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Revista Urutágua – revista acadêmica multidisciplinar – http://www.urutagua.uem.br/015/15oliveira.

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Nº 15 – abr./mai./jun./jul. 2008 – Quadrimestral – Maringá – Paraná – Brasil – ISSN 1519-6178

Imaginação geográfica, território e identidade nacional no Brasil

Ivan Tiago Machado Oliveira*

Resumo: Este trabalho visa a discutir a “invenção do Brasil”, identificando elementos


imaginativos forjados pela elite imperial brasileira e que se encontraram fundados em mitos
territoriais e ideologias geográficas que afirmavam a existência ‘pré-histórica’ de um espaço
delimitado a ser conquistado e ocupado. Neste sentido, o mito da Ilha-Brasil, baseado em
concepções teóricas advindas da doutrina das fronteiras naturais, é aqui apresentado como
aspecto central para a análise acerca da imaginação geográfica e territorial e suas interfaces
com a construção da identidade nacional no Brasil. Além disso, observar-se-á como essa
identidade nacional foi influencia da por renovadas ideologias geográficas, que foram
apresentadas a partir da visão das elites políticas acerca do espaço nacional nos distintos
períodos históricos, desvelando os elementos de criação da ‘pátria imaginária’ e seus vínculos
identitários.
Palavras -chave : Brasil, território, identidade nacional, mito, geografia.
Abstract: This work aims to discuss the "invention of Brazil" by identifying imaginative
elements that have been forged by the Brazilian imperial elite based on territorial myths and
geographic ideologies that affirmed the prehistoric existence of a delimited space to be
conquered and occupied. In this sense, the myth of ‘Island-Brazil, which is based on
theoretical conceptions of the doctrine of natural borders, will be analyzed here as a central
territorial myth. Furthermore, the elements of creation of ‘national imaginary’ and its
importance to the construction of the national identity in Brazil will also be discussed in this
work. At last, I analyze how the national identity has been influenced by renewed geographic
ideologies forged by the leading elites according to its views concerning the national space in
distinct historical periods.
Key words : Brazil, territory, national identity, myth, geography.

*
Mestrando em Estudos Contemporâneos da América Latina pela Universidad Compultense de Madrid,
Mestrando/Doutorando em Administração pelo Núcleo de Pós-Graduação em Administração da UFBA e
pesquisador do Laboratório de Análise Política Mundial (LABMUNDO) da mesma instituição. Email:
ivantiagomo@gmail.com

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1. Introdução Brasil, vamos observar como essa


identidade nacional veio sendo
No processo de construção social de
influenciada, ao longo do século XX, por
identidades políticas 1 , observamos uma
renovadas ideologias geográficas, as quais
interação de diversos elementos, dentre os
foram forjadas pelas elites dirigentes
quais cabe destacar o tripé capital: cultura,
segundo suas visões acerca do espaço
história e território, tendo este último
nacional nos distintos períodos político-
desempenhado um papel basilar na
históricos.
construção de identidades nacionais na
América Latina, mais particularmente no 2. A “invenção do Brasil”: mitos
Brasil. Em sendo as identidades territoriais e formação da identidade
socialmente construídas, elas são, em nacional
geral, baseadas em narrativas históricas Ao se falar na “invenção do Brasil”, é
fundadas em mitos coletivos escolhidos mister salientar o papel de imaginações
propositadamente por aqueles que buscam geográficas na construção da identidade
forjá- las. Vale ainda ressaltar que nacional e a importância da doutrina das
‘inventar’ uma identidade significa situar o fronteiras naturais nesse processo. Antes
que está dentro e o que está fora, isto é, o de adentrar a história-geográfica de
estabelecimento do ‘outro’ com o qual a imaginação/construção da identidade
auto-afirmação é possível, tendo a nacional brasileira propriamente dita, cabe
territorialidade um papel importante nesse aqui apresentarmos, mesmo que de forma
processo. Essa relação dialética entre o sucinta, subsídios elucidativos acerca dos
‘dentro’ e o ‘fora’, entre o ‘nós’ e o elementos teóricos que embasam a análise.
‘outro’, faz parte da essência da construção
de identidades; são, por assim dizer, duas Benedict Anderson (1991 apud
partes de um todo coerente que traz MAGNOLI, 1997) coloca que: “de fato,
consigo significado e coesão. qualquer comunidade maior que povoados
primordiais de contato pessoal direto (e
O objetivo do presente trabalho é discutir talvez mesmo eles) é imaginada.”
os elementos imaginativos de “invenção do (ANDERSON, 1991, p. 6 apud
Brasil”, que foram sistematizados pela elite MAGNOLI, 1997, p. 7). Para o autor o
imperial brasileira e fundados em mitos sentimento de pertencimento a uma
territoriais e ideologias geográficas que comunidade política é formado a partir de
afirmavam a existência ‘pré-histórica’ de “comunidades imaginadas”, pensadas no
um espaço delimitado a ser conquistado e coração administrativo da nação. Seguindo
ocupado. Trabalharemos aqui com um o pensamento de Anderson (1991),
mito territorial central: o mito da Ilha- Magnoli (1997) relata:
Brasil, o qual se encontra fundamentado
em concepções teóricas advindas da A nação, essa “comunidade
doutrina das fronteiras naturais. Ademais imaginária”, é uma criação do
nacionalismo, no sentido pleno. Ela se
de desvelar os elementos de criação da
ergue sobre o chão da cultura: uma
‘pátria imaginária’ e sua importância na língua difundida pela palavra impressa,
construção da identidade nacional no um mercado integrado e circunscrito
no território, a crença num passado
1 compartilhado e um sentimento de
Assumimos aqui uma perspectiva que pode ser
comum destino. A sua forja é a
considerada como ‘modernista’ acerca da
identidade, não considerando a existência de
imaginação material, promovida pelo
identidades originais e imutáveis, mas sim Estado: leis, moeda, sistema
observando sua construção/invenção como um educacional, administração,
elemento social e histórico.

