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Felipe de Bragança Alves

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Como fazer marcações em um livro


Por Mortimer J. Adler

Felipe de Bragança Alves Jan 4, 2017 · 8 min read

Já sabes que é preciso “ler nas entrelinhas” para obter o máximo de qualquer livro.
Agora quero persuadir-te a fazer algo igualmente importante no decorrer de tua
leitura. Quero persuadir-te a “escrever nas entrelinhas”. Se não o fizeres,
provavelmente não farás o tipo mais eficiente de leitura.

Afirmo, sem rodeios, que fazer marcações em um livro não é um ato de mutilação, mas
de amor. Não deves fazer marcações em um livro que não é teu.
Bibliotecários (ou amigos) que te emprestam livros esperam que os mantenhas limpos,
e é o que deves fazer. Se te persuadires que estou certo sobre a utilidade de fazer
marcações em livros, terás de comprá-los. A maioria dos grandes clássicos está
disponível hoje em edições reimpressas.

Há duas maneiras de se possuir um livro. A primeira é o direito de propriedade que


adquires pagando pelo livro, assim como quando compras roupas e móveis. Mas este
ato de compra é somente o prelúdio da “possessão”. A posse completa só acontece
quando o livro se torna parte de ti, e a melhor maneira de te tornares parte do livro é
escrevendo nele. Uma ilustração pode clarear isso. Tu compras um bife e o transferes da
geladeira do açougueiro para a tua. Mas ainda não possuis o bife na maneira mais
importante até que o consumas e ele chegue à tua corrente sanguínea. Meu argumento
é que livros também devem ser absorvidos no teu sangue para efetivamente fazer
algum bem.
Confusões no significado de possuir um livro levam as pessoas a uma falsa reverência
ao papel, encadernação e tipografia — um respeito pela coisa física — o trabalho do
editor ao invés do gênio do autor. Esquecem que é possível adquirir a idéia — a beleza
— que um grande livro contém, sem estacar uma reivindicação colando seu ex-libris no
interior da capa. Ter uma boa biblioteca não prova que seu dono tem a mente
enriquecida pelos livros; prova nada mais que, ele, sua mulher, ou seu pai, foi rico
suficiente para comprá-la.

Há três tipos de donos de livros. O primeiro tem todos os conjuntos padrões e best
sellers — não lidos, intocados (este iludido indivíduo possui celulose e tinta, não
livros). O segundo tem um grande número de livros — alguns foram lidos
rapidamente, a maioria profundamente, mas todos limpos e brilhantes como no dia em
que foram comprados. (Esta pessoa provavelmente gostaria de possuir seus livros, mas
está contida por um falso respeito à aparência física dos mesmos.) O terceiro tem
poucos livros ou muitos — todos “com orelha” e arruinados, tortos e soltos pelo uso
contínuo, com marcações e rabiscos do começo ao fim. (Este homem possui os livros.)

É falso respeito, poderias perguntar, preservar intacto e imaculado um livro muito bem
impresso, uma edição encadernada elegantemente? Claro que não. Eu rabiscaria a
primeira edição de “Paraíso Perdido” tanto quanto daria ao meu filhinho uma caixa de
lápis de cor e um Rembrandt original. Eu não faria marcações em uma pintura ou uma
estátua. Sua alma, por assim dizer, é inseparável do seu corpo. E a beleza de uma
edição rara ou de um volume ricamente preparado é como a de uma pintura ou
estátua.

Mas a alma de um livro pode ser separada de seu corpo. O livro é mais parecido com
uma partitura de uma obra musical do que com uma pintura. Nenhum grande músico
confunde uma sinfonia com as folhas impressas da música. Arturo Toscanini reverencia
Brahms, mas sua partitura da Sinfonia em Sol menor é tão rabiscada que ninguém,
exceto o maestro mesmo, consegue lê-la. A razão de um grande condutor fazer
anotações nas suas partituras — as rabisca de novo e de novo todas as vezes que volta a
estudá-las — é a mesma razão do porque deves fazer marcações nos teus livros. Se o
teu respeito por uma encadernação ou tipografia magnífica se colocar no caminho,
compres uma edição barata e homenageie devidamente o autor.

