingo trez de Setembro proximà passado, em l.1ue se
commetteo o sobredito sacrílego insulto, contra a Suprema ~lagcstadc
d"El Rey _Nosso Senhor: Principalmente desde as dez horas da mesma
noute, athe a madrugada della.
·-q
I.

Respundco. tJUC desde as dc7 horas da sobrcdita noute thé a manhã


rroxima seguinte. tinha pas~ado sempre recolhido na sua rropria caza.

to.

Sendo mais perguntado, se na referida noute, mandou apparelhar


alguns C<n·allos para se scn ir delles, e quais foráo.
Rcspondco, com outra absoluta negati,·a.

II.

Sendo mais perguntado se sabia quJ.ntas, c quais forão as pessoas,


1.1ue na mesma noutc de tre7 ~e Setembro proximo passado depois de se
ha,·cr commettido o sobredito insulto, se ajuntarc.1o para fallarcm sobre elle
na terra que esta por dt:traz do Jardim do Duque de Aveiro, junto á I:ran-
chada, que se fez para scrvintia das obras do mesmo Duque de .\\ ciro:
Quantas, e iJuais furão as tais pessoas: E o que dice cada huma dellas,
quando se furão ajuntando, a respeito do sobredito insulto, que com
acordo de todos os que se acharão na dita conversasão noturna se tinha
commettido.
Respondco, que nem se achou, na dita con ,·ersasão noturna, nem sabe
nada do que nella passou, pelo que pertence a Terceiros.

J"l

Sendo mais perguntado, tambcm pdu que pertence a Terceiros,


quantas, e quais furão as pessoas. que consta da prm·a da Justiça que na
manhã proxima seguinte ao dito insulto commettido na noutc do Domingo de
treL de St:tembro proxirno passado, ou na manhã da segunda feira quatro
do dito mez. se ajuntarão em certa caza de pessoas grandes, Parentas, e
conjunctas de k.ldas as outras pessoas, que na mesma manhan concurrerão
na referida caza, para nclla fallarem tcmcraria, c sacrilegamente, sobre o
que ha\ ião obrado, e disposto na dita noutc proxima precedente, para se
cümmctter o sobredito insulto; c sobre o que depois que elle errou o
funcstissimo fim que fiLcra o seu exacrandu objecto, havião fazer as tais
pessoas cm damno da precioú.s.sima vida d'El Rey :\"osso Senhor, e em mal
entendida utilidade particular das tais pessoas.
Respondeu com outra absoluta ncgati\ a.

DESPACHO

\"isto o Decreto de: Sua \l.1gcstade por que hé sen·ido mandar se


possão dar tormentos a estes Reos, ,-ista a qualidade da culpa, que rezulta,
c furmJ. com que o Reo Francisco de .\ssiL rcspondeo ás perguntas, que lhe
fi,rão feit,ls, c estar em termos, supposta a graYidade do dcliéto de ser
mettido a tormento, dan ..io-se-lhc tratos pelo que toca a Terceiros~ mandão
180

!>~ lhe dem dois tratos espert-os, se tanto poder tolerar a Juizo do Cirurgião,
a fim de que d~darc a ,-erdade. pelo que respt:ita a Terceiros, e cada <hum
ddles. Belem de Dc7embro trinta de setecentos sincoenta e oito.= Com
huma rubrica.= Cordeiro= Oli,·eira ~tachado.

I•ILll;F~t"IA LIO~ TRt\TOS IJ.\DOS AO REO D0:\1 FRANCI~CO DE .\~SI/ fJE T.\VOR.\

E logo no mesmo dia asima declarado, e dito lugar em nossa pret.ença,


e do _Cirurgião Dl•mingos ~tt~nteiro Ramalho, ahi estando o Reo Dom Fran-
cisco de Assiz d~ Ta,·ora, se lhe tornarão a fazer perguntas, que declarasse
qu~m tinhão sido os socios do referido, e malvado insulto; e se lhe deferiu
o juram~nto dos ~antos E,·angelhos. pdo que respeita\·a a Terceiros, e
debaixo ddle fizesse a declaração. E recebido por elle o dito juramento,
assim o prometteo. E pelo dito Reo di1er, que nada sabia, se mandou, que
o dito Cirurgião fi1esse a diligencia sobre a saude do Reo, e declarasse se
tinha alguma infermidade, que impedisse o darem-se-lhe tratos. E por constar
que tinha os impedimentos 1_ 1 ., abaixo declarados, se mandarão dar os tratos
com a moderação, que constara do auto do tormento. do que fiz este termo,
que todos assignamus, e eu Jozé Antonio de O li' eira :\tachado, que o escre,·i.
=C. 0 =0li,·eira .:\tachado.
E logo fui mandado, que o Reo se deitasse no Potro, e fosse atado
nas pernas, e braços, o que assim se e~ecutou pelos officiais para isso
determinados; E logo lhe tornei a fa7er perguntas para que declarasse a
verdade do que elle Reo sabia a respeito de Terceiros cumplices no referido
delicto; e pelo dito Reo tornar a diz~r que nada sabia se lhe mandou dar
o primeiro trato, e estando com elle apertado, lhe tornei a fazer pergunta
na forma asima mencionada que declarasse a ,-erdade á cerca dos cumplices,
esteve pertinat.mente negati,-u no trato, e pur o Cirurgião dizer que não
podia tolerar outro por ser o Reo quebrado, e mostrar ser Asmatico o
mandarão tirar delle, que cessasse, e recolhese para se curar. E de tudo se
fe7 este auto e termos que assinamos.= Sebastião kzé de Can·alho e :\lello
=Pedro Gunsah-es Cord"eiro Pereira= Jo7é Antonio de Oliveira .:\tachado.

K. 21.

_\l:-[0 lJE PERGU)óTAS FEIT,\S _\ JOÚ: LriZ IJ.\ COSTA VELHO

Anno do Xascimento de :\osso Senhor Jezus Christo de mil sdecentos


sincoenta e nove annos ~ aos seis dias do mez de Janeiro do dito anno neste
lugar de Belem, e Quinta de Sua .:\tagestade chamada a do :\teyo, aonde
foi vindo o. lllustrissimo, e Excellentissimo Senhor Sebastião Jozé de Car-
valho e ~lello, Secretario de Estado dos Xegocios do Reino, e o Dezembar-
gador do Paço Pedro Gonsah·es Cordeiro Pereira. Juiz da Inconfidencia,
que tambem serve d~ Regedor, comigo Jozé Antonio de Oli,·eira ~tachado,

(11 Pur haver ~i,lu f.:itu este termo antes ,lc se examinar <J Reo se: emendou em
tempo com estas interlinhas .:m frent.:. = Cum duas rubricas.-~ Oliveira .Ma.:hado.
l>e1embargador Ja Caza da ~uppli.:a.;:ão, c nomeado pelo dito ~enhor para
escren!r nest;l diligenôa. para dfcito de fazer perguntas a Juzé Lui1: da
Costa, prezo na Cadea deste dito lugar,_ á ordem do dito Senhor, as 4uais
lhe fur;un feitas pela maneira seguinte:

E perguntado, como se .:hamav;t, de quem era filho, da onde era


natural, e morador, l}Ue o.:cupação, c i~ttdc tinha.
Respondeu, que se .:hamant Jl)lé Luis da Custa, que era ti.lho de Luis
da Costa Velho. natural desta ôdade de l.isbua, cm São Pedro d'Aifama,
morador nos Oli\'ais, c que tem de idade ,-inte e sin.:o annus, e vive de
suas fazendas.
E perguntado, se sabe ou suspeita a cau7a da sua prizãu.
Respondeu, que não sabe, nem suspe!ta a .:auza da sua prizão.
1-: perguntado, l)Ue n:ja o que diz, que não. pode deixar de suspeitar
au menus a .:;mza por que f, 1i prezo.
Respondeu, que só suspeita que será por estas .:ou~:as do Duque de
.-\\·eiro, tem um·ido dizer, que estú prezo, por c aula de h uns tiros, que se
dcrão em El Hcy :\osso Senhor, porem que elle Respondente nada ~abc
neste parti.:ula~t.
E perguntado se .:unhc.:c Antonio Ah-arcs, c ao Irmão deste chamado
~Lmocl Alvares.
Rcspundco, que conhece muito bem porque o dito Antonio Ah·arcs,
que fui cazado com huma Irmã da mulher delle Respondente.
E perguntado se u dito ~lanuel Ah·ares fi,ra algumas wzes fallar cum
o dito Alntrcs seu Irmão, lJUantas, c cm que tempo.
Respondeu. 4ue algumas ,·ezes fora u dito Manoel fallar com o dito
seu Irmão pclu tempo das 'indimas, porl:'m que não sabe a que fora, nem
u que tratara ; porque us não Yia f;lllar.
E perguntado se cHe Respondente tem algumas armas de fogo, que
armas siiu ; c se alguma occa~:ião as emprestaYa, quando, c a quem.
Respondeu, que é ,-erdade, que elle tem huma Pistola, a qual faltan-
do-lhe de .:aza perguntara por ella a Jozé Pulicarpio, que tambcm hé cu-
nhado delle Hespondcntc. e .:ostuma,-a estar quazi sempre em sua caza, e
este lhe dicera que a tinha leYado para .:aza de Antonio .-\h-ares, e que logo
a reporia cm sua caza, c istu nu me7 de Agosto proximo passado. E que
p.1ssado muito tempo, então hé que lha lcn1ra.
E que ellc Respondct~tc Yira, 4ue u dito Jozé Policar_pio, e Antonio
A h ares, tinhão dois .:a,·allos em que muitas noutes, antes aos tiros mon-
tm·ãu. porem lJUC não sabe para onde hião; c sé sabe, que quazi sempre
rc.:ulhião tarde, humas yezcs pela huma hora, c outras de madrugada. E
tlll\·io dizer au mosso de Antonio .\h· ares, que ,-inhão a caza do Duque de
.-\ ,·eiro; E que não sabe, n~m om io dizer mais couza alguma.

E por ura lhe não furão feitas mais perguntas, as quais sendo-lhe
lidas, e suas repostas. di.:e que esta,·ão na ,-erdadc, '-luc as approYa\·a, e
ratifica,-a debaixo do juramento dus Santo!:> E\angdhos, que lhe foi dado,
relo que respeita,·a a Terceiros, de que ti.z este auto, que com nosco
assignou, e eu JU7é Antonio de OJi,·eira ~la.:hado, que o es.:re,·i. =Pedro
Gonsalns Cordeiro Pereira - Jozé Antonio .de OJi,·cira :\la.:hado = José
I .uiz da Costa Y ellw.
DECLARAÇÃO DAS Cl'LP.-\S, QCE POR ORDL\1 DA SC-
PRE:\l.\ Jlrl\T A DE I:\CO~FIDE~CI.-\ ESTABELECIDA PE-
LOS REAIS DECRETOS DE SC.\ !\L\GEST ADE I\ O REAL
P.-\LACIO DE 1\0SSA SE~HOR.-\ D.-\ AJUDA SE :\L-\XDA
FAZER AOS REOS PREZOS .\BAIXO :\O~IE.-\DOS. PARA
SOBRE ELLAS DARE~l AS DESCARGAS, QCE l.i\TE~DE­
REM. QCE PODE~l APROYEITAR-LHES PARA A SCA
DEFEZA

O Reo Dom Jozé !\lascarenhas se acha accuzado na mesma Suprema


Junta, pelas provas da Justiça, constando dellas:

Que barbara, e dezatinadamente concitado pela sua soberba, e cobiça


ha\·ia concebido no seu pedido coração huma temeraria, sacrilega, e impla-
cavel ira contra a Real Pessoa d'El Rey ~osso Senhor, por ha\·er Sua :\la-
gestade desarmado, com as suas Paternais, e Regias Providencias, as per-
niciozissimas machinasóes. que o me~mo Reo. ha\·ia ideado a:>ara uzurpar a
Suprema Jurisdição, e differentes bens Eccleziasticos, e seculares de grande
importancia, que lhe não pertencião.
Que sendo diabolicamente concitado por aquelles malignos Espiritos
de soberba, de ambição, de cobiça, e ira. implacavd; procurou abrir caminho
aos outros absurdos, em que depois se deslizou pelas solicitações, para
alliciar, e atrahir a si todas as Pessoas, que se achavão nd Real dezagrado
do mesmo Senhor, e iniquamente discontentes do seu felicissimo Governo;
procurando alienar ainda mais as mesmas Pessoas, com os perniciozissimos
e\.emplos da sua detracção, e do seu adio ao Real sen·iço:
Que proseguindo o mesmo Reo este exacraodo systema se reconsiliou,
e confederou com muitas Pessoas Eccleziasticas, e Seculares com as qu:~is
tinha vivido sempre em escandaloza e desabrida aversão desde que via as
mesmas Pessoas proscriptas, e exterminadas; para com ellas fortificar a
sua infame sedição, e confederação: ·
Que passando o mesmo Reo d'aquellas abominaveis praticas aos etfei-
tos, ainda mais abomina\·eis dellas; chegou a tanto a sacrilega temeridade
do dito Reo, e dos seus confederados, que assentarão em repetidas confe-
rencias, que entre todos tiverão em que era justo o odio que tinhão á Real
Pessoa de Sua Mage~tade, e ao seu felicissimo Governo; em que o meyo unico,
que ha\·ia para se effeituar a mudança do me.mo Go\·erno, que fazia o seu
commum, e detestavel objecto, era o de se machinar a morte do dito Senhor;
em que não peccaria, nem levemente, quem commettesse aquelle sacrilego
e nefando parricidio; e em que depoi~ que elle fosse commettido ficariüo
indemnes, e immunes de castigo os-que o commettessem ao favor dos
partidos, que se tinhão formado.
Que o mesmo Reo em consequencia daquellas antecedentes praticas,
e confederaçoens que dellas rezultárão, passou a associar-se para a execução
daquclle infernal projecto com differentes Pessoas ao me:-mo Reo conjunctas
por vinculas de parentesco; e com outras Pessoas ordinarias, que erão da
sua confiança, convencionando com cllas os mevos, e os modos de se
cómmetter aquelle sacrilego, e detesta\·el parricidiÕ:
1~3

Que para premio infame de algumas das ditas Pessoas ordinarias,


que ~ssociarão o mesmo execrando parricídio, se fizera huma sordi-
dissima collccta entrt: o dito Reo, e as sobreditas Pessoas, suas parentas,
e aliada:s:
Que co.n1 estas prévias dispoziçoens se ajuntarão todos os sobreditos
conjurados, na infaustissima noute de tret. de Setembro do anno proximo
passado, em caza do mesmo Reo, e terras circunwizinhas della, havendo-se
prevenido nüo menos de onze cavallos; a s;abcr, dois comprados, e no,·e
proprios dos mesmos conjurados, para montados nelles hirem como forão
executar naquella funestissima noute a sacrílega. e atroz barbaridade, cuja
consternação attligio tão penetrantemente a todos estes Reinos :
Que dividindo-se os sobreditos onze infernais Executores d'aquelle
diabolico insulto cm diwrsas emboscadas, se postarão todas nas terras, que
jazem entre a Quinta do l\leyo. c a Quint<l de cima, sobre o caminho por
onde o dito Senhor custum:l\·a recolher-se da primeira para a segunda
das referidas Quintas; para que escapando Sua !\lagestade dos tiros dis-
parados pelas primeiras das sobreditas emboscadas, fosse perecer nas
outras, que a ellas se seguiiio a preciozissima. e glorio1issima vida do
mesmo Senhor.
Que ao tempo em que Sua l\lagestade ha\ ia dobrada a esquina das
cazas da sobredita Quinta do !\lcyo para entrar nas referidas terras, sahindo •
elle Reo do Arco, que estava místico ás referidas cazas com outro dos
seus socios neste execrando dclicto desfechou contra o cocheiro Custodio
da Costa hum tiro de bacamarte, ou cla,·ina. para o derribar; obrando Deos
!\osso Senhor, n'aqudle primeiro in:-.ulto o primeiro milagre, com que fez
errar fogo o mesmo insidiozo, e sacrílego tiro:
Que adiantando a carruajem, que conduzia o mesmo Senhor, alguns
passos dêo na segunda das ditas emboscadas n \1 qual os outros dois socios
do mesmo Rco, que n 'ella esta,·ão de mão po:-.ta, discarregarão os outros
insidiozos tiros, que depois de ha,·ercm arruinado tão disformemente o
espaldar da dita carruajem, e os ,·estidos, q•1e ornm am o mesmo Senhor,
fizeráo na Real Pessoa de Sua l\lagcstade os sacrílegos, e disformes estra-
gos, que se manifestão dos Autos de corpo de delicto.
Que havendo o dito Senhor com outro decizivo milagre, evittado as
outras esperas, lJUe ainda se seguião athé a entrada da referida Quinta de
Cima, pela ret.ulução inspirada, com que retrocedeo a buscar os remedios
Espirituais, e temporais, onde julgou, que os tinha mais proximos ; e sendo
natural nestas tristíssimas circunstancias, que o mesmo Reo concebesse no
seu coração, huma dôr viva do mal. que tinha feito, e que delle como
humano, e ainda mais como christJo, se arrependesse, depois de haver
commettido hum tão horrorozo delicto; se achava o mesmo Reo tão barbara-
mente endurecido, c tão desamparado dos auxílios da Divina Graça. que
depois de se haverem retirado, elle, e os seus socios pelas ditferentes vere-
das, e diversos desvios, que constão da prova da Justiça, praticarão, aindâ
outras barbaridades seguintes: ·
Que tornando-se a ajuntar ainda na mesma noute o dito Rco, com
alguns dos seus socios no caminho, que passa pela extremidade septem-
ptrional do seu Jardim, se jactarão, e glorianío alli dos seus insultos, sendo
somente o Reo o que com diabolica, e implacavel ira praguejou a clavina,
ou bacamarte, que lc\'aYa nas mãos, por lhe haYcr errado fogo; proferindo
com o mesmo assumpto as outras blasfemia!'o piarum .uwium olfensi,·as, que
lhe são manifestas:
E que emfim, continuando o Rco na sua inHexixd crueza, barbara
dei'c~peraçiio, lastimozo dezamparo dos .\uxilios de Deos; e congregando-se
com cego. c desatinado dezacordo hum conciliabulo dos seu~ parentes na
sua propria caza, logo na manhã proxima seguinte ao mesn-lo horrorozissimo
dclictu ;· fui a materia das praticas, que nella se tiverão; recriminarem-se
os nefandos Assassinos, que ha,·ião disparado os tiros, por que não tinhãu con-
summado todo o seu perniciozissimo intento, como dii'iüo alguns; jactarem-se
outros. de que Sua l\lagestade não teria escapado com ,-ida se hou\ esse
passado pelas emboscadas, onde elles se acha,·ão de müo posta; e cevarem
outros a sua brutal ferocidade .:om a reHexão, de que Sua ~lagcstade, se
nüo teria salvado, se hou,·essc proseguidu o caminho por onde se ~custuma\·a
recolher. assim como havia retrocedido na sobrcdita furma. Bdem dez de
Janeiro de mil setecentos sincoenta c no\·c. = Jozé Antonio de OJi,·eira
Machado.

O Rco Francisco de Assiz de Tanwa se acha accui'ado na mesma


Stiprcma Junta de lnconfidencia, pelas prm·as da Justiça constando dellas.
Que o Reo sendo solicitado por dill"L"'rentes Pessoas sua~ proximas
parentas, e persuadido pela sua propria vaidade, soberba, e ambiçüo, se
precipitou na conjuração machinada pelo Duque de A ,-e iro, e outros, depois
de o ha\·ercm feito conceber no seu coração hum imp'acan:l odio, contra a
Real Pessoa de Sua 1\lagestade, e contra o seu felicíssimo, e gloriozissimo
Go\·erno, com huma ingratidão, tanto mais negra, e tanto mais infame,
quanto maiores forão as honras, e os acrecentamentos, que da illimitada, c
beneficentissima Grandeza do mesmo Senhor, ha,·ia elle Reo tão successi-
,·amcntc recebido :
Que por hum detestaYel cffeito do mesmo sacrílego odio, e da me~ma
ingratidão infame, ha,·ia clle Reo consentido, que se fizesse, e havia feito a
sua propria caza huma sedicioza officina de calumnias, machinaçõe.S, confe-
derações, c traições contra a alta reputação, contra o gloriozissimo Governo,
e contra a preciozissima ,-ida de Sua )lagestade:
Que com os me~mos abominavcis fins, cuncurreu muitas vezes nas
perniciozas praticas, que com aquelles execrandos objectos se tiveráu em
· .:aza do Duque de Aniro, para se mudar o GO\·erno de Sua ;\lagestadc. c
se pri\·ar o mesmo Senhor da sua prccioi'issima ,-ida; praticando o mesmo
em outros lugares reprovados :
Que com efteito abraçou a confederação do mesmo Duque, c seus
socios na conjuração, e no insulto de que se trata. ulfcrecendo ao referido
Duque ca\·allos, c armas, para se attentar contra a preciuzissima, c augus-
tissima vida do mesmo Senhor:
Que concittado pelos mesmos espíritos infernaes, entrou na cullccta,
que sordidissimamente se estabeleceu entre os parentes do mesmo Duque,
para se prefai'er o sordido premio que se dêo a alguns dos barbaros Exe-
cutores do insulto de trez de Setembro do anno proximo precedente, con-
tribuindo pela sua pessoa com doi'e moedas para o mesmo premio:
Que na tarde d'aquelle dia trez de Setembro, mandou preparar, c levar
trez ca\·allos para as terras, que ficão por detraz do Jardim do referido
Duque, para ncllcs hir, como elfecti,·amcntc foi ao dito insulto, feito na

.-
noute da<..juclle infaustiss=mo dia, conrra a Hcaf. c sagrada Pessoa de Sua
"agestadc; ~h.::hando-se dle R~.:o ~.:m huma da~ emboscadas, 4ue insidio/a, c
infamemente se armarão na mesma noute para que i• dito Senhor se csca-
p<bse de humas, fosse cahir nas o_utras no caminho que mcdêa entre as duas
Quinras. chamadas de Baixo, c de Cima:
Que depois de s~.: haver commctido aqucllc horrendo, c nefando dclicto,
c de: se retirar cite R c~• com os ..nais so..:ios, rdas ditlcrcntes Ycrédas. que
lhes parecer;ío mais propt·Üls; se achou clle Rco wm alguns dos sobreditos
cm hum conciliabulo, que na mesma noutc se fez no caminho. que pas:-.a
pela c~tremidad~.: scptemtrional ..in Jardim do Duque de A,·ciru; concurrcndo
n'aquclla clandc:-.tina pratica, c nas exccrandas blasfcmias. que ndla yomi-
tarãu os E~ccutorcs da dita infernal conjuração, _c do insulto. que Ycyo cm
consequcncia delta :
F LJUC em 11m. na manh;í. proxima seguinte ao dito insulto. se achou
na .\ssemblca. que se: lc:\ c: • cm caza do Du<..jue de .\ \·eiro seu cunhado, ou
antes conciliabulo; no qual huns incrcparáo c~:-. dois ferozes .\ssassinos. que
haYi;\o disparado os tiros, subré o espaldar da carruajcm. que transporta\ a
a El Rey :\osso Senhor, com o rrctcxto de: não hm·cr aquc.:lle brutal golpe.
j,rodu7ido todo o ~cu perniciozissimo ..·!leito; outros se jactarão de que o
h a\ c:riáo as:-.im conseguido. se EI Rcy l\osso Sc:nhor, huuYc:-.sc passado pc-
Ias emboscadas. onde c:lles esta\"ÜO de má o rosta; c outros. cm tim far-
tÜ\ ão a su<~ feroz brutalidade com a rctlc:xão de que: u- dito Senhor não
ha\"eria escapado se hoU\"Csse rrosc:guido o SCU .:aminho rara se recolher.
assim como J"ctroccdco p;u·a buscar t~ soccoJTos espirituais, c: temptll'ais,
que con:-.idc.:'l'oU mais proximu~. Bclem a dc.:z de Janc:iro de: mil setecentos.
sinco<:nta c nove.= Jozé .\ntonio de Oli\·eira 1\lachadu.

