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Os ÍMPIOS FILHOS DE ELI


1 Samuel 2.11-36

... diz o Senhor, Deus de Israel: Na verdade, dissera eu que a tua casa e a
casa de teu pai andariam diante de mim perpetuamente; porém, agora, diz
o Senhor: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram, honrarei,
porém os que me desprezam serão desmerecidos. (ÍSm 2.30)

ma característica importante de 1 e 2Samuel é o uso de con­


trastes para frisar um ponto. Vimos essa característica no iní­
cio de 1 Samuel e continuaremos a vê-la até o fim de 2Samuel.
Primeiro, houve o contraste entre a Ana humilde e crente e a arrogante
hostilidade de Penina, sua coesposa rival. No fim do capítulo 1, Ana leva
seu filho, Samuel, para servir na casa de Deus, iniciando um contraste entre
Samuel e os filhos ímpios de Eli. Esse capítulo, então, “alterna engenho­
samente entre as práticas pecaminosas dos filhos ímpios de Eli e a pureza
inocente e a justiça de Samuel e sua família”.1
A razão para esses contrastes é a graça de Deus em ação num mundo
mau. Já em 1740, um pastor norte-americano chamado Samuel Blair re­
clamou que “a religião está, por assim dizer, agonizando e prestes a dar
seu último suspiro de vida nesta parte da igreja visível”. De fato, no en­
tanto, Deus estava na iminência de lançar um dos grandes avivamentos da
História, o Grande Despertamento, que data daquele mesmo ano.2 Deus

1 Bill T. Arnold, 1 & 2 Samuel, NIV application commentary (Grand Rapids: Zondervan, 2003), 70.
2 Citado em Dale Ralph Davis, 1 Samuel: Looking on the heart (Feam, Ross-shire, UK: Christian Focus,
2000), 23.
58 Estudos bíblicos expositivos em 1 Samuel
estava silenciosamente trabalhando nos bastidores, preparando o que logo
seria anunciado nas primeiras páginas da História. Uma situação semelhante
é vista nos primeiros capítulos de 1 Samuel. O contraste entre Samuel e
os filhos de Eli faz mais do que nos advertir contra o caminho do ímpio.
Ele também nos lembra que Deus está em ação nos bastidores, de modo
que mesmo em meio à impiedade e à incredulidade sempre há esperança
para a graça.

Os pecados dos filhos de Eli


A esperança de graça para Israel é representada pelo pequeno Samuel,
a quem seus pais deixaram no tabernáculo para servir ao Senhor: “Então,
Elcana foi-se a Ramá, a sua casa; porém, o menino ficou servindo ao Senhor,
perante o sacerdote Eli” (1 Sm 2.11). Entretanto, a desesperada necessidade de
graça que Israel tinha é demonstrada na vida dos filhos de Eli, cuja conduta
ímpia corrompia o sacerdócio.
A apresentação dos filhos de Eli deixa pouco à imaginação: “Eram, po­
rém, os filhos de Eli filhos de Belial e não se importavam com o Senhor”
(ISm 2.12). Essa é a apresentação mais condenatória que alguém pode re­
ceber, especialmente um ministro. Dizer que eles eram “filhos de Belial”
(homens indignos) é dizer que eram agentes de destruição. E depois, dizer
que eles “não se importavam com o Senhor” é dizer que, apesar de todo o
acesso que tinham à religião divina e de todo o seu conhecimento de teolo­
gia e de rituais de adoração, esses homens não eram convertidos, mas sim
espiritualmente ignorantes da graça salvadora de Deus e não se importavam
com as exigências de sua santidade. O fato de que esses homens eram seus
líderes espirituais era um grande problema para Israel. Não admira que a
vida espiritual de Israel tenha sido representada pelo ventre estéril de Ana.
A impiedade dos filhos de Eli é vista no tratamento desdenhoso que dão
às ofertas levadas ao Senhor no tabernáculo. A lei de Moisés dizia que os
sacerdotes que serviam na casa de Deus receberiam seu alimento dos sacri­
fícios que eram oferecidos. Porém, embora a lei especificasse certas porções
aos sacerdotes, dependendo do animal (cf. Lv 7.34; Dt 18.3), os filhos de
Eli tinham seu próprio modo de tomar a carne, enviando o servo deles para
apoderar-se aleatoriamente da carne das panelas das famílias, com um espeto.

