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Daniel B.

WALLACE
Gramática
Grega
Com índice Bíblico e Palavras Gregas

UMA SINTAXE EXEGÉTICA


DO NOVO TESTAMENTO

Daniel B.
WALLACE

Digitalizado por: jolosa


G ram ática G rega: U m a Sin tax e E xeg ética do N ovo T estam ento
D a n iel B. W aJlate

Copyright © 1996 by D aniel B. W allace


Zondervan P ublisbing H ouse
G rand Rapids, M ichigan 49530

T ítulo em inglês: Greck Grammnr Beyond the Basics


Tradução: R oque N ascim ento Albuquerque
Revisão: M arcos Paulo Soares
Supervisão de Produção: Edim ilson Lim a dos Santos
Editoração e Capa: Edvaldo Cardoso M atos

Prim eira edição em português: 2009

ISBN : 978-85-7414-023-0

O N ovo Testam ento Grego, ed itad o por B arbara A land, K urt Aland, J. K aravidopou los, Cario M.
M artini, e B ruce M . M etzger. Q uarta Edição Revisada. © 1966, 1968, 1975, 1983, 1994 pela U nited
Bible Societies. U sado com perm issão.

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Dois homens em particular tem im pulsionado

em meu amor pelo Novo Testamento Grego,


ambos por sua erudição e por seu exemplo

de graça e hum ildade cristãs.

A eles dedico este livro:

Dr. Buist M. Fanning

e em memória de

Dr. Harry A. Sturz


Conteúdo
Prefácio à Edição B rasileira............................................................................................................. ix
P re fá cio ................................................................................................................................................... xi
Lista de Ilu straçõ es........................................................................................................................xxiii
A b reviações............... xxvi
Introdução
A Abordagem Desse L iv ro .......................................................................................................1
A Língua do Novo T estam ento........................................................................................... 12

SINTAXE
Sintaxe de Palavras e Locuções
Parte I: Sintaxe dos Nomes e Formas Nominais
Os Casos
Os Casos: Introdu ção.................................................................................. 31
Caso N om inativo..........................................................................................36
Caso V ocativo.................................................................................................65
Caso G en itivo .................................................................................................72
Caso D a tiv o .......................................................................................... 137
Caso A cu sa tiv o ........................................................................................... 176
O Artigo ................................................................................................................. 206
Parte I: Origem, Função, Usos Regulares eA u sên cia................... 206
Parte II: Usos Especiais e o Não Uso do A rtig o ......................255
A d jetivos................................................................................................................. 291
P ronom es................................................................................................................ 315
P rep o siçõ es .............................................................................................. 355
Parte II: Sintaxe de Verbos e Formas Verbais
Pessoa e Número .................................................................................................390
Voz .............. 407
A tiv a ............................................................................................................... 410
M éd ia .................................................................................................... 414
P assiv a ............................................................................................. 431
M o d o ........................................................................................................................ 442
In d icativ o .......................................................................................................448
Subjuntivo......................................................................................................461
Optativo ....................................................................................................... 480
Im p erativ o ....................................................................................................485
v iii

T e m p o ......................................................................................................................494
Os Tempos: In tro d u ção ........................................................................... 494
P rese n te..........................................................................................................513
Im p erfeito ..................................................................................................... 540
A o risto ............................................................................................................554
F u tu ro .............................................................................................................566
Perfeito e M ais que P erfeito....................................................................572
O In finitivo.............................................................................................................587
O P articíp io.................. 612
Sintaxe das Orações
Introdução às Orações G reg as........................................................................................... 656
O Papel das C o n ju nçõ es...................................................................................................... 666
Estudos Especiais nas Orações
Sentenças C ond icionais.............................................................................................. 679
Orações Volicionais (Ordem e P roibições)...........................................................713
Sumário Sintático .............................................................................................................726
índice de Assuntos................................................——.—...—.....—.——....—.....—.....—.—- 765
índice de Palavras G regas............................................................................................... 788
índice Bíblico .........795
Prefácio à Edição Brasileira

Alexandre, o Grande, foi o primeiro a patrocinar uma gramática de grego para en­
sinar estrangeiros. Pouco depois, a gramática passou a ser o livro para ensinar os
próprios gregos a sua língua. Elaborada, é claro, pelo prisma prático para que o na­
tivo de outra língua aprendesse o grego de forma rápida. Daí vem a origem da gra­
mática descritiva, coisa muito familiar a nós estudantes da língua grega. As gramá­
ticas descritivas não se interessam nos porquês; simplesmente diz: aceite.

Essa gramática descritiva serviu de base à gramática de Dionísio de Trácia. E é dela


que alguns vícios de nomenclatura passaram para o latim e deste para o português.
Por exemplo, quando usamos palavras como: pronomes do caso reto. Se é caso não
é reto e se reto não é caso. E ainda: casos oblíquos. Ora se é oblíquo é caso; se é caso
é oblíquo. Quando, e.g., denominamos um dos modos verbais de subjuntivo, nos
esquecemos que o subjuntivo fala mais do que subordinação. Todos esses erros de
nomenclatura fazem parte de nossas vidas há mais de 2.200 anos. E agora...?

"O problema sobre o argumento é que ele move toda a batalha para o outro lado,
para o campo do próprio inimigo. O inimigo também pode argumentar" (C.S.
Lewis). Daniel Wallace nessa Gramática Grega: Uma Sintaxe Exegética do Novo Tes­
tamento, cruzou as fronteiras e veio preparado para nos convidar a repensar o nos­
so conceito de exegese.

De uma perspectiva lógica, orgânica, semântica e bíblica, a qualidade da exegese


brasileira há de ser enriquecida. Essa gramática reconhece que temos diversos pro­
blemas de nomenclatura. Todavia, em lugar de simplesmente balbuciar novas no­
menclaturas, ela nos convida a pensar além das nomenclaturas, mesmo quando não
pudermos fugir delas.

Dr. Daniel B Wallace tem influenciado estudantes em vários países no mundo atra­
vés desse livro-texto sobre o grego intermediário que agora chega ao Brasil. Essa
gramática grega é usada por mais de dois terços dos seminários no mundo que en­
sinam grego intermediário. Aqui nos Estados Unidos não conheço um único semi­
nário evangélico que não a use como livro texto.

Estou certo de que a Teologia Bíblica e a Exegese do Novo Testamento em solo bra­
sileiro recebem uma contribuição essencial para seu desenvolvimento.

Roque N. Albuquerque, Ph D [Cand]


Central Seminary
Minneapolis, MN
Janeiro de 2009
xii Sintaxe Exegética do Novo Testamento

B. M otivação
Minha motivação não mudou desde o princípio: encorajar os estudantes a irem
além das categorias gramaticais e verem a relevância da sintaxe para a exegese.
Como alguém que ensina tanto gramática quanto exegese, tenho sentido essa
necessidade aguda. Normalmente, quando um aluno completa o grego interme­
diário, a desilusão e a desmotivação iniciam a "morte das categorias". A gramá­
tica grega tem uma forte tradição de dar listas infindáveis dos vários usos
morfossintáticos e poucas ilustrações. Isso segue o modelo das gramáticas clás­
sicas, que discutem muitos conceitos lingüísticos (pois as expressões de qual­
quer língua têm que ser baseadas em exemplos claros).3 Entretanto, com tal abor­
dagem para o NT, o aluno terá facilmente uma impressão artificial de como a
classificação sintática, quase que naturalmente, ligará a si mesma às palavras
em determinada passagem. Isso dará à exegese a patente científica que merece.
Quando o estudante do grego ficar frente a frente com qualquer exercício
exegético, a impressão oposta (e igualmente falsa) surgirá: a exegese é a arte de
importar a visão de alguém para dentro do texto, através da coleta seletiva de
uma classificação sintática que esteja em harmonia com seu entendimento pré­
vio. A primeira atitude vê a sintaxe como uma tarefa exegética fria e rígida,
tanto indispensável quanto desinteressante. A última pressupõe que o uso da
sintaxe na exegese é simplesmente como um jogo wittgensteiniano feito pelos
comentaristas.
Assim, muito da exegese não está propriamente baseada na sintaxe, assim como
muitas das obras sobre sintaxe mostram pouca preocupação exegética. O re­
sultado dessa dicotomia é: o estudante intermediário não vê a relevância sintá­
tica para a exegese e os exegetas, muitas veze-s, fazem mau uso da sintaxe em
seu fazer exegético. Essa obra tenta oferecer uma proposta corretiva inicial para
isso ao fundamentar a exegese nas expressões da língua e ao orientar a sintaxe
de acordo com seu valor exegético.

C. D istintivos
1. Exemplos exegeticamente significantes
Depois que forem notadas as ilustrações claras de certa categoria particular,
haverá muitos exemplos ambíguos e exegeticamente significantes. Tais pas­
sagens são usualmente discutidas com algum detalhe. Isso não somente da
sintaxe algo mais interessante, mas também encoraja o estudante a começar
a pensar exegeticamente (e a reconhecer que a sintaxe não elimina todos os
problemas interpretativos).

3 Isso não significa que uma redução das categorias sintáticas deva ser preferível. Uma
redução assim, embora seja pedagogicamente mais maleável, é de pouco valor exegetico
para o aluno. A razão para a multidão das categorias nesse livro é discutida abaixo.
Prefácio xiii

2. Semântica e "Situação Semântica'


Tanto a semântica quanto a "situação semântica" das categorias são
freqüentemente desenvolvidas. Isto é, não só a mera definição para as clas­
sificações será analisada, mas também a nuança das categorias (semânti­
cas) e das situações semânticas (e.g., contextos, intrusões lexicais, etc)4 em
que tal uso geralmente ocorre. Esse tipo de análise mostra que a descrição
sintática não é um joguinho do Chapeleiro Maluco em Alice no País das
Maravilhas e que as expressões da língua oferecem certos controles à
exegese. As dicas estruturais que o estudante intermediário poderia con­
sultar, às vezes, são dadas (e.g., o presente histórico sempre está no
indicativo e todos os exemplos claros do presente histórico no NT estão na
terceira pessoa). Com freqüência, essa discussão pondera sobre a semânti­
ca de certa construção. Isso ajuda o estudante a alcançar o discernimento
da importância exegética de vários padrões sintáticos.5
3. Definições claras e de fácil captação
Esta obra tenta dar definições claras e ampliadas, seguidas por um glossá­
rio conhecido como a "chave para identificação" (e.g., para entender o im­
perfeito ingressivo, o estudante deve traduzir o verbo grego com a expres­
sar "começou a..."; para o presente costumeiro, o advérbio "habitualmen­
te" antes do verbo).
4. Plenitude de Exemplos
Se só um ou dois exemplos fossem apresentados, seria possível que o estu­
dante focalizasse os elementos atípicos. Com vários exemplos tomados de
uma abordagem relativamente equilibrada dos Evangelhos, Atos, o Corpus
Paulino, as Epístolas Gerais e o Apocalipse, o estudante será exposto a vá­
rios tipos de literatura neotestamentária e será capaz de ver claramente a
nuança de determinada categoria.6 Quando as ilustrações forem tomadas
exclusivamente de determinado gênero, não será acidental, mas indicará
que tal uso é restrito a tal gênero (e.g., o presente histórico ocorre somente
em narrativas). Quase todos os exemplos serão traduzidos com palavras

4 A "Situação Semântica" é desenvolvida completamente na "Abordagem deste Li­


vro".
5 As vezes, tal discussão será classificada e, talvez, de modo muito avançado para
determinada classe de grego intermediário. (A discussão semântica do genitivo de
aposição, e.g., é longa, fugindo do normal). Na realidade, porém, se um professor quer
que seus alunos pensem lingüisticamente em lugar de simplesmente memorizar categori­
as gramaticais, essa seção precisa ser "digerida" mentalmente. Por causa da falta de sen­
sibilidade lingüística, muitos alunos do grego cometem alguns tropeços. Sabendo como
traduzir e/ou classificar sintaticamente uma construção não é a mesma que conhecer
como articular os significados de uma construção assim.
6 Algumas gramáticas do NT poderiam receber apropriadamente um título como Uma
Sintaxe de Mateus e Ocasionalmente Outros Livros do NT, pois não estão conscientemente
tentando tomar exemplos de vários gêneros do NT.
xiv Sintaxe Exegética do Novo Testamento

apropriadas e claras. Estudantes do nível avançado apreciariam as muitas


variantes textuais (com seus testemunhos) que serão mencionados.7
\

5. Estatísticas Gramaticais
As freqüências de várias palavras destacadas morfologicamente e suas cons­
truções serão alistadas no início das principais seções.8 O estudante será in­
formado se dada construção é "rara" ou relativamente útil (e.g., o particí-
pio futuro passivo ocorre uma só vez e o optativo aparece 68 vezes). Raro dá
uma conotação mais precisa. Sem essa informação acrescentada, o estudan­
te poderia concluir que a condicional de primeira classe acha-se com mais
freqüência que o tempo perfeito!
6. Quadros, Tabelas e Gráficos
Vários quadros, gráficos e tabelas serão incluídos na Sintaxe Exegética.
Quanto mais quadros, gráficos e diagramas vem mostrando a relação lógica
entre os conjuntos, a maioria dos estudantes será capaz de assimilar e reter
tais informações. Tais auxílios visuais apresentarão o uso, a semântica, a
freqüência etc. Uma tabela sobre a freqüência das várias preposições, e.g.,
revelará imediatamente ao estudante a importância de kv.
7. Numerosas categorias sintáticas
Um dos aspectos da obra é a quantidade de categorias sintáticas, algumas
das quais nunca foram impressas antes. Algo precisa ser dito acerca disso,
visto que vários gramáticos hoje estão abandonando grande quantidade de
categorias sintáticas. Eles estão fazendo isso por três razões interligadas:
Primeira, por meio das ferramentas da lingüística moderna, há uma cres­
cente apreciação e reconhecimento do significado básico de vários elemen­
tos morfossintático (o que chamaremos de significado não-afetado). Assim, de­
clarações tais como "de fato, todos os genitivos são subjetivos ou objetivos",
ou "o aoristo é o tempo da omissão usado somente quando um autor deseja
abster-se da descrição", estarão em alta.

7 Para fins estatísticos, o texto de Nestle-Aland26/27/UBS3/4 é usado. Comumente, esse


texto também é usado para as ilustrações (com variantes relevantes ao ponto gramatical
sob discussão). Quando a ilustração envolver uma leitura não encontrada nesse texto,
isso será notado.
E preciso dizer ainda algo sobre a forma dos exemplos usados. Ocasionalmente, as
partículas ou outras palavras irrelevantes ao ponto sintático enfatizado são omitidos sem
notificação (ou seja, ". . ."). O texto grego é, assim, conservado o mais conciso possível.
Usualmente só o necessário do contexto será dado para demonstrar a propriedade da
ilustração para sua categoria.
8 As estatísticas são inicialmente tomadas do acCordance, um programa de computa­
dor para Macintosh (comercializado pelo Instituto Gramcord, Vancouver, WA) que reali­
za pesquisas sofisticadas sobre uma classificação morfossintática do Grego do NT (Nestle-
Aland26), assim como o Hebraico do AT (BHS) e a LXX (Rahlfs).
Prefácio xv

Segunda, numerosas categorias específicas de uso restringem a si certas si­


tuações semânticas (tal como gênero, contexto, significado lexical de pala­
vras envolvidas, etc.). Isso gera, muitas vezes, más interpretações, v.g., sim­
ples aplicações do significado básico, e não legítima, por si só, as categori­
as semânticas. Comparando analogias e lexicologia, a tendência agora é tra­
tar tais categorias como não puramente gramaticais, e, portanto, indignas
de descrição nas gramáticas.9

Terceira, muitas vezes, por razões pedagógicas, o número de categorias gra­


maticais tem sido reduzido. Várias dessas categorias têm sido amontoadas
(e.g., em certa recente gramática, os dativos de modo, causa, agente e ma­
neira foram tratados como categorias indistintas10). Outras categorias, es­
pecialmente raras, serão ignoradas.11

Essa tendência tem utilidade até certo ponto, mas, eu aviso, é exagerada. A
lógica para isso está na falta de nuanças. Embora nosso entendimento do
significado não-afetado de certas categorias morfossintáticas seja crescen­
te, deixar a discussão da sintaxe no nível do denominador comum não é
lingüisticamente sensível nem possui utilidade pedagógica. A natureza da
língua é tal que a gramática não pode isolar-se de outros elementos como
contexto, lexema ou outros aspectos gramaticais. Em lugar de trata-los como
meras aplicações, preferimos vê-los como vários usos ou categorias do sig­
nificado afetado da forma básica. De fato, nossa abordagem sintática funda­
mental está em distinguir o significado não-afetado do afetado e notar os
sinais lingüísticos que informam tal distinção.

Ninguém, e.g., viu o tempo presente per si. O que vemos é um verbo que
tem sete identificadores morfossintáticos diferentes para si (um dos quais
pode ser o tempo presente), um identificador lexical (a raiz) - e tudo isso
em dado contexto (tanto literário quanto histórico). Embora, estejamos, às
vezes, tentando analisar o significado do tempo presente, todos esses ou­
tros aspectos lingüísticos aglomeram figuras. De fato, uma tese central dessa
gramática é que outros aspectos lingüísticos afetam (e, portanto, contribu­
em) o significado da categoria gramatical específica sob investigação.

9 Por exemplo, em muitos estudos lexicais/lingüísticos, a diferença entre uma elocução


e uma sentença será apontada. (Cf., e.g., a excelente obra de Peter Cotterell e Max Turner,
Linguistics anã Bíblical Interpretation [Downers Grove, IL: InterVarsity, 1989] 22-23). Uma
elocução é uma declaração única, singular. As mesmas palavras podem ser repetidas em
diferentes ocasiões, mas não seria a mesma elocuação. Seria, porém, a mesma sentença.
Aplicando isso aos estudos lexicais, uma distinção deve ser feita entre significado e
exemplo, enquanto o corpus estudado, caso contrário, um dicionário teria de dar todas as
ocorrências, classificando cada uma delas com um significado distinto.
10 S. E. Porter, lãioms of the Greek New Testament (Sheffield: JSOT, 1992) 98-99.
11 Para uma gramática intermediária (tal como a obra presente). Isso seria razão
suficiente para não se alistar certas categorias.
xvi Sintaxe Exegética do Novo Testamento

As hipóteses dos gramáticos acerca do significado não-afetado12 de um ele­


mento morfossintático (tal como o genitivo, o tempo presente etc.) serão su­
postamente baseadas sobre uma amostragem descente dos dados e sobre
uma grade lingüística apropriada para o exame. As obras mais antigas ten­
diam a obscurecer o significado não-afetado, pois os dados sobre os quais
baseavam suas definições eram insuficientes. A idéia, v.g., de que a proibi­
ção no presente quer dizer, na sua essência, "para de fazer" é, na realidade,
um uso específico que não pode ser aplicado de forma geral. Uma noção abs­
trata da proibição no tempo presente, primeiramente, precisa achar base tan­
to distintiva para a proibição no presente quanto capaz de explicar muitos
dados.
Contudo simplesmente reelaborar tais definições baseadas em uma
amostragem mais ampla dos dados não as tornam mais avançadas. Os as­
pectos extragramaticais têm que ser examinados também caso as categori­
as importantes de uso sejam articuladas. Assim, o próximo passo é exami­
nar a proibição no presente em vários contextos, gêneros e lexemas. A me­
dida que certos padrões semânticos forem detectados, eles formarão o fun­
damento para as várias categorias.
Uma ilustração extraída da sala de aula poderia ajudar. Em uma aula so­
bre sintaxe no segundo ano de grego no Seminário de Dallas, o departa­
mento de NT oferece atividades de tradução e análise sintática. À medida
que passamos por uma passagem, o aluno traduz e analisa vários aspectos
sintáticos. Em algumas ocasiões, a discussão na sala soa algo mais ou me­
nos assim:
Aluno: "Eu acho que isso seja um genitivo possessivo".
Professor: "E muito mais provável que seja um genitivo atributivo. Note
o contexto: na linha anterior, Paulo diz..."
Aluno: "Pensei que fosse uma aula de gramática grega. O que o
contexto tem a ver com isso"?
Professor: "Tudo".
A partir desse ponto segue-se uma clara (pelo menos, eu espero) discussão
sobre como a sintaxe não pode ser entendida à parte de outros aspectos da lin­
guagem. (Os alunos normalmente não estão preparados para tal, pois: após

12 Se a terminologia "significado não-afetado" for difícil de ser captada, você pode­


ria apelar a um exemplo particular disso. Aspecto verbal (como oposto a Aktionsart) é o
significado não-afetado do tipo de ação que os vários tempos podem ter. Não é afetado
pelas intrusões lexicais e contextuais. Aktionsart, por outro lado, é o significado afetado,
moldado especialmente pelo lexema verbal. (Naturalmente, essa ilustração não ajudará
àqueles que não têm mantido contato com o termo Aktionsart!). Estou simplesmente apli­
cando os achados e a categorização da pesquisa aspectual a uma área mais ampla, ou
seja, a tudo da sintaxe. (Assim, v.g., quando o significado básico do genitivo for discuti­
do, será realmente uma figura abstrata, baseada em uma multidão de exemplos concre­
tos onde um denominador comum, em certo grau considerável, ocorrerá de forma re­
petida).
Prefácio xvii

completarem um ano de estudo e terem diversas formas gramaticais me­


morizadas, muitos acharão que não estão fazendo exegese, se lhes exigir­
mos que pensem também pelo contexto literário, e não somente pela gra­
mática. As categorias sintáticas específicas, na realidade, quase nunca são
categorias meramente sintáticas. Sintaxe é, na verdade, uma análise de como
certos aspectos repetitivos, predicáveis e "organizáveis" da comunicação (a
situação semântica) impactam as discretas formas morfossintáticas.

Não é útil nem possível simplesmente reduzir a sintaxe ao fio elementar


que, em grande parte, percorrer todos os elementos de uma forma particular.
Por experiência, vejo que muitos estudantes que aprendem o grego do NT
não estão realmente interessados em gramática grega ou até mesmo em
lingüística. Eles são interessados na interpretação e exegese. Assim, para
abster-se de discutir as várias facetas, dizem: "o genitivo é o promotor de
imprecisão exegética". No entanto, categorias compostas, sem a discussão
das várias situações semânticas onde ocorrem, promove eisegese, não
exegese. Desse modo, embora essas categorias sejam complicadas, às vezes,
é mais proveitoso, pedagogicamente, entregá-las ao estudante do que o
contrário, uma vez que ele está interessado em exegese e não só na
gramática grega.

8. Sem discussão de análise de discurso

Diferente da tendência corrente, esta obra não traz nenhum capítulo sobre
Análise do Discurso (AD). A razão é quádrupla: (1) a AD ainda está em seu
estágio infantil de seu desenvolvimento, em que métodos, terminologia e
resultados tendem a ser instáveis e, sobremodo, subjetivos.13 (2) Os métodos
da AD, à medida que são considerados, tendem a não partir do contexto
(i.e., não começam com a palavra, nem mesmo com a sentença). Isso de
modo algum invalida a AD, mas torna sua abordagem muito diferente da
investigação sintática. (3) No decorrer dessas linhas, visto que esta é
declaradamente uma obra sobre sintaxe, a AD por definição somente
funcionará no perímetro desse tópico e, assim, não será incluída.14 (4)
Finalmente, a AD é um tópico muito significante para receber um
tratamento parcial, anexado como se fosse o fim de uma gramática. Ela
merece sua própria discussão mais acurada, tal qual se acham nas obras
de Cotterell e Turner, D. A. Black e outros.15

13 Em um nível mais amplo, isso é análogo à crítica devastadora de Robinson, feita há


duas décadas atrás, sobre a gramática transformacional de Noam Chomsky: "Estilos
lingüísticos vêm e vão com uma rapidez que em si sugere algo suspeito sobre a vindicação
essencial da lingüística, como ciência" (Ian Robinson, The New Grammarians' Funeral: A
Critique ofNoam Chomsky's Linguistics [Cambridge: CUP, 1975] x).
14 P. H. Matthews, em sua maestral Syntax (Cambridge: CUP, 1981), Definiu sintaxe
"como um assunto distinto da estilística. Esta estuda a 'sintaxe por trás da sentença' com
ou sem significado" (xvix). Eu não iria tão longe, mas caminho na mesma direção.
15 Felizmente, encontrei Matthews de acordo com tal apreciação geral: "Estes campos
[análise do discurso e estrutura de sentenças] são muito importantes, e seus métodos
muito mais do que eles mesmos, para serem manuseados como um apêndice de um livro
cujo assunto seja basicamente as inter-relações das frases e orações (Syntax, xix).
xviii Sintaxe Exegética do Novo Testamento

9. Prioridade Estrutural
Uma outra tendência entre os gramáticos (seja de grego ou de outra língua)
é de organizar o material a partir da prioridade semântica e não a partir da
estrutural. O foco está em como o propósito, possessão, o resultado, a condi­
ção etc. são expressos, e não sobre as formas usadas para expressar tais no­
ções.

As gramáticas de prioridade semântica são muito úteis para a composição em


uma linguagem viva, não para a análise de um pequeno corpus de uma lín­
gua morta. Isso não significa que tal abordagem não apareça em uma gra­
mática de grego antiga, mas que uma gramática intermediária e exegética
tem mais utilidade se organizada pelos aspectos morfossintáticos.

Prevê-se que o usuário médio dessa obra terá pouca habilidade ou a incli­
nação em pensar que descobrirá o porquê de tal forma ter sido usada em
certo texto grego neotestamentário. No entanto, esse usuário deve ser capaz
de reconhecer tais formas à medida que ocorrem no NT Grego. Quando, por
exemplo, encontrar-se com um Iv a ou um infinitivo articular genitivo no
texto, a primeira questão a ser feita não deve ser: "Qual o propósito de isso
ter sido usado no grego?", mas "Como essa palavra foi usada aqui?". As
questões iniciais são quase sempre ligadas a forma. O valor de uma gramáti­
ca exegética está relacionado à sua utilidade exegética, pois a exegese co­
meça com as formas encontradas no texto, para depois se reportar aos seus
conceitos. Isso é o que faz uma gramática exegética.

Uma conseqüência prática de um esquema de prioridade estrutural é: a se­


ção sobre sintaxe das orações será relativamente pequena comparada à sin­
taxe dos substantivos e verbos.

10. Breve Material Sobre Categorias Léxico-Sintáticas

Certas categorias morfossintáticas envolvem considerável número de


lexemas (tais como substantivos, adjetivos e verbos). Aqueles que possuem
determinados lexemas são categorias léxico-sintáticas. E nossa convicção que
as obras-padrão lexicográficas, v.g., tais como o BAGD, já têm tanto um
tratamento admirável de tais categorias fáceis de localizar (ou seja, em
ordem alfabética) quanto ricos dados bibliográficos, variantes textuais e
discussões exegéticas (não obstante, concisas).16 Além do que, qualquer
interessado em sintaxe exegética não precisa sentir-se desafiado a adquirir
um léxico. Esta é (ou deveria ser) uma das ferramentas mais acessíveis na
biblioteca de um exegeta.

16 Uma exceção é a introdução sobre o artigo. Visto que o artigo é, sem dúvida, a
palavra mais importante no NT (ocorrendo cerca de duas vezes mais que seu competidor
mais próximo, Kaí), ele requer um tratamento gramatical um tanto detalhado.
Prefácio xix

À luz dessas considerações, pareceu-me supérfluo duplicar todo o material


já encontrado no léxico.17 Assim, nossa discussão sobre as categorias léxico-
sintáticas envolverá: (1) um esboço dos usos terminológicos consistentes com
o resto da obra; (2) poucas discussões detalhadas de passagens
exegeticamente significantes; e (3) princípios gerais úteis às maiores
categorias sintáticas a que certa categoria específica léxico-sintáticas pertença
(e.g., tipos de conjunções, observações gerais sobre preposições etc.).

11. O Esquema

Esse texto foi esquematizado para diversos usuários, desde o aluno inter­
mediário, que ainda percebem suas limitações de inexperientes, até pasto­
res experimentados que vivem sob o texto grego.

• As ilustrações são dadas tanto no grego quanto em português, com re­


levantes formas sintáticas realçadas.

• Há pelo menos três níveis de discussão em sintaxe exegética.

1) O mais simples é o "Sumário Sintático". Quase todo o sumário sin­


tático inclui título da categoria, breve definição e glossário
transicional (chamado de "Chave para Identificação".). Nenhum
exemplo ou discussão exegética ou lingüística será encontrado aqui.
Esse é um esboço do livro, feito para despertar a memória daque­
les que têm trabalhado as categorias.

2) O nível intermediário é encontrado normalmente no corpo do li­


vro. Isso inclui especialmente definições e ilustrações, assim como
as discussões da semântica de muitas categorias.

3) O nível avançado se acha em menor escala. Isso inclui especial­


mente as notas de rodapé. Muitas destas ampliam as discussões ex­
tensivas da sintaxe. As discussões exegéticas de passagens seletas
serão também colocadas nessa parte. O estudante intermediário é
encorajado a lê-las (nem que seja de forma dinâmica) à medida que
essas passagens sirvam de motivação como modelos da sintaxe
exegética.18

17 As gramáticas mais antigas (tais como a de Robertson) gastam uma quantidade


exorbitante de espaço em categorias léxico-sintáticas. Tal deve-se à inexistência de léxicos
atualizados e compreensíveis. Curiosamente, muitas gramáticas recentes têm a mesma
abordagem, mas sem a mesma necessidade.
18 Algumas discussões exegéticas, porém, são muito complexas. Essas discussões podem
ser lidas de forma rápida pelo aluno intermediário.
XX Sintaxe Exegética do Novo Testamento

• Finalmente, o índice bíblico preocupa-se especialmente com o trabalho


pastoral. Em lugar de alistar simplesmente os textos encontrados no corpo
da obra, aqueles que receberem amplo tratamento (especialmente de
natureza exegética) serão destacados.

II. Como Usar Este Texto na Sala de Aula


(ou, Uma Defesa da Extensão da Sintaxe Exegética)
Não escrevi essa obra para lingüistas, embora use a lingüística. Não escrevi para
aqueles cujo interesse no NT é simplesmente a tradução, embora deva ajudar nesse
sentido.19 Eu escrevi para aqueles que estão preocupados com a interpretação, a
exegese e a exposição do texto. Essa obra foi planejada visando à inclusão de uma
variedade de usuários: estudantes de grego intermediário, avançado, expositores bí­
blicos e qualquer pessoa para quem o grego se tornou como um publicano ou um
gentio! Em suma, essa obra é estruturada tanto para sala de aula quanto para os
estudos pastorais.

A tremenda intimidação pode passar a idéia prima facie que não tenho experiência de
sala de aula! Alguns professores de grego intermediário se preocupariam sobre tal
extensão, sentindo-se incapaz de cobrir todo esse material em um curso de um se­
mestre. Uma explicação sobre seu tamanho, bem como os indicadores de como pode
ser usada em tempo tão curto, serão dispostos para verificação.

Muito sobre a extensão da obra deve-se a vários aspectos, nem sempre achados em
uma gramática de grego intermediário:

• 1. Abundância de exemplos, esboçados em formato de fácil leitura


• 2. Notas de rodapé relativamente extensas
• 3. Inúmeros quadros e tabelas
• 4. Discussões de passagens exegeticamente significativas
• 5. Análise do uso de categorias raras
• 6. Discussões da semântica

Como você pode ver, nem tudo do extenso material extra gera dificuldade. Os qua­
dros e as ilustrações extras, em particular, devem tornar os esforços de sala de aula
mais fáceis. (Por analogia, o livro Basics ofBiblical Greek de William Mounce [Funda­
mentos do Grego Bíblico, publicado pela Zondervan] é muito mais que uma gramá­
tica média para o primeiro ano e está cheia de muitas informações pedagógicas im­
portantes de maneira que seu tamanho ajuda nas instruções em vez de prejudicar.) A
fim de cobrir o material em um semestre, devo encorajá-lo a seguir as primeiras duas
sugestões. Se o semestre estiver cheio de outras tarefas, as sugestões três e quatro
necessariamente seriam implementadas.

19 Geralmente, cursos de seminários são oferecidos tendo a exegese em sua grade,


enquanto cursos em faculdades focam mais especificamente sobre a tradução (N.T.: Nos
EUA, seminários ensinam cursos de pós-graduação; enquanto faculdades, graduação).
Prefácio xxi

1) O estudante intermediário precisa ignorar todas as notas de rodapé. Os rodapés


foram planejados para professores e estudantes no nível avançado.

2) O estudante pode ler rapidamente os usos de categorias mais raras. Algumas


categorias são tão raras que é bom só saber da sua existência e usar a gramática
como uma ferramenta de referência mais tarde. Não as discuta ou questione
exageradamente. O estudante tem simplesmente que ler o material para exposi­
ção e parar por aí. Desse modo, o professor poderia dizer ao aluno que note os
sumários e marque seus textos adequadamente.20 As categorias mais comuns
serão notadas com uma seta na margem esquerda. Desenvolva o hábito de
verificá-las.

3) Alguns que ensinam o grego intermediário podem querer que os alunos igno­
rem ou leiam rapidamente as discussões exegéticas (Logo abaixo se acham mui­
tos exemplos). Pessoalmente, penso que isso é um importante aspecto que moti­
vará os estudantes. No entanto, você pode discordar fortemente de minha exegese
e não quererá que seus alunos sejam expostos a ela.21

4) Alguns professores (especialmente no nível universitário) desejarão que seus


alunos ignorem tudo, menos as definições, as chaves para identificações e as
ilustrações claras. O resto do material poderia ser usado como referência.22

A abordagem sugerida que implementa as primeiras duas sugestões acima é a


seguinte. Os estudantes devem ler três vezes o material diário. A primeira leitura
(ou leitura dinâmica) tem o propósito de adquirir uma visão do todo e familiarização
com o material. A segunda leitura, a memorização das definições e de uma ou duas
ilustrações. A terceira leitura, revisar e refletir, especialmente sobre as discussões
mais profundas. Isso deve ser seguindo pela recapitulação semanalmente do material.

Em suma, há muitas abordagens que podem tornar-se viável em um único semes­


tre. E possível que, no término do semestre, o aluno não domine, ou pense que não
domina, completamente a Sintaxe Exegética, porém, mesmo assim, tal conhecimento
ainda terá sido de algum valor no processo.23

20 Uma exceção geral a essa abordagem envolve as raras categorias que são muitas
vezes requisitadas em comentários (e.g., dativo de agência, particípio imperatival). Tais
deveriam ser reconhecidas se, e somente se, ajudarem o aluno a ser mais crítico dos usos
exagerados em obras exegéticas. Muitas dessas categorias abusadas são destacadas por
uma espécie de cruz na margem esquerda.
21 Cursos de faculdades que focalizam a tradução tipicamente lerão de forma rápida
as questões exegéticas.
22 Ao usar a gramática desse modo, o aluno realmente apreenderá menos material do
que é achado em algumas das gramáticas intermediárias mais abreviadas.
23 Uma das razões para o tamanho dessa obra tem a ver com seu amplo propósito. Este
livro tem o propósito de resolver duas deficiências: a primeira entre os livros-texto do
primeiro ano tal como Basics ofBiblical Greek e as referências-padrão, tais como o BDF, e a
outra entre a sintaxe e a exegese. Tudo contribui para a extensão da obra. Qualquer abre­
viação significante teria prejudicado esse objetivo duplo.
xxii Sintaxe Exegética do Novo Testamento

III. Reconhecimentos

Como esse texto tem sido usado, pelo menos em seu esboço, há mais de 15 anos,
minha dívida de gratidão constitui-se em uma longa lista.
Primeiro, sou grato a meus alunos que por anos trabalharam com esse material, res­
pondendo a provas e testes, e que, gentilmente, corrigiram muitos dos meus equí­
vocos, e me encorajaram a publicar tal obra. A lista inclui os alunos de grego inter­
mediário do Seminário de Dallas (1979-81), os alunos de grego intermediário do
Grace Seminary (1981-83) e os alunos de gramática grega avançada do Seminário
de Dallas (1988-94).
Agradecimentos são também devidos à Pamela Bingham e à Christine Wakitsch que
digitaram um arquétipo da obra no computador para o uso em sala. Sua pertinente
exatidão me impulsionou a focalizar-me no conteúdo e não na forma.
Kbôoç é devido aos seguintes "guerreiros" selecionados a dedo: Mike Burer, Charlie
Cummings, Ben Ellis, Joe Fantin, R. Elliott Greene, Don Hartley, Greg Herrick, Shil
Kwan Jeon, "Bobs" Johnson, J. Will Johnston, Donald Leung, Brian Ortner, Richard
Smith, Brad Van Eerden, e "Benwa" Wallace. Esses homens buscaram ilustrações,
checaram as referências, examinaram manuscritos fac-símiles e textos gregos para
variantes, reuniram tanto dados primários quanto secundários, preparam os índi­
ces e ofereceram muitas críticas e contribuições valiosas. Muitqs desses alunos fo­
ram internos entre 1993 e 1996 no Seminário de Dallas. Outros foram amigos inte­
ressados que dedicaram seus esforços amorosos pela sintaxe e exegese no NT.
Reconhecimentos também são devidos aos "atletas" que examinaram o penúltimo
esboço durante o ano escolar de 1994-95. Especialmente destacam-se: Dr. Stephen
M Baugh, Dr. William H. Heth e Dr. Dale Wheeler.
Tenho recebido auxílio em cada passo do processo por bibliotecários e bibliotecas.
No topo da lista estão: Teresa Ingalls (Bibliotecária de empréstimo entre bibliote­
cas) e Marvin Hunn (Bibliotecária assistente) da Biblioteca Turpin, Seminário de
Dallas. Em adição, fui auxiliado consideravelmente pelas pesquisas na Tyndale
House em Cambridge, Inglaterra, Biblioteca da Universidade de Cambridge, Bibli­
oteca Morgan do Grace Seminary (particularmente útil foi Jerry Lincoln, bibliotecá­
rio assistente), e mais que meia dúzia de outras escolas e bibliotecas.
Essa gramática não teria sido possível sem o acCordance, um software para Macintosh
(vendido pelo Instituto Gramcord, Vancouver, WA) que efetua pesquisas sofistica­
das sobre morfologia grega do NT (Nestle-Aland26), assim como a hebraica no AT
(BHS) e na LXX (Rahlfs). Essa ferramenta de renome tem sido um sine qua non na
escrita dessa gramática. Não somente providenciou muitas estatísticas, mas também
se mostrou valioso ao trazer à tona várias ilustrações. Devo agradecer especialmen­
te a James Boyer, que lidou com o grego do NT. Paul Miller, o mentor do programa
original do Gramcord para DOS e Roy Brown que desenvolveu a versão para
Macintosh.
Devo manifestar minha apreciação pelo falecido Philip R. Williams, cuja Grammar
Notes on the Noun and Verb envolve, inter alia, definições cristalinas. De fato, origi­
nalmente meu esforço literário sobre sintaxe constitui-se apenas de notas de sala cujo
Prefácio xxiii

objetivo era que servissem de suplemento às notas de William. Dr. Williams. Sua
estabilidade no Seminário de Dallas sobrepujou a minha e impactou meu pensamen­
to sobre sintaxe substancialmente.
A herança de William continua no Seminário de Dallas onde todo o Departamento
de Estudos no NT tem sido configurado e reconfigurado em suas Notas de Sintaxe
Grega (GSN - Greek Syntaxe Notes, em inglês) para uso em sala de aula. As contri­
buições para essa obra vieram de muitas mentes durante vários anos. O GSN tem
sido parte inerente do grego intermediário no Seminário de Dallas por décadas pas­
sadas, bem como muitas das ilustrações e definições, tem feito seu caminho dentro
da urdidura e trama da Sintaxe Exegética. Eu posso somente expressar minha dívida
com o departamento por seu claro pensamento de grupo acerca da sintaxe do NT.
A minha esposa, Pati, aquela que possui os pés no chão, eu sou muito grato por seu
encorajamento em publicar minhas notas. Mais que qualquer outra pessoa, ela tem
me estimulado, induzido e persuadido para que esse material atingisse confins além
da sala de aula.
Eu sou grato ao meu amigo de infância, Bill Mounce por seu entusiasmo contagiante
e por suas sugestões a fim de que esse livro fosse publicado na série sobre grego
bíblico da Zondervan. Agradeço também a Bill pela composição final deste livro.
Sou grato também às ajudas graciosas oferecidas por todos da Zondervan Publishing
House: a Ed Vandermaas, Stan Gundry e Jack Kragt, por seus incalculáveis
encorajamentos desde o início; e especialmente a Verlyn Verbrugge, o editor da obra,
cujos olhos de águia viram o projeto até seu fim. A capacidade de Verlyn como revi­
sor, editor, lingüista, erudito de grego e exegeta, felizmente ligado a seu afável com­
portamento, tem lhe concedido o caráter de editor ideal para me auxiliar, mesmo
diante da minha, constante, mesquinhez.
Pelo apoio financeiro que recebi para o término dessa obra, eu desejo agradecer espe­
cialmente a dois institutos: Seminário de Dallas, por me outorgar tanto um ano sabático
quanto uma licença para estudo (1994-95); e ao Biblical Studies Foundation (Funda­
ção para Estudos Bíblicos), por sua contribuição um tanto generosa para com minha
viagem para a Inglaterra na primavera de 1995. Além disso, muitos, muitos amigos
têm nos sustentado financeiramente em todos estes anos, na esperança que este livro
fosse finalmente publicado. A vocês, dedico uma palavra especial de gratidão.
Finalmente, expresso minha mais profunda apreciação a dois homens que muito têm
me instigado e me conscientizado dos ricos detalhes do grego do NT: Dr. Buist M.
Fanning III e falecido Dr. Harry A. Sturz. Dr. Sturz, meu primeiro professor de grego
(Biola University), guiou-me por vários cursos de gramática grega e criticismo textu­
al, incluindo um longo ano de estudo independente sobre solecismos do Apocalipse.
Embora, muito amável, Dr. Sturz nunca falhou em criticar meu esforço, moderando
minha imaturidade exuberante. Tal integridade foi somente igualada por seu pró­
prio espírito de humildade. E Dr. Fanning que me instruiu na gramática grega avan­
çada no verão de 1977, no Seminário de Dallas. Ele continua a exercer uma influência
sóbria sobre mim visto que tem modelado tanto meu pensamento sobre sintaxe - sua
marca é certamente sentida praticamente sobre cada página dessa obra. Embora ele
se considere um simples colega, eu sempre o considerei meu mentor em assuntos
gramaticais.
xxiv Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Alguém poderia ser tentado a pensar que com tamanha nuvem de testemunhas, essa
obra deveria ser um marco, apontado uma nova era nos estudos gramáticas do Gre­
go! Um rápido exame do livro rapidamente dissipará essa noção. Eu não possuo tal
ilusão de grandeza para esse volume. Enfim, a responsabilidade de dar forma e con­
teúdo a essa obra pertence a mim. Os maiores equívocos certamente são devidos à
minha natureza obstinada e fragilidade mente. Essa teimosia lança meus defeitos em
minha própria face. Tal fragilidade põe-me mais a par do que sou agora. No entanto,
espero que essa Sintaxe Exegética traga alguma contribuição, encorajamento e moti­
vação àqueles que manuseiam o sagrado texto a fim de perscrutar a verdade - mes­
mo não considerando seu próprio prejuízo.
á y G m a ca uepl rijç àÂr|0eí.aç

- Sirach 4:28
Lista de Ilustrações
Tabelas
1. Nível Literário de Autores do N T ..........................................................................30
2. Sistema de Cinco Casos vs. Sistema de Oito Casos.............................................34
3. Semântica da Construção Plural Pessoal ASKS..................................................283
4. Tipos de Substantivos Usado Na Construção Plural Pessoal [ASKS]..............283
5. As Funções do Adjetivo...........................................................................................292
6. Posições Atributiva e Predicativa do Adjetivo...................................................309
7. Como Agência é Expressa no N T .........................................................................432
8. A Semântica dos Modos Comparados.................................................................446
9. Tempo Verbal no Português no Discurso Direto e Indireto.............................457
10. A Semântica das Questões Deliberativas............................................................466
11. As Formas do Particípio Perifrástico................................................................... 648
12. A Estrutura das Condicionais............................................................................... 689

Quadro24
1. A Natureza Multiforme do Grego do N T ............................................................. 28
2. Freqüência das Formas de Casos no N T ............................................................... 31
3. Freqüência de Casos no NT (Nominativo)........................................................... 37
4. Relação Semântica do Sujeito e o Predicado Nominativo............................... 42
5. Freqüência de Casos no NT (Vocativo)..................................................................66
6. Freqüência de Casos no NT (Genitivo)..................................................................73
7. A Relação do Genitivo Descritivo com Vários Outros
Usos do Genitivo........................................................................................................ 80
8. A Semântica do Genitivo Atributivo.......................................................................86
9. Um Diagrama Semântico do Genitivo Atributivo e do
Genitivo Atribuído..................................................................................................... 89
10. Genitivo de Conteúdo vs. Genitivo de Material...................................................93
11. Genitivo de Aposição vs. Genitivo em Simples Aposição..................................97
12. Diagrama do Genitivo Subjetivo e Objetivo........................................................118
13. Frequência de Casos no NT (Dativo)....................................................................138

24 Estamos usando o termo "Quadro" de forma solta, incluindo quadros, diagramas,


figuras, e certamente tudo que não seja tabela.

xxv
xxvi Sintaxe Exegética do Novo Testamento

14. Frequência de Casos no NT (Acusativo)..............................................................179


15. A Semântica da Construção Objeto-Completo....................................................185
16. Os Casos Usados para Tempo................................................................................203
17. As Forças Básica do Artigo.....................................................................................210
18. O Artigo Individualizante vs. Genérico...............................................................227
19. As Relações Semânticas do Artigo Individualizante........................................ 230
20. Quadro do Fluxo do Artigo com Substantivos...................................................231
21. A Semântica dos NomesAnarthros...................................................................... 243
22. A Semântica dos Nomes Indefinidos.............................................................. 244
23. A Semântica dos Nomes Qualitativos............................................................ 244
24. A Semântica dos Nomes Genéricos................................................................. 244
25. A Semântica dos Nomes Definidos................................................................. 245
26. Os Diferentes Dados para a Regra de Colwell vs.
A Construção de Colwell........................................................................................ 262
27. O Alcance Semântico do Nominativo Predicativo Anarthro......................... 263
28. Grupos Distintos, embora Unidos [Construção Pessoal Plural ASKS] 279
29. Grupos Justapostos [Construção Pessoal Plural ASKA] ...................................280
30. Primeiro Grupo Subconjunto do Segundo
[Construção Pessoal Plural ASKS]......................................................................... 280
31. Segundo Grupo Subconjunto do Primeiro
[Construção Pessoal Plural ASKS]......................................................................... 281
32. Grupos Idênticos [Construção Pessoal Plural ASKS].........................................282
33. O Alcance Semântico das Formas do Adjetivo...................................................305
34. Freqüência das Classes de Pronomes no N T....................................................... 320
35. Freqüência de Pronomes no N T ............................................................................ 354
36. Freqüência de Preposições no N T ......................................................................... 357
37. As Funções Espaciais das Preposições................................................................. 358
38. Justaposição Semântica entre Caso Simples e a Preposição + C ase................362
39. Justaposição nos Usos de ’Avtí e Y n ép ...............................................................387
40. O Escopo do "Nós" no N T....................................................................................... 394
41. A Direção da Ação nas Vozes Gregas.................................................................... 409
42. Estatística da Voz no N T ..........................................................................................410
43. Os Modos Visto em Dois Contínuos..................................................................... 446
44. Freqüência dos Modos no N T ................................................................................ 447
45. Justaposição Semântica do Subjuntivo e Optativo............................................. 462
46. Frequência Relativa de Tempos no N T ................................................................ 496
47. Semelhanças de Tempo-Aspecto no Presente & Imperfeito Indicativo 508
48. A Força do Presente Instantâneo............................................................................ 517
49. A Força do Presente Progressivo.............................................................................518
50. A Força do Presente Estendido doPassado............................................................520
Lista de Ilustrações xxvii

51. A Força do Presente Iterativo................................................................................ 521


52. A Força do Presente Costumeiro.......................................................................... 522
53. A Força do Presente Gnômico............................................................................... 524
54. A Força do Presente Histórico................................................................................528
55. A Força do Presente Perfectivo..............................................................................532
56. A Força do (Verdadeiro) Presente Conativo....................................................... 534
57. A Força do Presente Tendencial.............................................................................535
58. A Força do Presente CompletamenteFuturístico............................................... 536
59. A Força do Presente na Maior ParteFuturístico..................................................537
60. A Força Básica do Imperfeito.................................................................................541
61. A Força do Imperfeito Instantâneo.......................................................................542
62. A Força do Imperfeito Progressivo.......................................................................543
63. A Força do Imperfeito Ingressivo..........................................................................545
64. A Força do Imperfeito Iterativo.............................................................................547
65. A Força do Imperfeito Costumeiro.......................................................................548
66. A Força do (Verdadeiro) ImperfeitoConativo.....................................................550
67. A Força do Imperfeito Tendencial.........................................................................551
68. A Força do Aoristo Indicativo................................................................................556
69. A Força do Tempo Futuro.......................................................................................567
70. A Força do Perfeito...................................................................................................574
71. A Força do Perfeito Intensivo................................................................................. 576
72. A Força do Perfeito Extensivo................................................................................577
73. A Força do Perfeito Dramático............................................................................... 578
74. O Perfeito com Força do Presente......................................................................... 579
75. O Perfeito Aorístico e o Perfeito comForça do Presente Comparado 579
76. A Força do Mais-que-Perfeito................................................................................. 583
77. A Força do Mais-que-Perfeito Intensivo............................................................... 584
78. A Força do Mais-que-Perfeito Extensivo.............................................................. 585
79. O Alcance Semântico do Infinito........................................................................... 590
80. O Tempo nos Particípios.................................................. 614
81. O Alcance Semântico do Particípio.......................................................................616
82. Os Tempos dos Particípios Adverbiais................................................................. 626
83. A Justaposição Semântica dos Particípios de Propósito e Resultado.............. 638
Abreviações
AB Anchor Bible

Abel, Grammaire Abel, F.-M. Grammaire du grec bíblique:


Suive d'un choíx de papyrus, 2 ed. Paris:
Gabalda, 1927.

acus. acusativo

acCordance Software Mac que realiza pesquisas


sofisticadas no NT Grego m orfolo-
gicamente classificado (texto Nestle-
A land26 text) com o tam bém AT
Hebraico (BHS). Comercializado pelo
Instituto Gramcord, Vancouver, WA, e
programado por Roy Brown.

ACF Almeida Corrigida Fiel

AJP American Journal ofPhilology

ARA Almeida Revista e Atualizada

ARC Almeida Revista e Corrida

AT Antigo Testamento

BAGD A Greek-English Lexicon oftheN ew Testa-


ment and Other Early Christian Literature.
By W. Bauer. Trans. and rev. by W. F.
Arndt, F. W. Gingrich, and F. W. Danker.
Chicago: University of Chicago Press,
1979.
BDF
Blass, F., and A. Debrunner. A Greek
Grammar ofthe New Testament and Other
Early Christian Literature. Trans. and rev.
by R. W. Funk. Chicago: University of
Chicago Press, 1961.
Bib
Bíblica
BNTC
Black's New Testament Commentaries

xxviii
Dois homens em particular tem impulsionado
em meu amor pelo Novo Testamento Grego,
ambos por sua erudição e por seu exemplo
de graça e humildade cristãs.
A eles dedico este livro:

Dr. Buist M. Fanning

e em memória de

Dr. Harry A. Sturz


Conteúdo
Prefácio à Edição Brasileira..................................................................................................ix
Prefácio................................................................................................................................... xi
Lista de Ilustrações...........................................................................................................xxiii
Abreviações........................................................................................................................ xxvi
Introdução
A Abordagem Desse Livro............................................................................................1
A Língua do Novo Testamento................................................................................. 12

SINTAXE
Sintaxe de Palavras e Locuções
Parte I: Sintaxe dos Nomes e Formas Nominais
Os Casos
Os Casos: Introdução......................................................................... 31
Caso Nominativo................................................................................ 36
Caso Vocativo...................................................................................... 65
Caso Genitivo.......................................................................................72
Caso Dativo....................................................................................... 137
Caso Acusativo................................................................................. 176
O Artigo ..................................................................................................... 206
Parte I: Origem, Função, Usos Regulares e Ausência................ 206
Parte II: Usos Especiais e o Não Uso do Artigo.......................... 255
Adjetivos..................................................................................................... 291
Pronomes.................................................................................................... 315
Preposições................................................................................................ 355
Parte II: Sintaxe de Verbos e Formas Verbais
Pessoa e Número...................................................................................... 390
Voz ............................................................................................................. 407
A tiva................................................................................................... 410
Média.................................................................................................. 414
Passiva................................................................................................ 431
M odo........................................................................................................... 442
Indicativo............................................................................................448
Subjuntivo...........................................................................................461
Optativo ............................................................................................ 480
Imperativo......................................................................................... 485
viii

Tempo......................................................................................................... 494
Os Tempos: Introdução................................................................... 494
Presente.............................................................................................. 513
Imperfeito.......................................................................................... 540
Aoristo................................................................................................ 554
Futuro................................................................................................. 566
Perfeito e Mais que Perfeito............................................................ 572
O Infinitivo................................................................................................. 587
O Particípio................................................................................................ 612
Sintaxe das Orações
Introdução às Orações Gregas..................................................................................656
O Papel das Conjunções........................................................................................... 666
Estudos Especiais nas Orações
Sentenças Condicionais.................................................................................... 679
Orações Volicionais (Ordem e Proibições).................................................... 713
Sumário Sintático ..............................................................................................................726
índice de Assuntos............................................................................................................ 765
índice de Palavras Gregas............................................................................................... 788
índice Bíblico......................................................................................................................795
Prefácio à Edição Brasileira

Alexandre, o Grande, foi o primeiro a patrocinar uma gramática de grego para en­
sinar estrangeiros. Pouco depois, a gramática passou a ser o livro para ensinar os
próprios gregos a sua língua. Elaborada, é claro, pelo prisma prático para que o na­
tivo de outra língua aprendesse o grego de forma rápida. Daí vem a origem da gra­
mática descritiva, coisa muito familiar a nós estudantes da língua grega. As gramá­
ticas descritivas não se interessam nos porquês; simplesmente diz: aceite.

Essa gramática descritiva serviu de base à gramática de Dionísio de Trácia. E é dela


que alguns vícios de nomenclatura passaram para o latim e deste para o português.
Por exemplo, quando usamos palavras como: pronomes do caso reto. Se é caso não
é reto e se reto não é caso. E ainda: casos oblíquos. Ora se é oblíquo é caso; se é caso
é oblíquo. Quando, e.g., denominamos um dos modos verbais de subjuntivo, nos
esquecemos que o subjuntivo fala mais do que subordinação. Todos esses erros de
nomenclatura fazem parte de nossas vidas há mais de 2.200 anos. E agora...?

"O problema sobre o argumento é que ele move toda a batalha para o outro lado,
para o campo do próprio inimigo. O inimigo também pode argumentar" (C.S.
Lewis). Daniel Wallace nessa Gramática Grega: Uma Sintaxe Exegética do Novo Tes­
tamento, cruzou as fronteiras e veio preparado para nos convidar a repensar o nos­
so conceito de exegese.

De uma perspectiva lógica, orgânica, semântica e bíblica, a qualidade da exegese


brasileira há de ser enriquecida. Essa gramática reconhece que temos diversos pro­
blemas de nomenclatura. Todavia, em lugar de simplesmente balbuciar novas no­
menclaturas, ela nos convida a pensar além das nomenclaturas, mesmo quando não
pudermos fugir delas.

Dr. Daniel B Wallace tem influenciado estudantes em vários países no mundo atra­
vés desse livro-texto sobre o grego intermediário que agora chega ao Brasil. Essa
gramática grega é usada por mais de dois terços dos seminários no mundo que en­
sinam grego intermediário. Aqui nos Estados Unidos não conheço um único semi­
nário evangélico que não a use como livro texto.

Estou certo de que a Teologia Bíblica e a Exegese do Novo Testamento em solo bra­
sileiro recebem uma contribuição essencial para seu desenvolvimento.

Roque N. Albuquerque, Ph D [Cand]


Central Seminary
Minneapolis, MN
Janeiro de 2009

ix
Prefácio

I. Por que este livro?

Quando Mounce, meio que brincando, nota em seu prefácio que "a proporção de
gramáticas gregas para professores de grego é dez para nove",1 ele se refere a gra­
máticas do primeiro ano. A situação, até recentemente, tem sido muito diferente no
nível intermediário. Esse tipo de gramática seria contado nos dedos. As últimas duas
décadas contemplaram uma inversão nessa tendência. Existem, mencionando algu­
mas, obras de destaque feitas por Brooks e Winbery, Vaughan e Gideon em inglês,
Hoffmann e von Siebenthal (inédito até no inglês), Porter e Young.2 Diante disso,
uma pergunta surge: Por que este livro?

A. A pré-história deste livro


Sem depreciar de alguma forma a obra de outros (de fato, tenho me beneficia­
do muito com eles), algumas justificativas para a existência dessa gramática,
bem como um esclarecimento de seus distintivos, precisam ser feitas. Como uma
nota preliminar, deve-se destacar que essa primeira edição é realmente a sexta
versão. Esse livro iniciou-se em 1979 como um resumo de 150 páginas para o
terceiro semestre de grego no Seminário de Dallas (na época foi chamado de
Notas Selecionadas sobre Sintaxe Grega do Novo Testamento). Dentro de três anos
passou por três versões, subindo o número de páginas para mais de 300. Mui­
tas das ilustrações, discussões exegéticas e categorias gramaticais estavam já
presentes, ainda que de forma embrionária, desde 1982. Parte da motivação para
publicá-lo tem sido o uso difundido de várias edições não-publicadas pelos pri­
meiros alunos, assim como outros. Eu não digo isso para "ficar sob os holofo­
tes", mas para corrigir as críticas de um professor neófito. Espero que a pre­
sente obra reflita em um julgamento sóbrio sobre a sintaxe do NT.

1 W. D. Mounce, Basics of Biblical Greek (Grand Rapids: Zondervan, 1993) x.


2 Veja lista de abreviações para dados bibliográficos completos à medida que essas
obras forem mencionadas em outras partes neste livro. Embora tenha um pouco mais
que duas décadas, a Gramática Iniciante-Intermediária de Funk não deveria ser
desprezada por hora.

xi
xii Sintaxe Exegética do Novo Testamento

B. M otivação
Minha motivação não mudou desde o princípio: encorajar os estudantes a irem
além das categorias gramaticais e verem a relevância da sintaxe para a exegese.
Como alguém que ensina tanto gramática quanto exegese, tenho sentido essa
necessidade aguda. Normalmente, quando um aluno completa o grego interme­
diário, a desilusão e a desmotivação iniciam a “morte das categorias". A gramá­
tica grega tem uma forte tradição de dar listas infindáveis dos vários usos
morfossintáticos e poucas ilustrações. Isso segue o modelo das gramáticas clás­
sicas, que discutem muitos conceitos lingüísticos (pois as expressões de qual­
quer língua têm que ser baseadas em exemplos claros).3 Entretanto, com tal abor­
dagem para o NT, o aluno terá facilmente uma impressão artificial de como a
classificação sintática, quase que naturalmente, ligará a si mesma às palavras
em determinada passagem. Isso dará à exegese a patente científica que merece.
Quando o estudante do grego ficar frente a frente com qualquer exercício
exegético, a impressão oposta (e igualmente falsa) surgirá: a exegese é a arte de
importar a visão de alguém para dentro do texto, através da coleta seletiva de
uma classificação sintática que esteja em harmonia com seu entendimento pré­
vio. A primeira atitude vê a sintaxe como uma tarefa exegética fria e rígida,
tanto indispensável quanto desinteressante. A última pressupõe que o uso da
sintaxe na exegese é simplesmente como um jogo wittgensteíníano feito pelos
comentaristas.
Assim, muito da exegese não está propriamente baseada na sintaxe, assim como
muitas das obras sobre sintaxe mostram pouca preocupação exegética. O re­
sultado dessa dicotomia é: o estudante intermediário não vê a relevância sintá­
tica para a exegese e os exegetas, muitas vezes, fazem mau uso da sintaxe em
seu fazer exegético. Essa obra tenta oferecer uma proposta corretiva inicial para
isso ao fundamentar a exegese nas expressões da língua e ao orientar a sintaxe
de acordo com seu valor exegético.

C. D istintivos
1. Exemplos exegeticamente significantes
Depois que forem notadas as ilustrações claras de certa categoria particular,
haverá muitos exemplos ambíguos e exegeticamente significantes. Tais pas­
sagens são usualmente discutidas com algum detalhe. Isso não somente da
sintaxe algo mais interessante, mas também encoraja o estudante a começar
a pensar exegeticamente (e a reconhecer que a sintaxe não elimina todos os
problemas interpretativos).

3 Isso não significa que uma redução das categorias sintáticas deva ser preferível. Uma
redução assim, embora seja pedagogicamente mais maleável, é de pouco valor exegético
para o aluno. A razão para a multidão das categorias nesse livro é discutida abaixo.
Prefácio xiii

2. Semântica e "Situação Semântica"


Tanto a semântica quanto a "situação semântica" das categorias são
freqüentemente desenvolvidas. Isto é, não só a mera definição para as clas­
sificações será analisada, mas também a nuança das categorias (semânti­
cas) e das situações semânticas (e.g., contextos, intrusões lexicais, etc)4 em
que tal uso geralmente ocorre. Esse tipo de análise mostra que a descrição
sintática não é um joguinho do Chapeleiro Maluco em Alice no País das
Maravilhas e que as expressões da língua oferecem certos controles à
exegese. As dicas estruturais que o estudante intermediário poderia con­
sultar, às vezes, são dadas (e.g., o presente histórico sempre está no
indicativo e todos os exemplos claros do presente histórico no NT estão na
terceira pessoa). Com freqüência, essa discussão pondera sobre a semânti­
ca de certa construção. Isso ajuda o estudante a alcançar o discernimento
da importância exegética de vários padrões sintáticos.5
3. Definições claras e de fácil captação
Esta obra tenta dar definições claras e ampliadas, seguidas por um glossá­
rio conhecido como a "chave para identificação" (e.g., para entender o im­
perfeito ingressivo, o estudante deve traduzir o verbo grego com a expres­
sar "começou a..."; para o presente costumeiro, o advérbio "habitualmen­
te" antes do verbo).
4. Plenitude de Exemplos
Se só um ou dois exemplos fossem apresentados, seria possível que o estu­
dante focalizasse os elementos atípicos. Com vários exemplos tomados de
uma abordagem relativamente equilibrada dos Evangelhos, Atos, o Corpus
Paulino, as Epístolas Gerais e o Apocalipse, o estudante será exposto a vá­
rios tipos de literatura neotestamentária e será capaz de ver claramente a
nuança de determinada categoria.6 Quando as ilustrações forem tomadas
exclusivamente de determinado gênero, não será acidental, mas indicará
que tal uso é restrito a tal gênero (e.g., o presente histórico ocorre somente
em narrativas). Quase todos os exemplos serão traduzidos com palavras

4 A "Situação Semântica" é desenvolvida completamente na "Abordagem deste Li­


vro".
5 Às vezes, tal discussão será classificada e, talvez, de modo muito avançado para
determinada classe de grego intermediário. (A discussão semântica do genitivo de
aposição, e.g., é longa, fugindo do normal). Na realidade, porém, se um professor quer
que seus alunos pensem lingüisticamente em lugar de simplesmente memorizar categori­
as gramaticais, essa seção precisa ser "digerida" mentalmente. Por causa da falta de sen­
sibilidade lingüística, muitos alunos do grego cometem alguns tropeços. Sabendo como
traduzir e/ou classificar sintaticamente uma construção não é a mesma que conhecer
como articular os significados de uma construção assim.
6 Algumas gramáticas do NT poderiam receber apropriadamente um título como Uma
Sintaxe de Mateus e Ocasionalmente Outros Livros do NT, pois não estão conscientemente
tentando tomar exemplos de vários gêneros do NT.
xiv Sintaxe Exegética do Novo Testamento

apropriadas e claras. Estudantes do nível avançado apreciariam as muitas


variantes textuais (com seus testemunhos) que serão mencionados.7
\
5. Estatísticas Gramaticais
As freqüências de várias palavras destacadas morfologicamente e suas cons­
truções serão alistadas no início das principais seções.8 O estudante será in­
formado se dada construção é "rara" ou relativamente útil (e.g., o particí-
pio futuro passivo ocorre uma só vez e o optativo aparece 68 vezes). Raro dá
uma conotação mais precisa. Sem essa informação acrescentada, o estudan­
te poderia concluir que a condicional de primeira classe acha-se com mais
freqüência que o tempo perfeito!
6. Quadros, Tabelas e Gráficos
Vários quadros, gráficos e tabelas serão incluídos na Sintaxe Exegética.
Quanto mais quadros, gráficos e diagramas vem mostrando a relação lógica
entre os conjuntos, a maioria dos estudantes será capaz de assimilar e reter
tais informações. Tais auxílios visuais apresentarão o uso, a semântica, a
freqüência etc. Uma tabela sobre a freqüência das várias preposições, e.g.,
revelará imediatamente ao estudante a importância de eu.
7. Numerosas categorias sintáticas
Um dos aspectos da obra é a quantidade de categorias sintáticas, algumas
das quais nunca foram impressas antes. Algo precisa ser dito acerca disso,
visto que vários gramáticos hoje estão abandonando grande quantidade de
categorias sintáticas. Eles estão fazendo isso por três razões interligadas:
Primeira, por meio das ferramentas da lingüística moderna, há uma cres­
cente apreciação e reconhecimento do significado básico de vários elemen­
tos morfossintático (o que chamaremos de significado não-afetado). Assim, de­
clarações tais como "de fato, todos os genitivos são subjetivos ou objetivos",
ou "o aoristo é o tempo da omissão usado somente quando um autor deseja
abster-se da descrição", estarão em alta.

7 Para fins estatísticos, o texto de Nestle-Aland26/27/UBS374 é usado. Comumente, esse


texto também é usado para as ilustrações (com variantes relevantes ao ponto gramatical
sob discussão). Quando a ilustração envolver uma leitura não encontrada nesse texto,
isso será notado.
E preciso dizer ainda algo sobre a forma dos exemplos usados. Ocasionalmente, as
partículas ou outras palavras irrelevantes ao ponto sintático enfatizado são omitidos sem
notificação (ou seja, ". . ."). O texto grego é, assim, conservado o mais conciso possível.
Usualmente só o necessário do contexto será dado para demonstrar a propriedade da
ilustração para sua categoria.
8 As estatísticas são inicialmente tomadas do acCordance, um programa de computa­
dor para Macintosh (comercializado pelo Instituto Gramcord, Vancouver, WA) que reali­
za pesquisas sofisticadas sobre uma classificação morfossintática do Grego do NT (Nestle-
Aland26), assim como o Hebraico do AT (BHS) e a LXX (Rahlfs).
Prefácio xv

Segunda, numerosas categorias específicas de uso restringem a si certas si­


tuações semânticas (tal como gênero, contexto, significado lexical de pala­
vras envolvidas, etc.). Isso gera, muitas vezes, más interpretações, v.g., sim­
ples aplicações do significado básico, e não legítima, por si só, as categori­
as semânticas. Comparando analogias e lexicologia, a tendência agora é tra­
tar tais categorias como não puramente gramaticais, e, portanto, indignas
de descrição nas gramáticas.9

Terceira, muitas vezes, por razões pedagógicas, o número de categorias gra­


maticais tem sido reduzido. Várias dessas categorias têm sido amontoadas
(e.g., em certa recente gramática, os dativos de modo, causa, agente e ma­
neira foram tratados como categorias indistintas10). Outras categorias, es­
pecialmente raras, serão ignoradas.11

Essa tendência tem utilidade até certo ponto, mas, eu aviso, é exagerada. A
lógica para isso está na falta de nuanças. Embora nosso entendimento do
significado não-afetado de certas categorias morfossintáticas seja crescen­
te, deixar a discussão da sintaxe no nível do denominador comum não é
lingüisticamente sensível nem possui utilidade pedagógica. A natureza da
língua é tal que a gramática não pode isolar-se de outros elementos como
contexto, lexema ou outros aspectos gramaticais. Em lugar de trata-los como
meras aplicações, preferimos vê-los como vários usos ou categorias do sig­
nificado afetado da forma básica. De fato, nossa abordagem sintática funda­
mental está em distinguir o significado não-afetado do afetado e notar os
sinais lingüísticos que informam tal distinção.

Ninguém, e.g., viu o tempo presente per si. O que vemos é um verbo que
tem sete identificadores morfossintáticos diferentes para si (um dos quais
pode ser o tempo presente), um identificador lexical (a raiz) - e tudo isso
em dado contexto (tanto literário quanto histórico). Embora, estejamos, às
vezes, tentando analisar o significado do tempo presente, todos esses ou­
tros aspectos lingüísticos aglomeram figuras. De fato, uma tese central dessa
gramática é que outros aspectos lingüísticos afetam (e, portanto, contribu­
em) o significado da categoria gramatical específica sob investigação.

9 Por exemplo, em muitos estudos lexicais/lingüísticos, a diferença entre uma elocução


e uma sentença será apontada. (Cf., e.g., a excelente obra de Peter Cotterell e Max Turner,
Linguistics and Biblical Interpretation [Downers Grove, IL: InterVarsity, 1989] 22-23). Uma
elocução é uma declaração única, singular. As mesmas palavras podem ser repetidas em
diferentes ocasiões, mas não seria a mesma elocuação. Seria, porém, a mesma sentença.
Aplicando isso aos estudos lexicais, uma distinção deve ser feita entre significado e
exemplo, enquanto o corpus estudado, caso contrário, um dicionário teria de dar todas as
ocorrências, classificando cada uma delas com um significado distinto.
10 S. E. Porter, Idioms ofthe Greek New Testament (Sheffield: JSOT, 1992) 98-99.
11 Para uma gramática intermediária (tal como a obra presente). Isso seria razão
suficiente para não se alistar certas categorias.
xvi Sintaxe Exegética do Novo Testamento

As hipóteses dos gramáticos acerca do significado não-afetado12 de um ele­


mento morfossintático (tal como o genitivo, o tempo presente etc.) serão su­
postamente baseadas sobre uma amostragem descente dos dados e sobre
uma grade lingüística apropriada para o exame. As obras mais antigas ten­
diam a obscurecer o significado não-afetado, pois os dados sobre os quais
baseavam suas definições eram insuficientes. A idéia, v.g., de que a proibi­
ção no presente quer dizer, na sua essência, "para de fazer" é, na realidade,
um uso específico que não pode ser aplicado de forma geral. Uma noção abs­
trata da proibição no tempo presente, primeiramente, precisa achar base tan­
to distintiva para a proibição no presente quanto capaz de explicar muitos
dados.
Contudo simplesmente reelaborar tais definições baseadas em uma
amostragem mais ampla dos dados não as tomam mais avançadas. Os as­
pectos extragramaticais têm que ser examinados também caso as categori­
as importantes de uso sejam articuladas. Assim, o próximo passo é exami­
nar a proibição no presente em vários contextos, gêneros e lexemas. A me­
dida que certos padrões semânticos forem detectados, eles formarão o fun­
damento para as várias categorias.
Uma ilustração extraída da sala de aula poderia ajudar. Em uma aula so­
bre sintaxe no segundo ano de grego no Seminário de Dallas, o departa­
mento de NT oferece atividades de tradução e análise sintática. A medida
que passamos por uma passagem, o aluno traduz e analisa vários aspectos
sintáticos. Em algumas ocasiões, a discussão na sala soa algo mais ou me­
nos assim:
Aluno: "Eu acho que isso seja um genitivo possessivo".
Professor: "É muito mais provável que seja um genitivo atributivo. Note
o contexto: na linha anterior, Paulo diz..."
Aluno: "Pensei que fosse uma aula de gramática grega. O que o
contexto tem a ver com isso"?
Professor: "Tudo".
A partir desse ponto segue-se uma clara (pelo menos, eu espero) discussão
sobre como a sintaxe não pode ser entendida à parte de outros aspectos da lin­
guagem. (Os alunos normalmente não estão preparados para tal, pois: após

12 Se a terminologia "significado não-afetado" for difícil de ser captada, você pode­


ria apelar a um exemplo particular disso. Aspecto verbal (como oposto a Aktionsart) é o
significado não-afetado do tipo de ação que os vários tempos podem ter. Não é afetado
pelas intrusões lexicais e contextuais. Aktionsart, por outro lado, é o significado afetado,
moldado especialmente pelo lexema verbal. (Naturalmente, essa ilustração não ajudará
àqueles que não têm mantido contato com o termo Aktionsart!). Estou simplesmente apli­
cando os achados e a categorização da pesquisa aspectual a uma área mais ampla, ou
seja, a tudo da sintaxe. (Assim, v.g., quando o significado básico do genitivo for discuti­
do, será realmente uma figura abstrata, baseada em uma multidão de exemplos concre­
tos onde um denominador comum, em certo grau considerável, ocorrerá de forma re­
petida).
Prefácio xvii

completarem um ano de estudo e terem diversas formas gramaticais me­


morizadas, muitos acharão que não estão fazendo exegese, se lhes exigir­
mos que pensem também pelo contexto literário, e não somente pela gra­
mática. As categorias sintáticas específicas, na realidade, quase nunca são
categorias meramente sintáticas. Sintaxe é, na verdade, uma análise de como
certos aspectos repetitivos, predicáveis e "organizáveis" da comunicação (a
situação semântica) impactam as discretas formas morfossintáticas.

Não é útil nem possível simplesmente reduzir a sintaxe ao fio elementar


que, em grande parte, percorrer todos os elementos de uma forma particular.
Por experiência, vejo que muitos estudantes que aprendem o grego do NT
não estão realmente interessados em gramática grega ou até mesmo em
lingüística. Eles são interessados na interpretação e exegese. Assim, para
abster-se de discutir as várias facetas, dizem: “o genitivo é o promotor de
imprecisão exegética". No entanto, categorias compostas, sem a discussão
das várias situações semânticas onde ocorrem, promove eisegese, não
exegese. Desse modo, embora essas categorias sejam complicadas, às vezes,
é mais proveitoso, pedagogicamente, entregá-las ao estudante do que o
contrário, uma vez que ele está interessado em exegese e não só na
gramática grega.

8. Sem discussão de análise de discurso

Diferente da tendência corrente, esta obra não traz nenhum capítulo sobre
Análise do Discurso (AD). A razão é quádrupla: (1) a AD ainda está em seu
estágio infantil de seu desenvolvimento, em que métodos, terminologia e
resultados tendem a ser instáveis e, sobremodo, subjetivos.13 (2) Os métodos
da AD, à medida que são considerados, tendem a não partir do contexto
(i.e., não começam com a palavra, nem mesmo com a sentença). Isso de
modo algum invalida a AD, mas torna sua abordagem muito diferente da
investigação sintática. (3) No decorrer dessas linhas, visto que esta é
declaradamente uma obra sobre sintaxe, a AD por definição somente
funcionará no perímetro desse tópico e, assim, não será incluída.14 (4)
Finalmente, a AD é um tópico muito significante para receber um
tratamento parcial, anexado como se fosse o fim de uma gramática. Ela
merece sua própria discussão mais acurada, tal qual se acham nas obras
de Cotterell e Tumer, D. A. Black e outros.15

13 Em um nível mais amplo, isso é análogo à crítica devastadora de Robinson, feita há


duas décadas atrás, sobre a gramática transformacional de Noam Chomsky: "Estilos
lingüísticos vêm e vão com uma rapidez que em si sugere algo suspeito sobre a vindicação
essencial da lingüística, como ciência" (Ian Robinson, The New Grammarians' Funeral: A
Critique ofNoam Chomsky's Linguistics [Cambridge: CUP, 1975] x).
14 P. H. Matthews, em sua maestral Syntax (Cambridge: CUP, 1981), Definiu sintaxe
"como um assunto distinto da estilística. Esta estuda a 'sintaxe por trás da sentença' com
ou sem significado" (xvix). Eu não iria tão longe, mas caminho na mesma direção.
15 Felizmente, encontrei Matthews de acordo com tal apreciação geral: "Estes campos
[análise do discurso e estrutura de sentenças] são muito importantes, e seus métodos
muito mais do que eles mesmos, para serem manuseados como um apêndice de um livro
cujo assunto seja basicamente as inter-relações das frases e orações (Syntax, xix).
xviii Sintaxe Exegética do Novo Testamento

9 . Prioridade Estrutural
Uma outra tendência entre os gramáticos (seja de grego ou de outra língua)
é de organizar o material a partir da prioridade semântica e não a partir da
estrutural. O foco está em como o propósito, possessão, o resultado, a condi­
ção etc. são expressos, e não sobre as formas usadas para expressar tais no­
ções.

As gramáticas de prioridade semântica são muito úteis para a composição em


uma linguagem viva, não para a análise de um pequeno corpus de uma lín­
gua morta. Isso não significa que tal abordagem não apareça em uma gra­
mática de grego antiga, mas que uma gramática intermediária e exegética
tem mais utilidade se organizada pelos aspectos morfossintáticos.

Prevê-se que o usuário médio dessa obra terá pouca habilidade ou a incli­
nação em pensar que descobrirá o porquê de tal forma ter sido usada em
certo texto grego neotestamentário. No entanto, esse usuário deve ser capaz
de reconhecer tais formas à medida que ocorrem no NT Grego. Quando, por
exemplo, encontrar-se com um Iv a ou um infinitivo articular genitivo no
texto, a primeira questão a ser feita não deve ser: "Qual o propósito de isso
ter sido usado no grego?", mas "Como essa palavra foi usada aqui?". As
questões iniciais são quase sempre ligadas à forma. O valor de uma gramáti­
ca exegética está relacionado à sua utilidade exegética, pois a exegese co­
meça com as formas encontradas no texto, para depois se reportar aos seus
conceitos. Isso é o que faz uma gramática exegética.

Uma conseqüência prática de um esquema de prioridade estrutural é: a se­


ção sobre sintaxe das orações será relativamente pequena comparada à sin­
taxe dos substantivos e verbos.

10. Breve Material Sobre Categorias Léxico-Sintáticas

Certas categorias morfossintáticas envolvem considerável número de


lexemas (tais como substantivos, adjetivos e verbos). Aqueles que possuem
determinados lexemas são categorias léxico-sintáticas. É nossa convicção que
as obras-padrão lexicográficas, v.g., tais como o BAGD, já têm tanto um
tratamento admirável de tais categorias fáceis de localizar (ou seja, em
ordem alfabética) quanto ricos dados bibliográficos, variantes textuais e
discussões exegéticas (não obstante, concisas).16 Além do que, qualquer
interessado em sintaxe exegética não precisa sentir-se desafiado a adquirir
um léxico. Esta é (ou deveria ser) uma das ferramentas mais acessíveis na
biblioteca de um exegeta.

16 Uma exceção é a introdução sobre o artigo. Visto que o artigo é, sem dúvida, a
palavra mais importante no NT (ocorrendo cerca de duas vezes mais que seu competidor
mais próximo, K m ) , ele requer um tratamento gramatical um tanto detalhado.
Prefácio xix

À luz dessas considerações, pareceu-me supérfluo duplicar todo o material


já encontrado no léxico.17 Assim, nossa discussão sobre as categorias léxico-
sintáticas envolverá: (1) um esboço dos usos terminológicos consistentes com
o resto da obra; (2) poucas discussões detalhadas de passagens
exegeticamente significantes; e (3) princípios gerais úteis às maiores
categorias sintáticas a que certa categoria específica léxico-sintáticas pertença
(e.g., tipos de conjunções, observações gerais sobre preposições etc.).

11. O Esquema

Esse texto foi esquematizado para diversos usuários, desde o aluno inter­
mediário, que ainda percebem suas limitações de inexperientes, até pasto­
res experimentados que vivem sob o texto grego.

• As ilustrações são dadas tanto no grego quanto em português, com re­


levantes formas sintáticas realçadas.

• Há pelo menos três níveis de discussão em sintaxe exegética.

1) O mais simples é o " Sumário Sintático". Quase todo o sumário sin­


tático inclui título da categoria, breve definição e glossário
transicional (chamado de "Chave para Identificação".). Nenhum
exemplo ou discussão exegética ou lingüística será encontrado aqui.
Esse é um esboço do livro, feito para despertar a memória daque­
les que têm trabalhado as categorias.

2) O nível intermediário é encontrado normalmente no corpo do li­


vro. Isso inclui especialmente definições e ilustrações, assim como
as discussões da semântica de muitas categorias.

3) O nível avançado se acha em menor escala. Isso inclui especial­


mente as notas de rodapé. Muitas destas ampliam as discussões ex­
tensivas da sintaxe. As discussões exegéticas de passagens seletas
serão também colocadas nessa parte. O estudante intermediário é
encorajado a lê-las (nem que seja de forma dinâmica) à medida que
essas passagens sirvam de motivação como modelos da sintaxe
exegética.18

17 As gramáticas mais antigas (tais como a de Robertson) gastam uma quantidade


exorbitante de espaço em categorias léxico-sintáticas. Tal deve-se à inexistência de léxicos
atualizados e compreensíveis. Curiosamente, muitas gramáticas recentes têm a mesma
abordagem, mas sem a mesma necessidade.
18Algumas discussões exegéticas, porém, são muito complexas. Essas discussões podem
ser lidas de forma rápida pelo aluno intermediário.
XX Sintaxe Exegética do Novo Testamento

• Finalmente, o índice bíblico preocupa-se especialmente com o trabalho


pastoral. Em lugar de alistar simplesmente os textos encontrados no corpo
da obra, aqueles que receberem amplo tratamento (especialmente de
natureza exegética) serão destacados.

II. Como Usar Este Texto na Sala de Aula


(ou, Uma Defesa da Extensão da Sintaxe Exegética)
Não escrevi essa obra para lingüistas, embora use a lingüística. Não escrevi para
aqueles cujo interesse no NT é simplesmente a tradução, embora deva ajudar nesse
sentido.19 Eu escrevi para aqueles que estão preocupados com a interpretação, a
exegese e a exposição do texto. Essa obra foi planejada visando à inclusão de uma
variedade de usuários: estudantes de grego intermediário, avançado, expositores bí­
blicos e qualquer pessoa para quem o grego se tornou como um publicano ou um
gentio! Em suma, essa obra é estruturada tanto para sala de aula quanto para os
estudos pastorais.

A tremenda intimidação pode passar a idéia prima facie que não tenho experiência de
sala de aula! Alguns professores de grego intermediário se preocupariam sobre tal
extensão, sentindo-se incapaz de cobrir todo esse material em um curso de um se­
mestre. Uma explicação sobre seu tamanho, bem como os indicadores de como pode
ser usada em tempo tão curto, serão dispostos para verificação.

Muito sobre a extensão da obra deve-se a vários aspectos, nem sempre achados em
uma gramática de grego intermediário:

• 1. Abundância de exemplos, esboçados em formato de fácil leitura


• 2. Notas de rodapé relativamente extensas
• 3. Inúmeros quadros e tabelas
• 4. Discussões de passagens exegeticamente significativas
• 5, Análise do uso de categorias raras
• 6. Discussões da semântica

Como você pode ver, nem tudo do extenso material extra gera dificuldade. Os qua­
dros e as ilustrações extras, em particular, devem tornar os esforços de sala de aula
mais fáceis. (Por analogia, o livro Basics ofBiblical Greek de William Mounce [Funda­
mentos do Grego Bíblico, publicado pela Zondervan] é muito mais que uma gramá­
tica média para o primeiro ano e está cheia de muitas informações pedagógicas im­
portantes de maneira que seu tamanho ajuda nas instruções em vez de prejudicar.) A
fim de cobrir o material em um semestre, devo encorajá-lo a seguir as primeiras duas
sugestões. Se o semestre estiver cheio de outras tarefas, as sugestões três e quatro
necessariamente seriam implementadas.

19 Geralmente, cursos de seminários são oferecidos tendo a exegese em sua grade,


enquanto cursos em faculdades focam mais especificamente sobre a tradução (N.T.: Nos
EUA, seminários ensinam cursos de pós-graduação; enquanto faculdades, graduação).
Prefácio xxi

1) O estudante intermediário precisa ignorar todas as notas de rodapé. Os rodapés


foram planejados para professores e estudantes no nível avançado.

2) O estudante pode ler rapidamente os usos de categorias mais raras. Algumas


categorias são tão raras que é bom só saber da sua existência e usar a gramática
como uma ferramenta de referência mais tarde. Não as discuta ou questione
exageradamente. O estudante tem simplesmente que ler o material para exposi­
ção e parar por aí. Desse modo, o professor poderia dizer ao aluno que note os
sumários e marque seus textos adequadamente.20 As categorias mais comuns
serão notadas com uma seta na margem esquerda. Desenvolva o hábito de
verificá-las.

3) Alguns que ensinam o grego intermediário podem querer que os alunos igno­
rem ou leiam rapidamente as discussões exegéticas (Logo abaixo se acham mui­
tos exemplos). Pessoalmente, penso que isso é um importante aspecto que moti­
vará os estudantes. No entanto, você pode discordar fortemente de minha exegese
e não quererá que seus alunos sejam expostos a ela.21

4) Alguns professores (especialmente no nível universitário) desejarão que seus


alunos ignorem tudo, menos as definições, as chaves para identificações e as
ilustrações claras. O resto do material poderia ser usado como referência.22

A abordagem sugerida que implementa as primeiras duas sugestões acima é a


seguinte. Os estudantes devem ler três vezes o material diário. A primeira leitura
(ou leitura dinâmica) tem o propósito de adquirir uma visão do todo e familiarização
com o material. A segunda leitura, a memorização das definições e de uma ou duas
ilustrações. A terceira leitura, revisar e refletir, especialmente sobre as discussões
mais profundas. Isso deve ser seguindo pela recapitulação semanalmente do material.

