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Falar de sexo

Aula 4

Na aula passada, apresentei para vocês algumas características principais da


teoria freudiana da histeria. A ideia principal consistia em apresentar eixos
fundamentais dessa clínica do sexual que se constitui no final do século XIX e
início do século XX e que tem na psicaná lise uma de suas expressõ es
fundamentais. No entanto, tratava-se de apresentar a emergência dessa clínica
em sua dupla inscriçã o. Primeiro, era importante expor sua estrutura disciplinar,
suas dinâ micas de conformaçã o e categorizaçã o, isso para que em um segundo
momento pudéssemos dar conta de sua dimensã o propriamente insurrecional.
Eu havia insistido desde o início que uma leitura da emergência da psicaná lise
como clínica do sexual precisaria saber como mobilizar essa dupla inscriçã o
contraditó ria, precisaria ser fiel a tal contradiçã o e explora-la em seus meandros.
Tendo isso em vista, partimos da histeria, o que nã o poderia ser diferente
já que é a partir da reflexã o sobre a histeria que nasce a clínica psicanalítica e
para tanto eu privilegiei uma leitura possível do caso Dora, de 1905. No campo
psicanalítico atual, diríamos que a histeria é uma neurose, ou seja, certa posiçã o
subjetiva do desejo na qual as formas do conflito psíquico se servem sobretudo
de estruturas de recalque e de denegaçã o. No caso, da histeria, as conversõ es
somá ticas costumam também desempenhar papel fundamental na determinaçã o
das formas do conflito.
A categoria clínica da neurose é utilizada atualmente apenas pela
psicaná lise, tendo sido abandonada pela psiquiatria desde o DSM III, que
privilegiou uma categorizaçã o do sofrimento psíquico através de transtornos e
disfuncionamentos em funçõ es psicoló gicas específicas, ao invés de continuar
operando com estruturas holistas que descrevem orientaçõ es globais em relaçã o
ao desejo. Ou seja, as neuroses indicam uma estrutura geral de comportamento
que modifica as relaçõ es do sujeito ao Outro, a si e ao mundo. Baseada nas
divisõ es da personalidade psíquica produzidas por conflitos, as neuroses
histéricas, segundo Freud, deviam necessariamente mobilizar um trauma
psíquico, contradiçõ es de afetos e deviam partir da esfera sexual. Ou seja, na base
de toda histeria, e isto Freud traz de Charcot, haveria traumas psíquicos vindos
da estrutura profundamente contraditó ria de afetos na esfera sexual
(atraçã o/desgosto, idealizaçã o/repugnâ ncia, etc.). essa estrutura contraditó ria
de afetos acabava por produzir uma repressã o sexual “que vai além da medida
normal”1.
Lembrei a vocês como Freud nã o inventara a histeria. Antes, ela era uma
das categorias mais antigas da medicina ocidental, já presente em tratados de
Hipó crates. Na ocasiã o, ela se referia ao ú tero, de onde se segue o fato dela
derivar de hystera: ú tero, em grego. Língua na qual histerikos será entã o “o que
concerne o ú tero”. Histeria indicava os transtornos orgâ nicos provocados pelos
movimentos do ú tero, ideia que podemos já encontrar em um papiro egípcio de
1900 AC: o chamado “papirus de Kahun”. O ú tero se movia por estar vazio, no
que a profilaxia contra a histeria nã o era outra que a gravidez e a atividade
sexual.