O costume daqueles sacerdotes com o povo era que, oferecendo alguém


sacrifício, vinha o moço do sacerdote, estando-se cozendo a carne, com um
garfo de três dentes na mão; e metia-o na caldeira, ou na panela, ou no tacho,
ou na marmita, e tudo quanto o garfo tirava o sacerdote tomava para si; assim
se fazia a todo o Israel que ia ali,-a Siló (ISm 2.13-14).
Os ÍMPIOS FILHOS DE ELI 59
Incentivados pelo seu sucesso em pegar carne suculenta, os jovens sa­
cerdotes foram além e exigiram até mesmo as porções gordas, que eram
reservadas para o Senhor:

Também, antes de se queimar a gordura, vinha o moço do sacerdote e dizia


ao homem que sacrificava: Dá essa carne para assar ao sacerdote; porque
não aceitará de ti carne cozida, senão crua. Se o ofertante lhe respondia:
Queime-se primeiro a gordura, e, depois, tomarás quanto quiseres, então,
ele lhe dizia: Não, porém hás de ma dar agora; se não, tomá-la-ei à força
(ISm 2.15-16).

Os israelitas piedosos que iam sacrificar diante do Senhor não apenas


testemunhavam a atitude sacrílega dos sacerdotes com relação às ofertas,
mas também eram roubados daquilo que o Senhor havia destinado a eles e
suas famílias. O versículo 17 faz uma acusação desmoralizante: “Era, pois,
mui grande o pecado destes moços perante o Senhor, porquanto eles des­
prezavam a oferta do Senhor”.
O pior de tudo era o desprezo que esses jovens ministros demonstravam
pela santidade de Deus. A profanação por parte deles chegou ao ponto em
que “se deitavam com as mulheres que serviam à porta da tenda da con­
gregação” (ISm 2.22). Essa tenda - o tabernáculo - era o lugar em que os
israelitas entravam na santa presença de Deus. Era muito grande o sacrilégio
dos pecados sexuais dos sacerdotes nesse lugar sagrado. Aquelas mulheres
israelitas, que provavelmente trabalhavam na limpeza ou no suprimento de
outras necessidades do tabernáculo, deveriam ser tratadas com a máxima
decência, mas em vez disso eram tratadas como as prostitutas cultuais dos
templos pagãos.
Essa conduta dos filhos do sumo sacerdote só podia ter o pior efeito
possível no caráter espiritual e moral da nação, do mesmo modo que os pe­
cados de ganância e infidelidade sexual entre os ministros de hoje. Afinal de
contas, se os líderes da religião pensam tão pouco do Senhor, por que alguém
deveria adorá-lo? Além disso, considerando a tendência da nossa natureza
pecaminosa de cometer esses tipos de pecado, o exemplo dos sacerdotes
inevitavelmente daria um incentivo a uma ampla tolerância de profanações
semelhantes. William Blaikie assim resume: “Homens de vida corrupta,
que não têm vergonha de sua devassidão, à frente da religião têm um efeito
aviltante sobre a vida moral de toda a comunidade”.3