Em suma, há muitas abordagens que podem tornar-se viável em um único semes­


tre. E possível que, no término do semestre, o aluno não domine, ou pense que não
domina, completamente a Sintaxe Exegética, porém, mesmo assim, tal conhecimento
ainda terá sido de algum valor no processo.23

20 Uma exceção geral a essa abordagem envolve as raras categorias que são muitas
vezes requisitadas em comentários (e.g., dativo de agência, particípio imperatival). Tais
deveriam ser reconhecidas se, e somente se, ajudarem o aluno a ser mais crítico dos usos
exagerados em obras exegéticas. Muitas dessas categorias abusadas são destacadas por
uma espécie de cruz na margem esquerda.
21 Cursos de faculdades que focalizam a tradução tipicamente lerão de forma rápida
as questões exegéticas.
22 Ao usar a gramática desse modo, o aluno realmente apreenderá menos material do
que é achado em algumas das gramáticas intermediárias mais abreviadas.
23 Uma das razões para o tamanho dessa obra tem a ver com seu amplo propósito. Este
livro tem o propósito de resolver duas deficiências: a primeira entre os livros-texto do
primeiro ano tal como Basics ofBiblical Greek e as referências-padrão, tais como o BDF, e a
outra entre a sintaxe e a exegese. Tudo contribui para a extensão da obra. Qualquer abre­
viação significante teria prejudicado esse objetivo duplo.
xxii Sintaxe Exegética do Novo Testamento

III. Reconhecimentos

Como esse texto tem sido usado, pelo menos em seu esboço, há mais de 15 anos,
minha dívida de gratidão constitui-se em uma longa lista.
Primeiro, sou grato a meus alunos que por anos trabalharam com esse material, res­
pondendo a provas e testes, e que, gentilmente, corrigiram muitos dos meus equí­
vocos, e me encorajaram a publicar tal obra. A lista inclui os alunos de grego inter­
mediário do Seminário de Dallas (1979-81), os alunos de grego intermediário do
Grace Seminary (1981-83) e os alunos de gramática grega avançada do Seminário
de Dallas (1988-94).
Agradecimentos são também devidos à Pamela Bingham e à Christine Wakitsch que
digitaram um arquétipo da obra no computador para o uso em sala. Sua pertinente
exatidão me impulsionou a focalizar-me no conteúdo e não na forma.
Kíiòoç é devido aos seguintes "guerreiros" selecionados a dedo: Mike Burer, Charlie
Cummings, Ben Ellis, Joe Fantin, R. Elliott Greene, Don Hartley, Greg Herrick, Shil
Kwan Jeon, "Bobs" Johnson, J. Will Johnston, Donald Leung, Brian Ortner, Richard
Smith, Brad Van Eerden, e "Benwa" Wallace. Esses homens buscaram ilustrações,
checaram as referências, examinaram manuscritos fac-símiles e textos gregos para
variantes, reuniram tanto dados primários quanto secundários, preparam os índi­
ces e ofereceram muitas críticas e contribuições valiosas. Muitos desses alunos fo­
ram internos entre 1993 e 1996 no Seminário de Dallas. Outros foram amigos inte­
ressados que dedicaram seus esforços amorosos pela sintaxe e exegese no NT.
Reconhecimentos também são devidos aos "atletas" que examinaram o penúltimo
esboço durante o ano escolar de 1994-95. Especialmente destacam-se: Dr. Stephen
M Baugh, Dr. William H. Heth e Dr. Dale Wheeler.
Tenho recebido auxílio em cada passo do processo por bibliotecários e bibliotecas.
No topo da lista estão: Teresa Ingalls (Bibliotecária de empréstimo entre bibliote­
cas) e Marvin Hunn (Bibliotecária assistente) da Biblioteca Turpin, Seminário de
Dallas. Em adição, fui auxiliado consideravelmente pelas pesquisas na Tyndale
House em Cambridge, Inglaterra, Biblioteca da Universidade de Cambridge, Bibli­
oteca Morgan do Grace Seminary (particularmente útil foi Jerry Lincoln, bibliotecá­
rio assistente), e mais que meia dúzia de outras escolas e bibliotecas.
Essa gramática não teria sido possível sem o acCordance, um software para Macintosh
(vendido pelo Instituto Gramcord, Vancouver, WA) que efetua pesquisas sofistica­
das sobre morfologia grega do NT (Nestle-Aland26), assim como a hebraica no AT
(BHS) e na LXX (Rahlfs). Essa ferramenta de renome tem sido um sine qua non na
escrita dessa gramática. Não somente providenciou muitas estatísticas, mas também
se mostrou valioso ao trazer à tona várias ilustrações. Devo agradecer especialmen­
te a James Boyer, que lidou com o grego do NT. Paul Miller, o mentor do programa
original do Gramcord para DOS e Roy Brown que desenvolveu a versão para
Macintosh.
Devo manifestar minha apreciação pelo falecido Philip R. Williams, cuja Grammar
Notes on the Noun and Verb envolve, inter alia, definições cristalinas. De fato, origi­
nalmente meu esforço literário sobre sintaxe constitui-se apenas de notas de sala cujo
Prefácio xxiii

objetivo era que servissem de suplemento às notas de William. Dr. Williams. Sua
estabilidade no Seminário de Dallas sobrepujou a minha e impactou meu pensamen­
to sobre sintaxe substancialmente.
A herança de William continua no Seminário de Dallas onde todo o Departamento
de Estudos no NT tem sido configurado e reconfigurado em suas Notas de Sintaxe
Grega (GSN - Greek Syntaxe Notes, em inglês) para uso em sala de aula. As contri­
buições para essa obra vieram de muitas mentes durante vários anos. O GSN tem
sido parte inerente do grego intermediário no Seminário de Dallas por décadas pas­
sadas, bem como muitas das ilustrações e definições, tem feito seu caminho dentro
da urdidura e trama da Sintaxe Exegética. Eu posso somente expressar minha dívida
com o departamento por seu claro pensamento de grupo acerca da sintaxe do NT.
À minha esposa, Pati, aquela que possui os pés no chão, eu sou muito grato por seu
encorajamento em publicar minhas notas. Mais que qualquer outra pessoa, ela tem
me estimulado, induzido e persuadido para que esse material atingisse confins além
da sala de aula.
Eu sou grato ao meu amigo de infância, Bill Mounce por seu entusiasmo contagiante
e por suas sugestões a fim de que esse livro fosse publicado na série sobre grego
bíblico da Zondervan. Agradeço também a Bill pela composição final deste livro.
Sou grato também às ajudas graciosas oferecidas por todos da Zondervan Publishing
House: a Ed Vandermaas, Stan Gundry e Jack Kragt, por seus incalculáveis
encorajamentos desde o início; e especialmente a Verlyn Verbrugge, o editor da obra,
cujos olhos de águia viram o projeto até seu fim. A capacidade de Verlyn como revi­
sor, editor, lingüista, erudito de grego e exegeta, felizmente ligado a seu afável com­
portamento, tem lhe concedido o caráter de editor ideal para me auxiliar, mesmo
diante da minha, constante, mesquinhez.
Pelo apoio financeiro que recebi para o término dessa obra, eu desejo agradecer espe­
cialmente a dois institutos: Seminário de Dallas, por me outorgar tanto um ano sabático
quanto uma licença para estudo (1994-95); e ao Biblical Studies Foundation (Funda­
ção para Estudos Bíblicos), por sua contribuição um tanto generosa para com minha
viagem para a Inglaterra na primavera de 1995. Além disso, muitos, muitos amigos
têm nos sustentado financeiramente em todos estes anos, na esperança que este livro
fosse finalmente publicado. A vocês, dedico uma palavra especial de gratidão.
Finalmente, expresso minha mais profunda apreciação a dois homens que muito têm
me instigado e me conscientizado dos ricos detalhes do grego do NT: Dr. Buist M.
Fanning III e falecido Dr. Harry A. Sturz. Dr. Sturz, meu primeiro professor de grego
(Biola University), guiou-me por vários cursos de gramática grega e criticismo textu­
al, incluindo um longo ano de estudo independente sobre solecismos do Apocalipse.
Embora, muito amável, Dr. Sturz nunca falhou em criticar meu esforço, moderando
minha imaturidade exuberante. Tal integridade foi somente igualada por seu pró­
prio espírito de humildade. E Dr. Fanning que me instruiu na gramática grega avan­
çada no verão de 1977, no Seminário de Dallas. Ele continua a exercer uma influência
sóbria sobre mim visto que tem modelado tanto meu pensamento sobre sintaxe - sua
marca é certamente sentida praticamente sobre cada página dessa obra. Embora ele
se considere um simples colega, eu sempre o considerei meu mentor em assuntos
gramaticais.
xxiv Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Alguém poderia ser tentado a pensar que com tamanha nuvem de testemunhas, essa
obra deveria ser um marco, apontado uma nova era nos estudos gramáticas do Gre­
go! Um rápido exame do livro rapidamente dissipará essa noção. Eu não possuo tal
ilusão de grandeza para esse volume. Enfim, a responsabilidade de dar forma e con­
teúdo a essa obra pertence a mim. Os maiores equívocos certamente são devidos à
minha natureza obstinada e fragilidade mente. Essa teimosia lança meus defeitos em
minha própria face. Tal fragilidade põe-me mais a par do que sou agora. No entanto,
espero que essa Sintaxe Exegética traga alguma contribuição, encorajamento e moti­
vação àqueles que manuseiam o sagrado texto a fim de perscrutar a verdade - mes­
mo não considerando seu próprio prejuízo.
áY cú v iaca n ep l xfjç à lq G e ía ç

- Sirach 4:28
Lista de Ilustrações
Tabelas
1. Nível Literário de Autores do N T ..........................................................................30
2. Sistema de Cinco Casos vs. Sistema de Oito Casos.............................................34
3. Semântica da Construção Plural Pessoal ASKS.................................................283
4. Tipos de Substantivos Usado Na Construção PluralPessoal [ASKS] 283
5. As Funções do Adjetivo..........................................................................................292
6. Posições Atributiva e Predicativa do Adjetivo................................................... 309
7. Como Agência é Expressa no N T .........................................................................432
8. A Semântica dos Modos Comparados................................................................. 446
9. Tempo Verbal no Português no DiscursoDireto e Indireto.............................. 457
10. A Semântica das Questões Deliberativas............................................................ 466
11. As Formas do Particípio Perifrástico................................................................... 648
12. A Estrutura das Condicionais............................................................................... 689

Quadro24
1.A Natureza Multiforme do Grego do N T ............................................................. 28
2.Freqüência das Formas de Casos no N T ............................................................... 31
3.Freqüência de Casos no NT (Nominativo)........................................................... 37
4.Relação Semântica do Sujeito e o Predicado Nominativo................................. 42
5.Freqüência de Casos no NT (Vocativo)..................................................................66
6.Freqüência de Casos no NT (Genitivo)..................................................................73
7.A Relação do Genitivo Descritivo com Vários Outros
Usos do Genitivo........................................................................................................ 80
8. A Semântica do Genitivo Atributivo.......................................................................86
9. Um Diagrama Semântico do Genitivo Atributivo e do
Genitivo Atribuído..................................................................................................... 89
10. Genitivo de Conteúdo vs. Genitivo de Material...................................................93
11. Genitivo de Aposição vs. Genitivo em Simples Aposição..................................97
12. Diagrama do Genitivo Subjetivo e Objetivo........................................................118
13. Frequência de Casos no NT (Dativo)....................................................................138

24 Estamos usando o termo "Quadro" de forma solta, incluindo quadros, diagramas,


figuras, e certamente tudo que não seja tabela.

xxv
xxvi Sintaxe Exegética do Novo Testamento

14. Frequência de Casos no NT (Acusativo).............................................................179


15. A Semântica da Construção Objeto-Completo................................................... 185
16. Os Casos Usados para Tempo............................................................................... 203
17. As Forças Básica do Artigo.................................................................................... 210
18. O Artigo Individualizante vs. Genérico..............................................................227
19. As Relações Semânticas do Artigo Individualizante........................................230
20. Quadro do Fluxo do Artigo com Substantivos..................................................231
21. A Semântica dos Nomes Anarthros.......................................................................243
22. A Semântica dos Nomes Indefinidos..................................................................... 244
23. A Semântica dos Nomes Qualitativos................................................................... 244
24. A Semântica dos Nomes Genéricos........................................................................ 244
25. A Semântica dos Nomes Definidos........................................................................ 245
26. Os Diferentes Dados para a Regra de Colwell vs.
A Construção de Colwell........................................................................................ 262
27. O Alcance Semântico do Nominativo Predicativo Anarthro.........................263
28. Grupos Distintos, embora Unidos [Construção Pessoal Plural ASKS] 279
29. Grupos Justapostos [Construção Pessoal Plural ASKA] .................................. 280
30. Primeiro Grupo Subconjunto do Segundo
[Construção Pessoal Plural ASKS]..........................................................................280
31. Segundo Grupo Subconjunto do Primeiro
[Construção Pessoal Plural ASKS]......................................................................... 281
32. Grupos Idênticos [Construção Pessoal Plural ASKS]........................................ 282
33. O Alcance Semântico das Formas do Adjetivo.................................................. 305
34. Freqüência das Classes de Pronomes no N T...................................................... 320
35. Freqüência de Pronomes no N T ............................................................................354
36. Freqüência de Preposições no N T .........................................................................357
37. As Funções Espaciais das Preposições................................................................ 358
38. Justaposição Semântica entre Caso Simples e a Preposição + C ase............... 362
39. Justaposição nos Usos de ’Auií e Yirép .............................................................. 387
40. O Escopo do "Nós" no NT.......................................... 394
41. A Direção da Ação nas Vozes Gregas...................................................................409
42. Estatística da Voz no N T .........................................................................................410
43. Os Modos Visto em Dois Contínuos.....................................................................446
44. Freqüência dos Modos no N T ............................................................................... 447
45. Justaposição Semântica do Subjuntivo e Optativo............................................ 462
46. Frequência Relativa de Tempos no N T ................................................................496
47. Semelhanças de Tempo-Aspecto no Presente & Imperfeito Indicativo 508
48. A Força do Presente Instantâneo...........................................................................517
49. A Força do Presente Progressivo.................. 518
50. A Força do Presente Estendido do Passado.........................................................520
Lista de Ilustrações xxvii

51. A Força do Presente Iterativo.................................................................................. 521


52. A Força do Presente Costumeiro............................................................................ 522
53. A Força do Presente Gnômico................................................................................. 524
54. A Força do Presente Histórico................................................................................. 528
55. A Força do Presente Perfectivo............................................................................... 532
56. A Força do (Verdadeiro) Presente Conativo......................................................... 534
57. A Força do Presente Tendencial.............................................................................. 535
58. A Força do Presente Completamente Futurístico................................................ 536
59. A Força do Presente na Maior Parte Futurístico.................................................. 537
60. A Força Básica do Imperfeito...................................................................................541
61. A Força do Imperfeito Instantâneo........................................................................ 542
62. A Força do Imperfeito Progressivo.........................................................................543
63. A Força do Imperfeito Ingressivo............................................................................545
64. A Força do Imperfeito Iterativo.............................................................................. 547
65. A Força do Imperfeito Costumeiro.........................................................................548
66. A Força do (Verdadeiro) Imperfeito Conativo..................................................... 550
67. A Força do Imperfeito Tendencial.......................................................................... 551
68. A Força do Aoristo Indicativo..................................................................................556
69. A Força do Tempo Futuro........................................................................................ 567
70. A Força do Perfeito.................................................................................................... 574
71. A Força do Perfeito Intensivo...................................................................................576
72. A Força do Perfeito Extensivo..................................................................................577
73. A Força do Perfeito Dramático.................................................................................578
74. O Perfeito com Força do Presente.......................................................................... 579
75. O Perfeito Aorístico e o Perfeito com Força do Presente Comparado 579
76. A Força do Mais-que-Perfeito...................................................................................583
77. A Força do Mais-que-Perfeito Intensivo................................................................ 584
78. A Força do Mais-que-Perfeito Extensivo............................................................... 585
79. O Alcance Semântico do Infinito.................................. 590
80. O Tempo nos Particípios...........................................................................................614
81. O Alcance Semântico do Particípio........................................................................ 616
82. Os Tempos dos Particípios Adverbiais...................................................................626
83. A Justaposição Semântica dos Particípios de Propósito e Resultado...............638
Abreviações
AB Anchor Bible

Abel, Grammaire Abel, F.-M. Grammaire du grec biblique:


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gicamente classificado (texto Nestle-
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Instituto Gramcord, Vancouver, WA, e
programado por Roy Brown.

ACF Almeida Corrigida Fiel

AJP American Journal ofPhilology

ARA Almeida Revista e Atualizada

ARC Almeida Revista e Corrida

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NIBC N ew In tern atio n al B iblical


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NICNT New International Commentary on the


New Testament

NIGTC New International Greek Testament


Commentary

NKJV New King James Version

NVI Nova Versão Internacional

NIV New International Version

nom. nominative

NovT Novum Testamentum

NRSV New Revised Standard Version


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TNTC Tyndale New Testament Commentaries

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TynBul Tyndale Bulletin


3
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VE Vox Evangélica

v.l.(l) Variante (s) textual (s)

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WBC Word Biblical Commentary

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Zerwick, Biblical Greek Zerwick, M. Biblical Greek Illustrated by


Examples. Rome: Pontificii Instituti
Biblici, 1963.

ZNW Zeitschrift fü r Neutestamentliche Wissen-


schdft

,1, Categoria Abusadas que o estudante


deveria estar a par

Categorias comuns que os estudantes de­


vem saber.
A Abordagem deste Livro
À luz da influência, há mais de três décadas, da lingüística moderna nos estudos
bíblicos e diante da discordância substancial entre vários especialistas em lingüísti­
ca quanto a: terminologia, metodologia e objetivos, é importante declarar desde o
início da presente obra qual abordagem à sintaxe será seguida. A sintaxe do Grego
do NT será examinada com oito considerações metodológicas em mente. Muitas
destas parecerão auto-evidentes, contudo muitas surpreendentemente têm sido vio­
ladas pelos estudos gramaticais e exegéticos do século XX (alguns dos quais foram
bem angariados).1 Outrossim, mantenhamos em mente que está é uma sintaxe
exegética, assim, nosso alvo será descrever o valor da gramática para a interpretação
do texto bíblico.2

1. Dados Básicos Suficientes


Qualquer declaração significante quanto à semântica de dada construção ne­
cessita de bases substanciais. Declarações do tipo: "Todos os exemplos claros de
tal construção no NT significa X" são indignas de confiança em si mesmas. Di­
zer, e.g., que: "Não há aparamente nenhum, no NT, Infinitivo Aoristo no dis­
curso indireto usado de forma direta como Aoristo do Indicativo",3 ou então
que: "yeuaa|j,[évoi)<;] [em Hb 6:4] e em outras passagens, [significa] conhecer
por experiência própria [como o oposto do mero experimento]" não faz sentido
se há somente dois exemplos da palavra ou construção em questão no NT.4 Isso
não é tão diferente de dizer algo como: "Todos os índios andam em fila única.
Pelo menos os que eu vi andando". 5 De modo algum, tais declarações são en­
ganosas por pressuporem freqüentemente o valor intrínseco da construção em
consideração.

1 Os critérios adotados aqui são, em grande parte, auto-evidentes de um ponto de


vista lingüístico, lógico ou empírico. Cf. D. A.- Carson, Exegetical Fallacies (Grand Rapids:
Baker, 1984) para várias ilustrações, em larga escala, das considerações metodológicas
que devem ser levadas em conta quando se faz exegese.
2 Esse capítulo visa primariamente a professores e estudantes avançados. Estudantes
intermediários deveriam normalmente começar com o capítulo seguinte.
Este capítulo é uma adaptação de D. B. Wallace: "O Artigo com Múltiplos Substanti­
vos Conectados por Kou no Novo Testamento: Semântica e Significância" (Tese de Ph.D.,
Seminário Teológico de Dallas, 1995) 8-23.
3 E. D. W. Burton, Syntax ofthe Moods and Tenses in New Testament Greek, 3d ed. (Chi­
cago: University of Chicago, 1900) 53, §114. Burton não provê nenhum dos dados. Toda­
via, essa visão do infinitivo aoristo é assumida com freqüência na exegese de Ef 4:22,
como se a questão do cnro0éa8ca fosse estabelecido desse modo.
4 M. Dods, "The Epistle to the Hebrews," vol. 4 in The Expositor's Greek Testament (ed.
W. R. Nicoll; New York: Dodd, Mead & Co., 1897) 296. Cf. P. E. Hughes, A Commentary on
the Epistle to the Hebrews (Grand Rapids: Eerdmans, 1977) 209, para um comentário se­
melhante.
5 Uma ilustração freqüentemente repetida por A. Duane Litfin, um de meus profes­
sores, em seus cursos de homilética no Seminário de Dallas.

1
2 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

2. Situação Semântica de Exemplos Incontestáveis é um Pré-


requisito

Qualquer padrão semântico (i.e., o que chamaremos de "situação semântica"6)


dos exemplos incontestáveis precisa ser analisado antes das passagens
disputáveis serem consideradas. Só a partir de significados claramente estabe­
lecidos, a análise deverá ser conduzida. A exegese responsável tem sempre re­
conhecido esse princípio, mas nem sempre tem atentado aos seus detalhes. Di­
zer, v.g., que a primeira pessoa do presente em Rm. 7:14-25 é um presente histó­
rico ignora o padrão semântico dessa categoria de uso que diz: das centenas de
presentes históricos indisputáveis no NT, todos se encontram na terceira pessoa.
Ou para simplificar, sem comentar, ópYÍ.Çeo0e em Ef. 4:26 como um imperativo
condicional7 é uma pressuposição tácita, pois tal imperativo pode estar ligado
por koú a outro imperativo com força semântica diferente. Contudo não há ne­
nhum exemplo indisputável disso no NT. Qualquer julgamento quanto à se­
mântica das passagens disputadas tem que se basear em exemplos claros para­
lelos, em partes essenciais, da situação semântica da construção em destaque.

3. Significado Não-Afetado vs. Significado Afetado


Ao longo das mesmas linhas, uma distinção cuidadosa precisa ser feita entre os
significados não-afetado [ou ontológico] e afetado [ou fenomenológico] de uma
construção. Por significado "não-afetado", chamamos a construção à parte das
intrusões contextuais, lexicais ou outras interferências gramaticais. O significa­
do afetado diz respeito à construção de exemplos em seu ambiente, i.e., exem­
plos da "vida real". (Essa distinção é semelhante a que existe entre aspecto e
Aktionsart no verbo como notada por muitos gramáticos. A primeira se refere ao
tipo de ação que um tempo verbal exerceria à parte de seu lexema e contexto,
enquanto que a última, ao tipo de ação que um verbo exerceria em combinação
com considerações léxicas e contextuais). Visto que o significado não- afetado
ou ontológico8 é uma abstração que derivada somente da observação dos fenô­
menos, é imprescindível que qualquer dedução acerca da ontologia seja feita
com base em um escrutino cuidadoso e fenômenos representativos.

6 Trata-se da mesma coisa que os lingüistas chamam de "condições ambientais sob a


qual uma regra particular é aplicada" (P. H. Matthews, "Formalization," in Linguistic
Controversies: Essays in Linguistic Theory and Practice in Honour ofF. R. Palmer, ed. D. Crystal
[London: Edward Arnold, 1982] 7). Considerações de aspectos morfossintáticos, de as­
pectos léxico-gramaticais, contexto e gênero (incluindo análise do discurso) e figuras de
linguagem todas contribuem para a situação semântica.
7 Conforme BDF, 195 (§387). Cf. também H. Schlier, Der Briefan die Epheser (Düsseldorf:
Patmos, 1963) 224, n. 3.
8 Por "ontológico" não queremos dizer que esse significado sempre estará presente
em força plena. Esse significado pode ser anulado em certo grau pelas intrusões lexicais,
contextuais ou gramaticais. Não é, pois, o menor denominador comum. Um autor esco­
lhe seu tempo particular por uma razão, assim como escolhe seu modo, raiz lexical etc.
Tudo isso contribui para o significado que deseja expressar. Todos estão, desse modo,
competindo pelo controle. Chamar qualquer um desses de não-violável é desvalorizar a
interação da força semântica em ação.
A Abordagem deste Livro 3

Inúmeras são as ilustrações em estudos gramaticais onde essa distinção não


tem sido observada. Exemplos da miopia semântica aparecem em demasia.
Todavia, o exemplo mais aberrante no estudo do NT seja a ilustração do "latido
do cachorro". Por mais de oitenta anos, os estudantes do NT tinham certo ponto
de vista acerca da semântica das ordens e proibições. Tal visão é freqüentemente
descrita em um breve ensaio escrito em 1904 por Henry Jackson.9 Ele fala de um
amigo, Thomas Davidson, que estava lutando com as ordens e proibições no
grego moderno:

Davidson disse-me que, quando estava aprendendo o grego moderno, ele


estava confuso sobre a distinção entre os imperativos presente e aoristo,
até que ouviu um amigo grego usar o imperativo presente com um cão
que latia. Isso lhe deu uma dica. Consultou ele a Apologia de Platão e ime­
diatamente se esbarrou em um excelente exemplo: o 20 E pq 9opi)Pijar|Te,
usado antes do latido começar, e o 21 E |_nj OopufSeiTe, após o latido ter
começado.10
Essa visão foi divulgada dois anos mais tarde nos Prolegomena de J. H. Moulton,11
em que ele fala do aoristo como proibindo uma ação que ainda não começou e
o presente, uma ação que está em processo. A partir daí a visão do "já/ainda
não" sobre proibições no presente e aoristo seguiu seu caminho em muitas gra­
máticas do NT por várias décadas seguintes.12
O problema principal com tal abordagem foi o copiar um uso fenomenológico
legítimo e pressupor que tais significados afetados expressam a idéia não-afeta-
da ou básica. Essa prova não foi bastante para se tirar conclusões significativas
acerca das diferenças essenciais entre o aoristo e o presente. Um mal entendido
acabava de ser promovido. Quando certas passagens não se encaixavam com
tal visão, passaram a ser ignoradas, abusadas ou chamadas, convenientemente,
de exceções.13

9 "Proibições no Grego," Classical Review 18 (1904) 262-63.


10 Jackson, "Prohibitions in Greek," 263.
11 J. H. Moulton, Prolegomena, vol. 1 of A Grammar ofNew Testament Greek (Edinburgh:
T. & T. Clark, 1906) 122.
12 Dana-Mantey são representativos. Eles definem basicamente cada uso temporal
assim: "(1) Uma proibição expressa no presente exige a cessação de algum ato já em pro­
gresso" (301-2); "(2) Uma proibição no aoristo é um alerta ou uma exortação contra algo
ainda não começado" (302). As qualificações de Brooks-Winbery, 116 são semelhantes.
13 Em 1985 K. L. McKay desafiou essa visão em seu importante ensaio: Aspect in
Imperatival Constructions ín New Testament Greek," NovT 27 (1985) 201-226. Entre outras
coisas, ele produziu muitos exemplos a partir dos quais declarou que "no imperativo, a
diferença essencial entre aoristo e imperfeito é que o primeiro declara uma atividade
como um todo e o último afirma-a como em processo" (206-7). Quer a ação tenha começado
ou não, não faz parte da ontologia nem do tempo do imperativo (cf. Ef 5:18 para o pre­
sente; Jo 3:7 para o aoristo).
Mais tarde, afirmaremos que a importância dessa distinção não foi feita de forma
suficiente por S. E. Porter em sua visão do aspecto verbal. Ou seja, ele não distinguiu
claramente entre o significado afetado e o não-afetado, mas em lugar disso, tentou extra­
ir a idéia não-afetada dos exemplos afetados selecionados.
4 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

4. Prioridade Sincrônica
Desde a gênese da lingüística moderna com o Curso de Lingüística Geral, de
Ferdinand de Saussure,14 muitos lexicólogos e lexicógrafos têm reconhecido a
prioridade da sincronia sobre a diacronia.15 (Sincronia tem a ver com a lingua­
gem na forma como foi usada em determinado tempo. A diacronia, com a lin­
guagem nas formas encontradas em toda a sua história ou, pelo menos, sobre
um longo período de tempo em que foi usada). Alguns gramáticos, notoria­
mente, os do grego antigo, foram lentos na mudança do pólo diacrônico para
o sincrônico.16 Na presente obra, a sincronia terá prioridade sobre a diacronia.
Especificamente, presume-se que a luz irradiada no NT virá muito mais dos
escritos do grego que do período helenístico (aproximadamente de 330 a.C a
330 d.C). Isso não quer dizer que o estudo diacrônico não tenha valor, mas que
os textos sincrônicos serão julgados mais relevantes para os fenômenos sintá­
ticos envolvidos no NT.

Lingüistas, às vezes, exageram na questão da prioridade sincrônica. A analo­


gia de uma partida de xadrez (tornou-se famosa por Sausurre)17 tem sido for­
çada, às vezes, à serviço da sincronia: não é necessário conhecer tudo a priori
para entender a situação da partida no presente. Uma analogia melhor seria a
de um jogo de futebol: embora a importância esteja no placar, o modo como o
gol foi feito, o tempo restante de jogo, qual time está dominando o jogo, o es­
tado da garra dos jogadores, etc., são fatores muito mais vitais para entender
a situação da partida no momento e até mesmo para dar palpites sobre o final
do jogo. Aplicado aos estudos léxico-sintáticos, especialmente no campo bíbli­
co, um entendimento do passado e como esse se relacionado com o presente
é, às vezes, complexo demais para se ter uma figura adequada do presente.
Precisamos destacar que a diacronia é importante para o pesquisador moderno, mas
para o leitor helenístico antigo não.ls A análise diacrônica precisa ser meticulosa­
mente empregada por três razões: (1) há grande escassez do material sobrevi­

14 F. de Saussure, Cours de linguistique générale (Paris: Payot, 1916). A obra foi traduzida
por W. Baskin para o Inglês (New York: Philosophical Library, 1959), no Brasil pela Cultrix
(Sa?o Paulo: Cultrix, 1996). Todas as citações serão da versão inglesa, caso contrário será
notificado.
15 Saussure, General Linguistics, 101-90. Os insights de Saussure (entre outros') foram
aplicados ao criticismo bíblico no volume marcante de James Barr, Semantics of Biblical
Language, onde uma crítica extensa e feroz foi feita a numerosas falácias lingüísticas do
Dicionário Internacional de Teologia do NT.
16 Veja J. P. Louw, "New Testament Greek-The Present State of the Art," Neot 24.2
(1990), para uma breve história da situação. Entre outras coisas, ele aponta que na abor­
dagem etimológica - "deve haver um significado básico de cada palavra ou construção
gramatical que será destacada e explicará todos os usos variados" (161). Isso ainda é
amplamente encontrado nas gramáticas do NT, embora tenha sido abandonado pelos
léxicos do NT.
17 Saussure, General Linguistics, 22-23, 110, e especialmente 88-89.
18 Obras lingüísticas rotineiramente confrontam a análise diacrônica da perspectiva
do leitor antigo. Mas para ignorar a diacronia da perspectiva do leitor moderno quase
tacitamente se pressupõe que a lingüística, pelo menos, tem uma passagem fácil para o
cenário sincrônico que, no máximo, é onisciente.
A Abordagem deste Livro 5

vente da sincronia; (2) todos os nativos falantes do Koinê estão mortos; e (3)
existe, nesse ponto, às vezes, um prévio e profundo entendimento da nature­
za do grego do NT por parte dos pesquisadores.19

5. Prioridade Estrutural
O ponto de partida de nossa investigação está nas estruturas apresentadas, a
partir das quais esperamos extrair nossas conclusões semânticas. O movimen­
to, então, é da estrutura (ou sendo mais específico, da estrutura morfossintática)
para a semântica.20 O início da pesquisa com a semântica e a imposição do
suposto significado sobre a estrutura sob investigação envolvem, até certo pon­
to, uma falácia prescritiva.
Uma das regras mais conhecidas da gramática do NT articulada no século XX
gira em torno de tal abordagem. O que tem sido conhecido como "Regra de
Colwell" foi publicada em 1933, por E. C. Colwell, com o título de "A Definite
Rule for the Use of the Article in the Greek New Testament" (Uma Regra
Definida para o Uso do Artigo no Grego do NT).21 A regra é simplesmente esta:
"Os substantivos definidos que funcionam como predicativos e que precedem
o verbo geralmente são anarthros... tal predicativo que precede o verbo não
pode ser traduzido como substantivo indefinido ou 'qualitativo' somente por
causa da ausência do artigo. Se o contexto sugerir que o predicativo é definido,
deve ser traduzido como substantivo definido...".22 A regra é valida até aí,
embora não tenha relativamente valor para os propósitos sintáticos, uma vez

19 A necessidade de análise diacrônica na sintaxe pode ser ilustrada pelo modo sub­
juntivo. As discussões em muitas gramáticas do NT sobre a condicional de terceira clas­
se pressupõe que os autores helenísticos tinham à sua disposição o modo optativo tão
prontamente quanto tinham o subjuntivo: ou seja, eles tratam a condicional de terceira
como a condição provável, enquanto a condicional de quarta classe é considerada poten­
cial ou possível, (cf., e.g., BDF, 188-89 (§371.2, 4); Robertson, Grammar, 1016-1022; Rader­
macher, Neutestamentliche Grammatik, 160, 174-76. Todavia, não há condicionais de quar­
ta classe completas no NT e somente 68 optativos (de acordo com o texto de Nestle-
Aland26/27). O modelo que as gramáticas do NT seguem é, na realidade, um modelo do
grego clássico, embora, no helenístico, o subjuntivo tivesse invadido amplamente o do­
mínio do optativo. Essa descrição não é completamente válida, pois é por causa do
preconceito de gramáticos que a descrição sincrônica alegada é, muitas vezes, tida como
um modelo absoleto.
20 O insight de L. C. McGaughy, Toward a Descríptive Analysis of Eivai as a Linking Verb
in New Testament Greek (Missoula, Mont.: Society of Biblical Literature, 1972) se baseia
nesse princípio. Nessas mesmas linhas, Haiim B. Rosén (Early Greek Grammar and Thought
in Heraclitus: The Emergence of the Article [Jerusalem: Israel Academy of Sciences and
Humanities, 1988]) observou: "Enquanto a análise gramatical é estritamente empírica e
objetiva, o próximo passo, o da determinação. . . do conteúdo conceituai ou de noção de
elementos significativos, em lugar de elementos formais no ambiente onde são significa­
tivos, não o é. . ." (30). Meu método tem maior semelhança com este do que com o de
muitos lingüistas.
21 E. C. Colwell, "A Definite Rule for the Use of the Article in the Greek New
Testament," JBL 52 (1933) 12-21.
22 Ibid., 20.
6 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

que pressupõe certa força semântica sobre o predicativo em questão.23 Colwell


não começou com a estrutura (predicativo anarthro (sem artigo) antes de verbo
de ligação, mas com a semântica (predicativo definido). E bastante aceito que
(até mesmo por Colwell) que "o aumento da definição do predicativo antes
do verbo sem artigo..." 24 seja atribuído a seu estudo. Isso chegou a ponto de
que todo predicativo precedente de um verbo de ligação fosse, muitas vezes,
visto como normalmente definido.25 Esse tipo de conclusão pressupõe que o
inverso da regra seja tão válida quanto a regra em si. Aceitá-lo é o mesmo que
dizer: "Sempre que chove há nuvens no céu; portanto, sempre que há nuvens
no céu está chovendo".26 Uma abordagem sintática não deve falsificar um
significado semântico sobre tal estrutura cujo número de amostras examinadas
for mínimo, pelo contrário, deve investigar todas as estruturas morfossíntáticas
relevantes para, a partir daí, tirar as conclusões sobre a semântica.
Surpreendentemente, assim como a falácia prescritiva é um anátema para o
lingüista moderno, muito da lingüística é gerada por uma forma sofisticada de
prescrição.27 O fazer lingüística é uma profissão de risco (especialmente falando

23 O legado de Colwell está mais no campo de criticismo textual que na gramática.


Sua regra é valiosa, como ele notou (ibid., 20), para o criticismo textual (pois uma vez
que é determinado que um predicativo antes da cópula será definido, uma leitura anarthra
deve ser preferida a outra que seja articular). Todavia Colwell cria que era ainda mais
valiosa como regra sintática (ibid.)
24 Ibid., 21.
25 Cf., e.g., Turner, Grammatkal Insights, 17; Zerwick, Biblical Greek, 56; L. Cignelli e
G. C. Bottini, "UArticolo nel Greco Biblico," Studium Biblicum Franciscanum Liber Annuus
41 (1991) 187.
26 Conservadores teológicos têm especialmente aplicado o inverso da regra a Jo 1:1
(cf., e.g., B. M. Metzger, "On the Translation of Jo 1:1," ExpTím 63 [1951-52] 125-26; entre
Cátolicos Romanos, cf. Zerwick), não presumindo que Colwell assumiu a definição de
0eóç (Colwell, "Definite Rule," 20). Sua regra não fez nada para demonstrar isso. Para
uma crítica útil à "Regra de Colwell" veja P. B. Harner, "Qualitative Anarthrous Predicate
Nouns: Mc 15:39 e Jo 1:1," JBL 92 (1973) 75-87.
27 Os lingüistas geralmente são cautelosos e evitam expressões tais como "gramática
correta" e "gramática incorreta". Por cautela, eles são capazes de evitar (em suas men­
tes) qualquer noção de gramática prescritiva. Falar, porém, de uma construção particu­
lar como "não-gramatical" ou "não-grega" porque ela não se conforma à percepção do
lingüista do que pode ocorrer na língua sob consideração é uma visão prescritiva da
língua.
Embora seria um erro falar da língua em termos de "bom" e "mau" em nivel absolu­
to e diacrônico, há um senso em que as convenções de tempo-espaço da comunicação, de
fato, realmente ditam o que é bom e mau na língua. Em grande escala, a questão de boa
ou má gramática são ligadas ao (1) nível da língua (seja vulgar, coloquial ou literário),
(2) à competência de quem fala e da audiência, (3) à definição do discurso e assim por
diante. (Assim um palestrante na Academia Brasileira de Letras certamente seria ridicu­
larizado por usar "nós vai" ou "agente somos" e "Vistos nesa perspectiva, embora al­
guns dos solecismos do Apocalipse possam ocasionalmente apresentar paralelos com
outras literaturas gregas, é uma questão inteiramente diferente chamar tais peculiarida­
des de grego normal (contra S. E. Porter, "The Language of the Apocalypse in Recent
Discussion," NTS 35 [1989] 582-603; Young, Intermediate Greek, 13).
A Abordagem deste Livro 7

dos semanticistas), visto que significado e previsibilidade são sua matéria-prima


diária. David Crystal acusa no prefácio do ensaio (Festschríft) que editou,
Linguistic Controversies (Controvérsias na Lingüística), que "o processo da teoria
da construção e dos arquétipos tem deixado pesquisas empíricas bem atrás: a
necessidade de melhores dados básicos é uma das principais conclusões de mais
da metade dos capítulos desse livro...".28 Ian Robinson, em seu ataque a
lingüística de Noam Chomsky,29 declara que:
Ele [Chomsky] sempre escreve como se todas as regras fossem matematica­
mente precisas. O perigo óbvio disso é que a gramática torna-se logicamente
analítica, em lugar de ser um referencial para a linguagem. Se a linguagem
não encaixa os sistemas bem definidos de regras, deve ser vista como não-
gramatical. Assim, as regras precedem a linguagem e voltam a ser
prescritivas.30
As grades das estruturas semânticas, na realidade, envolvem algo como um
aspirai hermenêutico. Enquanto a "gramática tradicional é amplamente descri­
tiva e, na maioria das vezes, provê pouco mais que nomes prescritos para as
construções"31 e, às vezes, amplas ilustrações, as modernas abordagens lingüís­
ticas são freqüentemente prescritivas, impraticáveis e falhas no conteúdo. Em­
bora o alvo da sintaxe seja acertar o significado de determinadas estruturas, tal
alvo deve ser baseado, pelo menos, nos fenômenos representativos. Em suma, a
sintaxe tradicional (e formal), muitas vezes, é insuficiente no sentido que não
procura o significado. A semântica moderna freqüentemente é insuficiente no
sentido de que não é uma base empírica adequada.32

6. A Natureza Crítica da Linguagem


A linguagem, por natureza, é compacta, crítica e simbólica. Pode-se ver isso
em diversos níveis. Palavras soltas podem não significar nada, pois não

28 Controvérsias Lingüísticas, xi. Veja também S. C. Dik, Coordination: Its Implication for
the Theory of General Linguistics (Amsterdam: North-Holland, 1968) 5.
29 Ian Robinson, The New Grammarians' Funeral: A Critique ofNoam Chomsky's Linguistics
(Cambridge: CUP, 1975). Embora há duas décadas, esse opúsculo ainda é leitura valio­
sa, pois traz muito senso comum ao cenário lingüístico.
30 Ibid., 21.
31 Louw, "Present State," 165.
32 As vezes, os métodos mais antigos não foram abandonados por causa do princí­
pio, mas por causa da conviniência. Ironicamente, o momento em que a gramática tradi­
cional se tornou deficiente se deu quando ela transformou aberrações lingüísticas em
dogmas sem base empírica suficiente. (Reiterando, essas aberrações eram,
lingüisticamente falando, terrivelmente ingênusa, mas ela errou também ao ser um pro­
duto precipitado da chamada filologia). O que é preciso não é abandonar inteiramente
as abordagens antigas pelas novas, mas sim selecionar as melhores partes de ambas,
formando uma ligação útil entre gramáticos e lingüistas. Louw chega perto disso quando
escreve: "Não se deve pressupor que tudo das abordagens filológicas . . . ao Grego do
Novo Testamento são descartáveis" (Louw, "Present State", 161). Mas erra ao pensar
que tais abordagens tradicionais têm feito seu percurso. A abordagem tradicional é es­
pecialmente valiosa na coleção minuciosa dos dados. Com o advento da era eletrônica é
evidente que essa tarefa está longe de ser completada.
8 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

comportam muitos significados. Sem o contexto, é impossível definir, e.g.,


"manga", "banco" ou "quadra".33 No NT ácturpi possui uma variedade de
significados como "perdoar", "abandonar", "divorciar", "deixar", "permitir"
etc. Sem o contexto, não saberemos decidir qual devemos usar.

Até sentenças inteiras, descontextuadas, são cheias de ambigüidades. Assim,


pronomes são usados precisamente porque há um significado partilhado que
precede a sentença. "Ele foi ao banco e sentou-se" tem muitas ambigüidades.
Quem é "ele"? O que exatamente se quer dizer com "banco"? Que banco (pois
a presença do artigo implica algo bastante conhecido)? Em Jo 1:21 lemos: "Res­
pondeu: Não". Sem o contexto isso nada significa.34

Além disso, em um parágrafo completo, embora as ambigüidades diminuam,


ainda assim, há espaço para a interpretação. Desse modo, um contexto mais
amplo e não simplesmente literário é necessário ao entendimento. Um famoso
episódio de Chaves nos ajudará nisso: Os moradores da vila de Seu Barriga
estão organizando o aniversário de Seu Madruga. Este pensa que estão falan­
do do seu velório. Dá-se início uma grande confusão. Muitas comédias da TV
estão baseadas nesse tipo de confusão de significado. Biblicamente existem
muitos exemplos. Jesus diz uma simples parábola e ninguém entende. Quem
são os ramos em Jo 15, o "eu" em Rm 7 ou a quem Hb 6 se refere.

Os equívocos ocorrem em grande escala até mesmo porque a linguagem é, por


natureza, compacta, crítica e simbólica. Todas as epístolas são interpretadas de
modo amplamente divergente. Em parte, deve-se à distância entre o autor-lei-
tor originais e o intérprete moderno. É como se ouvíssemos a metade de uma
conversa ao telefone. Até mesmo o leitor original, às vezes, não podia ter idéia
plena do que um autor dizia (cf. 1 Co. 5:9-13; 2 Pd 3:15-16). Isto é, nem tudo
na linguagem é satisfatoriamente explicado. De fato, poucas coisas são.35

33 Todavia mesmo a colocação dessas palavras em uma sentença não indicaria neces­
sariamente só um significado. "Eu confio nesse excelente", poderia se referir a mais que
uma situação: uma instituição financeira ou um assento.
34 Mas mesmo com a questão anterior ("tu és o profeta?") pode haver pouco entendi­
mento sem entrar na história judaica, nas expectativas judaicas, e no AT (particularmen­
te Dt 18:15). Em um contexto mulçumano, essa questão significaria algo muito diferente!
35 R. M. Krauss e S, Glucksberg, "Social and Nonsocial Speech," Scientific American
236 (Fev, 1977) 100-105, descreve um experimento em comunicação que ilustra como a
língua reduz o preconceito comum entre quem fala e quem ouve. Um pesquisador vai à
Praça Harvard, em Cambridge, e pergunta aos transeuntes como chegar à Praça Central.
Em sua maneira de vestir, sotaque e pergunta, ele dá a aparência de ser alguém de Boston.
Os transeuntes, pressupondo que ele seja um morador local, dão um resposta curta:
"Primeira parada no metrô". No dia seguinte o mesmo pesquisador vai ao mesmo pon­
to, mas dessa vez, ele se apresenta como turista. Os transeuntes, notando isso, dá uma
resposta detalhada e elaborada.
Quando lemos as cartas do NT, é como se fôssemos turistas ouvindo meia conversa
entre dois moradores locais. Nós nos encontramos na comunicação em uma posição des­
vantajosa que só poderemos superar à medida que imergimos nos costumes, cultura,
história e língua do primeiro século, sem mencionar a interação específica entre, por
assim dizer, Paulo e suas igrejas.
A Abordagem deste Livro 9

Como se relaciona tudo isso em livro de sintaxe? De três maneiras:


1) Qualquer exame da sintaxe do NT será recheada de equívocos se falhar em
reconhecer a natureza compacta da linguagem. Quando o doutor diz para
a enfermeira: "Bisturi!". Trata-se de um substantivo, mas a expressão é
considerada como uma ordem. Se não notarmos isso falharemos. Um de
nossos objetivos é de "descompactar" a linguagem. Isso especialmente será
necessário nos capítulos sobre genitivo e particípio (uma vez que esses
capítulos estão entre os mais extensos do livro).
2) Humildade precisa ser exercida onde os dados forem insuficientes ou onde
a linguagem for passiva de muitas interpretações. Embora rejeitemos, v.g., a
probabilidade de que o tempo presente em Rm 7 seja o presente histórico
(visto que todos os presentes históricos incontestáveis no NT estão na ter­
ceira pessoa, não podemos, com base na sintaxe, rejeitar a idéia que o "eu"
se refere ao estado de Paulo antes de ser salvo. Outras questões além da
sintaxe (de forma notável, a forte possibilidade da linguagem figurada) es­
tão atuando aqui. O que nos leva ao terceiro ponto.
3) Muito daquilo que na linguagem é facilmente confuso está fora do escopo
da sintaxe, mesmo que seja amplamente definido. Embora um razoável al­
cance na sintaxe seja um sine qua non para a exegese sadia, não é uma pa-
nacéia para todos os ais exegéticos de alguém. Só raramente a gramática
conduz a interpretação do exegeta em porcelana de prata. Em muitos ca­
sos, quanto melhor entendermos a sintaxe do NT, mais sucinta será nossa
lista de opções interpretativas viáveis.

7. Probabilidade vs. Possibilidade


Em uma investigação histórico-literária, estamos lidando com probabilidade
versus possibilidade. Estamos tentando encontrar um significado sem todos os
dados. Isso não é uma ciência exata. Nenhum dos exemplos selecionados da
literatura é reproduzido em um tubo de laboratório. Ao contrário das ciências
exatas, uma hipótese falsa na área de humanas é difícil de demonstrar por causa
das vacilações nos níveis de ambigüidade nos dados examinados (em nosso
caso, as ambigüidades em textos cujos autores não podem ser consultados).36
Em particular, muitos dos assim chamados exemplos indisputáveis podem muito
bem ser disputados por alguém. Por outro lado, algo do que consideramos
disputável pode ser patentemente indisputável por outros. Na literatura e

36 Karl Popper, o notável filósofo científico, afirmou com respeito a ciência comple­
xa que uma boa hipótese deve envolver declarações que podem, a principio, ser prova­
das falsas por observações empíricas (The Logic óf Scientific Discovery [New York: Basic,
1959] 40-42). Visto que em muitos casos uma indução completa seja impossível, uma
hipótese não pode conclusivamente ser verificável. Mas uma boa hipótese pode ser
falsificável. Esse princípio não é menos importante nas ciências humanas (conforme N.
Chomsky, Syntactic Structures [The Hague: Mouton, 1957] 5), embora seja mais difícil
usá-la pois as observações são subjetivas e não-repetitivas. Por quê? porque os dados
são numerosos demais e a semântica clara o bastante para quaisquer conclusões sintá­
ticas serem extraídas.
10 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

lingüística, as probabilidades estatísticas não são ulteriores a medidas decimais,


mas estão em padrões e figuras compostos. Em lugar de criar resultados
reprodutíveis em tubos de ensaio, nosso objetivo é: primeiro, detectar qualquer
padrão lingüístico na superfície da literatura; e, segundo, aplicar tais padrões
aos textos exegeticamente problemáticos.
Exigir que determinada construção morfossintática sempre se encaixe em uma
camisa de força de uma particular força semântica antes de qualquer conclu­
são exegética ser examinada é tratar os devaneios do comportamento huma­
no como se seguissem às leis da física. Esse algo tem que ser tratado como uma
simples tachinha nos estudos bíblicos e/ou lingüísticos e, por conseguinte, não
valida a abordagem.
Pelo contrário, deve-se admitir que muitas posições heterodoxas (teológica ou
exegética) são construídas sobre o que é possível. Mas se são prováveis é uma
questão bem diferente. Só porque uma visão é possível, isso não a toma pro­
vável em dado texto.

8. Descrição vs. Realidade


Uma das chaves fundamentais para o entendimento da linguagem é o
reconhecimento de que não há necessidade de qualquer correspondência entre a
linguagem e a realidade. Se tal fosse o caso, nem ironia, nem romance poderiam
ser escritos.37 Infelizmente, os estudantes das Escrituras (exegetas e gramáticos),
muitas vezes, pressupõem tal correspondência. Por exemplo, não raramente o
indicativo é erroneamente considerado como o modo do fato. Nesse ponto, A.
T. Robertson perspicazmente apontou:
O indicativo declara algo como verdadeiro, mas não garante a realidade
disso. Na natureza do caso, somente a declaração está sob discussão. Um
apoio claro a esse ponto sempre ajudará. O indicativo não tem nada a ver
com a realidade. A pessoa que fala apresenta algo como verdadeiro... Se é
verdade ou não é uma outra questão. Muitas mentiras são contadas no modo
indicativo.38

37 Robinson apresenta a seguinte ilustração para esse efeito (New Grammarians' Fune­
ral, 48): "Uma das atrações das sentenças-chave, como veremos, é que elas fazem propo­
sições como: 'Ela estava usando sua velha jaqueta preta' parecerem declarações factuais,
verificáveis. Mas o que seria caso, fosse uma sentença de abertura de um romance? Não
seria, então, verificável? Não o tomaria extraordinário? Pelo contrário, seria extraordi­
nário uma narrativa começar com algo verificável: 'Era uma vez, uma velha bruxa fraca
que vivia nas profundezas escuras de uma tenebrosa floresta úmida' - 'Se você interrom­
per e disser: 'Mas não é possível! Pois não existem bruxas!', você estará entrando em um
'tipo de cegueira', pois ninguém disse que existem bruxas". Um ponto semelhante pode­
ria ser feito sobre muito do caráter das palavras de Jesus.
Na página seguinte Robinso acrescenta: "gramáticas tradicionais não têm como mos­
trar (embora fique implícito pela linguagem) que dizer algo ironicamente é menos bási­
co à linguagem que dizer algo direto. Uma norma universal lingüística em que realmen­
te confio é: Eu não posso imaginar uma língua em que seria impossível dizer algo ironi­
camente" .
38 Robertson, Grammar, 915.
A Abordagem deste Livro 11

O aoristo tem sido, muitas vezes vítima de tais abusos, devido aos tremendos
equívocos das nomenclaturas dos gramáticos como "pontilear" ou "ação do
ponto". O que é significativo em tais expressões não é que o aoristo descreva a
ação como ocorrendo em um ponto (uma noção que deu origem ao aoristo "uma-
vez-por-todas), mas que o aoristo de apresentação seja pontilear. Em outras pa­
lavras, o aoristo tem algo de uma ação instantânea.39 A ação em si pode ser
interativa, durativa, progressiva etc., mas o aoristo abstém-se de descrever tais
complexidades.

Estas são armadilhas bem conhecidas. No entanto, são somente uma ponta do
iceberg. Em uma escala mais ampla, gramáticos ainda são apaixonados por uma
expressão particular de categorias morfossintáticas, tais como o modo subjunti­
vo, |j,f| em interrogativas ou as condicionais de primeira classe. Eles imaginam
que, de alguma maneira, tais categorias ligam a visão do falante à realidade. A
noção de que o aspecto verbaí seja subjetivo enquanto o Aktionsart, objetivo é
outro exemplo, muitas vezes, supõe-se que o Aktionsart corresponda mais
acuradamente à realidade. Na verdade, a linguagem qua linguagem nada diz
sobre a realidade nem mesmo sobre o ponto de vista do falante. Ela somente
narra a apresentação do falante/escritor. Sendo assim, para Robertson dizer que
o diabo usou a condicional de primeira classe quando tentava a Jesus(eL ulòç et
toü 9eoí) em Lc 4:3) porque "o diabo sabia que isso era verdade"40 é cometer
várias pressuposições equivocadas acerca da natureza da linguagem e sua cor­
respondência com a realidade.

Se houver em dado exemplo, qualquer correspondência entre linguagem e rea­


lidade não será da ossada dos gramáticos decidir. O ateu negaria que qualquer
"comunicação de Deus" nas Escrituras possua correspondência. Como cristão,
minhas próprias convicções são decididamente diferentes. Além do que para
aqueles que têm se envolvido com as doutrinas cardinais da Fé Cristã, deve
deixar espaço para a ironia, a perspectiva, a retórica e a hipérbole no cânon.

39 Estudos recentes refinaram essa visão ainda mais, mas, basta dizer que por hora
isso foi a idéia que gramáticos tinham em mente.
40 Robertson, Grammar, 1009.
A Língua do Novo Testamento
Panorama do Capítulo

Neste capítulo, nosso alvo é duplo: (1) Analisar o período onde o NT grego encaixa-
se na história da língua grega (um estudo diacrônico e externo); e (2) Observar certas
questões relacionadas ao NT grego em si (ou seja, um estudo sincrônico e interno).
Certas informações são dadas com o simples objetivo de localizar o leitor na história
evolutiva da língua, já outras são realmente vitais à nossa abordagem. Passemos,
então, para a apresentação do esboço dessa seção (as partes mais relevantes para os
estudantes de nível intermediário estão em negrito):

I. A Origem da Língua Grega..................................................................................... 14

II. Os Estágios da Língua Grega(Diacronia).............................................................. 14


A. Pré-Homérico (das origens até 1000 a.C)................................................ 14
B. A Era dos Dialetos ou a Era Clássica (1000 a. C - 330 a.C ).................. 14
C. Grego Koiurj (330 a.C - 330 d. C )........................................................... 15
D. Grego Bizantino (ou Medieval) (330 d.C. - 1453 d.C.).......................... 16
E. Grego Moderno (1453 d.C até o presente).............................................. 16

III. Grego Koivrí (Sincronia)..........................................................................................17


A. Terminologia........................................................................................................17
B. Desenvolvimento Histórico..............................................................................17
C. Abrangência do Grego Koiutí.........................................................................18
D. Mudanças no Grego Clássico...........................................................................19
E. Tipos de Grego Koturj.......................................................................................20

IV. O Grego do Novo Testamento............................................................................... 23


A. O Contexto Lingüístico da Palestina............................................................ 24
B. A Língua do NT em relação ao Grego Helenístico................................... 24
1. A Questão 24
2. As Possíveis Respostas 25
3. Retomando a Questão 27
4. Algumas Conclusões 29
5. Os autores do NT 30

12
A Língua do Novo Testamento 13

Bibliografia Selecionada
A. W. Argyle, "Greek Among the Jews of Palestine in New Testament Times/' NTS
20 (1973) 87-89; M. Black, An Aramaic Approach to the Gospels and Acts, 3d ed.
(Oxford, 1967); BDF, 1-6 (§1-7); C. D. Buck, Introduction to the Study o f the Greek
Dialects, 2. ed. (1928) 3-16, 136-40; C. F. Burney, The Aramaic Origin of the Fourth
Gospel (Oxford, 1922); E. C. Colwell, "The Character of the Greek of the Fourth
Gospel. . . Parallels from Epictetus" (tese de Ph.D. University of Chicago, 1930); G.
A. Deissmann, Bibelstuáien (1895); idem, Light from the Ancient East (1923); J. A.
Fitzmyer, "The Languages of Palestine in the First Century A.D.," CBQ 32 (1970)
501-31; R. G. Hoerber, "The Greek of the New Testament: Some Theological
Implications," Concordia Journal 2 (1976) 251-56; Hoffmann—von Siebenthal,
Grammatik, 2-5; G. Horsley, "Divergent Views on the Nature of the Greek of the
Bible," Bib 65 (1984) 393-403; P. E. Hughes, "The Languages Spoken by Jesus," New
Dimensions in New Testament Study (ed. R. N. Longenecker and M. C. Tenney; Grand
Rapids: Zondervan, 1974) 127-43; A. N. Jannaris, Historical Greek Grammar; E. V.
McKnight, "Is the New Testament Written in 'Holy Ghost' Greek?", BT 16 (1965)
87-93; idem, "The New Testament and 'Biblical Greek'," JBR 34 (1966) 36-42; B. M.
Metzger, "The Language of the New Testament," The Interpretefs Bible (New York:
Abingdon, 1951) 7.43-59; E. M. Meyers and J. F. Strange, Archaeology, the Rabbis,
and Early Christianity (Nashville: Abingdon, 1981) 62-91, 92-124,166-73; Moule, Idiom
Book, 1-4; Moulton, Prolegomena, 1-41; Moulton-Howard, Accidence, 412-85 (on
Semitisms in the NT); G. Mussies, The Morphology ofKoine Greek (Leiden: Brill, 1971);
E. Oikonomos, "The New Testament in Modern Greek," BT 21 (1970) 114-25; L. R.
Palmer, The Greek Language (London: Faber & Faber, 1980); S. E. Porter, Verbal Aspect
in the Greek of the New Testament (Bern: Peter Lang, 1989) 111-56; idem, "Did Jesus
Ever Teach in Greek?" TynBul 44 (1993) 195-235; L. Radermacher, "Besonderheiten
der Koine-Syntax," Wiener Studien (Zeitschnft für Klassische Philologie) 31 (1909) 1­
12; Robertson, Grammar, 31-75; L. Rydbeck, "What Happened to Greek Grammar
after Albert Debrunner?" NTS 21 (1975) 424-27; E. Schürer, The History ofthe Jewish
People in the Age of Jesus Christ (rev. and ed. by G. Vermes, F. Millar, M. Black;
Edinburgh: T. & T. Clark, 1979) 2.29-80, esp. 74-80; J. N. Sevenster, Do You Know
Greek? How Much Greek Could the First Jewish Christians have Known? (Leiden: E. J.
Brill, 1968); M. Silva, "Bilingualism and the Character of New Testament Greek,"
Bib 69 (1980) 198-219; Smyth, Greek Grammar, l-4b; Turner, Insights, 174-88; idem,
"The Literary Character of New Testament Greek," NTS 20 (1973) 107-114; idem,
Syntax, 1-9; idem, "The Unique Character of Biblical Greek," Vetus Testamentum 5
(1955) 208-213; Zerwick, Biblical Greek, 161-64.1

1 Essa bibliografia e outras nesse livro não têm a intenção de serem exaustivas, mas
sugestivas. (A bibliografia alistada aqui é mais compreensiva que outras, porém, devido
à natureza do tópico). As fontes mais citadas que estão aqui foram abreviadas (e.g., o
último nome do autor ou iniciais para periódicos); para tais fontes, consulte a lista de
abreviações.
14 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

I. A Origem da Língua Grega

Que relacionamento há entre o grego e as demais línguas? Tomando por base cer­
tos aspectos lingüísticos de várias línguas (especialmente termos lexicais estáveis,
e.g., partes do corpo), é possível determinar como elas se correlacionam
genealogicamente (e.g., três [latim], ipelç [grego], tryas [sânscrito]). Declara-se, com
freqüência, que embora o sânscrito não seja a mãe do grego e do latim, pelo me­
nos, é a irmã mais velha destes idiomas. Isso nos abre a investigação para uma lín­
gua perdida, conhecida em círculos lingüísticos como Indo-Europeu.
A língua-mãe de todas as línguas do mundo aparentemente deu origem a dez ou­
tras línguas (cada uma delas não constituía grandes famílias lingüísticas isoladas,
mas sim línguas aparentadas). Uma dessas dez filhas foi o "Proto-Indo-Europeu",
de onde se originou o grego, latim, as línguas neolatinas, línguas germânicas etc.

II. Os Estágios da Língua Grega (Diacrônico)

Há cinco grandes estágios no desenvolvimento da língua Grega.2

A. Pré-Homérico (das origens até 1000 a.C)


Bem no início do 3S milênio a.C., houve invasões de povos de origem indo-
européia na Grécia. Os acidentes geográficos da península Atica e adjacências
isolando essas levas migratórias favoreceram, conseqüentemente, o desenvol­
vimento de vários dialetos. A medida que se estabeleciam, esses grupos desli­
gavam-se uns dos outros, desenvolvendo um dialeto diferente da língua de seu
grupo original. Infelizmente, por causa da falta de literatura remanescente, sa­
bemos muito pouco desse período da língua grega.3

B. A Era dos Dialetos ou Período Clássico (1000 a. C - 330 a.C)


A geografia e política (e.g., cidades-estado independentes) fizeram com que o
grego se fragmentasse em vários dialetos, sendo que quatro desses predomina­
ram.4 Há hoje pouca literatura remanescente de outros dialetos?
Os principais dialetos 6 foram o Eólico (cujo material existente é somente poético,
e.g., Safo), Dórico (também com remanescente poético, sendo seus maiores

2 Para numerosas subdivisões, veja Jannaris, 1-20.


3 Para uma discussão da história do proto-grego (esp. o Linear B que foi identificado
como proto-grego em 1952), veja Palmer, The Greek Language, 27-56. A evidência escrita
não revela dialetos diferentes depois do séc. XII a.C.
4 Buck, The Greek Dialects, alista 18-20 dialetos.
A Língua do Novo Testamento 15

representantes os poetas Píndaro e Teócrito), Jônico (encontrado em Homero,


Hesíodo, Heródoto e Hipócrates) e, por fim, o dialeto de maior influência, o Ático.
O Ático, forma dialetal derivado do grego jônico, foi o falar de Atenas duran­
te a "Era de Ouro" do Grego Clássico (séc. IV a.C). Na chamada "Era de Ouro",
Atenas, era o centro tanto político quanto literário da Hélade. O "Grego Clás­
sico", embora tecnicamente possa ser uma referência a todos os dialetos desse
período, é normalmente usado para o dialeto Ático. Esse uso justifica-se pela
difusão das obras literárias oriundas desse dialeto. O Ático foi deste modo, um
veículo de refinamento, precisão e beleza7 através do qual algumas das gran­
des obras literárias do mundo foram conhecidas: Dentre essas citamos: as Tra­
gédias de Esquilo, Sófocles e Eurípides; as comédias de Aristófanes; as históri­
as de Tucídides e Xenofonte; os discursos de Demóstenes e os tratados filosó­
ficos de Platão".8

C. O Grego KoLiurj (330 a.C - 330 d.C)


Presume-se que no início das invasões indo-européias na Grécia, tais tribos in­
vasoras falavam uma língua única. Fatores geopolíticos contribuíram com a
fragmentação dessa única língua em vários dialetos. Outro fator também
geopolítico favoreceu o agrupamento das cidades-estado sob uma única for­
ma dialetal: as inúmeras batalhas entre cidades-estado rivais. Ironicamente, a
primeira campanha militar, no 3e milênio a.C., produziu o fenômeno da
dialetação, enquanto a última campanha não somente restaurou a unidade lin­
güística, mas também forjou uma nova língua que foi destinada a tornar-se uma
Weltsprache (língua mundial).
O Koinê [também chamado de Koiné] nasceu das conquistas de Alexandre, o
Grande. Na confederação das tribos (Atenas e outras cidades gregas) sob sua
direção, houve uma miscigenação que, inevitavelmente, suavizou a aspereza
de alguns dialetos e destituiu outros de sua importância tribal. Após esse feito,
as cidades e as colônias conquistadas aprenderam esse grego miscigenado como
segunda língua. No primeiro século d.C., o grego era a língua franca de todo o
Mediterrâneo, circunvizinhança e outras regiões distantes. Visto que a maioria
desses povos helenizados aprendera essa modalidade grega como segunda
língua, isso favoreceu tanto a perda de sutileza do idioma propagado pelas
incursões de Alexandre, como a busca dc mais clareza no uso do novo idioma
mundial (e.g., a repetição de uma preposição em contextos onde a língua ática
usaria apenas uma única preposição).

5 A inscrição remanescente revela um quadro um tanto diferente. De fato, podería­


mos examinar os dialetos ou geográfica ou literariamente. Geograficamente, havia qua­
tro dialetos principais (Arcádio-Cipriota, Grego Ocidental [incluindo o grego Dórico e o
Noroeste], Ático-Jônico [incluindo tanto o Jônico como o Ático], e Aeólico [inclinando o
Lesbiano - chamado assim por causa da ilha de Lesbos - e Boeociano]). Veja Palmer, The
Greek Language, 57-58, para uma breve descrição.
6 Veja Smyth, Greek Grammar, 3-4, e Palmer, The Greek Language, 57-58, para uma dis­
cussão.
7 Smyth, 4.
8 Metzger, 44.
16 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

D. O Grego Bizantino (ou Medieval) (330 d.C-1453 d.C)


1. O Koinê evoluiu para o Grego Bizantino após a conversão de Constantino.
Ao revogar o edito de Diocleciano contra os cristãos (303 d.C. - 311 d.C.),
Constantino deu à língua um colorido religioso. Nascia o grego eclesiástico.
2. Na divisão do Império Romano em Ocidental e Oriental, a língua grega
perdeu seu status de Weltsprache (língua mundial).

E. O Grego Moderno (1453 d.C ao presente)


Em 1453, os turcos invadiram Bizâncio. A língua grega [escrita] não permane­
ceu isolada do resto do mundo. Ela fugiu nos braços dos sábios bizantinos. A
medida que estes fugiam com cópias dos clássicos gregos, o Renascimento flo­
rescia na Europa. A Reforma nasceu na Europa Setentrional enquanto os erudi­
tos cristãos (tais como Erasmo e Lutero) se familiarizavam com os manuscritos
gregos do NT.
E interessante que, embora os manuscritos gregos antigos e os sábios bizantinos
tenham escapado do Oriente vindo para a Europa ocidental, as línguas euro­
péias ocidentais não os influenciaram gramática ou semanticamente. Isto é, as
cópias da antiga literatura grega retiraram a Europa da Idade das Trevas, con­
tudo as línguas européias não modificaram a língua dos manuscritos. Os tur­
cos isolaram o Oriente do resto da Europa até 1820 - quando os gregos se re­
belaram contra seus dominadores e retomaram sua liberdade. Assim eles im­
pediram o contato e o desenvolvimento da língua. Essa ação, como no efeito
dominó, fez com "a fala coloquial do grego moderno não se difere substanci­
almente do bizantino vernacular, o que a liga diretamente ao KOLvq vernacular.9
Hoerber, ao comparar a evolução histórica do grego com outras línguas, afir­
ma: "a língua grega mudou menos em três mil anos de história do que o in­
glês desde Chaucer (1340[?]-1400) ou Beowulf [Nota do tradutor: antigo poe­
ma inglês escrito na variante bárbara desse idioma](Séc. VIII)...".10
Hoje, há dois níveis no Grego Moderno:

1. Kathareousa (Ka0apeúoi)oa = "língua literária")

Esse não é, de fato, um desenvolvimento histórico da língua, mas uma ex­


pressão "livresca grega", ou uma tentativa artificial em ressuscitar o diale­
to Ático nos tempos modernos. Moulton sarcasticamente sugere que "isso é
tão relevante como o Volapuque [trad. Volapuque é uma língua artificial,
desenvolvida, entre 1879 e 1880, por Johann Schleyer, um sacerdote católi­
co romano de Baden, Alemanha. Schleyer achava que Deus lhe dissera, em
sonho, que criasse uma língua internacional] é para o estudante da evolu­
ção lingüística", e que "a kathareousa é uma miscelânea até mais mesclada
(trad. ou como chamam no jargão musical, mixada) do que as composições
da música contemporânea".11

9 Robertson, 44.
10 Hoerber, 253.
11 Moulton, Prolegomena, 26.
A Língua do Novo Testamento 17

2. D em otiké (ôrnioxiicq)
Essa é a língua falada atualmente na Grécia. Ela é a "descendente direta do
Koinê".12

III. O Grego K ol^ tj (Sincrônico)

A. Terminologia
Koiur| é o adjetivo feminino de koivoç ("comum"). A forma feminina é usada
porque (implicitamente) modifica o termo õiáÀeKTOÇ, um substantivo feminino
de segunda declinação. Os sinônimos de Koinê são: o grego "comum", ou com
mais freqüência, o helenístico (que nos faz lembrar do processo de helenização
conduzido por Alexandre, o Grande. Os falantes do grego, isto é, os que a
possuíam como segunda língua, foram chamados de helenistas [cf. Atos 6:1]).

Tanto o grego do NT quanto o da Septuaginta são considerados ramos do Koinê


(A LXX, porém, contém mais semitismos).

B. Desenvolvimento Histórico
Aqui, estão oito fatos interessantes acerca do grego helenístico:
1. A Era de Ouro da literatura grega efetivamente atingiu seu apogeu com
Aristóteles (322 a.C).
2. O Koinê nasceu sob as conquistas de Alexandre, o Grande.
3. O Grego Helenístico resultou do contado entre as tropas de Alexandre
oriundas de todas as regiões da Grécia. Esse encontro gerou uma influência
nivelada.
4. Entre os povos conquistados por Alexandre, esse grego miscigenado
desenvolveu-se como uma segunda língua. Essas conquistas deram à língua
grega o status de idioma universal.
5. O grego Koinê cresceu amplamente a partir do dialeto Ático (o falar da
Era de Ouro Grega). Sendo esse o dialeto de Alexandre, sobrepôs-se sobre
os outros dialetos - os dos soldados. O "Grego Helenístico" foi um pacto
entre os direitos da minoria mais forte (i.e., Ático) e a maioria mais fraca
(os demais dialetos)".13

12 BDF, 2, n. 1 (§ 3).
13 Moule, 1.
18 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

6. Esse novo dialeto, porém, não seria considerado como inferior ao Ático.
Nem era uma degeneração do Grego Clássico, mas uma fusão proveitosa
para as massas.14
7. A partir do primeiro século d.C., ele tornou-se a língua oficial de todo o
Império Romano.15
8. Desde quando o Koinê é Koinê? '
Embora o Grego Koinê tenha nascido em cerca de 330 a.C, esse foi seu nas­
cimento físico, não o lingüístico. Espero que ninguém suponha que, instan­
taneamente, após o término da última batalha de Alexandre, os povos con­
quistados começaram a falar o Grego Koinê! (Lembre-se que a Grécia ainda
retinha seus dialetos quando Alexandre estava conquistando o mundo). As­
sim como uma criança recém-nascida não fala imediatamente, levou algum
tempo até que o Koinê realmente tomasse a forma como o vemos no NT.

C. A Abrangência do Grego KoLVtj


1. Tempo
Aproximadamente, de 330 a.C a 330 d.C, ou seja, das conquistas de Alexan­
dre até a mudança da capital do Império Romano de Roma para
Constantinopla. Com a morte de Aristóteles em 322 a.C., a fase de desen­
volvimento em que se encontrava a língua grega era a Clássica. O Koinê •
teve seu ápice entre o primeiro século a.C. e o primeiro século d.C.
2. Geografia
Pela primeira vez, a língua grega universalizou-se. À medida que as colô­
nias eram estabelecidas, bem depois dos dias de Alexandre, e áreas medi­
terrâneas continuavam sob governos de origem grega, o Koinê perdurou
prosperamente em terras estranhas. Mesmo depois de Roma dominar o
mundo conhecido de então, no primeiro século a.C., o grego penetrava con­
tinuamente em lugares remotos, (deve-se isso à política de Roma de assi­
milação cultural em lugar da aniquilação e destruição e recolocação de po­
vos). Por isso, conquanto Roma estivesse no controle absoluto, o latim não
se transformou na língua franca. O Koinê durou como língua universal até,
aproximadamente, o fim do primeiro século. Por volta do 2o. século, o la­
tim começou a dominar à Itália (entre as camadas populares), e, a partir
daí, o Ocidente em geral, uma vez que Constantinopla [Bizâncio] tornou-se
a capital do Império Romano. Portanto, somente por um breve período, o
grego foi a língua universal.

14 Ibid.
15 Cf. esp. Porter, "Did Jesus Ever Teach in Greek?" 205-23 (205-9 fala do grego como
a língua franca do Império Romano; 209-23 trata com o grego palestino em si).
A Língua do Novo Testamento 19

D. Mudanças no Grego Clássico


Em suma, o grego tornou-se mais simples. Quanto à morfologia, perdeu certos
aspectos, diminuiu outros e assimilou formas difíceis transformando-as em pa­
drões mais comuns. Havia uma tendência a formas mais breves e sentenças
mais simples. Algumas das características sintáticas foram perdidas ou, pelo
menos, enfraquecidas. Substituiu-se a precisão e refinamento clássicos pela pre­
cisão do Koinê.16

1. Morfologia
Cautela deve ser tomada nessa área, já que o Grego Helenístico era um
amálgama de outros dialetos. Algumas regras são tidas como prescritivas
e outras não, só porque estas não se encaixam naquele padrão, assim são
tomadas como exceção à regra. Muitas de tais exceções são traçadas por
empréstimo não-sistematizado de outros dialetos (e.g., A terceira pessoa
do singular do primeiro aoristo optativo, no dialeto eólico, termina com -
ai, enquanto no dialeto ático termina em -eiefu]). Outras se originaram na
acomodação do Koinê a partir de padrões familiares ou análogos (tais como
colocar terminações do primeiro aoristo em verbos do segundo aoristo -
6L1KXV por eíuou). Múltiplas formas, às vezes, de uma parte principal
específica (e.g., a quarta e quinta parte principal de ávoÍYW) que ocorre
no NT são explicadas por esse fenômeno.
Em suma, nem todas as formas irregulares no NT grego têm soluções
lingüísticas como essas, de modo que a simples memorização de regras fosse
o remédio para tudo. Muitas dessas irregularidades são devidas
simplesmente a transformações históricas, não a um princípio lingüístico.17
2. A Estrutura das Sentenças
a. Sentenças mais curtas e mais simples substituíram as sentenças
complexas do grego clássico.
b. Menor uso de partículas e conjunções, muitas das quais, para
desempenhar novas funções, tiveram seu uso estendido.
c. A parataxe (orações coordenadas) foi mais usada, em detrimento das
hipotaxe (sentenças complexas em que a oração subordinada é usada),
que foi reduzida.
d. O discurso direto prevaleceu sobre o discurso indireto.

16 Esse é essencialmente o argumento de Zerwick, o qual o sustenta com muitos


exemplos por todo o grego bíblico.
17 Alguns exemplos das mudanças morfológicas são: (1) oo por tt (e.g., GáXaaaa por
GáÀaxra); (2) declínio no uso de verbos em -|ii, optativos, superlativos; (3) perda do dual
(uma forma de nomes, e verbos, usados para indicar duas pessoas); (4) assimilação de
formas para padrões mais familiares, e.g., terminações do primeiro aoristo sobre verbos
do segundo aoristo (e.g., rjXGav por fjXGov, eíirav por eiirov, etc.), terminações da primeira
declinação sobre os nomes da terceira declinação (e.g., Guyoaépav por Guyaxépa [embora
somente a forma da terceira declinação ocorra no NT]); e (5) uso mais freqüente do
diminutivo, embora o significado seja constantemente alterado.
20 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

3. O Estilo ou a Sintaxe dos Substantivos e Verbos


Uma vez que o grego helenístico possuía duas naturezas: (a) é uma assimi­
lação cultural de dialetos prévios; e (b) é a segunda língua dos povos con­
quistados, a união dessas duas categorias gerou três aspectos previsíveis:
(1) peculiaridades suprimidas; (2) refinamentos, obscurecidos; e, (3) o que
fosse considerado prolixo dera lugar a expressões mais claras.18 Veja alguns
exemplos:

a. Preposições:

1) o uso de uma só preposição, preferência do Ático, foi substituído,


no Koinê, pela repetição de tal preposição antes de substantivos;
2) a preferência pelos verbos compostos com preposições onde ambos
não eram necessários;
3) a substituição dos casos por nomes acompanhados de preposições.
4) a confusão ou até mesmo a sobreposição de certas preposições so­
bre outras (e.g., elçlkv, írnép/irepí).
b. Pronomes: passaram a ser usados com muito mais freqüência (mais
explicitamente).

c. Pronomes Pessoais: usados como sujeitos de verbo. No Ático, muitas


vezes, eram deixados de fora..
d. Números: exclusão do dual [trad. O Ático possuía três números:
singular, plural e dual],
e. Tempos: uso do presente em substituição do futuro (o chamado presente
futurístico vivido).
f. Vozes: declínio da voz média direta e uso mais freqüente da voz ativa
com pronome reflexivo.
g. Modos: quase extinção do modo optativo.
h. A conjunção iva substitui o infinitivo (o uso de iva é ampliado).
i. Particípios: maior freqüência de construções perifrásticas.

E. Tipos de KoLVij
Muitos eruditos admitem a existência de dois níveis reais: o vulgar e o literá­
rio.19 Essa visão equivoca-se pelas seguintes razões: (1) Esta visão deixa de lado

18 Metzger, 45; Zerwick, 161.


19 BDF coloca a questão desta maneira: "Entre os dois extremos, onde se encontram
os documentos do NT, a língua do dia-a-dia refletida nas cartas, papiros, ou nos
monumentos literários? De qualquer forma, pode ser dito que a língua dos autores do NT
é a mais próxima da linguagem popular . . (2 [§ 3]).
A Língua do Novo Testamento 21

as diferenças entre o verdadeiro Koinê literário e um tipo de grego aticista; (2)


a questão é apresentada como se fosse imparcial: os "dois extremos" (o dialeto
ático e o Koinê) são vistos como o padrão pelo qual todo o material em Koinê
tem que ser analisado; (3) muitos dos livros do NT nunca pretenderam ser obras
literárias. Assim, é desafortunada a comparação entre as obras literárias clássi­
cas e os escritos neotestamentários. Por outro lado, não foram comparados exaus­
tivamente os recibos, testamentos, listas de lavanderias, documentos de negó­
cios, memorandos, documentos legais, cartas pessoais de soldados em campo
de batalha e outros documentos em Koinê descobertos recentemente com o texto
do NT, pois, em grande parte, os autores de tais textos do cotidiano escreveram
para uma determinada audiência, não simplesmente para um indivíduo. Tam­
bém é certo que esses textos seriam lidos em voz alta. Acrescente a isso o fato
de que o tema e o tom freqüentemente apologéticos do NT grego impossibili­
tam que paralelos sejam facilmente encontrados com outros textos em Koinê.
Por essa razão, poucos eruditos têm sugerido a existência de um nível
intermediário do Koinê entre os extremos entre vulgar e literário. Parece-nos
correta essa avaliação, procuraremos comprová-la pela seguinte análise:

1. Vernacular ou Vulgar (e.g., papiros e óstracos) ,


Temos aqui o idioma língua das ruas, o dialeto coloquial, a língua das
camadas populares. Esse tipo foi encontrado principalmente em papiros
egípcios. Essa era, de fato, a língua franca daqueles dias.
A origem desses papiros pode ser assim ilustrada: imaginemos que os
brasileiros do século XXI esvaziassem suas cestas de lixos em um lo­
cal suficientemente seco para preservá-los por dois mil anos. Depois
desse período, eruditos descobririam esse lixo e estudariam tal mate­
rial. Observando, particularmente, o tipo de português empregado em
nosso século. E esperado que as deduções desses eruditos descreveri­
am a habilidade e a prática lingüísticas dos brasileiros do século XXL20

2. Literário (e.g., Políbio, Josefo, Filo, Deodoro, Estrabo, Epíteto, Plutarco)


A língua de tais eruditos, literatos, acadêmicos e historiadores era um Koinê
mais polido. A diferença entre as expressões literária e vulgar daquele idio­
ma assemelha-se às diferenças entre o português das escolas, das universi­
dades, da Academia Brasileira de Letras e o das feiras livres, estações de
trem ou ônibus etc. Epíteto provavelmente representa a forma mais colo­
quial do Koinê literário. Por isso, E. C. Colwell chegou a dizer que a língua
do Quarto Evangelho era muito semelhante à de Epíteto. O grego de Josefo,
embora, às vezes, marcado profundamente por semitismos, é com certa fre­
qüência muito bom.

20 Hoerber, 252.
22 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

3. Coloquial (Novo Testamento, alguns papiros)


O Koinê coloquial era a língua falada normalmente por pessoas educadas.
Seguia a expressão gramatical dos literatos; em comparação com o nível li­
terário, entretanto, ele era menos polido (faltavam-lhe certas peculiarida­
des, era menos prolixo, possuía sentenças mais curtas, com mais parataxes)
que o Koinê literário. Portanto, não deveríamos esperar muitos paralelos
entre os papiros (contendo, normalmente, a língua de pessoas não tão cul­
tas) e os literatos (sua língua é uma língua escrita, portanto mais esmera­
da). As evidências e/ou analogias, em nossa civilização ocidental, sobre esse
nível de linguagem acham-se, em boa quantidade, nos seguintes exemplos:
a. Nossos sermões ilustram bem isso. Um sermão está normalmente acima
do nível comum, mas abaixo do nível literário. De fato, muitos
professores de homilética dizem que um sermão ideal deveria estar em
um "nível coloquial vivido" (tome, e.g., Haddon Robinson). Temos aqui
uma analogia ideal para nosso assunto, pois temos boa parte do NT
no formato de prédicas legadas à posteridade. Algumas das cartas
pretendiam, pelo menos, ser lidas em voz alta nas igrejas. Talvez nunca
restabeleceremos a língua viva do Koinê falado, mas, em relação ao
grego neotestamentário, parece que chegamos bem perto.
b. "Praticamente cada era da civilização ocidental, principalmente,'
depois das composições e narrativas dos épicos de Homero, exibe três
níveis básicos da língua: literário, coloquial e 'v u lg ar'.... As
composições sobreviventes da Grécia e Roma antigas estão quase que
inteiramente no nível literário".21 Os discursos de Cícero são um bom
exemplo de latim coloquial.
c. Como nota Jannaris, há pelos menos três níveis de Grego, em todos os
seus períodos evolutivos:
As obras-primas literárias desse período [era clássica] até então não
representam a língua como era realmente falada na época... Pois, tan­
to nos diálogos encontrados nas classes cultas quanto entre a popu­
lação geral, o nível do diálogo não ultrapassaria, em muitos casos, o
simples discurso coloquial ou popular, transformando-se em um idi­
oma vernacular ou até mesmo rústico. A coexistência, em todas as
épocas, de um estilo artístico ou literário e um discurso coloquial e
popular... com uma língua convencional intermediária, é um fato
inquestionavelmente estabelecido pela lógica, investigação históri­
ca, analogias modernas e pela experiência diária.22
O mesmo autor vai além e descreve a distinção entre a modalidade
escrita e a falada do grego assim:
"...nunca qualquer escritor usou o mesmo estilo na escrita e na fala.
Pelo contrário, ele utiliza uma escrita estilizada para expressar seus
pensamentos de modo mais ou menos elegante.... Assim, toda a

21 Hoerber, 252.
22 Jannaris, 4.
A Língua do Novo Testamento 23

literatura grega [clássica] e a glória da Grécia antiga são compostas


quase que exclusivamente no estilo literário. Com respeito ao discurso
coloquial ou popular, dificilmente é representado nas obras
clássicas".23

Concluindo, Jannaris apresenta quatro níveis diferentes de Grego: 1)


Aticista, (2) Convencional [=literário], (3) L evan tine [=coloquial;
especificamente o grego dos estrangeiros helenizados, incluindo o NT],
e (4) Coloquial ou a língua das camadas populares (=vulgar).24

d. Concluindo, parece que a empolgação sobre os papiros paralelos ao


NT foi talvez exagerada. Isto significa que, por mais útil que seja os
papiros para o nosso entendimento do vocabulário do NT, não temos
achado paralelos sintáticos perfeitos nos papiros. Muitos dos papiros
são inferiores ao NT quanto à sintática, por conseguinte o NT não está
no mesmo nível literário que autores como Josefo ou Políbio. A sintaxe
do NT se encontra numa posição mediana entre vulgar e literária,
conhecida como conversacional.25

4. Aticista (e.g., Luciano, Dionísio de Halicarnasso, João Crisóstomo, Aristides,


Frínico, Moéris)
Uma língua artificial reavivada pelos literatos, desatentos à evolução da
língua (semelhante a muitos atuais defensores da King James Version que
declaram a superioridade dessa versão porque ela representa o inglês no
auge da sua glória, durante a era shakespeareana).
A língua grega, debaixo de certas condições e influências [e.g., sob o governo
romano, a vida cultural e intelectual floresceram pouco quando comparada
com o período áureo], encontrava-se em situação desfavorável - não era
mais o Ático dos velhos e gloriosos tempos da hegemonia ateniense. À
vista disso, muitos eruditos acompanhados por diversos discípulos, agindo
em uma silenciosa conspiração, esforçaram-se para deter o desenvolvimento
desse grego "comum" (i.e., o Ático não-clássico) e ressuscitar o antigo Ático
puro. Essa atitude lhe conferiu o título de Aticistas, i.e., "puristas". Seu
empenho consistia em imitar a forma ática, e não em desenvolver um padrão
novo, original...

IV. O Grego do Novo Testamento


Há duas questões distintas quanto ao conteúdo, porém relacionadas quanto a
nosso objetivo aqui, as quais precisam ser respondidas ao considerarmos a na­
tureza do grego do NT: (1) Quais eram as línguas vigentes no primeiro século
a.C., na Palestina?, e (2) Onde o grego neotestamentário se encaixa no Koinê?

23 Ibid., 5.
24 Ibid., 8.
25 Hoffmann von Siebenthal tem chegado a uma conclusão similar (2-3).
26 Jannaris, 7
24 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

A. O Contexto da Língua da Palestina


É de conhecimento incontestável que o aramaico, hebraico e o grego estavam
em uso na Palestina do primeiro século a.C.27 O modo como as particularidades
desses idiomas relacionavam-se é nosso foco agora. Uma outra questão impor­
tante é: Que língua(s) Jesus falava. Visto que essa última questão foge a nosso
estudo sobre o grego do NT (embora esteja relacionada com ele), falaremos bre­
vemente sobre a mesma.

1. Aramaico

E provável que, no primeiro século a.C., o aramaico fosse a principal língua


de várias regiões da Judéia. Duvida-se, no entanto, que ela fosse o principal
veículo de comunicação de todos os judeus da Palestina, particularmente
os da Galiléia. Hoje, muitos eruditos afirmam que o aramaico constituía a
principal base lingüística (não a exclusiva) através da qual Jesus ensinava,
muito embora ele provavelmente conhecesse o hebraico (cf. Lc. 4), e possi­
velmente também falasse o grego.

2. Hebraico

Alguns eruditos declaram que o hebraico fora realmente a principal lín­


gua do primeiro século a.C., na Palestina. Ainda que não fosse amplamente
usado pelas camadas populares, pois não há muitas pistas de inscrições
hebraicas na Palestina dessa época.

3. Grego

Um número crescente de eruditos vem confirmando a tese do grego como


principal veículo de comunicação na Palestina dos tempos de Jesus. Talvez,
tenha sido até mesmo a língua diária do seu ministério. "Os argumentos a
favor dessa tese embasam-se: (1) no papel do grego como a língua franca do
Império Romano; (2) no caráter lingüístico e cultural da baixa Galiléia du­
rante o primeiro século; (3) no fator lingüístico, ou seja, na transmissão do
Novo Testamento em grego, desde os manuscritos mais antigos, (4) na di­
versidade da evidência epigráfica; (5), na importância da evidência literá­
ria; e, (6) nos vários contextos significantes nos próprios evangelhos...."28

B. A Língua do Novo Testamento em Relação ao Grego Helenístico


1. A Questão
Qual o grau da influência semítica sobre o grego do NT? E quanto do grego
do NT possui outros tipos de influências?

27 Para um sumário, veja Porter, Verbal Aspect, 111-56.


28 Porter, "Did Jesus Ever Teach in Greek?" 204. Para uma apresentação detalhada
dos argumentos e uma excelente bibliografia, veja idem, 195-235.
A Língua do Novo Testamento 25

2. As Possíveis Respostas
Em 1863, J. B. Lightfoot antecipou a grande descoberta de papiros contem­
porâneos ao texto do NT quando disse: "se nós pudéssemos descobrir ape­
nas correspondências habituais entre as pessoas, sem qualquer intenção de
serem composições literárias, teríamos um importante auxílio no entendi­
mento da língua do NT em geral".29
Em 1895, trinta e dois anos mais tarde, Adolf Deissmann publicou seus
Bibelstudien (Estudos Bíblicos), uma obra puerilmente intitulada, visto que
revolucionou o estudo do NT. Nessa obra (traduzida depois para o Inglês
com o título Bible Studies), Deissmann mostrou que o grego do NT não era
uma língua criada pelo Espírito Santo (Hermann Cremer chamou-o de "O
grego do Espírito Santo", simplesmente porque 10% de seu vocabulário não
possuíam exemplos paralelos em obras seculares).
Deissmann demonstrou que o grande volume do vocabulário do NT se acha­
va nos papiros. O efeito pragmático da obra de Deissmann tornou obsole­
tos praticamente todos os léxicos e comentários lexicais escrito antes da vi­
rada do século. (O léxico de Thayer, publicado em 1886, ficou, conseqüente­
mente, antiquado logo depois de ser impresso. Ironicamente, ainda é tido
como confiável por parte de muitos estudantes do NT).
James Hope Moulton recebeu o bastão de Deissmann e demonstrou parale­
los morfossintáticos entre o NT e os papiros. Em essência, o que Deissmann
fez para a lexicografia, Moulton fez para a gramática. Este notou que algumas
construções, previamente sem paralelo, no NT foram encontradas nos pa­
piros (e.g., kv instrumental). No entanto, o seu caso não tinha se mostrado
convincente. Por essa razão, o debate ainda vigora a respeito do grau de
influência semítica sobre o grego do NT.
Atualmente, existem três pontos de vista quanto ao grego do NT. Eles
estendem-se do Koinê Vernacular até o grego rico em semitismos.
a. O Grego do NT = O Grego Vernacular
Essa era a visão de Deissmann e Moulton e tem sido promovida (com
algumas modificações) por Robertson, Radermacher, Colwell, Silva e
Rydbeck. Todos esses eruditos viam semitismos nas citações do AT e
em alguns ditos de Jesus.
Os problemas com essa visão são: (1) a rica variedade de autores do
NT não recebe a atenção devida. Alguns podem encaixar-se em certo
estilo; outros, em uma outra forma estilística; (2) muitos papiros foram
achados em tratados judaicos. Esses podem conter semitismos; e, em
muitos desses, (3) os paralelos sintáticos não são tão convincentes quan­
to os paralelos lexicais: O NT parece, em sua abrangência, situar-se em
um plano superior aos papiros.

29 Citdado em Moulton, Prolegomena, 242.


26 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

b. Grego do NT = Grego do NT = Grego Vernacular com Algumas


Porções Ricas em Semitismos
Alguns eruditos (e.g., Dalman, Torrey, Burney, Black, R. H. Charles, M.
Wilcox) vêem os Evangelhos, os primeiros quinze capítulos de Atos e o
Apocalipse como uma tradução grega. Ou seja, o original desses docu­
mentos fora escrito em aramaico. Aquilo que encontramos em vários
manuscritos não passa de uma outra tradução grega desse original.
Os problemas com esse ponto de vista são: (1) Não há absolutamente
nenhuma evidência textual primitiva para tal teoria (i.e., nenhum ms.
aramaico primitivo foi produzido [trad.: e encontrado] que pudesse ter
servido de base para o texto grego dos Evangelhos, Atos ou Apocalipse);
A maioria dos semitismos alegados (e.g., trocadilhos não vertidos na
tradução grega, traduções incorretas etc.), embora ingênuas, são sujei­
tas a sérias objeções.
c. O Grego do NT = Um Dialeto Distinto
Essa visão, similar a teoria do "Grego do Espírito Santo", tem sido for­
temente propagada por Nigel Turner. Este, ao refletir sobre tal língua
como criada pela Terceira Pessoa da Trindade, disse: "agora temos que
admitir que não somente é singular o tema das Escrituras, mas tam­
bém, é sem igual a língua em que eles foram escritos ou traduzidos".30
O mesmo autor, em outro trecho, declarou: "O grego bíblico é a única
língua com uma unidade e caráter próprios".31 E essencial entender
que a expressão "grego bíblico", para Turner, inclui a LXX. De fato, a
LXX é, lingüisticamente falando, a mãe do NT.
Os problemas decorrentes dessa posição, além das contradições com o
segundo ponto de vista, são: (1) Vários estudos têm mostrado que a
sintaxe neotestamentária não é tão idêntica a da LXX. As duas obras
possuem gêneros distintos;32 (2) Os paralelos são delineados de forma
seletiva;33 e (3) Essa visão confunde estilo com sintaxe (falaremos mais
sobre esse assunto adiante).

30 Turner, Syntax, 9.
31 Ibid., 4.
32 Por exemplo, o genitivo absoluto é usado freqüentemente no NT, pouco na LXX - e
é uma expressão distintamente idiomática. Várias características do aspecto verbal do
grego do NT não têm paralelo nas línguas semíticas. A construção artigo + substantivo
+ koú + substantivo é comum no NT, mas não (e não tem a mesma força semântica) na
LXX. A relação do adjetivo com o substantivo nas construções anarthras neotestamentárias
é mais semelhante ao grego áüco e aos papiros que à LXX.
33 Isso é especialmente o caso do artigo conforme L. Cignelli e G. C. Bottini, "UArticolo
nel Greco Biblico," Studium Biblicum Franciscanum Liber Annuus 41 (1991) 159-99. Eles
afirmam que o uso do artigo no NT fica em aposição comparado ao do ático (159). Sua
abordagem, porém, é tomar exemplos da LXX (que é uma tradução grega) e pressupor
que isso é igualmente válido no NT. Mas colocar o NT junto à LXX como se tudo fosse do
mesmo gênero é um exagero.
A Língua do Novo Testamento 27

Em suma, muitos eruditos hoje deveriam adotar uma visão intermedi­


ária entre a primeira e a segunda visão. Há, no entanto, um número
crescente de estudos promovendo a primeira. E.g., um deles declara: o
grego do NT era uma língua comum que poderia ser entendida nas
ruas de Atenas de maneira tão fácil quanto nos subúrbios de Jerusalém.
Existem, todavia, problemas com todos esses pontos de vistas, especi­
almente na forma como a questão é apresentada.
3. Retomando a Questão
Talvez haja outras maneiras de ver a natureza do grego neotestamentário.
As seguintes considerações oferecem uma variedade de considerações
dignas de atenção.
a. A Distinção entre Estilo e Sintaxe34
Os partidários da tese de que 'o grego do NT é o Koinê coloquial'
distinguem sintaxe de estilo (e.g., Deissmann, Moulton, Radermacher,
Debrunner). Os defensores do "dialeto distinto" não fazem essa
diferença. Ainda que os semitismos afetem o estilo do NT, sua sintaxe
ainda é grega helenística. A sintaxe é extrínseca ao autor. (Isso inclui os
aspectos básicos de uma comunidade sem a qual a comunicação seria
impossível.) O estilo, ao contrário, é intrínseco ao escritor. Por exemplo,
a freqüência do uso das preposições ou conjunções coordenadas (e.g.,
koú) é uma questão estilística: os escritos gregos áticos foram mais
paratáticos que os escritos do Koinê. Não há, pois, mudança sintática,
mas sim estilística. Muitos argumentos da tese do 'dialeto distinto' estão
baseados nessas diferenças quantitativas entre o Ático e o grego do NT.
Somente se tal visão pudesse comprovar quantativamente mudanças
qualitativas não somente entre o Ático e o grego do NT, mas também
entre o grego do NT e o outro Koinê, a tese do 'dialeto distinto' não
seria derrubada.
b. Níveis do Grego Koinê
Como foi declarado anteriormente, o grego neotestamentário não está
no nível dos papiros, nem no nível do Koinê literário, mas sim no do
grego coloquial. A falta de conhecimento a respeito desse nível
intermediário é parte da resposta para a confusão em torno da natureza
do grego do NT.
c. Natureza Múltipla, não-Linear
Gramática e estilo não são as únicas questões que precisam ser tratadas.
O vocabulário também é um matiz crucial. Deissmann demonstrou
muito bem que o léxico do grego neotestamentário é o mesmo do Koinê

34 Veja Rydbeck, 424-27, para discussão.


28 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

vernacular. É nossa convicção que a língua do NT precisa ser vista à luz de


três pólos: através do estilo, da gramática e do vocabulário. Até certo
grau: o estilo é semítico; a sintaxe vem do Koinê coloquial-literário (o
dialeto derivado do grego Ático); e o vocabulário pertence ao Koinê
vernacular. E inviável procurar constantemente separar esses itens.35
A relação, entre ambos, pode ser ilustrada assim:

Q u adro 1
A N atu reza M ú ltip la do G rego N eo testam en tário

d. Autoria Múltipla
E necessário referir-se ainda a outro fator: O NT foi escrito por vários
autores. Alguns (e.g., o autor de Hebreus, Lucas, e, às vezes, Paulo)
assemelham-se ao Koinê literário em suas estruturas sintáticas. Ou­
tros estão em um nível inferior ao Koinê literário (e.g., Marcos, João,
Apocalipse e 2 Pedro). Por isso, é impossível falar que o grego
neotestamentário reflete uma única forma de Koinê. Esse é um argumento
decisivo contra Turner, pois a língua do NT não é uma "língua singu­
lar" (uma comparação superficial entre Hebreus e Apocalipse revela­
rá isso). Contudo, essa declaração também depõe, de certo modo, con­
tra Deissmann e Moulton, pois o grego do NT não pode ser colocado
no mesmo patamar do grego dos papiros. Aqui, podemos citar três
níveis de relacionamento dos autores do NT e o Koinê: (1) alguns dei­
xam transparecer que o grego era a sua língua nativa; (2) outros, que
cresceram em um ambiente bilíngüe, provavelmente aprendendo o
grego depois do aramaico; e (3) outros, que podem tê-lo aprendido
quando eram adultos.

