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UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS - UNISINOS

UNIDADE ACADÊMICA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO
NÍVEL MESTRADO

DYLVAN CASTRO DE ARAÚJO

A GARANTIA CONSTITUCIONAL DO CIDADÃO À RAZOÁVEL


DURAÇÃO DO PROCESSO PENAL E A NECESSIDADE DE CRIAÇÃO DE UM
REFERENCIAL NORMATIVO DE DURAÇÃO MÁXIMA DO PROCESSO PENAL

São Leopoldo
2014
DYLVAN CASTRO DE ARAÚJO

A GARANTIA CONSTITUCIONAL DO CIDADÃO À RAZOÁVEL


DURAÇÃO DO PROCESSO PENAL E A NECESSIDADE DE CRIAÇÃO DE UM
REFERENCIAL NORMATIVO DE DURAÇÃO MÁXIMA DO PROCESSO PENAL

Dissertação apresentada como requisito parcial


para obtenção do título de Mestre em Direito,
pelo Programa de Pós-Graduação em Direito
da turma especial de Mestrado
Interinstitucional – MINTER
UNISSINOS/FACID.
Área de concentração: Hermenêutica,
Constituição e Concretização de Direitos

Orientador: Prof. Dr. André Luís Callegari

São Leopoldo
2014
Ficha Catalográfica
DYLVAN CASTRO DE ARAÚJO

A GARANTIA CONSTITUCIONAL DO CIDADÃO À RAZOÁVEL


DURAÇÃO DO PROCESSO PENAL E A NECESSIDADE DE CRIAÇÃO DE UM
REFERENCIAL NORMATIVO DE DURAÇÃO MÁXIMA DO PROCESSO PENAL

Dissertação apresentada como requisito parcial


para a obtenção do título de Mestre, pelo
Programa de Pós-Graduação em Direito da
Universidade do Vale do Rio dos Sinos -
UNISINOS

BANCA EXAMINADORA

Presidente Prof. Dr. André Luís Callegari – UNISSINOS

Membro: Prof. Dr. Leonel Severo Rocha – UNISSINOS

Membro: Prof. Dr. Nereu José Giacomolli – PUC/RS.


Às minhas amadas filhas, Maria Clara e Amanda,
por me fazerem acreditar no verdadeiro sentido do Amor, fontes de toda inspiração em
minha vida.

Aos meus Pais, Raimundo Ribeiro e Maria Celeste Mazza,


pelos ensinamentos de amor e de vida, essências para o meu viver.

À minha Mainha, pela doçura e amor depositados em minha formação.

Ao meu querido irmão Geovan Castro, pelo companheirismo e amizade que nos
tornaram mais que meros irmãos.

A você Adriana, a mulher que mais amei nesta vida.

.
AGRADECIMENTOS

Nesta Caminhada árdua e repleta de pedras ao longo do caminho, consideradas na


maioria das vezes, quase que intransponíveis, chegar ao final dessa dissertação, por muitas
vezes, me pareceu uma realidade distante. Contudo, existem pessoas inesquecíveis que me
estenderam as mãos, nos momentos mais difíceis e me mostraram um sentido a mais em
minha vida, fazendo perceber que o caminho a ser seguido, tornou-se mais curto e menos
cansativo.

Os meus sinceros agradecimentos, primeiramente a Deus, fonte de toda a vida e do


eterno Amor, que atuou em minha vida nos momentos mais adversos e das formas mais
improváveis. Obrigado, meu Deus, por fazer-me entender que sem Ti nada sou.

Obrigado meu Deus, por ter concebido na estrada de minha vida os meus pais, pois me
ensinaram lições que universidade nenhuma conseguiria me fazer aprender. Obrigado, Pai e
Mãe, por estarem sempre ao meu lado, independente da situação e por me mostrarem que
meus sonhos foram suficientes para vencer os meus medos e minhas angústias.

Ao meu orientador, Prof. Dr. André Luis Callegari, que se tornou, além de
orientador competente, atuante e preciso em apontar o caminho a ser seguido nesta difícil
tarefa, um grande e verdadeiro Amigo, no qual pude recorrer nos momentos mais árduos na
construção deste sonho. Professor, o Senhor representa um exemplo a ser seguido, seja como
pessoa, como profissional, como Mestre. O meu eterno agradecimento.

Ao curso de Pós-graduação da Unisinos, nas pessoas de seu coordenador geral, Prof.


Dr. Leonel Severo Rocha, que tive a inenarrável satisfação em tê-lo como professor, que por
meio de sua sabedoria, simplicidade e nobreza de caráter me fez ainda mais admirá-lo e ao
Prof. Dr. Wilson Engelmann, coordenador do Minter Unisinos/Facid, que, por sua imensa
generosidade, grandeza de espírito, carisma e simpatia, será inesquecível em minha vida.

Aos membros do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, nas pessoas da Exma. Desa.
Eulália Maria Ribeiro Gonçalves Nascimento Pinheiro, Presidenta da Egrégia Corte no
biênio 2012/2014, quando da concessão de minha bolsa de estudos, o meu mais sincero
agradecimento, por este imenso incentivo, acreditando na minha formação e qualificação,
atitude de profunda nobreza, que me possibilitou realizar este sonho. Ao atual presidente Des.
Raimundo Eufrásio Alves Filho, por permitir a continuidade e concretização deste projeto
acadêmico. Ao Prof. Des. Edvaldo Pereira de Moura, pelas diversas manifestações de apoio
e apreço.

De forma especial, quero agradecer profundamente a dois grandes professores que


foram e continuarão sendo em minha vida, ao Prof. Des. Francisco Antônio Paes Landim
Filho, pelo incentivo, apoio e por compartilhar seu profundo conhecimento, contribuindo
significativamente, para o meu aprendizado. E, ao estimado Prof. Des. Ricardo Gentil
Eulálio Dantas que, com seu exemplo de caráter, retidão e de defensor incansável da Justiça,
me fez nutrir, desde os tempos de faculdade, uma profunda admiração e respeito por sua
pessoa, me fazendo acreditar não em um mero sonho de justiça, e sim numa concretização
deste sonho em nossos dias. Obrigado Mestres, pelo incentivo, exemplo e pela sabedoria
compartilhada.

E, a todos os que compõem os quadros do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, que


direta ou indiretamente contribuíram para a realização deste sonho, em especial, a Agnaldo
Abreu Almendra (Coordenador dos Sistemas Judiciais da Secretaria de Tecnologia e
Informação), que contribuiu de forma significativa para a coleta de dados do TJ/PI, aos
servidores da Secretaria Judiciária, ao amigo Ronaldo Maique Araújo Braga (Chefe de
Gabinete do Des. José James Gomes Pereira) e aos servidores do Cartório Criminal, nas
pessoas das amigas Shirley Amorim, Conceição e Nair.

Agradeço ao CEUT – Centro de Ensino Unificado de Teresina, instituição que me


acolheu como professor e que acreditou na minha formação e capacitação, nas pessoas do
diretor Honório Bona e dos meus prezados amigos, Coordenador do Curso Bacharelado em
Direito, Prof. Raimundo Rufino e ao Mestre Marcos Cardoso, Subcoordenador.

Agradeço a minha estimada Amiga, Profa. Anedina de Deus, Coordenadora da Pós-


Graduação de Ciências Criminais do CEUT que, com sua candura, determinação e força de
vontade me fez aprender que na vida nada é impossível de se conquistar, quando se acredita
de verdade em um sonho. Muito obrigado, amiga, por existir em minha vida.
Ao Prof. Des. Nereu Giacomolli, pela significativa contribuição na construção desta
dissertação, ao me presentear com a sua obra intitulada: “O Devido Processo Penal –
Abordagem Conforme a Constituição Federal e o Pacto de São José da Costa Rica”, obra de
linguagem suave e ao mesmo tempo instigante, pois me impulsionou a mergulhar em mares
profundos do conhecimento, que serve não apenas para ser lida, mas, principalmente,
estudada e pesquisada, se quisermos delinear, ainda que brevemente, o perfil intelectual do
seu autor.

E, ao final, agradecer a todos meus familiares e amigos, na pessoa do meu prezado


primo Willame Parente Mazza, pela contribuição e apoio que me concedeu, desde o
primeiro passo desta trajetória.

O meu muitíssimo obrigado a todos.


Se uma Justiça lenta demais é decerto uma Justiça má, daí não se segue que uma Justiça
muito rápida seja necessariamente uma Justiça boa.

(BARBOSA MOREIRA, José Carlos. O futuro da Justiça: alguns


mitos. Temas de Direito Processual: Oitava Série. São Paulo: Saraiva,
2004, p. 5)
RESUMO

A presente dissertação tem como finalidade examinar o direito fundamental do


homem à razoável duração do processo penal, inserido explicitamente no art. 5°, no inciso
LXXVIII, da Constituição Federal Brasileira de 1988, com a EC n° 45. No entanto, ante a
(in)eficiência do Poder Judiciário em garantir o acesso a uma instrução criminal útil, a
previsão por parte do legislador ordinário de norma que estipule um prazo máximo de duração
do processo seria um meio adequado para se conquistar a eficácia da tutela jurisdicional em
um tempo razoável? Destaca-se como objetivo principal dessa dissertação a análise diante do
contexto de crescimento da demora na prestação jurisdicional na seara criminal, a necessidade
de estabelecer a criação de norma, por parte do legislador ordinário, que estipule um prazo
máximo de duração da instrução criminal, como um meio eficaz para garantir ao cidadão o
direito fundamental à razoável duração do processo. Atualmente, o Código de Processo Penal
pátrio não regula o prazo total para a duração do processo criminal, apenas estipula prazos
parciais para determinados atos, deixando ao alvedrio do aplicador da norma a tarefa de
analisar, sob o crivo do critério da proporcionalidade, qual o tempo considerado razoável para
a duração da instrução criminal. Destarte, a normatização penal deve ser estabelecida, sob o
manto de critérios objetivos, certos e precisos, com vistas a definir o que venha a ser "tempo
razoável" para execução de cada procedimento, sem deixar de observar as circunstâncias e/ou
variáveis específicas de cada caso. Desse modo, cria-se para o cidadão uma forma de evitar
que essa análise restrinja-se à mera discricionariedade do julgador, protegendo-o de possíveis
abusos a configurar excesso de prazo para a formação da culpa. No presente estudo, por
intermédio de uma pesquisa empírica, foi possível concluir qual seja o tempo razoável e ou
irrazoável de duração do processo penal, além de apontar as etapas que ocorrem a maior
morosidade processual, se é no âmbito do primeiro ou segundo grau de jurisdição, chegando a
constatação, de que é um meio adequado para se conquistar a eficácia da tutela jurisdicional, a
previsão por parte do legislador, de norma limitadora do tempo de instrução criminal. Na
presente dissertação é utilizado o “método” fenomenológico. Tal estudo, de natureza
bibliográfica, adota como método de abordagem o método dedutivo. Conjuntamente ao
método de abordagem adota-se, inicialmente, como método de procedimento, o monográfico,
considerando a temática objeto da pesquisa, imprescindível à utilização e concomitantemente
ao método monográfico, os métodos histórico e comparativo e estatístico, por meio da
realização de pesquisa de campo, baseada na transformação de dados em informações
quantitativas, como boa probabilidade de ser verdadeiros.

Palavras-chave: Razoável Duração. Tempo do Processo Penal. Marco Regulatório.


RESUMEN

La presente disertación tiene como finalidad examinar el derecho fundamental a la


razonable duración del proceso penal, introducido explícitamente en el artículo 5º, inc. .
LXXVIII, de la Constitución Federal Brasileña de 1988, con la EC no. 45. No obstante, ¿ante
la (in)eficiencia del Poder Judicial en garantizar el acceso a una instrucción criminal útil, la
previsión por parte del legislador ordinario de una norma que estipule un plazo máximo de
duración del proceso sería un medio adecuado para conquistar la eficacia de la tutela
jurisdiccional en un tiempo razonable? Se destaca como objetivo principal de esta disertación
el análisis ante el contexto de crecimiento de la demora en la prestación jurisdiccional en el
área criminal, la necesidad de establecer la creación de una norma, por parte del legislador
ordinario, que estipule un plazo máximo de duración de la instrucción criminal, como un
medio eficaz para garantizar al ciudadano el derecho fundamental a la razonable duración del
proceso. Actualmente, el Código de Proceso Penal brasileño no regula el plazo total para la
duración del proceso criminal, solamente estipula plazos parciales para determinados actos,
dejando al albedrío del aplicador de la norma la tarea de analizar, bajo la criba del criterio de
la proporcionalidad, cuál debe ser el tiempo considerado razonable para la duración de la
instrucción criminal. De esta forma, la normalización penal debe ser establecida, bajo el
manto de criterios objetivos, ciertos y precisos en aras de definir lo que venga a ser “tiempo
razonable” para la ejecución de cada procedimiento, sin dejar de observar las circunstancias
y/o variables específicas de cada caso. De ese modo, se crea para el ciudadano una forma de
evitar que ese análisis se restrinja a la mera arbitrariedad del juez, protegiéndolo de posibles
abusos al configurar excesos de plazo para formación de culpa. En el presente estudio, a
través de una investigación empírica, ha sido posible concluir cual puede ser el tiempo
razonable o irrazonable de la duración del proceso penal, además de señalar las etapas en las
que se da la mayor lentitud procesal, si es en el ámbito del primer grado o del segundo grado
de jurisdicción, llegando a la constatación, de que es un medio adecuado para conquistar la
eficacia de la tutela jurisdicional, la previsión por parte del legislador, de una norma
limitadora del tempo de instrucción criminal. En la presente disertación se ha utilizado el
“método” fenomenológico. Tal estudio, de naturaleza bibliográfica, adopta como método de
abordaje el método deductivo. Conjuntamente al método de abordaje se adopta, inicialmente,
como método de procedimiento, el monográfico, considerando la temática objeto de la
investigación, imprescindible la utilización, y concomitantemente al método monográfico, de
los métodos histórico y comparativo y estadístico, por medio de la realización de una
investigación de campo, basada en la transformación de datos en informaciones cuantitativas,
como buena probabilidad de que sean verdaderos.

Palabras clave: Duración razonable. Tiempo del proceso penal. Marco Regulador.
LISTA DE SIGLAS

CADH – Convenção Americana de Direitos Humanos

CEDH – Convenção Européia de Direitos Humanos

CIDH – Comissão Interamericana de Direitos Humanos

COIDH – Corte Interamericana de Direitos Humanos

COEDH – Comissão Européia de Direitos Humanos

CF – Constituição Federal da República Brasileira

CPP – Código de Processo Penal

DADH – Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem

DUDH – Declaração Universal dos direitos do Homem

TEDH – Tribunal Europeu de Direitos Humanos


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO.......................................................................................................................13
1.0 ILAÇÕES SOBRE O TEMPO: DESCRIÇÃO DA BUSCA DE UM
CONCEITO............................................................................................................................19
1.1 O Tempo Cíclico e a Cosmologia.......................................................................................19
1.2 O Tempo Absoluto versus o Tempo Relativo.....................................................................21
1.3 O Tempo, o Processo e o Direito .......................................................................................26
2.0 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO COMO
UM DIREITO HUMANO FUNDAMENTAL.....................................................................35
2.1 Contextualização Histórica do Direito à Razoável Duração do Processo nos Diplomas
Internacionais de Direitos Humanos.........................................................................................35
2.1.1 Convenção Europeia dos Direitos do Homem de 1950...................................................37
2.1.1.1 Corte Europeia dos Direitos do Homem.......................................................................40
2.1.2 Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos........................................................46
2.1.3 Convenção Americana sobre Direitos Humanos.............................................................48
2.1.3.1 O Sistema Americano de Direitos Humanos (Comissão Interamericana e Corte
Interamericana de Direitos Humanos)......................................................................................52
2.1.3.1.1 Comissão Interamericana de Direitos Humanos........................................................53
2.1.3.1.1.2 Corte Interamericana de Direitos Humanos............................................................57
2.1.3.1.1.2 Competências e Principais Julgados da Corte Interamericana de Direitos Humanos
sobre a Razoável Duração do Processo Penal...........................................................................57
2.2. Inclusão e Evolução do Direito à Razoável Duração do Processo no Brasil.....................68
2.2.1 A Posição Hierárquica e o Valor dos Diplomas Internacionais de Direitos Humanos no
Ordenamento Jurídico Pátrio....................................................................................................75
2.2.2 Controle de Convencionalidade dos Direitos Humanos .................................................77
3.0 CONTEÚDO E CONCEITO DO DIREITO À RAZOÁVEL DURAÇÃO DO
PROCESSO PENAL NO DIREITO BRASILEIRO...........................................................85
3.1 O Sentido da Locução "Razoável Duração do Processo" e as Implicações de sua Adoção
no Contexto da Efetividade Processual.....................................................................................85
3.2 O Direito à Razoável Duração do Processo Penal e o Acesso à Justiça.............................94
3.3 O Direito à Razoável Duração do Processo Penal como Dimensão do Devido Processo
Legal........................................................................................................................................100
3.4 Celeridade Processual versus Garantias Constitucionais do Processo Penal....................106
4.0 A NECESSIDADE DE ESTABELECER LIMITES NORMATIVOS DO TEMPO
DE DURAÇÃO DO PROCESSO PENAL..........................................................................119
4.1 A Necessidade de Criação de Marco Regulatório sobre o Tempo do Processo
Penal........................................................................................................................................119
4.2 Pesquisa Empírica no Âmbito do Poder Judiciário Piauiense..........................................141
4.2.1 Apresentação .................................................................................................................141
4.2.2 Metodologia...................................................................................................................142
4.2.3 Resultados e análises da pesquisa realizadas no Tribunal de Justiça do Piauí..............147
4.2.3.1 Estatística do tempo do Processo Penal nos delitos oriundos da 1ª vara criminal
(homicídio qualificado – artigo 121, §2°, do CP) da comarca de Teresina, que tiveram
recursos julgados pelo Tribunal de Justiça do Piauí, no âmbito da 1ª e da 2ª Câmara Criminal,
nos anos de 2013 e 2014.........................................................................................................147
4.2.3.2 Estatística do tempo do Processo Penal nos delitos oriundos da 7ª vara criminal
(tráfico de drogas e condutas afins – artigo 33, caput e §1°, da Lei n° 11.343/06) da comarca
de Teresina, que tiveram recursos julgados pelo Tribunal de Justiça do Piauí, no âmbito da 1ª
e da 2ª Câmara Criminal, nos anos de 2013 e 2014...............................................................150
4.2.3.3 Pesquisa estatística comparativa entre os crimes analisados em relação ao tempo de
tramitação processual..............................................................................................................152
4.2.3.4 Estatísticas do tempo do Processo Penal no Poder Judiciário Piauiense....................153
5.0 CONCLUSÃO.................................................................................................................156
13

INTRODUÇÃO

Um dos aspectos mais críticos enfrentados pelo sistema processual penal


brasileiro na contemporaneidade é, sem dúvida, representado pela "excessiva demanda
processual", oriunda da crescente complexidade nas relações sociais a exigir respostas mais
eficazes, mediante uma instrução processual sem dilações temporais ou formalismos
excessivos.
A falta de uma reforma abrangente do Direito Processual Penal atrelada às
condições atuais do sistema da justiça tem impossibilitado uma prestação jurisdicional eficaz
nos processos criminais.
A Constituição da República pátria prevê, como um dos princípios basilares do
processo, a razoável duração, nos termos do art. 5°, inciso LXXVIII, princípio já contido na
Convenção Americana de Direitos Humanos1 (arts. 7.5 e 8.1), que dispunha que toda pessoa
tem direito a ser ouvida, com as devidas garantias, dentro de um prazo razoável.
O direito à duração razoável do processo expresso de forma categórica no texto
constitucional é um "imperativo para todos os processos", que se traduz na obrigação do
Estado em prestar a tempestiva tutela jurisdicional, entendida não como sinônimo de
celeridade, mas como direito ao prazo adequado para a execução dos atos processuais, de
modo a não permitir que o cidadão tenha sua esfera jurídica restringida por tempo
desnecessário.
Em matéria penal, o direito de ser julgado num prazo razoável tem uma conotação
adicional, qual seja a de garantir que o acusado não permaneça por um período excessivo sob
o manto acusatório do Estado, constituindo assim ofensa ao princípio da dignidade da pessoa
humana e do devido processo legal.
Embora o processo não seja um instrumento hábil a dar uma resposta imediata
àqueles que buscam a justiça, isso não justifica que a prestação jurisdicional seja realizada a
qualquer momento. A exigência de que se garanta ao cidadão uma resposta compatível com a
garantia constitucional do devido processo legal deve passar pela aferição de critérios
delimitadores de prazo máximo para conclusão da instrução criminal, dentro de um juízo de
razoabilidade, a ser apontado pelo legislador ordinário, com vistas a coibir abusos no
cumprimento dos atos processuais.

1
Adesão pelo Brasil à Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica, de 22 de novembro de 1969) por
intermédio do Decreto n° 678, de 6 de novembro de 1992.
14

Diversos doutrinadores, dentre eles Spalding2 e Silveira3, defendem a ideia de que


o tempo razoável do processo deve ser tido como a soma dos atos processuais descritos no
Código Processual, considerando a extrapolação desse limite excessiva e desarrazoada.
Também se utilizando desse parâmetro, o Conselho Nacional de Justiça – CNJ
quando elaborou o Plano de Gestão das Varas Criminais e de Execução Penal 4, em 2010, com
o intuito de estabelecer um prazo que, se ultrapassado, daria causa ao relaxamento de prisão,
estipulado pela somatória aritmética dos prazos de cada fase do procedimento, que totalizam
105 dias no procedimento ordinário.
De outra banda, os Tribunais Superiores vêm consolidando o entendimento de que
“o excesso de prazo na instrução criminal não resulta de simples operação aritmética” 5, mas
devem observar as peculiaridades de cada caso, tomando por base, para definição do que
venha a ser tempo razoável de duração do processo a "complexidade do processo, o
retardamento injustificado, os atos procrastinatórios da defesa e o número de réus
envolvidos"6.
Como se vê, ante a ausência de legislação definidora dos critérios do que seria
“tempo de razoável de duração do processo” deixa-se margem para o julgador conduzir a
instrução criminal sem limite temporal, beirando o campo da discricionariedade, que, muitas
vezes, deixa o cidadão refém da solução tardia e porque não dizer ineficaz da prestação
jurisdicional.
Neste aspecto, incumbe ao legislador estipular limites máximos de prazo para
conclusão da instrução criminal, para dar eficácia à norma constitucional, e, noutra vertente,

2
SPALDING, Alessandra Mendes. Direito Fundamental à tutela jurisdicional tempestiva à luz do inciso LXXVIII do art. 5° da CF inserido
pela EC. n. 45/2004. In: WAMBIER, Teresa Arruda Alvim (coord.) et al. Reforma do Judiciário: primeiros ensaios críticos sobre a EC n.
45/2004. São Paulo: RT, 2005, p. 37-38.
3
SILVEIRA, Fabiana Rodrigues. A morosidade no poder judiciário e seus reflexos econômicos. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris,
2005. p. 153.
4
Disponível em: <http://www.cnj.jus.br/imagens/programas/justica-criminal/plano-gestao-varas-criminais-cnj.pdf>, p. 42. Acesso em 12-
12- 2014.
5
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. RHC 40075/CE, Rela. Min. Marilza Maynard. 5ª Turma. Julgado em 27/08/2013. Publicado no DJe
em 13-09-2014.
________. Supremo Tribunal Federal. HC 108.426, Primeira Turma, Relator o Ministro Luiz Fux, DJ de 07.08.12 “Ementa: Penal e
processual penal. Habeas corpus. Tráfico e associação para o tráfico de entorpecentes – arts. 33 e 35 da Lei n. 11.343/2006. Excesso de prazo
da instrução criminal. Razoabilidade: número de réus e complexidade do processo. Superveniência de sentença condenatória. Insubsistência
da alegação de excesso de prazo. 1. O excesso de prazo da instrução criminal não resulta de simples operação aritmética, impondo-se
considerar a complexidade do processo, atos procrastinatórios da defesa e número de réus envolvidos, fatores que, analisados em
conjunto ou separadamente, indicam ser, ou não, razoável o prazo para o encerramento: HC 104845/SP, Rel. Min. Joaquim Barbosa,
2ª Turma, DJ de 10-8-2010; HC 101110/CE, Rel. Min. Eros Grau, 2ª Turma, DJ de 12-2-2010; HC 96775/PA, red. P/ acórdão Min. Dias
Toffoli, 1ª Turma, DJ de 28-5-2010. 2. In casu, a complexidade da ação penal, envolvendo vários corréus presos em flagrante com mais de
cinco quilos de cocaína e denunciados por tráfico e associação para o tráfico de entorpecentes, bem como a necessidade de expedição de
cartas precatórias, indicam ser razoável a dilação do prazo de encerramento. 3. A superveniente prolação de sentença condenatória torna
insubsistente a alegação de excesso de prazo da instrução criminal, consoante entendimento desta Corte: HC 103020/SP, rel. min. Cármen
Lúcia, 1ª Turma, DJ de 6-5-2011; RHC 95207/PI, rel. min. Ricardo Lewandowski, 1ª Turma, DJ de 15-2-2011; HC 93023 AgR/RJ , rel. min.
Carlos Britto, 1ª Turma, DJ de 24-4-2009. 4. Ordem denegada.”
6
______.Supremo Tribunal Federal. HC 117746/ES, Rel. Min. Luiz Fux. 1ª Turma. Julgado em 17/09/2013, Publicado no DJe em 21-10-
2014.
15

consolidar o direito do cidadão em não ver-se privado de sua liberdade por tempo
desarrazoado, caracterizado como tal, o excedente a esse limite.
Perante esta realidade, a questão evidencia uma problemática: ante a (in)eficiência
do Poder Judiciário em garantir o acesso a uma instrução criminal útil, a previsão por parte do
legislador ordinário de norma que estipule um prazo máximo de duração do processo seria um
meio adequado para se conquistar a eficácia da tutela jurisdicional em um tempo razoável?
O "prazo razoável" vem sendo estabelecido pela doutrina e jurisprudência como
um conceito vago e, como tal, variável, a depender de diferentes leituras e interpretações.
Todavia, o direito a um prazo razoável na duração do processo, por estar inserido na
Constituição Federal, como uma garantia fundamental do devido processo legal, deve ter
duração clara e pontual, com estabelecimento de limites máximos de duração, que serão
pontuados de acordo com a complexidade da causa, comportamento das partes e das
autoridades judiciárias e número de réus envolvidos.
Atualmente, o Código de Processo Penal brasileiro não regula o prazo total para a
duração do processo criminal, apenas estipula prazos parciais para determinados atos,
deixando ao alvedrio do aplicador da norma a tarefa de analisar, sob o crivo do critério da
proporcionalidade, qual o tempo considerado razoável para a duração da instrução criminal.
A ausência de legislação que estabeleça prazos gerais fatais para cada
procedimento, de forma a fixar o tempo máximo de duração para o fim da instrução criminal,
traz, na maioria das vezes, como consequência, um excesso de prazo na formação da culpa, ou
seja, uma incerteza sobre a efetividade da solução dada ao final da instrução criminal, que
pode caracterizar uma afronta ao princípio constitucional da razoável duração do processo
criminal.
Destarte, a normatização penal deve ser estabelecida sob o manto de critérios
objetivos, certos e precisos, com vistas a definir o que venha a ser "tempo razoável" para a
execução de cada procedimento, sem deixar de observar as circunstâncias e/ou variáveis
específicas de cada caso. Desse modo, cria-se para o cidadão uma forma de evitar que essa
análise restrinja-se à mera discricionariedade do julgador, protegendo-o de possíveis abusos a
configurar excesso de prazo para formação da culpa.
É contestável quando se está diante de um direito fundamental onde não há uma
definição pontual, precisa no estabelecimento de seu conceito, acarretando uma sistemática
insegurança jurídica por lhe faltar precisão legal, e por ser uma norma aberta, fica adstrita à
interpretação do aplicador da norma na aferição do que vem a ser tempo razoável, a depender
da análise do caso concreto.
16

Nesse contexto, o estabelecimento de um prazo limite para a conclusão da


instrução criminal serve para garantir ao cidadão que não permaneça sob o manto de acusação
do Estado, por prazo indefinido, nem tão pouco perpetue na prisão por tempo ilimitado, diante
da morosidade do judiciário.
A construção jurisprudencial já vem sinalizando, há muito, a necessidade de se
fixar um prazo limite da duração do processo penal, em frente à realidade falida do sistema
prisional, com vistas a garantir ao cidadão um tempo limite para obter o provimento
jurisdicional em tempo hábil e útil.
Todavia, com a edição de um "pacote" de reformas e alterações legislativas para
definir o tempo limite de conclusão do processo criminal, por si só, não é capaz de
transformar o panorama atual vivido nos fóruns e tribunais, no entanto, faz-se necessária, para
coibir abusos e evitar demora excessiva nos procedimentos, de forma a garantir ao cidadão a
consolidação do seu direito fundamental à razoável duração do processo penal, posto que, ao
longo dos tempos, a duração excessiva do processo tem sido um dos maiores e mais antigos
males da administração da justiça.
Assim, o aforismo "justiça atrasada é justiça negada" expressa a ideia de que
justiça atrasada não é justiça, pois quando um processo é excessivamente dilatado há uma
verdadeira denegação de justiça. Este é um dos problemas, como for mencionado, mais
antigos e graves dos processos em geral e, especialmente, do processo penal.
Doutrinadores nacionais e estrangeiros, há tempos buscam solucionar a
problemática da razoável duração do processo, com vistas a evitar a inutilidade da prestação
jurisdicional tardia. Esse tema é de fundamental importância, na tradicional conjuntura do
arcabouço burocrático do judiciário, que se traduz num sistema ineficaz com soluções falhas,
incapaz de responder aos anseios sociais, diante da crescente demanda e entrave nos
procedimentos adotados pela legislação atual.
Esclareça-se, tempo é vida, a vida humana que corre e não para, não há como
voltar atrás ou realizar compensações, portanto, o tempo do processo não pode ser absorvido
pelo sistema. Por isso, é o processo que deve adaptar-se à vida, e não a vida ao processo. O
"prazo razoável" é o que decorre do mandamento constitucional, que não pode ultrapassar a
barreira da razoabilidade e proporcionalidade dos atos, que devem ser aplicados, medidos e
avaliados por meio de estratégias objetivas de gestão.
Atento a esta realidade e em busca de soluções para atenuar os efeitos maléficos
da demora do processo, antevejo a urgente necessidade de definição de critérios e delimitação
de prazo para conclusão de toda a instrução criminal, a ser definido pelo Legislador
17

Ordinário, que pode não ser o único remédio, mas se faz necessário para a definição de
parâmetros que norteiem o julgador para a conclusão da instrução criminal em prazo hábil,
capaz de gerar para o cidadão a garantia da utilidade da prestação jurisdicional.
Por fim, vale ressaltar a importância do tema ora analisado dentro da linha de
pesquisa “Hermenêutica, Constituição e Concretização de Direitos” do Programa de Pós-
Graduação em Direito da UNISINOS, uma vez que busca discutir a necessidade de se
normatizar o período máximo para conclusão da instrução criminal, para dar eficácia ao texto
constitucional e garantir a utilidade do provimento jurisdicional ao cidadão, por meio de uma
revisão dos conceitos predominantes na doutrina e jurisprudência.
Destaca-se como objetivo principal dessa dissertação a análise diante do contexto
da crescente demora da prestação jurisdicional na seara criminal, a necessidade de estabelecer
a criação de norma, por parte do legislador ordinário, que estipule um prazo máximo de
duração da instrução criminal, como um meio eficaz para garantir ao cidadão o direito
fundamental à razoável duração do processo.
E, além do supramencionado objetivo, busca-se averiguar a evolução histórica da
incorporação do direito fundamental do homem à razoável duração do processo, nos diplomas
internacionais de direitos do homem; bem como avaliar o conteúdo e o conceito do "tempo
razoável" do ponto de vista da processualística penal e constitucional pátria - do direito de
todo cidadão de ser julgado dentro de um prazo razoável, sem demoras injustificadas. E, por
fim, averiguar por meio de uma pesquisa empírica, através de coleta de dados junto ao Poder
Judiciário Piauiense, da amostra de processos criminais oriundos da 1ª e da 2ª vara criminal
(crimes dolosos contra a vida com qualificadora – artigo 121, §2°, do CP) e 7ª vara criminal
(crimes de tráfico de drogas e condutas afins – artigo 33, caput e §1°, da Lei n° 11.343/06) da
comarca de Teresina, conforme tabela nacional de assuntos do CNJ, que tiveram recursos
julgados pelo Tribunal de Justiça do Piauí, no âmbito da 1ª e da 2ª Câmara Criminal, nos anos
de 2013 e 2014, para aferir, dentro dessa realidade, qual o tempo de tramitação do processo
penal em cada delito mencionado, em dias, meses e anos, assim como, a média comparativa
entre os crimes investigados em relação ao tempo de tramitação dos processos penais do
Poder Judiciário piauiense.
Na presente dissertação é utilizado o “método” fenomenológico7, compreendido
como “interpretação ou hermenêutica”, que trata de desvelar o fenômeno do direito à duração
do processo penal e pô-lo a descoberto, desvendando o fenômeno além da aparência.

7
O “método fenomenológico” aplicado ao Direito vem sendo desenvolvido no PPGD da UNISINOS, especialmente na obra Hermenêutica
Jurídica e(m) Crise, de Lênio Luiz Streck.
18

Exatamente porque os fenômenos não estão evidentes de imediato e com regularidade, faz-se
necessária a Fenomenologia. O método fenomenológico não se limita a uma descrição
passiva. É simultaneamente tarefa de interpretação (tarefa da hermenêutica) que consiste em
por a descoberto os sentidos menos aparentes, os que o fenômeno tem de mais fundamental8.
Tal estudo, de natureza bibliográfica, adota como método de abordagem o método
dedutivo.
Conjuntamente ao método de abordagem adota-se, inicialmente, como de
procedimento, o método monográfico9, uma vez que não se pretende um estudo
enciclopédico, um manual, mas um estudo direcionado a uma temática bem delimitada e
específica, o que proporciona mais segurança à elaboração da pesquisa.
Todavia, o fato de se fazer uso do método procedimental monográfico não
significa que não se utilizará, paralelamente, uma visão panorâmica de outras temáticas
correlatas, pois necessárias e imprescindíveis ao estudo da temática escolhida, na medida em
que informem, justifiquem, estruturem ou deem sentido ao tema central.
Ante o exposto, considerando a temática objeto da pesquisa, imprescindível à
utilização, concomitantemente ao método monográfico, os métodos histórico10e
comparativo11 e estatístico, por meio da realização de pesquisa de campo, baseada na
transformação de dados em informações quantitativas, como boa probabilidade de ser
verdadeiros.
No que diz respeito à técnica de pesquisa, optou-se pelo emprego de vasta
pesquisa bibliográfica, utilizando-se da doutrina nacional e estrangeira existente acerca da
temática proposta – livros e periódicos, bem como da legislação estrangeira e pátria.

8
MASINI, E. F. S. O enfoque fenomenológico de pesquisa em educação. In: FAZENDA, I. Metodologia da pesquisa educacional. São
Paulo: Cortez, 1989. p. 63.
9
Segundo Eco (1997, p. 10), “uma monografia é a abordagem de um só tema, como tal se opondo a uma “história de”, a um manual, a uma
enciclopédia. [...] quanto mais se restringe o campo, melhor e com mais segurança se trabalha. Uma tese monográfica é preferível a uma tese
panorâmica. É melhor que a tese se assemelhe a um ensaio do que a uma história ou a uma enciclopédia. [...] Mas deve-se ter em mente que
fazer uma tese rigorosamente monográfica não significa perder de vista o panorama [...]”, pois “[...] uma coisa é usar um panorama como
pano de fundo, e outra elaborar um quadro panorâmico [...]”.
10
O método histórico consiste na investigação de acontecimentos, processos e instituições do passado para verificar a sua influência na
contemporaneidade, diante da constatação de que as instituições alcançaram sua forma atual por meio de alterações de suas partes
componentes, o que se dá ao longo do tempo e por influência do cultural particular de cada época (SIMIAND, 2003).
11
Por meio do método comparativo realizam-se comparações com o objetivo de averiguar semelhanças e explicar divergências. Pode ser
utilizado tanto para comparações de grupos no presente, no passado, ou entre os existentes e os do passado quanto entre sociedade de iguais
ou de diferentes estágios de desenvolvimento (LAKATOS; MARCONI, 1991).
19

1.0 ILAÇÕES SOBRE O TEMPO: DESCRIÇÃO DA BUSCA DE UM


CONCEITO
1.1 O Tempo Cíclico e a Cosmologia

Desde os primórdios da humanidade, nas mais diversas civilizações, dentre


inúmeros pensadores, nas mais diferentes áreas, manifestaram suas análises, sobre as questões
relacionadas ao "tempo".
A descrição se inicia com a concepção do cosmos advinda da Grécia
Antiga."Assim, no séc. VI a.C., Pitágoras associou a matemática dos sons e os movimentos
dos planetas para elaborar a famosa imagem da 'harmonia das esferas', uma espécie de
espectro musical celeste"12 que influenciou fortemente a obra de Platão. "Sua cosmologia,
apresentada no Timeu, evoca igualmente um universo estático, com órbitas circulares, dos
corpos ao redor da terra"13. Aristóteles e, posteriormente, São Tomás de Aquino reafirmaram
esse modelo.
Ao longo da história, gradativamente, as idéias de Platão e de Aristóteles
influenciaram o debate em torno do tempo. Para Platão, a ideia do tempo estava associada ao
universo, segundo a qual o tempo seria a "imagem movente da eternidade", como produto das
revoluções das esferas celestes. Um legado permanente de sua teoria do tempo é a ideia de
que este e o universo são inseparáveis. O conceito de tempo se inicia a partir de uma
contraposição entre aquilo que jamais se trasforma e continuamente “é” e as coisas que
sempre se modificam e nunca “são”14.
Já Aristóteles (384-322 A.C), ampliou a concepção de Platão, colaborando para
inserir o tempo no mundo real, ao associar as noções de tempo e movimento, na célebre
definição: "Eis, então, o que é o tempo: o número do movimento segundo o antes e o
depois15". Compreendia que havia uma conexão entre tempo e movimento que, segundo suas
palavras: “não apenas medimos o movimento pelo tempo, mas também o tempo pelo
movimento, porque eles se definem um ao outro. O tempo marca o movimento, visto que é
seu número, e o movimento marca o tempo”16.

12
PINTO, Cristiano Paixão Araujo. Modernidade, tempo e direito. Belo Horizonte: Del Rey, 2002. p.11.
13
Ibid. p. 11.
14
PLATÃO. Timeu, “Coleção os Pensadores”. São Paulo: Nova Cultura, 1991. p. 92.
15
PINTO, Cristiano Paixão Araujo. op. cit. p. 13.
16
WHITROW, G.F., O tempo na história: concepções do tempo da pré-história aos nossos dias. Tradução BORGES, Maria Luiza X. de A.,
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. p. 57.
20

Ainda, segundo Aristóteles, o tempo é contínuo e infinito. Em relação ao primeiro


aspecto porque o tempo se manifesta em um espaço contínuo através de um movimento
contínuo. E, no segundo, posto que o tempo é inesgotável17.
A reflexão agostiniana (345-430 D.C) marca um corte fundamental com as
tentativas da filosofia antiga (em particular em Platão e Aristóteles), que definem o tempo em
relação ao movimento de corpos externos, em particular em relação ao movimento dos astros,
abrindo um novo campo de reflexão: "o da temporalidade, da nossa qualidade específica de
seres que não só nascem, e morrem no tempo, mas, sobretudo, que sabem, que têm a
consciência dessa sua condição temporal e mortal"18.
Revela ainda que a questão da origem da existência de todas as coisas está
principalmente ligada ao problema do tempo, pois “(...) as coisas são temporais por não
poderem realizar de uma só vez todo o seu ser”19, sendo prenunciador do emprego de "modos
temporais" já que um “(...) presente, se permanecesse sempre presente e não se tornasse
passado, não seria mais tempo, mas eternidade”20.
As ponderações agostinianas vêm retratar com clareza a angústia do homem em
compreender o sentido do tempo, ideia que está bem presente nos questionamentos realizados
pelo pensador:
Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá
apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu
conceito? (...) Se ninguém me perguntar eu sei, porém, se quiser explicar a quem me
perguntar, já não sei21.

O tempo, esta realidade que nos domina, é antes de tudo um mistério para o
homem. Vaz22 na análise sobre o tempo na visão agostiniana infere que:

Na verdade, toda a sua substância, em si mesma, não é, senão, um instante


indivisível ao qual denominamos presente. Indivisível e, portanto, imensurável
enquanto tal. De fato, como é possível medí-lo, se não pode ser mais longo ou mais
curto, sem que deixe antes de ser. Com efeito, quando o presente parece se tornar
mais longo para nós, é porque já é passado e não existe mais, e quando o
vislumbramos à frente, é porque é futuro e ainda não existe.

17
ROSS, W. D. Aristóteles. Tradução de PRÓ, Diego F. Buenos Aires: editorial Sudamericana, 1957, p. 133.
18
GABNEBIN, Jeanne Marie. "Dizer o Tempo". In: Cadernos de Subjetividade. São Paulo: Núcleo de Estudos e Pesquisas da
Subjetividade do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP, v.2, n. 1 e 2, p. 28, mar/ago - set/fev 1994.
19
ETIENE, Gilson; BOEHNER, Philotheus. História da Filosofia Cristã. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 1985. p. 178.
20
AGOSTINHO, Aurélio. Confissões. Tradução de J. Oliveira Santos, S.J. e A. Ambrosio de Pina, S.J. São Paulo: Abril Cultura, 1980
(coleção Os Pensadores). XI, pp. 217-218.
21
Ibid. pp. 14-17.
22
VAZ, Aline Tabosa. A visão de Santo Agostinho sobre o tempo. p. 28. Disponível em:
http://filosofante.org/filosofante/not_arquivos/pdf/Agostinho_Tempo.pdf. Acesso em 01-11-2014.
21

Ou seja, segundo a visão agostiniana, o conceito de tempo era algo autônomo,


independente do espaço e do movimento, não derivando do movimento dos corpos, celestes
ou terrestres - conceito análogo ao de tempo absoluto preconizado por Newton23. Com isso
Agostinho abandonou a retória do “tempo cíclico” tendo adotado a visão linear do tempo.
São Tomás de Aquino24 (1225-1274) harmonizou as concepções aristotélicas com
as teses da igreja católica, admitindo o liame do tempo ao movimento, bem como a concepção
de que o “antes” e o “depois” no movimento se apresentam como a sucessão temporal,
apontando a existência de três tipos de tempo: o dos eventos terrrestres, que são uma
sequência com princípio e fim determinados, a eternidade atemporal, na ordem de Deus, e o
tempo dos corpos celestiais e das ideias, com um princípio, todavia sem um fenecimento.

1.2 O Tempo Absoluto versus o Tempo Relativo

Na Idade Média, prevaleceram as concepções aristotélicas referentes à


cosmopologia (a terra como centro do sistema solar) e à imutabilidade do universo,
continuando presente a noção de tempo cíclico. No século XV, contudo, surge uma novo
momento na "história do pensamento ocidental, que iria alterar substancialmente o edifício
teórico até então existente; e, nesta história, haveria um lugar reservado para o debate em
torno do tempo"25.
Na área científica, o "tempo" foi visto como algo absoluto ou relativo. Para Isaac
Newton (1643-1727), o tempo foi visto como algo absoluto, é o mesmo em todo o lugar,
qualquer que seja o observador, fluindo de maneira única, independentemente de qualquer
outro evento ou acontecimento externo26.
Newton idealizou um tempo neutro, a sua mecânica restringe o passado e o futuro
apenas ao mero momento presente27. Mas em que parte está a história, “o mundo-do-ser –
Heidegger –, a ação do fluir temporal, ou seja, o tempo não é do mundo, e o mundo não esta
no tempo”28.

23
SZAMOSI, Géza. Tempo e espaço - as dimensões gêmeas. Tradução de Jorge Enéas Fortes e Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1988. p 101.
24
AQUINO, Santo Tomás de. Compêndio de Teologia – “Os Pensadores”, vol. VIII, capítulo 8°, São Paulo: Abril S.A. Cultural e
Industrial, 1973, p. 79.
25
PINTO, op. cit. pp.18-19.
26
Ibid. p. 28
27
KLEIN, Étienne. O Tempo. Lisboa: Instituto Piaget, 1995, p. 27.
28
HOFFMANN, Fernando. CAVALHEIRO, Larissa Nunes. NASCIMENTO, Valéria Ribas do. Determinismo/Positivismo versus
indeterminismo/Neoconstitucionalismo: observações sobre o tempo e o processo. Revista do Direito UNISC, Santa Cruz do Sul Nº 34. Jul-
dez 2010. p. 42.
22

Essa visão se opôs a de Albert Einstein29 (1879-1955), na formulação da Teoria da


Relatividade (1905), correlacionando a noção de tempo à de espaço, substituindo os conceitos
da Teoria de Newton pela ideia de espaço-tempo como uma entidade geométrica unificada,
que o tempo, a massa e a dimensão dos corpos não são absolutos, mas relativos, pois
apresentam-se de formas diferentes para diversos observadores colocados em posições
diferentes, pois ao lado do tempo objetivo está o tempo subjetivo. A percepção de tempo é
completamente distinta para cada observador30.
Segundo Eisntein e sua Teoria da Relatividade, o tempo e o espaço são relativos,
sendo constante apenas a velocidade da luz, explicitando que:

A Relatividade Especial é uma nova teoria da relação entre observadores. Ela


subordina-se ao princípio pelo qual as leis físicas devem ser indiferentes ao modo
particular de cada observador proceder à etiquetação dos fenômenos físicos segundo
medidas de distância e duração. A conseqüência disso é devastadora: as medidas de
distância (que definem o espaço) e de duração (que definem o tempo) não são mais
absolutas. Seus valores deixam de ser os mesmos para todo observador, ou seja,
cada observador recorta de um modo próprio, relativo ao seu “ponto de vista”, a
massa de acontecimento do mundo. E esses recortes individuais, a espacialização e a
temporalização que os observadores realizam sobre seus dados, são meras
perspectivas irrelevantes para a descrição concreta desses acontecimentos 31.

Na compreensão da teoria de Einstein assevera Faria32 que:

Uma das constatações de Ainstein é de que o tempo não é uniforme pois um 'relógio
que se desloque parecerá funcionar lentamente comparado a um relógio similar em
repouso com relação ao abservador', os parâmetros são diversos e muitas variáveis
tornam complexa a resolução. Por exemplo: 'quanto mais a velocidade do relógio
que se desloca se aproximar da velocidade da luz, mais lentamente ele parecerá
marchar.

Prossegue o mencionado autor pontuando que, em razão do tempo não ser


absoluto, passa a não poder mais ser avaliado apenas pelo calendário, pois pode sofrer
alterações,"mudanças nos critérios de contagem, sendo necessária a inserção de outras
variáveis relacionadas ao fato da vida em observação. Como seus critérios são subjetivos,
dependem de simples escolhas discricionárias do homem, pois não são dados da natureza"33.

29
LORENTZ, H.A. EINSTEIN, A. MINKOWKSI, H. O princípio da relatividade. Tradução de Mário José Saraiva. Lisboa: Fundação
Calouste Gulbenkian, 1983, p. 47-85.
30
LOPES JUNIOR, Aury. e Gustavo Henrique Righi Ivahy Badaró. Direito ao Processo Penal no prazo razoável, 2 ed. Rio de Janeiro,
Lumen Juris, 2009. p. 1.
31
OLIVEIRA, Luiz Alberto. Imagens do Tempo. In: DOCTORS, Marcio (Org). Tempo dos Tempos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.
57.
32
FARIA, Renato Luiz Miyassato de. Princípios da razoável duração do processo e medidas de celeridade processual. São Paulo: LTr,
2003. p. 43.
33
Ibid. pp. 44-45.
23

Então, explicar o que é o tempo é algo mais complexo do que o simplesmente pensar
no passado, presente e futuro, pode passar por diferentes conceitos científicos e filosóficos e,
mesmo assim, não produzir concretamente qualquer resposta, ou pode, simplesmente, ser
definido do modo mais simplório possível, pois todos acabam por ter uma noção do que é
tempo34.
Kant explicitava que o mais adequado conceito de tempo era o descrito por
Newton, que apontava que o tempo é um sistema organizado de sucessões, reduzindo o seu
conceito à ordem causal, advinda da física de Newton, representada em nossos tempos pela
física einsteniana que se recusou a conceber que a ordem do tempo fosse absoluta.
Vivemos numa sociedade regida pelo tempo, pelo culto à velocidade, "em que a
velocidade é a alavanca do mundo contemporâneo, nos conduzindo à angústia do
presenteísmo", dominada pela aceleração e a lógica do tempo curto. "Nessa incessante
corrida, o tempo rege nossa vida pessoal, profissional e, como não poderia deixar de ser, o
próprio direito"35. Aponta Pinto36 que "a concepção que cada sociedade manifesta em relação à
dimensão temporal está marcada pela temporalidade". O próprio Luhmann37 pondera que não
existe um conceito de tempo que seja universalmente válido e preciso. Todas as afirmações
sobre o tempo dependem da sociedade nas quais elas vem formulados.
Nesta era dominada pela temporalidade, onde indubitavelmente a percepção de
tempo e dinâmica opera-se diferentemente para cada observador que não imagina o tempo
sem o homem nem o homem sem o tempo. As pessoas são direcionadas, orientadas e
estimuladas pelo tempo na realização dos propósitos humanos, com a ânsia de que atualmente
devem ser alcançados no menor espaço temporal possível. Tudo é em ritmo acelerado. Este
estado de coisas contagia a todos, o que faz com que o homem contemporâneo se torne
escravo da superaceleração ou da imediatidade da era digital e da globalização 38.
Em sintonia com o pensamento revelado, o autor Whitrow39 conclui que:

O que distingue particularmente o homem da sociedade contemporânea de seus


antepassados é que ele adquiriu crescente consciência do tempo. Assim que
acordamos, pensamos em geral em que horas serão. Ao longo de nossa rotina diária

34
JOBIM, Marco Félix. O direito à duração razoável do processo: responsabilidade civil do Estado em decorrência da intempestividade
processual. 2 ed., rev. e ampl. - Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2012. pp. 22-23.
35
LOPES JUNIOR, ; Badaró, op. cit. p. 3.
36
PINTO, op. cit. p. 304.
37
LUHMANN, Niklas. (1982) `World Time and System History', in N. Luhmann. The Differentiation of Society, New York: Columbia
University Press.1982. pp. 299-300.
38
CARNEIRO JUNIOR, Amilcar Araújo; WAMBIER, Luiz Rodrigues. Uma contribuição para o estudo da razoável duração do processo. In:
Revista Jurídica: órgão nacional de doutrina, jurisprudência, legislação e crítica judiciária, ano 58, n° 396. Porto Alegre: Notadez
Informação. Out. 2010. p. 14.
39
WHITROW, G. J. O tempo na história: concepções de tempo da pré-história aos nossos dias. Tradução Maria Luiza X. de A. Borges. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. p.31.
24

estamos continuamente preocupados com o tempo e não cessamos de consultar


nossos relógios. Hoje somos governados por horários e muitos de nós carregamos
agendas não para lembrar o que fizemos, mas para nos assegurarmos de que estamos
no lugar certo, na hora certa. Em consequência, embora haja diferenças entre a
ordem objetiva do tempo físico e o tempo individual da experiência pessoal, somos
compelidos cada vez mais a relacionar nosso 'agora' pessoal ao cronograma
determinado pelo relógio e o calendário. Da mesma maneira, no estudo do mundo
natural, nunca se atribuiu tanta importância aos aspectos temporais dos fenômenos
como atualmente.

O mundo contemporâneo não vive mais o tempo do presente, mas sim o tempo do
momento, não é mais o hoje, mas o instante do agora. “Mas se presente não o é, também não é
futuro, pois o instante ao deixar de ser ‘tempo presente’ torna-se futuro e, também em um
mesmo instante já se torna passado”. Destarte, o tempo corre, “o tempo é do mundo e por ele
passa, tornando o por vir – sempre incerto – mais imprevisível ainda”40.
Neste início de século, a sensação de perda de tempo, de passagem do tempo, de
"tempo perdido", tem consumido nossas vidas e atormentado o cotidiano das pessoas. A ideia
do encurtamento do tempo tem sido um dos principais sintomas da contemporaneidade,
resultado do paralelo entre duas medidas do tempo, segundo a retórica de Faria 41, que
preleciona a existência de:

Um tempo objetivo e um subjetivo correndo paralelamente, entrecruzados na média


dos eventos percebidos - leva à sensação e a passagem do tempo. A quantidade de
eventos percebidos pelo sujeito aumenta conforme ele recebe mais e mais
informações a respeito da vida cotidiana. Quanto maior o fluxo de informações
sobre os fatos cotidianos, maior é o número de eventos percebidos e fixados na
duração subjetiva. A categoria do tempo, imutável em sua subjetividade em todo o
planeta, é tornada relativa no sujeito por conta do maior número de acontecimentos.
O número de fatos passíveis de serem conhecidos pelo sujeito - e, portanto, a fazer
parte de uma duração subjetiva - aumenta, mas o tempo objetivo permanece em sua
marcha. A disparidade entre esses dois fenômenos dos modos do tempo criam a
sensação de uma passagem mais rápida do tempo objetivo, como se, de repente, os
relógios corressem na direção inversa do número de fatos existentes.

Em consonância com a retórica acima, Martino42 aponta a existência de:

Duas modalidades de tempo, uma mensurável e outra sensível – ou, em outras


palavras, um tempo objetivo e um tempo subjetivo correndo paralelamente,
entrecruzados na medida dos eventos percebidos – leva à sensação, pelo indivíduo,
da existência de uma distinção entre a medida do tempo, uma das principais
características da modernidade, é o resultado desse paralelo entre duas medidas de
tempo. A quantia de eventos percebidos pelos sujeitos aumenta conforme ele recebe
mais e mais informações a respeito da vida cotidiana. Quanto maior o fluxo de
informações sobre os fatos cotidianos, maior o número de eventos percebidos e
fixados na duração subjetiva. A categoria do tempo, imutável em sua subjetividade

40
HOFFMANN, Fernando. CAVALHEIRO, Larissa Nunes. NASCIMENTO, Valéria Ribas do. op. cit. p. 43.
41
FARIA, op. cit. p. 46.
42
MARTINO, Luís Mauro Sá. Estética da comunicação: da consciência comunicativa ao ‘eu’ digital. Petrópolis: Vozes, 2007. p. 53-54.
25

em todo o planeta, é tornada relativa no sujeito por conta do maior número de


acontecimentos. O número de fatos passíveis de serem conhecidos pelo sujeito - e,
portanto, a fazer parte de uma duração subjetiva – aumenta, mas o tempo objetivo
permanece em sua marcha. A disparidade entre esses dois fenômenos dos modos do
tempo criam a sensação de uma passagem mais rápida do tempo objetivo, como se,
de repente, os relógios corressem na direção inversa do número de fatos existentes.