3 William G. Blaikie, Expository lectures on the Book ofFirst Samuel (1887; reimpr., Birmingham, AL:
Solid Ground, 2005), 41.
60 Estudos bíblicos expositivos em 1 Samuel
Os erros grosseiros dos filhos de Eli lembram àqueles que exercem auto­
ridade na igreja que seu santo chamado acarreta uma obrigação santa, pela
qual eles serão responsabilizados. É muito fácil, e com muita frequência é
visto hoje, os pregadores usarem seu ministério primariamente para proveito
pessoal - usando abordagens mundanas que trazem grandes multidões e
ofertas de valor considerável - em vez de buscar a glória de Deus e o bem-
-estar espiritual do seu povo. E é muito frequente que ministros que buscam
proveito pessoal acabem se desgraçando em pecados sexuais.
Em contraste, somos informados da espiritualidade crescente do pequeno
Samuel. Depois que seus pais o deixaram em Siló, “o menino ficou servindo
ao Senhor, perante o sacerdote Eli” (ISm 2.11). E enquanto os filhos de Eli
estavam ocupados explorando suas posições sagradas, “Samuel ministrava
perante o Senhor, sendo ainda menino, vestido de uma estola sacerdotal de
linho” (2.18). Essa “estola sacerdotal de linho” era, provavelmente, um aven­
tal branco que indicava que Samuel era um sacerdote em treinamento. Vestido
desse modo, Samuel não apenas desempenhava seu papel, mas também era
visto como fazendo isso. Seu exemplo fiel incentivava a fé e a piedade sin­
ceras em outras pessoas. Ele nos lembra que, individualmente, os cristãos
podem servir fielmente ao Senhor e com vida santa, independentemente
do contexto espiritual geral. Administradores cristãos que trabalham num
ambiente profissional hostil devem tratar seus colaboradores com respeito.
Onde outros alcançam sucesso por meio de manipulação desonesta, os cris­
tãos podem servir a Deus por meio de um ministério honesto. Nas igrejas em
que a maior parte dos membros não ora e não tem interesse em missões, os
crentes podem diariamente pedir a Deus para ajudar a resplandecer sua luz
nas trevas do mundo. São muito importantes esses crentes que se levantam
acima das circunstâncias, e com muita frequência Deus os usa para trazer
avivamento à sua igreja aparentemente sem vida.

A repreensão ineficaz de Eli


Samuel é contrastado não apenas com os filhos ímpios de Eli, mas também
com o próprio sumo sacerdote. O versículo 21 nos diz que “o jovem Samuel
crescia diante do Senhor” e imediatamente acrescenta: “Era, porém, Eli já
muito velho” (ISm 2.22). Eli é visto como um homem bem-intencionado
e pessoalmente piedoso, mas um líder espiritual ineficaz e um fracasso em
governar seus filhos.
Naturalmente, Eli sabia dos excessos dos seus filhos, por isso “disse-lhes:
Por que fazeis tais coisas? Pois de todo este povo ouço constantemente falar do
vosso mau procedimento. Não, filhos meus, porque não é boa fama esta que
ouço; estais fazendo transgredir o povo do Senhor” (2.23-24). O erro de Eli
OS ÍMPIOS FILHOS DE ELI 61
é visto no fato de que, embora ouvisse sobre os pecados de seus filhos e lhes
falasse sobre seu comportamento, nada fazia para refrear as más ações deles.
Podemos facilmente imaginar que esse padrão caracterizou a ação pa­
terna de Eli durante toda a criação dos seus filhos. Seu primeiro erro foi
não ter supervisionado o serviço sacerdotal deles. O resultado foi que, em
vez de intervir e corrigir seus filhos imediatamente, Eli meramente ia até
eles mais tarde para discutir o que havia ouvido. Seu segundo e maior erro
foi que sua repreensão não levava a uma punição imediata. De acordo com
a Bíblia, deixar de disciplinar nossos filhos é o caminho mais seguro para
arruinar a alma deles (cf. Pv 13.24). Mais à frente será falado sobre Davi que
nunca “contrariou” seus filhos pedindo-lhes contas (lRs 1.6). Deslealdade,
assassinato, estupro e traição cometidos pelos seus filhos dão testemunho
dos erros de Davi como pai.
Ao lidar com seus filhos adultos, Eli tinha no mínimo a obrigação de tirá-
-los de seu ofício e empossar outros sacerdotes qualificados e piedosos. Nos
dias originais do sacerdócio israelita, até mesmo os filhos de Arão, Nadabe
e Abiú, haviam sido mortos por Deus por terem levado “fogo estranho” ao
tabernáculo (Nm 3.4). Muito mais abomináveis eram os pecados de Hofni e
Fineias. Mas embora Eli repreendesse seus filhos, ele não agia. Blaikie escreve
que Eli “não conseguia ser severo com seus filhos. Ele não conseguia suportar
que fossem desgraçados e degradados. Ele se satisfazia com uma admoestação
suave, não obstante a cada dia uma nova desgraça acontecesse no santuário e
novos incentivos fossem dados a outros para a prática da impiedade”.4
De sua parte, os filhos de Eli teriam demonstrado sabedoria se recebessem
a repreensão de seu pai, “entretanto, não ouviram a voz de seu pai” (ISm
2.25). Poucas coisas são mais vitais para os filhos do que a humildade em
receber a correção paterna. Quando o quinto mandamento diz “honra teu
pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra” (Êx 20.12), ele
ensina que receber correção dos pais e ter sucesso na vida andam de mãos
dadas. Isso é verdadeiro também para os adultos, que não estão mais sob a
autoridade dos seus pais, mas ainda devem ser humildes em aceitar conselhos
piedosos. A Bíblia diz: “Quem ama a disciplina ama o conhecimento, mas
o que aborrece a repreensão é estúpido” (Pv 12.1).
O versículo 25 nos diz que Hofni e Fineias não aceitaram a repreensão do
seu pai porque “o Senhor os queria matar”. Essa afirmação não elimina a res­
ponsabilidade dos filhos de Eli. Seu objetivo, em vez disso, é mostrar que Deus
estava tão ofendido com os pecados dos rapazes que resolveu puni-los com
a morte, e, para isso, endureceu o coração deles para a repreensão de seu pai.

