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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 575.806 - PE (2003/0131839-0)


RELATOR : MINISTRO HERMAN BENJAMIN
RECORRENTE : FAZENDA NACIONAL
PROCURADOR : MARCOS ALEXANDRE TAVARES MARQUES MENDES E
OUTRO(S)
RECORRIDO : CHESF - COMPANHIA HIDROELÉTRICA DO SÃO FRANCISCO
PROCURADOR : FILIPE ANDRADE L SÁ DE MELO E OUTRO(S)

EMENTA

TRIBUTÁRIO. IPI. IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO. COMPANHIA


HIDROELÉTRICA DO SÃO FRANCISCO - CHESF.
DECRETO-LEI 8.031/45. ISENÇÃO. REQUISITOS PARA
IRREVOGABILIDADE. ART. 178, DO CTN. NÃO
OCORRÊNCIA. LEI 8.032/90. REVOGAÇÃO. POSSIBILIDADE.
1. Hipótese em que o Tribunal de origem aplicou o prazo estipulado no
art. 5º, do Decreto 19.406/45, de cinqüenta anos, à isenção de Imposto
de Importação por prazo indeterminado à Companhia Hidroelétrica do
São Francisco - CHESF, prevista no art. 8º, do Decreto-Lei 8.031/45.
Impossibilidade.
2. A irrevogabilidade da isenção concedida, nos termos do art. 178, do
CTN, só ocorrerá se atendidos, cumulativamente, os requisitos de prazo
certo e condições determinadas. Precedentes. Situação não
configurada nos autos.
3. Admitir-se a irrevogabilidade de uma isenção concedida por prazo
indeterminado é aceitar que o legislador de 1945 pudesse suprimir a
competência legislativa de todas as legislaturas futuras com relação à
matéria o que, a toda evidência, infringe princípios básicos da
Democracia Representativa e do Estado Republicano.
4. Com o advento da Lei 8.032/90 operou-se a revogação da isenção à
CHESF.
5. Recurso Especial provido.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da


Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas
taquigráficas a seguir, por unanimidade, deu provimento ao Recurso, nos termos do
voto do(a) Sr(a). Ministro(a)-Relator(a). Os Srs. Ministros João Otávio de Noronha e
Humberto Martins votaram com o Sr. Ministro Relator.

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Impedido o Sr. Ministro Castro Meira.
Ausente, justificadamente, a Sra. Ministra Eliana Calmon.
Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Humberto Martins.
Dr(a). RICARDO JOSÉ LUCAS PRAGANA FILHO(Protestará por
Juntada)
pela parte: RECORRIDO: CHESF - COMPANHIA
HIDROELÉTRICA DO SÃO FRANCISCO.
Brasília (DF), 11 de setembro de 2007 (Data do Julgamento)
MINISTRO HERMAN BENJAMIN
Relator

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RECURSO ESPECIAL Nº 575.806 - PE (2003/0131839-0)

RELATOR : MINISTRO HERMAN BENJAMIN


RECORRENTE : FAZENDA NACIONAL
PROCURADOR : MARCOS ALEXANDRE TAVARES MARQUES MENDES E
OUTRO(S)
RECORRIDO : CHESF - COMPANHIA HIDROELÉTRICA DO SÃO
FRANCISCO
PROCURADOR : FILIPE ANDRADE L SÁ DE MELO E OUTRO(S)

RELATÓRIO

O EXMO. SR. MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Relator): Trata-se


de Recurso Especial fundado na alínea "a", do permissivo constitucional, em face de acórdão
proferido pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região, assim ementado (fl. 129):

"TRIBUTÁRIO. CHESF. ISENÇÃO. IRREVOGABILIDADE.


- A questão "sub examine" já passou pelo crivo desta Corte e
em todas as oportunidades vem-se reconhecendo, nos termos do art. 178 do
CTN, a irrevogabilidade da isenção concedida pelo Decreto-lei nº 8.031/45,
já que presentes os seus requisitos, quais sejam a existência de prazo certo
e de condição em Lei.
- Apelo e remessa oficial improvidos."

A recorrente sustenta violação do artigo 178, do CTN, bem como do


Decreto-Lei 8.031/45. Defende a Fazenda Nacional que a isenção prevista no Decreto é
"incondicionada, podendo, portanto, ser revogada ou modificada a qualquer tempo, nos
exatos termos do artigo 178 do CTN" (fl. 141).
Contra-razões apresentadas pela Companhia a partir da fl. 145, sendo que o
Tribunal a quo admitiu o Recurso Especial (fl. 147).
É o relatório.