A ruptura da racionalidade do tempo cósmico universal concretizado com a


relatividade, ocasiona significativas influência para a definição do tempo jurídico. A
percepção determinista do tempo linear, foi alterado pela relatividade, onde o tempo passou a
ser visto como algo variável a depender da visão do observador, fazendo acreditar que há um
tempo objetivo e um subjetivo.
O tempo nas sociedades atuais, de acordo com Elias43, manifesta, “de fora para
dentro, sob a forma de relógios e calendários uma coerção que se presta eminentemente para
suscitar o desenvolvimento de uma autodisciplina nos indivíduos”. É uma força que se pode
avaliar assisada, desprovida de violência, mas da qual é impossível resistir, que nos remete a
alguns aspectos do fluxo contínuo de acontecimentos em meio aos quais os homens vivem, e
dos quais eles mesmos fazem parte que, segundo sua percepção, se tudo ficasse imóvel, não
poderíamos falar de tempo. Seria mais difícil compreender e falar de tempo se vivêssemos
num universo que comportasse uma única sequência de mudanças, posto se nunca teríamos
como saber nem como nos perguntar "quando" aconteceria alguma coisa.
Assevera o supramencionado autor, que a “noção do tempo remete a alguns
aspectos do fluxo contínuo de acontecimentos em meio aos quais os homens vivem, e dos
quais eles mesmos fazem parte.”
Seguindo a retórica de interpretação do tempo, Pinto44 enfrenta a temática
argumentando que:

O passado e o futuro, por definição, são indisponíveis, pois o primeiro somente é


passado na medida em que já passou, que já não mais existe; e o futuro, que ainda
não existe, só o é na medida em que é futuro. Essas indisponibilidades, contudo, são
inevitáveis porque passado e futuro são construções do presente. Nosso passado,
embora tenha determinado o horizonte de possibilidades do presente, é sempre
reconstruído sob o olhar seletivo e as angústias do presente, bem como tudo o que se
faz no presente é sempre a construção de um futuro.

Neste sentido, afirma Abbagnano45 que o passado pode ser interpretado como
ponto inicial ou “fundamento das possibilidades porvindouras, e o futuro como possibilidade

43
ELIAS, Norbert. Sobre o tempo. Tradução de Vera Ribeiro.Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 22 e 59.
44
PINTO, Cristiano Paixão Araújo. op. cit. p. xiii.
26

de conservação ou de mudança do passado, em limites (e aproximações) determináveis a cada


vez”.

1.3 O Tempo, o Processo e o Direito

Tempo e processo constituem duas vertentes que estão em constante confronto. Em


muitas ocasiões o tempo age em prol da verdade e da Justiça. Na maioria das vezes,
contudo, o fator temporal conspira contra o processo. Chiovenda falava do processo
como fonte autônoma de bens; poder-se-ia, com maior realismo, falar do processo
contemporâneo como fonte autônoma de males46.

O professor Menelick de Carvalho Netto ao prefaciar a obra Modernidade, Tempo


e Direito, do autor Cristiano Paixão47, assevera que:

Nesta sociedade moderna, complexa, o tempo é sempre e cada vez mais raro, mais
curto, posto que apropriável, qualificável e vendável, redutível, portanto, a cálculos
quantitativos na composição de projetos, investimentos e custos. As vidas
individuais são cada vez mais longas em termos quantitativos, em numero de anos,
e, paradoxalmente, percebidas qualitativamente pelos indivíduos que as vivem como
cada vez mais rápidas, breves, ou seja, insuficientes para tudo o que poderiam haver
feito (...). Percepções que, em fim, como a própria sociedade complexa que se
alimenta da permanente incorporação dos riscos a que se expõe, de tão móveis e
dinâmicas que são, possibilitam, afinal, conceber o tempo, o processo, como o
significado mesmo do ser humano.

Nesta linha de interpretação, Lopes Júnior e Badaró48 asseguram que "a concepção
de poder passa hoje pela temporalidade, na medida em que o verdadeiro detentor do poder é
aquele que impõe aos demais o seu ritmo, a sua dinâmica, a sua própria temporalidade".
Diante de tal argumento, sustentam os autores que o direito penal e o processo penal são
provas inconfundíveis de que o Estado, ao longo da história, já dominou a vida, os bens e a
dignidade do homem, passando, agora, a apossar-se do seu tempo49.
Essa visão de aceleração vem sendo estendida para todos os ramos do
conhecimento humano. Afastado de tudo isso, o direito passa a atuar com subterfúgios
técnicos artificiais numa frenética tentativa de alcançar o tempo da sociedade.
Segundo Mora50, tempo e movimento entrelaçam-se, posto que se mede o tempo
pelo movimento e vice-versa. Assim o tempo é a medida de duração de algo que pode ser

45
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Tradução da 1 edição brasileira coordenada e revista por Alfredo Bossi. Revisão da
tradução e tradução dos novos textos de Ivone Castilho Benedetti. 5 Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 1117.
46
TUCCI, Rogério Cruz e, op. cit. p. 11.
47
PINTO, op. cit. p. xi/xii.
48
LOPES JUNIOR, ; Badaró. op. cit. p. 5.
49
Idem. p. 5.
50
MORA, José Ferrater. Tiempo, Diccionario de filosofia, 16 ed., Buenos Aires, Sudamerica, 1986, p. 409.
27

observado, a qual implica passagem, transcurso, sucessão, de horas, dias e anos, que envolve,
para o homem, a concepção abstrata de passado, presente e futuro.
Partindo dos questionamentos acerca do tempo, o autor Carvalho 51 traz uma
correlação sobre o tempo no processo quando afirma que:

O processo é o conjunto de sucessão de atos que documentam a atividade


jurisdicional. Daí dizer que o tempo tem significativa importância no processo,
sobretudo porque essa série de atos que se sucedem e são ligados por uma relação
causal não acontece de modo instantâneo, mas sim de maneira paulatina, com
pequenos intervalos.

Em harmonia ao mencionado, o autor Santos52 destaca que o termo processo


significa:

‘Ato de proceder', 'de ir por diante', 'curso', 'sucessão de estados ou de mudanças'.


Qualquer dessas expressões transmite a idéia de 'movimento'. Com o processo
judicial não é diferente. Também nele contem a noção de 'marcha', de algo que se
desenvolve ao longo de um tempo.

É "instituto essencialmente dinâmico, porquanto não exaure o seu ciclo vital em


um único movimento, mas é destinado a desenvolver-se no tempo, possuindo duração
própria"53, com nascimento, desenvolvimento e extinção, posto que somente das ilações das
aspirações dos litigantes em espaço que beneficie a dialética do conflito é que será admissível
obter a melhor resposta do direito. Não há como afastar a concepção de que o processo
“perdura” no tempo.
Nesse sentido argumenta Calamandrei54 que o processo:

Não é apenas uma série de atos que devem suceder-se e uma determinada ordem
estabelecida pela lei, mas é também, no cumprimento desses atos, uma ordenada
alternância de várias pessoas, cada uma das quais deve agir e falar nessa série de
atos no momento preciso, nem antes nem depois, do mesmo modo que ao interpretar
um drama cada ator deve saber ‘entrar’ a tempo para sua intervenção, ou em uma
partida de xadrez, em que os jogadores devem alternar-se com regularidade na
movimentação de suas peças. Mas a dialeticidade do processo não consiste nisto;
não é unicamente a alternância em ordem cronologicamente preestabelecida de atos
realizados por diferentes sujeitos, mas a concatenação lógica que vincula cada um
desses atos ao que se precede e ao que o segue, o nexo psicológico em virtude do
qual cada ato que uma parte realiza no momento preciso constitui uma premissa e
um estímulo para o ato que a contraparte poderá realizar imediatamente depois. O
processo é uma série de atos que se cruzam e se correlacionam como os movimentos

51
CARVALHO, Fabiano. Reforma do judiciário: Primeiras reflexões sobre a Emenda Constitucional n. 45/2004. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2005, p. 218.
52
SANTOS, Nelton Agnaldo Moraes dos. Direito Processual Civil. Processo Cautelar. Editora Campus Jurídico, 2007, p. 23.
53
TUCCI, Rogério Cruz e, op. cit. p. 25.
54
CALAMANDREI, Piero. Instituições de Direito Processual Civil, volume III, tradução de Douglas Dias Ferreira. 2 ed., Campinas/SP:
Bookseller, 2003, p. 229-230.
28

de um jogo: de perguntas e respostas, de réplicas e contra-réplicas, de ações que


provocam reações, que por sua vez suscitam contra-reações.

Esses argumentos são confirmados pela doutrina de Aury Lopes e Badaró55 ao


afirmar que "é característica de todo e qualquer processo durar, não ser instantâneo ou
momentâneo", visto que o processo manifesta-se por intermédio de um "desenvolvimento
sucessivo de atos no tempo. Daí porque o tempo está arraigado na sua própria concepção,
como concatenação de atos que se desenvolvem, duram e realizam numa determinada lógica
temporal". No “avançar, caminhar em direção a um fim. Todo o processo, portanto, envolve a
ideia de temporalidade, de um desenvolver-se temporalmente, a partir de um ponto inicial até
atingir o fim desejado”56.
Tucci57 ao analisar o tempo do processo, sob o aspecto intrínseco, pondera que não
é um tempo ordinário, posto que "da mesma maneira que o espaço judiciário reconstrói um
interior que encarna a ordem absoluta, o tempo do processo interrompe o desenvolvimento
linear do tempo cotidiano", permitindo à sociedade regenerar a ordem social e jurídica,
compensando “as lacunas do tempo profano”.
Diante das retóricas assinaladas acima, resta evidente que o tempo do processo é
aquele assinalado pelas quantificações, que simbolizará etapas de tempo imaginadas,
transcorridas. Partindo desta ideia, surgem as qualificações, a exemplo dos processos céleres,
lentos ou razoáveis, que na ideia de comparações vão apontar movimentos que melhor
expressem as demandas sociais.
Na análise do tempo e processo, não se pode considerar o "tempo" o vilão dentre
os obstáculos que afligem o processo, responsabilizando-o pela lentidão, morosidade e
onerosidade - traços que sobressaem ao percurso procedimental - o que levaria a encontrar no
tempo a resposta à suposta lentidão "do processo", ensejando uma busca desenfreada por
novas técnicas processuais em substituição àquelas que, sob influência do tempo, causariam
prejuízo aos que esperam pela prestação da tutela jurisdicional58.
Não é o tempo o inimigo do processo nem dos cidadãos, análise esta percebível na
apreciação do doutrinador Freitas59 que afirma ser o tempo:

Em sua essência, absoluto, verdadeiro e matemático, frui de forma linear, sem


relação com fatores externos, tendo, no entanto, sua 'medida', fixada por uma

55
Idem. p. 5-6.
56
SILVA, Ovídio A. Batista da. Curso de processo civil. Vol. I, 5 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000. p. 13.
57
TUCCI, Rogério Cruz e, op. cit. p. 26.
58
FREITAS, Sergio Henriques Zandona. e Freitas, Carla R. C. C. Z. Direito Processual - Estudos Jurídicos Aplicados. Coordenador: João
Antônio Lima Castro. Belo Horizonte: PUC Minas, Instituto de Educação Continuada, 2010. p. 231.
59
Idem. p. 231.
29

sucessão de eventos que indicariam o 'antes-e-depois', nessa linha contínua e


homogênea. Ou seja, não é o tempo que exerce influência nos eventos e sim eles
próprios em relação ao tempo. O que significa dizer, não ter o tempo força ou ação
para corroer ou prejudicar, uma vez que apenas flui em marcha num acontecimento
natural, restando ao evento, ou mais especificamente aos sujeitos nele envolvido, a
possibilidade de prejudicar ou não o outro.

Segundo Luhmann60, em um passo inicial, há no direito uma “tensão temporal”


em suas funções: atinente ao passado, à função de “estabilização de expectativa” e, em alusão
ao futuro, à função de “guia de comportamento”. E que o processo deverá ter o seu próprio
tempo, conforme o contexto em que está inserido, pois o tempo está inserido na sua própria
compreensão.
Em outras palavras, o fenômeno processual é responsável pela tarefa de recriação
do tempo (o "ritual" permite também que "a sociedade participe dessa criação"61). Disto
decorre, intrinsecamente, que se exige o decurso de um certo lapso de tempo para a solução
das questões que são submetidas à apreciação do Poder Judiciário - Aliás, é indisputável que o
processo judicial, até mesmo por uma constatação óbvia, anseia por uma cadência ordenada
de rituais e atos processuais para atingir seus vários escopos. Trata-se de reconhecer que a
função jurisdicional é voltada às tarefas de certificação e satisfação de direitos, exigindo,
inequivocamente, a prática de determinados atos processuais voltados a estes objetivos.
Poder-se-ia cogitar, portanto, de um tempo fisiológico (leia-se: "necessário" e "aceitável") de
duração do processo62.
O "tempo", essa sucessão abstrata e constante de instantes, de momentos que se
alternam, numa desenfreada continuidade irreversível, num contexto de fatos irrepetíveis, mas
que admite a quantificação imaginária por períodos. Partindo deste pressuposto, os instantes
se sucedem e o tempo se enlarguesce. Nessa perspectiva é admissível se verificar a existência
de um tempo "razoável", partindo da ideia de que a perpetuação do tempo enseja a sua
imaginária quantificação.
Soares63 sustenta o argumento de que:

A concepção que vai aprisionar o tempo, ou adequada a tanto, torna recorrente nesta
investigação o uso dos instrumentos de quantificação do tempo. Será o tempo do

60
LUHMANN, Niklas, Sociologia do Direito I e II. Tradução de Gustavo Bayer, Rio de Janeiro: TempoBrasileiro, 1985. pp.1983-1985.
61
SPENGLER, Fabiana Marion. Tempo, direito e constituição: reflexos na prestação jurisdicional do estado, Porto Alegre. Livraria do
advogado, 2008, p. 44.
62
KOZIKOSKI,Sandro Marcelo. Razoável duração dos processos, celeridade processual (CF, art. 5°, LXXVIII) e a discutível
responsabilidade estatal pela demora na prestação jurisdicional. Processo Civil em movimento. Coord. Eduardo Lamy. Grupo conceito.
Florianópolis. 2013. pp. 267-268.
63
SOARES, Luiz Antonio. Releitura da garantia da duração razoável do processo a partir da compreensão da temporalidade no
processo judicial. Disponível: http://www2.cjf.jus.br/jspui/bitstream/handle/1234/44342/Soares,%20Luiz%20Antonio.pdf?sequence=1. p.
90. Acesso em 15-12-2014.
30

processo marcado pela sucessão dos minutos, das horas, dos dias, dos anos, que
acontece ao longo da prática dos atos do processo. É o tempo do calendário que,
tendo em vista o movimento dos astros, vai tornar possível a administração da
convivência. Tem-se, aí, de fato, a imagem construída da duração, sendo o
calendário uma mera artificialização pragmática e reveladora do tempo, como algo
que 'dura' na ordem da sucessão de instantes. A importância da idéia da concepção
do tempo como duração, reside essencialmente na compreensão do aproveitamento
do tempo no percurso que se realiza, a partir do somatório dos atos reunidos do
processo.

Todavia, o verdadeiro tempo é aquele experimentado pelos próprios personagens


do processo, diante das horas que passam e envelhecem muito mais pelo que não é feito do
que pelas realizações nelas e por elas registradas; diante ainda do caso concreto, o tempo é
vivido de formas muito diferentes pelas partes do processo 64, posto que a ideia de
quantificação em períodos de tempo implica mera abstração imaginada pelo homem, onde se
busca superar no processo os numerosos entraves na contagem artificial do tempo,
minimizando as implicações do tempo vivido pelos integrantes da relação processual.
E esses personagens do processo poderão, dentro de suas condições de
possibilidades, praticar atos que as limitações do tempo admitam. É deste raciocínio que se
configura o tempo de cada ato e do processo como um todo, sendo que as consumações da
sucessão destes atos no processo ocorrem numa sucessão de instantes, fator que ratifica a
noção de que o tempo interatua no desdobramento do processo. O tempo não só é
imprescindível para a duração adequada do processo, como é a pedra angular na seleção das
prioridades na realização de cada ato, posto que é imperioso suplantar os diversos entraves
dispostos no percurso do tempo no processo, onde o Direito representa a ferramenta de
controle do tempo, posto que está intrinsecamente vinculado com o tempo no âmbito de sua
existência.
É justamente neste ponto que a tensão entre tempo de calendário (cronos) e o
tempo significante (kairos) desafia tanto o direito em geral, como o processo em particular,
sendo que, por vezes, a efetividade da tutela concedida encontra-se comprometida, em razão
do excessivo tempo de tramitação processual. É o chamado "dano marginal do processo"65.
Contudo, o problema não é o tempo em quanto tal, mas, sobretudo, seus efeitos no
processo. Em confirmação a essa ponderação, os autores Lopes Júnior e Badaró66 apregoam
que, embora o processo não seja um meio apto a fornecer uma resposta imediata aos

64
ROMEIRO, Marcio Anatole de Sousa. Celeridade ou duração do processo: do princípio ao direito. Revista Forense. v. 397. Ano 104.
Editora Forense. mai/junho de 2008. p. 227.
65
ROMEIRO, op. cit. p. 227
66
LOPES JUNIOR, ; Badaró. op. cit. p. 6
31

litigantes, isto por si só, não justifica permitir que tal resposta seja dada a qualquer tempo, e é
nesse contexto que se insere o problema do tempo do processo.
É próprio do processo ter a duração necessária ao desenvolvimento sucessivo de
atos processuais e, por isso, não foi criado para fornecer uma resposta imediata, porém não
pode ser levado ao extremo oposto de perdurar sem solução por tempo ilimitado. Por isso, a
preocupação de se encontrar um equilíbrio entre um processo que se desenvolva mediante um
procedimento que possibilite a satisfação do direito lesado em tempo razoável, sem
cerceamento, nem atropelo dos direitos e garantias constitucionais de defesa67.
O tempo do processo não pode ser concebido apenas como uma variável física,
ele terá sempre consequência que, de uma forma ou de outra, atinge a própria justiça. Afinal,
assim como o processo é instrumento do direito, é o meio pelo qual este se põe a serviço da
justiça, o tempo pode ser considerado como instrumento do processo. Um instrumento que
pode, certamente, viabilizar ou impedir o cumprimento de sua função, isto é, a realização do
justo como manifestação histórica da justiça.68
O processo integra os espaços temporais próprios, pois absorve na nascente das
memórias do passado, para suceder no tempo presente e, reproduzir-se no futuro, portanto,
trilha “um fluxo temporal próprio e tridimensional apropriando-se das três dimensões
temporais de uma só vez”69.
A autora Silva70 revela dois tipos de tempo: o tempo fora do processo, ou o tempo
social, delimitado de acordo com as necessidades da convivência comunitária, e o tempo
dentro do processo, que se perfaz em prazos processuais, na espécie de lide, nas espécies de
partes envolvidas, bem como outros fatores da vida do processo em si:

Não se deve contar o tempo processual em dias como no tempo fora do processo, ou
seja, o tempo social, para se alcançar a razoabilidade, pois, se um processo perdura e
chega seu termo em seis anos e pacificou o conflito existente, neste caso a
razoabilidade se perfez, apesar do decurso de seis anos, pois é imprescindível
analisar caso a caso, examinando os incidentes ocorridos ao longo da existência do
processo.

Na verdade o tempo dentro do processo não se traduz, tão somente, em prazos


processuais e em meras regras procedimentais, mas se revela num sentido tão ou mais
complexo quanto à significação de justiça, cuja concepção para Aristóteles se traduzia em
67
CARNEIRO JUNIOR, ; WAMBIER, op. cit. p. 15.
68
ROMEIRO, op. cit. p. 230.
69
HOFFMANN, Fernando. CAVALHEIRO, Larissa Nunes. NASCIMENTO, Valéria Ribas do. op. cit. p. 51.
70
SILVA, Ivanoska Maria Esperiada. O direito à razoável duração do processo e a responsabilidade civil pelo seu descumprimento no
ordenamento jurídico brasileiro. Dissertação (Mestrado) - Universidade Católica de Pernambuco. Pró-reitoria acadêmica. Curso de
Mestrado em Direito Processual, 2009. p. 115.
32

uma justa medida, pois, para se alcançar uma prestação jurisdicional célere, pode-se chegar ao
desencadeamento de uma injustiça célere, por outro lado, o excesso de tempo pode conduzir a
uma carência de justiça, daí se concluir que é necessário alcançar uma decisão justa conjugada
ao fator celeridade71.
O professor Rocha72 preleciona que "toda questão do Direito é uma questão de
controle do tempo. Quando operamos o Direito, queremos controlar o tempo".
É no "tempo do Direito" que vivemos a comprovação de que a sociedade está
evoluindo entusiasmada pelo "tempo da velocidade". Isto abrange a aptidão de resolver o
processo, em meio a riscos e paradoxos.
É nesse sentido a manifestação de Santos73 quando assinala que:

Dizer e realizar o direito não são tarefas singelas; demandam debate, reflexão,
análise, ponderação. A jurisdição imediata ou instantânea é, portanto, caminho curto
para a má aplicação do direito. Por outro lado, a excessiva demora em prestar-se a
jurisdição também é de todo indesejável. Com efeito, nada justifica a interminável
espera causada pela tormentosa duração do processo a que os cidadãos se veem
submetidos e da qual, ao final, resta sempre a sensação de injustiça .

Não há como imaginar a vida humana, desconsiderando as perspectivas que se


delineiam do passado para o futuro, nas individualizadas grandezas temporais: o tempo-
calendário, histórico e social.
Na análise do jurista e filósofo belga François Ost74, na apresentação de sua
primeira tese desenvolvida em sua obra O tempo do Direito, em 1999, quando trata da
"temporalização do direito", uma relação entre o tempo e o direito, destacando que:

O tempo se constrói literalmente, ele se 'temporiza'. É por isso que, se podemos 'dar'
o tempo, modalidade que privilegiamos, podemos igualmente 'tomá-lo', 'passá-lo',
'perdê-lo', 'encontrá-lo', 'matá-lo', 'ganhá-lo', 'remontá-lo' (...) o conceito de
temporalização nos servirá para pensar esta instituição social do tempo.

O autor vem tratar da importância que tem o tempo para o direito, que relação é
essa, para se entender o tempo do direito, principalmente, no que diz respeito à contagem do
tempo processual.

71
NICOLITT, André Luíz. A duração razoável do processo. Rio de Janeiro: Lumen Júris, 2006, p. 7.
72
ROCHA, Leonel Severo. STRECK, Lênio [org.]. O Direito na forma da sociedade globalizada. In: Anuário do programa de pós-
graduação em direito. Mestrado e Doutorado. São Leopoldo: Unisinos, 2001, p. 131.
73
SANTOS, op. cit. p. 24.
74
OST, François. O Tempo do Direito. Tradução Maria Fernanda Oliveira. Lisboa: Instituto Piaget, 1999, pp. 12-13.
33

A obra do autor75 acima mencionado é dividida em três vertentes ou teses centrais,


sendo que na primeira tese, analisa o “tempo” como uma “instituição social”, quando afirma
que é:

Antes de ser um fenômeno físico e uma experiência psíquica. Não há dúvida que ele
apresenta uma realidade objetiva, tão bem ilustrada pelo curso das estrelas, pela
sucessão do dia e da noite, ou pelo envelhecimento do ser vivo. Também é verdade
que dependa da experiência mais íntima da consciência individual que pode
experimentar um minuto de relógio, ora como tempo interminável, ora como
instante fulgurante. Mas quer o apreendamos em termos objetivos ou subjetivos, o
tempo é antes do mais uma construção social – e, logo, uma questão de poder, uma
exigência ética e um objeto jurídico.

O autor trabalha em sua obra em um primeiro momento, com um tempo subjetivo,


que, por meio da construção social, chegará a um tempo objetivo. Ou seja, é por intermédio
do tempo social que se chegou a um tempo cronológico76.
Em um segundo momento OST77 faz uma abordagem entre Direito e sociedade,
pontuando que a principal função do jurídico é a sua contribuição social, partindo da premissa
de que o direito é construção social, através de um discurso performativo que delineará toda a
vida em sociedade, não podendo reduzir o Direito ao mero reduzicionismo positivo de
condutas individuais e, sim, afirma que o Direito está voltado mais para a construção de
condutas coletivas do que para sancionar o indivíduo em particular, senão veja-se:

A segunda tese que sustenta esta obra diz respeito ao direito. Ela defende que a
função principal do jurídico é contribuir para a instituição social: mais do que
interditos e sanções, como outrora se pensava, ou cálculo e gestão, como
frequentemente se acredita hoje, o direito é um discurso performativo, um tecido de
ficções operatórias que exprimem o sentido e o valor da vida em sociedade. Instituir
quer aqui dizer estreitar o elo social e oferecer aos indivíduos os pontos de
referência necessários à sua identificação e autonomia. É sob o ângulo do seu
contributo para a subtração ao estado de natureza e a sua violência sempre
ameaçadora, sob o ângulo da sua capacidade de instituição, que o direito será, pois,
interrogado.

Na terceira e última tese sustentada na obra indicada, Ost78 preleciona acerca da


influência do direito no tempo e vice-versa, quando afirma que:

A terceira tese resulta da interação dialética das duas primeiras. Defender-se-á que
se estabelece um elo poderoso entre temporalização social do tempo e instituição
jurídica da sociedade. Em termos mais precisos: o direito afeta diretamente a

75
Idem. p. 12.
76
JOBIM, Marco Félix. op., cit. p. 63.
77
Ibid. p. 64.
78
OST, François. p. 14.
34

temporalização do tempo, ao passo que, em compensação, o tempo determina a


força instituinte do direito. Em termos ainda mais precisos: o direito temporiza ao
passo que o tempo institui.

O autor neste terceira tese defende que primeira está em total interação com a
segunda, em face da existência de um elo muito forte entre o tempo e o direito79 que, segundo
suas palavras, o “direito temporiza e o tempo institui”.
Continua o autor mencionando que a “primeira forma do tempo jurídico
instituinte é a da memória”, que permite o reparo e/ou a conservação dos fatos que
“importaram e ainda importam e são suscetíveis de conferir um sentido (uma direção e uma
significação) à existência coletiva e aos destinos individuais”. O autor pontua que:

Pelo ato da memória, as sociedades buscam responder à questão da origem que não
cessa de interpelá-los: onde?, de onde vêem?, de onde falam?, há que título agem?
Assim se amotoa, por essas confusões de respostas formuladas, na fronteira entre o
imaginário e o racional, um passado ‘memorável’ – digno de memória – onde se
enraíza a identidade coletiva. Sobre esta base de lembranças decretadas, comuns e
fundadoras, erige-se a consciência coletiva, na falta da qual não haveria, pura e
simplesmente, qualquer ação social possível, nem no presente, nem, a fortiori, no
futuro. Sem alimentar, por esse trabalho obscuro de carvoeiro, as lareiras da
memória, a sociedade continuaria em pane, sempre em busca de sua identidade 80.

Partindo desta mesma reflexão, Luhmann81 apregoa que o “futuro permanece


consequência do presente, cuja essência e cujo direito provêm do passado e só permitem
variações acidentais”.
Analisando a obra o Tempo do Direito, de Ost, Rocha82 sintetiza brilhantemente
ao dizer que:

Para Ost, claramente inspirado em Castoriadis, o Tempo do Direito possui três


características: a primeira, “o Tempo é uma instituição social, é uma construção
social”, isto quer dizer, que não existe o Tempo em si, o Tempo da fatalidade, ou
dos “bons tempos”. O Tempo é construído pela sociedade. A segunda que “o Direito
tem como função principal contribuir com a institucionalização social”, isto quer
dizer que a função de controle do Tempo do Direito é uma função instituinte, o
Direito tem que fazer com que aqueles instantes, aquelas possibilidades de constru-
ção e de decisão que nós realizamos na sociedade tenham duração, sejam
assimiladas, sejam institucionalizadas. Isto é, o Direito tem que fazer com que a
sociedade exista, o Direito constrói a sociedade. O Direito é um dos construtores da
sociedade, é construtor de instituições, ou seja, de decisões, de valores, de
experiências, de desejos, de atos. De situações que se quer que continuem, que se
mantenham, que se institucionalizam, então o Direito tem realmente a função de
institucionalizar a sociedade. A terceira característica seria que “é preciso uma

79
JOBIM, Marco Félix. Op., cit. p. 64.
80
OST, François. op. cit. p. 49-50.
81
LUHMANN, Niklas. Sociologia do direito II. Tradução de Gustavo Bayer. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1985. p. 168.
82
ROCHA, Leonel Severo. Tempo e Constituição. In: COUTINHO, Jacinto Nelson de Miranda; BOLZAN DE MORAIS, José Luis;
STRECK, Lenio Luiz (Org.). Estudos constitucionais. Rio de Janeiro: Renovar, 2007. p. 201.
35

dialética entre Tempo como instituição social e o Direito como institucionalização


social”.

No entender de Luhmann83, a conjugação entre tempo e direito está localizada na


“normatividade enquanto trasposição temporal, e até mesmo já no caráter do direito enquanto
estrutura de expectativas”.
Partindo da análise de Reale84, o “tempo da experiência jurídica não pode ser
comparado ao tempo igual, ou homogêneo, próprio dos fatos naturais, isto é, ao tempo que,
em última análise, equivale a um outro modo de ser do espaço”.
À luz destes entendimentos, vale concluir que o sistema judicial possui um tempo
próprio, mas que não é isolado, pelo contrário, está concatenado com os outros modelos
temporais que o rodeiam85.
Diante do revelado é constatável que a medida do tempo do direito, e mais
precisamente do tempo do processo, apesar de suas pecualiaridades, não pode ser visto em
desafino com a própria evolução da sociedade. E, para um melhor entendimento do que vem a
ser um tempo razoável de duração do processo, deve-se interpretá-lo à idéia de Ost86, ao
afirmar que “não é possível entender o direito senão dando tempo”, posto ser o fator tempo
uma das maiores provocações desafiantes da capacidade instituinte do direito.

2.0 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA RAZOÁVEL DURAÇÃO DO


PROCESSO COMO UM DIREITO HUMANO FUNDAMENTAL

2.1 Contextualização Histórica do Direito à Razoável Duração do Processo


nos Diplomas Internacionais de Direitos Humanos

Um primeiro passo para a institucionalização dos direitos e garantias do homem


em âmbito internacional se deu com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de
1948.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos se apresentou como o documento
de maior conotação internacional e mais amplamente aceito em matéria de princípios de
direitos humanos ao longo da história, elencando em seu conteúdo “os direitos e as liberdades

83
LUHMANN, Niklas. op. cit. p. 166.
84
REALE, Miguel. O direito como experiência: introdução à epistemologia jurídica. 2ª ed. (3ª tiragem 2002). São Paulo: Saraiva, 1992,
p. 219-220.
85
ARRUDA, Samuel Miranda. O direito fundamental à razoável duração do processo. Brasília. Brasília Jurídica, 2006, p. 20.
86
OST, François. op. cit. p. 14.
36

fundamentais, assentando uma base axiológica universal de respeito e proteção, um


paradigma ético e humanitário, também aplicável ao sistema criminal, ao processo penal,
como regras internacionais de jus cogens”87.
Uma nova era da universalidade dos direitos humanos se funda. A Declaração pôs
fim à questão da justificação dos direitos humanos, pois foi um marco na história dos direitos
humanos, representando a demonstração de prova indiscutível por meio da qual um sistema
de valores pode ser considerado fundado, através da concordância geral acerca de sua
validade88.
No que diz respeito ao direito do homem ao processo em tempo razoável, a
Declaração Universal em seu inteiro teor, não fez uma menção expressa e direta à temática.
Todavia, quando estabeleceu em seu art. 8° que “toda pessoa tem direito a recurso efetivo
para as jurisdições nacionais competentes, para os atos que violem os direitos fundamentais
que lhe sejam reconhecidos pela Constituição ou pela Lei”, permaneceu abrigada a
perspectiva de temporalidade que se acha compreendida na noção de “recurso efetivo”. Esta
perspectiva estaria também de certa maneira apreciada nas normas genéricas que avalizam o
julgamento equitativo, a presunção de não culpabilidade e o processo com todas as garantias
de defesa. Contudo, a admissão expressa do direito à razoável duração do processo, só se
efetuaria com a adoção de pactos regionais de proteção dos direitos humanos89.
Disseminada a semente de proteção internacional, não tardaram a frutificar novos
documentos internacionais, de âmbito global ou regional, agora já com formato de tratados
internacionais, e instituindo obrigações para os subscritores no plano internacional90.
As fontes basilares que assentaram o direito do homem à razoável duração do
processo ao longo da história, após a Declaração Universal de 1948 de Direitos Humanos,
foram: (1) Convenção Europeia dos Direitos do Homem de 1950; (2) Pacto Internacional
sobre os Direitos Civis e Políticos de 1966; (3) Convenção Americana sobre Direitos
Humanos de 1969, e de 1981 Africana (Banjul) Carta dos Direitos Humanos e dos Povos; (4)
uma série de declarações adotadas pela Assembleia Geral das Nações Unidas ou de outras
organizações internacionais sobre um sistema judiciário, a aplicação da lei independente, o
tratamento de juvenis e outras questões; (5) a jurisprudência dos tribunais europeus ou
interamericano de direitos humanos e da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, um

87
GIACOMOLLI, Nereu José. O devido processo penal: abordagem conforme a Constituição Federal e o Pacto de São José da Costa
Rica. Ed. Atlas: São Paulo, 2014. p. 4.
88
BOBBIO, N. A era dos direitos. 8. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1992. p. 26.
89
ARRUDA, Samuel Miranda. op. cit. p. 136.
90
Idem, p. 136.
37

órgão quase-judicial; e (6) as constituições ou estatutos de cada país que soletraram as


garantias de direitos civis , incorporando as disposições do direito internacional.

2.1.1 Convenção Europeia dos Direitos do Homem de 1950

A Europa avançou na consolidação dos direitos fundamentais, dando um


significativo passo na universalização desses direitos, na consolidação da Convenção
Europeia para Proteção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais, subscrita em
04 de novembro de 1950, em Roma, no chamado Pacto de Roma, em vigor a partir de 1953.
A Convenção Europeia de Direitos Humanos foi pioneira em tratar de forma
expressa e com maior detalhamento, em tratado internacional de direitos humanos, acerca do
direito fundamental do homem à razoável duração do processo.
Em distintos momentos, a Convenção Europeia reservou ao tema da razoável
duração do processo. Primeiramente, tratou no art. 5°, reservado ao título dos “direitos à
liberdade e à segurança”, que no seu item 3°, garantiu ao custodiado o “direito a ser julgado
em um prazo razoável”. Nota-se o caráter excepcional da privação de liberdade diante da
custódia do Estado e o imperativo do incremento de direitos singulares aos que suportavam
esta medida.
É admissível explicitar que a interpretação textual da norma do art. 5.3 da
Convenção Europeia pode acarretar uma conclusão desvirtuada do sentido real, posto que na
versão inglesa a expressão entitled to judgement within a reasonable time or to release
pending Trial, traz em seu teor a conjunção alternativa que pode ao sentir do intérprete
traduzir uma mera imprecisão de discricionariedade na aplicação da norma entre, julgar em
prazo razoável ou assegurar a libertação em razão de sua irrazoabilidade, e, com isso, uma vez
solto permitiria não mais ao Estado proceder ao seu julgamento de forma razoável, o que seria
um verdadeiro contrassenso. Todavia, tal interpretação foi rejeitada em diversas
oportunidades pela Corte Europeia91 manifestando-se no sentido de que o direito ao
julgamento em um prazo razoável independe do imputado estar ou não em liberdade, embora
sejam os parâmetros diferentes para se aferir a razoabilidade, a depender da restrição da
liberdade. Interpretar de forma contrária, seria ir contra ao art. 6° da mesma Convenção, que

91
Wemhoff x Alemanha, n° 2.122, julgado pela Corte de Estrasburgo em 27 de junho de 1968 e Neumeister x Áustria, na mesma data.
38

assevera o direito geral a um tempo razoável de tramitação processual92, de forma genérica.


Senão veja-se o conteúdo do art. 6º, § 1º, que estabelece o direito a um processo equitativo:

Qualquer pessoa tem direito a que sua causa seja examinada, equitativa e
publicamente, num prazo razoável por um tribunal independente e imparcial,
estabelecido pela lei, o qual decidirá, quer sobre a determinação dos seus direitos e
obrigações de caráter civil, quer sobre o fundamento de qualquer acusação em
matéria penal dirigida contra ela93. (...)

A Convenção Europeia institui com esta norma o reconhecimento categórico de


que Justiça que não cumpre seu papel de dizer o direito dentro de um prazo razoável é uma
justiça inatingível94.
Em se tratando de acusado custodiado, a Convenção ainda realiza na norma
inscrita no art. 5.4 um reforço adicional à garantia já prevista anteriormente, quando anuncia
direito de recurso a um tribunal para análise da legalidade da medida constritiva de liberdade.
Entretanto, a norma, além da previsão de direito a acesso aos tribunais para discussão dos
motivos e/ou razões autorizadoras da prisão e/ou de sua manutenção, realiza uma
determinação expressa de que essa análise não pode ocorrer em um tempo dessarazoado.
Como se pode perceber da redação do art. 5.4: “Toda pessoa privada de liberdade mediante
detenção preventiva ou internamente terá direito a apresentar um recurso ante um órgão
judicial a fim de que este se pronuncie em curto prazo sobre a legalidade [...]”.
Não sendo satisfatório tão-somente o direito de acesso ao tribunal para a
apreciação da legalidade e/ou dos motivos autorizadores da continuidade da prisão, sem que
fosse garantido esse direito em um curto prazo de apreciação. Busca-se anteparar que o agente
lance mão de meio recursal com o escopo de cassar a ordem de prisão considerada arbitrária,
abusiva por parte do Estado, ou impedir que se manifestem os efeitos de sua continuidade
desnecessária, e este tenha seu julgamento protelado de maneira indevida, com o que se
estaria a dilatar indevidamente o próprio direito de liberdade do recorrente. O exercício do
direito à razoável duração visa alcançar o direito de liberdade, a fim de que não se perpetue,
além do estritamente indispensável, a posição de custodiado provisório do Estado, sem ainda
uma condenação definitiva.
Constata-se que o dispositivo acima transcrito é bastante específico, garantindo a
existência de uma ferramenta célere que garanta a rapidez na análise de qualquer privação de

92
ARRUDA, Samuel Miranda. op. cit. p. 143.
93
Convenção Européia dos Direitos do Homem – Convenção para proteção dos direitos do homem e das liberdades fundamentais.
Disponível em http://www.cjf.jus.br/caju/tratados.pdf. Acesso em 22-5-2014.
94
CAPPELLETTI, Mauro. Acesso à Justiça. Porto Alegre: Antônio Fabris Editor. 1998. p. 20-21.
39

liberdade. É fácil perceber tal entendimento quando da utilização do termo “curto prazo” em
detrimento da expressão “prazo razoável” utilizada em outros artigos. Quando o redator da
Convenção utilizou-se da expressão “curto prazo”, quis concluir pela necessidade de um
prazo bem mais exíguo, sendo oportuno o desenvolvimento de critérios autônomos para haver
essa delimitação. Posto que a acolher a morosidade na análise dos mecanismos de
averiguação de legalidade ou da necessidade da prisão será uma denegação do próprio direito
à liberdade. Revela a necessidade de se inserir no ordenamento jurídico interno dos países
subscritores da Convenção a criação de meios de mecanismos processuais sumários de análise
da legalidade e/ou necessidade da privação de liberdade95.
Dentro da análise das duas normas supramencionadas anteriormente, quais sejam,
a do art. 5° e 6° da Convenção Europeia, vale destacar ainda que no art. 6° a redação foi
dirigida ao direito a um “processo equitativo”, proclamando de forma significativa o direito
do agente a um processo em um prazo razoável, sem atrasos injustificados. Contudo, não se
pode esquecer que embora esse direito já houvesse sido consagrado antes no art. 5°, tratando
da necessidade de aceleração da apreciação dos direitos atinentes à liberdade e, no artigo
seguinte, é o processo em tempo razoável, em verdade a diferença entre esses dois artigos está
no bem jurídico que pretende proteger em cada uma deles.
Vale ressaltar no que diz respeito à necessidade de agilização dos procedimentos e
a garantia do tempo mínimo para a efetiva preparação da defesa do réu, a Convenção
Europeia tratou do direito a um processo equitativo em um único artigo, em seu art. 6°,
fazendo inserir no curso o direito a um prazo razoável, explicitando acerca da necessidade de
observância de prazo célere o suficiente a não trazer prejuízos aos interesses das partes, mas
não tão exíguo a ponto de comprometer a realização da justiça, com a efetiva manifestação
dos direitos de defesa do réu.
Todavia, no decorrer do disposto no art. 6°, mais precisamente em seu parágrafo
(3, b), surge a reafirmação do direito de que o réu possui de dispor de tempo necessário à
preparação de sua defesa, concomitantemente ao seu direito à razoável duração do processo,
consubstanciando-se a designação de tempo razoável, o tempo necessário entre a agilização e
a prudência na tramitação processual96.
A Convenção com as normas contidas no artigo 13 (direito a um recurso efetivo),
artigo 35 (condições de admissibilidade) e artigo 41 (reparação razoável), complementa a
norma presente no art. 6, parágrafo 1°.

95
ARRUDA, Samuel Miranda. op. cit. p. 144-145.
96
Ibid., p. 147.
40

Contudo, a Convenção Europeia de Direitos Humanos não fornece qualquer


indicação precisa quanto ao prazo razoável de duração do processo e quanto ao conteúdo do
sentido de "atraso injustificado".
Em outras palavras, no nível de Convenção, não há exatidão quanto à duração
razoável para cada fase do processo, dada em anos ou meses.
Assim, a avaliação relativa ao significado da expressão “razoável duração” do
processo fica a encargo da jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e de
acordo com a jurisprudência dos tribunais nacionais através de análise em cada caso concreto
e não em termos abstratos, acerca do que venha a ser tempo razoável.

2.1.1.1 Corte Europeia dos Direitos do Homem

Nenhum outro tema dos direitos humanos foi e tem sido objeto dos mais variados
julgados perante a Corte Europeia dos Direitos do Homem, criado no art. 19 da Convenção
Europeia, no que diz respeito à avaliação do que seja “prazo razoável", no contexto da
duração processual. Pois, sua conceituação e sentido passaram a ser analisados com base na
ponderação e apreciação de cada caso, sob o crivo de três critérios acerca do tempo de
duração do processo: a) a complexidade da causa; b) o comportamento dos litigantes e de seus
procuradores; e c) a atuação do órgão jurisdicional97.
O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos98, a quem cabe o julgamento de
processos que abrangem violações ao artigo 6°, §1°, da Convenção Europeia de Direitos do
Homem, em relação aos países signatários da aludida convenção, tem jurisprudência
consolidada no sentido de que a violação ao direito à duração razoável do processo deve ser
ponderada à luz das peculiaridades do caso concreto e com menção aos critérios
supramencionados99.
Um dos primeiros casos a tratar sobre o direito à razoável duração do processo,
pela Corte Europeia foi o caso Wemhoff100, de 1968, preso por 03 anos e 05 meses sem que
houvesse julgamento de seu processo. A Corte decidiu que, para valorar sobre a razoável
duração de uma prisão, deveria levar em consideração os critérios já sublinhados.
97
TUCCI, José Rogério. op. cit. p. 68.
98
“The Court reiterates that the reasonableness of the length of proceedings must be assessed in the light of the circumstances of the case and
with reference to the following criteria: the complexity of the case, the conduct of the applicant and the relevant authorities and what was at
stake for the applicant in the dispute (see, among many other authorities, Frydlender v. France [GC], no. 30979/96, § 43, ECHR 2000-VII) in
(SECOND SECTION CASE OF GOTTHÁRD-GÁZ KFT v. HUNGARY (Application no. 28323/04), STRASBOURG, 5 June 2007)).
99
Critérios: a complexidade da causa, a conduta do requerente e da autoridade judiciária e a relevância do objeto para o requerente na
disputa. (TEDH, SECOND SECTION, CASE OF GOTTHÁRD-GÁZ KFT v. HUNGARY (Application n°. 28323/04), STRASBOURG, 5
June 2007)).
100
TREPAT, Cristina Riba. La eficacia temporal de proceso: El juicio sin dilaciones indebidas. Barcelona: J.M. Bosch, 1997.
41

Em 1978, a Corte Europeia de Direitos Humanos reconheceu a violação ao direito


à razoável duração do processo, no caso “Konig versus Alemanha” 101
, tendo o Tribunal
entendido que não justificava que um processo penal durasse 10 anos, mesmo levando em
conta os critérios elencados no caso concreto, tais como, a complexidade da causa, o número
de réus e a conduta das autoridades judiciais.
A Corte em 1982, no caso Eckle102 tratou da instrução penal como um todo, tendo
sido a Alemanha condenada por descumprimento ao artigo 6.1 da Convenção Europeia de
Direitos Humanos. A acusação era contra o casal Eckle processados pela prática de
quatrocentas fraudes na gestão de suas empresas, tendo o processo se estendido ao longo de
trinta e cinco anos, fato este que levou a Corte Europeia a considerar uma afronta ao direito a
um prazo razoável no processo penal.
Contudo, diante dos critérios adotados pela Corte Europeia, doutrinadores103
pátrios apregoam que:

O reconhecimento desses critérios traz como imediata consequencia a visualização


das dilações indevidas como um conceito indeterminado e aberto, que impede de
considerá-los como a simples inobservância dos prazos processuais prefixados.

Ou seja, a interpretação do que venha a ser tempo razoável, segundo a Corte


Europeia de Direitos Humanos, é vago, impreciso e indeterminado, cuja significação irá
depender da análise de um conjunto de fatores correlacionados a cada caso concreto, não
existindo um prazo que sirva de baliza para se determinar o limite entre tempo razoável e a
dilatação indevida do processo.
Nesse sentido, a Corte no caso Wemhoff104 afirmou que:

El problema más importante consiste, pues, em extraer la significación exacta de las


palabras ‘plazo razonable’. La Comisión estima que esta expresión es vaga y falta
de precisión y que no es, por consiguiente, posible determinar de una manera
abstracta su alcance exacto, que puede ser expresado más que a la luz de las
circunstancias particulares de cada caso.

Conforme este aspecto da conceituação do que vem a ser prazo razoável segundo
o entendimento da Corte, o jurista Pons105 assevera que

101
TEDH, acórdão König vs. Alemanha de 28 de junho de 1978, série A, n.° 27, § 88.
102
TEDH. Eckle vs. República Federal da Alemanha (Série A, n ° 51, pedido n 8130/78). (1983) 5 EHRR 1, 15-7-1982.
103
TUCCI, José Rogério Cruz. Garantias constitucionais do processo civil: homenagem aos 10 anos da constituição federal de 1988. São
Paulo: Revista dos Tribunais, 1999. p. 239.
104
TEDH, caso Wemhoff, sentença de 27-6-1968.
105
PONS, Enrique Garcia. Responsabilidad del Estado: la Justitia y sus limites temporales. Barcelona: Bosh, 1997. p. 91-92.
42

En este sentido procede contemplar el concepto jurídico indeterminado como um


concepto abierto, que en palabras de la jurisprudência del Tribunal Europeo ‘varia
em el tiempo y em el espacio em nuestra época’ y cuyo control corresponde a los
órganos jurisdiccionales y en última instancia al TEDH.

E ainda no caso Beaumartin106, a Corte se pronunciou destacando que “el


carácter razonable de la duración de un procedimiento se aprecia con ayuda de los criterios
consagrados por la jurisprudencia del Tribunal y según las circunstancias del caso”.
Na visão de Eissem107, no que diz respeito aos casos julgados pela Corte Europeia,
a questão de maior relevância está vinculada ao sentido do termo “tempo razoável”, ou ainda
quando e como se dá o seu ponto de partida. Diante dos julgados, em matéria criminal,
convencionou-se dizer que o ponto de partida é do momento em que o agente encontra-se
diante de uma acusação, onde a avaliação da razoabilidade parte da análise das circunstâncias
atinentes ao caso concreto108.
Partindo desta explanação, a Corte Europeia de Direitos Humanos abraçou a
teoria do “não-prazo” para realizar a interpretação do que vem a ser “tempo razoável” de
duração do processo.
Essa teoria está pautada na interpretação de que o conceito de tempo razoável é
indeterminado, impreciso, tendo o julgador a missão de avaliar em cada caso concreto o que
vem a ser o limite do razoável na duração do processo, não devendo estar atrelado ao fator de
um tempo pré-determinado, a um prazo fixado em dias, meses ou anos, pelo contrário, deixa
margem a uma diretriz aberta de interpretação, que permite avaliar caso por caso o sentido do
que vem a ser essa razoabilidade no tempo do processo, de acordo com a aferição dos critérios
elencados abaixo:

a) A complexidade da causa109

Constitui o critério inicial de objetivação utilizado pelo Tribunal Europeu de


Direitos Humanos, sendo o ponto de partida, na análise de cada caso concreto, sobre o
cumprimento ou a violação do conteúdo fundamental do direito à razoável duração do
processo110.

106
TEDH, caso Beaumartin, de 24-11-1994.
107
EISSEM, Marc-André. op. cit. p. 9.
108
Caso Zimmerman e Steiner versus Suíça tendo o Tribunal Europeu ponderado a razoabilidade dentre os critérios do caso concreto, tais
como, a complexidade do caso, o número de réus envolvidos e a conduta da autoridade judiciária.
109
TEDH. Casos: Katte Klitsche de la Grange v. Itália; Papachelas vs. Grécia; H. vs. Reino Unido; Humen vs. Polónia; Tierce vs. San
Marino, G.S. vs. Àustria
110
KOEHLER, Frederico Augusto Leopoldino. A razoável duração do processo. 2 ed. Salvador: ed. Juspodivm. 2013. p. 94.
43

O presente critério diz respeito à natureza do processo e ao seu grau de


complexidade, assim como às inúmeras circunstâncias factuais e questões jurídicas a ser
decididas no decorrer da tramitação processual111, tais como, o número e a natureza das
acusações, o número de réus e de testemunhas, da necessidade de provas periciais complexas,
da conexão de ações, da multiplicidade de incidentes processuais suscitados pelas partes, da
apresentação de questões novas e de difícil interpretação jurídica112, complicadas questões de
provas, um grande número de recursos interpostos pelas diferentes partes, a exigência de
alguns processos exigirem a aplicação de leis novas ainda que haja o confronto com
jurisprudência dominante, acarretando um maior tempo de análise e pesquisa.
Assim, o TEDH definiu em um caso concreto o que vem a ser o critério da
complexidade da causa, ao apontar que:

La prolongada duración del proceso acaso venga justificada por la complejidad de


la materia litigiosa, por la necesidad de practicar diligencias de prueba
complicadas (singularmente periciales, testificales a realizar en el extranjero o
fuera del partido judicial), por el número de inculpados o demandados y de testigos,
amplitud o dificultad de la materia investigada, necesidad de articular solicitudes
de extradición, aportación de documentos, etc.113

Em consonância ao explanado acima, Koehler114 assinala que:

A causa sob exame pode ser mais complexa do que a média dos processos da mesma
natureza, devido a uma grande quantidade de fatos a serem provados, ou à densidade
das questões jurídicas a serem discutidas e apreciadas nos autos, ou mesmo às
circunstâncias peculiares que cercam a lide, justificando-se, nesse caso, um
tratamento processual excepcionalmente dilatado no tempo. Uma lide que demande
extensa produção probatória, por exemplo, exigirá mais tempo de tramitação do que
outra que verse meramente sobre questões de direito, inexistindo controvérsias
fáticas.

O doutrinador Eissen115 aponta que a complexidade da causa no processo criminal


apresenta-se em diversas facetas, dentre elas, vale ressaltar: “a) por causa do tipo, extensão,
entrelaçamento e ocultação dos crimes com que um ‘acusado’ é cobrado; b) devido ao grande
número de réus e testemunhas; c) por causa da necessidade de recorrer a peritos, d) questões
difíceis de prova”.

111
Nesse sentido, são as sentenças proferidas pelo TEDH nos caos Borgese, de 26-2-92, Unión Alimentaria Sanders S.A., de 07-7-89, Milasi,
de 25-6-87, e Zimmermann y Steiner, de 13-7-83, e também os julgados do Tribunal Constitucional da Espanha, sob a numeração 69/94 e
223/88, conforme referido em PONS, Enrique García. Responsabilidade del Estado: la justicia y sus limites temporales. Barcelona: J. M.
Bosh Editor, 1997, p. 137, notas 20 e 21.
112
PONS, Enrique Garcia. op. cit. p. 139- 140.
113
TEDH de 27 de junio de 1968, caso NEUMEISTER.
114
KOEHLER, Frederico Augusto Leopoldino. op. cit. p. 95.
115
EISSEN, Marc-André. The length of civil and criminal proceedings in the case-law of the European Court of humam Rights.
Strasbourg: Council of Europe Pub; Croton-on-Hudson, NY, USA: Manhattan Pub. 1996. p. 22.
44

Naturalmente, caso se trate de causa complexa, é de se esperar que o processo


exija mais tempo, a fim de que sejam produzidas as provas necessárias, diferentemente do que
ocorre em causas singelas. A base da análise deste critério será a complexidade dos fatos, do
processo e do direito.

b) O comportamento dos litigantes e de seus procuradores116

As partes numa relação jurídica processual poderão fazer uso de todos os


instrumentos necessários previstos no ordenamento jurídico, contudo, faz-se necessário
realizar uma distinção entre o uso destes instrumentos do abuso do direito e o intuito
meramente protelatório.
Os direitos constitucionais ao contraditório e ampla defesa devem ser exercidos,
porém não podem ser utilizados como formas de procrastinar a duração da relação jurídica
processual.
Desta forma, deve ser ponderado se o atraso pode ser imputado ao comportamento
das partes e de seus procuradores, analisando, por exemplo, se foram praticados atos
atentatórios ao exercício da jurisdição, como retenção indevida de autos, provocação de
incidentes manifestamente infundados, interposição de recurso com intuito manifestamente
protelatório, reiteração de adiamentos de audiências requeridas pelas partes (acórdão do
TEDH no caso Kemmache, de 27-11-1991), constantes trocas de advogados (acórdão do
TEDH no caso König, de 28-6-1978), fuga do acusado, impedindo ou retardando o
julgamento (acórdão do TEDH no caso Girolani, de 19-2-1991), retardamento em razão à
renovação de atos nulos por culpa da parte, o tempo despendido pelo demandante para
nomear um novo defensor e ausências do litigante às audiências117.
O doutrinador Bartolome118, em apreciação à jurisprudência do TEDH, preleciona
que:

Por su parte, el Juez Zekia, en voto particular formulado en el caso Reingeisen,


señalaba: ‘...el demandado no cesó de inundar a los tribunales y otras autoridades
de demandas y recursos de todo tipo, acusando de parcialidad a los jueces o
impugnando la composición de los tribunales. Sus motivos se revelaron enteramente
indefendibles e infundados. En otros términos, abusó constantemente del

116
TEDH. Casos: Erkner e Hofauer vs. Áustria; Unión Alimentaria Sanders SA vs. Espanha; Poiss. vs. Áustria; Wiesinger vs. Áustria;
Humen vs. Polónia; Vernillo vs. França; König vs. Alemanha; Acquaviva vs. França; Pizzetti vs. Itália; Laino vs. Itália; Beaumartin vs.
França.
117
KOEHLER, Frederico Augusto Leopoldino. op. cit. p. 103.
118
BARTOLOME, Placido Fernandez-Viagas. El Derecho a um proceso sin dilaciones indebidas. Madrid: Editorial Civitas, S.A. 1994. p.
92.
45

procedimiento judicial, lo que tuvo por resultado prolongar sin necesidad la


instrucción y retrasar el final del asunto, impidiéndole ser llevado ante la
jurisdición de fondo’. Es la manipulación del procedimiento, y su abuso, lo que se
quiere sancionar.