O Reo Dom Jeronimo de Ataydc se: acha accundo na mesma Supn:ma


Junta de lncuntidcncia pelas pru,·as da Justiç:1, constando dc:llas.
Que: quazi todas as noutcs concurria nas praticas que: se tinhiio cm
ca7a dos ,\larqL!CZes de Ta,·ora seu:-. ~ugros, sc:ndo a dita C<l7a huma infame
uflicina de calumnias. machinaçõc:s, confc.:dcraçocns. c traiçucns contra a alta
Rcputaç;ío, contra o bcncli.:cntissimu Go\·crno. c contra a l1reciozissima Yida
d"El Rcv :\os~o Sc:nhor.
Qi.te n'aLJUc.:llas infame::-. praticas, fui o Rco prcn:rtidu Ct m prc:tc:~tos
c:-.pirituais. c temporais. com que o enganarão. c rrecipitar~o cm huma
barbara, e implacavcl a\"crsão. contra a Real Pc:ssoa. e GoYc:rno de Sua
)lagcstadc.
' Que! concitado por aquellas diabolicas sugg.cstocns, entrou como. socio
na conjuração, que se feL, rara se: pôr fim ao mc:~mo Gu,·crno, com u sacri-
lc.:go estrago da gluriozissima, e rrccio7issima 'ida do me~ mo Senhor.
Que como tal socio, c confederado concurrco por duas interrostas
l 'c:ssoas com a quota parte de oito moedas rara o \"ilissimo premio, que se
deu a alguns dos conjurados, que na infausti!-.sima noute de trcz de Setem-
bro do anno pro~imo passado, concurrcrão nas esperas, com que: se anentou.
contra a mc.:sma augusti:-.sima, e amabilissima Yida.
E que cm tim~ clle Reo foi hum dos exccrandos socios. que mi. referida
noute se: acharão n'aqu<:ilas insidicw.1s, e barbaras esperas. Belc.:m a dez de
Janeiro de mil sctc:ccntos sincocnta e nove.-= Jozé .\ntonio de Oliveira
Machado.


I ~~t)

O Reo Luiz Bernardo de Ta,·ora se acha accuzado na mesma Suprema


Junta de ln.::onfidencia pelas prm·as da Justiça. con!>tando dellas.
Que concurria quazi todos os dias cm caza do· Duque de Aveiro, e que
em outros era por cllc vizirado.
Que tambem frequenta,-a as praticas. que se tinhão em caza do-;
~larquezes de Ta,ura, seus Pays.
Que sendo as referidas cazas duas infames ufficinas de calumnias de
machinaçucns, e de traições contra a Alta Reputação, contra o felicíssimo
GO\·erno, e contra a importantíssima \"ida de Sua :\Iagestade; fura ndlas
alienado, e pcrYertidu ath~ o ponto de olhar com anrsáo para o justíssimo
Gun:rno, e sacratissima P~ssoa de Sua ~lagcstade. .
Que consequentemente entrou na união, e confederação, que se fez
entre os seus parentes para se commetter o sacrílego insulto infaustissima-
mente perpetrado na noute de trcz de Setembro do annu _pruximu prece-
dente; utferecendu para elle caYallos, e armas. ·
Que com ctfeitu dois dias antes do mesmo insulto ha,·ia pre,·enido
para elle dois ca\·allus, que mandou para a ca,·alharice do Duque de Aveiro
apparclhados, e cobertos com tellizes.
Que depois de han•r estado fechado em recatadas cónferencias com
alguns dos seus parentes pruximos na tarde do mesmo dia trcz de Setembro
du anno proxirno preterira; passou na noute do mesmo dia a caza do Duque
de Aveiro, e della a concurrer cum os outros socius nas proditorias, c
sa.::rilcgas emboscadas, que então- se armarão. contra a beneficcntissima, c
augustissima ,-ida do dito Senhor: _
- E que em fim na manhã proxima seguinte. ao dito insulto, se aclwu
no conciliabulu de perfidia, que se te,·e entre os parentes na caza do Duque
de Axeiro; increpandu nelle huns aos Assassinos, que ha,·ião disparado os
sacrílegos tiros, por nau ha,·erem estes produzido, todo o seu detesta,·el
etfeito, jactando-se outros, de que u terião consumado, se Sua Magestade
passasse pela emboscada, onde dles esta,·ão; e fartando outros a sua brutal
ferocidade com a reflexão de que o mesmo Senhor não teria escapado, se
não hoU\·esse retrocedido, e e\·itado assim as outras embuscadas, que ainda
u espera,·ão de mão posta, depoi-. da que discarreguu os sacrile~u!> tiros.
Belem a dez de Janein> de mil setecentos sincoenta e nm·e. = Joze Antonio
de Oliveira ~!achado.

O Reo Jozé Maria de Tawra, Ajudante das Ordens do :\larquez de


T avo r a seu Pa,-. em quanto General se acha accuzado na mesma Suprema
Junta de lncontidencia pelas prO\· as da Justiça, constando de lias:
Que Yivia de portas a dentro na caza de seus Pays os )larquezes de
Ta,·ora, a qual era huma infame officina de calumnias, de machinaçóes, e
de traições, contra a Alta Reputação, contra o fclicissimu Governo, e contra
a importantíssima \'ida de Sua 1\lagestade.
Que n'aquellas sediciozas, e abomina\·eis praticas alienarão, e pen er-
teráu o me!>mo Reo, de sorte que lhe encherão o coração de odio, e má
,-ontade, c:untra a amabilissima, c Augustissima Pessoa, e contra o benefi-
centissimo Gm·erno de Sua :\lagestade, dando-se barbaramente por aggra-
Yado dellc:
Que por isso foi persuadido a se associar no insulto de trez de Se-
tembro do anno proximo precedente.
Que depois de ha,·er tido na tarJe do mesmo di,1, huma se..:reta con-
ferencia com o )larquez Luit: Bernardo seu Irmão, passou a <!Ssociar-se
nas terras, que ti.cáo por detraz do Jardim do Duque de _\,·ciro, com os
outros confederados, I..}Ue nellas fizerão as emboscadas, com que alli foi
esperado El H.e\· t\osso Senhor.
Que ha,·c-ndu-SI..' •·dirado os sobreditos socios pelas ditrerentes ,·ere-
das, que lhes parecerão mais pruprias, depois de se ha\·ercm disparado os
tiros que ti1enío na Real P~ssoa de Sua ~lagestade o estrago que consta
dos autos de corpo de delicto, e de se ha\ er com dles retirado o Reo,
,·ultara ao cunciliabulo, que entre alguns dos mesmos socios se tere no
caminho, que passa pela e\.tremidadc septemtrional dt1 Jardim do Duque de
.\' eiru, ajudando-os. c cnncurrendo com elles nas blasfemias, que ali i
proferirão.
E que cm fim se achou tambem no outro conciliabulo, chamado Junta,
ou .\ssemblca que na manhã pro\.ima seguinte ao insulto se te\·e nas cazas
do Duque de .\\ eiro; sendo este Rco o que ali i l referindo-se ao facto mila-
grozo de se ter sah·ado a precio"lissima ,-ida de Sua Magcstadc · proferindo
as barbaras, c fero7es palauas: <•Cü pelo homem não h<n·ia de escapar."
Belcm a de7 de Janeiro de mil setecentos sincocnta e nove.= Juzé Antônio
de Oli,·cira )\achado.

O Rco João ~liguei se acha accuzado na mesma Suprema Junta de


lnconti.dencia pela prm·a da Justiça, constando ddla. ·
Que era ..:riadu de acompanhar do Reo Jut:é )lascan:nhas, antes Duque
de .\\·eiro, c tüo f<n·orecido, e confidente seu, que nenhuma ,·erosimilidade
hm·ia ·de que elle Reo. dci\.asse de acompanhar, e associar o dito seu amo
para aqudle insulto, que se commetteo na noutc de trez de Setembro do
anno pro\:imo passado. •
E que posto, que o mesmo Reo Jmío :\liguei negasse pertinazmente o
referido ; consta comtudo, que na referida noute se ad1ara associado com o
dito seu amo, quando -este atirou contra o b,,liciro de Sua :\Iagestadc Cus-
todio da Costa, ao tempo, cm que a sege du mesmo Senhor ha,·ia passado
a esquina das cazas da Quinta chamada a do ~Ieyo, ou por outro nome a
das \. accas. =Bel em a dez de J anciru de mil setecentos sincoenta, e n<we.

O Reo .Manocl .\h·ares Ferreira, se acha acclllado na mesma Suprema


Junta de Inconti.dencia pela pro,·a da Justiça, constando della.
Que sendo o Guarda-Roupa actual do Rco Jozé :Mascarenhas, antes
Duque de A \"eiro : e o que por isso lhe ministrou os capotes, e cabellciras,
com que se mudou, e disfarçou na noute de trez de setembro do anno
proximo passado em que commetteo o delicto; E confessando o dito .Reo
~lanoel Ah·arcs estes factos, e outros; se acha pertinazmente negatin1 a
respeito de tudo o mais, que o dito Juzé ~bscarenhas obrou n'aquella
atrocissima noute.
Que achando-se ao mesmo tempo pro\"ado, que por rarte do dito Jozé
~las.:arenhas se suggerirão, e sigilarão os seus criados para que tena7mente
encobrissem o que o mesmo Jozé ~lascarenhas ha,·ia feito naquella infausta
noute: se acha elle Reo convencido, de que encobrio os delictos do mesmo
Jo1é ~lascarcnhas para ser cas_rigado pela culpa de n<Ío os delatar.
Que a isto accresce, que havendo-lhe seu Irmão o Reo Antonio
Ah·ares Ferreira confiado trcz, ou quatro dias depois de ha,·er sido
commettido o mesmo delicto, que elle ti)ra o que o commettera em execu-
ção do mandato, que lhe ha\ ia dado u dito Jozé :\lascarenhas; ha,·ia occul-
tado criminozamente os referidos factos athé o tempo em que os declarou
derois de ha,·er sido prezo.
E que em fim, a tudo accresce ser· elle Reo o que com barbara, e
tcmeraria uuzadia, cometteo a rezistencia, com que tirou a espada da cinta
au Escri,·ão do Dezembargador Jozé Antonio de Oli,·eira :\lachado, quando
o sobredito Jo.l':é :\lascarenhas chamou os seus criados para se orpor cm
Azeitão <is Reáes Ordens. com que Sua Magestade o mandou prender pelo
referido Dezembargador: = Belem a dez de Janeiro de mil setecentos sin-
cocnta e no\·e.

Os Reos Antonio A h ares e seu cunhado Jozé Policarpiu de Aze,·edo,


se achãu accuzadus nesta Suprema Junta de lnconfidencia pela pro,·a da
Justiça. constando deli a:
Que o outro Rco Jozé :\Iascarenhas fe7 chamar estes dous corréos a
sua caza, para lhe encarregar com grande s~redo o mandato de esperarem
a carruagem, que costuma\·a transportar a .tJ Rey Nosso Senhor para dis-
pararem contra clla dois tiros de cla,·ina, c 4uatro de pistolas:
Que os mesmos corréos com etfeito se encarregarão daquelle exe-
crando mandato :
Que para executa-lo, comprara o Reo Antonio Al\"ares de ordem do
sobredito Jozé :\lascarenhas dous ca,·allos desconhecidos, e se armarão de
duas cladnas, e pistolas: · .
Que na funestissima noute de trez de Setembro do anno proximo
passado ha,·ião disparado as mesmas cla,·inas sobre o espaldar da scgc que
transporta\·a u dito senhor com os tristíssimos effeitos de violarem a sacro-
santa immunidade da Real Pessoa de Sua :\lagcstade com as \·iolenti~simas
feridas, que cunstãu dos Autos de corpo de ddicto:
E que em fim estes dois abomina\·eis Reus, furão indubita\ cimente os
duus fcruçissimos monstros, de .cuja brutal crueza recebeo a Real Pessoa
de Sua l\'lagestadc immediatamente as sa~rilcgas lezoens, que a honra, a
fidelidade, e o amor filial dos Leacs Yassallos de todos estes Reinos tem
deplorado, deplorão, e deplorarão athé o fim dos seculos, com hum geral
clamor.= Bclem, a dez de Janeiro de mil setecentos sincoenta e no,·e.

O Rco Braz Juzé Romeiro, se· acha accuzado na mesma Suprema


Junta de lnconfidcncia pela prova da Justiça, constando della.
Que pela grande assistencia, que ha,·ia tido na caza dos l\larquezes
de T a\·ura, Francisco de Assiz, e Duna Leonor, e do :\larquez seu filho,
havia ganhado a atfeição de todos para delle fazerem confiança:
Que esta facilitou os mesmos ?\larquezes inconsideradamente rara
illaquearem a elle Reo na confederação, e machinação que tinhão feito
contra a preciozissima Vida de EI Rey Nosso Senhor:
Que elle Rco foi por isso hum dos dous, a quem o dito :\larquez de
Ta,·ora Pay encarr~gou na noutc do insulto, de guiar o:; trez ca,·allos cclla-
dos, c armados, l.Jlle na mesma nuute mandou postar nas terras que ficão
ao ::\orte do Jardim do Du4ue de .:\\eiro.
E que cmfim o mesmo Reo se achou cm companhia do dito :\larquez
.h~iz de "Lnura nas sa.:rilega~ cmbos.:ada.s cm yuc
Fran.:is.:u de El Rcy
~osso ~cnhur fui esperado n'aquclla funcsti~sima noute de trc1 de
Setem-
bro do anno proximo pre.:edentc. = Bclem, a dez de Janeiro de mli sete-
.:cntos, e sin.:ocnta e no\"e.
c
DEFEZA~. Ql"E .\ F.\ YOR DO~ REO~ OFFERECE< l <l
DEZE~llHH(;.\DOR EPZEl310 TA\' AIU:S DE SEQn·:IRA.
PROCl:R.\DOR P.\R.\ ELLE~ ~0:\IE.\Dü POR ~C.\ .\IA-
GESTADE

Aquellc que maquina contra o Príncipe, seu Rey, e Senhor natural


algum tratado insidiozo, e otfcnsi\·u ü sua alta, e Suprema .\lagestade,
otfende só .:um este pensamento ayudle amor, c \eneração, yue os subditos,
c Yassallos fieis, dc\·em prestai· ao seu .\lonarcha, a quem de\"Cm adorar
.:orno a Yice-Deos da terra, .:onfórme au disposto na Lei 1. Cud. de seleu-
Ji,u-. (s:c) Lb. l. •
f. 1~un iu .tduraud,t uus/,-,1 serenila/e.
E na Lei 2. Cod. de f~tbn"ceusibus.
f. .·lt!lenlÍ!.tlem uosl1:,uu adm·,tt w·us.

Aggra\·a-se mais este horrendo, e deresta\·cl delictu naquelle \" assallo,


que nas.:endo com obrigaçocns da honra, jurou sulemncnwnte fidelidade ao
me~mo Príncipe, de quem recebeu bencti.:ios, quantos .:ontão us mi1eran~is
Reos, que fatcm a prin.:ipal figura neste catastrofc.
H é esta otfença .:ummua a todos os naturais \" assallos do mesmo
Prin.:ipc otlcndidu, porque hé Pai da Patria, e por issu em Direito ~e
chama a este dcli.:to parri.:idiu .:orno diz a Lei 1. e a Lei 5. Cod .•td l.e~em
.lu/i,wz _\l,y.esl ai is.

E sendo este dclicto cauza commua, em yue são parte~ offendidas


tudos os naturaes, parece que não dc,·ia ter protecção, nem defeza o Reo
della, e que esta só a de,·ia patrocinar algum outro tirano. uiJiinimigo da
Patria, mas hé tão rio, tão benigna a :\lagestade de El ReY :-\osso Senhor.
que ainda assim manda patrocinar, e defe~der, aos Reos desta barbaridade.
para a qual acção me destina, e cu me encarrego dclla, jurando secuudum
Deum de não faltar a nada de quanto comprehender a minha limitada esfera,
e couber nas bren!~ clauzulas de t<Í.o abre,·iado termo para os escuzar, do
que se lhe imruta com tanta quebra, não só de todas as l eis, mas daquelle
bem antigo, e sempre famozo timbre da fidelidade Portugueza.

Hé a primeira figura desta· tragica scena Dom Jozé .\lascarenhas, que


foi Duque de A ,·eiro, contra quem rezultiío das pron\S da justiça os cargos
mencionados no rezumo della. cuja pro,·a só se faz completa para pena,
attentas as suas "confissoens; porem estas farão e).:torquidas pelo rigor. e
medo du tormento, .:om que toi ameassa.:io antes de confessar nas primeira:-.
perguntas, e esta prova não rode bastante para pena, comu tem Farinacius
iu p1"ax. c.:rim. y. 81 n ..J.-. e principalmente para a pena ultima; idem Fa-
rinacius q. X3. n.') 32.
O que procede ainda nos delictos atrucissimos. e exceptuados, como
este de leza ~lagestade humana, como com M(lnticellus, Bursat. e outros
di7 o mesmo Farinacius dita q. S3 n. 0 G. e/ 11. 0 de iudiciis ettm·flll"a q. 37.
n. 0 7~1·· e isto .linda que a,confissão seja geminada, e ratificada ut n/ z(i.
:\em a mais prU\·a que contra este Reo pode rezultar da confissão de
. algum dos socios du mesmo delictu. que st:_ lhe imputa pode contra elle
fazer pro,·a plena para pena ultima, porque apenas esta pro,·a pode bastar
para indicio da tortura, como com muitos di7 Eg!dius Bossius, f1·act.1llls
c1·im. tt. 0 de indiciis et rconside1·atiouibus ante) tm·turam n. o mihi 149·
E por artigo de facto e defeza.
Provará que 9 Reo Dom Jo7é ~Iascarenhas na funesta noute em que
se diz commettido o barbaro, e tremendo insulto da execução do tratado
machinado contra a Real Pe~soa e ,-ida de EI Rey :\osso Senhor, este,·e no
seu Real Paço, aonde te' e a honra de fali ar ·ao mesmo Senhor: e depois de
se retirar da sua Real pre1ença, passou ao quarto do Sereníssimo Senhor
Infante Dom Pedro, de donde publicamente se retirou á'> dez horas da noute
para sua caJ"a, l'ia 1·ed.1. e dahi não sahio mais na referida noute, termos
em que hé impossi,·el ter commettido o attentado, que se lhe imputa de
atirar a.) bolieiro da sege, que conduzia ao mesmo Senhor, chamado Cus-
todio da Costa. -

Provará que com ,-erdade não ha,·erá pessoa alguma que se anime a
jurar, que o Reo fizesse cunciliabulo algum, ou com·enticulo de mormura-
ção, ou de traição, contnr as dispo7isoens do mesmo Senhor, e muito menos
com os seus parentes, tanto por~'"sanguinidade, como por affinidade, com os
quais hé noturio o pouco trato, e aliança que tinha~ tanto assim que passa
a emulação noturia, que entre estas famílias hada, á ,-ista da qual hé im·e-
rosimel. e de Direito se não pode prezumir. que com elles podia o Reo fazer
similhante com·enção, e _ajuste.

Hé segundo Reo desta abominm·d c'lllpa Francisco de .-\ssiz e Tavora,


contra quem rezultão os cargos, e imposturas, que declara a minuta, que
lhe respeita. a fa,·or de quem otfereço tudo o que de Direito deixo dito, a
faYor do outro Reo, porque me persuado ter as mesmas identicas escuzas.
E por artigos de defeza. · ·
Provará que o Reo não admittia na sua caza trato algum, ou comer-
sasão mais do que com suas filhas e genros, que alguma ,-ez a clla hião
sauda-lo, e corteja-lo, e a sua mulher, e de pessoas es-tranhas só entra' a na
dita sua caza com mais frequencia o ~Iarquez do T~ouriçal, c Monsenhor
Azcndo, e nenhum destes dirá, que em tempo algum om·issem similhantes
praticas, c muito menos contra a Real Pessoa, e ,-ida do mesmo Senhor, a
quem sempre amou intimamente com hum cordeai all"ecto, como tão obri-
gado, que era ao carinho benevolo com que o recebia na sua Real pre1en.;a,
á Yista dol que se fa7 im erosimel a ingrata detracção e 11l<lchinação, que se
lhe imputa. ·
ProYarü que na noute tragica, e sempre para a posh:'ridade memoranda,
em que se dil' conunettido o aleinJLo insulto de se espt'rar a Sua ~lages­
tade no :.i tio, que medêa entre as duas Quintas, e o seu Real Paço, este\ e
o Reo com os dois Excellentissimos Secretarias Je Estado Dum I .uiz da
Cunha, e Sebastião Jozé de Can·alho e ~'ldlo, de cuja caza finalmente sahio
I ~)I

para a sua, taln!Z puu~o menos a hora em l)Ue elle se di7 ~ommettido,
hindu ~om a sua ~ompostura direiramente rara sua ~a/a, em que a~hou a
hum Fulano Piscina, organista da ~apella Real, á \"Ísta do que hé total-
mente impossi' d ha,·er ~ommettido aquelle arrojo para o qual se devera
preparar, e dispor. o que não podia fazer sahindu ao mesmo tempo com-
posto de ca7a do dito senhor Secretario,..de Estado, na qual a~hou a sua
mulher, e ao dito Piscina.

