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Antropologia Filosófica

Muitas vezes nos surpreendemos com as


semelhanças entre os humanos e os
animais, principalmente com aquele que
se encontram nos níveis mais altos da
escala zoológica de desenvolvimento,
como macacos e cães.
Antropologia Filosófica

Tal como eles, temos inteligência,


demonstramos amor e ódio, sentimos prazer, dor e
sofrimento, expressamos alegria, tristeza e
desejos, além de tantas outras características
comuns que descobrimos no convívio com animais.
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“Será que meu cachorro pensa?”


“E se pensa, em que o ‘pensamento’ dele se distingue
do meu?”
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Ação por Instinto


Se os animais superiores são inteligentes, o
mesmo não acontece com os animais que se
situam nos níveis mais baixos da escala zoológica
– tais como os insetos – porque eles agem
principalmente por reflexos e instintos
(comportamento que nasce com o indivíduo e que
independe das circunstâncias e do controle racional da
vontade).
Antropologia Filosófica

A ação instintiva é regida por leis biológicas,


idênticas na espécie e invariáveis de indivíduo para
indivíduo. A rigidez do instinto dá a ilusão de
perfeição, já que o animal executa certos atos com
extrema habilidade.
Antropologia Filosófica

Os atos instintivos ignoram a finalidade da


própria ação. Em contrapartida, o ato humano é
consciente da finalidade, isto é, o ato existe antes
como pensamento, como possibilidade, e a
execução resulta da escolha de meios
necessários para atingir os fins propostos. Quando
há interferências externas no processo, os planos
são modificados para se adequarem à nova
situação.
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O uso da Inteligência:
Ao contrário da rigidez de reflexos e instintos, a
inteligência [capacidade de resolver problemas práticos de
maneira flexível e eficaz. No sentido estritamente humano,
capacidade de solucionar problemas pelo pensamento
abstrato (raciocínio, simbolização)] dá uma resposta ao
problema ou à situação nova de maneira improvisada e
criativa. Esse tipo de comportamento é compartilhado por
seres humanos e animais superiores.
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Experiências interessantes foram realizadas pelo psicólogo


Wolfgang Köhler, quando instalou nas ilhas Canárias uma colônia de
chimpanzés, na década de 1910. Em um dos experimentos, o animal
faminto não conseguia alcançar as bananas penduradas no alto da
jaula. Depois de um tempo, o chimpanzé resolveu o problema ao puxar
um caixote para alcançar a fruta. Segundo Köhler, a solução
encontrada pelo chimpanzé não foi imediata, mas ocorreu no momento
em que o animal teve um insight. A visão global lhe permitiu
estabelecer a relação entre o caixote e a fruta: esses dois elementos,
antes separados e independentes, passaram a fazer parte de uma
totalidade.
Antropologia Filosófica
Antropologia Filosófica

A inteligência distingue-se do instinto pela


flexibilidade, pois as respostas variam de acordo
com a situação e também de animal para animal.
Tanto que Sultão, um dos chimpanzés mais
inteligentes no experimento de Köhler, foi o único
a realizar a proeza de encaixar um bambu em
outro para alcançar o alimento colocado mais alto.
Antropologia Filosófica
Antropologia Filosófica

Portanto, os comportamentos descritos não se


comparam à resposta instintiva, de simples
reflexo, por tratar-se de atos de inteligência, de
invenção.
Desenvolvimento da Consciência

O homem como um sistema aberto:

Estudo das proporções do corpo humano, de


Leonardo da Vinci (1492 – 1519). Para Freud, o
fundador da psicanálise, Leonardo “foi como um
homem que acordou cedo demais na escuridão,
enquanto os outros continuavam a dormir”.
Desenvolvimento da Consciência
O homem como um sistema aberto:
Desenvolvimento da Consciência

Talvez nada caracterize melhor o ser humano do


que a consciência, isto é, o desenvolvimento dessa
atividade mental que nos permite estar no mundo com
algum saber, “com-ciência”.
Por isso a biologia classifica o homem atual como
sapiens sapiens: o ser que sabe que sabe.
Desenvolvimento da Consciência

O homem é capaz de fazer sua inteligência


debruçar sobre si mesma para tomar posse de seu
próprio saber, avaliando sua consistência, seu
limite e seu valor.
Desenvolvimento da Consciência

O processo contínuo de
conscientização faz do homem, portanto,
um sistema aberto, fundamentalmente
relacionado com o mundo e consigo
mesmo. O ser humano pode voltar-se para
dentro de si, investigando seu íntimo. E
projetar-se para fora, investigando o
universo.
Desenvolvimento da Consciência

Assim, a conscientização faz do homem um ser


dinâmico, eterno caminhante destinado à procura e
ao encontro da realidade. Caminhante cuja estrada é
feita de harmonia e do conflito com o ser, o saber e o
fazer, dimensões essenciais da existência humana.
Desenvolvimento da Consciência
Desenvolvimento da Consciência

Tipos de Consciência:
• Consciência de si
• Consciência do outro
• Consciência crítica
• Consciência mítica
• Consciência religiosa
• Consciência intuitiva
• Consciência racional
Desenvolvimento da Consciência