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recenseamento, cartografia. diz respeito à doutrina das fronteiras


(MAGNOLI, 1997, p. 7). naturais. Embora saibamos que as
Ainda numa perspectiva andersoniana, fronteiras são, em essência, políticas e,
Baud (1999) afirma que “las fronteras portanto, artificiais, não sendo nunca
nacionales son construcciones políticas, naturais, a concepção da doutrina das
proyecciones imaginadas del poder fronteiras naturais foi um elemento
territorial” (BAUD, 1999, p. 42). Portanto, importante para construção da ideologia
a imaginação e construção das fronteiras geográfica que viria a fundamentar a
são vistas em si como uma prática da criação da identidade nacional brasileira.
própria identidade nacional, tendo em vista A doutrina das fronteiras naturais emergiu
a centralidade do elemento territorial na do Direito e da Geografia, na França
definição da mesma. iluminista, no século XVIII, e baseia-se na
Criticando as propostas de Anderson, noção de que as nações estavam
Rowe e Schelling colocam que “la predestinadas a ocupar determinado
debilidad del esquema propuesto por território, circundado por “fronteiras
Anderson radica precisamente en su naturais”. O geógrafo alemão Karl Ritter,
omisión del papel que cumple la cultura em particular, sob influência de Alexandre
popular” (ROWE e SCHELLING, 1991, p. von Humbolt, concebeu a Terra como um
25 apud RADCLIFFE e WESTWOOD, organismo vivo, no qual estaria
1999, p. 30). Radcliffe e Westwood (1999) materializada a vontade divina. O curso
reiteram a crítica afirmando que: “Mientras dos rios e a morfologia do relevo
las historias nacionalistas oficiales suelen obedeciam a tal princípio, e à ciência
suponer de antemano el esquema territorial geográfica corresponderia a tarefa de
del país (al estilo de las geografías compreender a obra do Criador por meio
nacionalistas), esto contrasta con la da razão. De acordo com essa concepção
contingencia de otros espacios de de mundo, as fronteiras existiriam antes de
pertenencia que se expresan en las sua efetiva definição e delimitação,
geografías ‘populares’ de identidad” cabendo aos homens ‘descobri- las’ na
(RADCLIFFE e WESTWOOD, 1999, p. trama da natureza.
247). Ao criticar a concepção naturalista das
Embora as críticas ao esquema fronteiras, Magnoli (1997) assevera que “o
andersoniano de pensamento acerca da apelo à ‘natureza’ implica sublimação da
construção de “comunidades imaginárias” história, a abstração da condição de
e do seu papel na configuração de ‘construções geopolíticas datadas’ – ou
identidades nacionais sejam válidas e seja, de ‘tempos inscritos nos espaços’ –
incitem a reflexão acerca do tema, é fato que confere conteúdo político às fronteiras
que, na América Latina, o território e o e freqüentemente revela sua precária
Estado presidem a idéia de nação de cima legitimidade.” (MAGNOLI, 1997, p. 21).
para baixo, da elite para o povo. Em sendo É ainda interessante notar que, embora a
assim, a construção de maquinarias doutrina das fronteiras nacionais surja em
imaginárias fundadas no território que plena França iluminista, ela contém em si
forjam a identidade nacional a partir de elementos definidores de percepções
geografias nacionais é fundamental para românticas acerca do processo histórico-
compreender o fenômeno identitário no geográfico. Sobre o romantismo, presente
Brasil, como se verá a seguir. na concepção natural das fronteiras,
Magnoli (1997) escreve:
Um outro aspecto teórico de relevância
quanto da análise da “invenção do Brasil”