35 Ou seja, o contexto semítico do autor pode, às vezes, afetar sua sintaxe e vocabulário
(especialmente devido à influência da LXX). O Koinê vernacular pode impacta sua
sintaxe, bem como seu estilo etc.
A Língua do Novo Testamento 29

4. Algumas Conclusões
As questões relacionadas ao grego do NT são meio complexas. Podemos
sumarizar nossas conclusões da seguinte forma:
a. Em grande parte, o grego do NT é o grego coloquial em sua sintaxe -
um pouco abaixo do refinamento e das estruturas sintáticas do Koinê
literário, mas acima do nível encontrado nos papiros (embora, seja
verdade que há intrusões semíticas na sintaxe neotestamentárias em
algumas ocasiões).
b. Seu estilo, ao contrário, é amplamente semítico. Vê-se isso em quase to­
dos os escritores judeus do NT. Seu estilo é permeado tanto pela sua
herança religiosa quanto por seu contexto lingüístico. Além disso, a
estilística neotestamentária é fruto da fé comum em Jesus Cristo. (Isso é
semelhante a conversas entre dois cristãos: primeiro, na igreja; depois
no ambiente de trabalho. O estilo do discurso e o vocabulário, até certo
ponto, mudam de acordo com o local em que se encontram).
c. O vocabulário do NT, embora em seu conteúdo seja fortemente
influenciado ora pela LXX, ora pela experiência cristã, compartilha
muitas semelhanças como os documentos encontrados nos papiros do
primeiro século d.C.
Há exceções em cada uma dessas influências, uma vez que elas não são
nitidamente colocadas em compartimentos. E isso não é tudo: é quase im­
possível ver o grego desses homens como meramente um tipo de Koinê,
visto eles serem oriundos de vários contextos lingüísticos e dotados de di­
ferentes habilidades literárias. No entanto, obter uma impressão geral do
grego do NT é uma possibilidade. Moule resumiu bem essa questão:
O pêndulo tem inclinado mais na direção de igualar o grego bíblico com
o "grego secular". Mas não devemos permitir que essas incríveis desco­
bertas tornem-nos cegos a ponto de não percebermos as peculiaridades
semíticas preservadas no grego bíblico. (E isso é um fator mais prepon­
derante no Novo Testamento do que no "grego secular", coloquial ou li­
terário. Ainda que se mencione a propagação das colônias judaicas na so­
ciedade de então). Aliada à influência semítica, a mão modeladora da ex­
periência cristã, em certo ponto, criou um idioma [=estilo] e vocabulário
próprios.36

36 Moule, 3-4.
30 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

5. Autores Individuais
Falando de modo geral, o nível literário dos autores do NT pode ser
apresentado da seguinte forma:3/

SemíticolVulgar Coloquial Koinê Literário

- Apocalipse - A maior parte dos - Hebreus


- Marcos escritos paulinos - Lucas-Atos
- João, 1-3 João - Mateus - Tiago
- 2 Pedro - Pastorais
- 1 Pedro
- Judas

Tabela 1
N ív eis L iterários d os A u tores do N T

N.B. Na tabela acima, os livros são alistados em ordem decrescente de


pureza. Assim, Hebreus é mais literário que 1 Pedro, Apocalipse é mais
semítico que Marcos, etc.38

37 Para discussão detalhada, veja Metzger, 46-52 e os comentários críticos padrões.


38 Há deficiências nessa tabela: (1) não se pode dizer se Mateus está próximo do
Koinê vulgar ou do literário; e (2) não estamos misturando estilos, sintaxe e vocabulário
(embora esta ilustração seja primariamente da sintaxe dos vários livros) e tratando-os
em um nível linear.
Os Casos:
Introdução
Os casos têm um importante papel ao se determinar a relação das palavras entre
si. Embora haja somente cinco casos distintos no Koinê (eles são: nominativo,
vocativo, genitivo, dativo e acusativo), eles desempenham muitas funções. Além
disso, das quase 140.000 palavras1no grego neotestamentário, cerca de três quintos
são as formas declinadas nesses casos2 (inclui-se aqui: os substantivos, os adjetivos,
os particípios, os pronomes e os artigos). Essa estatística, aliada à rica variedade de
usos possíveis a cada caso, proporciona-nos uma acurada investigação no domínio
dos casos gregos.3 Veja no quadro abaixo, o gráfico resultante dessa análise.

Substantivos Artigos Pronomes Adjetivos Particípio

Q u adro 2
F req ü ên cia do U so dos C asos no N ov o T estam ento
(de acord o com as classes de palav ras)

1 Nestle-Aland27 /UBS4 têm 138,162.


2 Incluso na lista estão os substantivos indeclináveis (como os nomes semíticos),
embora tecnicamente não tenham terminações de caso. O número específico, segundo
a versão atual do acCordance, é 79,838 (das 138,162).
3 Praticamente, o estudo dos casos é restrito aos substantivos - i.e., palavras que
funcionam como nomes. Embora os particípios, adjetivos e, até mesmo, os artigos po­
dem ficar no lugar de um nome. Os nomes mais comuns são os substantivos e os pro­
nomes.

31
32 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Sistema dos Casos: O Debate -


Cinco Casos Vs. Oito Casos
A pergunta: "Quantos casos há na língua grega?" pode parecer tão irrelevante quan­
to o debate sobre quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete. Apesar
disso, a questão quanto aos casos tem alguma relevância.
Em primeiro lugar, não há unanimidade entre os gramáticos quanto a esse assunto
(ainda que a maioria, hoje, adote o sistema de cinco casos). Por si só, isso não é
necessariamente importante. No entanto, o fato de gramáticos e comentaristas assu­
mirem duas visões diferentes em relação a quantidade de casos existentes pode pa­
recer confuso, caso o assunto não seja discutido claramente.4 (Veja a tabela 2 para
uma comparação entre a nomenclatura dos dois sistemas de casos existentes.)

Segundo, a diferença básica entre os dois sistemas é uma questão de definição. O


sistema de oito define caso em termos de função, enquanto que o de cinco casos
trabalha com a idéia da forma adotada pelo caso.
Por último, é possível que essa diferença na definição afete, em certo sentido, a
hermenêutica de alguém. Para exemplificar cada sistema adotado, elegeremos apenas
um substantivo, extraído de um texto das Escrituras. E apenas um caso será abordado
de ambos os sistemas. Segundo o sistema óctuplo, analisar um substantivo em certo
caso é o mesmo que analisar uma só função sintática, uma vez que o caso é definido
como função, em vez de forma, ver somente um caso para um substantivo, é ver somente
uma função. De acordo com o sistema quíntuplo, o qual define caso em termos de
forma, e não como função, uma palavra declinada em certo caso, em determinado
contexto, é passível de mais de uma função. (Um exemplo da divergência hermenêutica
entre esses dois sistemas é visto em Mc 1:8 - eycà èponruioa òpccç uõocti, aúiòç õè
Pauríaei ò|iâç kv irvcupaTi àyúo ["eu vos batizo em água, mas ele vos batizará no
Espírito Santo"].5 Conforme o sistema de oito casos, uóan é classificado como
instrumental ou locativo, onde uma escolha exclui a outra. No sistema de cinco casos,
é possível interpretar üõcm tanto como o meio quanto a esfera onde João realizava
seu batismo. [Assim, seu batismo teria sido feito tanto por meio de água quanto na
esfera onde a água está presente]. O mesmo princípio se aplica ao batismo de Cristo:
kv TTveú|icru i, o que, conseqüentemente, influencia a teologia de 1 Cor 12:13).6

Em resumo, o xis da questão7 quanto ao uso ou não-uso do sistema de oito casos é


a hermenêutica gerada pela escolha de um em detrimento a do outro. No sistema

4A favor dos sistemas de oito casos estão Robertson, Dana-Mantey, Summers, Brooks-
Winbery, Vaughan-Gideon e outros poucos. Todos os demais (quer gramáticas do NT ou
do Clássico) adotam o sistema de cinco casos. Interessante, o fio comum que liga os
defensores dos oito casos é que eles tipicamente são Batistas do Sul - Southern Baptists (A
influência de A. T. Robertson provavelmente é a razão maior para a popularidade do
sistema de oito casos nessa denominação).
5 Embora muitos MSS tenham kv antes de uõati (e.g., A [D] E F G L P W S / '1328 565
579 700 1241 1424 Byz). Isso se deve a uma adição posterior. De qualquer forma a questão
aqui não é afetada.
6 Discutiremos esse texto no capítulo sobre preposições.
Os Casos: Introdução 33

óctuplo, há uma tendência em enfatizar a função de modo rígido. No sistema


quíntuplo, há mais espaço para verificar se um autor usou uma forma capaz de
expressar mais eficientemente uma idéia do que uma função cristalizada é possível
de fazer.

I. O Sistema de Oito Casos


A. Argumentação
Os dois argumentos usados na defesa do sistema de oito casos são: (1) o
argumento histórico e (2) o argumento lingüístico. O primeiro deriva-se
da filologia comparativa (i.e., a ciência que compara os fenômenos
lingüísticos entre dois ou mais idiom as). O princípio filólogo-
comparativista diz: uma vez que o sânscrito é uma irmã mais velha do
grego, e aquela língua possui oito casos; logo, o grego também tem que
ter oito casos. O segundo argumenta: "essa conclusão (a natureza óctupla
dos casos) também é baseada no fato óbvio que caso é uma questão de
função em vez de forma".8
B. Crítica
Primeiro, o argumento histórico é diacrônico em sua natureza, em vez de
sincrônico. Ou seja, ele é um apelo ao uso mais primitivo do idioma (nesse
caso, de outro idioma!), o qual possui, segundo alguns, alguma relevância,
ainda que pequena, para questão discutida. De acordo com outros estudio­
sos, não há relevância alguma. O modo como um falante entende seu pró­
prio idioma é determinado muito mais pelo uso atual do que pela história
de sua língua.9 Além disso, o apelo a idiomas mais antigos, como o sânscrito,
é baseado em formas, enquanto a aplicação ao grego é em termos de fun­
ção.10 Um paralelo melhor seria: o sânscrito e o grego oferecem uma abor­
dagem em que caso é uma questão de forma e não de função. E acrescente-
se a isso o fato de termos pouco, ou até mesmo nenhum material do
protogrego e do grego primitivo apontando para mais que cinco formas.11

7 Isso não quer dizer que a questão é resolvida pela hermenêutica, embora certamente
tenha importância na decisão. A pesquisa bíblica recente reconhece que determinado au­
tor pode, às vezes, ser intencionalmente ambíguo. Os exemplos de duplo sentido, de sensus
pleníor (definido de forma conservadora), trocadilhos e jogos de palavras no NT, todos
contribuem para tal fato. Um tratamento completo sobre isso ainda precisa ser feito. cf. A
tese de doutorado de Saeed Hamidkhani, "Revelation and Concealment: The Nature and
Function of Ambiguity in the Fourth Gospel" (Cambridge University, 1996).
8 Dana-Mantey, 65.
9 Dar prioridade ao sincronismo é um dos grandes avanços da lingüística moderna (cf.
F. de Saussure, Cours de linguistique générale [Paris: Payot, 1916]). A obra foi traduzida para
o português como Curso de Lingüística Geral São Paulo: Cultrix, 2007.
10 Cf. W. D. Whitney, A Sanskrit Grammar, Including Both the Classical Language, and the
Older Dialects, of Veda and Brahmana, 3d ed. (Leipzig: Breitkopf & Hãrtel, 1896) 89 (§266),
103-5 (§307) sobre as formas dos oito casos no sânscrito.
11 Em sua seção sobre "The Greekness of Greek", Palmer nota que, mesmo a partir de
evidências de inscrições mais antigas, um dos aspectos distintivos do grego foi suas formas
dos cinco casos: "Na morfologia dos substantivos a mais intrigante inovação do grego foi
a redução de oito caos do Indo-Europeu para cinco. . ." (L. R. Palmer, The Greek Language
[London: Faber & Faber, 1980] 5).
34 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Segundo, o fato óbvio para os proponentes do sistema de oito casos


confirma, segundo eles, ser a natureza dos casos uma questão funcional, e
não formal. Tal assertiva não é tão clara para outros estudiosos. Não é
necessário estender mais nossa discussão, pois se caso é verdadeiramente
uma questão só de função, então deveria haver mais de uma centena de
casos em grego. O genitivo, por exemplo, teria dúzias de funções.12
C. Valor Pedagógico
Um elemento positivo para o sistema de oito casos é: nesse sistema vê-se
clara e mais detalhadamente uma idéia básica para cada caso13 (embora
haja muitas exceções para isso). No sistema de cinco casos, isso é mais di­
fícil de detectar. O sistema de oito casos é especialmente útil para lembrar:
qual a diferença a idéia de tempo entre os casos genitivo, dativo e acusativo.

II. Definição de Casos de Acordo com o Sistema de Cinco Casos

Caso é a flexão de um substantivo14 de acordo com as várias funções sintáticas


ou relações deste com outras palavras. Ou de modo mais simples: caso é uma
questão de forma em vez de função. Cada caso tem uma forma, porém muitas
funções.

Sistema de Cinco Casos Sistema de Oito Casos


Nominativo Nominativo
Genitivo Genitivo
Ablativo
Dativo Dativo
Locativo
Instrumental
Acusativo Acusativo
Vocativo Vocativo

Tabela 2
S istem a de C in co C asos Vs. S istem a de O ito C asos

12 Adicionemos que iniciar o estudo com as categorias semânticas é colocar o carro


na frente dos bois. Sintaxe deve, primeiro que tudo, está baseada em um exame e inter­
pretação das estruturas. Começar com semântica deturpa os dados. (Veja "Introdução: A
Abordagem deste Livro" para discussão).
13 De fato, muito de nossa organização dos usos dos casos será construído sobre tal
idéia básica. Assim, e.g., o genitivo terá uma seção ampla chamada: "Usos Adjetivais" e
uma chamada: "Usos Ablativos".
14 Tecnicamente, é claro, o caso não está restrito aos nomes. Praticamente, porém, a
discussão de casos focaliza sobre os substantivos e outros nomes e não gera um significado
independente.
Os Casos: Introdução 35

Adotando o sistem a de cinco casos como o pressuposto mais legítim o,


determinemos agora a quantidade dos vários casos existentes no NT, baseando-
se somente nos aspectos formais. De acordo com o sistema de cinco casos, o
resultado é o seguinte:

Nominativos:15 24,618

Genitivos:16 19,633

Dativos:17 12,173

Acusativos:18 23,105

Vocativos:19 317

Total: 79,84620

15 Nominativos: 7794 substantivos, 3145 pronomes, 6009 artigos, 4621 particípios,


3049 adjetivos.
16 Genitivos: 7681 substantivos, 4986 pronomes, 5028 artigos, 743 particípios, 1195
adjetivos.
17 Dativos: 4375 substantivos, 3565 pronomes, 2944 artigos, 353 particípios, 936
adjetivos.
18 Acusativos: 8815 substantivos, 5009 pronomes, 5889 artigos, 957 particípio, 2435
adjetivos.
19 Vocativos: 292 substantivos, 0 pronomes, 0 artigos, 1 particípios, 24 adjetivos.
Embora esses dados sejam baseados inicialmente no lançamento atual do acCordance,
este programa de computador omitiu-se em seu tratamento do vocativo, pois todos os
nominativos usados como vocativos foram declinados como vocativos. Em adição, visto
que não há nenhuma distinção formal entre nominativo plural e vocativo plural, uma
decisão sintática precisa ser feita (a qual é completamente arbitrária). Todos os plurais
nesses casos foram considerados como vocativos pelo acCordance, mas são nominativos
para nós. (Também, consideramos todos os substantivos indeclináveis como nominativos
por vocativos).
20 Uma discrepância de 8 casos existe entre as duas pesquisas acCordance feitas nesse
capítulo: 79.838 vs. 79.846. Como apontamos anteriormente, o acCordance não é uma
ferramenta perfeita, mas sua precisão ainda é extremamente alta (nessa amostra,
99.99%).
O Caso Nominativo
Resumo dos Uso do Nominativo
Usos Primários do Nominativo.............................................................................. 38
I. Sujeito................................................................................................................. 38
II. Predicativo.........................................................................................................40
III. Nominativo em Simples Aposição............................................................... 48

Usos Gramaticalmente Independentes do Nominativo................................... 49


I. Nominativo Absoluto..................................................................................... 49
II. Nominativus Pendens (Nominativo Pendente)......................................... 51
III. Nominativo Parentético...................................................................................53
IV. Nominativo em Expressões Proverbial........................................................ 54
V. Nominativo por Vocativo...............................................................................56
VI. Nominativo de Exclamação........................................................................... 59

Nominativo como Substitudo dos Casos Oblíquos........................................... 61


I. Nominativo de Apelo...................................................................................... 61
II. Nominativo em Aposição aos Casos Oblíquos.......................................... 62
III. Nominativo depois de uma Preposição........................................................62
IV. Nominativo de Tempo.................................................................................... 64

Bibliografia Selecionada

Abel, Grammaire, 165-67; BDF, 79-82 (§143-45,147); Brooks-Winbery, 4-7, 59; Dana-
Mantey, 68-71 (§83); Goetchius, Language, 45-46; Funk, Intermediate Greek, 395-404
(§530-37), 709-10 (§885-86); Hoffmann-von Siebenthal, Grammatik, 214-16; L. C.
McGaughy, Toward a Descriptive Analysis of E iv a i as a Linking Verb in Nezu Testament
Greek (Missoula, Mont.: Society of Biblical Literature, 1972); Matthews, Syntax, 96­
120; Moule, Idiom Book, 30-31; Moulton, Prolegomena, 69-71; Porter, Idioms, 83-87;
Radermacher, Grammatik, 118-19; Robertson, Grammar, 456-61; Smyth, Greek
Grammar, 256-57 (§906-18); Turner, Syntax, 34, 230-31; Young, Intermediate Greek, 9­
15; Zerwick, Biblical Greek, 9-11 (§25-34).

36
Normativo 37

F req ü ên cia dos C asos n o N o v o T estam ento

Introdução: Aspectos Não-Afetados


O nominativo é o caso da designação específica. Os gregos chamavam-no de "o caso
que denomina", pois ele, freqüentemente, nomeia o tópico principal da oração. En­
tenda tópico principal de uma sentença como a parte do discurso semanticamente muito
parecida com o sujeito sintático, todavia nem sempre o tópico principal será o sujeito
sintático e vice-versa.1 Por essa razão, o uso mais comum do nominativo é identifica­
do como sujeito.- Como o caso que detém o maior número de ocorrências no NT, o
nominativo3 é seguido de perto pelo acusativo e genitivo.4

1 O tópico na sentença é, tecnicamente, maior que uma simples palavra. Como no portu­
guês, porém, o termo "sujeito" também pode ser usado para o sujeito tópico ou o gramatical.
E.g., na sentença: "O garoto chuta abola", o sujeito gramatical é "garoto", mas o sujeito tópico (ou
semântico/lógico) envolve tanto um agente (um garoto) quanto uma ação (chutar a bola).
2 Gildersleeve acrescenta uma interessante nota que explica por que o neutro não tem
duas formas distintas para o nominativo e o acusativo: "O nominativo relaciona-se com a
idéia de pessoa ou personificação. Esta é a razão porque o neutro não tem uma forma
nominativa. Por um lado a livre personificação de nomes pareceria estranha em um estilo de
prosa prática e simples, por outro pareceria normal para se fazer poesia ou para filosofar".
(B. L. Gildersleeve, "I. — Problems in Greek Syntax," AJP 23 [1902] 17-18). Isto quer dizer
que o sujeito da sentença é freqüentemente, se não normalmente, o agente, e, conseqüente­
mente um ser pessoal. (Isso é claro, uma vez que dificilmente objetos manifestariam atos de
volição). Há muitas exceções, é claro, mas o ponto de vista de Gildersleeve está mais relacio­
nado às raízes históricas da língua que ao seu uso.
3 Temos a seguinte apresentação do nominativo: Dos 24.618 nominativos existentes no
NT: 32% são nomes (7794); 24% são artigos (6009); 19%, particípios (4621); 13%, pronomes
(3145); e, 12% são adjetivos (3049).
4 O termo "não-afetado" será usado através desse livro para nos referirmos às caracterís­
ticas ou traços morfológicos particulares de uma categoria (v.g., o caso nominativo, o tempo
presente, o modo indicativo etc.). Estes são vistos somente quando forem puros. Em outras
palavras, os traços "não-afetados" são aqueles que o tempo presente, por exemplo, possui
quando não é influenciado em seu significado básico (como o significado contextual ou lexical
do verbo, ou outra característica gramatical imposta como faz o modo indicativo etc.). Para
maiores detalhes, leia a discussão sobre os aspectos não-afetados e seus usos específicos, no
tópico "A Abordagem desse Livro".
38 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Usos Específicos
Usos Primários do Nominativo
I. Sujeito
A. Definição
O substantivo5 no caso nominativo é freqüentemente o sujeito de um ver­
bo finito.6 O verbo pode ser explícito ou implícito. Por sujeito implícito ou
"em elipse", chamamos o sujeito identificado pela desinência verbal (e.g.,
ep/eioa, significa "ele vem" [a desinência -]e]t(u indica a terceira pessoa
do singular]). Esse uso é mais comum do nominativo.
B. Ampliação

1. Relação com a Voz do Verbo


A relação do sujeito com a ação ou estado expresso pelo verbo é descrita
perfeitamente pela voz do verbo. Se a voz é ativa, o sujeito pratica a ação
(e.g., fjÀGev ó 'IrjGoOç elç rqu 'Iouôoúav ["Jesus foi para a região da
Judéia"] em Jo 3:22). Se passiva, o sujeito sofre, recebe ou desfruta a ação
expressa pelo verbo (e.g., ô vó|ioç èôó0r| ["Alei foi dada"] em Jo 1:17). Se
média, o sujeito age sobre si mesmo, ou em seu próprio favor, ou ainda:
a tensão da ação é posta sobre o sujeito (e.g., ô 9eòç êÇeA.éÇato ["Deus
escolheu (por si mesmo)"] em Ef 1:3-4).
E evidente que existem exceções, como os chamados verbos depoentes
[N.T.: passivo na forma, mas ativo no sentido] e o verbo de ligação (N.T.:
o original chama de verbo equativo) que não descreve uma ação, mas
um estado.

5 "Substantivo" é qualquer palavra atuando como um nome. Como mencionado na


introdução aos casos, nomes serão mais encontrados que quaisquer outras classes de
palavras. E bom lembrar, porém, que pronomes, adjetivos, particípios e outras partes do
discurso podem ser usados como nomes. Para uma melhor compreensão, as seguintes
formas atuarão na função de sujeito: (1) nomes; (2) pronomes; (3) particípios (especial­
mente os articulares); (4) adjetivos (também comumente usados na forma articular); (5)
numerais; (6) artigos usados em construções com: (a) pév ou õé, (b) frases preposicionais,
(c) frases no genitivo, (d) advérbios, ou (e) praticamente qualquer outra parte do discur­
so acompanhada de um verbo finito (veja a discussão no capítulo sobre artigos); (7) um
infinitivo, quer seja anarthro ou articular; (8) preposição + numeral; (9) uma claúsula
inteira que não dê indicação morfológica de que seja o sujeito (como as claúsulas com 'lvk
ou on). Cf. Smyth, Greek Grammar, 256 (§908); Young, Intermediate Greek, 11
6 Com os termos verbo finito, queremos chamar qualquer verbo que, ao ser analisado
gramaticalmente, faça referência a uma pessoa gramatical. Destarte, teremos verbos que
tomarão um nominativo-sujeito (NS) quando estiverem na formas: indicativo, subjunti­
vo, optativo e imperativo; e verbos que, tecnicamente, não tomarão sujeito.
7 Os verbos implícitos mais freqüentes são os verbos equativos (segundo a índole do
português, assemelham-se aos nossos verbos de ligação). ’Ei|ií, é o mais comum, e sua
forma mais usada é a terceira pessoa. Outros verbos podem estar implícitos, ou ainda
estarem subentendidos por ocorrem em um contexto anterior [N.T., os verbos em elipse].
Nominativo: usos primários 39

2. Relação com o Tipo de Verbo


Além disso, para se fazer uma análise dos verbos pela voz, é importan­
te observar sua classificação, ou seja, se ele é: transitivo [N.T., direto],
intransitivo ou de ligação. Em síntese, os verbos transitivos [diretos] to­
mam um objeto direto e normalmente podem ser convertidos em uma
construção passiva ("O menino chutou a bola" torna-se: "A bola foi chu­
tada pelo menino"). Os verbos intransitivos não tomam um objeto e não
podem ser convertidos em uma passiva ("ela veio à igreja", não pode
ser vertida em: "A igreja veio para ela"). O verbo de ligação desfruta um
pouco dessas duas naturezas: funciona como verbo transitivo (à medi­
da que dois substantivos ligam-se por certo verbo), e como intransitivo
(à medida que a sentença é incapaz de ser vertida em uma passiva). Para
distingui-los, verifique se o segundo substantivo [no caso do verbo de
ligação, o predicativo do sujeito] está no mesmo caso que o primeiro
substantivo [no caso, o sujeito]: "João foi um homem".
Embora nossa análise seja limitada - devido ao objetivo proposto nes­
sa obra é importante, ao se pensar em sintaxe como um todo, não
esquecer esses três tipos de verbo. Em uma análise rápida, por exem­
plo, fica patente que: a proporção de sujeitos em relação aos predicativos
[do sujeito] é igual em frases com verbo de ligação (N.T.: ou em con­
textos em que o verbo de ligação esteja subentendido, como no
predicado verbo-nominal); e que o sujeito, contrário ao predicativo, pode
ocorrer com todos os três tipos de verbos.8
3. Tipos de Sujeitos Semânticos
E possível analisar o sujeito de uma sentença de duas formas: (1) através
de suas características formais como gênero e número, i.e.,
morfossintaticamente; ou (2) através do tipo de voz verbal usada, i.e., léxi-
co-semanticamente. No nível léxico-semântico, nem todos os sujeitos dos
verbos ativos funcionam da mesma maneira. Por exemplo, declarações do
tipo "Eu ouvi o discurso", "Eu recebi o presente", ou "Eu tenho um cão"
não descrevem, necessariamente, os sujeitos como aquele que praticaram
a ação descrita nos verbos, ainda que os verbos: "ouvi", "recebi" e "te­
nho", estejam na voz ativa (e sejam todos verbos transitivos).9 Assim, afir­
mar que o sujeito de um verbo na voz ativa é, com precisão, aquele que
pratica a ação expressa pelo verbo é uma falácia. Há muito lucro em anali­
sar o sujeito de uma frase em relação aos tipos de nuances lexicais decor­
rentes dos verbos com que se relacionam. Essa abordagem será utilizada
no capítulo: "Os Tempos [do verbo]: Uma introdução".10
4. Falta de Elementos
E possível que o verbo (especialmente o de ligação) esteja ausente na
oração, embora ele seja implicitamente reconhecido (e.g., eyw (jicovq ["Eu
sou a voz"] em Jo 1:23). Da mesma forma, o sujeito pode estar ausente,
embora, implícito no verbo, (e.g., TTpoaé(])epov a m ã Tiaiôía [literalmen­
te, "Eles traziam as crianças a ele"] em Mc 10:13).

8 Em nossa análise sobre os casos oblíquos (i.e., genitivo, dativo e acusativo), notare­
mos que com esses tipos de verbos a estatística também é similar. Por exemplo, genitivos
sujeitos serão mais comuns que genitivos objetos, uma vez que eles podem ocorrer com
nomes deverbais que possuem idéia verbal transitiva ou intransitiva, enquanto os objetos
genitivos ocorrem somente com idéias verbais transitivas. 9 Matthews, Syntax, 99.
10 Para uma discussão complementar, veja especialmente Fanning, Verbal Aspect, 126­
96; cf. também Givón, Syntax, 139-45 (§5.3).
40 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

C. Ilustrações
Jo 3:16 fiyáiTqaeu ó Geóç xòv KÓapov
Amou Deus ao mundo
Hb 11:8 TTÍaxei 'APpaàp ínrriKOuaev
Pela fé Abraão obedeceu
Rm 6:4 r)yép0r| Xpicrròç èic veKpôv
Cristo foi ressuscitado dos mortos
At 1:7 ó uotirip eGeio kv tt) lõía êÇouoía
o Pai estabeleceu por sua própria autoridade
Ef 5:23 ó Xptoxòç Kecjicdri xfjç èKKA.r)oíaç
Cristo [é] o cabeça da igreja

^ II. Nominativo-Predicativo
A. Definição
O Nominativo-Predicativo (NP) é quase igual ao Nominativo-Sujeito (NS), e
une-se a este último por um verbo de ligação explícito ou implícito. NP's
ocorrem freqüentemente no NT. Contudo, um NS nem sempre possui um
NP, nem se correspondem intercambiavelmente, e.g., como na fórmula ma­
temática : A=B, B=A. Pelo contrário, o NP regularmente descreve uma cate­
goria maior (ou estado) à qual o NS pertence. É importante atentar para os
dois tipos distintos de construções de Nominativo-Sujeito/Nominativo-
Predicativo (=NS/NP), que serão discutidos abaixo.
B. Ampliação
1. Verbos Usados nas Construções NS/NP
Os verbos usados nessa "equivalência" são: elpit (o mais usado), yivopca,
e úlTápxío. Note que a voz passiva de alguns verbos transitivos podem ser
usados nesse tipo de construção: e.g., Kccléca na sentença: (j)ÍXoç Geoí) èKÀ.f|9r|
["ele foi chamado amigo de Deus"] em Tg. 2:23; e eí)p[aKG): etipeGruieu leal
aúxol ãpapi(júA.o( ["fomos nós mesmos também achados pecadores"
G12:17.11
2. Tradução das Orações NS/NP
A tradução para o português requer que o NS seja traduzido primeiro.12

11 Ocasionalmente |iévu pode ser usado como um verbo equativo. Quando isso ocor­
rer, significa que nele não usará sua performance intransitiva (cf. At 27:41; 1 Cor 7:11;
2 Tm 2:13; Hb 7:3).
12 Isso é verdadeiro particularmente em todas as sentenças, exceto nas interrogativas
onde a ordem é reversa (e.g., xíç koxiv f] pf|Tr|p pou ["quem é a minha mãe?"] em Mt 12:48.
O sujeito é minha mãe e o nominativo predicativo é "quem"). Sentenças interrogativas,
por sua própria natureza, indicam componentes desconhecidos e, conseqüentemente, não
podem exercer a função de sujeito (veja McGaughy, Descriptive Analysís of Eivai, 46, 68­
72). (Outra classe de exceções, porém muito rara, os pronomes demonstrativo seguidos
por uma declaração apositiva ou epexegética, pois o conteúdo dos pronomes é revelado
na declaração seguinte [cf., e.g., Tg 1:27].)
Nominativo: usos primários 41

Tal exigência não ocorre na língua grega. Em Jo 1:1, por exemplo: 9eòç
rjv ò ÀÓyoç segundo a índole da língua portuguesa deve ser traduzido:
"a Palavra era Deus", em lugar de "Deus era a Palavra", como se lê em
grego. Uma vez que a ordem de palavras na língua grega é mais flexível
que em português, surge um problema: Como distinguimos NS de NP
se a ordem das palavras não é um guia claro? A seção seguinte oferecerá
uma solução detalhada.
3. A Importância Semântica e Exegética das Construções NS/NP
a. A Dupla Relação Semântica
A importância da construção de NS/NP afeta mais que a simples tra­
dução, pois ambos não se correspondem intercambiavelmente. A re­
lação entre um Nominativo-Sujeito e um Nominativo-Predicativo,
resume-se assim: o predicativo descreve a classe a que o sujeito pertence.13
Isto é conhecido como uma proposição de subconjunto (onde o NS é
um subconjunto de NP). Logo, o significado de "O Verbo se fez car­
ne" não é igual a "Carne se fez Verbo", porque a categoria carne é
mais ampla que a categoria "Verbo". A expressão "a palavra da cruz
é loucura" (1 Co 1:18) não quer dizer o mesmo que "a loucura é a
palavra da cruz", pois há outros tipos de loucura. Declarar que "Deus
é amor" não é o mesmo que afirmar que "o amor é Deus". Portanto,
a partir desses exemplos o vocábulo “é" não significa necessariamente
"igual a ".u

Ainda há outra relação semântica menos freqüente entre NS e NP


que a descrita acima. Ela é, às vezes, chamada de proposição conver­
sível. Essa construção indica um intercâmbio idêntico, ou seja, am­
bos os substantivos usados têm um referencial idêntico. As fórmulas
matemáticas de A=B, B=A são aplicáveis a tais exemplos. Uma decla­
ração como "Pelé é o maior jogador de futebol na história da FIFA"
significa o mesmo que "o maior jogador na história da FIFA é Pelé".
Há total intercâmbio entre NS e NP.15

13 Em termos lingüísticos, as categorias de sentido mais específico (sujeito) são


hipônimos; e, a categoria mais geral (nominativo predicativo) é hiperônimo. Por exem­
plo, jogador de futebol é um hipônimo de atleta, e atleta é um hiperônimo de jogador de
futebol. Em cada relação, nunca haverá uma intercambialidade perfeita.
14 A suposição de que um verbo equativo gramatical parece ter a mesma força da
notação matemática da adição (+) é a falha principal do argumento dos Testemunhas de
Jeová sobre a negação da deidade de Cristo. A respeito de João 1:1, conforme seu livreto,
Should Vou Believe in the Trinity? (New York: Watchtower Bible and Tract Society, 1989),
eles afirmam que, uma vez que João 1:1b declara que "o Verbo estava com Deus", João
1:1c não pode significar: "O Verbo era Deus": "Alguém que está "com" outra pessoa não
pode ser a mesma pessoa com quem ele está" (27). Esse argumento parece assumir que
todas as construções do tipo NS-NP são proposições conversíveis. .
13 Entretanto, isso não que dizer que não seja importante distinguir quem é o sujeito.
Se você notar a primeira sentença responde a questão: "Quem é Pelé?", enquanto a segunda
pergunta, "Quem é o maior jogador de futebol na história da FIFA?" Cf. McGaughy,
Descriptive Analysis of E ivou, 68-72.
42 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Verifique esses dois tipos de relacionamentos no gráfico abaixo.

X 'X X ^T x
f f Sujeito N \ j Sujeito \ _ f ( 'é o \
V L Jo ã o ') ) \ , ('Jesus') ) 1 filho de )
\ Pred. do Sujeito V J X D e u s ') /
\ ('é um /
.h o m e m ' ) /
Proposição Conversível
Proposição Corolária 'Jesus é o Filho de D eus' =
'João é u m hom em ' 4 'U m hom em é João' 'O Filho de Deus é Jesus'

Q uadro 4
R elação S em ân tica do N om in ativo-S u jeito com o N om in ativo-P redicativo

Assim, ao se examinar as construções NS/NP, duas perguntas fun­


damentais precisam ser respondidas: (1) Como distinguir entre NS
e NP visto que a ordem das palavras não é um guia infalível?, e (2)
Qual é a relação semântica entre os dois: o NS é uma subclasse de
NP ou ambos são intercambiáveis?
b. Como se Distingue o Nominativo-Sujeito do Nominativo-
Predicativo16
A distinção entre tais categorias será notada quando o Nominativo-
Sujeito for uma referência a uma entidade conhecida } 7 Esse princí­
pio é válido para os dois tipos de construção NS/NP. Nas orações

16 O trabalho original, nessa área, vem da pena de Goetchius, Language, 45-46. Ele
menciona cinco padrões distintos de 'Sujeito': (a) nome próprio, (b) nome articular, (c)
Se ambos forem igualmente definidos, aquele que possuir sentido mais específico será o
Sujeito; (d) O Sujeito encontra-se mencionado no contexto imediatamente anterior, e (e)
as regras pronominais de Goetchius foram examinadas por McGaughy o qual encon­
trou falhas nas mesmas. Veja Descriptive Analysis of E ín a i, 29-33. McGaughy encontrou
duas falhas gerais no método de Goetchius (32): "(1) Goetchius mesclou categorias: (a),
(b) e (e) são categorias gramaticais (morfológica e sintática); (d) é uma categoria contextual
e (c) pertence ao nível do significado (semântica). (2) Goetchius ordenou suas descober­
tas," ele nota que "enquanto a análise de Goetchius representa um progresso na identi­
ficação dos sujeitos em S-II, é fato que ele iniciou sua abordagem com um princípio
semântico [o contraste definido vs. indefinido] o qual anula sua proposição final" (33).
McGaughy segue o princípio da Lingüística Estrutural (a mesma é bastante utiliza­
da nessa gramática). Essa abordagem propõe que a análise gramatical deve iniciar com
a estrutura e finaliza com a semântica (ibid., 10-16). Por outro lado, a confusão levanta e
influencia de modo que não se produz uma mudança propriamente dita. Os padrões
gramaticais da linguagem serão um guia mais seguro que os padrões léxico ou semân­
tico porque a transformação parte de autor para autor e de tempo para tempo (e de
intérprete para intérprete!). Veja nossa "Abordagem para este Livro".
Finalmente, desejo expressar meus agradecimentos a Steve Casselli e Gennadi
Sergienko, cujo trabalho no Curso de Gramática Grega Avançada, no Seminário Teológi­
co de Dallas (1992 e 1993 respectivamente) me auxiliou a embasar e explicar o argumen­
to dessa seção.
17 McGaughy, Descriptive Analysis of E iv a i, 68-72.
Nominativo: usos primários 43

predicativas, a parte conhecida (NS) distingue-se do NP por meio


de uma das três formas abaixo.18
O valor de tais regras só será percebido quando um único substan­
tivo no caso nominativo possuir uma "identificação gramatical" e a rela­
ção semântica partir do particular (sujeito) para o geral (predicativo).19
Assim, teremos uma construção do tipo 'proposição de
subconjunto'.
1) Pronome-Sujeito (explícito ou implícito no verbo).20

Mt 3:17 Olixóç èaxtv Ó ulóç |iOU Ó (XYOCTTriTÓç


Este é o meu Filho amado
Lc 1:18 eiueu Za%apíaç irpoç xòv ayyeÀov, éyò) elpi irpeapúrriç
disse Zacarias ao anjo, "Eu sou velho."
At 2:15 cot iv copa ipixri xr|ç rpepocç
(essa) é a terceira hora do dia
Cf. also Mat 27:54; João 9:8; Rm 5:14; Jd 12; Ap 13:18; 21:7.

2) O sujeito será com artigo.


Jo 4:24 nueu|ia õ Oeóç
Deus é espírito
Hb 1:10 epya xwv xeipóòv ooú eioiv ol oúpavoí
Os céus são obras das tuas mãos
Mc 2:28 KbpLÓç kaziv ó ulòç xou ànOpcímou Kcd toü oappátou.
O Filho do homem é Senhor até do Sábado.

3) O sujeito será um nome próprio.21


Lc 11:30 èyéuexo 'Icovócç tolç N iv b j Ítcuç appeiov22
Jonas foi sinal para os Ninivitas
1 Co 3:5 t l oíu koTiv ’AttoA.A.c3ç;
Quem pois, é Apoio?
Em primeiro lugar, os pronomes interrogativos [nominativos] são

18 Isto é, por meio da extensa abordagem de McGaughy, com algumas modificações.


19 As aparentes exceções a isso têm associação com as instâncias onde o Nominativo-
Predicativo deve ser definitivo sem ser pronome, nome próprio etc. Veja o capítulo sobre
artigo para uma melhor discussão.
Há uma verdadeira exceção, ou seja, os pronomes interrogativos quando constituem
um Nominativo-Predicativo.
Isso nem sempre ocorrerá quando o outro nominativo for a palavra ovoga. A palavra
em questão (òvoucc) é uma exceção devido à sua força léxica: A verdadeira natureza da pala­
vra denota uma quantidade conhecida. E.g., em Lc 1:63 (’Iwáuvr]ç kaúv ovo\xa ctúroO), o
texto poderia ser traduzido assim: "seu nome é João" ou "João é o seu nome". O fato de que
a criança deve ter um nome é a quantidade conhecida, porém qual deve o nome é que não
era ainda conhecido. Logo, a tradução mais semanticamente correta é "Seu nome é João". Cf.
também Mt 13:55 (veja discussão abaixo).
22 B A et pauci inserem ó antes de ’Iwvâç.
44 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

traduzidos, embora o outro nominativo seja o sujeito. Seguindo nosso


princípio geral, o NS é uma entidade conhecida (como pode facilmente
ser visto aqui). A força semântica da sentença pode ser declarada assim:
"Apoio pertence a que categoria maior?"
Tg5:17 'HXíaç ãu0pa)TiOí; rju
Elias era homem
c. A Lei do mais Forte23
Se tanto o NS quanto o NP encaixarem-se em uma das três regras
acima, como saber quem é o NS? Qual será a relação semântica
descrita na sentença? Primeiro, quando as três categorias forem
encontradas nesse ou naquele tipo de nominativo, a "lei" do mais
forte prevalecerá, ou seja:
1) O pronome-substantivo terá prioridade ainda que existam
substantivos na sentença (seja articular, seja um nome
próprio).24
Mt 11:14 k c u E l Bélexe ÔéÇaoBtu, aútóç êoxiv ’HÀÍaç
E, se o quereis reconhecer, ele mesmo é Elias
At 9:20 ouxóç èoxiv õ ulòç xoG 9eoG
Este é o Filho de Deus
1 Jo 5:9 q papxupía xoG Beoü peíÇotu èoxív, óxi aüxq èoxiv q |iapxupía xoô 0eou
o testemunho de Deus é maior: ora, este é o testemunho de Deus
2) Nomes articulares e nomes próprios (anartros ou articulares)
desfrutam da mesma prioridade. Nesses casos, a ordem das
palavras será um fator determinante.25

Jo 8:39 ó TTaxqp qpwu ’APpaá|i éaxiv


nosso Pai é Abraão26
Jo 15:1 ó TTCtxqp pou ó yeupyóç eaxtv
meu Pai é o agricultor

23 Não estamos aqui interagindo com a regra de Goetchius, isto é, que o sujeito terá
sido mencionado em um contexto imediatemente anterior por duas razões: Primeiramente,
como McGaughy notou, sua base é mais contextual que morfológica. Segundo, pragmati-
camente, há poucos lugares no NT em que qualquer outra regra também, seja invocada.
Isto é, o termo precedente é quase sempre especificado por um artigo anafórico ou um
pronome (ambos são os melhores guias na distinção entre Nominativo-Sujeito e
Nominativo-Predicativo). O contexto como padrão é aparentemente válido quando ne­
nhum outro substantivo, em uma dada construção NS-NP, for um pronome, nome pró­
prio ou articular (cf. Hb 11:1, onde ambos os substantivos são anarthros, mas t t l o t l ç é o
sujeito mencionado em 10:38-39 [similar ao que ocorre em Ef 5:23]). Em cada instância
não-ordenada, isso é necessário, visto que a regra de contexto não está em conflito com
luer outra regra.
Novamente, os pronomes interrogativos constituem uma verdadeira exceção. Os pro­
nomes pessoais, demonstrativos e relativos funcionam de forma distinta dos pronomes
interrogativos por isso: Aqueles substituídos por algo já mencionado no contexto (uma quan­
tidade conhecida), enquanto estes são antecedidos por um substantivo ainda não menciona­
do (uma quantidade desconhecida). Um é uma atividade anafórica, a outra, catafórica.
Nominativo: usos primários 45

Mt 13:55 oí>x q JiqTrip aírcoü Àéyexai Mapiàp K al ol áôeÀ(j)ol aòxoíj TcíkwPoç


K al Tooaqtj) Kal Eípcop K al loúóaç;
Não se chama sua mãe Maria e seus irmãos Tiago e José e Simão e Judas?27
Cf. also Mt 6:22; 1 Jo. 2:7.
d. A Relação Semâtica: Proposição Conversível
Segundo, a relação semântica em tais exemplos será uma proposição
conversível. Isto é, quando os substantivos encontrarem uma das três
qualificações para NS, eles serão intercambiáveis. (Veja os exemplos
na seção anterior).
e. Passagens Exegeticamente Significantes
Há muitas passagens influenciadas pela construção NS/NP.
Mencionaremos algumas:
1) Proposições corolárias
1Jo4:8 ó 9eòç áyonrri kazív
Deus é amor
Uma proposição corolária é claramente vista nessa passagem. Um dos
atributos de Deus é o amor. Contudo, dizer que o amor é idêntico a Deus
é algo bem diferente. Afirmar que aqui temos um exemplo de proposição
conversível é dar crédito ao panteísmo, ou, na menor das hipóteses,
panenteísmo.
Jo 1:1 ó Àóyoç qn Ttpòç zòv Geóv, K al 9eòç rjv ó Àóyoç.
O Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Outro exemplo demonstrando uma proposição corolária. O ÀÓyoç
pertence a uma categoria maior identificada como 9eóç. A força dessa

25 McGaughy, Descriptive Analysís of E lwl , 51-52, argumenta que o nome anarthro


será o sujeito. Suas exceções, entretanto, parecem discordar disso. Realmente, é possí­
vel argumentar exatamente o oposto, isto é, que o nome próprio será o sujeito. Há poucas
passagens que suprem esse paradigma, mais análises devem propor outras alternati­
vas. Contudo, em muitas passagens claras, o nome próprio é o sujeito, desconsiderando
a ordem das palavras (cf. a construção da fórmula em 1 Jo 2:22; 4:15; 5:1; 5:5). Cf. tam­
bém Jo 8:39 (veja menção a seguir).
A complexidade do problema pode ser ilustrada em 1 Cor 11:3 [Xpiaróç anarthro
em B* D* F G et pauci] (irauxòç ávõpòç q KetjjaÀr) Xpiotóç èaxiv ["Cristo é o cabeça de
todo o homem" ou "o cabeça de todo homem é Cristo"]). Embora KC(j)(xÀq seja normal­
mente tratado como o Sujeito em muitas traduções, a estrutura paralela com o resto da
claúsula, onde KetJaÀq é anarthro (duas vezes), deve indicar que KecjxxÀq é o NP: KctJnxÀq
õè ytnaiKÒç ô ávrjp, Kec|>aÀf] ôè toO Xpiaroii ó 9eóç ("e o marido é o cabeça da mu­
lher, e Deus é o cabeça de Cristo"). Por outro lado, uma vez que KojMÀri é seguido por
um genitivo em cada exemplo e parece ser definido (o que implica ser a pergunta:
"Quem é o cabeça do marido?" é menos provável que: "Como o papel de Cristo relaci­
ona-se ao papel do marido?"), Kecj)aÀf| pode ser tomado como o Sujeito. A escassez de
dados no NT certamente impede que conclusões alternativas apareçam até que mais
pesquisas sejam feitas no Grego Helenístico.
26 A seguinte tradução é possível: "Abraão é nosso pai" (como consta na versão
inglesa RSV [N.T: Nenhuma tradução portuguesa segue essa opção]; porém cf.
McGaughy, Descriptive Analysis of Éíuai, 50).
27Cf. verifique nota 21 sobre uma possível explicação de Lc 1:63.
46 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

construção enfatiza mais a natureza do Verbo do que sua identidade.28


Isto quer dizer que o Verbo é verdadeiramente divino, mas ele não é a
mesma pessoa que 0c oç, mencionado anteriormente no versículo.
Fp. 2:13 0eòç yáp ècrciv ó êvepycâv kv íqnv
Por que quem efetua em vós é Deus
' Embora muitas versões no português usem 9eoç como Nominativo-
Sujeito29, o particípio substantivado é o Nominativo-Sujeito, uma vez
que ele é anarthro. A ênfase na pessoa de Deus estilisticamente pede a
anteposição de 9eóç. Além disso, há uma sutil diferença entre ò 9eóç e
Oeóç: em sua forma anarthro, 0coç parece ser qualitativo. Paulo está
enfatizando o poder de Deus mais do que sua pessoa, pois a questão
levantada pelo v. 12 tem a ver com o modo como é feita a santificação,
não quem a realiza.
2) Proposições Conversíveis
Jo. 20:31 xcaj-ca yéypatrxai 'iva luaxeúariTe o u Iqaoüç ka~.iv ô xçiotÒç
Estas coisas vos escrevi para que creiais que Jesus é o Cristo.31
D. A. Carson tem uma hipótese interessante sobre João 20:31. Ele afirma
que João não está respondendo "Quem é Jesus?" (Algo que os cristãos
perguntariam), mas "Quem é o Messias?" (algo que os judeus
perguntariam). O texto deveria, então, ser traduzido assim: "para que
creiais que o Messias é Jesus". Isso defende a teoria de que o Quarto
Evangelho foi escrito essencialmente para uma audiência judaica. O
argumento fundamental usado aqui é o gramatical: um substantivo
anarthro tem prioridade sobre um nome próprio. 32 Carson defende que
no NT há "evidência sintática consistente" para esse argumento. Mas,
como temos visto, a evidência é ambígua e, se é que existe evidência,
essa seria mais contrária ao argumento de Carson. Logo, ou o primeiro
substantivo é o NS ou o nome próprio é o NS. A base gramatical desse
argumento é incapaz de auxiliar na conclusão mais plausível. Além do
evangelho joanino, essa mesma construção ocorre quatro vezes (de modo
específico, ou Tqooúç èotLV ò uióç toü 0eoí) [1 Jo. 4:15; 5:5] ou Tipouç
koxiv ò Xpioxóç [1 Jo.2:22; 5:1]), onde a audiência parece ser constituída
de gentios (cf. 5:21). Não há argumento gramatical que apóie ter sido o
Quarto evangelho escrito para judeus. Uma conclusão assim tem que
estar baseada não na gramática, que já demonstrou impotente na
argumentação acima, mas em outra natureza argumentativa. 34

28 Veja posterior discussão em "Artigos: Parte II".


29 Poderia ser argumentado que 9cóç, de acordo com sua posição e natureza, quase sem­
pre atua como sujeito. Provavelmente, é devido ao uso que a maioria dos MSS, datados do
nono século, acrescentam ó antes de 9eóç (salvo o 3Jt, note para D1L *F 075 0278 1739c et alií).
30 Oeóç não é um nome próprio em grego. Uma dica para definir se um nome é próprio ou
nao em grego é a resposta para a seguinte questão: "Tal nome possui plural?" Uma vez que
0€oí é uma forma passível de ocorrência (cf. Jo 10:34), Gtóç não é um nome próprio. Para mais
detalhes sobre o uso gramatical de 0eóç no NT, cf. B. Weiss, "Der Gebrauch des Artikels bei
den Gottesnamen," TSK 84 (1911) 319-92, 503-38. Note também o recente uso teológico de
0fóç que o considera um nome comum no N. T. Wright, The New Testament and tlte Pecrple of
God (Minneapolis: Fortress, 1992) xiv-xv e passim.
33 As variantes encontradas em D (Trpotx; Xpuncx; uiòç kmv toü Gcaü) e W (Iqaoõç ò
Xpioxòç ka~.iv ô niòç toü Oeoti) são obviamente corrupções.
32 D. A. Carson, "The Purpose of the Fourth Gospel: John 20:31 Reconsidered," ]BL 106
(1987) 639-51; cf. especialmente 642M4. Carson depende da crítica à E. V. N. Goetchius
realizada por McGaughy em sua dissertação no JBL 95 (1976) 147-49 para sua evidência
gramatical.
33 D. A. Carson, The Gospel According to John (Grand Rapids: Eerdmans, 1991) 90.
Nominativo: usos primários 47

C. Substituição do Nominativo-Predicativo por elç + Acusativo


E lç + o acusativo é usado no NT, ocasionalmente, como substituto do
Nominativo-Predicativo . Embora esta construção se ache nos papiros, 35 é
devido, às vezes, à influência semítica (da preposição hebraica b). Essa ex­
pressão é comum nas citações do AT (como se vê nas referências abaixo) e
assemelha-se à construção NS/NP encontrada em Mt 19:5-6. No v. 5, ao in-
troduzir-se uma nova declaração, usa-se essa construção (éoonxai ol ôúo
elç oápKa piau ["os dois serão uma só carne"]). Esta é seguida, no versículo
seguinte, por uma declaração do estado resultante (é utilizado um
Nominativo-Predicativo normal [mote ookI tl elolv ôúo àk kk oàpç p ia ]).

Essa construção ocorre com (1) ytvo|j,ai; (2) elpt, comumente no futuro; e,
com menos freqüência, (3) Àoyí(opat.36
1. Com rínopai37
At 4:11 ô A.Í0OÇ . . . o yevófievoç elç Ke^alfinywuLaç
A pedra .. . que se tornou a pedra angular
Alusão ao SI 118:22, um texto muitas vezes aplicado a Cristo no NT.
Rm 11:9 yf^TjdrjTCà f) TpátTeÇa a m w elç trayíôa k kl elç Brjpav
Tornou-se-lhes a sua mesa em laço e em armadilha (=S1 68:23)
2. Com E lp i38
Mc 10:8 eoovrccL ol ôúo elç oápKa piau
serão os dois uma só carne

34 Ainda que o argumento principal de Carson seja gramatical (John, 662): "Além de
tudo, pode-se declarar que, com uma alta probabilidade, essa claúsula com hina deve,
de acordo com um padrão sintático, ser traduzida assim: 'para que creiais que o Cris­
to, o Filho de Deus, é Jesus'". Essa é, enfaticamente, uma construção objeto-comple­
mento, a qual assemelha-se semanticamente a uma construção NS-NP. Ou a ordem de
cada palavra é um fator determinador ou o nome próprio recebe prioridade sobre nome
anarthro. Cf., e.g., At 18:28: "[Paulo] convencia... publicamente os judeus, demonstran­
do que [Jesus era o Cristo/o Cristo era Jesus - ARC|" (tolç louôaíoiç ôictKai:r|A.éYxei:o
õripooia CTTiõeiKVUÇ . . . eivai ròv Xprotòv Iqaoúv). Esse é o tipo de situação (endereçada
aos judeus) que Carson vê em Jo 20:31. Mas diferentemente de Jo 20:31, Triooüç segue
um nome anartro. Goetchius (sobre o qual Carson baseia seu exemplo) cita At 18:5, 28;
5:42 para comprovar que o nome anarthro tem prioridade. Mas em cada instância, o
nome anarthro ocorre em primeiro lugar quanto à ordem. (Goetchius não analisa
At 11:20, onde o nome próprio vem em segundo lugar, tomando a prioridade.)
3:1 Veja Moulton, Prolegomena, 71-72; BAGD, s.v. elç, 8.a.
36 Cf. Zerwick, Biblical Greek, 10-11 (§32); BDF, 80 (§145); BAGD, s.v. elç, 8.a.
37 Além dos textos citados acima, veja Mt21:42=Mc 12:10=Lc 20:17 (SI 118:22);
Lc 13:19; Jo 16:20; At 5:36; 1 Ped 2:7 (SI 118:22); Ap 8:11; 16:19.
38 Além dos textos citados acima, cf. Mt 19:5=Mc 10:8 (Gn 2:24); Lc 3:5 (Is 40:4);
Jo 17:23 (aqui há um subjuntivo presente); 2 Cor 6:18 (2 Sm 7:14); Ef 5:31 (Gn 2:24);
Hb 8:10 (2 Rs 6:16); 1 Jo 5:8. Esse último texto é muito raro (com construções com elpi,)
por dois motivos: (1) a forma elpí está no indicativo presente e não futuro (ou subjuntivo
presente), e (2) não alude a qualquer texto do AT. Os textos paralelos mais próximos a
essa construção são encontradas em Jo 17:23 (com elç + acusativo) e Jo 10:30 (év + elgí).
48 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Hb 1:5 eycò coo/uai aüxcô elç naxépa, K a l aúxòç corai, poi elç ulóv
Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho.
Citação de 2 Sm 7:14, uma passagem muitas vezes utilizada no NT com
peso messiânico.

3. Com AoyíCopat39
At 19:27 tò xf|Ç peyálriç 0eâç 'Apxépiôoç lepòu elç oúBev lopLoO rjcaL
o próprio templo da grande deusa, Diana, ser estimado em nada

Rm 4:3 èTTÍoxeuoev Wppaàp xtô 9ecã, Kal êÀoyíodr] aòxtô elç ôiKaioaúur|u
Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça

•III. Nominativo como Simples Aposto


É possível que o nominativo (assim como outros casos) seja um aposto de um
nome também no nominativo. Tal uso é muito comum. Há vários aspectos desse
uso a serem notados (As primeiras duas são sugestões estruturais; já as duas
últimas, semânticas): Um a construção apositiva envolve (1) dois substantivos adja­
centes (2) no m esmo caso, 40 (3) que se referem à m esma pessoa ou coisa, (4) e têm a
m esm a relação sintática com o resto da oração.

O primeiro nome pertence a qualquer categoria (e.g., sujeito, predicativo etc.)


e o segundo é meramente um esclarecimento, descrição, ou identificação de
quem ou o que é mencionado. 41 O aposto apóia-se ao primeiro nominativo
como em uma muleta, por isso ele não é uma categoria sintática independente.
O aposto funciona muito como um NP em uma proposição conversível, isto é,
refere-se à mesma coisa que o primeiro substantivo.42 A diferença, porém, é
que ele afirma algo sobre o NS (um verbo de ligação aparecerá ou não). Já o
aposto não afirma, mas supõe (não ocorre nenhum verbo). Na oração: "Paulo
é um apóstolo", apóstolo é um NP. Na oração: "Paulo, o apóstolo, está na pri­
são", apóstolo é um aposto de Paulo.

39 Cf. também Rm 2:26; 4: 5, 22 (como Rm 4:3, cita Gn 15:6); 9:8; G1 3:6 (Gn 15:6);
Tg 2:23 (Gn 15:6).
40 O nominativo ocasionalmente está em aposição a um pronome oblíquo, contudo
o sentido é o mesmo. Veja discussão abaixo.
41 Um aposto, estritamente falando, é um substantivo, não um adjetivo. Logo, adje­
tivos ou particípios em uma segunda posição atributiva não são, geralmente, apostos,
pois possuem uma ênfase adjetiva.
42 O significado disso será visto em nossa discussão sobre o genitivo, visto que o
genitivo envolve uma categoria sintática, ou seja, o genitivo de aposição. O sentido en­
volve uma categoria muito distinta de uma simples aposição.
Nominativo: usos gramaticalmente independentes 49

Com nomes próprios tipicamente o primeiro substantivo é anarthro e o subs­


tantivo apositivo é articular.
Mt 3:1 irapayí veiai Tcaáuuqç ó Pairciaiqç Kqpúoocov
João, o Batista, veio pregando

Mc 15:40 kv alç K a l Mapía q MayôaXqvn . . .


Entre eles estava Maria, a Madalena . . .

Lc 1:24 ouuéA.aPeu 'EÀiaápet t| yuvq aijtoú


Isabel, sua esposa, concebeu

Ap 1:5 ò pápm; ó tuotÓç, ó iTpcatótOKOç iúu vexpôv


a fiel testemunha, o primogênito de entre os mortos

Usos Gramaticalmente Independentes do Nominativo


Algumas gramáticas incluem os nominativo: absoluto, independente, parentético, o
nom inativus pendens (nominativo pendente) e o nominativo em expressões proverbi­
ais nessa categoria maior, sem fazer esclarecimento adicional algum. Porém, não só
se deve fazer alguma distinção entre estes subgrupos, mas também entre outros
usos do nominativo tecnicamente independentes.
Todos os nominativos independentes seguem essa regra geral: O substantivo no caso
nominativo não tem nenh um a relação gramatical com o resto da sentença.

I. Nominativo Absoluto
A. Definição
Os nominativos absoluto e o pendente são os dois nominativos
independentes que, de modo especial, serão tratados juntos várias vezes.44
Mas há distinções nas situações semânticas em que ocorrem.45 O primeiro é
usado em material introdutório (como títulos, cabeçalhos, saudações, e endereços),
que não será interpretado como uma sentença.46

43 Devido a uma estrutura similar, o sentido, que é distinto, deriva-se da justaposi­


ção de dois substantivos, em que o primeiro funciona adjetivalmente (e.g., ôívôpeç
àÔ€À<j)OL em At 1:16) e é deixado de lado na tradução. Esse modo peculiar ocorre com
ávqp semelhante ao uso no grego clássico (cf. BDF, 126 [§242]).
44 Isso é devido ao uso do nominativo absoluto que é normalmente construído como
qualquer nominativo sem conectivo gramatical. Adotamos um uso mais específico para
esse título, desde que o contexto semântico de vários nominativos independentes va­
ria.
45 No grego ático, esse nominativo era usado "na citação de nomes, em enumera­
ções e em predicativos indefinidos" (Gildersleeve, Syntax of Classical Greek, 1.2).
46 Funk, Intermediate Grammar, 2.710 (§886.4).
50 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

B. Simplificação

O modo mais fácil de lembrar a diferença entre esses dois tipos de nominativo
é: que o absoluto não ocorre em um a oração, só em títulos, saudações, e outras
frases introdutórias.

C. Exceção

A única exceção ocorre quando um particípio no caso nominativo não for


gramaticalmente relacionado ao resto da sentença. Nesse caso, ele é
tradicionalmente cham ado de particípio absoluto (porque compartilha
semelhanças com o particípio absoluto genitivo). E nessa área que reside a
confusão entre o uso absoluto e pendente do nominativo. Tal dificuldade
surgiu decorrente do seguinte fato: o particípio absoluto nominativo pertence
à categoria nom inativus pendens, embora seja chamado nominativo absoluto.
Só quando o p a rticíp io for usado é que se fará distinção quanto à
nomenclatura dessas duas categorias. (Contudo, o particípio nominativo
absoluto será tratado como subcategoria do no m in a tiv u s p e n d en s, pois
partilha aspectos com esta categoria, ainda que o nominativus pendens partilhe
somente sua designação com o nominativo absoluto).

D. Ilustrações

1. Títulos

Mt 1:1 Bíploç yeuéoeax; ’Iqooô Xpicruoü


Livro da genealogia de Jesus Cristo

Mc 1:1 ’Apxf) toô eòaYyeXíoi) ’Iqaoô Xpiatoü


Princípio do evangelho de Jesus Cristo

Ap 1:1 ’ ATTOKáXuijJLç ’Ir|oou Xp lotou


Revelação de Jesus Cristo
47
2. Endereçamento

Rm 1:1 IlaüXoç òoúÂoç XpiotoG Triaoü


Paulo, servo de Cristo Jesus

1 Co 1:1 naõXoç . . . Kal ScoaGévqç


Paulo . . . e Sóstenes

47 Alguns gramáticos consideram cada fórmula introdutória como constituída de


um verbo implícito, ou seja, ypátj)€i (logo, leríamos: "Paulo escreve . . ."). Entretanto,
como Young enfatiza: "inserindo um verbo, tal como 'escreve' ou 'envia' é tão desne­
cessário como inserir um verbo na expressão "Fogo!", isto é, "O prédio está pegando
fogo!" (Intermediate Greek, 14).
Nominativo: usos gramaticalmente independentes 51

3. Saudações
Rm 1:7 XÓpiç Uili-' Kal eípqvn áirò Beot) irarpòc qpGjv Kal Kupíou Tqaoü Xpiatoü
graça a vós outros e paz da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo
As saudações devem ser tratadas um pouco diferente do endereçamento,
pois, às vezes, o verbo mostra em quais casos o nominativo não é abso­
luto, mas funciona como o sujeito do verbo finito (cf. 1 Pd 1:2; 2 Pd 1:2;
Jd 2; 2 Jo 3). O verbo nunca aparece no corpus paulinum. Isso deve ser
importante, especialmente, se a hipótese de que Paulo criou (ou pelo
menos popularizou) a saudação "graça e a paz" for levada a sério. O
que seria um item de "asseveração" para ele (e, assim, de fácil compre­
ensão para suas igrejas), em outros autores, foi necessário a presença
de um verbo explícito para atingir o mesmo objetivo.
Cf. também 1 Co 1:3; 2 Co 1:2; G11:3; Ef 1:2; Fp 1:2; Cl 1:2; 1 Ts 1:1; 2 Ts 1:2; 1 Tm 1:2;
2 Tm 1:2; Tt 1:4; Fm 3.48

^ II. Nominativus Pendens (Nominativo Pendente)

A. Definição

Esse nominativo é semelhante ao absoluto, com a exceção de ser gramati­


calmente independente (enquanto o outro não é). Assim, o nominativo ab­
soluto não ocorre em uma oração, enquanto o pendente, sim. Esse
nominativo é mais o sujeito lógico que o sintático seguido por uma senten­
ça na qual o mesmo é substituído por um pronome no caso exigido pela
sintaxe.49

B. Clarificação

O "sujeito" (lógico, não gramatical) será um substantivo ou particípio,50


o qual não estará gramaticalmente relacionado ao resto da sentença. O
pronome (em um caso diferente) será usado depois pela simples razão:
evitar a redundância de mencionar novamente o substantivo. O uso

48 Todas as cartas do corpus paulinum têm x<*piç e eipr\vr\; as cartas pastorais, no


entanto, transforma um nome pessoal singular no dativo Ú|í,lv I a e 2a Timóteo, por sua
vez, acrescenta êÀcoç à fórmula. Não obstante, essas epístolas não possuem um verbo
na saudação, considerando que todas as saudações nas chamadas epístolas gerais são
iguais.
49 Zerwick, Biblical Greek, 9 (§25), oferece uma excelente definição, embora ele não
faça distinção entre nominativus pendens e nominativo absoluto.
50 Quando o particípio é o nominativo pendente, ele é chamado tradicionalmente
de particípio nominativo absoluto (veja discussão acima sobre o tema "nominativo ab­
soluto").
52 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

pendente do nominativo ilustra o gênio do caso: focalizar o tópico principal


da sentença, quer seja ou não o sujeito gramatical.51
Uma das seguintes forças semânticas é destacada pelo nominativo
pendente: emoção ou ênfase. Este último, que é muito mais comum, pode
ser classificado como nominativo de referência. (A chave de identificação para
tal uso é a pergunta: Posso traduzir o nominativo, no começo da oração,
"com referência a...?").
C. Ilustrações
1. Ênfase
Ap 3:12 ó vlkcôv TTOif|Ow avròu otüàou52
ao vencedor: Eu o farei uma coluna
Este é um particípio nominativo absoluto seguido por um pronome no
caso acusativo exigido pela sintaxe da sentença. E possível a leitura:
"Quanto ao que vencer [com referência ao que vencer], Eu o farei..."

Jo 1:12 ôooi ôè ’kXa$ov am óv, eõcoKeu avvoíç efjouaíau


mas a todos quantos o recebeu, deu-lhes autoridade

At 7:40 ó yàp Mcouofjç om oç . . . oik o’íôa|ieu i í èyéucTO aim p


porque este Moisés . . . não sabemos o que aconteceu a ele.
Cf. também Lucas 21:6; João 7:38; Ap 2:26; 3:21.
2. Emoção
Os dois exemplos a seguir são duvidosos. Em ambos, o nominativo pendente parece
transmitir ênfase e não emoção (ou talvez ambos). Deve-se ter em mente, porém,
que essas sentenças são colocadas em contextos muito emotivos.
Lucas 12:10 irôç oç èpél Âóyou elç tòu uíòu toü áuOpWTTOu, ácjjeOriacToa avzü
todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do homem ser-lhe-k
perdoada53
O tópico da sentença (aqueles que falarem contra o Filho do Homem) é
colocado no início da claúsula, seguido pelo pronome no dativo. Essa

51 Essa construção deriva-se de uma parte primitiva da linguagem. Quando uma


criança que está aprendendo a falar, freqüentemente, usa expressões pela metade.
Imagine ele apontando para um lugar e dizendo: "Brinquedo!" Isso é um exemplo pedo-
linguagem, que corresponde na linguagem adulta: "Esse brinquedo ali, é o que eu
quero!" Em um estágio avançado da linguagem, o sujeito lógico aparecerá encabeçando
a frase, sendo seguido por uma expressão em que esse mesmo sujeito agora tomará
seu lugar, por direito, no discurso sintático. E.g., "Sorvete! Eu quero sorvete!" Nesses
exemplos é fácil perceber que a emoção, no momento do discurso, é que produz um
nominativo pendente.
Em um discurso mais culto, o nominativo pendente deve funcionar mais como uma
sentença capitular de outra sentença. Seu posicionamento aponta para um artifício
comunicativo. E.g., "João, eu não o vi no jogo, ontem à noite?", ou, "A resposta para os
acidentes nas estradas é: se for dirigir, não beba".
52 Alguns poucos MSS tem aürtó em lugar de aütóu (n* 241 1611 1854 2027 2351 et pauci).
Nominativo: usos gramaticalmente independentes 53

construção enfatiza mais do que uma construção de natureza emotiva:


"seria perdoado todo o que falar uma palavra contra o Filho do Homem".
Jo 1 8 : 1 1 x ò ir o T T Í p io v o ô é õ c o K é v | i o t ó i r a r q p o ú p f| ttlu ) a v w ;
O cálice que meu Pai me deu para beber, porventura, podeis beber dele?

^ III. Nominativo Parentético


A. Definição

Esse uso do nominativo é, de fato, o sujeito em uma oração dentro de uma


sentença com um sujeito diferente ou não.

B. Clarificação

Embora seja semelhante aos nominativos absoluto e pendente, o parentético


é distinto desses dois pela seguinte razão: (1) diferente do nominativo
absoluto, ele ocorre dentro de uma sentença e não à parte dela; (2)
distingue-se do nominativo pendente, pois não é usado emotivamente por
um autor, nem é enfático em sua essência. Utiliza-se principalmente de
modo explicativo e freqüentemente como uma editoração, especialmente
no Quarto Evangelho; (3) opõe-se tanto ao nominativo absoluto quanto ao
pendente, pois normalmente não é encontrado no início de uma sentença
(especialmente encabeçando-a).

C. Simplificação

Um nominativo parentético é o sujeito de uma oração explicativa dentro de outra


oração. Embora algumas edições do NT grego nem sempre ponham essas
orações entre parênteses, se tal oração parecer tão forçada na tradução que
o uso de uma simples vírgula parece isolá-la do todo, então, provavelmente,
estaremos ante um parêntese e seu sujeito será um nominativo parentético.

D. Amplificação

Classificar uma oração explicativa como uma oração parentética (e, por
conseguinte, seu sujeito como um nominativo parentético54), não é uma

53 Na obra The Fíve Gospels: The Search for the Authentic Words of Jesus, edd. R. W.
Funk, R. W. Hoover, e no Seminário Jesus (New York: Macmillan, 1993), esse texto não
defende uma volta à busca do Jesus Histórico de modo algum (ou seja, edições que des­
tacam em negrito, o que consideram "as palavras que Jesus não pronunciou. Isso re­
presenta a perspectiva de uma tradição diferente e antiga" [p. 36]). Ainda que, a sinta­
xe não se assemelhe ao uso costumeiro de Lucas, exceto quando encontramos uma cla­
ra declaração de Jesus (cf., e.g., Lc21:6). Talvez a sintaxe seja um dos critérios de au­
tenticidade empregado pelo Seminário Jesus.
54 E mais fácil tratar, isoladamente, um parêntesis em uma seção ou claúsula, do
que isolar o caso nominativo. Por razões pedagógicas, no entanto, incluiremos a dis­
cussão aqui.
54 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

questão fácil. Robertson dá muitos exemplos nos quais os editores de NT


grego estão longe de ser unânimes.55 Em geral, os parênteses achados nos
Evangelhos são mais moderados e constituem material de editoração sem
interromper o fluxo do texto, enquanto que os das epístolas limitam-se ao
anacoluto, rompendo o fluxo do pensamento de forma muito mais
dramática.56
E. Ilustrações
Jo 1:6 èyéyexo ãvBptimoç ctiTeaxalpéyoç trapà GcoO, ôvopa aüxú 'Uúáwr\c.
Houve um homem enviado da parte de Deus (seu nome era João).
Mt 24:15 oxctu ouu lôiyue tò pôéÀuypa xfjç êprípcáoewç xò pqGèv ôux AavifiÃ
t o ü TTpocJiqTOU èaxòç kv t o t t c j àyícp, ò ávayLUoSaKcau voeíxa), xóxe
Quando, pois, virdes o abominável da desolação de que falou o profeta
Daniel, no lugar santo (quem lê entenda), então...
G12:6 ànò ôê xwv òokoÚvtgjv e íu a í x i - ó n o lo í iroxe rjoav ouÔév poi
õiacjjépéí upoaortrov ó 0eòç ávGpúiTOU ou Àappáyet - épol yàp oi
ôoKOüyxeç oúòèy xpoaayéQeyxo.
E, quanto àqueles que pareciam ser algo (quais tenham sido, outrora,
não me interessa; Deus não aceita a aparência do homem), pois os que
pareciam ser alguma coisa nada me acrescentaram.57
Há um duplo parêntese aqui: "Deus não aceita a aparência do homem"
está dentro de um parêntese maior com seu sujeito implícito no verbo
"tenham sido" (f|aav).
Ap 2:9 oíôa oou xf|y 9Xu|;iy xai xqu tTXC0)(6Lay, áXXà ttàoÚoloç et
Conheço tua tribulação e pobreza (mas tu és [na verdade] rico)
Aqui o nominativo está implícito no verbo.

Cf. também Mc 2:10 (o nominativo implícito no verbo, como em Ap 2:9); João 1:15; 3:1;
4:1-3; G1 2:5; Ap 3:9.

IV. Nominativo em Expressões Proverbiais 58


A. Definição
Um substantivo no nominativo é usado em expressões proverbiais que não
tenham verbo finito.59 De forma geral, a sintaxe ou é compacta e elíptica
(como em "uma vez ladrão, sempre um ladrão") ou fragmentada e estranha
a seu novo contexto (viz., quando um autor cita simplesmente uma oração
subordinada). A razão para a sintaxe incomun é que o dito proverbial,

55 Robertson, Grammar, 433-35.


56 Ibid. Muitos gramáticos (Robertson, Moulton, Williams, et al.) consideram o
nominativo de tempo como um nominativo parentético.
57B C D F G K L 1739 1881 © et alii omitem o artigo antes de Beóç. Embora uma
leitura significante, a categoria sintática é a mesma que conseguiriam com a inclusão
deste.
58 Veja Brooks-Winbery, 7, para ler a discussão em sua forma original.
Nominativo: usos gramaticalmente independentes 55

mesmo que seja fragmentado, tem se transformado em uma parte fixa da


herança literária. Visto que é bem conhecido nessa forma particularmente
expressiva, completer a sintaxe seria prejudicar o efeito.60

B. Ilustrações

2 Pe 2:22 kÚcou êTTLOTpcij/ctç êrrl xò íôiov cçcpapa,


kccÍ üç Xouoapéuq elç Kmiapòu Poppópou
O cão voltou ao seu próprio vômito; e:
A porca lavada voltou a revolver-se no lamaçal.61
Ambas as orações foram traduzidas no português como se os particípi­
os fossem substantivos comuns (todas as principais versões no portu­
guês fizeram assim). E provável que as formas verbais sejam um exem­
plo de particípio dependente, pois as linhas foram retiradas do seu con­
texto original.62 A primeira linha é de Pv 26:11 (ainda que não citado
exatamente como na LXX. Tanto no NT quanto na LXX é uma oração
subordinada). Quanto à fonte da segunda, ela é disputada.63

1 Co 3:19 ó õpaaoópevoç xouç aoíjxròç kv xrj TTauoupYÍa aúxtõv


Ele apanha os sábios na própria astúcia deles.
O particípio substantivado precisa ser traduzido por um verbo finito.
Essa exigência ocorre não por uma razão sintática, mas, devido à
natureza fragmentária da citação é fragmentária. A sintaxe é marcada
por uma elipse. Em Jó 5:12, há uma oração participial apositiva,
referindo-se a "Deus" no v. 8 (os vv. 9-11 funcionam semelhantemente).
Daí: "Eu apelo para Deus... aquele que apanha..." 64

59 Isso não quer dizer que expressões proverbiais nunca usem um verbo finito (cf.
Lc 4:23; At 20:35; 1 Co 15:33), mas que há poucos casos que se encaixam, de maneira que
não precisam ser tratado aqui.
O provérbio in Tt 1:12, talvez seja da autoria de Epimênides (do mesmo autor ainda
existem manuscritos que não incluem esse trecho), é tipicamente traduzido como uma
sentença: "Cretenses, sempre mentirosos, feras terríveis, ventres preguiçosos", porém
sem conhecermos o texto original desses versos, não temos base para afirmar algo. J. D.
Quinn, The Letter to Titus (AB; New Yprk: Doubleday, 1990) 107, o traduz de acordo com
os versos hexâmetros gregos:
Preguiçosos sempre, homens de Creta,
Detestáveis Bárbaros que vivem para comer.
60 Não há necessidade de que o substantivo seja um nominativo, (cf., e.g., Mt 5:38).
61 Para outras traduções possíveis, veja BAGD, s.v. pópfiopoç.
62 No mínimo, deve-se às considerações sobre o gênero. É difícil argumentar que são
de fato particípios independentes.
63 Heráclito tem sido freqüentemente mencionado; isso, no entanto, é duvidoso. Veja
R. J. Bauckham, Jude, 2 Peter (WBC; Waco: Word, 1983) 279-80.
64 Há algumas notáveis diferenças entre essa forma e a LXX. A última emprega um
acusativo (baseado na sintaxe do v. 8), um verbo diferente, além de ser anarthro.
56 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

V. Nominativo por Vocativo (ou de Endereço)65

A. Definição
Aqui o nominativo é usado no lugar do caso vocativo. E usado (na função
vocativa) em invocação direta para designar o destinatário.
B. Amplificação: Um Categoria Legítima?
Isso ocorre devido à sobreposição formal de um nominativo a um vocativo.
Não há distinção alguma da forma plural ou neutra singular entre ambos
os casos, do mesmo modo que entre algumas formas masculinas e femini­
nas no singular. "Há uma tendência em eliminar a distinção até mesmo
onde o vocativo tem forma própria . . ."6b
Alguns gramáticos que adotam o sistema de oito casos, comumente se opõem
a categoria do nominativo por vocativo, visto que a definição de tais estudi­
osos, quanto aos casos, é funcional, e não morfológica.67 Tal abordagem
deve-se, em parte, pela preferência diacrônica que os proponentes do siste­
ma de oito casos tendem a dar à língua em vez da abordagem sincrônica,
sendo isso feito mais em termos de etimologia do que de uso. No entanto, o
nominativo por vocativo é um desenvolvimento natural do caso do sujeito,
especialmente entre pessoas cuja língua nativa não incluía uma forma dis­
tinta para o vocativo.68
C. Estrutura e Semântica69
Esse nominativo divide-se em duas categorias estruturais: sem artigo
(anarthro) e com articular. O uso anarthro possui duas estruturas adicionais:
(1) uma utilizando (3, e (2) outra sem essa marca) Cada exemplo anarthro
utiliza um paralelo semelhante a uma construção vocativa (com a partícula
(3, o endereçamento é muito mais enfático ou emocional. Sem ele, há menos
ênfase).70

65 Agradecemos aqui a J. Will Johnston, cujo trabalho nessa área, realizado no curso
de Gramática Grega Avançada (Dallas Seminary, Spring 1993) nos auxiliou na funda­
mentação e elucidação do argumento nessa seção.
66 Zerwick, 11 (§33). Cf. also BDF, 81 (§147).
67 O banco de dados do Gramcord!acCordance também contesta implicitamente isso,
classificando muitos nominativos usado como vocativos como simplesmente vocativo.
68 Ademais da questão de forma e legitimidade dessa categoria, note como é sucinta
e prestativa a discussão sobre o contexto semântico em BDF, 81 (§147).
69 Gildersleeve, comentando sobre esse fenômeno no grego clássico, chama atenção
para: "Na ausência do vocativo puro, o nominativo é usado como vocativo. Quando o
vocativo está presente, o uso do nominativo como vocativo traz uma nuance
perceptivelmente diferente. E distinta e mais respeitosa, porque apela para o caráter,
ainda que, às vezes, seja fruto de ajustes métricos". (Syntax of Classical Greek, 1.4). O NT
grego tem uma ênfase diferente: (1) Primeiramente, referindo-se ao nominativo articular:
"Há um perceptível aumento no uso do nominativo articular em endereçamento. Quase
sessenta exemplos desse tipo são encontrados no NT. . . devemos ainda reconhecer uma
aparente continuidade [originária do grego clássico] em relação a um estilo mais antigo.
Descrição, porém, é antes uma observação do nominativo articular no discurso do NT . . . O
nominativo anarthro seria provavelmente considerado como um simples substituto do
vocativo . . (Moulton, Prolegomena, 70).
Nominativo: usos gramaticalmente independentes 57

O exemplo articular também envolve duas nuances: (1) o endereçamento a


um substituto inferior; e (2) o endereçamento simples utilizando um subs­
tantivo semítico de endereçamento, sem considerar o destinatário como
inferior ou superior.71 A chave para determinar qual uso está em foco é:
perguntar-se se o texto em questão pode ser atribuído a uma fonte semítica
(tal como citações da LXX).
Há ainda um uso que é tecnicamente não-sintático, mas meramente funcio­
nal: um nominativo em aposição a um vocativo.
D. Ilustrações72

1. Anarthro

a. Sem o3 73

Jo 17:25 iratrip õlkocié,74 koc! ô KÓopoç ae ouk eyvco


Pai justo, o mundo não te conheceu;
O nominativo por vocativo difere do sujeito da oração principal ("o
mundo"). Note que o adjetivo que modifica o nominativo é um vocativo.
M t 16:17 patcápioç e t, Sípcov B a p ito râ
bem-aventurado és, Simão filho de João

Rm 1:13 oü 9é7ü) õè úpâç txyvoeiv, àôeltíjioí


não quero que sejais ignorantes, irmãos

b. Com g3

M c 9:19 yeveà Sihotoç, ecoç u óie irpòç úpáç caop ca;


Ó geração incrédula! até quando estarei convosco?75
Cf. Os paralelos em Mt 17:17 e Lc 9:41.

70 Para uma discussão mais detalhada do discurso direto com esse particípio veja o
capítulo sobre vocativo.
71 Em hebraico, o nome típico de endereçamento terá um; cf. 2 Sm 14:4 (algo superior
pode ser invocado desse modo [GKC, 405 (§126f)]). Na LXX, Deus (Elohim) é utilizado
com o uso de um nominativo articular (0eé ocorre somente sete vezes, cinco das quais na
literatura apócrifa). Porter pensa diferente sobre o nominativo usado como vocativo. Ele
concorda com Louw ("Linguistic Theory," 80), ou seja, o nominativo é menos direto, mais
formal e reservado que o vocativo (Porter, Idioms, 87). Ainda que seja fato quanto ao grego
helenístico, o uso neotestamentário tem mais influência semítica. A invocação de Jesus:
"Menina, levanta-te" (Lc 8:54) é totalmente formal, reservada, e pouco direta.
72 Há quase 600 ocorrências de nominativo como vocativo no NT. Somente cerca de 60
nominativos usados como vocativos são articulares (Moulton, Prolegomena, 70).
73 Sobre o sentido do vocativo com e sem c3, veja o capítulo sobre vocativo.
74 TTíXTcp na UBS^'^, com íp 59vid ^ C D L W 0 *F 3Jt et al. apóiam; iTatrip na Nestle-
Aland25 apoiado por A B N pauci.
75 D W 0 565 tem o adjetivo voe. cnuate.
58 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

G13:l ü) àvór|TCH ra lá x a i, x í ç iip â ç ep á a K a u e u ;


Ó insensatos Gálatas! Quem vos enfeitiçou?
A ternura de Paulo é vista claramente nesse texto. Ele está profunda­
mente perturbado (ou melhor, indignado) pela apostasia imediata dos
gálatas em relação ao evangelho.

Cf. também Mt 17:17=Mc 9:19=Lc 9:41; 24:25; At 13:10 (com adjetivos aqui); 18:14; 27:21;
Rm 11:33 (é possível classificar (3á9oç como nominativo de exclamação. Veja discussão
posterior76
2. Com artigo
Mc 5:8 xò TiveOpa xò aKáOapxou çk xoh àyGpwTiou.
sai desse homem, espírito imundo,
Lc 8:54 r| iraíç, eyeipe.
Menina, levanta-te!
Este endereçamento a um inferior deve-se (1) ao grego de Lucas (i.e., o
estilo koinê literário) ou, simplesmente, (2) ao grego equivalente a uma
elocução semítica (cf. o paralelo em Mc. 5:41).
Jo 19:3 /alpe, ó BaoiÀeuçxwv ’Iouõatcov
Salve, rei dos judeus!77
E provável que o evangelista esteja focalizando os soldados ao usar o
nominativo com artigo e o BDF considera como o uso clássico: "o [gre­
go] ático usava o nominativo (com artigo) junto com substantivos sim­
ples somente para se dirigir a inferiores..." (BDF, 81. [§147]). Embora
eles o chamem "Rei", o modo como eles fazem essa proclamação nega o
endereçamento. Cf. At. 26:7. Note também que em Mc. 15:18 o vocativo
é usado (uma passagem paralela, onde muitos mss. antigos mudam o
vocativo para um nominativo com artigo). Moulton, que concorda tex­
tualmente com o vocativo, declara que é "meramente uma nota da sen­
sibilidade imperfeita do escritor em relação às matizes mais delicadas
do idioma grego" (Prolegomena, 71).
Ef5:22 od yuuaÍKeç xolç lõíoiç áuôpáoiv
Esposas, [sede submissas] aos vossos próprios maridos
Não seria correto dizer que o nominativo articular indica inferioridade
nesse exemplo, pois tal construção também é usada em 5:25 quando se
dirige aos maridos.
Jo 20:28 ó KÚpióç p o u K a l ó 0eóç p ou .
© cn p â ç e lu e u a ú x tô ,
Disse-lhe Tomé, "Senhor meu e Deus meu!"
Há dois exemplos no NT (ambos no mesmo verso, Mt. 27:46), onde Deus
é invocado no nominativo, muito provavelmente, por causa da influênda
semítica.
3. Como Aposto de um Vocativo (sempre articular)
Ap 15:3 peyáLa Kal B a u p a a x à xà e p y a aou, KÚpie ó 9eòç ó uauxoKpáxup
Grande e maravilhosas são as tuas obras, Senhor Deus Todo-Poderoso

76 co com nominativo realmente ocorre mais freqüentemente que o vocativo no NT: 9


ocorrências (alistadas acima) contra 8 (Mt 15:28; At 1:1; Rm 2:1,3; 9:20; 1 Tm 6:11,20; Tg 2:20).
77 Em lugar do nominativo articular, encontramos o vocativo (kraiÂfú em Ç) 66 N.
Nominativo: usos gramaticalmente independentes 59

E. Uma Passagem Teologicamente Importante


Hb 1:8 Típòç õe xòv uióv, ò Gpóuoç oou, ò Geóç, elç xòv alôva xoü odióvoç
Mas acerca do Filho, [lhe declares], "Teu trono, O Deus, é para todo o
sempre"
Há três possibilidades sintáticas para Qeóç aqui: (1) como um sujeito
("Deus é o teu trono"),78 (2) como predicativo ("teu trono é Deus")/9 e
(3) como nominativo por vocativo (como é encontrada na tradução aci­
ma).80 As traduções Nominativo-Sujeito e Nominativo-Predicativo po­
dem ser consideradas juntas81 e destacam-se do nominativo por vocativo.
Deve-se preferir, segundo minha opinião, o nominativo por vocativo pelas
seguintes razões: (1) É um exagero afirmar que, se o escritor quisesse
referir-se a Deus, ele deveria ter usado o vocativo 9eé, pois em nenhum
lugar no NT isso é feito, com exceção de Mt 27:46. O nominativo por
vocativo articular é uma escolha quase universal. (2) Este é caso abrange
as citações da LXX (como em Hb. 1:8; cf. Hb. 10:7), pois a LXX prefere
igualmente a forma vocativa, muito provável devido à falta de tal forma
no hebraico. (3) A acentuação do hebraico no SI 45:7 sugere que deveria
haver uma pausa entre "trono" e "Deus" (indicando que a tradição con­
siderou "Deus" como o endereçamento direto).82 (4) Esta visão conside­
ra seriamente a construção |iév . . . ôé em vv. 7-8, enquanto que a visão
NS-NP não o faz adequadamente. Se lermos o v.8, especificamente, como
"teu trono é Deus"83, o ôé perde sua força adversativa, pois é possível
que os anjos fossem o foco da declaração, ou seja, Deus reinar sobre eles.84

VI. Nominativo de Exclamação


A. Definição
Usa-se o nominativo em uma exclamação desconexa gramaticalmente do
resto da sentença.

78 A leitura de Westcott, Moffatt, das notas de rodapé da RSV, NRSV e NEB.


79 Em seu excelente estudo sobre Hb 1:8, Harris pode encontrar apenas Hort e Nairne
entre os comentaristas que defendem essa visão (M. J. Harris, Jesus as God: The New
Testament Use o f Theos in Reference to Jesus [Grand Rapids: Baker, 1992] 212).
80 A maioria das traduções, comentaristas e gramáticos et al. adotam essa opinião.
81 Sobre qual dessas duas opiniões seria a melhor, já argumentamos que quando
dois nomes articulares ocorrerem, o primeiro em ordem é o sujeito (Veja a seção sobre
nominativo-predicativo.). Logo, ò Gpóvoç oou seria o sujeito e não a forma ó 0cóç (con­
trário a muitos estudiosos do NT que optam por uma dessas opiniões). Haris argumenta
que caso Geóç fosse um NP anarthro (ibid., 215), seria um erro lingüístico, pois falha­
ria em reconhecer uma proposição conversível como uma opção para as construções
NS-PN.
82 Harris argumenta convincentemente que tanto na LXX quanto no texto hebraico
de SI 45:7 "Deus" é diretamente invocado (ibid., 215).
83 A objeção de Turner para essa tradução é que ela é uma "interpretação grotesca"
é um curioso uso. E como se ele visse Cristo sentado sobre Deus através de uma super­
fície opaca (Insights , 15)! E claro que a linguagem bíblica é metafórica.
84 Para ler outros argumentos, veja Harris, Jesus as God, 212-18.
60 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

B. Clarificação e Significado

Esse uso é realmente uma subcategoria do nominativo por vocativo. No


entanto, seu tratamento será feito separadamente e essa distinção (até certo
ponto) é realizada arbitrariamente: o nominativo de exclamação não é usa­
do em endereçamento direto. E um uso primitivo da língua onde a emoção
sobrepuja a sintaxe: o tópico emocional é exclamado sem qualquer verbo
expresso.85

Robertson diz: isso é "um tipo de nominativo de interjeição",86 algo ligado


à uma explosão emocional. As chaves de identificação são: (1) a ausência de
um verbo (embora este esteja implícito), (2) a emoção óbvia do autor, e (3) a
necessidade de um ponto de exclamação na tradução. As vezes, w é usado
com o nominativo.

C. Ilustração

Rm 7:24 TcdocÍTTCopoç èyto ávGpwnoç


[O] miserável homem [que] sou!

Rm 1 1 :3 3 (3á0oç ttA .o Ú to u K a l aocjjíaç K a l yvoíoewç Geoü


Ó profundidade das riquezas e da sabedoria e do conhecimento de
Deus!87
Note que nesses exemplos, o nominativo de exclamação não é usado em uma
sentença. Mesmo em Rm. 7:24 o "que" implícito remove essa idéia. Uma boa
dica é: se a construção, onde aparecer um suposto nominativo de exclamação,
puder ser construída como uma oração, então teremos simplesmente um
nominativo-sujeito. Sendo assim 1 Co. 15:57, onde um optativo do verbo
de ligação é usado, provavelmente não deve ser considerado como um
nominativo de exclamação.
Mc 3:34 íôe f] piÍTqp pou Kal ol áÕ€/l4>OL pou
Eis, minha mãe e meus irmãos!
O uso de 'íôe e Lõoú no NT é comumente seguido por um nominativo.88
Esses termos eram originalmente formas verbais (respectivamente, o
imperativo aoristo ativo e médio de opaca) e deveriam, de acordo com o
uso clássico, tomar um acusativo. Mas no grego koinê, em especial o do
NT, eles normalmente funcionam como simples interjeições.

85 Smyth, Greek Grammar, 607 (§2684).


86 Robertson, Grammar, 461.
87 Ainda que algumas edições tenham em lugar de "Q, o Q com acento agudo
é usado somente com o nominativo. Enquanto o Q com circunflexo, naturalmente
com o vocativo (veja BAGD).
88 Embora outras construções também o façam (esp. claúsulas inteiras), o
acusativo ocorrem como objeto direto de íôe ou lõoú duas vezes (Jo 20:27; Rm 11:22),
contra Porter, Idioms, 87. Seguido por nominativo temos: Mc 13:1 (mesmo que íôe
seja omitido em W); 16:6 (o texto de D usa eíôere . . . xòv tonou em lugar de íõe
ó tÓttoç); Jo 1:29, 36; 19:14, 26, 27.
Nominativo: usos gramaticalmente independentes 61

Nominativos no Lugar dos Casos Oblíquos89

I. Nominativo de Apelo90
A. Definição
O título aparece no nominativo e funciona como um nome próprio.
Normalmente, um outro caso deveria pode ser até mais apropriado, mas
o nominativo é usado por causa de seu caráter especial na descrição do
indivíduo.
B. Clarificação e Semântica
A chave de identificação é: o nominativo é tratado como um nome próprio
esperado em um outro caso. Ao estar ligado a um indivíduo particular, o
simples substantivo comum é como que exaltado. Embora o grego antigo
não possuísse o que conhecemos como aspas, a função para a qual damos
essa notação diacrítica era expressa pelo uso de um nominativo de
apelação. Há pouquíssimos exemplos disso no NT.
Esse é, por excelência, um uso de certos nomes. Identificamo-lo assim: (1)
ou o nome estará escrito com inicial maiúscula (2) ou entre aspas.
C. Ilustrações
Jo 13:13 {jpeiç ^cjuelté (ie ó õiôáoicaÀoç Kal ó KÚpioç
vós me chamais Mestre e Senhor

Ap 9:11 kv xfi’EÀA.qyi.Kf| ovo|ia exei ’AiroÀA,úa)v


No grego tem o nome de Apolion
Cf. também Ap 2:13. Em Lc 19:29 e 21:37, se lermos 'EÀauáv em lugar de 'EAxawv,
como é aceito [BAGD], então teremos mais dois exemplos desse uso. Em Ap 1:4, se tra­
tarmos ò wv como um nome, então esse seria outro exemplos (a natureza imutável de
Deus é destacada no verso).