Hé terceira figura nesta lastimoza tragedia a Ré Dona Leonor de


Tavora, mulher do sobredito Francisco de Assiz, a favor de quem offeJ:eço
o mesmo, que de direito offereci a faYor du dito seu marido na parte que
lhe hé appli~a,·el, e tambem o que articulei de facto em quanto respeita á
assisten~ia, que ella naquella mesma oc~aziiíu, em que seu marido ~hegou
a ~aza, a a~hou nella, de donde não sahio em tal nuute.
:\ Ré hé mulher ~azada, e hé ~ertu, que em todas as pessoas em quem
os superiores, tem o Jus }WÚ'.tllfll! animadrersionis. como são o Pay a res-
peito do filho, o senhor a respeito do sen·o, o Prelladu a respeitl!. do
subdito, a mulher a respeito do marido, exduc aos subordinados da pena
ordinaria de qualquer dclicto, a impressão, c respeito dus superiores, ~om
quem no mesmo deli~to concorrem, tem esta Ré a seu fa,·or a prezumpsão
desta subordinação, tem nestes termos o Senhor Procurador da Coroa
Fis~al desta wlpa a obrigação de pro,·ar, que a Ré no negado supposto de
ter no mesmo deli~to, ou tratado dclle algum ~on~urso, não foi subordinada,
pdla doutrina de Pacianus de prub.tlionibus l.b." 1. cp. ~- n. 0 mihi 5. L'l 12.
et 19.• e persuado-me justamente, que não será facil coalhar contra esta
Ré similhante proYa, porque a julgo impossi,·cl, e sei que de Direito hé in-
,·erosimel.
- Quanto mais, que sendo ~erro llUe a rebelli<.ío, ~onspiração. e conju-
ração, ~ontra o Prin~irc são synonimos, e todos delictos de l.eza Magestade
da mesma gra,·eza. a mulher du que se rebetia contra o Prin~ipc Supremo,
se_guindo para isso a seu marido, nem por isso fica sujeita <is penas da
rebellião em que seu marido in~orrc, ~omu diz Egidius Bussius no seu
tr·acl.tlus lTÍm., titulus de n·imhre í.,us.u "\l,tjest.tlis n. 0 32.
f. 1:! qrhmdo uxm· sequilur m,u·itum 1sic 1 rebellem excus<1/rw, qr~<tmr·is
ex rep:ul.t .f.u·eudo lwsti. e/ r·cbelli quis eJfici.tlur r·ebellis. ·
Didt elimn 11/Íiu/us de bouor·m·um publicatiouen, sub. n. /:,·
f. Sed quomodo cumque si/ uuwn est ,tbsque aliqr~<l di!ficull<t/L', quod
unmis dispul.tlio esl an teuealur, rol eu/e r•ir·o. euni sequi, sed quin ips.1 possil
uemiui es/ dubium .tbS,JIII! eo, quud possit .trgui dedisse ,tuxilium lwsti.
Peço toda a reflexão na doutrina deste .\uthnr, e na gra,·idade, l{lle o
ponto in~ulca.

Hé quarto Reo desta infame, e torpe ~tdpa ·Dom .leronimn de .\tayde,


contra quem rentltãn as pro\"as· da Justiça, que ac~u1a a minuta da mesma
~ulpa, a favor do qual olfereçn o liUe jü dii.:e, e aqui lembro, que alguns
destes Reos são cavalleirós, e ~omo tais pessoas E~cle7iasti~as, a quem não
rodem prejudi~ar as diligenLÍas da culpa. feitas por .Tui/ in~ompetente, e
posto seja oppinia,·el, que em deli~to similhante podem os Juizes Se~ulares
formar a culpa, c ~onhe~er della, ~um tudo a contraria oppinião hé a mais
_bem recebida na prati~a, ~orno Jit; Farinacius in pr.t.'C. crim. q. Xt. n.u ~~~3.,
et n. 0 H)~ •• e assim o deliberou o De7embargadur :\[areal Catado Jacome
em cazu· identicu, cujo \ otu transcreYe Themudu tum. 2. '.iecis. 106., a n. 0 ~~­
repru\·andu a Bossius e outros, e fui a que se se~uiu.

H é u quinto Reo Luiz Bernardo de TaYura, a fa\ ur de quem offereço


o ja dito na parte applicaYel: este Reo hé certo, que confessou a seu res-
peito algumas das culpas, que se lhe imputãu, e tambem a respeito de ter-
ceiros, e isto foi por se lhe dizer, que na'-}uella parte estaYãu liquidas as
prm·as da justiça. e suppondo que us mais Reos esta,·ão cnnfessos, deu por
certo, e confessou por hum a mera prezumpsão. sua, ·o que a respeito seu, e
delles se lhe dizia. mas esta confissão assim dubia, incerta não pode bastar
para condemnação sua, e dos terceiros, a quem prejudica, como defende
Farinacius supr<1 cit. q. 81. n. 0 32., et 3..j.., e muito principal, sendo a dita
confissão \·uluntaria, e com o medo de não chegar a hir ao tormento.
E por artigos de defeza. '
Prm·ani. tJUe na nuute de trez de Setembro passado, em que se diz
cummettida a atrocidade. nunca jú mais sucelida, fui o Reu para ca7a de
sua Tia a Duqueza de A wiru pouco depois da prima noute, e ahi andou
com ella, e suas filhas dansando em prezença de muitas pessoas, estando
sempre na dita caza sem della sahir mais duque depois da huma hora passada
a meia noute, e sendo a sua tanto posterior em tempo ao "que se diz fora o
do delicto, não podia o Reo achar-se no congresso destinado para elle.
PruYará que se da caza, ou caYalharice- do Reo sahirão na referida
noute os dois ca,·allus. que se diz ,-ierão para o insulto, foi sem sciencia do
Reo, e só debaixo da permi~são antecedente, que tinha dado aos seus commen-
saes, a faYor de hum Filippe Ferreira criado do Duque de A,·eiro, e de
hum Fulano Piscina organista da capella Real, aos quais por amizade per-
mittiu pudessem delles U7ar cada \·ez, que os necessitassem, mas de
nenhuma maneira para nenhuma outra pessoa. e menus para n fim que se diz.

Hé sexto Reo Jozé :\laria. contra quem rezultão da prm·a da Jtistiça,


as culpas minutadas no rezumo das que lhe respeitão, a fa,·or de quem
offereço o que já dice de Direito a fa,·or dos mais na parte applicaYel..,
porque me não cabe no abre,·iadissimo termo o repeti-lo.
E por artigo de facto.
Prm·arà que na manhã do dia sucessi\o ao em que se diz commettido
o facinorozo assassino já declarado. e em que se suppoem, que o Reo fora
a caza do Duque de -\. ,-eiro ao conciliabulo em que se tratou da maldade
commettida. hé inteiramente falso dizer-se que elle Reo. fora áquelle con-
gresso, por quanto na manhã do dito dia não sahio fora de sua caza, como
prm ará, dando-se-lhe a isso lugar com todos os familiares ddla, e não
menos com .as mais pessoas da sua ,-izinhansa.

O setimo Reo, hé Antonio Ah·ares. a quem se imputa ser hum dos


monstros horrendos que commetterão o assassino de discarn:~gar em Sua
:\lagestade hum dos tiros que fez u emprego na Real Pessoa do mesmo
Senhor, e posto que hé \·erdade, que u Reo, fez confissão deste hurrendis-
simo delictu, tambem u hé de que negou a qualidade a_~gr<t\ antissima deli e
na sciencia de que na sege a '-}lle atirara hia a Real Pessua, e que nella
fa7ia aquelle empre(!;u, e aquelle que confessa o delicto, e nega a qualidade
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a_!!gnwante ddlc, não den! reputar-se ~onfesso, e só deve ser ~asrigado, mas
brandamente,. ~umo diz Tira~1uellus dt! pa!11. temp. (si~) caus. 3o. n. 0 17.
Farina~eus ;, pr.t.\.". cl"im. 4· 81. n." 1~11.
f. l.imit.t III;, C01~/ilellle .it•!idum. sed 11eg.wte qualit.tlem aggr·al'a1l-
tem. Is e11;11l pu11ittw mitius: _
P.:rsuadu-mc que esta qualidade ne~ada se· não há de conven~er ao
Heo, .z/iuudt! porque o que.! lhe persuadirão fui <-JUC atirasse hum tiro a
huma sc~e. cm que se di~e h:l\·ia de hir hum homem, tJUe queria fazer o
mesmo ao persuasor, c o Rco sem saber o que fazia, ou a quem fazia a
offensa sim delinquiu, mas removida esta ;,t~~ra\ antissima 4ualidade, fka o
negoóo nos puros termos de hum assassino ordinario, cm que, não pode
caber a pena ultima.

Hé oita\u H.co ~lanoel Alvares Ferreira, a favor de quem repito a


mesma olfcrta do j.í allc~ado, na parie appli.:a,·d, pois não sabendo este
Reo o fim para que seu amo o Du--]UC de \ ,·eiro lhe pedia os trastes, com
'-Jue se diz tora <i. embos~ada, sendo o Reo seu gu;:~rda roupa, e mío tendo
ubrigaçío de inda ~:1r os mO\·imentos do dito seu amo, e as dispozisoeHs a
que se cncaminhaviiu, ~:: menos o lJUe ellc sug~erio aos mais aiados, não
podia preHnir-sc de ~autellas.

~ pelo que toca ao Reo João .\liguei tambem offereço o mesmo


já dito.
E por artigo de facto e dcfeza.
PrO\·ará que o Reo João ~liguei na notlte referida de trcz de Setembro
passado, se rcculheo para ~an com o Duque seu amo, Yindo na taboa da
se~e no ministerio que tinha de criado de acompanhar, serião dez hora~ da
noute, e dahi foi direitamente para sua ~aza, que era perto da do mesmo
Duque, na lJUal se fechou, e não sahio fora, se não no outro dia, e nestes
termos hé impossi,-d ha,·er lJUem diga quP elle posteriormente se-postou
~um o dito seu amo no lugar, que se diz ser o da sua espera.

H.! t:1mbem Reo da mesma wlpa Jozé ~lanoel da Silva Bandeira, a


fa, or do qual torno a otTerecer o mesmo que já dice na parte applicavel.
E por artigo de sua defeza.
PrO\· ara que este Rco na mltra 'ez referida noute de trez de Setembro
se recolheu para sua caza despedindo-se dos mais criados gra,·es da família
do Duque de .-\\·eiro, como era seu ~osrume, e della não_ sahio mais na
dita noute, n.ío só a ca,·allo, mas nem a pé. pois de forma nenhuma o póde
t~1zer sem grande difticuldade, em raúo de ser muito pezado, e muito mal
,-isto, c nestes termos era impratica,·el a ~ulpa, que se lhe imputa.

Hé finalmente o ulfmo complemento dest_e funebre apparato o Reo


Hraz Romeiro. a quem se imputa, ser hum dos que conduzirão os cavallos
para o sitio do insulto, e posto que elle ~onfessou estas qualidades, pelo
rigor do tormento em que foi mettido, não havendo contra elle outra prO\ a,
mais qui! a da sua confissão extorquída nesta forma, a qual retracta. o que
fa7 a tempo, pois hé bem certo, que a retractação tem lugar, ainda antes da
~entença hé hem patente não hm e r prm·a para pena gra,·e neste Reo, a
fawr do qual tambem olfcreço o que dice a faYor dos mais na parte appli-
13
.:avel, e nada mais digo, .porque já me não ajudão as farsas, depois de as
ter attenuadas em prati.:as com estes Reos, qut: me obrigarão a recolher a
caza depois da meia noute, sendo-me percizo para este pouco que fiz, cortar
pelo descanço do curpo, e com grande detrimento da saude, tudo considero
muito na lembrança de tão spe.:taveis Juizes, que supprirãu a minha falta,
pda recomendação, que lhe faz a Lei unica, Cud. lJIILte desuni .ldl'ocalis
suppleat judex. =Com huma rubrica.
A.:crt:cento em tem pu, que a Re Dona Leonor de T avara, ainda não
foi perguntada, e os mais Reos, posto que o farão, não farão comtudo con-
frontados, e careados huns com outros para os encontros, qut: entre si
hão-de ter, e todos são mandados dizer de facto, e Direito em termos bre-
vissimos, e posto que reconheço que a gravidade da .:ulpa para exemplo
pede toda a prompta, e abre,·iada demonstração, isto ha de ser, quando a
prova o niío impede, o qut: só se ,-t:rifica no_ delicto nutorio, e esta notorie-
dade não ha-de ser só in jure. deve tambem ser in f~1Ciu, et inler ci1·cmzs-
hwtias a que os Doutores chamão notm·io 110/m·ie iiwxcus-abile, como com
muitos diz iusigné Petrus Barbosa ab lzostibus 1 1. ~- ftu. tf. soluto matri-
monio n. 0 :>6. vers. 0 , neque obstai, o Doutor Miguel Fernandes de Andrade
.1d. L .1/ l'im. 3. ff. dejust. et jur. n. 0 '!lilzi ~~:. .. só admitte esta notorie-
dade no cazo do adultero a quem o mando acha no a.:tual. e fragante de-
licto, e .:om esta notaria inexcusabilidade defende, de tão grandes contradi-
ções, que muitos Doutores ofterecem contra a Ord. Lb~ :>, tt. 0 ·38., mas
parece que esta notoriedade se não pude dizer. c ,-erificada no ca7u uccuremt:,
e Yos~as merces farão Justiça.= Com huma rubrica.
EN SERRAMENTO

Tem este procésso trezentas, e oitenta e sete meias tolhas, que todas
fi~ão numeradas. e rubricadas com a rubrica ~lcndanha de que uzo, e por
que achei com elle hum parei avulso, em grande parte riscado; o qual no
seu principio diz. assim: 1<Summario das provas que se ad1üo nas per-
guntas feitas aos Reos contra cada bum ddlesu, eu o ajunto adiante,
sem embargu do seu contexto mostrar a insignificancia do mesmo. Lisboa
nove de janeiro de mil setecentos oitenta e quatro. -=·Henrique Jozé de
~lendanha Bena,·ides Cirne.

SIT:\Ul.-\RIO D.-\S PROVAS QUE SE ACHÃO NAS' PERGUNTAS


FEITAS AOS REOS CONTRA CADA HU:\l DELLES

DUQUE DE AVEIRO, E DUQUEZA

Tem contra si a uptima testemunha de vista Salvador Jozé no depoi-


mento Letra A. corroborado com o depoimento de .:\larianna Thereza
Letra 8. João Ferreira Letra C. depoem que ouvira ao Estribeiro
do mesmo Duque Jozé ~lanoel, que dle mandara cellar os dois cavallos
Sen·a, e Palh.tl'am: Que ndles li.>ráo esperar a Sua ~lagestade em dilleren-
tcs emboscadas, porque escapando de huma não escapasse das outras : Que
Sua ~lagest;J.de, não escaparia se tomasse pelo caminho de cima, assim
como tomou pela calsada abaixo: Que depois do insulto se di,·ertirão todos
us que o commetterão em huma serenata. Depoimento de Jozé :\lanoel
Letra F. praticas particulares com os :\larquezes de Tavora, e Baille
maliciuLamente im·entado para disfarsar o insulto; confissão de cavallos
que mandou o :\larque7 de Tavora filho, e communicação com os Religio-
~:us da Companhia ibidún. Pistollas que preparou o Duque ibidem. Depoi-
mento de :\lanoel .-\h· ares Guarda· roupa. Concorda tambem de facto proprio
.\ntonio .\!vares Ferreira Letra H .• contando o cazo como foi inteira-
mente, athé se darem os tiros. Depoimento de.
MARQUEZ FIU:SCISCO DE ASSIZ DE TA\"ORA

Depoimento de .\larianna Thereza Letra B. se prma, yue se achou


na cunversasão, que ti' eriio de noute á porta do Jardim os quatro homens,
que Salvador Jozé Letra .-\. tinha jw·ado, que alli se ajuntarão, depois
de ha,·erem commettido o insulto. Depoimento de J, ,,.é .\lanoel per totum.
Depoimento· de seu filho Luiz Bernardo de Ta,·ora Letra I. l\n depoimento
Letra J. do ~larguez Luiz Bernardo de Ta,·ora, consta que concurreo para
a confederação pelos moti,·os, que se lhe persuadiriio pdo Duque de A vei-
ro, e pela .\largueza sua mulhl-'r: Que passara a fazer a. sua caza huma
offic;na de confederações traições, e machinaçoens contra a alta reputação,
e contra a vida de Sua Magestade : E que se achou nas esperas que se fi-
zerão ao mesmo Senhor, e no conciliabulo, que se fez em caza do Duque
de Aveiro na manhã proxima seguinte ao insulto. ~o depoimento do Conde
de Atouguia Letra L se ,-ê, que se achou nas perniciozas praticas, e cunfe-
deraçoens de caza dos Duques de A Yeiro, para se mudar o go\·erno, e pri-
' ar a El Rey ~osso Senhor da sua precioza ,-ida. E que se achou nas es-
peras. que se fez ao dito Senhor na noute do insulto. Xo dep0imento de
Braz Jozé Letra M. se pro,·a o com·enticulo que fez com o 'hrquez seu
filho na tarde pro:xirna precedente ao insulto, que mandou preparar para
elle os cavallos: Que foi nus mesmos ca,·allos ao dito insulto: E que es~
te,·e nas esperas. Ka reposta que o Duque de .A\·eiro deo sobre a decima
nona pergunta das primeiras perguntas depôz que entre este Reo, e os Re-
ligiozos Jezuitas havia huma estreita amizade. 1\a outra reposta sobre a
primeira das terceiras perguntas, depoz que se declarara com este mesmo
Reo, communicando-lhe o execrando plano dos Jezuitas, e os seos motivos.
~a outra reposta sobre a segunda das ditas perguntas, depoz que este Reo
abraçara a confederação entrando nella e ufferecendo-lhe armas e caYallos.
::\Ta outra reposta sobre a quinta das ditas perguntas depôz que este Reo
dera doze moedas para parte do premio dos Assassinos.
Na outra reposta sobre a setima das ditas perguntas depôz que o
mesmo Reo se achou na Assemblea que se te,·e na caza delle Duque na
manhã proxima seguinte ao insulto, e das praticas, que del_la ti,·era.
Na outra resposta sobre a nona das outras perguntas, dep<n, que este
Reo, fora o conductcr das dezeseis moedas, que sua mulher mandou para
outra parte do premio dos Assassinos. :\a outra resposta sobre a undecima
das ditas perguntas, torna a confessar o Duque que fizera confederação
com este Reo. Nas declarações sobre a primeira das quartas perguntas,
depois que o mesmo Reo se achou nas esperas, sendo nellas socio de Braz
Jozé : Que estaYa com elle na emboscada que se fez junta ao muro da
Quinta que foi do Conde de Ohidos: Que se achc.u na pratica noturna
junto á Pranchada da obra: Que alli dicera que lhe parecera, que El Re,·
~osso Senhor falecera dos tiros. Na resposta sobre a segunda das mesma·s
quartas perguntas depoz que este Reo fura o que persuadira o Marquez
d'Aiorna.
JOZE MARIA lJE TA VORA .\.ll'll-\:\TE D.\S ORllE:\S

Depoimento de Jozé .\lanoel pe,· tolum. Depoimento de l.uii' Bernardo


de Tavora Letra I.. onde consta foi destrahido p~•r sua .\Iay a .\largueza de
197

ran)ra nas rrati~as, que fazia em sua caza: Que se a~hou nas esperas da
noute treL de Setembro, c no ~onciliabulo da manhã proxima seguinte. :\o
depoimento do Conde de Atouguia Letra 1.. consta, que se achou nas espe-
ras da noute trez de Setembro prm..imo passado. :\a resposta da setima
das ter~eiras perguntas depôz o Duque de r\ ,-eiro, que este Reo se adwu
na .\ssemblca que se teve em caza delle Duque na manhii proxima seguinte
ao insulto, dizendo sobre o ponto de não ha,·erem os tiros produ.ddo o seu
maligno etlcito 1•C<\ pelo homem não ha,·ia escapar.~> l\a resposta da oi-
ta\·a das ditas perguntas dcpoz que o m_esml) Reo entrava na ~onfederação
~ontra o gu,·crno de Sua :\lagestade, dando-se por disclmtentc, por não ter
sido accres~entado. ;..jo prcambulo das quartas perguntas depoz, 4ue ha,·ia
dado dois pat·cs de pistolas a este Reo, e ao Conde de .\ touguia para a
espera, que tizeráo associados, e que depois do insulto fugiráç para a parte
do ~one. Dedarou mais, que este Reo se achou na pratica, que houve na
mesma noute por de traz do Jardim delle Duque: E que foi o que ali i per-
guntou uQuc hé feito do Joiío.)) .
JOZÉ :\1.\Rl.\ DE T.\VOR.\ CONEGO

No depoimento do Marquez Luiz Bernardl) de Tavora, consta que se-


guia as abomina' eis maximas da Marqueza sua cunhada, penenido pelas
doutrinas do perniciow embusteiro ~lalagrida. ::\o depoimento de Braz Jozé
Letra M. consta que na mesma tarde do insulto, foi hum dus que estiverão
fechados ~um o ;\larquez de Tavora filho. ~o appenso decimo quarto,
~unsta du depoimento de Joaquim dos Santos Cu~heiro do Duque de Avei-
ro, que este vizitava o dito Reo com frequencia, dilatando-se mais, quando
o achava só, e menus quando estava gente. ~o appenço decimu quinto
consta pelo depoimento de João Bernardo, que o mesmo Rco se achou em
caza do Duque de .\ ,·eiro na noutc do insulto. No appenso setimo consta
do depoimento de r\ntuniu ~lartins mosso da Estribeira do Duque da grande
amizade, c vizitas entre este, e o dito Reo. ~o appcnço oitavo Antonio
Dias mosso de acompanhar. e ~ontidente do Duque de Aveiro, depoem, que
este Reo montou em hum dos ca,·allos. que lorão á espera na no1ttc du
·insulto.
MARQUEZ LUIZ BERNARDO f•E TA \"ORA .