É imperioso deixar claro que neste critério deve ser levado em consideração quando
for devido e previamente constatado que o retardamento impróprio na prestação jurisdicional
não suceda da falha estatal.

c) A atuação do órgão jurisdicional119

É papel do Estado assegurar uma prestação jurisdicional efetiva, que além de


respeitar as garantias constitucionais do processo, a ela seja dada uma solução em tempo hábil
a fim de que não se gere a insegurança jurídica.
Este critério se apresenta como o principal critério objetivo de análise sobre a
avaliação da razoabilidade do tempo do processo, pois atua como excludente dos outros dois
critérios.
O comportamento das autoridades judiciais deve ser avaliado, examinando se
houve procrastinações indevidas, como por exemplo, se o juiz não se valeu dos seus poderes
para promover o regular andamento do processo, nos casos em que, ilustrativamente, o perito
excede sobremaneira o prazo para conclusão do laudo pericial, hipótese, aliás, muito comum
nos dias de hoje120.
O Estado é, no entanto, responsável por atrasos causados por todas as suas
autoridades judiciais. Quando lidar com casos relacionados com duração de um processo, os
Tribunais e os juízes devem ter em conta o princípio da boa administração da justiça, em
razão do dever de lidar adequadamente com os casos colocados às suas disposições.
Nesse sentido é a manifestação de Koehler121 quando aponta que:

O órgão judicial e as demais autoridades intervenientes na demanda devem atuar em


prol da célere tramitação do feito, constituindo-se, ao lado da Administração Pública
como um todo, nos principais destinatários da norma constitucional que assegura às
partes o direito fundamental à razoável duração do processo. Caso o retardamento do
processo seja imputável à conduta das autoridades públicas atuantes na lide,
configura-se um dos elementos de constatação da lesão à garantia fundamental.

119
TEDH. Casos: Buchholz vs. Alemanha; Papageorgiou vs. Grécia; Humen vs. Polônia; Martins Moreira vs. Portugal; Pafitis e outros
contra a Grécia; Tierce vs. San. Marino; Sürmeli vs. Alemanha; Capuano vs. Itália; Versini vs. França; Sürmeli vs. Alemanha; Scordino vs.
Itália; SUSSMANN vs. Alemanha; Voggenreiter contra Alemanha; Orsus e Outros vs. Croácia; Von Maltzan e outros contra. Alemanha;
Probstmeier vs. Alemanha; Vocaturo vs. Itália; Cappello vs. Itália.
120
ROSITO, Francisco. O princípio da duração razoável do processo sob a perspectiva axiológica. Revista de processo. Ano 33. n° 161.
jul./2008. Coord. Teresa Arruda Alvim Wambier. Ed. Revista dos Tribunais. p. 33.
121
KOEHLER, Frederico Augusto Leopoldino. op.cit. p. 105.
46

Esse é o entendimento do doutrinador Alemão AMBOS122 quando revela


jurisprudência do TEDH:

O Tribunal lembrou sua jurisprudência já consolidada, segundo a qual os Estados


membros estão obrigados a organizar seus sistemas de justiça de tal forma que os
tribunais possam concluir os processos dentro de um prazo razoável. Com isso se
conclui que o art. 6 (1) não contém somente garantias propetoras de direitos
individuais mas, também, uma pretensão dirigida aos Estados membros de prover os
tribunais dos meios materiais e humanos suficientes para que possam levar a cabo os
processos (civis e penais) dentro de um prazo razoável. No presente caso, devia-se
atribuir as dilações indevidas do processo às autoridades alemãs, mesmo tendo-se
em conta que o processo penal que visava apurar delito contra o meio ambiente
tenha apresentado certa complexidade. O tribunal entendeu como dilação indevida
especialmente grave o transcurso de 15 meses entre o fim das investigações policiais
e a formulação da acusação e, da mesma forma, a duração de 2 anos e 3 meses até o
reexame da sentença pelo BGH com fundamento em vício do procedimento,
mormente porque a sentença do LG não foi prolatada dentro do prazo legalmente
exigido. O TEDH, em conclusão, reconheceu ter havido uma violação do art. 6 (1),
deferindo ao recorrente uma indenização (art. 41) pelos danos morais sofridos. (...)

Portanto, a fim de avaliar a razoável duração, deve-se verificar se a duração


temporal do processo é justificada para resolver o conflito e outorgar a devida tutela. Importa
analisar se o processo se desenvolveu em condições de normalidade dentro do tempo exigido
para que os interesses litigiosos pudessem ter a pronta satisfação. Logo, o mero
descumprimento de prazos não é constitutivo, por si só, de violação ao princípio em
questão123.
Contudo, a doutrina europeia à luz do entendimento da Corte de Strasburg, vem
reconhecendo um parâmetro temporal de 03 anos para se chegar a um termo dos processos,
passando a julgar inadmissíveis os recebimentos dos recursos que duraram um tempo menor
que este período124.

2.1.2 O Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (PIDCP)

Sob o prenúncio das Nações Unidas, ulteriormente, iniciou-se a elaboração de


dois pactos internacionais de direitos humanos, que associados à Declaração Universal
integrariam a Carta Internacional dos Direitos do Homem. Foram eles: o Pacto Internacional
sobre Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e
Culturais.

122
AMBOS, Kai. Processo Penal Europeu: preservação das garantias e direitos individuais: Princípios processuais e análise da
Convenção Européia de Direitos Humanos. Tradução, notas e comentários sob a perspectiva brasileira de Marcellus Polastri Lima. Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 2008.
123
JUNOY, Joan Picó i. Las Garantias Constitucionales dei Proceso. Barcelona: Jose Maria Bosch Editor: 1997. p. 118.
124
MARTINO, Roberto. Sul Diritto all equa riparazione ecc. Rivista di diritto processuale, n.4, 2001. p. 1078
47

O Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, adotado pela Assembleia


Geral das Nações Unidas, por intermédio da Resolução n° 2.200-A, de 16 de dezembro de
1966, aprovado pelo ordenamento jurídico pátrio por intermédio do Decreto Legislativo n°
226, de 12-12-1991, e tendo a sua promulgação ocorrida pelo Decreto n° 592, de 6-12-1992,
conhecido também como Pacto de Nova York de 1966, estabeleceu em seu art. 9°, a
consagração aos direitos à liberdade e à segurança pessoais; no seu parágrafo 3°, o direito do
preso em razão de infração penal a ser imediatamente informado das acusações contra ele
impostas e o dever de ser apresentado a um tribunal; além disso, o direito a um julgamento
"dentro de um prazo razoável" (within a reasonable time).
Constata-se que a norma indicada acima é aplicada especificamente ao réu preso,
sendo uma garantia aplicada em razão da sua presunção de sua inocência e tutela a liberdade
do acusado. No parágrafo 4° foi estabelecido o direito à interposição de recurso contra a
prisão. O primeiro dispositivo estava direcionado aos presos em processo penal, enquanto este
último a toda e qualquer modalidade de prisão. Destarte, o custodiado, qualquer que seja o
motivo de sua prisão, terá direito à interposição de recurso judicial, devendo a apreciação
ocorrer “without delay”.125
No Pacto, pela primeira vez ocorre a utilização da expressão do direito a um
processo “sem dilações indevidas”, surgindo como uma “garantia mínima” a ser reconhecida
“a toda pessoa acusada de um delito”, mas com "tempo suficiente" para a preparação de sua
defesa (artigo 14, 3, c), de forma universal, estabelece neste artigo que “Toda pessoa acusada
de um delito terá direito, em plena igualdade a, pelo menos às seguintes garantias (...) a ser
julgada sem dilações indevidas”.
E, o art. 9º, parágrafo 1°, prevê que:

Qualquer pessoa, presa ou encarcerada em virtude de infração penal, deverá ser


conduzida, sem demora, à presença do juiz ou outra autoridade habilitada por lei a
exercer funções jurídicas e terá o direito de ser julgada em prazo razoável ou de ser
posta em liberdade. A prisão preventiva de pessoas que aguardam julgamento não
deverá constituir regra geral, mas a soltura poderá estar condicionada a garantias que
assegurem o comparecimento da pessoa em questão à audiência, a todos os atos do
processo e, se necessário for, à execução da sentença.

É perceptível que a norma do art. 9° surge como uma norma especial em relação
ao dispositivo do art. 14, exigindo-se um tratamento diferenciado, uma vez que o prazo
razoável, em se tratando de réu encarcerado, será obrigatoriamente diverso do tempo aceitável

125
ARRUDA, Samuel Miranda. op. cit. p. 137.
48

de tramitação do processo penal nos casos em que o acusado está solto. E, que nos dois casos,
o remédio a ser utilizado para coibir as violações será distinto, pois, estando o réu preso, a
irrazoabilidade no tempo de tramitação processual é medida impositiva à imediata soltura,
pois, além de tutelar a liberdade em razão do tempo de prisão, se tutela também a presunção
de não culpabilidade. Agora, no caso de dilações indevidas no curso da instrução processual,
sem que necessariamente haja prisão, deve-se lançar mão de outros instrumentos processuais,
visando à “libertação” não mais do cárcere, e sim do processo, em razão do direito ao seu
prazo razoável, sem dilações indevidas126, não perdurando mais tempo do que o estritamente
necessário em um estado de incerteza sobre o seu destino.
Esta forma de professar o direito a um processo em tempo razoável de forma
duplicada tornou-se uma constante nos documentos internacionais, concedendo o início a
duas manifestações desta norma jus-fundamental com diferentes titularidades, o direito do réu
preso e do réu em instrução criminal127.
Vale ressaltar que o Pacto Internacional não previu a criação de uma corte
internacional com a devida competência para processar e julgar os casos de violação do
direito à razoável duração do processo ao plano interno, existindo tão-somente um comitê
para receber as representações contra os Estados que subscreveram o protocolo regulador.
Contudo, o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, criado em 1966,
só entraria em vigor 10 anos depois, após ter completado o número de ratificações necessárias
para a sua implementação. Num comparativo com a Declaração Universal, o Pacto possui o
mais extenso e detalhado catálogo de direitos, inclusive explicitando em mais de uma ocasião
o direito ao processo sem dilações indevidas, dentro de um aprazo razoável.

2.1.3 Convenção Americana sobre Direitos Humanos

Por fim, em 22 de dezembro de 1969, foi adotada no âmbito da Organização dos


Estados Americanos, em San José da Costa Rica, a Convenção Americana sobre Direitos
Humanos128, apresentando vários dispositivos relacionados ao tema. Com a concepção da
Convenção, uma Corte Interamericana de Direitos Humanos foi criada.

126
Idem. p. 138.
127
Ibidem. p. 138.
128
PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e justiça internacional. São Paulo: Saraiva, 2006. p. 65 e 87.
49

A Convenção é um documento de âmbito internacional que visa proteger e


promover os direitos humanos de todos os sujeitos à sua jurisdição, além de responsabilizar os
Estados que inadimplirem em suas determinações.
As origens do chamado sistema interamericano de direitos humanos são
decorridos da Declaração Americana dos Direitos do Homem de 1948, ainda que não tenha
alcançado um reconhecimento almejado, consistiu numa espécie de afirmação de propósitos
dos países do continente.
A Convenção Americana é dividida em três partes, sendo a primeira destinada à
proclamação dos direitos protegidos e aos deveres dos Estados-membros; a segunda diz
respeito à estruturação dos meios de proteção daqueles direitos, com a afirmação de dois
órgãos de proteção – a Comissão Interamericana e a Corte Interamericana, e por fim, a
terceira parte, que trata das disposições gerais e transitórias.
Tempos após, a Convenção Interamerica foi aprovada pelo Brasil, em 26 de maio
de 1992, por intermédio do Decreto Legislativo n° 27, aprovando o texto na forma prevista
pela Constituição Federal pátria, passando a integrar o seu ordenamento jurídico, tendo sido
ratificada em 25 de setembro do mesmo ano, conforme o disposto no art. 74, §2°, da referida
Convenção e promulgado por meio do Decreto n° 678, de 06 de novembro de 1992.
A Convenção Americana é um instrumento para a proteção dos direitos humanos
inspirados no Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos das Nações Unidas.
O primeiro artigo da Convenção já estabeleceu a obrigação de que todas as partes
assegurassem e respeitassem o pleno exercício dos direitos estabelecidos em seu texto, sem
discriminação de raça, sexo, língua ou religião.
Em seu segundo artigo, complementando o anterior, determina a obrigação de que
todos os Estados Membros adotem as medidas legislativas que são necessárias ao
cumprimento de todos os direitos e liberdades referidos nesta Convenção.
Com a entrada em vigor da Convenção, um novo quadro jurídico para a proteção
dos Direitos Humanos foi criado. Os Estados que ratificaram a Convenção estão sujeitos às
suas regras e sob a jurisdição dos organismos especiais para garantir os seus cumprimentos: a
Comissão e o Tribunal de proteção dos direitos humanos. Enquanto os Estados que não
ratificaram a Convenção e, portanto, não fazem parte da mesma, estão sob as regras e
princípios estabelecidos pela Carta dos órgãos da OEA, os tratados relativos aos direitos
humanos promovidos pela organização, incluindo a Declaração Americana dos Direitos e
50

Deveres do Homem é da competência da Comissão Interamericana, pois, foi criada muito


antes da Convenção.
Sobre a temática em análise, o tempo de tramitação dos processos, foi previsto em
dois diferentes artigos. Suas disposições, em conjunto com as normas do Pacto Internacional
dos Direitos Civis e Políticos, baseiam-se em parte no reconhecimento do direito fundamental
ao processo em tempo razoável no ordenamento jurídico pátrio. Anunciaram a temática no
artigo 7°, precisamente nos números 5 e 6 - que tratam da liberdade pessoal, em sentido lato –
e no número 8, voltado às garantias judiciais, in verbis:

Art. 7°, 5: Toda pessoa detida ou retida deve ser conduzida, sem demora, à presença
de um juiz ou outra autoridade autorizada pela lei a exercer funções judiciais e tem
direito a ser julgada dentro de um prazo razoável ou a ser posta em liberdade, sem
prejuízo de que prossiga o processo. Sua liberdade pode ser condicionada a garantias
que assegurem o seu comparecimento em juízo.

Art. 7°, 6. Toda pessoa privada da liberdade tem direito a recorrer a um juiz ou
tribunal competente, a fim de que este decida, sem demora, sobre a legalidade de
sua prisão ou detenção e ordene sua soltura se a prisão ou a detenção forem ilegais.
Nos Estados Partes cujas leis prevêem que toda pessoa que se vir ameaçada de ser
privada de sua liberdade tem direito a recorrer a um juiz ou tribunal competente a
fim de que este decida sobre a legalidade de tal ameaça, tal recurso não pode ser
restringido nem abolido. O recurso pode ser interposto pela própria pessoa ou por
outra pessoa.

É visível a semelhança deste modelo ao adotado pela Convenção Europeia de


Direitos do Homem, precisamente nos seus artigos 5° e 6° e ao do Pacto Internacional dos
Direitos Civis e Políticos (artigos 9° e 14). Vale ressaltar que longe de significar uma mera
repetição despropositada, a dupla garantia reforça o significado e valor do fator tempo de
duração de um processo judicial, além do destaque deste direito fundamental quando aplicado
ao processo criminal, e, mais precisamente, quando se volta a processo em que exista privação
de liberdade.
Atinente à norma contida no artigo 8°, n° 1, percebe-se muitas semelhanças com o
disposto no artigo 6° da Convenção Européia, referente a garantias judiciais. Para constatar
tais semelhanças veja-se sua transcrição:

1. Toda pessoa tem direito a ser ouvida, com as devidas garantias e dentro de um
prazo razoável, por um juiz ou tribunal competente, independente e imparcial,
estabelecido anteriormente por lei, na apuração de qualquer acusação penal
formulada contra ela, ou para que se determinem seus direitos ou obrigações de
natureza civil, trabalhista, fiscal ou de qualquer outra natureza.
51

Constata-se com o inteiro teor do art. 6°, 1 que a Convenção quis conceder uma
aplicação bem mais abrangente, pois há uma nítida opção em abranger outros áreas
processuais, não restringindo apenas a de âmbito processual penal.
Vale sinalizar que a Convenção Americana prevê o direito à proteção judicial,
conforme dispõe o artigo 25, parágrafo 1°, contra práticas que violem direitos fundamentais
previstos na Constituição de cada país, na lei ou na própria Convenção, conforme se vê em
sua redação:
1. Toda pessoa tem direito a um recurso simples e rápido ou a qualquer outro
recurso efetivo, perante os juízes ou tribunais competentes, que a proteja contra
atos que violem seus direitos fundamentais reconhecidos pela constituição, pela
lei ou pela presente Convenção, mesmo quando tal violação seja cometida por
pessoas que estejam atuando no exercício de suas funções oficiais.

Este direito está materializado com a faculdade por parte do agente vítima de
arbitrariedades que violem os direitos fundamentais previstos, seja pela Constituição, pela lei
ou por esta Convenção, de interpor um “recurso simples e rápido”, estando evidenciada a
significativa importância da rapidez na tramitação dos procedimentos como efetivo
instrumento de garantia aos direitos fundamentais129.
O conceito de prazo razoável foi elaborado pela Convenção Americana de
Direitos Humanos, em seus artigos 7º, que trata do "Direito à liberdade"130, artigo 8°, do
"julgamento justo"131 e em seu artigo 25, "Proteção Judicial" onde se deve compreender que o
direito em questão, não deve estar compreendido, somente como um período de tempo para a
tomada de uma decisão judicial, mas deve ser analisado dentro de uma avaliação racional de
agilidade, eficiência e eficácia acerca dos direitos assegurados ao homem no processo.
Os Estados-membros da Convenção assumem uma dupla responsabilidade:
primeiro, a de respeitar os direitos e liberdades reconhecidos em seu texto, e segundo, o
empenho em consolidar as garantias ao livre e integral exercício desses direitos e liberdades,
com a inclusão de medidas legislativas e judiciárias no direito interno132, visando à promoção
dos direitos e liberdades antevistos nesta Convenção.

129
ARRUDA, Samuel Miranda. op. cit. p. 161-162.
130
Convenção americana de Direitos Humanos, art. 7°: “Qualquer pessoa detida será prontamente conduzida perante um juiz ou outra
autoridade habilitada por lei a exercer funções judiciais e terá o direito a julgamento dentro de um prazo razoável ou a ser lançado sem
prejuízo da continuidade do processo. Sua liberdade pode ser condicionada a garantias que assegurem o seu comparecimento em juízo”.
131
Convenção americana de Direitos Humanos, art. 8°: “Toda pessoa tem direito a ser ouvida, com as devidas garantias e dentro de um prazo
razoável, por um tribunal independente e imparcial, competente, estabelecido anteriormente por lei, na determinação de qualquer acusação
criminal contra ele, ou para decidir sobre direitos e obrigações de ordem de natureza civil, trabalhista, fiscal ou de qualquer outro”.
132
Convenção americana de Direitos Humanos, art. 2°: “Dever de adotar disposições de direito interno: Se o exercício de direitos e
liberdades mencionados no art. 1° ainda não estiver garantido por disposições legislativas ou de outra natureza, os Estados Partes
comprometem-se a adotar, de acordo com as suas normas constitucionais e com as disposições desta Convenção, as medidas legislativas ou
de outra natureza que forem necessárias para tornar efetivos tais direitos e liberdades.
52

Somente em meados dos anos 90 houve um reconhecimento do valor do sistema


interamericano de proteção aos direitos humanos, por meio da ratificação da Convenção e da
aceitação da Corte para o julgamento dos Estados-membros na violação dos direitos humanos
fundamentais previstos na Convenção.
Até o presente momento, vinte e cinco países ratificaram a Convenção: Costa
Rica, Brasil, Colômbia, Bolívia, Barbados, Argentina, Honduras, Haiti, Guatemala, Granada,
El Salvador, Equador, Dominica, Chile, República Dominicana, Peru, Paraguai, Panamá,
Nicarágua, México, Jamaica, Venezuela, Uruguai, Trinidad e Tobago e Suriname.

2.1.3.1 O Sistema Americano de Direitos Humanos (Comissão


Interamericana e Corte Interamericana de Direitos Humanos)

O Sistema Interamericano de Proteção aos Direitos do Homem tem como


instrumentos fundamentais: a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem e a
Convenção Americana.
Foi na conjuntura do final da Segunda Guerra Mundial, que surgiu na comunidade
internacional a temática sobre os direitos humanos, com a consequente criação de
instrumentos internacionais de promoção e proteção no contexto internacional, como a Carta
das Nações Unidas, visando punir, coibir e reprimir as práticas atentatórias contra esses
direitos.
As Nações Unidas, organização internacional que sobreveio à Sociedade das
Nações, em 1945 – iniciou sua marcha com a criação da Comissão de Direitos Humanos, em
1946, e a adoção do primeiro texto da Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948 -
pela Assembleia Geral, na qual estão representados todos os Estados-membros da
organização.
A proteção aos direitos humanos nas Américas teve aprovação como uma pedra
angular da Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (Resolução XXX da
Conferência Interamericana, em Bogotá, março de 1948), estabelecendo em seu artigo 5° um
dos princípios organizadores da declaração dos direitos da pessoa humana, a de que todos
devem ser tratados sem distinção de raça, nacionalidade, credo ou sexo. E em seu artigo 13
constitui a obrigação dos Estados em implementar o desenvolvimento cultural, político e
econômico, para respeitar os direitos da pessoa humana.
53

2.1.3.1.1 Comissão Interamericana de Direitos Humanos

A Comissão Interamericana é um órgão integrante da OEA criada na V Reunião


de Consulta de Ministros de Relações Exteriores, em Santiago do Chile, de 12 a 18 de agosto
de 1959, tendo sido aprovada, em uma primeira parte, uma resolução que recomendou a
criação de um projeto de Convenção sobre direitos humanos e de uma Corte Interamericana
para a proteção desses direitos, bem como em um segundo momento, a criação de uma
Comissão Interamericana133, tendo como principal papel a promoção da defesa dos direitos
humanos nos Estados integrantes da Convenção americana, na qual manifestaram aceitação
para que a Comissão conheça as petições que apresentem denúncias de violações aos direitos
previstos na Convenção.
Em 25 de maio de 1960, o Conselho da OEA aprovou o seu primeiro Estatuto,
alterado em junho de 1960, data em que começam os seus trabalhos.
A partir de 1965, foram expandidas as suas atribuições para que pudesse receber
denúncias individuais conforme previsibilidade no Protocolo do Rio de Janeiro. Em 1967,
essa Comissão adquiriu corpo principal no sistema interamericano de direitos, graças às
reformas da Carta da OEA introduzidas pelo Protocolo de Buenos Aires, concedendo a este
órgão o caráter de Comissão da OEA.
Em 1979, através de uma alteração da Carta das Nações Unidas, a Comissão
tornou-se o principal órgão da OEA, responsável pelo monitoramento, promoção e proteção
dos direitos humanos. Sob este mandato, a Comissão passou a ter competência ampla na
proteção dos direitos humanos nas Américas.
A razão de ser da Comissão, a princípio, não seria a de criar um organismo
regional de interferência nos assuntos internos dos Estados membros, e sim, a de realizar
advocacia e educação em direitos humanos a partir de estudos, simpósios, reuniões sobre
assuntos gerais pretendidos, mas sem se intrometer na observância dos direitos humanos em
países específicos.
No entanto, a Comissão interpretou que tinha sido dada a ela a tarefa de garantir a
proteção dos direitos humanos, defender e promover os seus cumprimentos. Assim, a
Comissão deu início à implementação de atividades não explicitamente previstas no Estatuto,
mas que foram, implicitamente, consideradas necessárias para o melhor desempenho de suas

133
LOPES JUNIOR, Aury. e Gustavo Henrique Righi Ivahy Badaró, op. cit. p. 170.
54

funções. De fato, foi a apresentação de inúmeras denúncias contra os governos, que encorajou
a Comissão a proceder a uma interpretação mais ampla do seu estatuto.
Os estatutos e os regulamentos da Comissão Interamericana de Direitos Humanos
se aplicam necessariamente a todos os Estados Membros da Organização dos Estados
Americanos. Portanto, a Comissão tem poderes para investigar e produzir relatórios sobre
todos os países membros da OEA.
Tem-se com a Comissão o reconhecimento de que qualquer pessoa, ou entidades
não governamentais possam denunciar as violações de direitos humanos, além de conceder
aos Estados-membros o poder de acusar perante a Comissão outro Estado-membro, embora
seja necessário que ambos os Estados (relatado e denunciante), além de ratificarem a
convenção, tenham feito uma declaração expressa admitindo a possibilidade de ser relatado
desta forma.
O artigo 145 da Carta da OEA sintetiza bem a natureza e o propósito da
Comissão, ao prever que "enquanto não entrar em vigor a convenção sobre os direitos
humanos, prevista no Capítulo XV, a Comissão Americana sobre Direitos Humanos devem
assegurar a observância dos direitos humanos".
A Convenção Americana de Direitos Humanos, que entrou em vigor em 18 de
julho de 1978, em seu art. 33 estabeleceu a constituição de dois órgãos para promoção e
proteção dos direitos humanos, com competência para apreciar as questões relativas ao
cumprimento dos compromissos assumidos pelos Estados-membros na presente Convenção.
Esses Órgãos são:
1°) A Comissão Interamericana de Direitos Humanos, e
2°) O Tribunal Interamericano dos Direitos Humanos.

Note-se que esta estrutura organizacional da promoção e defesa dos direitos


humanos na América é semelhante ao estabelecido no sistema europeu.
O artigo 41 da Convenção Americana134, prevê as diversas atribuições da
Comissão, dentre as quais vale destacar:
a) receber, analisar e investigar as petições individuais de alegações de violações
de direitos humanos, tanto em termos de Estados-membros da OEA que ratificaram a
Convenção Americana, como dos Estados que não ratificaram.
b) Observar a situação geral dos direitos humanos nos Estados membros e realizar
relatórios especiais sobre a situação de um Estado-membro específico, quando for o caso.

134
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990-1994/anexo/and678-92.pdf Acesso em 10-11-2014.
55

c) Proceder a visitas nos países a fim de levar a cabo uma análise aprofundada da
situação global e/ou para investigar uma situação específica. Em geral, essas visitas levam à
elaboração de um relatório sobre a situação dos direitos humanos a ser observados, o que é
publicado e apresentado ao Conselho Permanente e à Assembléia Geral da OEA.
d) Estimular a consciência pública dos direitos humanos nas Américas. Para este
fim, a Comissão realiza e publica relatórios sobre temas específicos; tais como as medidas a
ser tomadas para garantir maior acesso e rapidez à justiça; os efeitos dos conflitos armados
internos em determinados grupos; a situação dos direitos humanos das crianças, das mulheres,
dos trabalhadores imigrantes e suas famílias, pessoas privadas de liberdade, dos povos
indígenas e pessoas de ascendência africana; lésbicas, gays, transexuais, bissexuais; sobre a
liberdade de expressão; segurança pública e terrorismo e sua relação com os direitos
humanos; entre outros.
e) Organizar e visitar, conferências, seminários e reuniões com representantes de
governos, instituições acadêmicas, agências governamentais e outros, com o principal
objetivo de disseminar informações e promover amplo conhecimento do trabalho do sistema
interamericano de direitos humanos.
f) Recomendar que os Estados-membros adotem medidas que contribuam para a
proteção dos direitos humanos.
g) Acolher os pedidos dos Estados-membros na adoção de "medidas cautelares",
nos termos do artigo 25 de seu Regulamento, para evitar danos irreparáveis às pessoas, em
casos de situações graves e urgentes. Além disso, em conformidade com o artigo 63.2 da
Convenção Americana, a possibilidade de solicitação para que o Tribunal adote "medidas
provisórias" em casos de extrema gravidade e urgência para evitar danos irreparáveis às
pessoas.
h) Apresentar os casos à Corte Interamericana.
i) Receber e examinar as comunicações em que um Estado Parte alegue que outro
Estado Parte esteja incorrendo em violações dos direitos reconhecidos na Convenção
Americana, em conformidade com o artigo 45 da Convenção.
Além disso, a Comissão entendeu ser sua competência interpretar outros tratados
concernentes à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. Na sua manifestação
consultiva OC-1/82, o Tribunal interpretou a expressão "outros tratados" acima, como segue:
"a competência consultiva da Corte poderá ser exercido, em geral, de qualquer disposição que
trata da proteção dos direitos humanos, de qualquer tratado internacional aplicável nos
56

Estados americanos, independentemente de objeto principal da forma como forem bilateral ou


multilateral ou que são ou podem ser partes dos Estados fora do sistema americano”135
A tarefa de sua elaboração foi confiada ao Conselho Interamericano de Juristas,
como órgão especializado da OEA, que apresentou na Conferência de Ministros dos Negócios
Estrangeiros (Chile, 1959) o primeiro projeto oficial. Posteriormente a Conferência
Especializada sobre Direitos Humanos, convocada pela OEA em Costa Rica (novembro de
1969), elaborou a proposta final.
Com relação à competência da Comissão é necessário assinalar a distinção entre a
petição realizada por particular, da reclamação formulada por Estado integrante da OEA136.
No caso de denúncia formulada por particular, em razão de não possuir
legitimidade para demandar diante da Corte Interamericana no reconhecimento de petições
que contenham notícias de transgressões a direitos protegidos pela Convenção, devendo
instrumentalizar tal petição perante a Comissão Interamericana, quando se tratar de denúncias
perpetradas pelos Estados deve haver o reconhecimento da competência da Comissão
Interamericana no recebimento e exame da comunicação 137. Ou seja, será a Comissão a
responsável por atuar em todos os casos perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos,
manifestando-se como um verdadeiro órgão de triagem, nas demandas conduzidas perante a
Corte Interamericana.
Tendo sido admitida a petição, a Comissão se manifestará para que o Estado
denunciado preste as informações necessárias sobre o caso, tendo em seguida uma fase
conciliatória, onde se buscará uma solução amistosa sobre o conflito para, em seguida, caso
não tenha tido êxito a conciliação, a Comissão editará um relatório acerca da ocorrência da
violação à Convenção Americana, fazendo constar recomendações pertinentes ao caso, bem
como a fixação de um prazo de três meses para que o Estado denunciado adote as medidas
consideradas cabíveis. Somente após o não cumprimento das recomendações constantes no
relatório inicial é que a Comissão acionará o Estado perante a Corte Interamericana.
A grande diferença entre o Sistema Interamericano de Direitos Humanos e o
Sistema Europeu, está no endereçamento das petições com relação às violações de direitos
humanos, em que no sistema interamericano deve ser endereçada primeiramente à Comissão
de Direitos Humanos, e não à Corte, conforme previsão do art. 44 do instituto da convenção.

135
CIDH. Opinião Consultiva OC-1, "Outros tratados" objeto da função consultiva da Corte (art. 64 da Convenção Americana sobre
Direitos Humanos).
136
LOPES JUNIOR, Aury. e Gustavo Henrique Righi Ivahy Badaró, op. cit. p. 171.
137
Idem, p. 172
57

2.1.3.1.1.2 Corte Interamericana de Direitos Humanos

Na 9° Conferência Internacional realizada em Bogotá, Colômbia, em 1948, foi


aprovada a Resolução XXXI denominada "Corte Interamericana para a Proteção dos Direitos
do Homem" - COIDH.
Sendo que em 22 de novembro de 1969, foi aprovada em San José de Costa Rica
a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, através do estabelecimento (capítulo VIII
da Parte II) de uma Corte Interamericana de Direitos Humanos. Mas somente em 1998, por
intermédio do Decreto Legislativo n° 89/98, houve um reconhecimento por parte do Brasil da
jurisdição obrigatória da Corte.
A Assembléia Geral da OEA, realizada em La Paz, na Bolívia, em 1979, adotou o
Estatuto do Tribunal (Resolução 448). Definindo em seu artigo 1º como "uma instituição
judiciária autônoma que visa à aplicação e interpretação da Convenção Americana sobre
Direitos Humanos".
O Estatuto do Tribunal o definiu como uma instituição autônoma judicial da
OEA138, cujo propósito é a aplicação e interpretação da Convenção Americana sobre Direitos
Humanos.
O Tribunal Interamericano é composto por sete juízes da nacionalidade dos
Estados-membros da OEA, de notório saber na área de direitos humanos, com fundamento na
sua titulação pessoal, eleito por maioria absoluta de votos dos Estados Partes da Convenção
por um período de seis anos, sendo possível uma reeleição139.

2.1.3.1.1.2 Competências e principais julgados da Corte Interamericana de


Direitos Humanos sobre a razoável duração do processo penal

A principal atividade do Tribunal é "interpretar e aplicar as regras materiais


estabelecidas na Convenção Americana"140. Nesse sentido, o principal objetivo no exercício
desta jurisdição é decidir se um Estado violou ou não, qualquer direito humano consagrado na
Convenção Americana, em relação a uma pessoa ou determinado número de vítimas.

138
Art. 1° do Tribunal Interamericano de Direitos Humanos
139
Art. 15.1 do Estatuto da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
140
Artigo 45 da Convenção européia e artigo 62 da Convenção Americana.
58

De acordo com a Convenção Americana, a Corte exerce função de jurisdição


(resolução de casos específicos por decisões) e consultiva (emissão de relatórios sobre
questões de interpretação da ocorrência de violações de direitos humanos).
No exercício da função jurisdicional, o Tribunal analisa uma demanda específica,
estabelece a verdade dos fatos alegados e decide se eles constituem uma violação à
Convenção Americana.
O exercício da competência consultiva é diverso em conteúdo e alcance. Em
primeiro lugar, através da análise de um pedido de parecer consultivo, a Corte interpreta o
direito internacional, se há fatos específicos que comprovem a ocorrência da violação dos
direitos humanos141.
É estabelecido no art. 64º, (I), da Convenção Americana que:

Membros da Organização podem consultar a Corte sobre a interpretação desta


Convenção ou de outros tratados concernentes à proteção dos direitos humanos nos
Estados americanos. Eles também podem consultar nas suas esferas de competência,
os órgãos enumerados no capítulo X da Carta da Organização dos Estados
Americanos, reformada pelo Protocolo de Buenos Aires.

Constata-se que o Tribunal é detentor de competência nos termos do artigo 64 da


Convenção para emitir consultas com referência à interpretação da Convenção ou de outros
tratados concernentes à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. De acordo
com os pronunciamentos da Corte em vários comentários, sua competência consultiva estende
até a interpretação de um tratado, desde que a proteção dos direitos humanos esteja
diretamente envolvida. Além disso, também autoriza o Tribunal a interpretar a Declaração
Americana dos Direitos e Deveres do Homem, apesar de não ser um tratado, nos termos da
Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, dá conteúdo para diversos dispositivos
contidas na Convenção Americana e da Carta da OEA.
A Corte, por petição de um Estado-membro da Convenção, poderá emitir
pareceres sobre a compatibilidade entre qualquer de suas leis internas e os supramencionados
instrumentos internacionais de direitos humanos. Esta possibilidade é particularmente
interessante quando o Estado procura o parecer consultivo sobre projetos de lei ainda não
implementados, segundo o qual o Tribunal assume uma espécie de consulta. Isso ocorreu no
parecer consultivo OC-4/84, quando o Governo da Costa Rica requereu ao Tribunal um

141
Opinião Consultiva OC-1/82 de 24 de Setembro de 1982. Serie A, n. 1. Paras, 23, 24, 25, 51.
59

parecer sobre a compatibilidade de algumas possíveis alterações à sua Constituição142, bem


como no Parecer Consultivo OC-12, a respeito de um projeto de lei sobre dupla penalização
em matéria penal143.
O exercício da jurisdição do Tribunal depende necessariamente de aceitação
prévia de jurisdição pelos Estados Membros que deverão cumprir suas sentenças 144, no
entanto, a competência consultiva da Corte não depende do consentimento dos Estados.
A Corte Interamericana desempenha um papel fundamental na efetivação das
normas de direitos fundamentais e na repressão às suas violações.
O Sistema Interamericano é um sistema de reparação: uma vez que o Tribunal
determine que tenha havido qualquer violação aos direitos humanos contidos na Convenção
Americana pelo Estado demandado, passa-se a reparar as consequências deste ato, como
efeito decorrente da responsabilidade internacional desse Estado. Assim, torna-se uma escala
de responsabilidade, que começa com a obrigação de restaurar o direito violado, e se possível
a restituição integral do dano causado.
A Convenção Interamericana, em detrimento de seu progresso na positivação dos
direitos humanos não tem qualquer disposição em estabelecer um mecanismo específico para
monitorar o cumprimento das decisões da Corte. O art. 65 da Convenção prevê que, se o
Tribunal apresentar o seu Relatório Anual à Assembléia Geral, pode especificar os casos em
que um Estado não cumpriu com o acórdão do Tribunal. Assim, e uma vez que a Assembleia
Geral da OEA é o mais alto órgão político da organização, o não cumprimento da sentença,
torna-se uma questão política contra a qual os Estados devem decidir. A Carta da OEA, não
prevê o tipo de entrega, até diz que deve haver um pronunciamento, mas em qualquer caso, se
houver, a Assembleia pode decidir, tendo em vista a sua esfera política, para uma reprimenda
ou para o expulsão do sistema, dada a violação de uma obrigação estabelecida na
Convenção145.
A Corte Interamericana se constitui em um Tribunal de amplos poderes, cujas
sentenças têm eficácia normativa sobre os Estados-membros da qual são signatários, onde a
principal obrigação desses Estados é a de assegurar o livre e completo exercício dos direitos
adotados na Convenção.

142
Proposta de Emendas à Constituição da Costa Rica relacionados à naturalização. OC-4/84 Opinião Consultiva 19 janeiro de 1984. Serie
A.
143
Compatibilidade da proposta de legislação com o artigo 8.2.h. º da Convenção Americana sobre Direitos Humanos. Opinião Consultiva
OC-12/91 06 de dezembro de 1991. Série A n°. 12.
144
Convenção Americana sobre Direitos Humanos, arts. 62 e 68.
145
O único precedente é o caso do governo cubano, que foi expulso da OEA, por razões políticas, antes de violar a lei internacional ou
qualquer tratado interamericano.
60

Quanto ao direito fundamental do homem de ser julgado em um tempo razoável, a


Corte Interamericana de Direitos Humanos seguiu a mesma abordagem adotada pelo Tribunal
Europeu dos Direitos Humanos, que fornece um ponto de referência útil para ponderar sobre a
razoabilidade das vezes invocada sob o devido processo legal. Em torno desta questão, ambos
os tribunais referem-se a três dados relevantes: a complexidade do caso, a conduta das partes
e a conduta das autoridades competentes.
Vale apontar as lições de Annoni146 ao estabelecer que:

Não coincidentemente, os critérios adotados pela Corte interamericana de Direitos


Humanos são os mesmos adotados pelo Tribunal Europeu, quais sejam: a
complexidade do caso, a conduta das partes e a conduta da autoridade competente
que apreciou o caso na ordem interna. Isso se deve a um simples fato: a experiência
do Tribunal Europeu de Direitos Humanos, que herdou a jurisprudência da Corte
Européia de Direitos Humanos.

No que diz respeito ao direito à razoável duração do processo, a Comissão e a


Corte Interamericana de Direitos Humanos têm se manifestado, em diversos casos,
reconhecendo a violação a um direito de um processo justo e de duração razoável. Restando
necessário, em razão da lentidão jurisdicional resultar danos significativos aos
jurisdicionados, recorrerem ao sistema de proteção interamericano de direitos humanos.
Dentre estes julgados, vale ressaltar, o caso Giménez147, com informe datado em
13 de março de 1996, que versa interpretação da Comissão Interamericana sobre o tempo da
prisão preventiva, bem como da duração do processo.
Jorge Alberto Giménez148 foi preso preventivamente em 1989 e submetido a um
processo por crime contra a propriedade, tendo a sentença de primeira instância sido prolatada
em 1993, que o condenou a 09 (nove) anos de prisão, tendo sido esta decisão confirmada em
segundo grau de jurisdição, em 1995. Neste caso, o Judiciário argentino não fez aplicar, os
prazos regulados pela legislação processual penal, para fins de limitação temporal da prisão
cautelar e da instrução criminal.

146
ANNONI, Danielle. Direitos humanos e acesso à justiça no direito internacional. Curitiba: Juruá, 2003, p. 156.
147
COIDH, Caso GIMÉNEZ V. ARGENTINA, Caso 11.245, de 01-03-1996.
148
COIDH, Caso GIMÉNEZ V. ARGENTINA, Caso 11.245, de 01-3-1996: “109. Los artículos 7.5 y 8.1 de la Convención Americana
persiguem justamente el propósito que lãs cargas que el proceso penal conlleva para el individuo no se prolonguen continuamente em el
tiempo y causen daños permanentes. 110. Aunque se inspiran en el mismo principio, ambas disposiciones no son idênticas em sus referencias
a lo que constituye un plazo razonable. Un atraso que constituya violación de la disposición del artículo 7.5 puede estar justificado según el
artículo 8.1 La especificidad del artículo 7.5 radica en el hecho que un individuo acusado y detenido tiene el derecho a que su caso sea
resuelto con prioridad y conduzido con diligencia. La posibilidad que el Estado tiene de aplicar medidas coercitivas, como la prision
preventiva, es una de las razones decisivas que justifica el trato prioritario que debe darse a los procedimientos que privan de libertad a los
acusados. El concepto de tiempo razonable contemplado em el artículo 7 y el artículo 8 difieren en que el artículo 7 posibilita que un
individuo sea liberado sin perjuicio de que continúe su proceso. El tiempo estabelecido para la detención del proceso, según el artículo 8,
debe medirse em relación a una serie de factores tales como la complejidad del caso, la conduta del inculpado y la diligencia de las
autoridades competentes en la conducción del proceso”.
61

Somente 1994, Giménez obteve o livramento condicional, ao tempo em que


peticionou junto à Comissão interamericana, alegando que houve violação ao seu direito de
liberdade pessoal, conforme previsão do art. 7°, 5, e, ao decidir, a Comissão americana
ponderou também a violação do art. 8°, I, da Convenção Americana, que trata das garantias
judiciais, no caso, em espécie, ao direito a um julgamento com tempo razoável de duração.
A Comissão analisou os mesmos critérios utilizados pelo Tribunal Europeu de
Direitos Humanos: a complexidade do caso, o comportamento processual do réu e atividade
processual judiciária. Além do que avaliou a expressão presente na CADH, “prazo razoável”,
e realizou ilações sobre a legislação processual penal interna, a qual estipula um limite
temporal para a prisão cautelar, bem como para a instrução criminal como um todo.
A COIDH ao analisar os motivos justificadores da manutenção da prisão, avaliou
que a custódia prisional por mais de cinco anos não se mostrou razoável, e sim, arbitrária por
parte do Estado, em razão do fato criminoso não ser de natureza complexa e que as
autoridades judiciárias não utilizaram de todos os meios necessários para acelerar o processo,
sem que o réu tivesse contribuído para o retardamento da prestação jurisdicional.
Vale acrescentar que segundo a COIDH igualmente houve violação ao disposto
no artigo 8°, inciso I, da CADH, partindo da avaliação dos mesmos critérios adotados na
análise da duração da prisão cautelar. Como a prática delitiva não era complexa somada a
negligência por parte das autoridades judiciárias no deslinde do caso num menor espaço de
tempo possível e que o réu não havia contribuído para a delonga processual, posto que
passado mais cinco anos de instrução criminal ainda não havia sido prolatado sentença de
primeiro grau, a COIDH decidiu que houve um afronta ao direito fundamental à razoável
duração do processo.

COIDH, caso Giménez v. Argentina, n° 11.245, de 01-3-1996, item 112, ex vi:

Dada la falta de complejidad del caso ‘sub judice’ y la falta de diligencia de las
autoridades judiciales para darle debido curso, la Comisión estima que la
prolongación del proceso por más de cinco años, sin que se haya dictado sentecia
de término, constituye una violación del derecho a ser oído com las debidas
garantias y dentro del plazo razonable, que estabelece el artículo 8.1.

Neste caso, a COIDH reconheceu ao Estado-membro Argentina, o significativo


avanço legislativo, em razão de ter estabelecido um marco regulatório acerca do tempo de
duração da custódia cautelar, tendo consequência significativa na averiguação do tempo do
processo penal, em consonância ao comando da CADH.
62

No caso Suárez Rosero149, a Corte Interamericana de direitos humanos analisou e


julgou a ocorrência da violação do prazo razoável da instrução criminal e da custódia cautelar,
quando da decretação de sua prisão preventiva em 1992 tendo perdurado até a data da
sentença em 1996, em que foi condenado a 02 (dois) anos de prisão. Ou seja, foi condenado a
uma pena que corresponde à metade do tempo em que permaneceu custodiado.
A Corte Interamericana, analisando o que dispõe a Convenção Americana, no que
diz respeito a impedir que os acusados permaneçam um longo tempo sobre acusação, devendo
assegurar a garantia judicial de duração razoável do processo, apontou como o primeiro ato
formal que deve evidenciar o tempo do processo, a privação de liberdade de Suárez Rosero, e
como marco final deve compreender todo o procedimento, incluindo os eventuais recursos
interpostos nas instâncias superiores150.
Aplicou-se no caso a “teoria dos três critérios” (a complexidade do caso, o
comportamento processual do réu e a atividade processual judiciária) para se constatar se
houve ou não uma violação ao direito à razoável duração do processo, justificando que o
tempo de custódia cautelar superou em dobro o tempo da condenação definitiva, não se
justificando no caso concreto o tempo de prisão e da duração da instrução criminal, pois são
violadores dos dispositivos do artigo 8° (I) e artigo 7° (V), da Convenção Americana de
Direitos Humanos.
No caso Alfredo López Álvarez151 que foi custodiado cautelarmente em 1997, e
que em novembro de 2000 foi condenado em primeiro grau de jurisdição por tráfico de
drogas, sendo que em 2001, em segundo grau de jurisdição, foi decretada a nulidade do
procedimento penal, e somente em 2003, sucedeu nova sentença de primeiro grau, absolvendo
o réu das acusações interpostas em 1997, acarretando ao final a sua permanência, após a
sentença absolutória, por cerca de oito meses na prisão, violando o direito à razoável duração
da prisão cautelar, bem como do processo penal.
Neste caso, a Corte Interamericana analisou as garantias previstas nos artigos 7°,
inciso 5, artigo 8°, inciso I, bem como artigo 25, inciso I, e decidiu, analisando a “teoria dos
três critérios”, que o tempo decorrido na prisão e no processo se deu em função da falta de
diligência e da atuação das autoridades judiciárias que não proporcionaram uma efetiva e
concreta jurisdição na condução da causa, posto que não se tratava de uma causa complexa.
Entendendo a CIDH que Lópes Álvares foi privado de sua liberdade por mais de seis anos

149
CIDH, Caso SUÁREZ ROSERO vs. EQUADOR, sentença de 12-11-1997, p. 22.
150
Idem, p. 22.
151
CIDH, Caso LÓPES ÀLVARES V. HONDURAS, sentença em 01-2-2006, p. 56.
63

durante a instrução criminal, e que mesmo após a sua sentença absolutória ainda permaneceu
por quase oito meses preso, violando o direito fundamental a um julgamento num prazo
razoável, por culpa exclusiva das autoridades judiciárias.
Caso Lópes Àlvares v. Honduras152, in verbis:

Las nulidades, que sirvieron al propósito de adecuar los procedimientos al debido


proceso, fueron motivadas por la falta de diligencia en la actuación de las
autoridades judiciales que conducían la causa, (...) el juez interno, al realizar las
actuaciones posteriormente anuladas, incumplió el deber de dirigir el proceso
conforme a derecho. Esto determino que la presunta víctima fuese obligada a
esperar más de seis años para que el Estado administrara justicia.

No caso Damião Ximenes Lopes153 foi a primeira sentença condenatória


proferida pela Corte Interamericana contra o Estado Brasileiro em 01 de outubro de 2004,
depois de ter sido admitido pela CIDH em 22 de novembro de 1999, por eventos decorrentes
da morte, em 04 de outubro de 1999, de um portador de deficiência mental internado na Casa
de Repouso Guararapes (Sobral/CE), sendo tal casa credenciada junto ao SUS154, de
responsabilidade do Estado.
A família de Damião Ximenes ajuizou ações criminais e cíveis de cunho
indenizatório, a fim de que fossem apuradas as violações de maus tratos e tortura, tendo como
consequência a sua morte ocasionada por funcionários da clínica. No entanto, até a decisão da
COIDH, não havia sequer decisão de 1ª instância para essas práticas.
Para uma análise mais minuciosa deste caso, vale destacar o tempo de cada ato,
seja na fase investigatória, seja na fase da instrução criminal, senão vejamos: a investigação
preliminar foi instaurada somente em 08 de novembro de 1999 e concluída em 25 de fevereiro
de 2000. A peça acusatória contra quatro acusados pela prática de maus-tratos seguido de
morte foi interposta em 27 de março de 2000, sendo que somente em 02 de março de 2005
ocorreu a inquirição de testemunhas dos últimos réus, sendo esta a última movimentação até a
data da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos, transcorreram mais de 06
(seis) anos e, segundo o entendimento da Corte, houve violação ao direito ao Processo Penal
em um prazo razoável. Neste caso, ocorreu a primeira condenação do Brasil perante a Corte
Interamericana, em razão do descumprimento injustificado das obrigações de julgar de modo
efetivo e em prazo razoável aos abusos perpetrados contra os direitos humanos, violando
152
CIDH, Caso LÓPES ÀLVARES V. HONDURAS, sentença em 01-2-2006, p. 56.
153
CIDH, Caso XIMENES LOPES V. BRASIL, sentença de 04-7-2006.
154
Criado pela CF/88, na forma do art. 198, § 1º. O sistema único de saúde será financiado, nos termos do art. 195, com recursos do
orçamento da seguridade social, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, além de outras fontes. (Parágrafo único
renumerado para § 1º pela Emenda Constitucional nº 29, de 2000).
64

frontalmente os dispostos no art. 1°, I (obrigação de respeitar os direitos da Convenção


Americana de Direitos Humanos), art. 4°, I (direito à vida), art. 5°, I e II (direito à integridade
física) e do art. 8°, I (direito às garantias judiciais), segundo a qual os juízes devem decidir os
seus julgados em um prazo razoável.
A atuação negligente do Estado em várias fases é visível, exemplo foi o
procedimento investigatório, que demorou 36 dias para ser iniciado; e, ainda, até a data da
sentença da COIDH, nem a ação penal e nem a cível haviam obtido qualquer sentença final,
comprovando a morosidade desmedida no caso.
Além disso, muitas falhas foram evidenciadas no decorrer do processo, como em
perícias e exames realizados no cadáver (não foi realizada a necropsia imediata à morte de
Damião). Com efeito, durante todo o processo averiguou-se a violação dos princípios
processuais, que pode ter resultado em prejuízo dos direitos dos demandantes na ordem
interna. Como se viu, o Estado negligenciou a colheita das provas, demonstrando desinteresse
na resolução da causa.
No caso em tela, é constatável o não estabelecimento pelo Estado da devida
administração de seus órgãos, em razão do atraso injustificado da persecução penal. A família
da vítima informou e comprovou, com documentos e testemunhas ter requisitado a
instauração do inquérito para apurar as notícias criminosas sobre os maus tratos sofridos pela
vítima. Não houve o cumprimento das obrigações do Estado Brasileiro estabelecidas na
CADH, ocorrendo a violação do direito à vida, direito à integridade pessoal, proteção à honra
e dignidade e ao devido processo legal, em razão de não ter ocorrido em um prazo razoável o
término da persecução criminal.
A Corte Interamericana dos Direitos Humanos adotou no caso Ximenes Lopes,
seguindo o mesmo alcance adotado na teoria dos “três critérios”, quais sejam: 1°)
complexidade da causa; 2°) comportamento processual do réu e, 3°) conduta das autoridades
judiciais.
No primeiro critério a Corte julgou que não houve complexidade na demanda
processual, tendo em vista a existência de uma única vítima, com os autores devidamente
identificados155.
Num segundo critério sopesou que tanto o assistente Ministerial quanto os
familiares da vítima contribuíram com a tramitação da instrução processual.

155
CIDH, Caso Ximenes Lopes v. Brasil, sentença de 04-7-2006. p. 66.
65

E, por fim, o terceiro critério onde a corte considerou que a conduta das
autoridades judiciais foi a causa da demora injustificada da instrução processual, tendo o
prazo em que se desencadeou o processo criminal se estendido ao longo de mais de 06 (seis)
anos, sem que tenha sido proferido sentença de primeira instância, reconhecendo a Corte
Interamericana, além de outras agressões, ofensa às regras do devido processo legal e ao
princípio da razoabilidade do término do processo penal156, sendo tais agressões fundamentos
para a condenação do Estado Brasileiro.
Por conseguinte, o Estado Brasileiro foi considerado pela COIDH, no item 206 da
sentença, portador de uma justiça lenta e negligente e, ainda, que não foi garantidor de acesso
à justiça, sequer punindo os responsáveis pelos atos, não havendo, enfim, nenhum tipo de
reparação pelas violências sofridas157.
Foi constatada a violação dos princípios de garantia à proteção judicial previstos
no art. 8.1 (garantias judiciais) e 25.1 (proteção judicial) da CADH 158, comprovando e
certificando o desamparo estatal para com a família do senhor Damião, reconhecendo a
irrazoável demora na tutela jurisdicional interna, bem como nos órgãos da administração
pública159.
Vale ressaltar que o Estado Brasileiro reconheceu parcialmente a sua
responsabilidade na morte do senhor Damião durante o julgamento. Além disso, este é um
marco no quesito de direitos humanos no Brasil, constituindo o primeiro caso a ser julgado
pela COIDH relativo ao país.
A intervenção internacional neste caso contribuiu para a melhoria do sistema
médico psiquiátrico, favorecendo as garantias da dignidade da pessoa humana.
Contra o Brasil foi julgado um importante caso de retardo na persecução penal por
parte do Estado, foi o caso Maria da Penha vs. Brasil160, onde Maria da Penha Maia
Fernandes denunciou em 20 de agosto de 1998, a tolerância da violência doméstica do Estado
Brasileiro à Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
O presente caso ocorreu em meados de 1983, quando Maria da Penha passou a ser
vítima de maus tratos e agressões praticadas por seu marido Marco Heredia Viveiros.