1
FREUD, Três ensaios, p. 59
É claro como havia, na base de categoria clínica, consideraçõ es sobre a
pretensa naturalidade do corpo feminino, sobre as funçõ es sociais que ele deve
desempenhar como mã e e como certa sexualidade genital lhe seria vital. Nó s
vimos, na aula passada, como Freud abordava tais conflitos psíquicos na esfera
do sexual e procurava, a sua maneira, encaminha-los para alguma forma de cura.
Ele os lê como motivados por certa impossibilidade de maturaçã o, certa
permanência do sujeito em está gios nos quais vínculos a situaçõ es edípicas
permanecem, assim como permanece também formas de gozo nã o submetidas
ao primado genital. Na histeria, dirá Freud, há sempre certa autonomizaçã o das
zonas eró genas em relaçã o aos genitais. No que se vê como Freud continua a
trabalhar com uma noçã o de patologia ligada ao conceito de degenerescência, de
preservaçã o de arcaísmos.
Neste sentido, lembremos como Freud lê toda a relaçã o de Dora a uma
tríade de amantes composta pelo seu pai por sua amante e o marido como
expressã o de certa fixaçã o na escolha edípica de objeto e na impossibilidade de
assumir uma possível paixã o por aquele que, afinal, lhe assediava há anos. Freud
lia as ambivalências de Dora como expressã o de sentimentos contraditó rios de
afeto e rejeiçã o ao mesmo sujeito. Nesse sentido, ele insiste em ler os afetos de
Dora a partir de uma histó ria, de uma narrativa na qual encontramos o abandono
necessá rio dos vínculos familiares e assunçã o da maturidade afetiva. Por outro
lado, ele também percebe o investimento de Dora em um gozo ligado a oralidade,
como se seu corpo tivesse um investimento oral que resiste à integraçã o como
prazer preliminar do primado genital. O trabalho analítico de Freud consistirá
em, de certa forma, acelerar o desenvolvimento que nã o teria sido realizado, seja
na dimensã o das escolhas de objeto, seja na dimensã o da integraçã o genital do
gozo.
Vimos como Dora, em vá rios momentos, recusava as interpretaçõ es de
Freud, até abandonar a aná lise depois de nã o mais do que três meses. Eu cheguei
mesmo a sublinhar que haveria outras vias a explorar a respeito da posiçã o de
Dora, que nã o seriam compatíveis com essa concepçã o de fixaçã o. Uma delas se
referia a degradaçã o da ordem patriarcal devido ao vínculo entre sexo e
destruiçã o na figura de um pai sifilítico. Isso nã o só marca o gozo sexual com a
experiência da destruiçã o e da doença, como tende a estender-se a outras figuras
masculinas. Tal articulaçã o entre sexo e destruiçã o na figura paterna tende, no
caso de Dora, a estender-se a outras figuras de autoridade. Isso talvez explique
porque sua identificaçã o com a amante do pai ganhe força suplementar. Ela
acaba por se identificar a uma mulher que se afasta do marido e procura por um
amante impotente.
Segundo, eu insistira também na maneira com que essa clínica do sexual
que nasce pelas mã os de Freud tinha claras dimensõ es disciplinares e o peso da
dimensã o disciplinar recai sobre o uso extensivo de certa forma de socializaçã o
do desejo através do recurso ao É dipo, ou seja, através do recurso a certa
concepçã o de maturaçã o e funçã o social. Assim, ao falar francamente sobre sexo
com uma garota, Freud nã o apenas escutava. Ele a ensinava como falar, em que
condiçõ es seu desejo poderia ser colocado em discurso, qual histó ria ele deve
contar, qual conflito ele deve assumir. Como disse anteriormente, falar nã o é
apenas liberar. Falar é também internalizar uma gramá tica do desejo. Assim,
podemos ler o caso freudiano também como a histó ria de um conflito. O conflito
que ocorre quando as relaçõ es sexuais, seus ó rgã os e funçõ es sã o postos em um
determinado regime de “falar clínico”, sã o levados a assumir certas histó rias e
dinâ micas. Se assumirmos tal perspectiva, o caso Dora talvez aparecerá como um
interessante relato de certa forma de resistência que nã o é apenas uma reaçã o
terapêutica negativa, mas a insistência da dificuldade em constituir uma fala
sobre a sexualidade que seja capaz de dar voz aos arranjos contingentes que a
sexualidade produz. A posiçã o de Freud é aquela de quem fornece uma norma
geral de fala. A posiçã o de Dora é aquele de quem nã o a aceita completamente. É
esta incompletude em relaçã o à norma de fala fornecida por Freud que produzirá
a ruptura do tratamento.
No entanto, como é pró prio das estratégias de Freud, mais do que
descrever desvios em relaçã o a uma sexualidade normal, ele tende a generalizar
a histeria como quadro geral de socializaçã o através da identificaçã o com o
g6enero feminino. Isso implica uma consideraçã o estrutural a respeito das
identidades de gênero, a saber, que nã o há identificaçã o de gênero sem a
produçã o de sofrimento, sem a produçã o de sintomas. Em suma, nã o há gênero
sem sintoma. No caso da posiçã o feminina, esses sintomas sã o pensados de
forma preferencial através da histeria. É certo que Freud tem um horizonte de
cura e tratamento a lhe guiar. Tal horizonte se refere, sobretudo, a certas
disposiçõ es normativas vindas do complexo de É dipo e de sua maneira de
compreender os conflitos afetivos a partir da repetiçã o modular de conflitos
familiares. Mas o verdadeiro interesse do caso Dora está em outro lugar. Na
verdade, Freud acaba por mostrar, a contrapelo, os limites desse dispositivo
clínico fundado na mobilizaçã o edípica como matriz para uma leitura do sexual.