Depoimento Je Juzé :\lanoel per to/um. ~o depoimento de Braz Joz~


Letra ;\l. se pro,·a do ajuste que fc7 com seu Pay para ~ommctterem o de-
licto: Que mandou apparelhar os ~a,·allos para ellc: Que se achou nas es-
peras do insulto: E que depois do mesmo insulto, ficou uzando de pistolas
'"arrcgadas, contra o seu antecedente costume. Nas declarações feitas sobre
a primeira das tcrceiJ:as perguntas depoz o Duque de .\xeiro. que o ~on\"i­
dara para entrar nesta cont'cdcração. ~a reposta da segunda das mesmas
perguntas dcpoz que este Reo a~eitara a preposta, entrara na confederação,
e· otferecera ~avallos, e o mais que fosse ne~essario para o insulto: ~a res-
posta da terceira das mesmas perguntas depoz, llUe o dito Rco com effeito
havia mandado dois cavallos para a ca\"alhari~e delle Duque dois dias antes
do insulto, os quais servinío nelle. :\"a resposta da quarta das mesmas per-
guntas depoz que o mesmo Reo. mandara ao dito insulto hum Cabo de Es-
'9~

quadra d?- sua companhia. de quem costumava fiar-st, o qual consta, que
foi o chamado Braz Jozé. :Na resposta da setima das referidas perguntas
depoz que este Reo se achou na Assemblea, que se teve cm caza dos Du-
ques de A ,·eiro, na manhã proxima seguinte ao insulto, e ao que a IIi ha,·ia
dito. ~a resposta da undecima, e duodecima das mesmas perguntas depoz
outra vez qut este Reo estava na confederação com :\lanoel de Ta,·ora, c
com as condeças da Ribeira.

CONDE E CONDEÇJ\ I•E ATOUGUIA

Depoimento do l\larquez Luiz c Bernardo dt l'avora Letra l. onde


consta que seguião as doutrinas e maximas de :-.ua sogra. Que por e:}la~
tinha concebido aversão ao GO\·erno de Sua ~'lagestade, e se tinha achado
nas esperas. No mesmo depoimento in fine consta que a condeça de Atou-
guia se achou no mesmo conciliabulo da manhã proxima seguintt ao insulto.
consta da sua propria confissão espontanea contheuda no seu depoimento
Letra L. em dois lugares, qul: toda uu quasi todas as noutes concurrião
elle, t sua mulher nas praticas que se tinhiio em caza dos J\larquezes dt
Ta,·ora e seus sogros, sendo as ditas praticas tais, como se Yê do depoi-
mtnto do Marquez Lui1 Bernardo, e do mesmo depoimento deste Reo. ~a
resposta da decima nona das· primeiras perguntas, depoz o Duque de A ,·eiro
que esta condeça tinha por Director espiriwal Gabriel ~Ialagrida, t que o
reputm·a, por homem penitente, e santo. Na resposta da setima das tercei-
ras perguntas, depôz que a mesma Condeça se achara na Assemblea. que
se teve em caza delle Duque, na manhã proxima seguinte au insulto. ~a
uutra resposta da oitava das ditas pe'»untas depôz os motiYos, que a dita
Condeça tomava para a a\·ersão du Lro\·erno de Sua Magestade. :-\a res-
posta da nona, e decima das ditas perguntas depoz, que a mesma cundeça
concurrera com oito moedas para premio -dus Assassinos: E que metera
na conjuração os Jezuitas Gabriel 1\'lalagrida. João de Manus. e João Ale-
xandre. Na resposta sobre a decima terceira das ditas perguntas dcpôz que
a mesma Condeça communicava com as Con9eças da Ribeira e com todos
o:- conjurados.
JOZE :\L\:-IOEL DA SILV .\

Depoimento de João Ferreira Len·a C. corroborado com seu cunhado.


e filho Letras D. E. e com a sua propria confissão.

AiXTONIO .\I.V:\RES, E JOZE POLICARPIO

No depoimento de seu Irmão Manoel Alvares Letra G. consta que


foi por elle chamado da parte do Duque de A ve iro para commetter o
insulto: e que este Reo confessara ao dito seu Irmão haver commettido o
mesmo insulto de sociedade com Jozé Policarpio. i\o depoimento do Duque
de A\eiro Letra O. consta plenamente do mandato por dlc dado a
estes Reos das diligencias, que ambos fizerão em sociedade com o mesmu
Duque para se preporem ao insulto, do premiu. execução du mesmu

.-
insulto; da fugida. e pratica, que depois ..:l.dle ti\ erão : Tudo se acha corro-
buradn, e confirmado contra ambos estes Reos, pela confissão do dito
Antonio _\h·ares Ferreira Letra H. :"-Ja confissáo que o Duque fc7
sobre a decima sexta ..ias primeiras perguntas, se achão proYad,os o man-
dato, que deo a este~ Reos, o dinheiro com que os premiuu, o insulto que
elles commeteráo. a fugida que fizeráo, depois delle, e a pratica que depois
hom·e entre os mesmo~ Assassinos e o Duque. ·

.:\u ~eu proprio de_poimento Letra G. consta, que o Duque lhe


mandou chamar os .\ssassmos Antonio _\h·ares Ferreira, e Jozé Policarpio:
Que \estio o mesmo Duque nos trajes disfarçados, quando sahio do Jar-
dim. a cometter o insulto, e quando voltou delle: e que foi o que em
.\zeit:í.o rczistio ao .\kaidc, ao tempo da prizáo do Duque. Consta mais da
sua propria confissiio, que o dito Antonio Ah-ares lhe confessara trez, ou
quatro dias depois du insulto a este- Reo, que elle havia sido hum dos .Assas-
sinos de Sua :\lagestade. O mesmo confirma o dito Antonio Ah·ares'Fer-
reira Letra H. O mesmo confirma o depoimento do Duque ..i. e Aveiro
Letra O. na resposta sobre a dccima sexta das primeiras perguntas. :'\o
depoimento do Duque Letra O. sobre a decima sexta pergunta refere
que por e:-.te Reo mandara chamar o Assassino seu Irmão, e no depoimento
sob1·c as qu.nro perguntas depôz o mesmo Duque. que por elle havia man-
dado bu~car os pares de pistolas. que guarda\'a o Estribeira Jnzé :\lanod ...

CO:"I•E E CO~nEÇ.\S n.\ RIBFIR.\

l\as respostas da duudecima, e decima tet·ceira das terceiras pergun-


tas, depôz o Duque de Aniro, que as CunGeças da Ribeira ~Iay. e Filha, c
o Conde Dom Guida entrarão na mesma confederação dos Ta,·oras. c delle
Duque. e Duqueza, distrahidos pellas suggestões do Jezuita Diogo da Ca-
mara. e que tambem ha,·ião contribuído com seis moedas para o .premio
dos Executores do insulto.
00:0.1 \1.\l"OEL nE SOU/..\

Depoimento do Guarda Roupa :\lanod Ah·ares Letra G. nas pri-


meiras perguntas ;, /i11e. Do depoimento Letra ~. de Dom Paulo da
Annunciação, consta Ja sua intima união, e confiança com o Duque de
A' e iro, sendo antes seu declarado inimigo. :\a resposta da decima quarta
das terceiras perguntas depõz o Duque de Axeiru, que communkm a com
este Reo a ..:onjuraçiio de que se trata da mesma sorte que se praticav(,l
dentro da familia, humas \<ezes de pala\Ta. outras por cartas do proprio
punho; de sorte, que elle tudo sabia muito bem, e que otfcrecera os seus
mulatos para Executores do insulto: .Accre:-,centando, que o mesmo Reo.
cultiva\'a e·m·eita amizade com Antonio da Costa Freire, ·o qual era socio
Je todos na aversão ao Gonrno de Sua :\lagestade, e nas calumnias para
u malquistar. ·
200

MANOEL DE T.\ \.OR.-\

~o depoimento do Conde de Atouguia Letra L consta que elle


concurria nas conversasoens e praticas, que se tinhão em caza dos )larque-
zes de Tavora, sendo tão perniciozas, ..:orno consta do depoimento
Letra I. do l\larquez Luiz Bernardo, e do outro depoimento Letra L
do Conde de Atouguia. Na resposta da setim~1 das ter.:eiras perguntas. de-
pôz o Duque de A ,·eiro, que este Reo se achou em sua caza na Assemblea,
que ndla se te"Ye na manhá pro:\.ima sef!Uinte a noute do insulto. :\a res-
posta da oitava das ditas perguntas, depoz que o me~mo Reo era hum dos
que tinhão aversão ao Governo de Sua l\lagestade, e que tomava por pre-
texto especial haYer-se dado ao Conde de São Vicente o Regimento do
Cais, devendo-se-lhe dar a elle Reo. ~a resposta da undecima pergunta,
depôz que esta,·a na ..:onfederação delle Duque, e dos Ta,·oras, e que dera
seis moedas para parte do premio dos Executores do insulto.

MARQUEZ D"ALORNA

No depoimento do l\larquez Luiz Bernardo consta que tambem fora


fazer exercícios espirituais a Setubal com o perniciozo embu!>teiro ~lala­
lagrida. Na resposta sobre a segunda das qi1artas perguntas. depôz o Duque
de A ,·eiro, que os l\larquezes de Ta vora Pais tinl1ao persuadido ao )larquez
d'Alorna a entrar na mesma conspiração, e lhe ha\Íao ambos segurado que
• se achava nella.
A~TO~IO DA COST.\ FREIRE

Na resposta que o Duque de- Aveiro fez sobre a decima quarta da!->
terceiras perguntas depóz, que con~munica\·a com este Reo sobre o-ponto
de faze"r odiozo o Governo de Sua l\lagestade, em razao de saber, que este
Reo blasfemava sem regra, nem medida: Que tinha estreita amizade com
Dom- l\lanod de Souza, achando-se este na conjuraçüo de que se trata, e
que já havia feito outro plano para a mudança do Go,·erno do Reino.

llRAZ JOZE

No depoimento do l\larquez Luiz Bernardo Letra I. consta que se


achou nas sa..:rilegas esperas da noute de trez de Setembro. 1\o depoimento
da Letra L do Conde de Atouguia, consta o mesmo. Pelo depoimento deste
mesmo Reo, Letra M. se vê que desde o anno de mil setecentos quarenta e
nove viveo sempre com os l\larquezes de Tavora Pais, que da caza destes
passou para a do :Marquez lllho, de quem era ccmprador, e ,-alido. E que
confessa a sua cooperaçao para o ddicto por dillerentes modos. ~a res-
posta da quarta das terceiras perguntas, depóz o Duque de A wiro, que este
Reo se a..:hou nas esperas, que se fizerao a Sua )lagestade na noute do
insulto posto que o n<io denomina no seu proprio nóme: O que nada im-
porta para o cazo, constando da identidade da pessoa, conforme o Direito.
Nas declarações, que fazem o preambulo das quartas perguntas, depoz o
mesmo Dtique, que este Reo se acha,·a asscciado com o 1\larquez Pai em
huma das esperas. Que se achou tambem com elle na pratica que houve
..
20i

junto ao Jardim delle Duqu~ na noute do insulto. depois. que el>te se tinha
commet;du.
t:O:o-IIF III' OIUI1tl~

!\o dcroimento Letra I. do )larquez Luis Bernardo de Tavora. consta


que se acha,·a nas pcrniciozissimas conH!rsasões da :\larqueta d~ Tavora,
sendo ellas tais, como se prova do mesmo Jepoimt:nto. O mesmo consta do
depoimento Letra L do Conde J~ Atouguia. :\a rt:sposta da segunda das
quartas perguntas dcpôz o Duque de A \·eiro, que o Conde dt: Obidos se
achava na mesma confederação. persuadido pela mt:sma :\larqueza Dona
l.eonor de Tavor<'t em razão da grande amizade, que com ella tinha da
frequencia. com que concurria nas conv~:rsasões da caza da mesma :\lar-
que.ta, em ~tuc se fazia odiozo o GoYerno d~ Sua ,\lagestade, ~ de se decla-
rar nas ditas conn!rsasõe.• queixozo, e di~contente do mesmo GoYerno.

RELIGIOZOS DA C0\1PANHIA

Dt:poimento de Jozé Manoel Letra F. nas segundas p~rguntas i11 fine.


~as perguntas de Joze ~lanoel Letra F. se pro\·a que o Procura-
dor Geral Jozé Pcrdigüo costuma\·a hir a caza do Duqu~ dt: Aveiro: Qut:
este ha,·ia dado ordem para que lhe dessem recado logo qut: chcgasst: o dito
Perdigüo. E que a mesma caza hiüo dois Jezuitas mais. :\o depoimento do
i\larquez Lui.t Bernardo Letra I. consta que o p~rniciozo embu~teiro Gabriel
Malagrida de acordo com a .\larqueza Dona L~onor dt: Ta\"ora, fura o qut:
com os seus embustes espirituais pre\·erteo todas as Pessoas os criminozos
da familia dos Tavoras: sendo hum dos principais, ou o principal instru-
mento de que o Inferno se sen·io para ~sta ~xacranda conjuraçüo. :\o dt:pui·
mento Letra L,.. du Conde de Atouguia consta que a Marqueza Dona Leonor
dt: T a\"ora, dirigia todas as suas diabolicas ~achinações pelos conselhos do
m~:smo impol>tor .\l.tlagrida. :\o depoimento Letra :\. de Dom Paulo da An-
nunciaçiio consta que o Duque de A\ dro se procurou unir com elles, logo
que Sua .\lagt:stade os ~:xduio do Paço, e qut: tinha trato especial com o
Padre Jacinto da Costa.
Na decima oitava pt:rgunta feita ao Duque de .-h·eiro se pond~rarão as
razoens. pelas quais era \ erosirnel, que o mesmo Duque se fiava destt:s Re-
ligiozus, o mesmo. se apertou ainda mais na decima. nona das ditas pergun-
tas. i\ a primeira resposta da=- perguntas depoz o mesmo Duque que a
conjuraçao te\·e a sua origem nas praticas delle Duque com os J~Luitas Ja~
cinto da Costa, Thimoteo d~ Oliveira, João de .\lattos, Jozé Perdigão: :\os
pr~textos, llUe esteS lhe suggeriráo, e na Confederação que liLera COm elles
o~ .\larq-~ezcs de Ta~·ora Pais, e os Jez~titas. que Gabri~l .\lal~rida a
Dlrrec (SIC) da .\larqueza Dona Leonor de ra\·or:a. dt: sua tilha a Londeça
de Atouguia, que o tinhão por homem tentento (sic;. ~a resposta da primeira
das t~rceiras perguntas ratificou o Duque o mesmo, accrescentando, que os
ditos Padres assentarão, que era licito, c meritorio attentar contra a vida de
Sua .\lagt:~tade. r\a outra resposta sobre a duodecima das t~rceiras pei·gun-
tas depóz o mesmo Duque, que o Padre Dio15o da Camara fora quem per-
suadira os Condes da Ribeira a entrar na conJuração.
Na resposta da decima das segundas pt:~untas, dcpõz o mesmo Du-
que, l}Ue os ,\larquezes de Tavora, meterão na conjuração João Alexandre,
.loiio de ~lattos e Malagrida Jezuitas. .

MAR(,/UEZA DO:\ A LI'O:'\UR llE L\ \"ORA

Pdu depoimento de seu filho Luiz Bernardo notado com a Lt:tra 1.


.:onsta que esta Ré, foi huma das duas principais cabeças des(a infame con-
juração, arrebatada pela sua Luáferina soberba, c insassiavel cobiça: Que
dia foi qut:m meteo seu marido, filhos, cunhados, genros, c outras pessoas
nesta infame conjuração: Que ella foi a que fez em sua caza as praticas, e;:
=-uggestõcs perniciozas, para concitar a a\·ersão, e odio contra a Real Pessoa
de Sua Magestade: E que para este fim se scnio dos embustes espirituais
do abuminavcl impostor .Malagrida: E que para o mesmo fim se ajustou, e;:
confederou com o Duque de AYeiro, sendo antes sua implaca,·cl inimiga. ~o
depoimento Letra L. do Conde de Atouguia .:unsta. que se achou nas conte-
deraçoens, e machinaçóes, que se rizerão em .:aza du Duque de A ,-e iro, para
. . . e mudai· o governo de El Rey Nosso Senhor. e se privar Sua .:\lagestadc
da sua preciozissima ,-ida: Que esta Ré, fazia cm sua caza as mesmas dia-
bolicas praticas, excitando aversão, e odio contra o mt:smo Senhor. Na re-
posta que o Duque de ,\ veiru fez sobre a decima nona das primei r as per-
guntas, dcpàz. que Gabriel l\lalagrida era o Director espiritual desta Ré.
que o tinha por homem penitente e santo. Na outra resposta sobre a setima
e nona das terceiras perguntas, depàz que esta Ré tinha dado dezeseis moe-
das para u premio dos Assassinos. Na resposta sobre a decima çlas mesmas
perguntas, que a mesma Ré· meteu nesta confederação os Jezuitas João Ale-
xandre;:, João de 1\lattos, c Gabriel Malagrida. Na outra resposta ~obre a un-
de;:cima das ditas perguntas depõz que a mesma Ré metera nesta conjuração
a l\lanuel de Ta\·ura, e na resposta da duodt:cima pergunta, que tambcm
metera nesta contt!deração as Condeças da Ribeira. ·

ll0:\1 PAULO l>A .\N!\UNCI.\c_:Ao

Consta do papel que cm quinze de Dezembro pro~imu passado. reme-


teu ao Dezembargador Pedro Gonsalves Cordeiro Pereira, c da carta, que
cm dezt:seis du dito mez cscrneo au 11lustrissimo, c Excellcntissimo Senhor
Sebastião .lozé de Can·alho e 1\lellu a insolita, c nimia cautella, .:um que;: se
pcrtendt:o sin.:crar, Iugo que ,-io prezo o Duque, não ha\·endo antes falladu
huma só pala\Ta nas gra\·es materias, que só então se cinceruu, posto que
depois negasse tudo quando foi perguntado na resposta da de.:ima quinta
das ter.:ciras perguntas, depàz o Duque de A Yeiro, que a este Frade com-
municara clle Duque a .:onjuraçáo, e machinação da morte de El Rey Nosso
Senhor, em razão da intima amizade, que com ellc tinha: Que o mesmo
Frade apprO\·ara aquelles absurdos,· intendendo que lhe facilitaria os meios
para ser Hispo Pro,·isor do Senhor Arcebispo Primaz: Que alguns dias de-
pois do insulto da noute trez de Setembro proximo passado, fora conferir
.:um o mesmo Dum Paulo sobre as consequencias, de náo ha,·erem produ-
Lido os mesmos sacrilegos tiros, o cnormissimo effeito, a que se ordenarão:
E que o me~mo Frade lhe dicera, que havia communicado tudo a outro
Frade da sua mesma urdem. alto magro de o.:.:ulus, que sahira ha,·ia pou-
cos mezes de Palha,·am para ser Procurador Geral da mesma ordem .

.-
".&03

I0,\0 IW T \ \"OR \

~a!> Jedaraçucn:o.. feitas ~obre a primeira das ter.:e1ras pergunta:o.


Jepõz u Duque de .\' eiru. '-]Uc tinha \:t.mmuni.:adu a este Reo a con-
juração e os prctéxtos della. :\a resposta das segundas das ditas perguntas
Jepõz '-]Ue o mc:o.mo Réu Sé assu.:iara .:om cllc : Que se ·ofterc.:eo para ser
Exe.:utor Jo insulto: Que porem depois havia exortado o mesmo Duque a
Jczistir delle: E '-]Ue nt:stt: propozitu partira para T rat: os ~I untes.