*Ibid., 43.
62 Estudos bíblicos expositivos em ISamuel
A apostasia desses dois filhos maus caminhava de mãos dadas com a
intenção do Senhor de entregá-los à destruição. Eli chegou ao cerne da
questão na sua advertência: “Pecando o homem contra o próximo, Deus lhe
será o árbitro; pecando, porém, contra o Senhor, quem intercederá por ele?”
(ISm 2.25). O que ele quis dizer era que pecados contra outras pessoas podem
ser perdoados pelo sangue expiatório dos sacrifícios do Senhor. Porém, o que
pode ser feito pelos pecados que mostram desprezo pelos próprios sacrifícios?
Seus pecados contra o modo de salvação de Deus - muito semelhantes ao
das pessoas que desprezam o evangelho hoje - deixaram os filhos de Eli sem
meios de perdão. Tão grandes eram seus pecados contra os meios de graça de
Deus que o Senhor os entregou à condição letal de um coração endurecido.
Dale Ralph Davis aplica isso como uma advertência para todos nós: “Uma
pessoa pode permanecer tão firme na sua rebelião que Deus a confirmará
nela, de modo que permanecerá totalmente surda e insensível a quaisquer
advertências de juízo ou rogos para que se arrependa”.5
Nos bastidores, e em contraste com a família corrupta de Eli, está a
família de Samuel. Se Deus age poderosamente em indivíduos fiéis, muito
mais poderosamente é sua presença nos bastidores de famílias piedosas.
Em Elcana e Ana, vemos o valor do envolvimento amoroso e piedoso com
os filhos. Lemos que “sua mãe lhe fazia uma túnica pequena e, de ano em
ano, lha trazia quando, com seu marido, subia a oferecer o sacrifício anual”
(ISm 2.19). Gordon Keddie escreve: “A família deve ser uma área em que
a piedade pessoal seja promovida e a glória de Deus seja manifestada em
relacionamentos pessoais arraigados no compromisso com o Senhor”.6
Ana e seu marido eram pecadores imperfeitos como todos nós, mas o
sincero compromisso deles com Deus teve impacto sobre seu filho. Podemos
imaginar as orações que Ana entrelaçou em cada fio da túnica que fazia
anualmente para seu filho, juntamente com as exortações e encorajamentos
que vinham quando as entregava. F. B. Meyer aplica esta lição à nossa atua­
ção como pais e mães: “As mães ainda fazem roupas para seus filhos - não
meramente no tear ou com suas agulhas, mas com seu caráter santo e eno-
brecedor demonstrado, dia a dia, diante dos olhos observadores dos filhos,
com suas palavras e conversas, e com os hábitos de sua devoção diária”.7
A produtividade espiritual de Ana era refletida no aumento do tamanho
da sua família. A cada ano Eli a abençoava e pouco depois “ela concebeu e