156
Ibid, p. 67
157
Item 206 da sentença Ximenes Lopes x Brasil, da COIDH.
158
Sentença item “4. O Estado violou, em detrimento das senhoras Albertina Viana Lopes e Irene Ximenes Lopes Miranda, familiares do
senhor Damião Ximenes Lopes, os direitos às garantias judiciais e à proteção judicial consagrados nos artigos 8.1 e 25.1 da Convenção
Americana, em relação com a obrigação geral de respeitar e garantir os direitos estabelecidos no artigo 1.1 desse tratado, nos termos dos
parágrafos 170 a 206 da presente Sentença”. Trecho da sentença disponível em:
http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_149_por.pdf Acesso em: 18-11-2014.
159
SANT’ANA, Janice Cláudia Freire. O Brasil e a execução de sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Revista América
Jurídica. n. 13. Coordenadora ANNONI, Daniele. Rio de Janeiro, 2002. p. 259.
160
Relatório n° 54-2001 do caso 12.051 de 16 de abril de 2001. Disponível em: www.cidh.org/comissao.htm Acesso em: 18-11-2014.
66

O histórico de agressões do marido à esposa e às filhas, já existia, mas o temor


que acomete tantas mulheres que sofrem essa violência impediu-a de solicitar o divórcio e
denunciar o caso. Todavia, as agressões persistiram culminando em uma dupla tentativa de
homicídio por parte de seu marido, resultando no estado de paraplegia irreversível da vítima.
Segundo o relatório do processo 54-2001, caso 12.051, da CIDH, constava que o
marido, de maneira premeditada fizera a esposa assinar documentos e uma apólice de seguro,
da qual era beneficiário.
Em virtude da violência sofrida e da situação insustentável, a vítima requereu o
divórcio ao marido, e o MP, apresentou denúncia contra o mesmo, como uma ação penal
pública diante da 1ª vara criminal do Estado do Ceará.
Contudo, mesmo com as provas inequívocas das tentativas de homicídio e das
agressões sofridas, a instrução criminal durou por quase 20 anos sem que a justiça brasileira
proferisse uma sentença definitiva e faltando poucos meses para a prescrição penal, somente
em 2002 o agressor de Maria da Penha foi preso, pela primeira vez, tendo sido solto menos de
02 anos após a sentença.
A demora processual demonstra a violação de uma ordem jurídica justa e eficaz, a
qual é dever do Estado proteger. Essa irrazoabilidade do tempo das decisões impossibilita o
acesso à justiça e ao devido processo legal.
Esse tempo razoável ao processo é essencial para que ocorra um processo justo. A
morosidade processual sem razão de ser influencia a decisão, compromete as provas e faz da
lentidão da justiça um descumprimento dos Estados, para com a própria CADH, que
determina a garantia efetiva do devido processo legal e o acesso à justiça.
Os direitos fundamentais de proteção à vida, à dignidade da pessoa humana, e aos
direitos e garantias judiciais assegurados pelos artigos 8° e 25 da CADH, e o artigo 12 da
Convenção do Belém do Pará161, foram flagrantemente violados demonstrando a tolerância do
Estado brasileiro para com a violência doméstica.
O processo finalizou com a condenação do Brasil, impondo ao pagamento de
indenização a Maria da Penha, além de responsabilização pela negligência sistemática no
combate à violência doméstica contra as mulheres brasileiras e da não adoção de medidas
cabíveis ao processamento e efetiva punição do agressor.
De acordo com o relatório supramencionado, da Comissão Interamericana, a
Corte se manifestou como uma fragrante violação ao direito à razoável duração do processo,

161
A Convenção do Pará é uma Convenção Interamericana para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher, assinada pelo Brasil
em 9 de junho de 1994.
67

demonstrando uma total negligência, tolerância e um retardo injustificado por parte do aparato
estatal acerca das providências a ser tomadas em razão das violações perpetradas contra os
direitos humanos. Senão veja-se a manifestação da Corte sobre a violação do direito à
razoável duração do processo:
A Comissão concluiu que desde a investigação policial em 1984, havia no
processo elementos probatórios claros e determinantes para concluir o julgamento e que a
atividade processual foi às vezes retardada por longos adiamentos das decisões, pela aceitação
de recursos extemporâneos e por demoras injustificadas. Também considera que a vítima e
peticionária neste caso cumpriu as exigências quanto à atividade processual perante os
tribunais atuantes, com os quais a vítima sempre colaborou. Por esse motivo, a Comissão
considera que nem as características do fato e da condição pessoal dos implicados no
processo, nem o grau de complexidade da causa, nem a atividade processual da interessada
constituem elementos que sirvam de escusa para o retardamento injustificado da
administração de justiça neste caso.

Desde o momento que a senhora Fernandes foi vítima do delito de tentativa de


homicídio em 1983, presumidamente por seu então esposo, e foram iniciadas as
respectivas investigações, transcorreram quase oito anos para que fosse efetuado o
primeiro juízo contra o acusado em 1991; os defensores apresentaram um recurso de
apelação extemporâneo, que foi aceito, apesar da irregularidade processual e, após
mais de três anos o Tribunal decidiu anular o juízo e a sentença condenatória
existente. O novo processo foi postergado pro um recurso especial contra a sentença
de pronúncia de 1985 (recurso igualmente alegado como extemporâneo), que só foi
resolvido tardiamente em 03 de abril de 1995. O Tribunal de Justiça do Estado do
Ceará reafirmou dez anos depois a decisão tomada pelo juiz em 1985 de que havia
indícios de autoria por parte do acusado162.

A Comissão considerou neste caso uma flagrante omissão por parte do Estado
Brasileiro, em razão da demora injustificada do julgamento, bem como o risco de não punição
do acusado, assim como a possibilidade de indenizar a vítima em razão do decurso do tempo.
A postergação da efetividade da justiça, com a demora processual irrazoável, fere
a dignidade da pessoa humana, desacredita a justiça brasileira e deixa desamparados os
cidadãos que deveriam ter seus direitos protegidos pelo Estado.
O alcance do acesso à justiça com efetividade é proporcionado quando existe um
prazo razoável de tramitação do processo; e nesse sentido a COIDH163 tem entendido.
A CIDH fez recomendações ao Estado Brasileiro no sentido de realizar medidas
eficazes de combate à violência doméstica, tais como: simplificar os procedimentos judiciais
162
Disponível no site: www.cidh.oas.or/annualrep/2000port/12051.htm. Acesso em: 01-7- 2014.
163
Caso Nogueira de Carvalho vs. Brasil, sentença de 28-11-2006, item 48, c.
68

penais, no tempo processual, multiplicar delegacias de defesa dos direitos da mulher, entre
outros na forma de prevenir e erradicar a violência contra as mulheres no país e ainda
apresentar no prazo de sessenta dias o cumprimento das recomendações.
Assim, o Estado Brasileiro aprovou a Lei 11.340/11 que leva o nome de Maria da
Penha, com as recomendações da CIDH. Além disso, o ordenamento interno, já no ano de
2004, aprovou a emenda constitucional n° 45, sobre a reforma do judiciário, que acrescenta ao
artigo 5° inciso LXXVIII, da CF, que disciplina a previsão do tempo razoável do processo, e
determina, ainda, que o Estado deve fornecer meios para a sua efetivação, pois o processo é
instrumento que viabiliza o exercício dos demais direitos.
Outro caso emblemático foi o do Wallace de Almeida164 contra o Brasil, soldado
assassinado por policiais militares, em 13 de setembro de 1998, tendo a Comissão, em 24 de
janeiro de 2001 se manifestado da seguinte forma:

Os artigos 8 e 25 da Convenção garantem à pessoa o direito de acesso aos recursos


judiciais. A jurisprudência da comissão estabelece que a demora e a falta de
empenho nas investigações oficiais por homicídios podem constituir violação das
garantias judiciais asseguradas na Convenção. Os critérios estabelecidos pela
Comissão para determinar a razoabilidade (ou não) da demora são os seguintes: (1)
complexidade do caso; (2) a conduta da parte lesada em relação a sua elaboração no
processo; (3) a forma como tramitou-se a etapa de investigação do processo; (4) a
atuação das autoridades judiciais. O caso em tela demonstra um grau de
complexidade limitado, uma vez que se trata de homicídio de uma só vítima e que
todos os réus foram identificados através de diversas testemunhas (critério 1). A
cooperação por parte dos familiares da vítima Wallace de Almeida, os quais
prestaram depoimento à polícia apóia nossa posição de que a demora não foi
razoável e nem justificada.

Concluiu-se que o tempo injustificado na apuração da investigação do assassinato


de Wallace, bem como o descaso das autoridades na conclusão do inquérito policial evidencia
a negligência e a ineficiência por parte do Estado na solução da investigação criminal.

2.2. Inclusão e Evolução do Direito à Razoável Duração do Processo no Brasil

Um breve estudo histórico de alguns séculos atrás nos premite concluir que o
direito ao adequado tempo de duração do processo, se instalalou ao longo dos tempos em
Tratados, Pactos de Direitos Humanos e principalmente nas Constituições e legislações em

164
http://www.global.org.br/portuguese/arquivos/wallacedealmeida.html. Acesso em 01-7-2014.
69

geral. As normas mais antigas versam sobre o direito a um julgamento rápido – o speed trial
do constitucionalismo americano e estão mais ligadas aos processos criminais165.
Um outro momento, diz respeito à ascensão do critério da razoabilidade aos
documentos internacionais, notadamente a Convenção Europeia dos Direitos Humanos
(CEDH), em seu art. 6.1.
Há um importante precedente na história brasileira da previsibilidade do direito à
razoabilidade processual, quando se analisa o desenvolvimento histórico luso-brasileiro.
Inicialmente, na história do direito Português, pode ser considerado como um
marco, no que concerne à previsibilidade ao tempo razoável do processo, a edição das
Ordenações Afonsinas166 (1500-1514) que traziam no decorrer do seu Título LXVIII do Livro
III com o fito de obstar “todos os modos, e maneiras, porque os feitos, e processos possam ser
prolongados”. Intencionando minimizar os formalismos processuais desnecessários que
resultassem em uma morosidade desnecessária.
É de se constatar que na Constituição Portuguesa de 1826, precisamente em seu
art. 145, §7°, abraçou o instituto de razoabilidade temporal da duração das prisões sem culpa
formada. Esta norma depois reproduzida na Constituição de 1838, não só pode ser tido como
uma origem singular do direito fundamental em análise no universo português, mas vai além
disso, pois marca uma das primeiras revelações efetivas do sentido da razoabilidade temporal,
a qual pode ser considerada como essência mais proeminente do direito fundamental167.
Fortemente alcançado pelo exemplo jurídico português e europeu, o ordenamento
jurídico pátrio tradicionalmente não observava de maneira taxativa uma garantia de
tramitação dos processos em tempo razoável.
Foi a Constituição de 1934, embora de curta vigência, que previu em seu art. 113,
35, primeira parte, a qual dispunha expressamente que “a lei assegurará o rápido andamento
dos processos nas repartições públicas [...]”, sendo que esta norma estava contida no título
consagrado à “Declaração de Direitos”, expecificamente no capítulo relativo aos direitos e
garantias individuais. Constata-se que o constituinte já era ciente da importância e a
necessidade de conceder estatuto jus-fundamental à garantia de adequada temporalidade
processual, não se limitando a constitucionalizá-la. Vale advertir que na expressão
“repartições públicas” não se está limitando, de acordo com uma melhor hermenêutica, a

165
ANNONI, Danielle. Op. Cit. p. 42.
166
Ordenações Afonsinas. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkainm 1792. Livro 3. Reprodução da edição 1792.
167
Idem. p. 42.
70

órgãos administrativos que integram o Poder Executivo, mas, sim, estende-se a compreensão
de repartições judiciais168.
No entanto, as constituições que vieram após a Constituição de 1934 até a
Constituição de 1988, não contemplaram a previsibilidade em seus textos do direito à
razoável duração do processo, apesar de tal direito já estar contido no plano de
reconhecimento internacional, nos numerosos ordenamentos jurídicos estrangeiros169 e nos
tratados e convenções internacionais de direitos humanos170.
Em contrapartida, o Código de Processo Penal brasileiro171, emanado do Decreto-
lei 3.689, de 3 de outubro de 1941, já manifestava preocupação acerca do tempo da conclusão
da fase inquisitorial e da instrução criminal, passando a estabelecer previsão de prazos para a
sua conclusão, com vistas à celeridade de seus procedimentos.
Com a Constituição Federal de 1988, a despeito de não trazer em seu seio
originário a previsibilidade do direito fundamental à razoável duração do processo, o acolheu
mesmo antes da Emenda Constitucional n° 45 de 2004, pois tal direito se manifestou de forma
intrínseca ao direito fundamental à tutela judicial efetiva, prevista no texto constitucional, em
seu art. 5°, inciso XXXV. Além do que o supremencionado direito fundamental, já havia sido
integrado ao ordenamento jurídico pátrio por meio dos diversos instrumentos internacionais
de direitos humanos, em razão do disposto no art. 5°, §1°, da Carta Magna que estabelece:

§ 1º - As normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação


imediata.
§ 2º - Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros
decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados
internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte.

168
Ibidem. p. 42-43.
169
A Constituição norte americana de 1791, precisamente na VI emenda, onde assegurava “o direito a um julgamento público e rápido, entre
as garantias explícitas do ‘due process of law’”. LOPES Jr., Aury; BADARÓ, Gustavo Henrique. Direito ao processo penal no prazo
razoável. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2006, p. 17. A Constituição Portuguesa de 1826, com previsão no art. 145, §7°, do direito à razoável
duração das prisões sem culpa formada. Na Constituição do México de 1917, em seu art. 17, que estabelece que os provimentos do Poder
judiciário devem ocorrer de modo “ágil, completo e imparcial”. A Constituição da Bolívia em seu art. 16, de 1967. A Constituição
Portuguesa de 1976, e que nos dias atuais em seu art. 20, n° 4, dispõe que todos têm direito a “uma decisão em prazo razoável e mediante
processo equitativo”. PORTUGAL. Constituição da República Portuguesa. (1976). Disponível em: <http:
//www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/internacional3.htm>. Acesso em: 22-5-2014. A Constituição Espanhola de 1978, que previu
em seu art. 24.2 que “todos tem direito ao juiz ordinário previamente determinado por lei, à defesa e a assistência de advogado, a ser
informado da acusação contra si deduzida, a um processo público sem dilações indevidas (...). http:
//www.congreso.es/constitucion/constitucion/índice/índex.htm
170
Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948; Convenção Européia dos Direitos do Homem de 1950; Pacto Internacional sobre
os Direitos Civis e Políticos de 1966; Convenção Européia dos Direitos Humanos de 1950; a Convenção Americana sobre Direitos Humanos
1969, e de 1981 Africano (Banjul) Carta dos Direitos Humanos e dos Povos.
171
BRASIL. Código de Processo Penal de 1941. Art. 10. O inquérito deverá terminar no prazo de 10 dias, se o indiciado tiver sido preso em
flagrante, ou estiver preso preventivamente, contado o prazo, nesta hipótese, a partir do dia em que se executar a ordem de prisão, ou no
prazo de 30 dias, quando estiver solto, mediante fiança ou sem ela. Art. 46. O prazo para oferecimento da denúncia, estando o réu preso,
será de 5 dias, contado da data em que o órgão do Ministério Público receber os autos do inquérito policial, e de 15 dias, se o réu estiver solto
ou afiançado. No último caso, se houver devolução do inquérito à autoridade policial (art. 16), contar-se-á o prazo da data em que o órgão do
Ministério Público receber novamente os autos.
71

Como se observa, o Brasil recepcionou em seu ordenamento jurídico o Pacto


Internacional sobre Direitos Civis e Políticos172, promulgado em julho de 1992, bem como no
mesmo ano aprovou e promulgou a Convenção Americana sobre Direitos Humanos173, tendo
sido tratado em ambos os documentos internacionais do direito do homem à razoável duração
do processo, passando a ser tal direito fundamental recepcionado e integrado pelo
ordenamento jurídico pátrio em consequência da aprovação formal pelo Estado brasileiro.
Em razão do declarado acima, o direito fundamental em estudo, foi acolhido pela
Constituição de 1988, como se escrito estivesse desde a sua origem, em razão do teor do art.
5°, §1° e §2°.
Além do que, os direitos implícitos e explícitos na Carta Magna possuem a
natureza jurídica de princípios fundamentais, devendo estes conduzir toda a obra e aplicação
de interpretação do direito, bem como a atuação do Estado a fim de se chegar à sua real
efetivação174.
Então, como a Emenda Constitucional 45/04, não trouxe inovação no
ordenamento jurídico, no que diz respeito à inserção do inciso LXXVIII no art. 5º, da CF, do
direito do homem à duração razoável do processo, posto que tal direito já se encontrava
implicitamente previsto no art. 5°, §2° , em razão da Convenção Americana de Direitos
Humanos, da qual o Brasil é signatário através do decreto nº. 678, de 6 de novembro de 1992,
podendo já desde esta época o Estado brasileiro ser demandando junto à Corte Interamericana
de Direitos Humanos, por descumprimento deste direito.
A partir da Emenda Constitucional 45, de 2004, surge na Lei fundamental pátria,
de forma expressa, o direito subjetivo do homem e o dever jurídico do Estado, em garantir
jurisdição em tempo razoável no processo, dentro de um prazo sem dilações indevidas, direito
este agora previsto de forma direta e explícita no art. 5º, inciso LXXVIII, conforme se vê: “a
todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e
os meios que garantam a celeridade de sua tramitação”.
Conforme observa Lopes Jr. e Badaró175 “a existência de uma norma
constitucional que explicita e especificamente preveja o direito ao processo no prazo razoável

172
BRASIL. Decreto Legislativo n° 226, de 12-12-1991. Disponível em:
http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaTextoIntegral.action?id=113245. Acesso em: 22 de mai. 2014 e Decreto n° 592, de 6 de julho de
1992. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990-1994/D0592.htm>. Acesso em: 22-5-2014.
173
BRASIL. Decreto Legislativo n° 27, de 26 de maio de 1992. Disponível em: http://www6.senado.gov.br/legislacao/Lista.
Publicacoes.action?id=136444> Acesso em: 22 de mai. 2014 e Decreto n° 678, de 6 de novembro de 1992. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D0678.htm>. Acesso em: 22-5-2014.
174
COMPARATO, Fábio Konder. Fundamento dos direitos humanos, in Cultura dos direitos humanos. MERCILIO, Maria Luiza e
PUSSOLI, Lafaiete. (organizadores), São Paulo: LTR, 1998.
175
LOPES JUNIOR, Aury. e Gustavo Henrique Righi Ivahy Badaró. op. cit. p. 35.
72

tem a vantagem de dar maior realce e visibilidade a tal direito, bem como facilitar sua
invocação nos processos daquele país”.
Como se pode analisar este novo inciso constitucional trata da razoável duração e
na celeridade de sua tramitação, segundo afirma Bermudes176:

É a celeridade da tramitação que alcança a duração razoável, ou seja, a duração


necessária à conclusão do processo, sem prejuízo do direito das partes e terceiros
que deduzirem as suas pretensões, mas sem delongas que retardem a prestação
jurisdicional ou administrativa postulada. A celeridade na tramitação traduz-se na
presteza da prática de cada ato do processo, porquanto a demora na prática de um
deles repercute, negativamente, no conjunto.

O acolhimento pelo legislador nacional constituinte no arcabouço dos direitos e


garantias individuais, do direito à razoável duração do processo, é a concretização prévia das
garantias constitucionais acerca das regras do jogo, em um Processo Penal, na égide do
Estado Democrático de Direito, onde todos têm o direito a um processo justo, eficaz e
realizado dentro de um prazo razoável.
À luz deste entendimento é a manifestação de Barroso177 quando destaca que:

As normas constitucionais definidoras de direitos, investem o jurisdicionado no


poder de exigir do Estado – ou de outro eventual destinatário da regra – prestações
positivas ou negativas, que proporcionem o desfrute dos bens jurídicos nelas
consagrados. (...)
A Constituição deve reservar o termo direito para identificar as situações jurídicas
caracterizáveis como direito subjetivo, isto é, que facultam ao jurisdicionado a
pronta exigibilidade de um determinado bem jurídico. Aos direitos constitucionais
correspondem um dever jurídico por parte do Estado (ou de qualquer outro sujeito)
e, na hipótese de sua violação, nasce para o titular uma pretensão, exercitável por
meio de uma ação judicial

O legislador constituinte reformador ao inserir em meio ao rol dos direitos


fundamentais, o da razoável duração do processo, realizou uma escolha legislativa que não só
instituiu um novel direito fundamental, como se pode aferir de sua disposição formal no
arcabouço do texto constitucional (em sentido formal), assim como, fez brotar um novo
direito subjetivo, pois trata de conteúdo próprio da Constituição (em sentido material), capaz
de ser um princípio de interpretação das normas constitucionais e legais.
Faz-se necessário apontar quanto a jurisprudência pátria avançou e tem pautado
em seus julgados a importância da aplicação do direito à razoável duração do processo, vê-se

176
BERMUDES, S. A reforma do poder judiciário: emenda constitucional 45/2004. Rio de Janeiro: Forense, 2005. p. 11.
177
BARROSO, Luís Roberto. O direito constitucional e a efetividade de suas normas: limites e possibilidades da Constituição Brasileira.
Rio de Janeiro: Renovar, 2001. p. 280.
73

claramente no âmbito da Suprema Corte, bem como em nível regional no Tribunal de Justiça
do Estado do Piauí, a presença deste direito fundamental, in verbis:

Ementa: HABEAS CORPUS. EXCESSO DE PRAZO DA PRISÃO


PREVENTIVA. CARACTERIZAÇÃO. SITUAÇÃO INCOMPATÍVEL COM O
PRINCÍPIO DA RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO (CF, ART. 5º,
LXXVIII). CONSTRANGIMENTO ILEGAL CONFIGURADO. ORDEM
CONCEDIDA. 1. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é no sentido de
que a demora para conclusão da instrução criminal, como circunstância apta a
ensejar constrangimento ilegal, somente se dá em hipóteses excepcionais, nas quais
a mora seja decorrência de (a) evidente desídia do órgão judicial, (b) exclusiva
atuação da parte acusadora, ou (c) outra situação incompatível com o princípio da
razoável duração do processo, previsto no art. 5º, LXXVIII, da CF/88.
Precedentes. 2. No caso, transcorridos mais de 15 anos sem que sequer o recurso de
apelação da defesa tenha sido levado a julgamento, é de se concluir que a
manutenção da segregação cautelar representa flagrante situação de constrangimento
ilegal. 3. Ordem concedida, para que o paciente seja posto em liberdade, salvo se por
outro motivo estiver preso. (STF - HC: 118135 TO, Relator: Min. TEORI
ZAVASCKI, Data de Julgamento: 18/12/2013, Segunda Turma, Data de Publicação:
DJe-030 DIVULG 12-2-2014 PUBLIC 13-2-2014). (grifado).

EMENTA HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ORDINÁRIO


CONSTITUCIONAL. ARTIGO 102, INCISO II, ALÍNEA A, DA
CONSTITUIÇÃO FEDERAL. INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA AO CASO
CONCRETO. PRECEDENTE DA PRIMEIRA TURMA. WRIT EXTINTO, EM
FACE DA INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. PROCESSUAL PENAL. PRISÃO
PREVENTIVA. FLEXIBILIZAÇÃO CIRCUNSCRITA ÀS HIPÓTESES DE
FLAGRANTE ILEGALIDADE, ABUSO DE PODER OU TERATOLOGIA.
OCORRÊNCIA. CELERIDADE NO JULGAMENTO. CONSTITUIÇÃO
FEDERAL, ART. 5º, INCISO LXXVIII. DEMORA NÃO IMPUTÁVEL À
DEFESA. EXCESSO DE PRAZO CONFIGURADO. ORDEM CONCEDIDA DE
OFÍCIO. 1. Impetração manejada em substituição ao recurso ordinário
constitucional prescrito no art. 102, inciso II, alínea a, da Carta da República, a qual
esbarra em decisão da Primeira Turma, que, em sessão extraordinária datada de
7/8/12, assentou, no julgamento do HC nº 109.956/PR, Relator o Ministro Marco
Aurélio, a inadmissibilidade do habeas corpus que tenha por objetivo substituir o
recurso ordinário. 2. Nada impede, entretanto, que esta Suprema Corte, quando do
manejo inadequado do habeas corpus como substitutivo (art. 102, inciso II, alínea a,
da CF), analise a questão de ofício nas hipóteses de flagrante ilegalidade, abuso de
poder ou teratologia. 3. A Constituição Federal determina, em seu artigo 5º,
inciso LXXVIII, que "a todos, no âmbito judicial e administrativo, são
assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a
celeridade de sua tramitação". 4. O Supremo Tribunal Federal entende que a
aferição de eventual excesso de prazo é de se dar em cada caso concreto, atento o
julgador às peculiaridades do processo em que estiver oficiando. 5. No caso, a
custódia instrumental do paciente excede a 6 (seis) anos, não tendo o processo
retomado sua marcha validamente. O prazo alongado não é de ser debitado
decisivamente à defesa. 6. A gravidade da increpação não obsta o direito subjetivo
à razoável duração do processo (inciso LXXVIII do art. 5º da CF). 7. Writ
extinto. Ordem concedida de ofício. (STF, HC 119365, Relator(a): Min. DIAS
TOFFOLI, Primeira Turma, julgado em 29/04/2014, PROCESSO ELETRÔNICO
DJe-107 DIVULG 03-06-2014 PUBLIC 04-6-2014). (grifado).

EMENTA: HABEAS CORPUS. CRIME DE HOMICÍDIO. PRISÃO


PREVENTIVA. PACIENTE SEGREGADO HÁ MAIS DE 03 (TRÊS) ANOS SEM
CONCLUSÃO DA INSTRUÇÃO CRIMINAL. PRINCÍPIOS DA CELERIDADE
E DA RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO. EXCESSO DE PRAZO NA
74

FORMAÇÃO DA CULPA IMPUTADO AO PODER JUDICIÁRIO.


CONSTRANGIMENTO ILEGAL CONFIGURADO. CONCESSÃO DO WRIT. 1.
O paciente encontra-se recolhido há mais de 3 (três) anos e a ação penal ainda não
foi concluída, não tendo contribuído para mora processual e nem havendo previsão
para o seu término. 2. Compartilho entendimento de que os prazos processuais não
são peremptórios, fatais, admitindo dilação diante da complexidade do feito. 3. No
presente caso não comporta tal plus, eis que não existe justificativa para a demora na
tramitação da ação penal, posto que se trata de um feito que envolve apenas um réu e
a instrução criminal ainda não terminou, não se podendo cogitar de feito complexo
e, ainda que o fosse, não seria razoável a dilação do prazo para mais de 3 (três) anos,
que se deu por culpa da própria Justiça, sobretudo porque após o advento da EC n.º
45/2004, foi assegurado a todos, no âmbito administrativo e judicial, o direito
fundamental à celeridade e à razoável duração do processo, medidas também
adotadas quando da reforma processual penal introduzida pela Lei n.º 11.719/2008.
4. Ressalte-se que a defesa não deu causa ao excesso de prazo na conclusão da
instrução criminal, cuja responsabilidade é atribuída ao aparato da justiça. 5.
Caracterizado está o constrangimento ilegal por excesso de prazo, eis que sua
prisão ofende aos princípios constitucionais da celeridade e da razoável
duração do processo, por consequencia, manter o paciente segregado é antecipar
pena sem condenação. 6. Ordem concedida. Decisão unânime. (TJ/PI, HC
2012.0001.004579-4, Relator(a): Des. Joaquim Dias de Santana Filho, 2ª Câmara
Especializada Criminal, julgado em 28-8-2012). (grifado).

EMENTA: HABEAS CORPUS. ROUBO CIRCUNSTANCIADO, INCÊNDIO E


ASSOCIAÇÃO CRIMINOSA. EXCESSO DE PRAZO. OFENSA AOS
PRINCÍPIOS DA PROPORCIONALIDADE E DA RAZOÁVEL DURAÇÃO DO
PROCESSO. CONSTRANGIMENTO ILEGAL CONFIGURADO. ORDEM
CONCEDIDA. 1. A concessão de Habeas Corpus por excesso de prazo só está
autorizada quando a demora aferida for atribuída ao Juiz ou à acusação, em
manifesta ofensa ao princípio da razoável duração do processo. 2. O réu se
encontra preso em razão desta ação penal (nº 0000122-47.2013.18.0077) desde o dia
15-10-2010, ou seja, há mais de 03 (três) anos, sem que a instrução tenha sido
concluída, pois, apesar de já haver se realizado a audiência, o representante
ministerial requereu a oitiva de algumas testemunhas, não havendo sequer data para
a continuidade da instrução. 3. Resumidamente, o paciente está preso deste desde o
dia 15-10-2010 e, passados mais de 03 (três) anos, a instrução não foi concluída e,
via de consequencia, não se lhe ofereceu julgamento. Dessa forma, o atraso já não se
justifica, é completamente desmedido, por culpa exclusiva do aparelho repressor
estatal, violando, assim, os postulados constitucionais da celeridade dos atos
processuais e da razoável duração do processo (art. 5°, LXXVIII, da CR), com
repercussão negativa no princípio da proibição do excesso (art. 648, II, CPP). 4.
Ordem de habeas corpus concedida. (TJ/PI, HC 2013.0001.006140-8, Relator(a):
Des. Erivan José da Silva Lopes, 2ª Câmara Especializada Criminal, julgado em 05-
11-2013). (grifado).

Contudo, mesmo diante da consagração constitucional e jurisprudencial no


ordenamento jurídico pátrio, do direito à razoável duração do processo, ainda não se observa
uma manifestação por parte legislador ordinário acerca de uma definição, de forma prévia,
específica e pontual, do que venha a ser esse “tempo razoável”, estabelecendo um prazo
condizente e categórico com as necessidades processuais, possibilitando ao réu o legítimo
direito de defesa e de todos os instrumentos cabíveis para tal exercício178.

178
FERNANDES, Antônio Scarance. Processo Penal Constitucional. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002, p. 116-120.
75

2.2.1 A Posição Hierárquica e o Valor dos Diplomas Internacionais de


Direitos Humanos no Ordenamento Jurídico Pátrio

Diante do tema, é oportuno estabelecer uma diferenciação entre tratados


internacioanais em matéria de direitos humanos, tais como, a Convenção Interamericana dos
Direitos Humanos do Homem e do Pacto Internacioanal dos Direitos Civis e Políticos e os
que tratam de matéria diversa. Posto que, a Lei Fundamental pátria, acolheu o princípio da
não-tipicidade dos direitos fundamentais, prevendo o art. 5°, paragráfo 2°, que:

Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes


do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a
República Federativa do Brasil seja parte.

É de fácil percepção que o legislador constitucional quis estabelecer a qualificação


dos direitos fundamentais não apenas às normas que foram diretamente consagradas no curso
do texto constitucional, nos chamados direitos formalmente constitucionais, mas também quis
inserir os dispositivos constantes das Convenções internacionais, que dentro desta análise
podem ser considerados direitos materialmente fundamentais. Uma inovação na Constituição
de 1988 foi a alusão expressa aos dispositivos de direito internacional179.
Conforme o douto magistério de Giacomolli180, ex vi:

A partir da CF de 1988, além dos direitos e das garantias expressos (arts. 5°, I a
LXXVIII, 93, IX, CF, v.g.) e implícitos, ou seja, os decorrentes do regime e dos
princípios constitucionalmente adotados (art. 5°, §2°, CF), os direitos e as garantias
insculpidos nos diplomas internacionais, ratificados pelo Brasil, integram o
denominado ‘bloco de constitucionalidade’, constituindo-se em fontes de proteção.
Portanto, há uma abertura do sistema doméstico ao sistema protetivo internacional,
possibilitando uma hermenêutica assecuratória dos direitos e das liberdades, na
perspectiva do devido processo. Contudo, a própria CADH, em seu art. 29.b, reza
que nenhum disposição da Convenção pode ser interpretada para limitar o gozo e
exercício de qualquer direito ou liberdade reconhecidos de conformidade com as leis
do Estado-parte ou pela Convenção.

Antes do advento da Emenda Constitucional n° 45/2004, existiam quatro das


principais teses acerca da recepcionalidade dos diplomas internacionais de direitos humanos
no ordenamento jurídico pátrio:

179
Idem. p. 164.
180
GIACOMOLLI, Nereu José. op. cit. p. 17.
76

a) Hierarquia Infraconstitucional – defendia a paridade com a lei ordinária (de 1977 a


2004), defendida pelo Min. Xavier de Albuquerque no RE 80.004/SE.
A acepção desta vertente, segundo o voto do Min. Gilmar Mendes no julgamento do
RE 466.343-1/SP, datado de 12-12-2008, in verbis:

Prega a idéia de que os tratados de direitos humanos, como quaisquer outros


instrumentos convencionais de caráter internacional, poderiam ser concebidos como
equivalentes às leis ordinárias. Para esta tese, tais acordos não possuiriam a devida
legitimidade para confrontar, nem para complementar o preceituado pela
Constituição Federal em matéria de direitos fundamentais.

b) Hierarquia Supraconstitucional – 1999 – Teoria que concedia “prevalência dos


diplomas internacionais sobre a lei e a CF, em face da força expansiva dos direitos humanos,
mas quando de maior proteção”181. Era defendida por Celso Duvivier de Albuquerque Mello
(doutrina);
c) Hierarquia Constitucional – 2008 – Teoria que trata da paridade entre os
diplomas internacionais de direitos humanos e a CF (Tem apoio de grande parcela da
doutrina, tendo como fundamento o art. 5°, §2°, da CF. (Defensores: Mazzuoli, Resek,
Cançado Trindade, Lafer, Piovesan, e Sarlet).
d) Hierarquia Supralegal – 2008 – Teoria defendida pelo Ministro Gilmar Ferreira
Mendes no julgamento do RE 466.343-1/SP. Os diplomas de direitos humanos estão acima
das leis ordinárias, porém abaixo da Constituição.
Não resta dúvida que a partir da Emenda Constitucional 45, que incorporou o
parágrafo 3° ao artigo 5° da Constituição Federal, os tratados internacionais de direitos
humanos passaram a ser normas equivalentes a emendas constitucionais, desde que aprovadas
por quorum qualificado em cada casa do Congresso Nacional. Porém, a questão é acerca de
Tratados aprovados antes da vigência da referida emenda constitucional.
É nesse sentido a argumentação do prof. Giacomolli182 ao ponderar que:

Em razão da discussão acerca do patamar ocupado pelos diplomas internacionais


protetivos dos direitos humanos é que foi proposto o §3° do art. 5° da CF. A
problemática acentuava-se porque a aprovação por meio de Decreto Legislativo se
dava por maioria simples (art. 49, I, CF) e pelas emendas à CF pelo quorum
qualificado de 3/5 e em dois turnos (art. 60, §2°, da CF). A introdução do §3° não
resolveu totalmente o problema, em face da existência de diplomas referentes aos
Direitos Humanos incorporados antes da EC n° 45/2004 e da possibilidade de não
ser atingido o quorum qualificado, ou nem sequer ser este proposto.

181
Ibid. p. 18.
182
Ibidem. p. 19.
77

Prevalecia no sistema jurídico pátrio, até meados da década de 70, o chamado


sistema paritário, segundo o qual, os Tratados Internacionais, inclusive o de direitos humanos,
valiam na mesma proporção da lei. Ou seja, só se conhecia hierarquia superior às normas
constitucionais183, de acordo com a antiga jurisprudência da Suprema Corte brasileira184.
Essa tradicional forma de admitir o direito sob a visão legalista positivista,
encontra-se totalmente obsoleta, em razão do julgamento paradigmático do STF no RE
466.343-1-SP185, que admitiu o valor supralegal aos Tratados de Direitos Humanos ratificados
pelo Brasil e incorporados no ordenamento jurídico interno186.
Nesse sentido é a avaliação do julgado da Suprema Corte realizada por
Novelino187 ao afirmar que:

Os tratados internacionais de direitos humanos aprovados por três quintos dos


membros de cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos de votação, serão
equivalentes às emendas constitucionais (CF, art. 5°, § 3°) e, portanto, poderão
servir como parâmetro para o controle de constitucionalidade. Os tratados
internacionais de direitos humanos aprovados antes da EC 45/2004 ou pelo processo
legislativo ordinário, por terem status supralegal, poderão servir como parâmetro
apenas para um controle de supralegalidade (ou controle de convencionalidade). Os
tratados e convenções internacionais que não tenham como objeto direitos humanos,
por terem o status de uma lei ordinária, podem servir como parâmetro para um
controle de legalidade.

Em suma, diante do supramencionado julgamento, o valor dos diplomas


internacionais de direitos humanos no ordenamento jurídico pátrio se manifesta de duas
formas: a) os diplomas internacionais comuns têm similitude normativa com as leis
ordinárias; b) já os referentes aos direitos humanos possuem força normativa superior às leis
ordinárias. “Nessa perspectiva, os diplomas inseridos no §2° irradiariam um ‘efeito
bloqueador’ de normas infraconstitucionais materialmente contrárias aos diplomas
internacionais”188.

2.2.2 O Controle de Convencionalidade dos Direitos Humanos

O controle de convencionalidade consiste em verificar a adequação das normas


jurídicas internas em relação aos tratados internacionais de que o país é signatário.

183
GOMES, Luis Flávio. MAZZUOLI, Valério de Oliveira. Direito supraconstitucional: do absolutismo ao Estado constitucional e
humanista de direito. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2010, - (coleção direito e ciências afins; v. 5/ coordenação Alice Bianchini,
Luis Flavio Gomes, William Terra de Oliveira). p. 82.
184
STF, RE 80.004-SE.
185
STF, RE 466.343-1-SP, rel. Min. Cezar Peluso. DJ. 22-11-2006.
186
GOMES, Luis Flávio. MAZZUOLI, Valério de Oliveira. op. cit. p. 82.
187
NOVELINO, Marcelo. Direito Constitucional. 4ª ed. Rio de Janeiro: Método, 2010. p. 262.
188
GIACOMOLLI, Nereu José. op. cit. p. 23.
78

A ideia acerca do controle de convencionalidade realizada por órgãos


jurisdicionais internos foi especificamente desenvolvida pela Corte Interamericana de direitos
humanos, no caso Almonacid Arellano e Outros vs. Chile 189, em 26 de setembro de 2006,
quando se referiu ao controle de convencionalidade como o dever dos juízes e tribunais
internos de analisar a compatibilidade das leis internas à Convenção Americana e à
interpretação que é dada pela própria corte, como se vê:

124. O Tribunal está ciente de que os juízes e os tribunais estão sujeitos à regra da
lei e, portanto, são obrigados a aplicar as disposições da lei. Mas quando um Estado
ratifica um tratado internacional, como a Convenção Americana, seus juízes, como
parte do aparelho do Estado, também estão sujeitos a ela, forçando-os a garantir que
os efeitos das disposições da Convenção não sejam prejudicados por implementação
de leis contrárias a seu objeto e finalidade, e que desde o início, sem efeito legal. Em
outras palavras, o Judiciário deve exercer uma espécie de "controle de
convencionalidade" entre as disposições legais nacionais que se aplicam em casos
específicos e na Convenção Americana sobre Direitos Humanos. Nesta tarefa, o
Judiciário deve levar em conta não só o tratado, mas também a sua interpretação
feita pelo Tribunal, o intérprete último da Convenção Americana.

A Corte Interamericana nos casos de leis de autoanistia, onde se estabeleceu a


invalidade do decreto-lei que decretava a impunidade dos crimes contra a humanidade no
período de 1973 a 1979 na ditadura militar de Augusto Pinochet, segundo a Corte IDH, o
decreto foi incompatível com a Convenção Americana sem "efeitos jurídicos" à luz do
tratado.
A Corte manifestou-se argumentando que sempre que um Estado tenha ratificado
um tratado internacional, como a Convenção Americana, seus juízes também estão sujeitos a
ela, forçando-os a assegurar que a eficácia da Convenção não é reduzida ou anulada pela
aplicação de leis contrárias ao seu objeto e finalidade. Em outras palavras, o Poder Judiciário
deve exercer o controle não só constitucional, mas também de "convencionalidade" ex officio
entre as normas internas e a Convenção Americana de direitos humanos.
Por conseguinte, quando um Estado ratifica um tratado internacional, como a
Convenção Americana, seus juízes, como parte do aparelho do Estado, também estão sujeitos
ao tratado, forçando-os a garantir que os efeitos das disposições da Convenção não sejam
prejudicados por implementação de leis contrárias, alheias ao seu objeto e finalidade, e que
desde o início, sem efeito legal. Em outras palavras, o Judiciário deve exercer uma espécie de
"controle de convencionalidade" entre as disposições legais nacionais que se aplicam em
casos específicos na Convenção Americana sobre Direitos Humanos. Nesta tarefa, o
189
CORTE IDH. Caso Almonacid Arellano e Outros vs. Chile. Exceções Preliminares, Mérito, Reparações e Custas. Sentença de 26 de
setembro de 2006. Serie C No. 154, par. 124.
79

Judiciário deve levar em conta não só o tratado, mas também a sua interpretação feita pela
Corte Interamericana, o intérprete último da Convenção.
Na mesma linha de entendimento, a Corte interamericana decidiu que, "de acordo
com o direito internacional as obrigações impostas por ele devem ser cumpridas de boa fé e
não podem ser invocadas por violação da lei doméstica"190. Esta regra foi codificada no artigo
27 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, de 1969.
A partir de 2010, a Corte Interamericana substituiu a expressão “Poder Judiciário”
para se referir a todos (os) órgãos dos Estados que ratificaram a Convenção, incluindo seus
juízes191, devem garantir a eficácia da Aliança. Então, o controle da "convencionalidade"192
passou a ser uma obrigação de qualquer autoridade pública e não apenas do Poder
Judiciário193.
De tal maneira, Rivas Ibañez 194 aponta que o controle de convencionalidade é uma
das medidas que os Estados devem implementar para garantir o efeito útil ou a eficácia da
Convenção Americana a fim de cumprir com as obrigações.
Desta feita, o controle de convencionalidade deve ser entendido como uma
ferramenta que permite aos juízes afrontar as regras internas gerais contra as regras dos
sistemas internacionais das quais são signatários. Isto significa que os tribunais nacionais
devem desenvolver a aplicação mais ampla possível e um maior respeito pelas obrigações
contidas nos tratados e convenções internacionais.
Em consonância com o acima exposto foi esse o entendimento da Corte IDH no
Caso de Cabrera García e Montiel Flores vs. México195 ao afirmar que:

225. Este Tribunal estabeleceu em sua jurisprudência que reconhece que as


autoridades nacionais estão sujeitas ao Estado de direito e, portanto, são obrigados a
aplicar as disposições da lei. Mas quando um Estado é parte de um tratado
internacional, como a Convenção Americana, todos os seus órgãos, inclusive seus
juízes, também estão sujeitos a isso, forçando-os a garantir que os efeitos das
disposições da Convenção não são afetados por regras contrárias ao seu objeto e
finalidade de execução. Os juízes e os órgãos relacionados com a administração da
justiça em todos os níveis são obrigados a exercer um controle ex officio de
"convencionalidade" entre as normas internas e a Convenção Americana claramente
dentro de suas respectivas competências e normas processuais correspondente. Nesta
tarefa, os juízes e tribunais relacionados com a administração da justiça deve levar

190
Corte IDH. Ibid.
191
Corte IDH, fundamentado Juiz ad hoc Eduardo Ferrer Mac-Gregor Poisot Corte IDH Visitante. Caso de Cabrera García e Montiel Flores
vs. México. Exceção Preliminar, Mérito, Reparações e Custas. Sentença de 26 de novembro de 2010. Série C, n°. 220, par. 19 a 21.
192
Ibid, para. 18.
193
Corte IDH, Caso Gelman vs. Uruguai, Sentença de mérito e reparações, 24 de fevereiro de 2011, Série C, n º 221, par. 239.
194
Rivas Ibañez, María Juana. Controle de convencionalidade: especificações para a aplicação da jurisprudência da Corte
Interamericana de Direitos Humanos-americano. Anuário de Direitos Humanos. Universidade do Chile, n º 8 (2012), p. 112.
195
Corte IDH. Caso de Cabrera García e Montiel Flores vs. México. Exceção Preliminar, Mérito, Reparações e Custas. Sentença de 26 de
novembro de 2010. Série C N°. 225.
80

em conta não só o tratado, mas também a sua interpretação feita pelo Tribunal, o
intérprete final da Convenção Americana .

Em 2011, no julgamento do caso Gelman vs. Uruguai196, o Tribunal novamente


reitera sua jurisprudência, observando que:

193. Sempre que um Estado tenha ratificado um tratado internacional, como a


Convenção Americana, todos os seus órgãos, inclusive seus juízes, estão sujeitos a
isso, forçando-os a garantir que os efeitos das disposições da Convenção não são
afetados pela aplicação de normas contrárias a seu objeto e finalidade, para que os
juízes e os órgãos relacionados com a administração da justiça em todos os níveis
são obrigados a exercer ex officio o "controle de convencionalidade" entre as normas
internas e a Convenção Americana, claramente no âmbito das respectivas
competências e das regulamentações processuais correspondentes, e esta tarefa deve
levar em conta não só o tratado, mas também a sua interpretação feita pelo Tribunal,
o intérprete último da Convenção Americana.

No caso Atala Riffo e meninas vs. Chile197, em 24 de fevereiro de 2012, repete


elementos básicos do controle de convencionalidade e especifica a natureza do intérprete
último da Convenção Americana:

282. Os juízes e os órgãos relacionados com a administração da justiça em todos os


níveis são obrigados a exercer um controle ex officio de "convencionalidade" entre
as normas internas e da Convenção Americana, no âmbito das respectivas
competências e das regulamentações processuais correspondentes. Nesta tarefa, os
juízes e os órgãos relacionados com a administração da justiça deve levar em conta
não só o tratado, mas também a sua interpretação feita pelo Tribunal, o intérprete
final da Convenção Americana.

No caso dos Trabajadores Cesados del Congreso (Aguado Alfaro e Outros) vs.
Peru (2006), que conforme a CIDH “os juízes dos Estados ratificantes da CADH hão de
exercer um controle de convencionalidade, realizando uma filtragem da normatividade
interna, em relação com a Convenção Americana, inclusive ex officio198”.
No caso Gomes Lund e Outros vs. Brasil ou Guerrilha do Araguaiai, acentua
Giacomolli199 que a Corte Interamericana de direitos humanos assinalou que as leis
domésticas de um país devem se submeter ao controle de convencionalidade do Poder
Judiciário, diante dos tratados e convenções ratificadas. E que o Brasil ao desconsiderar a
CADH declarando a constitucionalidade da Lei de Anistia, violou direitos e garantias judiciais
e a proteção judicial, em detrimento dos familiares das vítimas.

196
Corte IDH Caso Gelman vs. Uruguai. Mérito e reparações. Sentença de 24 de fevereiro de 2011. Série C, n°. 221, parágrafo 193.
197
Corte IDH. Caso Atala Riffo e Meninas vs. Chile, 24 de fevereiro de 2012. Serie C, n° 239, parágrafos 282.
198
GIACOMOLLI, Nereu José. op. cit. p. 29.
199
Ibid. p. 30.
81

O Artigo 1º da CADH determina a todos os Estados-membros a obrigação legal


de respeitar e garantir os direitos e liberdades reconhecidos na Convenção ao declarar que:

1. Os Estados Partes nesta Convenção comprometem-se a respeitar os direitos e


liberdades nela reconhecidos e a garantir a todas as pessoas sujeitas à sua jurisdição,
sem discriminação de raça, cor, sexo, língua, religião livre e pleno exercício opinião
política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento ou
qualquer outra condição.

Em consonância ao texto da CADH, a Corte Interamericana, no julgamento do


caso Velásquez Rodríguez200, de forma uniforme e consistente determinou que:

A segunda obrigação dos Estados Partes é "garantir" o livre e pleno exercício dos
direitos reconhecidos na Convenção a toda pessoa sujeita à sua jurisdição. Esta
obrigação implica no dever dos Estados Partes de organizar todo o aparato
governamental e, em geral, todas as estruturas através das quais o exercício do poder
público se manifesta, de modo que sejam capazes de assegurar juridicamente o livre
e pleno exercício dos direitos humanos. Como conseqüência dessa obrigação, os
Estados devem prevenir, investigar e punir toda violação dos direitos reconhecidos
pela Convenção e, além disso, para restabelecer, se possível, o direito violado e, se
necessário, reparar o dano causado por a violação dos direitos humanos.

Giacomolli201 ao tratar dos efeitos das decisões da CIDH revela que:

As decisões da CIDH possuem eficácia de coisa julgada formal e material (res


judicata), de modo que seus efeitos não se limitam às partes (aspecto subjetivo), mas
irradiam um efeitos hermenêutico especial a todos os aderentes ao sistema
interamericano, com eficácia erga omnes e standard interpretativo da
convencionalidade e dos ordenamentos internos dos Estados-membros. Os efeitos
não se limitam à adaptação da legislação interna, mas atingem a Law in action,
como verdadeiros Standards interpretativos e de proteção dos direitos humanos.

Por sua vez, o artigo 2° da Convenção Americana estabeleceu o dever de adotar


na legislação interna dos Estados-membros medidas legislativas para tornar efetivos os
direitos e liberdades, conforme se observa:

Se o exercício dos direitos e liberdades mencionados no artigo 1° ainda não estiver


garantido por disposições legislativas ou de outra natureza, os Estados Partes
comprometem-se a adotar, de acordo com suas normas constitucionais e com as
disposições desta Convenção, as medidas legislativas ou pode haver outras medidas
como necessárias para tornar efetivos tais direitos e liberdades.

Com esta obrigação cada Estado-membro passou a adotar em sua legislação


interna as disposições da Convenção, para garantir os direitos nela consagrados. Isto significa

200
Corte IDH. Velásquez Rodríguez contra Honduras. Fundo. Julgamento de 29 de Julho de 1988. Serie C No. 4, n ° 166., Série C n°. 1.
201
GIACOMOLLI, Nereu José. op. cit. p. 35.
82

que o Estado deve tomar todas as medidas para garantir que as disposições da Convenção
sejam efetivamente cumpridas no seu direito interno, conforme está determinado pelo artigo
2º da Convenção. Este dever geral do Estado-membro implica que as medidas jurídicas
internas para ser eficazes, os Estados devem ajustar suas ações às normas de proteção da
Convenção202. Esse é o entendimento esboçado por Giacomolli203 quando preleciona que:

A incorporação dos diplomas internacionais protetivos dos direitos humanos,


independentemente de seu patamar (materialmente constitucionais - §2°- ou material
e formalmente constitucionais - §3°), também exige a filtragem convencional de
toda produção e aplicação legislativa interna (controle de convencionalidade). Além
das providências legislativas, a CADH, em seu art. 2°, preconiza o dever de o
Estado-parte adotar outras medidas para tornar efetivos os direitos e as liberdades,
daí inferindo-se o suporte jurídico ao controle interno da convencionalidade.

Prossegue o autor204 afirmando que, pelo art. 2° da CADH, “o Brasil assumiu o


dever de adotar as medidas legislativas para dar efetividade aos direitos preconizados na
Convenção”, e que pode ser assegurada em três perspectivas:

Primeiro, com a utilização da jurisprudência da CIDH (função jurisdicional) e das


opiniões consultivas na interpretação dos casos penais internos de cada país.
Segundo, com o controle difuso da convencionalidade, a ser exercido pelos
magistrados, em cada caso concreto, nos termos do art. 5°, §§2° e 3°, da CF, tendo
como um dos fundamentos o art. 105, III, a, da CF. Por fim, no controle concentrado
ou abstrato da convencionalidade, a ser realizado pela CIDH, em sua jurisdição
contenciosa e consultiva, e pelos Tribunais, após a EC n° 45/2004, conforme suas
competências, legitimidades, procedimentos e mecanismos internos utilizados no
controle da constitucionalidade das leis (art. 5°, §3°, CF).