'
E nãu ~c l:untinha mais em us dito~ authu~. liUc fiz trasladar bem. c:
fi"elmcntc na \c:rdade. sem levar couza. que duYida fasa, e que nas .seguin-
tes dedaraçuins se nãu sah·e, a saber, que a folhas ,·intc duas nu seu re-
verso. c na regra dcdma tcrl:cira se csa..:\·cu e denominou a Bahhasar João
'-la ~-a .Juiz do Pm·o. dc\·cndo dcnominar-ce como tal Antonio Rodriguc~
d'.-\lmada, procedendo isto daquc:llc assignar como hum da caza dos ,·inte c
'-luatro tam junto a este, que dcü l:auza a sim.ilhantc equivocação.
fambcm a folhas trinta c seis, c na regra dccima nona se escreveu
por extenso upclas no\·c horas da noutcn cntendcndo-l:c "o caral:tcr ambiguu
que se al:ha no original. por no,·c. podendo ser sctte, l:omo outros poderão
entender.
Da me~ma turma se csl:rewu a folhas trinta e no\·c nas regras oitm·a
c nona ul:Om oito rubril:as>, dc\·cndo dcdarar-ce, que as primeiras trez
rubril:as são dos ~eaetarios de Estado. e as sinl:o dos .\linistros da .\leza.
Igualmente parcl:e se dc,·c dedarar que nos amhos originais se não
esl:re\"cU a assentada. que dc\·ia rrcceder as perguntaS feitaS a Jozé .\lari~l
da Silva Bandeira. que nu renrso da lauda l:ento e dez deste traslado se
prinl:ipião a esae\·cr sem a mesma assentada, por se ad1ar no original em
hranl:o.
Similhantemt:'ntc se não al:hão finalizadas, a cm l)Ue foi perguntado
Joaquim dos ~amos a folhas cento e sette.Jta e nove; a da o; perguntas que
se fizerão a Domingos .\Ian1ues, que vão escritas neste traslado a folhas
l:cnto e oinema e duas: e as assentadas, que nelle se escrc\·erão a folhas
cento e oittenta e sinl:o. cento e oittcnta e seis. cento e oittenta e oito , .. 0 , cento
e noventa e huma. cento e noventa e quatro. e cento e nO\·enta c sinco· \". 0 das
perguntas feitas a .\lanoel da Fonsel:a. Jozé Fernandes, .To7é Antonio. João
Bernardo. Pedro da Sih-a, e Antonio Jo7é Leitão, que todas se al:hão nos
authos originais prinl:ipiadas l:Om o que neste traslado se copiou, e sem nos
mesmos se finalizarem: aos quais authos em tudo c por tudo me reporto.
em fé e certeza do que \·ai este traslado, que l:ontem dll7entas e oittcnta c
duas meyas folhas numeradas e rubril:adas com a rubril:a .\lendanha por
mim o Dczembargador Henrique Jozé de .\lcndanha · Bcne,·ides Cirnc l:omo
Escrh·áo por Sua .\lagestade que Deus Guarde nomeado para escrenr na
rnista pdla mesma Senhora fal:ultada subsaito, l:Onl:ertado e assignado
l:Om o Dezembargador .\larcelino Xavier da Fonsel:a Pinto al:tual Jui7 Rela-
tor dos embargos de obrepção que pendem sobre a mencionada rc,·ista sendo
prezente ao concerto referido o Dezembargador Prol:urador da Coroa João
Pereira Ramos de Azcredo Coutinho que tambem assignou. Lisboa ::q. de
.\larço dc: 1 ;X..t- -' Conl:crtado por n1im com o proprio.-=- HcnrÍl]Ue Jozé de
.\lendanha Bene,·ides Cirne ~ E wmigo c .\larl:elino Xa,·icr da Fonsel:a
Pinto= Fui prezente =Com uma rubrica.
I~l)ICE CRO~OLÓGICO

Em 7 «Por ser com·enicnt" Jar pro' iJ.:ti.:ia ao go' em o ,!..,,~<.s reinos c ,.eu~ Jomi-
nios emquanto Jurar a molestia com que prt:sentemente me acho, para que
a suspensiio dos ncgocios (ainda st:mlo bre,·t:"t os não accumul.c. de sorte que
d.:pois. se faça mais dil~.:ultos~ a c\.pedição dcllcs .. hei por bc::m encarregar o
-.obr.:dtto g<)verno á ratnha. mmha sobre todas multo amada c prezada mu-
lhcr.j'ara ~ue. cnhJUanto cu não .:on\"alescer. o exercite ~om toda a suprema
juris i.;f10 e real e alto poder '-JU<= me competem: confiando SeJ!:uram.:nre d.ts
suas reaes \"irtudes c .:x.:ellcntes '-lualidades qut: administrani justiça aos
meus fieis ,·assallos~ e obrará .:m tudo o mais .:om o aceno que desejo. E
para lJUc conste desta minha' real resolução. ordeno que Sebastião Jose! de
Can·alho e :\lello. do meu conselho c secretario de t:stado dos negocios df1
reino. depois que este decreto fór eor mim ruhrica~o. ende a ~odos os tri-
bunat:S as coptas delle, ás ')Uaes. tndo pelo sobr.:dno secretano de e"tado
s~bscritas. s_e dará !amo credito como ao proprio <>ri~ina!· con_10_ já se tem
a este rcspe~to praucado. e nào _?bstante q~aes'-luer lets. dtspostçues ou or-
dens contránas.- Belem etc. -l.om a rubnca de Sua :\la~estade.- Sebas-
tião José de Carvalho e :\lello». Frei r~:: de Oliveira. Elementos etc. vol. X\'1 ...•
Em q nEI-rei. nosso senbor, por causa de: uma queda que dt:u dentro do seu palacio.
- se sangrou no dia 4 destt: mC:s. e por beneficio do dito remedi o qu.: logo lhe
foi aplicado. tem- Sua Magestade conseguido todas aquellas melhoras que
todos os seus fieis 'assallos lhe desejamos c ha\"emos mister». G.tjel.:t Jt•
Lisboa.

DF ZE~IBRO DE lí='))

Em 4 Carta de um padre da Companhia ao padre Francisco Pessoa em \:{orna •..


• 9 Decreto de nomeação do Dr. Pedro Gonçal\"es Cordetro Per:eira para juiL
da lnconfidencia ...•..............•...•..•..•....•.•.•...•....•........
Em 9 Decreto pelo qual se tornou publico o atentado contra El Rei D. José come-
tido .:m 3 de setembro. se estabele.:em prt!mios aos denunciantes e penas ao,
que conhecendo os criminosos os não delatar.tm e ainda outras disposições.
Foi impresso a••uls.tmerzte .....•......•.....••••••....•.•.......••..• ; e .!.l
Em ~Decreto para u Dr. Pedro Gonçalves Cordeiro Pereira proceder imc:diata-
mente às diligenctas necessárias para se descobrirem e prenderem os reus
do atemaJo, fazendo-os logo jul~ar independentemente das formulas de Di-
reito. sendo escri,·ão do tribunal o Dr. Jose .\ntonio d"Oiiveira :\\achado.
Em ~~ Acta da reunião dos membros do Juizo da lncnnfidencia sobre a pnsf1o da-
208

pessoas indiciadas no atentado e sobr.: proceder-,., ao corpo de delito na


carruagem e vestido de El Rei...... . • . . . • . . . . . . • . . . . • . • . . • . . . . . . • . . • • • . 4
Em ~~ .. o Doutor João Marques Bacalhau do meu Conselho, e do da minha Real
Fazenda: passando logo ás cazas. em que tem a sua rezidencia a Marqueza
de Tavora D. Leonor de Tavora, junto ao Cruzeiro da Estrada de Nossa
Senhora da Ajuda lhe imime nu meu Real !'llome, que sou servido ordenar-
lhe que logo. e sem replica alguma, qualquer que dia seja passe por ora
com a sua P.:ssoa sóm.:nte para o ~loste1ro das Religioza~ Descalças da
Ordem de Santo Agostinho sito no suburbio do Grillo no qual se conser-
vará ate segunda ordem minha: Tendo entendido o sobredito 1\linisrro, que
deve executar esta na mesma forma que nella se conthem immediatameme,
e de sr,rte que no termo precizo de trez horas me traQa a minha Peal pre-
,ença a ceni,lão de haver com efeito emrad0 a dita ~l;,rqueza no referido
\I<J,teiro, sendo ella acompa_nha,Ja em roda a diligencia pelo dito ~tinistro,
e pela guarda militar. com que lhe mando assistir para a .lita diligencia. Bel-
lem a nove de Dezembro de mil senecemos cincoenta e oito.- Rubrica de
E/ Rei.- Registado». B. Nac .. Pombalina, ms_- 68-t, p. 1
Em J3 «:\landa El Rey nosso Senhor. que nenhuma Pessoa de qJ-Jalquer qualidade
c condíç5o que seja ouze sahir desta Corte, e suas \'izinhanças por Mar, ou
por Terra ate se!::unda ordem, sem se qualificar na presença do Doutor Es-
tevfw Pedro de Can alho Desembargador dos .-\~~r avos da Casa da Suppli-
.::acão morador a Santa ~l:~rinha. e nnmea,lo por Sua ~la~estade para as
ditas qualificaçoens. e expedição dos Passaportes '-]Ue Jelles hão de resul-
tar; sob pena de serem reconduzidas ã sua custa as Pessoas, que partirem
sem os ditos Passaportes. os quaes \'alerão sómente para vinte e quatro
horas, e mais não; e de pr-'Jceder contra e lias cu mo desobedientes aos man-
dados Re~ios. Paço de Bdem a J3 de Dezembro de 17 58.- Sebastião Joseph
d.e CarJ•,Jllzo e .\fello». Folha impressa no n. 0 1120, azul, das S. C. da Bib. Nac.
Em «Cüpia ,h representaÇão. que fez o juiz do po,·o. e casa dos vinte e quatro
assim que se publicou o Edital de 9 de Dezembro de 17S8. '
.,() Juiz do Po,-o, e Casa dos Vinte e Quatro tem a honra de pedir a Vossa
Excellencia ponha na Real presença de Sua ~lagestade. que o seu justíssi- •
mo Edital fov lido pelo fiel Povo de Lisboa com muitas lagrymas que to,lo
elle pede justiça contra hum attentado. de que não ha exemplo na fidelidade
Portugueza; e que para o \'in~ar espera com impaciencia as Reaes Ordens
de Sua ~lagestade, pois todo elle deseja anciosamente derramar até a ultima
gota de sangue pela glüria. e serviço do mesmo Senhor». Fo/h,t impressa
no n. 0 1120 azul das S. C. d-a Biblioteca Nacional.
Em •5 Depoimento de Salvador José Durão .•....................• ~· ........ -.- 70
" lnformacóes de D. Paulo da Anunciacão................................ w3
ti~ Carta ,teD. Paulo da Anunciação a
Sebastião José de Carvalho e Melo,
datada de Palhavã..................................................... 102
Em 16 Declarações de \lanuel Alvares Ferreira, guarda-roupa do duque .... -.... 106
" Represemação da Casa dos 2-1- sobre o agravamento das penas aos reus do
atentado ............................................._................. 16
1; Preguntas feitas a Maria Teresa, criada das filhas do duque de Aveiro •. -- 71
11-l Cana do P.• Antonio de Torres, do cole~io de Bragança, para Roma...... 7ó
" Carta dn P.• .lr,ão de ~laws para o P.• Pedro lnãcio Altamirano. Publicada
na De.f11ç.'io C/wonolo{{ica. Pane I das Prm•.Js (1768)................. .. . • . 63
Em 1R Cana ,lo ·p_e José Rosado para o P.• Pe,lro lnacio .\ltamirano............ 6f
" 19 Carta ao P.• Prücurador Luis da Silva. Ded.uç.'io chronologic.t. Publicada na
Pane I d.ts prm•:zs 11768) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . • . . . . . . . . . . . . . . . • . . . • . • . . . 62
Em 1~1 Cana d .• P.• João Henriques ao P. 0 João de Gusmão..................... 62
" Consulta da camara de Lisboa a El-Rei propondo-lhe '-JUC os criminosos se-
jam ·punidos com fones castigos e que se prendam os que andarem soltos.
Comunica que é intenção do s~nado celebrar todos os anos em'-]Uanto o mun-
do Jurar na igreja de S. Antonio dos Capuchos uma festÍ\•idade no dia 3 de
setembr<J. Publicada por extenso por Freire de Oliveira nos Elementos etc.
X\'1 .............................•.......... _.. .. . . ... • . .•. . . . . . .. . .. . . 38il
:!o Certidcto ,fo cirurgião .-\ntomo Soares Brandão snbre os ferimenws de El Rei 11
" Decreto de desnaturalizaçito e do emprego da tortura aos reus .to atemadfi,
a pedido da Casa dos 2--l· ...................... _..... - ......... -.-....... --,R
Em :m Se~undas pregunta~ feitas a .\lariana TereLa •...••.... · •.••.. ·..••......• 7J
.. ~~ Pre~un1as feuas a Antonio .\h·ares Ferreira ••.•. ::-....................... 112
• n T~or'.:eiras pregunta~ feitas a :\I ariana "(~ere.ta.. . . . . . . . . • . . • . • . . . . . . . . . • 75
• • .:'e~undas pre~untas fciws a .\ntonio .\h·ares Ferreira.................... 117
" 2-f. Pregumas ao I>u-JUC de .\,·eiro.......................................... 152
.. .\ssentos da Hcla.;i"tu ,to Porto provi,tenciando au descobrimento dos RR.
do s:1crilego insuh•• ,J.t noite ,lc 3 ,Jc sctembro deste ano. Col. Ass .. ..J.-/.8. rz.
:!3~1- J. P. Ribeiro. /udin~ .·hrouologico. 11. p.... . . . . . . . . . . . . • . •. •. • . . . •. ·1-2
Em 25 Carta du P.• .lo.. ão Henriques ao P.• Joáo de Gusmflo..................... 69
" ·l5 Carta ,\c D. Jose! Solis au P.• P~.lr..t l.lt.:iu Ahamirano.......... .. • . . .. • 65
" Segundas çregunt&s ao duque de Aveiro... • . . . . • • . . . • . . • . . . • • . . . . • • . • . 161
26 Cana do I .• Jose! R••sadu au P.• .loflo de Gusmão....................... 64
.. Carta dt• P.• Joãli de Oliveira ao P.• .loflo de Gusmfw.................... Ó-f.
•• Depoimento de .loiio Ferreira. caseiro de .lflsé ,\lanuel da Silva Bandeira... 7'!
" Preguntas a D. Paulo d;1 .\nuuciaçflo.~.................................. 100
.1.7 Preguntas a Jr,~., Manuel da Si h-a Bandeira............................. 76
" Ter..:eiras pregunt·•s a .\lllunio .\lvares Ferreip.......................... 120
" Segundas pre~untas a \lanud Alvares Ferreira ( 1)....................... 110
28 Terceiras pro::gunta~ au duque de .\vcim................................ 162
•• :!~) Quartas pre~-:uma~ ao duquo:: ,\e .\veiro................................. ti·R
Pregumas" Jos.: i\laria de T;l\'ora.. .•• . . .. . . . • • . . . . .• . •. . . . . . . • . . . • . . . . 171
" Preguntas ao mar-1uês Luis 13ernar,lu de Ta\·ora........................ .qo
.lo Preguntas ao marqu.!s de Tavora, pai................................... 176
" Preguntas ao ..:ond,c de .-\ tuuguia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . • . . • . . . . . . . . . q6
" Preguntas " Bras .l•>s,· Romeiro......................................... 12J
J1 Preguntas a n..\lanuel Jose e Jose Bandeira. 81 e........................ 82
-" Termo de ratili..:aç:"1o das preguntas de Bras ,losc Romeiro....... . . . . . . 127
" Termo lle rauficaçi"•o ,\o mar-Juês Luis Hernardo de Tav••ra...... . . . • . . . r~h
" Termo de r·atifkaç;io dn condo:: de .·\tfJuguia . . . . . . . . . . . . . . • . . . . . . . . . . . r:\ r

J \;\"EIRO OE r7J~1

2 Depoimento do sar~en10 mo r Pedro Teixeira .••..•................•.••.. li


" Depoimento de Cu~todin da Costa, cocheiro de EI-Rei •...•..........•.. ll
·' .-\uto do corpo de delito na casaca de EI-Rei ......................... .. I~
• .\.uto do ..:urpo de delito na se!(e em que ia El-Rei .•..•.•.•.•.••.....•... (h
4 Decreto de nomeação dos juizes que hão de constituir' o trrbunal que ha
de_ julgar os reus dr. atentado. conforme o decreto de 9 de dezembro de
17J8 ••••••.••.•••••••.•.••..••••..•••••••••..••.••••...••.••.•.•••... 8
Em .J. Decreto de nomeação do Dr. Eusebio Sequeira para defensor dos reus .. ··: 9
" Decreto pelo qual EI-Rei confirma os autos do corpo de delito. feitos-na
casaca e na sege ...•.......•.•••..........•.•.•....•.......•••.•.•...... lO
Em -1- Alvará pelo qual El-Rei manda resolver ao tribunal da Mesa e Consciencia
e Ordem a~ culpas dos reus ..•.....•.•....•.•..••..........•..•.••..•.. 2:1
Em -t Pregunta' feit.ls a :'llanuel do ~as..:imcnto. sota ..:avalariça du duque ele
.-\ verro . . • . . . . . . . . . . . . . . . . . . • . • . • • ..•..•.....•.•............•..•.....
F.m 4 Preguntas feita~ n .\ntonio Dias. moço de acompanhar do duque de
A,·eiro ....•....................•....•....•.........•.......•..... · · · · ·
Em 4 Preguntas a Antonio .\1.artins o Pagador. mÕço da estribeira do duque •...•
5 Prcguntas a Francisco Xa' icr de Castro, Salvador Francisco Xavier e Jose
Fernandcs. Publicadas na D<'d11ç:io clzronoilwic.z. Parte I das Provas. 175 e
Em Carta do P.• :'llartinho Gaivão ..........•....•..........•••...••.••• •·•··
" Preguntas feitas a Francisco da Crosta. bolieiro do duque de _.\v e iro ....•.
" Pre~untas a :\lanucl da Costa, poneiro do duque de :.. veim .•..•.........
Preguntas a .I<Ján :\li~uel. m1J.;o de ac01npanhar do duque ............... .

(I) As l'l"im~ira< rr~gunlus nio ••rio darada•.

I.J.
210

Em õ Preguntas feitas a José Luis da Custa Velhu ••••••.•••......•........•. 180°


7 Pn:guntas feitas a Manoel da Fonseca, bolieiro da duquo;:sa de Aveft-o ....• 131
" 8 Preguntas ft:itas a JoaqUim dos Santos, cocheiro do duque ......••....... 127
., , Preguntas tiiitas a Domingos l\larques, moço da cavalariça do duque ..... 130
, Preguntas feitas a Jost Fernandes, sota cavalariça do marquês de f:n,ora. 132
., , Pre~untas feitas a Jos.! Antotlio, bolieiro do marquês de Tavora ..•.•.... 135
, Pn:gumas feitas a João Bernardo, moço de acompanhar do marquês de
Tavora .•......••.....•.•.•.••....••••••.••••••...••...•••••...•.....• dlj
Em 8 Preguntas feitas a Pedro da Silva moço de acompanhar do marques •..... 13~
, Preguntas feitas a Antonio José Leitiío, escudeiro da marquesa ..••••..... 138
•• 9 Car'ta para Salvador Osorio, assistente em Roma ...........•.••••...•... 65
,, , Cana do P.e João de Matos para o P.• Pedro lnacio :\ltamirano .••..•... 66
Em 9 Cana do p_e Jo~é de Oliveira para Homa .............................. ..
, Carta do P.• Estevam Lopes ..•.•••••••••..•...•.....•..•.•••.••.••••..
" Carta do P.• Francisco Duarte ......................................... .
~~
69
, , Termo de segredo assinado pelos juizes nomeados pelo decreto de.J de
janeiro corrente ......................... o.... o....... o............... . .,
Em q Acórdam de pronuncia dos reus ••....... o... o.....•......•........... o I~
;, Acórdam pdo qual os reus são mandados ouvir no termo de 2-J horas pelo
seu procurador •...... o...•.. ~ ...•..... 0
••••••••••••••••••••••• o.•..••• '4
, T~rmo de remessa ao Tribun~l das Ordens Militares das culpas dos respe-
ctivos comendadores e cavaletros •.....•...••••••.....•....••...•..•. o.•
Em 9 Pronuncia pelo tribunal das Ordens dos reus para serem intimados a res-
ponder em 24 horas ••.•..•.. o...•.•.•..•..••..•.•.•..•.......• o.•.•...• o 21
Em to Citações para os reus, com excepção de D. Ler.nor de Ta\oora, responderem
no prazo de 24 horas pçlo seu prõcurador .••.....•.. o..••••....••.......
Em 10 Idem a D. Leonor ode Tavora •••.••..••••.•.•....• o.•.•.....•.••....•....
, Intimação feita ás 5 horas da tardeoaos comêndadores e cavaleiros das
Ordens Militares para ~esponderem no prazo de :!.J horas.. . ..•.•...•..•.
Em 10 Declarações das culpas dos reus apresentadas a estes .•.•......••.•• o.• o.
11 Certidão passada por Antonio José Gaivão, oficial maior dos negocios
o;:strangeiros, das cartas dos jesuitas............ o.• o.. . • . • . . . • • . . . . . . . •.
" Termo de entrega do decreto de 20 de dezembro sobre a representação do
juiz do po,·o e Casa dos 24 .••....••.•.•.•..•.• o...••• 0
o.••••..
••••••••••

Em 11 (1) Acórdam dos desembargadores desnaturalisando os reus. conforme o pe-


dido do juiz do povo e Casa dvs 2-J........................... . o....• o. :.!,(l

" Consulta da Junta da Inconfidencia para amphar as penas dos reus ... o.•.. 3n
, , Resolução de El Rei dando faculdade á Junta da Inconfidencia para ampliar
as penas dos reus. o•.••.. o.......... • . . . . • • . . • . ••.. o... • ....• o.... . 3u
,
,
" Alegação de defesa feita pelo Dr. Eusebio Tavares de Sequeira . o........ .
" Termo de entrega das alegações dos reus, feitas pelo seu procurador o•. oo ·~~·
'9
Em 11 Apresentação da defesa ás 6 horas da tarde. • . . . . • ....... o.......... oo 2j
, » Conclusão dos autos ás 9 (ou 7 ?) horas de. noite ••.•..••....•...• o..•..• "27
., Sentença da Mesa da Consciencia e Ordens a respeito dos reus que lhe di-
ziam respeito. Tambem impresso volante...... . .••.•.. o.•.••.. o... o.. oo.
Em 12 Sentença dos reus do atentado. Tambem impresso ~·o/ante ........ o...... o
" " as 7 horas da manhã. Certidão de intimação das sentenças aos reus perten-
centes ás Ordens Militares •.•..••••. o..•.........••...•...••.•.. o. • •. o.
En 12 Das 7 horas da manhã âs 9· Intimação da sentença aos restantes reus •.. o.
, 1'l ApresPntação dt: 10 pregões relativos a outros tantos reus .....•.• o.. o.. o.
" " Certidão do Desembargador José Antonio de Oliveira Machado em comu
assisti~ á execução de todos os condenados, a qual se realizuu no Largo
do Cats Grande deBelem .•••.••••.••......•••.•............••••........
Em 17 «Alvará confirmando a Sentença, proferida a 12 do mesmo mez, contra os
RR. do Sacrílego Insulto da noite de 3 de Setembro do ano antecedente».
Jo5o Pedro Ribeiro. lndice cronológico. I, t8oG, p . .J2.
Em 18 Mensagem de agradecimento do juiz do povo " dos mc::stt:res a El-Rt:i pur

(I) :\s copias publicadas na Deducáo Cronolo;:ica c nos Elelll!!lliM rar,, ,, lristori.J ,to mu11icipio .te
l.isboa, X\'10 pai(. 389, marcam a data de i3 de janeiro.
;UI

ha\·cr tirado do numero dos s.!us naturaes <•S monstros que macularam a
\"irludc dos leais \a,alos. hav.:nd l-se guarJadv to las as foron:tlidad.:s do Di-
reito. Frdr.: de Oliveira, F.lemellltJ.;, XVI. . . . • • . . . • • • . . . . • . • . . . • . • . . . • • 39•

Em R T.:rmo d~ aoertura do trasladn tlq ]'r<•cesso. por 1-Jcnriqu.: Juse de ~lenda-


nha l::lenevid~, Cirne ......................••..•......................

l\1.\RÇO DE 17~4

Em l4 Termo de ~nc~rramentu ............................ . :lo5

.•

,
II

I~DICE ALFABETICO

Africa. 48. 6o. cóne c:m 16 de março de 175~ (Chanc.