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O romantismo enraíza nas tradições um desígnio geopolítico. Como afirma


imemoriais – num passado tão remoto Magnoli (1997):
e misterioso que só pode ser
apreendido pelos sentimentos, pela a Ilha-Brasil teria operado na construção
afetividade, pela emoção – a de uma ‘razão geográfica de Estado’ e na
comunidade de destino sobre a qual se definição de um ‘imperativo geopolítico
ergue a nacionalidade. Nesse terreno para os três primeiros séculos de
fértil, inventaram-se as tradições e formação territorial do Brasil. (...) A
floresceram as mitologias e as unicidade do território colonial lusitano,
mistificações nacionais. (MAGNOLI, fruto de segregação insular, emanava da
1997, p. 17). própria natureza. (....) O Brasil erguia -se
como realidade geográfica anterior à
A doutrina das fronteiras naturais colonização, como herança recebida
funcionou como elemento organizador da pelos portugueses. Ao invés de conquista
narrativa de construção do território e exploração colonial, dádiva e destino.
nacional brasileiro. Essa narrativa foi obra (MAGNOLI, 1997, p. 47).
coletiva da elite imperial a partir de um A força da noção de Ilha-Brasil encontra-
olhar romântico dirigido para o passado se na subversão do horizonte histórico e
colonial. A intelectualidade do Império diplomático e na substituição do mesmo
entregou-se à fabricação de uma tradição por um ordenamento ancestral. Tratados
nacional, cortando e montando peças de são subvertidos e uma verdade ‘pré-
um quebra-cabeça da pátria imaginária. histórica’ é invocada em seu lugar.
Destarte, o passado colonial foi submetido
a uma completa releitura, no intuito de Nesse contexto, o bandeirismo é um
iluminar os vultos anunciadores do destino elemento fundamental para se pensar a
nacional e de definir, por oposição aos construção nacional no Brasil. Considerado
estrangeiros, uma nação brasileira. por alguns, como Cassiano Ricardo, como
a epopéia da construção nacional, o
Uma idéia seminal que inspirou a bandeirismo leva consigo a idéia-chave de
concepção imaginária da nacionalidade foi interpenetração entre ‘colonizador’ e a
a de Ilha-Brasil, a qual seria definida terra, legitimando a inserção nas
geograficamente pelos cursos dos rios configurações territoriais imaginárias
Paraguai, Uruguai, Guaporé e Mamoré e relativas ao mito da Ilha-Brasil. Ademais,
pelo vale drenado pelos afluentes do rio o bandeirismo também é visto, nessa
Amazonas. É a idéia da exis tência, na perspectiva, como criador de um proto-
América do Sul, de um todo geográfico e Estado brasileiro e de difusão territorial de
geometricamente defino e quase insulado, uma nova soberania. Os bandeirantes são,
o qual comporia o território natural do enfim, analisados como os ‘obscuros
Brasil. Tal narrativa, inspirada em relatos e trabalhadores da diplomacia’,
mapas de viajantes, funcionou como mito engrandecendo e dilatando o patrimônio
de origem da nação. Segundo ela, o Brasil territorial até suas ‘fronteiras naturais’,
seria uma unidade natural, herdada pela apertando, assim, o nó do discurso
colonização portuguesa e consagrada pela mitológico.
Independência. Dessa forma, o conceito de
território brasileiro antecipou-se à O pressuposto do mito da Ilha-Brasil é uma
emergência do próprio Estado nacional. suposta unidade colonial brasileira, que até
hoje se manifesta com o uso corriqueiro da
A idéia acerca da Ilha-Brasil se inseriria expressão ‘Brasil-Colônia’, como se
num contexto de transformação de relatos tivesse havido realmente uma unidade
lendários em mito territorial orientado por política unificada na América portuguesa.
Jamais existiu, contudo, uma unidade