Libido e história

Mas as elaboraçõ es trazidas por Freud tem outras dimensõ es, e isso explicará
muito da força da psicaná lise a partir de entã o. Ela será o campo de um embate
interno entre, digamos, a norma e a insurreiçã o. Mas para que isso fique mais
visível, devemos ir em direçã o a outro texto, no caso os Três ensaios sobre a
teoria sexual, cuja primeira ediçã o data do mesmo ano de publicaçã o do caso
Dora. Pois lá encontramos as bases de uma concepçã o inovadora e
desnaturalizada do sexual. A tensã o interna à psicaná lise pode ser
compreendida, entre outras coisas, através da tentativa de paulatinamente
readequar os dispositivos clínicos à s elaboraçõ es conceituais, que por sua vez
sã o frutos de observaçã o clínica.
No prefá cio à quarta ediçã o do livro, Freud reconhece que sua “ênfase na
importâ ncia da vida sexual em todas as realizaçõ es humanas e a tentativa de
ampliaçã o do conceito de sexualidade”2 era exatamente o ponto de maior
resistência contra a psicaná lise. E, neste ponto, uma operaçã o surpreendente
ocorre. Freud, tã o reticente em desconsiderar a novidade de suas construçõ es,
afirma que, afinal, Platã o e Schopenhauer já haviam indicado como a sexualidade
era o eixo de compreensã o do humano. Esse recurso à filosofia nã o é apenas
estratégico. Ele aparecerá em outros momentos decisivos da reflexã o de Freud
como, por exemplo, na defesa de sua segunda tó pica da teoria das pulsõ es. Isso
indica compreensã o de que a reflexã o sobre a sexualidade exige um discurso que
nã o é apenas clínica, mas que explicita seu enraizamento em regimes críticos de
discurso, como o discurso filosó fico.
2
FREUD, Sigmund; Três ensaios sobre a teoria sexual, p. 18
Isto fica claro na escolha do termo chave para a organizaçã o da reflexã o
de Freud sobre a sexualidade, a saber, libido. O termo tem atrá s de si uma longa
histó ria cujas raízes nos remetem ao pensamento teoló gico-filosó fico ocidental,
em especial Santo Agostinho. Pois é dele afirmaçõ es como:

A libido é tã o forte que nã o apenas domina o corpo inteiro nem só dentro


e fora, mas também põ em em jogo o homem todo, reunindo e misturando
entre si o afeto do â nimo e o apetite carnal, produzindo desse modo a
voluptuosidade, que é o maior dos prazeres corporais. Tanto é assim que
o momento preciso em que voluptuosidade chega ao cú mulo, se ofusca
quase por completo a razã o e surge a treva do pensamento3.

Ou seja, a libido aparece nã o apenas como excesso e impureza a se regular


através de prá ticas de contençã o visando o fortalecimento de si. Ela é a marca do
involuntá rio no interior do voluntá rio. Ela é a vontade submetida ao que ofusca
quase completamente a razã o e impõ e as trevas ao pensamento. Essa
insubmissã o do corpo expressa no humano a insubmissã o original à lei divina.
Deus colocou no humano a marca dessa insubmissã o primeira para que ela possa
ser superada através do exercício autô nomo da vontade e do governo, para que
dessa forma ela nã o mais ocorra. Como lembrará Foucault:

O homem caído nã o caiu sob uma lei ou uma força que o subjuga
inteiramente: uma cisã o marca sua pró pria vontade que se divide,
retorna-se contra si e escapa ao que ela mesma pode querer. É o princípio,
fundamental em Agostinho da inoboedentia reciproca, da desobediência
em retorno. A revolta no homem reproduz a revolta contra Deus 4.