89 Cada uso do nominativo é raro. Eles ocorrem basicamente em Apocalipse. A cau­


sa desse uso não-comum é muito debatível, nos círculos de estudos sobre esse livro.
Talvez, devido à influência semítica ou ainda devido ao caráter do grego comum da­
queles dias. Há outra sugestão: uma possível alusão à LXX, retendo o mesmo caso (ainda
que a omissão faça concordância com seu novo contexto), para sua audiência reconhe­
cer a citação do AT. Em qualquer evento, uma das seguintes categorias sintáticas seria
considerada como algo não-usual (em alguns casos, bizarro), até para os padrões do
koinê.
90 O uso independente do nominativo é exposto nos círculos concêntricos. Há mui­
tas sobreposições de opiniões entre eles. Mas, uma chave de identificação é: que eles
estão carregados de significados ontológicos do nominativo — ou seja, conferindo ou
não ao tópico principal da sentença o título de sujeito gramatical.
62 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

II. Nominativo como Aposto aos Casos Oblíquos


A. Definição
Uma construção apositiva envolve dois substantivos adjacentes que fazem
referência à mesma pessoa ou objeto e cuja relação sintática para com a
claúsula é a mesma. O segundo substantivo está na função de aposto para
com o primeiro substantivo. Normalmente, ambos os substantivos estarão
no mesmo caso (seja nominativo, vocativo, genitivo, dativo ou acusativo).91
A semântica apresentada em todos os casos é a mesma, exceto para o genitivo
- i.e., têm um referente idêntico.
Um fenômeno, raramente, visto no NT, (especialmente em Apocalipse) é
um nominativo como aposto de um caso oblíquo.
B. Significado
O autor de Apocalipse, parece, em grande parte, (1) ter considerado o subs­
tantivo, no caso nominativo, como um título indeclinável (2:13), uma cita­
ção (1:5; 17:5),93 ou (2) simplesmente imitado o uso feito pela LXX (1:5; 17:4).
Parece que ele se utilizou disso a fim de enfatizar a palavra, pois os leitores
certamente compreenderiam tal construção.
C. Ilustrações
Ap 1:5 cxttÒTqooft XpiOTOÜ, ó páptuç ó ttlotÓç
da parte de Jesus Cristo, a fiel testemunha (ou talvez, "a testemunha, a
que é fiel")
A citação do SI 89:38 preserva o caso do original (LXX). O uso justapõe
o nominativo ao genitivo, de modo que a fiel testemunha é identificada
com Jesus Cristo.
Ap 9:14 A.éYot>T(x ttô eicita àyyékw, ó iqv oáLtTLyYa
Dizendo ao sexto anjo, aquele que tem a trombeta
Cf. também Ap 3:12; 7:9; 14:12; 16:13.

III. Nominativo após uma Preposição


Só existe aparentemente um exemplo desse uso no NT.94
Ap 1:4 àrrò ó (3v95 Kal ó íjv» Kal ó épxópevaç
da parte "daquele que é" e "que era" e "que está vindo"

91 A única exceção para isso é: (1) o nominativo em aposição ao vocativo; (2) o


nominativo em aposição ao pronome obliquo (i.e., genitivo, dativo e acusativo), ou (3) o
genitivo de aposição.
92 O genitivo de aposição parece aproximar-se mais à proposição de subconjunto que
a proposição conversível das construções NS-PN. Veja a seção sobre genitivo.
93 Nesse caso cada nominativo também encontra-se sob uma categoria de apelação.
94 A não ser que a leitura encontrada em X * B D* 131 1319 (elç . . . BqBavia) em
Lc 19:29 seja aceita, (elç) BqOtjjayn, também em Lc 19:29, é a grande parte e provavelmente
um nome indeclinável (BAGD, 140). Embora pouco MSS recente tenham a leitura
BriBíJaYfiv (063 1 179 713) ou uma forma similar (L 0 22 118 205 209 230 472 pauci).
Nominativo: usos gramaticalmente independentes 63

Esse é o primeiro e o pior solecismo de muitos que ocorrerão em


Apocalipse. Há dois motivos, hipotéticos e amplos, o autor (1) agiu não
intencionalmente ou (2) violou, intencionalmente, um padrão
sintático.96 Se (1) for verdadeiro, então teremos duas explicações: (IA)
Há, hipoteticamente, uma forte influência semítica sobre o grego do
autor; ou (1B) uma prova da expressão lingüística de um homem pouco
letrado (como nos papiros vulgares).97 Ambas as explicações são
duvidosas: (I) Uma visível incompreensão dos rudimentos do grego,
apontaria para um original não grego de Apocalipse, ainda que a obra
como um todo contrarie essa idéia; (II) em nenhum outro lugar, o autor
utiliza um nominativo logo após uma preposição (de fato, ele usa àird
32 vezes com genitivo). Se intencionalmente (2), por que o autor faria
isso? Poucos eruditos discordariam da avaliação de Charles: "O autor
deliberadamente quebrou as regras da gramática a fim de declinar o
nome divino sagrado, o que para ele seria uma espécie de profanação
do tetragrama sagrado, caso ele fosse declinado. Assim o nome divino
é aqui um nominativo".98 João está, sem dúvida, fazendo alusão a Ex
3:14 na LXX (èyu) eLpi ó w - "EU SOU O QUE SOU"), um texto
bem familiar para os cristãos gentios. Embora haja outros pontos de

95 Não é surpresa encontrar na maioria dos MSS a inserção de t o ü Geoü ou ó uv, à


luz da natureza e severidade dessa anomalia gramatical.
96 Muitos trabalhos lingüisticamente orientados não apresentam nenhuma dessas
opções. Por Exemplo, Young (Intermediate Greek, 13) tem argumentado que a gramática
de Ap 1:4 "pode ser uma violação se a gramática fosse vista de forma prescritiva. Em
relação à gramática descritiva, ela meramente menciona a dimensão da expressão que o
grego koinê tolerava". Parece que estamos diante de um raciocínio circular: porque isso
ocorre na linguagem, deve ser tolerável. Temos argumentado na seção "A Abordagem
desse Livro" que a atual noção sobre gramática prescritiva vs. gramática descritiva ca­
rece de explicações satisfatórias.
97 Hoje muitos lingüistas preferem não falar de "bom e ruim uso gramatical", uma
vez que isso soa prescritivismo (veja Young, Intermediate Greek, 13, comentando sobre
Ap 1:4). Contudo, o prescritivismo necessita de uma definição mais cuidadosa. Ponha­
mos isso em prática: é inapropriado julgar o grego do NT pelos moldes do grego ático
(ou seja, uma abordagem diacrônica), do mesmo modo que seria desastroso analisar o
inglês moderno segundo os padrões do inglês elisabetano (ou vice-versa). No entanto,
se uma estrutura sintática é muito inapropriada em certo contexto geográfico ou tempo­
ral, a capacidade de julgar de uma dada comunidade deve ser excepcional para que ela
rotule um uso gramatical de ruim. (Veja a seção "Abordagem desse Livro" para a discus­
são sobre prescrição vs. descrição.)
Essa situacao é similar quanto ao uso dos casos em Ap 1:4, pelo menos inicialmente.
De algum modo, é tão duvidoso que qualquer audiência aceitasse a sintaxe aqui presente
como um tipo de simples ilustração "tolerada pelo grego koinê" (Young, Intermediate
Greek, 13). (E como se Young estivesse dizendo que não existe erro algum no texto. Eu
aposto que seu professor do ensino médio tomaria a mesma posição!) Prescritivismo é
trabalhado com a aplicação de um padrão lingüístico que marcou um certo tempo e
região em uma época distinta. Ou ainda: aplicar certas categorias quando elas não existem
(como certos círculos lingüísticos insistem em fazer —cf. Ian Robinson, A N ew
Grammarians' Funeral [CUP, 1975], especialmente o capítulo 2). Todavia, parece muito
evidente que todos povos de culturas as mais distintas possíveis, e em todas as épocas,
possuam certos padrões comunicativos por meio dos quais a comunicação ocorrerá.
98 R. H. Charles, A Criticai and Exegetical Commentary on the Revelation ofSt. John (ICC;
Edinburgh: T. & T. Clark, 1920) 1.10.
64 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

vista sobre a gramática de Apocalipse como um todo," parece que 1:4


funciona como um paradigma para muitos solecismos. O autor está
simplesmente instruindo os leitores a prestarem muita atenção em suas
palavras (1:3) - algo que ele pretensamente deixou de fazer no verso
em seguida! Mas, com efeito, ele está reportando sua audiência ao AT
ao preservar as mesmas formas encontradas na LXX, mesmo quando
elas rompem a concordância (e.g., ele faz o mesmo em 1:5, onde um
nominativo é um aposto de um genitivo: o nominativo cita SI 89. Sem
dizer uma única vez: "está escrito", o autor é capaz de mostrar aos
leitores o uso que faz do AT.100
IV. Nominativo de Tempo
A. Definição
É muito raro no NT. Ele é usado para indicar uma medida de tempo em
lugar do genitivo, dativo ou acusativo. Os dados são insuficientes para dizer
se o caso oblíquo normalmente é substituído pelo nominativo (há, contudo,
quem declare ser ele um equivalente distorcido de um acusativo de tempo.
Cada exemplo necessita do seu próprio contexto para se definir algo.101
B. Ilustrações
Mc 8:2 qôq fpépou xpeiç TrpoopévouoLu poi
Já [por ?] três dias que permanecem comigo
Cf. também Mt 15:32; Lc 9:28

V. Nominativo ad Nauseum
Também conhecido como nominativo aporético (de aTTOpéu, "eu estou perplexo"),
essa é a categoria a que se apela quando outra classificação não for encontrada.
(N.T., lembra as palavras denotativas da Nomenclatura Gramatical Brasileira)
O título é descritivo não do nominativo, mas do sentimento que se tem na boca
do estômago pelo tempo gasto nesse caso e não ter conseguido nada. (Trad. ad
Nauseum - o mesmo que chegar à exaustão).
99 Entre os mais interessantes estudos, encontram-se: T. C. Laughlin, The Solecisms of the
Apocalypse (Princeton: University Publishers, 1902 [originalmente apresentado como uma
dissertação de doutorado no Seminário de Princeton]); Charles, Revelation, l.cxvii-clix; D. R.
Younce, "The Grammar of the Apocalypse" (dissertação de doutordo não-publicada,
Seminário Teológico de Dallas, 1968); G. Mussies, The Morphology ofKoine Greek as Used in the
Apocalypse ofSt. John (Leiden: E. J. Brill, 1971); S. Thompson, The Apocalypse and Semitic Syntax
(Cambridge: Cambridge University Press, 1985); S. E. Porter, "The Language of the Apocalypse
in Recent Discussion," NTS 35 (1989) 582-603; D. D. Schmidt, "Semitisms and Septuagintalisms
in the Book of Revelation," NTS 37 (1991) 592-603.
100 Essa abordagem, é claro, não apresenta todos os solecismos de Apocalipse. Alguns
desses solecismos são frutos da influencia do gênero literário conhecido como apocalipticismo.
E possível, até mesmo, que isso seja um retrato do estado emocional reinante na época da
composição do Apocalipse de João. Essa questão paira sobre o vale ou da influência semítica
ou da peculiaridade do grego koinê. Ainda que ambas sejam importantes, elas não resolvem
alguns dos problemas mais fundamentais (v.g., Ap 1:4).
1010 desconforto dos escribas em relação a essa passagem pode ser visto pelas variedades
textuais existentes desse texto. Porém, o caso oblíquo substituído pelo nominativo difere em
passagens paralelas: Mc 8:2 (em lugar do nominativo ryupca rpclç, encontramos fipépcaç
rpíoiv em B pc). Contudo os textos paralelos usam: rpépaç em K 0 Qfam et al (Mt 15:32); em
lugar do nominativo f]pépai óktú encontramos f)|iépaç óktu (Lc 9:28), nos minúsculos 1313 e 1338.
O Caso Vocativo
Panorama dos Usos do Vocativo
A. Endereçamento Direto...................................................................................... 67
1. Invocação Simples..................................................................................67
2. Invocação Enfática (ou Emocional)..................................................... 68
3. O Uso Excepcional em Atos.................................................................. 69
4. Simplificação............................................................................................70
B. Exclamação.......................................................................................................... 70
C. Aposto..................................................................................................................70

Bibliografia Selecionada

Abel, Grammaire, 67; K. Bamwell, "Vocative Phrases," Notes on Translation 53 (1974)


9-17; BDF, 81 (§146); Brooks-Winbery, 59; Dana-Mantey, 71-72 (§84); Funk, Inter­
media te Greek, 710-11 (§886); Hoffmann-von Siebenthal, 215-16 (§148); Moule, Idiom
Book, 31-32; Moulton, Prolegomena, 60, 71-72; Porter, Idioms, 87-88; Robertson,
Grammar, 461-66; Smyth, Greek Grammar, 312-13 (§1283-88); Turner, Syntax, 34, 230­
31; Young, Intermediate Greek, 15-16; Zerwick, Biblical Greek, 11-12 (§35).a

I. Definição

O vocativo é o caso usado na invocação de alguém ou, às vezes, o que exprime excla­
mações. Tecnicamente, não possui relação sintática alguma com a oração principal.
Nesse caso, é muito parecido com o nominativo absoluto.
Semelhante ao português, as conotações de invocação direta variam de circunstânci­
as, indo do deleite ao assombro e ira.2

1 Agradeço especialmente a Buist M. Fanning, Kevin Warstler e J. Will Johnston por


seus toques neste capítulo.
2 Veja Smyth, Greek Grammar, 312 (§1284); Turner, Syntax, 33; Barnwell, "Vocative
Phrases," 9-17.

65
66 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Para se determinar a força do vocativo, observe: (1) a ausência ou (2) a presença de


oi. (veja abaixo)

V o cativo
<1%

Q u adro 5
F req ü ên cia d e C asos no N ov o T estam en to3

II. Um Caso Legítimo?


A discussão sobre a legitimidade do vocativo como um caso é debatível e repousa
sobre duas bases: (1) forma: o caso não possui uma forma escrita distinta. Além de
não ocorrer muitas vezes no plural, nem mesmo ser declinado em todos os gêneros
no singular (e.g., o feminino da I a declinação);4 (2) função: o vocativo é sintaticamen-
te independente do resto da sentença. Assim, se fôssemos definir caso essencialmen­
te como ligado à função sintática, então o mesmo não se qualificaria.

Essas duas objeções não são tão fortes quanto parecem ser. Primeiro, embora não
tenha formas completamente desenvolvidas, o vocativo pode, às vezes, ser distin-
guido formalmente. Se ele não for um caso verdadeiro em algumas declinações, en­
tão nem o acusativo seria na segunda/terceira declinação neutra (visto que não é
distinto do nominativo neutro). O fato de que haja algumas diferenças formais (e de
acento)5 é suficiente para considerar como um caso separado, pelo menos no singu­
lar. Segundo, embora no âmbito de uma oração o vocativo seja gramaticalmente
absoluto, no nível do discurso ele carrega um peso semântico. Isto é, embora o vocativo

3 A contagem de vocativos é a seguinte: 292 substantivos, 0 pronomes, 0 artigos, 1


particípio (At 23:3), 24 adjetivos.
4 Para uma discussão sobre formas, veja Mounce, Basics of Biblical Greek, 105 (§13.10);
Moulton-Howard, Accidence, 54-55, 59, 118-20, 129, 134-37, 142; e W. D. Mounce, The
Morphologi/ of Biblical Greek (Grand Rapids: Zondervan, 1994) 167
Vocativo 67

mostre-se dentro de uma sentença, ele realmente é um indicador de uma audiência


e assim é "suprafrasai", ajudando o leitor a entender não só quem está sendo invoca­
do, mas também como isso é feito.6

III. Usos do Caso Vocativo


Há três usos básicos: (1) invocação direta, (2) exclamação, e (3) aposto. A terceira
categoria, como em todas os usos de um aposto simples, não é realmente uma
categoria sintática distinta (pois o caso simplesmente "está ligado" ao substantivo
de quem ele é aposto). A primeira categoria, é esmagadoramente, a de uso mais
freqüente.

A. Invocação Direta

Um substantivo no vocativo é usado para invocação direta para designar o


destinatário. Exceto por dois textos no NT, o destinatário é sempre pessoal.7 Essa
categoria subdivide-se em dois grupos. A primeira categoria é bastante usada; a
segunda, somente nove vezes.8

1. Invocação Simples
a. Definição

Esse é o uso do vocativo sem um c5 precedente. Na maior parte, nenhuma


significação especial está ligada a tal uso. (Em muitos exemplos, porém,

5 O acento do vocativo grego fica longe da última sílaba, ou seja, na primeira sílaba
da palavra (yurn) torna-se yóvai, mxrrip torna-se irárep, Guyátrip torna-se Gúyatep etc.
Note também que a flexão é abreviada com freqüência). Isso se devia à oralidade da
língua.
6 O nominativo por vocativo é uma invasão sobre o vocativo tanto que há duas vezes
mais nominativos que vocativos no NT. (Visto que o vocativo e o nominativo são idênticos
no plural, estamos contando todas essas formas como nominativos. Esse deve ser o caso
em vários exemplos que vem com artigo, pois o vocativo é anarthro). Veja discussão
sobre endereçamento direto no cap. Anterior, em "Nominativo por Vocativo".
7 Em 1 Co 15:55 Gctvate ("morte") é mencionado duas vezes; em Ap 18:20 oúpavé
("céus") é mencionado.
8 Isto é, u com o vocativo é usado só nove vezes no NT. Nem todos são enfáticos (o
uso em Atos é uma exceção, seguindo uma expressão idiomática em grande parte). Nem
são contados u com plurais (pois os plurais são idênticos em forma ao nominativo).
68 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

haverá grande emotividade na expressão. Isso é lógico. Logo, o contexto


será o fator determinante).9

b. Ilustrações

M t 9:22 ó Tqooüç . . . eLTieu, © á p o e i , G ú y o a e p q t t l o t l ç oon aéaw Kéu o e .10


Jesus disse, "anima-te, filha! Tua fé te salvou".

Lc4:23 Ttávxwc èpelxé poi xqy TrapaPoílqu Taúrqy Tatpé, GepáTTeuooyaeauiôü


Sem dúvida citar-me-eis este provérbio: "Médico, cura-te a ti mesmo".

1 Co 7:16 tiyàp olôaç, yúuca, el TÒy ayõpa ocáaeiç;


Como sabes mulher, se salvarás teu marido?

Hb 1:10 Ei) Kax’ àpxáç, KÚpie, xqy yqy èOepeÀÍwoaç


Tu, desde o princípio, Senhor, estabeleceste a terra.
Nesse exemplo, vemos qual a palavra é a mais comumente usada, no
NT grego, no vocativo no NT: KÚpioç (dos 317 vocativos existentes, 119
são ocorrências desse vocábulo, ainda que se ache só em 8 livros).

Cf. também Mt 7:21; 20:13; Mc 8:33; Lc 7:14; Jo 2:4; Rm 11:3; Fp 4:3; Ap 7:14; 22:20.

2. Invocação Enfática (ou Emocional)


a. Definição

Esse é o uso do vocativo precedido por um tá. A partícula cá é usada em


contextos emotivos profundos. Como se ver nos seguintes exemplos, "Ape­
sar de ser uma partícula pequena, ela lança tal luz sobre o estado da mente
de nosso Senhor e de seus apóstolos, de modo que ninguém, certamente, ao
ler as Escrituras, deveria negligenciar suas indicações".11

b. Ilustrações

Mt 15:28 ó Tqooüç eíneu cdruq/Q yúvai, peyálq aou q t tlo tlç


Jesus lhe disse, "O mulher, grande é tua fé!"
A surpresa de Jesus ante a humildade da mulher cananita e a respos­
ta perspicaz da mesma: "os cachorrinhos comem das migalhas que
caem da mesa dos seus donos" (v. 27), produzem esse comentário.

9 O vocativo nos lábios de Jesus (e em outros, às vezes) parece ser, muitas vezes,
emocional mesmo sem essa partícula. Cf. Mt 4:10; 7:5; 8:29; 11:21; 18:32; 23:26; 25:26;
27:46; Mc 1:24; 8:33; 10:47; Lc 4:34; 19:22; At 5:3; 1 Co 15:55. Pode ser que o "vocativo
seco" realmente seja um emaranhado de coisas, contendo tanto endereçamento quanto
chamado enfático/emocional. Quer dizer, ele é não-marcado, mas o contexto pode
naturalmente informar seu valor.
10 O nominativo Guyátqp se encontra em D G L N W 0 et pauci.
11 Zerwick, Biblical Greek, 12 (§35).
Vocativo 69

Tg2:20 Béleiç Ôè yvcôvca, cS ãvGptoire Kevé, oxi q ttÍotlç /(jplç twv epywv
ápyr| eativ;
Queres, pois, ficar certo, ó homem insensato, que a fé sem as obras é
inoperante?

Cf. também Rm 2:1, 3; 9:20; 1 Tm 6:11, 20.12

3. O Uso Excepcional em Atos


De duas formas, o grego clássico difere do grego helenístico em relação ao uso
do vocativo:13 (1) O vocativo com (J não era enfatizado - isto é, era um uso
normal, empregado em invocação polida ou simples; (2) o vocativo, com ou
sem ca, localizava-se usualmente bem dentro da sentença e não na frente. O uso
helenístico inverteu não somente a primeira tendência, mas também, em certo
grau, a segunda. Assim, falando de forma geral, c3 com o vocativo, é marcado
ou destacado por ênfase, emoção, etc., e visto, muitas vezes, encabeçando a
sentença.

O uso em Atos é mais semelhante à norma clássica que ao koinê típico. Não se
pode dizer, porém, que isso é devido ao fato de Lucas usar um koinê mais lite­
rário, visto que a expressão ocorre só em Atos, não no evangelho lucano.u De forma
descritiva, poderíamos dizer que (1) (i) com o vocativo (ou nominativo) no meio
da sentença, em Atos, é não enfático (At. 1:1 [ao se dirigir a Teófilo, no prefácio
de sua obra: cn ©eótjnÁe]; 18:14; 27:21), enquanto (2) co encabeçando a sentença
é enfático/emocional (At 13:10 [onde Paulo repreende Elimas, o mágico; veja
discussão abaixo]). É difícil dizer se isso leva a qualquer explicação satisfatória
quanto ao porquê 'Atos é diferente'. Uma hipótese atrativa é: quando Lucas nar­
ra de primeira mão (como no prólogo e nos caps. 16-28 [as seções "nós" de Atos]),
seu estilo é mais literário; todavia, quando usa outras fontes em sua narrativa,
ocorre a forma helenística. Isso deveria mostrar as diferenças entre Lucas e Atos,
mas não sem dificuldades.15

12 Há só 8 exemplos de c3 com o vocativo no NT (Mt 15:28; At 1:1; Rm 2:1, 3; 9:20;


1 Tm 6:11, 20; Tg 2:20), e 9 com o nominativo (Mt 17:17=Mc 9:19=Lc 9:41; 24:25; At 13:10;
18:14; 27:21; Rm 11:33; G1 3:1). Para discussão de At 1:1, veja abaixo ("Usos Excepcionais
em Atos").
13 Para uma discussão sucinta, veja, Smyth, Greek Grammar, 312-13 (§1283-88).
14 o) com nominativo em Atos segue o mesmo padrão.
15 Não é realmente um argumento contra essa hipótese dizer que ele assume a seção
"nós" - como uma narrativa de testemunha ocular, pois esse debate dificilmente tem
solução. Pelo contrário, se essa hipótese fosse razoavelmente demonstrada, poderia bem
contribuir com outra preocupação (como também indica, em certo grau, como o autor
usou suas fontes). Os problemas são, pelo contrário, que certos textos não se encaixam
facilmente nessa abordagem (note, e.g., Lc 1:3, onde a saudação a Teófilo é feita sem oi).
70 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

4. Simplificação/Chaves para a Identificação


As dicas para lembrar o uso e a importância do vocativo são:
1) sem to precedente (exceto em Atos): invocação simples
2) com c5 precedente (exceto em Atos): invocação enfática ou vocativo de ex­
clamação

B. Exclamação
O substantivo no vocativo é usado raramente em uma exclamação sem qualquer
conexão gramatical com o resto da sentença. Em tais exemplos, embora seja usado
para invocar alguém, vê-se uma explosão emocional retida. Todos os exemplos são
disputados e deve ser classificados como invocação enfática. Cf. Rm 2:1, 3; At 13:10
(veja também discussão abaixo).

C. Aposto
1. Definição
Aqui, temos um vocativo como aposto de outro vocativo. Em tais exemplos o
primeiro vocativo exercerá uma das forças mencionadas acima (i.e., invocação
direta ou exclamativa). A presença de um aposto no vocativo quase sempre
indica que a construção vocativa inteira é enfática/emocional ou exclamativa
(ao contrário de invocação simples). O acúmulo de vocativos, uma vez que o
destinatário já fora estabelecido pelo primeiro vocativo, é linguisticamente
desnecessário. Todavia, seja retoricamente efetivo.16

2. Ilustrações
Mc 5:7 T í épol Koà aoí, Tqoon ule xou Qco\> tou úv|ilotou
Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus altíssimo!
A resposta do demônio está cheia de emoção e terror, visto tanto
pela combinação do vocativo como pela expressão idiomática: T í
è|ioi Kal oof.17

16 Uma exceção a isso seria as expressões de aposição característica tal como "Rei
Agripa" (At 25:26; 26:19).
17 Para uma discussão dessa expressão veja BAGD, s.v. èycá, 217.
Vocativo 71

At 1:24 Eu KÚpte, KapôiOYVÓiaxa Trávxcov, àváôeiÇov ov Içe/úçM 4k xoúxwv


xwv ôúo eva
Tu, Senhor, Conhecedor dos corações de todos os homens, mostra-nos
qual destes dois escolheste.
Essa oração, feita quando na escolha do substituto de Judas, revela a
tristeza com que os demais apóstolos trataram essa tarefa.

At 13:10 TTilipriç tovioç ôóàou Kal iráariç pqôtoupyíaç, ulè ôtapólou, éxGpè
Tiáoqç Õ L K ato oú y q ç . . .
O cheio de todo engano e de toda maldade, filho do Diabo, inimigo de
toda a justiça...
É óbvio que a reação de Paulo contra a tentativa de Elimas, o mágico,
de subverter o evangelho dificilmente seria uma palmadinha! De acordo
com a narrativa de Lucas, Paulo amaldiçoa o mágico. (Alguém poderia
achar que se os Gaviões da FIEL existissem nos dias de Paulo, eles
ficariam em total silêncio nessa ocasião).

Ap 22:20 Naí, ep^opat xa/ú. ’Apqy, ep/ou, KÚpue Tqooô.


Certamente, venho em breve. Amén, vem Senhor Jesus!
Cf. também Mc 10:47; Lc 4:34; 8:28; 10:21; 17:13; 18:38.
O Caso Genitivo
Panorama dos Usos do Genitivo
Genitivo Adjetival............................................................................................................. 78
"f 1. Genitivo Descritivo (Genitivo "Aporético")............................................... 79
2. Genitivo Possessivo.......................................................................................81
3. Genitivo de Relacionamento....................................................................... 83
4. Genitivo Partitivo ("Wholative")................................................................ 84
5. Genitivo Atributivo.......................................................................................85
6. Genitivo Atribuído........................................................................................ 89
7. Genitivo de Material..................................................................................... 91
8. Genitivo de Conteúdo................................................................................... 92
9. Genitivo como Simples Aposto................................................................... 94
10. Genitivo Apositivo........................................................................................ 95
11. Genitivo de Destino (a. k. a. Direção ou Propósito)............................ 100
12. Genitivo como Predicado......................................................................... 102
13. Genitivo de Subordinação........................................................................ 103
14. Genitivo de Produção/Produtor.............................................................. 104
15. Genitivo de Produto.................................................................................. 106
Genitivo A blativo............................................................................................................ 107
1. Genitivo de Separação................................................................................ 107
2. Genitivo de Fonte (ou Origem)................................................................ 109
3. Genitivo de Comparação........................................................................... 110
Genitivo Verbal (i.e., Genitivo Relacionado a uma Forma
Nominal do Verbo)...................................................................................... 112
1. Genitivo Subjetivo...................................................................................... 112
2. Genitivo Objetivo........................................................................................ 116
3. Genitivo Plenário......................................................................................... 119
Genitivo Adverbial.......................................................................................................... 121
1. Genitivo de Preço ou Valor ou Quantidade............................................ 122
2. Genitivo de Tempo (em que ou no qual)................................................. 122
3. Genitivo de Lugar (onde ou no qu al)..................................................... 124
4. Genitivo de M eio..........................................................................................125
5. Genitivo de Agência................................................................................... 126
6. Genitivo Absoluto.........................................................................................127
7. Genitivo de Referência.............................................................................. 127
8. Genitivo de Associação.............................................................................. 128
Depois de Certas Palavras.............................................................................................. 131
1. Genitivo Depois de Certos Verbos (como Objeto Direto).................... 131
2. Genitivo Depois de Certos Adjetivos (e Advérbios) ............................ 134
3. Genitivo Depois de Certos Substantivos..................................................135
4. Genitivo Depois de Certas Preposições....................................................136

72
Genitivo: introdução 73

Bibliografia Selecionada

Abel, Grammaire, 175-92 (§44); BDF, 89-100 (§162-86); Brooks-Winbery, 7-29; Funk,
Intermediate Grammar, 711-17 (§888-90); Hoffmann-von Siebenthal, Grammatik, 227­
45 (§158-72); E. Mayser, Grammatik der griechischen Papyri aus der Ptolemãerzeit (Berlin/
Leipzig: Walter de Gruyter, 1933) 2.2.185-240; Moule, Idiom Book, 36-43; Moulton,
Prolegomena, 72-74; Porter, Idioms, 92-97; Radermacher, Grammatik, 123-26;
Robertson, Grammar, 491-520; Smyth, Greek Grammar, 313-37 (§1290-1449); Turner,
Syntax, 231-36; G. H. Waterman, "The Greek 'Verbal Genitive’," Current Issues in
Biblical and Patristic Interpretation: Studies in Honor of Merrill C. Tenney Presented by
his Former Students, ed. G. F. Hawthorne (Grand Rapids: Eerdmans, 1975) 289-93;
Young, Intermediate Greek, 23-41; Zerwick, Biblical Greek, 12-19 (§36-50).

Q u adro 6
F req ü ên cia de C asos no N ov o T estam en to1

I. Introdução

A. Marcas Preliminares

1. Relacionamento com a preposição "de" no português


O caso genitivo é um dos elementos mais cruciais de se aprender na sintaxe
grega. Felizmente, para nós da língua português, muitos dos usos do genitivo

1 O uso do genitivo, no NT grego, ocorre assim: 7681 são nomes; 4986, pronomes;
5028, artigos; 743 particípios; e, 1195 são adjetivos.
74 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

grego são semelhantes a nossa preposição "de". Isto não só torna o aprendiza­
do do genitivo mais fácil, mas também fica mais fácil de se explicar para os
ouvintes o significado de uma passagem que dependeria, em parte, do uso de
um genitivo. Por exemplo, em Rm 8:35, Quando Paulo escreve: "Quem nos se­
parará do amor de Cristo?" é claro que tanto no português quanto no grego
que ele se referia ao "amor que Cristo tem por nós", e não "o amor que temos
por Cristo".

Ao mesmo tempo, deveríamos estar atento ao fato que o genitivo tem alguns
usos diferentes da preposição "de" em português (e.g., comparação, propósi­
to, etc.). Explicar isso ao ouvinte exige certos cuidados, especialmente quando
sua interpretação difere do "de" da tradução que seus ouvintes estão usando.

2. Importância Semântica e Exegética do Caso Genitivo

Aprender os usos do genitivo custa grandes dividentos. Ele possui um grande


tratamento de importância exegética, muito mais que qualquer outro caso, por­
que ele é capaz de uma variedade enorme de interpretação.2 Isto, por sua vez,
é devido a três coisas:3 elasticidade de usos, núcleo fixo, e possibilidade
antitéticas.

a. Elasticidade

O gentivo é mais elástico que qualquer outro caso, capaz de se estender


sobre grande parte do terreno sintático. Em parte deve-se isto a uma forma
compacta que são muitas vezes duas formas de casos em outras línguas
Indo-européia (viz., gen. e ablativo - a idéia "de" e "a partir de").

b. Núcleo Fixo

A linguagem, por sua natureza, é comprimida, crítica, simbólica.4 Uma das


áreas de maior ambigüidade na lingual envolve um caso genitivo. Os
genitivos são basicamente usado em situações comprimidas que precisa ser
desenroladas. O genitivo está comumente relacionado a outros
substantivos. No entanto, o que essa relação envolve é muito variada. "A
revelação de Jesus Cristo", " o amor de Deus", "filhos da ira", "mistério
da piedade" são todos sujeitos a mais de uma interpretação, precisamente
por causa do "de" que engloba uma multidão de relacionamentos sintáticos. Em

2 Moule chama o genitivo de caso "imensamente versátil" e "eficiente" (Idiom Book,


37).
3 Tecnicamente, elas não constituem três noções isoladas. Na verdade; há mais
sobreposição (ou seja, grande flexibilidade e compatibilidade). Em certo grau, são três
modos de dizer a mesma coisa.
4 Veja a seção "Introdução: Abordagem desse Livro" para mais discussões.
Genitivo: introdução 75

essência, a construção Subs-Subs-Gen.,5 é usado para comprimir


quantidade de tipos de sentenças diferentes (tal como sujeito-predicativo,
transi tivio direto-objeto, sujeito-verbo transitivo, etc.).6 Uma grande parte
de nossa tarefa neste capítulo é desenpacotar a construção Subs-Subsgen,7
tentando mostrar que a grande maioria da situação semâtica nas quais
ocorrem os vários usos.

c. Possibilidades Antitéticas

Ao contrário do caso nominativo e do vocativo (cujas sugestões são de forma


geral suficientes para mostrar qual o uso envolvido), o caso genitivo
comumente requer um exame minucioso do contexto, significado
lexicológico dos vocábulos envolvidos (i.e., na construção Subs-Subsgen.),
e outros aspectos gramaticais (tal como o uso do artigo ou número).9 Em
adição, em certas contruções (tais como as que envolve uma forma nominal
do "verbo") o significado possível pode ser um pouco antitética. Assim, "a
revelação de Cristo" pode ser desenbrulhado para falar da "revelação acerca
de Cristo" ou "a revelação que vem de Cristo". Por casua de tais minuncias
amplamente divergentes, o caso genitivo requer acurado exame.

3. Genitivo de Série
O genitivo de série (também conhecido como genitivo concatenativo) pode ser
bastante complicado. Em geral, cada genitivo que sucede depende do genitivo
que o antecede, embora não seja sempre este o caso. (Veja a discussão sobre
Rm. 8:21 em "Genitivo Atributivo" para maior esclarecimento).

5 Chamado, tradicionalmente, de nomen regens-nomen rectum ou construção Nome-


Nome Genitivo (=na função genitiva). [N.T., Veja a expressão "O amor de Deus": onde
Nome eqüivale ao sintagma (O amor) e Nome Genitivo, (de Deus) - o que se assemelha
ao nosso uso dos adjuntos adnominais. Esse último possui semanticamente várias possi­
bilidades de tradução]. Representaremos essa construção pela sigla: N-Ng.
6 Para um estudo original e estimulante, onde o autor aplica uma gramática
transformadora à construção N-Ng, veja Waterman, "The Greek 'Verbal Genitive'," 289­
93. Essa abordagem é aplicada, usando a linguagem da lingüística de Chomsky, em
Young, Intermediate Greek, 29. (Embora sejamos muito beneficiados com tal abordagem,
os títulos aqui usados são mais tradicionais e descritivos.)
Observe também Kiki Nikiforidou, "The Meanings of the Genitive: A Case Study in
Semantic Structure and Semantic Change," Cognitive Linguistics 2.2 (1991) 149-205, que
argumenta virem todos os genitivos da idéia de posse. Contudo, embora seja análise
diacrônica, o autor chama a atenção para os vários usos relacionados a noções extraídas
da categoria "posse".
7 Um nome no genitivo é usado, é claro, com outro diferente termo (tal como verbo,
advérbio, adjetivo, etc.). Temos duas importantes informações: (1) grande parte desses
usos ocorre em construções N-Ng, e (2) a maioria dos problemas exegéticos também
encontram nessa forma.
8 Veja a seção "Abordagem desse Livro" para uma discussão detalhada. Para ler um
resumo, veja os usos a seguir. .
9 Lembre-se de que: esses três elementos (contexto [em seu sentido mais amplo, in­
cluindo histórico-literário], lexema, e outras características gramaticais) são os elemen­
tos básicos da "situação semântica."
76 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

B. Definição do Caso Genitivo:


O Significado não Afetado 10

1. Notas Acerca dos Casos Oblíquos em Geral

a. Genitivo Distinto do Acusativo

O genitivo e o acusativo são semelhantes no sentido que ambos são casos


que expressam algum tipo de limitação. A função de delimitar do genitivo
pode ser vista em "o reino de Deus", especificando qual reino está em foco;
" Simão de Cirene", indicando qual Simão está em vista; "a carne de pássa­
ros", onde o tipo de carne está destacado. O acusativo também limita, como
em "Eu ouvi uma voz", indicando o que é que foi ouvido; "eles adoraram o
Senhor", especificando o objeto da adoração.

Como pode ser visto dos exemplos acima, a diferença entre estes dois é
geralmente dupla; (1) O "genitivo delimita quanto a tipo, enquanto, o
acusativo delimita quanto a extensão".11 Outra forma de apresentar isso é
que o genitivo delimita quanto a qualidade enquanto o acusativo delimita
quanto a quantidade. (2) O genitivo é geralmente relacionado com um subs­
tantivo, enquanto o acusativo com um verbo.

b. Genitivo Distinto de Dativo

Enquanto a força do genitivo é geralmente adjetival, a força do dativo é


basicamente adverbial. Há algum envolvimento entre os usos destes casos,
mas estas distinções devem ajudar você a ver de forma mais clara a impor­
tância de cada caso. Também, o genitivo é geralmente relacionado a um
substantivo, enquanto o dativo (e o acus.) está relacionado com um verbo.12

2. No Sistema de Oito Casos

No sistema de oito casos, o genitivo define, descreve, qualifica, restringe, limita,


etc.13 Quanto a isso ele é semelhante a um adjetivo, mas é mais enfático.14 Deve-
se ter cuidado com várias gramáticas e comentários que pressupõem o sistema

10 Isto é, não-afetado pelo contexto, gênero, intromissões léxicas, etc. Essa seria o
sentido de um genitivo a vácuo. Veja "Abordagem desse Livro" para uma análise dos
termos.
11 Dana-Mantey, 73.
12 E lógico que existam genitivos objetos diretos (portanto, relacionados a um verbo).
Tais exemplos não minimizam a força qualificativa do caso. Esse uso pode ser visto no
capítulo sobre o uso do acusativo como objeto direto (a diferença básica consiste em
contrastar tipo e extensão). Muitos verbos tomam objetos diretos tanto na forma
acusativa como na genitiva. É interessante notar que tal associação não existe entre os
casos genitivo e dativo.
Genitivo: usos específicos 17

de oito casos; quando eles falam do genitivo, isto é, o que eles querem dizer
(i.e., a noção ablativa de seperação não está incluída). No entanto, para aqueles
que adotam o sistema de cinco casos, uma definição mais completa é necessária.

3, No Sistema de Cinco Casos

Visto que o genitivo e ablativo tem a mesma forma, nós consideraremos ambos
como um único caso ("caso" sendo definido como uma questão de forma e não
de função). Em certo sentido, a definição do genitivo no sistema de cinco casos
simplesmente combina genitivo e ablativo do sistema de oito caso. A noção
ablativa é fundamentalmente de separação. Esta é a idéia de. Tal separação pode
ser vista estaticam ente (i.e., em um estado separado) ou progressivo
(movimento a partir de, de forma a tomar-se separado). Além disso, a ênfase
pode estar ou no resultado ou na causa (neste último, origem ou fonte é
enfatizado).

Outra maneira de ver o caso genitivo é observando todos os usos, tanto adjetival
quanto ablatival, gerado a partir de um idéia. Se tal idéia básica era de pos­
sessão,15 ou restrição,16 ou alguma outra noção, é de grande interesse para o
filólogo (e o campo dos diacrônicos) do que para o exegeta. No grego
helenístico, a idéia de e a partir de são geralmente distinta - tanto que o concei­
to ablativo é amplamente expresso com áiró ou (K e não com a forma genitiva
"pura", (pelo menos, isto sugere uma inquietação crescente por parte dos na­
tivos do koinê para usar o caso gen. a fim de expressar a idéia de separação17).
Portanto, sob o sistema de cinco casos, o caso genitivo pode ser definido como o
caso que qualifica ou limita com respeito a qualquer tipo e (ocasionalmente) separa­
ção.

II. Usos Específicos


Nossa abordagem ao genitivo é reduzir seus usos a poucas categorias principais
com muitos subgrupos sob cada um destes. Esta abordagem (seguida por muitos

13 Não é feita aqui uma apologética ao sistema de oito casos, estamos apenas
reconhecendo o modo como o assunto tem sido tratado pela literatura. Mais de uma
gramática tem definido - o que nos chama - o genitivo simplesmente como qualificação,
apesar de adotar o sistema de cinco casos!
14 Dana-Mantey, 72-74.
15 Conforme Nikiforidou, "The Meanings of the Genitive," que apresenta um
argumento plausível.
16 Conforme Louw, 83-85, acompanhado por Porter, Idioms, 92.
17 Alguns gramáticos mesclam tais usos com a construção 'preposição + caso' (e.g.,
Brooks-Winbery, 7-64). Isso apenas confunde o assunto e promove uma grande
quantidade de mal-entendidos exegéticos. Para uma discussão mais detalhada, veja o
capítulo sobre preposições.
78 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

gramáticos) é útil para mostrar as semelhanças que os diferentes tipos de genitivos


têm uns com os outros.

N.B. O esquema neste capítulo pode parecer um pouco laborioso. A reação imedia­
ta ao olhar nas categorias seguintes poderia ser precipitada por causa do material
antes das categorias, como coelho, multiplica-se a qualquer custo! O que parece ao
olhar de relance ser uma distintição microscópica sutil que é governada por princí­
pios da realidade semântica e importância exegética. Quer dizer, à luz da grande diver­
sidade de usos estabelecidos do genitivo, bem como da freqüente importância
exegética profunda que este caso pode exercer em determinados textos, uma
familiarização com estas categorias é justificada.18

A. Genitivo Adjetival

Esta categoria ampla realmente toca o coração do genitivo. Se o genitivo for primari­
amente descritivo, então ele é muito semelhante ao adjetivo em função. "O principal
a lembrar que o genitivo muitas vezes faz praticamente a função de um adjetivo,
distinguindo duas outras coisas semelhantes..."19 Embora o genitivo tenha primaria­
mente uma força adjetival, é mais enfático que um simples adjetivo.20

18 É importante manter em mente a tensão entre as categorias semânticas


estabelecidas e a distância exegética que podem nos afastar destas. Por um lado,
alguns exemplos claros estabelecem uma categoria semântica. Se subdividirmos
detalhadamente o genitivo descritivo, por exemplo, teremos mais de 100 categorias
de genitivos! (Não como negar que tais usos têm base no contexto, porque o contexto
faz parte de sintaxe quanto da morfologia ou lexema [contra Porter, Idioms, 82, quem
fez uma distinção fixa entre sintaxe e contexto]. Assim, fica claro que alguns usos do
genitivo no NT não serão encontrados em outros exemplos helenistas.) Por outro
lado, tal multiplicação de categorias - embora utilíssimo em nível lingüístico - é
dominado por nosso princípio administrativo de valor exegético. Assim, ainda que
existam mais categorias do genitivo nessa seção, e os mesmos sejam encontrados na
maioria dos gramáticos, acreditamos que as categorias adicionais são válidas quan­
to úteis para a exegese.
19 Moule, Idiom Book, 38.
20 Outra diferença entre um genitivo adjetival e um adjetivo é: aquele não perde
sua força nominal ao tomar modificadores adnominais; já este, toma, freqüentemente,
apenas modificadores adverbiais. O único genitivo que, aparentemente, não toma
modificadores adnominais é o genitivo atributivo, todavia, ainda assim, seu sentido
é mais visível do que um mero adjetivo seria.
Genitivo: adjetival (descritivo) 79

f 1. Genitivo Descritivo ("Genitivo Aporético" 21) [caracterizado


por, descrito por]
a. Definição
O substantivo no genitivo descreve o substantivo principal de um modo
solto. A natureza da colocação dos dois substantivos nesta construção é mui­
tas vezes bastante ambígua.
b. Amplificação
Esta categoria do genitivo "saco de bugiganga", o genitivo "vala", o
genitivo "buraco negro" que tenta absolver muito do genitivo dentro de
seu alcance! Em certo sentido, todos os genitivos adjetivais são descritivos, ainda
que nem todos sejam. Quer dizer, embora todos os genitivos adjetivos sejam,
em sua essência, descritivo, muito pouco, se algum, pertence somente a
esta categoria de uso específico. Este uso verdadeiramente envolve a idéia
básica do genitivo (adjetival). Este é muitas vezes o uso do genitivo quan­
do ele não tem sido afetado por suas considerações lingüísticas - isto é,
quando não há aspectos contextuais, lexémicos, ou mesmo outros aspec­
tos que sugiram um significado mais específico.22
Freqüentemente, porém, ele está perto do genitivo atributivo, sendo ou ou­
tro genitivo atributivo ou mais amplo que o uso atributivo.23 (Veja o quadro 7
abaixo). Assim, este uso do genitivo deve ser o último recurso. Se não for
possível encontrar uma categoria mais estreita a qual o genitivo pertença,
esta categoria é onde você será consolado.24

21 Isto é, semelhante ao uso que a gramática portuguesa faz com a categoria chamada 'pala­
vras denotativas', ou seja, o que não se encaixa nas chamadas dez classes gramaticais é "jogado"
nesse 'porão' (o termo aporético vem da palavra grega, ònopéu, "Eu estou perdido", um título exa­
gerado sugerido por J. Will Johnston para minha análise). Essa é uma categoria que alguém usa
quando uma outra saída não é encontrada. O título descreve não o genitivo, mas a sensação que
temos ao gastarmos tanto tempo em algo que não nos leva a lugar nenhum.
22 De fato, poderíamos chamá-lo de "genitivo de aplicação limitada". O contexto, às ve­
zes, sugere tal uso (ou seja, em que o genitivo é geralmente descritivo). Contudo, a capacida­
de de expressão do genitivo não foi exaurida. Os alunos mais adiantados verifiquem isso na
Gramática Transformacional.
23 Williams, Grammar Notes, 5.
24 Uma vez que há um grande número de categorias genitivas, nosso trabalho terá que
parar a qualquer instante. O uso descritivo do genitivo cobre uma multidão de categorias
sintáticas que tem recebido sanção pública (ainda que este seja um projeto audacioso). Parece
que esse uso é uma das principais situações que ocorrem quando os genitivos descritivos
encabeçam ou apresentam uma forma nominal do genitivo idiomática, figurada ou
influenciada pelo contexto semítico. Assim, a expressão uíóç + 'nome no genitivo’ é, talvez,
uma forma descritiva freqüente (e.g., "filho da desobediência"). Denominar esse exemplo
de um mero uso atributivo ("filho desobediente") não é adequado, porque o termo "filho"
não é interpretado, (elóç com um genitivo é algo notoriamente complexo; veja Zerwick, Biblical
Greek, 15-16 [§42-43] para um resumo desses usos.) Assemelha-se a situação onde o nome
principal é uma figura, como em "raiz de amargura" (pCÇa TUKpíaç, Hb 12:15). É possível
que o genitivo seja descrito com um uso descritivo.
Porém, ao mesmo tempo, nossa abordagem nesse capítulo é, de ponta a ponta, diferente
da abordagem de alguns gramáticos que negam a análise do genitivo descritivo (e.g., Young,
Intermediate Greek, 23; Moule, Idiom Book, 37). Acreditamos que uma dada análise grega não
deve ser levada intuitivamente e, ademais, que categorias adicionais devem possuir algum
valor exegético.
80 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

c. Chave para Identificação


Pela palavra de acrescente a paráfrase caracterizado por ou descrito por. Se isto
encaixar, e se nenhum dos outros usos do genitivo se encaixar, então o genitivo
é provavelmente de descrição.25

Quadro 7 ‘
O Relacionam ento do Genitivo D escritivo com os Vários O utros Usos de Genitivo

d. Ilustrações
Mc 1:4 T<oávvr\ç . . . Kripúoocav páimapa perauoíaç
João . . . [estava] pregando um batismo de arrependimento
Há várias interpretações possíveis para esta frase: "batismo que é base­
ado no arrependimento" (causai), "batismo que produz arrependimen­
to" (propósito ou produção), "batismo que simboliza arrependimen­
to". Diante de tais ambigüidades, seria melhor que fosse neutro: "batis­
mo que é de algum modo relacionado ao arrependimento”.
Jo 2:16 |iT] TTOULT6 TÒV OIKOV TOÜ TTCCTpÓç |IOU OIKOV €|J,UOpíoU
não façais da casa de meu Pai casa de negócio.
A idéia é "uma casa em que mercadoria é vendida".
R m 1 3 :1 2 évõuatáp.e0a t à otúíx toü íj)a)TÓç
revistamo-nos das armas da luz.
2 Co 6:2 kv fpépa oarnpíaç
No dia da salvação
Este não pode ser um gen. Atributivo, pois a idéia então seria "um dia
salvo"! Um dia que é "caracterizado por" salvação é claramente aceitável.

25 Comentaristas classificam, freqüente e simplesmente, um genitivo como " descritivo


" sem verificarem, com precisão, as nuances envolvidas. Sugerimos, pelo menos, que o
estudante faça comparações com outros usos genitivos até verificar se este ou aquele se
ajusta melhor.
Genitivo: adjetival (possessivo) 81

Nós poderíamos ampliar isto um pouco mais: "o dia em que a salvação
for revelada", ou "o dia em que a salvação virá".26

1 Ts 5:5 TTávteç yàp úpCLç lAol (JícotÓç èate


porque todos sois filhos da luz
Isto não significa "filhos brilhantes", mas "filhos iluminados" chega
mais próximo do original. A linguagem figurativa e sintética envolve
uma conotação que tem mais força emotiva que meramente "filhos que
habitam na luz", ainda que se aproxime do significado denotativo.

Ap 9:1 éõó9r| ouoâ q KÁciç tou <J>péaxoç xqç à|3úaoou


foi lhe dado a chave do poço do abismo
Este não é um gen. Possessivo, embora nossa preposição "de" se encai­
xe (pois o poço não possui a chave). A idéia é "a chave que abre o poço
do abismo.28
Cf. também Mt. 24:37; 2 Co. 11:14; Ef. 2:2; talvez Hb. 1:9; Hb. 12:15.

2, Genitivo Possessivo [que pertence a, possuído por]


a. Definição
O substantivo no genitivo possui a coisa a qual permanece relacionado. Isto
é, de alguma forma o substantivo chave é possuído pelo substantivo no
genitivo. Essa possessão às vezes pode ser amplamente definida e necessá­
ria, não implica a idéia literal (e às vezes de forma áspera) de possessão de
propriedade física. Iste uso é muito comum.
b. Chave para Identificação
Em lugar da palavra de deve-se substituir por que pertence a ou possuído por.
Se esta paráfrase se encaixar, então o genitivo provavelmente é de possessão.
c. Amplificação
Embora esta categoria seja amplamente definida, ela realmente tem que ser
usada somente quando um genitivo não puder se encaixar sob alguma outra
categoria (ela ainda será comum). Um genitivo não deveria ser classificado
possessivo a menos que este seja o sentido mais estreito que ele tenha. Se

26 Este texto ilustra um certo padrão, ou seja, o substantivo principal estabelece


uma estrutura (tal como tempo ou espaço) em que um evento inferido toma o lugar. O
sujeito desse evento está implícito no genitivo, como no freqüente uso de fpépa. E.g., em
Mt 11:12 "os dias de João Batista" significa "os dias quando [estrutura temporal] João
Batista [sujeito implícito no genitivo.] viveu [verbo inserido]"; em Mt 10:15/11:22 "o dia
do julgamento" significa "o dia quando o julgamento ocorrer." (Cf. também Lc 21:22;
At 7:45; Ef 4:30; Fp 2:16. Ligeiramente diferente é a linguagem em Lc 1:80; 1 Pd 2:12.)
Como sugerido anteriormente, muito lucro se teria ao analisar essa ampla e amorfa
categoria.
27 Como não há a categoria 'genitivo de domicílio' (que teria provavelmente exemplos
bastante limitados no NT), o genitivo descritivo será traduzido por: "filhos caracterizados
por luz".
28 Veja discussão sobre 2 Cor 6:2; a cláusula implícita é aparentemente similar.
82 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

estiver relacinado a uma forma nominal do verbo, então, ele provavelmente


é objetivo ou subjetivo.29
Em adição, os pronomes possessivos serão as palavras primárias usadas para
o genitivo de possessão. De fato, quando for encontrado um pronome pos­
sessivo é possível pressupor que sua nuance primária é ligado a possessão.
Finalmente, o substantivo principal e o substantivo no genitivo terá rotinei­
ramente nuances lexicais que naturalmente se encaixará com a idéia de pos­
sessão. E.g. O livro de João, o nome da mulher, o rabo do cachorro, etc.
Nestes exemplos, se observa que o substantivo no genitivo é animado e usual­
mente pessoal; o substantivo principal, normalmente o tipo de coisa que pode
ser possuída (e.g., entidades, idéias não abstratas).
d. Ilustrações30
Mt 26:51 xòv ôouÀov toü àp%iepé(jç
O servo do sumo sacerdote
Mt 26:51 airtoü xò còxíov
sua orelha
A diferença entre este genitivo e o partitivo é que com um gen. Partitivo
o substantivo principal é impessoal ou visto como lidando com poder/
autoridade sobre o gen. Assim, "o pára-choque do carro" não é a mes­
ma coisa que "o pé do homem". Isto ilustra o fato que os usos específi­
cos não podem ser entendidos a parte dos exemplos fenomenológicos
nos quais ocorrem - e.g., intrusões lexicais 31

Jo 20:28 0w[j.âç eíueu aüxtò, ó KÚpióç pou Kal ó 9eóç pou


Tomé disse-lhe, "Senhor meu e Deus meu"
A idéia de possessão nessas expressões não deve ser forçada no sentido
que o Senhor é possuído por Tomé. Mas, em sentido lato, o Senhor perten­
ce a Tomé agora, na ocasião, de um modo que antes não era verdadeiro.
1 Co 1:12 eKaoxoç íspwu Ziyei, èyw pév eípi IlaúÀou, èyw ôè 'Arto/Uxã
cada um vos diz, "Eu sou de Paulo"; "Eu sou de Apoio"

29 Meu colega, o prof. John Grassmick, tem sugerido o seguinte esquema: Os genitivos
subjetivos, possessivos e o de origem estão estritamente relacionados. De acordo com certos
princípios (e.g., se o contexto permitir) o genitivo possessivo tem preferência sobre o de
origem e o genitivo subjetivo tem preferência sobre o possessivo quando um nome verbal
estiver envolvido.
30 Muitos gramáticos sugerem que trechos como: "filhos de Deus" (Jo 1:12), "apóstolo
de Cristo Jesus" (2 Cor 1:1); "seus irmãos" (Hb 7:5), "prisioneiro de Cristo Jesus" (Ef 3:1)
contém genitivos possessivos. Todos estes são, de fato, genitivos possessivos, mas suas nuances
também ultrapassam a simples idéia possessiva. E.g., "filhos de Deus" transmite a mesma
idéia do genitivo de relação; "apóstolo de Cristo Jesus" também é um exemplo de genitivo
subjetivo (indicando que Cristo Jesus enviou a Paulo). Logo, ainda que, latu sensu, o genitivo
de possessão seja bastante comum. No sentido adotado nessa gramática, isto é, strictu sensu,
essas nuances são mais restritas.
31Ao mesmo tempo, cada inserção léxica não significa que estamos diante de um genitivo.
Por exemplo, em 1 Co 15:39, embora "carne de homens, carne de animais, came de aves e
cames de peixes" falem do corpo, sobre certo aspecto; o contexto indica o uso de genitivos
atributivos (i.e., corpo humano, corpo animal, corpo aviculário, corpo marinho"), que é a
idéia em vista.
Genitivo: adjetival (relacionamento) 83

O nome próprio em cada um destes exemplos não se refere a pes­


soa, mas à facção que o segue. Se isto fosse por outro lado, um gen.
Possessivo, poderia implicar propriedade pessoal. Uma vez a figura
de linguagem é analizada, o significado fica claro: "Eu pertenço ao
partido paulino", etc.32

Hb 11:25 Ttô Âacâ tou 0eoC


o povo de Deus
Cf. também Mc 12:17; Jo 18:15; At 17:5; 21:8; Tg 3:3; Ap 13:17.

3. Genitivo de Relacionamento
a. Definição

O substantivo no genitivo indica um relacionamento familiar, normalmente


o progenitor da pessoa referido pelo substantivo principal. Esta categoria é
muito rara.

b. Chave para Identificação/Amplificação

Este é um corolário do genitivo possessivo (veja o quadro 7 acima para uma


representação visual). A chave para determinar se ou não um genitivo pos­
sessivo é um genitivo de relacionamento é (1) se o substantivo com o qual o
genitivo se relaciona indicar uma relação familiar (e.g., filho, mãe, etc.) ou (2)
Se o substantivo com o qual o genitivo se relaciona for subentendido i.e. deve
ser implicado do contexto) e o que está implicado for relacionamento famili­
ar, então o genitivo possessivo é um genitivo de relacionamento.33 Assim
também, o substantivo genitivo é rotineiramente um nome próprio.

c. Clarificação

Muitas vezes, especialmente nos Evangelhos, o substantivo relacionado ao


genitivo é para ser suprido. Se este for o caso, o genitivo sozinho, usual­
mente sugere a idéia de "de quem procede" ou "De quem é descendente".
Assim, quando o substantivo com o qual o genitivo se relaciona não for
nomeado, pode-se supor que o genitivo somente fala do ancestral (mas cf.
Mc. 16:1 para uma exceção; aqui o genitivo fala do descendente e não do
ancestral).

d. Ilustrações

Mt 20:20 q pijxqp i(3v ulcâv Zejkôaíou


a mãe dos filhos de Zebedeu
Este é um exemplo duplo visto que o primeiro gen. ("filhos") indica

32 Nenhum grupo homogêneo nesse exemplo constitui um genitivo possessivo como


predicativo, fazendo uma declaração sobre o sujeito. Cf. also Mt 5:10.
33 Young (Intermediate Greek, 25-26) inclui, distintamente, a idéia de relação "social"
nessa categoria.
84 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

descendência do primeiro substantivo ("mãe"), seguido por um gen.


Indicando progenitor ("Zebedeu").

Jo 21:15 Eípwy Tatáimou


Simão, [filho] de João

Lc 24:10 Mapta q ’IaKG)|3ou


Maria, a [mãe] de Tiago

Mt 4:21 ’IáKupov xòv xoO Zefkôaíou


Tiago, o [filho] de Zebedeu

4. Genitivo Partitivo ("Totalitativo") [que é parte de] 34


a. Definição

O substantivo no genitivo denota o todo do qual o substantivo principal é


uma parte. Este uso é muito comum no NT.

b. Chave para Identificação

Em lugar da palavra de substitui por que é parte de.

c. Amplificação e Semântica 35

1) Este é um uso fenomenológico do genitivo que exige que o substantivo


princiapal tenha uma nuance lexical que indique porção. Por examplo,
"alguns dos Fariseus," "um de vocês," "décima parte da cidade," "O
galho da árvore," "um pedaço de torta."

2) Este uso do genitivo assemelha-se a um tipo de genitivo possessivo (e.g.,


o gen. Possessivo com anatomia) com uma diferença significante. "O
rabo do cachorro" é possessivo, enquanto que "o pára-choque do car­
ro" é partitivo. Como pode ser visto, a diferença entre estes dois tem a
ver com coisas inanimadas. Um caminho incipiente para testar se um
genitivo é partitivo ou possessivo é perguntar se o substantivo no
genitivo seria objeto da partida do substantivo principal. Um cachorro
deveria (possessão); um carro não deveria (partitivo). 36

3) O genitivo partitivo é semanticamente o oposto do genitivo em aposição.


Enquanto o partitivo designa o todo do qual o substantivo principal é
uma parte, o genitivo em aposição designa algo particular dentro de
uma classe descrita pelo substantivo principal. A coisa importante para

34 O termo "partitivo" é confuso, pois sugere que o genitivo em si mesmo designa a


parte da qual o nome principal é o todo. Por causa disso, sugerimos a idéia de genitivo
de agrupamento, por achamo-lo mais adequado. Alguns o chamam genitivo do todo
dividido, porém isso não é tão diferente de partitivo.
35 Nossa discussão aqui poderia facilmente alongar-se a partir dos dados aqui dados.
Para uma análise mais detalhada, cf. BDF, 90-91 (§164).
Genitivo: adjetival (partitivo) 85

se ter em mente aqui é que, embora semanticamente oposto, às vezes


eles são estruturalmente idênticos. (Veja abaixo o "Genitivo em
aposição" para discussão e diagrama).
4) Ocasionalmente, o substantivo com o que o genitivo se relaciona está
ausente, subentendido do contexto. (Pode-se-á ver este muitas vezes
com 4k + o gen. [e.g., Mt 27:48; Jo 11:49; 16:17], que frequentemente tem
uma força partitiva com ele.37) Portanto, às vezes é necessário para su­
prir a "parte" a fim de determinar se ou não tal genitivo é partitivo.

5) Uma fórmula quase invariável que o genitivo partitivo segue inclue subs­
tantivos principais com: tlç,38 eKaoioç,39 e especialmente ciç.4(l quer
dizer, em tais construções, o genitivo será habitualmente partitivo.41

d. Ilustrações

1) Exemplos Claros
Lc 19:8 tà f||iíaiá pou tcôv úirapxóvTQv
Metade de meus bens

Rm 11:17 nueç tcôv KÀáôcúu


Alguns dos ramos

Rm 15:26 xouç ittgjxouç tcôu à y íov


os pobres dentre os santos

Ap 11:13 tò õéKairou tfjç ttÓÀewç


[a] décima parte da cidade

36 Contudo, essa regra tem muitas exceções. Por exemplo, em "a décima parte da
cidade", as outras nove partes, provavelmente, também sofreriam, caso a distância entre
esta e aquela não fossem tão grandes! Em certos contextos, porém, (assim como em
Ap 11:13, onde a expressão, em foco, ocorre) a categoria ser animado não é vista como
lugar. Na expressão "algumas das mulheres", é muito possível que o nome no caso
genitivo possua o nome principal (como em "a terça parte dos homens" em Ap 9:18).
Conseqüentemente, o genitivo partitivo é a única resposta. Talvez parte da solução seja
o contraste entre indivíduo e coletividade (um ponto de vista sugerido anteriormente
[Winer-Moulton, 244]): essa regra não funciona com partitivos plural (como "cidade",
"mulheres" etc.), somente singulares.
37 O genitivo partitivo comprime isso, no grego koinê, por meio de ck + gen. (BDF,
90 [§164]).
38 E.g., Mc 14:47; Lc 9:8; Tg 1:18 (modificando àvupxfy).
39 E.g., Hb 11:21; Ap 21:21.
40 E.g., Mt 5:19; Mc 5:22; Lc 5:3, 12, 17.
41 Contudo, irâvreç úpcôv nunca ocorre no NT. Os dois exemplos onde vemos a idéia
partitiva de trâç + pronome pessoal, ambos usam a preposição oc (Lc 14:33; 1 Jo 2:19)
Logo, provavelmente em F11:4,7, iráviuv 'U(j.t3v não temos um partitivo, antes uma
simples aposição ("todos vós"); cf. v 7 (irávtaç úpâç), v 8 (irávraç úpãç), o qual parece
encaixa-se nessa explicação.
86 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Tg 1:18 elç tò eivou rpâç áiTapxqv u r a tíôü aútoü Kiiafiátcov


Para sermos como que primícias de suas criaturas
Cf. também Mt 21:11; Mc 2:16; Lc 4:29; 8:44; 16:24; 18:11; Jo 2:1; Jd 13.

2) Exemplos Debatidos

Ef4:9 xò òc ’Ayf(3r| t í èoxiv eí pq o u kou Katéjlq elç xà Katckepa pépq


xqç yqç
Ora, isto — ele subiu — que é, senão que também, havia descido até às
regiões inferiores da terra?
Embora popularmente considerado como um gen. partitivo (deste modo
se referindo à descida do Senhor ao inferno), esta não é a única possibi­
lidade aqui. É mais provável que seja um gen. em aposição.

5. Genitivo Atributivo (Genitivo Hebraico, Genitivo de Qualidade)42


a. Definição
O substantivo no genitivo especifica um atributo ou qualidade inata do subs­
tantivo principal. E semelhante a um simples adjetivo em sua força semân­
tica, embora mais enfático: "expressa qualidade como faz o adjetivo, mas
com mais veêmencia e distinção".43 A categoria é muito comum no NT,
grande parte devido a mentalidade Semítica de muitos de seus autores.44

corpo corpo
/ de pecado / pecaminoso

Quadro 8
A Sem ântica do Genitivo A tributivo

42 Cf. especialmente os estudos preciosíssimos de Robertson, Grammar, 496, Moule,


Idiom Book, 37-38, Zerwick, Biblical Greek, 14-15, BDF, 91-92 (§165).
43 Robertson, Grammar, 496.
44 "A índole do hebraico é . . . refletida, a construção compensa a inexistência do
adjetivo mais próximo. O grego clássico apresenta paralelos na poesia, contudo somente
na poesia e de forma escassa" (BDF, 91 [§165]). (Para ver exemplos clássicos, veja A. C.
Moorhouse, The Syntax of Sophocles [Leiden: Brill, 1982] 54; Smyth, Greek Grammar, 317
[§1320].) No entanto, isso não quer dizer que o genitivo atributivo inexistia no grego
helenístico ou clássico. Antes, a freqüência com que ocorre (em certas colocações peculiares)
deve-se à ampla base religiosa e lingüística dos autores do NT (especialmente devido à
influência da LXX)1.
Além do mais, esse uso, encontrado em Lucas ou Paulo como também em João ou
Marcos, põe-se mais no estilo semítico do que no sintático e, não influencia em nada com
a teoria de que o grego do NT é uma língua única. Cf. Lars Rydbeck, "What Happened to
Greek Grammar after Albert Debrunner?", NTS 21 (1974-75) 424-27.
Genitivo: adjetival (atributivo) 87

b. Chave para Identificação


Se o substantivo no genitivo puder ser convertido em um adjeitvo
atributivo, modificando o substantivo que o genitivo está relacionado, en­
tão o genitivo é provavelmente um genitivo atributivo.
c. Semântica e Importância
1) Este genitivo é mais enfático que um adjetivo seria. Assim, embora a
denotação seja a mesma, a conotação não é. "Corpo de pecado" tem uma
força maior que "corpo pecaminoso".
2) O genitivo de material é tecnicamente um corolário do genitivo atributivo,
mas isto envolve outras nuances também. Se um genitivo for classifica­
do ou como atributivo ou material, deveria ser classificado como o últi-
mo. 45
3) Certas palavras são frequentemente encontradas nesta construção, tal
como ocâpoc sendo o substantivo principal (cf. Rom 6:6; 7:24; Phil 3:21;
Col 2: l l ) 46 ou õó£qç como o termo genitivo (cf. Mt 19:28; 25:31; At 7:2;
Rm 8:21; 1 Co 2:8).
4) A relação específica dos dois substantivos, embora muitas vezes seja
óbvio, nem sempre é assim. Por exemplo, quando o genitivo for
convertido em um adjetivo, ele deveria ter uma força ativa ou passiva?
Seria, por exemplo, "homem de paz" ou "pacificador"? "corpo de
morte", deve significar "corpo mortal" ou "corpo morto"? Cada um
destes precisa ser considerado dentro do contexto.

d. Ilustrações

Lc 18:6 ó Kptxqç xqç âõuáaç


juiz de injustiça (= "juiz injusto")
Rm 6:6 xò otâpa xfjç àpaptíaç
corpo de pecado (= "corpo pecaminoso")
Ao usar o gen. atributivo e não um simples adjetivo, Paulo dá mais
ênfase sobre a condição pecaminosa da humanidade.

Rm 8:21 xqv éA.euBepíca’ xfjç õó^qç xcov xéKuwv xoú 0eou


a liberdade da glória dos filhos de Deus (="a gloriosa liberdade dos
filhos de Deus")
Normalmente no gen. de interligação (genitivos concatenativos) cada
gen. sucessivo modifica o que o precede.47 Mas quando um gen.
atributivo está em combinação, o assunto é um pouco mais complexo.

45 Veja, a seguir, a discussão sobre genitivo de material. Descritas anatomicamente,


cada categoria parece aceitável.
46 BDF, 91 (§165) sugere que fpépa é freqüentemente o nome principal nesse tipo de
construção. Trataríamos cada exemplo de forma diferenciada (Veja a nota de rodapé
sobre 2 Co 6:2, na seção "Genitivo Descritivo", para mais explicações.).
47 BDF, 93 (§168) diz "sempre".
88 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Visto que um gen. atributivo é por sua natureza de teor fortemente


adjetival é melhor convertê-lo para um adjetivo e tomá-lo "fora desse
circuito" do gen. de interligação. Fazendo isto em Rm. 8:21 produz uma
hierarquia dependente de:
liberdade
dos filhos
de Deus.
Fazendo assim em õó£r|ç e colocando a construção inteira em um dia­
grama, os relacionamentos são visto de forma clara:
xqv èX eu Sepú ccv

Z7 tfÍÇ ãóftte
/ / TCJU ZCKVfòV
T°ò Qso

É evidente no diagrama acima que embora ôó^qç dependa de êXçuBepíav,


tgjv 'Tkvcw não depende de õó£r|ç. Como sugerimos anteriormente,
um gen. atributivo normalmente não o faz, até mesmo se torna um
modificador.

Cl 1:22 eu tcô awpcm xfjç oapKÒç auton


no corpo de sua carne (= "em seu corpo carnal")
Este poderia ser igualmente classificado de gen. de material (veja
abaixo).

1 Tm 1:17 xw õè paotÀel xtâv aloivcav


ora ao rei das eras (="rei eterno")
O problema de tomar este gen. como atributivo é que o gen. plural.
Porém, se estivesse no singular, o significado não seria "rei eterno" ("rei
da era" seria um rei temporal)48

Tg2:4 kyéveoQc KpiTtti ôiaA.OYLop,c5v trovijpcôu


vos tornastes juizes com pensamentos perversos?
A idéia aqui não é "vós tendes vos tomados juizes de pensamentos
perversos" (que deveria ser um gen. objetivo). Mas a tradução "juizes
mal motivados" é esquisito. Isto ilustra o fato que deve-se pensar acerca
do sentido da passagem mais que simplesmente fazer uma tradução
que é um comentário.
Cf. também Lc 16:9; At 9:15; Rm 11:8; 2 Co 1:12 (possível)49; G1 6:1; Fp 2:1 (possível);
3:21; Cl 1:25 (possível); Hb 1:3; 7:2.

48 "Rei eterno" seria um exemplo de genitivo de subordinação - i.e., "aquele que


governa sobre a eternidade". Veja explicação a seguir.
49 Exemplos com 0eoO ou irveúpoífoç não são freqüentes; ela, entretanto, não
apresentam 'pegadinhas'. Ademais, muitas vezes, exegetas associam a uma das pessoas
da Trindade quando o genitivo enfatizado oferece dicas satisfatórias para isso.
Genitivo: adjetival (atribuído) 89

6. O Genitivo Atribuído
a. Definição
Este genitivo é o oposto, semanticamente, do genitivo atributivo. O subs­
tantivo principal, e não o genitivo, funciona (em certo sentido) como um
adjetivo atributivo. Embora seja mais raro que o genitivo atributivo, não é
tão fora do comum.50

corpo novidade
de pecado de vida

corpo vida
pecaminoso nova

G enitivo A tributivo G enitivo A tribuído

Quadro 9
Um Diagrama Semântico do Genitivo Atributivo e Genitivo Atribuído

Como pode ser visto no quadro acima, com o genitivo atribuído, as


mudanças súbitas do diagrama (ilustrando assim, inter alia, o valor limitado
de diagramas51). Alguns gramáticos se referem a este tipo de "genitivo
oposto"52

b. Chave para Identificação


Se for possível converter o substantivo com o qual o gentivo encontra-se
relacionado a um simples adjetivo, então esse genitivo é um bom candidato
para esta categoria.
Uma maneira simples de fazer esta conversão é omitir o de na tradução entre
o substantivo principal e o genitivo, e mudar o substantivo principal para seu
adjetivo correspondente. Assim, "novidade de vida" toma-se "vida nova".

c. Semântica
Se toda a construção S-Sg for prevista, a semântica tanto do atributivo quanto
do atribuído são semelhantes. Em grande parte, poder-se-ía consultar
proveitosamente nossa discussão da semântica do genitivo atributivo e

50 Uma vez que essa categoria recebe pouca ou nenhuma atenção em muitos
gramáticos, muitos comentaristas não admitem essa abordagem como uma possibilidade.
Estamos em outra área sintática que oferece muito campo de exploracao devido a duas
características: (1) a quantidade de material inexplorado e (2) a viabilidade desses estudos.
51 A diagramação do texto grego é muito importante para se constatar a estrutura
superficial de forma clara. Todavia, não é capaz de apresentar a estrutura em um nível
mais profundo".
52 BDF, 91 (§165); Zerwick, Biblical Greek, 15 (n. 6); BAGD, s.v. àÀf|9eia, em Rm 1:25.
90 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

simplesmente substituir "genitivo" por "subsantivo principal". Deste modo,


(1) o subsantivo principal é mais enfático que o adjetivo poderia ser:
"novidade de vida" tem uma força maior que "nova vida". (2) A relação
específica dos dois substantivos, ainda que intuitivamente, por vezes, seja
óbvia, necessita ser posto em um nível consciente. Por exemplo, uma vez
que o substantivo principal for convertido em um adjetivo, ele terá às vezes,
um força ativa ou passiva.
d. Ilustrações
1) Exemplos Claros
Rm 6:4 oüxwç Kal rpeiç kv Kaiuóxr|ii Çwfjç TTfpiTTacriacjpev
Assim também andemos nós em novidade de vida.
Aqui "novidade de vida" = "vida nova." Um gen. atributróo deveria ser
ilógico: "novidade viva"!53
Ef 1:19 Kal xí tò ísTreppá/Aon péyeSoç xfjç õuvápewç aúxoü
E qual a suprema grandeza de seu poder
Aqui "suprema grandeza de seu poder" seria = "poder supremamente
grande."

Fp 1:22 touto [to i KaptToç epyoi)


isto [trará] [o] fruto do trabalho a mim
Aqui "o fruto do trabalho" = "trabalho frutífero." Um gen. atributivo
signficaría "fruto laboroso"!

1 Pe 1:7 xò ô o K Íp io u úpcôv xfjç iTÍoxecoç iro/\.uxipóxepou / p n o í o u


a genuínidade de vossa fé que é mais preciosa que ouro
A idéia é que a fé genuina é mais preciosa que ouro.
Cf. também Fp 3:8; Tg 3:9.

2) Exemplos possíveis (e Exegeticamente Importantes)


Ef 1:18 xíç ò ttàoOxoç xfjç ôoÇfjç xfjç KA/ipouoptaç auxoü
Qual a riqueza da glória de sua herança
Possivelmente "riqueza da glória" = "rica glória," embora gen. atributróo
seja mais provável ("riqueza gloriosa").
Rm 1:25 otxiveç pexrjÀÂaçfU xf]V à k ó fem v xoô 0eoO
Os quais trocaram a verdade de Deus
E provável que "verdade de Deus" = "Deus verdadeiro".
Ef 1:17 ttucOpaaocjuaç K a l áiroKaÀúijjecjç
sabedoria espiritual e revelação
Neste texto temos três possiblidades: (1) "um espírito" de sabedoria e
de revelação, (2) "O Espírito" de sabedoria e de revelação, ou (3)
sabedoria "espiritual" e revelação. Esta última opção consideraria
"sabedoria" e "revelação" como gentivo atribuído. Essa possibilidade

53 Robertson, notavelmente, chama isso de atributivo (Grammar, 496)!


Genitivo: adjetival (material) 91

tem muita coisa a seu favor, gramaticalmente e exegeticamente. Exe­


geticamente, dizer que o autor está orando para que Deus desse aos
leitores o Espírito Santo parece contradizer o que ele já declarou três
versículos antes, em vv. 13-14 (ainda que é possível que facilmente seja
um metonímia de causa e efeito). Por outro lado, o significado de "um
espírito de sabedoria, etc", é vago. Gramaticalmente, quando um gen.
Anarthro (sem artigo) é relacionado a um substantivo principal anarthro,
os substantivos serão ambos definidos, indefinidos ou qualitativos.54
Aqui, visto que "sabedoria" e "revelação" são palavra qualitativas, é
mais natural considerar "espírito" também como qualitativo. Traduzir
TTveí)|j.a como "espiritual" dá esta força qualitativa.
Cf. também Ef 4:18; 2 Ts 2:11 (NRSV).

7. Genitivo de Material [feito de, consistindo de]


a. Definição
O substantivo genitivo especifica o material do qual o substantivo principal
é feito. Este uso é muito raro no NT (a noção de material é até certo grau
declarado muitas vezes com fK + gen.).

b. Chave para Identificação


Substitua a palavra de pela paráfrase/cito de ou consistindo de. Se esta paráfrase
se encaixar, o genitivo provavelmente é um genitivo de material.
c. Semântica
O genitivo de material tecnicamente trata-se de um corolário do genitivo
atributivo, mas envolve outras nuances. Se um genitivo for tanto atributivo
quanto de material, deve ser classificado como de material. Ele se relaciona
especificamente a propriedades físicas e, portanto, é uma categoria léxico-
sintática. Quer dizer, os substantivos na construção S-Sg deve expressar algo
concreto se for o genitivo de material que estiver sob consideração. Além
disso, este genitivo é um qualificador muito mais que o atributivo. Mesmo
que o escopo da qualificação seja muito mais amplo para o genitivo
atributivo, ele está focalizado com material.56 (Veja o quadro 7 acima para
mais ajuda).

d. Ilustrações

Mc 2:21 èiúpA.ripo' pctKOUÇ àyuá^ou


um remendo [feito] de pano novo

54 Veja o capítulo sobre os artigos onde o tema "Corolário de Apolônio" é discutido.


55 O texto Ef 1:17 constitui um problema conhecido, porém essas discussões quase
sempre são duvidas quanto a tradução de irveü|J,a é espírito ou Espírito". Cf., e.g., A. T.
Lincoln, Ephesians (WBC; Dallas: Word, 1990) 57-58; M. Barth, Ephesians (AB; Garden
City, New York: Doubleday, 1974) 1.148; T. K. Abbott, A Criticai and Exegetical Commentary
On the Epístles to the Ephesians and to the Colossians (ICC; Edinburgh, T. & T. Clark, 1897).
56 Assim, embora o genitivo de material seja um subconjunto do genitivo atributivo, é
normal traduzí-lo como se um adjetivo.
92 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Ap 18:12 yópou Kal ápyúpou Kal 1Í0OU tipíou57


mercadoria de ouro, de prata e de pedras preciosas (= mercadorias
consistindo de ouro e de prata e pedras preciosas)
Cf. também Jo 19:39; talvez Cl 1:22 e 2:11 (mas veja "Genitivo Atributivo").

8. Genitivo de Conteúdo [Cheio de, contendo]


a. Definição

O substantivo no genitivo especifica o conteúdo da palavra com a qual ele


se relaciona. Esta palavra pode ser um substantivo, um adjetivo ou um ver­
bo. Este é muito comum no NT, embora ocorra apenas certos tipos de pa­
lavras.

b. Chave para Identificação

Se a palavra com a qual este genitivo se relaciona for um substantivo,


substitui-se a palavra de pela paráfrase cheio de ou contendo 58 Se a palavra
for um verbo, força normalmente da tradução do genitivo é com. (esta chave
não tão útil quanto outras, pois há diversas exceções. Para esta categoria,
a chave real é notar a nuança lexical da palavra que o genitivo se relaciona).

c. Amplificação

(1) Há dois tipos de genitivo de conteúdo: um relacionado a um substantivo


ou adjetivo (gen. nominal de conteúdo), o outro relacionado a um verbo
(gen. verbal de conteúdo).59 Um genitivo de conteúdo é uma categoria
léxico-sintática no sentido que o verbo ou o substantivo principal será um
termo que indica quantidade60 (e.g., para verbos: yé|o.co, TTipTTÀqpL, TTÀqpóoí
para substantivos/adjetivos: fkxGoç, péaxoç, Trlipriç, TTXipwpa, nA-oírcoç,
etc.). (2) O genitivo nomal de conteúdo é distinto do genitivo de material
no sentido que o conteúdo indica o item contido enquanto que o de material
indica o material de que é feito. A figura abaixo ilustra esta diferença.

57 Os adjetivos xpúoouv, ápyúpouv e AlGouv ripíouv ocorrem, respectivamente, nas


formas: xpoaoO, ápyúpou, AlGou, Tipíou em C P et pauci.
58 De fato, muitas vezes, o nome ou adjetivo principal indicará esse sentido lexical.
59 Muitos gramáticos tratam esse tipo de genitivo de conteúdo como um genitivo
objeto direto (de um verbo com a carga semântica de cumprimento, plenitude ou ser
cheio de algo). Ainda que essa seja válida, alistar tais verbos não seria tão proveitoso
(Vale lembrar que esta é uma categoria importante não só exegética como também
sintaticamente).
60 O uso nominal do genitivo de conteúdo fala da "palavra com a qual o genitivo
está relacionado. Esta traz em si a idéia de quantidade ou montante do objeto contido
[no caso genitivo], ela não se refere ao continente em que o objeto contido se encontra"
(Williams, Grammar Notes, 6).
Genitivo: adjetival (conteúdo) 93

F ig u ra 10
G en itivo de C on teú d o Vs. G en itivo de M aterial

d. Semântica
Para o uso nominal, o termo genitivo traz o ímpeto do peso semântico. E a
palavra importante e não o substantivo principal. Normalmente esta cons­
trução é usada em figura de linguagem como uma faceta retórica.61

A coisa importante a ter em mente aqui para o uso verbal é que no Grego o
genitivo, e não o dativo, é o caso usado para indicar o conteúdo de um
verbo.Outrossim, embora o dativo seja freqüentemente traduzido "com",
quando o verbo encher é usado, é vital examinar o texto Grego para ver se
um substantivo no genitivo ou no dativo o acompanha. Se for genitivo, a
tradução "com" é a propriedade; se um dativo, alguma outra tradução (tal
como "por, em, por causa de") melhor reflete o idioma Grego, por o caso
dativo não, por via de regra, indica o conteúdo do verbo.62
e. Ilustrações

1) Genitivo Nominal de Conteúdo

Jo 21:8 xò õikxuou itôu IxOúcov


a cesta [cheia] de peixes

At 6:3 ãvôpaç . . . cnxà TTÁripeiç Trueúpaxoç Kal aocjúaç


sete homens cheios de [o] Espírito e sabedoria
Aqui os genitivos de conteúdo estão relacionados a um adjetivo.
Cl 2:3 iráuxeç ol 0r|oaupol xfjç aotjuaç Kalyvtáoeinç
todos os tesouros de sabedoria e de conhecimento

61 Williams, Grammar Notes, 6.


62 Há somente três ou quatro lugares no NT em que o dativo puro é usado para
conteúdo (um dos quais tem uma leitura variante onde ocorre um genitivo [cf. Lc 2:40,
veja discussão abaixo]). Não há, aparentemente, nenhuma ocorrência de kv + dat. de
conteúdo no grego bíblico depois de irÀripów. Uma das muitas passagens mal
compreendidas no NT é Ef 5:18, onde iribpów é seguido por (év) irveúpari.. Uma tradução
típica do trecho é: "enchei-vos com o Espírito". A compreensão lógica dessa tradução é
que o Espírito é o conteúdo com o qual se é cheio. O texto dificilmente deva ser
interpretado assim. Veja a discussão sobre o uso da preposição kv.
94 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Cl 2:9 kktoi.k6l itcíu to TTÀiíp(0|j,a xfjç 0eÓ T r)ioç GtúpaxLKtóç


kv a u rc â
Nele habita toda a plenitude da divindade corporalmente
Cf. também Rm 11:33; 2 Co 8:2.

2) Genitivo Verbal de Conteúdo

Lc 2:40 xò õè m u õ í o v r|u£avev K a i èK paxaioÜ TO iú q p o ú | ie v o v ao^íaç63


E o menino crescia, e se fortalecia, (sendo) cheio com sabedoria (ou
cheio de sabedoria)

Lc 4:28 éTTA.TÍo0r|oav TTCtvTeç 0upoft kv tf) auyaYwyfj


Foram enchidos todos com ira na sinagoga

Jo 6:13 é y é p i o a v òúòc-K a kocJjÍvouç K A .aopáx(ijy


encheram doze cestos com pedaços

At 2:4 eTTÂ,r|a0riaav ttixvxcç ir v e ú p a x o ç à y í o u , K a l fjp ç a u x o XctXcZv f t c p a i ç


yA.cáooaLç
foram enchidos todos com o Espírito Santo, e começaram a falar em
outras línguas
Note que nem o verbo nem o caso que segue o verbo são o mesmo que
em Ef. 5:18 (aqui, uí|j,TTÀq|iL; lá, nA.qpów; aqui, gen.; lá, [cv +] dat.). A
ordem aqui para ser enchido pelo Espírito não tem nada a ver com falar
línguas. O enchimento do Espírito (com iTÍpxXr||ii) em Atos nunca é
ordenado, nem está relacionado particularmente a santificação. Ao
contrário, é um revestimento especial do Espírito para uma tarefa
particular (semelhante ao ministério do Espírito Santo no AT). Além do
mais, em todas as vezes o caso usado para indicar conteúdo do
enchimento é o gen., nunca o dat. Cf. At 4:8, 31; 9:17; 13:9 (cf. também
Lc 1:15, 41).
Cf. também Lc 6:11; At 3:10; 5:17; 13:45; 19:29.

9. Genitivo em Simples Aposição


Veja a seção seguinte para uma discussão deste uso do genitivo e do genitivo de
aposição. Os dois precisam ser distinguidos com cuidado. (Note que o gen. em
simples aposição é uma categoria legítima, mas por causa da confusão sobre
sua semântica, estamos tratando sobre ele na próxima secção). Simples aposição
exige que os substantives estejam no mesmo caso (nom., gen., dat., ac., voc.),
enquanto o genitivo de aposição requer somente que o segundo substantivo
esteja no genitivo. Se a sintaxe da sentença exigir que o substantivo principal
esteja no genitivo, resultará em uma possível confusão entre estes dois usos
como aposto.

63 aocj) Laç é a leitura encontrada em N A D 0 X T A A II /T13 Byz; o o J j ía é encontrada


em X B L W 33 et pauci.
Genitivo: adjetival (aposição) 95

10. Genitivo de Aposição (Genitivo Epexegético, Genitivo de


Definição)
Este uso do genitivo é bastante comum, embora seja amplamente confundido. As
vezes é tratado juntamente com o genitivo de conteúdo ou genitivo de material,
ainda que haja diferenças semânticas legítimas entre todas as três categorias. E tam­
bém muitas vezes confundido com o genitivo em simples aposição.

a. Definição

O substantivo no caso genitivo se refere à mesma coisa que o substantivo


com o qual ele está relacionado. A equação, porém, não é exata. O genitivo
de aposição normalmente declara um exemplo específico que é uma parte
da categoria mais ampla nomeada pelo substantivo principal. E usado com
frequência quando o substantivo principia. É ambíguo ou metafórico (Assim
o nome "genitivo epexegético" é muito apropriado).
b. Chave para Identificação (que é, q u e m é)

Cada genitivo de aposição, como muitos dos usos genitivos, pode ser
traduzido com de + o substantivo genitivo. Para testar se o genitivo em
questão é um genitivo de aposição, substitua a palavra de com a paráfrase
que é ou a qual é, isto éy ou se for um substantivo que se refere a pessoa,
quem é. Se não fizer o mesmo sentido, é improvável que seja um genitivo
de aposição; se fizer o mesmo sentido, provavelmente é um de genitivo
de aposição.64

c. Semântica: Genitivo de Aposição Distinto de Simples Aposição


1) Definições Expandidas
Estes dois usos do genitivo podem facilmente ser confundidos: sempre
que o substantivo principal com o qual o genitivo se relaciona estiver
também no caso genitivo, e se suspeito que é aposto, que tipo de aposição
será este genitivo? Esta não é uma questão meramente acadêmica. Há
uma diferença semântica importante entre um genitivo de aposição e
um genitivo em simples aposição, assim, é importante para decifrar estas
construções do genitivo e tentar determinar qual uso está envolvido.
a) Como já dissemos, em uma construção genitiva de aposição, o subs­
tantivo principal: (1) mostrará uma categoria ampla, (2) será ambí­
gua, ou (3) terá um significado metafórico, enquanto que o genitivo
nomea um exemplo concreto ou específico que ou entra nessa cate­
goria e esclarece sua ambigüidade, ou aplica essa metáfora aqui na
terra:
1) "a terra do Egito" (exemplo da categoria)
2) "o sinal da circuncisão" (esclarecimento da ambigüidade)
3) "a couraça da justiça" (significado da metáfora)

64 O próximo passo é verificar essa e outras possibilidades exegéticas.


Sintaxe Exegética do Novo Testamento

De fato, uma das principais razões para identificar um genitivo par­


ticular como um genitivo de aposição é que ele se relaciona com um
substantivo que pede para ser definido. A ambigüidade do substan­
tivo principal é fortemente dissipado com o genitivo. No entanto, a
razão para um autor usar o substantivo principal no primeiro lugar
deixa claro: a colocação dos dois substantivos muitas vezes sugere
imagens provocativas ("a couraça da justiça", "o penhor do Espíri­
to", o templo de seu corpo") que seria mais pobre se o genitivo sim­
plesmente substituísse o substantivo principal. Assim, os dois subs­
tantivos permanecem numa relação simbólica: eles necessitam um
do outro se tanto o esclarecimento quanto a conotação ocorresse!

b) Em simples aposição, porém, os substantivos estão no mesmo caso e o


aposto não nomea um exemplo específico que entra na categoria
nomeada pelo substantivo com o qual se realciona. Pelo contrário,
ele simplesmente dá uma designação diferente que ou esclarece
quem é o que nomea ou mostra uma relação diferente com o resto
da oração que com a qual o primeiro substantivo por si poderia mos­
trar. Ambas as palavras assim possuem o mesmo referente, embora
descrevam-no em termos diferentes.

Por exemplo, em "Paulo o apóstolo", "o apóstolo" está em simples


aposição com "Paulo". O aposto esclarece quem é que foi nomeado.
Em "Deus, nosso Pai," "Pai" está em simples aposição com "Deus"
e mostra uma relação diferente com o resto da oração que o primei­
ro substantivo por si mesmo poderia mostrar.

2) Orações com verbo de ligação implícito


Como já vimos na introdução ao caso genitivo, há um valor em desdo­
brar a construção S-Sg, vendo assim a frase mais ampla ou a oração que
esta construção implícita representa. Com um genitivo como aposto
(ambos os tipos), falando de forma geral, os dois tipos de construções
predicativas são representadas.65
Em construção de genitivo de aposição, o genitivo é semanticamente equi­
valente a um sujeito que designa o particular que pertence a um grupo
maior (predicativo). Assim, "o sinal da circuncisão" pode ser colocada
como "a circuncisão é um sinal" (mas não "um sinal é a circuncisão").
Neste exemplo, o campo léxico de "sinal" é muito mais amplo que "cir­
cuncisão".66
Para urngenitivo em simples aposição os dois substantivos são equivalente a
uma proposição convensível. Assim, "Paulo, o apóstolo" poderia ser ex­
pressa por "Paulo é o apóstolo" ou "o apóstolo é Paulo".