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VOTO

O EXMO. SR. MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Relator):


Primeiramente, ressalto que os dispositivos tidos por violados foram devidamente analisados
pela instância de origem, o que permite o conhecimento do apelo, ante a fundamentação na
alínea "a", do inciso III, do art. 105, da Constituição Federal.
Cinge-se a discussão acerca da revogação ou não da isenção tributária
concedida à Companhia Hidroelétrica de São Francisco - CHESF, por força do Decreto-Lei
8.031/45, especificamente no tocante aos valores referentes ao IPI e Imposto de Importação
sobre equipamentos importados para integrar o seu ativo fixo.
O Decreto-Lei 8.031/45, em seu art. 8º, assim prevê:

"Art 8º A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco gozará


de isenção de direitos de importação para consumo, das taxas e demais
tributos a que estiverem sujeitos os materiais e equipamentos que importar,
desde que destinados a suas instalações e à conservação e exploração das
mesmas , bem como de isenção, durante o prazo de dez (10) anos, de todos
os impostos federais, estaduais e municipais." (grifei).

Da leitura do referido dispositivo percebe-se que há duas modalidades de


isenção previstas:
a) a primeira parte do dispositivo trata da isenção para importação, a qual não
foi estabelecido prazo determinado; e
b) a segunda parte do artigo cuida de isenção mais abrangente ("de todos os
impostos federais, estaduais e municipais" ), mas, traz o prazo de 10 anos.
A discussão nos presentes autos alcança a primeira modalidade, pois não
trazendo o prazo de duração da isenção aplicou-se, na instância de origem, o prazo fixado
pelo art. 5º, do Decreto 19.706/45, in verbis :

"Art. 5º. A presente concessão vigorará pelo prazo de 50


(cinqüenta) anos, contados da data de registro do respectivo contrato na
Divisão de Águas." (grifei).

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Pela leitura dos dispositivos acima colacionados, percebe-se que tratam de
assuntos diversos. Enquanto o Decreto-Lei 8.031/45 aborda a questão da isenção tributária, o
segundo diploma legal refere-se à duração da concessão do serviço público, não podendo,
portanto, este último prazo (50 anos) ser aplicável na esfera tributária.
A Fazenda Nacional, por sua vez, alega que a isenção veiculada por prazo
indeterminado, nos termos da parte inicial do art. 8º, do Decreto-Lei 8.031/45, foi revogada
pelo art. 1º, da Lei 8.032, de 12.04.1990:

"Art. 1º Ficam revogadas as isenções e reduções do Imposto


de Importação e do Imposto sobre Produtos Industrializados, de caráter
geral ou especial , que beneficiam bens de procedência estrangeira ,
ressalvadas as hipóteses previstas nos artigos 2º a 6º desta lei.
Parágrafo único. O disposto neste artigo aplica-se às
importações realizadas por entidades da Administração Pública indireta, de
âmbito federal, estadual ou municipal." (grifei).

A recorrente defende a possibilidade de revogação da isenção em comento, já


que conferida por prazo indeterminado, nos termos do art. 178, do CTN:

"Art. 178 - A isenção, salvo se concedida por prazo certo e em


função de determinadas condições, pode ser revogada ou modificada por
lei, a qualquer tempo, observado o disposto no inciso III do art. 104."
(Redação dada pela Lei Complementar nº 24, de 7.1.1975).

Sustenta que não se pode utilizar como fundamento para a manutenção da


isenção apenas a hipótese de ser "em função de determinadas condições" , visto que a lei é
expressa em cumular esse requisito com o "prazo certo".
Nesse sentido, cito os seguintes precedentes:

"TRIBUTÁRIO. IPI E IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO. ART. 1º


DO DECRETO-LEI N. 2.324/87. ISENÇÃO ONEROSA E COM PRAZO
CERTO E DETERMINADO. IMPOSSIBILIDADE DE REVOGAÇÃO.
1. A regra geral é a da possibilidade de revogação das
isenções concedidas pelo Estado. Porém, quando a isenção é concedida por
prazo certo e em função de determinadas condições, não pode ser
revogada, pois incorpora-se ao patrimônio do contribuinte.
2. Recurso especial improvido." (REsp 266.310/RS, Rel.
Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, SEGUNDA TURMA, julgado em
17.11.2005, DJ 19.12.2005 p. 298).

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"TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. IMPORTAÇÃO.
DECRETO-LEI Nº 2.324/97. ISENÇÃO. PRAZO DETERMINADO.
INCREMENTO DAS EXPORTAÇÕES. CONDIÇÃO. ART. 178 DO CTN.
RESSALVA. CABIMENTO.
- A regra instituidora da isenção em comento, condiciona o
exercício do benefício fiscal ao incremento das exportações, trazendo assim
considerável carga obrigacional.
- O Decreto-Lei nº 2.384/97 conforma-se com a exceção ao
princípio da plena revogabilidade isencional (art. 178, do CTN.), sendo
instituída a isenção, por prazo certo e em função de determinadas
condições.
- Recurso improvido." (REsp 197673/SC, Rel. Ministro
FRANCISCO FALCÃO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 19.02.2002, DJ
01.07.2002 p. 221).