É importante ter esse horizonte em mente ao tentarmos compreender o


que Freud irá fazer com a noçã o de libido. Ela é o que nã o se governa, o que nã o
se integra e que levará o humano à polimorfia. Isso explica a maneira singular
com que começa os Três ensaios sobre a teoria sexual. Freud começa por falar
sobre o comportamento humano em geral para descrever as perversõ es como
algo que permite a intelecçã o das tendências internas ao comportamento dito
normal. Exemplar , por exemplo, é sua maneira de abordar as “inversõ es” para ao
fim generaliza-la ao lembrar da tendência geral do humano à bi-sexualidade. Isso
a ponto dele terminar por dizer: “todas as pessoas sã o capazes de uma escolha
homossexual de objeto e também a fizeram em seu inconsciente” 5. Ou ainda: “Na
concepçã o da psicaná lise, portanto, também a escolha exclusiva do homem pela
mulher é um problema que requer explicaçã o, nã o é algo evidente em si, baseado
em uma atraçã o fundamentalmente química”6. Nesse sentido, a reflexã o de Freud
é um estudo sobre a plasticidade da libido como dado fundamental do humano.
Essa plasticidade reenquadra a tendência evolucionista da clínica da
sexualidade da época, como vimos em nossa aula sobre Krafft-Ebing. Pensemos,
por exemplo, em afirmaçõ es de Freud como:

3
Idem, A cidade de Deus, XIV, 16, J
4
FOUCAULT, Michel; Les aveux de la chair, p. 334
5
FREUD: três ensaios, p. 34
6
Idem, p. 35
A diferença mais profunda entre a vida amorosa no mundo antigo e no
nosso estaria em que os antigos ressaltavam a pulsã o mesma, e nó s
enfatizamos o objeto. Eles celebravam a pulsã o e se dispunham, em nome
dela, a enobrecer até mesmo o objeto inferior, enquanto nó s
menosprezamos a atividade pulsional em si, achando que apenas os
méritos do objeto a desculpam7.

Essa colocaçã o é de grande importâ ncia. Freud está a dizer que os antigos
tem sobretudo uma diferença em relaçã o a compreensã o da articulaçã o entre
pulsã o e objeto. Eles investem o processo, nã o o objeto, como nó s fazemos. Em
outras palavras, eles desejam o desejo, nã o exatamente o objeto. Por isso, podem
chegar até a enobrecer um pretenso “objeto inferior”. De certa forma, os antigos
estã o mais pró ximos de uma des-individualizaçã o que é pró pria a um impulso
sexual que nã o tem objeto que lhe seja necessá rio, isso se levarmos em conta que
Freud dirá mais tarde que o objeto é aquilo que há de mais variá vel na pulsã o.
Essa ausência de naturalidade entre o objeto e o desejo é, de certa forma, perdida
por nó s, que nos enganamos mais facilmente com a crença de que amamos o
objeto e nã o o desejo. Ou seja, é possível dizer que os antigos estã o mais
pró ximos da dinâ mica real da pulsã o do que nó s. Como se nossa histó ria fosse a
histó ria de um longo desconhecimento. O que inverte as perspectivas
teleoló gicas e etapistas que marcavam a clínica do sexual de entã o.