Segue nessa mesma diretriz Pastor205 ao asseverar que:

É por isso que, por exemplo, a CADH dispõe que os estados devem adotar as
medidas necessárias para fazer efetivos os direitos e liberdades reconhecidos pela
convenção. A CADH, em seu art. 2°, estabelece que “se o exercício dos direitos e
liberdades mencionados em seu art. 1° ainda não estiver garantido por disposições
legislativas ou de outra natureza, os Estados Partes comprometem-se a adotar, de
acordo com as suas normas constitucionais e com as disposições desta convenção, as
medidas legislativas ou de outra natureza que fossem necessárias para tornar efetivos
tais direitos e liberdades”. Nessa matéria, isso significa que os Estados são obrigados

202
Corte IDH. "A Última Tentação de Cristo" Olmedo Bustos e outros contra o Chile. Mérito, Reparações e Custas. Sentença de 5 de
fevereiro de 2001. Serie C, n°. 73, n º 87. Segundo Giacomolli: “a CIDH entendeu possível o controle da convencionalidade de uma norma
constitucional, ou seja, de uma disposição da Constituição chilena e de um Decreto-lei que permitiam a censura prévia na produção
cinematográfica, considerados válidos pela Corte Suprema de Justiça do Chile. O dispositivo da Constituição chilena foi considerado
incompatível com o art. 13 da CADH, o qual garante a liberdade de pensamento e de expressão (norma constitucional inconvencional).
Ademais, segundo a Corte, nos termos do art. 2° da CADH, é dever do Estado-membro adotar medidas para suprimir a normatividade
interna, bem como suas práticas, sempre que violarem as garantias previstas na Convenção, normatizando e propiciando a efetividade das
garantias. A CIDH determinou que o Chile promovesse, em um prazo razoável, a adequação da normatividade interna à CADH, suprimindo
a censura e informando, em um prazo de seis meses, após a notificação da decisão, quais foram as medidas adotadas”. GIACOMOLLI,
Nereu José. op. cit. p. 29-30.
203
Ibid p. 26.
204
Ibidem. p. 27.
205
PASTOR, Daniel R. El Plazo razonable en el proceso del estado de derecho. Buenos Aires: Editorial Ad Hoc, 2009. p. 352 e 353.
83

a regular por lei os prazos de duração dos processos penais para dar efetividade ao
direito de todo acusado a ser julgado dentro de um prazo razoável. (CADH, 8.1). (...)
Em consequência, os inventários de direitos fundamentais, sejam internacionais ou
nacionais, devem ser entendidos, quando a regulação do prazo razoável, como
ordens para a adequação da legislação e a prática com o fim de lograr uma efetiva
proteção dos direitos consagrados

O direito internacional dos direitos humanos requer que os Estados-membros de


seus pactos consagrem em suas legislações prazos máximos de duração do processo penal
com a aplicação de consequências para o caso de violação, de tal forma que estas assegurem a
existência daqueles. Pode se derivar também da ordem jurídica interna, isto é, da constituição,
mas a obrigação internacional deve ser remarcada em virtude do papel que exercem os órgãos
internacionais de controle dos direitos humanos, a saber, o de confrontar as legislações dos
estados signatários - e também suas práticas judiciárias – para determinar se elas se ajustam às
exigências dos convênios respectivos (controle de razoabilidade). A falta de uma regulação
específica da duração do prazo razoável cometida por um país signatário do tratado deveria
conduzir já diretamente a que ele seja sancionado pela omissão de regulamentar – e com isso
tornar ilusório – o direito analisado206.
As Convenções e Tratados internacionais de Direitos Humanos devem ser vistos
como modelos para as regulações do direito interno de cada país signatário, pois o direito
internacional dos direitos humanos deixou de lado a prática tradicional de delegar na vontade
soberana dos Estados o reconhecimento, através do direito constitucional, dos direitos
convencionais, para estabelecer seu respeito obrigatório restritivo das margens de decisões
dos Estados. Dessa forma, a lista de direitos processuais dos distintos tratados deve servir de
marco para a redação de normas processuais claras e precisas que deem vida e proteção
(efetividade) aos direitos consagrados abstratamente neles. O mesmo rege para a
regulamentação desses direitos toda a vez que eles estão dispostos também pelas constituições
dos Estados. Os catálogos de normas fundamentais só podem conter princípios em cujo
desenvolvimento específico (reformulação adequada) cabe a legislação. Em consequência,
não pode se esperar que um tratamento internacional de direitos humanos (ou a Constituição
política do Estado) vá mais além do reconhecimento abstrato e geral de um direito
determinado e o regule em todos os seus detalhes. Estas circunstâncias ficam confiadas ao
direito interno, nestes casos, as leis processuais ficam confiadas e deverão ser estabelecidas de
forma tal que permitam o exercício efetivo do direito fundamental em questão. Esta obrigação
constitui o conteúdo dos Estados que fazem parte da Convenção ou Tratado, também da que

206
Idem, p. 363.
84

adquirem diante das constituições políticas. No plano internacional, a função dos órgãos de
controle da Convenção será confrontar essas leis nacionais para determinar se satisfazem ou
não às pretensões do direito (controle de razoabilidade) ou se são insuficientes para assegurar
sua vigência plena207.
Enquanto para o direito internacional dos direitos humanos, a garantia do
julgamento rápido constitui uma regra para ajuizar se os estados adotaram leis que
regulamentem o prazo para decidir se é razoável o prazo regulado ou para observar se os
processos, efetivamente, são resolvidos dentro do prazo razoável fixado, para os estados, no
tocante à recepção das regras do direito internacional dos direitos humanos, este direito impõe
a autoconsagração das regras limitativas que impeçam que o processo penal dure mais que um
prazo razoável. A lei deve individualizar as ferramentas para o cumprimento desta obrigação
que é a de assegurar de modo mais eficaz possível o respeito aos direitos humanos. Desta
forma, a regulamentação por lei é a única forma de conceder plena satisfação ao direito em
análise, direito que persegue limitar a arbitrariedade do Estado em relação à duração do
procedimento, trata de evitar que as consequências negativas do processo se estendam
indefinidamente, tenta, enfim, que o ônus do instrumento do processo seja utilizado contra os
cidadãos, em infração grave e prolongada diante do princípio da presunção da não
culpabilidade208.
A exigência legislativa descrita no artigo 2º da Convenção Interamericana de
Direitos Humanos também visa facilitar o papel do Judiciário para que o aplicador da lei
tenha uma escolha clara sobre a forma de resolver um caso particular. No entanto, quando o
Legislativo adota leis contrárias à Convenção Americana, o Judiciário está vinculado pelo
dever de garantir o estabelecido no artigo 1.1 da CADH e, portanto, deve abster-se de aplicar
qualquer regulação contrariamente à norma estatuída pela Convenção209.
Partindo da análise acima explicitada é com maestria que Giacomolli 210 sintetiza
bem a sua preleção sobre o controle de convencionalidade quando expõe que:

A normatividade da CADH impõe a sua a observância pelos países signatários, não


só no plano da produção legislativa, mas também na adequação da legislação
doméstica à ordem internacional e na interpretação dos casos criminais. Essa
obrigatoriedade atinge todos os poderes de Estado. Ao legislativo cabe suprir a
carência legislativa à efetivação da normatividade internacional, estatuindo um
regramento assecuratório dos direitos fundamentais ou substituindo o que contrariar

207
Ibidem, p. 350-351.
208
Ibidem, p. 359-361.
209
Corte IDH. Caso Almonacid Arellano e Outros vs. Chile. Exceções Preliminares, Mérito, Reparações e Custas. Sentença de 26 de
setembro de 2006. Serie C, n°. 154, parágrafo 123.
210
GIACOMOLLI, Nereu José. op. cit. p. 26.
85

a convencionalidade (obrigação positiva), sendo-lhe vedado legislar em


contrariedade às normas internacionais, salvo para dar maior proteção aos direitos
humanos (obrigação negativa). O Poder Executivo, dentro de sua competência
constitucional, também há de pautar sua atuação na efetivação dos direitos humanos.
Ao Poder Judiciário reserva-se uma função essencial na efetivação dos direitos
fundamentais, em cada situação concretizada, ou no plano abstrato ou concentrado
de controle, mantendo a potencialidade assecuratória de maior amplitude protetiva.
Nesse labor poderá afastar norma interna que confronte com a maior proteção
internacional.

O citado autor211 ainda revela que no Brasil o procedimento de incorporação é que


definirá a forma de controle de convencionalidade, em razão da integração dos tratados
internacionais referentes aos direitos humanos ao ordenamento jurídico pátrio, e conclui
afirmando que:
Com a incorporação no grau equivalente à emenda Constitucional, quando este se
der pelo quorum qualificado, como estabelecido no art. 5°, § 3°, da CF, a inserção
do direito-garantia é material e formalmente constitucional. Essa potencialidade
constitucional permite o controle da produção legislativa que afronta o diploma
internacional, pelas duas modalidades: concentrado e difuso. Já o controle da
produção normativa interna que afrontar o conteúdo do diploma internacional
incorporado na modalidade do art. 5°, § 2°, da CF, por ser materialmente
constitucional, se dará pelo controle difuso.

Agora, sempre que um Estado, por meio de um dos seus órgãos, ou por seus
agentes, seja por ação ou omissão, não cumprir as obrigações de respeitar e garantir os
direitos exigidos pela Convenção, a Comissão Interamericana de direitos humanos, exercerá o
controle de convencionalidade.
Por fim, vale apontar um caso clássico de violação ao direito a um julgamento em
um prazo razoável (arts. 8° e 25 da CADH), no qual transcorreram 17 anos sem que o Poder
Judiciário pátrio se manifestasse de forma conclusiva, acerca dos crimes cometidos contra
Maria da Penha Maia Fernandes, em que, segundo a Comissão, tal situação revelara a
omissão, negligência e ineficácia por parte das autoridades judiciárias estatais na apuração da
persecutio criminis e na incapacidade de estruturar-se para garantir tais direitos212.

3.0 CONTEÚDO E CONCEITO DO DIREITO À RAZOÁVEL DURAÇÃO


DO PROCESSO PENAL NO DIREITO BRASILEIRO

3.1 O Sentido da Locução "Razoável Duração do Processo" e as Implicações


de sua Adoção no Contexto da Efetividade Processual

211
Ibid, p. 27-28.
212
Ibidem. p. 49
86

A preocupação com a efetividade processual tornou-se um dos temas principais da


processualística contemporânea, em razão da sua íntima afinidade com a prestação
jurisdicional tempestiva. É de se reconhecer que um dos principais obstáculos no alcance
dessa tão idealizada efetividade processual está a morosidade da justiça.
Nesse mister, foi acrescentado ao artigo 5° da Carta Magna de 1988, pela Emenda
Constitucional n° 45, que introduziu a reforma do Poder Judiciário, o inciso LXXVIII,
assegurando a todos expressamente o direito fundamental à “razoável duração do processo e
os meios que garantam a celeridade de sua tramitação", a ser considerado tanto no âmbito
judicial como administrativo.
O sentido que conduziu o legislador constitucional a edificar o princípio da
duração razoável do processo como garantia constitucional deu-se em razão da concepção
atual de justiça, que passa necessariamente pela temática do fator tempo no processo213.
O mencionado dispositivo contém as expressões "razoável duração do processo" e
"celeridade" da tramitação. Nesse caso, torna-se manifesta uma relação de meio-fim entre os
dois termos. Ou seja, é por meio da celeridade da tramitação do processo que se atinge a
duração necessária para a conclusão do feito, sem prejudicar o direito das partes e de terceiros
e sem as delongas que retardam a prestação jurisdicional ou administrativa214.
Nesse sentido é a manifestação de Bermudes215 quando declara que:

O inciso fala em “razoável duração” e em “celeridade de sua tramitação”. É a


celeridade da tramitação que alcança a duração razoável, ou seja, a duração
necessária à conclusão do processo, sem prejuízo do direito das partes e terceiros de
deduzirem as suas pretensões, mas sem delongas que retardem a prestação
jurisdicional ou administrativa postulada. A celeridade da tramitação traduz-se na
presteza da prática de cada ato do processo, porquanto a demora na prática de um
deles repercute, negativamente, no conjunto, como acontece com a retenção de um
trem num dos pontos de parada de seu percurso. Atos praticados celeremente
asseguram a duração razoável, senão rápida do processo, o qual outra coisa não é,
desde a etimologia, que um conjunto de atos que se sucedem para a consecução de
determinado fim.

Urge considerar como um dos principais aspectos a ser abordado, um vetor


orientador desta análise, é a imperiosa necessidade de se interpretar o sentido e/ou alcance da

213
ABREU, Gabrielle Cristina Machado. A duração razoável do processo como elemento constitutivo do acesso à justiça. Florianópolis:
Conceito Editorial, 2008, p. 11.
214
ALMEIDA, Andréa Márcia Vieira de. O princípio da duração razoável do processo e a sua efetividade. I Jornada de Ciências Sociais.
Coleção Jornada de Estudos. Esmaf, 14. Set./2012. Brasília/DF. p. 33.
215
BERMUDES, Sérgio. A reforma do judiciário pela emenda constitucional n° 45. Rio de Janeiro: Forense, 2005. p. 11.
87

expressão “razoável duração do processo", e, nesta esteira de raciocínio, vale apontar,


inicialmente, os ensinamentos de Bezerra216 que expressam suas razões afirmando que:

Em suma, não se podem precisar os contornos da expressão 'duração razoável'. O


que se pode dizer é que razoável é o tempo suficiente para a completa instrução
processual e adequada decisão do litígio e, ao mesmo tempo, hábil para prevenir
danos derivados da morosidade da justiça e para assegurar a eficácia da decisão. Em
outras palavras, o processo julgado de forma célere, mas que prescinda de prova
necessária à sua adequada instrução, terá duração tão desarrazoada quanto aquele
que, embora tendo solução acertada, gere danos às partes e comprometa a eficácia da
decisão.

No mesmo sentido é o entendimento de Duarte e Grandinetti217 ao afirmarem que:

O conceito de razoável duração podemos entender esta expressão como o tempo


suficiente para a completa instrução processual e adequada decisão do litígio, e da
mesma forma capaz de prevenir danos consequentes da morosidade da justiça,
assegurando a eficácia da decisão.

Apesar de, a acepção do que seja “razoável” ser própria, ou até mesmo relativa, no
perceber de cada integrante da relação processual, é possível se chegar a um denominador
comum acerca de sua abrangência, desde que o conteúdo do “razoável” esteja compatibilizado
ao conteúdo da expressão “processo”, conciliando o seu resultado no significado do que seja
razoável.
É de se admitir que “razoável” é uma expressão que proporciona uma
flexibilidade semântica, porém se reconhece no entendimento do direito fundamental, como
sendo uma forma de embasar o bom emprego dos cânones hermenêuticos.
Porém, vale ressaltar que a terminologia do termo “razoável” segundo o sentido
do dicionário de filosofia218 “inclui a consideração dos limites e das circunstâncias em que a
razão vem a agir. Portanto, ser razoável significa, (...) dar-se conta das circunstâncias e das
limitações que elas comportam, renunciando-se a atitudes absolutas”.
Conforme a questão terminológica acima anunciada, há doutrina que revela uma
constatável diferença de “razoável” encontrada no texto constitucional com o princípio da

216
BEZERRA, Márcia Fernandes. O direito à razoável duração do processo e a responsabilidade do Estado pela demora na outorga da
prestação jurisdicional. In Reforma do Judiciário: Primeiros ensaios críticos sobre a EC n. 45/2004/Coordenação Teresa Arruda Alvim
Wambier [et.al]. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005, p. 470.
217
DUARTE, Francisco Carlos; GRANDINETTI, Adriana Monclaro. Comentários à emenda constitucional 45/04: os novos parâmetros
do processo civil no direito brasileiro. Curitiba: Juruá, 2005. p. 32.
218
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 830.
88

proporcionalidade, posto que este faz referência ao conteúdo objeto do processo e não pela
significância de seu lapso de tempo decorrido, conforme apregoa Santos219quando revela que:

Não se confunde o princípio da proporcionalidade com o princípio da razoabilidade.


Originários de tradições diversas, tais instrumentos podem ser definidos, indicando-
se espaços de atuação diferenciados. Enquanto o princípio da razoabilidade é norma
jurídico-material, que serve de controle da legitimidade dos fins que guiam a adoção
de medidas pelo Estado, o princípio da proporcionalidade é princípio de
interpretação, que permite a tomada de decisões em situações de tensão entre
direitos.

D`Urso220 e Samento221 entendem que não há diferenciação a fazer entre razoável e


proporcional, posto que apenas se trata de uma questão de âmbito meramente terminológico.
No mesmo sentido Rothenburg222 afirma que a expressão razoabilidade tem como desígnio
“traduzir essa dimensão a um tempo prático, concreto e ajustado da proporcionalidade”, posto
que não poderia haver uma “diferença estrutural entre proporcionalidade e razoabilidade”.
Em parceria ao pensamento acima esposado, Barros223 defende que, mesmo
utilizando a expressão princípio da proporcionalidade, reconhece a possibilidade de se utilizar
a expressão princípio da razoabilidade, desde que interpretadas como sinônimas.
Já Mello224 assegura que o princípio da proporcionalidade é um aspecto do
princípio da razoabilidade, sendo importante instrumento de mecanismo de interpretação,
sendo um meio de se alcançar uma solução conciliatória quando ocorrer incompatibilidades
entre direitos fundamentais.
Há, porém, a visão de Canotilho225, que considera o princípio da
proporcionalidade, em sentido amplo, sendo “método de controle do princípio da igualdade”,
conforme preleciona a seguir:

O controle metódico da desigualdade terá de testar: 1) a legitimidade do fim do


tratamento desigualitário; 2) a adequação e a necessidade deste tratamento para a
prossecução do fim; 3) a proporcionalidade do tratamento desigual relativamente aos
fins obtidos (ou a obter).

219
SANTOS, Gustavo Ferreira. O princípio da proporcionalidade na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal: limites e
possibilidades. Rio de Janeiro: Lumem Juris, 2004. p. 161.
220
D`Urso, Flávia. Princípio constitucional da proporcionalidade no processo penal. São Paulo: Atlas, 2007. p. 58.
221
SARMENTO, Daniel. Os princípios constitucionais e a ponderação de bens. In: Teoria dos direitos fundamentais. Org. Ricardo Lobo
Torres – 2ª Ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2000. p. 57.
222
ROTHENBURG, Walter Claudius. Princípio da proporcionalidade. In: OLIVEIRA NETO, Olavo; LOPES, Maria Elizabeth de Castro
(Coord.). Princípios processuais civis na constituição. Rio de Janeiro: Elsevir, 2008, p. 314-315.
223
BARROS, Suzana de Toledo. O princípio da proporcionalidade e o controle de constitucionalidade das leis restritivas de direitos
fundamentais. 3 ed. Brasília: Brasília Jurídica, 2003. p. 74-76.
224
MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de direito administrativo. 19. ed. São Paulo: Malheiros, 2005. p. 56.
225
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 3. ed., Almedina, Coimbra-Portugal, 1999, p.
1216.
89

Para Alexy226, ao embasar a sua teoria da ponderação, aponta que o princípio da


proporcionalidade é composto de princípios parciais: o da necessidade, da idoneidade e da
proporcionalidade em sentido estrito. Expressando nas três formas a ideia de otimização.
Sendo que para os alemães o princípio da proporcionalidade é tido como uma proibição de
excessos, e para os americanos, uma razoabilidade.
Todavia, o termo “razoável” pode ser explicitado como algo logicamente
plausível, admissível. É o aceitável pela razão. Ostenta sinonímia com racional. Não é tarefa
singela definir o que seja "duração razoável do processo". Então, quando o legislador
constituinte se valeu do termo “duração”, quis entronizar o sentido de que o tempo tem início
e fim, conjugado na ideia de uma ponderação racional acerca do quanto de duração deve ter
esse tempo.
Na visão de Góes227, a razoável duração do processo não precisa ser tipificada, em
inúmeros prazos processuais, mas deve atender à lógica racional, e assevera ainda que:

O razoável é depreendido a partir da motivação racional, não havendo elementos


previamente dispostos, o que se deve ter em mente é que se deve raciocinar a
razoável duração do processo, com a visão de que se faça bloqueio do que é
inaceitável ou arbitrário (...)

Há ainda aqueles que prelecionam que a tarefa de definir o que seja razoável no
contexto da duração do processo, é do aplicador da norma, prestigiando com isso a
discricionariedade do julgador na apreciação do caso concreto228.
Desta forma, diante das retóricas acima evidenciadas, atinentes ao campo
processual, é possível dizer que a apreciação de razoabilidade é ainda um julgamento da
necessidade e da proporcionalidade quanto ao “tempo de tramitação em relação ao que foi
realizado no processo”, estas são as constatações asseveradas por Arruda229 que ainda
argumenta no sentido de que:

O teste de razoabilidade será, assim, em larga medida uma ponderação entre os


custos temporais e o resultado processual obtido, não devendo ser olvidado a
verificação da adequação temporal (o tempo consumido é consentâneo com os fins
do – deste – processo?), necessidade temporal (o tempo consumido foi necessário ao
desenvolvimento da marcha processual?), e, finalmente, uma análise comparativa
entre o tempo despendido e suas hipóteses de justificação, em muito similar em
relação de proporção, ou custo benefício.

226
ALEXY, Robert. Constitucionalismo discursivo. Trad. Luís Afonso Heck. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007. p. 107-116.
227
GÓES, Gisele Fernandes. Razoável duração do processo. In: WAMBIER, Teresa (coord). Reforma do judiciário: primeiros ensaios
críticos sobre a EC n°. 45/04. São Paulo: RT, 2005. p. 266.
228
NICOLITT, André. A duração razoável do processo. 2ª ed. rev. e atual. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2014. p. 42.
229
ARRUDA, Samuel Miranda. op. cit. p. 301-302.
90

Noutra parte, é de se observar que na busca por uma tutela jurisdicional mais célere e
efetiva, não basta a inserção da garantia da duração razoável do processo no rol de direitos
fundamentais, visto que pode representar apenas mais uma garantia inoperante, como várias
outras já asseguradas. Em consonância com esta lição Neves230 argumenta que:

Imperiosa a conscientização jurídica, a reorganização judiciária, o fornecimento de


meios e recursos para o funcionamento da jurisdição, bem como a efetiva imposição
de sanções àqueles que culposamente violarem o dever de tempestividade da tutela
jurisdicional, evitando reiteradas violações à garantia do processo, sem dilações
indevidas.

O processo, segundo Tucci231, deve, na medida do possível, desenvolver-se


mediante um procedimento célere, "a fim de que a tutela jurisdicional emirja realmente
oportuna e efetiva". A idéia de efetividade do processo, de fato, está intrinsecamente
relacionada à razoabilidade da duração do feito. E por essa última expressão deve-se entender
o tempo adequado à solução justa do conflito, sem qualquer dilação maior que não se volte
única e exclusivamente para a obtenção desta meta232.
No mesmo sentido Barbosa Moreira233 apresenta aspectos imprescindíveis para se
alcançar a tão almejada efetividade processual, asseverando que:

a) O processo deve dispor de instrumentos de tutela adequados, na medida do


possível, a todos os direitos (e outras disposições jurídicas de vantagem)
contemplados no ordenamento, que resultam de expressa previsão normativa, que se
possam inferir do sistema; b) esses instrumentos devem ser praticamente utilizáveis,
ao menos em princípio, sejam quais forem os supostos titulares dos direitos (e das
outras posições jurídicas de vantagem) de cuja preservação ou reintegração se
cogita, inclusive quando indeterminado ou indeterminável o círculo dos eventuais
sujeitos; c) impende assegurar condições propícias à exata e completa reconstituição
dos fatos relevantes, a fim de que o convencimento do julgador corresponda, tanto
quanto puder, à realidade; d) em toda a extensão da possibilidade prática, o resultado
do processo há de ser tal que assegure à parte vitoriosa o gozo pleno da especifica
utilidade a que se faz jus segundo o ordenamento; e) cumpre que se possa atingir
semelhante resultado com o mínimo dispêndio de tempo e energias.

A concepção de "razoável duração" afugenta tanto o retardamento da prestação


quanto a aceleração atípica, idônea a danificar o direito fundamental ao devido processo
constitucional. Trata-se de tempo apropriado a definir, com justiça, o conflito levado a juízo.

230
NEVES, Isabela Dias. Direito à razoável duração do processo no Estado Democrático. Meritum – Belo Horizonte. v. 1, n. 1, jul./dez.
2006. p. 227.
231
TUCCI, José Rogério Cruz. op. cit. p. 27.
232
LEAL JUNIOR, João Carlos. Efetividade do direito fundamental à razoável duração do processo: desafios, possibilidades e perspectivas.
Revista Jurídica. Ano 60. mar. 2012. n° 413. p. 93.
233
BARBOSA MOREIRA, José Carlos. A efetividade no processo de conhecimento. Revista de Processo. São Paulo: Revista dos
Tribunais, ano 19, n. 74, a. 19, abr.- jun. 1994. p. 27.
91

Nesse sentido, Hoffman234 aponta ser "imprescindível que o processo tenha uma certa
duração, maior do que aquela que as partes desejam, porquanto o Estado deve assegurar aos
litigantes o devido processo constitucional, a ampla defesa e o contraditório”. Contudo, nada
explica a interminável espera originada pela adversa duração do processo a que os cidadãos
brasileiros se encontram, regularmente, “submetidos e da qual, ao final, resta sempre a
sensação de injustiça". A duração excessiva, acima do quantum aceitável à apropriada
cognição do juiz, é agora, de forma expressa, constitucionalmente proscrita235.
Segundo Rosito236, “em termos pragmáticos, é impossível fixar a priori uma regra
específica, determinando o que representaria a expressão ‘prazo razoável’” ou direito a uma
"justiça temporalmente adequada", não podendo ser definida de forma genérica, de acordo
com um tempo fixo, pré-determinado e imutável, válido para toda e qualquer demanda
judicial. Trata-se de um conceito indeterminado ou aberto, que necessita ser dotado de um
conteúdo concreto em cada caso, e que só é apurável, identificável, empiricamente,
atendendo-se a determinados “critérios objetivos congruentes”, conforme restará
posteriormente explicitado. De qualquer forma, é norma que deve ter aplicação imediata 237,
sem ressalvas ou exceções, conforme predispõe o art. 5°, §1°, da CF/88.
Seguindo o mesmo entendimento, Morais238 aponta que a acepção de “prazo
razoável”, deve ser “preenchido no caso concreto, tendo como indicativo a melhor e maior
realização da garantia de acesso à Justiça na perspectiva de acesso a uma resposta à questão
posta qualitativamente adequada e em tempo quantitativamente aceitável”.
Noutra banda, partindo do pressuposto de que os atos processuais devem ser
realizados dentro dos prazos fixados em lei, sob pena de ser considerados extemporâneos,
inválidos, ou até mesmo sofrer os efeitos legais da decadência, prescrição, preclusão e
perempção, é possível se concluir que processo célere, com duração razoável ou sem dilações
indevidas é tão somente aquele que se desenvolve com estrito cumprimento dos prazos e, do
mesmo modo, com fiel observância das garantias constitucionais239.

234
HOFFMAN, Paulo. O direito à razoável duração do processo e a experiência italiana. Jus Navigandi, Teresina, ano 9, n° 782, 24 ago.
2005. Disponível em: <http://jus.com.br/revista/texto/7179>. Acesso em: 13-5- 2014.
235
LEAL JUNIOR, João Carlos. Op. cit. p. 85-86.
236
ROSITO, Francisco. O princípio da duração razoável do processo sob a perspectiva axiológica. Revista de processo. Ano 33. n° 161.
jul./2008. Coord. Teresa Arruda Alvim Wambier. Ed. Revista dos Tribunais. p. 27.
237
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional. 6. ed. Coimbra: Almedina, 1993. p. 652.
238
BOLZAN DE MORAIS, José Luis. As crises do Judiciário e o acesso à Justiça. In: AGRA, Walber de Moura. Comentários à reforma
do poder Judiciário. Rio de Janeiro: Forense, 2005. p. 16
239
TOLEDO, Emília Poliane Sousa. Direito Processual - Estudos Jurídicos Aplicados. Coordenador: João Antônio Lima Castro. Belo
Horizonte: PUC Minas, Instituto de Educação Continuada, 2010. p. 97.
92

Pastor240, autor argentino, assevera alguns questionamentos acerca da temática


desenvolvida, tais como, a possibilidade de se estabelecer um conceito fechado de "duração
razoável", bem como quais seriam as consequências jurídicas diante da superação deste
conceito.
Apesar, de não se poder precisar ao certo os contornos da expressão 'duração
razoável'. O que se pode dizer é que, “razoável”, nas palavras de Duarte e Grandinetti241 é o
“tempo suficiente para a completa instrução processual e adequada decisão do litígio e, da
mesma forma, capaz de prevenir danos consequentes da morosidade da justiça, assegurando a
eficácia da decisão”. Em outras palavras, o processo apreciado de maneira célere, mas que
prescinda de prova imprescindível à sua apropriada instrução, terá duração tão desarrazoada
quanto aquele que, embora tendo dissolução acertada, cause danos às partes e comprometa a
eficácia da decisão242.
Dentre os critérios disponíveis para aferição do que possa ser entendido por
"razoável", tem-se, em primeiro lugar, que, “existindo previsão de prazos predeterminados em
lei, eles devem ser obedecidos, não se admitindo seu desrespeito, salvo fundado motivo, a ser
analisado in concreto”. Assim, diante deste contexto, o prazo razoável será aquele que seguir
as determinações previstas em lei.243.
Nesta linha argumentativa, um parâmetro possível de ser aplicado “na aferição da
razoabilidade da duração do processo seria a somatória dos prazos processuais, que serviria
para constatar se o trâmite processual durou mais do que o prazo total previsto em lei para a
soma de todos os atos processuais atinentes àquele feito”244.
É de se observar que o tempo em que se desenvolve o processo é de extremada
relatividade. Então, nestes casos o "tempo do processo" poderá ser configurado como algo
casuístico, que dependerá das peculiaridades do caso concreto, porém com um tempo
mínimo e máximo de duração do processo. Esse tempo mínimo, com o cumprimento dos
mencionados princípios processuais constitucionais, mira o alcance da verdade e,
consequentemente, de justiça para as partes, de maneira que o Estado possa conferir a cada
um aquilo a que faz jus - a partir de cognição adequada245.

240
PASTOR, Daniel. El Plazo razonable en el proceso del estado de derecho. Buenos Aires: Editorial Ad Hoc, 2002. p. 60.
241
DUARTE, Francisco Carlos e GRANDINETTI, Adriana Monclaro Apud COSTA, Cristiane Barbosa da. O processo eletrônico como
forma de efetivação do direito ao acesso à Justiça e do princípio da razoável duração do processo. Revista da Esmat 13 - Escola Superior da
Magistratua Trabalhista da Paraiba: Amatra 13. João Pessoa - Paraíba, v.2, n.2, nov. 2009. p. 352.
242
BEZERRA, Márcia Fernandes. Reforma do judiciário: Primeiras reflexões sobre a Emenda Constitucional n. 45/2004. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2005, p. 470.
243
LEAL JUNIOR, João Carlos. op. cit. p. 87.
244
SILVA, Ênio Moraes da. A garantia constitucional da razoável duração do processo e defesa do Estado. Revista de Informação
Legislativa, v. 43, n. 172, out.dez. 2006. p. 27
245
LEAL JUNIOR, João Carlos. op. cit. p. 90.
93

Aponta Annoni246 que, para que exista razoabilidade no prazo, deve coexistir de
forma harmônica entre os princípios da efetividade e da segurança jurídica com o escopo de
garantir a aplicação da justiça ao caso concreto, quando:

Coexistem dois pressupostos, em princípio antagônicos: o da segurança jurídica, que


legitima o lapso temporal decorrente da tramitação do processo e do julgamento de
causas mais complexas, e da efetividade, que reclama que a decisão final não se
procrastine além do devido.

Segundo Leal Junior247, o processo é um instrumento que deve se adequar ao


objeto com o qual se opera, afirmando que, para que possa ocorrer tal adequação, é
necessário:

Alterações na forma procedimental. Assim, conforme o objeto em discussão, o


procedimento será mais ou menos delongado; será composto de mais ou menos
fases; terá peculiaridades ou seguirá uma regra geral; mas sempre um mínimo de
tempo será exigido, a fim de que os princípios constitucionais do contraditório e da
ampla defesa possam ser realizados - por meio da apresentação das teses, produção
das provas e manifestação das partes - e o juiz conheça adequadamente da matéria
que terá de julgar.

Destaca Arruda248 duas motivações distintas para se justificar o controle do tempo


de tramitação dos processos. Apregoa que a tutela judicial não poderá manifestar-se como
efetiva, caso seja prestada com demora. Por conta disso, o processo “será considerado justo se
obedecer a um prazo de tramitação razoável”. Sendo os conceitos de efetividade e justiça,
apesar de apresentar as suas peculiaridades, fundamentam-se, “cada um à sua maneira, a
necessidade de agilização do transcurso dos feitos judiciais”. Sendo o encalço desses “dois
valores inconfundíveis” a fundamentação dos “desenvolvimentos próprios ou vertentes
autônomas de desenvolvimento da dimensão temporal do processo”.
Nesta esteira de entendimento, assevera Giacomolli249 em suas lições que:

O dito “a justiça tarda, mas não falha” tem se revelado uma rotunda inverdade. Na
contemporaneidade e na situação da prestação jurisdicional, é difícil rebater que “a
justiça tarda e falha”, pois a demora injustificada produz a falta de tutela
jurisdicional efetiva, um funcionamento anormal da administração da Justiça. A
tardia prestação jurisdicional equivale à prestação jurisdicional deficiente, falha,
aquém das expectativas da cidadania. Afirma-se “justiça lenta é justiça negada”
(justice delayed is justice denied). Por isso, os juízes e tribunais possuem a função
constitucional de julgar e fazer executar os julgados dentro dos prazos previstos no

246
ANNONI, Danielle. Direitos humanos & acesso à justiça no direito internacional. 1 ed. Curitiba: Juruá, 2005. p. 132.
247
LEAL JUNIOR, João Carlos. op. cit. p. 89.
248
ARRUDA, Samuel Miranda. op. cit. p. 95.
249
GIACOMOLLI, Nereu José. op cit. p. 324.
94

ordenamento jurídico, impedindo a ocorrência de dilações indevidas, prestando a


jurisdição de forma efetiva.

Apesar da claridade do texto constitucional em seu art. 5°, §1°, dispor que “as
normas definidoras de direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata”, há uma série
de divergências doutrinárias250 sobre a nomenclatura de eficácia e efetividade das normas
definidoras de direitos humanos.
Ademais, vale acrescentar o aporte teórico trazido por Sarlet251, ao explicitar o
valor da análise dos planos de existência e validade da norma, com o escopo de ao final
constatar sua eficácia, quando afirma que:

Constata-se certo consenso, na medida em que não parecem subsistir dúvidas a


respeito da distinção entre vigência (existência e/ou validade) e a eficácia, seja qual
for o sentido que a esta última se vá atribuir. Partindo desta premissa e conscientes
de que entre a vigência e a eficácia da norma constitucional existe uma correlação
dialética de complementariedade, é preciso clarificar em que sentido pretendemos
valer-nos da expressão “eficácia”, ressaltando que esta costuma ser vinculada à
noção de aplicabilidade das normas jurídicas. Por outro lado, corrente a distinção
entre as noções eficácia jurídica e social, identificando-se esta última com o conceito
de efetividade.

Marinoni252 expõe o entendimento de que o direito fundamental à tutela efetiva


tem aplicação imediata, conforme dispõe o art. 5°, §1° da CF, vinculando o poder público, no
caso, o legislador, a estabelecer técnicas processuais aplicáveis na tutela dos direitos, bem
como ao aplicador do direito no aproveitamento de técnica processual idônea, a fim de
outorgar a máxima efetividade à norma.
De nada equivaleria ter acesso à justiça se não se chegasse a um resultado efetivo,
ou seja, a uma tutela justa, rápida, adequada e, por conseguinte eficaz. Logo, a manifestação
jurisdicional somente será efetiva se for hábil, posto que o decurso do tempo traz consigo um
sentimento de incerteza e de injustiça, tornando inefetivo o resultado da tutela jurisdicional.

3.2 Direito à Razoável Duração do Processo Penal e o Acesso à Justiça

250
SILVA, José Afonso. Aplicabilidade das normas constitucionais. São Paulo: Malheiros, 2000. p. 78. FERREIRA FILHO, Manoel
Gonçalves. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 2001. p. 307 a 308. BARROSO, Luís Roberto. O direito constitucional e
a efetividade de suas normas: limites e possibilidades da constituição brasileira. Rio de Janeiro: Renovar, 2001. p. 279. DEMOULIS,
Dimitri; MARTINS, Leonardo. Teoria geral dos direitos fundamentais. São Paulo: RT, 2007. p. 104.
251
SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2006. p. 245.
252
MARINONI, Luiz Guilherme. Técnica processual e tutela dos direitos. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2004. p. 28.
95

Na ânsia de se buscar um conceito de acesso à justiça, como garantia de tutela


jurisdicional asseverada aos cidadãos, Cappelletti e Garth253, afirmaram que:

A expressão ‘acesso à justiça’ é reconhecidamente de difícil definição, mas serve


para determinar duas finalidades básicas do sistema jurídico – o sistema pelo qual as
pessoas podem reivindicar seus direitos e/ou resolver seus litígios sob os auspícios
do Estado. Primeiro, o sistema deve ser igualmente acessível a todos; segundo, ele
deve produzir resultados que sejam individual e socialmente justos. (...) a justiça
social, tal como desejada por nossas sociedades modernas, pressupõe o acesso
efetivo.

Partindo da análise do primeiro sentido da expressão ‘acesso à justiça’, será


necessário diferenciar ação e acesso à justiça, posto que “a cláusula do acesso à justiça
engloba parcela considerável do direito de ação, com este não se confunde e por ele não é
limitada”254.
Segundo o autor Arruda255, a ação ou direito de provocação da máquina estatal
judiciária para prestação do monopólio do Estado, que é a aplicação do direito no caso
concreto, é a dimensão formal e imediata do direito à tutela judicial, distinta do direito
material, a ser analisado no processo, donde o direito de agir existirá independentemente da
plausibilidade do direito material suscitado.
A designação teórica de acesso à justiça evoluiu seguindo os passos de
desenvolvimento dos direitos fundamentais, que no Estado Liberal burguês, onde prevalecia
os direitos de defesa e de liberdade, o acesso à justiça era restrito ao direito meramente formal
do cidadão propor ou contestar uma ação. Atualmente, exige-se também do aparelho estatal
uma prestação positiva, “não só no sentido de tornar indiscriminado o acesso à jurisdição, mas
também de assegurar um padrão mínimo de qualidade e efetividade da prestação
jurisdicional”256.
Verificando-se um segundo plano de sentido, o acesso à justiça não se esgota em
um mero acesso ao Judiciário, e nem ao próprio universo do direito estatal, mais sim, o direito
de acesso ou o princípio da inafastabilidade do controle jurisdicional (art. 5°, XXXV, da CF),
compreende o direito de acesso à ordem jurídica justa a que todos podem ingressar com ações
judiciais, diante de lesão ou ameaça a direito, onde a tutela jurisdicional há de ser efetiva,

253
CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à justiça. Tradução de Ellen Grade Northfleet. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris,
1988. p. 8.
254
ARRUDA, Samuel Miranda. Op. cit. p. 67.
255
Ibid. p. 67
256
Ibidem. p. 68.
96

adequada e tempestiva257. Tem-se, pois, consagrada a garantia de acesso aos órgãos


judiciários, no exercício do direito de ação.
Nasce para o Estado o monopólio da jurisdição, a administração da justiça,
retirando do particular a possibilidade de resolução direta dos seus conflitos, assumindo, pois,
o papel constitucional de não só dizer o direito no caso concreto, mas também poder atuar
com a máxima efetividade e celeridade possível.
O princípio da inafastabilidade do controle jurisdicional trata-se de um princípio
estruturante do ordenamento jurídico, corolário da regra geral de impedimento à autotutela do
indivíduo. Aliás, sob certo sentido, é o direito fundamental mais expressivo, pois, sem a sua
consolidação, todos os demais direitos, inclusive os fundamentais, quedar-se-iam sem
qualquer resguardo - o que justificaria o seu regular descumprimento, em detrimento de toda a
sociedade258.
Partindo do axioma de que não basta apenas o direito de acesso a um provimento
jurisdicional, é indispensável “que esta tutela prestada comporte um resultado útil, efetivo e
capaz de atender às expectativas dos jurisdicionados”, em respeito à realidade dos fatos 259.
O pensamento sintético de Rodrigues260 revela que “ingressar no Judiciário de
certo modo é fácil, mas o difícil é ter acesso à justiça, isto é, sair do processo com a pretensão
satisfeita dentro de um lapso de tempo razoável”.
Preleciona Zavascky261 que o direito fundamental à efetividade do processo pode
ser denominado também por direito de acesso à justiça, pois este, não compreende apenas o
direito de provocação da atuação do Estado, mas principalmente de obter em prazo adequado,
uma decisão justa que seja eficaz.
Para Cappelletti e Garth262, “uma justiça que não cumpre suas funções dentro de
um prazo razoável é, para muitas pessoas uma justiça inacessível”.
Adotando essa mesma linha de reflexão, Grinover263 aponta que acesso à justiça
deve expressar, não somente o acesso aos tribunais, mas o acesso a um processo justo, ao
devido processo legal, o mais significativo dos direitos, “na medida em que dele depende a

257
MARINONI, Luiz Guilherme. Tutela antecipatória, julgamento antecipado e execução imediata da sentença. São Paulo: Ed. RT,
1997. p. 20.
258
BARRETO, Lucas Hayne Dantas. Responsabilidade civil do Estado por denegação do acesso à justiça. Revista de Direito
Administrativo. Janeiro/Abril 2013. Editora Direito Rio. p. 203.
259
HOTE, Rejane Soares. A garantia da razoável duração do processo como direito fundamental do indivíduo. Revista da Faculdade de
Direito de Campos, v. 8, n. 10, jan./jun. 2007, p. 483.
260
RODRIGUES, Clóvis Fedrizzi. Celeridade processual versus segurança jurídica. Revista de Processo. São Paulo, v. 120, fev./2004. p.
289-299.
261
ZAVASCKY, Teori. Antecipação de tutela. 2 ed. São Paulo: Saraiva, 1999, p.64.
262
CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. op. cit. p. 20-21.
263
GRINOVER, Ada Pellegrini. Novas Tendências do Direito Processual: de acordo com a constituição de 1988. 2 ed. Rio de Janeiro:
Editora Forense Universitária, 1990. p. 244.
97

viabilização dos demais” direitos, garantindo aos jurisdicionados um modelo constitucional


de processo, que tramita perante um juiz competente, observador do trato isonômico entre as
partes, do contraditório e da ampla defesa, manifestando-se por intermédio de decisões
motivadas, que concedam um desfecho célere ao processo.
Seguindo esta mesma esteira de raciocínio, Oliveira264 destaca que:
Não é suficiente tão somente abrir a porta de entrada ao Poder Judiciário, mas
prestar jurisdição tanto quanto possível eficiente, efetiva e justa, mediante um
processo sem dilações temporais ou formalismos excessivos, que conceda ao
vencedor no plano jurídico e social tudo a que faça jus.

Na mesma linha de entendimento Didier Jr.265 explicita que:

O conteúdo desta garantia [de acesso à justiça] era entendido, durante muito tempo,
apenas como a estipulação do direito de ação e do juiz natural. Sucede que a mera
afirmação destes direitos em nada garante a sua efetiva concretização. É necessário
ir-se além. Surge, assim, a noção de tutela jurisdicional qualificada. Não basta a
simples garantia formal do dever do Estado de prestar a Justiça; é necessário
adjetivar esta prestação estatal, que há de ser rápida, efetiva e adequada.

Partindo dessa teorização, Carreira Alvim266 considera que:

O problema do acesso à Justiça não é uma questão de 'entrada', pois, pela porta
gigantesca desse templo chamado Justiça, entra quem quer, seja através de advogado
pago, seja de advogado mantido pelo Poder Público, seja de advogado escolhido
pela própria parte, sob os auspícios da assistência judiciária, não havendo, sob esse
prisma, nenhuma dificuldade de acesso. O problema é de 'saída', pois todos entram,
mas poucos conseguem sair num prazo razoável, e os que saem, fazem-no pelas
'portas de emergência', representadas pelas tutelas antecipatórias, pois a grande
maioria fica lá dentro, rezando, para conseguir sair com vida. Este é o grande
problema e o grande obstáculo que enfrentamos, cabendo à doutrina, através de
concepções voltadas para a realidade brasileira, sem copiar modelos estrangeiros,
contribuir para a formação de uma onda de 'descesso' (saída) da Justiça, para que o
sistema judiciário se torne mais racional na entrada, mas, também, mais racional e
humano na saída.

Segundo a interpretação de Cambi267 o acesso à justiça não está limitado à


admissão ao processo ou à mera possibilidade de ingresso em juízo, mas deve ser traduzido
extensivamente, compreendendo a noção de amplo acesso à ordem jurídica justa, que
compreende:

264
OLIVEIRA, Carlos Alberto Álvaro de. O formalismo-valorativo no confronto com o formalismo excessivo. RePro l37, jul. 2006. p.
15.
265
DIDIER JR., Fredie. Notas sobre a garantia constitucional do acesso à justiça: o princípio do direito de ação ou da inafastabilidade do
Poder Judiciário. Revista de Processo. Ano 27. n°. 108. São Paulo, Revista dos Tribunais, out.dez. 2002. p. 28.
266
CARREIRA ALVIM, José Eduardo. Justiça: acesso e descesso. Jus Navigandi, Teresina, a. 7, n°. 65, maio 2003. Disponível em: <
http://jus.com.br/artigos/4078/justica-acesso-e-descesso/3>. Acesso em: 24-11-2013.
267
CAMBI, Eduardo. Neoconstitucionalismo e neo processualismo. In: Luiz Fux et al (Coord). Processo e Constituição: estudos em
homenagem ao Professor José Carlos Barbosa Moreira. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006. p. 674.
98

i) o Ingresso em juízo; ii) a observância das garantias compreendidas na cláusula do


devido processo legal; iii) a participação dialética na formação do convencimento do
juiz que irá julgar a causa (efetividade do contraditório); iv) a adequada e tempestiva
análise, pelo juiz natural e imparcial, das questões discutidas no processo (decisão
justa e motivada); v) a construção de técnicas processuais adequadas à tutela dos
direitos materiais (instrumentalidade do processo e efetividade de direitos).

A consagração na Constituição da República do princípio de acesso à justiça já


por si só, deveria assegurar uma prestação jurisdicional eficaz, que deva ser realizada em um
tempo razoável. “Admitir o contrário tornaria letra morta esse princípio constitucional. O
acesso à justiça deve levar o cidadão a obter uma solução eficiente do seu litígio em um prazo
suficientemente célere”268. Logo, nas palavras de Carvalho269:

Isso importa dizer que todos têm acesso à justiça para postular e obter uma tutela
jurisdicional adequada. Nesse contexto, a prestação da tutela jurisdicional em tempo
razoável garante o efetivo acesso à justiça, porquanto o direito à prestação
jurisdicional dentro de um tempo aceitável é uma exigência da tutela jurisdicional
efetiva.

Partindo deste pressuposto, o acesso à justiça não se esgota numa perspectiva


puramente formal270. Pelo contrário, tem a sua razão de ser e de existir na “efetividade dos
direitos materiais e na concretização das garantias processuais constitucionais” 271, de maneira
a que os jurisdicionados alcancem uma prestação jurisdicional adequada, tempestiva e efetiva.
Diante do direito de acesso à justiça, o processo manifesta-se como forma de
concretização de uma justiça adequada, tempestiva e efetiva, segundo o qual nasce para o
Estado o dever de dar uma resposta judiciária de qualidade, justa, tempestiva e efetiva. Trata-
se de um núcleo inegociável, que fica desatendido quando o jurisdicionado recebe uma
resposta demorada, massificada, prolatada ao final de um rito inquinado de ‘tempos
mortos’272.
Portanto, as decisões judiciais na maioria das vezes se tornam ineficazes, posto
que são apresentadas a destempo, onde o direito a quem é devido é reconhecido tardiamente,
passando o cidadão a ter acesso ao judiciário, mas não à justiça.

268
SILVA, Enio Moraes da. A garantia constitucional da razoável duração do processo e a defesa do Estado. Revista de informação
legislativa. ano. 43. n° 172. Out./dez. 2006. Brasília. Subsecretaria de edições técnicas do Senado Federal. p.25.
269
CARVALHO, Fabiano. EC n. 45: reafirmação da garantia da razoável duração do processo. In: WAMBIER, Teresa Arruda Alvim et al.
(Coord.). Reforma do judiciário: primeiros ensaios críticos sobre a EC. n. 45/2004. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005. p. 216.
270
LEAL JUNIOR, João Carlos. Op. cit. p. 81.
271
PAROSKI, Mauro Vasni. Do direito fundamental de acesso à justiça. Scientia iuris, Londrina, v.6, 2010. p. 226.
272
MANCUSO, Rodolfo de Camargo. Acesso à justiça: condicionantes legítimas e ilegítimas. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais,
2011. p. 41.
99

É certo, que diante da garantia constitucional da inafastabilidade da jurisdição, o


Estado não pode ser leniente ou tergiversar sobre seu precípuo dever de prestar jurisdição de
modo integral, assumindo o compromisso de dirimir “as lides que venham judicializadas,
descabendo ofertar uma qualquer resposta, num ponto futuro indefinido, e ainda
descompromissada com a efetiva realização/fruição do direito”273.
Um dos maiores obstáculos funcionais no acesso à justiça está na demora na
tramitação processual, sendo que o principal aspecto a ser ressaltado não é tão-somente a
demora do processo, sob o ponto de vista meramente formal, na prolação de sentença, no
julgamento, mas sim é a demora no fornecimento de tutela jurisdicional, ou seja, a demora na
satisfação material da parte274.
Conforme se adverte nas palavras de Annoni275:

Cumpre ao ordenamento jurídico atender, de forma mais completa e eficiente, ao


pedido daquele que exerce o seu direito a jurisdição, ou à mais ampla defesa. Para
tanto é preciso que o processo disponha de mecanismos aptos a realizar a devida
prestação jurisdicional, qual seja, de assegurar ao jurisdicionado seu direito real,
efetivo, e no menor tempo possível, entendendo-se esse possível dentro de um lapso
temporal razoável.

A efetividade da atuação judicial está interligada de forma inconfundível ao tempo


de sua ação, ou seja, à impossibilidade que o Poder Judiciário possui em conceder uma
resposta célere às questões que lhe são postas, frustra a função jurisdicional do Estado, na
garantia do acesso à justiça ao cidadão276.
O que se está defendendo é que o direito de acesso à justiça diante da atuação
jurisdicional, precisa ser célere, sob pena de se tornar ineficaz a primeira, por conta de uma
relação finalística (meio versus fim) a exigir que a intervenção estatal se preste a cumprir os
fins constitucionalmente estabelecidos, o que o transcurso de um período de tempo
desarrazoado certamente impedirá277.
O fator tempo apresenta-se como um importante fenômeno a ser observado e
analisado, posto que a tutela jurisdicional dos direitos não é útil senão quando alcançada em
espaço razoável de tempo. Logo, o tempo configura como um componente determinante e
fundamental para garantir e realizar o acesso à justiça278.

273
Ibid. p. 9.
274
MELO, João Paulo dos Santos. Duração razoável do processo. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 2010. p. 54.
275
ANNONI, Danielle. Direitos humanos & acesso à justiça no direito internacional. Curitiba: Juruá, 2005. p. 115.
276
ARRUDA, Samuel Miranda. op. cit. p. 74.
277
Ibid. p. 80.
278
MELO, Gustavo de Medeiros. O acesso adequado à justiça na perspectiva do justo processo. In: Luiz Fux et al (Coord). Processo e
Constituição: estudos em homenagem ao Professor José Carlos Barbosa Moreira. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006. p. 691.
100

3.3 O Direito à Razoável Duração do Processo Penal como Dimensão do Devido


Processo Legal

A Constituição da República pátria atribuiu especial acepção ao princípio da


dignidade humana como axioma fundamental da ordem constitucional vigente (art. 1°, III, da
CF/88). Conforme preleciona Gilmar Mendes279 que “na sua acepção originária, esse princípio
veda o emprego ou transformação do homem em objeto dos processos e ações estatais. O
Estado está vinculado ao dever de respeito e proteção do indivíduo contra exposição a ofensas
ou humilhações”, sendo que a duração indefinida do processo judicial compromete não
apenas e de maneira direta a concepção de proteção judicial efetiva, como afeta de modo
crucial a proteção da dignidade da pessoa humana, “na medida em que permite a
transformação do ser humano em objeto dos processos estatais”.
Nessa linha, afirma Dürig280, que a “submissão do homem a um processo judicial
indefinido e sua degradação como objeto do processo estatal atenta contra o princípio da
proteção judicial efetiva (rechtliches Gehör) e fere o princípio da dignidade humana".
Ainda que não seja um problema próprio dos tempos atuais, posto que desde a
“Constituição Política do Império do Brazil”281, de 25 de março de 1824, já se tinha
previsibilidade a um prazo razoável para o processo. Na contemporaneidade, a necessidade da
duração razoável do processo e de prestação de uma tutela jurisdicional tempestiva ganha
fundamental importância quando se verifica, por uma lado, o aumento significativo das
demandas judiciais, e, de outro, um dinamismo nas relações sociais a exigir soluções cada vez
mais eficazes282.
Consciente de tal necessidade, o legislador constitucional pátrio, com o escopo de
garantir aos jurisdicionados uma tutela célere, oportuna, dinâmica e eficaz, inseriu na
Constituição Federal de 1988, por meio da Emenda Constitucional 45/04, o inciso LXXVIII
ao art. 5°, firmando o direito à razoável duração do processo e os meios necessários que
assegurem a todos os litigantes a celeridade de sua tramitação.
A novidade trazida pela Emenda Constitucional 45/04 não está tanto na previsão
do direito a uma tutela tempestiva, mas em tornar explícito o dever de que sejam criadas todas

279
MENDES, Gilmar Ferreira et al. Curso de direito constitucional. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 545.
280
MAUNZ-DÜRIG, Grundgesetz Kommentar, Band I, München: Verlag C. H. Beck, 1990, 1I 18.
281
Art. 179. VIII. "Ninguem poderá ser preso sem culpa formada, excepto nos casos declarados na Lei; e nestes dentro de vinte e quatro
horas contadas da entrada na prisão, sendo em Cidades, Villas, ou outras Povoações proximas aos logares da residencia do Juiz; e nos logares
remotos dentro de um prazo razoavel, que a Lei marcará, attenta a extensão do territorio, o Juiz por uma Nota, por elle assignada, fará constar
ao Réo o motivo da prisão, os nomes do seu accusador, e os das testermunhas, havendo-as".
282
MACHADO, Marcelo Aguiar. Reflexões sobre o direito à duração razoável do processo. I Jornada de Planejamento e Gestão. Coleção
Jornada de Estudos Esmaf, 4. Ago./2010. Brasília/DF. p. 128.
101

as condições necessárias à tramitação processual em tempo razoável e sem dilações


injustificadas. Trata-se de preceito que assegura a duração razoável do processo, que é aquele
que se finaliza dentro do menor tempo possível diante de suas circunstâncias concretas e, para
tanto, assegura a todos "os meios que garantam a celeridade de sua tramitação" 283.
Tratando da temática, Gajardoni284 parte da análise de uma dimensão objetiva,
assentando que:

A garantia do processo sem dilações indevidas não é uma mera declaração de


intenções dirigida ao Judiciário, mas sim uma autêntica norma programática, cujo
mandamento deve ser cumprido por todos os Poderes do Estado. Ao Poder
Legislativo é exigida uma especial atenção ao elemento temporal, no momento de
elaborar a legislação processual aplicável. Ao Poder Executivo, a tarefa de articular
a estrutura orgânica e material necessária para a função jurisdicional e dar apoio
completo na execução dos julgados. E, finalmente, ao Poder Judiciário incumbe
utilizar, de forma eficiente, os meios postos à sua disposição, bem como cumprir
rigorosamente os prazos processuais.