Aiala.._ (P.e Fr. .\ntunio). jO. :\l•Jrador em de: D. José, liv. 85, fi. 206 v.). Em •í7'J
Belé!tn. :'llcsta freguc:sia ha\·ia uma capda ainda era vivo, ou havia falecido poucõ
de Santo António. pc:rtencente a António antes, porque nesta data ainda se fala
Joseph Dinis ,te .\iala, no sitio das Oli- numa verba de 3o~ooo r.õis de juro na
\·eiras. Cfr. .1. Baptista de C.::tstro• •U.ipa Alfandega (ld. liv. óo, ti. 241 v.).
de Portugal. III. 1 j63, p. :.!13 . .\1\'arc:s Fcrreira (.\ntoniol. rilho de: ~la­
.\juda (Cal.;ada da), • . 3. 1ti9. nuel Alvares FerreirJ., natural Je ;:'l;c:gre-
.-\lcàntara. <I';· los,.feitor do jardim do Tabaco. d~ 40
.\lcol~na, ·QÕ. Ficava· por traz do jardim do anos. Passim.
Duque de Aveiro. Alvares Ferreira (:\lanuel). natural de ;"lle-
Alegrete (:\larques de), 109. • grelos, arcebispado de Braga, guarda-
.-\lexandre (P. 8 João), 35-:;8. •ó·õ. Da Com- -roupa do Duque de A\eiro, de 35 anos.
panhia de Jesus. · P.~ssim.
,\Jmeida (João de), sota-cavalariço dos Se- Alvor (Conde de). Bernardo Antonio de Ta-
nhores de Palhavã, •76. vora, 177.
Almotac.: (Beco do), wõ. America, 48.
.\loma t:\larques de), •-H· 14l:-.•7•· 1!1 stu- .-\nastasio (Jose:), morador no Lavradio •
Jious •.md l!.ts OJJe of tlle best C.tp.tcities
oj •l!!Y oj tlle 1\'ohifi~1· of th~ lúngdom.
'J5.
An rade (Caetano de), lO+ Talvez seja
p. 40 de .·lc<"Olmt. :.'llo 1equenmemo, pu- Caetano de Andrade: Pinto, filho de ~la­
blicado pelo :\larquês de: .\vila em ..t noel de Campos e Andrade que em 18 de
.\l.trquesa de ..J.Iorn.t. 1~,16, p. 1J6, di.~: setcmbro de 1750 foi nomeado moço da
que esteve na Torre: de: Belem e dc:pois Camara da GuarJa Roupa, (~lerces de
no forte da Junqueira. !\lorrc:u em 9 de D. Jose, liv. 1, ti. 262) e em 17S6 era te-
junho de 1802, haven,Jo passado 18 anos soureiro geral do Tabaco (ld. liv. 10, ft.
em cati\·eiro. O mesmo Marquês puhli- 368). .
~ou dois rc:tratos do pai da ..:onheci,IJ. André, dançarino, •56.
poetisa no referido lino . .-\ngeja (:~\larques de), •53, 1S4, •55, 1;-1.
.\lorna (:\larquesa de), r)b. O retrato desta :.'llasceu em 1716 e morreu" em 1788. :\to-
senhora acha-se a p. í4 de .-t .\l.trq11esa rava na Junqueira no local de um antigo
de .tlorn.1. do Marques de Anla e de fone, segundo diz Soriano. Hist. do rei-
Bolama. Slle is, ped1.tps, vne of tlle most nado, etc .• I, 323.
be.tutiful lromen in tlle n·orla, p. 47 de .\no Bom (Ilha), 6o.
• tCCC!Illll oj tfle /,tle C:nnsp!r.:JC)'. I z5g. .\mas (.\ngda de), da freguesia de S. João
\ham•rano (P.• Pedro lnãciO), da ~omp.•- Baptista de Rio Frio, mãe do denunciante
nhia. 63, õõ. · João Ferreira, 7S.
Alvares da Cunha t: Araujo (.\ntonio). ~·· Antonio, moço que tratava dos machos par-
Fui nomeado ..:orregeJ01 do crime d.1 dos do lluque de .\veiro. ~11.
o\ntonio (Bento). 114. 123. Criado do Duque Barros Pereira (Luís ele). procurad•>r do
de Aveiro? mester, 18.
Antonio {José). filho de Manoel Cardoso. Belem. rua de São, Jerónimo, 70.
natural dt: Melo, de 3o anos, bolit:nu do Rernardo (João), hlho de Hernardo de Tâ-
Marquês de Tavora, d4. vares, natural de Palmas, moço de acom-
Antum:s de Mendonça {Luís), procurador panhar o Marquês de Távora. t36_
do mester, 18. • Bidões (Guarda). 13o.
Anunciação (D. Francisco da), reitor da Bissau, !io.
Universidade at~ 29 de dezembro de 17S7, Borja ·(Santo), IJ7·
101. A resreito de um cruzio deste nome Bos~ius (Aegiáws) Tr,Tctmus v.Trii, q11i
_lea-se p. 737 e 785 das "\Jemori,ls do tempo omnl'm fere crimin.1lem materiam excel-
pass.::do e presente (188o) de Sousa H<:n- lenti doctrina complectuntur. Ed. III, V e-
riques Seco. Era primo do Duque de ne;a, 662. Bib. Nac. n. 0 2h8, prero. 190.
Aveiro e irmão do Conde de Ega. vice- - Htl.
rei da lndia, que veiu prt:So de lã em Braga, 89. 138.
1766. Em •í66 foi preso em S. V1cente Bragança, .67.
de Fora, ond..: morreu. Brasil, 4~·
o\nunciação (D. Paulo), conego regrante, Brasil (Vice Rei do), 138.
de 57 anos,ih, 33, 92, 94· 100, 161:!, 175. Bravo de Aguiar (B."• Francisco), do gabi-
Arcos de Bdem, 111.:. As arcadas de Be nete da abertura das correspondC::ncias.
lem ainda estavam- desimpedidas hã uns 61. etc.
vinte anos como as do Tern:iro do Paco: Br.:cier. (P. 0 ), 6R Autor d~: um livro cen-
agora estão ocupadas por lojas. · surado.
Ar.:os de Val-de-Vez, 75. Bursat., 190.
Arrabida, 139. Cadaval (Duque do).{). :-.Juno Caetano J~:
Arroios (Colégio de). ~"•4. • o, 9+ 97· llt-, Melo, 3 ·.
136, 137. Cadaval (Duquesa do), 128.
Asia, 48. Cáis de Belem. Onde se lev.mtou o .:ada-
Atouguia (Conde de), Dom Jercnimo Pen: falso dentro do semi-circulo de camaria.
grino de Ataíde, baptizado na freguesia obra de D. Joã<• V. Luz Soriano. Historia
dos Mártin::s, de 37 anos, 147· do rei11ado de D. José l. ( 1867), p. 337.
Atouguia (Condeça de), 3~). ~·ti. 67, 8 ·,~r·, Praça d0 Càis, )r. Largo do Cáis Gran-
y8, 136, iJ7, 13g, 145, 48, 165, ~;6.( 167. de, 58. Terreiro d[J Cais Grande, 107.
Por decreto de 3o de junho de 71;0 foi Calçada grande que esta por fora dos quar-
declarada inocente.- Latino Ct.elho. Hist. teis dn regimento de znfantaria e das reaes
polit. I, (1874), p. 346. A l'ery beauti(u/ cavalariças, 12. Calç"!d.t que vae por fora
Lad)'. p. 47 de Account of the late Con- da Quinta do Meio.
piracy. 1759. Calh11ri7 {Quinta do), 101, 167.
Aveiro (Duque d~:J. !'assim. Foi porcio- Camara (P. 8 Difl~o da), 139. 167.
nista do colegio de S. Pedro de Coimbra. Camarate (Quinta ,\e São Pedro). 71i. Xo.
O Accomll. p. 4--1, diz of the low<'st middle Campolid<:. 67. _
Si'je. Cfr. p. 121 sobre a estatura do Duque. Campos (P. 8 :\\anoel de), da Companhia,
Avc::iro (Duquesa d~:), 7-f, 7''• 8o, 8-1-, go, 1 -:-<~ sua morte, 63.
110. Faleceu em 1761 no convento do Carr~:ira (Silvt:stre), procurador do mester.
Rato. Ela lias been very beaut~ful .•md 18.
his still an exceeJing fine n·oman. p. Carreira dos Ca,alos. 175.
47 do Accormt. Can·alho e Melo (Sebastifio Jose de). Pas-
.\z~:i tão, 41. 5o, 62. 8~1, go. 9-1, 1o8, ·120. sim. Nasceu em Lisboa em m:.lio de 16~)9
Azevedo (Monsenhor), 148, 190. e morreu nu Pombal êm 8 de maio de
Aze,·edu (José Policarpo de), de 2S anos. 1782. Foi agrac1ado em 6 de junho de
Passim. A respeito da sua fuga para Trás- de 175CJ com o titulo de conde de Oeiras.
us-:\\ontes vejam-s·e Camilo, Perfil do pelos s"rviços prestados no julgament(l
M.::rquês de Pomb.Tl, 53; D.1m ;\liguei dos reus do ntcntad" e talvez C<.nln pre-
Sotto-Mayor, O lllarquês de Pombal. mio da denuncia. :'>las canas familiare~
(1goS), p. tioo. António Cabral, Camilo assinou-se sempre Sehastiflu José. o que
inédito. exclui a idda dt: sr.:r tratado assim pda
Baía (ArcebiSJ'O da)1 6S. nobr.:sa como despreso.
Barbosa (Pedro). C.ommentariorum ad in- Casado Jacome (Marçnl), 192. Juriscon-
terpretatiunem tituli .ff. soluto m.ltrimo- sulto.
71ium quemadmodum dospelatur. llladrid, Castelo Branco. 1h.
J5g5. Tomo II, p. 129. B1b. Nac. S. C. n. 0 Castro (Francisco Xavier de). morador na
677, ,·ermelho . rua das Pretas. 17'·

.-
t:enc:•r11 ~:\\igucll, luveiro. Na sc:ntc:n.,;11, p. Costa Freire •.Dc:sembargador .\ntonio ~la),
.p ..\rnoniu .\h·11rc:s f, rreira sen·e-se de 1J4, t3ti, 167, 171.:-.losr'$istosdeD.Jo~e,
uma clavina emprestada. o que confirma guardados na Torre du 1 ombo acham-se
n •.J.ccomll. p. Hti rderindo este nome. varias cartas que lhe ditem respr:ito como
como st:ado o do proprietario da arma. funcionaria da fazenda rc:al e fidal~o-ca­
A espin!(arda era do Duque. pp. 107-115 valc:iro. Tinh11 impurta•lh:s propríedaJc:s
diz o assassino e o irmão. O Duque e sc:u no tc:rmo de Samarem. :'llorreu nas rri-
estribeira •iizem que eram pistolas~ pp. sões da Junqudra, como diz Alorna, p.
79 e 16~1- É cri,·el pois que a noticia do j6.
Account seja falsa. Costa Ribeiro (Dr. Jose: da), 61. Natural de
Chafariz de Dentro, 106. 11J. R una, lilho de n.ntonio Ja Custa, natural
Chaves. 04. de Carmões e de Maria Antonia; neto
Cheias, b7. paterno de Francisco Pires e de Vicencia
Coimbra, tio, 90. + ~~~~ 100, 103. 17':.. da Costa; neto materno de Domingos
Coina, ~lO. ~·4· g5, 1J1. Fernandes e de :\laria Ribeiro. (Leitura
Con~regaçáu da Missão (Cas11 da), 67. E" de Bachareis, maço 20, J. n. 1H).
hoje Rilhafoles. A ordem era de S. Vi- Costa Vdho (José Luis da), natural de Sfto
cente de Paulo ou Lazaristas. Soriano, Pedro de Alfama, morador nos Olivaes,
Hist. do reill(r.fu. I. 338. . de 25 anos. 181.
Corsini (Cardeal), pr.oteclOr de Portugal,66. Costa Velho (Luis da), 181.
Costa (P.• Antonio .la). ,ta Companhia, 67. Cotovia, 9-h gti, 97, 97, 176. •
Costa (Custodio da), bolieiro da sege que • Cruzeiro de Nossa Senhora d11 Ajuda, 172.
conduzia E! Rei na noute do atemado. Aqui residiam os marquc:ses de Távora,
12. 44· +". 183. . pá1s.
Costa (Francisco da 1. nntural de Rraga. Cruzes da S.::. 101.
sota-cocheiro du Duque de ..\ve1ro. de 40 Cunha tDum Luis da) ou Dom Luis da
anos. 32, 33, 78, 881 94· Cunha Manuel. Er11 c:desiástico e natural
Costa (Fran.:isco dai. do sabinete Je aber- da freguesia de Santa Catarina de Lis-
tura das correspondenc1as, 61. boa, filh~ de D. PeJru Alvares da C~nha
Costa (lnaciu), Je Bfll~a. pai de Francisco e de D. fnês ~laria de :\ldo. neto paterno
da Costa. sota-cocheiro do Duque de de D. .\ntonio .\!vares da Cunha e de
Aveiro. 8g. D. ~laria Manuel. (.-\rq. Nac. Ordem de
Costa (P.• Ja.:into da). da Companhia, 85. Cristo, L maço 2, n. 0 2). Habilitado em
94· q7, 101, 162, tli3. :\lorreu nos carceres 17S2. Foi baptizado em 1 de agosto de
da )uno.jueira. conforme di1 .-\!orna c:m 17oJ c: chegou a acadc:mico da Ac11dr:
•.J.s prisúes. p. S1 da 1.• ed. mia Real da História e conselheiro real
Costa (Jost: Luiz Ja), 115. tD . .-\m. Caetano de Sousa. Híst. Genea-
Costa (Manuel da). pai de :\lanuel,la Costa lógic,t. tom. XI, p. 838). :\lorreu em junho
Calheiros. porteiro do Duque de Aveiro. de 1775 e sucedeu-lhe Aires de Sá (Smith.
83. p. 277). Fui nomeado ministro cm -. de:
Costa Calhciros (:\liinuel\, porteiro du .Du- m11io de 175(, (Smith, p. 5-.) c Luz So-
que de _\,·eiro, n;;uural do Porto, de 53 riano, Hist. Jo reinado etc. H, 22-J..
anos, 82. Foi desterrado para a India Damas. Pereira (João Inácio), corn:gedor
com n restante criadagem do Duque, dr. do crime da cone, 8, 9· Era neto paterno
Duhr. Pomb.tl. p- 87. - de um alfaiáte e sobri11ho de João Dan-
Costa Corte-Real (Tumc Joaquim da). Eta tas Pc:reira. natural de Viana. Habilita-
filho do dt:semb11rgador Joiío Alvares da ção em 1727 f.ara a Ordem de Cristo.
Costa. Em 2 lle outubro de 17-='6 foi no (.-\rq. :-.laciona , maço go de J., n.o 77).
meado secrc:tario do estado da marinha. Dias (Antonio), natural de Ponte de: Lima,
Faleceu preso no castdo de Leiria. E·<te- de 42 anos, _moço de acompanhar o Du ,
ves Perena, Purtiii{.:JI. ,•ol. II, p. tl5g. Foi que de Axc1ro, 32, 33, 78, 86, 87, 88, go,
dc:sterrado em 17•.lo (Gomes. p. g:). La- 91· ll7· 131.
tino C.relho Hist. ger.11. I (187-tl. r· 12+ Dias (Lucas), procurador de mester: 18.
diz que foi reei uso em Lei r-ia a 2J de 'ou- Dias (Pedro), de Oeiras, 128.
tubro de 1772. Cfr. Luz Soriano. Hist. do Dias de: .-\ze,·edo (Pedro), procurador dn
rei11a.fo de D. José. I. (1H671. p. 285 e 4ti6. mestc:r, 1R.
Filipe Jose: da Gama publicou cm 1741, Domingos [Rodrigues?] maço da cavala-
em Lisboa. Edoga i11 thllali Sll•ll'issimi riça do Duquede A'eiro, go.
p11eri Joa1111is Petri. fi/ii clarissimorum Duarte lP.e Francisco), da Companhia, 6o.
DD. Thuma; Jaochi11o Costa Corte-Real. - Douto e engenhoso, suportou com saúde
&: D. Te,·esiae Híerom·mae Ros.te Jf,do a p':_isão d_a_ .Junqueira. Cfr. :\lorna • ..J.s
e Al~·im. · pr•soes. p. J::-.
21b

Durão (Salvador Jost!), morador na rua de de Go:1. Era natural da frt!guesia dos
S. Jerónimo, em Bdem, de 19 anos, 70 a ...\njos. filho de Antonio Ferreira de Lima.
74- A sentença de re,·i~ão, p. 58. diz dele natural da freguesia do Sah·adur de Joan-
«que era naquclle tempo hum pobre cria- ne, termo de Barcelos e de Francisca
do de servir». Segundo v. Olfers, p. ~2, Jor.o da Conceiç.:io, natLral de S. Julião
nota: recebeu 6ooo cruzados pela denun- de Lisboa. Casou com D. Ana Joaquina
cia. de Jt!sus, natural de Lisboa. Habilitou-se
Elvas, 6g. para famihar do Santo Oficio em 1725 e
Emauz (Jose Pedro), desembargador, 17S. habilnou sua mulher em Jj33. 1Arq. Na-
Encarnação (Fr. Gaspar da): Jz, 32, 33, 5o, cional, Habil. do S. O .. maço go, n. 0 1699
zo2, to3, 175. 1.>. Ga~par de Moscoso e do :\/anue/.
S1lva (17 de maio de zti85 a 25 de no- Ferreira Souto (Inácio), 8: 9· Natural de
vembro de 1752) era filho do quano S. Paulo de Lisboa. Filho do capitão
Conde de Santa Cruz. Em ··4 de abril de Francisco Nunes da Cruz. natural da
17 ·3, sendu franciscano, foi nomeado re- .\zureira. e de D. Franciséa :\laria de
formador dos conegos de Santo Agosti- :\latos, nátural de Barcarena. Habilitou-se
nho. Faleceu no palacio de Palhav.:i, junto em 17-P· (Arq. Nac. Habil. Jo S. Oficio.
dos seus-pupilos, os meninos de Palhavii. maço 5 de lnãcios, n ~ 791. Era cavaleiro
(Gabi11ete Historico, li, p. 194). Ja Ordem de Cristo e foi intendente ge-
Escarlatt! (Caetano). z!i3. Era sargento-mór ral da pohcia do reino. Intentou publicar
de auxiliares, e escudt:iro da Marquesa um Ji,-ro sõbre as prerogati\'as da corôa.
de Tavora, D. Teresa, e morador a Santo ao que se opôs a Inquisição, de que resul-
Amaro, de 3o anos. Pelas habilitações tou o desterro dos meninos de Palhavii
para a Orllem de Cristo, findas em 1758, para o Bussaco.
consta ser filho de Luis Escarlate, natu- Figueirt!dO (Jose dd, procurador de mes-
ral de Lisboa, e neto paterno de Nicolau ter, 18.
Vicente Escarlate, natural de Florença. Fonseca (Bernardo da). morador nas mer-
Casado Cllm Francisca Dinis. ~Arq. Nac., Ct!arias de Belem, 71. As mercearias de
_maço 2, letra C., n. 0 ti). • Belt!m foram extintas em 1834. Cfr. E. Pt!-
Escobm· a Corro (Joaunes), Tratactus bi- reira, Porlllf{<ll. II, p. 2.'!3.
parlitus de purit.:zte et nobilit,Jte probmzda Fonseca (Manuel da). filho de ~liguei da
sec1111dum statutat; .S. Officii inquisitionis. Fonseca, natural de Vila Seca. de 32
Lugdini, 1733. -'7· anos. bolieiro da Duquesa de · \veiro.
Esperança (Lisboa), qz. J31.
Europa, 49· Fonseca (:\'liguei da), de Vila Seca, \'ist:u,
Evo r a, t1o, 6g. 124- 131.
Farinaceus (Prosperj, Praxis et theorica Fonseca Leal (Tomás da), procurador dü
criminalis, Lugdwzi, 1634-So. Bib. Nac. mester, 18.
S. C. n. 0 8qg-go4, azul. IQO, 101, llj2. França, 5g.
Fernandes (Francisco), de Castelo Branco. Fra•1cisco (Manuel), de Bidões, J3o.
13~. Francisco Xavier (São). 68. 129.
Fernandes (Jose), trabalhador. residia na Galiza, q8.
rua da Mãe de Agua. 176. Galviio {Antonio J(•Sé), oficial maior da se-
Fernandt!s (Josi:): tilho de Francisco Fer- cretaria de estado, !2, 6z. Morador em
nandes, natural de Castelo Branco, so- Belem, junto a Alcolena. natural de Via-
ta-cavalariço do Marques de Tavora. • na do Minho. filho de Basilio Gaivão de
132. .\ raujo, natural Je Porto de ;\loz e de
Fernandes de Andradt! (Dr. Miguel). i':ão se :\lariana Simoa da Costa Pintn, natural
enc01:tra noticia das suas obras nos catá- de Vzana. Assistiu algum temp" em Lon-
logos. mas segundo l\la1eus Homem Lei- dres no gabinete du en,·iado :\larco An-
tão, de jure lusit.mo, CLimbra: zõ~7, era tonio de Azevedo Coutinho. (Habil. da Or-
professor de direito e reitor do colégio dem de Christo\. Jl'taco li, n. 6). Testemu-
de São Paulo. nhou éomra o 1\larques de Pombal.
Ferreira (Filipe), criado do Duque de .-hei- Galviío (P.e Martinho), d,a Companhia, 6).
ro, morallor á Esperança, 141. Gaspar (D.), arcebispo de Braga, z613. Er11
Ferreira (João), natural dos Arcos de Val- irmão legitimado do rei D. José.
de-Vez, caseiro de Jose Manuel da Siha Gomes da Costa dosl:), procurador do
Baodeira, e morador em Camarate. j5. mester, 18.
Ferreira (Manuel), procurador de mes- Goncah·es Cor,\eiro Pereira IPedro), juiz
ter, 18. da· lnconfidencia. ~aturai de 1\lessejana:
Ferreira de Lima (1\lanuel), 8, g. Em 1721 filho de João Rodrigues Cordeiro, natu-
foi nomeado desembargador da rela.;ão ral ,Je .\h·alade e de 'laria 'Iarques Pe-