5 Davis, 1 Samuel, 27.


6 Gordon J. Keddie, Dawn ofa kingdom: The message of 1 Samuel (Darlington, UK: Evangelical Press,
1988), 42.
7F. B. Meyer, Great men of the Bible, 2 v. (Grand Rapids: Zondervan, 1981), 1:275.
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teve três filhos e duas filhas” (ISm 2.21). Ana deu ao Senhor e recebeu em
abundância da parte dele. O versículo 26 descreve a maturidade espiritual de
Samuel em palavras que indicam a mais elevada aprovação, especialmente
considerando que o Evangelho de Lucas as reflete para descrever a maturi­
dade do menino Jesus: “Crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante
de Deus e dos homens” (cf. Lc 2.52).
Eli deve ter passado muitas noites acordado perguntando-se como as
coisas haviam dado tão errado com seus filhos. Podemos imaginar que seus
pensamentos sobre o que teria feito de maneira diferente se tivesse a oportu­
nidade de criar seus filhos de novo dariam uma leitura interessante. Quando
nossos filhos tiverem crescido, o que desejaremos ter feito de maneira dife­
rente? Desejaremos ter sido mais diligentes em ensinar e discutir a palavra
de Deus? Sentiremos arrependimento por não ter sido mais determinados e
coerentes em corrigir o pecado? Perguntaremos por que não nos esforçamos
para ser um exemplo melhor para a fé e piedade deles? Questionaremos as
prioridades que demonstramos pelo nosso estilo de vida ou desejaremos que
tivéssemos aproveitado o tempo para nos envolver mais na vida dos nossos
filhos? O problema é que quando nossos filhos tiverem crescido será tarde
demais para colocarmos em prática qualquer uma dessas resoluções. Para
Eli, tudo o que restava era a queda da sua casa, enquanto Deus agia nos bas­
tidores para fazer nova provisão para a liderança do seu povo. Os pais que,
hoje, sentirem que têm errado na criação dos seus filhos devem aproveitar o
tempo restante orando pela graça interventora de Deus e buscando todos os
meios piedosos para fazer o bem aos seus filhos.

A rejeição da casa de Eli por Deus


A notícia do juízo de Deus, juntamente com uma repreensão pungente,
não demorou a chegar.

Veio um homem de Deus a Eli e lhe disse: Assim diz o Senhor: Não me
manifestei, na verdade, à casa de teu pai, estando os israelitas ainda no Egito,
na casa de Faraó? Eu o escolhi dentre todas as tribos de Israel para ser o meu
sacerdote, para subir ao meu altar, para queimar o incenso e para trazer a es-
tola sacerdotal perante mim; e dei à casa de teu pai todas as ofertas queimadas
dos filhos de Israel. Por que pisais aos pés os meus sacrifícios e as minhas
ofertas de manjares, que ordenei se me fizessem na minha morada? E, tu, por
que honras a teus filhos mais do que a mim, para tu e eles vos engordardes
das melhores de todas as ofertas do meu povo de Israel? (ISm 2.27-29)