Por que fazer marcações em um livro é indispensável para a leitura? Primeiro: isto te
mantém desperto (E eu não quero dizer meramente consciente; quero dizer desperto).
Em Segundo lugar; leitura, se feita ativamente, é pensar, e pensamentos tendem a ser
expressos em palavras, ditas ou escritas. O livro com anotações é, normalmente, o livro
meditado. Finalmente, escrever te ajuda a lembrar os pensamentos que tiveste, ou os
pensamentos que o autor expressou. Permita-me desenvolver estes três pontos.

Se a leitura é feita buscando algo mais do que somente passar o tempo, ela precisa ser
ativa. Tu não podes deixar teus olhos deslizarem sobre as linhas de um livro e passarem
sem a compreensão do que leste. Agora, uma peça ordinária, de ficção light, como,
digamos, “E o Vento Levou”, não requer um tipo muito ativo de leitura. Os livros lidos
por prazer podem ser lidos num estado de relaxamento sem nada a perder. Mas um
grande livro, rico em idéias e beleza, um livro que levanta e tenta responder grandes
questões fundamentais demanda o tipo mais ativo possível de leitura que fores capaz
de realizar. Não se absorve as idéias de John Dewey da mesma maneira que se absorve
as canções de Mr. Vallee. É preciso esforçar-se para alcançá-las. Isso não podes fazer
enquanto estiveres sonolento.

Se, ao terminares o livro, suas páginas estiverem cheias de anotações, saberás que
fizeste uma leitura ativa. O “leitor ativo” mais famoso que conheço é o Presidente
Hutchins, da Universidade de Chicago. Ele tem também a agenda mais compromissada
com negócios que conheço. Ele sempre lê com um lápis na mão, e, eventualmente,
quando pega um livro e um lápis de noite, se surpreende, em vez de fazendo anotações
inteligentes, desenhando o que ele chama de “fábricas de caviar” nas margens do livro.
Quando isto acontece ele deixa de lado o livro. Ele sabe que está muito cansado para
ler e que está somente perdendo tempo.

Mas, poderias perguntar, por que escrever é necessário? Bem, o ato físico de escrever,
com tuas próprias mãos, torna as palavras e frases mais acentuadas à tua mente e as
preserva melhor na memória. Anotar tuas reações às frases e palavras importantes que
leste, as questões que elas te sugeriram, é preservar e acentuar essas questões.

Mesmo que escrevas num rascunho e, assim que terminares de escrever, jogues fora o
papel, tua compreensão do texto será maior. Mas não é necessário que jogues fora o
papel. As margens (superiores e inferiores, assim como as laterais), as folhas de final de
capítulo, até os espaços entre as linhas, estão todos disponíveis para anotações. Estes
espaços não são sagrados. E o melhor de tudo é que tuas marcações e anotações se
tornam parte integral do livro, ficam lá para sempre. Podes pegar o livro na semana ou
no ano seguinte, e lá estão teus pontos de acordo, desacordo, dúvida, e de investigação.
É como reiniciar uma conversa interrompida, com a vantagem de retomá-la do ponto
no qual a interrompeste.
E é exatamente isto que a leitura de um livro deve ser: uma conversa entre ti e o autor.
Presumivelmente ele sabe mais do assunto do que ti; naturalmente, terás a humildade
devida ao te aproximares dele. Mas não deixes ninguém te dizer que o leitor deve ser
somente um receptor. O entendimento é uma operação de “duas mãos”, aprender não
consiste em ser um receptáculo vazio. O aprendiz deve questionar-se e questionar o
professor. Ele deve até discutir com o professor, uma vez entendido o que ensina. E
fazer marcações em um livro é, literalmente, uma expressão das diferenças ou dos
acordos de opinião com o autor.

Há diversas maneiras de fazer marcações em um livro de maneira inteligente e


frutífera. Eis como eu o faço:

Sublinhando (ou usando marca-texto): pontos principais, de declarações fortes ou


importantes.