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colonial. A América portuguesa, submetida desempenha na mitologia da


como um todo à soberania da Coroa, foi nacionalidade. Ao tratar da importância do
fragmentada em diferentes colônias. Na Tratado de Madri na construção da
verdade, os contornos políticos desses mitologia territorial nacional, Magnoli
territórios flutuaram ao longo do tempo em conclui:
função das estratégias administrativas O Tratado de Madri une as pontas do
adotadas em Lisboa. Não obstante, o mito discurso ideológico. Absorvido como
da Ilha- Brasil e a doutrina das fronteiras chave diplomática das fronteiras
naturais fundiram-se na narrativa territorial brasileiras, funciona como depositário
brasileira, onde o ‘Brasil-Colônia’ da epopéia territorial bandeirante que
apresenta-se como fruto. Tal narrativa reafirmou o direito primordial inscrito
territorial, construída pelas elites ilustradas no mito da Ilha-Brasil. Assim a
do Império do Brasil, inaugurou uma realidade geográfica anterior à história
tradição cultural que ainda hoje reverbera e franqueava o seu caminho,
consubstanciando-se como realidade
é elemento definidor da identidade
política: o corpo da pátria.
nacional brasileira. (MAGNOLI, 1997, p. 77).
Dado o caráter conservador, tanto no plano Ao se pensar na construção do ‘corpo da
político quanto no territorial, da pátria’, é importante ressaltar o caráter
Independência brasileira, a obra imperial conservador e elitista da construção do
de limites combinou a força do argumento mesmo. Como aborda Porto-Gonçalves
com o argumento da força, mas obedeceu a (2006), “no Brasil a unidade territorial foi
concepção geral das “fronteiras naturais” conformada por meio do pacto das
contida no mito da Ilha-Brasil, e oligarquias em torno de um monarca e de
manipulou habilmente a noção do uti uma burocracia esclarecida de gestores
possidetis. Nesse sentido, o Tratado de estatais com formação acadêmica em
Madrid, o qual fora negociado pelo Coimbra, (Carvalho, 1996) e se fez contra
diplomata brasileiro em defesa da Coroa os de baixo ao manter o latifúndio e a
portuguesa, Alexandre de Gusmão escravidão” (PORTO-GONÇALVES,
(considerado um dos patronos da 2006, p. 162). Assim, as condições
diplomacia brasileira hoje), tornou-se particulares da monarquia e da escravidão
marco de fundação do território brasileiro. moldaram o discurso identitário, impondo-
No tratado ficou acordada prevalência da lhe características ideológicas específicas:
idéia do uti possidetis de facto (ou seja, o território, e não a sociedade, emergiu
tem direito à propriedade aquele que de como traço definidor da nacionalidade.
fato ocupa o território) na definição das
fronteiras entre as colônias espanholas e Moraes (2005), ao falar da criação
portuguesas, legitimando as incursões identitária nacional relata: “o Brasil não
portuguesas para bem-além da linha de será concebido como um povo e sim como
Tordesilhas, aproximando-se das fronteiras uma porção do espaço terrestre, não uma
míticas da Ilha-Brasil. comunidade de indivíduos mas como um
âmbito espacial” (MORAES, 2005, p. 93).
Destarte, o elemento que faz o Tratado de “O Estado será o guardião da soberania e
Madrid ser considerado um marco construtor da nacionalidade, entendida
fundador do território brasileiro está como o povoamento do país” (MORAES,
intimamente vinculado ao mitológico. O 2005, p. 94). Ideologias geográficas vão
Tratado alimentaria a idéia do território ser geradoras de discursos legitimadores de
natural nacional e tem importância e lugar uma identidade nacional onde o Brasil é
incomparáveis derivados do papel que visto como um espaço a ser conquistado e