"TRIBUTÁRIO. ICMS. ISENÇÃO NÃO CONDICIONADA.


INCIDÊNCIA IMEDIATA DA LEI QUE A REVOGA. AINDA QUE
CONCEDIDA POR PRAZO CERTO, A ISENÇÃO PODE SER MODIFICADA
OU REVOGADA A QUALQUER TEMPO; SO GERA DIREITO ADQUIRIDO
AQUELA QUE, ALEM DO PRAZO CERTO, SEJA OUTORGADA MEDIANTE
O IMPLEMENTO DE CONDIÇÃO ONEROSA. (CTN, ART. 178). RECURSO
ESPECIAL NÃO CONHECIDO." (REsp 48.735/SP, Rel. Ministro ARI
PARGENDLER, SEGUNDA TURMA, julgado em 05.06.1997, DJ 23.06.1997 p.
29073).

Parece-me plenamente possível a revogação da isenção em apreço,


enquadrando-se na previsão contida na segunda parte do artigo 178, do CTN, porque não
ficou configurado o atendimento dos dois requisitos supramencionados, quais sejam, a
existência de "prazo certo" e "em função de determinadas condições" .
Como visto, as exigências do art. 178, do CTN, são cumulativas. Não haveria
mesmo como reconhecer-se, no sistema jurídico brasileiro, a irrevogabilidade de uma isenção
tributária eternamente, como poderia indicar a interpretação literal da redação original do
citado dispositivo do CTN (antes da alteração pela LC 24/75).
Admitir-se a irrevogabilidade de uma isenção concedida por prazo
indeterminado é aceitar que o legislador de 1945 pudesse suprimir a competência legislativa de
todas as legislaturas futuras com relação à matéria o que, a toda evidência, infringe princípios
básicos da Democracia Representativa e do Estado Republicano.
Reitero que a isenção veiculada pela primeira parte do art. 8º, do Decreto-Lei

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8.031/45, foi por prazo indeterminado.
Lembro, contudo, que uma vez reconhecida a revogação da isenção à
Companhia, operada com a chegada da Lei 8.032/90, cabe à instância de origem a verificação
se o débito tributário está ou não protegido pelo benefício previsto no Decreto-Lei 8.031/45,
ante a vedação contida na Súmula 7/STJ.
Diante do exposto, dou provimento ao Recurso Especial da Fazenda
Nacional, a fim de reconhecer a revogação da isenção do Imposto de Importação e IPI
prevista no Decreto-Lei 8.031/45, com o advento da Lei 8.032/90.
É como voto.

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CERTIDÃO DE JULGAMENTO
SEGUNDA TURMA

Número Registro: 2003/0131839-0 REsp 575806 / PE

Números Origem: 200205000051018 9700087603

PAUTA: 11/09/2007 JULGADO: 11/09/2007

Relator
Exmo. Sr. Ministro HERMAN BENJAMIN

Ministro Impedido
Exmo. Sr. Ministro : CASTRO MEIRA

Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro HUMBERTO MARTINS
Subprocurador-Geral da República
Exmo. Sr. Dr. JOSÉ FLAUBERT MACHADO ARAÚJO
Secretária
Bela. VALÉRIA ALVIM DUSI

AUTUAÇÃO
RECORRENTE : FAZENDA NACIONAL
PROCURADOR : MARCOS ALEXANDRE TAVARES MARQUES MENDES E OUTRO(S)
RECORRIDO : CHESF - COMPANHIA HIDROELÉTRICA DO SÃO FRANCISCO
PROCURADOR : FILIPE ANDRADE L SÁ DE MELO E OUTRO(S)

ASSUNTO: Tributário - IPI - Imposto Sobre Produtos Industrializados - Isenção

SUSTENTAÇÃO ORAL
Dr(a). RICARDO JOSÉ LUCAS PRAGANA FILHO(Protestará por Juntada)
pela parte: RECORRIDO: CHESF - COMPANHIA HIDROELÉTRICA DO SÃO FRANCISCO

CERTIDÃO
Certifico que a egrégia SEGUNDA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na
sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
"A Turma, por unanimidade, deu provimento ao recurso, nos termos do voto do(a)
Sr(a). Ministro(a)-Relator(a)."
Os Srs. Ministros João Otávio de Noronha e Humberto Martins votaram com o Sr.
Ministro Relator.
Impedido o Sr. Ministro Castro Meira.
Ausente, justificadamente, a Sra. Ministra Eliana Calmon.

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Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Humberto Martins.
Brasília, 11 de setembro de 2007

VALÉRIA ALVIM DUSI


Secretária

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