Veja o capítulo sobre o nominativo na seção "Nominativo Predicativo" para uma


eem mais detalhada.
Genitivo: adjetival (aposição) 97

G enitivo Apositivo G enitivo em


A posição Sim ples
/ Substantivo \
/ Principal \
/
Substantivo
\
=
/ Genitivo
em A sição
\
\í Genitivo \ l Genitivo J \~sim ples J
\V Apositivo J
0eoO Ttaxpóç
Deus o Pai
a r p e lo v neptTopfjç
o sinal da circuncisão
/<T'\
ròV)
'D E ' v _y
Q uadro 11
G enitivo de A posição Vs. G enitivo em Simples A posição

Diante destas diferenças semânticas genuínas, torna-se evidente que


um genitivo de aposição não ocorrerá quando ambos os substantivos
são pessoais. "O apóstolo de Paulo" não significa a mesma coisa que "o
apóstolo é Paulo". Veremos o valor desta distinção quando explorar­
mos os textos de importância exegética.
d. Simplificação
Nossa discussão do genitivo de aposição raramente tem sido prolixo. Pode
ser útil, portanto, simplificar esta discussão dando um procedimento que
envolve dois passos para determinar se um genitivo se encaixa nesta
categoria.
1) Genitivo Aposicional vs. Outro uso do Genitivo
Por "genitivo aposicional" queremos nos referir a ambos os tipos de
aposição (genitivo em simples aposição e gen. de aposição). A primeira

66 A análise desses versos sugere dois tipos de genitivo de aposição. Um deles está
relacionado com um termo nominal e o outro com um verbal. Por exemplo, "a cidade de
Jerusalém" (nominal) representa um só tipo de sentença, ou seja, um enunciado do tipo:
NS-NP: "Jerusalém é uma cidade". Mas "o sinal da circuncisão" (verbal) representa uma
sentença do tipo NS-SP ou uma sentença transitiva: "A circuncisão significa". A forma
nominal parece ser mais rara que a verbal.
A construção nominal difere tenuamente (quanto à sua ênfase semântica) do genitivo
em simples aposição: a frase "a cidade de Jerusalém" pode ser convertida, com relativa
facilidade, em "Jerusalém, a cidade". Enquanto "o dom do Espírito" é naturalmente
diferente de "Espírito, o dom" (B D F §167 sugere que o "genitivo [de aposição] com nomes
de cidades é raramente encontrado. Além do mais, sempre na poesia. . ." . Eles citam
2 Pd 2:6 como o único e legítimo exemplo desse tipo no NT [por sinal, um texto disputável
para alguns gramáticos].) Em cada exemplo, a questão está relacionada ao caráter ambíguo
ou figurado do nome principal: o referencial de "cidade", contextualmente, é claro,
enquanto "dom", "sinal" etc. precisam de mais contextualização, ou seja, do genitivo
que o segue. Geralmente, o nome principal [impreciso, vago] será um termo verbal,
enquanto o termo principal, quando for nominal, muito raramente será vago ou impreciso
(cf., e.g., Jo 2:21).
98 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

para determinar é se um dos usos aposicionais é aplicável. Para fazer


isto, insira "que é”, "isto é", ou "quem é" entre o substantivo principal e o
substantivo no genitivo. Se fizer sentido, um genitivo aposicional é
provável.

2) Genitivo de Aposição vs. Simples Aposição

Ambos se encaixarão na fórmula "que é", sendo assim, um outro teste


precisar ser usado para distinguir os dois. Se a palavra "de" for usado
antes do genitivo em questão, então é um genitivo de aposição. Se não,
então é uma simples aposição. Relacionada a um outro genitivo, (tenha
em mente que só haverá qualquer confusão quando tanto o substanti­
vo principal quanto o substantivo no genitivo estiverem no mesmo caso,
e isto ocorre muitas vezes).
e. Iustrações
1) Exemplos Claros
a) Do Genitivo de Aposição

Lc 22:1 T] èopTT] T(ÔV áÇÚp,ü)V


a festa dos pães asmos
(="a festa, isto é [o festival] dos pães asmos"67)

Jo 2:21 ’éA.€Yev Tiepl to O vctob xo ô acáporcoç a u to ú


falava a respeito do templo do seu corpo (= "o templo, que é seu cor-
P°") ,
Aqui o gen. de aposição está relacionado a um outro genitivo. Assim há
a possibilidade estrutural dele estar em simples aposição. No entanto,
ele se encaixa com a tradução "de...", deixando o de simples aposição
fora de questão. Exegeticamente, Jo. 2:19-21, culminando neste versículo,
é triplamente importatne. Primeiro, ele claramente indica que o NT viu
a ressurreição de Cristo como uma ressurreição corporal.66 Segundo,
Jesus é representado aqui como um agente de sua própria ressurreição.
O NT neste caso fala da Trindade inteira como participantes na
ressurreição de Cristo (cf. Ef. 1:20; 1 Pe. 3:18). Terceiro, a razão para a
colocação de "templo" com "corpo" fica mais claro assim: a glória do
Shekinah, que a muito havia abandonado o templo, agora reside em
Jesus corporalmente.69

67 Cf. BDF §141.3; BAGD, s.v. ãÇu|ioç l.b.


68 Sugere-se, às vezes, que o genitivo é mais possessivo que de aposição. Se assim
for, o templo pertence ao corpo do Senhor. O significado seria diferente de uma res­
surreição corporal. Esse ponto de vista não somente ignora o contexto semântico do
genitivo de aposição (ou seja, relacionado a um nome principal qualquer ou metafóri­
co), mas também destrói a imagem construida: o templo em si mesmo é a glória de
Deus, mas sim, a casa contém a glória.
69 O tema a glória de Deus no "corpo" é, significantemente, desenvolvido por mais
de um autor no NT - e ocorre em associação a duas categorias: Primeiramente, com
referência a Cristo (cf., e.g., Jo 1:14; Cl 2:9); segundo, com referência àqueles que estão
"em Cristo" (cf. 1 Co 6:19; Ef 2:20-22).
Genitivo: adjetival (aposição) 99

Rm 4:11 Kal arpeloy cLaficy Trepixopf|ç70


e recebeu [o] sinal da circuncisão (= "o sinal, que é a circuncisão"
2 Pe 2:6 xróÀelç Soõó|itov Kal Fopóppaç
as cidades de Sodoma e Gomorra
Ap 1:3 xoijç Àóyouç xfjç npo(|)r|xeLaç
as palavras da profecia
Cf. também Lc 2:41; Jo 11:13; 13:1; At 2:33; 2 Co 1:22; 5:5; Ef 1:14; Ap 14:10.
b) De Simples Aposição
M t2:ll eíôov xò naiôlou pexà Maplaç xfjç pijxpòç auxoú
viram a criança com Maria, a mãe dele
Ef 1:2 yápiç òplv K a l elpijux| airò 9eoü ira x p ò ç fpwv
graça a vós e paz da parte de Deus nosso Pai
Se "de" fosse substituído antes de "Pai" a idéia seria "da parte do Deus
de nosso "Pai"! aqui temos obviamente um simples aposto.
Cl 1:18 auxóç éaxiv f] Kec^alr) xoú atápaxoç, xfjç €KKA.r|aíaç
ele é a cabeça do corpo, da igreja
Tt 2:13 ocoxrjpoç rptây ’Ir]ooü XptoxoO
nosso Salvador, Jesus Cristo
Este não é, obviamente, um gen. de aposição, pois a tradução "nosso
Salvador de Jesus Cristo"/"0 Salvador de nosso Jesus Cristo" é muito
diferente do que foi dado acima (e, é claro, estranho ao NT)!
Cf. também Mt 2:1; Mc 6:17; Lc 3:4; Jo 7:42; At 22:20; Rm 5:17.71
2) Exemplos Debatíveis (e Exegeticamente Significantes)
Ef4:9 xò ôè ’Ayé(3ij xí eoxiy el pq oxi K a l Kaxépri elç xà Kaxcóxepa pépq
xfjç yíjç
Ora, isto—ele subiu—que é, senão que também havia descido até às
regiões inferiores da terra?
"da terra" é popularmente tomado como um gen. partitivo. No entanto,
pode muito bem ser um gen. de aposição, ficando assim, "ele desceu até
a regiões inferiores [do universo], que é, a terra". A primeira vista, esta
segunda opção parece estranha porque o substantivo com o qual o gen.
singular se relaciona está no plural. No entanto, é uma expressão
idiomática comum para um gen. singular de aposição se relacionar com
pcpri (plural)- cf. Is 9:1 (LXX); Mt 2:22. Nesta construção parece que há
um gen. partitivo que precisa ser tirado do contexto (como parece ser o
caso de Ef. 4:9). Por exemplo, em Mt 2:22 lemos àvriu>pr\a<v elç xà pépq

70 A forma acusativa ncpLTopqv é encontrada em poucos MSS (A C* 1506 1739 1881


pc), tomando a construção um tipo de complemento-objeto ("ele recebeu a circuncisão
como um sinal").
71 Um exemplo comum de simples aposição (em qualquer caso) em que um nome
próprio anarthro é seguido por um nome descritivo anarthro. Muitos de nossos exemplos
são desse tipo.
100 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

xf|ç PaÃLÂalaç. A tradução poder ser ou "retirou-se para as regiões [de


Israel], isto é,Galiléia" ou, "retirou-se para as regiões que constitui a
Galiléia". Visto que o gen. de aposição ocorre assim no singular
relacionado ao plural de pépr| como um termo geográfico, há evidência
gramatical suficiente para ver esse uso aqui em Ef 4:9. (Para outros
exemplos deste fenômeno, cf. Mt 15:21; 16:13; Mc 8:10; At 2:10).
A diferença entre o gen. partitivo e o gen. de aposição neste texto não é
menor que a diferença entre a descida na morte do Senhor para o inferno
e a descida em sua encarnação para a terra. 72 A gramática certamente
não resolve este problemas, mas ela pelo menos esclarece as
possibilidades interpretativas.73
Cf. também Ef 2:2 (em que o vvcvpaxoç é às vezes tomado de forma incorreta com um gen.
de aposição de apyvovta) 74 Ef 2:20 também tem um possível gen. de aposição (tcâ 9ep.eA.Lco
rcôv àirootóAcoy xai 7TpO(j)rptôv), mesmo que a construção gen. seja subjetiva.75 Cf. também
Cl 1:5, 13.

11. Genitivo de Destino (Direção) ou Propósito [destinado para, a


fim de]
a. Definição
O substantivo no genitivo indica onde o substantivo principal quer chegar
(ou a direção em que ele está se "movendo" ) ou o próposito de sua
existência.76 Esta categoria é um tanto rara.
b. Chave para Identificação
Pela palavra de acrescenta-se a paráfrase com o propósito de, destinada a, afim
de, ou para que.
c. Amplificação
Tecnicamente, existem só dois subgrupos que partilha a idéia de movi­
mento em torno de um propósito. A direção de uma pessoa particular

72 Outra interpretação (que tem muito a dizer), baseiada em um genitivo de


aposição, é que a descida ocorreu depois da subida e, então, a referência feita seria à
vinda do Espírito no dia de Pentecostes. Cf. W. Hall Harris III, "The Ascent and Descent
of Christ in Ef 4:9-10 "BSac 151 (1994) 198-214.
73 Igualmente, notaríamos que o genitivo de aposição é uma marca do autor em
Efésios, ocorrendo mais de doze vezes (cf. Harris, "Ef 4:9-10,"204, para ver uma lista
completa).
74 Revoga-se a idéia de que o genitivo de aposição nunca envolva dois nomes pes­
soais. "O príncipe do espírito" não é a mesma que coisa que "o príncipe que é do espí­
rito". O genitivo aqui é de subordinação ("o governo subordinado ao espírito"). Veja a
discussão sobre essa categoria a seguir.
75 O fato de nomes genitivos e não os nomes principais serem pessoais enfraque­
ce a possibilidade de um genitivo de aposição aqui.
76 BDF, 92 (§166) alista Jo 10:7 (f| 0úpa xwv xpopáxuy) como um exemplo. Mas,
uma vez que portas não podem mover-se fora de suas dobradiças, tal classificação é
duvidosa. Na verdade, a idéia é que "a porta abre-se para as ovelhas", onde a posição
do nome principal e o nome genitivo possuem uma certa nuance verbal (veja a discus­
são sobre 2 Co 6:2 na seção "Genitivo Descritivo", acima).
Genitivo: adjetival (destino) 101

ou coisa não é necessariamente proposta, tal como em "os freios do carro


acidentalmente não foi acionado e o carro desceu ribanceira em direção ao mar", e a
glossa "destinado a, na direção de" se encaixaria bem.
Assim, um tipo envolve intenção, o outro mera direção (ou às vezes até
mesmo tendência).

d. Ilustrações

1) Exemplos Claros

Rm 8:36 èÀoy toOripev úç TTpópaxa o4>ayf)<;


fomos considerados como ovelhas destinadas para o matadouro
G12:7 iTemaTeupoa xò eòaYyéÀLon xfjç aKpopuaxíaç KaBwç Iléxpoç xfjç
irepLXopfjç
fora confiado a mim o evangelho para incircuncisão, como a Pedro (fora
confiado o evangelho] para a circuncisão
Cf. também Mt 10:5; Hb 9:8.

2) Exemplos Debatíveis

Jo 5:29 à u á o x a o iv Çoofjç. . . à v á a ~ a o iv Kpíoecoç


ressurreição da vida. . . ressurreição de julgamento
Aqui o genitivo parece expressar tanto propósito quanto resultado, as­
sim, "a ressurreição com o propósito de e que resulta em vida/julga­
mento". A glossa que parece encampar ambas as idéias é "a ressurrei­
ção que conduz a vida/julgamento77

At 16:17 ouxoi ol avGpwTTOt . . . KaxayyéÁÀODOLV úplu óôòv acjTTpíaç


Estes homens . . . estão proclamando a vós o caminho que conduz a
salvação

Rm 9:22 OKeúq ópyfjç KaxTpxiaptva elç àmÓÀeiav


vasos de ira, preparados para destruição (= "vasos destinados a ira")
Alguns vêem o gen. como descritivo ou atributivo, mas o paralelo com
"preparado para destruição" parece indicar pelo menos que estes va­
sos foram destinados a destruição.78 Pode ser ainda implicado, depen­
dendo se o particípio KatripTiapéva for médio ou passivo.

Ef 2:3 Kal fpeOa xeKua 4>úaei ópyriç ó ç Kal ol âolttol


e éramos filhos da ira (= "filhos destinados a ira"), como os demais
A questão do texto, a luz de 2:1-10, não descreve a humanidade em
termo de atributos (tal como filhos iracundos), mas fala da situação
desesperançosa daqueles que estavam sem Cristo.

77 Cf. BDF, 92 (§166).


78 Além disso, a evidência derivada do corpus paulinum é que ópyfi freqüentemente
tem uso escatológico, especialmente em Romanos (cf. Rm 2:5, 8; 3:5; 5:9; Ef 5:6; Cl 3:6;
1 Ts 1:10; 5:9).
102 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

12. Genitivo Predicado


a. Definição

O substantivo no genitivo faz uma declaração acerca de outro substantivo


no genitivo, muito parecido com o que o predicativo faz. A diferença, po­
rém, é que com o genitivo predicado o verbo de ligação é um particípio (no
caso gen.) e não um verbo finito. Esta categoria é relativamente incomum.

b. Chave para Identificação: veja definição

c. Clarificação e Significância

Este tipo de genitivo é na realidade um tipo enfático de simples aposição no


genitivo (enfático devido a presença da forma participial do verbo de liga­
ção.79 Tanto o particípio adjetival quanto o genitivo absoluto no particípio
(que é sempre circunstancial) pode ser usado desta forma.

d. Ilustrações

At 1:12 ôpouç toü Kcdou|iévou’EÀaíwvoç


[o] monte que é chamado "Oliveira"

At 7:58 veccvíoi) Kcdoi)|iévoi) EaúA,oi)


um joven chamado Saulo

Rm 5:8 exi à|i.apt(oA.câv ovtojv qpcòu Xpiotòç úuèp rpcâv áiréGavev


sendo nós ainda pecadores Cristo morreu por nós
Este é exemplo de uma construção do gen. absoluto que envolve um
verbo de ligação como particípio.80

Ef2:20 òvtoç àKpoywuiaLOU atrcou X p lotou Tqaoü


Sendo o próprio Jesus Cristo a pedra angular
Este é outra construção do gen. absoluto.
Cf. também Jo 4:9; At 18:12;81 At 21:8.82

79 Note que alguns dos exemplos seguintes um verbo equitativo não usarão formas
do verbo elpí (como acontece com os nominativos predicativos)
80 Deve ser notado que a mesma regra para distinguir NS-NP pareceser aplicável a
essa construção. As aparentes exceções em At 1:12 e 7:58 fogem à nossaregra geral:
quando algo for definido, o nome próprio será o predicativo.
81 Aqui também temos uma construção de genitivo absoluto.
82 Nesse caso, o genitivo predicativo (evóç) necessita de complemento.
Genitivo: adjetival (subordinação) 103

13. Genitivo de Subordinação [sobre]


a. Definição
O substantivo genitivo especifica aquele a que está subordinado ou sob o
dominio do substantivo principal.
b. Chave para Identificação
Ao invés do de coloque a glossa sobre ou algo semelhante que indique domí­
nio ou prioridade.
c. Amplificação/Semânticas
Este tipo de genitivo é uma categoria léxico-semântica. Quer dizer, ele se
relaciona somente a certos tipos de substantivos principais (ou particípios)
que lexicalmente implicam algum tipo regra ou autoridade. Palavras tais
como PccaiÀ.eúç e ccp/wv normalmente pertence aqui. Na maioria das vezes,
este genitivo é um corolário do genitivo objetivo,83 mas nem sempre.84
d. Ilustrações

1) Exemplos Claros

Mt 9:34 Ttô UpyOVTL t(5v Ô<U|iOl'ÍG>V


o príncipe sobre os demônios
Mc 15:32 ó paatÀeuç Tapar)A.
o rei sobre Israel
2 Co 4:4 ô 0eòç toO alcâuoç xoútou
o deus deste era
Cf. também Jo 12:31; At 4:26; Ap 1:5; 15:3.

2) Exemplos Disputados
1 Tm 1:17 ttô òe paoiÀet tqv alcóuoov
Ora, ao Rei dos séculos (=ao que governa sobre os séculos)
O problema de considerar este como atributivo (como faz ARA et al) é

83 Por essa razão, muito freqüentemente, uma dada categoria não é encontrada nas
principais obras do gênero.
84 Quando o nome principal não apresentar uma idéia verbal, estaremos diante de
um genitivo de subordinação, e não de um genitivo objeto.
Um tipo de subcategoria de genitivo de subordinação seria o "genitivo relacionado,
por excelência, a um certo nome" (todavia, às vezes, o sentido de um termo origina-se de
sua noção de subordinação). Ou seja, um genitivo, raramente, indica uma classe de palavras
do qual o nome principal é o supremo representante do grupo. Quando isso ocorrer, tanto
o nome principal como o nome genitivo terão o mesmo lexema. Por exemplo, note paoiAcuç
PocolAÍwv em Ap 9:16; avia àyíwv em Hb 9:3 (onde o sentido não está estritamente falando
de subordinação); cf. também Ap 17:14. At 23:6 é similar ("um fariseu, filho de fariseus"),
Fp 3:5 ("hebreu de hebreus", embora aqui ocorra a preposição ck).
104 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

que o gen. é plural. No entanto, se fosse colocado no singular, o signifi­


cado não poderia ser "rei eterno" ("rei dos séculos" deveria ser um rei
temporal). ACF, ARC tratam como um gen. de subordinação "rei dos
séculos".85

Ef 2:2 Trote m-pieTjazr\aaze . . . kcctk t ò v ã p x o v t a x fjç e Ç o u a ía ç t o ü « é p o ç ,


xoO T ru e ú p ato ç t o ü v ü v è v e p Y o ô v to ç kv t o í ç u í o l ç Tqç dcTreiBeíaç
andastes outrora segundo o príncipe d a p o t e s t a d e do ar, [o príncipe]
do e s p í r i t o que agora atua nos filhos da desobediência
A força semântica da subordinação aqui deveria ser "aquele que governa
sobre a potestade do ar, sobre o espírito..." Embora alguns considerem
irveúpa-üoç como ge. de aposição de ap%ovta, isto é semanticamente
impossível porque isso não pode ocorrer quando ambos os substantivos
são pessoais.86 (Veja discussão sobre gen. de aposição, mencionado
acima). A idéia deste texto, então, é que o mal controla o incrédulo tanto
externamente (o ambiente ou potestade do ar) quanto internamente
(atitudes ou espírito).

Cl 1:15 oç koxiv euctòv ioí> 9eoG toü àopccTOi), ttpwtÓtokoç tráaqç ktíoewç
o qual é a imagem do Deus invisível, o primonêntico sobre toda a criação
Embora alguns considerem este gen. como partitivo (primogênito que
é parte da criação), tanto devido ao campo léxico de "primogênito" in­
cluindo "preeminência sobre"87 (e não simplesmente uma ordem cro­
nológica literal do nascimento) quanto a oração adverbial causai ("por­
que [ou] nele todas as coisas foram criadas") - fazem pouco sentido se
mera ordem cronológica está em mente, é muito mais provável que es­
teja expressando subordinação. Além disso, embora muitos exemplos
de subordinação envolvam substantivo principal verbal, nem todos são
assim (notem 2 Co 4:4 acima, bem como At 13:17). O significado resul­
tante parece ser uma confissão primitiva do senhorio de Cristo e, por
conseguinte, sua divindade.

14. Genitivo de Produção/Produtor [produzido por] 88


a. Definição
O substantivo no genitivo produz o substantivo com o qual ele se relaciona.
Este uso do genitivo não é comum.

85 Veja a recente discussão sobre genitivo atributivo (como em "rei eterno"). A questão
é se a ênfase é dada sobre as características inatas ou sobre o domínio atual. O genitivo é
tão flexível que abrange ambos os conceitos. Talvez a expressão foi deixada no genitivo
por essa razão. E como se o genitivo estivesse "grávido" de ambas as idéias.
86 É verdade que em nossa visão ambos os nomes não são pessoais (uma vez que
consideramos "espírito" como algo intrínseco), mas a visão apositiva ver ambos como
pessoais, desde que "príncipe" é posto no mesmo nível de personalidade que "espírito".
87 Cf. declarações teológicas presentes em 1 Cr 5:1; SI 89:27; Rm 8:29; Ap 1:5.
88 Agradecemos a Jo Ann Pulliam por seu trabalho em Gramática de Grego Avançado
no Seminário de Dallas, em 1994, sobre genitivos de produção e de produto.
Genitivo: adjetival (produção/produtor) 105

b. Chave para Identificação


Troca-se a palavra de por produzido por.
c. Amplificação
Este uso é semelhante ao genitivo subjetivo, mas o genitivo de produção não
está relacionado a uma forma nominal do verbo ou expressa uma relação a
um verbo nominal que é melhor traduzido como "produzido por" que ao con­
verter o genitivo para o subjetivo e converter o substantivo com o qual ele
estabelece uma relação para uma forma verbal.89
E também semelhante a um genitivo de fonte, mas tende envolver um pa­
pel mais ativo sobre a parte do genitivo. Assim, "anjo do céu" (fonte) sim­
plesmente indica a fonte ou origem da qual o anjo veio. Mas "paz de
Deus"sugere tanto fonte quanto envolvimento sobre a parte de Deus.
d. Ilustrações (possíveis)
Ef4:3 tt)Ò évÓTTyua xoG Trveúpauoç
a unidade do Espírito
Aqui, "a unidade do Espírito" provavelmente = "a unidade produzida
pelo Espírito Santo". Embora o gen. seja relacionado a um substantivo
verbal, ele deveria perder um pouco de sua força para dizer: "[sendo
dilegente ao preservar] o que o Espírito une". Assim, chamar toO
TTveúpaTOç de um gen. subjetivo não parece fazer justiça plena ao pen­
samento do autor aqui.
Fp 2:8 Oavaxoü õè axaupou
E morte de cruz
aTaupoü pode ser um gen. de meio: "morte por meio de uma cruz". Ou
pode possivelmente ser um gen. de lugar: "morte sobre sobre uma cruz".
No entanto, considerar este como um gen. de produção fortalece o pen­
samento do autor um pouco melhor: "morte produzida por, ocorrida
por uma cruz". O ôé faz a declaração enfática ("e"),90 que se encaixa
bem como um gen. de produção.
Ef5:9 ô yàp Kapiròç xoô cjjMxòç èv TTaoq àvaOtoavuri . . .
porque o fruto da luz91 consiste em toda bondade . . .
Fruto produzido pela luz parece se encaixar bem neste contexto onde a
imagem da luz parece envolver o status de salvação.
89 Muitos estudiosos tratam aquilo que chamamos de genitivo de produção como um
genitivo subjetivo, contudo a semântica aqui é muito diferente entre essas categorias. Com
o genitivo subjetivo, o nome principal transforma-se em um verbo. Com um genitivo de
produção, teremo-lo transformado em um objeto direto de um verbo do tipo: "aquele que
produz". Assim, se "unidade do Espírito" transforma-se em "o Espírito produz unidade",
onde o genitivo é de produção e não subjetivo. Outros estudiosos não vêem diferenças
entre essas categorias o genitivo de fonte ou origem. (Essa discussão ainda está em uma
fase geminal.)
90 De fato, é tão enfático que alguns sentem que esta única frase não combina com a
métrica desse hino (cf. J. Jeremias, "Zur Gedankenführung in den paulinischen
Briefen/'Studia Paulina in Honorem ]. de Zwaan, ed. J. N. Sevenster and W. C. van Unnik
[Haarlem, 1953] 146-54)! Se for assim, temos uma inserção paulina em um hino original
da igreja primitiva, que fora adaptado para a sua presente audiência.
Muitos MSS têm "fruto do Espírito" (ícapuò; tol> irueqratoç) aqui (e.g., (P46D' ¥ Byzetalii).
106 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Fp 4:7 xal r) elpquri toO Oeoü f) ímepéxouaa návTa voúv c[)poupr|aei zàc
Kapôíaç úpwv92
e a paz de Deus que excede todo o entendimento guardará os vossos
corações
Embora este genitivo possa ser um gen. atributivo ("Deus pacificador"),
neste contexto é duvidoso, pois é óbvio que Deus excede todo o entendi­
mento (além de que esse ponto é feito adiante no v. 9 [ò 0eòç tt)ç 6L.pf|vr|ç]).
O Subjetivo não fará, porque é a entidade, paz, não o ato de fazer que
está em vista. E um gen. de fonte, embora certamente possível, normal­
mente não implica o elemento de volição que está em vista aqui. O pen­
samento de produção é: a paz produzida por Deus".

Cf. também Rm 1:5 (talvez); 4:11; G1 3:13 (talvez); 5:22; 1 Ts 1:3.

15. Genitivo de Produto [que produz]


a. Definição

O substantivo no genitivo é o produto do substantivo com o qual ele está


relacionado. Freqüentemente Qfóç será o substantivo principal e o genitivo
um termo abstrato. Esta categoria é semelhante a um genitivo objetivo, sen­
do que com genitivo objetivo o substantivo principal é para ser transforma­
do em um verbo, o substantivo principal nesta construção permanece um
substantivo. A idéia verbal é implicada do de. Este uso do genitivo não é
comum.

b. Chave para Identificação

Troca-se a de pela palavras que produz.

c. Ilustrações

1) Exemplos Claros

Rm 15:13 ò 0eòç tí)ç èA/iúôoç


o Deus da esperança
Obviamente, o gen. atributivo não será ("o Deus esperançoso"?), nem
gen. objetivo., transformando o substantivo principal em um verbo. "O
Deus que produz esperança [em nós]" faz excelente sentido.

Rm 15:33 ò õè Oeòç rfjç eípqvr)ç peià návxmv úpcòv


E o Deus da paz seja com todos vós
=E o Deus que produz paz [em vós] seja com todos vós.

Cf. também Rm 16:20.

92 Xpiatoü é encontrado no lugar de 0eoü em A pc. Aqui o ponto gramático não é,


porém, afetado por isso.
Genitivo: ablativo (separação) 10 7

2) Exemplos Possíveis

Rm 15:5 ó 9eòç xrjç ínro|j,ovf}ç Kal if|ç napaKÀriaecoí;


o Deus da paciência e da consolação
Embora este texto possa envolver dois genitivos atributivos, estes deve­
riam ser cuidadosamente mostrado: O Deus paciente e encorajador (di­
ferente de o Deus encorajado).93 Além disso, se Deus está encorajando,
isto implica uma idéia verbal: ele é o Deus que produz encorajamento
em nós. Os paralelos sintáticos entre os dois genitivos neste caso suge­
rem que rf|ç Í)tto|j.ovt)<; significa "[o Deus que] produz perseverança em
nós". (O que seria interessante é o fato que 9eóç é usado três veze em
Romanos 15 com um gen. modificador, cada vez que ocorre parece ser
uma construção gen. de produto).

Hb 1:9 eÀatoy àyaXXíáotoyç


óleo da alegria
E possível que o autor está concebendo o óleo como aquele que produz
alegria (ou talvez, o óleo produzido pela alegria - um gen. de produ­
ção). Quando parte da expressão sob consideração for metafórico, deci­
sões gramaticais são notoriamente difíceis. Assim, muitos simplesmen­
te colocam este no buraco negro do gen. descritivo.
Cf. também 1 Co 14:33; 2 Co 13:11; Fp 4:9.94

B. Genitivo Ablativo
O genitivo ablativo basicamente envolve a noção de separação. (Embora seja com
frequência traduzido de, essa glossa não funcionará para o genitivo de comparação,
que requer um que como sua glossa). Esta idéia pode ser estática (i.e., em um estado
de separação) ou progressivo (movimento a partir do qual torna-se separado). A
ênfase pode estar ou no estado resultante da separação ou a causa da separação
(neste último, a origem ou fonte é enfatizado). Em grande parte, o genitivo ablativo
foi substituído no grego koinê pelo ck ou (xtto, com o genitivo.95

1. Genitivo de Separação [fora de, longe de, a partir de]


a. Definição
O substantivo genitivo é aquele do qual o verbo ou às vezes o substantivo
principal está separado. O genitivo é usado para indicar o ponto de partida.
Este uso é raro no NT.

93 Veja discussão sobre idéias passivas e ativas com genitivos atributivos.


94 Cf. também üõaioç em Jo 4:14 outro exemplo possível (ainda que aqui o genitivo
pode ser classificado como material ou de conteúdo, dependendo da força léxica de tttiytí
nesse contexto).
95 Para mais detalhes, veja a introdução desse capítulo.
108 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

b. Chave para Identificação


Troca-se a palavra de por fora de, longe ãe ou a partir de. Outra chave é notar
às vezes se este genitivo dependerá de um verbo (ou forma verbal) e não de
um substantivo.

c. Amplificações Semânticas

No Grego clássico, a idéia de separação era achada com bastante


frequência no genitivo simples. No Grego Koinê, porém, a idéia de se­
paração era crescentemente feito por forma mais explícita pela presen­
ça da preposição cctó ou às vezes ck.% Por esta razão, um genitivo de
separação será raro no NT, enquanto a preposição àtró (ou ék) + genitivo
será algo normalmente usado para separação.97

2) Esta é uma categoria léxico-sintática: é determinada pelo significado


lexical da palavra que se relaciona com o genitivo. Somente se essa pa­
lavra, normalmente um verbo, conotar moção a partir de, distância ou
separação o genitivo poderá ser de separação.98

3) A noção de separação pode ser física (especial) ou metafórica. O primeiro


exemplo abaixo é especial, o Segundo é metafórico.

d. Ilustrações

Mt 10:14 (K TluáçttTC XÒV KOUlOpxÒu XCÔV TOÕWV í)(1(1)1'"


sacudi o pó dos vossos pés.

At 15:29 cdréxeaQai eíSwloGúxow Kal aípaxoç Kal ttviktc3v Kal tropveíaç


[que vos] abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e
da carne sufocada, e da prostituição

Ef 2:12 àTrq/J.OTpuüpcKoi xfjç iroXixeíaç toü TapaqA.


estáveis separados da comunidade de Israel

1 Pe 3:21 Kal úpâç . . . vxiv oúCci páuTiopa, ou aapKÒç àiTÓOeau; púrrou


também vós . .. agora vos salva, o batismo, não como um despojamento
da imundícia da carne
Aqui está um exemplo em que o gen. separa-se de um substantivo
principal, embora tenha uma noção verbal.

96 Isso, é claro, mantém a tendência do Koinê por clareza e simplicidade. Cf. o excelente
e sucinto tratamento feito por Zerwick, Biblical Greek, 161-64 (§480-94).
97 Cf. Hb 7:26, onde encontramos o estilo mais literário do Koinê do NT, àiró é usado
para indicar explicitamente a idéia de separação.
98 Veja BDF, 97 (§180) para uma lista de verbos frequentemente usados.
99 ck é encontrado antes de rwv ttoõwv em N C 33 0281 892 et pauci. Isso é muito
surpreendente, visto a clareza da tendência do Koinê e o uso do genitivo simples em
expressar a noção ablativa.
Genitivo: ablativo (fonte) 109

1 Pe 4:1 TréiTairrai àpapiíaç100


cessou do pecado

Cf. também Lc 2:37; Rm 1:4; 1 Co 9:21; 15:41; G1 5:7; Ap 8:5. Rm 1:17 poderia também se
encaixar, embora isto seja debatível.

2. Genitivo de Fonte (ou Origem) [a pa rtir de, derivado de,


dependente de]
a. Definição

O substantivo genitivo é a fonte a partir do qual o substantivo principal


deriva ou depende. Esta é uma categoria rara no Grego Koinê.

b. Chave para Identificação

Troca-se a palavra de pela paráfrase a partir de, derivado de, dependente de, ou
"fundamentado em".

c. Amplificação

Novamente, da mesma forma que o genitivo de separação, o genitivo sim­


ples é substituido no Koinê por uma locução prepositiva (neste exemplo, CK
+ gen.) para indicar fonte. Isto corresponde ao fato que fonte é uma idéia
enfática: ênfase e explicídez muitas vezes são entrelaçados.
Visto que este uso não é comum, não é aconselhável procurá-lo como o uso
mais provável para um genitivo particular que se encaixa sob outra classifi­
cação. De alguma forma, o genitivo possessivo, subjetivo e de fonte são
semelhantes. Em qualquer exemplo dado, se todos eles fizerem sentido, deve-
se dar prioridade ao subjetivo. Em casos onde não há um substantivo ver­
bal principal, o possessivo ainda tem prioridade sobre o de fonte como
uma classificação apta. A distinção entre o de fonte e separação, porém, é
mais difícil de se fazer. Muitas vezes, é uma questão só de ênfase: separação
expressa resultado enquanto que fonte enfatiza causa.101 (Algumas das ilus­
trações abaixo poderiam pertencer ou a fonte ou a separação.)102

100 àpapTiaç é encontrado em Ç>72 X* AC K L P 1739 Byz; àpapucaç é encontrado em X2


BW et pauci; octtÒ apapríaç é encontrado em 1881 pauci.
101 Nesse sentido, as duas categorias são análogas ao perfeito extensivo e intensivo.
102 Ao mesmo tempo, o genitivo de separação parece mais comum que o genitivo de
fonte ou origem. (Isso também ocorre com as construções prepositivas, pois a idéia de
separação pode ser representada pelas preposições k ou áxó enquanto fonte ou origem é
costumeira e restritamente usado com k .)
110 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

d. Ilustrações
Rm 9:16 ou to ü Qékovxoç oúõè toü rpé/ovioç, âXXà toü ÍXeávzoç 0eoü
Não depende de quem quer nem de quem corre, mas de Deus exerce
misericórdia

Rm 10:3 àyuooüvTí ç z fv toü 0eoü ÕLKaiooúvqu


alheios a justiça que vem de Deus

2 Co 3:3 éoxè èiuoTolt] XptOTOÜ


Vós sois uma carta que vem de Cristo
Ap 9:11 exouotu èir’ auxcâu (iaaiXéa. zov ãyyeXov zf\ç ápúoaou
Eles tem sobre eles, como rei, o anjo quem vem do Abismo
É possível que este seja um gen. atributivo ou descritivo., mas o gen. de
fonte indica origem mais que caráter e, por conseguinte, parece mais
adequado neste contexto.

Cf. também Rm 15:18, 22 (Aqui, com um infinitivo como a palavra no gen.); 2 Co 4:7;
11:26; Cl 2:19 (possível).

3. Genitivo de Comparação [que]


a. Definição
O substantivo gentivo, quase sempre depois de um adjetivo comparativo, é
usado para indicar comparação. O gentivo, então, é o padrão com quem a
comparação é feita (i.e., em "X é maior que Y," o gen. é o Y). Este uso é
relativamente comum.
b. Chave para Identificação
A definição apresenta a chave: um genitivo depois de um adjetivo
comparativo,que requer a palavra que antes do genitivo (em lugar do de usual).
c. Amplificação e Semântica
Primeiro, note que o adjetivo comparativo não será adjetivo atributivo. Quer
dizer, que ele não é achado na construção artigo-adjetivo-substantivo.103
Segundo, a comparação é muitas vezes feita entre o conhecido e o
desconhecido, sendo que o substantivo no genitivo é o item conhecido. As
vezes, porém, ambas as quantidades serão conhecidas, mas uma compração
explícita entre eles envolve uma certa ênfase (quer seja retórica, suspense,
ou uma colocação incomum). Terceiro, nem todo exemplo de um adjetivo
comparativo (na posição predicativa) seguida por um genitivo

103 Ainda que eu não tenha realizado nenhuma pesquisa exaustiva sobre esse fenômeno
na literatura grega extra-neotestamentária, é verdade que isso ocorra no NT. Ou seja, não
há exemplos claros de uma seqüência genitiva (comparação-atributiva). Isso também
parece, semanticamente, improvável, pois a fim de que o adjetivo comparativo faça uma
comparação explícita, ele precisa afirmar algo sobre o substantivo com o qual está
relacionado. Logo, ele precisa ser predicado, não atributivo.
Genitivo: ablativo (comparação) 111

necessariamente envolverá um genitivo comparativo, em parte porque


nem todo adjetivo comparativo funciona de acordo com a forma: um adjetivo
comparativo pode agir como um superlativo ou um comparativo.105
Finalmente, com raríssimas exceções o genitivo de comparação segue outro,
a não ser o adjetivo comparativo (viz., um verbo que lexicalmente sugere
comparação ou um advérbio comparativo).
d. Ilustrações
1) Exemplos Claros
M t6:25 oí)/l f] i[mj(f| TTÂeióu kaxiv ifjç ipotjtfjç
Não é a vida mais que o alimento?
Aqui a colocação de "vida" com "alimento" tem um poderoso efeito
emotivo: a resposta pretendida da parte do ouvinte é algo do tipo, "Com
certeza, minha vida é mais digna que o alimento! Você quer dizer que
Deus sabe isto e deseja cuidar de mim?

Mt 10:31 iroÀA.(3u oipouGícov õia(j)épete üpeiç


vós sois mais dignos que muitos pardais
Aqui está um exemplo com um verbo e não com um adjetivo compara­
tivo. ÕLOtcpépco é talvez mais usado com verbo e gen. de comparação,
ainda que seja raramente usado.106
Jo 14:28 ó ucmip petícou poú èotuv
o Pai é maior que eu [sou]
Neste contexto, é óbvio que Jesus está falando com referência a seu ofí­
cio, não sua pessoa. Quer dizer que o Pai tem uma posição maior, mas
que o Filho não é menos divino que o Pai (cf. Jo. 14:8). Isto está ligado
com um dos principais temas do Quarto Evangelho - mostrar de forma
enfática a divindade do Verbo.
Jo 20:4 ó aXXoç, (ia0r|Tf|ç upoéõpa|ieu m y iov toü nétpou
o outro discípulo correu mais rápido que Pedro
Este é um exemplo raro de um gen. de comparação depois de um advér­
bio comparativo.
1 Co 1:25 xò [iGjpòv toü 0eoü aocjxáiepov tcôu ávGpcámau kazív
a loucura de Deus é mais sábia do que os homens
Hb 1:4 KpetTTCJU yevópeuoç tcüv àyycXíúv
[o Filho] tendo sido tomado melhor que os anjos
Hb 7:26 ápxiepeúç . . . üi|ir)ÂÓTcpoç t(5v oúpavcôv
um sumo sacerdote . . . maior que os céus

104 Cf., e.g., 1 Co 12:23; 1 Cr 15:19 (genitivo partitivo); Fp 1:14 (partitivo); Hb 3:3 (o
adjetivo comparativo modifica o nome genitivo [Também há um legítimo genitivo
comparativo nesse verso]; similar ao que ocorre em Hb 7:19, 22).
105 Veja o capítulo onde se discute a respeito de adjetivos.
106 Cf. Lc 12:7 (embora o v. 24 adicione o adjetivo comparativo); talvez 1 Co 15:41 (mas
isso é provavelmente um genitivo de separação); G14:1.
112 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

1 Pe 1:7 xò õ o K Í i i i o i ' ò p í â v x f j ç l ú o x e t o ç T T O À U T L p ó x e p o v xpwnou


a genuinidade de sua fé que é muito mais preciosa que ouro
O adjetivo comparativo refere-se a "genuinidade" (não a fé em si)W7 e é
um adjetivo predicativo. A quantidade conhecido nesta declaração é a
preciosidade do ouro - e uma fé genuína é muito mais preciosa que isso!
Cf. também Hb 3:3; 11:26 (deve-se notar que o adjetivo comparativo
exerce um amplo papel em Hebreus, pois o tema é construído em tomo
da idéia de que Cristo é melhor que os profetas, anjos, a antiga aliança,
Moisés, etc.).
2) Exemplos Disputáveis
Mc 4:31 (=Mt 13:32) - cf. discussão do adjectivo abaixo.

Ef 4:9 xò õè ’Auépq xí koxiv ei pf| òtt Kal Kaxépq eiç xà Kaxcóxepa péprj
xfjç yfjç
Ora que quer dizer "subiu"- senão que também desceu às regiões mais
inferiores que a terra?
Veja nossa discussão deste texto no "Genitivo de Aposição". Aqui
simplesmente desejamos mostrar que alguns eruditos consideram o gen.
como comparativo - "ele desceu às regiões mais inferiores que a terra" .108
Embora um gen. partitivo seja possível e um gen. de aposição seja
provável, um gen. comparativo é sintaticamente improvável, para não
dizer impossível: o adjetivo comparativo está na posição atributiva de
|J.épr|. Se alguém igonar esse aspecto sintático dizendo que em Mt 23:23,
o significado deveria ser "tendes negligenciados os preceitos que são
mais importantes que a lei" (em lugar de "tendes negligenciados os
preceitos mais importantes da lei").

C. Genitivo Verbal
(te., Genitivo Relacionado a uma Forma Nominal do Verbo)
Embora os subgrupos sob esta categoria realmente pertença ao "Genitivo Adjetival",
há algumas vantagens em colocar estes usos sob o "Genitivo Verbal". Isto é parcial­
mente devido ao fato que os genitivos objetivos e os subjetivos são tanto cruciais
quanto confusos, mas também pelo que incluído aqui é uma categoria não listada
normalmente pelas gramáticas do NT.
Os genitivos subjetivos, objetivos e plenários são usados com substantivos princi­
pais que involvem uma idéia verbal. Isto é, o substantivo principal tem um verbo
como um cognato (e.g., fiucnÀeOç tem fiaoiÀeva) como cognato). A construção
genitiva verbal, então, é uma sentença incrustada envolvendo, muitas vezes, uma
idéia verbal no substantivo verbal. A ordem abaixo (subjetiva, objetiva, plenária)
expõe a ordem de freqüência. \

107 No mínimo, não gramaticalmente. Mas "genuinidade da fé" = "genuína fé"- logo,
teremos um genitivo atribuído. Veja discussão.
108 Cf., e.g., Meyer, Ephesians (MeyerK) 213; F. Büchsel, “KatÚTepoç,” TDNT 3.641-43.
Turner, Syntax, 215, também fala dessa possibilidade.
109 á(j)f|KaTe xà fkpútepa t o ü v ó p o u . Cf. também Hb 6:9.
Genitivo: verbal (subjetivo) 113

1. Genitivo Subjetivo
a. Definição
O substantivo no genitivo funciona semanticamente como o sujeito da idéia
verbal implícita no substantivo principal. Isto é comum no NT.
b. Chave para Identificação
Se um genitivo subjetivo é suspeita, tente converter a forma nominal do verbo
com a qual o genitivo se relaciona para uma forma verbal e transforme o genitivo
para ser o sujeito. Assim, por exemplo, "a revelação de Jesus Cristo ..." em
G11:12 toma-se "[O que/o fato que] Jesus Cristo revela ...
c. Semântica/Amplificação
1) Esta categoria é léxico-sintática,i.e., se relaciona com um significado léxi­
co específico com uma das palavras envolvidas (neste caso, o substanti­
vo principal). O substantivo principal, que aqui é chamado de uma "for­
ma nominal do verbo" 110 tem uma idéia verbal implícita. Palavras como
"amor", "esperança", "revelação", "testemunha" e "palavra", podem
implicar, em uma dada situação, uma idéia verbal. A perspectiva deve,
é claro, ser a partir do grego, por exemplo (PaotleOç tem PaotÀeÚto),
não necessariamente no português.
2) O genitivo subjetivo, por sua natureza, pode ocorrer em mais tipos de
constmções que o genitivo objetivo. Isto se deve a força semântica de
ambos: um sujeito pode ter um verbo transitivo ou intransitivo,111 en­
quanto um objeto pode somente ser objeto de um verbo transitivo. As­
sim, em rj trapouaía toü Xpioroü ("a vinda de Cristo") o genitivo não
pode ser objetivo porque a idéia verbal não é transitivo, mas pode ser
subjetivo ("[quando] Cristo vier").112
3) Onde ocorrer o genitivo objetivo e subjetivo na mesma construção -
portanto permitindo interpretações semanticamente oposta - o subs­
tantivo principal implica um verbo transitivo. Este é sem dúvida o tipo
mais freqüente de forma nominal do verbo. Em um dado contexto, "amor
de Deus" poderia significar "[meu/nosso/seu] amor por Deus" (objeti­
vo) ou "o amor de Deus por mim [ti/eles]." Desde que os aspectos léxi­
co sintáticos nesses exemplos sejam idênticos, o apelo precisa ser feito
ao contexto, ao uso do autor, e as questões exegéticas mais amplas.
Veja Quadro 12 abaixo para um diagrama dos genitivos subjetivo e objetivo.

110 Não deve ser confundido com um infinitivo, que é sintaticamente uma forma nominal
do verbo. A expressão usada aqui é um título lexical.
111 Toma também um verbo equativo, mas o genitivo subjetivo não será usada em tais
construções. O grego expressa cada idéia com genitivos predicativos e aposicionais.
(Todavia, em Lc 9:43, por exemplo, "a majestade de Deus" pode ser lido assim: "como
majestoso Deus é".)
112 Para ver uma exceção, veja a discussão abaixo sobre o "Genitivo Objetivo".
114 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

d. Ilustrações

1) Exemplos Claros

Mt 24:27 OUTGJÇ COTCCl T) TTttpOUOLtt TOÜ IHOÜ TOÜ KVOpCÓlTOU


Assim será a vinda do Filho do Homem (="assim será quando o Filho
do Homem vier").

Mc 14:59 oúõè outcúç lar) rju f) papTupía aíiitôv


nem assim o testemunho deles era o mesmo (="nem testificaram a
mesma coisa")

At 12:11 èçeÍÂató pe fk x 6LP°Ç 'Hpcáõou Kal tráoqç TÍjç irpoaõoKÍaç to ü Laoü


tcòv Tovôaíwv
[o anjo do Senhor] me livrou das mãos de Herodes e de toda expectativa
do povo judaico (="tudo que esperava o povo judeu")

Rm 8:35 TLÇ T]|iâç /upLOFL àlTO TÍjç àváTTqÇ TOÜ XpLOTOÜ',113


quem nos separará do amor de Cristo (= Quem nos separará do amor
de Cristo por nós?)
O contexto é muito claro que está em vista um gen. subjetivo. A ênfase
não está no que nós fazemos para permanecer ligados ao céus, mas no
que Deus tem feito em Cristo conduzindo nossa eleição a glória. Cf. vv.
30-39, em que a ênfase está na atividade passada, presente e futura de
Deus. Verso 39, que supera o capítulo, especialmente fica assim: "[nada]
será capaz de separar-nos do amor de Deus (TTjç toü 9foü) que
está em Cristo Jesus nosso Senhor".

2 Co 7:15 TT|V TOVTCOV l)pO)V UTTaKOf)U


a obediência de todos vós (= "o fato que vocês obedeceram"
Cf. também Lc 7:30; Rm 9:11; 13:2; 1 Co 16:17; 2 Co 7:6; 8:24; 1 Jo 5:9; Ap 3:14.

2) Possíveis (e exegeticamente importantes) exemplos envolvendo


II lotiç Xpioraõ
A maior parte de grupos de textos debativeis envolve a expressão, ttÍotiç
XpLOTOÜ: deve-se traduzir "fé em Cristo" (gen. objetivo gen.) ou "a fé/
fidelidade de Cristo" (gen. subjetivo.)?
Rm 3:22 ôiKaiooúuri õè 0c-oü ò ià n íozeoç ’Ir|ooü Xpioroü
mas a justiça de Deus pela fidelidade de Jesus Cristo

Fp 3:9 p/q fx(')V fp V ôiKaLoaúvqv tt|u fk vópou àA.Aà Tqv õià maTetoç Xpiatoü
não tendo justiça própria que se baseia na lei, senão a que é mediante a
fidelidade de Cristo

113 Ainda que poucos MSS tenham 0eoü em lugar de XpiaroO (e.g., N [B] 365 et
pauci), a sintaxe não é afetada.
Genitivo: verbal (subjetivo) 115

Ef3:12 Tqv TTappqoíav Kaí irpoaocY«YT)v . . . õià TÍjç ttlot6G)ç cciítoü


temos ousadia e acesso com confiança, mediante a sua fidelidade.
Cf. também Rm 3:26; Gal 2:16 (2x), 20; 3:22, para um fraseado semelhante.

Comentários mais antigos (provavelmente como um reflex luterano)


vêem XpioToí) um gen. Objetivo, ficando, "fé em ". No entanto, mais e
mais estudiosos estão considerando estes como um gen. subjetivo (ou
"a fé de Cristo"114 ou "a fidelidade de Cristo"). Sem querer fechar a
questão, nós simplesmente desejamos interagir com alguns dos argu­
mentos gramaticais usados para cada posição.

1) A favor do gen. objetivo, se argumenta que ttlotlç no NT toma um


gen. objetivo quando ambos os substantivos são anarthros; Quando
ttlotlç for gen. subjetivo ambos tem artigo.115 Em resposta a isso, os
dados precisam ser enviesados para ter qualquer peso: muitos dos
exemplos têm um pronome posessivo no lugar do gen., que quase
sempre exige que o substantivo principal tenha um artigo.116 Além
de que, todos os textos envolvendo ttlotlç XpLOTOÜ estão em locu­
ções prepositivas (onde o objeto da preposição, neste caso ttlotlç, é
anarthro.117 Mesmo quando o objeto da preposição é definido.118

114 Cranfield, cujo primeiro sobre Romanos apareceu em 1975, denomina de visão
genitiva subjetiva (em Rm 3:22) "juntos se fizeram inúteis", sem dar muito apoio para
essa conclusão (Romans [ICC], 1.203). Ele cita somente uma abordagem anterior sobre a
visão subjetiva, J. Haussleiter, "Der Glaube Jesu Christi und der christliche Glaube: ein
Beitrag zur Erklãrung des Rõmerbriefes," NKZ 2 (1891) 109-45. Nas últimas duas ou três
décadas, porém, a defesa da visão genitiva subjetiva tem encontrado muitos advogados,
embora não tenham agido sem oposição. Leia, e.g., sobre a visão subjetiva: R. N.
Longenecker, Paul, Apostle of Liberty (New York: Harper & Row, 1964) 149-52; G. Howard,
"The 'Faith of Christ'," ExpTim 85 (1974) 212-15; S. K. Williams, "The 'Righteousness of
God' in Romans," JBL 99 (1980) 272-78; idem, "Again Pistis Christou," CBQ 49 (1987) 431­
47; R. B. Hays, The Faith of Jesus Christ: An Investigation of the Narrative Substructure of
Galatians 3:1-4:11 (SBLDS 56; Chico: Scholars, 1983); M. D. Hooker, " I I lotlç XpLOTOÜ,"
NTS 35 (1989) 321-42; R. B. Hays, "TIILTIL and Pauline Christology: What Is at Stake?",
SBL 1991 Seminar Papers, 714-29; B. W. Longenecker, "Defining the Faithful Character of
the Covenant Community: Galatians 2.15-21 and Beyond," esboçado de forma
preliminary, em Durham, England, 1995. Para o ponto de vista objetivo, leia, e.g., A.
Hultgren, "The Pistis Christou Formulations in Paul," NovT 22 (1980) 248-63; J. D. G.
Dunn, "Qnce More, M STIS XPIZTOY," SBL 1991 Seminar Papers, 730-44; como também
todos os mais antigos comentários de Romanos e Gálatas.
115 Veja Dunn, "Once More," 732-34. Dunn considera isso como um dos três
argumentos principais (ibid., 744).
116 Cf. BDF, 148-49 (§284). Dunn reconhece que a fraqueza desse argumento com
úpwv, mas não com pou (Dunn, "Once More," 732), como se disse que um pronome
agiria diferente (é claro que verdadeira lexical, mas a questão aqui é sintática).
117 Aqui mostraríamos que no corpus paulinium, há quase duas vezes mais preposições
+ construções nominais anarthras que preposições + artigos + construções nominais (1107
para 599). Quando ttlotlç é o objeto, a diferença é igualmente maior (40 para 17).
118 Veja depois discussão no capítulo sobre artigos.
116 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

O argumento gramatical para o gen. objetivo, neste caso, é fraco.119

2) A favor do gen. subjetivo, é dito que "Pistis seguido pelo genitivo


pessoal é muito raro; mas quando ele aparece é quase sempre seguido
pelo genitivo não objetivo... ."120 Isto tem muita base (going for it),
mas ainda envolve certa fraqueza. Há dois ou três exemplos claros
de ttlotlç + gen. objetivo pessoal no NT (Mc 11:22; Tg. 2:1; Ap.2:13),
assim como dois exemplos claros envolvendo um substantivo gen.
impessoal (Cl 2:12; 2 Ts 2:13). No entanto, o uso predominante no
NT é com um gen. subjetivo.121 Pragmaticamente falando, se a visão
do gen. subjetivo é correta, estes textos (Quer ttlotlç seja traduzido
"fé" ou "fidelidade")122 argumentam contra uma Cristologia
implicitamente docética."123 Além disso, a fé/fidelidade de Cristo
não é uma negação da fé em Cristo como um conceito Paulino (visto
que a idéia é expressa em vários contextos iguais, somente com o
verbo iucjtcÚG) e não com o substantivo), mas implica que o objeto
da fé é um objetivo digno, pois ele mesmo é fiel. Embora a questão
não seja resolvida via gramática, no pêndulo de considerações
gramaticais parece ser a favor da visão gen. subjetivo

2. Genitivo Objetivo

a. Definição
O gentivo substantivo funciona semânticamente como objeto direto da
idéia verbal implícita no substantivo principal. Isto é comum no NT.

119 Dunn ("Once More," 732-33) oferece quatro passagens nas quais vê o genitivo
subjetivo, mostrando que, pelo contrário Rm 3:22, et al., envolve um ttlotlç articular
(Rm 3:3; Tg 2:1; Ap 2:13; 14:12). O que ele, contudo, não menciona é que não somente
há muitos textos altamente debatíeis, ou antes, a maioria certamente são exemplos de
genitivo objetivo (Tg 2:1; Ap 2:13; 14:12) - mas, em cada um deles, ttlotlç é o objeto direto
e, portanto, quase sempre articular. No mínimo, esperaríamos um artigo com ttÍ o t lç
quando uma fé particular está em vista.
120 Howard, "The 'Faith of Christ'," 213.
121 Cf. Mat 9:2, 22, 29; Mc 2:5; 5:34; 10:52; Lc 5:20; 7:50; 8:25, 48; 17:19; 18:42; 22:32;
Rm 1:8, 12; 3:3 (aqui, "a fidelidade de Deus"); 4:5, 12, 16; 1 Co 2:5; 15:14, 17; 2 Co 10:15;
F1 2:17; Cl 1:4; 2:5; 1 Ts 1:8; 3:2, 5, 10; 2 Ts 1:3; Tt 1:1; Fm 6; 1 Pd 1:9, 21; 2 Pd 1:5. Além
da fórmula ttlotlç Xpiaroú em Paulo, At 3:16 e Ap 14:12 são também debatíveis. F11:27
("fé do evangelho") também é ambíguo.
122 Longenecker sugere que "fidelidade" é uma tradução melhor, desde que abrange
ambos os conceitos e ajusta-se melhor com a teologia de Paulo ("Gallatians 2.15-21 and
Beyond," 4, n. 14).
123 Hays, "IIISTIS and Pauline Christology," 728.
Genitivo: verbal (objetivo) 117

b. Chave para Identificação


Quando um substantivo for suspeito, tente converter a forma nominal do
verbo ao qual o genitivo está relacionado para uma forma verbal e transfor­
me o genitivo em objeto direto. Assim, por exemplo, "um demonstração de
sua justiça" em Rm 3:25 torna-se "manifestar a sua justiça."
Um método mais simples e menos tolo de prova é substituir a preposição de
por para, a cerca de, concernente a, em torno de, ou às vezes contra.

c. Semântica/Amplificação

1) Esta categoria é léxico sintática, i.e, ela se relaciona com um significado


lexical específico com uma das palavras envolvidas (neste caso, o subs­
tantivo principal). O subsantivo principal, que é aqui chamado de uma
"forma nominal do verbo" 124 deve ter uma idéia verbal implícita. Pala­
vras tais como "amor", "esperança", "revelação", "testemunho" e "pa­
lavra", pode implicar, em um dado contexto, um idéia verbal. A pers­
pectiva deve, naturalmente, ser à partir do Grego e não de outra língua:
"King", por exemplo, não tem um cognato no inglês (não há nenhum
verbo "to king) mas tem no Grego, assim como no português "rei" tem
"reinar" (potoiA.eC)!; tem PaoiAe-óco).
2) O genitivo objetivo, em toda a sua natureza, pode ocorrer em menos
tipos de construções que o genitivo subjetivo. Isto é devido à força se­
mântica de ambos: um sujeito pode tomar um verbo ou transitivo ou
intrasitivo,125 enquanto um objeto somente pode ser objeto de um ver­
bo transitivo. Segue-se, então, que um genitivo objetivo somente pode ocor­
rer com formas nominais do verbo que implicam em um verbo transitivo.126
3) Onde o genitivo objetivo e subjetivo ocorrerem nas mesmas constru­
ções, e portanto permitir interpretações semanticamente opostas, o subs­
tantivo principal implica um verbo transitivo. Isto é, sem dúvida, o tipo
mais freqüente de substantivo verbal. Em um dado contexto, "amor de
Deus" poderia significar "o meu [o seu/o dele] amor por Deus" (objeti­
vo) ou " O amor de Deus por mim [você/eles]". Visto que os aspectos
léxico-sintático nestes exemplos são idênticos, o apelo deve ser feito ao
contexto, ao uso do autor, e às questões exegéticas mais amplas.

124 Não deve ser confundido com um infinitivo, que é sintaticamente uma forma nominal
do verbo. A expressão usada aqui é um título lexical.
125 Também pode tomar um verbo equativo, mas o genitivo subjetivo não será usado em
tais construções. Greek expresses such ideas with predicate genitives and with appositional
genitives.
126 Assim, em f) Tíapouoía toO Xpioxot) ("o retomo de Cristo") o genitivo não pode ser
objetivo, porque a idéia verbal não é intransitiva. Mas, é possível que estejamos diante de
um genitivo subjetivo ("[quando Cristo retomar"). Lc 6:12 apresenta uma interessante
exceção dentro dessa discussão: if| TTpoofUxÇl toí) Geoü significa "oração a Deus" (o genitivo
é, logo, genitivo objetivo, porém depois de um nome verbal intransitivo). Igualmente,
aqui, alguns escribas não ficavam confortáveis com essa construção (D, ib1omite toí) 9eou).
Cf. também At 4:9; talvez Mt 1:12 (ainda que BapiAcivoç seria um genitivo de destino).
118 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Genitivo Subjetivo

amor Deus ama | X


/ de Deus =

Genitivo Objetivo
amor X ama |Deus
/ de Deus =

Diagrama Sintático Diagrama Semântico

Quadro 12
Diagramas do Genitivo Subjetivo e Objetivo 127

d. Ilustrações128
1) Exemplos Claros

Mt 12:31 i] ôè toü TTveúpatoç pA.aa4>T)pía oúk àcj)e0r|aeTai


mas a blasfêmia do Espírito não será perdoada (= "blasfêmia contra o
Espírito" ou "blasfemando ao Espírito")

Lc 11:42 o ím ò p lu t o iç Ía p io a ío iç, otl . . . TrapépxcoQ e x q v K p ía iu K a l Tqv

à Y á trriv t o ô 0eoü

Ai de (contra) vós Fariseus! Pois tende negligenciado a justiça e o amor


por Deus!

Rm 3:25 ôv irpoéGexo ò 0eòç . . . elç euõr l£iv xfjç ôiK<xioowr|ç aírcoü


a quem Deus publicamente expôs para manifestação de sua justiça
A idéia é "Deus expôs publicamente Jesus Cristo a fim de demons­
trar sua justiça.

127 Note que essa equivalência semântica não é exata. Uma construção N-Ng
simplesmente não pode ser convertida em uma construção de S-V-O, porque uma é uma
frase nominal e a outra é uma oração desenvolvida. Assim, "o amor de Cristo me
constrange" simplesmente não pode ser convertido em "Cristo me ama, constrangendo-
me" ou "eu amo a Cristo que me constrange", pois não faria sentido. A frase "eu amo a
Cristo/Cristo me ama" ainda conserva algo de nominal. No exemplo, "o fato de que
Cristo me ama me constrange" faria sentido como também "o fato de que eu amo a
Cristo me constrange" (entretanto algo da carga semântica perde-se). Cada situação é
diferente, porém. Lembre-se de que uma frase nominal não pode simplesmente ser
transformada em uma oração. Alguns ajustes precisam ser feitos.
128 Ligeiramente, diferente é a expressão em Rm 1:19 (xò yucooTÒv toü 0eoO), "o que
é conhecido de Deus" não é diretamente igual a "o fato de conhecer Deus". A terminação
passiva do adjetivo não permite que essa frase seja considerada como um genitivo objetivo.
129 É possível desenvolver esse verso para a frase: "Deus expõe a Jesus Cristo
publicamente para demonstrar que Ele é justo".
Genitivo: verbal (plenário) 119

Rm 11:34 tlç yàp eyyco voõv K u p ío u ; riauioO èy éu eT o ;


Porque quem conheceu a mente de Deus, ou quem se tornou seu
conselheiro?
A força desta expressão é "quem tem aconselhado Deus?"130

1 Pe 3:21 Kal úpâç . . . vúv acé(ei pátritopa, oú aapKÒç ânóOeoLÇ púiTOU


Agora também vos salva o batismo, não como a remoção da imundícia
do corpo
A força semântica desta sentence é: "Agora também vos salva o batistmo.
Eu não estou falando acerca do tipo que remove a imundícia da carne.
. . Quer dizer que, não há valor salvífico para a água em si.
Há dois genitivos relacionados a áiróGeon; (remoção), púrroí) (imudícia)
e oapKÓç (came, ou aqui, corpo). Um é objetivo, o outro é um gen. de
separação.

Cf. também Mc 11:22; Lc 22:25;131 At 2:42; Rm 2:23; 13:4; 1 Co 15:34; 2 Co 9:13; Ef 4:13;
Cl 1:10; Hb 4:2; 1 Pe 2:19; 2 Pe 1:2.

2) Exemplos Disputados
Rm 8:17 (veja discussão mais tarde); Jo 5:42; 1 Pe 3:21 ("a ressurreição
de Cristo").132 Veja também discussão no "Genitivo Subjetivo" da
fórmula ttlotlç X p lotou e as várias passagens envolvidas.

3. Genitivo Plenário
a. Definição
Um substantivo no genitivo é tão subjetivo quanto objetivo. Em muitos ca­
sos, o subjetivo produz a noção do objetivo.
Embora muitos gramáticos não gostariam de ver um caso funcionando em
um sentido de dupla obrigação, Zerwick astutamente aponta que "na in­
terpretação do texto sagrado, porém, devemos ter cuidado para que não
sacrifiquemos a clareza do significado à parte da plenitude do significa­
do."133 Somente se tratarmos a linguagem bíblica como parte de uma clas­
se específica em si (em que não se deve empregar trocadilhos, e coisas se­
melhantes) pode negar uma categoria como esta. Pode ser que os exemplos

130 y ej a discussão desse texto abaixo na seção "Genitivo de Associação" onde a


idéia de associação é rejeitada segundo análise léxica.
131 Isso igualmente poderia ser classificado como um genitivo de subordinação ("reis
dos gentios").
132 A questão aqui e em expressões similares é se devemos entender isso como "Cristo
ressuscitou [dos mortos]" ou como "[Deus] ressuscitou a Cristo [dos mortos]." Ambos
são ensinados no NT - Cristo é considerado como um participante ativo de sua própria
ressurreição (cf. Jo 2:21 e nossa discussão do texto na seção "Genitivo de Aposição").
133 Zerwick, Biblical Greek, 13 (§39).
120 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

abaixo não se encaixem o gen. plenário, mas isto não nega a possibilidade
deste uso.134
A grande questão em jogo aqui não é a exegese de uma passagem específi­
ca, mas como abordamos a exegese como um todo, assim como abordamos
a Bíblia. Quase universalmente, quando um determinado genitivo está em
questão, os comentaristas começam sua investigação com um pressuposto
subjacente que a decisão precisa ser feita. No entanto, tal abordagem pres­
supõe que não pode haver nenhuma ambigüidade intencional ou signifi­
cado preconcebido à parte da pessoa que fala. Mesmo se isto acontecer em
outro lugar na linguagem humana (universalmente, eu creio, mesmo que
seja um tanto raro em várias culturas), porque é que tendemos a negar tal
opção aos escritores bíblicos?
b. Chave para Identificação
Aplicar simplesmente as "Chaves" usadas para os genitivos subjetivo e
objetivo. Se ambas as idéias parecerem se encaixar em uma dada passagem,
e não contradizer, ao contrário, complementar~se mutuamente, então há grande
possibilidade que o genitivo em questão seja um genitivo plenário.
c. (Possíveis) Ilustrações
2 Co 5:14 t) yàp áyáiTq xofi Xpiaxoü ODveycv fpâç
Porque o amor de Cristo nos constrange
Aqui muitos protestantes consideram este genitivo como subjetivo, en­
quanto outros o consideram objetivo. No entanto, é bem possível que
ambas as idéias foram pretendidas por Paulo.135 Ficando assim, "O amor
que vem de Cristo produz nosso amor por Cristo - e isto [o bojo inteiro]
nos constrange." Neste exemplo, então, o subjetivo produz o objetivo: "o
amor de Cristo por nós, o qual em troca motiva e capacita nosso amor
por ele, nos constrange."136

A p 1:1 <xtroKáA.in|/iç ’Ir|OoC X p to x o ú , qv eôwKev aúxcâ ó 6eóç, õetçca xoiç


õoúA.oiç ccúxoü
Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus
servos
Este é o título que João deu a sua obra. E a revelação que vem de Cristo

134 Uma das razões porque muitos gramáticos do NT têm se reservado na aceitação
dessa categoria é devido a sua identidade protestante. A tradição protestante de um
significado singular para um texto (o qual, historicamente, foi uma reação ao significado
quádruplo empregado na Idade Média) foi fundamental em seu pensamento. Porém, a
pesquisa bíblica atual reconhece que um determinado autor pode, às vezes, ser
intencionalmente ambíguo. Os exemplos de duplo sentido, o sensus plenior (definido de
modo conservador), trocadilhos, e jogos-de-palavras no NT, enfim tudo contribui com
essa visão. Significativamente, dois dos melhores comentários no Evangelho de João são
de autoria católica (Raymond Brown e Rudolf Schnackenburg). Além disso, o Evangelho
de João, mais que qualquer outro livro no NT, possui duplo sentido. A tradição protestante
impediu até certo ponto de que seus advogados percebessem isso. Mas agora, uma
perspectiva protestante veio a tona com o trabalho de Saeed Hamidkhani, "Revelation
and Concealment: The Nature, Significance and Function of Ambiguity in the Fourth
Gospel" (Ph.D. thesis, Cambridge University, to be completed in c. 1996).
135 y e ja Spicq, "L'étreinte de la charité," Studia Theologica 8 (1954) 124; cf. também
comentado por Lietzmann, Alio, loc. cit.
Genitivo: adverbial 121

ou a que é acerca de Cristo? Em 22:16 Jesus diz a João que sen anjo foi
aquele que proclamou a mensagem do livro a João. Assim, o livro é
certamente uma revelação de Cristo (por isso, nós podemos ter um gen.
subjetivo em 1:1). Mas a revelação é supremamente e no final das con­
tas acerca de Cristo. Neste caso, o gen. em 1:1 pode bem ser um gen.
objetivo. A questão é se o autor tinha a intenção de ambos em 1:1. Des­
de que este é o título de seu livro - pretendia descrever o todo da obra -
pode ser um gen. plenário.
Rm 5:5 r| áyáTtri toO 0eot> cKKcyxnai êv xcâç Kapôíaiç ppcov õià Tíncópccroç
àyíOU TOÍ) ÔO0ÉVTOÇ TJjllV
o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo,
que nos foi outorgado
Muitos comentaristas antigos interpretaram este genitivo como objeti­
vo (e.g., Agostinho, Lutero), enquanto a maioria dos comentaristas mo­
dernos o vêem como subjetivo (Dunn, Fitzmyer, Moo, Kásemann,
Lagrange). É verdade que o contexto é claramente acerca do que nós
temos feito por Deus. Assim, as considerações contextuais parecem in­
dicar que o gen. é subjetivo: "O amor que vem de Deus é derramado em
nosso coração." Porém, o fato que este amor tem sido derramado em
nosso coração (como oposto a um simples sobre nós ou em direção a
nós) sugere que tal amor é a fonte para um amor recíproco. Desta for­
ma, o gen., pode também ser objetivo. A idéia, então, deveria ser: "O
amor que vem de Deus e que produz nosso amor por Deus é derramado
em nosso coração através do Espírito Santo que nos foi outorgado."

Cf. outros exemplos possíveis, Jo 5:42; 2 Ts 3:5; e muitos exemplos de cvuyyckiov 0eoü
(Mc 1:1, 14; Rm 1:1; 15:16; 1 Ts 2:2, 8, 9).

D. Genitivo Adverbial
Este uso do genitivo se assemelha em força a um advérbio. Frequentemente este uso
do genitivo tem a força de uma locução prepositiva (que, naturalmente, é semelhan­
te em força a um advérbio). Assim, o genitivo normalmente estará relacionado a um
verbo ou adjetivo e não a um substantivo. (Mesmo em exemplos onde ele depende
de um substantivo, há muitas vezes uma idéia verbal implícita no substantivo.

136 áy^irri Bcoú Xpiaxoü é usado no NT tanto objetiva (cf. Lc 11:42; 1 Jo 2:5,15; 5:3),
como subjetivamente (cf. Rm 8:35, 39; 2 Co 13:13; Ef 3:19; 1 Jo 4:9). Em alguns textos,
porém, é difícil fazer essa distinção (e.g., Rm 5:5; 2 Co 5:14; 2 Ts 3:5 [onde o contexto
anterior sugere um genitivo objetivo, contudo o contexto posterior, um genitivo
subjetivo. Jd 21 é similar]; 1 Jo 3:17; igualmente Jo 5:42 [veja Robertson, Grammar, 499]).
Não assumimos aqui, como fazem muitos comentaristas (e.g., Meyer, Plummer, Fumish,
Thrall), que essa expressão nunca é, aparentemente, objetiva no corpus paulinum, uma
vez que ela ocorre somente sete vezes em todo esse corpus, três dos quais se encontram
em textos debatíveis! Logo, essa opinião é também debatível.
122 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

1. Genitivo de Preço ou Valor ou Quantidade [por]


a. Definição
O substantivo no genitivo espedfica o preço pago por ou valor avaliado
por a palavra com a qual ele está relacionado. Este é relativamente raro
no NT.
b. Chave para Identificação
Substitua a preposição de pela preposição por (respondendo a questão,
"Quanto?"). Lembre-se também que o substantivo no genitivo é uma palavra
monetária/material, e se relaciona com um verbo (uma vez ou duas vezes
com um substantivo) que é colorido lexicalmente (i.e., muitas vezes
envolvendo a noção de comprar, vender, avaliar, etc., tal como áyopá(co,
TTl.TTpáoKCn), TTOoAitO).

c. Ilustrações
M t20:13 01)^1 õquapíou owe.<\)Wvr)oáç poi;
não combinaste comigo [trabalhar] por um denário?
A noção lexical de preço é às vezes implícita somente, como é o caso
aqui.

Jo 6:7 ôicckoolqv ÔT)vapío)v> apxoi ouk ápKOÔaiv aírcolç


o valor de duzentos denários de pão, não é suficiente para eles
Este é um exemplo incomum do gen. de preço relacionado a um
substantivo (cf. também Ap 6:6).

At 7:16 tcô pvrpcai tp còvqaocTO 'APpaàp àpyupíou


o sepulcro que comprara Abraão por uma [certa] quantia de prata

1 Co 6:20 f|yopáa9qt€ yàp Tqjqç


Porque fostes comprados por preço

Estas são muitas das referências remanescentes: Mt 10:29; 16:26; 20:2; 26:9; Mc 6:37; 14:5;
Lc 12:6; Jo 12:5; At 5:8; 22:28; 1 Co 7:23; Hb 12:16; Jd l l . 137

►2. Genitivo de Tempo (dentro do qual ou durante o qual)


a. Definição
O substantivo no genitivo indica um tipo de tempo, ou tempo dentro do
qual a palavra com a qual ele se relaciona ocorre.
O caminho mais fácil para lembrar o genitivo de tempo (de modo aposto ao
dat. e acus. de tempo) é relacionar o genitivo de volta a sua importância
basal. O genitivo é o caso de qualidade, atributo, descrição, ou tipo.138Assim,
o genitivo de tempo indica o tipo de tempo. (Este uso não é muito comum,

137 Rm 3:1 ("valor da circuncisão") não aceitamos essa categoria, pois o nome genitivo
nunca indica preço ou valor
Genitivo: adverbial (tempo) 123

mas pode ser experado com frequência com palavras que lexicalmente
envolve um elemento temporal.139)
b. Chave para Identificação
Lembre-se que o substantivo no genitivo expressa uma indicação de tempo.
O de muitas vezes torna-se durante ou em ou dentro da.
c. Amplificação/Semântica
Quando o simples genitivo (i.e., sem uma preposição) é usado para tempo,
ele expressa o tipo de tempo. Porém, com f-K ou àiró o significado é muito
diferente - com ênfase posta sobre o começo (cf., Marcos 9:21- f k muòióOey
["desde a juventude"]).140 Esta não é uma confusão dos usos do caso - um
indicando tempo dentro do qual e o outro indicando a extensão do tempo.
A classificação de um genitivo indicando um elemento temporal que segue
6K ou ccrró é propriamente "objeto da preposição" A preposição então precisa
ser classificada.
O genitivo de tempo, as dissemos, coloca ênfase sobre o tipo de tempo em
vista. Um autor tem a escola de três casos para indicar tempo: genitivo,
dativo, acusativo. Falando de forma geral, a força semântica deles são, res­
pectivamente: tipo de tempo (ou tempo durante o qual), ponto no tempo
(respondendo a questão, "Quando?", e extensão de tempo (respondendo a
questão, "quanto tempo?"). Estes casos devem ser cuidadosamente obser­
vados a fim de ver qual ponto um autor está tentando fazer - um ponto não
sempre traduzido para o português facilmente.
d. Ilustrações
Lc 18:12 nr|otcú(j) õlç toü oappátou
Eu jejuo duas vezes por semana
A idéia é que os Fariseus jejuavam duas vezes durante a semana.
Jo 3:2 rjA.9ev mpòc; aútòv vuktoç
Ele veio ter com ele durante a noite
Tivesse o evangelista usado o dativo, o ponto deveria ser que Nicodemos
veio em um ponto particular na noite. Com o gen., porém, a ênfase está
sobre o tipo de tempo no qual veio Nicodemos ver o Senhor. O escritor
do evangelho põe grande ênfase entre trevas versus luz; o gen. para o

138 Estamos nos referindo, é claro, ao sistema de oito casos. Esse é um dos lugares
onde o sistema de oito casos parece útil, ou seja, ele possui certo tipo de uso pedagógico,
ainda que seja linguisticamente (no mínimo, no ponto de vista sincrônico) falho.
139 Ainda que copa; nunca seja usado no NT.
140 Isto mostra a falácia do amontoamento dos usos de 'preposição + caso' com 'os
simples usos dos casos' (uma prática seguiu em algumas gramáticas intermediárias de
grego). A preposição não deixa explícito o significado do caso; nesse exemplo, ck + genitivo
indica origem ou separação, enquanto o genitivo simples indica tipo. Mas não há nenhum
uso de genitivo simples com tempo indicando origem. Essa idéia requer o uso de uma
preposição. Cf. F11:5, por exemplo: (Íttq tí); TTptiiTqç qpépaç <r/pi xoô vüv, "desde o
primeiro dia até agora", isto não é um tipo de tempo, mas período de tempo.
124 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

tempo lança luz aqui. Podemos pelo menos dizer que Nicodemos não
está em boa luz (contraste João 19:39)!

1 Ts 2:9 vuktoç Kal fpépaç épYa(ó|ievoi


trabalhando noite e dia
Paulo não está sugerindo aqui que ele e seus companheiros estavam
trabalhando 24 horas entre os tessalonicenses, mas que eles trabalha­
ram tanto durante o dia quanto durante a noite. A ênfase não está na
duração, mas no tipo de tempo no qual eles laboriaram. 141
Ap 21:25 Kal ol iTUÀcjyeç aúxqç ov p/q KÀ.eia0(ôaiv fpépaç
e os seus portões jamais serão fechados durante o dia

Cf. também Mt 2:14; 14:25; 24:20; 28:13; Mc 6:48; Lc 2:8; 18:7; Jo 11:9, 49; At 9:25; 1 Ts 3:10;
1 Tm 5:5; Ap 7:15.

3. Genitivo de Lugar/Espaço (no qual)

a. Definição
O substantivo no gentivo indica o lugar dentro do qual o verbo com o qual
ele está relacionado ocorre. Este uso é raro no NT e deve ser sugerido so­
mente se nenhuma outra categoria se encaixar.
b. Chave para Identificação
Troca-se a palavra de por em,ou às vezes através de.
c. Semântica
Semelhante ao genitivo de tempo, este uso focaliza o tipo ou qualidade (o
contrário do dat., que focaliza um ponto ou local específico).
d. Ilustrações
Lc 16:24 népijfov Aáçapou 'iva páijiq x ò aKpov toü ÕaKxúÀou auxoü üôaxoç
manda Lázaro que molhe a ponta do seu dedo em água

Lc 19:4 eKeívqç rpe/lÀeu ôiep^eoBai


por ali ele havia de passar [atravessar]
Aqui "atravessar" é a tradução tanto da preposição como prefixo do
verbo quanto a nuancia do gen.
Fp2:8 yenópevoç i>TTf|K00ç pé/pi Oaváxou, Gaváxou ôè oxaupoü
tomando-se obediente até a morte, e morte em uma cruz
E ste é u m exem p lo p ossível: p od eria igu alm en te se e n caixar sob o gen. de

141 A mesma ênfase parece ser vista em Ap 4:8. É bom acrescenta-se isso que a adora­
ção das quatro seres viventes continuou sem cessar. É possível que a expressão " dia e
noite" seja uma frase estereotípica que perdeu suas originais nuanças gramaticais. Algo
similar ocorre em Ap 20:10.
Genitivo: adverbial (meios) 125

meios ("por meio de uma cruz") ou, melhor, produção ("causada por
uma cruz"). Veja discussão acima e abaixo.

Cf. também 1 Co 4:5; 1 Pe 3:4 (ambos metafórico) para outros exemplos possíveis.142

4. Genitivo de Meios [por]


a. Definição

O substantivo no genitivo indica os meios ou instrumentalidade pela qual a


ação do verbo (implícito no substantivo principal [ou adjetivo] ou explícito
no verbo) é cumprida. Ele responde a questão "Como?" Este uso é raro.
(Com a preposição I k é muito mais comum, mesmo que tecnicamente não
seja um gen. de meio por causa da presença da preposição).

b. Chave para Identificação

Muda-se o de pelo por. Este será seguido por um substantivo no caso genitivo
que é impessoal, ou pelo menos concebido como tal.
c. Semântica/Amplificação

O genitivo de meio parece ser, às vezes, levemente próximo a uma idéia


causai que um dativo de meio tem (o dat. é o caso normal usado para indi­
car meio).143 A construção ck + genitivo é usada com mais frequência para
meio que o simples genitivo.

d. Ilustrações

R m 4 :ll xf|ç òiK(uoaúur|ç tfjç níoxecaç


A justiça por [meio de] fé

1 Co 2:13 a kocI ÀaÀoüpeu ouk kv ôtôaKTOtç áuGpamvriç oo(|)íaç Àóyotç


as quais falamos-não em palavras ensinadas por sabedoria humana

Tg 1:13 ó yàp 9eòç áxetpaaTÓç éotiv KaKcâv


pois Deus não é tentado pelo [por + o] mal

Fp 2:8 Gavcruou õè oxaupoô


Morte por [meio de] uma cruz
Este é um exemplo duvidoso. O genitivo aqui poderia, ser de lugar, seria
melhor, de produção.

142 F12:10 deve também encaixar-se aqui (irâv yóvu Küi|ii];r| ÈTíoupaviwv Kal éTTLyeícov
Kal Kara^Govícof) - logo temos a leitura, "se dobre todo joelho, nos céus, na terra e
debaixo da terra". Todavia, é mais comum que os genitivos sejam possessivos, referindo-
se a esses cujos joelhos estão curvados.
143 Note, e.g., At 1:18 (€Kif|oato xwpíov ék gLO0oO tfjç àôiKÍaç) onde o genitivo
conota "adquiriu um campo com o preço da iniqüidade". É difícil distinguir entre causa
e produção aqui.
126 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

5. Genitivo de Agência [por]

a. Definição

O substantivo no genitivo indica o agente pessoal por meio de quem a ação


em vista é realizada. Ele quase sempre se relaciona com um adjetivo verbal
que é muitas vezes usado como um substantivo e tem terminações
tipicamente passivas -toç. O uso é razoavelmente raro.

b. Chave para Identificação

Fique esperto com o adjetivo muitas vezes terminado em -toç, seguido por
um subsantivo pessoal no genitivo. Troca-se o de pelo por. Desta forma, e.g.,
õiôaKtòç 0eoO, "ensinado de Deus," fica "ensinado por Deus." Procura com­
binações tais como áycnTiyuóç + genitivo, ôlôocktoç + genitivo, ckàgktÓç +
genitivo.

c. Estrutura e Semântica

O genitivo normalmente se relacionará com um adjetivo que (a) é


subsantivado (i.e., no lugar de um substantivo), (b) termina em - t o ç , e
(c) implica em uma idéia passiva.144
O g e n itiv o d e a g ê n c ia é m a is p r ó x i m o e m f o r ç a a Ú ttÓ + o g e n itiv o
(e x p re s s a n d o a g e n te ú ltim o ) q u e c o m õ t á + o g en itiv o (e x p re s s a n d o a g e n te
in te rm e d iá rio ).

d. Ilustrações

1) Exemplos Claros

Jo 18:16 ó pa0r|Tr)ç ò iíkXoç, ó yutootòç toO ápxiepétóç145


O outro discípulo que era conhecido pelo [por+o] sumo sacerdote
Jo 6:45 eoouToa TrávTcç õlôccktoI 0eoO
todos serão ensinados por Deus

Rm 1:7 ttkolu tolç ouoiv kv ' Pcágr] áycciTqTolç 0eoO146


a todos que estão em Roma, amados por Deus

Rm 8:33 tíç èyKaA.éoeL «cruà eKÀeKTGJU 0eoô;


Quem intentará acusações contra os eleitos por Deus?

144 Veja BDF, 98 (§ 183) para uma útil e sucinta abordagem. Contudo, BDF apresenta
duas exceções para tríplice regra: (1) em 1 Co 2:13, o adjetivo modifica um nome; (2) em
Mt 25:34, um particípio perfeito passivo (em lugar de um adjetivo) é usado com um
genitivo. Mas Jo 6:45 também é uma exceção, envolvendo um predicativo do objeto. Assim
também é Jo. 18:16 que tem um adjetivo atributivo.
145 Essa leitura é encontrada em BC * L et pauci; ó aXloç oç rjv yvcootòç tg)
ápxicpet é encontrado em S A C 2 Ds W Y T A 0 A II T _fT 13 33 Byz.
146 év àyáiTTi Oeoü é encontrado em G et pauci.
Genitivo: adverbial (referência) 127

1 Co 2:13 kv ÔIÔOCKTOLÇ TTVeÚpaTOÇ


em [palavras] ensinadas pelo [por +o] Espírito

2) Exemplos Disputados
Rm 1:6 kv olç éoxe kcíÍ úpelç KÀqxol 'ItjooÍ) XpiotoO
através de quem sois também chamados por Jesus Cristo
À luz do paralelo estrutural com v. 7 (áyairriToi Oeoü), é possível que
esta expressão indique agência. Outra possibilidade é que seja um gen.
possessivo: asss, "chamados para pertencerdes a JesusCristo".147
Primeiro, só raramente no NT é dito que Cristo faz o chamamento dos
santos.148 Segundo, agência última está normalmente sob consideração
pelo gen. de agência, enquanto só rara vezes Cristo é considerado ser o
agente último.149 Terceiro, não freqüente encontrar um gen. possessivo
depois de um adjetivo terminado com -toç, especialmente em
Romanos.130 A sintaxe não resolve este problema de qualquer forma,
mas pelo menos ajuda a colocar sobre a mesa algumas das evidência
para cada posição.

6. Genitivo Absoluto
Veja abaixo "Particípios Circunstanciais."

7, Genitivo de Referência [com respeito a]


a. Definição
O substantivo no genitivo indica que em referência ao que o substantivo ou
adjetivo com o qual ele se relaciona é verdadeiro. Este uso não é comum.
b. Chave para Identificação

Substitua a palavra de por com referência a, com respeito a.


c. Amplificação

Este genitivo comumente modifica um adjetivo (embora raramente ele estará


conectado a um substantivo), e como tal sua força de advérbio é auto-evidente.
O genitivo limita a estrutura de referência do adjetivo.

147 Veja BDF, 98 (§183); NRSV. Contrário a essa posição, veja Cranfield, Romans
(ICC) 1.68, o qual chama o ponto de vista possessivo de "doutrinário".
148 O chamado dos apóstolos (e.g., em Mt 4:21) é diferente. Mas cf. Mt 9:13.
149 Contudo esse argumento não é tão incontestável quanto poderia ser à luz de
1 Co 2:13 (onde TiveOpa indica agência).
150 Cf., e.g., Rm 1:20, 21; 2:4, 6:12; 8:11; 9:22; para exemplos não claros, cf. Mt 24:31;
Lc 18:7; Rm 2:16; 16:5, 8, 9. Alguns desses exemplos deve também pertencer a outra
categoria, porém é profundamente disputável que eles, no mínimo, sejam possessivos e
não indique agência. Por outro lado, todos os exemplos claros envolvem o pronome
possessivo, exceto Rm 1:6.
128 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Todos os casos oblíquos, assim como o nominativo (conhecido como nom.


pendente), pode ser usado para indicar referência. Sem dúvida o mais
comum é o dativo de referência. O genitivo de referência é o menos comum.

d. Ilustrações

1) Com um Adjetivo
Hb 3:12 KKpôía TTOvripà àiuaxíaç
um coração perverso com referência a incredulidade

Hb 5:13 nâç ykp ó pexéxtav yáÂaKXOç auetpoç A.óvou ÔLKocLoaúvqç


porque todos que se alimentam de leite é inexperiente com referência à
palavra da justiça

2) Com um Substantivo

Mt 21:21 ou [ióvov xò xfjç ouKÍjç 7T0ir|0cxe


não somente fareis o que foi feito com referência a figueira

Cl 1:15 oç eoxiv. . . upooxóxoKOç toot|ç Kxíoewç


o qual é . .. o primogênito com referência a toda criação
As outras possibilidades são partitivo e subordinação. Se fosse partitivo,
a idéia seria que Cristo foi parte da criação, i.e., um ser criado. Paulo,
porém, deixa claro em toda essa epístola que Jesus Cristo é o supremo
Criador, Deus em carne - e.g., cf. 1:15a, 2:9. Na seção em que este verso
se encontra, 1:9-20, ele dificilmente poderia ser mais enfático acerca da
divindade de seu Senhor.151 No entanto, um gen. de subordinação é,
com toda probabilidade, a melhor opção (veja discussão deste texto logo
no começo).

8. Genitivo de Associação [em associação com]


a. Definição
O substantivo no genitivo indica aquele a quem o substantivo com o qual
ele permanence associado. Este uso é um pouco comum, mas somente em
certas colocações (veja abaixo).
b. Chave para Identificação

Troca-se o de por com, ou em associação com.

c. Amplificação e Significância

O substantivo principal a que este tipo de uso genitivo é conectado é


normalmente prefixado ouv-, Esses substantivos compostos naturalmente

151 Um dos argumentos para a deidade de Cristo é ratificada aqui por um hino (1:15­
20). Hinos eram entoados para divindades, não para meros mortais. Cf., e.g., R. T. France,
"The Worship of Jesus-A Neglected Factor in Christological Debate?" VE 12 (1981) 19-33.
Genitivo: adverbial (associação) 129

emprestam a si mesmo à idéia associada. Também, alguns substantivos e


adjetivos já envolvem a idéia lexical de "em associação com" e assim, pode
tomar um genitivo de associação sem cuv- prefixado a eles.
Este uso tem peso exegético particular nas cartas paulinas, pois ele muitas
vezes explicitam algumas ramificações da formula kv Xpiotcã (visto ser
dito que os crentes estão em Cristo, por causa de sua conexão orgânica com
ele,152 eles agora se associam com ele de muitas e profundas formas).153

d. Ilustração

1) Exemplos Claros
Mt 23:30 ouk aaúxcôv kolvcouoI kv tu aípaxi xãv tTpo^qtüu154
não teríamos comungado com eles no sangue dos profetas
Este é um dos exemplos menos freqüentes envolvendo um substantivo/
adjetivo não prefixado por ocv-.

Rm 8:17 el õè T e K v a , K al KÀqpovópoi K Àqpovópoi pèu Geoü, o u y K À q p o v ó p o L


Ô€ XpLOTOÜ
mas se somos filhos, [somos] também herdeiros: herdeiros de Deus e
co-herdeiros com Cristo
O primeiro gen. (Geoô) pode ser ou possessivo (Deus deveria então possuir
os crentes) ou objetivo (o crente herda a Deus). O segundo gen., porém,
segue um substantiv ouv-, e a herança que o próprio se alegre também
em pertencer aos crentes por causa da sua associação com ele.

Ef 2:19 ecxè c u p iro l i x a i tcâu à y íc a u


sois concidadãos dos santos

Ef 5:7 pq oív yívecGe cuppéxoxoi aútúv


Portanto, não vos tomeis participantes com eles

Cl 4:10 'ApLOtap/oç ò auuaixpáÂutóç pou


Aristarco, prisioneiro comigo

Ap 19:10 Kal cueca epupooGev tcòv iroõcôv aúxou iTpooKuvqaai aúxop. Kal
Àéyei p o i, ‘'Opa pq oúuóouÀóç ooú e lp i
E eu cair diante dos pés [do anjo] para adorá-lo. E ele me disse, "Veja
não faças isso! Sou servo contigo"
A reação do anjo para com a veneração do profeta a ele foi muito dife­
rente da reação de Jesus quando da exclamação de Tomé, "Senhor meu
e Deus meu!" (Jo 20:28). Enquanto que o anjo a rejeitou porque ele e

152 E não só sua conexão legal ou forense: cf. especialmente Rom 5 onde ambas as
conexões (a forense e orgânica) são feitas.
153 Cf. É muito comum encontrarmos verbos compostos com a preposição ow- seguidos
por um dativo no corpus paulinum.
154 aütcôv é omitido em 0 E et pauci.
130 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

João eram iguais no serviço de Deus, Jesus a aceitou da parte de Tomé.


Cf. também Mt 18:29, 31, 33; At 19:29; Rm 16:3; Fm 24.