--
rt:!>, nalural de Valverde do: Caminho. João (D.) da Bemposta, 17ó. Era filho le-
docondado do: :.'lliebla. {.-\rq. Nacional. gilimado do Infame D. Francisco.
Lt•itw·,, dt• B.lt·hm·eis. maço 3 do P. n. o). João Terceiro (lJ.), da ~l.tdre de lJcus, •7-'·
l-labiliwu-se t:m •7LJ· Faleceu em 25 ~te .l<•áo \. (EI-Rei D.). 5o.
,lczembro do: 17l18 (Fr. Claudio da Ccm- Jo!<c lAntonio), moço que acompanha\'a ,,
o.:eição, G.1b. Jlistoricn. ~\"I, p. 26~1. :\larquês dt: Tavora e bolieiro, 88, go.
llon.;ah·cs Riheir<J (José). procurador do .José (Diogo), es.::udeiro ,to Duque de :h·ei-
mo:s1er, 18. ro e do i\larquez de Gouveia, 8g, 45.
Gou,·eia (LJ. :\largarida J_oscfa Teresa de), José (:\lanuel), bolieiro Ja ~larqÜesa do:
mulher do reo Jose :\lanucl da Sih·a Han- Tavora, L>. Teresa, 15-J.
Jo:ira. 8o, 81. .los.! (Matias). guarda-roupa de José ~laria
fioun~iá (Marques dei, 32, 88, 8~1o l"lO, •58. de r avora, J3Q. .
Preso na Junqudra onde foi imponunado Junqueira, 11, .j5. Nesta rua moravam o~
pa!·a se~uir a ,-ida monacal. Cfr. Alorna 1 \larqueses de ..\ngeja.os Je Tanlra. filhos,
p. 91. ~asceu em lto,embro de 1740 e ns Condo:s de ..\louguia e os da Ribeira
morreu com 63 anos nit rua da La12a. Grande, bem como o cirurgião Soare~
llcpois Ja saída do fone d.t Junqut:Jra BranJiio.
viveu de pensões qut: os marquêses ,te Lafóes (Duque do:), 171. :.'llasct:u em 6 de
Alorna e Fromeira lhe davam, ati: que o março de 1719 e morreu em 18o6. Era
Princir..e Regeme lhe arbitrou JOO::'/Iooo filho segundo do infame D. :\li!Zuel. irmão
por mes de pensf10. Os bens da casa dt: legitimado de D. Jof10 V.
Aveiro tinha passado para a dos mar- Largo acima das casas de Sebastião Jnsc
quêses do l.anadio. Soriano Hist. do Jc Carvalho e Melo, ••3.
rei11.1do, cto.:., I, p. 3~17; Camilo. PerJil. Leiro (Luiz .\monío de), escri,·ã•J, 42, wR
I'· 45. Leitão (Antonio José), natural da fregue-
Grácia, amante Jo huque dt- .\,·eiro. 92. sia lle São Julião de Lisboa, escudeiro
115. da :\larqueza Je T avora, de 27 anos, 35.
Gregorio xm. 22, 27. L.:itão Caldeira (.Jos..! .\ntunio). Je Lisboa.
Guarda mor ,ta saudt: tTra,·o:ssa do). 12. 138.
4•· •q, 11G, 12J, 1ti9.·casas do Guarda Lisboa. Freguesias ,te· São Schasuão da
mor. 71. L">t:,·e ser ii lra,·essa do Pátio das Pedreira, 1:q. qu; de Si"• o Juhão, 1:~8:
Vacas. \lanires, 14l•, 172; São José, 175; Samn~.
Guido (D.), 16j. Fra condt: da Ribeira Gran- 177; Sãu Po:Jro Je Alfama, 181.
de. Soriano. Hi<t. do rei11.1.:lo. etc., I, p. Lopes 1P.• Estevam), da Companhia, rjl:i.
.Jl9- Lores (Joaquim), procurador do mes1er.
Gusmão tP.• Jost: de), di! Companhia, ii2. 18.
ti.J. E' autor de uma relaçfw das festas Lopes {Tomé), procurador Jo mester. 1!-l.
da canonisa.;:ão de Luiz Gonzaga e S. Es- Lorena (D. :\largarida de). 32, a58.
tanislau, publicada em •73o. :.'llasceu em Loureiro (:\lanoel del. •75.
~~ de novembro de 11)9) em .\lmodó~ar e Louriçal (Marquês do), .:h. qR.
morreu em 1) de novembro de 1781, ha- l.ousi"1, 101.
vendo estado dois anos preso com o ge- Luis \lnàciu), da Vidiguc;ira. tilho ,Jc; .\la-
ral Ricci no o.:astdo de; Samo .-\n~elo; nuel do Nascimento, sota cavalari.;o do
Sommervogcl, Bib. de /.1 Comp. de Jesu., Duque de Aveiro, 86.
III, ( 189:!), p. 1~)78. Luz (Com·ento da), w:i.
Henriques \P.• João), pro, incial da Com- \laJrid, •i5, ti6.
panhia, 4~1, ti2, 63, 6~). Mi"1e de .\gua (Rua da), 176.
Hercul,mus f Frallcisc•t~): 47· Malagrida (P.• Gabriel). 3~, 35, Jó, :~x. o:t..:·
Hespanha (Rainha Jc), &;. 161. Pela morte .\lanç-o tPedroi, familiar Jo Santo Oficio.
desta senhora estava do: luto seu irmão w1. Pedro .\lanço ou i\tanços Rangel
o rei n . .José quando se deu o atenta- era filho dt: outro familiar, caval~iro do:
do. . Cristo t: gcmil-homem da casa do pa-
Hona (Luis Jal. alquilador, mora,lor n .. triarca. Em '717 hahiliwu sua mulho:•·
pátio do Socorro, 41, 1q. D . .\laria Francasca So:nhorinha. filha do:
lnacio (P.• :\lanoel). assistente cm casa do \ntonio do: Sousa Ja Silva de .\ho:, com
· Duque de Aveiro. 15-J. a qual casara sem a previa habilitação
lndia. 3-J . .JO. 5o, 12-f. do Santo Oficio. Apesar de ser notoria c
Jardim do Duque de .\veiru, Jõ, J9, 40, ~tJ. demcmstrada a origem judaica desta fd-
7•· j2, 83, 9+ milia os genealogistas Diogo Rangel
Jesus (Silvestre de), residente em Portd. Je .\lao.:t:do, :\lontarroio :\lascarenhas t:
pai de~ Antonio ~tanins, O Pa~.1dnr. D. Antonio Caetano de Sousa juraram a
terrador do Ouquo: de .\\·eiro. y5. 1impcsa do: s.tngut: dela .. \. habilitação e
Jc 1747 e encontra-se: no Arq. Nac. ~- U. baptizado cm Loures e de Maria Fran-
maço 25 de Pedro n. 0 481. cisca, neto paterno de Domingos Fran-
:\lanuel (EI-Rei D.l, 5g, 6-1-. cisco c materno de :\na Dias. Habilitou-
\lanuel (Infante D.l. 176. Era irm~HJ dc: se em '745. Casou primeira vez com .-\na
D. João V. Joaquina dos Anjos em 1764 e segunda
.\!aranhão, 33. 61. fi7. vez com D. Ana :\<largarida da Silva, filha
\iarsaride. 34. dt .-\ntonio de Pontc;;S e Silva~ neta pa-
\lanalva (Marquês de), 171. Pombal no terna de Bento Franco da Silva e ma-
c:xilio contou uma insubordinaçáo grave terna de Reinaldo Fdisberto. natural de
deste contra El Rei. Cfr. D. José Manoel Nantes, em 1781. (Arq. Nac. Háb.do Santr>.
de Noronha, Cartas do JU,n·ques de Pom- Oficio, maço 34, Domingos, n. 6D.
bal. 1916, p. 56. \louticellus de Robio (Joannes .\1.1ria), Re-
\lari.ana Vitoria de Hourb01; (H.ainha D.), pertorillm (aureJIIII) de testibus in materii5
JO+ Passa,•a por ser oposta a Pombal ciJ·~Iibus. Veneza, 15]5. H;~. 190.
(Soriano, Hist. da guérra civil, I, 261). Morc:Ira (P.e_ José), 97· J\ihrrc::u nos carccres
mas tah•cz sem fundamento. Mais certo da Junqueira protestando que estava ino-
parece o de ser contraria aos Tavoras" celll..:. Cfr. Alorna, .-ls prisões da Juuquei-
)eSUitaS (id. p, 312). r.I, 1. 0 ed., p. 4Z·
\!arques (Domingos), natural dt Bidões e Moura (Faustino Francisco J. procurador d~:
filho de Manoel Francisco, de 26 anos, mestc:r. 18.
moço dos cavalos do Marques de Gou- Napoles. tiS.
,·eia. 88. :'liascimento (Manuel duJ. natural da \'idi-
.\larqÚes (P.• João), da Companhia, ()~1 • gueira.sota-cavalariço do Duque de Avei-
\!arques Racalhao (João), 8, g. Era natu- ro. 78. 8tj, J3 1 • 169.
ral de Tancos, filho de Francisco Lou- ='it."grdos (Braga), 108, II3.
renço e de ltabel \larqucs, neto materno :'liogueira (Domingos)~ porteiro ou uticial
de João \larques Bacalhau. Habilitou-se de diligencias (huissier). 54 a 58.
cm 1707. Em 17-:!6 habilitou sua mulher :'liuncio. ti6. Era 1\lgr. Accioli.
D. Rosa Maria Curvo. (Arq. :'liacional. :'~~unes (P:· Vcrissimo}, da Companhia, Õq.
maço 40 de Jo:io, n. 8371· :'~~unes Monteiro (André). procurador d(,
\'larques de Montes (JoãrJ·I, procurador do mester. 18.
mester, 18. Obidos (Conde de), Õl', tj,l, qÕ, 125. 12~, d:i.
\lartins O I'.Ig.Idor (.\ntonioJ. natural d,, I3t5. 142- 146. '48, !52 .• G4, ltig, 170· .,8.
Portel, de 4j anos, 33, 78, go, g5. .\lorreu nos carccres da Junqueira, comll
\lanins rl.uis). procurador do mester. 1:l. diz AI orna. As pri;óes, p. tio. Cfr. LatinlJ
\lartins (\·lanucll, capit;"•o. morador no La- Coelho. Hist. politica. I ( 1874l p. 9S.
v"raJio, 7S. Uddi (CardialJ. 66.
\'!anila.••+
\'latos (Antonio Jus.: de), secretario do Du-
Oeiras, 128. ·
Olivais, 106, 118.
que de Aveiro. 43, ss,· g3. 104· 169, •75. Oliveira lP.• José de). da Companhia, 64.
Matos rP.• João de), 35, 38, 62. 63, G6, 85, 67.
94, rq. 1ti2, •63. Jti6. Morreu nos carceres Oliveira tP.• Timóteo de). da Companhia,
da Junqueira protesrmldo que estava ino- 85, ~14, 97, 162, 16J. Sobre,·iveu ao rei
cente. Cfr. Alorna, As prisijes, p. 52 . D. José, sendo posto em liberdade. Cfr.
.\leio (Vila de), •34. · :\!orna, .-l.s p1·isões, p. 5J.
\1iguel (.loiio), natural da Galiza, g8. Oliveira .\lachado (José .\ntnnio de), Ra-
.\liguei (João), filho de Gregorio Miguel, ptisado em Evora em 7 de abri~ de I~g(i .
natural de Tui, moço de acompanhar o Era filho de DIOgo .\lachado, ~mgele1ro.
Duque, 13, 19, 3•, 42, ++• 46, 53, ;8, go, c de i\lariana de Oliveira e d'Wpois da
94· g5, 97• g8, •3•, J5.l, 16g, 187. A sen- morte de D. José I retirou-se para o con-
tença (p. 42) o dá por "grande confiden- n:nHJ dos Remedias, lJnd.: faleceu. ;'\;a
te•> do duque .. c a p. 44• rq apenas por qualidade de di recto r das prisões da Jun-
confidente. O estribe1ro do ·Duque (p. 78) queira deixou má fama de sua pessoa.
considera Antonio Dias o principal con- (E. Pc:ro.:ira, Portugal, vol. V, p. 2~71,
fidente do Duque. Era professo da Ordem de Christo. Ha-
Montemor-o-Novo, 72 . bilitou-se para familiar do Santo Ofici'o
.\1onteiro Ramalho (Domingos), cirurgiüo cm •:;61 (Arq. Nac. maço 8õ de Jose n.o
da Casa de Saude e dos carceres do S. 121i7)· Cfr. Latino Coelho, Hist. pol. I
Oficio. 79, 84. Bj, 93, 98. 112, I2Çl. •3o, (18741· p. li:.! • .-\ crer cm Alorna era dt
•33. I34, I37, 174: 180. Fra natural da pouca instrução e na mocidade dado a
freguesia da Pena, c morador na de touradas.
S. Jose. filho de \lanuel Francisco Rosa. Ussorio (Sah-adorl, assistente em Roma, 6.'i.

--
nssuna (Caetano .-\lberto de), dc::putado d11 Patriarcal. ~8. Fica' 11 na Ajuda.
:\h:sa da Conscic::ncia c Ordens, .a3. :\(o- Pedro tlnfantc 0.). 101, 10:.1, 10-t- q.t, •5o,
rador na frcguezia do Sacramento de •58, ,;~l, 11h. •63. 171). Tio de IJ. Maria I.
I ishoa, baptis.adu na dos :\I,Irtires. filho CIJm a qual casnu. Sc-~undo escreveu
d<.: :\lateus da Costa, e de- sua mulher Pombal o rei D. José julgava-o incapaz
.\licaela dos Anjos, neto p:n.:mo de .\n- Rara o matrimonio. Cf. D. JIJsc:: :\lanucl
tonio Jorge e de Fran.:isca da Costa, neto il.: :"joronha. C.zrt,zs do .\l.u-ques de Pom~
m.nc::rno dc Jr,iio de Ussune. bafltisado na bal. •9•';· p. -t3.
frc-guczia de S. Paulo c de :'olaria Fc::rrei- Penalva t:\larques de). 10.;.
ra. Casou com n. :\lari3 Hernarda Ca.:- Perdig~11J tP.• .IIJsé). da Companhia, Ho, 8-t.
tana da :"'eiva, (H. de Cristo, n. 0 12 de 1:15. ~·-t· 97· Jl)2. 16J. Era procurador ge-
C .. n. 0 Jti. no Arquivo :"'acionall. mi da Companhia e esteve nas prisoes
P.tchcco Fabiáo (Josê), 100. da Junqueira. Cf. AIorna p. 55.
Pad1cco Perci ra· de Vasconcelos tJoáo). Pereir.1 tBcnto). moço da CIJpa do Duque
8. 9· Era natural da Baía. tilho de :\l.1.: de Aveiro. 83.
1tuel Pacheco Pereira c d.: D. Ursula Pereira Coutinho t.\ntoni<.. Jost:). procura-
Barbosa de .\lmeida, neto patl·rno de dor do mester. t8.
[Jomingns Ribeiro e de :'olaria Pacheco, Pessoa tP.e Francisco). da Companhia, 61.
naturacs da freguesia de Ferreira (!~or­ Pimenta (Pascoal), de Ponte de I ima. pai
to) e materno de .loi10 d.: ~amp.tio Ri- de .\mtmio Dias: moço de acompanhar
beiro e :'olaria de .\lmeida. éle de Fel- o Duque de Aveiro. 9•·
gueira e esta da Baía. O pai c::ra familiar Pires /Domingos). procurador dl• mi."Ster.
do Santo Oficio, (Arq. :'1/acional, maço 31 • •s. . .
.1, n. 0 11i). Habilitou-se em 17!3. FoijuiL P1scina. organista d:• _C:-'pda Real, 191. ·~·2.­
da ai.; ada do Perto por decreto Jc 2tl de Dcve ser JoiiQ P1sm1 a quem se refc::rc::
fevereiro de:: 1757. Clr. Soriano. Histori.1 SIJusa Vi rcrbo no n.o :.17 5 da Ar·te .\lusi-
do rei11ado de D. Jose, (1867), p. 2.~H-· c ,·.zl. como sendo cr-avista de S. :\L mo-
Camilo. Perfil. IJL rador c::m Bclem e de -to anos ém 176-.
P.zci,nms ( FulviusJ De prob.ztionibus. Fr.m- :'>Jo catalogo da livraria tl1J Conde de
co(urti. ro3. Rib. ~ac .• Deposito. n:• Linharcs, 18~15. ma-rQ 3RI- regi$tam-"c
J.i:h8. lgÓ. comflosições de Picinni.
Palacio de ::\. Sc::nhora da .\juda. Onde se Ponte-de-Lima. QL
fazi.1 o despacho das secretarias do Es- Porouchon (Eiiás). •7Õ- :\a Pombalin,z. n.u
tado. 3. etc. 6~H: ti. 109. guarda-se uma sentença con-
Palhavi.i, Q2- !H· 104. loJ, itiX. •;5. 171;. tra João Ehas P~Jrochon, inglcs c outro,
Palmas ICIJimbra). !36. por extravio de dinhciro do Erario. da-
P.ilio dos Bichos. na Quinta de Baixo. 16. tada de 1786.
Tinha sido do conde de .·\\·eiras. a quem Portel. 9S.
D. Joi\o V a comprou e t: hoje o palio de Porto. 83.
Belem. Sorianr,, Hist. do rein.zdo.,.c::tc .• Praia da Sardinha. cm l:lelem: sr;_
I. p. 33•; E. Pereira. Portu[fal, 11. p. 21io: Prc::tas tRua dasl. •75-
P;itio do Mosteiro do Cah ano. 1;2. Soria- Principe (Ilha dr,). tio.
no. na Hist. do rein.zdu de EI-Rei IJ. Jo- Quinta da Ajuda, 76.
se I (1867), regista .1 \ersi"•IJ de se ter Quinta das \'acas, ,126.
dadiJ o atentado na ponte de .-\lcàmara. Quinta de Baixo. 12. 13. qti. Foi compradil
:"'o largo do Calvano ficava o palacio em 172.Õ ao conde de .\vcíras e aqui es-
real de Alcantara, altora convertido cm tiveram encarcerados alguns dos preten-
fabrica de bolachas.- E. Pcr.:i r.1, J>orlll- didos c~njura~us. E' hoje o f.alacio de
gal, I. p. 15-j. ,._ Olfcrs. l."ber den .\lorJ- Bdem. E. Pere1ra, PorllU{.ll. I , p. 26o.
vermdz ge{[en den /úmig Joseph. Ber- Quinta -dc:: Cima. t1cava ao -lado do palacio
lim. •tl3g, y. 3, fala de:: um Jo~10 Lobo da Ajuda, -t•, 4J. Foi do Conde de Obidos.
morador ii Junqucira. que ao ouvir os u5. q2. 16-J. U palacio era de madcira e
tiros correra a janela e vira uma carrua- ardcu quasi por complc::to em '79-'- E.
gem a ~:talope. Esta versão e tirada de ,._ Pereira. Portllf[al, I. p. 110. :"jão se CIJil-
:l.lurr. Gesch. der Jesuiteu. !. p. H)5. funda com o actual palacio da -\juda co-
Pâtio da Quinta de S. :\lag. que· tem as n:eçado a construir no tempo de D. :\la-
portas para o, terreiro do caes grande de na I.
Belem, 107. E o atual palacio de Belem. Quinta do :\Ido. Separa' a-a do palacio di!
P;itio .das Vacas ou Quinta do :\leio, 12. da Ajuda um pequeno campo. 6. 24• .j.J.
..\gui esteve o arquivo militar ·até que 12:41:76-
f01 transferido em grande: desordem para Rainha Mãi. 10-f. Era IJ. :\lariana Ter.:s~t
n Campo de Santa Clara Ja ..\ustriá.
220

Rato. 6j. Santo .\Jbeno (Convento de). 67.