Transposições

Procuremos entã o compreender, nos termos de Freud, o que devemos


entender por libido. Freud a define normalmente como força quantitativamente
variá vel que permite a comparaçã o de processos e transposiçõ es no domínio da
excitaçã o sexual. A caracterizaçã o da libido como quantum de energia nã o é feita
tendo em vista alguma forma de “mensuraçã o” de processos psíquicos entre si. É
verdade que Freud define o ponto de vista econômico (que, juntamente com o
tópico e o dinâmico, compõ e a perspectiva de apreensã o de fatos
metapsicoló gicos) como sendo aquele que: “se esforça em seguir os destinos
(Schicksale) das grandezas de excitaçã o (Erregungsgrössen) e em obter uma
estimativa (Schätzung), ao menos, relativa destas”8. Mas a afirmaçã o diz o que ela
quer dizer. Se o problema da estimativa é afetado por uma clá usula de
relativizaçã o, é para lembrar que o ponto realmente importante diz respeito à
apreensã o do trajeto, do “destino” dos quanta de energia libidinal. Sobre o uso do
termo « destino » neste contexto, lembremos que :

Ele indica que o que está em jogo em um ser humano no que diz respeito
as suas pulsõ es é propriamente humano e produto de seres singulares,
isto ao mesmo tempo que uma pulsã o, devido ao fato de seus
componentes escaparem ao sujeito que é dela o teatro, aparece como
anô nima, despersonalizada, a-subjetiva 9.

7
FREUD, Três ensaios, p. 40
8
FREUD, Sigmund; Gesammelte Werke vol. X, op. cit., p. 280
9
DAVID-MÉNARD, Monique; Les pulsions caractérisés par leurs destins : Freud s´éloigne-t-il du
concept philosophique de Trieb ? In: BIENESTOCK (org.); Tendance, désir, pulsion, Paris: PUF,
2001, p. 207
Na verdade, isto demonstra como o ponto de vista econô mico visa
permitir a Freud pensar esta plasticidade pró pria a uma energia psíquica
caracterizada, principalmente, pela sua capacidade em ser transposta, invertida
(Freud usa, nestes casos, o termo Verkehrung), desviada, recalcada, em suma,
deslocada de maneira aparentemente inesgotá vel. Princípio de deslocamento
constante que leva Freud a caracterizar inicialmente a libido como energia que
circula livremente, “energia livre” em relaçã o à quilo que poderia barrar tal
movimento, ou seja, em relaçã o a sua ligaçã o (Bändigung) através da subsunçã o
a representaçõ es.
Que Freud tenha refletido sobre tal plasticidade, de maneira privilegiada,
a partir de fenô menos ligados à sexualidade, eis um ponto absolutamente
central. Contrariamente a Krafft-Ebing, por exemplo, Freud nã o define a
sexualidade como uma funçã o natural a serviço da reproduçã o. Ao contrá rio, ele
quer mostrar como há , no sujeito, o que só se manifesta de maneira polimó rfica,
fragmentada e que encontra seu campo privilegiado, necessariamente, em uma
sexualidade nã o mais submetida à ló gica da reproduçã o, encontra seu campo em
um impulso corporal que desconhece telos finalistas, como é o caso da
reproduçã o. Daí porque a libido é inicialmente caracterizada como auto-eró tica,
inconsistente por estar submetida aos processos primá rios e, por fim, perversa
(no sentido de ter seus alvos constantemente invertidos, desviados e
fragmentados).
Este é um ponto importante por lançar algumas luzes a respeito do
conceito freudiano de “sexual”. Longe de procurar fundar algum tipo de moral
naturalizada através da elevaçã o de Eros à fundamento do ser, as reflexõ es
freudianas tem o interesse de mostrar como “sexual” é o nome psicanalítico para
: “um radical impasse ontoló gico”10. A este respeito, lembremos como, desde o
início, as pulsõ es sexuais nã o sã o naturalmente vinculadas aos imperativos de
reproduçã o, mas sã o tendencialmente polimó rficas, sempre prontas a desviarem
de maneira aparentemente inesgotá vel os alvos e objetos sexuais. Como se
estivéssemos diante de um paradoxo : o paradoxo do desvio em relaçã o a uma
norma inexistente. O primado da sexualidade genital a serviço da reproduçã o é a
ú ltima fase que a organizaçã o sexual atravessa e só se impõ e através de
processos profundos de repressã o e recalcamento. É isto que Freud tem em vista
ao afirmar: “A vida sexual compreende a funçã o de obtençã o do prazer através
de zonas corporais; ela é posta apenas posteriormente (nachträglich) a serviço
da reproduçã o”11. Daí porque haveria “algo de inato na base das perversõ es, mas
algo que é inato a todos os homens”12. Algo que diz respeito à polimorfia
perversa que encontraríamos em toda sexualidade infantil. Polimorfia que deve
ser compreendida aqui como reconhecimento desta posiçã o na qual a
multiplicidade dos prazeres corporais nã o se submete à hierarquia teleoló gica
dos imperativos de reproduçã o com seu primado do prazer genital.
Assim, pelos prazeres corporais nã o se submeterem imediatamente a uma
hierarquia funcional, cada zona eró gena (boca, â nus, ouvidos, ó rgã os genitais,
etc.) parece seguir sua pró pria economia de gozo e cada objeto a elas associados
(seio, fezes, voz, urina) satisfaz uma pulsã o específica, produzindo um “prazer