2) Exemplos Disputados
Fp 3:17 aun|J,Lpr|T<H pou y ív co Q c, áôeÀ.cj)oí
Tomai-vos imitadores comigo, irmãos
ANRSV traduziu "unam-se a mim no imitar" (considerando o gen. como
objetivo e o substantivo principal como implicando associação - i.e., "jun­
tem-se um ao outro"). E também possível (mas não muito provável) con­
sidere o gen. como associativo, nesse caso aquele que é para ser imitado
está somente implícito. O contexto seguinte, porém, parece deixar claro
que Paulo é aquele que é para ser imitado. A tradução NRSV deve ser
preferida.
Rm 11:34 T íç yàp eyvw vovv icupíou; qaútou êyéueto;
Porque quem conheceu a mente do Senhor; ou quem se tomou
conselheiro com ele?
Embora etimologicamente possível, o uso de oúppouÂoç tanto no grego
clássico quanto no grego koinê significa simplesmente "consolador," não
"conselheiro."155 O gen. deve ser considerado como objetivo ("quem tem
aconselhado a Deus"), o ser de pensamento ainda mais perspicaz, pois o
conselheiro hipotético não estar em igualdade com Deus, mas acima dele.
1 Co 3:9 Geoü yàp èopev auvepyoí
porque de Deus somos cooperadores
Aqui Paulo pode estar dizendo que ele, Apoio e Deus estão associado
um ao outro na obra do ministério.156 No entanto, é melhor ver um
elipse de "um ao outro" e ver 9co0 como um gen. Possessivo, (assim,
"somos cooperados [um com o outro], pertencendo a Deus").
Contextualmente, o argumento nesta seção é muito explícito: Paulo e
Apoio não são nada, mas Deus é aquele que comprou tanto a salvação
quanto a santificação (vv 5-7). Sintaticamente, há outros exemplos de
0i)v- substantivos prefixados tomando um gen. de associação implícito
enquanto que o gen. mencionado no texto funciona com outras
capacidades^57- cf., e.g., Rm 11:17 (co-participantes [junto com os judeus
crentes] da raiz); 1 Co 1:20; 9:23; Ef 3:6; 1 Pe 3:7. Assim, é provável
que o apóstolo não esteja reivindicando que ele e Apoio são
companheiros de Deus, mas seus servos.

155Contudo, muitos comentaristas o admitem simplesmente sem qualquer


questionamento (e.g., Cranfield, Romans [ICC] 2.590-91). Por outro lado, o BDF parece
assumir o oposto sem qualquer evidência (104, [§194.2]). Para ver alguns paralelos na
literatura grega antiga, cf. Heródoto 5.24; Aristófanes, na obra Thesmophoriazusae 9.21;
P Petr II. 13. 6.11.
156 Assim como Robertson-Plummer, I Corinthians (ICC) 58-59. Essa tese é
mencionada frequentemente na literatura exegética sobre essa passagem.
157 Cf. também At 21:30 para ver algo similar, ou seja, um genitivo subjetivo depois
de um nome com o prefixo ouv-,
158 Em 1 Ts 3:2 ambos os genitivos são usados: o de associação e o possessivo
("nosso irmão e cooperador de Deus"). Esse texto segue de perto as palavras e o
pensamento de 1 Co 3:9. Cf. também F11:7.
Genitivo: depois de certos verbos (objeto direto) 131

E. Depois de Certas Palavras

Há alguns usos do genitivo que não nitidamente não se enquadram dentro de


qualquer uma das categorias acima. Ou, se eles realmente se enquadrassem em uma
das categorias acima, eles estariam relacionados com uma palavra que não fosse um
substantivo. Estes constituem um grupo amplo e amorfo conhecido como o uso do
genitivo depois de certas palavras.

1. Genitivo Depois de Certos Verbos (como um Objeto Direto)


a. Definição

Certos verbos tomam um genitivo substantivo como objeto direto.


b. Chave para Identificação

Alguns verbos caracteristicamente tomam um objeto direto no genitivo. Estes


verbos comumente correspondem em significado a alguma outra função
do genitivo, e.g., separação, partitivo, fonte, etc. Os usos predominantes
podem ser agrupados em quatro tipos de verbos: sensação, emoçãoholição,
repartição, decisão.

Se todos os grupos de verbos fossem incluídos, eles poderiam se encaixar


em nove categorias. BDF classifica esses verbos em 10 categorias (uma das
quais, o gen. depois de certos verbos significando "encher, ser cheio de",
nós classificamos um [gen. [verbal] de conteúdo): 1) Verbos de repartição
ou participação e verbos com a idéia de um genitivo partitivo; 2) Verbos
significando "tocar, segurar"; 3) Verbos significando "esforçar-se, desejar"
e "alcançar, obter"; 4) Verbos significando "encher, ser cheio de" [que tenho
alistado em outro lugar]; 5) Verbos de percepção; 6) Verbos significando
cheirar; 7) Verbos significando "lembrar, esquecer"; 8) Verbos de emoção;
9) Verbos significando "governar, reger, sobrepujar"; 10) Verbos de acusar.159

c. Clarificação e Importância Semântica

Já tem sido apontado que esse genitivo objetivo direto geralmente implica
em uma das funções do genitivo. Isto, em parte, é a importância semântica
do genitivo objeto direto. Além disso, vários dos verbos que tomam o
genitivo objeto direto também o acusativo objetivo direto. Assim, quando
um autor tem uma escolha para o caso de seu objeto direto, o caso que ele
escolher para expressar sua idéia pode ser importante.

159 y eja g£>p 93-96 (§§169-78) para uma lista desses verbos. Em lugar de
apresentarmos listas e mais listas desses verbos em nossas notas de rodapé, o estudante
é aconselhado a consultar BAGD sempre que desejar saber mais sobre certo verbo, desde
que o genitivo é facilmente localizado no léxico.
132 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

d. Ilustrações
Porque esta é uma categoria tão ampla, e devido ao uso liberal de um bom
léxico facilmente revela este uso, somente uns poucos exemplos serão dados.

1) Sensação
Mc 5:41 Kpcmpaç rfjç x6lPÒÇ t o í ) t t c u ô ío u Aiyei aíiirj, TaÀiBa K oup
Tomando a mão da menina, disse: "Talitá cumi!",
Há uma nota de temura no gen., contrastado com o acus.: KpaTCG) +
acus. Normalmente indica agarrando o todo de ou abraçando
completamente (cf. Mt 12:11; 28:9; Mc 7:3; At 3:11), com freqüentes
conotações negativas tais como agarrar ou detendo (cf. Mt 14:3; 18:28;
Mc 3:21). Por contraste, xparéca + gen. é partitivo, com a implicação usual
de um toque gentil (cf. Mt 9:25; Mc 1:31).160
Mc 7:33 ircúoccç pij/ato ifjç yXtáooTiç autoO
depois de cuspir, ele tocou a língua dele
ènrropou naturalmente toma um genitivo objetivo direto (exclusivamente
no NT quando o significado é "tocar"161). A noção partitiva está imbu­
ída na força lexical do verbo.

2) Emoção/Volição
Lc 10:35 éTTi|ieÀr|9r|Ti, aútoü
cuide dele
lT im 3 :l et ziç CTTioKOTTÍjç ópéyeTcci, KaÀoO epyou ètuOupel.
Se alguém aspira ao episcopado, boa obra deseja.
Nada pode ser feito do gen. com èiuGupéa), pois ele sempre toma um
gen. objetivo direto no NT, exceto quando ele é seguido por um infinitivo
complementar. (A sua contrapartida no português seria: "ele é desejo
de uma boa obra.") ^

3) Compartilhar
Hb 12:10 ô õè cttI tò aupcjjépou elç xò pei;aÀa|klv irjç àyi.ÓTT|TOç aúioú
Pois eles [nos corrigiam] para o nosso benefício para sermos participan­
tes da sua santidade
Este é um exemplo do partitivo objetivo direto. (Falando de forma geral,
se um verbo puder tomar um gen. ou acus. objetivo, o acusativo será
usado quando o objeto é apreendido como um todo; O genitivo162 será
usado quando o objeto é apreendido em parte.163) A participação que os

160 Talvez uma influência das peculiaridades da língua, pois ytíp é freqüentemente
um nome genitivo. Assim, Hb 4:14 não se ajusta a esse quadro: o genitivo é usado,
embora o conservar firme a confissão seja presumivelmente abraçá-la totalmente (como
em Mc 7:3, 8; Cl 2:19; 2 Ts 2:15; Ap 2:13,14 - em todos esses exemplos temos acustivo).
161 O verbo pode também ter o sentido de "iluminar, acender", tomando sempre um
acusativo. (cf. Lc 8:16; 11:33; 15:8; At 28:2).
162 Ou, mais freqüentemente no NT, 4 k + genitivo.
Genitivo: depois de certos verbos (objeto direto) 133

crentes podem tem a santidade de Deus não é completa, mas derivada


e parcial. O gen. parece ser usado para refletir isto.1M
At 9:7 oi ôè Ayôpeç oi ovvoòe-úoineç amLÒ eiarr)Keioay èveoí, CKoiorcfç
pèu rfjç <J)toyrjç pr|õém õè Gecopoüuxeç.
Os homens que viajavam com ele pararam emudecidos, ouvindo a v m
mas nada vendo.
Parece haver uma contradição entre esta narrativa da conversão de Paulo
e sua narrativa em At 22, pois lá ele diz, "aqueles que estavam comigo.
. . não ouviram a voz. . ." No entanto, em At 22:9 o verbo áKOÚca toma
um acusativo objetivo direto. Sobre estas duas passagens, Robertson
declara: ". . . é perfeitamente próprio apelar à distinção nos casos na
aparente contradição entre (XKoúovTeç |ièy tfjç cj)Goví)ç (At. 9:7) e tt)v ôè
4>uvi|v oijk f|KOijaay (22:9). O caso acusativo (caso de extenção) acentua
a apreensão intelectual do som, enquanto que o genitivo (caso de
especificação) chama a atenção ao som da voz sem marcar o sentido. A
palavra àKOÚca em si possue dois sentido que cai muito bem na distinção
de caso, um 'ouvir', o outro 'entender'. 65
A NIV parece seguir esta linha de raciocínio: At 9:7 lê "eles ouviram o
som mas não viram ninguém"; 22:9 "meus companheiros vira a luz,
mas não entenderam a voz." O campo de significado para ambos aKoúw
(ouvir, entender) e (jjüjytj (som, voz), conjugado com a mudança de casos
(gen., acus.), pode ser apelado para harmonizar estas duas narrativas.

Por outro lado, é duvidoso que este seja o lugar onde repousa a diferença
entre os dois casos usados com (Íkoijgo no grego helenístico: o NT
(incluindo o escritores mais literários) está cheio de exemplos de aKoúw
+ genitivo indicando entendimento (Mt2:9; Jo 5:25; 18:37; At 3:23; 11:7;
Ap 3:20; 6:3, 5;166 8:13; 11:12; 14:13; 16:1,5, 7; 21:3) assim como exemplos
de <xkoÚ(j + acusativo onde pouca ou nenhurka compreensão,ocorrem167
(explicitamente em Mt 13:19; Mc 13:7/Mt 24:6/Lc 21,0; At 5:24;
1 Co 11:18; Ef 3:2; Cl 1:4; Fm 5; Tg 5:11; Ap 14:^), As excqçoes, de fato,
são aparentemente mais numerosas que a regra! ..

163 Cf. BDF, 93 (§169.2).


164 Há, contudo, um exemplo de |ieicíA.a|j.pávto tomando um acusativo objeto direto
no NT (2 Tm 2:6), embora isso seja um uso padrão fora do NT (cf. LSJ, s.v. pfTa/.ajiPáyu).
165 Robertson, Grammar, 506.
166 Ap 6:7 possui um paralelo com o acusativo!
167 Em alguns desses exemplos, o ouvir algo é indireto (por exemplo, ouvindo falar
de guerras [Mc 13:7 e paralelos]; de divisões [1 Co 11:18]), no esquema de Robertson,
um genitivo seria esperado. Outros exemplos que mostram a falácia desta aproximação:
na iminência de Jesus em relação ao ouvir e ao obedecer de sua audiência, cf. os textos
paralelos de Mt 7:24 (acusativo) e Lc 6:47 (genitivo). Compare com o brado dos anjos:
"Vem!", ao dispensarem os selos dos julgamentos (Ap 6:3, 5 tem o genitivo; 6:7 tem o
acusativo).
134 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Assim, embora como ela funciona nas narrativas da conversão, um apelo


a diferentes casos provavelmente não devem formar qualquer parte da
solução.368

4. Governar

Lc 22:25 ol PaoiÀc-íç xcâv è0v(T)u K u p ieú o tm uaútcòv


o s reis d o s g e n tio s d o m in a m sobre eles

Rm 15:12 « ra u q píCa toô ’Ieooaí, Kal ô àuLatápeuoç apxeiv è9v(ôv


Haverá a raiz de Jessé, e aquele que se levanta para governar sobre os
gentios

2. Genitivo Depois de Certos Adjetivos (e Advérbios)

a. Definição
Certos adjetivos (tais como açioç, "digno [de]") e advérbios normalmente
toma um genitivo "objeto". Em muitos exemplos o adjetivo/advérbio é o
verbo transitivo embutido, assim tomando um genitivo objetivo (e.g., "ele é
merecedor de X" significa "ele merece X") ou envolvendo uma idéia
partitiva.
b. Chave para Identificação/Amplificação
Assim como ocorre com o genitivo objetivo direto, você deve checar o BAGD
para vários adjetivos e advérbios ou BDF (98, [§182]) para uma lista. Na
realidade, muitos destes exemplos também se enquadram em algum outro
uso do genitivo bem como - o partitivo, objetivo, conteúdo, referência, etc.
No entanto, o fato que certos adjetivos, em toda a sua natureza, tomam
genitivo depois deles, dão a este uma categoria predicável e estável (desde
que um grupo fixo de lexemas esteja envolvido).169

c. Ilustrações
Somente pouquíssimas ilustrações serão dadas visto que se trata de um uso
facilmente descoberto através de um uso judicioso do léxico.

168 Ainda é muito razoável concluir que essas não apresentam visões contraditórias
sobre o que os companheiros de Paulo ouviram. A solução mais provável vê as várias
tradições que Lucas juntou (incluindo At 26:14) as quais eram oriundas de fontes
diferentes. Lucas compilou a informação de uma maneira conservadora, com o afinco de
preservar muito do seu teor original (onde tanto áKOÚw como (jxovq carregam diferentes
nuanças sua origem). Conseqüentemente, quem pensa que está vendo uma contradição
nas reticências lucanas, na verdade, está alterando drasticamente as tradições.
169 Não obstante, o NT quase não é tão rico quanto o grego clássico nesse uso.
Genitivo: depois de certos verbos (substantivos) 135

Mt 26:66 evoxoç Gaváxou èaxíu


Ele é réu de morte
Este é o equivalente de "Ele merece a morte," um gen. objetivo.

Lc 12:48 7roir|Oocç a£ia irA.Tyytôi'


fez coisas dignas de açoites

Lc 23:15 oôôèv Sçiou Gaváxou èaxlv TreTrpaypéuou aúxtò


nada digno de morte tem sido feito por ele
A frase ãÇioç Gaváxou também ocorre em At 23:29; 25:11; Rm 1:32.

Fp 1:27 áÇúcoç xou evayyclíov xoG Xpioxoü TTOÀixeúeaGe


de modo digno do evangelho de Cristo vivei

Cf. também Lc 7:6; 1 Co 6:2; Hb 9:7; 2 Pe 2:14.

3. Genitivo Depois de Certos Substantivos170


a. Definição
Um substantivo genitivo pode ocorrer, ainda que raro, depois de certos
substantives cuja natureza lexical requer um genitivo. O genitivo nestes
exemplos não se enquadra dentro de uma das categorias "padrão". Os
exemplos mais comuns envolvem dois genitivos ligados por Kaí, com a
idéia de "entre". Esta categoria é muito rara.
b. Chave para Identificação
Os estudantes devem conferir no BAGD caso haja dúvida.
c. Ilustrações
At 23:7 êyévexo oxáoiç xcôv Oapiaaíwv Kal EaôôouKaícuv
houve dissensão entre os fariseus e saduceus

Ap 5:6 kv péocp xou Gpóvou Kal xcôv xeooápuu Çg)oiu


Entre o trono e os quatro seres viventes
Cf. também Rm 10:12; 1 Tm 2:5.

170 A idéia da preposição "entre" é normalmente encontrada com a preposição


"imprópria" |iíxáÇu ou, em pelo menos uma ocasião, com ck (F11:23).
136 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

4. Genitivo Depois de Certas Preposições

a. Definição e Chave para Identificação


Certas preposições toma o genitivo depois delas. Veja o capítulo sobre pre­
posições para discussão. Para rever sobre quais preposições toma quais
casos, cf. e.g., Mounce, Basics of Biblical Greek, 55-62.171
b. Significância
Quando um genitivo segue uma preposição, você não deve atentar para
identificar a função do genitivo pelo caso usado só. Ao invés, consulte ou
BAGD ou o capítulo sobre preposições para o uso específico desse caso com
essa preposição. Muitos dos usos simples do genitivo sobrepõe os da
preposição + o genitivo (especialmente com ck + o gen.). Os paralelos, porém,
não são exatos: Há alguns usos simples do genitivo que não podem ser
duplicado com preposições e alguns usos de preposições + genitivo que não
encontram paralelo com o simples genitivo. Além, onde houver justaposição
de usos, não há usualmente justaposição de freqüência de ocorrências.

171 Quarenta das quarenta e duas "proposições impróprias" tomam o caso genitivo
(e.g., áxpi(ç), qj/npooOcv, eveica, ecoç, óijié, ttàtioÍov, wTcpávGj, ènoKcctw, Caso
tenha alguma dúvida, consulte um léxico.
O Caso Dativo
Panorama dos Usos do Dativo
Usos do Dativo Puro........................................................................................................140
1. Dativo de Objeto Indireto.................................................................................140
2. Dativo de Interesse (incluindo de Vantagem [commodi] e
Desvantagem [incommodi] ) ............................................................................... 142
3. Dativo de Referência/Respeito......................................................................... 144
4. Dativo Ético........................................................................................................ 146
5. Dativo de Destino..............................................................................................147
6. Dativo de Recipiente........................................................................................ 148
7. Dativo de Possessão......................................................................................... 149
8. Dativo da Coisa Possuída.................................................................................151
9. Dativo Predicativo............................................................................................. 152
10. Dativo em Aposição Simples........................................................................... 152

Usos do Dativo Locativo................................................................................................. 153


1. Dativo de Lugar.................................................................................................153
2. Dativo de Esfera.................................................................................................153
3. Dativo de Tempo (Quando?)............................................................................155
4. Dativo de R egra.................................................................................................157

Usos do Dativo Instrumental......................................................................................... 158


1. Dativo de Associação........................................................................................ 159
2. Dativo de Modo (ou Dativo Adverbial)......................................................... 161
3. Dativo de Meio/Instrumento........................................................................... 162
4. Dativo de Agência............................................................................................. 163
5. Dativo de Medida/Grau de Diferença............................................................166
6. Dativo de Causa.................................................................................................167
7. Dativo Cognato..................................................................................................168
8. Dativo de Material.............................................................................................169
+ 9. Dativo de Conteúdo..........................................................................................170

Os Usos do Dativo depois de Certas Palavras............................................................171


1. Dativo de Objeto Direto................................................................................... 171
2. Dativo Depois de Certos Substantivos.......................................................... 173
3. Dativo Depois de Certos Adjetivos................................................................ 174
4. Dativo Depois de Certas Preposições............................................................ 175

137
138 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Bibliografia Selecionada
BD F, 100-109 (§187-202); Moule, Idiom Book, 43-47; Moulton, Prolegomena, 62-64;
Porter, Idioms, 97-102; Robertson, Grammar, 520-44; Smyth, Greek Grammar, 337-53
(§1450-1550); Turner, Syntax, 236-44; Winer-Moulton, 260-77; Young, Intermediate
Greek, 43-54; Zerwick, Biblical Greek, 19-23 (§51-65).

Introdução
O dativo não tem tanta importância exegética quanto o genitivo. Contudo, isso não
anula o vital papel em decisões exegéticas. Pelo contrário, um exemplo particular
do dativo é comumente mais fácil em classificar do que certos genitivos. Isso se deve
a dois fatores: (1) as classes amplas do uso do dativo são, de forma geral, facilmente
distingüíveis; e (2) as orações construídas precisam de menos "manobras para
destrinchá-las", visto que o dativo já está prontamente relacionado a um verbo,
enquanto o genitivo é mais crítico e elíptico, já que geralmente se relaciona a um
nome.1
Ao mesmo tempo, há alguns exemplos de dativos com possíveis multi-funções (e.g.,
instrumental e locativo), e outros cuja classificação é mais sutil. Em tais casos, o
dativo assume maior significação.
Finalmente, o dativo simples já era obsoleto no Koinê, pois foi grandemente
substituído pelas preposições, especialmente kv + dativo.2 Isso não significa que o
dativo simples seja sinônimo de èv + dativo, o que ficará claro em nosso exame dos
vários usos desse caso.

1 Sobre mais distinções entre o casos "oblíquos", veja a introdução do caso genitivo.
2 Cf. BAGD, 258-61, esp. 261, §IV.4.a.
Dativo: definição 139

Definição do Caso Dativo

1. Dentro do Sistema de Oito Casos


"O dativo, locativo e instrumental são todos representados pela mesma flexão. Sua
distinção, contudo, quanto à função é muito mais clara - muito mais que a distinção
entre ablativo e genitivo".4 No entanto, não queremos dizer que, dentro do sistema
de oito casos, seja sempre fácil apontar o caso ao qual determinada flexão pertence.
Além do mais, poucas ocasiões acontecerão em que o mesmo caso terá uma dupla
função obrigatória. O sistema de oito casos não lida com dupla função, pois isso
envolveria dois casos diferentes. Assim, a definição de caso como uma questão de
função e não de forma, às vezes, pode ser de tal maneira rígida que parte do
significado pretendido pelo autor é excluída.5

O verdadeiro dativo é usado para designar a pessoa mais remotamente relacionada.6


Fala-se, então, de interesse pessoal, mostrando a pessoa para ou por quem algo é feito.7

Dessa forma, não queremos afirmar que o dativo não se relaciona com coisas, pois
há vários exemplos disso. No entanto, quando assim o fizer, ele terá força referente.
Em geral, quando o dativo é usado com pessoas, fala sobre o que é afetado pela ação.
Quando usado para coisas, refere-se à estrutura onde um ato ocorre.

2. Dentro do Sistema de Cinco Casos


Porém, visto que o dativo, instrumental e locativo partilham a mesma forma, nós os
consideraremos como ura caso ("caso" sendo definido como uma questão de forma e
não de função dentro do sistema de cinco casos).8 A idéia instrumental envolve meio
e geralmente responde a questão: "Como?" A noção locativa envolve lugar e responde
a questão: "Onde?" Assim, uma visão ampla do dativo (incluindo os usos dativo
puro, locativo e instrumental) sugere que ele responde a uma das três questões: A/
Para quem? Como? ou Onde?

3 A estatística do dativo é: 4375 substantivos, 3565 pronomes, 2944 artigos, 936


adjetivos, 353 particípios.
4 Dana-Mantey, 83.
5 Cf. "Os Casos: Uma Introdução" para uma discussão mais prolongada desse ponto.
6 BDF, 100.
7 Conforme Funk, Intermediate Grammar, 2.718.
8 Não insignificante mesmo que Dana-Mantey vacilem levemente aqui ao dizer que
"não podemos ignorar a forma inteira enquanto estamos na dimensão da sintaxe, pois,
com freqüência, deveríamos ser completamente incapazes de determinar qual é a função
pretendida, exceto para a forma" (Dana-Mantey, 86).
140 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Chamberlain falando sobre isso (embora sustente o sistema de oito casos), dá uma
grande dica exegética:
Quando o intérprete é confrontado com uma forma "dativa", ele deveria lembrar
que qualquer uma das três idéias básicas pode ser expressa por tal forma:
1. A idéia locativa
2. A idéia instrumental

3. O dativo verdadeiro
Uma boa passagem-teste é: TTj yàp èXiTÍôi eocóGripeu (Rm 8:24). O que Paulo quer
dizer: "somos salvos pela esperança" (instrumental), "na esperança" (locativo), ou
"para a esperança" (dativo)? Se o dativo for puro, a esperança estará, em certo sentido,
personificada e apontará para o fim da salvação, em lugar do modo de chegar-se a
esse fim. Se locativo, esperança será considerada como a esfera onde a salvação ocorre.
Se instrumental, a esperança será considerada como o meio usado para salvar o
homem. O único modo científico para decidir essa questão é apelar ao ponto-de-
vista paulino refletido no NT.9

Usos Específicos
Usos do Dativo Puro
Os subgrupos são usos específicos construídos sobre a idéia básica de interesse pessoal
e referência/respeito.

1. Dativo de Objeto Indireto


a. Definição

O substantivo dativo é aquele sobre o qual a ação verbal é formada. O objeto


indireto ocorrerá somente com verbo transitivo. Quando este estiver na voz
ativa,10 o objeto indireto receberá o objeto direto ("O menino chutou a bola
para mim"). Quando o verbo estiver na passiva, o objeto indireto receberá o

9 Chamberlain, Exegetical Grammar, 34-35.


10 Às vezes, na média (a média depoente é tratada como se fosse ativa).
Dativo: dativo pum (objeto indireto) 141

sujeito do verbo ("Abola foi lançada para mim "). O objeto indireto é o receptor
do objeto direto do verbo ativo,11 ou do sujeito paciente.

Suscintamente falando: "O nome ou pronome dativos serão a pessoa ou


coisa a quem será dado (ou recebido) o objeto direto (do verbo transitivo)
(ou [receberá o] sujeito passivo)".12

b. Chave para Identificação

Achave é: (1) o verbo precisa ser transitivo13 e (2) o dativo deve ser traduzido
por para ou a. Se isso acontecer é provável que seja objeto indireto.

c. Semântica e Esclarecimento

1) É muito comum traduzir um dativo por para ou a com verbo transitivo


(como o de com o genitivo). Há muitos usos dativos que realmente se
enquadrarão sob a ampla sombra do objeto indireto (e.g., os dativos de
interesse, ético etc.). O objeto indireto, portanto, é reconhecido
normalmente como o dativo mais comum. Assim como o de está para o
genitivo, a preposição para está para o dativo. Porém, a preposição para
com dativo é mais "desveladora" que o genitivo, visto que aquele já
está relacionado com verbo explícito (o genitivo virá com verbo
implícito). Conseqüentemente, os usos dativos serão mais facilmente
detectados que os do genitivo e, portanto, sua importância exegética
será mais fácil de determinar, visto que há menos ambigüidade (a
presença do verbo reduz a ambigüidade).

2) Na sentença: "Ele deu o livro para o menino", a parte em negrito é o


objeto indireto. Ele recebe o objeto direto, "o livro" do verbo (ativo)
transitivo, "deu". Uma sentença assim pode ser colocada na passiva: "O
livro foi dado ao menino por ele". Aqui, "O livro" vira sujeito (antes era
o objeto direto), mas "ao menino" continuará objeto direto. O sujeito
ativo "deu" tomou o agente da passiva de "foi dado". Nas sentenças, o
objeto indireto permanece o mesmo e recebe a mesma coisa
semanticamente, embora não gramaticalmente (i.e., recebe o livro cada
vez, mas não recebe a mesma parte da sentença cada vez).

11 Ativo partindo de uma perspectiva da nossa língua.


12 Williams, Grammar Notes, 15.
13 "Transitivo" provavelmente deveria ser definido de dois modos, um gramatical e
outro lexical. Gramaticalmente, um verbo transitivo é aquele que precisa de um objeto e
pode ser colocado na voz passiva. Lexicalmente, os tipos de verbos transitivos que tomam
o dativo objeto direto geralmente são esses que, no sentido restrito, movem objeto direto
de um lugar para outro. Assim, "dar", "pagar", "trazer", "falar", etc., naturalmente
ocorrem com objeto indireto, enquanto os verbos tais como "ter" ou "viver", não.
142 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

d. Ilustrações

Jo 4:10 Kal éõwKev av ooi üôwp CQ>\>


e ele te daria água viva.

Lc 1:13 f) vuvq oou TlÀiaápei '{cvvópcy ulóu o o i, KalKaÀéoeiç tò õvopa


airroEi Tiúávvr)u.14
Tua esposa Isabel gerará um filho para ti, tu chamarás o nome dele
João.

Tg 2:16 cíírri ôé tu; a ò to i ç é ; úpúv,'YTTáyete év elpijuri,9epjj,aíveo0e Kal


XopiáCeaôe, pq ôcôte ôé a m o í ç t a éniTijôcia to ú acopaxoç, t í xò
ôcJjeXoç;
mas algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e
não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, qual é o proveito?
Nesse exemplo, a declaração que segue é objeto direto, ou que o que é
recebido pelo dativo de objeto indireto.

2 Co 5:11 0ecâ TT€c()avepGÓpe0a


somos manifestos a Deus

2 C o 12:7 èôóOri p o i okÓàoi|j tf) oapKi


foi dado a mim um espinho na carne
Essa é uma oração na passiva, eõuKev poi OKÓA.om tfj oapKÍ. Para
outros exemplos desse tipo de passiva, cf. Mt 14:11; 21:43; At 7:13; 14:26,
Ef 3:8; Ap 6:2, etc.
Cf. também Mt 7:6; Mc 14:44; Jo 10:28; At 13:22; 1 Pd 4:19; Ap 16:6.

2. D ativo de In teresses (incluin do Vantagem [com m o d i] e


Desvantagem [incommodi])
a. Definição
O nome dativo indica a pessoa (ou, raramente, a coisa) interessada na ação
verbal. O dativo de vantagem tem a idéia de "para" ou "a", enquanto o de
desvantagem tem a idéia de contra. O primeiro ocorre mais que o segundo,
embora ambos sejam bastante comuns.

b. Chave para Identificação


Em lugar das preposições para ou a, use em benefício de ou no interesse âe com
o dativo de vantagem, e em detrimento de, para a desvantagem de ou contra
para com o de desvantagem. A tradução em benefício de etc. é útil para obter o
sentido do dativo, mas não serve como tradução final, visto que traz muita
complicação.

14 S ol não aparece em D A I 579 et pauci.


Dativo: dativo puro (interesse) 143

c. Semântica/Significado

• O Dativo de interesse é uma subcategoria do dativo de objeto indireto.


A diferença entre ambos é: no primeiro, o interesse é enfatizado,
enquanto no segundo não.
• A conotação do verbo usado freqüentemente é a melhor pista para se
identificar tal dativo em particular. Por exemplo, se eu disser éõtOKev
to pi.pA.LOV poi ['ele deu o livro para mim], é claro que a doação do
livro foi feita em meu interesse, e o sentido não mudaria drasticamente
se fosse dito que TÒ PiPàlov poi fiyopáoBq, o livro foi comprado por mim,
teríamos somente a idéia de interesse pessoal mais enfática.15 Como a
idéia do dativo é de interesse (i.e. pessoal, com referência à pessoa), o
estudante não deve pensar em termos que separem tal idéia dos outros
usos dativos. Quer dizer, todo uso dativo é também um dativo de
interesse em um sentido mais geral. Porém, o dativo de interesse
realmente envolve o uso mais específico do dativo, enfatizando
vantagem ou desvantagem.

• Visto que a idéia básica do dativo puro seja o interesse pessoal (i.e., com
referência a pessoa), alguém poderia deixar de pensar em tais categorias
como separadas de outros usos do dativo puro. Ou seja, cada uso dativo
puro é um dativo de interesse em um sentido geral. Porém, a categoria dativo
de interesse realmente envolve um uso mais específico do dativo
enfatizando vantagem ou desvantagem. Assim, e.g.,: "Isso para mim é
comida" seria um dativo de interesse lato sensu. No entanto, uma refeição
ruim significaria dativo de desvantagem, enquanto que a culinária diet
de minha esposa seria dativo de vantagem! Um dativo de desvantagem/
vantagem geralmente pertencerá também a alguma outra categoria, mas
quando determinada idéia for prominente, a mesma deverá ser
classificada como tal.
d. Ilustrações
1) Desvantagem (Incommodi)
Mt 23:31 papiupelie êourcoíç
testificais contra vós mesmos

1 Co 11:29 ó yàp èo0íwv Kal v Ívíov Kpípa eaorâ èaOíei Kal uíNei
Porque aquele come e bebe,come e bebe juízo sobre si

Fp 1:28 tÍtlç èotly aúióíç cvòf l; lç áiTwÀeíaç


o que para eles, é indício de perdição
Aqui o dativo indica tanto referência ("o é um sinal de destruição com
referência a eles") quanto desvantagem. A ênfase, porém, depende deste
(o que é um sinal de perdição em detrimento deles"). Em tais casos
onde ambos são verdadeiros, trate o termo como pertencente à categoria
mais particular, no caso desvantagem. O ponto de vista do apóstolo é

15 Dana-Mantey, 84-85.
144 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

levantado pelo seguinte genitivo: úpwv ôè oojtipíaç.16 Isto é, os inimigos


do evangelho não possuem sua destruição, mas são os infortunados
recipientes dela, enquanto os crentes possuem a salvação. O contraste
aqui não é meramente estilístico, envolve ricas sutilezas que são muitas
vezes ignoradas na tradução.
Hb 6:6 àvaotaupoôvtaç èautoiç tòv uiòv toü 0eoí>
crucificando para si mesmos o Filho de Deus
Cf. também 1 Co 4:4; Tg 5:3; talvez Mc 13:9 também.
2) Vantagem (Commodi)
1 Co 6:13 tà PpcópKta tf] KOtXía
a comida é para [o benefício de ] o estômago
2 Co 5:13 cite yàp èÇèatrpev, 9e<S eíte om(J)pouoÍ)|ieu, íiptv.
Porque, se enlouquecemos, é para Deus; e, se conservamos o juízo, é
para vós.

M t5:39 ootiç oe pa7Ú(e i elç xqu òcíiàv oiayóva aou, atpèijrov aútw Kal
tqv áAÂqv
Qualquer que te bater na face direita, vira para ele também a outra

Ef5:19 laÀoôvtfç èautoiç èv 4íaÂp.oíç K a l upvoiç K a l wôalç TTveupatiKalç,


aõovteç K a l (JfáA-Àovteç tfj Kapôía úpcôv tm Kupíw
falando mutuamente com salmos e hinos espirituais, cantando e
entoando de coração ao Senhor
Temos aqui um objeto indireto de vantagem para os recipientes, como
o contexto esclarece.

Jd 1 tolç èv 0ecò iratpl f)YaTrqpèvoiç Kal TqooC Xpiotcô tetqpqpèvoLç


KÀqtolç17
aos chamados, amados em Deus Pai e guardados para Jesus Cristo
Embora alguns tratariam o dativo como agência ("guardados por Jesus
Cristo") é provavelmente melhor considerá-lo como de vantagem. Veja
discussão sobre o dativo de agência abaixo.
Ap 21:2 ' l e p o u a a / i p K a iv q v etÔ ov . . . wç vúpxjjqv K eK o o p q p èv q v tcj) àvôpl
autfjç.
Vi a nova Jerusalém . . . adornada como uma noiva para o seu marido.

- 3. Dativo de Referência/Respeito [com referência a]


a. Definição
O dativo é usado em referência a algo apresentado como verdadeiro. Um
autor usará esse dativo para qualificar uma declaração que de outra forma

16 Este ponto foi perdido em muitos escritos como pode ser visto na maioria das
variantes de úpwv, tal como úpu’ em D1 K L P 075 et pauci, r)|i!v em C* D* F G et pauci.
17 A expressão TqooO XpLcnxô tctqpqpêvoLç é omitida em alguns MSS posteriores
(e.g., 1505 1611 1898 2138). '
Dativo: dativo puro (referência) 145

não seria verdadeira.18 Esse dativo pode ser chamado de dativo de referência,
delimitativo, qualificativo ou de contextualização. É um uso comum, pois o
dativo é o caso mais comumente usado para referência/respeito.19

b. Chave para Identificação

Para identificar, basta inserir "com referência a" antes do dativo. (Outras
opções são com respeito a, acerca de). Quando o substantivo dativo refire-se a
uma coisa, a sentença tipicamente não fará sentido, se o dativo for retirado.
Veja, v.g., em Rm 6:2: "Como viveremos ainda [para o pecado], nós os que
para ele morremos?"

c. Amplificação

O puro dativo, ao se referir especialmente a coisas, reduz o elemento de


interesse e a relação à referência ou estrutura. Freqüentemente é encontrado
com adjetivos. O dativo de referência, porém, pode também ser usado
ocasionalmente com pessoas (veja exemplos abaixo).20

d. Cuidado

Às vezes, é fácil confundir um dativo de referência/respeito com um de


esfera. Porém, as idéias resultantes freqüentemente têm significado oposto.
Em Ef2:l: óvtaç veKpouç...xccíç ãpapiícuç upcâv significa: "Embora
estáveis mortos na dimensão de vossos pecados" ou "Embora estáveis mortos
em referência a vossos pecados ", entre as duas traduções há grande diferença
(também Rm 6:2). (Noutras ocasiões, esfera e referência obscurecem-se
reciprocamente [como em Mt 5:8, discutido abaixo). Deve-se ter cuidado,
então, nas escolhas sintáticas que são feitas, não se deixando guiar
meramente pelo que parece se encaixar gramaticalmente, mas também pelo
contexto e a intenção do autor.

e. Ilustrações

Rm 6:2 oixiveç áireOávopet' xfj ápaptía, ttgíç eti (f\oo\iev kv aiitfj;


Como viveremos ainda, nós os que [com referência] ao pecado
morremos?

18 Alguns gramáticos distinguem dativo ético de dativo de referência. Para eles, e.g.,
"bonito para Deus" significa "bonito até onde diz respeito a Deus" (At 7:20). Outro modo
de ver esse fenômeno é considerá-lo como dativo de referência com nome pessoal dativo.
Trataremos os dois como categorias separadas, reconhecendo que muitos dos dativos
éticos formam um subconjunto do dativo de referência.
19 O acusativo dos usos próximos é o mais comum, contudo desfruta de uma segunda
posição quanto distante (no grego clássico, o acusativo vem primeiro). Também há um
genitivo de referência, e, de fato, um nominativo de referência (i.e., nominativas pendens).
20 Para a distinção entre os dativos de referência e ético com nomes pessoais veja
"Dativo Ético" abaixo.
146 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Rm 6:11 A.oyL(eo0e èauxouç etvai veicpouç pev xfj àpapxía, (wvxaç õe xcô 0ew
Considerai-vos estando mortos para o pecado, mas vivos para Deus
O paralelo entre xfj ápapxíq: e xtô 0ec5 sugere que ambos funcionam do
mesmo jeito. O primeiro é um dativo de referência ("mortos com
referência ao pecado") e o segundo, embora seja um nome pessoal,
também".

Lc 18:31 Trávia tà yeypappéva ôià xcôv Trpocjiqiojv xcô ulcô xoô ávGpcóirou21
todas as coisas escritas pelos profetas acerca do Filho do Homem
Aqui temos outros exemplos de dativo de referência com nome pessoal.
Embora t<ô uicâ não seja o objeto gramatical, é o objeto semântico —
i.e., aquele sobre quem se fala no texto.

At 16:5 <xl ... f-KKÂqoíai èaxepeoôvxo xrj iríoxei22


as igrejas cresciam em fé/com refência à fé

Mt5:8 paicápioi oi KaOapoi xfj Kupòía


bem-aventurados são os puros com referência ao coração
Esse poderia também ser considerado dativo de esfera ("puro de
coração"). Ambas são igualmente aplicáveis ao contexto.
Cf. também At 14:22; Rm 4:19; 1 Co 14:20; Fp 2:7; Tt 2:2; Tg 2:5; 1 Pd 4:6.

4. D ativo É tic o 23 (D ativo de Sen tim en to ) [a té onde estou


preocupado]
a. Definição

O dativo indica a pessoa cujo sentimento ou ponto de vista estão intima­


mente ligados à ação (ou estado) do verbo. Esse uso é muito raro.

b. Chave para Identificação

Em lugar da preposição para, parafraseie o nome pessoal dativo com até


onde estou (estas, está etc.) preocupado, como vejo, ou em minha opinião.24

c. Semântica e Esclarecimento

1) Alguém poderia chamar esse dativo de existencial ou de opinião, pois ele


fala algo que é verdadeiro (ou deve ser verdadeiro) somente com
referência àquele cuja identidade (nominal ou pronominal) é colocada
no dativo. Assim, ele não fala de absolutos, mas de um ponto de vista
particular.

21 Ilepl xoü Geoü substitui xtô ultâ em D (0) /13 1216 1579 et pauci.
22 O dativo xfj tTÍoxei não está em D.
23 Veja a seção anterior. É possível tratar este como meramente uma subcategoria do
dativo de referência.
24 Conforme Robertson, Short Grammar, 243.
Dativo: dativo puro (destino) 147

2) Esse uso tem algum parentesco com o dativo de referência. As diferen­


ças são as seguintes: (1) a referência normalmente envolve uma coisa,
enquanto o dativo ético sempre é pessoal; (2) o dativo pessoal de refe­
rência indica a estrutura (e, portanto, tende a ser adjetivo), o ético indi­
ca a pessoa cuja atitude está envolvida (e assim tende a ser subjetivo).

3) Essa categoria também tem parentesco com o dativo de interesse


(especialmente o dativo de vantagem). A diferença está na perspectiva.
Na sentença, toüto xò Ppwpa | í o i se o dativo for ético, a tradução será:
"Isto é comida até onde me diz respeito", se for dativo de vantagem, a
idéia seria "Isto é comida para mim".

d. Ilustrações

At 7:20 àoxeloç icj) 0eq>


formoso para Deus (= "formoso até onde Deus está envolvido")

Fp 1:21 êpoi yàp xò Çíjv Xpioxóç


Porque para mim viver é Cristo (= "Como encaro, viver é Cristo", ou
"Até onde me diz respeito, viver é Cristo")

Cf. também 2 Pd 3:14 (possivelmente).

5. Dativo de Destino

a. Definição

Este dativo assemelha-se ao objeto indireto, exceto porque aquele ocorre


com verbos intransitivos (especialmente ép/opai). Trabalha com a idéia de
"para" com verbos intransitivos. Há tipicamente uma transferência de algo
de um lugar para outro. Ele indica o ponto final do verbo, aonde este está
indo. Tal uso não é tão freqüente, sendo substituído no Koinê pelas
preposições explícitas (tais como êv, em, elç).

b. Chave para Identificação (e esclarecimento)

Basicamente, lembre-se de que essa idéia "para" em sua amplitude ocorre


com verbos intransitivos. O dativo com ep/opai vale para muitos exem­
plos.

c. Ilustrações

Mt 21:5 ó PocaiA.eúç oou ep^eicá ooi


o teu rei está vindo para ti

Lc 15:25 còç épxópeuoç qyYLoeu xí) oIkloc


Vindo, ao aproximar-se da casa
148 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Hb 12:22 TTpoaeÂr|/.ú0axc Eióv ôpei Kal iTÓA.ei 9eoü Çcôvxoç. . .K al p,upiáoLV


àyyéktov25
tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo . .. e a miríades
hostes de anjos
Nem todo dativo de destino é impessoal, como se pode ver pelo último
dativo usado aqui, pupiácnv' (àyyéXcov). Cf. também Mt 21:5 acima.

Cf. também Lc 7:12; 23:52; Jo 12:21; At 9:1; 21:31; Hb 11:6; Ap 2:5.

6. Dativo de Recipiente

a. Definição

Esse é um dativo que deveria ser comumente um objeto indireto, com uma
exceção: ele aparece em construções nominais (e.g., títulos e saudações).26
Ele é usado para indicar a(s) pessoa(s) que recebe(m) o objeto declarado ou
implícito. Tal uso não é comum.

b. Chave para Identificação/Semântica27

Basicamente, lembre-se de que esse é um nome pessoal no dativo que ocorre


em construções sem verbo. Tais construções ocorrem em dois tipos: (1) Títulos
e saudações onde não há verbo implícito; (2) Construções em uma sentença
onde o dativo se relaciona com uma forma nominal do verbo similar a um
verbo transitivo.

c. Ilustrações

At 23:26 KLaúòioç Auaíaç xcô Kpaxíaxa) TiyepófL Çt>qA.iKi xaípeiv.


Cláudio Lísias, a Félix, potentíssimo presidente, saudações.

1 Co 1:2 xq èKKA.qaía xoü 0eou xrj oilaq 4v KopívGw


à igreja de Deus que está em Corinto

Fp 1:1 irâam xolç àYtoiç


a todos os santos

25 Em lugar do dativo pupLoonv D* tem iiupíuv ayuav (corrigido para (rupiacm


ayicjv em D2), fazendo o Kaí ligar 0eoO com àyyíkwv, e ambos subordinados a ttoàci
(chegastes ao Monte Sião e à cidade do Deus vivo e das miríades de santos anjos).
2 Alguns preferem tomar o dativo em saudações como objeto indireto com verbo
implícito tal como ypácjjoo (como "Paulo escreve aos Coríntios..."). Um verbo implícito,
porém, não é mais necessário nas saudações do NT do que seria hoje.
27 Os dativos de destinatário e de recipiente são semelhantes, embora diferenciem-se
em dois aspectos: (1) o destino é tipicamente impessoal enquanto o recipiente, pessoal; e
(2) destino ocorre com verbos intransitivos, enquanto recipientes, em construções sem
verbos.
Dativo: dativo puro (possessão) 149

1 Pd 3:15 KÚpLOi' ôè xòu Xpioxòv àyiáoaxe kv xaiç Kapôíaiç úpcâv, èxoi|ioi


àei npo; àTOÀoyiai' nauxl xq> aíxoOvxt úpâç Àóyou iTepl xrjç kv
úpiv èLtTÍõoç
antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre
preparados para responder a todo aquele que vos pedir a razão da
esperança que há em vós.28
Cf. também Rm 1:7; 2 Co 1:1; G11:2; Jd 11.

7. Dativo de Possessão [pertencente a]

a. Definição
O dativo de possessão funciona como um genitivo de possessão sob certas
condições. Veja discussão semântica abaixo.

O nome dativo possui o nome com o qual se relaciona. Em outras palavras,


o dativo de possessão é aquele a que o sujeito do verbo de ligação pertence.
Isso ocorre com verbosde ligação como:elpí, yívopat eínrápxto. Ele possui
o sujeito de tais verbos. Esse uso não é especialmente comum.

b Chave para Identificação

Em lugar da preposição para, use a expressão 'possuído por' ou ‘pertencente a'.

As vezes (especialmente, se o dativo estiver na posição predicativa depois


de verbo de ligação), é bom considerar o dativo como tendo o sentido
equivalente a um nominativo sujeito e pôr o sujeito real no predicativo (e.g.,
trate como objeto direto). Por exemplo:

At 8:21 ouk eoxiv ooi peplç oúôè KÀfjpoç kv xcâ Àóyco xoúxu)
nem parte nem sorte nesse ministério pertence a ti
Essa construção pode ser vertida para: "Não tens parte nem sorte nesse
ministério". (O dativo toma-se o sujeito e o sujeito, predicativo — aqui,
como objeto direto).

At 2:43 'Eyívexo ôè iráoj) vjtuxt) <t>ópoç, iTolÀá xc xépaxa Kai arpe ia õià xcov
caToaxókjúu èyíuexo.
E veio temor sobre toda alma, e muitos sinais e prodígios eram feitos
pelos apóstolos.
A primeira oração poderia ser vertida para: "cada alma tornou-se
amedrontada". Mais uma vez, o dativo torna-se o sujeito e o sujeito,
predicativo (nesse exemplo, ele torna-se um adjetivo predicativo).

28Talvez seja "defendei-vos de qualquer um". A construção com Trpòç àTTOÂoyíav parece
ser o equivalente semântico de um verbo transitivo e, assim, traz implícito um objeto
indireto. Para um exemplo similar, cf. 1 Co 9:3.
150 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

c. Semântica
1) Em geral, a diferença entre objeto direto e dativo possessivo tem a ver
com o ato (como visto no verbo transitivo) e o estado resultantes (como
visto no verbo de ligação). Por exemplo, eòcúKev tò Pifi/uou poi ("Ele
me deu o livro") transforma-se em tò fhpÀíov èotí [101 ("o livro é
meu "\). 29
2) Nessa conexão, a distinção da força entre genitivo de possessão e dativo
de possessão pode ser analisada assim: "O genitivo será usado quando
a aquisição for recente ou a ênfase estiver no possuidorf...] e o dativo
[será usado] quando o objeto possuído for enfatizado".30 A razão para
tal distinção parece estar mais relacionada com o verbo do que com o
caso: o dativo de possessão é usado quase que exclusivamente com verbo
de ligação e o objeto a ser possuído é tipicamente o sujeito do verbo.
Conseqüentemente, visto que um estado e não um ato está em vista, a
ênfase naturalmente cai sobre o objeto e qualquer noção de aquisição
recente está ausente.

d. Ilustrações

Mt 18:12 T t ú|iiv òokcl; ikv yévritaí xivi áuSpcótru 'tKor.bv tTpópcrax


O que pensais vós? Se cem ovelhas [pertencessem] a um certo
homem

Lc 1:14 Kal ca ta i yapá ao i Kal àyaXXÍaaiç


haverá prazer e alegria para ti (="prazer e alegria serão vossos")

Jo 1:6 ôvopa aútcâ 'Imávvqç


O nome [pertecente] a ele era João (= "cujo nome era João")

Rm 7:3 èàv yé arpai àaôpl étépco


se for para outro marido (= "se for possuído por outro homem")31

Jo 2:4 Àéyei aútfj ó Iqaoôç, T í èpol Kal ooí, yúvai;


Disse-lhe Jesus: "mulher, o que para mim e para ti?"
Esse texto é problemático por várias razões, entre elas a classificação do
dativo. A expressão inteira é idiomática e tem sido abordada de várias
maneiras, como "Que tenho eu contigo?", "O que temos em comum?
Deixe me em paz!".32 Se essa construção for dativo de possessão legítimo,

29 Cf. Dana-Mantey, 85.


30 BDF, 102 (§189).
31 BDF classifica esse texto como uma "exceção" à regra que o dativo possessivo não
é usado para aquisição recente (Ibid.). Mas tal não é uma exceção ao padrão estrutural
do verbo de ligação + dativo possessivo. Além disso, como afirmamos acima, a razão para
o dativo não enfatizar, geralmente, a aquisição recente é a mesma usada com verbos de
ligação (muitos dos quais falam de estado, não de ação). O uso do dativo, em Rm 7:3,
para aquisição recente deve-se à força léxica de yívogai, não a qualquer confusão dos
casos. Winer (264) está correto quando sugere que com eipí a idéia é "pertencer a" e com
: '.'Ol- c l , " to r n a n d o -s e a p ro p r ie d a d e d e " .
Dativo: dativo puro (coisa possuída) 151

a idéia é "O que temos em comum?".33 Fora esse texto, ela ocorre em
Mc 5:7; Lc 8:28; e com fplv por èpoí, em Mt 8:29; Mc 1:24; Lc 4:34.

Cf. também At 8:21; 2 Pd 1:8.

8. Dativo de Coisa Possuída (uma categoria debatível) [quem


possui]
a. Definição

O substantivo dativo denota aquilo que é possuído por alguém (i.e., o nome
com o qual o dativo se relaciona). Esse uso é muito raro e, de fato, é debatível
se esse caso não passa de um simples dativo.

b. Chave para Identificação

Primeiro, lembre-se de que tal uso dativo é semanticamente oposto ao dativo


de possessão. Segundo, lembre-se de que com + dativo, muitas vezes, expressa
possessão no português. Terceiro, converta a preposição com na construção
quem possui antes do nome dativo.

c. Esta Categoria é Legítima?

Não há exemplos claros no NT com dativo simples, embora kv + dativo, às vezes,


ocorra nesse sentido (cf. Mc 1:23; Ef 6:2). Pelo menos, isso ilustra a diferença
aspectual entre o simples dativo e o dativo depois de uma preposição.

d. Ilustrações

2 Co 1:15 K al Tautr) tf) ireiTOlOquei èpouÀÓpr|U tipótepou rrpòç úpâç 'úSòcxv

E com esta certeza eu desejei ir ter convosco cedo.


Outras possibilidades são: esfera, meio, adverbial (modo).

Similarmente, At 28:11.34

32 Cf. BAGD, s.v. èyú; BDF, 156-57 (§299.3). Embora seja, muitas vezes, considerado
um semitismo, ele ocorre em todo o grego secular (conforme BAGD, ibid.; Smyth, Greek
Grammar, 341 [§1479]).
33 Conforme Smyth, Greek Grammar, 341-42 (§1479-80).
34 Às vezes, 1 Co 4:21; 15:35; Fp 2:6 são oferecidos como exemplos, mas tudo pode
ser explanado ao contrário.
152 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

9. Dativo Predicativo

a. Definição

O nome dativo faz uma afirmação sobre outro substantivo dativo, muito
parecido com aquilo que um nominativo predicativo faz.35 A diferença,
porém, é que com aquele, o verbo de ligação será um particípio (no dativo)
em lugar de um verbo finito. Essa categoria é muito rara.

b. Chave para Identificação: veja definição

c. Clarificação e Importância

Esse tipo de dativo é na realidade um tipo enfático de simples aposição no


dativo (enfático devido à presença da forma participial do verbo de liga­
ção).

d. Ilustrações

At 16:21 rplv . . .'PcopaíoLÇ ofiaiv


a nós . . . sendo romanos

At 24:24 AponaíAlr) tf) LòCa yuwhkI oíxjt) ’Iouôaía


a Drusila, sua mulher, que era uma judia

G14:8 éôouA.6ijaatç tolç <j)úoei |ir) ofioiv Geolç


servíeis a deuses que, por natureza, não o são

10. Dativo em Simples Aposição

a. Definição
Embora não seja tecnicamente uma categoria sintática,36 o dativo
(semelhante a outros casos) pode ser um aposto com outros substantivos no
mesmo caso. Uma construção apositiva envolve dois substantivos adjacentes
que recorrem à mesma pessoa ou coisa e têm a mesma relação sintática com
o resto da oração. O primeiro dativo pode pertencer a qualquer categoria de
dativo e o segundo será apenas uma explicação de quem ou o que é
mencionado. Assim, o aposto “pega carona" no primeiro uso do dativo.37
Esse uso é comum.

35 O dativo predicativo segue as mesmas regras que o nominativo predicativo em


termos de distinção entre sujeito e predicativo (e.g., o "sujeito" é articular ou pronominal).
Veja "Nominativo: Nominativo Predicativo" para discussão e note as ilustrações abaixo.
36 Assim, esta categoria poderia pertencer ao dativo locativo ou a grupos
instrumentais. Ela é alistada aqui por conveniência.
37 Para mais informações sobre simples aposição, cf. as seções sobre nominativo e
genitivo.
Dativo: dativo puro (esfera) 153

b. Ilustrações

Mt 27:2 iTKpéõcoKttv IIiA.dn;q> Tq> riyepóm


eles entregaram[-lhe] a Pila tos, o governador

Lc 1:47 T)yakkíao€V tò nveOpá pou ètrl tw 0etô tqj a G jrfjp L pou


Meu espírito se alegra em Deus meu Salvador

At 24:24 ApouaíiUi] tf) íõía yuvaiKÍ


a Drusila, sua esposa

Rm 6:23 kv Xpicraâ ’Ir)OOÔ Tüj Kupúo f]p(3u


em Cristo Jesus, nosso Senhor

Hb 12:22 TTpooeÀr|ÀÚ8aT€ Slwu õpei Kai TTÓÀei 9eo0 £c3vtoç;, ’IepouoaA.r]p


êiroupatnqi, Kai puptáatv âyyklorv
chegastes ao monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém
celestial, e a miríades de anjos
Esse texto também envolve dativos paralelos que não estão em aposição.
Não há dicas absolutas estruturais de como determinar se um caso é
aposicional ou paralelo. Necessita-se determinar em outras bases que
não sejam sintáticas.

Cf. também Mc 1:2; Lc 11:15; Jo 4:5; At 5:1; Ap 11:18.

Usos do Dativo Locativo


Os subgrupos aqui são usos específicos construídos sobre a idéia básica de aposição,
seja espacial, não-física ou temporal.

1. Dativo Locativo
Veja dativo de esfera.38

2. Dativo de Esfera [na esfera de]


a. Definição
O nome dativo indica a esfera ou dimensão em que a palavra com a qual se
relacionou ocorre ou existe. Normalmente essa palavra é um verbo, mas
nem sempre.39 Esse é um uso comum do dativo.

38 Não considerado até agora como uma categoria válida, distinta de esfera. Estou
incluindo seus títulos porque alguns usuários poderiam questionar a omissão. Minha
idéia é que esfera e lugar são simplesmente aplicações diferentes da mesma categoria -
uma figurativa, a outra literal. A única diferença é lexical, não semântica.
39 Em nossa visão, esfera e lugar são realmente a mesma coisa. A distinção léxica,
não-gramatical - e um nível de sutilezas assim - não é necessária de menção visto que a
exegese não é materialmente afetada por tal distinção.
154 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

b. Chave para Identificação

Antes do nome dativo coloque as palavras na esfera de ou na dimensão de.

c. Cuidado/Clarificação

Como já falado anteriormente, é fácil confundir dativo de referência/respeito


com o de esfera, embora a idéia resultante freqüentemente tenha o sentido
oposto. Em Ef 2:1, quer í)|iâç ovxaç veicpouç... xoâç àp.apxíaiç újicõv seja
"Embora estáveis mortos na dimensão de vossos pecados" ou "Embora estáveis
mortos com referência a nossos pecados” há uma grande diferença (como
também Rm 6:2). (Noutras ocasiões, esfera e referência obscurecem-se
mutuamente como em Mt 5:8, discutido abaixo). Deve-se ser cuidadoso,
então, nas escolhas sintáticas feitas evitando tomar uma decisão meramente
aceita pelo que parece se encaixar gramaticalmente melhor. O contexto e
intenção do autor devem ser verificados.

Em geral, é seguro dizer que o dativo de referência vê a palavra com a qual


o dativo relaciona-se como algo levemente separado do dativo, enquanto o
dativo de esfera vê a palavra com a qual se relaciona como incorporado dentro
da dimensão do dativo. Em Rm 6:2, v.g., Paulo usa o dativo de referência:
"Nós, que estamos mortos [com referência] para o pecado, como viveremos
ainda nele? Aqui, "Nós, que estamos mortos" está separado de "pecado".
Em Ef 2:1, vemos o dativo de esfera: "Embora estáveis mortos em [na esfera
de] vossos pecados". Aqui, "estáveis mortos" é incorporado dentro da
dimensão de pecado. Há exceções a essa regra geral, mas nessas passagens
que parecem violar tal "regra", a distinção entre referência e esfera também
parece estar mais obscurecida.40

d. Ilustrações

At 16:5 al ... èKKAxiaíai èaxepeoüvxo xrj lú aiei41


as igrejas cresciam na fé
Esse exemplo poderia também ser considerado um dativo de referência
("crescia com respeito à fé"). Ambas as nuanças são igualmente
aplicáveis.

Mt 5:8 paKápiOL ol Ka0apol if) Kapõíoc


Bem-aventurados são os puros de coração
Esse outro exemplo poderia ser igualmente considerado dativo de
referência ("puro com respeito ao coração").

40 A razão do obscurecimento ocasional é que referência/respeito enfatizam a idéia


concernente a. Esfera, por outro lado, enfatiza estrutura dentro da qual algo é feito. Em um
dado exemplo, essas duas dimensões podem misturar-se imperceptível e mutuamente.
41 D o m it e tf) m o r e i .
Dativo: dativo puro (tempo) 155

1 Pd 3:18 XpuJtòç corai; rrepl àpapTitúv èuaOev, õÍKaioç úirèp áôíiccav, ...
GavaTwBelç pèv oapKÍ
Cristo padeceu uma única vez pelos pecados, o justo pelos injustos,
morto, sim, na carne

Mt 5:3 ol tticox01 TCÍ> rrveupatL


os pobres em espírito
Aqui o dativo é praticamente equivalente a um advérbio, assim,
"os espiritualmente pobres".

Jo 21:8 tcôirA.oi.apiu) rjÀ0ov


vieram em um barquinho

Lc 3:16 Êyu) pev úõan paircííu) úpâç


eu vos batizo em água
Aqui uôom, como acontece, às vezes, com o dativo de esfera, parece
funcionar com uma dupla capacidade de obrigação — especificar o
lugar do batismo e o meio do batismo.
Cf. também Rm 4:19; Ef 2:1 (discutido acima); 1 Pd 4:1; Jd 11.

3. Dativo de Tempo (Quando?)


a. Definição
O nome no dativo indica o temo quando a ação do verbo principal é realizada.
O dativo rotineiramente denota ponto de tempo, respondendo à questão:
"Quando"? No sistema de oito casos, esse deveria ser locativo de tempo.42
Embora seja muito comum, tal uso foi acentuadamente substituído no Koinê
por èv + dativo.43

b. Chave para Identificação


Lembre-se de que o nome dativo expressa uma indicação de tempo.

42 Embora o tempo seja específico a partir da perspectiva do falante, isso não implica
que a audiência fosse particular a ele. Cf., e.g., Lc 12:20 (discutido abaixo); 17:29-30. Em
outros tempos, o dativo poderia ser geral ("naquele dia", "naquela hora"), a ênfase não
está no tipo de tempo da pergunta "Como?' que nem acontece com o genitivo, mas
simplesmente na idéia temporal de "Quando?'. Assim, o dativo de tempo parece agir
como um genitivo de tempo, uma vez que tais casos reais são extremamente raros.
A diferença, como vejo, é que o genitivo focaliza sobre o tipo de tempo e/ou tempos
durante o qual um evento estendido ocorre. O dativo, por outro lado, focaliza um ponto
de tempo onde um evento comumente instantâneo ocorre. Se esse evento é conhecido ou
antecipado como tal, o dativo ainda focaliza tal faceta. E igual a um aoristo (no sentido
de ação sumária) e a um genitivo ou igual a um presente (em que o evento é visto
internamente).
43 Esta não foi uma inovação do Koinê, pois év + dativo para tempo "já estava presente
na língua clássica" (BDF, 107 [§200]).
156 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

c. Importância/Semântica
O dativo de tempo distingue-se tanto do genitivo de tempo quanto do
acusativo de tempo. A maneira mais fácil para lembrar dessa distinção é
lembrar-se da idéia básica de cada caso. A idéia básica do genitivo (puro) é
qualidade, atributo ou tipo. Assim, este expressa tipo de tempo (ou o tempo
durante o qual algo ocorre). A idéia básica do acusativo é delimitação quanto
à extensão. Assim, o acusativo de tempo expressa extensão de tempo. A idéia
básica do dativo locativo é posição. Assim, o dativo de tempo expressa um
ponto no tempo. (Simplesmente lembre-se de que o dativo locativo é "um
caso em um ponto".)
d. Clarificação
Embora o dativo tenha amplamente a força de apontar, ocasionalmente ele
justapõe-se com o acusativo de tempo44 e raramente com o genitivo de
tempo 45

e. Ilustrações

Mt 17:23 Tf] xpítT) fpépq èyepBriGeTca46


[em um ponto no tempo] no terceiro dia ele será ressuscitado
Cada ocorrência de "o terceiro dia" com referência a ressurreição de
Jesus nos Evangelhos é colocado no dativo sem preposição. Cf. Mt 16:21;
20:19; Lc 9:22; 18:33; 24:7, 46.47

44 BDF sugere que os únicos exemplos certos do dativo usados como acusativo de
tempo ocorrem com verbos transitivos, sejam ativo ou passivo (108 [§201]), citando
somente Lc 8:29 (que pode ser explicado como um verdadeiro dativo, no sentido
distributivo: "em muitas ocasiões"); Rm 16:25. Mas cf. também Lc 1:75; 8:27; Jo 14:9; At
8:11; 13:20; e possivelmente Jo 2:20 (embora o uso do caso aqui seja complicado por
vários fatores. Veja a discussão no capítulo sobre o aoristo). (Muitos desses exemplos
usam "tempo" [xpóvoç] ou "ano" [eroç] como dativo.) É possível tomar pnx wpa, em Ap
18:10, como uma indicação da extensão, como é evidente pelo acusativo no códice A e em
uma dúzia de outros MSS. Contudo, o contexto sugere mais uma noção de "tempo dentro
do qual" (assim = genitivo de tempo) algo é feito.
Há várias razões para o dativo comportar-se assim: a atração para o ablativo latino
(BDF, 108 [§201]) e para o uso instrumental (como oposto ao locativo) do dativo (Conforme
Robertson, Grammar, 527) estão entre oponentes principais. Robertson certamente está
mais próximo da verdade. Cf. sua crítica a Blass em 528.
45 BDF afirma que o simples dativo nunca é usado para um "período dentro do qual"
(=genitivo de tempo) no NT, chamando-lhe de 'impossível", embora admitam que kv +
dativo, às vezes, seja assim usado (BDF 107 [§200]). Todavia, mesmo que seja muito raro,
até o simples dativo pode ser usado como um genivo de tempo (cf. Ap 18:10,17,19 [com
v. II. para cada texto])
4 Metà tpelç fpépaç é encontrado em D.
47 Pode não ser insignificante que essa expressão ocorra somente em Mateus e Lucas.
Marcos exclusivamente tem a expressão mais primitiva "depois de três dias" (cf. Mc
9:31; 10:34).
Dativo: dativo puro (regra) 157

Mt 24:20 tTpooeújceoSe ôè 'iva pq yéuqtai fi (])uyf| úpwv xeípcâvoç pilòè oappátto48


Mas orai para que a vossa fuga não aconteça durante o inverno nem no
sábado
Um contraste ótimo é visto aqui entre genitivo de tempo (xeipwvoí;),
indicando o tempo durante o qual algo ocorre, e o dativo de tempo,
indicando um ponto.

Mc 6:21 'H p ú õ q ç tolç y e v e o L O iç a tru o ü õ e iT T v o v e T r o íq a e v

Herodes n o seu a n iv e r s á r io preparou uma festa

Lc 12:20 T<XIJTT| T f ] VU KTL T f]V ij/ l jX q V OOU KTTK LTO Ô O LL 1 (XTíÒ 00Ü
[em um ponto de tempo] nesta noite te pedirão a tua alma49

G1 6:9 tò ôè Kcdòv TO LO U U Teç pq éy K aK côp ev , Koapcô y à p lô íco G e p ía o p e v


p q è K /m ó p evo i
não cessemos de fazer o bem, porque no momento próprio, ceifaremos,
se não desfalecermos
Embora com freqüência vejamos a tradução "no seu tempo" (ACF, ARA,
ARC), a construção dativa provavelmente implica algo como "só no
momento correto". 50

Cf. também Mt 24:42; Mc 12:2; 14:12, 30; Lc 9:37; 13:14,16; 20:10; At 12:6; 23:11; 2 Co 6:2.

4, Dativo de Regra [de conformidade com]

a. Definição

O substantivo dativo especifica a regra ou código que uma pessoa segue ou


o padrão de conduta ao qual ele se conforma. Este uso é raro.

b. Chave para Identificação

Antes do dativo coloque as palavras de acordo com, ou de conformidade com.

c. Clarificação/Semântico

(1) Esta categoria parece se encaixar no domínio mais amplo do dativo


locativo. Percebe-se uma semelhaça com o de esfera e o meio em seu aspecto.
De fato, há ocasiões quando um dativo de regra aparentemente funciona
com capacidade dupla de obrigação com um ou outro destes aspectos.
Porém, temos colocado o mesmo sob o grupo de dativo locativo porque ele

48 Eappátou é encontrado em D L M F 047 et pauci; oaPpáTWv em 094 (ambos são


leituras genitivas motivadas pelo paralelo com x« Lpwvoç); èv oappátu é encontrado em
E F G H 28 565 1424 et alii. Mas a leitura exposta do dativo tem apoio mais difundido e
mais antigo (K B K S U V W Y Z 1 A 0 II 2 Q f 1,13 et alii).
49 Veja a categoria "Indefinido Plural" no capítulo sobre "Pessoa e Número", para a
explicação da tradução acima (como oposto a "Nesta noite te pedirão a tua alma").
50 Esta é a única ocorrência do singular «mpcô lòlm no NT, embora o plural sempre
tenha esta força (cf. 1 Tm 2:6; 6:15; Tt 1:3, e cf. a RSV nesses lugares).
158 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

sugere limite - isto é, um "padrão" é uma medida dentro da qual algo


permanece.

(2) O termo dativo é lexicalmente classificado: é uma palavra que implica


algum tipo de padrão, regra, code de conduta, etc. (tais como e0oç, ’íyvoç,
kocvgW, e semelhantes). Também, muitos exemplos ocorrem com certos tipos
de verbos que também implica um código de conduta (tais como TTepimruéw
e OTOL^éa)).

d. Ilustrações

1) Exemplos Claros

At 14:16 etccaev m.vxa xk eOnq aopemoOai tocíç óôolç avxQv


Ele permitiu todas as nações andassem em os seus próprios caminhos
(= "de acordo com seus próprios caminhos")

G1 6:16 oooi xq) kccvÓvl xoúxtp axoixqaouoiu, eipqi/q èir’ auxouç


A todos quanto anda de acordo com este padrão, paz sobre eles

1 Pe 2:21 Xpioxòç eTTabev írrrèp úpcôv, úpiv ÚTro^ipiTávcav ímoypappòv Iv a


ètTaKoXou0r|oqxç xoíç l^ vcaiv auxoô
Cristo padeceu por nós, deixando-nos um exemplo, para que
seguíssemos em seus passos
Cf. também Lc 6:38; At 15:1; 21:21; Rm 4:12; 2 Co 10:12; 12:18; Fp 3:16.

2) Um Exemplo Improvável

G15:16 nvevpaxL TTtpnraxdxe Kai 1-niQvpíav oapKÒç ov pq xeÀéoqxe


andai pelo Espírito e não cumprireis o desejo da carne
O dativo weúpaxi, poderia ser interpretado variadamente. E possível
vê-lo como esfera ou meio. Embora haja uma colocação do dativo com
oxoLxéco em v. 25, é desnecessário postular, como alguns têm feito, este
como um dativo de regra. Isto é improvável por duas razões: (1) TTveüpa
não implica inerentemente regra ou padrão; (2) a força do contexto
imediato e de toda a carta aos Gálatas é contrária a isso: não é o padrão
do Espírito que capacita a alguém a resistir a carne, mas o poder do
Espírito. Paulo diz que a lei, qualquer lei, não pode fazer para se opor
às forças carnais interiores.

Usos do Dativo Instrumental


Os subgrupos aqui são usos específicos construídos sobre a idéia básica de meio,
embora alguns levemente se encaixem nessa categoria.
Dativo: dativo instrumental (associação) 159

1. Dativo de A ssociação (A com panham ento, Com itiva) [em


associação com]
a. Definição

O substantivo dativo indica a pessoa ou coisa a que se associa ou com que


se acompanha. Este uso é relativamente comum.

b. Chave para Identificação

Antes do nome no dativo coloque a frase em associação com.

c. Clarificaçâo

• Este uso do dativo só levemente pertence à ampla categoria de dativos


instrumentais. No entanto, esse é caso em que mais naturalmente essa
pertinência ocorre.51

• Freqüentemente, embora nem sempre, a palavra dativa se relacionará


com verbo composto envolvendo oúv. E o que ocorre especialmente em
Atos, e menos freqüentemente nas cartas paulinas. Por outro lado, nem
todo dativo antecedido de verbo prefixado com oúv- é dativo de associ­
ação (veja discussão de exemplos debatíveis abaixo).52

• A diferença entre o genitivo de associação e o dativo de associação é


simplesmente esta: o genitivo é usado com nomes (que começam com
ouv-) enquanto o dativo é usado com verbos (que são prefixado, muitas
vezes, com oúv-).

d. Cuidado

Embora haja uma relação próxima entre meio e associação, devemos ter
cuidado para distinguir um do outro. Na sentença, "Gamaliel andou com
seu amigo com uma bengala", "com seu amigo" expressa associação e "com
uma bengala", meio. A diferença, naturalmente, é: Gamaliel, para andar,
necessita da bengala, enquanto seu amigo é dispensável para que o mesmo
ande!

e. Ilustrações
1) Exemplos Claros
At 9:7 ol ôè àvôpeç ol auvoõeúovieç aúxcp
os homens que estavam viajando com ele
Um exemplo típico em que o prefixo verbal é oúv.

51 Dana-Mantey (88) sugerem um relacionamento ingênuo, embora improvável, entre


associação e instrumentalidade: "a segunda pessoa supre o significado da comunhão".
52 Cf. BDF, 103-4 (§193) para discussão desses tipos de verbos usados. Junto com
verbos oúv- , BDF menciona verbos prefixados com vapá, èirí, npóç, òiá, ktà., como
verbos cujos lexemas também trazem uma idéia associativa (tais como Koivcovéio,
eTepoÇuyéü), KoA.A.áco).
160 Sintaxe EjagéütméfMovo Testamento

2 Co 6:14 |
ít] yLueaOe eTepoÇuyoúuTeç tmoTOLÇ
não vos prendais a um jugo desigual [em associação] com os infiéis
Temos aqui um exemplo em que a raiz do verbo traz uma idéia
associativa.
Ef 2:5 ouueCwoTroíqoeu iqj XpuraO53
ele nos deu vida juntamente com Cristo
Hb 11:31 IlLcrtei/Paàp f] uópvr| oò auuaiTcUgTO to íç àueLOríoaoLV
Pela fé Raabe, a meretriz, não foi destruída com aqueles que eram
desobedientes
Tg 2:22 f] ttlotlç ouuripYeL tolç epyotç OCÚTOÍ)
fé coopera com suas obras
Aqui temos um exemplo incomum de dativo de associação com
substantivo impessoal. Todavia, mesmo aqui, t t l o t l ç e é p y o L ç são
personificados pelo autor.
Cf. também Mc 2:15; 9:4; Jo 4:9; 6:22; At 9:39; 10:45; 11:3; 13:31; 1 Co 5:9; 6:16, 17; Cl 3:1;
2 Ts 3:14; Hb 11:25; 3 Jo 8; Ap 8:4.
2) Um Exemplo Debatível
Rm 8:16 a ú ròt ò weCipoc auppapTUpfl Ttâ trueúpaTL T|uôv o t l êapev t c k v k 9eob
o próprio Espírito testifica juntamente com o nosso espírito que somos
filhos de Deus
O debate é, gramaticalmente, o Espírito testifica juntamente com nosso
espírito (dativo de associação), ou Ele testifica ao nosso espírito (objeto
indireto) que somos filhos de Deus. Se for o primeiro, aquele que recebe
este testemunho não é declarado (Será Deus ou os crentes? Se for o
último, o crente recebe o testemunho e, assim, é assegurado da salvação
pelo testemunho inerente do Espírito. A primeira opinião mostra a
vantagem de um verbo prefixado com oúv- que seria esperado na
companhia de um dativo de associação [o qual é usado na ACF, ARA,
ARC, etc.]).
Porém, há três razões pelos quais Trveúpem não deveria ser tratado como
associação: (1) Gramaticalmente, um dativo com avv- prefixado ao verbo
não indica necessariamente associação.54 Isso, é claro, não evita tal uso,
mas esse possibilita outras alternativas nesse texto. (2) Lexicalmente,
embora oup|iapTupéw originalmente tivesse uma idéia associativa, ele
se desenvolveu em direção a mero intensificador de pccprupéo). Isso
certamente é o que ocorre com outros textos do NT onde há dativo
(Rm 9:1).55 (3) Contextualmente, um dativo de associação não parece
sustentar o argumento de Paulo: "Qual status tem nosso espírito nessa
questão? Em si ele certamente não tem nenhum direito de nos testificar
que somos filhos de Deus".56

53 'Ev é lido antes de tcÔ XpLcraâ em (P46 B 33 et pauci.


54 Embora muitos dativos não-associativos sigam os verbos oúv- , ou sejam, são
impessoais (e.g., Lc 11:48; At 8:1; 18:7; Rm 7:22; 8:26; 12:2; Ef 5:11; Fp 1:27; 2 Tm 1:8;
Ap 18:4), dativos pessoais não estão sem representações (em 1 Cor 4:4 Ipaunâ é um dativo
incommodi depois de oúvoiõa. Em At 6:9, xcô 2xe4>ávw é objeto indireto depois de ouCr|xcu
[uma construção em que o objeto direto está somente implícito, mas cf. Mc. 9:10,16; Lc
22:231).
BAGD nota que bem cedo no sexto século a.C., "o prefixo avv- teve o mais alto grau
de consolidação" (s.v. auppaprupéco, 778).
56 Cranfield, Romans (ICC) 1.403 (itálicos originais).
Dativo: dativo instrumental (modo) 161

Em suma, Rm 8:16 fixa-se como um texto em que a segurança da salvação


do crente está baseada no testemunho inerente do Espírito. As
implicações disto para a soteriologia são profundas: Os dados objetivos
tão úteis quanto são não podem em si mesmos prover segurança de
salvação. O crente também precisa (e recebe!) um encontro existencial
contínuo com o Espírito de Deus a fim de obter esse conforto familiar.57

2. Dativo de Modo (Dativo Adverbial)58 [com, em (respondendo


"Como?")]

a. Definição

O dativo denota o modo como a ação verbal é realizada. Similar a muitos


advérbios, esse uso responde a questão: "Como"? (e muitas vezes por meio
de um "com" ou "em"). O modo pode ser uma ação adjunta, atitude, emoção
ou circunstância. Assim, um nome dativo rotineiramente tem qualidade
abstrata. Esse uso é relativamente comum,59 sendo suplantado pelo èv +
dativo (ou petá + genitivo) no Koinê.

b. Chave para Identificação

Coloque com ou em antes do dativo. Outra forma é tentar converter o dativo


em um advérbio (e.g., "com ação de graças" toma-se "graciosamente").
Caso isso aconteça, muito provavelmente ele será um dativo de modo.
(Note, porém, que nem sempre é possível converter esse dativo em um
advérbio).

c. Clarificação

A chave real é perguntar inicialmente se o nome dativo responde a questão:


"Como"?, e, então perguntar se o dativo define a ação do verbo (dativo de
meio) ou acrescenta cor ao verbo (modo). Na sentença: "Gamaliel andou
com uma bengala com um brilho no rosto". A expressão "com uma bengala"
expressa meio (ou meios), enquanto "com um brilho" expressa modo. Assim,
uma das maneiras de distinguir meios de modo é: o dativo de modo
tipicamente emprega nome abstrato enquanto que um de meio(s)
comumente, nome mais concreto.

57 Talvez o fato mais negligenciado no debate evangélico moderno sobre soteriologia


seja o papel do Espírito no processo.
58 Uma subcategoria do dativo de modo é o dativo cognato (discutido abaixo).
59 Se o dativo cognado for incluído. Muitos advérbios no Koinê devem ter começado
como um dativo de modo. E.g., eÍKfj, Kpucjjfj, À.á0pçc, ktL, mas considerá-los como
verdadeiros dativos seria anacrônico. No entanto, algumas palavras, tais como õrpooííx,
continuam oscilando entre as funções adnominais (At 5:18) e adverbiais (cf. At 16:37).
162 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Jo 7:26 TrappT|oía k a k c l
ele fala com ousadia (= ousadamente)

1 Co 10:30 el kyéh %ápLti peté/a)


Caso se participo [da refeição] com ações de graças (= agradecidamente)

Fp 1:18 eíxe -npofyáaci eíxe áÀT|0eía, Xpiaxòç Kaxayyékkcm i


Quer por pretexto quer em verdade, Cristo está sendo proclamado

Mc 14:65 ol vmrpéxai. pcnríopaoiv aúxòv l Àapou


os guardas o receberam com socos
Nesse exemplo um substantivo concreto é usado, mas força ainda é de
modo. A violência não era um meio necessário de "dar boas vindas" a
Jesus, mas descreve a atitude e as ações que acompanharam a ação.

2 Co 7:4 ínrepTrepi.aacúop.ai xfj Xa P? éitI Tráaq xf| 0Âú|/ei rípcâv60


eu transbordo com alegria em todas as nossas aflições

Cf. também Jo 7:13; At 11:23; 16:37; 1 Co 11:5; Ap 5:12; 18:21.

3. Dativo de Meio/Instrumento [por, por meio de, com]

a. Definição

O nome dativo é usado para indicar o meio ou instrumento por meio do


qual a ação verbal é cumprida. Esse é um uso muito comum, que abrange
uma das idéias básicas do dativo (ou seja, instrumentalidade).

b. Chave para Identificação

Antes do substanivo no dativo, coloque as palavras por meio de, ou


simplesmente com.

c. Amplificação

O substantivo dativo é tipicamente concreto, diferente de modo, onde o


substantivo é comumente abstrato. O nome no dativo é concebido como
impessoal. Porém, não precisa ser necessariamente assim. O dativo de meio
ainda é distinto do de agência pessoal de duas maneiras: (1) personalidade
não está em questão, e (2) meio envolve um agente que o usa (seja declarado
ou implícito).

d. Ilustrações

Mt 8:16 èCépaüev xà TTveúp.ocxa XóyCii


ele expulsa espíritos por [meio de] uma palavra

60 O códice B tem èv antes xfj XaPà-


Dativo: dativo instrumental (agência) 163

Jo 11:2 €K\iáE,aoaxouç iróõaç oaixoô xaíç 0p lÇlv aúxíjç


ele enxugou seus pés com seus cabelos

At 12:2 àveiÀeu õe ’IáKco(lov xòv àôeA.(j)òv 'Icoáwou paxaípn


e matou com uma espada,Tiago, irmão de João.

Rm 3:28 À.oyiÇópe9a ôiKmoüoGai tríoxet ávGputToy61


concluímos que uma pessoa é justificada pela fé

G12:8 ô yàp fuepyf|aaç Iléxpq) elç átToaxoÀqv xfjç uepLXopfjçèviípyqoev


K al épol elç xà eGvr)
Porque aquele que operou através de Pedro para o apostolado da
circuncisão também operou através de mim para os gentios
Embora Pedro e Paulo sejam pessoas, suas personalidades não estão
em questão: ao contrário, eles são apresentados como instrumentos nas
mãos de Deus.

Fp4:6 kv xauxl xfj Trpoaeuxf) Kal xfj ôeqaei pexà eij/apioxíaç xà alxrpaxa
úptòv ywupiÇéoGu npòç xòv Geóu
em tudo, pela oração e súplica com ações de graças, as vossas petições
sejam conhecidas diante de Deus.

Cf. também At 12:6; 26:18; 2 Co 1:11; 8:9 (a menos que seja a causa); Hb 11:17; 2 Pd 3:5;
Ap 22:14.62

+ 4. Dativo de Agência [por, através de]

a. Definição

O substantivo dativo é usado para indicar o agente pessoal por meio de quem
a ação do verbo é cumprida. Esta é uma categoria extremamente rara no NT,
assim como o era no grego antigo em geral.

b. Chave para Identificação, Estrutura e Semântica

(1) De acordo com a definição acima, se o dativo for usado para expressar
agência, o nome no dativo não deve ser somente pessoal, mas também deve
ser agente que pratica a ação. Existem muitas confusões entre estudantes
do NT sobre essa categoria. Em geral, fala mais sobre o uso dessa 'categoria'
do que de sua legitimação.63

61 Por níorei F G ler õià Tuaxetoç, uma v.l. que, pelo menos, confirma a noção de
meios.
62Jo 8:6 (xcâ ôaKtú/lco Kaxkypa^ev) proporciona um exemplo concreto de meios, embora
a perícope adulterae quase que certo não seja parte do texto original.
63 Mesmo pelos gramáticos, às vezes. Cf., e.g., Young, Intermediate Greek, 50 (seus
exemplos de Rm 8:14 e 1 Tm 3:16 são duvidosos; veja discussão destes textos abaixo);
Brooks-Winbery, 45.
164 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Há quatro chaves para identificação do dativo de agência: (a) Lexical: o dativo


deve ser pessoal, (b) Contextual: a pessoa especificada pelo dativo é retratada
como exercendo volição.64 (c) Gramatical: o único texto claro envolve verbo
passivo perfeito,65 como na expressão idiomática clássica.66 (d) Lingüística:
uma boa regra geral para distinguir entre o agente e meio é simplesmente:
o agente de um verbo na passiva pode se tomar o sujeito ativo de um verbo,
enquanto o meio normalmente não.67

(2) Quando o dativo expressa a idéia de meios, o instrumento é usado por um


agente. Quando agente é indicado, ele será usado como o que pratica uma
ação diretamente ou como o que usa um instrumento. Assim, um dativo de
meio(s) pode ser (e freqüentemente é) usado com pessoas, embora sejam
concebidas como seres impessoais (i.e., usado como instrumento por outro
alguém). Por exemplo, na sentença: "Deus me disciplinou por meio de meus
pais", "Deus" é o agente que usa os "pais" como o meio pelo qual ele realizou
algo. Os pais são, naturalmente, pessoas! Mas eles são concebidos como
impessoal no sentido que o foco não está em suas personalidades, mas na
instrumentalidade deles usados por um agente.

c. Como no NT Expressa Agência

A partir da nomeação do agente como o sujeito, há dois modos comuns


para expressar agência no NT: úiró + genitivo é usado para o agente último;
õitó + genitivo é usado para o agente intermediário. Por exemplo, em Mt 1:22
lemos que "Tudo isto aconteceu para que o que foi falado pelo Senhor (irrrò
Kupíou) através do profeta (òia toú TTpoíjirpoi)) se cumprisse". O Senhor é
o agente último, embora ele comunique sua mensagem através do profeta.68

Em suma, tal classificação é importante porque quando alguém ver um


dativo usado com pessoa e algum tipo de instrumentalidade estiver
implícito, ele deve procurar descobrir o agente que usa o instrumento
(pessoal).

64 Lembre que em G1 2:8 (notado acima no "Dativo de Meios") Pedro e Paulo são
tratados como instrumentos nas mãos de Deus; a vontade deles está sob consideração.
65 BDF (102 [§191]) pode ser muito pessimista ao ver Lc 23:15 como o "exemplo
genuíno" solitário no NT.
66 Veja Smyth, Greek Grammar, 343-44 (§1488-94), para uma discussão prolongada.
Smyth oferece a perspectiva que "a restrição usual do dativo para os tempos da ação
completa parece ocorrer devido ao fato de que se representa o agente colocando-o na
posição de ver a ação já completada à luz de sua relação consigo..." (ibid., 343-44 [§1489]).
67 Veja T. Givón, Syntax, 139, n. 7 (§ 5.3): "Pelo que conheço, não existe nenhum caso
claro de instrumento ou modo que se tome sujeito de orações simples/ativa". Cf. também
§ 5.3.4 (142) e § 5.3.5 (143). Mas Givón dá exemplos que parecem contradizê-lo, tais
como: "O martelo quebrou a janela" que ao ser convertido em passiva fica: "A janela foi
quebrada pelo martelo" (143).
68 A questão de agência com preposições será desenvolvida plenamente nos capítulos
sobre preposições e voz do verbo.
Dativo: dativo instrumental (agência) 165

d. Ilustrações
1) Exemplos Claros
Lc 23:15 oòôèu ã^ iou Bavcruou e o ú v ueTTpaY|j.évov atkc? 69
por ele
n a d a d ig n o d e m o rte foi feito
Como sempre é aparentemente o caso no NT, os únicos exemplos claros
envolvem verbo perfeito passivo.

Tg 3:7 nãou yàp (Jiúoiç 9r)pítúv . . . ôeôápccatai tf) (jmaei -cf) àvôpwTTÍvrj
p o rq u e to d o tip o d e feras . . . sã o d o m a d a s pela humanidade

Cf. também Jo 18:15; Rm 14:18;70 2 Pd 2:19 (se w-1 for pessoal) para outros textos possíveis.

2) Exemplos Debatíveis
Jd 1 tolç kv 0€(Á> iTccipl fiY airrp év o iç K al Tijoou XpioTG)TexqpripéuoLç
K/LT]TOLÇ71
ao chamados, amados por Deus Pai, e guardados por Jesus Cristo
Provavelmente é melhor considerar Trjoou X p L O iQ como dativo de
vantagem ("guardados por Jesus Cristo"). Mas se for agência, ele se
encaixa no padrão de um dativo depois de perfeito passivo.
1 Tm 3:16 w<J>0r| àyyk\c>\.ç
v isto por anjos
Este texto (assim como outros com w(f)0r| e verbos semelhantes) podem
ser interpretados variadamente: ou "ele apareceu a anjos" ou "visto por
anjos". Se o primeiro, o dativo seria recipiente (e o verbo na passiva
poderia ser percebido como meramente intransitivo).72 Se o último, o
dativo não se encaixaria no perfil de dativo claramente definível de
agência, ou contextualmente (nenhuma volição é requerida no ato de
ver) ou gramaticalmente (o verbo é aoristo, não perfeito).
G15:16 TrveúpatL iT ep m atelxe K al ém O upLav aapKÒç on pr) içÀéaryue
a n d a i pelo Espírito e n ã o satisfarei os d esejo s d a carn e
Tomar TT^eúpaiL como um dativo de agência é uma visão popular entre
os comentaristas,73 mas há dois problemas básicos com isso: (1) Este
uso é muito raro no NT (a menos que, naturalmente, aceitemos que
TTVcijpaTL em muitas ocasiões tenha o mesmo sentido pretendido aqui!);
(2) Tveúpocu não ocorre com verbo passivo, com exceção de um só perfeito

69 A adição de kv antes de <xí)to3 em DNX T 0211 /13 et pauci é um acréscimo posterior.


/0 Esses textos empregam um adjetivo terminando em - t o ç , como no clássico (Smyth,
Greek Grammar, 343 [§1488]). Porém, eles são passíveis de interpretações.
71 A expressão ’Ir|ooú Xpiorcô tetr|pr|pévoiç é omitida em alguns MSS posteriores
(e.g., 1505 1611 1898 2138). ‘ ^
72 Não deixa de ser importante a ocorrência de ox|)0r| no NT com um dativo simples,
o sujeito do verbo conscientemente inicia a manifestação visível. Em nenhum exemplo,
pode-se dizer que a pessoa(s) no caso dativo inicie(m) a ação. Noutras palavras, volição
repousa completamente no sujeito, enquanto o nome dativo é meramente um recipiente.
Cf. Lc 1:11; 22:43; 24:34; At 7:2, 26, 30; 13:31; 16:9; 1 Co 15:5, 6, 7, 8. (Os únicos textos
problemáticos são Mc 9:4 e seu paralelo, Mt 17:3; mas mesmo aqui a aparência de Elias e
Moisés não foi claramente antecipada pelos discípulos).
73 Cf., e.g., E. D. W. Burton, Galatians (ICC) 303; Hendriksen, Galatians (NTC) 216-17;
Bruce, Galatians (NIGTC) 245-46; Guthrie, Galatians (NCBC) 136.
166 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

passivo; ainda que todos os exemplos claros de dativo de agência no


NT ocorram com perfeito passivo. A implicação dessas considerações é:
Ele desmascara uma pressuposição de muitos comentaristas que a
personalidade distinta do Espírito era completamente reconhecida no
período apostólico primitivo. Ele apela a uma categoria possível à luz
das articulações teológicas posteriores. Mas uma pressuposição assim
é claramente uma questão inicial se os dados gramaticais estiverem
dificilmente do lado dessas articulações.74
Isto certamente levanta algumas questões que podem ser consideradas,
em parte, aqui: não afirmamos aqui que a distinção da personalidade e
deidade do Espírito é estranha ao NT, mas só que há uma revelação
progressiva dentro do NT, assim como existe entre os Testamentos. Desse
modo, nos livros mais antigos (tal como Gálatas) poderíamos ver a
personalidade do Espírito somente "através de óculos embassados".75
A matéria chamada teologia é sistematização dos textos sagrados sobre
determinado assunto, isso é feito porque a Bíblia não apresenta seus
temas de forma sistemática, mas de modo progressivo-revelacional. Os
livros da Bíblia devem ser examinados no seu contexto histórico.
Qual então é o uso desse dativo? Muito provavelmente, meio.76 Esta
classificação não nega a personalidade do Espírito Santo. Deve ser notado
que, em toda probabilidade, nenhum dos exemplos envolvendo irncúgaTi
no NT seria classificado como agência.77

5. Dativo de Medida/Grau de Diferença [por]

a. Definição
O dativo, quando seguindo ou precedendo um adjetivo comparativo ou
advérbio, pode ser usado para indicar a extensão da veracidade ou grau de
diferença que existe de determinada comparação. Este uso é bastante raro.
b. Chave para Identificação
Em lugar de inserir o vocábulo que como acontece com o genitivo de
comparação (as duas idéias são semelhantes, mas não idênticas),78 insira o

74 É interessante que todos os exemplos do NT de iraó + irveúqaTOc;, que, segundo essa


abordagem, indicam a personalidade do Espírito, ocorrem nos livros posteriores (cf.
Mt 4:1; Lc 2:26; At 13:4; 16:6; 2 Pd 1:21).
75 Há um paralelo com articulações sobre a deidade de Cristo: Somente nos últimos
livros Ele é explicitamente chamado 9eóç. As razões para isso certamente estão
relacionadas ao terreno monoteísta restrito do qual o NT surgiu. Como R. T. France
articulou, "era uma linguagem chocante, pois mesmo quando as crenças subjacentes já
eram firmemente estabelecidas, era mais fácil, e talvez mais político, expressar essas
crenças em termos menos diretos. A maravilha não é que o NT tão raramente descreva
Cristo como Deus, mas que em um contexto assim, ele o faz completamente" ("A adoração
de Jesus - Um Fator Negligenciado no Debate Cristológico?" VE 12 [1981] 25).
76 Como demonstraremos na discussão de cv irveúpocTi em 1 Co 12:13 (no capítulo
sobre as preposições), tratar (év) Tiveú|i.aTi. como agente causa outras dificuldades
teológicas e exegéticas.
7 rCi. Rm 8:13, 14; 1 Co 14:2; G1 3:3; 5:5, 18, 25; Ef 1:13; 1 Pd 3:18, todos dos quais
provavelmente são dativos de meio.
78 Ambos podem até mesmo ocorrer na mesma oração; cf. Hb 1:4 abaixo.
Dativo: dativo instrumental (causa) 167

vocábulo por antes da termo quantativo dativo. Tipicamente a fórmula no


grego será ttoA.A.03 (a palavra no dativo) + (J.âÀÂoy.

c. Ilustrações

Rm 5:8-9 exi ãpapxwÀSy õuxtou qpwy Xpiaxòç írrcèp riptôv àiiéQaueu. (9)
TroÀA.cá ouy páÃÂoy õiKaiGoBéyxeç vôv kv xcô aipaxi aúxoC aa)0r|oópc9a
ôl ’ aúxob (xxtò xqç ópyfiç.
sendo nós ainda pecadores, Cristo morreu por nós. Muito mais
[literalmente, "mais por muito"] agora, tendo sido justificados pelo seu
sangue, seremos por ele salvos da ira [vindoura].