Resende (Conde de), 12 1. Santo Antão (Colégio de). 33. 68, go, ~·4
Ribeira (Bairro da). II3. 97· 134. 13y, 1f.2.
Ribeira (Conde da), 76, 6y, 12tl, I3+ Mor- Santos (Joaquim dos). Era filho de Pedro
reu nas prisões da Junqueira. Alorna. p. Dias. de Oeiras. de 33 anos e cocheiro
6+ Vid. Latino Coelho, Hist.po/ .• 1(1874l· do Duque de Aveiro, 43, 128.
P· ~6. Santos Duarte (José dos), procurador J.o
Ribeua (Com.leça da), I3I, I3li. I3g, IUti. mester. 18.
Rigueira (Beco da). 106. II3. Sfto Lourenço (Conde J.c), w', 167, 171.
RiJO (José Francisco). cabo de esquadra. Suportou relativamente bem, áparte per-
l.p. turbações de cabeça. as agrúras das pri-
Rio Frio (São João Baptista do), 7;. sões da .Junqueira. como diz Alorna,
Rodrigues (Bernardo), mestre pedreiro, re- P· 67.
sidente em Montcmór-o-Novo, pai de Ma- São Roque (Colégio de). 33. ó3, 68. go, IH·
riana Teresa. 72. 97> 129, 134. 1Õ2.
Rodrigues tDommgos). moç 0 da cavalariça São Tiágo (Ilha de), 6o.
do Duque de Aveiro. 86. São Tomé (llha de), 6o.
Rodrigues de Almada (Antonio). juiz do São Vicente (Conde de), 166. A esta fami.
p0\"0, 18. lia pertencia o cardeal da Cunha, D. João
Rodrigues da Parreira (João). procurador Cosme de Tavora (Ijd a Ij83), cónego
do mester. 18. regrante. bispo de Leiria. arcebispo de
Roma. 63. 6-4-. 65. 66. "7· 6g. 70. E\·ora e da máxima intimidade de Pom-
Romeiro (Bernardo Jos~), 12+ bal. a quem depois abandonou. Cfr. So-
Romeiro (Bras José), filho de Bernardo Jose . ri ano. Hist. da guerr.l ciJ•il, I, p. 258.
Romeiro. natural de Lisboa e freguesia São Yicentc J.e Fóra rCon\'ento de). too.
J.c São Sebastião da Pedreira. cabo de 168, lj5.
esquadra. 12-J. Era tão _eobre de espiri w Sctubal. I3y.
'Iuc os :\l<.!rque,cs de favora se .ti,·cr- Sih·a (Haltasar João J.a1. pro.::urador do
tiam .:om as suas materialidadt:s. Cfr. - mester. 18.
Tratado .1pulogetico, p. 88. .\inJ.a hoje Si h· a (Jerónimo· da). ad,·ogado, lj5. Na lei-
se J.iz: esta e de cabo de esquadra. L. A. tura de Sachareis, maço 1, J, n. 0 9 (Arq.
Verncv. Verd.1deiro metodo de estud.1r, I. Nac.) existe um processo datado de lj35.
p. 4S, éscrc\·eu: «e~ ta rezam é de .:abo de relati\'o a um Jerómmo da Silva e Araujo.
es'luadra ... Silva (José). J.e !3raga. d8.
Rosado (P.• .José). da Companhia. 63. ri+ Silva (Pedro da)'. natural de Braga. filho de
Rossi (Jose), guarda-roupa. 176. José da Sih·a, de 36 anos, moço da cava-
Rossolier, frances. ·Antonio Alvares Ferrei- lariça do Marquês de Tavora, I38.
ra afirmou que um despachante da al- Sih·a (Tomás Afonso), procurador domes-
fandega, a quem não sabia o nome, mora- ter, 18. ·
dor na casa do Conde de Unhão. lhe em- Silva Bandeira (Jose Manuel da), filho de
prestara as pistolas para o atentado .JI. _ Alexandre da Sih·a Bandeira. baptizado
115. Uma cana evidentemente forjada na Sé de Lisboa, estribeiro do Duque.
que publica o Accormt. a p. H6. dá-lhe Je 5o anos, 33. í7·
este nome. • Silva Bandeira (Jos~ :\laria da}. filho do
Roussado (Ar:tonio Fran.:isco), procurador réu José ;\lanuel J.a Silva Bandeira. do:
do mester. 18. 14 anos.&, 81. 82.
Sá (Luis de): criado do marqut!s de Ta- Silva Bandeira (D. Manuel .los~ da),'reli-
·vora, 124. gioso da Di,·ina PrrJ\·idencia (Caetanos).
Sacavem. 66, 67. 1rmüo do. r~u José .Manuel da Silva Ban-
~aldanha (Cardial), G1. 62, 67. õ8, 70. Vi- deira. de -4-2 anos. 8o. 81.
sitador e reformador da Companhia de Simões Barbosa de Azambuja (José). 9· Era
Jesus. Em 24 de j~nho foi eleito patriarca natural ,\e Lisboa. filho de João SimÕes
de Lisboa (Smith, p. 85), e faleceu em 10 Barbosa e de Pascoa Pereira de Sena.
J.c novembro de I n6 (Gomes, P· 28o), Casou com D. --\na Francisca Reisson.
sendo acusado de o mandar envenenar o filha J.c Francisco Reisson c neta de Lou-
Marquês de Pombal (Soriano. Histnri.1 ro:nço Rcisson, natural J.e :\larselha. Sen-
do reiu.1do, IL 172). do cavaleiro de Cristo. habilitou-se em
SalvaJ.or (Convento do). 106. 1745 para J.o:putaJ.o da Mesa da Cons-
Santa Mana (D. João de), conego regrante. ciencia e OrJ.cm (.\rq. Nac .. Ordem de
104. Era conhecido por D. João Sexto c Crislf!, J, maço 8õ, n. 0 2).
csten: preso na Junqueira como diz .\I or- Soares (lnacio). prufessor de teologia no
na. cfr. Per_fil. p. 181. .:olegio de Coimbra. Lat. Coell"!o. Hisl.
"l'21

politic:.r. I. 175. Este: puJrc c pru\a\d- marquc:L Jc.: Tavura c: Jit duqueza de
mente o rt:ferido a PP· ~)0. ~1-l· 9i· .\veiro~ 7~''· 78. So, 9õ. 9~, 128. 129, t3.J.
~oares j:\lanud). ci~anu. moradc,r cm \hu- •3i~ 1..14·· Enlouqueceu nus prisões .to~
\ i la . .JI. Junqueira, ha,·endo estado prc:so no pd-
~oarcs Brandão 1Antonio] . .:1 rur~!ii"to-mór lco dos Bichos onde via seu sobrinho
Jo rc:ino. 11. A habilita\"i"lll d.: familiur Llo mesmo nome supliciado aos 13 de: ja-
não se c:n.:ontra no .\rq. :'\ac:ional..Sa- neiro de a~ 5g. Cfr. _\lorna. p. 87.
hc:-sc no c:numtu pela habilita.;ão Ja o.-- J"avora t~lanoel dcl. -l~l· li2. Rh 12tl~ t.H.
dcm de Cristo (:\la.;u 5:4~. :\. n. 0 5-J) feitd dr;, t3R. 1J~a. 1-1-8. 1Su. lli5. Luz Soriano
cm •7-J.t, que: foi criado Jc: Jose: Rebelo na Histori.t do reinado de D. Jusé. 2
Palhares; o l'ai c ;t\ ó materno eram ci- ( 1867). I'· 3lt- conta o pro.:eLiimentu
rur~iúcs. Tambem tirou cana Je brasão .:nntra elt: havido. Preso na Junqueira.
Llc 'armas. que \-em sumariada no .4rq. .:fr..\torna. p. 81.
Ht•r.tldicu, de Sanchc:s Raena. :\ seu rc:s- J"a\·ora (:\larquês Jc:J, Francisco de .-\ssi,
pc:ito lc:iam-se a" noti.:i.~:o publicadas no Jc Tavora. hap1isado na fr~::guesia de
.-trq. .f.r Hist . •t.r Jlc.tiâu.r Portii!(IICS.t. Santos, Jc 55 anos. Sr,bre a culpabilidade
, vol. XII (1~1~1). p. ~~­ Jos Ta\·oras. cfr. Latim. Coelho. Hist.
:Socono (Patco do). 1 1+ pol. I p R7.J), p. 35•1·
Solis (D. José), 65. titi. Ta\·ora (\larquês de:). Luiz Bc:rnanlo Jc
Sousa Calhariz tD. I uis-del. lj5. · Tavora. natural de Lisbna, baptisado
Sousa Calhariz 1D. \lanoel de). qo. 'I.J· 101. cm S. Scbastif10 Lia Pc:drcira, de 35 anos.
110. t6j. 175. ~ascc:u em 21 L{c: jÜlhu LI.: qo. w.ts a little .\l.tn ,md tlzin, well cnough
•;o3. casou a 1 de: agosto de: 1735 com " • m,uie. b11t not of .1 plcasin!( !lspect• .-\.:--
princesa Maria Leopoldina de: Holskin. coun t, P.· .J5. ·
Foi avó do primeiro duque de: Palmela. Tavora (\larquesa dc1. Dona Lc:onor LI.:
Luz Soriano. Historia do rein.1du de - Tavora. Slze w.ts of the lower middle
D. Jost!. I (t86jol. p . .JCI(). Estc:\·c preso na si;e and thin . .-\ccoum. p. 4-"· .-\ p. ~22 de
Torre Jc: Bd!.!m e ai morreu. como tli7 A Jl.trqllep d'.-tlorna (1~)161 do :\larquês
Alorna c:m .·h prisões da J11nq11eira. p- d".-\vila e de Bolama. ach~-se o retrato
98. Soriano diz que foi na Torre do Bu- desta senhora.
~lo. I. p. 46o. Camilo referc:-se-lhe. Per- Ta,·ora (\larquêsa dc.:). a nova, 126. t3~,.
fil. p. 46. 154. t5.5. O marquês de .-\dia e de Bola-
favarc:!; (Bc:rnardol. natural de Palmas. nn ma publica o seu retrato no livro A
bispado llc Coimhra. 136. _\[arq~tes.t de Alorn.t. Veja C&.milo. Per-
Tavares de: Sequeira (Euscbiol. dc:seri1bar- · fil. 47· A condessa de .-\touguia. na auro-
p.ador da Casa da Suplicação e procura- hiografia pondo em rdevo a pc:ns;io ã
dor dos reus. o. 1-J. _ao. 27. ~:nural de duquesa de: .-\veiro, não se refere ao
Coimbra. Era filho de: \lanocl Lopes de rratamcnto de: favor desta sua irmã, que:
Sequeira e de D. :\laria Tavares. Habili- foi sem sombra de dúvida amante de
tou-se em 1727 e em 1754 casou com El Rei D. José.
D. :\laria dos Anjos. natural de Lisboa. Teixeira tPedrol, sar~ento mor c compa-
filha de José de Barros Caminha e de nheiro de El-Rci nas suas aventuras, 11.
D. Ana Joaquina Seixas Ht:zcrra. (Arq. -l;• 104. ltÓ- Em 17"1 era rcpostc:iro c:
:'\ac., S. Oficio. maco 1 c: dt: E11sebio. criado particular de EI-Rc:i. O pae foi
n.o 5. . moço de: barco, mo.,:o de cais e aponta-
Tavora (João Jc:). irmão do ~larquês de ,for de t:~uas. moço de esuibc:ira c sma
Tavora e cunhado do Duque de ;\\·eiro. Ca\·alarica; o a\·ó patcrntJ carpinteiro; o
Rg. 94· 163. Preso na Junqueira. cfr..\tor- avõ materno pescador. c a avo paterna
na. p. 85. Foi d.epois devado a marechal lavadeira .. \pesar de alegar só a honra
de campo com o nome de João de: l.o- de servir a Sua- \lagcstade. sem se ,-e ri-
rt!na. cfr. Soriano. Histori.-r d.t l{llerr.r ficar serviço. D. Jose: dispensou-o em 3t•
civil, Tom. I. p. 253. · de outubro de t7S1. com oposic;ío d<t
Tavora (José :'\laria de1. baptisado na frc:- :\lc:sa da Conscic:ncia. 1Hab. da 0•-dc:m
~uezia dos 1\lartires. capitão de: cavalos. d.: Cristo; maco 11 de P. n. 0 203) ..-\ viu-
de 22 anos de idade. 172. O .-tcc01mt. p . vã deixou a sÚa morte: c:m 178~ a\·uhada
.J5, diz oj a mi.tdle Sire, most bea.1ti- fortuna. Cf. Duhr. Pombal. p. 83.
{ul F.1ce. gemeel Persou. a~:reeable De- feresa 1:\lariana), moça da camara das
portment aud ami.tble Disposition. T .:ria filhas do du9_ue de Aveiro, natural de
provavelmc:nte casado com a sobrinha \lontemor-o-~ovo. de 1R anos. 71. 72.
vindo por isso ainda a ser :\larquês de 83, o3.
T avo r a. se não fosse suplíciaJo. Tlremitdo d.t- Fousec:a (.\l.nwel) Deâsiones
fa\·ora Oosé :\laria dei. cunego. irmãr, JtL seu.ttlls ,trchiépiscop.U11 metropolis r·~vssi-
./

Pf!llensi, C.:lisipon~, Tom. II, 1688. p.. 18. Tui, Q8.


B1b. Nac., S. C. n. 1343, preto 19 ·. Unhão lConde de), 41, 11 S,
Tir,1q11el1115 (A.ndr,1eas) De poenis legum. Uruguay, 33.
,u consuelu.iilzem etc.. Lugduni, T55g p. Veiga (P.• João da), da Companhia, 67.
116, Caus.1 XXX. n.• 17. . Veles Procel (Manuel) capitão, 124.
Torres (P.• Antonio de), de Bragança, dH Veneza, .'ig.
Companhia, 67. Vidigueira (?), 86.
Torre de São Julião, h6. Vila Seca (Viseu), 13~.
f ras-os-1\lontt:s, l'J+ Xavier (Salvador Francisco), morador na
Trinas (Convento da!tl, 66. Carreira dos Cavalos. de 4~ anos, 17S.
III

fA~1ILIA DOS fiDALGOS


...

Duque de .-heirn (Palaciu de Hcleml. Criado: Luís de Sa (IJ .


.\loço de acompauhar: Jr.ão Bernardo.
rCapel.'ioJ: P.e :\lanuel hmcio (tl. Bolieiro: José Antonio.
Secret.trio (cri,tdo ~trat•e}: Antonio Jose Sota-cavalariço: José Fernandes.
de :\laws. .\-loço dos c.tvalos: Pedro da Silva.
Estribeiro: Jos.: :\lanuel da Silo: a Bandeira.
Escttdt;iro: Diogo ~José (ti. T~mbem per- \larqueses de T .1v0ra, filh0s (2). (Palacio
tencta ao marques de Gouwta. da Junqueira).
Guarda-roupas: Antonio A h-ares Ferreira:
:\lanuel .\h·ares Ferreira.
Cri.1dos: Filipe Ferreira. (t\: \lanoel de: rEscudeiro .ta Jl.trqm!~.tJ: Caetano E:.car-
Loureiro (1). late.
.\fOfOS de acompaul!.Jr (na táooa): ..\mo- Cabos de esqu.rdr.t: Brás Jose Romeiru:
mo Dias: João :\liguei. · José Francisco Rijo.
.\loço da copa: Bento Pereira ( 11. Bol:eiro d.1 m.trqr~êsa: :\lanud Jos.: .
Sota-c.ll'.tlariço: :\lanuel do ~asciment••· Bolieiro e moço de acomp.ntlrar: Antonio
Cocheiro: Joaquim dos Santos. Jose:.
Bolieiro nu sola-cocheiro: Francisco dd
Costa. Jose :\laria de Tavora. (\'o pala.:in <los
Bolieiro d.1 duquesa: :\lanuel da Fonseca. pi\ is) .
.\loço da c.ua âos arreios: :\lanuel dà Sil-
va, O P.tdillra. G11.Jrda-roupa: :\latias Jose .
.\Íoço .te estribeir.t: Antonio :\lartins. O
Pa;<.tdor, ferrador. Condes de .\touguia (3). (Palacio .la Jun-
.\loço de cavalariça: D0mingos Rudri~ues queira. de madeiràl.
(J). .
\loço de c.tval.Jric.t. ou dos c.w.tlos do mar-
ques de Gouvl'ià :· D0min~os :\I arques. Cri.tdo ~r.fl•e: Diogo de .\lora.:~.
.\loço que trat.11•.t dos machns p.trdos: An- Escudeiro: .-\ntonio Caldeira .
tonio (t) .
.\loça d.t camara d.t~ filh.ts .to duque: :\I a-
riana Teresa. ·
Porteiro: Manuel dn Costa Calheirns. ll) ~ão foi in1~1·rogaJu.
1:!) O unico int~rrogado desla .:a•a foi Ura' Jo.c Ro
\larqUt!ses de: Ta\ nra, pá i~. IPalacio ,te m..·iro. O nlator da scnten.;a .:!e rc.~\i!Oodo. p.-.1n
aJmi•·a-sc de não te•· siJo iruerrogado Amonio Jose .
.\lcolena). Tah ez o foso~ cm mar~o. cfr. I ucio Jc \,e.-edo
p. 22j.
(~l Fstes nomes sao tirados Ja .lutol>iotrralia da con
1-'scudeiro .t.J m.trquc.<.t: :\ ntonio .los.: I I! i- Jc.-!0-sa .:te Atougnia. em cuja casa ba' ia uma familia
'tão. .!< .$0 r~ssoas na ocasião da prisão do couJ.·. p. -·~-
IY

VOCABlTLARIO

,
abominaves 38. dco 12.
accrecentar j, accresentarei 161. deslacerasoens 4+ deslacerasáo 1 t.
acomular 4S. despararão 121.
.\la 70. .-\iala. Detracção 182.
alimpar 12. di.:e 12.
assosiar 35. discarga 122. discarregara ti, ++·
at.lcar algUI'IS era\ os !li..\perta r. discargo 102.
athe 5. 7 etc. disconsolaçfto 1f6.
Haunel:l 68. Baioneta. Discontcntc 3g. 101, 170.
bendicientissimo ~o. ,.:o. •85. Disculpa r·21, disculpar 107.
Rolea ! J5 . .-\s scgcs cr:mi de bolea (do fran- distigurar 107.
cês vulée) ou de cordões. dislaceradas 11.
Borjaca JO~). 111. 1:;0. Do hesp. b111j.tc.1. dispotico 35, dispotismo 48.
Cabeleira 109, 120. Havia de bolsa e de chi- Droguctc 1S, 11.0. Estofo ordmario.
cote. etfeituar :n, 182.
Calurda 11li, 119. O suf.,uJ.1 rc.:ebcu um r enautorado 57, 58. Corru.;ão de ex.luto-
por intluen..:ia de t".ti.tr. r.lJo.
~amcra 71.. evittado 183.
Caracthcr •i· exacrando passim.
Caravina 44· 40. Clavina 12S. Cravina 41. exherdarem 3o.
Carcao,:ão 165. exterminado 9+
carcado HI{· Facas 87 etc.
Carruajcni + 38. I'Ó. Falescimcnto 63.
Cavalharicc. 12, 9J • .:te. lnflucn.:ia ,(o hcsp fcrozissimo 3o, ++·
Caxa !li. Gernina.,:áo 28, 117, etc. Duplicação.
Clauzalas G6. 1~9- O mesmo '-JliC or.triiis d:t hcy 5,
terminologia gramatical. humiliantcs 4Y· Latinismo.
coarctando IOi. . lncarnacáo 31. 33. 5o.
.:ombustas 11. Latinismo. incogitado 5r .
comuma ti. 33. Commum. insseparavd 12.
com.iuado •8+ intenda 24, intenderem 29.
concurrer 8õ, etc. lntrada 11. int-raram 1ti7, introu 156.
Cónigo gfi. ~8. involvem 9·
Cop ... 83. machavelicos 3-t. rt>o, etc.
currer 1q, 12_, curria 113. ~lal \"isto 193, miope.
cutovelo 1-r. !1). ~lcnza 109.
dcCUtdo 1 1; dc.:eo 62. ~lcrcearias 71. De merce. Creadas pela rai-
dcltoides 11. nha D. Cararina no cõnvento de Belem.
dcrugadas 5. derogação 7· ~ada rem com épicerie. ou A"r,'imerei.
226

\linistro evan~t:lico 4S. Mais us:~do para Rabeca e rebeca 83. 8q.
"desi~nar os pastnn:s protestantes. do ym: Republica 69. Ne~ocicis puhlicos.
CJS saccn.lotes catulicos. Hesposteiro 11G.
Monstrun 5-J, 55, 51i. Re;mlta 1>2. Resultado.
mormura\"a 176. Rigueira u3.
:'llenos .'.>3. rocorrermos 65.
Nosção 15+ Roqueiros G. Canhões 'JUe dispara\"am pe-
Omoplata. s. m. 11. A omoplata. dras.
oppiniavel 191. Do francês uppiui.1ble. Sacraticio 15ti.
Page 70. Sam Tiago S1, 6o.
'arrecidias 2q. seca\"a 10+ Importunava.
l~asmado 17Íi-. Apalermado. sem iniciati,·a. Sen·intia 125, 169, 179·
Passajem 178. sigilariio 187. Neste caso. e pedir segredo.
peccuniarias 7· S1mplez 101.
Pc~am_ento 1:>. sob~ 77· soube.
pewr ú1. Sona cavalherica 8ó.
Peluça 121. Soua coc~eiro 89. O se~untlo cocheiro.
Perdicçoens ti. Sucego 5g.
percizn 11. · tht: 12.
Peruca 109, 111. Do italiano perruca. Tomor 11. .
Picaria 135. 136. Tratada JOQ. Fraude, tratantada.
Plebeios 6. Tratos 84. Torturas."
Pohcarpio passim. Treceiro 153.
Porsoens 11. trucão de falso ú9. Expressão de jogo,
Potro 85. Cf. Camilo. Per..fil do marquer llraguay 33.
de Pomb.:zl. Vagamundos 20.
Pranchada 39. q~J, 179- Tapumedem:ideira. Ventajem o.
Pranxada 1Ü. ld. Verde d2. Erva.
Presunsoens Jt~. '"erosimel, J2. J23.
lroditorias 18ti. Latinismo. Venija 11fi.
l">rornonor 22. Veste 15.
Pudonor 155. 1 51i. Pundonor. Vigiliatura ti7.
Qunnas 3t>. · Vi rissimo 1>9.

.-
ERRA TAS

1'•8· I. lê-0\r- lr-ia-o;.e

li 13 e sobre sobre
15 :q cazaça cazaca
19 13 l.uiL Ht:rnardo dt: Tavor-a l:uiz Bt:rnardo dt: Ta,·ora, a Jozé :\laria dt:
Tavora
22 3j Dt:zcmbro Dezembro do anno •
23 29 cavallt:iros cavallerias
2-J 13 hão h ião
25 2 cpnspirfto conspirará~
27 :!2 pela pdas
.JI j ao no
47 .J hovesse houvesst:
92 j achavão acharão
107 q ambas ambos
131 y levava leva: a