O critério de razoabilidade deve impregnar o espírito do legislador, no momento


em que este fixa, na lei, os prazos dos atos processuais, que terão influência na duração do
processo285.
Vale ressaltar que esse direito à "razoável duração do processo", assegurado e
firmado pela Emenda Constitucional 45/04, já se encontrava incorporado por meio do Dec.
678, de 09-11-1992, ao nosso ordenamento jurídico pelo Pacto de San José da Costa Rica,
com a Convenção Americana de Direitos Humanos, assinada em 22 de novembro de 1969,
conforme disposição do § 1° do art. 8º, que assim estabelece:

Toda pessoa tem direito de ser ouvida com as devidas garantias e dentro de um
prazo razoável por um juiz ou tribunal competente, independente e imparcial,
instituído por lei anterior, na defesa de qualquer acusação penal contra ele
formulada, ou para a determinação de seus direitos e obrigações de ordem civil,
trabalhista, fiscal ou de qualquer outra natureza.

Antes mesmo da alteração disposta pela EC 45/2004, o art. 5°, § 2°, da CF/1988,
já previa que os direitos e garantias expressos em seu texto não excluíam outros decorrentes
dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil fosse parte, passando o
direito fundamental à razoabilidade na duração do processo a fazer parte do ordenamento
jurídico pátrio.

283
Idem. p. 128.
284
GAJARDONI, Fernando da Fonseca. O Princípio Constitucional da Tutela Jurisdicional sem Dilações Indevidas e o Julgamento
Antecipadíssimo da lide. Revista IOB. ano VIII- N° 45 - Jan-Fev. 2007. p. 109.
285
OLIVEIRA, Roberto da Silva. O direito fundamental à razoável duração do processo penal. Revista dos Tribunais. Ano 101. v. 919.
maio/2012. p. 345.
102

Por tal razão, diante de um "sistema aberto" quanto aos direitos fundamentais,
tornou-se razoável sustentar a equiparação dos direitos fundamentais previstos em tratados
internacionais, inclusive em relação ao princípio da duração razoável do processo, com os
constantes na própria Lei Maior286.
Com a Emenda Constitucional 45/04, o direito fundamental à razoável duração do
processo e a celeridade processual (art. 5°, LXXVIII) surgem como garantias "expressas" da
Constituição Federal e como derivação e/ou decorrência direta dos princípios do devido
processo legal e do acesso à justiça, ambos dispostos no art. 5°, LIV e XXXV, da CF.
O legislador Constitucional estabeleceu expressamente o direito à razoável
duração do processo, no qual a prestação da atividade jurisdicional deve apoiar-se por meios
que possibilitem a celeridade de sua tramitação, com o acréscimo do preceito normativo do
art. 5°, LXXVIII, tendo sido a Constituição elastecida, o entendimento do devido processo
legal nela já inserido como garantia fundamental, no mesmo art. 5°, incs. XXXV, XXXVII,
LIII, LIV e LV, passando o princípio do devido processo legal, sob uma análise de uma
interpretação lógico-sistemática, com o acréscimo do inc. LXXVIII ao art. 5°, a despontar,
conforme ensina Dias287:

Como um bloco aglutinante e compacto de várias garantias fundamentais ostentadas


pelas partes litigantes contra o Estado, quais sejam: a) de amplo acesso à jurisdição,
prestada dentro de um tempo útil ou lapso temporal razoável; b) do juízo natural; c)
do contraditório; d) da plenitude de defesa, com todos os meios e recursos a ela
(defesa) inerentes, aí incluído o direito ao advogado ou ao defensor público (CF/88,
arts. 133 e 134 ); e) da fundamentação racional das decisões jurisdicionais (CF/88,
art. 93, IX e X); f) de um processo sem dilações indevidas.

Nesse sentido aponta Zarif288 assinala que:

Uma das garantias intrínsecas ao devido processo legal é o de que os processos


devem ser céleres, buscando uma rápida solução para o conflito de interesses levado
ao Judiciário, sem que se deixe de lado o respeito a outros princípios também
decorrentes do due process, como o da ampla defesa e do contraditório.

Na Constituição Federal o conteúdo do princípio do devido processo legal está


estabelecido como o princípio basilar do processo, princípio este que coordena e abrange
todos os demais princípios e garantias informadoras do processo (contraditório, isonomia,

286
ALMEIDA, Andréa Márcia Vieira de. O princípio da duração razoável do processo e a sua efetividade. I Jornada de Ciências Sociais.
Coleção Jornada de Estudos. Esmaf, 14. Set./2012. Brasília/DF. p. 31.
287
DIAS, Ronaldo Brêtas de Carvalho. Direito à jurisdição eficiente e garantia da razoável duração do processo na reforma do judiciário. In:
Revista de Processo. 128. São Paulo. Ed. Revista dos Tribunais. Ano 30. out./ 2005, p. 166.
288
ZARIF, Cláudio Cintra. Da Necessidade de Repensar o Processo para que ele seja realmente efetivo, in Processo e Constituição,
Coordenação Luiz Fuz e outros, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006. p. 140.
103

ampla defesa, fundamentação das decisões, juiz natural, dentre outros), ao mesmo tempo em
que impõe um severo dever de observância às formas prescritas em lei para a tramitação
processual, está intimamente associado ao direito que todos têm de que "toda e qualquer
consequência processual que as partes possam sofrer, tanto na esfera da liberdade pessoal
quanto no âmbito de seu patrimônio, deve necessariamente decorrer de decisão prolatada num
processo que tenha tramitado em conformidade com a antecedente previsão legal" 289.
A retórica de Tucci290 faz alusão ao direito a um processo em um tempo justo que
seria corolário do due process of Law, como se vê:

Não basta, pois, que se assegure o acesso aos tribunais, e, consequentemente, o


direito ao processo. Delineia-se inafastável, também, a absoluta regularidade deste
(direito ao processo), com a verificação efetiva de todas as garantias resguardadas ao
consumidor da justiça, em um breve prazo de tempo, isto é, dentro de um tempo
justo, para a consecução do escopo que lhe é reservado. Em síntese, a garantia
constitucional do devido processo legal deve ser uma realidade durante as múltiplas
etapas do processo judicial, de sorte que ninguém seja privado de seus direitos, a não
ser que no procedimento em que este se materializa se constatem todas as
formalidades e exigências em lei previstas. Desdobram-se estas nas garantias: a)
acesso à justiça; b) do juiz natural; c) do tratamento paritário dos sujeitos parciais do
processo; d) da plenitude da defesa, com todos os meios e recursos a ele inerentes; e)
da publicidade dos atos processuais e da motivação das decisões jurisdicionais; e f)
da tutela jurisdicional dentro de um lapso temporal razoável.

Assevera, ainda, o autor mencionado que o direito à tutela judicial em tempo justo
é uma das dimensões do devido processo legal e que a garantia constitucional da
tempestividade jurisdicional está incluída na garantia do devido processo legal291.
Constata-se que o devido processo legal, nas palavras de Morais 292 configura em
uma manifestação de:

Dupla proteção ao indivíduo, atuando tanto no âmbito material de proteção ao


direito de liberdade e propriedade, quanto no âmbito formal, ao assegura-lhe
paridade de condições em relação ao Estado-persecutor e plenitude de defesa (defesa
técnica, publicidade do processo, citação, produção ampla de provas, juiz
competente, recursos, decisão imutável, revisão criminal).

Todavia, o princípio do devido processo legal não se exaure na estrita observância


das normas processuais previstas no ordenamento, mas exige, também, que este processo seja
apto a tutelar de forma apropriada o direito das partes. Dele decorre também que as decisões

289
WAMBIER, Luiz Rodrigues. DE ALMEIDA, Flávio Renato Correia. TALAMINI, Eduardo. Curso Avançado de Processo Civil. V. 1.
Teoria Geral do Processo e Processo de Conhecimento. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007 p. 70.
290
TUCCI, Rogério Cruz e, op. cit. p. 87-88.
291
Idem. p. 88
292
MORAES, Alexandre. Direito Constitucional. 23 ed., 2008, São Paulo, Ed. Atlas. p. 105.
104

judiciais devem ser razoáveis, equilibradas e proporcionais, donde se extrai, do mesmo modo,
como decorrência direta de tal princípio, o direito a um processo com duração razoável, ou
ainda, sem dilações indevidas, em que as decisões sejam conferidas em tempo útil para as
partes293.
Por esta razão, o "processo adequado" é aquele que, além de adotar as normas
procedimentais, é efetivo, ou seja, satisfaz em sua inteireza a tutela de direitos, para que essa
tutela seja manifestada no momento oportuno. Distanciando-se deste momento, a sentença
perderá seu caráter reparador podendo se tornar até mesmo injusta em razão da dinâmica
social. A efetividade estará, portanto, indissociadamente ligada à duração do processo 294.
Partindo da premissa de que a efetividade está umbilicalmente interligada à
duração do processo, Bedaque295 apregoa que:

A garantia constitucional do devido processo legal abrange a efetividade da tutela


jurisdicional, no sentido de que todos têm direito não a um resultado qualquer, mas a
um resultado útil no tocante à satisfatividade do direito lesado ou ameaçado. Mas
também se inclui nesse contexto o direito à cognição adequada a assegurar o
contraditório e a ampla defesa. Entre os direitos fundamentais da pessoa encontra-se,
sem dúvida, o direito à efetividade do processo, também denominado direito de
acesso à justiça ou direito à ordem jurídica justa, expressões que pretendem
representar o direito que todos têm à tutela jurisdicional do Estado. Essa proteção
estatal deve ser apta a conferir tempestiva e adequada satisfação de um interesse
juridicamente protegido, em favor de seu titular, nas situações em que isso não se
verificou de forma natural e espontânea.

Nessa mesma linha, surge a constatação de que o direito ao processo sem dilações
injustificadas é corolário do devido processo legal, segundo a lição de Tucci 296 quando afirma
que:
Não basta, pois, que se assegure o acesso aos tribunais, e, consequentemente, o
direito ao processo. Delineia-se inafastável, também, a absoluta regularidade deste
(direito no processo), com a verificação efetiva de todas as garantias resguardadas ao
consumidor da justiça, em um breve prazo de tempo, isto é, dentro de um tempo
justo, para a consecução do escopo que lhe é reservado. Em síntese, a garantia
constitucional do devido processo legal deve ser uma realidade durante as múltiplas
etapas do processo judicial, de sorte que ninguém seja privado de seus direitos, a não
ser que no procedimento em que este se materializa se constatem todas as
formalidades e exigências em lei previstas.

Por conseguinte, um processo constitucionalmente estabelecido, não pode deixar


de transcursar em um prazo razoável. O processamento em tempo excessivo acarreta
293
Toledo, Emília Poliane Sousa. Direito Processual - Estudos Jurídicos Aplicados. Coordenador: João Antônio Lima Castro. Belo
Horizonte: PUC Minas, Instituto de Educação Continuada, 2010. p. 92.
294
BEZERRA, Marcia Fernandes. op. cit., p. 468.
295
BEDAQUE, José Roberto dos Santos. Comentários ao art. 273 do CPC. In: MARCATO, Antonio Carlos (org.). Código de Processo
Civil Interpretado. São Paulo, Atlas, 2004. p. 791.
296
TUCCI, José Rogério Cruz e. Garantia do processo sem dilações indevidas. In: TUCCI, José Rogério Cruz e. Garantias constitucionais
do processo civil: homenagem aos 10 anos da Constituição Federal de 1988. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1999. p. 259-260.
105

profundos gravames, posto que tem o condão de alargar o período de insegurança que a
tramitação processual acarreta, sem contar com os reflexos nos campos patrimonial e
psicológica do réu, que se vê subjugado a permanecer nesta desagradável situação por período
de tempo indeterminado297.
O direito a um julgamento em um prazo razoável é uma verdadeira manifestação
do direito ao devido processo legal e à proteção judicial eficaz, através do desenvolvimento de
um conjunto de princípios e de garantias, que tem como escopo maior o alcance da justiça.
Por sua vez o reconhecimento deste direito implica o alcance de uma série de outros direitos
considerados fundamentais, entre eles, o do contraditório e da ampla defesa.
298
A Corte Suprema do Brasil , tratando especificamente da matéria, analisou de
forma a não deixar dúvidas, quando expressou que “o julgamento sem dilações indevidas
constitui projeção do princípio do devido processo legal”, expressando de forma clara e
objetiva um aspecto temporal da cláusula do devido processo legal, evidenciando-se que um
“processo lento fere esta garantia fundamental”. Em outra banda, é imperativo reconhecer que
ao réu deve ter assegurado a ampla defesa e o contraditório, com “o tempo necessário à sua
preparação”, posto que o termo “razoável” dentro desta conjuntura deve ser interpretado como
um “sopesamento”, ou seja, um meio termo que possibilite a um tempo suficiente a “um justo
julgamento, mas não tão excessivo que dilate de forma desnecessária a tramitação
299
processual”
À luz deste raciocínio, vale apontar as palavras de Oliveira300 quando afirma que:

O fator tempo é um elemento essencial ao processo. E o é porque, para a


coordenação desse complexo conjunto de atos processuais dirigidos à busca da
prestação jurisdicional, é necessária a observação de uma série de prazos e
solenidades formais que dependem de um certo tempo para a sua conclusão, que são

297
ARRUDA, Samuel Miranda. O direito fundamental à razoável duração do processo. op., cit. p 90.
298
STF. HC 83773/SP - SÃO PAULO. HABEAS CORPUS. Relator: Min. CELSO DE MELLO. Julgamento: 07-12-2004. Órgão
Julgador: Segunda Turma. E M E N T A: "HABEAS CORPUS" - DECRETAÇÃO DE PRISÃO CAUTELAR - PRISÃO CAUTELAR
QUE SE PROLONGA DE MODO IRRAZOÁVEL - INADMISSIBILIDADE - EXCESSO DE PRAZO IMPUTÁVEL AO PODER
PÚBLICO - VIOLAÇÃO À GARANTIA CONSTITUCIONAL DO "DUE PROCESS OF LAW" - DIREITO QUE ASSISTE AO RÉU DE
SER JULGADO DENTRO DE PRAZO ADEQUADO E RAZOÁVEL - PEDIDO DEFERIDO. EXCEPCIONALIDADE DA PRISÃO
CAUTELAR. - A prisão cautelar - que tem função exclusivamente instrumental - não pode converter-se em forma antecipada de punição
penal. A privação cautelar da liberdade - que constitui providência qualificada pela nota da excepcionalidade - somente se justifica em
hipóteses estritas, não podendo efetivar-se, legitimamente, quando ausente qualquer dos fundamentos legais necessários à sua decretação
pelo Poder Judiciário. O JULGAMENTO SEM DILAÇÕES INDEVIDAS CONSTITUI PROJEÇÃO DO PRINCÍPIO DO DEVIDO
PROCESSO LEGAL. - O direito ao julgamento, sem dilações indevidas, qualifica-se como prerrogativa fundamental que decorre da garantia
constitucional do due process of law. O réu - especialmente aquele que se acha sujeito a medidas cautelares de privação da sua liberdade -
tem o direito público subjetivo de ser julgado, pelo Poder Público, dentro de prazo razoável, sem demora excessiva nem dilações indevidas.
Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Art. 7º, ns. 5 e 6). Doutrina. Jurisprudência. - O excesso de prazo, quando exclusivamente
imputável ao aparelho judiciário - não derivando, portanto, de qualquer fato procrastinatório causalmente atribuível ao réu - traduz situação
anômala que compromete a efetividade do processo, pois, além de tornar evidente o desprezo estatal pela liberdade do cidadão, frustra um
direito básico que assiste a qualquer pessoa: o direito à resolução do litígio, sem dilações indevidas e com todas as garantias reconhecidas
pelo ordenamento constitucional.
299
ARRUDA, Samuel Miranda. op. cit. p. 93.
300
OLIVEIRA, Rogério Nunes. A morosidade na entrega da jurisdição e o direito à razoável duração do processo judicial. In: Revista da
Faculdade de Direito de Campos, Ano V, n° 5, 2004. p. 610.
106

reflexos da cláusula constitucional do due process of law e das garantias da


bilateralidade da audiência e da exação dos meios e oportunidades de defesa. Dito de
outro modo, isso significa que o fator é um mal necessário para o desenrolar válido
do processo judicial, porque visa assegurar àquele em face de quem se pede uma
providência jurisdicional a efetivação do direito ao devido processo legal e às
demais garantias a ele inerentes.

Em conclusão à argumentação esboçada acima, Arruda301 assinala no sentido de


que:
Ambas as vertentes da razoabilidade do tempo de tramitação devem ser levadas em
consideração quando se verifica o cumprimento do postulado do processo devido.
Assim, deve-se reconhecer que este amplo direito processual abrange uma garantia
de agilização do procedimento e, de forma complementar, o direito ao prazo mínimo
necessário à preparação da defesa.
(...) Aliás, é relevante anotar que a ampla defesa pode ser maculada também pela
exacerbação do tempo de transcurso do procedimento. Para nos limitarmos apenas a
uma das repercussões gravosas ao réu, é indiscutível que a lentidão processual
dificulta a busca da verdade real e restringe a produção probatória. Causando
prejuízo à defesa – e não só, pois em tese prejudica ambas as partes – torna injusto o
processo.

O direito a um julgamento dentro de um prazo razoável, sem dilações indevidas,


configura como uma autêntica decorrência do devido processo legal, posto que se expressa
como um conjunto de direitos e garantias, entre as quais se apresenta o direito a um
julgamento em um tempo razoável.
Portanto, uma vez morosa, a duração processual reflete de maneira negativa no
estabelecimento da base estruturante do due process of Law, já que a efetividade do acesso à
justiça sofre reflexos com o lapso temporal no qual o direito material pleiteado está à mercê
de uma resposta jurisdicional.
O que se constata é que processo justo não pode ser moroso, tendo em vista que o
devido processo legal compreende o princípio da eficiência e eficácia, e o tempo das decisões
afeta a qualidade da prestação jurisdicional.

3.4 Celeridade Processual versus Garantias Constitucionais do Processo


Penal
Ao longo dos tempos houve uma evolução na concepção de liberdades e de
dignidade dos homens e da sociedade, em razão das Declarações de direitos do século XVIII
que se preocuparam em sistematizar as garantias políticas e criminais dos indivíduos diante do
Estado, tendo sido no século XX marcado pela preocupação em asseverar o aproveitamento
daquelas garantias já estendidas.

301
ARRUDA, Samuel Miranda. op. cit. p. 93-95.
107

A garantia da duração razoável do processo integra as garantias constitucionais do


devido processo legal e do acesso à justiça, e exatamente por integrá-las é que deve ser
aplicada sopesando-se os demais princípios e garantias que formam essas garantias, em
especial o contraditório e a ampla defesa, que se tornam capazes de assegurar o exercício da
cidadania, que se dá por meio da participação discursiva das partes na construção dos
provimentos jurisdicionais, visão que se coaduna perfeitamente com o paradigma do Estado
Democrático de Direito.
Por conta disso, o Processo Penal não pode aniquilar garantias consagradas,
segundo as quais se constituem o processo no seu tempo próprio de amadurecimento e que
sem elas estaria o Estado impossibilitado de realizar a sua prestação jurisdicional no caso
concreto. E nem pode sob o fundamento contrário perpetuar a maturação do processo, para
além do tempo necessário para o asseguramento dos direitos fundamentais do réu.
É com base nesse paradigma de Estado democrático de Direito que se estabelece
uma visão inseparada de uma prestação jurisdicional em um prazo razoável, atendendo aos
ditames constitucionais na proteção de lesão ou ameaça a direitos fundamentais, conforme se
observa na visão de Mendes302ao afirmar que:

Assim, tendo em vista a indissociabilidade entre proteção judicial efetiva e prestação


jurisdicional em prazo razoável, e a ausência de autonomia desta última pretensão, é
que julgamos pertinente tratar da questão relativa à duração indefinida ou
desmesurada do processo no contexto da proteção judicial efetiva. O
reconhecimento de um direito subjetivo em um processo célere - ou com duração
razoável - impõe ao Poder Público em geral e ao Poder Judiciário, em particular, a
adoção de medidas destinadas a realizar esse objetivo. Nesse cenário, abre-se um
campo institucional destinado ao planejamento, controle e fiscalização de políticas
públicas de prestação jurisdicional que dizem respeito à própria legitimidade de
intervenções estatais que importem, ao menos potencialmente, lesão ou ameaça a
direitos fundamentais.

Na visão de Dias303a imposição constitucional de se obter a prestação da atividade


jurisdicional em tempo útil ou prazo razoável, significa dizer que:

Adequação temporal da jurisdição, mediante processo sem dilações indevidas, não


permite obrigar o Estado ao povo a aceleração dos procedimentos pela diminuição
das demais garantias processuais constitucionais, como por exemplo, suprimir o
contraditório e ampla defesa, coibir a presença do advogado no processo, suprimir o
duplo grau de jurisdição, revogar a instrumentalidade das formas, reduzir o direito
das partes à produção de provas lícitas ou franquear o órgão jurisdicional de
fundamentar racionalmente suas decisões. A restrição de quaisquer garantias
processuais constitucionais, sob o argumento de abreviar ou tomar acelerado o

302
MENDES, Gilmar Ferreira et al. op. cit. p. 546.
303
DIAS, Ronaldo Brêtas de Carvalho. Direito à jurisdição eficiente e garantia da razoável duração do processo na reforma do judiciário.
Revista da Faculdade Mineira de Direito, Belo Horizonte, v. 8, n. 15, 2005. p. 233.
108

procedimento, revela-se inconstitucional e antidemocrática, somente servindo para


estimular o arbítrio dos juízes, fomentar a insegurança jurídica e escarnecer da
garantia fundamental do devido processo legal, em resumo, deslavada e grosseira
agressão ao princípio constitucional do Estado Democrático de Direito”.

Em suma, na vigência do Estado Democrático de Direito cabe ao Poder Judiciário


“fazer cumprir o direito positivo, mediante observação das garantias constitucionais do
processo”304.
O doutrinador espanhol Junoy305 ao tratar da importância do direito à razoável
duração do processo, aponta que o escopo derradeiro do fenômeno da constitucionalização
das garantias processuais não é outro que senão alcançar a tão esperada justiça.
Já Tornaghi306 aponta que para o alcance do equilíbrio entre celeridade processual
e asseguramento das garantias processuais, destaca que o julgador deve:

Zelar a celeridade do processo, mas sempre cuidando que não se mutilem as


garantias, quer de observância do Direito objetivo, quer de respeito aos direitos
subjetivos das partes ou de terceiros. O acerto da decisão prima sobre a sua presteza.
É preciso que a ligeireza não se converta em leviandade, que a pressa não acarrete a
irreflexão. O juiz deve buscar a rápida solução do litígio, mas tem de evitar o
açodamento, o afogadilho, a sofreguidão. Deve ser destro, sem ser precipitado;
pontual, sem imprudência. O juiz inconsiderado é ainda pior que o vagaroso. A
observância rigorosa das formas e prazos legais é a melhor receita para conciliar a
rapidez e a segurança.

Da mesma forma que um processo muito lento, e que não satisfaça os interesses
das partes em razão dessa lentidão, vai contra o acesso a uma ordem jurídica justa, um
processo demasiadamente rápido, sem o tempo necessário para que o magistrado forme sua
convicção e para que as partes se manifestem de forma suficiente, por exemplo, também
afronta o devido processo legal.
Não obstante, a tendência que se percebe ultimamente é a de se tratar um processo
célere como a epítome do processo justo, deixando renegadas ao segundo plano as demais - e
tão importantes quanto - garantias e princípios constitucionais processuais.
Na busca do equilíbrio entre celeridade e segurança no processo, a resposta estatal
deve ser célere, não esquecendo que o tempo legal do processo deve estar estabelecido com
base nas garantias do contraditório e da ampla defesa, ou seja, do devido processo legal, para
que tal resposta estatal esteja pautada em uma decisão apta, justa e útil na solução da lide.
Nesse sentido apregoa Loureiro Filho307 ao dizer que:

304
LEAL, Rosemiro Pereira. Teoria geral do processo: Primeiros estudos. São Paulo: Landy, 2002. p. 64.
305
JUNOY, Joan Picó i. op. cit. p. 21.
306
TORNAGHI, Hélio. Comentários ao código de processo civil. 2 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1974. v. I. p. 458.
109

A solução para garantir o efetivo acesso de todos a uma atividade judiciária


adequada e eficiente passa pelo bom equacionamento do binômio
segurança/celeridade. A justiça deve ser rápida, evitando a demora excessiva na
prestação jurisdicional, que leva a sua ineficácia, devendo, contudo, observar os
institutos mantenedores da segurança das relações jurídicas (a observância do due
process of law, o devido processo legal, o respeito ao contraditório e a ampla
defesa).

Na análise de Tucci308 “o direito processual oscila entre a necessidade de decisão


rápida e a de segurança na defesa do direito dos litigantes”. Nessa mesma perspectiva, Barbi309
assegura que o aumento de intensidade de uma implica necessariamente distanciamento da
outra, quando afirma que “um processo muito rápido corresponde geralmente a restrição na
defesa do direito por parte do réu; e a uma garantia muito desenvolvida dessa defesa
corresponde um processo moroso”. Por essas razões, há que se encontrar um ponto de
equilíbrio, o que representa o grande desafio dos juristas e aplicadores do Direito na
atualidade310.
Em razão do processo penal exigir tempo necessário para a satisfação dos direitos
e garantias processuais, Lopes Júnior311 argumenta que:

Não existe nada mais demonstrativo da arbitrariedade a aplicação de procedimentos


sumários ou sumaríssimos em matéria penal, posto que impedem que o imputado
possa exercer todas as faculdades próprias de um processo penal adequado a
Constituição democrática.

Diante do revelado, vale destacar que nos tempos atuais, o processo penal pátrio
está vivenciando a era das reformas, dentre elas, estão o advento das Leis 11.719/08 e
11.689/08, ambas pautadas pela busca incessante de celeridade e efetividade no processo,
numa tentativa de alcançar a razoabilidade na duração da instrução criminal. Porém, acelerar
os procedimentos, quando não suprimí-los, extirpando as possibilidades de exercício das
garantias fundamentais, não tem sido o caminho mais acertado para alcançar o processo
célere, sem dilações indevidas, até mesmo porque nesse caso se coloca em jogo a questão da
segurança jurídica. Há que o legislador sopesar a questão do tempo de duração do processo,
para que o mesmo não tenha duração desarrazoada, excessiva, do mesmo modo para que o

307
LOUREIRO FILHO, Lair da Silva. Responsabilidade pública por atividade judiciária. São Paulo: RT, 2005. p. 97.
308
TUCCI, José Rogério Cruz e. op. cit. p. 38.
309
BARBI, Celso Agrícola. Comentários ao Código de Processo Civil, v. 1, 3 ed., Rio de Janeiro, Forense, 1983, p. 515.
310
ROSITO, Francisco. op. cit. p. 26.
311
LOPES JUNIOR, Aury. Direito ao processo penal no prazo razoável. Revista Brasileira de Ciências Criminais. 65. mar./abr. 2007. ed.
Revista dos Tribunais. p. 245.
110

mesmo não se desenvolva de maneira injustificadamente rápida, prejudicando, pois a


produção de provas, a apreciação dos fatos, enfim o curso normal do processo312.
Partindo dessa análise Tucci313 aponta que não se pode esquecer:

A existência de dois postulados que, em princípio, são opostos: o da segurança


jurídica, exigindo um lapso temporal razoável para a tramitação, e o da efetividade
deste, reclamando que o momento da decisão final não se procrastine mais do que o
necessário. Obtendo um equilíbrio destes dois regramentos - segurança/celeridade -,
emergirão as melhores condições para garantir a justiça no caso concreto, sem que,
assim, haja diminuição do grau de efetividade da tutela jurisdicional.

Há uma inquietação com a celeridade processual; porém, a essência do processo


deve ser a efetividade, afinal vincula-se à ideia de instrumento de garantia do jurisdicionado,
norteado por princípios constitucionais, como o do devido processo legal e do acesso à
justiça. O termo efetividade engloba não apenas a garantia de estar em juízo ou de provocar a
tutela jurisdicional do Estado, mas também o direito de obter a tutela efetiva em prazo
razoável, até mesmo para que seja útil ao titular do direito material violado314.
Por conseguinte, tem-se que o processo deve proporcionar adequada satisfação
jurídica às partes, procurando-se atender a ambos os valores jurídicos, na medida da
necessidade e suficiência315. Não necessariamente um processo célere revela um processo
justo. Impõe-se abreviá-lo para torná-lo melhor, e, não, piorá-lo, ocultando outros diversos
direitos fundamentais a uma das partes ou a ambas316. Nessa linha de interpretação, é
oportuno recordar a lição de Hélio Tornaghi317 que “juiz inconsiderado é ainda pior que o
vagaroso”, sendo prudente ter em vista que a “observância rigorosa das formas e prazos legais
é a melhor receita para conciliar a rapidez e a segurança”.
Nesse sentido é o ensinamento de Hoffmann318 ao afirmar que “tanto é inaceitável
um processo extremamente demorado como aquele injustificadamente rápido e precipitado,
no qual não há tempo hábil para a produção de provas e alegações das partes, com total
cerceamento de defesa”.
Cabe aos integrantes da relação processual, em especial ao magistrado, aplicar,
caso a caso, o devido processo legal da melhor maneira possível, visando garantir que a

312
TOLEDO, Emília Poliane Sousa e. op. cit. p. 101.
313
TUCCI, Rogério Cruz e. op. cit. pp. 85/86
314
JUNIOR, Amílcar Araújo Carneiro. e WAMBIER, Luiz Rodrigues. Uma contribuição para o estudo da razoável duração do processo.
Revista Jurídica. ano 58. out. 2010. n° 396. p. 6.
315
ROSITO, Francisco. op., cit. p. 21.
316
ASSIS, Araken de. Duração razoável do processo e reformas da lei processual civil. Revista Jurídica. Ano 56, nº 372. Porto Alegre:
Notadez, outubro de 2008. p. 13.
317
TORNAGHI, Hélio. op. cit. p. 382.
318
HOFFMANN, Paulo. Razoável duração do processo. São Paulo. Quartier Latin, 2006. p. 41.
111

prestação jurisdicional seja realizada no tempo justo para a efetivação de todos os princípios e
garantias constitucionais que o compõem, e, em especial, para a satisfação do escopo maior
do processo, que é o acesso à justiça.
Vale assinalar a lição de Barbosa Moreira319 ao afirmar que

É mais que hora de nos compenetrarmos da superlativa dificuldade, para não dizer
da impossibilidade, de conciliar de modo perfeito o ideal da celeridade processual e
a preservação de certas garantias básicas para as partes, que a consciência jurídica e
ética de nosso tempo não tem como relegar a plano secundário. Também se lê na
Constituição, e desde o seu primeiro momento de vida, que 'aos litigantes, em
processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o
contraditório e ampla defesa, com meios e recursos a ele inerentes' (artigo 5°, inciso
LV). A norma introduzida pela Emenda Constitucional n° 45 terá de conviver com
essa e não poderá fazer dela tábua rasa. Um processo informado por preocupações
garantísticas necessariamente será menos rápido que um processo que as ponha de
lado. No terreno penal, por exemplo, alguém poderia ser tentado a enxergar a
imagem por excelência da rapidez no linchamento do suspeito: julgamento
instantâneo e execução imediata; mas é muito duvidoso, felizmente, que se
proponha com êxito semelhante modelo à consideração dos legisladores
contemporâneos.

Na mesma linha de posicionamento Dias320 pontua que:

A exigência normativa de se obter a decisão jurisdicional em tempo útil ou no prazo


razoável, o que significa adequação temporal da jurisdição, mediante processo sem
dilações indevidas, não permite impingir o Estado ao povo a aceleração dos
procedimentos pela diminuição das garantias processuais constitucionais (por
exemplo, suprimir o contraditório, proibir a presença de advogado no processo,
eliminar o duplo grau de jurisdição, abolir a instrumentalidade das formas, restringir
o direito das partes à produção de provas, dispensar o órgão jurisdicional do dever
de fundamentação). A restrição de quaisquer das garantias processuais, sob a
canhestra e antidemocrática justificativa de agilizar ou tornar o procedimento, com o
objetivo de proferir decisão jurisdicional em prazo razoável, é estimular o arbítrio,
fomentar a insegurança jurídica e escarnecer da garantia fundamental do povo ao
devido processo legal, em suma, deslavada agressão ao princípio constitucional do
Estado Democrático de Direito.

Diante do debate estabelecido entre celeridade e o exercício de garantias


fundamentais processuais, Tavares321 indica uma formulação que harmonizará os pontos em
colisão, quando destaca que:
A teoria da efetividade do direito, fruto do adequado equilíbrio entre o
processamento de pedidos amparados em tutelas provisórias - os procedimentos de
urgência de tutela a direitos fundamentais, pela via das antecipações de tutela e
cautelares - e o respeito aos princípios do contraditório, da isonomia e da ampla
defesa, e da reserva legal, por que regentes do Estado de Direito Democrático, de

319
BARBOSA MOREIRA, José Carlos. O problema da duração dos processos: premissas para uma discussão séria. Revista ADV Seleções
Jurídicas. Rio de Janeiro, v.10, mai. 2006. p. 20.
320
DIAS, Ronaldo Brêtas de Carvalho. Responsabilidade do Estado pela função jurisdicional. Belo Horizonte: Del Rey, 2004. p. 117.
321
TAVARES, Fernando Horta. Tempo e Processo. In: TAVARES, Fernando Horta (Coord.). Urgência de tutela: processo cautelar e
tutela antecipada, reflexões sobre a efetividade do processo no Estado Democrático do Direito. Curitiba: Juruá, 2007. p. 118.
112

que não se pode afastar. Esta harmonia pode ser alcançada com modificações
operacionais, seja no funcionamento da máquina judiciária, seja na utilização de
determinadas técnicas procedimentais, sem malferimento do processo devido, muito
menos com sumarização da cognição.

Nesse sentido, argumenta Pérez322 que:

El derecho a la tutela judicial efectiva no es un derecho absoluto susceptible de ser


ejercitado en todo caso y al margen del proceso legalmente establecido, sino que ha
de ser ejercitado dentro de és te y con el cumplimiento de sus requisitos,
interpretados de manera razonable, que no impida limitación sustancial del derecho
de defesa.

Ainda, vale mencionar o entendimento do processualista Leal323, segundo o qual o


processo deve ser interpretado como uma “instituição constitucionalizada”, que a aplicação do
princípio da celeridade processual sob a justificativa de atender a um provimento jurisdicional
efetivo e em tempo razoável, por intermédio de desordenada aceleração dos procedimentos,
com consequente burla acirrada das garantias processuais, é prática que se revela totalmente
antidemocrática e autoritarista, podendo conduzir a situações de insegurança jurídica,
representando tão somente mais uma forma de o Estado procurar justificar sua omissão na
prestação jurisdicional, posto que a chamada "sumarização da cognição", não resolve o
problema relacionado à morosidade e falta de celeridade dos julgamentos, posto que somente
por meio da estrita observância dos prazos e das garantias constitucionais processuais, será
possível obter um processo célere e com duração razoável.
Assevera o supracitado autor que mediante uma visão pós-moderna do Processo,
deve o mesmo assegurar o exercício dos direitos garantidos na legislação pátria, por meio de
estrita observância dos princípios constitucionais processuais, como se vê:

Não há processo, nos procedimentos, quando o Processo não estiver, antes,


institucionalmente definido e constitucionalizado pelos fundamentos normativos do
contraditório, ampla defesa, direito ao advogado, ainda que o procedimento se faça
em contraditório, porque o contraditório há de ser princípio regente (direito-garantia
constitucionalizado) do procedimento, e não atributo por leis ordinárias processuais
(codificadas ou não)324. (...) Em sendo hoje o Processo uma instituição
instrumentadora e legitimadora da Jurisdição, a tutela jurisdicional (...), há de ser
construída pela submissão judicacional aos princípios constitucionais da cidadania,
que só se opera em suas múltiplas manifestações pelos princípios constitucionais do
Processo e, a rigor, só por estes se afirma 325.

322
PÉREZ, Jesús González. El derecho a la tutela jurisdiccional, Madrid, Civitas, 2001, p. 74.
323
LEAL, Rosemiro Pereira Apud Toledo, Emília Poliane Sousa e. op. cit. pp. 95-97.
324
LEAL, Rosemiro Pereira. Teoria geral do processo: primeiros estudos. 4. ed. Porto Alegre: Síntese, 2001. p. 52.
325
Ibid. p. 50.
113

Nessa perspectiva, já lecionavam os juristas argentinos Graña e Bielsa326:

Um julgamento tardio irá perdendo progressivamente seu sentido reparador, na


medida em que se postergue o momento do reconhecimento judicial dos direitos; e,
transcorrido o tempo razoável para resolver a causa, qualquer solução será, de modo
inexorável, injusta, por maior que seja o mérito científico do conteúdo da decisão.

Já asseverava Tucci327 que o resultado de um processo não deve unicamente


conceder um mero contentamento jurídico aos litigantes, com o escopo de que essa resposta
seja a mais completa possível, “a decisão final deve ser pronunciada em um lapso de tempo
compatível com a natureza do objeto litigioso, visto que - caso contrário - se tornaria utópica a
tutela jurisdicional de qualquer direito”.
A atividade desenvolvida pelos protagonistas do processo é eminentemente
dialética. A oitiva de partes e testemunhas, a produção de provas, o convencimento do juiz e
todos os demais atos processuais requerem certo lapso temporal para o seu regular
desenvolvimento. Não se pode querer criar uma justiça instantânea, imediata, tendo a rapidez
como fim principal, já que a jurisdição necessita dar respostas que também se sustentem pela
qualidade, pelo acesso ao devido processo legal, ou seja, às garantias constitucionais do
processo. Como assevera Ramos328, de certa forma, “há de se ter certa cautela com o perigo da
chamada aceleração antigarantista, pois não se pode cair no extremo, no qual a duração do
processo é abreviada para violar, e não para garantir”.
Seguindo esse entendimento Canotilho329 preleciona apontando no sentido que:

A exigência de um processo sem dilações indevidas, ou seja, de uma 'procteção' (sic)


judicial em tempo adequado, não significa necessariamente “justiça acelerada”. A
“aceleração” da proteção (sic) jurídica que se traduza em diminuição de garantias
processuais e materiais (prazos de recurso, supressão de instâncias excessiva) pode
conduzir a uma justiça pronta mas materialmente injusta.

Não se pode admitir, portanto, que o sublime intuito de obter um processo célere
acarrete em um Poder Judiciário irresponsável. A prestação da tutela jurisdicional não pode
emergir da imprudência, sob o ensejo da tempestividade, pois, nesse caso, ter-se-ia uma
justiça célere, mas qualitativa e materialmente desonesta. O termo utilizado no artigo 5º,
inciso LXXVIII, da Constituição Federal é “razoável” e não “imediato”, portanto, a
aceleração processual não pode ser buscada a qualquer custo, sob pena deste direito se tornar

326
TUCCI, José Rogério Cruz. Tempo e processo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1997. p. 65.
327
Ibid. p. 65.
328
RAMOS, Carlos Henrique. op. cit., p. 53.
329
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional e teoria da Constituição. 7 ed. Coimbra: Livraria Almedina, 2003, p. 499.
114

uma verdadeira fonte de violação dos demais direitos fundamentais. A cláusula de garantia da
celeridade processual inserida no art. 5°, inciso LXXVIII do texto constitucional, visa
proclamar que não significa equivaler a exclusão de garantias constitucionais, posto que a
essência do direito em análise, equivale a ajustar os meios empregados e os fins a ser
alcançados por intermédio da atividade processual.
Dessa maneira, o devido processo legal e a razoável duração do processo devem
ser interpretados de um modo harmônico, de maneira que a eventual prevalência de um não
implique o sacrifício do outro, uma vez que ambos possuem hierarquia equivalente e
destinam-se a relevantes finalidades no ordenamento jurídico brasileiro. Mancuso330, ao
discorrer sobre o assunto em pauta, afirma:

Assim, do mesmo modo que é inconcebível um processo carregado de tempos


mortos que postergam seu desfecho a um ponto futuro indefinido, também não se
pode aceitar um processo despropositadamente acelerado, por modo que a almejada
presteza seja alcançada ao preço do cerceamento da prova e das devidas faculdades
processuais do réu, contexto que ao final implicaria a substituição de um mal por
outro, talvez ainda maior: o da injustiça célere.

Por certo, torna-se necessário o tempo razoável para a duração do processo, no


sentido de ser garantido o contraditório e a ampla defesa, viabilizando-se a realização
eficiente da instrução do feito e prolação da decisão. Dessa maneira, deve-se buscar o
equilíbrio entre a célere prestação jurisdicional e a garantia da segurança jurídica331.
Sabe-se que o direito fundamental que dimana do enunciado normativo do art. 5º,
inc. LXXVIII, da Constituição da República não versa sobre uma insignificante determinação
de celeridade processual – o que, em última análise, seria até mesmo temerário –, mas
obedece a um mandamento de aprimoramento segundo o qual os sujeitos que interatuam na
relação jurídica processual que precisam operar, dentro das peculiaridades fático-jurídicas de
cada caso concreto, de modo a contribuir para que o processo tenha “razoável duração”,
abstendo-se de promover, evitando e combatendo dilações indevidas.
Ainda que esse dispositivo igualmente garanta “os meios que garantam a
celeridade de sua tramitação” - aos quais se deve outorgar o máximo de eficácia que a
concorrência dos distintos fatores fático-jurídicos do caso permita –, é cediço que razoável
duração do processo não exprime, de modo destemperadamente incondicional, “breve
duração do processo”, nem “processo célere”.

330
MANCUSO, Rodolfo de Camargo. op. cit. p. 481.
331
ALMEIDA, Andréa Márcia Vieira de. op. cit. p. 29.
115

Deve-se buscar uma ponderação a fim de que se possa obter a aspirada celeridade
processual sem que isso traga de forma injustificada a insegurança jurídica aos integrantes da
relação jurídica processual.
Essa interpretação deriva da consciência de que o processo é instrumento e
método de exercício do poder, predisposto ao controle democrático das decisões adotadas no
campo da esfera pública – sobremaneira quanto a direitos indisponíveis –, o que,
inexoravelmente, só se torna viável dentro de um lapso temporal ao longo do qual os diversos
sujeitos integrantes da relação jurídica processual possam desenvolver a atividade de
argumentação e contra-argumentação racional em torno das questões controvertidas.
Como o processo é campo aberto ao diálogo racional, que legitima as decisões do
Estado-juiz pela participação isonômica em contraditório daqueles que serão atingidos por
ela, a doutrina lembra – de maneira incontestável, a exemplo do que fazem Marinoni e
Mitidiero332, em referência ao ensinamento de Ovídio Baptista da Silva – que “a própria ideia
de processo já repele a instantaneidade e remete ao tempo como algo inerente à fisiologia
processual”.
Dessa insofismável realidade política que condiciona o fenômeno processual,
emerge a constatação técnica de que “o direito à razoável duração do processo não constitui e
não implica direito a processo rápido ou célere”, pois “as expressões não são sinônimas333.”
Daí chamar-se a atenção para “a natureza necessariamente temporal do processo”,
que constitui mesmo “(...) imposição democrática, oriunda do direito das partes de nele
participarem de forma adequada334 (…)".
Por mais sedutora que seja a ideia do “processo rápido”, sobretudo em tempos de
crise do Judiciário, e numa realidade tão marcada pela instabilidade das relações sociais,
simplesmente não é possível, sob a atual ordem constitucional democrática, abandonar todos
os outros valores igualmente consagrados pela Lei Maior, em atenção exclusiva a um único
direito fundamental, o que vai de encontro ao princípio da concordância prática ou da
harmonização, pelo qual “(...) bens jurídicos reconhecidos e protegidos constitucionalmente
precisam ser ordenados de tal forma que, notadamente onde existirem colisões, um não se
realize às custas do outro335 (…)”

332
SARLET, Ingo Wolfgang; MARINONI, Luiz Guilherme Bittencourt; MITIDIERO, Daniel Francisco. Curso de direito constitucional. 2.
tir. São Paulo: Rev. dos Tribunais, 2012, p. 678.
333
Ibid, p. 678.
334
Ibidem p. 678.
335
Ibidem p. 209.
116

Consequentemente, por ser a razoável duração do processo um direito


fundamental, se lhe reconhece a nota da limitabilidade, a qual recorda, na linha da doutrina
especializada, que “os direitos fundamentais não são absolutos”, a significar que “a garantia
da razoável duração do processo deve ser interpretada à luz do sistema e que duas garantias
constitucionais podem chocar-se, como, v. g., celeridade e contraditório336.”
Especificamente quanto à colisão entre duração razoável e outros princípios
constitucionalmente consagrados, Oliveira337 adverte, num salutar exercício de harmonização
normativa, que “a efetividade só se revela virtuosa se não colocar no limbo outros valores
importantes para o processo, a começar pelo da justiça, mas não só por este”, já que:

Justiça no processo significa exercício da função jurisdicional de conformidade com


os valores e princípios normativos conformadores do processo justo em determinada
sociedade (imparcialidade e independência do órgão judicial, contraditório, ampla
defesa, igualdade formal e material das partes, juiz natural, motivação, publicidade
das audiências, término do processo em prazo razoável, direito à prova).

É essa necessidade de “coordenação e combinação dos bens jurídicos em conflito


[ ...] de forma a evitar o sacrifício (total) de uns em relação aos outros 338” que autoriza a
afirmação de que “o direito ao contraditório e os demais direitos que confluem para a
organização do processo justo ceifam qualquer possibilidade de compreensão do direito ao
processo com duração razoável simplesmente como direito a um processo célere.”
Nesse contexto, a jurisprudência do STF conta com precedente que, apesar de
voltar-se para a realidade do processo penal, reflete muito bem a inarredável necessidade de
se promover a concordância prática entre o direito fundamental à razoável duração do
processo e outros princípios constitucionais, sob pena de se construir uma interpretação
colidente com “o denso bloco de garantias” positivamente consagradas na “Constituição
Republicana”, como adverte a sensível racionalidade jurídica do Min. Ayres Britto, para quem
“(...) o prazo razoável para o julgamento é aquele timbrado pelo integral respeito às garantias
do contraditório e da ampla defesa”:
“(...) o prazo razoável para o julgamento é aquele timbrado pelo integral respeito às
garantias do contraditório e da ampla defesa. Qualquer outra interpretação colidiria
com o denso bloco de garantias penais e processuais penais que se lê no art. 5º da
Constituição Republicana.” (STF, HC 110030, Relator(a): Min. AYRES BRITTO,
Segunda Turma, julgado em 29/11/2011, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-058
DIVULG 20-03-2012 PUBLIC 21-03-2012).

336
CARVALHO, Fabiano. EC n. 45: reafirmação da garantia da razoável duração do processo, em TERESA ARRUDA ALVIM WAMBIER e
outros. [coord.], Reforma do Judiciário – primeiros ensaios críticos sobre a Emenda Constitucional n. 45/2004, nº 2. p. 247.
337
OLIVEIRA, Carlos Alberto Alvaro de. Efetividade e processo de conhecimento: do formalismo no processo civil. 2 ed. São Paulo:
Saraiva, 2003, p. 246.
338
SARLET, MARINONI E MITIDIERO, op. cit. pp. 678 e 679.
117

Desse modo, sendo impossível conceber-se, numa interpretação que preserve a


unidade da Constituição, o direito fundamental à razoável duração do processo como mera
celeridade processual, resta ao aplicador do direito reconhecer o sentido sistemático da Lei
Fundamental: “o que a Constituição determina é a eliminação do tempo patológico – a
desproporcionalidade entre duração do processo e a complexidade do debate da causa que
nele tem lugar339.”
Nesta esteira de entendimento, Giacomolli340:

É indubitável a tensão jurídica existente entre a necessidade de um processo rápido


(speedy trial) e o tempo necessário na busca da melhor solução para o caso concreto.
Entre essas duas extremidades há de ser mantido o equilíbrio, determinável em cada
caso e em cada situação penal, pois duração razoável não significa dar ao caso penal
uma solução instantânea (fast food). O norte desse ponto de equilíbrio há de estar
previsto em lei, para que a dialética processual possa confrontar a situação fática e
jurídica, na busca da melhor solução para o caso.

Isso significa que a verificação de violação ao direito fundamental à razoável


duração do processo tem de levar em conta que a condução da relação jurídica processual não
pode perseguir a rapidez “como fim, sem temperamentos, como meta absoluta, desatenta a
outros valores e princípios normativos”, como adverte a doutrina341.
É notório que a celeridade processual é um valor que se queda em conflito
com o valor segurança: quanto mais célere tramitar um processo, maior a possibilidade de ser
preteridas as garantias processuais; quanto mais se avalizar a segurança, maiores os incidentes
e os prazos indispensáveis para as suas instaurações. Contudo, tal correlação não significa
defender que se deva tolerar um "retardamento exageradamente crônico e tormentoso da
prestação jurisdicional". Daí a razão de se defender que, de fato, somente diante do caso
concreto se pode densificar o conteúdo da duração razoável do processo342.
Se essa matéria pudesse ser objeto de regulamentação por lei ordinária, seria
uma missão de valiosa importância para o legislador determinar de forma padronizada o que
constitui um tempo razoável de duração de um processo judicial. Mesmo em decorrência das
inúmeras variáveis que dificultam a implementação de uma padronização, mormente
considerando as mais acentuadas disparidades existentes em nosso ordenamento jurídico, o
problema, segundo esse indicativo, terá que ser solucionado de forma casuística, analisando-

339
Ibid. p. 679.
340
GIACOMOLLI, Nereu José. Op. cit. p. 323.
341
OLIVEIRA, Carlos Alberto Alvaro de. op. cit. p. 247.
342
BARRETO, Lucas Hayne Dantas. op. cit. p. 225.
118

se os processos individualmente e comparando-os com outros da mesma natureza que


apresentem algumas similaridades343, deixando ao alvedrio do aplicador da norma a tarefa de
decifrar no caso concreto se o tempo do processo é ou não razoável.
Não obstante, alguns parâmetros podem ser usados para se constatar a
razoabilidade da duração processual, visto que o vocábulo "razoável" possui um conteúdo
mínimo aferível em face de determinações constitucionais e legais aplicáveis ao trâmite
processual em frente à realidade do sistema jurídico e das peculiaridades do Poder Judiciário
brasileiro. A razoável duração do processo e a celeridade do tramite do desenvolvimento do
processo estão sujeitas de modo direto a complexidade da causa conduzida ao conhecimento e
julgamento pelo Estado. Então, parte-se da lógica de que uma causa simples, que dispensa
instrução probatória, não deva procrastinar mais do que uma causa complexa, na qual
demandam provas perícias, testemunhais, cartas precatórias a ser cumpridas, diversos
depoimentos pessoais em função da existência de vários personagens no cenário processual344.
Com isso, urge considerar a partir desta retórica a necessidade de uma
regulamentação mais precisa, clara e pontual acerca do que vem a ser “razoável duração”, não
podendo estar contido no mero campo da discricionariedade do julgador na análise de cada
caso, sob pena de não se assegurar de maneira plena esse direito fundamental.
Outra via de análise sobre a razoabilidade do andamento do processo deverá levar
em conta a necessária obediência às garantias processuais e constitucionais que vinculam o
processo. Não podendo o juiz, em nome da celeridade processual, pôr em risco os princípios
da ampla defesa, do contraditório e de outros institutos já consagrados no direito que
objetivam garantir um processo sem defeitos e uma decisão pronta, mas fundamentada e
justa345.
É imperioso destacar a necessidade de se limitar o lapso temporal do processo
penal, como forma de garantir os direitos constitucionais processuais, posto que a demora
injustificada na prestação jurisdicional configurará um abuso do poder estatal, em razão do
prolongamento do processo no tempo de forma indefinida. Diante desta análise, o processo
penal deve buscar um equilíbrio no tempo mínimo necessário, sem atropelar garantias
processuais e sem tardar a sua efetividade na prestação jurisdicional. Deve, de acordo com a
Convenção Americana de Direitos Humanos, em seu art. 8°, parágrafo 2°, alínea “c”, ao

343
SILVA, Enio Moraes da. Op., Cit. p. 27.
344
Ibid. p. 27.
345
Ibidem. p. 27.
119

estabelecer para o exercício das garantias processuais necessárias “a concessão ao acusado do


tempo e dos meios adequados para a preparação de sua defesa”.

4.0 A NECESSIDADE DE ESTABELECER LIMITES NORMATIVOS DO


TEMPO DE DURAÇÃO DO PROCESSO PENAL

4.1 A Necessidade de Criação de Marco Regulatório sobre o Tempo do


Processo Penal

O Brasil adotou a denominada teoria do “não prazo” acerca do tempo de duração


do processo penal, pois tanto a Convenção Americana de Direitos Humanos como a
Constituição Federal pátria não estabeleceram qual seria o tempo ‘razoável’ de duração dos
processos, ou o marco definidor de sua duração, e nem delegaram a uma lei ordinária tal
mister, deixando um amplo espaço discricionário para ponderação das peculiaridades do caso
concreto e do ‘sentir’ do julgador346.
A supramencionada doutrina do “não-prazo”347, observa que a questão do tempo
do processo não poderá ser solucionada por meio da soma dos prazos processuais, através de
uma operação aritmética348, em que tal “prazo não pode ser determinado ‘em abstrato’ e nem
se medir em um número fixo de dias, semanas, meses ou anos”349, devendo se buscar o
asseguramento da razoável duração do processo, considerado de forma global, tendo em conta
a análise das peculiaridades do caso concreto, e não o cumprimento estreito dos prazos
estabelecidos para cada ato processual antevistos em lei350, segundo a qual:

Na hipótese do legislador fixar um prazo. Findo este a defesa ainda necessita de


diligências probatórias que não se realizaram em tempo e são tidas por
imprescindíveis. Seria impensável pôr fim ao processo em prejuízo da defesa, ou
mesmo pôr-se em atropelos a fim de “cumprir a meta” 351.