10
ZUPANCIC, Alenka; Sexuality and ontology, In: Why psychoanalysis?, Uppsala : NSU Press, 2008,
p. 24
11
FREUD, Sigmund; Gesammelte Werke, vol XVII, op. cit, p. 75
12
Idem, Gesammelte Werke, vol. V, op. cit., p. 71
específico de ó rgã o”. O melhor comentá rio do sentido deste prazer de ó rgã o vem
de Alenka Zupancic :

Em relaçã o à necessidade de alimentar-se, com a qual ela inicialmente se


vincula, a pulsã o oral persegue um objeto distinto do alimento : ela
persegue (e procura repetir) a pura satisfaçã o produzida na regiã o da
boca durante o ato de nutriçã o (...) nos seres humanos, toda satisfaçã o de
uma necessidade, a principio, permite outra satisfaçã o ocorrer, que tende
a advir independente e a auto-perpetuar-se na procura e na reproduçã o
de si13.

Freud chamará de “pulsõ es parciais” tais pulsõ es que nã o se submetem à


satisfaçã o com representaçõ es globais de pessoas produzidas graças à uma
imagem unificada do corpo. Ele chamará também de “auto-eró tica” tal satisfaçã o
por ela procurar e encontrar seus objetos no corpo pró prio do sujeito desejante,
já que mesmo o seio e a voz do Outro materno sã o compreendidos pelo bebê
como sendo objetos internos à sua pró pria esfera de existência14.

Uma integração nunca completa

No entanto, vá rios psicanalistas insistiram no fato do processo de


maturaçã o sexual, através da submissã o da sexualidade polimó rfica e auto-
eró tica ao primado genital, nunca ser realizada de maneira completa. Jacques
Lacan compreendeu isto muito bem ao afirmar:

As aspiraçõ es mais arcaicas da criança sã o, ao mesmo tempo, um ponto de


partida e um nú cleo nunca totalmente resolvido sob alguma forma de
primado genital ou de pura e simples Vorstellung do homem sob a forma
humana, tã o total que supomos andró gena por fusã o”15.

Ou seja, o primado genital sempre é frá gil, está continuamente ameaçado.


A ligaçã o das pulsõ es parciais em uma Unidade nunca é completamente possível.
Como se houvesse algo a determinar a sexualidade que nã o poderia vincular-se à
imagem unificada de uma pessoa. Algo que do ponto de vista da pessoa como
unidade coerente de condutas aparece como força de indeterminaçã o.
Consideraçõ es dessa natureza apenas radicalizam posiçõ es que Freud
indica já em seus ensaios sobre a sexualidade. Lembremos, por exemplo, de sua
estratégia de normalizaçã o das perversõ es. Ela se encontra em afirmaçõ es como:

Quando as circunstâ ncias favorecem, também o indivíduo normal,


durante um bom tempo, pode substituir por uma perversã o dessas a meta
sexual normal, ou conceder-lhe um lugar ao lado dessa. Em nenhum
indivíduo sã o estaria ausente, em sua meta sexual normal, um ingrediente
a ser denominado perverso, e já bastaria essa universalidade para

13
ZUPANCIC, Alenka; ibidem p. 16
14
Neste sentido, o auto-erotismo indica uma posição anterior ao narcisismo. Ela serve para indicar a
polimorfia de uma libido que se direciona ao prazer de órgãos que ainda não se submetem a um
princípio geral de unificação fornecido pelo Eu enquanto unidade sintética
15
LACAN, Jacques ; Séminaire VII, Paris: Seuil, 1986, p. 112
demonstrar como é inadequado usar reprovativamente o termo
‘perversã o’16.