Fp 2:12 í)TTr)Kot)aocxe . . . irollcô páÂÀou kv xfj áirouaía pou


obedecestes . . . muito mais na minha ausência

Hb 1:4 xoooÚxm Kpeíxxojy yeuópcyoç xuu àyyéA.cou


tendo se tomado tão melhor que os anjos
Um termo-chave em Hebreus é a superioridade do Filho. Em 1:4-14 o
Filho é contrastado aos anjos, com a implicação clara (feita explícita no
v. 8) que ele é Deus encarnado.

Cf. also Mt 6:30; Mc 10:48; Lc 18:39; Rm 5:10, 15, 17; 2 Co 3:9, 11; Fp 1:23; Hb 10:25.

6. Dativo de Causa [por causa de]

a. Definição

O substantivo dativo indica a causa ou base da ação do verbo. Este uso é


bastante comum.

b. Chave para Identificação

Antes do dativo insira a frase por causa de ou na base de.

c. Clarificação

Este uso do dativo é semelhante, mas não idêntico, ao dativo de meio(s).


(Às vezes, porém, é impossível distingui-los).79 O dativo de meio indica
como, o dativo de causa, por quê. O dativo de meio indica o método; o dativo
de causa, a base. Nem sempre é melhor traduzir o dativo de causa pela
expressão "por causa de", pois, no português, "por causa de" pode expressar
causa ou motivo. As duas idéias são similares, mas não idênticas. Desse
modo, ocasionalmente é melhor traduzir o dativo de causa pela palavra
"por" ou pela expressão "na base de". Em Ef 2:8, por exemplo, (xrj yàp
Xapixí coze aeauapéyOL õià TTiaxecjç), xq xápixi é a causa de nossa salvação

79 Isso se deve ao fato de que a causa última pode também, às vezes, ser o cumprimento
de uma ação.
168 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

(ôià TTLOTewç expressa o meio pelo qual isso ocorre). No entanto, seria melhor
traduzi-la pela expressão "pela graça" ou "com base na graça", em lugar de
"por causa da graça", visto que esta última frase poderia ser construída
para indicar somente o motivo de Deus, mas não a base de nossa salvação.

d. Ilustrações

Lc 15:17 nóooi píoBioi toô naipóç pou tTepLOoeúouxai apitou, éycò ôè A.ipd)
t wôe dnTÓA.A.i)poa;
Quantos trabalhadores de meu pai são fartos de pão, e eu aqui pereço
por causa de fome?

Rm 4:20 oú ôteKpí0q if) átTioiíç


ele não duvidou por causa de incredulidade

G16:12 póvov iva tcü otaupcô toü XpioTOÚ pq AicÓkmvtcu


somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo

Fp 1:14 . . . touç tTÀeíouaç tgõv àôeÀ^úu kv Kupíco TrenolGÓtocç coiçôeopotç pou


.. . muitos dos irmãos tomando ânimo no Senhor por causade minhas
prisões

Cf. também Rm 11:30-32; 2 Co 2:7; Ef 2:8 (discutido acima); 1 Pd 4:12.

7. Dativo Cognato80

a. Definição

O nome dativo81 é cognato do verbo ou forma (onde ambos, nome e verbo,


têm a mesma raiz) ou conceitualmente (onde as raízes são diferentes). Isto
não é comum.

b. Chave para Identificação

A chave, é claro, será a força cognativa do dativo. No entanto, outra dica é


lembrar-se de que o dativo pode usualmente ser traduzido como advérbio.82

c. Significado e Clarificação

A força do dativo cognato é primariamente enfatizar a ação verbal. Porém,


este uso dativo se encaixará, muitas vezes, em outra categoria dativa (em

80 Veja dativo de modo como uma categoria mais ampla da qual esse dativo faz parte.
81 Esse uso dativo, por definição, não ocorre com pronomes, visto que o significado
lexical da palavra dativa se relaciona com o do verbo.
82 Alguns dos exemplos abaixo não se encaixam nessa noção adverbial, mas são dativos
cognatos em um sentido mais lato.
Dativo: dativo instrumental (material) 169

particular, modo). A escolha do autor pela palavra cognata é uma indicação


de que a ênfase da ação do verbo é a idéia principal do dativo.

d. Ilustrações

1) Cognato em Forma

Lc 22:15 €tn.0upía èneBvprjoa


desejei com desejo
(= "ansiosamente desejei")

At 2:17 oi tipeopútepot úpcòv éinmnoiç êvuTTvaaoBqoov-ucn


os vossos velhos sonharão sonhos
O dativo aqui parece também funcionar como o objeto direto.

Tg 5:17 'l U í a ç . . . npoaeuxü Ttpoaqú^ato


Elias . . . orou intensamente

Ap 14:2 Ki0apq>ôcàu KL0apLÇóuTcou ta iç KiOápaiç (v.l.)


harpistas harpejando suas harpas
Não somente é o dativo cognato do verbo (particípio), mas também é o
nome genitivo! Cf. também Hb 8:10 e 10:16 para um fenômeno
semelhante (nesses exemplos, de nominativo cognato).83

Cf. também Mc 1:26; Jo 3:29; Cl 2:11; Ap 14:18.

2) Cognato em Significado
1 Pe 1:8 áyaÍAiâaOe Xa P%
regozijais com alegria

Ap 5:11-12 tÍkoiíocí (jxouqv- . . Âcyovxeç (Jxavf) p,eyáA.T)


ouvi uma voz... dizendo com uma grande voz

Cf. também Ap 5:2; 7:10; 8:13; 10:3; 14:7, 9.M

8. Dativo de Material
a. Definição
O substantivo dativo denota o material que é usado para cumprir a ação do
verbo. Este uso é bastante raro.

83 O dativo talç KiOápoaç é precedido por kv em quase todos os testemunhos gregos.


Assim, embora o exemplo acima seja esclarecedor, dificilmente é original.
84 Sua freqüência em Apocalipse se deve amplamente ao contexto semítico do autor.
Se ele estava pensando em hebraico e escrevendo em grego, porém, é uma questão à
parte.
170 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

b. Chave para Identificação e Clarificação

O nome dativo usualmente será uma palavra quantitativa (embora aplicações


metafóricas ocasionais sejam vistas). A diferença entre este uso e o de meio
tem a ver com tal item se é usado ou não como ferramenta. Se for uma
ferramenta, o dativo indica meio ou material. (Um escritor com tinta e uma
caneta. A tinta é o material; a caneta, o meio). A diferença entre este e o
genitivo de material é que o genitivo de material está relacionado com um
nome; enquanto o dativo de matéria, com um verbo.

c. Ilustrações

Jo 11:2 MapLàp . . . àXeítyaoa. xòv xúpiov púpq)


Maria . . . ungiu o Senhor com óleo
A noção verbal de unção sugere a aplicação de alguma substância a um
objeto. Assim, mesmo em At 10:38 ("Deus ungiu [èxpioev] a ele com o
Espírito Santo e com poder"), os dativos são apresentados como material.

2 Co 3:3 èyypappévq oú péLocvi


escrita não com tinta

Hb 2:7 ôó^q xcd TLpfj laxí-tfávwoaç aúxóv


com glória e honra, Ele o coroou

Cf. também Mc 6:13; Lc 7:38, 46; G1 6:11; Hb 2:9; Tg 5:14.

+ 9. Dativo de Conteúdo

a. Definição

O dativo denota o conteúdo solicitado pelo verbo encher. Este uso é debatível
no NT (De um lado, porque é difícil distingui-lo do dativo de material; de
outro, porque é extremamente raro).

b. Chave para Identificação

O dativo é uma palavra quantitativa relacionada com o verbo encher. De


fato, as diferenças-chave entre conteúdo e material são: (1) material envol­
ve uma palavra quantitativa, enquanto conteúdo pode ser qualitativo (ou
até abstrato); (2) conteúdo é especificamente relacionado com o verbo en­
cher.

c. Clarificação

Normalmente, o verbo encher, no grego, pede genitivo de conteúdo. Porém,


há possivelmente três exemplos no NT quando TTÀqpóco solicita dativo de
conteúdo. Deve-se notar, porém, que não há exemplos claros no grego bíblico
em que cv+ dativo indique conteúdo.85 (Desse modo, a interpretação popular
de TTÁqpofjOÚe kv TTueú|i(m em Ef 5:18 como "ser cheio do Espírito Santo"
Dativo: depois de certas palavras (objeto direto) 171

no sentido que o Espírito é o conteúdo com o qual alguém é enchido


provavelmente é muito incorreta).86

d. Ilustrações
Rm 1:29 iTeTTA.r|pco|iévou<; racrç aôucíq: ktà.
estando cheios de [com] toda iniqüidade, etc.

2 Co 7:4 tTeiTA.rípcjpoti tf) mxpaKÀqaei


estou cheio de [com] conforto

Lc 2:40 nAqpoúpeuou aotpia 87


cheio de [com] sabedoria

Os Usos do Dativo Depois de Certas Palavras


Há alguns usos dativos que não se encaixam nitidamente em categoria alguma. Estes
constituem o grande e amorfo grupo conhecido como uso do dativo depois de certas
palavras.

1. Dativo Objeto Direto

a. Definição

Um número de verbos toma o dativo como seu objeto direto. Também, deve-
se notar que tais dativos comumente se relacionam com verbos que implicam
relação pessoal. Assim, o significado dos verbos corresponde em sentido
com a idéia básica do dativo puro. Esta categoria tem muitas ilustrações.

b. Chave para Identificação e Clarificação

Veja BAGD, uma boa concordância, ou BDF para uma lista de verbos assim.88
Geralmente será óbvio quando o dativo for objeto direto. Mas visto que o
dativo normalmente se relaciona com um verbo em lugar de um nome, pode
haver confusão.

85 Abbott nota que "o uso de kv com lúripóco para expressar conteúdo com o qual
algo é cheio seria um uso sem exemplos" (Ephesians [ICC] 161). Veja esta discussão em
161-62 de kv irveúpaTt em Ef 5:18.
86 Esse texto será discutido com mais abrangência no capítulo sobre as preposições.
87 Locjnaç éuma leitura encontrada emX* A D 0 X I’ A A II f 1,13 Byz. Jáooc|)ía se acha
em X CB L W T 33 eí pauci.
88 Embora muitas gramáticas intermediárias alistem todos esses verbos, é nossa
convicção que as gramáticas desnecessariamente fazem duplicação com a abordagem
dos léxicos. Nossa abordagem é tentar não ultrapassar o domínio lexicológico à medida
do possível.
Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Uma boa regra geral é: verbos que tomam um dativo objeto direto podem
geralmente ser traduzidos por para/a ou em. Assim ÒTraKOÚcj pode ser
traduzido, "sou obediente a," õtaKOVCã pode ser "eu sirvo a," çú/aptotcô
pode ser traduzido como "sou grato a", tuotcÚm como "eu creio em". (E
preciso usar um pouco de imaginação com estes verbos, visto que seus
significados são normal e reciprocamente: "eu obedeço", "eu sirvo", "eu
agradeço", e "eu creio").

Outra maneira de observar os verbos que tomam dativo objeto direto é: a


maioria deles pode ser colocado em um dos seguintes grupos (todos os quais,
bastante incidentais, são termos usados com a idéia de discipulado: confiar
(e.g., tuarajco), obedecer (e.g., írrraKoúco), servir (e.g., ôuxKOuéco), adorar (e.g.,
Àccrpeixo), dar graças (e.g., eu/ttp toteio), seguir (e.g., àKoÀouOécn).

Significado

Já tem sido falado que esses dativos de objeto direto se relacionam com
verbos que implicam relação pessoal. Isso, em parte, reside na importância
do dativo objeto direto. Assim também, alguns dos verbos que tomam dativo
de objeto direto também tomam acusativo de objeto direto. Desse modo,
quando um autor tiver escolha de qual tipo de objeto direto, o caso que
escolher para expressar sua idéia será importante.

Ilustrações

Obviamente, uma vez que essa é uma categoria ampla, os exemplos


selecionados não refletirão possivelmente o uso de forma adequada. Tenho
escolhido um dos verbos mais importantes que toma tanto dativo objeto
direto quanto acusativo objeto direto (TrpooKDvéw).

1) Observações Introdutórias sobre IIpoOKiivéu) + Dativo Objeto Direto

Visto que o dativo é o caso de interesse pessoal, é fácil ver a idéia básica
quando um autor escolhe usar o dativo objeto direto de 'rrpooKUvetJ. A
idéia de interesse pessoal empresta a si mesma a relação pessoal, assim
deve ser significante que usualmente no NT, o dativo objeto direto é
usado com TTpooKUuéto quando a verdadeira Deidade é o objeto de
adoração, (cf. Mt 14:33; 28:9; Jo 4:21; 1 Co 14:25; Hb 1:6; Ap 4:10; 7:11;
11:16; 19:10; 22:9). A implicação, em parte, pode ser que Deus é um
Deus verdadeiro — com quem os seres humanos podem ter uma relação
pessoal. E, muitas vezes, quando a falsa deidade é adorada, o acusativo
objeto direto é usado (cf. Ap 9:20; 13:8, 12; 14:9, 11; 20:4).
Parece, também, que quando o dativo objeto direto for usado com
TTpooKuvétú para a adoração de uma/sisa deidade, a ênfase estará sobre
a relação pessoal envolvida (cf. Ap 13:4) porque o objeto de adoração é
uma pessoal real,89 ainda que não seja deidade verdadeira.
Ocasionalmente, o acusativo objeto direto é usado com TTpoaKUuéu
quando verdadeira Deidade é adorada. Exemplos assim podem implicar
Dativo: depois de certas palavras (nomes) 173

uma má concepção de Deus por parte do adorador (Jo 4:22) ou que a


adoração está distante de realizar-se (cf. discussão sobre Mt4:10
abaixo).90

2) Exemplos de npooKUvéco + Dativo


Hb 1:6 ò x a v òè m x/Uu e L o a y á y q x ò v x p a n ó x o K o v e lç T q y oLKOU|iéur|t\ lé y e i
Kal tTpooKuurioáTuoay aírccô Tráuteç ayyeÀot 9eoí).
E quando novamente introduz o primogênito no mundo [habitado],
diz: E todos os anjos de Deus o adorem.
Em Hb 1, o capítulo no qual o autor estabelece a superioridade de Cristo
sobre os anjos — uma superioridade pertencente somente a Deus — o
dativo objeto direto é usado para Cristo.
Mt 4:9 ra u x á a o i rráv ia õcáoco, k à v TTeoòu TTpoaKwr|ar)ç poi.
tudo isto te darei se prostrado me adorares.
Aqui, o diabo tenta Jesus para adorá-lo. Mas pelo uso do dativo objeto
direto por parte do evangelista, o diabo não está pedindo uma mera
homenagem, mas uma confissão que ele, o diabo, é Deus.
Cf. também Mt 2:11; 8:2; 14:33; 28:9; Jo 4:21; Ap 4:10; 19:4.
3) Exemplos de IIpooKUvécü + Acusativo
Mt 4:10 KÚpiov x ò v 9eóv aou npoaKuvriaeiç
O Senhor teu Deus adorarás
Jesus está combatendo o tentador com as Escrituras. Ele cita Dt 6:13,
que tem <])o|3r|9f|aTi e não TípoaKui'f|aeiç. Desse modo, o uso do acusativo
com TTpooKuvéu não é influência da LXX. Pelo contrário, parece que uma
aplicação pessoal desse texto ao tentador está sendo feita. Embora
somente o Senhor Deus seja o Deus verdadeiro, o diabo não terá
nenhuma chance de uma relação pessoal com ele, apesar de que o diabo
tenha a obrigação de como criatura relacionasse a Deus (cf. Fp 2:10 para
um tema similar).
Cf. também Ap 9:20; 13:8; 14:9, 11.

2. Dativo Depois de Certos Nomes


a. Definição
Poucos nomes tomam dativos depois de si. Novamente, a noção de interesse
pessoal sempre é vista. Esta categoria não é particularmente comum.

89 Até mesmo "a imagem da besta" é colocado no dativo em Ap 13:15; 16:2; 19:20.
Mas em sua primeira ocorrência, é "fez falar" (13:15) e assim parece ser pessoal.
90 Admitidamente, mais obras precisam ser escritas sobre os casos com irpooKuvéw. A
explicação dada acima é somente sugestiva e não pode lidar com todos os dados. Além
disso, não se manipula bem a navalha de Occam. Alguns dos textos mais problemáticos
são Lc 24:52 (acusativo); Jo 4:23-24 (intercâmbio entre dativo e acusativo); e a colocação
aparentemente caprichosa em Apocalipse. (Uma maneira de resolver o uso em Apocalipse
é tomar nota de objetos compostos: eles sempre são colocados no acusativo [tais como "a
besta e sua imagem"] mesmo quando o dativo é usado separadamente). Mas qualquer
que seja a solução final oferecida para o enigma sintático, a diferença entre os casos em
termos de relação pessoal (dat.) e extensão (acus.) precisa ser levada em conta.
174 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

b. Chave para Identificação

Esses substantivos são substantivos deverbais (i.e., são cognatos verbais, tais
como òtjjeiAérry; [ó^eílco], inrávTTiaiç [ímautácú]). Além do mais, muitas vezes,
esse nome encontra sua contraparte em um dos verbos que toma dativo
objeto direto: ÔLaKOtáa-ôiaKovéü), eújcapLaTLa-eôxapiatéco, etc.

c. Ilustrações

Mt8:34 nâaa t) ttÓâiç èÇfjlOev elç ÚTráutipiu tq> Tqaoú


toda a cidade saiu para encontrar-se com Jesus
O cognato verbal, imavraco, toma o que poderia ser chamado de dativo
de associação ou dativo objeto direto (cf. Mc 5:2; Jo 4:51).

1 Co 16:15 ôuxKováau toíç àyíoiç


serviço aos santos
Cf. também Rm 8:12 (ócpeLÀéTriç); 2 Co 9:11 (eúxapiatía).

3. Dativo Depois de Certos Adjetivos


a. Definição

Alguns adjetivos são seguidos pelo caso dativo. Mais uma vez, quando a
idéia de interesse pessoal aparecer, o dativo será usado. Essa categoria é
bastante comum.

b. Chave para Identificação

Realmente não há uma chave para identificação visto que esse é um grupo
amorfo: o grupo mais comum é com adjetivos de "semelhança" (i.e.,
correspondência) tais como opoioç, íaoç.91 Ainda há muitos adjetivos
pertencentes à categoria mais ampla do dativo de referência.

c. Ilustrações

Mt 13:31 ópoía èaxiv q PocaiÀeía tcôv oupaucôv kÓkkq otuátrecoç


o reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda

Rm 1:30 youeüaiu àuf i9f iç


desobedientes aos pais

Fp 2:6 oi)% àpTTayp.òt' fiyqoctTO tò eívca I ou 0eq>


não considerou o ser igual a Deus como algo a ser agarrado

1 Tm 4:15 Iv a aou f) upoKOiTT] (j)avepà rj uâaiv


a fim de que o teu progresso seja manifesto a todos

91 Cf. Robertson. Short Grammar, 240.


Dativo: depois de certas palavras (preposições) 175

Ap 2:18 ó ulòç toÍ) 9eoü . . . oi uóôeç aútou opoiot xa^K0^LP«v(4>


o Filho de Deus . . . seus pés são semelhantes ao bronze polido
Cf. também Mt 20:12; Jo 18:15; At 7:13; 26:19; Tt 2:11.

4. Dativo Depois de Certas Preposições


a. Definição e Chave para Identificação

Certas preposições tomam o dativo depois de si. Veja o capítulo sobre as


preposições para discussão. Para revisar quais preposições tomam dativo,
cf. e.g., Mounce, Basics of Biblical Greek, 55-62.

b. Importância

Quando um dativo for seguido por uma preposição, não tente identificar a
função do dativo somente pelo uso do caso. Pelo contrário, consulte BAGD
para o uso específico desse caso com essa preposição. Embora muitos dos
usos dos casos justaponham-se a outros usos preposicionais + dativo
(especialmente com kv + dativo), os paralelos são inexatos. Além disso, onde
houver uso justaposto, não haverá geralmente justaposição de freqüência
da ocorrência (e.g., embora tanto o dativo puro quanto kv + dativo sejam
usados para expressar esfera, a freqüência do uso preposicionado é muito
mais alta).92

92 Para uma discussão mais detalhada das diferenças entre caso simples e preposição
+ usos do caso, veja o capítulo sobre as preposições.
O Caso Acusativo
Panorama dos Usos do Acusativo

Usos Substantivais do Acusativo................................................................................. 179


1. Acusativo Direto Objeto...................................................................................179
2. Acusativo Duplo.............................................................................................. 181
a. Pessoa-Coisa.......................................................................................... 181
b. Objeto-Complemento.......................................................................... 182
3. Acusativo Cognato (Acusativo de Objeto Inerente).................................. 189
4. Acusativo Predicativo.......................................................................................190
5. Acusativo Sujeito do Infinitivo.......................................................................192
6. Acusativo de Objeto Retido........................................................................... 197
7. Acusativo Pendente (Accusativum Pendens)................................................ 198
8. Acusativo em Simples Aposição.....................................................................198

Usos Adverbiais do Acusativo...................................................................................... 199


1. Acusativo Adverbial (Acusativo de Modo).................................................200
2. Acusativo de Medida (ou Extensão de Tempo/Espaço).............................201
3. Acusativo de Respeito ou de Referência.......................................................203
4. Acusativo em Juramentos................................................................................204

Acusativo depois de Certas Preposições..................................................................... 205

Bibliografia Selecionada
BDF, 82-89 (§148-61); Brooks-Winbery, 45-59; E. Crespo, "The Semantic and Syntac-
tic Functions of the Accusative," In the Footsteps ofRaphael Kühner, ed. A. Rijksbaron,
H. A. Mulder, G. C. Wakker (Amsterdam: J. C. Gieben, 1986) 99-120; Dana-Mantey,
91-95 (§96); A. C. Moorhouse, "The Role of the Accusative Case," In the Footsteps of
Raphael Kühner, 209-18; Moule, Idiom Book, 32-37; Porter, Idioms, 88-92; Robertson,
Grammar, 466-91; Smyth, Greek Grammar, 353-64 (§1551-1633); Turner, Syntax, 220­
21, 244-48; Young, lntermediate Greek, 16-22; Zerwick, Biblical Greek, 23-26 (§66-74).

176
Acusativo: introdução 177

Introdução
1. O Acusativo no Grego Clássico
No grego clássico, o acusativo era empregado como "o caso oblíquo por exce­
lência"1. Esse uso deve-se a duas razões: (1) sem dúvida, foi o caso oblíquo mais
utilizado (até mesmo mais que o genitivo e o dativo);2 e (2) como o menos es­
pecífico dentre tais casos oblíquos, seu uso abrangia uma gama de circuns­
tâncias. Dada essa utilização, ele merece o apelido de o caso "sem marca" ou
o o caso oblíquo. Assim, outro caso só seria utilizado se houvesse alguma exi­
gência muito grande para tal.

2. O Acusativo no N T grego
Ainda que os gramáticos do NT grego pressupusessem a mesma situação para
esse corpus,3 as estatísticas mostram uma história bem diferente. Diferente do
clássico, no NT grego o nominativo é o caso mais usado (31% das formas de
casos) que o acusativo (29%). Além disso, no grego clássico, o acusativo geral­
mente excede em número ao genitivo e ao dativo juntos. Mas no NT, embora
haja mais acusativos que genitivos (25%) ou dativos (15%), a combinação dois
casos (40%) é superior ao uso do acusativo.
Qual a explicação para essas diferenças? Vários fatores parecem estar envolvidos.
(1) muitos dos corolários da língua naturalmente começaram a ser retirados à
medida que o grego clássico abria caminho para a supremacia do koinê,
tornando-se esta a língua do comércio para muitos estrangeiros. Assim, por
exemplo, embora mais abundante no grego clássico,4 os seguintes acusativos
são raros ou inexistentes no NT grego:5 o de endereço, o pendente, o de
exclamação, o usado em introduções, o apositivo ou o absoluto; (2) de acordo
com o espírito helenístico pela busca de clareza, as preposições tomaram um
papel decididamente mais proeminente no NT grego, i.e., onde um simples caso
(em particular o acusativo) teria sido usado em tempos remotos passou-se a
usar a preposição. Muitas destas tomaram um outro caso que não fosse o
acusativo. (3) a grande ocorrência do genitivo foi, aparentemente, gerada, em
parte, pela influência semítica (e.g., o genitivo "hebraico" ou atributivo).

1 Moorhouse, "The Role of the Accusative Case", 209.


2 Moorhouse (ibid., 211) observe que em "exemplos tirados de oito autores, varian­
do em tempo de Homero para Demóstenes, o número de acusativos excede até mesmo
o de nominativos sem exceção; e pelo uso do caso oblíquo em si, os acusativos exce­
dem em número os genitivos e os dativos juntos com apenas uma exceção (em
Tucídides)." Nossas comparações no parágrafo seguinte são baseadas nesse exemplo
representativo.
3 Cf., e.g., Robertson, Grammar, 466-67; Porter, Idioms, 88.
4 Ver Moorhouse, "The Role of the Accusative Case", 212-17, para ver exemplos.
5 Esses usos são o ponto-pé inicial que incitou os gramáticos clássicos a considera­
rem o acusativo como um caso sem marca (também são conhecidos como acusativos
independentes).
178 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

3. Definição Geral
Em suma, embora o acusativo pudesse, com justificativa, ser considerado o caso
padrão no grego clássico, é necessário ainda definir seu papel no NT grego. É
verdade que ele não possuía uma marca, pelo que seu uso como objeto direto
confirma. No entanto, para seus outros usos, havia uma ênfase semântica maior,
por isso não se pode simplesmente chamá-lo de caso indefinido.
Pelo contrário, despertaríamos menos debates se o descrevêssemos como o caso
da extensão ou delimitação. "O acusativo mede uma idéia com relação ao seu
conteúdo, escopo, direção".6 Ele é, antes de tudo, usado para limitar a ação de
um verbo quanto à extensão, direção ou alvo. Logo, ele freqüentemente respon­
de a questões como "Qual é a distância?"7 Em muitos aspectos, isso fluirá como
uma idéia indefinida.8 A força precisa do acusativo é determinada pelo seu
lexema e pela força do verbo.9

4. Relação com Outros Casos Oblíquos


Semelhante ao genitivo, no sentido em que ambos têm como parte da sua idéia
básica a limitação, o acusativo limita transmitindo a idéia de quantidade, enquanto
o genitivo, qualidade. Quanto ao dativo, o acusativo compartilha a primazia da
relação com o verbo, antes de qualquer outro uso. Contudo, enquanto o dativo
preocupa-se com a relação, situação ou cumprimento da ação do verbo, o
acusativo está preocupado com a extensão e o escopo da ação do verbo.

6 Robertson, Grammar, 468. Isso não abrange todos os usos. Robertson nos lembra
que Brugmann e Delbrück há muito tempo atrás "se desesperaram na busca por uma
única idéia unificada" (Grammar, 467). Com respeito, em grande parte aos anteceden­
tes históricos formadores do Koinê (no geral e ao do NT em particular), podemos ape­
nas descrever os vários usos do acusativo sem atentar englobá-lo em uma unidade
conceituai. Assim, a noção de extensão funciona bem com a maioria dos usos do
acusativo, mas certamente nem todos. Em particular, os usos adverbiais do acusativo
envolvem muitas exceções à noção de extensão.
7 Conforme Robertson, Grammar, 215-16.
8 Digamos ser esse o mais próximo ao significado não-afetado, ainda que haja aqui
muitas exceções.
9 Crespo, "As Funções Semânticas e Sintáticas do Acusativo", 100-101. Há algumas
exceções para isso, observando que, dependendo do tipo de verbo usado, o acusativo
pode ser muito mais definido que o genitivo ou dativo. Ele parece sugerir que a nuança
do objeto sintático é o significado não-afetado para o caso acusativo (115). Mas, desde
que seus estudos se restringiram ao grego homérico e à realidade sincrônica do pri­
meiro século A.C., isso nos previne em tomar o mesmo caminho.
Acusativo: substantivo (objetivo direto) 179

Q u adro 14
F req ü ên cia d e C asos no N ov o T estam ento G reg ow

Usos Específicos
As categorias do acusativo agrupam-se geralmente em tomo das seguintes classes
gramaticais: substantivo, advérbio e regido por certas preposições. Essa é uma dica
nem sempre explícita, embora seja útil.

Uso Substantivo do Acusativo


1. Acusativo Objetivo Direto
a. Definição
Nesse uso, o acusativo indica o objeto imediato da ação de um verbo
transitivo [direto], ou seja, ele recebe a ação verbal limitando a mesma a
ação verbal. Além de tão comum, esse uso é também freqüente. Portanto,
ao se encontrar um substantivo no acusativo, deve-se pensar em objeto
direto e ao se pensar em objeto, deve-se lembrar, quase sempre, de
acusativo.
b. Chave para Identificação: veja definição

c. Clarificação e Importância
Em primeiro lugar, perceba a relação do acusativo com o verbo transitivo.11
Este é usado na voz ativa. E possível, também, que alguns verbos estejam

10 A estatística quanto às formas do acusativo é a seguinte: 8815 substantivos, 5009


pronomes, 5889 artigos, 957 particípios, 2435 adjetivos (totalizando 23.105).
11 Nem todos os verbos são consistentemente transitivos ou intransitivos. Nem sem­
pre os verbos transitivos têm um objeto direto explícito. Serão abordados outros aspec­
tos a respeito dos tipos de verbos no capítulo sobre vozes do verbo.
180 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

na voz média ou até mesmo na passiva (esse será um exemplo de verbo


depoente) tomando um objeto direto (=O.D.). Segundo, além do acusativo,
outros casos também funcionam como O.D. (alguns verbos tomam o
genitivo ou o dativo como seu complemento verbal). Essa variação quanto
ao caso que representa o O.D. é de suma importância exegética (Note
quando um outro caso que não o acusativo for usado e não esqueça: o
acusativo é o caso sem marca quando funciona como objeto direto).
d. Ilustrações
Mt 5:46 èàv áyainíor|xe tovç áyaTrcôvTaç úpâç
se amardes os que vos amam
Assim como úpâç é objeto direto do particípio áya-câvxaç, àyamâvxaç
é objeto direto do verbo finito: àyairriarixe.
Mc 2:17 ouk fjÀGov KKÀfoai ôucaíouç àXXà ápapxcjXoóç
Eu não vim chamar justos, mas pecadores
Jo 3:16 fiyáirr|oev ó Geòç xòv KÓopov
Deus amou o mundo
At 10:14 ttjayov nâv koivòv Ktu axáGaprov
oiiô fTTc n c

Jamais comi coisa alguma comum ou imunda


At 14:24 ÕLeÀGóvxeç xr\v rhoiõíav
Atravessando a Pisídia
E possível, ocasionalmente, transformar um verbo intransitivo (como
epxopai) em um transitivo, utilizando uma preposição (tal como ôiá,
torna-se ÕLépxopai).12
Ef 2:7 'iva èvõcíipycai. . . tò òireppáMov nAoüxoç xt)ç xápLxoc autofi13
a fim de mostrar ... a suprema riqueza de sua graça
Tg 2:6 í)|ieiç õc f|xt|j.áaai6 xòv trxwxóv
Mas vós menosprezastes o pobre
Rm 8:28 xoiç àyccrrGknv xòv Geòv irávxa auvepyel [ò Geòç] elçàyaGóv14
Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus
(literalmente se lê: "Deus faz todas as coisas cooperarem para o bem
daqueles que amam a Deus".)
E difícil, às vezes, dizer se uma determinada sentença tem um objeto
direto. Nesse exemplo, essa dúvida é gerada por motivos textuais e
sintáticos relacionados ao verbo, ovvepyéw é um dos verbos que tem
uso transitivo e intransitivo. Se ó Qcóç for original, o verbo é transiti­
vo (e mvxa é acusativo objetivo direto). Uma vez que ò Gtóç é uma
expressão textualmente duvidosa,15 é melhor a leitura onde o mesmo
é omitido. Isso nos deixa com duas traduções possíveis: (1) "ele faz to­

12 Veja BDF, 83-84 (§150). BAGD chama-o de acusativo de lugar (s.v. ói.épxopai).
13 xòv ínTcppáAAovia ttXoüxov é encontrado em D1 E K L P Y Byz.
14 çp46 (-em 0 singular mv para Ttávxa.
15 ó Gfóç é encontrado em T46 A B 81 et pauci que, embora MSS formidáveis, são contra­
ditos por X C D F G 33 1739 e muitas outras testemunhas em uma região abrangente. Além disso,
uma leitura maior poderia facilmente ser motivada pela tendência dos escribas por clareza.
Acusativo: substantivo (duplo acusativo) 181

das as coisas cooperarem para o bem" ou (2) "todas as coisas coope­


ram para o bem". No primeiro exemplo o sujeito está implícito no ver­
bo e "Deus" é subentendido, pelo menos contextualmente, como o res­
ponsável pelo mesmo (como em v. 29). No segundo exemplo, návia é
tomado como o sujeito de um verbo intransitivo.16 Em ambos os ca­
sos, "é expressa verdadeira e bíblica confiança na soberania de Deus".17
E difícil analisar um verso como esse sem destacar dois outros itens:
(1) o bem que é realizado é especificamente para os crentes; e (2) o bem
se conecta com a conformidade de Cristo através do sofrimento (vv.
17-30). Dizer que (como é dito, com freqüência, até mesmo em círculos
não-cristãos): "Tudo cooperará juntamente para o bem", como se as
coisas agissem por si mesmas e o bem fosse o bem-estar humano, é
algo, dificilmente, paulino ou mesmo bíblico. Essa cosmovisão foi
corretamente ridicularizada por C. H. Dodd como o "otimismo
revolucionário".

2. Duplo Acusativo

Há dois tipos de construção com duplo acusativo - i.e., construções em que


um verbo toma dois acusativos. Como cada um possui carga semântica dife­
rente, é importante distinguir um do outro.

a. Duplo Acusativo de Pessoa e Coisa

1) Definição

Certos verbos tomam dois objetos (um é uma pessoa [=p] e outro é a
coisa [=c]). Como distingui-los? (1) O primeiro acusativo é a coisa; o
segundo, a pessoa.18 (2) a pessoa é o objeto afetado, enquanto a coisa
é o objeto efetuado. Esse uso é comum.

2) Amplificação e ilustrações

Era de se esperar que o acusativo de pessoa seguisse a um dativo e não


outro acusativo. Assim, "eu te ensino grego" significa também "eu
ensino grego a você."19 No grego, porém, certos verbos tomam dois
acusativos, e não um dativo de pessoa e um acusativo de coisa. Em
muitos exemplos a pessoa recebe a coisa, assim como acontece com o
dativo objetivo indireto que recebe um objeto direto (onde a pessoa é
considerada o objeto mais remoto). O verbo usado com duplo acusativo

16 Isso é possível, é claro, porque sujeitos neutros no plural regularmente tomam


verbos no singular. Para uma discussão do problema e apresentação de outras opiniões,
cf. BAGD, s.v. ouvcpycu; Cranfield, Romans (ICC) 1.425-29.
17 Cranfield, Romans (ICC) 1.427.
18 Cf. Moule, Idiom Book, 33; Winer-Moulton, 284-85.
19 Ao mesmo tempo, pode haver uma diferença real entre estes dois. Smyth sugere
que "Quando o dativo de pessoa é usado, alguma coisa é feita por..., não para ele..."
(Greek Grammar, 363 [§1624]).
182 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

(ou de pessoa-coisa) subdivide-se, em peios menos, quatro categorias


lexicais básicas.
a) Os verbos ensinar e lembrar
Jo 14:26 eKelvoç úpâç òiôáçe-i irávua
Ele vos [p] ensinará todas as coisas [c]

1 Co 4:17 oç úpâç àva\xvr\aei iàç óõoúç pou


O qual vos [p] lembrará os meus caminhos [c]
b) Os verbos vestir e ungir
Mt 27:31 èíjéõuoav ocútòv rf|v xAnpúõa Kai èvrõuoav edrcàv xà Lprma aòioô
Eles o [p] despiram de suas roupas [c] e vestiram suas próprias vestes
[c] nele [p]

Hb 1:9 cxpLoév oe. . . êlaiov


ele te [p] ungiu... com óleo [c]
c) Os verbos inquirir e pedir
Mt 21:24 ép(i)Tr|0(j) úpâç Kavw hóyov eva
Eu também te \p\ perguntarei uma coisa \cj

Mc 6:22 aliipóv pe ô kav 0éÀr)ç


Pede-me [p] o que [c] queres
d) Outros verbos com idéias causativas
1 Co 3:2 yáltt úpâç ètrónoa
Eu vos [p] dei leite [c] para beber

Lc 11:46 cfioptíCete t o u ç ávGpúnouç (t>opiia


Sobrecarregais os homens [p] com fardos [c]

b. Duplo Acusativo de Objeto-Complemento20

1) Definição
Essa é uma construção onde o primeiro acusativo é o objeto direto do
verbo finito, enquanto o segundo (seja substantivo, adjetivo, particípio
ou infinitivo) é o complemento do primeiro acusativo (M.T., parecido
com um complemento nominal). O complemento será de natureza
substantiva ou adjetiva. 21 Além de ser um uso comum do acusativo,
ele só ocorre em certos contextos.

20 Para um estudo mais aprofundado, veja D. B. Wallace, "The Semantics and


Exegetical Significance of the Object-Complement Construction in the New Testament,"
GTJ 6 (1985) 91-112. Essa seção resume os pontos salientes daquele artigo.
21 A palavra usada como objeto pode ser um substantivo, pronome, particípio,
adjetivo ou infinitivo.
Acusativo: substantivo (duplo acusativo) 183

Com semelhante particularidade, a primeira parte dessa construção


deveria ser chamada de "objeto da construção objeto-complemento";
e a segunda parte, "complemento da construção objeto-complemento",
ou simplesmente "o complemento de um objeto". 22
2) Dicas estruturais e semânticas
Esse uso é exegeticamente importante em muitos textos. Portanto, é
necessário saber identificá-lo e interpretá-lo. Não há chave para
identificação, entretanto vários aspectos da construção devem ser
notados:
a) O objeto direto que geralmente combina com o verbo formando uma
nova idéia possui outro acusativo como objeto (ou complemento).23

b) Similar ao duplo acusativo de pessoa-coisa, o acusativo de objeto-


complemento tem nuanças lexicais. Isto é, ele se relaciona,
lexicalmente falando, com um tipo particular de verbo.24 Todavia,
não significa que todo verbo que se enquadra nessa construção deve
ser classificado assim.25 Criaríamos problemas especiais na exegese,
se assim fosse, pois, não raramente uma questão textual crucial é
decidida com bases na seguinte escolha: estamos diante de um
acusativo aposicional ou objeto-complemento 26

22 Observe que a ausência do hífen indica o acusativo. O hífen (objeto-complemento)


refere-se à construção completa. Isso ocorre por causa das distinções derivadas da
semântica envolvida nessa construção. Assim, os acusativos objeto direto e predicado,
respectivamente, não são específicos o bastante, desde que tais características não podem
ser aplicados a outras categorias do acusativo. Para terminologia usada por outras
gramáticas, veja Wallace, "Object-Complement Construction", 93.
23 Conforme W. W. Goodwin, Greek Grammar, rev. por y C. B. Gulick (Boston: Ginn
& Co., 1930) 227.
24 Ente os verbos no NT que podem tomar objeto-complementos, citamos: àyiáQio,
ctyco, aiTÉQ, àvaipé(|)co, àiroõeLKinjpi, ám)lÚG), doToaTéllo), yeúopai, yLvexjKO), õcxopoci.,
ÔLÔGqn, õokcw, èyeipcú, èicflálla), éidéyü), évÔ€iKvu|ii., èiriõcÍKVupi, CTiKaÀco), eèpíOKU,
’éxw> TiyéopaL, 0(1.0), 0€O)péo>, ixavóo), 'íorr|pL, KaGíaTTpi, Kaléo), KT|púooo), Kpívw, lapfSávo),
léyo), loyí(opca, vopíÇa) (contra BDF, 86 [§157] and Robertson, Grammar, 480; cf. 1 Co 7:26;
1 Tm 6:5), olôa, ôpoloyéo), òvopá(o), ôpáo), irapalap(3ávco, irapéxu, irapíatripi., ircíGco,
ircpiáyo), iucjtcÚo), iroiéo), irpoopí(o), Trpoo(j)épo), irpoiíGripi., irpoxei.píÇo), auvírpi,, owíoxripi
(ouviatávco), tíGripi, WTOKpívopai., únovoéo), úvjróco, (jiáoKU, xp^patíCo). Para uma lista
mais completa, veja Wallace, "Object-Complement Construction", 96, n. 23.
25 Veja E. V. N. Goetchius, The Language of the New Testament (New York: Charles
Scribner's Sons, 1965) 141. Alguns verbos no NT, entretanto, regular ou quase
exclusivamente tomam objetos-complementos (e.g., fiyéopai, óvop,á(w, 4>áaK0)).
26 Textos para debates, cf. Mt 27:32; At 11:20; 13:6, 23; Rm 10:9; 13:14; Fp 3:18; Cl 2:6;
1 Pd 3:15; Ap 13:17.
184 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

c) Essa construção é marcada pela presença de elç ou còç antes do com­


plemento, ou eivai27 entre os dois acusativos. Assim, em 1 Co 4:1,
Paulo diz, "importa que as pessoas nos considerem como servos de
Cristo" (fpâç Àoyi(éo0G> avGpcoiroç a>ç úirnpétaç Xpioioü).28
Ainda que faltem esses elementos, deve-se normalmente traduzir a
construção usando uma das seguintes expressões entre os dois
acusativos: "como", "ser", ou "a saber".
d) Freqüentemente, o complemento é um adjetivo. Quando esse for o
caso, ele é sempre um adjetivo predicativo. O objeto é, nesses casos,
usualmente articular.

3) Identificação e Semântica dos Componentes


a) Identificação dos Componentes
A identificação dos componentes na construção nem sempre é dada.
Embora o objeto normalmente venha primeiro, cerca de vinte
porcento dos exemplos invertem essa ordem. (Por exemplo, Paulo
diz em Fp. 3:17: "vocês nos têm como um modelo" [?x6t€ tÚttov
ripac].) É fácil determinar, pois a construção objeto-complemento é se­
manticamente equivalente à construção nominativa sujeito-predicativo.29
Isso acontece devido à natureza implícita da claúsula nominativa
sujeito-predicativo.30 Assim, os princípios usados para distinguir o
sujeito do predicativo podem igualmente ser usados aqui.31 Espe­
cificamente:
• Se um dos dois for um pronome, ele será o objeto;
• Se um dos dois for um nome próprio, ele será o objeto;
• Se um dos dois for articular, ele será o objeto.32

27 Quando o infinitivo está presente, é igualmente possível chamar um acusativo


de sujeito do infinitivo e o outro, um acusativo predicativo. Para uma discussão da se­
mântica de tais construções, veja "Sujeito de Infinitivo" e "Acusativo Predicativo."
28 Deve-se observar, entretanto, que nem todo exemplo de wç ou fie com um se­
gundo acusativo indica uma construção objeto-complemento (cf., e.g., Mt 9:38; Rm 6:22;
2 Jo 10).
29 Para provar, veja Wallace, "Object-Complement Construction," 101-3.
30 Há uma diferença significativa entre construções NS-NP e objeto-complemento.
Enquanto no primeiro, a equação geralmente indica um estado ou classe, no último o
relacionamento é freqüentemente uma relação de progresso em direção a um estado.
Compreendamos isso não é como quaisquer diferenças inatas nas respectivas
construções, mas ao controle do verbo. Assim, com os verbos fazer, enviar, apresentar
etc., o objeto torna-se o complemento (e.g., èiToír|cev' tò uôwp olvov em Jo 4:46).
31 Veja o capítulo sobre o caso nominativo e o nominativo predicativo, para mais
detalhes.
32 A hierarquia entre estes elementos parece ser a mesma da construção NS-NP:
pronomes têm prioridade, seguidos por, aparentemente, nomes próprios, então
substantivos articulares. Cf. At 5:42 para um exemplo em que o nome próprio é a
segunda colocação, ainda que o substantivo articular seja o complemento.
Acusativo: substantivo (duplo acusativo) 185

b) Semântica dos Componentes


Em geral, diferente da identificação, a semântica do componente é
guiada pela ordem das palavras. Variando entre as categorias defi-
nido-qualitativa ou indefinido-qualitativa, o objeto [=obj] normal­
mente entrará na primeira categoria, enquanto o complemento
[=comp] na segunda.33 Assim, por exemplo, Mc 10:45 fala que o Fi­
lho do Homem veio "dar sua vida como [um] resgate" (ôoGvoa xf)v
(j/uCTv aÚToíi Àvrpoi' àvxi itoA./U2v). Em At. 28:6, Paulo é aclamado
como se fose "um deus" (kkcyov ccijtòv eivai 9eóv).
Quando, porém, a ordem dos elementos for inversa, o complemento
pertencerá à categoria definido-qualitativa.34 Sem dúvida, isso é fruto
da primazia quanto à localização na oração. Quanto mais próximo
do início da frase, mais específico ele será.

A Semântica da Construção Objeto-Complemento

4) Ilustrações
Os principais verbos usados nessa construção são agrupados assim:

a) Grupo I: chamar, nomear econfessar

Mt 22:43 Aauiô kv irveúpoai Kalcl auxòv «úpiov35


Davi em espírito chama-o [obj] Senhor [comp]

Jo 5:18 iratépa tòiov eleycv xòv Geóv


Ele estava chamando Deus [obj] seu próprio Pai [comp]
Esse texto ilustra um conjunto de questões semânticas. O complemento

33 Muitos complementos são de fato adjetivos predicativos (cf. At 5:10; 16:15; Tg 2:5),
mas até mesmo os substantivos parecem dotados da natureza indefinido-qualitativa.
Cf. Jo 4:46; At 24:5; Rm 6:13, 19; Fp 3:7; Hb 1:7; 1 Jo 4:10, 14.
34 Isso é análogo às construções NS-NP, mas há muitas exceções em relação à cons­
trução acusativa. Para mais discussões, veja Wallace, "Object-Complement Construction",
106-8.
35 A construção objeto-complemento tem um número de variantes tais como: Kodcl
KÚpioe aúxóv em xL Z 892; KÚpiov aúxòv Kató. em W E F G H K F A 0102 (0161) f 1’ 13
Byz.
186 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

vem primeiro e é anarthro. O objeto, em segundo lugar é articular.


Aplicam-se aqui as mesmas regras para distinguir o sujeito do
predicativo. Caso seguirmos apenas a ordem das palavras, teríamos:
"ele estava chamando de seu próprio pai Deus!". Além disso, o
complemento, por causa da ênfase, é direcionado para o início da
claúsula tornado-o definido. Se ocupasse a segunda colocação, seu
sentido seria mais indefinido-qualitativo ("chamando Deus de seu
pai?''). Afim de esclarecer essa confusão, o evangelista poderia ter usado
o artigo, mas outro problema surgiria: como distinguir o objeto do
complemento? As palavras de Cristo formam aqui uma declaração
teológica concisa.
Jo. 15: 15 oikéti Àéyw òpâç ôoúÀouç
Não mais vos [obj] chamo servos [comp]

b) Grupo II: os verbos fazer (incluindo no sentido de designar ou


mudar a natureza)

M t4:19 iranjaM òpâç òAiclç àvGpúmov36


Eu vos [obj] farei pescadores [comp] de homens
Jo4:46 èrroíqoçv tò Yôwp olvov
ele transformou a água [obj] [em] vinho [comp]
Jo 5:11 ò TTOif|aaç pe iiyifj
Aquele que me [obj] que fez bem [comp]

c) Grupo III: os verbos enviar e expelir

1 Jo 4:14 Tratfip àxéaxalKei' xòv uíòv ocotíjpa


o Pai enviou o Filho [obj] como Salvador [comp]
Lc 6:22 òxav . . . ÍKfSá/.waLV tò ovopa úpwv wç TTOvt)póv
Quando . . . expulsarem vosso nome [obj] como mal [comp]

d) Grupo IV: os verbos considerar e reputar

Fp 3:7 totôta farpai. . . Çrpíav


considerei estas coisas [obj] [como] perda [comp]

R m 6 :ll ÀoyíÇeoBe èautouç eivai veicpoiiç tíj ápaptía


Considerai- vos a vós mesmos [obj] como mortos [comp] para o pecado

Fp 2:6 oç éu pop<])f) OeoC ínrápx«v ov>x ápiraypòv f)yf|oato tò etvai loa Oecô
o qual, embora existindo em forma de Deus, não considerou o [estado
de] ser [obj]
Neste texto o infinitivo é o objeto e o termo anarthro, ãpTraypóv, é o
complemento.37 A razão mais natural para o artigo com o infinitivo
simplesmente é marcá-lo como o objeto.38

X D 33 et alii adiciona yevcoGoa antes de àiUeíç.


37 Isso acompanha o idioma grego, ãpiraypòv ti T)yeloeaL.
Acusativo: substantivo (duplo acusativo) 187

e) Grupo V: os verbos ter e tomar


Mc 12:23 ol yàp eiruà kayov aòtriv yuvaiKa
porque os sete [irmãos] a [obj] possuíram como esposa [comp]

Tg 5:10 ínróôeiypa Âápeic . . . touç upo^piaç


como exemplo [comp] tom ai. . . os profetas [obj]

f) Grupo VI: os verbos declarar e apresentar


Rm 3:25 ov npoéGexo ó 9eòç 'lAaoTrjpiov'
o qual [obj] Deus o entregou como propiciação [comp]

Cl 1:28 iva uapaaTriowpev náuta ãvGpwrrov téA.eiov kv Xpioxco


a fim de apresentarmos todo homem [obj] como perfeito [comp] em
Cristo
Evite a tentação de ver TeÀetOV como um adjetivo atributivo. (Lembre-se
de que um complemento adjetival é sempre um predicativo do sujeito).
Caso isso não fosse seguido, a tradução resultante seria radicalmente
diferente: "a fim de apresentarmos todo homem perfeito. . ." A questão
não é se em Cristo ou por causa de Cristo todo crente será apresentado
como perfeito diante de Deus, mas que somente aqueles crentes que são
perfeitos em Cristo serão apresentados! Obviamente, o modo como lida­
mos com teÀetou trará implicações teológicas profundas.

Cf. também Mc 1:3; Lc 6:22; Jo 7:23; 10:35; 14:18; At 10:28; 26:29; 1 Co 4:9; 7:26; Ef 5:2;
Fp 2:20; 1 Tm 2:6; 6:14; 1 Jo 4:10.

5) Passagem Debatíveis

Jo 4:54 toôto ôeútepov arpelov èiToí.r]aev ô Tr)aoôç


Jesus fez este [obj] segundo sinal [comp]
Muitas traduções tratam t o ú t o como se fosse sujeito e não objeto (cf.
ARA, NVI, NIV, ASV etc.): "Foi esse o segundo sinal que fez Jesus, depois
de vir da Judéia para a Galiléia . . .". Uma interpretação mais acurada
veria a construção como objeto-complemento.39 Não é caso de
pedantismo. Como um objeto-complemento, a ênfase do evangelista se
torna mais clara: Jesus era tanto poderoso quanto soberano. Jo 2:11
possui uma construção semelhante (raÍTr\v èiroír|oeu âpxpv tQ>v orp.eíu>v
ó Trjooôç ["Jesus fez esse (ser) o início dos (seus) milagres"]).40
Rm 10:9 kàv ópoÂovf|aqç kv tí| OTÓpcm aou KÚpiov Tqaoüu . . . aa)9f|ar|
Se com a tua boca confessares a Jesus [como] Senhor . . . serás salvo
(ou, "Se com a tua boca confessares [que] Jesus é Senhor . . . ".)

38 Contra N. T. Wright, "ápTT<xy|J,óç and the Meaning of Philippians 2:5-11", JTS, NS 37


(1986) 344, que vê ao artigo anaforicamente ligado a |J.opcjjrj 0eoG. Essa opinião é muito
atrativa teologicamente, mas tem uma base gramatical muito fraca.
39 Embora toôto possa ser nominativo, nesse contexto é o objeto de éiroíriaev.
40 A NASB lê: "Jesus fez esse (ser) o início dos (seus) milagres", o problema com essa
tradução é que toma o demonstrativo com um adjetivo modificador antes de um pronome
independente. Mas, isso só quando àpxr]V for articular.
188 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Duas questões estão aqui em jogo.41 Primeiro, quem é o objeto e quem


é o complemento? Uma vez que a construção assemelha-se a uma ora­
ção de nominativo sujeito-predicado, as regras desta se aplicam aqui.
Assim, já que ’Ir|OoDu é um nome próprio, ele é o objeto (e KÚpiov é o
complemento).
Segundo, qual é a semântica dos componentes? Ou seja, o que Paulo
quer dizer aqui com "Senhor"? Visto que kÚplou precede o objeto, é pos­
sível que seja definido, ainda que seja anarthro. A confissão seria, então:
Jesus é o Senhor, isto é, Yahweh.42 Essa opinião é sustentada pelo contex­
to: já que Paulo alude e até cita diretamente o AT aqui, seu pensamento é
colorido por ele. Nos vv. 11 e 12, Cristo é claramente focalizado. E, no v.
13, ele novamente menciona icúpioç sem indicar que um Senhor diferen­
te está em discussão. Logo, confessar que Jesus é o Senhor é declarar que
ele é o Senhor mencionado em v. 13. Temos aqui uma citação de Joel 3:5
(no TM ; 2:32 na LXX), na qual "Senhor está se referindo a Yahweh. Essa
alusão dificilmente é acidental, mas parte da confissão soterológica
paulina.43 Para Paulo, confessar que Jesus é Senhor é confessar que ele é
Yahweh.
Tt 2:10 irâoav iuotiv éuòeiKuupéuouç áyaGqv44
Dêem prova de toda a fidelidade (literalmente, mostrando toda boa fé)
Esse texto é universalmente traduzido como "mostrando toda boa fé".
Isto é, âyaBr\v é tomado como um adjetivo atributivo e não um
complemento de tiÍotlu. No entanto, há evidência gramatical e exegética
para tratar àya0f|v como predicativo, e assim, uma construção objeto-
complemento: (1) êvõeLKuupi, realmente toma um objeto-complemento
em outra parte no NT (cf. Ro 2:15).45 (2) Em resposta à objeção de ttlotlv
41 Embora quase todas as traduções tomem essa construção como objeto-complemento
(icontra Douay, KJV e NKJV), uma questão preliminar é: temos mesmo essa construção ou
uma simples aposição (viz. "o Senhor Jesus"). Deveríamos tomá-la como uma construção
objeto-complemento pelos seguintes motivos: (a) o verbo usado (òpoXoyéü)) toma um objeto-
complemento (cf. Jo 9:22; 1 Jo 4:2 ; 2 Jo 7); (b) com um verbo de confissão, todas as constru­
ções anarthras de KÚpioç Ir|aoíx; são diferentes de uma aposição forçada (cf. 1 Co 8:6; 12:3;
Fp 2:11). É significante que, em cada um desses textos, é feita uma confissão; e (c) alguns MSS
(principalmente, o Vaticanus) convertem a construção acusativa em uma construção NS-NP.
42 A tradução de Yahweh como "o Senhor" é questionada com base em sua natureza ‘por
excelência' (Yahweh merece este título mais que qualquer outra pessoa, especialmente por­
que a LXX traduz tcúpioç, regularmente, como YFIWFI).
43 Em dois outros textos envolvendo uma confissão de Jesus como Senhor, há uma
alusão ao AT e especificamente ao próprio Yahweh (Is 45:23 em Fp 2:11; Is 8:13 em 1 Pd 3:15).
Nesses dois textos paralelos, KÚpioç claramente se refere a Yahweh. Mesmo que esse
nominativo predicativo seja anarthro, o autor bíblico o posiciona antes do objeto/sujeito
para indicá-lo como definido. Aparentemente, não só o artigo foi desnecessário, como
também a ordem reversa parece ser o modo "normal" de expressar a idéia de que KÚpioç
é definido. Para mais discussão sobre Rm 10:9, cf. Wallace, "Construção Objeto-Comple-
mento", 108-11.
44 A sintaxe desse texto é complicada pela rica diversidade das variantes textuais, em­
bora nenhuma tenha uma origem complexa. Mais adiante, as variantes textuais mais plau­
síveis envolvem simplesmente uma transposição dos elementos (33 deles têm nâoav
êvõeiKui)|iévouç áyáirr|v). Alguns MSS relacionam ttlotiv e àya9f|v mais intimamente (e.g.,
ttSoücv èvôeucvu|iévouç Tríoxiv âyoe0f|v em F8r G), embora outros não apóiem as primeiras
duas palavras (ttÍotlv Ti&oav èuôeLKVup.éuouç àya0f|V em K L T Byz). A primeira leitura de
N tem Trâoav èvôeucvupévou<; áya9f|v, uma leitura sem sentido.
45 Como também, o radical -õeÍKVi>|ii freqüentemente, toma um objeto-complemento.
Acusativo: substantivo (cognato) 189

não ser um objeto em uma construção de duplo acusativo por ser anarthro,
há vários paralelos que exibem um objeto anarthro e um adjetivo
predicativo.46 (3) E muito incomum um adjetivo atributivo ficar separado
do substantivo anarthro o qual modifica através das chamadas palavras
interventoras, v.g., um verbo47 Isso é normal para um predicativo.48 (4) A
análise desse texto revela um paralelismo sintético (ou mesmo sinonímico)
entre as duas metades do v. 10 [N.T.: Isso envolve parte do v. 9]: "Servos
sejam em tudo submissos ao seu senhor... demonstrando que toda fé
[genuína]49 é produtiva, tendo como resultado [iva ecbático (N.T.: de
mero resultado ou conseqüência)] o embelezamento da doutrina de Deus
por vosso intermédio". Se tomado dessa maneira, o texto parece supor a
idéia que a fé salvífica não falha, e até mesmo resulta em boas obras.
Para ver outros textos debatíveis (e exegeticamente importantes) cf. Fp. 3:18; 1 Pd. 3:15.

3. Acusativo Cognato (ou Acusativo do Objeto Inerente)


a. Definição
O acusativo funciona como objeto direto de um verbo50 sendo cognato da
raiz desse verbo ou, então, compartilhando do significado verbal. Seu uso é
raro.
b. Semântica e Importância
O acusativo cognato difere do dativo cognato por ser este último mais ad­
verbial.51 Por isso, ele enfatiza a ação implícita no verbo (ou, às vezes, algu­
ma outra nuança), enquanto o acusativo cognato é simplesmente um objeto
direto. Todavia se o acusativo tiver um modificador (seja adjetivo ou
genitivo), a construção geral é mais enfática.52

46 Cf., e.g., Lc 3:8; Jo 9:1; At 10:28; Cl 1:28.


47 Embora Jo 10:32 possa oferecer um exemplo. E logicamente impossível um adjetivo
atributivo estar separado de um substantivo articular por um verbo.
48 Cf. Mc 7:2; 8:19; At 4:16; Ap 15:1.
49 É possível que "genuíno" esteja implícito no fluir do argumento ou seja considerado
uma parte da semântica de uâi;, quando substantivos abstratos forem usados (cf. BAGD,
s.v. nâç, l.a.ô.).
50 Em uma rara ocasião, o acusativo cognato será como um duplo acusativo de pessoa-
coisa (e.g., évéÔuoav aúiòv xà ipátia aírroü em Mt 27:31, citado como "objeto direto";
òoçáoare aòtòv òóífiv em íp47 em Ap 14:7), ou um complemento da construção objeto-
complemento (e.g., Kaxa.KXivu.xt aútouç K/Uaíaç em Lc 9:14). O BDF chama o primeiro de
acusativo de objeto e cognato (86 [§156]), e o segundo de acusativo de objeto e resultado
(87 [§158]), embora sejam duplos acusativos opostos, ou seja, acusativos de pessoa-coisa e
de objeto-complemento. Esses são simplesmente exemplos léxicos de categorias mais
amplas. A noção de resultado encontra-se freqüentemente implícita em uma construção
objeto-complemento (veja a discussão anterior "Objeto-Complemento").
51 Embora o acusativo cognato também seja conhecido como acusativo de objeto^
inerente, essa descrição pressupõe uma grande ênfase adverbial. Mas, é rara a função
adverbial transmitida por um acusativo cognato (e.g., Lc 2:9; talvez Mt 6:19) em lugar da
função objeto direto.
52 Conforme BDF, 84-85 (§153). Cf. também Smyth, Greek Grammar, 355-56 (§1563-77)
para uma discussão auxiliar.
190 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

c. Ilustrações

1) Cognato Lexical

Mt 2:10 è/ápriaav %apàv \ny<xXx\v acjráõpa


Alegraram-se com grande alegria

Mt 6:19 pi) 9r|aaupíÇexe úpiv 0r|aaupoúç


Não acumuleis [literalmente, entesoureis] tesouros para vós mesmos

Ef4:8 àvapàç elç qxpa/xóxcijaev aíxpaA.G)aíva


quando subiu às alturas, levou cativo o cativeiro

1 Tm 6:12 àytnvíÇov xòv Ka/.òv àycâva . . . Mpo/.Ó7r|aaç xqv KaÂqv ópoA.OYtva


Combate o bom combate . . . quando fizeste [literalmente, confessaste]
a boa confissão
Cf. também Mt 22:3; Mc 4:41; Lc 2:8-9; Jo 7:24; At 2:17; Cl 2:19; 2 Tm 4:7; 1 Pe 5:2; 1 Jo 5:16.

2) Cognato Conceituai
1 Pe 3:6 |_tf| <jx>Poúpevai. pr|õepíav Trxoqoiv
não temendo pertubarção alguma

Lc 1:73 opKov ov djpooev iTpòç Appaàp xòv uaxépa fipwv


[o] juramento que ele fez a Abraão, o nosso pai
Aqui temos um acusativo semelhante ao de juramento. Todavia, este
último é mais um uso adverbial doacusativo, não um O.D.

Jo 21:16 TTOÍpaive xà upópaxá pou


pastoreia as minhas ovelhas

4. Acusativo Predicativo
a. Definição
Esse é o uso de um acusativo (substantivo ou adjetivo) que predica algo
sobre outro acusativo. Ambos serão ligados por um verbo de ligação, ou
ainda por verbo no infinitivo ou no particípio. Fora das obras lucana e paulina
não há nenhum uso específico dessa natureza.
b, Clarificação (e Importância)
Há dois tipos de acusativo dessa espécie: (1) semelhante ao genitivo
predicativo e ao dativo predicativo, ele é normalmente usado em uma sim­
ples aposição enfatizada através de uma cópula em forma participial; (2)
quando um acusativo predica algo (ou seja, faz uma declaração acerca do
mesmo) sobre outro acusativo (este, por sua vez é o sujeito de um verbo no
infinitivo). Esse uso assemelha-se ao de um nominativo sujeito e a uma cons­
trução NP,53 seguindo até os mesmos princípios para distingui-los.54
Freqüentemente, o infinitivo ocorrerá no discurso indireto.55
Acusativo: substantivo (predicativo) 191

c. Ilustrações
1) Exemplos com Particípio
Jo 2:9 eYeúcsoao ò ápxixpÍKÃivoç tò íjõtop otvov Y€Yevr||iévov
Tendo o mestre-sala provado a água transformada em vinho
A construção aqui é semanticamente diferente das encontradas na maio­
ria dos acusativos predicativos com particípio. Nelas, o predicativo é
mais enfático do que a mera aposição faria. Juntando-se a isso, a cons­
trução é estruturamente diferente das outras construções por ser o parti­
cípio anartro, embora o primeiro acusativo seja articular.56 É possível
considerar essa construção como um objeto-complemento.
At 9:11 rf)v púpriv xf|v KaA.oupévr|v EúGeictv
a rua [que é] chamada Direita

Ef 2:1 òpctç òvxaç vexpouç tolç irapaTucapaoiv


Estando vós mortos em [vossos] delitos
Esse texto iguala-se a Jo 2:9 semântica e estruturalmente. Aqui o
particípio circunstancial tem, muito provavelmente, ênfase concessiva.
1 Tm 1:12-13 moxóv pe qY^oaxo. . . (13) tò irpórepov ovxa (3Âáa<j)Tipov
que me considerou fie l. . . a mim, que, noutro tempo, era blasfemo
Cf. também Mt4:18; 9:9; Lc 21:37; 23:33; At 3:2; 15:37; 17:16; 27:8, 16; Rm 16:1; Cl 1:21;
2:13; Ap 16:16.

2) Exemplos com Infinitivo


Mt 16:13 xíva A.Éyoi)olv oi avGpwiToi eivai xòv ulòv xoO KV0pMiroi>;
Quem os homens dizem ser o Filho do Homem?57

Lc4:41 fjôtiaav xòv Xpiaxòv ecòxòv eivai


sabiam ser ele o Cristo

Rm 4:18 eíç xò yevlaQai aúxòv iraxépa ttoâàmv éGvwv


Para vir a ser [o] pai de muitas nações

53 É possível que um acusativo seja predicativo sem a existência de um verbo de


ligação. Todas as construções objeto-complemento, por exemplo, envolvem predicação,
embora a maioria não tenha um verbo infinitivo explícito.
54 Ou seja, o "sujeito" será um pronome, nome próprio ou substantivo articular. Veja
os exemplos abaixo.
55 Os exemplos dessa segunda categoria também pertencem, geralmente, a categoria
objeto-complemento, embora várias venham, quase sempre, em cláusulas de resultado
ou propósito iniciadas por elç.
56 E possível tomar o particípio circunstancialmente ("a água quando tinha se
tornado vinho"), embora não seja necessário uma vez que sua relação com o acusativo
predicativo possa ser considerada adjetival.
57 Lembre-se que, apenas em construções NS-NP, os pronomes interrogativos são o
termo predicativo e não o "sujeito.''
192 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Ef 3:5-6 vvtv KueKcdíxjrôTi . . . eivai xà ’é0vr) ai>YKÀT)povóp.a Kai aúaacjpa Kai


auppixoxa
Agora, foi revelado . . . que os gentios são co-herdeiros, membros do
mesmo corpo e co-participantes

Tg 1:18 elç tò clv ai fpâç áirapxiji' xiva xcôv auxoô Kxiopáxuv


Para sermos como que as primícias de sua criação

Cf. também Lc 11:8; 20:6, 41; 23:2; At 17:7; 18:5, 28; 27:4; Rm 2:19; 3:26; 4:11,16; 7:3; 15:16;
2 Co 9:5; Fp 1:13; 1 Tm 3:2; Tt 2:2; 1 Pd 5:12.58

5. Acusativo como Sujeito do Infinitivo


a. Definição

Esse acusativo funciona semanticamente como o sujeito do infinitivo.


Embora as gramáticas mais antigas insistam que tecnicamente este é um
acusativo de respeito, partindo de uma perspectiva descritiva e funcional,
é melhor tratá-lo como sujeito. Tal uso é comum, especialmente, com
pronomes pessoais.

b. Clarificação

Um sujeito do infinitivo é, normalmente, igual ao sujeito de um verbo


principal, por isso é usado no caso nominativo. Por exemplo, em Lc 19:47,
lemos ol ypappaxelç cÇr\TOW um òv àwokéoui ("os escribas procuravam
matá-lo").59 Quando, porém, o infinitivo exigir um agente diferente, esse
será, quase sempre, um acusativo.60

1) Analogia em Português

Esse uso é perfeitamente encontrado em português, por exemplo na


frase: O professor de grego mandou-me ler Hb 6.2 em grego, "me" é
tanto o objeto de "mandou" quanto o sujeito de "ler" (N.T., esse tipo de
frase encontra-se na forma reduzida de infinitivo, desenvolvendo-a
teremos a seguinte leitura: [...] mandou que eu lesse [...]). Note, por
exemplo, Fp 1:12-13: yLVGÓaKeiv ôè úpâç (foúÂopai . . . üoxe xouç
ôeapoúç pou (jm^pouç . . . yeuéaOai (literalmente, desejo vos informar
. . . de que maneira as minhas cadeias . . . se tornaram conhecidas"). No

58 Uma passagem discutível é 1 Pd 1:21.


59 Cf. também Mt 16:25; Mc 8:11; 13:5; 15:8; Lc 9:12; Jo 11:8; At 13:44. O infinitivo
complementar é usado especialmente com um sujeito nominativo. Em uma rara oca­
sião, o sujeito e objeto envolvem um relacionamento recíproco. Com isso, o infinitivo
toma um acusativo sujeito que é tão individual quanto o nominativo sujeito (e.g., Hb 5:5).
60 Até mesmo, outro caso oblíquo pode ,ocasionalmente, funcionar como o sujeito
do infinitivo. Em tais circunstâncias atua quase como um pronome relativo. Cf., e.g.,
Jo 4:7; Fp 1:7, 29; Jd 24.
Acusativo: substantivo (sujeito do infinitivo) 193

v. 12, o acusativo é tanto objeto do verbo (3oúA.op,ai quanto sujeito do


infinitivo yivcóaKeiv;61 enquanto que no v. 13 o acusativo age como
sujeito de yevéoQou em uma oração consecutiva antecedida de coaxe.
2) Quando um Infinitivo usa dois Acusativos
No NT, freqüentemente, uma construção terá tanto um acusativo sujeito
como um predicativo ou objeto direto. Nesses casos, como é possível
distingui-los? Por exemplo, em Fp. 1:7 ôià xò ly civ pe èv xfj Kapôía
òpaç significa "porque eu vos trago em meu coração" ou "porque vós
me tendes em vossos corações"? A abordagem anterior sugeriria que a
ordem das palavras ou a proximidade com o infinitivo são os critérios
de desempate. Todavia, a ordem das palavras tem-se mostrado, na
melhor das hipóteses, uma escolha secundária, e útil somente para certos
tipos de construções.62

61 A cláusula YcvcáaKciv úpâç ktA.. é tecnicamente, o objeto direto de (SoúA.opai, mas o


"vos" como seu agente principal é colocado naturalmente no caso acusativo (cf. também
Lc 11:1). Veja o capítulo sobre Infinitivo para mais discussão sobre infinitivos complemen­
tares ao acusativo.
62 A questão foi levantada há mais de três décadas atrás por Henry R. Moeller e Amold
Kramer, "An Overlooked Structural Pattem in New Testament Greek," NovT 5 (1963) 25­
35. Foi discutida resumidamente em trabalhos mais antigos, com destaque em The Use ofthe
Infinitíve in Biblical Greek de Clyde Votaw (Chicago: by the author, 1896). Moeller e Kramer
concluíram que "de dois casos acusativos substantivos consecutivos construídos com um
infinitivo, o primeiro funciona como o sujeito; o segundo, como o predicado..." (27).
A questão foi novamente levantada quase trinta anos mais tarde por Jeffrey T. Reed,
"The Infinitíve with Two Substantivai Accusatives: An Ambiguous Constructíon?", NovT
33 (1991) 1-27. Suas conclusões foram essencialmente iguais às anteriores ("De dois casos
acusativos nominais, pronominais ou substantivos adjetivais com um infinitivo. O pri­
meiro funciona como sujeito; o segundo, como objeto/predicativo" [ibid., 8]), embora con­
siderasse uma falha em Moeller e Kramer o deixar passar várias construções (eles listaram
77 textos relevantes.Reed encontrou 95).
Nenhuma dessas abordagens trata adequadamente com as diferenças entre as cons­
truções sujeito-predicativo (AS-AP) e construções sujeito-objeto direto (AS-AO) — isto é,
entre construções envolvendo um verbo de ligação no infinitivo e outra envolvendo um
verbo transitivo no infinitivo. Ambos assumem que um princípio de ordem das palavras
é válido para todas as construções.
Um ano depois do artigo de Reed aparecer, outro estudo tratou desse mesmo assunto,
mas com profundidade. Embora não publicado, o ensaio de Matthew A. Cripe ("An Analysis
of Infinitíve Clauses Containing Both Subject and Object in the Accusative Case in the
Greek New Testament" [Th.M. thesis, Dallas Seminary, 1992]) abordou a questão estuda
por Reed em vários aspectos e elevou a discussão para um novo patamar. Entre outras
coisas, ele critica os estudos anteriores por (1) forçarem um princípio de ordem das pala­
vras na construção, quando 26% das cláusulas de ligação envolvem uma ordem Sujeito-
Predicativo (18 das 68 tais construções [ibid., 57]) e 17% das construções transitivas envol­
vem uma ordem Sujeito-Objeto (14 das 81 construções [ibid., 67]); (2) não distínguirem
entre construções Sujeito-Predicativo e Sujeito-Objeto; e (3) passaram por cima de muitas
das construções relevantes (Cripe encontrou 149). (A terceira crítica de Cripe a Reed,
entretanto, não se justifica, pois Reed explicitamente limitou seu estudo a dois acusativos,
enquanto Cripe também incluiu adjetivos não-substantivais e particípios como acusativos
predicativos.)
194 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

F.m um estudo recente, M. A. Cripe.63 nota que:


• as construções do tipo acusativo sujeito ou predicativo (=AS-AP)
precisam ser tratadas como suas contrapartes no nominativo. Nem a
ordem de palavras nem a proximidade ao infinitivo são guias úteis
para determinar o sujeito.64 O que importa é: um dos acusativos
deve apresentar-se como um pronome ou um nome articular ou
próprio. Esse será o sujeito.65

• construções do tipo acusativo sujeito ou acusativo objeto direto


(=AS-AO) devem ser analisadas de modo diferente, uma vez que
não há correlação semântica entre essa construção e a construção
NS-NP.66 Cripe observa que a construção AS-AO possui somente
quatro passagens potencialmente ambíguas.67 Todas as outras
ocorrências, considerando a ordem das palavras, devem ser
estudadas à luz do bom senso (e.g., considerando o contexto).
Mesmo que a análise de outros exemplos lancem luz sobre a construção
AS-AO, as dicas dadas (ordem das palavras ou proximidade68 para com
o infinitivo) não resolvem o problema. Aceitá-las como guia infalível é
tanto simplista quanto equivocado. Ainda que precisa, a ordem das
palavras deve ser usada como um guia secundário, não como uma regra-
mor.

c. Ilustrações

1) Construções Não-Ambíguas (com um Substantivo Acusativo)


Mt 22:3 dnTéaxeiXev xoòç ôoúA.oi)ç aòxoíj Kaléaai xoòç KeKÂqpévonç
ele enviou seus servos a chamar os convidados

Lc 18:16 cuj^ie tà uatôía ep^eoGai TTpóç pe


deixai vir a mim os pequeninos

At 11:15 kv õè tú apçaoOoú pe ÂtxMv èné-rreaev xò rrveíipa tò aytov eu’ aòxoúç


mas quando eu comecei a falar, o Espírito Santo caiu sobre eles

63 Veja os dados biográficos na nota anterior.


64 Cf., e.g., Lc 20:20, 23:2; At 17:7; Rm 2:19,4:16; 1 Co 10:20; 1 Tm 6:5; 2 Pd 3:11; Ap 2:9.
Ele adiciona suas críticas a Reed nesse ponto: "74% é um número muitobaixopara
embasar uma ordem das palavras como Reed tenta fazer" (ibid., 58).
65 Veja nossa seção sobre Nominativo Predicativo para mais informações.
66 Por exemplo, "E possível ter um sujeito indefinido com um objeto definido como
em 'alguém acerta a bola'" (ibid., 59). Cripe cita um exemplo bíblico em Hb 5:12.
67 Lc 18:5; 2 Co 2:13; 8:6; Fp 1:7 (todos discutidos em 83-87).
68 A regra de proximidade foi a de Votaw, absorvida novamente por M. Silva em
aplicação a Fp 1:7 (Philippíans, Wycliffe Exegetical Commentary [Chicago: Moody, 1988]
56, n. 21). Cripe observa: "Esta idéia de proximidade tem sido demonstrada como erro
por este estudo, uma vez que ignora construções onde o infinitivo divide os acusativos"
(Cripe, 86).
Acusativo: substantivo (sujeito do infinitivo) 195

1 Co 1 0 :1 3 ô 0eóç, oç oÚk cáac i f)(iâç TT(:ipao0f|vaL írnèp ô õúvao0e


ttlo t Òç

Deus é fiel, o qual não permitirá que vós sejais tentados além do que
possais suportar
Ap 10:11 ôet oe irá/nv Tipo^rpeijoca
é necessário para ti profetizar novamente
Cf. também Mt 5:32; Jo 6:10; At 7:19; 8:31; Rm 1:13; G1 2:14; 1 Ts 5:27; 2 Tm 2:18; Hb 9:26;
Ap 19:19; 22:16.
2) Construções Potencialmente Ambíguas (com dois Acusativos)

a) Acusativo Sujeito e Predicativo (com Verbos de Ligação no


Infinitivo)
Mc 14:64 K a té K p L u a v a m ò v e n o jo u e lu a t O a v á to u 69
Julgaram-no ser culpado de morte
Com freqüência um dos acusativos é um adjetivo predicativo (como
aqui) ou particípio predicativo. 70 A menos que o adjetivo esteja agindo
como substantivo (que é raro) o termo deve ser considerado predicativo.
At 28:6 eÀ.eyov odrcòv eivai 0eóv
Diziam ser ele um deus
Só ocorre em construções NS-PN. Se um dos dois for um pronome,
este será o sujeito.71
1 Tm 6:5 vopiíóvTuv -nopiopòv eivou iqv eúoépetav
supondo ser a piedade uma fonte de lucro
Também só ocorre em construções NS-PN. Caso um dos dois seja arti­
cular, este será o sujeito.72 Nesse exemplo, o sujeito segue o predicado,
comprovando que a ordem de palavras não é um guia válido.
Lc 20:6 T(oávvr\v TTpocfnyuqv e i v a i
Ile iT e ia p é v o ç è a t i v
João e ra u m p ro fe ta
eles e s tã o c o n v e n cid o s q u e
O mesmo fenômeno dos exemplos acima. Uma vez que um dos dois
seja nome próprio, tal é o sujeito.73

69 D* tem avTtú por avzáv.


70 Cf. também Atos 19:36; Rm 14:14; 2 Co 7:11; 11:16; Ef 1:4.
71 Para outros exemplos de pronomes acusativos como sujeito do infinitivo de um
verbo de ligação, cf. Mc 1:17; Lc 23:2; Rm 2:19; 4:11,18; 7:3; 8:29; 1 Co 10:6, 20; 1 Ts 1:7; Tg
1:18; 1 Pd 5:12; Ap 2:9; 3:9. Em Lc 9:18 (e paralelos), dois pronomes estão conectados (ríva
pe A.éyouoi.v ol õx^oi eivou). O pronome interrogativo é o predicativo, desde que lexicalmente
preenche o espaço do desconhecido (quem?). Assim, embora um pronome seja esperado
na posição de sujeito (gramaticalmente, falando), o pronome interrogativo lexicalmente pre­
enche o lugar de predicativo. (Isso ilustra bem a reciprocidade que lexema e sintaxe têm
um sobre o outro. Eles não podem ser tratados isoladamente.) Cf. também Mt 16:15; Mc 8:27,
29; Lc9:20; e At 2:12; 17:20 para construções similares com pronomes interrogativos, e
At 5:36; 8:9 para construções com um pronome indefinido como predicativo.
72 Para os exemplos de acusativo articular como sujeito de um verbo de ligação no
Infinitivo, cf. Lc 20:41; At 26:29 (aqui com um pronome qualitativo atuando
predicativamente); Ef 3:6. Embora Cripe liste vários exemplos, a maioria tem um adjetivo
para um predicativo.
73 Cripe encontra apenas três exemplos: Lc 20:6; At 17:7; Rm 15:8.
196 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Lc 4:41 qôeiaav tòv ypLOTÒv aòiòv eivai


eles sabiam que ele era o Cristo
Só ocorre em construções NS-PN. Desde que um dos dois substantivos
seja pronome e o outro articular (ou nome próprio), o pronome será o
sujeito (escolha feita, novamente, sem considerar a ordem das pala­
vras).74

b) Sujeito e Objeto Direto (com Verbo Transitivo Infinitivo)

Lc 2:27 kv t(3 (iaavcv/çlv touç yovéiç tò n aiòíov ’Iqooüv75


quando os pais trouxeram o menino a Jesus
O bom senso, aqui, é útil na identificação de quem é o acusativo sujeito
e quem é o acusativo objeto!
Jo 1:48 rrpò toü oe 3>tÀtiniov (j)tovqocu òvxa úirò tt)v oukí)v elõov oe
antes que Filipe te chamasse, estando [tu] debaixo da figueira eu te vi

Hb 5:12 XpeLav e/exe toü ôiôáoKeiv üpâç n v á


tende necessidade que alguém vos ensine
Nesse texto, a ordem seguida é AO-AS seguido de um pronome indefi­
nido no acusativo. Nenhum dos dois critérios anteriores (a proximida­
de ao infinitivo ou a ordem das palavras) indica qualacusativoé o su­
jeito. Tal tarefa cabe somente ao contexto.76
Cf. também Mc 8:31; At 16:30; Rm 12:2; 1 Co 7:11; Fp 1:10; 2 Tm 3:15.
3) Textos Problemáticos
Fp 1:7 õtà rò kyciv pe èv rfj tcapõía òpâç
Porque eu vos trago em meu coração ou porque vós me tendes em
vossos corações
Esta é uma passagem classificada por Cripe como altamente ambígua. E
possível traduzi-la de duas formas, conforme visto acima. E possível essa
flexibilidade, pois: (1) tanto o sujeito quanto o objeto direto estão no
acusativo; (2) o artigo tt) (ícapôía) implica possessão (cuja tradução varia
entre "meu" ou "vosso"); e (3) na literatura paulina, "coração" é muitas
vezes usados como um coletivo singular. Ainda que o contexto deva de­
terminar a resposta, a dupla tradução aqui é melhor resolvida pelo crité­
rio da ordem das palavras - tomando por base tudo o que o contexto
oferecer de importante.77
2 Co 2:13 oúk è(r/T|Ka áveoiv tw iTveúpcm pou uâ pq eúpelv pe TÍtov
não tive...tranqüilidade no meu espírito, porque não [eu] não encontrei
Tito ou não tive tranqüilidade em meu espirito quanto Tito não me achou
Embora esse texto possa ser lido de duas formas distintas provalmente

74 Cf. também Rm 4:13.


75 Toiiç yovelç é omitido em alguns MSS recentes (245 1347 1510 2643).
76 Para construções similares, cf. At 3:21; 1 Co 5:1; Hb 8:3.
77 Deve-se ao fato de que, embora a ordem normal das palavras no grego seja de difícil
determinação, quase todos os estudos concluem que o sujeito geralmente antecede o objeto.
Assim, em textos ambíguos, podemos esperar que um autor nos dê uma pista sobre o que
ele quis dizer.
Acusativo: substantivo (objeto retido) 197

significa "eu não encontrei Tito". A conexão entre eoxr|Ka avco iv e a oração
no infinitivo sugere isso: enquanto Paulo estiver procurando Tito, ele
não terá descanso.
Cf. também 2 Co 8:6 (AS-AO); At 18:5, 28 (AS-AP). As duas passagens em Atos lêem,
eivou xòv xpLOtòv TriooOv. Note a diferença na tradução: "Jesus era o Cristo" (ACF, NVI,
AV, NASB, NIV) vs. "o Cristo era Jesus" (ARA, NEB, RSV).78

6. Acusativo de Objeto Retido

a. Definição
Estando o verbo na voz passiva, o acusativo de coisa, em uma construção de
duplo acusativo (pessoa-coisa) com verbo ativo, preserva-se no mesmo caso
[N.T., esperava-se uma mudança de caso]. O acusativo da pessoa, nesses
exemplos, torna-se o sujeito.79 Esse uso do acusativo ocorre com muita fre­
qüência com verbos causativos, ainda que seja raro no NT.
A sentença "Eu te ensinei a lição" na voz passiva fica, "A lição foi ensinada a
ti por mim". Quando o verbo ativo é transformado em verbo passivo, o
acusativo da pessoa toma-se o sujeito (nominativo), e o acusativo da coisa é
retido.
b. Ilustrações
1 Co 12:13 mxuxeç eu iTueOpa eTTOTtoBripev80
a todos foi dado de beber [de] um Espírito
"Todos" é a pessoa, usada no nominativo com verbo passivo. O
acusativo de coisa, "um Espírito", é retido. Se o verbo estivesse na
voz ativa, o texto seria lido assim: "Ele fez todos beberem de um
Espírito" (èuÓTLoe irávxa 'èv irveüpa).

Lc 7:29 oi TCÀtovat èôiKoúojaav tòv 0eòv (3cnn:ia0évT€ç tò fknruiapa Ttúávvou


os publicanos, tendo sido batizados com o batismo de João, reconheceram
a justiça de Deus

2 Ts 2:15 KpatetTe xàç iTapaõóaeiç aç èÕLÔáxOqxe


permanecei firmes nas tradições em que fostes ensinados

Ap 16:9 èKctup.atío0qoav ol ávSpojTTOL ícaupa piya


os homens foram abrasados [com] um grande calor
Aqui temos um exemplo de acusativo cognato.
Cf. também G12:7; Fp 1:11; Hb 6:9.

78 Provavelmente xòv x P ^ ó v deveria ser considerado como sujeito. Isso não é,


entretanto, conseqüência de sua articularidade, mas da ordem das palavras. Veja a
discussão sobre o problema na seção Nominativo Predicativo.
79 Entretanto, não é sempre explícito. Cf. 2 Ts 2:15, mencionado abaixo.
80 Algumas testemunhas têm TOpa por irvcüpa (177 630 920 1505 1738 1881): "a todos
estavam bebendo de uma bebida," transformando a expressão em uma alusão à Ceia do
Senhor (conforme BAGD, s.v. Tropa).
198 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

7. Acusativo Pendente (Acusativum Pendens)


a. D efinição

O acusativo pedente é um uso gramaticalmente independente do acusativo.


Ele é pendente porque introduz a sentença, quando deveria servir-lhe de
objeto direto. A sentença é completa, mas de uma forma sintaticamente
esquisita. Até o acusativo parece meio desajeitado. Como acontece com o
nominativo pedente, o acusativo é remetido ao início da oração, seguido
por uma sentença em que é substituída por um pronome no caso requerido
pela sintaxe. Esse uso ocorre pouco.

b. Clarificação/Chave de Identificação

Algumas dicas são: (1) pense no acusativum pendens como uma subcategoria
do acusativo de referência; (2) faça a seguinte pergunta para descobrir se tal
acusativo é pedente: "Eu posso traduzir o acusativo no início da oração
usando a expressão: 'No que diz respeito a...'?" . (3) diferente do acusativo
de referência, este é um tipo de anacoluto, i.e., trata-se de uma sentença
construída de uma forma pobre, no que diz respeito à sintaxe.

c. Ilustrações

Mt 21:42 A.Í0OV ov (XTTeõoKÍpaaocv ol oÍKOõopoOvteç, outoç éyevr|9r| elç Ketj)KÀf|v


ycovíaç
a pedra que os construtores rejeitaram, esta veio a ser pedra angular
Uma leitura alternativa é: "No que diz respeito à pedra que os
construtores rejeitaram, esta veio a ser a pedra angular" (veja SI 118:22).
Como outras, esta é uma citação do AT no NT.
Mc 6:16 Ov èytà aTTeKe^áÀLOK ’l(úáwr\v, outoç f)yép0q81
João, que eu degolei, este ressucitou!

Cf. também Jo 15:2; G1 5:17; 6:7.

8. Acusativo em Simples Aposição


a. Definição
Embora não seja tecnicamente uma categoria sintática, é possível utilizar o
acusativo (como os demais casos) como um aposto a outro substantivo no
mesmo caso. Uma construção apositiva envolve dois substantivos adjacentes
que se referem à mesma pessoa ou coisa e tem a mesma relação sintática
com o resto da oração. O primeiro acusativo pode pertencer a qualquer

81 Poucos escribas aparentemente se sentiram desconfortáveis com o acusativo ’Iwáwr|V,


substituindo-o com Tcoávvr|ç (X* tem outoç ’Iwávvr|ç; outoç éotiv Tcoávvriç é lido em 0
565 700 et pauci).
Acusativo: adverbiais 199

categoria do acusativo. O segundo é meramente uma elucidação de quem


ou do que foi mencionado. Assim, o aposto "pega carona" no primeiro uso
do acusativo.82 Esse uso é comum embora, ocasionalmente, a função desse
acusativo seja difícil de determinar (i.e., aposto ou paralelo são opções [cf.
Ef. 2:2 abaixo]).

b. Ilustrações

Mc 1:16 ’Avõpéav xòv áõeX<j)òv Etptovoç


André, o irmão de Simão

At 16:31 -rríaxeuaov éiu xòv k Úplov TqaoGv K al aco0f|or) aú


Crê no Senhor Jesus e serás salvo

Ef 1:7 kv co exopev xqv àTTOÀúípcootu õtà xou aíp,axoç aútob, tt |v ã^eoiu


TCÔV TTapaTTTCOpáxCOV
em quem temos a redenção através do seu sangue, o perdão de [nossas]
transgressões

Ef 2:2 kv alç ttoxc TTcpccíiaifioaxe Kaxà xòv alcôva xoô KÓapou xoúxou,
Kaxà xòv ãpxovxa xfjç èçouocaç xoG àépoç
nos quais andaste outrora segundo o curso deste mundo, segundo o
príncipe da potestade do ar
Temos aqui um texto debatível. Se xòv aícôva é uma referência a um ser
sobrenatural,83 então ele é aposto de xòv Spxovxa.84 No entanto, se for
uma referência à "era deste mundo", então as construções são paralelas,
e não, aposicionais. Para textos com semelhantes ambigüidades, cf.
Lc 3:8; At 11:20; 13:23; Rm 13:14; Cl 2:6; 1 Pd 3:15; Ap 13:17.

Cf. também Mt 2:6; At 1:23; 2:22; 3:13; Fp 2:25; Cl 1:14; 1 Ts 3:2; Hb 13:23; Ap 2:20.

Usos Adverbiais do Acusativo

Esse tipo de acusativo é difícil para estudantes de algumas línguas modernas por
faltarem analogias entre sua língua e o grego koinê. O acusativo no período clássico
regia os pronomes oblíquos cujas funções eram diversas. Contudo no período do
koinê, quando este se tornava a língua franca da época, o acusativo adverbial foi
sendo restringido através do uso das massas não-nativas. Muitos desses acusativos
foram substituídos pelo dativo ou por locuções prepositivas. Não sei se lhe servirá
de consolo, mas se você sentir alguma dificuldade, isso já foi sentido por outras
gerações de estrangeiros quando estavam aprendendo o koinê.

82 Para mais informações sobre simples aposição, cf. as seções sobre o nominativo e
o genitivo em simples aposição.
83 Veja BAGD, s.v. aícóv, 4 (28).
84 As duas frases preposicionais estariam, tecnicamente, em aposição uma a outra.
200 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

1. Acusativo Adverbial (Acusativo de Modo)


a. Definição
Funcionando semanticamente como um advérbio, o acusativo adverbial
qualifica a ação do verbo, mas não indica quantidade ou extensão da ação
verbal. Ele freqüentemente age como um advérbio de modo, embora nem
sempre (O título 'categoria' do acusativo deveria, na verdade, ser
subcategoria do acusativo adverbial de modo. Entretanto, categoria é a mais
usada). A parte dessa ocorrência com certas palavras, esse uso não comum.85
b. Amplificação e Cautela
Esse uso tem similaridades estruturais com o acusativo, mas aí a similaridade
termina. Ele é restrito a um certo grupo de palavras que, historicamente, foi
usado adverbialmente. Significa que, muitos advérbios se desenvolveram a
partir da forma acusativa de um nome ou (especialmente) de um adjetivo.
Há dois tipos distintos: nominal e adjetival. O nome õcopeáv é muitas vezes
usado como acusativo adverbial.86 No entanto, poucos nomes são usados
dessa maneira. Há um grande número de adjetivos que são usados
adverbialmente.87

c. Ilustrações
1) Exemplos Nominais
Mt 10:8 õcopeàv èÀá(kte, õ c o p e à u ôóte
de graças recebestes, de graça dai
Se ôwpeáv fosse um acusativo cognato, a tradução seria: "recebeste um
presente, [assim] daí um presente." Como acusativo adverbial, a idéia
típica do acusativo de "extensão" desapareceu.