Ademais, a sujeição a um prazo limitador seria uma medida inviável, tendo em


vista que não é necessário estabelecer quanto de tempo foi transcorrido, e sim, como este

346
LOPES JÚNIOR, Aury. Introdução crítica ao Processo Penal: fundamentos da instrumentalidade garantista. Rio de Janeiro: Lumen
Juris, 2004. p. 105.
347
TUCCI, José Rogério Cruz e. op. cit. p. 67-68.
348
DANTAS, Francisco Wildo Lacerda. A reforma das leis processuais. Revista da ESMAFE. 5 Região, n. 10, dez. 2006, p. 141-142.
PETROLATI, Franco. I tempi del processo e l´equa riparazione per la durata non ragionevole (la c.d. “legge Pinto”). Milano: Giuffrè,
2005, p. 88.
349
PASTOR, Daniel R. op. cit. p. 356.
350
PIRES, Renato Barth. A reforma do poder judiciário e o direito à “razoável duração do processo”. Revista TRF 3 Região, v. 62, nov./dez.
2003, p. 27.
351
NICOLITT, André Luiz. op. cit.. p. 31.
120

lapso temporal foi devidamente utilizado352, estando o conceito de duração razoável a


depender da análise de cada caso concreto, em razão de suas peculiaridades. Não podendo o
legislador substituir a figura do juiz que está mais próximo da realidade das especificações de
cada caso. Desta forma, o não cumprimento dos prazos legais não caracterizaria uma violação
ao direito fundamental, mas a razoabilidade deve ser alcançada na observação e análise das
especificidades do caso concreto, relacionada com a circunstância causadora do retardamento
processual.
Em sintonia a esse raciocínio, Olmeda353 revela que a resolução com relação à
determinação do conceito de razoável duração do processo, não estaria na concepção de
prazos máximos, em razão deste conceito depender de cada caso concreto, sendo inviável se
estipular um prazo padrão, pois las circunstancias pueden ser tan diversas que impidan fijar
el tiempo correcto, além do que a fixação do prazo máximo, pode acarretar em transgressões
aos direitos da defesa, em face da sua não produção dentro do limite do prazo máximo pré-
fixado. Nesse sentido aponta Nicolitt354 acerca da dificuldade do estabelecimento de prazos
máximos de duração do processo, pois afirma que o “exame da razoabilidade é concreto e não
abstrato”.
Partindo dessa ideia de que é indeterminado e aberto o conceito de “razoável
duração”, defende ainda Nicolitt355 que tal definição passa a depender de diversos critérios
como a complexidade da causa, a atuação das autoridades judiciais e das partes envolvidas,
bem como a conjuntura na qual se desenvolveu o processo, critérios esses já analisados em
capítulo anterior.
Nessa linha de argumentação afirma Belo356 que “a prestação da justiça em tempo
hábil não possui uma dimensão temporal delimitada, justamente por envolver casos concretos,
há que se mensurar, sempre, a celeridade processual com as demais garantias do due process
of Law”.
Nessa linha argumentativa Bartolome357 assegura que:

Sin embargo, sería absurdo estabelecer plazos fijos según los tipos de
procedimiento, la solución aparentemente más obvia. Un plazo concreto podría
resultar antitético con la finalidad misma de resolver en justicia con la prudencia y
reflexión necesarias que requiere todo estudio.

352
Ibid, p. 26.
353
OLMEDA, Araceli Manjón-Cabeza. La atenuante analógica de dilaciones indebidas: analogia e interpretación El derecho a un proceso
sin dilaciones indebidas. Madrid: Difusión, 2007. p. 102-103.
354
NICOLITT, André Luiz. A duração razoável do processo. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2006. p. 26.
355
NICOLITT, André Luiz. A duração razoável do processo. Curitiba: Juruá, 2008. p. 15.
356
BELO, Duína Porto. A razoável duração do processo como instrumento de acesso à justiça. Revista Direito e Desenvolvimento, a. 1, n.
2, p. 55-68, jul./dez. 2010. p. 62.
357
BARTOLOME, Plácido Fernandez-Viagas. op. cit. p. 77.
121

Em contrapartida, há os que defendem o posicionamento de um prazo fixo358,


limitando o tempo de tramitação do processo, pois, embora o legislador constituinte pátrio
tenha se limitado a anunciar pela Emenda Constitucional n° 45/04, no texto da Constituição
Federal de 1988, o inciso LXXXVIII no art. 5°, estabelecendo o direito fundamental à
razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação, na
prática tal dispositivo não fez surgir resultados concretos e transformadores da realidade,
restando, pois, concluir que estamos diante de uma norma sem eficácia e aplicabilidade.
Foi elaborada na Constituição Federal a concepção de tempo razoável, em razão
de um direito de obter-se do poder jurisdicional uma solução, por intermédio de prazos legais,
que fossem proporcionais e apropriados à complexidade e segurança jurídica do processo.
Contudo, esse direito fundamental, está expresso na Constituição de forma imprecisa e
lacunosa, acarretando expressiva margem para sua interpretação, aproveitamento, alcance e
aplicabilidade.
Diante dessa situação, é fácil constatar a necessária atuação do legislador
infraconstitucional que, com base nos princípios da razoabilidade e proporcionalidade,
expresse de forma objetiva e clara o que vem a ser “duração razoável”, a fim de que a
jurisprudência caminhe no rumo certo ao encontro de uma maior efetividade à aplicabilidade
deste direito fundamental expresso na Constituição Federal. Posto que este direito
fundamental estabelece a especificação de regramento limitativo que impede que o processo
ultrapasse o marco do razoável, devendo ser estabelecido previamente por lei, em razão do
princípio da segurança jurídica.
Em razão desta absoluta indeterminação e impropriedade conceitual do que venha
a ser razoável duração do processo, e por não existir no ordenamento jurídico pátrio a fixação
de critérios objetivos aptos a avaliar cada caso concreto, a aplicação, o conteúdo e a
abrangência do direito fundamental à razoável duração do processo, a jurisprudência pátria
seguiu as pegadas da jurisprudência do Tribunal Europeu de Direitos Humanos e da Corte
Interamericana de Direitos Humanos, adotando certos critérios acerca da valoração do que
vem a ser “duração indevida”. São eles: a) a complexidade do caso; b) a atividade processual
do imputado e c) a conduta das autoridades judiciárias.

358
LOPES JÚNIOR, Aury. BADARÓ, Gustavo Henrique Righi Ivahy. Direito ao processo Penal no prazo razoável. .2ª ed. Rio de Janeiro:
Lumen Juris, 2009. PASTOR, Daniel R. El Plazo razonable en el proceso del estado de derecho. Buenos Aires: Editorial Ad Hoc, 2009.
122

Esses critérios têm sido insistentemente adotados nas cortes pátrias para definir se
a dilação do processo é devida ou injustificável, partindo de uma discricionariedade conferida
ao Poder Judiciário com a intenção de estabelecer alcances e critérios de formulação de uma
definição de tempo razoável do processo. Não havendo que se falar em estabelecimento de
prazos fixos e ou determinados, posto ser esse prazo variável de processo para processo.
Senão veja-se, in verbis:

EMENTA: HABEAS CORPUS. PROCESSUAL PENAL. HOMICÍDIO


QUALIFICADO TENTADO. EXCESSO DE PRAZO PARA A FORMAÇÃO DA
CULPA. CARACTERIZAÇÃO. SITUAÇÃO INCOMPATÍVEL COM O
PRINCÍPIO DA RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO (CF, ART. 5º,
LXXVIII). CONSTRANGIMENTO ILEGAL CONFIGURADO.
FUNDAMENTOS DA PREVENTIVA. AUSÊNCIA DE INDÍCIOS DE
AUTORIA. NULIDADE DO AUTO DE RECONHECIMENTO. MATÉRIAS
NÃO SUSCITADAS NO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. SUPRESSÃO
DE INSTÂNCIA. HABEAS CORPUS PARCIALMENTE CONHECIDO E
CONCEDIDO. 1. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é firme no sentido
de que a demora para conclusão da instrução criminal, como circunstância apta a
ensejar constrangimento ilegal, somente se dá em hipóteses excepcionais, nas quais
a mora seja decorrência de (a) evidente desídia do órgão judicial; (b) exclusiva
atuação da parte acusadora; (c) situação incompatível com o princípio da razoável
duração do processo, previsto no art. 5º, LXXVIII, da CF/88. Precedentes. No caso,
o paciente está preso a mais de três anos, cuja demora não pode ser imputada à
defesa. Constrangimento ilegal caracterizado. 2. Ademais, considerando (a) a
eventual pena a ser imposta na condenação pela prática do crime de tentativa de
homicídio; (b) o período de duração da prisão cautelar; e (c) o disposto no art. 387, §
2º, do CPP, segundo o qual o juiz, ao proferir sentença condenatória, levará em
consideração “o tempo de prisão provisória ( ), para fins de determinação do regime
inicial de pena privativa de liberdade”, a manutenção da custódia preventiva revela-
se medida cautelar desproporcional. 3. As questões relativas aos fundamentos do
decreto de prisão cautelar, à ausência de indícios suficientes de autoria e à nulidade
do auto de reconhecimento não foram objeto de impugnação no Superior Tribunal
de Justiça. Desse modo, qualquer juízo desta Corte sobre as matérias implicaria
indevida dupla supressão de instância e contrariedade à repartição constitucional de
competências. Precedentes. 4. Habeas corpus parcialmente conhecido e concedido,
para que o paciente seja posto em liberdade, se por al não estiver preso, com a
ressalva de que fica o juízo competente autorizado a impor, considerando as
circunstâncias de fato e as condições pessoais do paciente, quaisquer das medidas
diversas da prisão previstas no art. 319 do Código de Processo Penal. (STF - HC:
120377 ES, Relator: Min. TEORI ZAVASCKI, Data de Julgamento: 13-05-2014,
Segunda Turma, Data de Publicação: DJe-102 DIVULG 28-05-2014 PUBLIC 29-
05-2014). (grifado).

EMENTA: HABEAS CORPUS. CRIME DE HOMICÍDIO. PRISÃO


PREVENTIVA. PACIENTE SEGREGADO HÁ MAIS DE 03 (TRÊS) ANOS SEM
CONCLUSÃO DA INSTRUÇÃO CRIMINAL. PRINCÍPIOS DA CELERIDADE E
DA RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO. EXCESSO DE PRAZO NA
FORMAÇÃO DA CULPA IMPUTADO AO PODER JUDICIÁRIO.
CONSTRANGIMENTO ILEGAL CONFIGURADO. CONCESSÃO DO WRIT. 1.
O paciente encontra-se recolhido há mais de 3 (três) anos e a ação penal ainda não
foi concluída, não tendo contribuído para mora processual e nem havendo previsão
para o seu término. 2. Compartilho entendimento de que os prazos processuais não
são peremptórios, fatais, admitindo dilação diante da complexidade do feito. 3. No
presente caso não comporta tal plus, eis que não existe justificativa para a demora na
123

tramitação da ação penal, posto que se trata de um feito que envolve apenas um réu e
a instrução criminal ainda não terminou, não se podendo cogitar de feito complexo
e, ainda que o fosse, não seria razoável a dilação do prazo para mais de 3 (três) anos,
que se deu por culpa da própria Justiça, sobretudo porque após o advento da EC
n.º 45/2004, foi assegurado a todos, no âmbito administrativo e judicial, o direito
fundamental à celeridade e à razoável duração do processo, medidas também
adotadas quando da reforma processual penal introduzida pela Lei n.º 11.719/2008.
4. Ressalte-se que a defesa não deu causa ao excesso de prazo na conclusão da
instrução criminal, cuja responsabilidade é atribuída ao aparato da justiça. 5.
Caracterizado está o constrangimento ilegal por excesso de prazo, eis que sua prisão
ofende aos princípios constitucionais da celeridade e da razoável duração do
processo, por consequência, manter o paciente segregado é antecipar pena sem
condenação. 6. Ordem concedida. Decisão unânime. (TJ/PI, HC 2012.0001.004579-
4, Relator(a): Des. Joaquim Dias de Santana Filho, 2ª Câmara Especializada
Criminal), julgado em 28-8-2012. (grifado)

EMENTA: HABEAS CORPUS. EXCESSO DE PRAZO. INSTRUÇÃO


ENCERRADA. SÚMULA 52 DO STJ. FEITO COMPLEXO. RAZOABILIDADE.
ORDEM DENEGADA. 1. A data prevista para a conclusão do procedimento já foi
em muito superada, e, não havendo o impetrante noticiado qualquer fato novo,
chega-se à inelutável conclusão de que a instrução processual já chegou ao fim,
ensejando a incidência da Súmula 52 do STJ. 2. O processo ao qual responde o
paciente reveste-se de certa complexidade, porquanto se trata de ação penal
instaurada contra mais de um réu, com várias testemunhas arroladas por ambas as
partes, com a necessidade de expedição de carta precatória e realização de perícia,
de forma que a demora verificada no encerramento da instrução se afigura razoável,
sendo inapta a configurar violação ao direito de locomoção e ao princípio da
duração razoável do processo. 3. Ordem denegada. (TJ/PI, HC 2010.0001.000722-
0, Relator(a): Des. Erivan José da Silva Lopes, 2ª Câmara Especializada Criminal,
julgado em 15-3-2010). (grifado).

Como já foi observado no segundo capítulo desta dissertação, seguindo a


jurisprudência do Tribunal Europeu de Direitos Humanos e da Corte Interamericana de
Direitos Humanos359, tendo como fundamento a adoção dos critérios acima elencados,
instituiu-se uma verificação discricionária do julgador no caso concreto, posto que o tempo
razoável do processo não pode ser fixado com uma precisão absoluta, e nem sendo possível
precisar o seu apropriado sentido, sendo necessário analisar as circunstâncias de cada caso
concreto com as suas devidas peculiaridades.
No mesmo sentindo é o entendimento de Annoni360:

Não coincidentemente, os critérios adotados pela Corte Interamericana de Direitos


Humanos são os mesmos adotados pelo Tribunal Europeu, quais sejam: a
complexidade do caso, a conduta das partes e a conduta da autoridade competente
que apreciou o caso na ordem interna.
Isso se deve a um simples fato: a experiência do Tribunal Europeu de Direitos
Humanos, que herdou a jurisprudência da Corte Européia de Direitos Humanos e da
extinta Comissão Européia de Direitos Humanos.

359
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos decidiu que os critérios para determinar, no caso concreto, o prazo razoável de duração
do processo são: a) a complexidade do caso; b) atividade processual do interessado; e, c) a conduta das autoridades judiciais (Relatório nº.
111/01, caso 11.517, Dinis Bento da Silva (Brasil), de 15 de outubro de 2001.
360
ANNONI, Danielle. op. cit. p. 156.
124

Mas, diante da vagueza e da indeterminação do que seja tempo razoável de


duração do processo, Lopes Jr. e Badaró361 abordam esta temática questionando como tratar de
um direito a ser julgado em um tempo razoável, se este mesmo direito jamais foi
quantificado? Ou seja, a aplicação desses critérios na sistemática da teoria do não prazo, é
uma verdadeira manifestação do arbítrio do julgador, que segundo seu senso de
discricionariedade irá avaliar no caso concreto se as circunstâncias justificam dizer se o tempo
de duração do processo é dessarazoado ou não.
Prosseguem os citados doutrinadores afirmando que:

a) cada país de acordo com suas especificidades deve estabelecer um marco


normativo interno que fixe o tempo máximo de prisão cautelar e de duração do
processo. Os prazos devem ter como referencial o prazo fixado pela Corte
Americana de Direitos Humanos, o que implica no abandono, por parte dos tribunais
da Doutrina do Não-Prazo362.

Em consonância com este entendimento a doutrina363 assevera que a necessidade


da fixação de um prazo limite de duração dos processos, se sustenta com base em três
argumentos centrais, são eles: primeiro, a de que “a fixação de prazo é consequência do
princípio da legalidade; segundo, “a não fixação deixa uma margem de grande arbitrariedade
ao juiz” e, terceiro, de que “é uma exigência do Estado Democrático de Direito”.
Em sintonia com este entendimento Lopes Jr364 ensina que:

Assim como o Direito Penal está estritamente limitado pelo princípio da legalidade e
o procedimento pelas diversas normas que o regulam, também a duração dos
processos deve ser objeto de regulamentação normativa e bem definida.
Na falta de bom senso por parte dos responsáveis em reconduzir o tempo ao sujeito,
devemos partir para uma definição normativa do tempo máximo de duração do
processo (...)

Contudo, vale destacar que nem mesmo o legislativo vem assumindo a sua
obrigação de estabelecer limites temporais precisos para a duração do processo penal, que
respondessem a indicação nuclear da obrigação internacional e da própria Constituição pátria,
de que o processo fosse realizado dentro de um prazo razoável, nem o Poder Judiciário vem
demandando do Poder Legislativo o adimplemento desta dívida do direito internacional dos
direitos humanos (mas também do direito constitucional interno). Pelo contrário, não existem
361
LOPES JUNIOR, Aury.; Gustavo Henrique Righi Ivahy Badaró. op. cit. p. 41.
362
Ibid, p. 133-134.
363
NICOLITT, André Luiz. op. cit. p. 26.
364
LOPES JUNIOR, Aury. Introdução crítica ao processo penal (fundamentos da instrumentalidade garantista). 4ª ed. Rio de Janeiro:
Lumen Juris, 2006. p. 117.
125

muitas iniciativas que queiram expressar legalmente e de forma precisa o significado e o


alcance do prazo razoável, tendo a jurisprudência, ainda não se pronunciado, contra essa
omissão legislativa, o que é preocupante365.
Não existem razões para deixar à mercê de critérios discricionários, diante da
análise e interpretação do caso concreto, sempre abertos e vagos, circunstâncias tão decisivas
para a vigência real dos direitos individuais, como sua eficácia temporária, que além disso,
podem e devem ser descritas com segurança e precisão. O Estado, assim, é obrigado a dotar
de sentido, através de sua legislação interna, um direito fundamental que de outra forma
ficaria vazio de conteúdo e sem sentido a sua mera existência no ordenamento. Não é possível
iludir esta obrigação sob o pretexto das dificuldades que apresenta a adversidade de variáveis
de cada caso para traduzir o prazo razoável abstrato dos catálogos fundamentais num prazo
concreto da legislação secundária. A omissão de concretizá-lo é devida, exclusivamente, à
vontade dos juízes de manter no poder a decisão tanto da fixação da estipulação da duração do
processo no caso concreto, quanto do reconhecimento da consequência jurídica aplicável em
caso de violação. Esta situação, além da arbitrariedade evidente, que por definição representa,
estimulou o surgimento da insegurança mais absoluta na tarefa de constatar se um processo
concreto alcançou ou não seu prazo máximo de duração razoável e permitiu o estabelecimento
das mais variadas consequências para o caso de uma resposta afirmativa366.
Os tribunais aceitaram com comodidade o âmbito que ilegitimamente vem
ocupando, em razão da omissão do legislador, na determinação da duração razoável do
procedimento e suas consequências. Esta atitude é compreensível já que se trata de um prazo
que põe fim ou limita os seus poderes, originando o começo de suas responsabilidades. De
certa forma, se é possível a comparação, seria permitir que o próprio acusado estabelecesse a
duração da sua pena, ou que pelo menos avaliasse se a pena que está cumprindo já é suficiente
para o seu caso. Isto é a manifestação autêntica da ilegitimidade, mas ainda não chega a ser
absurdo. Absurdo mesmo é que os tribunais chamem para si essa missão, e depois estendam a
arbitrariedade até o extremo de não determinar o prazo cuja fixação se atribuem, de tal forma
que chegaram a resolver, segundo os casos que o prazo não tinha sido ultrapassado, sem dizer
qual é o prazo. É difícil pensar um caso de maior arbitrariedade judiciária, a incerteza é total e
isso rege para todas as partes envolvidas. A primeira conclusão que pode se extrair
dogmaticamente do direito de todo acusado a ser julgado com celeridade, é a necessidade de
que a legislação ordinária, conforme os ditames constitucionais, estabeleça com exatidão o

365
PASTOR, Daniel R. op. cit. p. 355.
366
Idem, p. 362-363.
126

prazo máximo de duração do processo penal. Ou seja, é a lei, e não a jurisprudência, que
segundo a nossa ordem jurídica interna deve regulamentar o prazo razoável de duração do
ajuizamento penal do direito internacional dos direitos humanos 367.
Destarte, a existência da garantia do julgamento rápido constitui uma obrigação
para os Estados de dupla natureza: negativa, quando os impede de realizar processos penais
cuja duração supere o prazo razoável, mas também uma obrigação positiva, uma vez que os
obriga a regular por lei esse prazo razoável368.
Deste modo, mostra-se imprescindível a atuação do legislador infraconstitucional,
a fim de que sejam definidos parâmetros objetivos norteadores da razoabilidade na tarefa de
dirimir o retardamento processual.
Nessa linha argumentativa, afirma Fernandes369 que: “a primeira e natural
exigência é a de que haja prazo fixado na lei e, assim, não havendo determinação específica
do prazo, deve o diploma legislativo prever um prazo genérico aplicável aos casos omissos”.
Assevera, ainda, o autor que “não é qualquer prazo, mas um prazo condizente com a
necessidade da atividade a ser realizada”.
O legislador constitucional ao não fixar um marco regulatório sobre o tempo do
processo, permitiu a formação de várias interpretações do que venha a ser um prazo razoável
para o término do processo, não determinando os instrumentos que devam ser empregados em
caso desse termo ser estendido desarrazoadamente. Segundo a censura de Hoffman370:

É lamentável constatar que, sem antes tomar medidas de ordem prática e sem que
nada na ineficiente estrutura e nas condições do Poder Judiciário fosse alterado, a
EC 45 simplesmente acresceu o parágrafo LXXVIII ao artigo 5º da Constituição
Federal, para garantir o direito constitucional da razoável duração do processo no
sistema brasileiro. Infelizmente, o simples acréscimo da Constituição Federal não
modificará em nada a duração do processo. Trata-se, por ora, somente de mais uma
garantia constitucional vazia.

Parte-se da concepção de que o mero acréscimo na Constituição de tal direito, não


o torna eficaz, em razão da não fixação de prazo para o término da relação processual,
permitindo a existência de um vazio processual, o qual necessita de disciplinamento de cunho
legal, pois o que não se pode admitir é estar sujeito às intempéries da instrução criminal por
um tempo indeterminado, à mercê da apreciação da discricionariedade e de subjetivismo do
julgador sobre o que vem a ser tempo razoável.

367
Ibidem, p. 350 e 364.
368
Ibidem, p. 355.
369
FERNANDES, Antônio Scarance. Processo Penal Constitucional. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002, p. 116-120.
370
HOFFMAN, Paulo. op. cit. p. 97-98.
127

As obrigações emanadas de Convenções internacionais que atribuem aos Estados


membros a missão de estabelecer por lei os prazos de duração do procedimento, não podem,
porém, ser interpretadas no sentido de que enquanto não fizerem a garantia em questão, não
terá aplicação. Apesar do afirmado neste ponto, enquanto a regulação legal desses prazos não
se materializar, serão os juízes que deverão, na verdadeira emergência e na falta de regulação
legal, dar eficiência à garantia nos casos concretos – embora isso não deixe de ser, via de
regra, incorreto -, posto que da forma como se vem praticando universalmente, viola o
princípio da divisão de poderes, uma vez que as regras do procedimento devem ser
determinadas pelo legislador e não pelos juízes, uma vez que o juiz viraria um legislador se
tivesse que decidir sobre o tempo necessário para provar o delito, a não ser que o façam em
favor da vigência desse direito e não de sua eliminação prática, como já faz a jurisprudência
dominante371.
Para que o Estado de Direito funcione plenamente, em matéria penal, é preciso
que em cada caso concreto se impute um delito estabelecido previamente como tal pela lei, de
forma que se permita conhecer em qual conduta consiste, qual pena está prevista por cometer
este delito, mas também, quanto tempo pode durar no máximo seu ajuizamento e o que
acontecerá caso o processo não conclua no prazo previamente estabelecido. Este é um dos
objetivos primordiais do princípio da reserva legal que rege a matéria analisada. Contudo, a
função dos juízes no Estado de Direito é reconhecer as normas e conhecer os fatos aos quais
elas serão aplicadas, isso resulta aplicação não somente nas proibições penais (normas de
dever), mas também nas regras que dispõem garantias processuais. Isto, em relação à garantia
do julgamento rápido, reconduz ao dever dos juízes reconhecer o prazo legal razoável de
duração do procedimento e suas consequências e verificar se no caso concreto foi
ultrapassado, para aplicar as consequencias previstas pela lei. Toda criação judiciária do prazo
ou das consequências é ilegítima, desde o ponto de vista do Estado de Direito, por se tratar de
uma aplicação constitutiva do direito proibido por este sistema político372.
Isto significa que, para a vigência plena do princípio do Estado de Direito, é
preciso que tanto os pressupostos substantivos da pena quanto os processuais estejam
determinados categoricamente pela lei. Hoje resultaria repugnante, no marco dos países cujos
habitantes vivem ao abrigo do direito internacional dos direitos humanos, que os tribunais
pudessem definir jurisprudencialmente as ações puníveis, o tipo e a extensão da pena
aplicável a elas. Isso também aconteceria se os juízes pudessem decidir livremente sobre

371
PASTOR, Daniel R. op. cit. p. 365 e 400.
372
Idem, p. 370.
128

quais condições usar medidas de coerção processual por resultar violatória do princípio nulla
coactio sine lege. Portanto, não há razões jurídicas e nem políticas para pensar que o fato de
deixar aos tribunais a determinação dos limites de duração do processo possa ser tolerável
num Estado de Direito373.
Em posição adversa ao acima abordado, Nicolitt374 realiza ponderações sobre a
temática ao afirmar que:

O argumento do Estado de Direito acaba por remeter a seguinte questão: quem está
melhor habilitado para definir a razoabilidade da duração do processo? Ou ainda,
quem é mais confiável para decidir sobre isto, o legislador ou o Juiz? A tônica da
legislação de emergência no Brasil tem sido a preocupação com a celeridade em
detrimento das garantias. (...) Diante da impossibilidade do legislador regular todas
as situações emergentes, mormente nas sociedades atuais, por vezes se deixa
margem para decisões, seja pelo administrador, seja pelo Judiciário na análise de
caso concreto. Isto é perfeitamente compatível com o princípio da legalidade.

A exigência do caráter prévio da regulação legal corresponde à obrigação do


Estado de exercer seu poder, especialmente, o mais grave o penal, do modo mais previsível
possível para os afetados. Se sobre todos os habitantes pesa o dever de tolerar as investigações
penais do Estado, a abrangência também necessariamente temporária desse dever excepcional
para quem vive na democracia deve ser conhecida de antemão. A incerteza tem sido
reconhecida sem exceções como um dos componentes do mal representado pelo processo
penal. A sua característica mortificante a converte, de um lado, em razão de que o processo
deva ter limites que ponham fim a incerteza, mas também indica a necessidade de diminuir
seu impacto com o estabelecimento antecipado desses limites. Nisto deve se argumentar
novamente com a semelhança entre pena e processo, uma vez que ambos constituem coerção
estatal, isto é, a disposição de intervenções graves nos direitos fundamentais das pessoas375.
O princípio basilar da legalidade, não pode ser eficazmente entendido, sem incluir
o mandado de predeterminação pelo legislador, não só da ação punível, mas também do tipo
da medida máxima e mínima da pena para cada delito. Se a coerção estatal penal deve estar
assim limitada por este princípio de modo a excluir também a arbitrariedade da incerteza
sobre a duração do processo, a coerção estatal que se ocasiona com o processo não escapa a
esse mandado constitucional, embora não cumpra a função de orientar as condutas futuras do
cidadão: o Estado deve possibilitar a conhecer com precisão o alcance de seus poderes, a

373
Ibidem, p. 371-372.
374
NICOLITT, André. op. cit. p. 41.
375
PASTOR, Daniel R. op. cit. p. 387-388.
129

extensão máxima da afetação dos direitos individuais, o período dentro do qual tem-se
autoimposto na determinação da restrição da liberdade que supõe o processo376.
Todavia, essa não é a opinião dominante na interpretação do prazo razoável de
duração do processo, segundo a qual, o processo razoável não deve ser estipulado pela lei.
Esta posição é inaceitável desde o ponto de vista de um Estado de Direito onde os limites das
intervenções dos direitos fundamentais são estipulados na lei com toda a precisão como
condição de sua legitimidade e onde, como no caso do direito a um prazo razoável as
limitações ao poder penal do Estado, em abstrato, são limitações ao poder concreto dos juízes,
por isso mal poderiam ser eles os encarregados de ditá-las. Só a lei garante o
autosubmetimento do Estado ao Direito377.
Em posição contrária ao aludido acima, Nicolitt378 pontua que:

Mesmo no Estado Democrático de Direito certas decisões ligadas aos direitos


fundamentais são entregues ao Juiz e não ao legislador. Isto porque, enquanto o
Legislativo tem legitimidade por eleição direta e rege-se por critérios de maioria, o
Juiz exerce sua legitimidade pela necessidade de também tutelar e proteger a
minoria em uma democracia, legitimando-se pelo “saber” que deve expressar-se na
motivação.

Contudo, a estrutura do procedimento, imposta pela ordem constitucional, contém


uma mensagem clara que deve presidir toda a interpretação dos problemas processuais: as
regras do procedimento constituem limites para o exercício do poder penal do Estado por
parte das autoridades encarregadas da perseguição penal. E estes limites só podem ser
realmente tais, desde que estejam fixados de forma geral e externa aos limitados. O prazo
razoável de duração do processo penal é um exemplo claro de um desses limites e, portanto,
nada seria mais contraditório que permitir aos juízes fixá-lo ou derrogá-lo. Se o fizessem,
estariam violando também o princípio da divisão dos poderes segundo o qual, claramente,
todo o disciplinamento acerca do processo penal é competência exclusiva do poder
legislativo379.
Em contestação ao acima explicitado Nicolitt380 questiona que:
Porque o legislativo estaria mais habilitado que o juiz para decidir sobre a duração
razoável do processo? Que nossa cultura é autoritária e os Juízes como participantes
de uma sociedade também o são e por vezes se afastam de sua missão de guardiões
das garantias fundamentais atuando como violadores destas ninguém tem dúvida.
Todavia, o Legislativo não será tão ou mais autoritário como não raras vezes o

376
Idem, p. 388.
377
Ibidem, p. 389.
378
NICOLITT, André. op. cit. p. 40-41.
379
PASTOR, Daniel R. op. cit. p. 400.
380
NICOLITT, André. op. cit. p. 40-41.
130

Judiciário o é? Constitucionalmente não é o juiz que tem a função de guardião dos


direitos fundamentais (embora ocorra que por vezes se olvida disto)?

No mais, a legitimidade do processo em sua totalidade fica em questão diante da


falta de um conhecimento prévio e seguro, que somente a lei pode outorgar, sobre o
significado preciso do prazo razoável de sua duração. Ainda mais, com um certo rigorismo na
argumentação, poder-se-ia afirmar que a única solução para o problema seria legislar prazos
para a duração do processo e que, até então, todos os processos sem prazos sejam
considerados ilegítimos, de tal maneira que mesmo que os juízes quisessem determinar os
prazos, não poderiam, pois não teriam caso (processo legítimo) para fazê-lo.
Contudo, se for correto à semelhança da exigência de previsibilidade (que só dá
por determinação legal) das condutas proibidas e das penas com a exigência de previsibilidade
(que só dá a determinação legal) das formas e a duração do processo, então, assim como sem
lei não há delito e nem pena, tampouco pode haver processo se não se determinar por lei
previamente a sua duração. Mas uma vez este rigor acarretaria a supressão de todo o processo
até que se legislassem os seus limites temporários e que isto visto com realismo não seria
aceito na prática, cabe a esta investigação que pretende transcender o âmbito meramente
especulativo e ter alguma incidência na práxis – propor alguma saída aos processos que são
realizados de todo o modo sem limite de duração fixado legislativamente381.
Os prejuízos que produz o processo penal nos direitos fundamentais do imputado
e que justificam a necessidade jurídica de que todo o processo, até mesmo incluindo os seus
limites temporários esteja fixado por lei, de tal forma que a autorização jurídica que recebe o
estado para usar seu poder penal, fique perfeitamente delimitada para que assim possam se
distinguir com segurança os momentos em que é legítimo ou ilegítimo o seu exercício
restritivo de direitos fundamentais, dentre estas afetações devem-se mencionar as
consequências382.
A segurança jurídica cuja obtenção é também um imperativo central do princípio
do Estado de Direito, exige que as ações estatais, sobretudo, as que intervêm nos direitos
básicos, devam ser consideradas medidas calculáveis e previsíveis para os cidadãos. Um dos
males que acarreta a excessiva duração do processo é o submetimento do imputado na
incerteza de seu destino, com o qual se afeta a segurança jurídica, valor entendido de
importância relevante para o Estado de Direito383.

381
PASTOR, Daniel R. op. cit. p. 372.
382
Idem, p. 385.
383
Ibidem, p.387.
131

Nesses caos, os juízes só poderão estabelecer o prazo provisoriamente e


reconhecendo a falta do legislador e sua própria atuação usurpante, e só em benefício do
imputado, sem criar prazos e nem consequências jurídicas, e sim os reconhecendo em âmbitos
análogos da lei positiva, como é o caso da Lei das Organizações Criminosas (Lei 12.850/13)
que será analisado adiante384.
Mas o que não é jurídico e politicamente aceitável é que possa estar nas mãos do
arbítrio do judiciário a determinação daqueles pressupostos da efetiva vigência dos direitos
individuais que devem ser determinados pela lei. Este é o caso do tema em pauta. Assim
como alguma vez já não resultou suportável a ideia de que a prudência dos juízes
estabelecesse a pena dos condenados sem sujeição a prazos ou marcos determinados
externamente, agora resulta inconcebível a noção de que os tribunais possam determinar em
seus acórdãos se um prazo, que não se conhece foi transpassado ou não e quais são as
consequências caso isso tenha realmente acontecido. Seguramente não foi tarefa simples
determinar legalmente in abstrato um marco punitivo para cada figura penal, mas foi
necessário e inevitável. O mesmo vale para o prazo de duração do processo penal, se é que
honestamente se quer respeitar o sistema político da sociedade civilizada385.
Retoma a discussão o autor Nicolitt386 ponderando que “Se o tempo é relativo e
subjetivo, quem teria melhor condição de aferi-lo para o processo? O legislador, que deve
atuar de forma genérica e abstrata ou o Juiz que atua no caso concreto?”
Entretanto, no direito processual penal é a lei a única fonte das suas normas. Desta
forma o prazo razoável deve ser determinado pela lei, e não pelos tribunais, já que para a
ordem jurídica-política brasileira resulta inaceitável o direito judiciário e até mesmo
intolerável no caso de decisões contra legem. No sistema jurídico pátrio só as regras criadas
formalmente pelo legislador, de conformidade com a Constituição, permitem fundar
corretamente a atuação das autoridades predispostas para a aplicação da lei penal. Isto tem
grande relevância no problema central deste estudo, pois a incerteza é um dos males que
afetam os direitos do imputado durante o processo penal e é essa incerteza, precisamente, que
deve ser limitada pelo prazo máximo de duração do processo penal como direito
fundamental387.
Não só a estrutura do Estado de Direito em si que exige a determinação por lei dos
limites temporários da sua perseguição penal; o processo tanto por definição (o devido

384
Ibidem, p. 373.
385
Ibidem, p. 373.
386
NICOLITT, André. op. cit. p. 43.
387
PASTOR, Daniel R. op. cit. p. 373.
132

processo legal) quanto por se tratar de um conjunto de medidas de coerção estatal, tem que
estar autorizado e delimitado pela lei com toda precisão como condição para sua validez388.
Nesse sentido, Casara e Vassal389 revelam que:

O dever legal de se fixar por lei o prazo de duração razoável da relação jurídica
deriva da própria natureza do Estado Democrático de Direito. Assim, somente após
a manifestação dos representantes do povo, e em obediência aos princípios da
legalidade e do devido processo legal, se estará dando integral cumprimento ao
estabelecido no diploma de direitos humanos.

Esta exigência de legalidade do procedimento penal (nulla poena sine processu


legali) se conhece como legalismo processual no sentido de que a lei deve regular todos os
atos do procedimento. Se isto é realmente assim, parece já difícil que algum aspecto
transcendental do processo, como os limites temporários a seu exercício, pudesse ficar fora da
regulação legal. Se o processo é um conjunto de atos, a ideia do processo legal está dizendo
que a lei deve estabelecer cada um desses atos. E já que os atos processuais têm como
elementos o modo, tempo e forma como devem ser realizados, o quadro fica perfeitamente
fechado, a lei deve determinar esse modo, essa forma, mas também esse tempo. Ou seja, o
processo como tal deve estar regulado na lei em todos os seus alcances o que inclui os seus
limites temporários390.
Em contrapartida Nicolitt391 assevera que :

Mesmo no direito penal, em que temos a legalidade máxima, há espaços em que tal
fenômeno ocorre. Com efeito, embora o legislador tenha tipificado condutas e
estabelecido penas, deixou ao Judiciário a sua fixação no caso concreto, bem como a
definição do regime de cumprimento. (...) Certas situações devem ser aferidas pelo
Juiz no caso concreto por absoluta impossibilidade de o legislador fazê-lo com êxito.

Em contrapartida, a coerção estatal como intervenção a direitos e liberdades


fundamentais reconhecidos pela ordem jurídica se exerce principalmente através da pena, mas
também o processo penal é, por definição, coerção estatal. A característica comum de todas as
intervenções processuais na esfera dos direitos básicos dos indivíduos é necessidade de que
tais atividades processuais estejam previamente estabelecidas e reguladas pela lei em toda a
sua extensão e com toda precisão. As medidas de coerção processual representam uma grave

388
Idem. p. 375.
389
CASARA, Rubens.; VASSAL, Mylène G. P. O ônus do tempo no processo: uma abordagem à luz do devido processo legal
interamericano. Radicalização Democrática – Revista do Movimento da Magistratura Fluminense pela Democracia. n. 1. Rio de Janeiro:
Lumen Juris, 2004. p. 127-128.
390
PASTOR, Daniel R. op. cit. p. 375-376.
391
NICOLITT, André. op. cit. p. 42.
133

afetação dos direitos fundamentais e, especialmente, do direito à liberdade pessoal. Por isso, é
a alma do Estado Constitucional e democrático de Direito que exige que este tipo de
desrespeitos aos direitos básicos sejam autorizados previamente pela lei. Isto, que como
princípio é considerado inegável e indiscutível, tem sido tradicionalmente diluído e não
esclarecido nas aplicações concretas392.
O ajuizamento penal envolve uma inegável restrição da liberdade do imputado.
Carece de todo o sentido supor que as distintas medidas do procedimento e cada uma delas
devem ser regidas pelo princípio nulla coatio e não extrair, também, a mesma conclusão para
o processo em seu conjunto, já que a existência do processo é pressuposto de cada uma das
suas medidas e se elas requerem a fixação por lei de seus alcances, requisitos, então também
os alcances do processo devem estar fixados legislativamente.
As medidas concretas de coerção supõem como pressuposto de validez o fato de
ser tomadas num processo desde que seja integralmente predeterminado pela lei, por esta
razão que se chama de processo legal ou devido processo legal, esta legalidade ou
legitimidade do processo, abarca também os limites temporários de sua validez e, uma vez
ultrapassados desaparece a legitimação do julgamento e com ela a de cada uma de suas
medidas, como também acontece quando são ultrapassados outros dos seus limites, por
exemplo, a competência do juiz. Deste modo, afirma-se uma relação reciprocamente dialética,
entre lei penal, processo e medida de coerção processual, segundo a qual um término supõe ao
outro e todos devem ser determinados legislativamente com os alcances próprios dos seus
princípios nullun crimen y nulla coatio (não há coerção sem processo determinado pela lei e
não há processo sem lei que predetermine o fato como delito)393.
Portanto, se o processo em si, é um ato de coerção, ou então, é um conjunto de
atos de coerção, ou de atos, cuja a realização é assegurada por medidas de coerção que sempre
intervêm nos direitos fundamentais das pessoas, então sua duração deve ser estabelecida por
lei com nitidez e precisão. A exigência da tolerância que deve suportar quem é réu através do
processo penal por parte do Estado, isto é, a existência mesma de deveres do processado para
com seu processo, origina já uma afetação da liberdade, que deve estar previamente
autorizada pela lei e que repercute na necessidade de uma regulação completa do
procedimento, por isso, devido ao processo legal, o qual inclui, inevitavelmente, seus limites
temporários, se é que de verdade se quer dar eficácia ao princípio. Desta forma, assim como o
Estado não pode realizar atos processuais proibidos pela lei, nem realizar atividades que não

392
PASTOR, Daniel R. op. cit. p. 377.
393
Idem, p. 381.
134

estejam legalmente previstas, então também, não pode realizar suas políticas penais através do
processo, fora do âmbito temporário que deve ser estritamente predeterminado pela lei 394.
Na literatura científica tem se consolidado a ideia de que esta “similitude de
caráter” entre a pena e o processo devia ter repercussões jurídicas. Para Imme Roxim, deve-se
partir de que o legislador exige de cada cidadão e sem distinções suportar a duração
necessária do processo. Desta forma, desde o princípio, o processo é considerado pelo
legislador como uma parte integrante da sanção. E somente é tolerável, se está expressamente
prevista pela lei, até mesmo no quesito do exato ponto no tempo em que deixará de ser
juridicamente admissível395.
Pois bem, se resulta inegável que o processo como tal, constitui, desde um ponto
de vista, não só jurídico, mas também psicológico, sociológico e até ontológico, uma espécie
de pena, então é também indiscutível que sua medida, isto é, sua duração, igual a pena, deve
estar predeterminada com certeza pela lei. Tanto como ninguém – sob o império de um
verdadeiro estado de direito – aceitaria, por seu flagrante choque com os princípios
constitucionais, que uma pena tivesse uma duração indeterminada, também não deve ser
tolerada uma pena informal do processo de duração indefinida396.
Portanto, a duração precisa do processo deve ser determinada pela lei, tanto para
cumprir com um mandato de que a coerção estatal deve estar expressamente autorizada e
limitada pela lei (nulla coactio sine lege ou princípio da legalidade processual em sentido
estrito), quanto para cumprir com o princípio da legalidade material, já que os sofrimentos do
processo agem da mesma forma como se fossem as circunstâncias das medidas do direito
penal substantivo, então sua admissibilidade deve estar precedida pelos mesmos princípios
impostos para aquelas397.
O direito a que o processo penal se resolva dentro de um prazo razoável é um
direito fundamental imposto expressamente pelo direito internacional dos direitos humanos e
de forma expressa pela própria Constituição Federal. Sua determinação corresponde a lei in
abstrato e geral e não aos tribunais através de sua aplicação no caso concreto. O direito ao
julgamento em tempo razoável é, como já foi aventado, uma limitação à liberdade de ação,
que é direito fundamental, isto supõe para todo o réu a simples realização do processo penal.
Esta restrição da liberdade deve ser determinada pela lei, não só em sua existência e
funcionamento e atribuição da competência para isso há uma autoridade estatal (julgamento

394
Ibidem, p. 383.
395
Ibidem, p. 395.
396
Ibidem, p. 396.
397
Ibidem, p. 396.
135

prévio fundado na lei e diante de juiz natural), mas também quanto a sua extensão temporária.
Como tal, da mesma forma que todas as limitações dos direitos fundamentais, devem ser
estabelecidas por uma lei geral e não podem reger só para um caso individual (algo que se
tolera – e prega – a jurisprudência dominante), o sentido dessa proibição do tratamento
individual é precisamente a proibição do princípio da igualdade398.
Portanto, a extensão temporal do processo deve estar fixada pela lei de um modo
prévio, preciso e categórico, igual a qualquer outra limitação das liberdades fundamentais 399.
Diante do explicitado, antevê-se a necessidade da afirmação de limites precisos
para a duração dos processos penais, de modo a conceder real vigência a um direito
fundamental, sob pena de transgredir o Estado de Direito e suas garantias constitucionais.
Como reflexo ao posicionamento acima explicitado, e servindo de paradigma aos
processos criminais em geral, o legislador infraconstitucional pátrio, de forma concreta,
definiu um marco regulatório sobre o tempo do processo criminal nos crimes de organizações
criminosas, já desde sua redação originária estatuída na Lei 9.034/95, quando estipulou em
seu art. 8°que o prazo máximo da prisão processual nos crimes previstos na referida Lei seria
de 180 (cento e oitenta) dias, tendo sido modificado esse entendimento, quando da edição da
Lei n° 9.303/96, este mesmo art. 8° passou a dispor que o prazo para conclusão da instrução
criminal seria de 81 (oitenta e um) dias, quando o acusado estivesse preso, e de 120 (cento e
vinte) dias, quando solto.
A Lei n°9.303/96 chegou a este prazo de 81 (oitenta e um) dias não de forma
fortuita, na verdade se trata do resultado da somatória dos prazos legais fixados para a prática
dos atos processuais durante toda a persecução penal, desde o procedimento inquisitorial a
instrução criminal até a prolatação da sentença, sem que fossem levados em consideração
nesse cálculo os prazos para a movimentação cartorária, em se tratando do acusado preso, no
antigo procedimento comum ordinário dos crimes punidos com reclusão.
Com a reforma processual penal da Lei n° 11.719/08, alterando o procedimento
comum ordinário, aplicável quando o crime tiver sanção máxima igual ou superior a 4
(quatro) anos de pena privativa de liberdade (CPP, art. 394, § l°, inc. I), a contagem do prazo
para o encerramento do processo penal, quando o acusado estiver preso, foi alterado, podendo
variar entre 95 (noventa e cinco) e 185 (cento e oitenta e cinco) dias, a depender do caso
concreto.
Veja-se, então, cada um desses prazos, separadamente:

398
Ibidem, p. 403.
399
Ibidem, p. 389.
136

a) Oferecimento da peça acusatória: 5 (cinco) dias (CPP, art. 46, caput);


b) Recebimento da peça acusatória (CPP, art. 396, caput): 5 dias (CPP, art. 800,
inc. II);
c) Resposta à acusação por escrito: 10 (dez) dias (CPP, art. 396, caput).
Caso a resposta não seja apresentada no prazo legal, ou se o acusado, citado, não
constituir defensor, deve o juiz nomear defensor para oferecê-la, concedendo-lhe vista dos
autos, hipótese em que deverão ser acrescidos mais 10 (dez) dias (CPP, art. 396-A, § 2º);
d) Análise da resposta à acusação apresentada pelo acusado e decisão
fundamentada rejeitando eventual pedido de absolvição sumária (CPP, art. 397): 5 (cinco)
dias (CPP, art. 800, inc. lI);
e) Designação de audiência una de instrução e julgamento, a qual deve ser
realizada no prazo máximo de 60 (sessenta) dias (CPP, art. 400, caput).
No caso do procedimento comum sumário, a audiência de instrução e julgamento
dar-se-á no prazo máximo de 30 (trinta) dias (CPP, art. 531, caput);
f) Caso tenha sido determinada a realização de diligências consideradas
imprescindíveis para o julgamento da causa (CPP, art. 404, parágrafo único), bem como nas
hipóteses de complexidade do caso ou pluralidade de acusados, deverá o juiz conceder à
cada parte o prazo de 5 (cinco) dias sucessivamente para a apresentação de memoriais,
tendo, nessa hipótese, o prazo de 10 (dez) dias para proferir a sentença (CPP, art. 403, § 3º).
Ressalte-se, no entanto, que esse prazo de 10 (dez) dias para proferir sentença
pode ser duplicado, chegando a 20 (vinte) dias, desde que o juiz declare justo motivo (CPP,
art. 800, §3°).
Como se percebe pela somatória dos prazos acima discriminados, o prazo mínimo
para o encerramento do processo é de 95 (noventa e cinco) dias.
Porém, a depender das peculiaridades do caso concreto, esse prazo pode chegar a
185 (cento e oitenta e cinco) dias.
De fato, na hipótese de crimes hediondos, a prisão temporária pode ter sido
decretada por 60 (sessenta) dias; some-se a isso o prazo para o oferecimento (+ 5 dias) e
recebimento da peça acusatória (+ 5 dias); suponha-se que, citado para apresentar a resposta
à acusação (+ 10 dias), o acusado não tenha constituído defensor, hipótese em que o juiz
será obrigado a nomear advogado dativo para oferecê-la (+ 10 dias); após a apresentação da
resposta à acusação, o magistrado deve analisar a peça apresentada pela defesa, rejeitando
eventual pedido de absolvição sumária (+ 5 dias); por fim, apesar de o art. 400, caput, do
137

CPP, prever que a audiência de instrução e julgamento deva ser realizada no prazo máximo
de 60 dias, é possível que, por conta da complexidade do caso, ou em virtude da realização
de diligências, haja a concessão às partes de prazo para apresentação de memoriais (+ 10
dias), hipótese em que a sentença pode ser proferida em até 20 dias, perfazendo, assim, um
total de 185 (cento e oitenta e cinco) dias.
A nova Lei das Organizações Criminosas (Lei 12.850/13) passou a preceituar em
seu art. 22, parágrafo único, que “a instrução criminal deverá ser encerrada em prazo
razoável, o qual não poderá exceder a 120 (cento e vinte) dias quando o réu estiver preso,
prorrogáveis em até igual período, por decisão fundamentada, devidamente motivada pela
complexidade da causa ou por fato procrastinatório atribuível ao réu”.
Logo, com a redação supramencionada, visualiza-se com nitidez que o legislador
do Código de Processo Penal, se limitou tão somente a dispor em sua redação, os prazos
isolados para a prática de certos atos processuais, conforme foi visto acima, enquanto a nova
legislação das Organizações Criminosas estabeleceu expressamente o prazo total para a
conclusão da instrução criminal em 120 (cento e vinte) dias, prorrogáveis em até igual
período, ou seja, não podendo ultrapassar o prazo máximo de 240 (duzentos e quarenta) dias
no total, sendo este o marco limitador do tempo do processo criminal, por analogia, quando o
réu estiver preso, e em razão da complexidade da causa ou por fatos procrastinatórios
atribuíveis ao réu, o que, vem totalmente ao encontro do direito fundamental do homem à
razoável duração do processo.
Esta interpretação de aplicação do supramencionado dispositivo como marco
regulatório de duração do processo a todos os processos penais por analogia, era também o
entendimento da doutrina e jurisprudência anterior à nova Lei das Organizações Criminosas
(Lei 12.850/13), quando da vigência da Lei n° 9.303/96, em que no mesmo art. 8°dispunha
que o prazo para o encerramento da instrução criminal seria de 81 (oitenta e um) dias, quando
o acusado estivesse preso, e de 120 (cento e vinte) dias, quando solto.
Senão, veja-se o posicionamento doutrinário:

A última questão deve ter resposta positiva. Falta no CPP a previsão de um prazo
máximo de prisão. Assim, admissível que, por interpretação analógica, aplique-se a
norma a todos os processos, suprindo-se a lacuna. Ademais, é solução razoável,
pois, se em qualquer crime, porque resultante de quadrilha ou bando, poderá o
tempo de prisão ser regulado por esse prazo de cento e oitenta dias, porque o mesmo
delito deveria, quando não derivado de quadrilha ou bando – e por isso, em
princípio, menos grave – ser objeto de prazo superior. Enfim, o tempo de prisão
passa agora a ter um prazo máximo de cento e oitenta dias, o que representa
orientação significativa no sistema brasileiro. A lei, que parecia à primeira vista,
trazer maior rigor quanto ao tempo permitido de prisão, acabará representando
138

vantagem aos réus que, antes, não tinham a garantia de um prazo máximo de prisão,
mas de um marco de oitenta e um dias, a partir do qual era verificada a ocorrência de
constrangimento ilegal em cada caso concreto. Agora, mantido esse prazo mínimo,
400
há um prazo máximo, aplicável a todos os crimes, por analogia .

Dispõe em seu art. 8º (com redação dada pela Lei nº 9.303/96) que o prazo para
encerramento da instrução será de 81 dias, quando o réu estiver preso, e de 120 dias,
quando solto. Em face do art. 8º, da Lei nº 9.034/95, pode-se afirmar que a omissão
do Código de Processo Penal, no que tange ao prazo rígido para encerramento da
instrução criminal, está superada. Por força do referido dispositivo legal,
independentemente dos motivos que vierem a dar ensejo à inobservância do prazo
de 120 dias para encerramento da instrução criminal, deverá o réu ser colocado em
liberdade. Torna-se despicienda qualquer discussão em torno do prazo de 81 dias,
assim como buscar justificativa à manutenção do acusado no ergástulo quando
extrapolado o lapso temporal máximo (120 dias) previsto para as hipóteses de réu
solto. A aplicação da referida norma aos crimes não previstos na Lei nº 9.034/95
encontra esteio nos princípios da isonomia, da proporcionalidade, e na analogia
(CPP, art. 3º). Ora, se a Lei nº 9.034/95 trata de crimes complexos perpetrados por
uma dita “criminalidade organizada”? segundo os idealizadores da “obra prima” ? e
o prazo máximo para encerramento da instrução (em se tratando de réu solto) é de
120 dias, nada mais justo e isonômico (CR/88, art. 5°) que se aplique tal limite de
401
tempo aos casos relacionados com os crimes (ditos) comuns .

E jurisprudencial sobre a temática:

EMENTA: PRISÃO PROVISÓRIA. PRAZO PARA O ENCERRAMENTO DO


PROCESSO. PREVISÃO EM LEI ESPECIAL QUE DEVE SER APLICADA A
TODOS OS CASOS. O art. 8º da Lei 9.034/95, ao estabelecer o prazo de cento e
vinte dias para o encerramento dos processos, fixou o tempo máximo de prisão
provisória para todas as hipóteses (art. 648, II, CPP). Ou seja, o prazo de oitenta e
um dias continua sendo um marco, para se avaliar eventual constrangimento ilegal.
E o cento e vinte dias passam a ser o limite máximo, quando não mais se admitirá
qualquer excesso, ficando o Juiz impedido de justificar o atraso, ainda que em razão
de situações especiais. A situação em julgamento se enquadra na hipótese, uma vez
que o paciente está detido a mais de oito meses, ultrapassando, inclusive, o prazo
mais dilatado admitido, ou seja, de cento e oitenta dias. Ademais, o atraso na
conclusão do procedimento com relação ao paciente se deve à erronia do juizado.
DECISÃO: Habeas-corpus concedido. Unânime. (Habeas Corpus Nº 70015566607,
Sétima Câmara Criminal, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Sylvio Baptista Neto,
Julgado em 29-6-2006).