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ocupado 2 . Em sendo assim, o povo é visto consolidação territorial do Brasil, deixam


como mero instrumento de construção do claro o porquê da ‘invenção da nação
país, subalternos às idéias e projetos das brasileira’ ter sido fundada em mitos
elites. Relacionado a tal fato, observa-se territoriais surgidos dos imaginários
também a construção de novos mitos geográficos das elites desse período.
nacionais como o da homogeneidade étnica A partir do mito da Ilha-Brasil e da idéia
da identidade nacional, abordado por das fronteiras naturais, observou-se a
Radcliffe e Westwood (1999), deixando à sedimentação do território enquanto
margem da identidade massas de índios e elemento básico do discurso e da
negros. identidade nacional brasileira. A formação
A política de fronteiras do Império foi uma de ideologias geográficas, ao longo do
derivação da narrativa da Ilha-Brasil, isto século XX, no Brasil, se fez tendo sempre
é, a horogênese das fronteiras nacionais em por trás a sombra do território.
constituiu-se desde o início a partir de Construir o país é o mote ideológico que
concepções imaginárias construídas e orienta um projeto nacional que,
selecionadas coletivamente por uma elite atravessando diferentes conjunturas e
nacional no sentido de garantir a posse de distintos atores políticos, firma-se
um território imaginado como pré- enquanto um dos objetivos mais
existente numa “pré-proto- história” importantes desde o Império. A própria
nacional. Tais elementos sempre foram idéia de construir o país dota as elites de
pensados a partir da idéia de geração de coesão para atuar na construção de um
continuidade histórica para o território projeto nacional comum, o qual tem na
nacional, e tendo a diplomacia imperial base da identidade a própria mitologia
como elemento de desenvolvimento e territorial.
maturação da mitologia territorial nacional. Nesse sentido, a interação entre o mito e a
Desde a Independência, a política externa identidade, forjando o projeto nacional
brasileira orientou-se pelo imperativo de espacialmente apresentado, se deu, durante
construir a nação, o que significou o século XIX, de forma a conceber o papel
essencialmente moldar o seu território. Já catalisador da noção de “civilização”. A
no período republicado, a configuração das monarquia brasileira via, portanto, que
fronteiras nacionais continuou sendo o construir o país era levar a civilização aos
mote da diplomacia nacional. É sertões, ocupar o solo e subtrair os lugares
interessante aqui ressaltar que, foi no da barbárie (integrar o índio, apropriar-se
período do Império que mais da metade do da terra, etc.). Civilizar, enquanto ideologia
território atual brasileiro foi delimitado, geográfica, deveria ser entendida como
32% durante a Primeira República e uma outra forma de qualificar a expansão
somente 17% no período colonial. Assim, territorial, no bojo do processo de invenção
quanto ao período de delimitação, os dados da nação.
derrubam facilmente o mito da antiguidade A partir das primeiras décadas do século
das linhas limítrofes do país: o Império é o XX, observam-se no Brasil mudanças de
grande período de horogênese das ideologia geográfica. O papel catalisador
fronteiras nacionais. Contudo, esses que a idéia de civilização cumpriu para a
mesmos dados, ao atestarem a relevância antiga mentalidade será agora ocupado
do período imperial para a construção e pelo conceito de modernização.
Modernizar significa, dentre outras coisas,
2
Não é por acaso que, no plano do mito territorial reorganizar e ocupar o território,
da constituição da nacionalidade brasileira, os
valorizando-o. É importante notar que o
bandeirantes ocupam um lugar de destaque.

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povo continua de fora da construção da vista a importância que o território e os