G 1 2 :2 1 el yàp õ ià n ó p o u ô iK m o a ú v q , a p a X p io iò ç ôw peàv á ir é O a v c v
se, pois a justiça vem pela lei, segue-se que Cristo morreu debalde

85 Muitos gramáticos pensam nos acusativos adverbial e de referência como uma


única categoria. Tal abordagem, de fato, é válida. Todavia, nosso tratamento do acusativo
adverbial é mais restritivo. Consideramos, geralmente, um acusativo adverbial aquele
acusativo que pode ser traduzido como um advérbio, enquanto um acusativo de refe­
rência ao que pode ser intercalada a explicação "com referência a . . .".
86 Todo exemplo anarthro de õwpeáv é, efetivamente, melhor traduzido como um
acusativo adverbial (sempre indicando modo). Cf. Jo 15:25; Rm 3:24; 2 Co 11:7; G1 2:21;
2 Ts 3:8; Ap 21:6; 22:17. A NRSV, curiosamente, trata muitos destes como substantivos
(principalmente em construções objeto-complemento), embora não se encaixem nos con­
textos normais de tal construção (e.g., freqüentemente ambos os substantivos são
anarthros).
87 Adjetivos, tecnicamente, não pertencem a nenhuma categoria de caso, normal­
mente, pois são dependentes, quase sempre, de substantivos e, portanto, muletas qual­
quer que seja o caso e função que o nome possua. Entretanto, o adjetivo acusativo, quan­
do não é dependente de um substantivo, quase sempre, desafia essa classificação. Esse
não é um assunto a ser discutido no capítulo "Adjetivos", mas no capítulo "Acusativo."
Acusativo: adverbiais (medida) 201

2) Exemplos Adjetivais

Mt 6:33 ÇryceiTe õe irpuxov T.r\v paoiLeíav xof> 0coú


mas buscai primeiro o reino de Deus

Jo 10:10 éycu rjlOov lua Çturiv cyjooiv Kal iTepiaaòv cyuaLU.88


eu vi para que eles tenham vida e que tenham em abundância.

Fp 3:1 è v Kupítp
x ò Ax h t o v , àõeÀcjjoL p o u , y a í p e x e
finalmente, meus irmãos, regozijai-vos no Senhor
Cf. também Mt 8:30 (potKpáv)89; 9:14 (iroÀÀá); 15:16 (áK|ir|v); Lc 17:25 (nptôxov); Jo 1:41
(tTpcôxou); At 27:20 (Xonrov); 2 Co 13:11 (XoiitÓv).

2. Acusativo de Medida (ou Extenção de Tempo/Espaço)

a. Definição

O acusativo indica a extensão da ação do verbo espacial ou temporalmente.


O uso espacial é raro. O temporal é mais comum.

b. Chave para Identificação

Antes do acusativo interponha a expressão qual a distância de (com referência


ao espaço) ou qual a duração de (com referência a tempo).

c. Importância e Elucidação

A idéia básica aqui é: existe alguma limitação quanto à extensão. O acusativo


de espaço responde a questão, "Qual é a distância? Enquanto o acusativo
de tempo responde a questão "Quanto tempo?". E importante definir à qual
subgrupo um determinado acusativo pertence (i.e., se ele temporal ou de
espacial).

Com topa o acusativo funciona como se fosse um dativo de tempo que


responde a questão "Quando?" Nesses exemplos, o acusativo deveria ser
simplesmente classificado como um acusativo de tempo (e não como
acusativo de extensão de tempo).90

88 ««,! xreplaaàv èyuotv é omitido em íp66 D et pauci; o adjetivo é comparativo


(irepiocsÓTçpov) em ip44 íp75 X T ? 69 1010 et pauci.
89 Exemplos de paKpáv são classificados como acusativo adverbial ou acusativo de
extensão de espaço, com óõóv sugerido (conforme BAGD). Cf. também Mc 12:34;
Lc 15:20; Jo 21:8; At 22:21; Ef 2:13, 17.
90 Veja BDF, 88 (§161) para discussão. Talvez seja influência do desenvolvimento
lexical de tapa, pois veio a ser usado tanto para "hora" e "momento" (BAGD, s.v. tapa,
2.b: "um momento que leva seu nome em contraste à hora que passou").
202 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

d. Ilustrações
1) Acusativo de Extensão de Espaço
Lc2:44 vo\iíaavieç õè aôxòv eiv a i kv xfjauvoõía fjXGov ripépaç òôóv
pensando, porém, estar ele no grupo, eles foram um dia de jornada
Jo 6:19 èÁT|ÂaKÓieç ouu ó ç ozaôíovç çikool uévie r|
portanto, quando eles navegaram cerca de vinte e cinco ou trinta estádios
Cf. também Mt 4:15; Mc 12:34; Lc 22:41.
2) Acusativo de Extensão de Tempo
Mt 20:6 xí wòf krcr|Kon;e ôA.qv xqu r|[iépav ápyoí;
por que estais ociosos aqui o dia todo?
Mt4:2 uqaxeúoaç qpépaç xtaaepaKOUxa Kal vÚKxaç xeaaepaKovxa
jejuando por quarenta dias e quarenta noites
Se o evangelista houvesse dito que Jesus estivera jejuando quarenta
dias e quarenta noites usando o genitivo de tempo, significaria que ele
jejuara durante esse período de tempo, mas não necessariamente todos
os quarenta dias. De fato, o significado seria que ele jejuara durante o
dia, mas comia à noite.91 Cf. também Mc 1:13.
At 7:20 áuexpácjiq pfjvaç xpeíç è v xw olkco xoô Traxpóç
[Moisés] foi mantido por três meses na casa de seu pai

Mt 28:20 |ie0’ úpcju rípi iráoaç xàç fpépaç «nç xfjç auuxeÀcíaç xoô aícõuoç
eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos
A promessa de Jesus não era simplesmente que estaria com eles durante
a presente dispensação [que seria a tradução caso o genitivo houvesse
sido usado], mas por toda a extensão dessa dispersação.

Lc2:37 cwjúoxaxo xoô lepoü . . . Àaxpeúovou uÚKxa Kal r)|iépau


[Ana] não deixava o templo, adorando .. . noite e dia
A expressão "noite e dia" significa "durante a noite e o dia". Poderia
ser traduzida como "todo o tempo", mas em um sentido distributivo
ou iterativo [N.T., repetitivo], Cf. também Mc 4:27; At 26:7; 2 Ts 3:8
(v.l. trad. varia lectio).
Cf. também Mc 2:19; At 9:9; 10:30; 21:7; Ap 9:10.
e. Síntese do uso temporal do Genitivo, Dativo e Acusativo
Uma maneira de recordar como se diferencia a idéia de tempo transmitida
por cada caso citado é: lembre-se da idéia básica do caso. Porém, no sistema

91 Cf. Lc 18:12, embora não se possa falar muito do genitivo ali existente ("em duas
ocasiões durante a semana"). Mas os fariseus freqüentemente apenas jejuavam durante o
dia (cf. E. Schürer, The History of the Jeioish People in the Age of Jesus Christ, rev. e ed. por G.
Vermes, F. Millar, M. Black [Edinburgh: T. & T. Clark, 1979] 2.484). Além disso, o Didaquê
parece sugerir uma distinção qualitativa entre os dois. Em Didaquê 8.1, o autor exorta os
leitores a não jejuarem como os judeus, nas segundas e terças-feiras (usando o dativo
[õeuxépa aapfSáxcjv Kal m-piTi]]), mas nas quartas e sextas-feiras (utilizando o acusativo
[xexpáôa Kal xapaaKçuriv]).
Acusativo: adverbiais (respeito ou referência) 203

de cinco casos pode parecer um pouco confuso. Portanto, nessa ocasião,


faremos excepcional menção da filosofia do sistema de oito casos. A idéia
básica do genitivo é tipo. Assim, o genitivo de tempo expressa o tipo de tempo.
A idéia básica do locativo (não do dativo) é posição, expressando o ponto no
tempo. A idéia básica para o acusativo é extensão. Assim, o acusativo de tempo
expressa a extensão de tempo.
Uma ilustração pode ajudar. Se eu dissesse: "eu trabalhei ontem à noite",
você entenderia de três modos distintos: (1) durante a noite, (2) a noite
toda, ou (3) em algum momento durante a noite. De acordo com a índole da
língua grega, o caso no qual o termo noite fosse usado, indicaria o que eu
quero lhe dizer. Se eu dissesse vuktoç (gen.), seria "durante a noite". Se
viktÍ (dat.) seria "em algum momento da noite (e.g., 1 a.m.), Se fosse uuKiá
(acus.) significaria "a noite inteira". Veja isso ilustrado graficamente abaixo
(gráfico 16).

VUKTL

^ ----------------------v u k t Ó ç ------------------------ ^

I------------------------------------------V U K l d ----------------------------------------------- 1

6 7 8 9 10 11 12 13 14 14 16 17 18

Q u adro 16
O s C asos U sados p ara Tem po

3. Acusativo de Respeito ou de Referência


a. Definição

O acusativo restringe a referência da ação verbal. Ele indica com referência a


que a ação verbal é representada como verdadeira.
Um autor usará isso para qualificar uma declaração que, de outro modo,
não seria verdadeira. Assim, esse acusativo poderia ser chamado de
acusativo de referência ou limitador. Essa categoria não é muito comum no
koinê.92

b. Chave para Identificação

Anteponha a expressão com referência a, ou no que diz respeito ao substantivo


para descobrir se tal acusativo é ou não de referência. Seu uso é bastante
raro no NT, tanto que deveria ser empregado como último recurso, isto é,
somente depois que as uuta exaustivamente.

92 No grego clássico, o acusativo era o caso mais comum usado como referência. No
Koinê, ocupa o segundo lugar, sendo suplantado pelo dativo. Isso ocorre, sem dúvida,
porque o dativo tem naturalmente mais a conotação de referência para os usuários não-
nativos. Há também um genitivo de referência e um nominativo de referência (i. e.,
nominativus pendens).
204 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

c. Ilustrações
Mt 27:57 ctvOpcoiToç ttàoúoloç cnrà ’ ApipaGceíaç, xoúuopa Itoaiícj)
um homem rico de Arimatéia, cujo nome era José

Jo 6:10 «véueoau ouu ol ãuôpeç tou àpiOpòv cáç tt6vtoklox[àloi,


então os homens sentaram-se, no que diz respeito ao número, eram cerca
de cinco mil

Rm 10:5 Mtoüorjç yàp ypácjjel rqu ÕLKoaooúvriv Tqu ck toü uópou


porque Moisés escreveu que, no que diz respeito a justiça que procede
da lei. . .

Ap 1:20 xò (J,uotijplov tcôv eircà dcoTéptov oúç elôeç étrl xf|ç ôeÇiâç pou, . . .
ol êirrà áaxépeç ãyyeÀot eímv . . .
com referência ao mistério das sete estrelas que viste em minha mão
direita: .. as sete estrelas são anjos . ..
Cf. também At 2:37; Rm 8:28 (possível);93 1 Co 9:25; 2 Co 12:13.; Ef 4:15; Fp 1:27 (possível);
Hb 2:17.

4. Acusativo em Juramento
a. Definição
Esse uso indica a pessoa ou coisa por quem ou pela qual alguém faz um
juramento. Não é comum no NT.
b. Chave de Identificação
Antes do nome no acusativo coloque a palavra por. Note também que ele
será usado apenas com verbos de juramento (tais como òpKL(tó, ópvúto),
seguido tipicamente (mas nem sempre) por um título divino.
c. Amplificação
Embora estruturalmente esse acusativo se assemelhe, freqüentemente, ao
duplo acusativo (de pessoa-coisa ou objeto-complemento), semanticamente
são bem diferentes. (1) O acusativo de juramento será uma pessoa, mesmo
que o acusativo objeto direto seja uma pessoa. Isso cancela a chance de ser
ele classificado como um duplo acusativo de pessoa-coisa. (2) Os dois
acusativos não se referem ao mesmo objeto. Desse modo, ela não pode ser
uma construção objeto-complemento.94 Na realidade, este é um de tipo de
acusativo adverbial, embora fosse inapropriado traduzi-lo como um
advérbio.95

93 Veja Cranfield, Romans (ICC) 1.425-29, que trata e remove a probabilidade de irávta
como acusativo de referência (assumindo a leitura mais extensa). Certamente ele está
correto. Em nosso ponto de vista, se um acusativo pode naturalmente preencher alguma
outra categoria (tal como objeto direto), chamá-lo de referência é petitio principii.
94 Não é necessário citar o acusativo de juramento acompanhando outro acusativo
como ilustração de outra diferença com o duplo acusativo.
Acusativo: depois de certas preposições 205

Uma preposição, às vezes, substitui o simples acusativo (pessoa ou coisa)


por quem ou pela qual alguém faz um juramento,96 assim como ocorre com
o simples dativo.97
d. Ilustrações
Mc 5:7 'Irpoí) ule Tot> 8eoi) toi) Í)v|/Íotou; òpKÍÇoo oe tòu 6eóv, pq pe fxy.oavíor\ç
Jesus, Filho do Deus Altíssimo, conjuro-te por Deus, não me atormentes!

1 Ts 5:27 évopKÍÇü) òpâç x ò v K Ú p io v


conjuro-vos pelo Senhor

Tg5:12 pf| ópnúere, pqxe lò v oúpauòv pqxe tf)U yfjv prpe aXXov xiva opKOV
não jureis, nem pelo céu ou pela terra nem por qualquer outro juramento
A última expressão, "por qualquer outro juramento" (prpe aXXov xivà
optcov) parece um acusativo cognato, ainda que o paralelo com as duas
frases anteriores pf)xe sugira um acusativo de juramento (algo como "nem
pela pessoa ou coisa em qualquer outro juramento").
Cf. também At 19:13; 2 Tm 4:1.

Acusativo Depois de Certas Preposições


1. Definição
Certas preposições tomam o acusativo. Veja o capítulo sobre preposições para
discussão. Para revisar acerca das preposições e os casos que as seguem, cf.
Mounce, Basics of Biblical Greek, 55-62.

2. Significado
Quando um acusativo segue uma preposição, não tente identificar-lhe a função
apenas pelos usos do caso. Pelo contrário, consulte o BAGD para verificar o uso
específico do caso com tal preposição.

Conclusão dos Casos


A seção dos casos tem sido ampla por duas razões: (1) A freqüência dos casos justifica
o tratamento exagerado (cerca de 60% de todas as palavras no NT tem a ver com
eles), e (2) os casos são extremamente flexíveis em seus usos, tendo, portanto, um
papel chave na exegese. Como Robertson, com habilidade, coloca: "Os casos
prenderam-nos a atenção, por um bom tempo, mas não esqueça que esse assunto não é
secundário a nenhum outro da sintaxe grega.."98

95 No uso clássico, essa categoria pertence a um âmbito maior do acusativo em


invocações. Veja Moorhouse, "The Role of the Accusative Case," 212-13.
96 E.g., ê v em Mt 5:34, 36; 23:16; Ap 10:6; K a r á + gen. em Mt 26:63; Hb 6:13.
97 Cf. At 2:30.
98 Robertson, Grammar, 543.
Os Artigos - Parte I
Origem, Função, Usos Regulares e
Ausência dos Artigos
A. Introdução.................................................................................................................207
B. Origem........................................................................................................................ 208
C. Função .......................................................................................................................209
D. Usos Regular do A rtigo.......................................................................................... 210
1. Como Pronome (Uso [parcialmente] Independente)...................................211
a. Pronome Pessoal...................................................................................... 211
b. Pronome Pessoal Alternativo................................................................. 212
c. Pronome Relativo.................................................................................... 213
d. Pronome Possessivo................................................................................215
2. Com Substantivos (Uso Dependente ou Modificado)............................... 216
a. Artigo Individualizador......................................................................... 216
1) Simples Identificação.....................................................................216
2) Anafórico (Referência Prévia)...................................................... 217
3) Catafórico (Referência Conseqüente)..........................................220
4) Dêitico (Artigo de "Ponto de Referência")................................. 221
5) Artigo por Excelência...................................................................... 222
6) Monádico (Artigo "de Uma Espécie" ou "Ú nico")..................223
7) Artigo de Renome (Artigo de "Celebridade" ou "Familiar") 225
8) Abstrato (i.e., o Artigo com Nomes Abstratos).........................226
b. Artigo Genérico (Artigo Categórico).................................................... 227
3. Como um Substantivador (Com Certas Partes do Discurso).....................231
4. Como um Marcador de Função.......................................................................238
E. Ausência do Artigo....................................................................................................243
1. Clarificação ....................................................................................................... 243
2. Significância ....................................................................................................... 243
a. Indefinido................................................................................................244
m+- b. Qualitativo................................................................................................ 244
c. Definido..................................................................................................... 245
1) Nomes Próprios..............................................................................245
2) Objeto de uma Preposição............................................................ 247
3) Com Números Ordinais................................................................248
4) Nominativo Predicativo................................................................248
5) Complemento na Construção Objeto-Complemento...............248
6) Nomes Monádicos..........................................................................248
7) Nomes Abstratos.......................................................................... 249
8) Construção Genitiva (Corolário de Apolônio)....................... 250
9) Com Adjetivo Pronominal............................................................253
10) Nomes Genéricos...........................................................................253

206
Artigos - Parte I: introdução 207

Bibliografia Selecionada
BAGD, 549-52; B D F , 131-45 (§249-76); Brooks-Winbery, 67-74; L. Cignelli, and G.
C. Bottini, "L'Articolo nel Greco Biblico," Studium Biblicum Franciscanum Liber
Annuus 41 (1991) 159-199; Dana-Mantey, 135-53 (§144-50); F. Eakin, "The Greek
Article in First and Second Century Papyri," AJP 37 (1916) 333-40; R. W. Funk, Inter-
mediate Grammar, 2.555-60 (§710-16); idem, "The Syntax of the Greek Article: Its
Importance for Criticai Pauline Problems" (Ph.D. dissertation, Vanderbilt University,
1953); Gildersleeve, Classical Greek, 2.514-608; T. F. Middleton, The Doctrine of the
Greek Article Applied to the Criticism and Illustration of the New Testament, new [3d]
ed., rev. by FI. J. Rose (London: J. G. F. & J. Rivington, 1841); Moule, Idiom Book,
106-17; Porter, Idioms, 103-14; Robertson, Grammar, 754-96; H. B. Rosén, Early Greek
Grammar and Thought in Heraclitus: The Emergence of the Article (Jerusalem: Israel
Academy of Sciences and Flumanities, 1988); D. Sansone, "Towards a New Doctrine
of the Article in Greek: Some Observations on the Definite Article in Plato," Classical
Philology 88.3 (1993) 191-205; Tumer, Syntax, 13-18, 36-37, 165-88; Võlker, Syntax
der griechischen Papyri, vol. 1: Der Artikel (Münster: Westfãlischen Vereinsdruckerei,
1903); Young, Intermediate Greek, 55-69; Zerwick, Biblical Greek, 53-62 (§165-92).

A. Introdução

Os artigos foram um dos maiores presentes deixados pelos gregos à civilização


ocidental. A vida intelectual européia foi profundamente impactada por esse legado
de clareza.1 No início do primeiro século, o grego se tomou refinado e perspicaz.
Conseqüentemente, o artigo é uma das áreas mais fascinantes do estudo da gramática
do NT Grego, porém, também é uma das mais negligenciadas e abusadas. Apesar de
que o artigo seja usado com mais freqüência que qualquer outra palavra grega no
NT (quase 20.000 vezes, ou seja, uma em cada sete palavras),2 há ainda muito mistério
envolvido no uso do artigo.3 A melhor obra sobre esse assunto, The Doctrine of the

1 Veja P. Chantraine, "Le grec et la structure les langues modemes de 1'occident,"


Travaux du cercle linguistique de Copenhague 11 (1957) 20-21.
2 À luz de sua freqüência e sutileza, não podemos esperar classificar todos os usos
do artigo. Este capítulo focalizará nas categorias principais. Pode-se consultar a biblio­
grafia como sugestão de obras mais técnicas.
3 Sansone destaca: "mesmo o exame do uso exaustivo do artigo em um único autor
requer um estudo prolongado de uma tese e, até mesmo, vários estudos que adequada
e acuradamente o abordem, não é possível encontrar usos incontáveis do artigo defini­
do no grego primitivo ou no clássico" ("New Doctrine of the Article," 195).
208 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Greek Article, de Middleton, tem mais de 150 anos.4 No entanto, embora não
entendamos tudo sobre o artigo grego, não estamos pisando em terreno totalmente
desconhecido. Como Robertson declarou: "O artigo nunca será insignificante no
grego, embora freqüentemente falte correspondência com nossa língua... seu uso
desprendido conduz a exatidão e fineza.5 Não podemos considerá-lo como algo
desnecessário, pois sua presença ou ausência é o elemento crucial para abrir o
significado de várias passagens no NT.

Em suma, não há aspecto mais importante para a gramática grega que o auxílio do
artigo a nosso entendimento do pensamento e teologia dos escritores do NT.

Como um comentário à parte, deve-se dizer que os tradutores da KJV erraram


muito ao lidar com o artigo. Eles eram mais familiarizados ao latim que ao
grego. Uma vez que o latim não o possuía, os tradutores da KJV, com muita
freqüência, deixaram muito a desejar quanto às nuanças do artigo grego.
Robertson colocou essa questão do seguinte modo:
Os tradutores da Versão Rei Tiago, sob a influência da Vulgata, lidaram
com o artigo grego leve e sem cuidado. Uma boa lista desses pecados estão
na obra "The Revision of the New Testament". Citemos, v.g., "um pináculo"
em lugar de xò TTxepÚYLOV (Mt. 4:5). Aqui a questão inteira repousa sobre o
artigo, a parte mais alta do templo. Assim em Mt. 5:1 xò ôpoç era a
montanha, não "uma montanha". Eles também falharam com a tradução
de pcxà yuvaucóç (Jo. 4:27) quando traduziram "a mulher." Ela era uma
"mulher", isto é, uma mulher qualquer, não uma mulher específica que
estava em questão. Até os revisores de Canterbury não ficaram isentos de
culpa, pois ignoraram o artigo em Lc 18:13, xcâ ã|iapxcjA.cô. O importante é
ver a questão do ponto de vista grego e encontrar o porquê do uso do
artigo.

B. Origem

O artigo tem origem no pronome demonstrativo, ou seja, sua ênfase original era
apontar para algo. Essa ênfase foi mantida nos artigos.

4 Os dois volumes de Adrian Kluit, Vindíciae Articuli 'O, 'H, Tó in Novo Testamento
(Paddenburg: Traiecti ad Rhenum, 1768) discutem com mais clareza, embora o autor
esteja muito preocupado com a questão de conexões da sintaxe e das formas lexicais,
ou seja, como o artigo é usado com vários termos, em lugar de fazer uma apresentação
sistemática. A obra de Middleton, pelo contrário, contém 150 páginas sobre a sintaxe
do artigo no grego clássico, seguido por um pouco da sintaxe exegética do artigo no
NT (mais de 500 páginas abordando de Mateus até Apocalipse).
5 Robertson, Grammar, 756.
6 Ibid., 756-57.
Artigos - Parte I: introdução 209

C. Função
1. O que o artigo NÃO é
A função do artigo não é primariamente tomar algo definido de modo que esse
algo não pudesse ser indefinido. A questão primária Não fala de "definição",7
pois há, pelo menos, dez maneiras de definir um substantivo no grego, sem o
emprego do artigo. Por exemplo, os nomes próprios são definidos mesmo sem
artigo (IlaüÀoç significa "Paulo", não "um Paulo"). Quando nomes próprios
tomam o artigo, tem-se em mente algum outro propósito. Além disso, seu uso
fora dos substantivos não torna algo definido (como já mencionamos acima),
mas conceituar algo que de outra forma não poderia ser conceituado.
Dizer que o artigo tem a função básica de fazer algo definido é cair na "falácia
fenomenológica", ou seja, fazer declarações ontológicas baseadas em evidência
truncada. Ninguém questiona se o artigo é usado freqüentemente para definir,
mas sim, se essa é a idéia essencial.
Uma nota adicional: Não há necessidade de falar do artigo grego como artigo
definido porque não existe o artigo indefinido em grego.8

2. O que É
a. Na realidade, o artigo intrinsecamente tem a habilidade de conceituar. Ou,
como Rosén declara: o artigo "tem o poder de conceder o status nominal
para qualquer expressão que lhe esteja anexa. Por isso, comunicar o status
de conceito para qualquer "objeto" que faça parte do campo semântico des­
sa expressão. Qualquer coisa concebida pela mente toma-se um conceito
simplesmente pelo fato de alguém chamar-lhe por um nome.9 Noutras pa­
lavras, o artigo é transformar qualquer parte do discurso em um conceito.
Por exemplo, "pobre" expressa qualidade, mas a adição de um artigo trans­
forma-o em uma entidade, "o pobre". É esta habilidade de conceitualizar
que parece ser a força básica do artigo.
b. Ele faz mais que conceitualizar? E claro. Uma distinção precisa ser feita
entre: (1) a força essencial do artigo; e, (2) a freqüência com que ela é usada.
Em termos de força básica, o artigo conceitualizar. Em termos de função, ele
identifica.10 Quer dizer que ele é usado predominantemente para expressar

7 Contra Brooks-Winbery, 67; Young, Intermediate Greek, 55.


8 Rosén (Heraclitus, 25) observa: "esse termo é justificado somente quando uma lín­
gua tem, pelos menos, dois desses elementos, um dos quais é um determinador. Não
conheço nenhuma língua que possua somente um 'artigo' com função indeterminada".
9 Ibid., 27.
10 Porque este é o seu normal não significa que seu poder conceituador desapareça,
mas, pelo contrário, que sua matiz identificadora é um subponto deste poder. Além dis­
so, se dissermos que seu valor essencial era identificar, seremos forçados a explicar seu
uso com outras formas gramaticais e não somente com os nomes.
210 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

a identidade de um indivíduo, classe ou qualidade. Há uma variedade de


formas como o artigo enfatiza identidade. Por exemplo, ele pode distinguir
uma entidade (ou classe) de outra, identificar algo como conhecido ou úni­
co, apontar para algo presente fisicamente, ou, simplesmente, apontar. A
função identificadora do artigo cobre uma multidão de usos.

c. O artigo grego também exerce, às vezes, uma função determinante, i.e., ele
define. Embora seja incorreto dizer que a função básica do artigo seja de
fazer algo definido, no entanto, qualquer uso que seja feito terá o termo
modificado como já necessariamente ser definido. Essas três relações
(conceitualizar, identificar, definir) podem ser pressentidas como círculos
concêntricos, ou seja: todos os artigos que definem também identificam;
todos que identificam também conceitualizam.

Quadro 17
A Força Básica do Artigo

D. Usos Regulares ão Artigo


A maior parte dessa seção (e.g., artigo como pronome, como substantivos etc.) ver o
artigo em certas construções. No entanto, atente para a ordem: classificar o uso do
artigo em uma categoria estrutural não é necessariamente barrá-lo da membresia em
uma das categorias semânticas. Sansone destacou isso assim: "Contabilizar os usos
do artigo é difícil, pois, embora seja uma pequena palavra, possui muitíssimos usos".11

O principal uso semântico ocorre normalmente com os nomes; há, porém, não pou­
cos outros usos semânticos em outras construções. Assim, por exemplo, o artigo em
At 14:4 pertence à categoria "Pronomes Alternativos", onde substituem nomes:
èa%ía0r| ôè tò 7TÂf|0oç if\ç ttÓàhjç, kccí oi pc-v rjoau aw tolç 'Iouôaíoiç ol õè auu
tolç àtTOOtóA.otç ("mas o povo da cidade ficou dividido: alguns ficaram do lado dos
judeus, mas outros, do lado dos apóstolos"). Eles também são anafóricos, apontan­
do a um referencial anterior - "o povo/multidão" (tò Tt/lf|9oç). Seria errado dizer

11 Sansone, "New Doctrine of the Article," 205.


Artigos - Parte í: usos regulares (como um pronome) 211

que os artigos não podem ser anafóricos porque são pronominais. Uma boa dica é:
coloque o artigo em sua categoria estrutural apropriada. Então, examine-o para ver
se ele também segue uma das categorias semânticas.

1. Como um Pronome [Uso (parcialmente) Independente]

O artigo não é um pronome verdadeiro no Koinê, embora seja derivado dos


demonstrativos. No entanto, em muitos exemplos, pode funcionar semantica­
mente como um pronome. Cada categoria precisa ser analisada isoladamente.

O uso do artigo no lugar dos pronomes pessoal e alternativo aproxima-se do


uso independente propriamente dito, onde o artigo não possui sua capaci­
dade normal. Não há nenhum outro nome modificando-o. Normalmente,
tal artigo não possui nenhuma outra ênfase.

O que chamamos de uso do artigo como pronome relativo, é, na realidade,


uma maneira de abordar a questão no português. Em tais casos, o artigo
não perdeu nenhuma de suas características, isto é, significa que ainda de­
pende de um nome, adjetivo ou substantivo.

O artigo usado como pronome possessivo também é dependente. A idéia


possessiva está implícita na presença do artigo só em certos contextos. Nes­
ses exemplos, o artigo ainda retém seu alcance completo nas opções semân­
ticas que tem quando usado com substantivos.

a. Pronome Pessoal {E le, E la ]

1) Definição

O artigo é freqüentemente usado no lugar de um pronome pessoal da


terceira pessoa no nominativo. Ele só ocorre com a expressão pev. . . õé
ou com simplesmente õé. (V.g., ó pèv. . . ò õé ou, simplesmente, ò õé.)
Essas construções ocorrem com muita freqüência nos Evangelhos e Atos,
são quase inexistentes em outros contextos.

2) Amplificação

a) Aé é usado para indicar a mudança de sujeito. O artigo é usado para


reportar a alguém anterior ao último sujeito nomeado.
Freqüentemente, o sujeito é o emissor e o intercâmbio ocorre ape­
nas com nomes, não com a ação.

b) ' 0 õé (ou ó pév) é, costumeira e imediatamente, seguido por um


verbo finito ou um particípio circunstancial.12 Por definição, um

12 Mateus usa o particípio mais que qualquer outro autor. Lucas e João empregam
o artigo quase que exclusivamente seguido por verbo. Em poucas ocasiões, as formas
não-verbais seguem-no, no entanto, um verbo pode ser posto entre ambos (cf. Lc 7:40;
At 17:18; 19:2).
212 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

particípio circunstancial nunca terá artigo, mas, em tais construções,


o estudante iniciante, ao ver o artigo, pressuporia que o particípio
é substantivado. Porém, se você lembrar que o artigo, como um pro­
nome, é independente e, portanto, não modifica o particípio, classi­
ficará o particípio como circunstancial. Não haverá quase nunca
qualquer confusão sobre isso, visto que o contexto elucidará se o
particípio é circunstancial ou substantivado.13

3) Ilustrações

Mt 15:26-27 ô õe à7TOKpt0elç d m v , Ouk eoxiv Kodòv Àaffelv xòv apxov xüv


T6KVC0V . . . (27) f| õe eíirev . . .
mas ele, respondendo, disse: "não é bom tomar o pão dos filhos . . ."
(27) mas ela disse . . .

Lc 5:33 ol õè eluav trpòç aúxóv ol paGqxal Itoávvou vqaxeúouaLV. . . , ol


òè ool èaGíouaiv Kal itívougiv
Mas eles lhe disseram: "os discípulos de João jejuam . . . , mas os teus
[discípulos] comem e bebem

Jo 4:32 ó ôè eínev auxolç


mas ele lhes disse

At 15:3 ol | iè v o u v TípoTT<|i(f)0évxeç ÚttÒ xf|ç fKKÀr|oíaç


m as eles, t e n d o s id o e n v i a d o s p e la ig r e ja ,

Hb 7:24 o õe . . . eiç xov auava . . . exei xqv tepuouvqv


mas ele . . .para todo o sempre . . . tem o sumo sacerdócio
Cf. também Mt 13:28, 29; 14:8; 17:11; 27:23 (2x); Mc 6:24; Lc 8:21; 9:45; Jo 2:8; 7:41; 20:25;
At 3:5; 4:21; 5:8; 16:31.

b. Pronome Pessoal Alternativo [a lg u n s . . . o u tr o s ]

1) Definição
Semelhante ao uso do artigo como pronome pessoal, o uso alternativo
também é encontrado com pév e õé (e, aqui o artigo é encontrado somente
no nominativo) Esse uso é distinto do uso do pronome pessoal, pois: (1)
estruturalmente, tanto pév e õe quase sempre estão presentes,14 e (2)
semanticamente, um contraste moderado está implícito. (Provavelmente

13 Young, Intermediate Greek, alista Mt 4:20; 8:32; 26:57 como textos potencialmente
ambíguos, embora eles envolvam particípios circunstanciais. A primeira vista, Mt 14:21,33
é passível de ambigüidade, mas estes versos possuem particípios substantivais.
14 Em At 17:18, temos ilvcç . . . ol ôé.
Artigos - Parte I: usos regulares (como um pronome) 213

é melhor considerá-lo um subconjunto do uso pronome pessoal.) O


singular é comumente traduzido por "uns . . . outros". O plural, por
"alguns . . . outros". Esse uso é muito raro no NT.15

2) Ilustrações

At 17:32 áKoúaauxeç ôè âváoxaoiv vetcptôv o i pèv k/XeúaCov, o i ôè fiirav ,


’AKOuaó|ie9á oou nepi toútou K a i ná/Uu
Quando, porém, ouviram sobre a ressurreição dos mortos, alguns
começaram a escarnecer, mas outros disseram: "Nós te ouviremos
novamente sobre esta questão".

1 Co 7:7 'ÉKaoioç íõtou èj(ei %ápio\xa èK 9eou, ó pèv outcoç, ó ôè oütgjç16


cada um tem o seu próprio dom vindo de Deus, um de uma maneira,
outro de outra.
O artigo também funciona anaforicamente, reportando-se a (Kaozoç.

Hb 7:5-6 o i pèv I k zôiv uíwu Aeul tq v U p a te ía v Àappáuouteç lvzolr\v


èxouaLU àTTOôeKaToúu . . . touç áôeÂcjtouç aúrcâu, Kaítrep éÇeÀqÀu9óxaç
I k iq ç óa(j)úoç 'Afipaáp (6) ó ôè pq yçueaÀoyoúpeuoç li auttòv
Õ(-Òf KKTOOKCU ’A ppaáp . . .
Os descendentes dos filhos de Levi que recebem o ofício sacerdotal
têm o mandamento de receber os dízimos dos . .. seus irmãos, embora
sejam eles também descendentes de Abraão. (6) Mas este, não sendo da
genealogia deles, recebeu dízimo de Abraão. . .
E impossível que esses dois exemplos pertençam a diferentes
categorias: o primeiro artigo o i poderia ser considerado um
substantivador com um particípio (nesse caso a tradução seria: Este,
que não tem a genealogia deles").

Cf. também Jo 7:12; At 14:4; 17:18; 28:24; G1 4:23; Ef 4:11; Fp 1:16-17; Hb 7:20-21; 12:10.

c. Pronome Relativo [q u e , c u jo ]

1) Definição

Às vezes, o artigo eqüivale ao pronome relativo na sua força. Isso é es­


pecialmente verdadeiro quando ele é repetido depois de um nome an­
tes de uma frase (e.g., uma frase genitiva). Por exemplo, em 1 Co 1:18 Ò
Âóyoç ó roí) oxaupou significa "a palavra que é da cruz."

15 Às vezes, o artigo também é anafórico, referindo-se a um nome especificado antes


(e.g., At 14:4). Outras vezes, o conteúdo nominal deve ser extraído do contexto (e.g.,
G14:23). Em algumas ocasiões, o artigo funciona como o objeto em uma construção objeto-
complemento (Ef 4:11). O exemplo em At 14:4 ajuda-nos em outra direção: visto que o
artigo funciona em mais de uma situação, isso ilustra o caráter global e multifuncional
do artigo.
16 Muitos MSS trazem oç em lugar de ó (íp46 Nc K L T Byz).
214 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

2) Amplificação e Semântica

a) Especificamente, esse é o uso do artigo com segunda e terceira posições


atributivas onde o modificador não é um adjetivo. (A segunda posição
atributiva é: artigo-nome-artigo-modificador. A terceira posição
atributiva é: nome-artigo-modificador). Assim quando o modificador é
(a) uma frase genitiva (como acima), (b) uma locução prepositiva (como
em Mt 6:9: "Pai nosso que está nos céus" [IIctTep f|[itúu ô èv tolç
oópavoLçj), ou (c) um pa rticípio (e.g., Mc 4:15:"a palavra que foi
semeada" [tov ÀÓyov tou èamxppèvov]), o artigo é traduzido como um
pronome relativo.

b) Quando dizemos que o artigo funciona como um pronome relativo, es­


tamos apenas representando o modo como o português lida com a ques­
tão. Assim, essa não é, na verdade, a força semântica do artigo. O artigo
ainda depende de um nome, substantivo ou adjetivo. Ele tem a força
anafórica, reportando-se ao substantivo com o qual concorda.
Traduzimo-lo como um pronome relativo porque a tradução literal não
ficaria bem: "nosso Pai, o em céu".

c) Quando um genitivo ou uma locução prepositiva segue o substantivo,


é possível omitir o artigo sem alterar a idéia básica.17 Voltando para 1
Co 1:18, notamos que alguns MSS importantes omitem o artigo antes
da frase genitiva (ó ÀÓyoç toô otaupoo).18 A noção extraída aqui é
menos enfática ("a palavra da cruz"), mas não é essencialmente dife­
rente. Por que, então, o artigo é, às vezes, adicionado antes do genitivo
e locuções prepositivas? Para (1) enfatizar, e (2) elucidar.19

3. Ilustrações

Lc 7:32 ópoioí eunv mnôíoiç tolç èv ócyopâ KaGqpévoLç


são como crianças que assentadas no mercado

At 15:1 éàv pq nepLT|-ir|0íjTe tq 606L tcô Mcooaéwç20


se não vos circuncidardes de acordo com o costume que [é] de Moisés
Uma tradução menos desajeitada seria simplesmente: "o costume de
Moisés". O uso do artigo, porém, enfatiza a ligação com a antiga
aliança.

17 Isso não é verdade com particípios. Um particípio anarthro seguindo de um nome


articular será outra coisa, menos um particípio atributivo (seja adverbial ou predicativo).
Porém, quando um particípio anarthro segue um nome anarthro, esse também pode ser
atributivo.
18 E.g., «p46 B 1739 pauci.
19 O valor esclarecedor do artigo é especialmente visto antes das locuções prepositivas,
uma vez que essas locuções poderiam, pelo contrário, ser construídas como subordinadas
por mais de um substantivo numa sentença.
20 Poucos MSS omitem o segundo artigo (C D E H L P alii).
Artigos - Parte I: usos regulares (como um pronome) 215

Fp 3:9 eí)pe0M kv aôrtô, (if| 'kyy>v è(iT|V ÔLKoaoaúi/nv tt|v ck uópou àÀÀà xqu
õià TTÍotecoç XpioxoO
E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que
vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé;21
Esse texto envolve a terceira posição atributiva e duas locuções
prepositivas. O segundo artigo resume o argumento. É como se o após­
tolo dissesse: "não a minha justiça própria, mas a que vem por meio da
fidelidade de Cristo".

Tg 2:7 tò kocA.Òv ovopa tò è'iiiKÀq0èt' écj)’ òpâç


o bom nome que [foi] invocado sobre vós

Cf. também Mt 2:16 ; 21:25; Mc 3:22; 11:30; Lc 10:23; Jo 5:44; At 3:16; Rm 4:11; 1 Co 15:54;
1 Ts 2:4; Tt 2:10; Hb 9:3; Ap 5:12; 20:8.

d. Pronome Possessivo [s eu , s u a ]

1) Definição

O artigo é, às vezes, usado em contexto implicando possessão. Em si, o


artigo não envolve possessão, mas essa noção pode ser inferida a partir
da presença do artigo sozinho em certos contextos.

2) Amplificação

a) O artigo é usado desse modo em contextos onde a idéia de posses­


são é óbvia, especialmente quando a anatomia humana está envol­
vida. Assim, em Mt. 8:3, não há necessidade de o evangelista acres­
centar aÓToü porque é evidente: "estendendo sua mão" (eKtcívaç
rf|U x€~LPa)-

b) E importante notar que, a menos que o nome seja modificado por


um pronome possessivo ou, pelo menos, por um artigo, a idéia de
possessão quase não está implicada. Assim, em Ef 5:18, TT/lqpoCa0e
kv TTwúpaii provavelmente não significa "ser cheio em seu próprio
espírito", mas "ser cheio em/com/pelo Espírito".22 E em 1 Tm 2:12, a
instrução para a mulher não ensinar ou exercer autoridade sobre
ávõpóç, provavelmente, não tem relação com seu marido, mas com
homens no sentido geral.

3) Ilustrações

Mt4:20 ol õè eôOéiaç àtjjéuicç ià òÍKtua f|KOÀoú0qaau aúicô


e imediatamente eles deixaram suas redes e o seguiram
O artigo também é anafórico, reportando-se ao v. 18.

21 Para discussão do uso do genitivo XpioroO, veja o capítulo sobre "Genitivo


Subjetivo".
2 Alguns apelam para o paralelo em 1 Co 14:15, mas ali o artigo é usado.
216 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Rm 7:25 kyá> t(3 |ièv v o t ôouA.eúo) uopcp 0eoO, tf) õè aapid uó|iiú àiiaptíaç.
eu mesmo sirvo à lei de Deus com minha mente, mas com minha carne,
à lei do pecado.

Ef 5:25 ol a v ò p eç , à y a u ã z e xàç yuvaÍKaç


os maridos, amem suas esposas
O artigo é também genérico em um sentido distributivo: cada marido
deve amar sua própria esposa.
Mt 13:36 ácjíçlç xoòç óykovjQ rjMtev elç xf|v oIkÍoív23
deixando a multidão, ele foi para sua casa
É possível que o artigo seja meramente anafórico, reportando-se ao v.l.
No entanto, este verso está a trinta e cinco versos atrás. E igualmente
possível que Jesus esteja aqui voltando para sua própria casa.

Cf. também Mt 27:24; Mc 1:41; 7:32; Fp 1:7.

2. Com Substantivos (Uso Dependente ou Modificado)


A relação artigo-substantivo é um campo de estudo muito frutífero,
exegeticamente falando, na estrutura articular. As duas categorias mais amplas
aqui são: (1) a individualizante e (2) a genérica. O primeiro particulariza, distin­
guindo outros objetos similares. O segundo (também chamado de categórico) é
usado para distinguir uma categoria de indivíduos de outras categorias.

a. Artigo Individualizante

"Este é o uso mais próximo do gênio real da função do artigo, ou seja, apon­
tar um objeto particular [itálicos meus]".24 Essa categoria, porém, não espe­
cifica tudo e, por isso, pode ser dividida em, pelo menos, oito subgrupos.

1) Simples Identificação

a) Definição

O artigo freqüentemente é usado para distinguir um indivíduo de


outro.

b) Clarificação

Essa categoria é um tipo de "porão" onde guardamos aquilo que


não se encaixa em nenhuma outra categoria. Logo, deve somente
ser usada como último recurso. Na realidade, não há muitos exem­
plos do artigo exclusivos para essa categoria. Aqui devemos lembrar
que estamos em uma área ampla e não explorada por gramáticos.
Então, a menos que o artigo se encaixe sob uma das outras sete cate­
gorias articulares [individualizante ou genérico (ou um dos usos

23 Um número de MSS acrescentam aÚToü (/1118 1424 et alii).


24 Dana-Mantey, 141.
Artigos - Parte I: usos regulares (anafórico) 217

especiais)], é aceitável alistá-lo como "um artigo de simples identifi­


cação".

c) Ilustrações
Mt5:15 oóõè Kaíotxnv Xóyyov Ka'L tiGéaai.i' atrtòv uirò xòv póôLou àXX’ êul
xqv XvyyLva
não se acende a lâmpada e a colocado sob o alqueire, mas sobre o velador
Este é um bom exemplo de simples identificação: tanto o alqueire quanto
o velador estão na sala e são apontados como tais pelo artigo.

Lc 4:20 T\zí>íp.c xò PipÀíou áTroõouç xcô únqpéxr) ètcáôioev


tendo fechado o livro, devolveu para o assistente e sentou-se
O livro era o livro de Isaías, apontado no v. 17 (ou seja, anafórico). No
entanto, o assistente não havia sido mencionado. Ele não é aparente­
mente um assistente familiar, mas simplesmente um assistente típico
na sinagoga. O artigo o identifica como tal.

At 10:9 ávépq IIcxpoç ctt! xò ôcõpa TTpoof-ú^KO0ai


Subiu Pedro para o eirado a fim de orar
Não há referência anterior a qualquer casa, mas no contexto da época
esse era o costume. Lucas simplesmente especifica esse local como oposto
a qualquer outro.

1 Co 4:5 xóxe ó emuvoç yevfiaexai CKáotu ÚttÒ xoü 0eoü


então, haverá o louvor para cada um da parte de Deus
Uma tradução melhor é: "então, haverá louvor para cada um da parte
de Deus", mas isso deixa de fora o papel do artigo: cada crente indivi­
dualmente receberá um louvor específico. A idéia é que: "cada um rece­
berá seu [dele ou dela] louvor da parte de Deus".

1 Co 5:9 eypc«|fa úptv kv xq émaxoA.rj . . .


eu vos escrevi na [em a] carta . . .
Paulo havia escrito anteriormente aos coríntios e aqui lhes lembra des­
sa carta. Classificar o artigo como simples identificação é aceitável,
embora outras possibilidades sejam possíveis. De um modo geral, o
artigo é anafórico. Poderia sutilmente ser encarado como possessivo
("minha carta"), mas a ênfase seria "a carta procedente de mim". Logo,
a carta seria tratada como de renome ou familiar ou, até mesmo,
monádica (pressupondo que seja a única carta que os coríntios recebe­
ram de Paulo até essa data).
Cf. também Jo 13:5; Rm 4:4; Ap 1:7.

► 2) Anafórico (Referência Prévia)


a) Definição
O artigo anafórico é o aquele que denota uma referência a algo
anterior, (seu nome deriva-se do grego âveufykpciv, "trazer de volta,
reportar"). A primeira menção do substantivo é normalmente
anarthro. Mas a sua menção subseqüente é articular, pois o artigo se
reporta ao substantivo mencionado anteriormente. O artigo
218 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

anafórico, enfaticamente e por natureza, aponta para tal substantivo,


lembrando ao leitor o que ou quem foi mencionado anteriormente.
Além de ser bastante comum esse uso articular é também muito
fácil de ser identificado.

Por exemplo, em Jo 4:10, Jesus apresentou à mulher na fonte o


conceito de água viva (uôwp (tou). No. v. 11, a mulher se refere à
água dizendo: "Onde, então, guardas a água viva?" (tróBev o\w e^eiç
xò üõwp xò (côv). A força do artigo aqui é melhor traduzida assim:
"Onde tu guardas esta água viva da qual tens falado?"

b) Amplificação

1] Grande parte do artigo individualizante será anafórico em um


sentido m uito amplo. Eles serão usados para apontar alguma
coisa que foi introduzida antes, talvez até mais cedo na
narrativa. Em Jo 1:21, e.g., os judeus perguntam a João Batista:
"És tu o profeta?" (ô upoc|)r|xqç el ou;). Tinham em mente o
profeta mencionado em Dt 18:15 ("um profeta como eu").
Tecnicamente, este exemplo pertence ao artigo por excelência (o
melhor/superior de uma classe), mas, novamente, de forma
ampla, é anafórico. Quer dizer, chamar um artigo de anafórico
não é suficiente, é necessário investigar se ele pertence
especificamente a alguma outra categoria.

Falando de forma prática, classificar um artigo de anafórico


requer que este tenha sido suficientemente introduzido no
mesmo livro, preferivelmente em um contexto não muito
distante.

2] Em termos de exposição, o artigo anafórico é crucial, mas, pri­


mariamente, de modo negativo. Diante de uma palavra arti­
cular, você poderia ser tentado a afirmar mais do que o autor
pretendia. Por exemplo, em Jo 4:9, lemos: f] yuvf| f) Sapapl
x lç ("a mulher sam aritana"). Tal exemplo é claramente
anafórico, apontando para o anarthro yuvr| no v. 7 (onde a mu­
lher é introduzida). Se, porém, você não soubesse que era
anafórico, se admiraria porque o evangelista chama atenção
para ela, usando apenas o artigo: "a mulher samaritana". Nesse
caso, sua conclusão será: (1) ela é bastante conhecida entre to­
das as mulheres samaritanas, ou (2) ela é a mulher samaritana
po r excelência, ninguém mais tem o direito de se intitular "a
mulher samaritana". Quando você percebe que o artigo é
anafórico, meramente apontado o fato que a mulher mencio­
nada anteriormente está ainda sob discussão, terá cuidado em
sua exposição e não dirá algo que o autor nunca quis dizer.
Artigos - Parte I: usos regulares (anafórico) 219

3] Finalmente, o artigo anafórico pode ser usado com um nome


cujo sinônimo foi mencionado anteriormente, ou seja, embora
os termos usados para descrever possam diferir, o artigo é
anafórico se a referência for a mesma.

c) Illustrações

Jo 4:40, 43 epe ivev êicel õúo qpépaç . . . p e tà ôè m ç õúo qpépaç...


permaneceu lá dois dias . .. depois de [os] dois dias. . .

Jo 4:50 léyet áurea ó ’Ir|oo0ç nopeúou, ó ulóç aou £fj. êiTÍoteuoev ò auGpcoTroç
Ttô Àóya) ôu clttcu aúicò ô ’Ir|aoüç Kal cTTopcúcio
Disse-lhe Jesus: "Vai, teu filho vive." O homem creu na palavra que
Jesus lhe dissera e partiu.
No v. 46 este homem é apresentado como tlç [íkolálkÓç (certo oficial do
rei). Esta menção subseqüente é um sinônimo bastante claro, ó SvGpcJtroç.
O artigo nos lembra qual homem está em foco.

At 19:15 xòv 1laiiÀov è-niaiapai


Quem Paulo é eu bem sei
O antecedente no v. 13 (FlaíjÀoç) é anarthro.

Rm 6:4 auu6tá(j)qpeu aínxõ ÕLa toO paiTTLapaToç


fomos sepultados com ele através de [o] batismo
A referência anterior ao batismo no v. 3, é o verbo èpaTTTLO0q|J.<v. O arti­
go é anafórico, ou seja, se refere não somente ao que está anterior a ele,
como também a uma palavra não substantivada.

Tg 2:14 T í xò ocjreÀoç, áôeAxtxH pou, kuv irícm i' Aiyq tlç e/gLU, epya õè pf)
e^íi; Ph õúvataL t| ttlotlç owoaL auiou;
Que aproveita, meus irmãos, se alguém disse que tem fé, mas não tiver
obras? Porventura, pode essa [modalidade de] fé salvá-lo?
O autor apresenta seu tópico: fé sem obras. Ele, então, segue com uma
questão, perguntando se este tipo de fé pode salvar. O uso do artigo
aponta para trás, para certo tipo de fé, e para o modo como o autor o
definiu e o usou para particularizar um substantivo abstrato.
Contra muitos comentaristas, Hodges defende que o artigo não é
anafórico, caso contrário, o artigo com ttlotlç nos versos seguintes tam­
bém se refeririam a uma fé inútil.25 Ele traduz o texto simplesmente
como "Porventura, a fé pode salvá-lo?"26 Embora seja verdade que o
artigo com ttlotlç nos vv. 17,18,20,22 e 26 seja anafórico, o antecedente
precisa ser examinado em seu próprio contexto imediato. Em particu­
lar, o autor examina dois tipos de fé em 2:14-26, definindo a fé que não
trabalha como uma fé não salvífica, e uma fé produtiva como aquela
que salva. Tanto Tiago quanto Paulo, eu creio, concordariam com a de­
claração: "Só a fé salva, mas a fé que salva não está sozinha".

25 Z. C. Hodges, The Gospel Under Siege (Dallas: Redención Viva, 1981) 23.
26 Ibid., 21
220 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

2 Tm 4:2 Kqpuçoy xòu Xóyov


prega a palavra
Aqui tòv Àóyov provavelmente aponta para 3:16, em que é declarado
que trâoa Ypaifrn Beóirveuotoç K a i ükj)iÉA.ipoç - "Toda a Escritura [é]
inspirada e proveitosa". Identificando o artigo com kóyov como anafórico
é natural (visto que o artigo anafórico freqüentemente se refere a um
sinônimo anterior) e também sugere que 3:16 não deveria ser traduzi­
do como "toda escritura inspirada é também proveitosa..." como fazem
a ARC, ASV e NEB. Se 3:16 fosse para ser traduzido "desta última for­
ma, poderíamos esperar um qualificador em 4:2 como "prega a palavra
inspirada".27

Fp 2:6 oç kv pop4)fi 9eoí) úvápyuw oi>x àpiray^òv fiyqoato xò eluca loa 06cp
o qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou o [estado de] ser
igual a Deus [como] algo a ser agarrado
Este é um exemplo debatível. Wright defende que esse artigo é anafórico,
reportando a pop<j)f| 9eoü.28 Por mais atrativa teologicamente quanto
essa visão pareça ser, ela tem uma base gramatical fraca. O infinitivo é
o objeto e à p T T a y p ó ç é o complemento anarthro. A razão mais natural
para ocorrer a construção artigo + infinitivo é simplesmente marcar este
último como o objeto (veja "o artigo como marcador de função" mais
adiante). Além disso, há a possibilidade de que pop(])f| Beoü se refira à
essência (a divindade de Cristo), enquanto que t ò cívai í a a 0cc3 refira-
se à função. Se este for o sentido, ele não usurpou o papel do Pai.
Cf. também Mt 2:1, 7; Jo 1:4; 2:1, 2; At 9:4, 7; 2 Co 5:1, 4; Ap 15:1, 6.

3) Catafórico (Referência Posterior)

a) Definição

Um uso raro do artigo aponta para algo no texto posteriormente


imediato. (Seu nome deriva-se do verbo grego Kaxacjjépeiy, "trazer
de baixo"). A primeira menção, com o artigo, é antecipatória, segui­
da por uma frase ou declaração que define ou qualifica a coisa men­
cionada.
b) Ilustrações

2 Co 8:18 xòv áõeÀ(])òy ou ó emuuoç kv xcô euayy6A.Lq)


o irmão cujo louvor [está] no evangelho

1 Tm 1:15 t h o t Òçó Àóyoç . . . óxi Xptaxòç 'Iijooüç fjXBeu elç xòu K Ó apoy
àpapxtoÀouç acôocu
fiel é a palavra . . . que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar peca­
dores
Cf. também 1 Tm 3:1; 4:9; 2 Tm 2:11; Tt 3:8 para outros usos de "fiel é a
palavra." O artigo em 1 Tm 3:1 e 2 Tm 2:11 possivelmente poderia ser

27 Para uma grande defesa desta tradução, veja o capítulo sobre os adjetivos.
28 N. T. Wright, "ãpnaypóç e o significado de Fp 2:5-11," JTS, NS 37 (1986) 344.
Artigos - Parte I: usos regulares (dêitico) 221

anafórico, mas provavelmente está mais para catafórico.29 Em 1 Tm 4:9,


porém, o artigo é possivelmente anafórico, reportando à segunda metade
do v. 8. 30 Este é também o caso em Tito 3:8.31
Cf. também Jo 17:26; Fp 1:29.
4) Dêitico (Artigo como "Ponto de Referência")
a) Definição
O artigo é usado, às vezes, para apontar para um objeto ou pessoa
que está presente no momento da fala. Normalmente tem força de­
monstrativa. Este uso chega perto da idéia original do artigo.32 Ain­
da que este seja amplamente substituído (ou reforçado) no Grego
Koinê pelo pronome demonstrativo.
b) Ilustrações
Mt 14:15 TTpoaíj/l0ou caraá ol paBryroà Xiyovzeç cpipóç èaxiv ó tÓttgç
vieram a ele os discípulos, dizendo, "Este lugar está deserto"

Lc 17:6 elirev ó KÚpioç el e^eie ttÍotlv wçkokkov aivcoTecoç, kXkyeze a xr|


ouKapíuco33
Disse o Senhor: "Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta
amoreira. .. ."

Jo 19:5 Lôou ó av0pü)iTO<;34


Eis o homem!
Aqui podemos imaginar Pilatos colocando Jesus à mostra e
gesticulando em torno dele para mostrar à multidão precisamente
qual o homem está em julgamento.

1 Ts 5:27 ÁrayvuxjBfivai tqu éiuoTOÀfjv.


seja lida a epístola.
A força do artigo é:"seja lida a epístola que tendes convosco".

Ap 1:3 pcticápioç ó àmyiváaKWV Kal ol «KoúouTfçxoúç Xóyouçtfjç irpo(j)r|Teíaç


Kal Tqpoüvieç xà kv aíruf) yeypappéva
Bem-aventurado o que lê e os que ouvem as palavras de [esta] profecia
e guarda as coisas escritas nele.
O Apóstolo refere-se ao livro profético que os leitores agora têm em
mãos.
Cf. também Mc 6:35; Lc 1:66 (v.l. no MS 1443); Rm 16:22; 1 Co 16:21; Cl 4:16; Ap 22:7
(v.l.).

29 G. D. Fee, 1 e 2 Timóteo, Tito (NIBC) 79, 248-49.


30 Ibid., 104-5.
31 Ibid., 206-7.
32 Alguns gramáticos classificam o artigo individualizante como dêitico. Preferimos
reservar os termos para esta categoria específica.
33 Essa é a leitura de P 75 S D L X 213 579 pauci; Nestle-Aland27 acrescenta Taúxr)
seguindo por A BW 0 ® et alii.
34 O Códice Vaticano omite o artigo. O primeiro escriba do ÍJX66 omite a frase inteira.
222 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

-► 5) Por Excelência
a) Definição
O artigo é usado para apontar um substantivo que, em certo senti­
do, é "uma classe em si". É o único conhecido pelo nome. Por exem­
plo, se no final de janeiro alguém dissesse: "Você assistiu ao jogo?
Você poderia responder: "Que jogo"? Ele poderia replicar: "O jogo"!
O único jogo que valeu a pena assistir! O Grande jogo! Você sabe, o
de Futebol"! Este é o artigo usado por excelência.
Este artigo é usado pelo falante para apontar um objeto que é o úni­
co digno do nome, ainda que haja muitos outros tais com o mesmo
nome.
b) Amplificação
O artigo por excelência não é usado necessariamente só para o melhor
de uma classe. Poderia ser usado para os piores de uma classe - se a
nuança lexical (ou a conotação contextual) dessa classe particular
assim o sugerisse. Em essência, a expressão por excelência indica o
extremo de uma classe particular. "Eu sou o principal dos pecado­
res" não significa o melhor dos pecadores, mas o pior deles. Se eu
faço de mim mesmo um "porco" quando tomo sorvete e então sou
chamado de "o porco". Esse certamente não deve ser um apelido
que se preze.
O artigo por excelência e o artigo de renome são difíceis, muitas ve­
zes, de serem distinguidos um do outro. Tecnicamente, isso ocorre
porque o primeiro é um exemplo do segundo. A regra geral aqui é:
se o artigo apontar um objeto não-concebido como o melhor (ou pior)
de sua categoria, no entanto, for bem conhecido, classifique-o como
o artigo de renome ou familiar. A questão aqui deve ser: Por que esse
artigo tem renome ou nos é familiar?
c) Ilustrações

Jo 1:21 ó Trpo(j)iÍTr|ç el oú;


Tu és o profeta?
Aqui os inquiridores perguntam a João se ele é o profeta mencionado em
Dt 18:15. Naturalmente, havia muitos profetas, mas somente um era
esperado com natureza única naquele contexto.
Mc 1:10 etõeu . . . xò TTueüpa ó ç TTepiatepàv Karapaii^ov elç auTÓv
eu vi o Espírito descendo sobre ele como pomba
At 1:7 oíijc ípitôv èoTiv yvúvai xpóvovç . . . oüç ò uoarp eBero kv tt) lõía
êÇouola
não vos compete conhecer os tempos . . . os quais o Pai determinou
por sua própria autoridade
1 Co 3:13 r) rpépcx ôr|A.(áoei
o dia mostrará
Isto é, o dia de julgamento, o grande dia.
Artigos - Parte I: usos regulares (monádico) 223

Tg5:9 íõoi) ó KpiTT^ç TTpò xãv Oupcâv eoTijicev.


Eis que o juiz jaz à porta.

Ap 1:5 ò pápTUç, ò ttiotÓç


a testemunha, a que é fiel
Nessa alusão ao SI 89, Cristo é descrito como aquele que merece louvor.

Lc 18:13 ò 0eóç, lÀaoBqTL poi tq à|iapTwAxã


O Deus, ser propício a mim, o pecador
Aqui o artigo ou é por excelência ou de simples identificação [ou, possi­
velmente o artigo de renome]. Se for de simples identificação, este
publicano está reconhecendo a presença do fariseu e, ao distinguir-se
desse último, implica, até onde ele sabia, que o fariseu era o justo (entre
eles dois) e ele, o pecador. Se o artigo for por excelência, então o homem
está declarando que ele é o pior de todos os pecadores (partindo de sua
própria perspectiva). Isso parece se encaixar bem com o espírito de sua
oração, pois somente o fariseu explicitamente faz uma comparação com
outra pessoa que está presente.

Jo 3:10 ò õiõáaKctÀoc; toü ’Iapar|À


o mestre de Israel
Havia muitos mestres em Israel, mas Nicodemos era ou muito conhecido
ou, se o artigo for por excelência, o professor número um nas estatísticas
escolares!
Freqüentemente "o evangelho" (xò cva-pfíkiov) e "o Senhor" (ò KÚpioç) empregam o
artigo por excelência. Em outras palavras, havia somente um evangelho e um Senhor.35
Cf. também Mt 4:3; Jo 1:32, 45; Rm 1:16; Tg 4:12; 1 Pd 2:3, 8; 2 Pd 3:18; 1 Jo 2:1, 22.

6) Monádico ("de Uma Única Espécie" ou "Único")

a) Definição

O artigo é usado para identificar substantivos monádicos [únicos de


sua espécie, tais como "o diabo", "o sol", “o Cristo"].

b) Amplificação e Clarificação

1] A diferença entre os artigos monádico e o por excelência é que: o


monádico aponta para um objeto único, enquanto o por excelên­
cia, para o extremo de certa categoria, ou seja, aquele que mere­
ce o título mais que qualquer um outro. O artigo por excelência,
portanto, tem uma idéia superlativa. Por exemplo, "o sol" é
monádico porque somente um sol existe. Não que seja ele o

35 ó 0eóç também pode ser considerado como por excelência, e não como monádico
em muitos contextos. Isso não quer dizer que para os escritores do NT havia muitos
deuses, mas que havia muitas entidades e seres chamados 0eoç. Somente um
verdadeiramente merece tal nome.
224 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

melhor dentre muitos sóis, pelo menos, do modo como usa­


mos. 36 Na realidade, ele é uma outra classe em si mesmo. No
entanto, "o Senhor" é por excelência porque há muitos senhores.
Porém, o artigo é usado com essa palavra para dar a idéia, de
acordo com o ponto de vista da pessoa que fala: há somente um
Senhor.
2] Quando o substantivo + artigo possuir adjunto (tal como adjeti­
vo ou locução genitiva), a expressão inteira, muitas vezes, su­
gere uma noção monádica. Se nenhum modificador for usado,
o artigo é tipicamente por excelência, "O reino de Deus" (f)
PaaiA.6L<x TOÍ> 0eoü), por exemplo, em Mc 9:47 é monádico, en­
quanto que "o reino" (f) paoiÀeía) em Mt. 9:35 é por excelência;
"o caminho de Deus" (r| óõòç toO Beoü) em At 18:26 é
monádico,37 enquanto que "o Caminho" (r) óòóç) em At 9:2 é
por excelência.
c) Ilustrações

M t4 :l ó Iq o o ü ç á u ff/ 0 r| e l ç x fiv e p r ip o v ím ò t o ü m /e ú p o cT o ç ttc i p a o G fju a i


úttò toí> õiapÓÂou
Jesus foi guiado pelo Espírito para ser tentado por o (=pelo) diabo
Os tradutores da KJV traduziram tanto õiápoLoç quanto ôcupórnov como
"demônio",38 como se ele fosse "o demônio" por excelência. Mas, no texto
grego, õiápoÀoç ocorre somente três vezes no plural, todos os três
exemplos funcionando como adjetivo e referindo-se a humanos
(1 Tm 3:11; 2 Tm 3:3; Tt 2:3). AiápoXoç usado como substantivo pode
ser considerado como monádico.
Mc 13:24 ô rpUoç OKOiLO0f|oetaL, Kai f] aeÀr|vr| oú õúaei tò cpéYyoç aíruf|<;
o sol escurecerá e a lua não dará sua claridade

Jo 1 :2 9 íõ e ó ccp vòç toü 0eoü ó cupwu tf|u a p a p t í a n to ü ic ó a p o u .


Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!
A descrição de João sobre Jesus é tanto monádica quanto genitiva "de
Deus" é considerado parte da fórmula, pois é usado com Jesus somente
na Bíblia.
Tg5:8 t) Tiaponoía toü Kupíou ly/YLKev
a vinda do Senhor está próxima
Cf. também Mt 4:5, 8, 11; Rm 14:10; Ef 4:26; Tg 1:12; 2 Pd 2:1; Ap 6:12.

36 Deve-se, em todo tempo, ter em mente o universo do discurso do leitor original.


Assim, embora haja verdadeiramente mais que um sol, o leitor do primeiro século não
pensava desse jeito.
37 No Cantabrigiense a leitura é por excelência: f) óõóç.
38 A KJV jamais uso a palavra "demônios" [N.T., em inglês devil]. Sessenta e duas
vezes das 63 ocorrências de ôoupómov' no NT são traduzidas "diabo" [N.T., em inglês
devil] (em At 17:18 o plural é traduzido "deuses"). Isso pode gerar confusão nos textos
onde o singular "diabo" [N.T., em inglês devil] é usado: Satanás ou um dos demônios,
quem está em foco (cf. Mt 9:33 [demônio (N.T., em inglês demon)]; 13:39 [diabo (N.T.,
em inglês devil)]; 17:18 [demônio]; Mc 7:26 [demônio]; Lc 4:2 [diabo]; etc.)?
Artigos - Parte I: usos regulares (artigo de renome) 225

Artigo de Renome (Artigo de "Celebridade" ou "Familiar")


a) Definição
O artigo aponta para um objeto bem conhecido, mas por outras ra­
zões, diferente do que vimos nas categorias acima (i.e., ele não é
anafórico, Dêitico, por excelência ou monádico). Refere-se a um obje­
to de conhecimento geral não mencionado no contexto anterior
(anafórico), nem considerado como o melhor de sua classe (por exce­
lência), nem único de sua espécie (monádico).

b) Ilustrações

Mt 13:55 01>X O U T O Ç éoiiv Ó T O U x é K T O U O Ç ulóç;


Não é este o filho do carpinteiro?
Embora os leitores cristãos vissem o artigo como por excelência, o
evangelista relata que os moradores de Cafamaum reconheciam a Jesus
simplesmente como o descendente de José.

G1 4:22 xfjç 'naióCoKqç . . . xfjç èAeuBépaç


a escrava . . . a livre
Estas mulheres não eram as melhores nas suas respectivas categorias,
mas eram bem conhecidas por causa da narrativa bíblica.

Tg 1:1 xofiç õoúôeKa cj)uA,alç xalç kv xrj ôiacnTopâ


às doze tribos em [a] dispersão

2 Jo 1 '0 u p e a p ú x e p o ç êK À eK x fj K u p í a K al to lç t c k u o l ç a ú x f jç
O presbítero à senhora eleita e a seus filhos
Quer a tradução seja "o ancião", "o presbítero" ou "o velho", o artigo
quase e certamente é usado para indicar alguém de renome entre os
leitores.

3 Jo 15 áamScÇovTaí ac ol <|>íXoi. ctotráÇou xoòç (JÚÂouç Kax’ ôvopa.


os amigos te saúdam. Saúda os amigos por o [=pelo] nome.
O presbítero tinha seus associados (ol ( J h à o l ) e Gaio, os deles (xoòç
(Jhàouç). Obviamente, nenhum dos dois grupos é único ou mais proe­
minente que o outro, mas o primeiro era muito conhecido pelos leitores
dessa carta.

At 2:42 xrj õ i ô a x r j . . . xrj K O L u c m a , xrj K Í lá a e L


A doutrina... a comunhão, o partir [do pão]
Ou esse padrão de adoração era bem conhecido na igreja primitiva
porque era a maneira comum de se fazê-lo, ou Lucas tenta considerar
cada elemento da adoração como os únicos dignos de nomeação (por
excelência).

Cf. também Mc 1:3; 2 Pd 2:1 (tcô Âaú); 3 Jo 1; possivelmente Mt 5:1.


226 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

8) Abstrato (i.e., o Artigo com Nomes Abstratos)


a) Definição
Nomes abstratos, por sua própria natureza, focalizam-se na quali­
dade.39 Quando, porém, um nome for articular, essa qualidade será
"afunilada". Assim, será definido mais cuidadosamente, distinto
de outras noções. Esse uso é muito freqüente (nomes abstratos arti­
culares são mais freqüentes que os abstratos anarthros).
b) Amplificação
Ao traduzir tais nomes, o artigo raramente é usado (somente quan­
do o artigo também se encaixar em outras categorias
individualizantes, tal como a anafórica). No entanto, na exposição,
deve-se extrair a ênfase do artigo. Usualmente, artigo + nome abs­
trato encaixa-se nas categorias por excelência ou de renome, mas de
um modo mais técnico. Logo, ele, freqüentemente, particulariza uma
qualidade geral.
O artigo + nomes abstratos, muitas vezes, tem certa afinidade com
nomes genéricos + artigo, pois focalizam as características e quali­
dades. Há, no entanto, diferenças: um focaliza na qualidade por meio
de seus lexemas (abstratos), enquanto o outro, na categoria grama­
tical (genérico).
c) Ilustrações
Mt 7:23 ol èpYoc(ó|ievoi xf|v áuopíav
os que praticais a iniqüidade

Jo4:22 r) ocoiripta ck tcSu louôaítúv èoitu


a salvação [vem] dos judeus
Embora o artigo não precisasse de tradução, ele enfatiza ser esta a úni­
ca salvação digna de consideração e a que não precisa de esclarecimen­
to porque é bem conhecida.
At 6:10 oí>K layvov àuTiOTÍji-m xrj oocjiía Kal xú ttvc úpati cp Ikákci
não podiam resistir a sabedoria e ao Espírito com que falava
É possível também considerá-lo catafórico, pois o tipo de sabedoria
mencionado é descrito cuidadosamente pelas orações relativas.

39 Estamos restringindo nossa definição de nomes abstratos, em grande parte, ao


que Lyons chama de "entidades de terceira ordem"" (J. Lyons, Semantics [Cambridge:
CUP, 1977] 2.442-46). Entidades de primeira ordem são objetos físicos; entidade de
segunda ordem são "eventos", processos, estados de afazeres etc., que são definidos
como "estado" e que, no português dizemos que eles ocorreram, e não que existem"
(ibid., 444); entidades da terceira ordem não são "observáveis e não se pode dizer que
ocorram ou existam no tempo-espaço . . . 'verdadeiro', em lugar de 'real', é mais natural
predicar sobre eles. Podem ser afirmados ou negados, lembrados ou esquecidos; podem
ser razões, mas não causas... Em resumo, eles são entidades do tipo que podem funcionar
como objetos destas entidades assim chamadas atitudes proposicionais como crença,
expectação e julgamento: elas são o que os estudiosos da lógica chamam objetos
intencionais" (ibid., 443-45).
Artigos - Parte I: usos regulares (genérico) 227

Rm 12:9 T] àycnTri àuinrÓKpiTOç. ctTTOGTuyoüvTeç xò novripóu, KolÀcópevoi xcô


àyaBcS
o amor seja sem hipocrisia. Detestai o mal; apegai-vos ao bem.
A língua portuguesa traduz naturalmente o artigo com os dois objetos
porque são adjetivos e, portanto, são um pouco "concretos". Assim, to
irovrpóv significa "aquilo que é mal".

Cf. também Lc 22:45; Jo 1:17; At 4:12; 1 Co 13:4:-13; G1 5:13; 1 Ts 1:3; Fm 9; Hb 3:6; 2 Pd 1:7.
b. Artigo Genérico (Artigo Categórico) [c o m o u m a c la s s e ]

1) Definição
Enquanto o artigo individualizante distingue ou identifica um objeto
particular pertencente a uma classe mais ampla, o artigo genérico dis­
tingue uma classe da outra. Este é um pouco menos freqüente que aquele
(que ocorre centenas de vezes no NT). O genérico categoriza em lugar
de particularizar.
2) Chave para Identificação
A chave para determinar se o artigo é genérico ou não, é a inserção da
frase "como uma classe" depois do nome que o artigo está modificando.
3) Amplificação
a) Se ó ávGpumoç for entendido como artigo genérico, o sentido seria:
"humanidade (i.e., seres humanos como uma classe)". O uso do ar­
tigo aqui distingue esta classe dentre outras classes (tal como "o rei­
no animal" ou "a dimensão dos anjos").

INDIVIDUALIZANTE GENÉRICO

/ humanidadeX ... / \
1 A T\ ^ 1 ° avGpwnoç o avGpwiroç ^ 1
hum anidade \
►1
V
V ) (um ser (a classe dos \
\. / humano seres humanos
particular) como um todo)

Quadro 18
Artigo Individualizante x Artigo Genérico

b) Muitos gramáticos concordam com Gildersleeve que "o princípio


do artigo genérico é a seleção de um indivíduo representativo ou nor­
mal" [itálicos meus].40 No entanto, isso só poderia ser verdade se o

40 Gildersleeve, Classical Greek, 2.255.


228 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

artigo genérico fosse usado exclusivamente com nomes singulares,


nunca com plurais. O exemplo de Dana-Mantey é plural (ai àlcotreKeç
(j)COÀeouç cyouaLV - "as raposas têm covis"). Tal citação do Mestre
não se refere a quaisquer raposas em particular que o Senhor sabia
terem covis. Pelo contrário, ele está dizendo: "As raposas, como uma
classe, têm covis".
Portanto, é melhor ver o artigo genérico simplesmente como uma
classe dentre outras, em lugar de lhe apontar como um representan­
te de uma classe. Essa visão concorda, de uma forma melhor, com
os fatos, pois todos os gramáticos são unânimes em que o artigo
plural possa ser usado em sentido genérico.41
c) À vezes, faz-se uma tradução mais fluente substituindo o artigo por
um artigo indefinido, porque os nomes indefinidos e os genéricos
partilham de certas propriedades: enquanto um categoriza ou realça
as características de uma determinada classe (genérico), o outro
aponta para um indivíduo dentro de uma classe, sem se dirigir a
qualquer característica que distinguiria de outros membros
(indefinido).
4) Ilustrações
Mt 18:17 60X0) ooi uonep ó èüviKÒç Kai ò xetaávriç
será [com referência] a ti como o gentio [como uma classe] e o publicano
[como uma classe]
Outra tradução possível é: "um gentio e um publicano". Porém, a tra­
dução anterior é possível pois a força do artigo genérico é qualitativa,
visto que indica a classe a que alguém pertence (espécie), em lugar de
identificá-lo como um determinado indivíduo. O artigo indefinido no
português, às vezes, consegue realçar mais. Note também: caso os arti­
gos nesse texto não sejam tomados como genéricos, então Jesus estaria
identificando o irmão que está pecando com um gentio ou um publicano
em especial que tivesse em mente, embora não dê nenhuma dica de
alguém em especial.

Lc 10:7 &£ioç ó epyáxqç toü pioOoü aúxoü


o trabalhador é digno de seu salário

Jo 2:25 Kai oxt oú XP^Lav eí^eu 'iva t iç papxupqoi^ irep! xoü ctvOpGrnoi)
aúxòç yàp çyívtooKev xí rjv év tü> ávOpútrcjL).
E porque ele não precisava que alguém desse testemunho acerca do
homem [como uma classe - humanidade], por ele mesmo sabia o que
estava em o [no] homem [como uma classe]
Embora, geralmente, o uso atual do masculino "homem" como um ge­
nérico para a humanidade seja inaceitável, não traduzir avBpMTioç como
"homem" aqui é fugir do sentido pretendido pelo autor original. Logo
após esse pronunciamento acerca da visão sobre o homem, o evangelista
apresenta aos leitores um homem em particular que se encaixa nessa

41 A freqüente locução "todo o que", "maridos, amai vossas mulheres," "meus fi­
lhos" etc. são expressões genéricas.
Artigos - Parte I: usos regulares (genérico) 229

descrição de depravação (3:l:"Havia um homem) - cujo nome era


Nicodemos.42
Rm 13:4 ov> 6 lkt) xqv páycapca' cjjopel
ele não traz a espada debalde
Ef 5:25 ol avõpeç, àyairâxe xàç ywaiicocç
Maridos [como uma classe], amai sua esposa
A ordem não quer distinguir alguns maridos de Éfeso/Ásia Menor em
detrimento a outros, mas distinguir os maridos na igreja em relação a
esposas ou crianças. Eles são vistos como um todo, coletivamente.
1 T m 3 :2 ô e l v ò u è i r í o K o i r o v « n e T u A p p ir r o n e i v a i
é necessário que o bispo seja irrepreensível
Gramaticamente falando, o artigo seria monádico (indicando que para
cada igreja há um bispo) ou genérico (indicando os bispos como uma
classe em vista). Quando outras considerações são trazidas à tona, é
improvável, porém, que somente um bispo esteja em vista: (1) A visão
monádico não lida facilmente com 1 Tm 5:17 ("os presbíteros que presi­
dem bem sejam considerados dignos de dobrados honorários") ou Tt
1:5 ("estabelecesse presbíteros em cada cidade"); e, (2) o contexto de 1
Tm 2:8-3:16 envolve um intercâmbio entre os nomes genéricos (singu­
lar e plural), sugerindo fortemente que o singular é usado como um
nome genérico.
Hb 7:7 xò elaixov utrò xoü Kpeíxxovoç euXoyelxai
o inferior é abençoado pelo superior
O autor indica aqui um princípio, aplicando-o à bênção de Abraão a
Melquisedeque. Note que os termos são adjetivos e como tais não pos­
suem gênero fixo. O autor teria que colocá-los no masculino, como que
apontando especificamente para Abraão e Melquisedeque. Ao usar o
neutro, ele está indicando um princípio genérico: tudo que é inferior é
abençoado por tudo que é superior.

42 A NRSV traduz: "[Jesus] não precisa que alguém desse testemunho acerca de qual­
quer [ô avGpuTroç]; pois ele mesmo sabia o que estava em todos [ò avGpuiroí;]. (3:1) Havia
um fariseu cujo nome era Nicodemos, um líder dos judeus". ”Av9pwiroç em 3:1 não é
traduzido e a conexão se perde.
43 Note os seguinte termos genéricos: xoòç avõpaç (2:8), y u v a i K a ç (2:9), y w o u i í í i '
(2:10), yuvfj (2:11), yuvaLKÍ, ávõpóç (2:12). Este é seguido pela referência singular a Eva/
mulher em 2:15, implícita no verbo ow0f|oexctL, logo, há uma referência plural genérica
às mulheres implícita em p e í v w a t v . Nesse contexto, é difícil afirmar que c t t Í o k o t t o v em
3:2 seja monádico.
Parte da questão aqui se volta para a data e autoria das Cartas Pastorais. Quanto
mais tarde forem situadas as pastorais, é mais provável que a visão episcopal seja a
monárquica. Certos paralelos são encontrados usualmente entre as Pastorais e Inácio (c.
117 AD). Mas se as Cartas Pastorais foram escritas por Paulo (e, conseqüentemente, den­
tro do primeiro século), elas são mais provavelmente coadunantes com a eclesiologia
vista em outros lugares no NT, ou seja, deve haver muitos presbíteros na igreja. Cf. G. W.
Knight, Commentary on the Pastoral Epistles (NIGNTC; Grand Rapids: Eerdmans, 1992)
175-77. As vezes, de fato, parte do argumento contra a autoria paulina envolve a pressu­
posição que 1 Tm 3:2 apóia a monarquia episcopal, descrevendo a eclesiologia das Pas­
torais diferentemente do resto das cartas de Paulo. Este argumento, na melhor das hipó­
teses é circular.
230 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

1 J o 2 :2 3 ò àpvoúpevoç xòv ulòv oúõè xòv xtaxépa e^et, ò ópoÀoyójy xòv


ttccç
uiòv Kal xòv iraxépa e /e t.44
Todo que nega o Filho não tem o Pai, o que confesse o Filho também
tem o Pai.
Este é um exemplo duplo, o primeiro exemplo envolve a fórmula ttccç ó
usada com freqüência (cf. também Mt 5:22, 28, 32; Lc 6:47; 14:11; 20:18;
Jo 3:16; 4:13; At 13:39; Rm 10:11; G1 3:13; 2 Tm 2:19; 1 Jo 3:6).

Ap 2:11 ó vlkúv oi) pq áõiKq0r| 4k xoô Oaváxou xoô ôeuxépoo


o vencedor não receberá o dano da segunda morte
Cf. também Mt 12:35; 15:11, 18; Lc 4:4; Jo 8:34; Rm 13:4; G1 2:10; Tg 2:26; 3:5; 5:6 (pos­
sível), 7; 1 Pd 1:24; 2 Jo 9; Ap 13:18; 16:15.
O seguinte quadro descreve as relações semânticas do artigo individualizante. Ele
foi formulado para mostrar ao estudante que as sete categorias deste artigo não são
inteiramente distintas. Pelo contrário, eles estão relacionados, em grande parte, do
geral para o específico. Logo, cada artigo monádico, em certo sentido, é um tipo de
por excelência (no sentido que o único de uma classe é, ipso facto, o melhor de uma
classe). E cada artigo por excelência é também de renome ou familiar (porém mais
específico, pois ele é mais conhecido por ser o melhor de uma classe). E todo artigo
de renome ou familiar é anafórico (no sentido mais amplo possível). Contudo, ele é
mais específico que um artigo anafórico seria.

Identificação Simples

Deíxico

Quadro 19
As Relações Semânticas do Artigo Individualizante

O quadro abaixo procura condensar o conteúdo acima. A fim de usá-lo, tente achar
a categoria mais próxima a que um determinado artigo possa pertencer. Verifique

44 Os MSS bizantinos omitem descaracteristicamente uma oração inteira (ò ópoÂOYcâv


xòv ulòv Kal xòv Traxépa exei), não devido à dúvida, mas a um homoioteleuton onde os
olhos pularam o T/fi anterior e o escriba escreveu apenas o lyti que encerra a sentença.
Dentre outras coisas, essa leitura oferece uma dica acerca das raízes do texto bizantino,
pelo menos, nas cartas joaninas (ou seja, ela parece ter originado um único arquétipo).
Artigos - Parte I: usos regulares (como um substantivador) 231

até onde cada condição alistada recebe "sim" como resposta. Realize essa tarefa até
que você descubra qual(is) categoria(s) mais se aproxima(m) ao artigo por você ana­
lisado.

Quadro do Artigo com Substantivos

3. Como um Substantivador (Com Certas Partes do Discurso)


a. Definição
O artigo pode transformar qualquer parte do discurso em um substantivo:
advérbios, adjetivos, locuções prepositivas, partículas, infinitivos, particí-
pios, e, até mesmo, verbos. Assim, o artigo transforma uma frase em uma
forma nominal. Essa flexibilidade incrível é parte do gênio do artigo grego.
Esse uso é mais comum com adjetivos e particípios que com outras partes
do discurso.45

45 Embora os infinitivos articulares sejam comuns, nem todos são substantivados.


Veja o capítulo sobre o infinitivo para uma discussão.
232 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

b. Amplificação

O uso substantivador do artigo, no sentido mais estrito, pode ser conside­


rado uma categoria semântica, onde seu papel semântico essencial será o
conceitualizar. Além disso, o artigo também individualiza ou categoriza,
como faz com nomes. O uso com particípios e adjetivos é comum e não-
marcado, como muitos dos exemplos discutidos nas seções anteriores.

c. Ilustrações

1) Com Advérbios

O uso com advérbios ocorre com muita freqüência. Alguns advérbios


mais usados incluem aiSpLOU, éiraúpiov, vüv, népae, e i\h]oíov.

Mt 8:28 kkBóvxoç aíruoú elç tò irépae


Quando veio para o outro lado

Mt 24:21 « r a i xóre G/Iijnç |ieyáA,r| oía oíi yéyoeee cot’ àpyrg KÓopou «oç toO vuv
Então haverá uma grande tribulação a qual nunca aconteceu desde o
princípio do mundo até o presente.

Mc 11:12 rf| èííaúpiov fçcÂ0óvi(üV aÔTcâu ccirò Br)0aeíaç èrreíeaaee


no [dia] seguinte, quando vinham de Betânia, sentiu fome
Cada exemplo do advérbio èiraúptoe no NT ocorre com um artigo dativo
feminino (cf., e.g., Mt 27:62; Jo 1:29; At 21:8). Embora o advérbio em si
signifique: "seguinte, próximo", seu uso no NT também traz implícito
o nome ri|j.épa (assim, o artigo é feminino) e sugere que o evento ocorreu
em um ponto de tempo (ou seja, o artigo é dativo).46

Jo 4:31 kv x ã pvraçíi f|pd>Tuv aúiòv ol paGrpa! Xkyoeieç papjií, tjtáye.


Nesse ínterim, os discípulos perguntavam a ele, dizendo: "Rabi, come".

Jo 8:23 òpelç €K tú u kcctco koxk , èyd) ck tcôv» auto elpí


vós sois de [um lugar abaixo] baixo; eu sou de [um lugar] acima
O artigo indica mais que um mero sentimento geral quanto à origem, a
expressão céus e inferno está implícita.

At 18:6 caro toC vuv elç xà cGuq TOpeúoopai47


de agora [desse ponto], eu irei para os gentios

46 Auptou é diferente em dois aspectos: (1) nem sempre tem artigo (cf. Lc 12:28; 13:32,
33; At 23:20; 25:22; 1 Co 15:32); e (2) a forma articular ocorre no dativo, ainda que ocorra
também no nominativo (Mt 6:34), genitivo (Tg 4:14), e acusativo (Lc 10:35; At 4:3, 5).
47 D* tem àcj) ’ tique no lugar de £íttò toü.
Artigos - Parte I: usos regulares (como um substantivador) 233

Cl 3:2 tà ai/Gj {jjpov-elte, (if| xà. cttI xf\c yíjç


Pensai nas [coisas] de cima, não nas [coisas] da terra

Cf. também Mt 5:43; 23:26; Mc 12:31; Lc 11:40; At 5:38; Rm 8:22; 1 Co 5:12; 1 Tm 3:7;
Hb 3:13.
2) Com Adjetivos
Adjetivos, muitas vezes, são usados como nomes, especialmente quan­
do as qualidades de um grupo particular são enfatizadas. Exemplos no
plural são especificamente genéricos, embora tanto singular quanto plu­
ral o artigo individualizante ocorra com muita freqüência.
Mt 5:5 |iaKápioi ol npaelç, o t l aíruoi Klripouop.iíoouait' iqu yíjv
Bem-aventurado os mansos, porque herdarão a terra

Mt 6:13 pif) eíoevéyKTiç rpâç elç neipaapóu, àAA.à pOaouffljâç áuò toO nouripou
não nos deixe cair na tentação, mas livra-nos do mal [maligno]
Embora a KJV traga "livra-nos do mal [mal em geral"], a presença do
artigo indica, não o mal em geral, mas o maligno. No contexto do Evan­
gelho de Mateus, 'livra-nos do maT parece estar ligado à tentação de
Jesus em 4:1-10: porque o Espírito o guiou a tentação pelo maligno, os
crentes agora participam de sua vitória.

Mc 6:7 'npoaKaXclmi touç òcúòfKa


ele chamou os Doze
"Os Doze" é usado como termo técnico nos Evangelhos porque os
discípulos eram bem conhecidos. Este artigo pertence à categoria " artigo
de renome ou familiar". Cf. também Mt 26:14, 20; Mc 9:35; 10:32; 14:10;
Lc 9:1; 18:31.

Lc 23:49 claTr|Keiaav irávTeç ol yvwoTol auTtô âtrò paKpóBeu


ficaram longe todos que o conheciam

Rm 5:7 úirèp toíi àyaGoíj xó.yjx t i ç K a i TOÂpâ áuoGavelu


pelo bom [pessoa] pode ser que alguém até morra

Hb 1:6 oxav elaayáyri TÒv TrpwxÓTOKOU elç Tqv olKoup.évriv


quando introduziu o primogênito no mundo

2 Pd 3:16 a ol àpaGelç Kai áoTijpiKTOL orpepAmioiu . . . upòç rqu lõíav


ailTGJV àTT(jáA.€LaU
coisas que os ignorantes e inconstantes deturpam . . . para a sua própria
destruição
Cf. também Mc 1:24; 3:27; Lc 6:35; 16:25; Jo 2:10; 3:12; At 3:14; 7:14; G1 6:10; Tt 2:4; Tg 2:6;
5:6; 3 Jo 11; Jd 15; Ap 13:16.

3) Com Particípios
O uso com os particípios é um fenômeno comum. Semelhante aos
adjetivos, o artigo + particípio classifica-se como individualizante ou
genérico.
234 Sintaxe Exegética do Novo Testamento

Mt 2:23 òucoç nÀr|pco0fj xò pr|0èu õià xcôu Tipocj)r|TGÕu


para que se cumprisse o que foi falado pelos profetas

Lc 7:19 ou eí ó êpxópeuoç;
És tu o que havia de vir?

2 Co 2:15 Xpioxou eúwôía éapèv xw 0ewkv tolç awÇopéuoiç


Nós somos um bom perfume de Cristo para com Deus entre nos que
são salvos

Ef 4:28 ó KÀéirxGjy pqKéxi. KA.eTTxéxw


O que furtava não furte mais

1 Jo 3:6 ó ã p a p x á y ca u oux ècúpaKeu


ttccç aòxóu
Todo o que peca não o tem visto

Ap 1:3 ptxKccploç ó àvcnau(úaKMU KKL 0L áKoúouxeç xouç Àóyouç xrjç Trpo(|jr|Tfíaç ,


kccI xTpoüuxeç xà kv aÚTfj yeypappéua;48 ■
Bem-aventurado o que lê e aqueles que ouvem as palavras desta profe­
cia e as guardam
Cf. também Mt 4:3; Lc 6:21; Jo 3:6; At 5:5; Rm 2:18; 1 Co 1:28; G1 5:12; Ef 1:6; lTs 2:10; Fm
8; Tg 2:5; 1 Pd 1:15; 2 Jo 9; Ap 20:11. _
4) Com Infinitivos
Embora o infinitivo, muitas vezes, seja articular, não é freqüente ver o
artigo usado para transformá-lo em uma forma nominal. Esse uso é
raro, embora seja um pouco mais comum nas epístolas que na literatu­
ra narrativa. (O infinitivo pode também funcionar como um substanti­
vo mesmo sem o artigo). O artigo sempre é neutro singular.
Mc 10:40 xò ôe koc0loocl 4k õeÇiwv pou q kk, euuvúpcúy ouk « m u épòu ôoüuca
o sentar, porém, à minha direita ou à minha esquerda não me compete
conceder
O infinitivo articular é o sujeito de eoTiv.
At 27:20 ttcpnpeâxo câttÍ ç -rrâoa xoü aúçcoOai íipâc
Dissipou-se toda a nossa esperança de ser salvo
O infinitivo genitivo articular é um genitivo objetivo que possui como
sujeito um nome acusativo. Uma tradução literal e grotesca é: "toda
esperança de ser salvo no que diz respeito a nós".

Rm7:18 xò 0éÀeiu TTapáKeLiaí poi, xò õè KaxepyáCeo0aL xò kccàòu ou.


o querer está em mim, porém o efetuar o bem não.

1 Co 14:39 Cqiloüxe xò TTpocj)r|Teúei.u Kal xò Àcdeiu pq kgúúc-tc- -//..(úcsoaiç49


procurai com zelo o profetizar e o falar em línguas não proíbais

48 Os minúsculos 2053 e 2062 trazem o c k o Úw u em lugar de ol íÍ k o ú o i ' t c ç , fazendo com


o leitor o mesmo que ocorre com o ouvinte na construção que segue a regra de Granville
Sharp.
O artigo é omitido antes de À.aA.eiv em B 0243 630 1739 1881 pauci