Ou seja, a perversã o é apenas uma lente de aumento que explicita


características gerais de todo comportamento sexual dito normal. O esforço de
Freud consistirá em retirar a perversã o da descriçã o de comportamentos sexuais
típico para, ao final, principalmente em um texto dedicado ao fetichismo,
descreve-la como modo específico de agenciamento de conflitos psíquicos
através de uma forma de negaçã o na qual o termo negado e seu oposto convivem
na consciência sem que isso implique impossibilidade de açã o. Isso representará
um golpe importante contra a junçã o entre clínica e dispositivos de normalizaçã o
dos comportamentos sexuais. Pois se trata de reconhecer que nã o há dimensã o
constitutiva alguma nas perversõ es, elas nã o sã o uma questã o de disposiçã o, mas
respostas a circunstâ ncias favorá veis. Se Freud chega a dizer que há algo
congênito nas perversõ es, é para lembrar que se trata de algo que todos os seres
humanos tem em comum. Daí porque há de se analisar a perversã o juntamente
com a infâ ncia. Ou seja, daí porque há de se compreender que a criança nã o é
outra coisa que um perverso polimorfo. Lembremos descriçõ es freudianas como:

A criança pequena é, antes de tudo, sem pudor, mostrando, em certos


momentos de seus primeiros anos, inequívoco prazer em desnudar o
corpo, com ênfase nas partes sexuais. A contrapartida dessa inclinaçã o
vista como perversa, a curiosidade de ver os genitais de outras pessoas,
provavelmente apenas se manifesta em épocas posteriores da infâ ncia,
quando o obstá culo do sentimento de vergonha já atingiu certo
desenvolvimento17.

Colocaçõ es como essas modificam radicalmente a funçã o da categorizaçã o


clínica das perversõ es e sua natureza disciplinar. O que havia sido criado para
estabelecer uma linha rígida de demarcaçã o entre nossos desejos e os desejos
daqueles que estavam sob o signo da regressã o social ou do arcaísmo,
generaliza-se como comportamento estrutural do ser humano, como marca
sempre inscrita na infâ ncia.
Nesse sentido, a explicaçã o para o fato dos comportamentos ditos
perversos nã o serem a regra geral será colocada na conta de afetos como nojo,
vergonha e moralidade. Isso significa: “precipitados histó ricos das inibiçõ es
externas sofridas pelo instinto sexual na psicogênese da humanidade”18. Em
outras palavras, construçõ es sociais vinculadas a julgamentos sociais e, por isso
mesmo, cambiantes e plá sticos.

Sexualidade com crianças

Mas sabemos que as discussõ es freudianas sobre as perversõ es aparecem como


uma espécie de introduçã o para a apresentaçã o desse tema que, segundo o autor,
seria uma descoberta sua, a saber, a sexualidade infantil ou, se quisermos, a
normalidade da sexualidade infantil. A tese da sexualidade infantil é fundamental

16
FREUD, Três ensaios…, p. 54
17
Idem, p. 100
18
Idem, p. 58
para a psicaná lise em sua natureza propriamente materialista. Pois trata-se de
insistir que sexo é o nome do processo material através do qual o desejo
constitui laços, estrutura relaçõ es e define modalidades de identificaçã o. E a
consideraçã o de uma sexualidade infantil traz, necessariamente, a tese de que as
relaçõ es familiares sã o necessariamente sexualmente investidas. Uma
sexualidade que será objeto de conflitos de toda ordem, isso a ponto de
podermos dizer que a família burguesa será vista como um nú cleo produtor de
neuroses.
Nesse quadro, a infâ ncia aparece, sobretudo, como um espaço de
esquecimento. Na verdade, de esquecimento da sexualidade. Uma sexualidade
que engloba atos infantis mú ltiplos, como o ato de chupar, o ato de defecar, açõ es
muculares, entre outros. Sexualidade que engloba crueldade.

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