identidade nacional ainda nesse período. O mitos territoriais tiveram (e ainda têm) na
Estado Novo, liderado por Vargas, traz em ‘invenção do Brasil’, na construção da
seus traços autoritários a caracterização da identidade nacional brasileira, o desafio
máxima: “tutela do povo em nome da aqui citado não é nada desprezível, mas
integridade do território”. completamente plausível e executável a
partir da re- imaginação da identidade
Ademais, vale ressaltar que, como coloca
nacional em nova base, multifacetada e
Moraes (2005), no período do Estado
multiétnica.
Novo, alguns dos elementos essenciais da
ideologia geográfica eram a mitologização 3. Considerações finais
da hinterland e a emergência da temática Como se pôde analisar ao longo do
regional como central na interpretação do presente trabalho, a identidade nacional
Brasil. Destarte, modernização e brasileira tem raízes fincadas na
regionalismo passaram ser elementos imaginação geográfica da elite imperial
coordenados dentro de um mesmo padrão acerca do território, tendo como
ideológico-geográfico. A mitologização da fundamentação essencial a doutrina das
hinterland trouxe consigo a inovação fronteiras naturais. A mitologia fundadora
valorativa do interior do país, que passa a da nacionalidade, o mito da Ilha-Brasil,
ser visto como matriz da brasilidade e traz consigo elementos discursivos que irão
santuário do verdadeiro caráter nacional. povoar o imaginário nacional até os dias de
Nesse período, a visão da brasilidade como hoje. O elemento territorial sempre esteve
sendo uma soma das culturas regionais do presente de forma marcante na construção
país gera a invenção de tradições e criação identitária brasileira. Nas ideologias
de identidade regionais fundadas nas geográficas, forjadas pelas elites ao longo
diversas partes do território nacional. da história nacional, o espaço foi
Somente em meados do século XX, a idéia onipresente. Tal fato encontra eco na
de povo começa a ganhar alguma história nacional, a qual vê a
ressonância e significado na discussão da construção/invenção do território preceder
identidade nacional no Brasil. Contudo, a construção do Estado nacional, que por
com o golpe militar em 1964, o sua vez antecede e preside a criação da
autoritarismo espacialista retoma o própria nação.
controle sobre a imaginação e construção Essa hipertrofia do territorial na construção
da identidade nacional, reforçando uma da identidade nacional brasileira marca,
visão geopolítica de atuação como não poderia deixar de ser, o
governamental e identificando o Brasil ao estabelecimento do ‘outro’ com o qual, e
seu território. Observa-se, nesse período, contra o qual, a auto-afirmação da
de forma cabal, o divórcio entre o Estado e identidade nacional tornou-se possível. A
a nação que se sedimenta então. idéia, não rara, de ver o Brasil como um
Com o processo de redemocratização do grande enclave na América do Sul (ou
Brasil nas últimas décadas do século XX, o mesmo na América Latina), encontra
qual ocorre no contexto da de aceleração significação no mito fundador da
do processo de globalização, torna-se identidade, da idéia da Ilha-Brasil.
patente o desafio de repensar o Brasil Destarte, o ‘outro’ e a ‘circunstância’ na
enquanto uma sociedade, requalificando a qual a identidade brasileira é conformada e
abordagem do território nacional, devendo imaginada estão imediatamente ligados à
este ser visto como um patrimônio da América hispânica, com aspectos
nação, e não sua razão de ser. Tendo em

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históricos que remetem à própria rivalidade


luso-espanhola.
Por fim, vale frisar que, conforme coloca
Moraes (2005): “A superação do
espacialismo autoritário não deve ser a
supressão do território no ordenamento do
projeto nacional, mas seu equacionamento
adequado ao ideal democrático”
(MORAES, 2005, p.103). Repensar, re-
imaginar, recriar, resignificar a identidade
nacional, passa por um maior equilíbrio do
tripé formador da narrativa identitária
(território, cultura e história), com a
incorporação de novos conceitos e a
recriação de maquinarias imaginárias que
venham a reinventar o próprio território e a
nação brasileira.

Referências
BAUD, Michiel. Fronteras y la construcción del
Estado en América Latina. In: CISNEROS, G. T. et
al. Cruzando fronteras. Quito: Abya Yala, 2004.
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MAGNOLI, Demétrio. O corpo da pátria. São
Paulo: Moderna/EDUNESP, 1997.
MORAES, Antonio Carlos Robert. Território e
História no Brasil. 2. ed. São Paulo: Annablume,
2005.
PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. A
reinvenção dos territórios: A experiência latino-
americana e caribenha. In: CECEÑA, A. E.
(comp.). Los desafíos de las emancipaciones en
un contexto militarizado. Buenos Aires:
CLACSO, 2006. p.151-197.
RADCLIFFE, Sarah; WESTWOOD, Sallie.
Rehaciendo la nación: Lugar identidad y política
en América Latina. Quito: Abya Yala, 1999.

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