O legislador pátrio quando da reforma processual penal em 2008, por intermédio


das Leis 11.689 e 11.690, poderia ter avançado mais no aperfeiçoamento legislativo, pois teve
uma boa oportunidade para versar sobre o marco regulatório do tempo do processo penal em
seus diversos procedimentos, já que apenas tratou do prazo máximo de duração de 90

400
FERNANDES, Antonio Scarance. Novo prazo máximo de prisão cautelar: 180 dias. Boletim IBCCRIM. São Paulo, n.32, p. 03, ago.
1995. p. 3.
401
AGOSTINHO, Daiana Delamar; NÓBREGA, Dario Alexandre; NUNES, Leandro Gornicki; FARRIS, Paolo Alessandro; FREITAS,
Roberto Gonçalves de. Constituição, Garantismo Penal e Limites da Prisão Cautelar. Revista da Academia Brasileira de Direito
Constitucional. Vol.8 p. 20. Disponível em:<http://www.abdconst.com.br/arquivos/Artigo%20Grupo%20Joinville.pdf>. Acesso em: 10-11-
2014.
139

(noventa) dias para o procedimento que intitulou como preliminar do Tribunal do Júri,
conforme a redação emanada da Lei n° 11.689.
Sendo que, na 1ª fase do procedimento do Tribunal do júri (Uudicium
accusationis), o prazo pode variar entre 100 (cem) e 120 (cento e vinte) dias, na justiça
Estadual e Federal, respectivamente. É bem verdade que o art. 412 do CPP, com redação
determinada pela Lei n° 11.689/08, esclarece que o procedimento será concluído no prazo
máximo de 90 (noventa) dias. Todavia, não se pode olvidar que o dispositivo refere-se ao
prazo para o encerramento do procedimento.
Logo, não se pode esquecer que a esse prazo de 90 (noventa) dias, referente ao
encerramento do procedimento judicial, deve ser acrescido o prazo relativo às investigações:
+ 10 (dez) dias na justiça Estadual (CPP, art. 10); + 15 (quinze) dias, prorrogáveis por outro
tanto, na justiça Federal (Lei n° 5.010/66, art. 66); ou, ainda, + 60 (sessenta) dias, caso tenha
sido decretada a prisão temporária em seu prazo máximo para crimes hediondos e
equiparados.
Quanto à 2ª fase do procedimento do júri (iudicium causae), diante da ausência de
prazo expresso em lei para o julgamento do réu já pronunciado em plenário, pode-se
estabelecer uma presunção relativa de excesso de prazo caso o julgamento não seja realizado
no prazo de 6 (seis) meses, contado do trânsito em julgado da decisão de pronúncia,
aplicando-se aí o prazo previsto para o desaforamento (CPP, art. 428, caput, com redação
determinada pela Lei n° 11.689/08).
A fim de ratificar ainda mais o posicionamento da necessidade de um marco
regulatório sobre o tempo do processo penal, vale analisar o posicionamento do Conselho
Nacional de Justiça – CNJ que, por intermédio do Plano de Gestão das Varas Criminais e de
Execução Penal402, utilizou-se de critério puramente objetivo para caracterizar uma violação à
razoável duração do processo, sem necessidade de valorações por parte do julgador, ao
estabelecer o limite máximo do trâmite do procedimento penal, entendendo como razoável o
prazo entre 105 (cento e cinco) e 148 (cento e quarenta e oito) dias para o rito ordinário; 75
(setenta e cinco) dias para o sumário e entre 135 e 178 dias para o encerramento da primeira
fase no caso do procedimento do tribunal do júri. Na primeira hipótese, estando o réu preso, o
prazo a ser observado é o de 105 (cento e cinco) dias, sob pena de caracterização de
constrangimento ilegal capaz de ensejar o relaxamento da prisão.

402
Disponível em <http://www.cnj.jus.br/images/programas/justica-criminal/plano-gestao-varas-criminaiscnj. pdf, p. 45-46> Acesso em: 09-
11-2014.
140

O meio empregado pelo CNJ para a fixação do prazo razoável de duração do


processo foi o de somar os prazos de cada fase do procedimento no caso do réu encontrar-se
preso, conforme anuncia o Plano em questão, in verbis:

Contagem dos prazos processuais para a definição da duração razoável


Tendo em vista a reforma processual de 2008 que modificou consideravelmente os
ritos, fazendo a contagem desde a fase pré-processual, que deve ser controlada pelo
juiz quando houver pessoa presa, seria a seguinte, enquanto não for implantada a
informatização do processo:
a) 10 (dez) dias para a conclusão do inquérito (art. 10 do CPP);
b) distribuição imediata (art. 93, XV da CF);
c) 2 (dois) dias (art. 799 do CPP) – ato de secretaria/escrivania (remessa para o
Ministério Público);
d) 5 (cinco) dias para a denúncia (art. 46, caput, 1ª parte, do CPP);
e) 2 (dois) dias (art. 799 do CPP) – atos de secretaria (para conclusão ao juiz);
f) 5 (cinco) dias – decisão interlocutória simples de admissibilidade da ação penal
(art. 800, II, do CPP);
g) 2 (dois) dias (art. 799 do CPP) – atos de secretaria/escrivania (expedição do
mandado de citação);
h) 2 (dois) dias (art. 799 do CPP – interpretação extensiva) - cumprimento do
mandado de citação pelo oficial de justiça;
i) 10 (dez) dias para o acusado apresentar a resposta (art. 396, caput, do CPP);
j) 2 (dois) dias (art. 799 do CPP) – ato de secretaria (conclusão ao juiz);
k) 5 (cinco) dias – decisão judicial (art. 399 e 800, II, do CPP); e
l) 60 (sessenta) dias para a realização da audiência de instrução e julgamento (art.
400, caput, do CPP)
Assim, o prazo razoável, estando o acusado preso, sob pena de caracterização de
constrangimento ilegal, seria de 105 dias, desde que ele seja assistido por defensor
constituído.

Além desta atitude, o Conselho Nacional de Justiça vem contribuindo, de forma


significativa, na identificação da passagem certa rumo ao caminho da consolidação do direito
fundamental ao tempo razoável do processo, por intermédio da implantação de metas e
mecanismos que objetivam a concretização desse direito fundamental. Inclusive, foi conferido
ao mencionado órgão, a competência de instauração de processos administrativos em desfavor
dos juízes em consequencia do retardo injustificado da prestação jurisdicional ocasionada
exclusivamente por eles.
Observa-se com clareza, por intermédio de tais iniciativas, a necessidade de
fixação de um marco que regule o tempo de tramitação do processo penal, onde o direito a ser
julgado dentro de prazo razoável deve ser traduzido num dever do legislador ordinário em
estabelecer prazos gerais que rejam a instrução criminal como um todo, a depender do tipo de
procedimento, pois se trata da regulamentação de um princípio de garantia de um direito
fundamental.
E esse prazo geral, como marco regulatório do tempo de duração do processo
penal, trata-se, efetivamente, de um prazo processual, e, como tal, não pode estar isento da
141

regulação normal e específica de todo e qualquer prazo, pois o processo é um conjunto de


atos, mas de atos que por definição estão submetidos a prazos legais, já que o tempo é um
elemento constitutivo dos atos processuais e reconhecido como tal, pela ordem jurídica
processual penal. É por isso que resultaria absurdo considerar que o processo não estivesse
submetido, em sua totalidade, também a prazos.
Por sua vez, a ideia do Estado de Direito sugere diante de tudo, que a atividade do
Estado se desenvolva limitada por regras precisas. A conclusão a que se chega é a de que os
tempos dos processos, isto é, o desenvolvimento do processo em si mesmo, também deve ser
limitado em toda a sua duração por lei. Sendo que este fim só pode se alcançado, por via de
regulação legal dos prazos máximos de duração do processo que sejam tais, isto é, que
expressem com claridade, qual é o limite extremo da duração dos procedimentos penais403.
Contudo, pela abrangência própria desta dissertação que fica restrita à
interpretação do significado do direito ao ajuizamento penal dentro de um prazo razoável, não
é possível abarcar a difícil tarefa de propor em concreto tais prazos processuais. Essa missão
depende do trabalho empírico relacionado às técnicas de medição do procedimento, cujas
conclusões são as que permitirão estabelecer como projeto de lei uma proposta racional e
fundada de regulação legal dos limites temporários dos procedimentos penais. Essa regulação
não deve ser uniforme, mas deverá ser diferenciada de acordo com as múltiplas variantes que
incidem no desenvolvimento dos processos404.
Uma vez estabelecidos por lei esses prazos será função da jurisdição penal, da
crítica científica e da vigência dos órgãos do direito internacional dos direitos humanos, o
controle de sua razoabilidade405.

4.2 Pesquisa Empírica no âmbito do Poder Judiciário Piauiense

4.2.1 Apresentação

Em matéria penal, o direito de ser julgado num prazo razoável tem uma conotação
adicional, qual seja a de garantir que o acusado não permaneça por um período excessivo sob
o manto acusatório do Estado, constituindo assim ofensa ao princípio da dignidade da pessoa
humana e do devido processo legal.

403
PASTOR, Daniel R. op. cit. p. 464.
404
Idem, p. 464 e 465.
405
Ibidem, p. 466.
142

Embora o processo não seja um instrumento hábil a conceder uma resposta


imediata àqueles que buscam a justiça, isso não justifica que a prestação jurisdicional seja
realizada a qualquer tempo. A exigência de que se garanta, ao cidadão, uma resposta
compatível com a garantia constitucional do devido processo legal deve passar pela aferição
de critérios delimitadores de prazo máximo para conclusão da instrução criminal, dentro de
um juízo de razoabilidade, a ser apontado pelo legislador ordinário, com vistas a coibir abusos
no cumprimento dos atos processuais, conforme será explicitado na conclusão desta
dissertação.
O objetivo que se almeja alcançar nesta pesquisa empírica é constatar em casos
concretos, através de coleta de dados junto ao Poder Judiciário Piauiense, da amostra de
processos criminais oriundos da 1ª e da 2ª vara criminal (dos crimes de homicídios dolosos
qualificados – artigo 121, §2°, do CP) e 7ª vara criminal (crimes de tráfico de drogas e
condutas afins – artigo 33, caput e §1°, da Lei n° 11.343/06) da comarca de Teresina,
conforme tabela nacional de assuntos do CNJ, que tiveram recursos julgados pelo Tribunal de
Justiça, no âmbito da 1ª e da 2ª Câmara Criminal, nos anos de 2013 e 2014, para aferir, dentro
dessa realidade, qual o tempo de tramitação do processo penal em cada delito mencionado,
em dias, meses e anos, assim como, a média comparativa entre os crimes investigados em
relação ao tempo de tramitação dos processos penais do Poder Judiciário Piauiense. E, se de
fato há necessidade de delimitação temporal legislativa, a fim de se estabelecer o que seja um
tempo razoável de duração do Processo Penal.

4.2.2 Metodologia

A pesquisa traz uma abordagem quantitativa dos dados processuais, no âmbito do


processo penal, para examinar se eles legitimam a afirmação da morosidade do Poder
Judiciário.
A metodologia quantitativa, em geral, abarca a análise de uma quantidade de
casos, cujos dados relevantes são pré-definidos, por intermédio de um Banco de Dados, a fim
de serem captados e catalogados por meio de pesquisas. A triagem dos dados segue critérios
claros e justificados, muitas vezes valendo-se de processos de amostragem probabilística. E a
análise desses dados é feita por meio de procedimentos estatísticos.
Nesta pesquisa, através da aplicação de um método quantitativo se poderá
alcançar o que se almejou, isto é, somente através de um estudo empírico pautado pela análise
143

estatística dos dados processuais é que se conhecerá o tempo médio de tramitação de um


Processo Penal.
Destarte que, mais do que uma obra de conhecimento jurídico acerca de uma
determinada hipótese, trata-se aqui também de evidenciar, tanto para a sociedade quanto para
o Poder Judiciário, qual o tempo médio de tramitação de um Processo Penal, e se esse tempo é
ou não razoável.
É imprescindível situar a pesquisa empírica no tempo e no espaço. A lógica da
pesquisa parte do algoritmo metodológico, cujo objeto é a delimitação temporal da duração do
Processo Penal, no âmbito do Poder Judiciário Piauiense, posto que na legislação pátria, não
há fixação de prazo delimitando o tempo máximo de duração da instrução criminal.
O tema da dissertação é a garantia constitucional do cidadão à razoável duração
do processo penal e à necessidade de criação de um referencial normativo de duração máxima
do processo penal. Esta temática foi pensada em razão do acolhimento da doutrina do não-
prazo na legislação pátria, tendo o assunto constituído no problema de pesquisa, pois diante
da constatação da (in)eficiência do Poder Judiciário em garantir o acesso a uma instrução
criminal útil, a previsão por parte do legislador ordinário de norma que estipule um prazo
máximo de duração do processo seria um meio adequado para se conquistar a eficácia da
tutela jurisdicional em um tempo razoável? E para se chegar à hipótese de que o Poder
Judiciário é ineficiente para garantir ao cidadão uma instrução criminal útil, e
consequentemente, a resposta afirmativa de que a previsibilidade por parte do legislador
ordinário de um marco regulatório sobre o tempo do processo seria um meio adequado de se
conquistar a tutela jurisdicional, somente se conquistará com a estipulação de variáveis e o
levantamento de dados empíricos, com vistas a uma formação de abordagem estatística, é que
se poderá confirmá-la ou rechaçá-la.
A pesquisa teve espaço assentado no Estado do Piauí, por duas razões: por este
pesquisador ser servidor efetivo, ocupante do cargo de Analista Judiciário, do quadro
permanente de pessoal do Tribunal de Justiça do Piauí, atualmente exercendo as funções junto
à Secretaria Cartorária Criminal, e pela maior facilidade de acesso aos dados necessários para
a realização do estudo empírico. Além disso, a opção pela realização da pesquisa com dados
colhidos diretamente no Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, dos processos oriundos da 1ª,
2ª e 7ª varas criminais da comarca de Teresina, tendo como objeto da investigação o tempo de
tramitação processual até o julgamento do recurso de apelação. Dessa forma, teve-se acesso,
144

aleatoriamente, a processos penais que tiveram seus julgamentos no Tribunal de Justiça do


Piauí nos anos de 2013 e 2014.
A delimitação até o julgamento do recurso de apelação se deu em razão da
possibilidade de se realizar o cálculo do tempo de tramitação dos dois graus de jurisdição: o
do primeiro grau, com as informações dos processos da 1ª, 2ª e 7ª varas criminais da comarca
de Teresina, e o do segundo grau, com as informações até o julgamento do recurso de
apelação. Assim, pode-se estipular o termo médio de duração da tramitação processual
englobando o acesso ao segundo grau de jurisdição, o qual deve ser considerado no caso de
eventual determinação legislativa para decretar fim ao Processo Penal através de um limite
temporal.
Em relação ao tempo de investigação, a pesquisa ocorreu entre junho e julho de
2014, tendo sido analisados processos já julgados dos crimes de homicídios dolosos
qualificados (artigo 121, §2°, do CP) e crimes de tráfico de drogas e condutas afins (artigo 33,
caput e §1°, da Lei n° 11.343/06). A seleção dessas espécies delitivas não foi por acaso. São
crimes que causam grande impacto social e compõem o rol da criminalidade urbana violenta.
Nesta pesquisa empírica não se busca definir uma verdade irrestrita sobre a
temática em questão, senão, aferir empiricamente a produção de dados representativos
realizada pelo método quantitativo, sobre a duração do Processo Penal no Estado do Piauí, a
fim de averiguar a razoabilidade temporal ou não dos trâmites processuais capazes de
corroborar ou rechaçar a hipótese de que a Justiça é morosa.
Somente após a catalogação e análise de vários elementos essenciais num Banco
de Dados, será possível ponderar a respeito das (im)possibilidades de efetividade da garantia
fundamental do Processo Penal no prazo razoável.
Preliminarmente, vale destacar a metodologia utilizada, desde os primórdios desta
pesquisa, com a finalidade de alcançar o objetivo proposto.
No prelúdio da pesquisa, teve-se acesso ao sítio eletrônico do TJ/PI406 do ano de
2013 e 2014 (realizados através do sistema e-tjpi para o 2° grau de jurisdição e sistema
Temisweb para o 1° grau de jurisdição), dos processos penais e recursos julgados no Tribunal
de Justiça, até maio de 2014, cujo objetivo era oferecer dados consolidados sobre a
movimentação jurisdicional sobre o primeiro e o segundo graus de jurisdição do Estado do
Piauí.

406
http://www.tjpi.jus.br/e-tjpi/
145

Com os dados do sistema Temisweb, realizou-se uma seleção aleatória de


amostras de 50 (cinquenta) processos relacionados ao crime de homicídio doloso qualificado
(artigo 121, §2°, do CP), oriundos da 1ª e da 2ª vara criminal e 50 (cinquenta) processos
relacionados aos crimes de tráfico de drogas e condutas afins (artigo 33, caput e §1°, da Lei n°
11.343/06), oriundos da 7ª vara criminal da comarca de Teresina, que tiveram os recursos
julgados pela 1ª e pela 2ª Câmara Criminal do TJ/PI no ano de 2013 até maio de 2014,
referentes aos assuntos 3372 e 3608, de acordo com a tabela nacional de assuntos do CNJ407.
Os dados colhidos nos processos foram inseridos em um formulário digital,
originando informações compiladas em um Banco de Dados.
Justifica-se a invenção de um Banco de Dados, por intermédio do preenchimento
das unidades de informação, configurando-se na formação de dados quantitativos específicos
de cada caso, pois conferirá uma significação numérica e intervalar a fim de possibilitar e
determinar, com a devida margem de erro, o tempo de tramitação de um Processo Penal na
Justiça Estadual do Estado do Piauí, atinente aos crimes preestabelecidos.
Na presente pesquisa, a finalidade da criação do Banco de Dados é para
armazenar os subsídios necessários para procurar e suscitar a duração temporal de um
Processo Penal. O formato do Banco de Dados é de uma planilha do programa Microsoft
Excel 2013, onde foram armazenados todos os dados constitutivos do Banco, capazes de
cumprir o propósito a que se dispôs no presente estudo.
Então, os dados necessários para formular o teor do Banco de Dados foram pré-
fixados por intermédio das peculiaridade de um estudo quantitativo, para produzir um
conhecimento científico sobre a duração temporal do Processo Penal. Dessa forma, o Banco
de Dados foi constituído dos seguintes elementos: 1) origem; 2) número do processo no
TJ/PI; 3) espécie de delito; 4) comarca; 5) data do fato delituoso; 6) data do protocolo da
denúncia; 7) data do recebimento da denúncia pelo Juiz; 8) data da prolação da
sentença; 9) data do plenário do Tribunal do Júri; 10) data da distribuição dos autos no
TJ/PI; 11) data do julgamento do recurso de apelação.
O banco de dados foi constituído por 04 (quatro) variáveis informativas (dados
processuais gerais), 07 (sete) variáveis quantitativas (referentes às datas). Para reunir os
dados, foi imprescindível averiguar em cada processo os respectivos elementos com o
propósito de preencher e formar o Banco de Dados.

407
WWW.cnj.jus.br/sgt/consulta_publica_assuntos.php acessado em maio e junho de 2014.
146

O primeiro subsídio, a origem do processo, apontará qual foi a Câmara Criminal


competente para apreciar e julgar o feito, responsável por toda a tramitação do recurso de
apelação no TJ/PI. O segundo subsídio, o número do processo, refere-se ao número de
cadastro do processo quando da distribuição no TJ/PI. O terceiro elemento alude à espécie de
delito pesquisado naquele processo específico. Já, o quarto elemento serve para noticiar em
que comarca o processo foi julgado no primeiro grau de jurisdição. A quinta informação do
Banco de Dados consiste na data do fato delituoso. É importante destacar a data do fato a fim
de verificar o lapso temporal compreendido entre o ocorrido e o oferecimento da denúncia
pelo MP, além de, também, orientar para a questão prescricional. A sexta informação é
justamente a data de protocolo da denúncia oferecida pelo MP.
A sétima informação consiste na data em que a denúncia foi recebida pelo Juiz.
Justificando-se a importância de tal data para o processo, pois interrompe o prazo
prescricional e é o ato que formaliza e angulariza a situação jurídica processual. A oitava
informação, a data da prolação da sentença, traduz-se pelo ato que põe fim ao primeiro grau
de jurisdição, julgando o mérito do Processo Penal nos crimes de tráfico de drogas. Isso
porque nos crimes de homicídios dolosos qualificados, tal data se refere à sentença de
pronúncia ou impronúncia do réu. A nona diz respeito, precisamente, ao julgamento pelo
plenário do Tribunal do Júri nos processos penais de crimes de homicídios dolosos
qualificados. Como esses crimes possuem competência para julgamento, o Tribunal do Júri,
cogente à inclusão da data do respectivo plenário para verificar quanto tempo leva para o réu
ser conduzido a julgamento quando se tem uma sentença de pronúncia.
A décima informação caracteriza-se pela data da distribuição dos autos do
Processo Penal no TJ/PI. Já o décimo primeiro refere-se à data do julgamento do recurso
de apelação.
A partir das informações estatísticas de quantos processos deveriam ser
investigados, após a criação do Banco de Dados, teve início o estudo empírico através do site
do TJ/PI.
A obtenção dos dados deu-se através do site do TJ/PI local onde se passou a
avaliar as informações processuais através da íntegra das movimentações processuais
cadastradas sobre cada processo. Essa etapa da investigação ocorreu da seguinte maneira:
pesquisa nos dados cadastrais dos processos julgados pelo competente órgão julgador
(Câmara Criminal respectiva), os recursos de apelação criminal, que foram julgados em 2013
147

e maio de 2014 no âmbito do TJ/PI. Essa etapa da pesquisa se desenvolveu entre os meses
junho e julho de 2014.
Não se pode negar que a informatização do TJ/PI consiste numa ferramenta de
grande valia. Nesse processo, a tecnologia é colocada à disposição, dos atores jurídicos e das
partes envolvidas em um processo, além da sociedade em si, para que ela possa controlar e
verificar a atividade jurisdicional e judicante no Estado do Piauí.
Em relação aos crimes de homicídio em ambas as varas foram investigados em
média 50 processos. Com relação aos delitos de tráfico, 50 processos.
Na totalidade foram investigados 100 processos para que com tal marca, poder-se,
ao final da análise estatística dos dados, chegar a um termo temporal médio da duração dos
Processos Penais no Estado do Piauí.

4.2.3 Resultados e análises da pesquisa realizada no Tribunal de Justiça do


Piauí

A variação do tempo para a tramitação do Processo Penal depende de diversos


fatores, que podem justificar um retardo jurisdicional ou uma aceleração do procedimento.
A explanação será realizada inicialmente por cada espécie de crime. Cabe
ressaltar de início, que as causas as quais ocasionam o retardamento jurisdicional não estão
em questão, tendo a pesquisa empírica o foco de descobrir o quantum de tempo dura um
Processo Penal no Estado do Piauí.

4.2.3.1 Estatística do tempo do Processo Penal nos delitos oriundos da 1ª e da


2ª vara criminal (dos crimes de homicídios dolosos qualificados – artigo 121, §2°, do CP)
da comarca de Teresina, que tiveram recursos julgados pelo Tribunal de Justiça do
Piauí, no âmbito da 1ª e da 2ª Câmara Criminal, nos anos de 2013 e 2014

Há que se ressaltar que, foram investigados em média 50 processos dos crimes de


homicídio em relação às principais fases processuais, de acordo com o formulário criado para
o Banco de Dados, os resultados são os seguintes:

PERÍODO TEMPO EM DIAS TEMPO EM MESES TEMPO EM ANOS


148

Entre o oferecimento da denúncia e o


recebimento 68,81 2,30 0,18
Entre o recebimento da denúncia e a
pronúncia 996,75 33,2 2,7
Entre o recebimento da denúncia e o
Tribunal do Júri 1527,92 50,9 4,2

Entre a pronúncia e o Tribunal do


Júri 635,31 21,2 1,7
Entre o Tribunal do Júri e o acórdão
325,03 10,8 0,9
Entre o recebimento da denúncia e o
acórdão 1801,54 60,1 4,9

Nota-se que na tabela acima a existência de um intervalo de tempo que chama


bastante a atenção: o tempo de tramitação do Processo Penal entre a prolação da sentença de
pronúncia e a realização do julgamento pelo Tribunal do Júri. O tempo, em média, de
duração do processo entre recebimento da denúncia e a prolação da sentença de
pronúncia é de aproximadamente 33 meses, equivalente a 996 dias, enquanto a duração
temporal entre a sentença de pronúncia e a realização da sessão de julgamento pelo
Tribunal do Júri é de aproximadamente 21 meses, ou 635 dias. Ou seja, o tempo para
marcar e realizar o plenário do júri é inferior ao tempo de toda a instrução criminal, ocorrendo
interrogatório(s), inquirição(ões) de testemunhas e demais provas de acordo com cada caso
concreto.
Vale apontar que este tempo acima mencionado está em total dissonância com o
prazo global estabelecido pelo CPP para a duração da primeira fase dos procedimentos dos
crimes dolosos contra a vida, “o procedimento será concluído no prazo máximo de 90
dias” (art. 412, CPP), o que equivale a dez vezes mais o prazo previsto.
Da sentença de pronúncia comporta recurso em sentido estrito, o que pode ser
um dos indicativos da constatada demora processual. Entretanto, se comparar o tempo que
leva para o TJ/PI julgar o recurso de apelação a partir da realização do Tribunal do Júri,
que é de aproximadamente 11 meses, uma possível demora pode ser o julgamento do recurso
em sentido estrito, porém não pode ser a única razão, também o fato do processo ser
considerado extrapauta pode configurar um atraso na prestação jurisdicional para este tipo de
crime.
149

O tempo, em média, de duração do Processo Penal para os crimes de homicídio,


a partir do recebimento da denúncia até a sentença de primeiro grau, com o julgamento
pelo Tribunal do Júri em média é 51 meses, e o tempo do recebimento da denúncia até a
devida revisão da decisão de primeiro grau pelo TJ/PI é de 60 meses.
É oportuno perceber alguns prazos considerados importantes neste contexto
investigatório, o do oferecimento da denúncia e o seu recebimento que foi em média de 69
dias, prazo este considerado elástico, diante do simples ato de realizar o recebimento da peça
acusatória.
Outro dado que chamou atenção foi o tempo entre o recebimento da denúncia e
o acórdão no TJ/PI, que teria sido em média 5 anos de duração, prazo esse considerado
enormemente elástico em frente aos prazos parciais existentes no Código de Processo Penal.
Faz-se oportuno apontar alguns prazos encontrados durante a pesquisa
considerados relevantes em termos de averiguação sobre o tempo de duração temporal do
Processo Penal. Na tabela abaixo, pode-se constatá-los:

PERÍODO TEMPO EM DIAS TEMPO EM MESES


Entre o fato e o oferecimento da denúncia
111,5 3,7
Entre o oferecimento da denúncia e o
recebimento 68,81 2,3
Entre o Tribunal do Júri e a distribuição
dos autos no TJ 122,05 4,1
Entre a distribuição dos autos
no TJ e o julgamento da apelação 172,14 5,7

Durante o período entre a ocorrência do fato e o oferecimento da denúncia foi


instaurado o procedimento investigatório. Como não se examinou os dados sobre prazo da
fase pré-processual, não há como se asseverar se o prazo estipulado pelo artigo 46, do CPP
brasileiro, foi respeitado. Contudo, percebe-se um prazo considerado muito elástico de 3,7
meses, em média, após o fato delituoso, para que o MP ofereça a peça acusatória, em razão
dos prazos já pré-estabelecidos pelo CPP, de conclusão do Inquérito Policial que varia de 30
dias, no caso do investigado solto e de 10 dias, preso. Já na interposição da ação penal, varia
entre 15 dias do acusado solto e de 05 dias, preso.
Este último dado remete à consideração também bastante excessivo o tempo do
recebimento da peça acusatória, que seria em média 69 dias, embora não haja um prazo
150

predeterminado por lei deste tempo, resta concluir ser também um tempo bastante volumoso,
diante do prazo prefixado para o oferecimento da peça acusatória, logo se percebe um
grandioso tempo para o mero recebimento da denúncia. Posto que ao ser feita uma média
entre os dois prazos de oferecimento e recebimento da denúncia se teria um prazo de 10 dias.
Posteriormente à realização da sessão de julgamento pelo Tribunal do Júri, o
tempo que leva para os autos subirem ao segundo grau de jurisdição para a devida
revisão é de 04 meses, e para o feito ser incluído na pauta de julgamentos do TJ e ser
efetivamente julgado, é de 5,7 meses.

4.2.3.2 Estatística do tempo do Processo Penal nos delitos oriundos da 7ª vara


criminal (dos crimes de tráfico de drogas e condutas afins – artigo 33, caput e §1°, da Lei
n° 11.343/06) da comarca de Teresina, que tiveram recursos julgados pelo Tribunal de
Justiça do Piauí, no âmbito da 1ª e da 2ª Câmara Criminal, nos anos de 2013 e 2014

Em relação aos delitos de tráfico de drogas, considerando que foram analisados


em média 50 processos, eis os dados:

PERÍODO TEMPO EM TEMPO EM TEMPO EM ANOS


DIAS MESES
Entre o fato e o oferecimento da denúncia
79 2,6 0,2
Entre o recebimento da denúncia e a
sentença 201,48 6,7 0,6
Entre a sentença e o acórdão 408,04 13,6 1,1
Entre o recebimento da denúncia e o
acórdão 609,52 20,3 1,7
Entre o oferecimento da denúncia e o
julgamento do acórdão 688,52 23 1,9

É oportuno destacar que entre a data do fato e o oferecimento da peça


acusatória decorreram em média 79 dias. Tempo este que medeia a fase inquisitorial e a
interposição da peça acusatória.
Analisando o tempo acima mencionado, avalia-se como razoável a média
alcançada, em razão do disposto no art. 51 da Lei 11.343/06, que revela que o prazo de
conclusão do inquérito policial, será de 30 dias, se o indiciado estiver preso, e de 90, quando
151

solto. Podendo ambos os prazos ser duplicados, mediante justificação da autoridade policial.
Somado a esses prazos o tempo de interposição da peça acusatória que é de 10 dias.
Observa-se da Tabela acima que o tempo de duração médio entre o recebimento
da denúncia e a prolação da sentença de primeiro grau é de aproximadamente 7 meses.
Diante deste fato, resta claro que o mencionado período de duração é razoável em comparação
com o julgamento do recurso de apelação, que desde a sentença até o efetivo julgamento
pelo TJ/PI - o tempo é de aproximadamente 14 meses, ou seja, o dobro do tempo total do
processo de primeiro grau.
Ainda dentro desta análise, vale chamar a atenção para outros dois dados
estatísticos, relacionados a partir da prolação da sentença e o julgamento do recurso de
apelação pelo TJ/PI:

PERÍODO TEMPO EM DIAS TEMPO EM MESES TEMPO EM ANOS


Entre a prolação da sentença
e a distribuição no TJ 168,86 5,6 0,5
Entre a distribuição no TJ e o
julgamento da apelação 174,78 5,8 0,5

Veja-se que dos 344 dias entre a "prolação da sentença e o acórdão, há duas
etapas processuais, onde tal delonga se encontra. Na primeira a demora é um pouco menor, a
qual leva em média 169 dias (aproximadamente 05 meses e meio), é o tempo da demora
para remeter os autos para o TJ/PI, ou seja, o tempo para publicar a sentença, intimar o MP
e o réu para interporem os recursos cabíveis. Em relação ao recurso de apelação criminal,
objeto desta investigação, o prazo para apelar é de 05 (cinco) dias acrescidos de 08 (oito) dias
para oferecer as razões da apelação. Como o prazo para oferecer as razões é consecutivo, o
máximo de tempo possível seria de 21 (vinte e um) dias para, após a intimação da sentença,
recorrer. Além disso, o artigo 601, do CPP, refere que, findo o prazo para o oferecimento das
razões, os autos serão remetidos no prazo de 05 (cinco) dias ao Tribunal ou ainda quando for
o caso das ressalvas do art. 601, caput, e §1°, de 30 (trinta) dias, o prazo máximo será de 30
(trinta) dias para encaminhar os autos ao Tribunal competente. Da soma aritmética dos prazos
para apelar e encaminhar os autos tem-se que, no máximo deveria demorar 51 dias (menos de
02 meses), sendo que o prazo averiguado para tal encaminhamento ultrapassa mais de três
vezes esse valor, perfazendo em média, conforme já revelado, 169 dias (aproximadamente
05 meses e meio), um tempo considerado desarrazoado.
152

O tempo de tramitação, da apelação criminal no TJ/PI, dura em média 175 dias


(quase 06 meses), englobando o tempo necessário para a análise dos objetos de apreciação de
todas as questões suscitadas e discutidas no processo, ainda que a sentença não as tenha
julgado por inteiro, para parecer do MP, além do tempo a ser percorrido para ser incluído em
pauta de julgamento pela competente Câmara Criminal, seguindo uma ordem de antiguidade
de tramitação no âmbito do TJ/PI, ressalvados os casos legais de prioridades de julgamento. A
análise deste dado é que o tempo para ser julgado pelo TJ/PI, a partir do momento em que o
recurso criminal é distribuído, é quase o mesmo do tempo que leva para que o mesmo chegue
ao TJ/PI.

4.2.3.3 Pesquisa estatística comparativa entre os crimes analisados em


relação ao tempo de tramitação processual

A investigação do tempo de duração processual ocorreu em duas categorias


delitivas, almejando verificar em qual espécie de crime os processos ocorrem com maior
celeridade, vale mostrar um quadro comparativo simples e objetivo sobre as estatísticas
relacionadas ao período consistente desde o recebimento da denúncia até a prolação da
sentença de primeiro grau:

DELITO TEMPO EM DIAS TEMPO EM MESES TEMPO EM ANOS


Homicídio qualificado 1527,92 50,9 4,2

Tráfico de drogas 201,48 6,7 0,6

Primeiramente, deve-se considerar que os dados constantes na Tabela acima


referentes ao delito de homicídio qualificado, engloba-se o período compreendido desde o
recebimento da denúncia até o julgamento pelo Tribunal do Júri, quando haverá uma
sentença condenatória ou absolutória capaz de ensejar a interposição do recurso de apelação.
Superado isso, os resultados mostram que os delitos de tráfico de drogas
possuem a maior celeridade da tramitação processual, constatando-se que o tempo médio de
duração é de 201 dias, aproximadamente 07 meses. Já os processos por delitos de homicídio
qualificado demoram 1.528 dias, aproximadamente 51 meses para a prolação da sentença
de primeiro grau que condenará ou absolverá o réu. Se considerar o período compreendido
até a sentença de pronúncia (embora tal decisão não enseje a interposição do recurso de
153

apelação), o tempo em que transcorre o Processo Penal é de 996,75 dias (33 meses). Então, se
fosse considerar esse último período referido, ter-se-ia que o prazo para tramitação do
Processo Penal assemelhar-se-ia com o prazo para transcorrer o Processo Penal para os crimes
de tráfico.
No que tange ao período compreendido entre o recebimento da denúncia e o
efetivo julgamento do recurso de apelação, os dados consistem em:

DELITO TEMPO EM DIAS TEMPO EM TEMPO EM ANOS


MESES
Homicídio qualificado 1801,54 60,1 4,9
Tráfico de drogas 609,52 20,3 1,7

Igualmente, os resultados mostram que os processos penais referentes aos crimes


de tráfico de drogas são os que possuem maior celeridade processual. Cumpre ressaltar que
as causas e consequências da maior aceleração ou lentidão dos feitos penais não são objeto do
presente estudo. Então, os processos por tráfico de drogas levam em média 609 dias (20
meses) para estar com o julgamento pelo segundo grau de jurisdição em relação ao mérito da
sentença de primeiro grau, enquanto os processos de homicídio qualificado desenvolvem-se
em 1801 dias (60 meses).

4.2.3.4 Estatísticas do tempo do Processo Penal no Poder Judiciário Piauiense

Por fim, resta demonstrar os elementos coletados e analisados para se encontrar


um termo médio que possa representar a duração temporal de um Processo Penal no Estado
do Piauí. Fazendo uma análise estatística entre todos os processos válidos, ou seja, tabulando
os dados de em média 67 processos investigados possíveis de ser utilizados para o estudo
quantitativo, obtiveram-se os seguintes dados, em relação à média geral de cada fase
processual:

PERÍODO TEMPO TEMPO EM TEMPO EM ANOS


EM DIAS MESES
Entre o fato e o oferecimento da
denúncia 82,22 2,7 0,2
Entre o oferecimento e o
154

recebimento da denúncia 82,32 2,7 0,2


Entre o recebimento da denúncia e a
sentença de primeiro grau 985,29 32,8 2,7
Entre a sentença e a distribuição dos
autos no TJ 170,26 5,7 0,5
Entre a distribuição e o julgamento
da apelação no TJ 174,78 5,8 0,5

Logo, percebe-se que o tempo decorrido desde a ocorrência do fato criminoso até
o oferecimento da denúncia é de 82 dias (em média 3 meses). Nesse intervalo de tempo
ocorre o inquérito policial, o qual poderá servir de base e fundamentação para o oferecimento
da denúncia. Já o tempo entre o oferecimento da denúncia e o recebimento da mesma,
chegou ao termo médio de 82 dias. Aqui se faz uma crítica no sentido de que há uma demora
desproporcional no recebimento da peça acusatória por parte da autoridade judiciária que
chega a ser praticamente o mesmo tempo entre o fato e o oferecimento da denúncia.
O tempo do processo de primeiro grau propriamente dito, a contar do
recebimento da denúncia e a prolação da sentença de primeiro grau é de 985 dias (33
meses) equivalentes a 2,7 anos. Posteriormente serão tecidos maiores comentários sobre o
tempo geral do Processo Penal.
Em relação ao intervalo de tempo compreendido entre a prolação da sentença e a
distribuição dos autos com o recurso de apelação no TJ/PI, o tempo encontrado é de
aproximadamente 170 dias (5,7 meses) equivalente a 0,5 ano. À vista do disposto no artigo
601 do CPP, caput e §1°, o prazo máximo ao qual deveria chegar o processo no TJ deveria
ser de 30 dias, a contar do vencimento do prazo para o oferecimento das razões do
recurso de apelação. Portanto, aqui se encontra uma dilação injustificada, a qual gera um
retardamento no sistema de Justiça Criminal, em análise.
Em seguida a distribuição dos autos no TJ/PI, o tempo em média que se leva para
receber o parecer do MP, preparar os votos e incluir o Processo Penal nas pautas de
julgamento e efetivamente o julgar, denota-se ser de 174 dias (quase 06 meses). Durante a
investigação notou-se que há processos os quais ficam parados dentro dos gabinetes por
quase 01 ano ou mais, até serem levados a julgamento, sendo que em outros, em menos de 03
meses da data da distribuição, já há o julgamento do recurso de apelação. Constata-se que a
maioria dos processos depois de chegados ao Tribunal ad quem não demoram para ser
julgados, ou melhor, leva-se o referido tempo para ser julgados.
155

Já em relação ao tempo de duração do Processo Penal em si, as estatísticas


demonstram o seguinte:

PERÍODO TEMPO EM DIAS TEMPO EM TEMPO EM ANOS


MESES
Entre o recebimento da denúncia e
a sentença 985,29 32,8 2,7
Entre a sentença e o acórdão 328,61 11 0,9
Entre o recebimento da denúncia e 1313,89 43,8 3,6
o acórdão

Conclui-se que o tempo médio de tramitação de um Processo Penal no Estado do


Piauí, no período compreendido entre o recebimento da denúncia e a prolação da sentença,
é de 985 dias, ou seja, 32 meses. Então, a duração de um Processo Penal na primeira
instância jurisdicional é de 2,7 anos.
Após a sentença de primeiro grau e o efetivo julgamento do recurso de
apelação, o qual atacou a decisão anterior, a duração média é 328 dias. Ou seja, após a
prolação da sentença, o Tribunal ad quem levará em torno de 11 meses para julgar o recurso
de apelação.
E, o termo médio encontrado para o prazo temporal do trâmite processual a contar
do recebimento da denúncia e o julgamento do recurso de apelação pelo segundo grau de
jurisdição, consiste em 1.313 dias, ou seja, em aproximadamente 44 meses. Esse é o tempo
em média o qual demora um Processo Penal no Estado do Piauí, desde o recebimento da
denúncia, com a finalização de um Processo Penal sob suposta acusação de infração de uma
prática penal contra um acusado que se tornou réu. Portanto, a presente pesquisa apontou que
os Processos Penais nos crimes de competência da 1ª, 2ª e da 7ª vara criminal da comarca de
Teresina, com recursos de Apelação Criminal para o Tribunal de Justiça do Estado do Piauí,
tem um prazo médio para se desenvolver de 03 anos e 06 meses.
A conclusão que se chega diante das diversas análises realizadas, é que o tempo
médio de duração do Processo Penal não é razoável, tendo a principal influência nesta
morosidade o tempo do processo penal da primeira instância de jurisdição, período
compreendido entre o recebimento da denúncia e a prolação da sentença, nos crimes
investigados nesta pesquisa, cuja duração foi de 2,7 anos. Enquanto no âmbito do TJ/PI o
tempo médio de tramitação do processo penal foi de apenas 328 dias, cerca de 11 meses.
156

5 CONCLUSÃO

O direito fundamental do homem à razoável duração do processo penal apresenta-


se com uma finalidade específica, dentro do ordenamento jurídico, a de evitar que as pessoas
submetidas a um processo penal sejam perseguidas além do tempo efetivamente necessário.
Vale enfatizar que o direito do homem a uma razoável duração do processo, não
pode deixar de ser admitido como fundamental, uma vez que o direito a uma tutela
jurisdicional efetiva é decorrente da própria existência dos direitos. Por conseguinte, o direito
à prestação jurisdicional em tempo razoável é fundamental para a eficácia e concretização dos
demais direitos fundamentais.
No âmbito global, vislumbrou-se que um passo significativo na universalização
do direito em ser julgado em um prazo razoável ocorreu com o artigo 6°, §1°, da Convenção
Europeia para Salvaguarda dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais, subscrita
em 04 de novembro de 1950, em Roma, no chamado Pacto de Roma, em vigor a partir de
1953.
Primeiramente, a Convenção Europeia tratou do tema no art. 5°, reservado ao
título dos “direitos à liberdade e à segurança”, que no seu item 3°, garantiu ao custodiado o
entitled to judgement within a reasonable time or to release pending Trial (direito a ser
julgado em um prazo razoável). E, em um segundo momento, no art. 6, §1°, que assegurou o
direito geral a um tempo razoável de tramitação processual. De forma pioneira, a Convenção
Europeia institui com esta norma o reconhecimento categórico de que Justiça que não cumpre
seu papel de dizer o direito dentro de um prazo razoável não é justiça.
O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos criado pelo art. 19 da Convenção
Europeia, a quem cabe o julgamento de processos que abrangem violações ao artigo 6°, §1°,
da Convenção Europeia de Direitos do Homem, em relação aos países signatários da aludida
convenção, passou a avaliar em seus variados julgados o sentido do que seja “prazo razoável”,
no contexto da duração dos processos. E na busca se expressar tal conteúdo tem realizado
ponderação diante de cada caso concreto à luz de três critérios: a) a complexidade da causa; b)
o comportamento dos litigantes e de seus procuradores; e c) a atuação do órgão jurisdicional.
Posteriormente, com o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos,
adotado pela Assembleia Geral das Nações Unidas, por intermédio da Resolução n° 2.200-A,
em 16 de dezembro de 1966, estabeleceu em seu art. 9°, a consagração aos direitos à
157

liberdade e à segurança pessoais, no seu parágrafo 3°, o direito do preso em razão de infração
penal a ser imediatamente informado das acusações contra ele impostas e o dever de ser
apresentado a um tribunal; além disso, o direito a um julgamento "dentro de um prazo
razoável" (within a reasonable time).
Por fim, em 22 de dezembro de 1969, foi adotada no âmbito da Organização dos
Estados Americanos, em San José da Costa Rica, a Convenção Americana sobre Direitos
Humanos e no capítulo VIII da Parte II da Convenção, uma Corte Interamericana de Direitos
Humanos.
O conceito de prazo razoável foi elaborado pela Convenção Americana de
Direitos Humanos, em seus artigos 7º que trata do "Direito à Liberdade"; artigo 8°, do
"Julgamento Justo" e em seu artigo 25, "Proteção Judicial", onde se deve compreender que o
direito em questão não deve estar somente compreendido como um período de tempo para a
tomada de uma decisão judicial, mas deve ser analisado dentro de uma avaliação racional de
agilidade, eficiência e eficácia acerca dos direitos assegurados do homem no processo.
Tempos após a Convenção Interamericana, foi aprovada pelo Brasil, em 26 de
maio de 1992, por intermédio do Decreto Legislativo n° 27, que aprovou o texto na forma
prevista pela Constituição Federal pátria, passando a integrar o seu ordenamento jurídico,
tendo sido ratificada em 25 de setembro do mesmo ano, conforme o disposto no art. 74, §2°,
da referida Convenção e promulgado por meio do Decreto n° 678, de 06 de novembro de
1992.
O Brasil recepcionou em seu ordenamento jurídico o Pacto Internacional sobre
Direitos Civis e Políticos, promulgado em julho de 1992, bem como no mesmo ano aprovou e
promulgou a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, tendo sido tratado em ambos os
documentos internacionais do direito do homem à razoável duração do processo, passando a
ser tal direito fundamental, recepcionado e integrado pelo ordenamento jurídico pátrio, em
consequência da aprovação formal pelo Estado brasileiro.
A partir da Emenda Constitucional 45 de 2004, surgiu na Carta Magna brasileira,
de forma expressa, o direito subjetivo do homem e o dever jurídico do Estado, em garantir
jurisdição em tempo razoável no processo, dentro de um prazo sem dilações indevidas, direito
este agora previsto de forma direta e explícita no art. 5º, inciso LXXVIII, conforme se vê: “a
todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e
os meios que garantam a celeridade de sua tramitação”.
158

A concepção de "razoável duração" repele tanto o atraso da prestação quanto a rapidez


anormal, idônea a prejudicar o direito fundamental ao devido processo constitucional. Trata-
se de tempo adequado a solucionar, com justiça, o conflito levado a juízo. Contudo, nada
justifica a interminável espera causada pela tormentosa duração do processo a que os cidadãos
brasileiros se veem, via de regra, submetidos e da qual, ao final, resta sempre a sensação de
injustiça.
Diante da redação constitucional, não foi possível se extrair uma definição clara e
precisa do que venha a ser a expressão “razoável duração do processo”, em frente a sua
vagueza semântica, pois é um conceito jurídico indeterminado que encerra uma expressão
jurídica que está sujeita a uma complementação valorativa. Complementação esta que vem
sendo dada pela jurisprudência nacional, tendo em vista as peculiaridades dos fatos que se
apresentam no caso concreto, através de critérios advindos do Tribunal Europeu de Direitos
Humanos (a Corte de Estrasburgo) e da Corte Interamericana de Direitos Humanos,
invocando sistematicamente, como referencial decisivo os três critérios acima elencados.
É de se observar que na jurisprudência mencionada, o "tempo do processo" é
configurado como algo casuístico, que estará à mercê das peculiaridades do caso concreto e
do sentir do julgador.
Contudo, não existem razões para se deixar sob o julgamento de critérios
meramente discricionários, diante da análise e interpretação do caso concreto, sempre abertos,
vagos e imprecisos, circunstâncias tão decisivas para a vigência real dos direitos individuais,
como sua eficácia temporária, que, além disso, podem e devem ser descritas com segurança e
exatidão. O Estado, assim, é obrigado a dotar de sentido, através de sua legislação interna, o
direito fundamental à razoável duração do processo, que de outra forma ficaria vazio de
conteúdo e sem sentido a sua mera existência no ordenamento.
O mero acréscimo na Constituição de tal direito, não o torna eficaz, em razão da
não fixação de prazo para o término da relação processual, permitindo a existência de um
vazio processual, do qual necessita de disciplinamento de cunho legal, pois o que não se pode
admitir é estar sujeito às intempéries da instrução criminal por um tempo indeterminado, à
mercê da apreciação da discricionariedade e do subjetivismo do julgador sobre o que vem a
ser tempo razoável.
A primeira conclusão que pode se extrair do direito de todo cidadão a ser julgado
com celeridade, é a necessidade de que a legislação ordinária, conforme os ditames
constitucionais estabeleça com exatidão, o prazo máximo de duração do processo penal. Ou
159

seja, é a lei, e não a jurisprudência, que, segundo a ordem jurídica interna brasileira deve
regulamentar o prazo razoável de duração do ajuizamento penal do direito internacional dos
direitos humanos.
Constata-se ao longo da história que tanto no ordenamento jurídico pátrio, como
em vários outros ordenamentos internacionais, que mesmo diante da previsibilidade explícita
ou implícita, do direito de ser julgado em um prazo razoável, ainda não houve uma fixação
por parte de nenhum desses ordenamentos, da previsibilidade de um conceito pontual do que
vem a ser o tempo razoável de instrução do processo penal, assegurando de forma precisa um
lapso temporal que seja considerado ideal, dentro dos critérios da razoabilidade e
proporcionalidade do legislador, adequado às partes, para que o processo possa fruir, sem
exageros no tempo ou dilações desnecessárias.
No Brasil, o Código de Processo Penal, por não regular prazos gerais, fatais e
específicos para cada procedimento, permitiu que a jurisprudência interpretasse em cada caso,
se a duração da instrução criminal ultrapassou ou não o limite do razoável, gerando com isso
uma situação de incerteza jurídica, posto que esta missão foi usurpada do legislador, que deve
estipular, de forma clara e objetiva, um regramento limitativo que impeça ultrapassar a marca
do razoável, fixando previamente por lei, um marco taxativo que regule o tempo razoável do
processo, a fim de que a jurisprudência caminhe no rumo certo ao encontro da eficácia do
direito fundamental à sua razoável duração, expresso na Constituição Federal e nos
ordenamentos internacionais.
No que segue, apresenta-se e justifica-se a solução proposta para o problema
estudado, pois diante da evidente ineficiência do Poder Judiciário em garantir o acesso a uma
instrução criminal útil, deve o Poder Legislativo sair de sua letargia e enfrentar esse problema,
estipulando regras que além de delimitarem o tempo da instrução processual, possam também
criar formas de controles periódicos, com caráter de revisão acerca do tempo de suas
tramitações, tornando-se um meio adequado para se conquistar a eficácia da tutela
jurisdicional em um tempo razoável.
Neste sistema jurídico só as regras criadas formalmente pelo legislador, de
conformidade com a Constituição é que permitem fundar corretamente a atuação das
autoridades predispostas para a aplicação da lei penal. Isto tem grande relevância no problema
central deste estudo, pois a incerteza é um dos males que afetam os direitos do imputado
durante o processo penal, e é essa incerteza, precisamente, que deve ser limitada pelo prazo
máximo de duração do processo penal como direito fundamental. E, esse prazo, deve ser
160

reconhecível de forma imediata, clara e inequívoca na lei. Não podendo ser encontrado no
sentido, e nem no contexto da análise do caso em julgamento.
Pois, a falta de uma definição pontual acerca do prazo razoável do processo penal
acarreta uma perda de sentido da norma, um vazio existencial, passando o Estado a ser
convocado a assumir um compromisso de definir, através de sua legislação, a definição desse
direito fundamental. Não é admissível impedir o cumprimento desta obrigação sob pretexto
das dificuldades proporcionadas pela complexidade de cada caso concreto para traduzir o
prazo razoável abstrato dos catálogos fundamentais em um prazo concreto da legislação
ordinária.
O principal objetivo nesta parte final do trabalho foi tentar demonstrar que, diante
do contexto da crescente demora da prestação jurisdicional na seara criminal, a falta de regra
integradora ocasiona um retardamento na operatividade da prestação jurisdicional,
acarretando uma ineficácia do comando constitucional. Pois, é tarefa do legislador ordinário a
instrumentalização de um regramento que estabeleça um limite no tempo de processamento
da instrução criminal, com o fim de tornar eficaz a garantia do cidadão ao direito fundamental
à razoável duração do processo.
Pois, a positivação formal no arcabouço constitucional pátrio, tão somente indicou
o rumo certo para ir ao encontro da eficácia do direito fundamental à razoável duração do
processo. Contudo, o legislador ordinário ainda de olhos vendados não começou a caminhar
no sentido de conferir eficácia ao direito fundamental constitucionalmente garantido.
A partir do instante em que o legislador reconheça a sua obrigação de estabelecer
na lei processual um prazo fixo de duração máxima dos processos penais que limite no tempo
e sem margens possíveis desvios, a atividade dos órgãos estatais encarregados da realização
do direito penal material, a controvérsia sobre a interpretação judiciária da determinação do
prazo razoável e de suas consequências haverá desaparecido, pois, toda a atividade do Estado,
mais especialmente a que acarreta o exercício de sua violência punitiva, tem sua legitimação
na lei e encontra nela também os seus limites, inclusive temporários.
Entretanto, a falta de previsão legal, na fixação dos limites da duração do
Processo Penal, tem como consequência deixar ao arbítrio do julgador a definição do que seja
prazo razoável. Esta situação, além de uma arbitrariedade explícita, estimula a mais absoluta
insegurança na tarefa de se verificar se um processo em concreto atingiu ou não o seu prazo
máximo de duração razoável, através da mera análise discricionária do aplicador da norma no
caso concreto.
161

A segurança jurídica cuja obtenção é também um imperativo central do princípio


do Estado de Direito, exige que as ações estatais, sobretudo, as que intervêm nos direitos
básicos, devam ser consideradas medidas calculáveis e previsíveis para os cidadãos. Um dos
males que acarreta a excessiva duração do processo é o submetimento do imputado na
incerteza de seu destino, com o qual se afeta a segurança jurídica, valor entendido de
importância relevante para o Estado de Direito. A eficácia e consolidação do texto
constitucional devem se ajustar com o princípio da segurança jurídica.
A República Federativa do Brasil, como Estado de Direito, estabelece a realização
de um processo penal expresso por uma cadeia de atos encadeados, de forma lógica e
cronológica, estabelecidos em lei, definidores do devido processo legal, das garantias
processuais e das medidas concretas de coerção, que lhes são pertinentes.
A mera realização do processo penal afeta direitos do réu, pela sua mera
realização, mesmo quando não se disponham de medidas concretas de coerção, porém se
exige do cidadão investigado no processo penal tolerar o processo e cumprir certos deveres
que são atribuídos a ele sob pena de executá-los coativamente. Isto constitui uma clara
intervenção nos direitos ou liberdades que, como cidadão, possui o réu e sobre os limites
temporários dessa intervenção também deve decidir o Poder Legislativo, pois a Constituição
delegou ao legislador e não aos juízes a determinação precisa de todo limite aos direitos
individuais.
Uma das significativas conclusões advindas desta dissertação seria: qual o sentido
de estar previsto um rol de direitos e garantias fundamentais positivados na Constituição
brasileira se não existir meios eficazes para convalidar esses direitos? Ou para que serve a
previsibilidade formal de direitos se se está à mercê de um tempo incerto para a efetiva
prestação jurisdicional?
Diante do explicitado, antevê-se a necessidade da afirmação de limites precisos
para a duração dos processos penais, de modo a conceder real eficácia ao direito à razoável
duração do processo penal, sob pena de transgredir o Estado de Direito e suas garantias
constitucionais.
Conclui-se que a lacuna de previsão legislativa por parte do legislador ordinário
em estabelecer um marco regulatório do tempo máximo de duração da instrução criminal,
viola o direito fundamental de todo cidadão de ser julgado sem dilações indevidas, posto que
essa previsão legal do tempo do processo funciona, dentro da ordem jurídica de um Estado
Democrático de Direito, como uma garantia primária desse direito fundamental e um meio
162

eficaz de conquistá-lo, além de constituir um avanço significativo no respeito à dignidade da


pessoa humana, fundamento básico da ordem constitucional.
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