Essa repreensão estava baseada numa lição da História. Durante o tempo


do êxodo, Arão e seus filhos foram ordenados como um sacerdócio perpétuo
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(Êx 29.9), que consistia de três tarefas: “subir ao meu altar”, isto é, levar os
sacrifícios das pessoas perante o Senhor para o perdão dos pecados delas;
“queimar incenso”, que fala do ministério de oração intercessória do sacer­
dote; e “trazer a estola sacerdotal perante mim”, referindo-se à vestimenta
na qual estavam as 12 pedras que representavam Israel perante o Senhor.
Esses eram os próprios ministérios tão profanados pelos filhos de Eli. No
entanto, aqui Deus reclama com Eli: “Por que honras a teus filhos mais do
que a mim, para tu e eles vos engordardes das melhores de todas as ofertas
do meu povo de Israel?” (ISm 2.29).
Ao permitir que seus filhos transgredissem o sacerdócio, Eli havia consi­
derado a honra deles acima da do Senhor. Isso acontece hoje quando homens
se revelam moral ou espiritualmente inadequados para o ministério, mas são
mantidos no ofício pastoral. Seja por motivos sentimentais, por vantagens
políticas ou por uma noção equivocada de demonstrar “graça” a líderes caí­
dos, os herdeiros contemporâneos de Hofni e Fineias só podem ser admitidos
quando há pouca consideração pela reputação do Senhor ou pelo bem do
seu povo. Eli não era responsável por tudo o que seus filhos faziam, mas
era responsável por eles cometerem pecados enquanto continuavam sendo
sacerdotes. Portanto, sua casa foi rejeitada pelo Senhor porque ele tratou os
privilégios de sua ascendência araônica tão levianamente:

Portanto, diz o Senhor, Deus de Israel: Na verdade, dissera eu que a tua casa
e a casa de teu pai andariam diante de mim perpetuamente; porém, agora,
diz o Senhor: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram, honrarei;
porém os que me desprezam serão desmerecidos. Eis que vêm dias em que
cortarei o teu braço e o braço da casa de teu pai, para que não haja mais velho
nenhum em tua casa. E verás o aperto da morada de Deus, a um tempo com o
bem que fará a Israel; e jamais haverá velho em tua casa. O homem, porém,
da tua linhagem a quem eu não afastar do meu altar será para te consumir
os olhos e para te entristecer a alma; e todos os descendentes da tua casa
morrerão na flor da idade (1 Sm 2.30-33).

Deus havia prometido à casa de Arão o privilégio de servir como sacer­


dotes, mas havia uma clara obrigação envolvida: “Aos que me honram, hon­
rarei, porém os que me desprezam serão desmerecidos” (ISm 2.30). Como
Eli desprezou o Senhor, sua casa seria eliminada do sacerdócio. Somente
um seria deixado, “para te consumir os olhos e para te entristecer a alma”,
enquanto todos os outros descendentes de Eli “morrerão na flor da idade”
(ISm 2.33). Essa promessa foi cumprida nos dias de Davi, quando Doegue,
o edomita, matou todos os descendentes de Eli no tabernáculo, com a única
exceção de Abiatar (ISm 22.6-23). Abiatar serviu a Davi como sacerdote
OS ÍMPIOS FILHOS DE ELI 65
até que apoiou a usurpação de Adonias contra o herdeiro de Davi, Salomão.
Quando Salomão expulsou Abiatar do sacerdócio, a Escritura observa que
isso cumpriu “a palavra que o Senhor dissera sobre a casa de Eli, em Siló”
(lRs 2.27). Abiatar foi substituído por Zadoque, que era de uma família
mais preeminente da linhagem de Arão, desse modo restaurando a promessa
de que essa família seria mantida no sacerdócio (cf. Nm 25.6-13). Assim,
o descendente de Eli foi colocado numa ocupação secundária durante as
glórias do reinado de Salomão, olhando com inveja para os que ocupavam
o sacerdócio e sobrevivendo da generosidade do homem que o suplantou,
como 1 Samuel 2.36 predisse. Zadoque seria o sacerdote fiel mencionado no
versículo 35, “que procederá segundo o que tenho no coração e na mente”.
Tudo isso aconteceria nas gerações vindouras, mas Eli vê prova disso,
pois Deus disse: “Ser-te-á por sinal o que sobrevirá a teus dois filhos, a Hofni
e Fineias: ambos morrerão no mesmo dia” (1 Sm 2.34). Não demoraria para
que os filhos ímpios de Eli fossem mortos no mesmo dia, confirmando para
Eli o juízo ainda por vir.
O princípio por trás da rejeição da casa de Eli deve ser observado: “Aos
que me honram, honrarei, porém os que me desprezam serão desmerecidos”
(ISm 2.30). Esse é um princípio fixo do reino de Deus. Enquanto o mundo,
de modo geral, honra aqueles que servem à sua causa, o Senhor promete
honrar aqueles que estimam a sua glória. A História mostra isso. Aqueles
que desprezam o Senhor podem alcançar grande poder e fama. Porém, virá
o dia da retribuição de Deus, e, para cada déspota, cada político corrupto e
cada executivo fraudulento haverá um dia de acerto de contas, quando seu
nome for humilhado. Entretanto, como Blaikie comenta:

Os homens que honraram a Deus, os homens que não se importaram com seus
próprios interesses, mas dedicaram-se resolutamente a obedecer a vontade
de Deus e a fazer a obra de Deus; [...] e trabalharam na vida particular e no
serviço público para executar as grandes normas do seu reino - justiça, mise­
ricórdia, amor a Deus e ao homem - esses são os homens que Deus honrou;
esses são os homens cuja obra permanece; esses são os homens cujos nomes
brilham com honra imorredoura e de cujo exemplo e de cujas realizações os
jovens corações, em toda a era vindoura, tirarão inspiração e encorajamento.8

Um famoso exemplo de pessoa que honrou a Deus e foi honrada por ele
é o de Eric Liddell, um atleta olímpico escocês que ganhou uma medalha
de ouro na Olimpíada de 1924, em Paris. Liddell nasceu e foi criado na
China como filho de missionários cristãos. Voltando para a Escócia na sua

8 Blaikie, First Samuel, 47-48.


66 Estudos bíblicos expositivos em 1 Samuel
adolescência, emergiu como um dos maiores corredores que a Escócia já
produziu, numa época em que o orgulho nacional britânico cobiçava muito
a glória olímpica. Liddell era o favorito para vencer a prova dos 100 metros
rasos. Porém, surgiu um problema quando ele soube que a corrida ocorreria
num domingo. Liddell estava convencido, pela Escritura, de que não devia
competir no dia do Senhor, por isso recusou-se a participar. Denunciado pe­
los jornais como traidor e pressionado pessoalmente pelo Príncipe de Gales
a rever seus princípios, Liddell permaneceu firme, determinado a honrar o
Senhor acima do seu bem-estar pessoal e mesmo acima do seu país.
Foi feito um acordo segundo o qual Liddell não participaria da corrida
de 100 metros e, em vez disso, participaria da corrida dos 400 metros, uma
das poucas corridas que não tinha provas no domingo. Liddell não havia
treinado para isso, mas correria como sua única oportunidade de ganhar nas
Olimpíadas. Quando se preparava naquela manhã, um membro da equipe de
treinamento britânica se aproximou e lhe entregou um bilhete. Eric abriu o
pedaço de papel enquanto caminhava para a corrida. Nele estavam escritas
as palavras de 1 Samuel 2.30: “Aos que me honram, honrarei”. Com o pe­
daço de papel embolado em sua mão, Liddell correu, não apenas ganhando
a medalha de ouro, mas estabelecendo o novo recorde mundial.
A Grã-Bretanha foi extravagante em adulações a Liddell, mas, em vez
de aproveitar sua fama, ele cumpriu o compromisso de voltar à China como
missionário. Quando saiu da Escócia, a multidão que foi vê-lo era tão grande
que mais de 1.000 pessoas foram impedidas de participar. Vinte anos depois,
Liddell ainda estava honrando o Senhor na China quando morreu num campo
de concentração japonês, pouco antes do fim da Segunda Guerra Mundial. No
fim do filme feito em honra a Liddell, Carruagens de fogo, há estas palavras:
“Eric Liddell, missionário, morreu na China ocupada, no fim da Segunda
Guerra Mundial. Toda a Escócia o pranteou”. Liddell havia honrado a Deus
nos bastidores, e Deus honrou seu nome diante dos anjos e dos homens.9

Um sacerdote para servir


Assim como Eric Liddell se distinguiu na sua geração, o jovem Samuel
fez um nítido contraste com a condenada casa de Eli. Enquanto Deus es­
tava preparando para derrubar, ele também estava preparando para edificar,
providenciando um líder piedoso para seu povo. A última palavra de Deus
sobre essa situação, então, é uma palavra de esperança: “Suscitarei para
mim um sacerdote fiel, que procederá segundo o que tenho no coração e na