Linhas verticais na margem: Para enfatizar uma declaração já sublinhada.

Estrela, asterisco, ou outro símbolo na margem: deve ser usada com


moderação, para enfatizar as dez ou vinte declarações mais importantes no livro.
(Podes fazer uma orelha no canto inferior das páginas nas quais aparecem estas
marcações. Isto não machucará as folhas grossas dos quais a maioria dos livros são
feitos hoje em dia, e, com isto, poderás tirar o livro da prateleira a qualquer
momento e, abrindo na página dobrada, refrescar teu entendimento do livro).

Números na margem: para indicar a sequência de pontos que o autor faz ao


desenvolver um mesmo argumento.

Número de outras páginas na margem: para indicar onde mais o autor diz
pontos relevantes ao ponto em questão; para ligar as idéias no livro que, embora
separadas por muitas páginas, são conectadas.

Circulando ou destacando palavras-chave ou frases.

Escrevendo na margem, ou na parte superior ou inferior da página: para recordar


perguntas (e talvez respostas) que uma passagem tenha levantado em tua mente;
reduzindo uma discussão complicada a uma declaração simples; recordando a
sequência dos pontos principais pelo livro. Eu uso as folhas em branco no final do
livro para fazer um índice pessoal dos pontos do autor na ordem em que
apareceram.
As páginas em branco no começo do livro são as mais importantes para mim. Algumas
pessoas reservam-nas para um ex-libris sofisticado. Eu as reservo para um pensamento
sofisticado. Após terminar o livro e fazer um índice pessoal nas páginas finais, eu
retorno às iniciais e tento delinear o livro, não página por página, ou ponto por ponto
(já o fiz nas páginas finais), mas como uma estrutura integrada, com uma unidade
básica e uma ordem em suas partes. Este delineamento é, para mim, a medida do meu
entendimento da obra.

Se és um radical anti-marcações em livros, podes objetar que as margens, o espaço


entre as linhas, e as páginas finais não te dão espaço suficiente. Tudo bem. Que tal
usares um bloco de rascunho ligeiramente menor que o tamanho da página do livro, de
modo que as bordas do rascunho não apareçam? Faças teu índice, delineamento, e até
tuas anotações no rascunho, e, depois, insere os rascunhos permanentemente no
começo e no final do livro.

Ou, podes dizer, este negócio de fazer marcações em livros irá tornar tua leitura mais
lenta. De fato, provavelmente irá. E esta é uma das razões para fazê-lo. A maioria de
nós se impregnou da idéia de que a velocidade de leitura é uma medida de nossa
inteligência. Não existe tal coisa como a “velocidade correta” para se fazer uma leitura
inteligente. Algumas coisas devem ser lidas rapidamente e sem esforços e outras devem
ler lidas lentamente e até laboriosamente. O sinal de leitura inteligente é a habilidade
de ler diferentes coisas diferentemente de acordo com seu valor. No caso de livros bons, o
objetivo não é ver por quantos consegues passar; mas sim quantos permanecem em ti —
quantos consegues possuir. Ter alguns poucos amigos é melhor que ter milhares de
conhecidos. Se este é teu objetivo, como deveria ser, não te impacientarás se te exigir
mais tempo e esforço ler um grande livro do que te exige ler um jornal.

Podes ainda ter uma objeção final a fazer marcações nos livros: não podes emprestá-los
aos teus amigos porque ninguém pode lê-los sem distrair-se com tuas notas. Além do
mais, não quererás emprestá-los porque um livro com anotações é como um diário
intelectual, e emprestá-los é expor a público tua mente.

Se um amigo deseja ler teu “Vidas Paralelas” de Plutarco, Shakespeare, ou “O


Federalista”, digas-lhe gentil mas firmemente que compre uma cópia. Emprestarias teu
carro ou teu casaco, mas teus livros são tão parte de ti quanto tua cabeça ou teu
coração.
Título original: How to mark a book

Publicado em: The Saturday Review of Literature, July 6, 1941

Versão original em inglês disponível aqui.

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