9 Para uma boa biografia que detalha não apenas o heroísmo olímpico de Liddell, mas toda a sua vida de
fé, veja David McCasland, Erie Liddell: Pure gold (Grand Rapids: Discovery House, 2004).
Os ÍMPIOS FILHOS DE ELI 67
mente; edificar-lhe-ei uma casa estável, e andará ele diante do meu ungido
para sempre” (ISm 2.35).
Podemos ver o início desse propósito tomando forma na vida do jovem
Samuel. Ele, de fato, serviria fielmente ao Senhor como sacerdote e como
profeta e juiz de Israel, fazendo a vontade de Deus. Essas palavras também se
referem ao fiel Zadoque e à linha sacerdotal de sua casa, que serviria nos dias
do rei Salomão. Mas essa resolução divina só podia ser cumprida na vinda
de Jesus, o verdadeiro Sumo Sacerdote de Deus. Sempre que considerarmos
os papéis dados aos sacerdotes de Israel, perceberemos que Jesus é aquele
que verdadeiramente realiza e cumpre esse ofício sagrado.
Um sacerdote era ordenado, primeiro, disse Deus, “para subir ao meu
altar” (1 Sm 2.28), apresentando os sacrifícios para expiar os pecados do povo.
Somente Jesus faz o verdadeiro sacrifício pelo nosso pecado, tendo sido feito
“misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para
fazer propiciação pelos pecados do povo” (Hb 2.17). Jesus é o Sacerdote
que oferece o sangue expiatório eficaz - o sangue de sua cruz - para cobrir
nossos pecados para sempre na presença de Deus.
Os sacerdotes também eram chamados para “queimar o incenso” (ISm
2.28), representando o ministério intercessório de oração diante do Pai ce­
lestial. Embora fosse o Filho de Deus, Jesus se tomou homem para “com-
padecer-se das nossas fraquezas” (Hb 4.15) e orar a Deus Pai em nosso
favor. Deus prometeu que seu Sacerdote serviria na sua casa, entrando e
saindo “para sempre”. De fato, o templo celestial seria a verdadeira casa do
Sacerdote - a casa, diz Deus, do “meu ungido” (ISm 2.35). Jesus, assim,
ministra para sempre como Sacerdote na casa em que ele mesmo é Salvador
e Rei. Hebreus 7.25 diz que ele “pode salvar totalmente os que por ele se
chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles”.
Assim como o sumo sacerdote devia usar a estola sacerdotal, levando as
pedras das 12 tribos à presença de Deus, do mesmo modo Jesus é o verda­
deiro e eterno Sacerdote que leva todos os seus redimidos no seu coração e
assegura o lugar deles em glória, tendo gravado seus nomes nas palmas de
suas mãos (Is 49.16).

Onde Deus é honrado


Que lição podemos aprender ao ver o pequeno Samuel na fracassada casa
sacerdotal de Eli? A obediência de Samuel lembra-nos que devemos olhar
para os bastidores, onde Deus está trabalhando com graça. Independentemente
das aparências externas, a verdadeira ação está sempre acontecendo onde
Deus é honrado, onde sua palavra é reverenciada e onde o compromisso
humilde com o Senhor é vivido sinceramente. A mensagem do pequeno e
68 Estudos bíblicos expositivos em 1 Samuel
piedoso Samuel e dos ímpios filhos de Eli é que nada é mais importante do
que a piedade pessoal, em famílias piedosas e graciosas, com um compro­
misso simples com a palavra de Deus e com a oração. Se quisermos fazer
verdadeira diferença com nossa vida, não buscaremos as áreas de influência
mundana, especialmente quando elas exigirem que façamos concessões com
princípios bíblicos. E melhor o povo de Deus servir humildemente ao Senhor,
geralmente nos bastidores, lembrando-se de sua promessa: “Aos que me
honram, honrarei” (ISm 2.30).

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