Consciência de si
• Concentração da consciência nos estados
interiores do sujeito, que exige reflexão. Alcança-se,
por intermédio dela, a dimensão da interioridade que
se manifesta através do processo de falar, criar,
afirmar, propor, inovar.
Desenvolvimento da Consciência

Consciência do Outro
• Concentração da consciência nos objetos
exteriores que exige atenção. Alcança-se,
por intermédio dela, a dimensão da
alteridade (do latim, alter, “outro”) que se
manifesta através do processo de escutar,
absorver, reformular, rever, renovar.
Desenvolvimento da Consciência

Consciência Crítica
• Depende do crescimento dessas duas dimensões
da consciência: a reflexão sobre si e a atenção sobre
o mundo. Se apenas um desses aspectos se
desenvolve, há uma deformação, um abalo no
desenvolvimento da consciência crítica.
Desenvolvimento da Consciência
O escritor alemão Wolfgang Goethe (1749 –
1832) dizia que o homem só conhece o mundo
dentro de si se toma conhecimento de si mesmo
dentro do mundo.
Assim, o desenvolvimento da conscientização
humana depende da superação do isolamento e
do alheamento.
Desenvolvimento da Consciência

Consciência mítica
• Quando falamos em mito num sentido
antropológico, que é o que nos interessa aqui,
queremos nos referir às narrativas e ritos tradicionais,
integrantes da cultura de um povo, principalmente
entre as populações primitivas e antigas, que utilizam
elementos simbólicos para explicar a realidade e dar
sentido à vida humana.
Desenvolvimento da Consciência

Através dos mitos, os homens procuravam explicar a


realidade e, a partir dessa explicação, criavam meios para,
por exemplo, se proteger dos males que os ameaçavam.
Por intermédio de ritos sagrados, afirmavam e renovavam
suas alianças com os seres sobrenaturais e, com isso,
produziam uma sensação de amparo diante dos perigos da
vida.
• Nesse sentido, as lendas míticas de vários povos são ricas
em metáforas e reflexões sobre os homens e sua
condição no mundo.
Desenvolvimento da Consciência
Hércules é nome romano do semideus grego Herácles, filho de Zeus e de uma
mortal. Conhecido por sua força física, enfrentou inúmeros desafios,
principalmente devido à cólera e vingança da deusa Hera, esposa de Zeus,
enciumada pela traição do marido. Na imagem, Hércules se cobre com a cabeça e
a pele do Leão de Némea, um monstro que matou no primeiro de seus doze
trabalhos. Na tela do pintor italiano renascentista, o herói enfrenta a Hidra de
Lerna, espécie de serpente de várias cabeças que voltavam a crescer depois de
cortadas. Segundo intérpretes, a hidra seria o pântano de Lerna – que Hércules
conseguiria secar – e as cabeças, as nascentes d’água que até então não
paravam de jorrar. Outros comparam a hidra ao delta dos rios, com suas
enchentes. Não por acaso, a palavra hidra vem do grego e significa água.
Desenvolvimento da Consciência
Há nesse relato várias referências ao que vimos
até aqui sobre os mitos. Faça uma interpretação
atual do mitos, destacando algum
acontecimentos ou sentimento que poderia ser
simbolizado pelo mito da Hidra de Lerna..
Desenvolvimento da Consciência
Hércules e a Hydra. Antonio di Jacopo (Pollaiuolo, 1475)
Desenvolvimento da Consciência

Consciência Religiosa:
• A consciência religiosa compartilha com a consciência mítica o
elemento do sobrenatural, a crença em um poder superior inteligente,
isto é, a divindade.

No entanto, é uma consciência que, historicamente, conviveu, dialogou


e debateu com a razão filosófica e científica. Sua diferença em relação
a esses saberes está na crença em verdades reveladas pela fé religiosa
enquanto a filosofia e a ciência se apoiam sobretudo na razão para
alcançar conhecimento.
Desenvolvimento da Consciência

O francês Pascal afirmou: “o coração tem razões


que a razão desconhece”, isto é, existem outras
possibilidades de conhecimento das quais a razão não
participa.
Desenvolvimento da Consciência

Consciência intuitiva:
• A intuição é uma forma de consciência que pode ser
apontada como um saber imediato, ou seja, ocorre
como um insight. Desse modo, a intuição distingue-se
do conhecimento formal, refletido, que se constrói
através de argumentos.
Desenvolvimento da Consciência

São as “leituras de mundo” guiadas pelo


conjunto de experiências de cada indivíduo e
que, dessa forma, só podem ser “decifradas” a
partir de suas vivências subjetivas.
Desenvolvimento da Consciência

Consciência Racional:
• A consciência racional busca a compreensão da
realidade por meio de certos princípios
estabelecidos pela razão, como, por exemplo, o de
causa e efeito (todo efeito deve ter a sua causa).
Essa busca racional se caracteriza por pretender
alcançar uma adequação entre pensamento e
realidade, isto é, entre explicação e aquilo que se
procura explicar.
O agir humano: a cultura
Vários estudiosos, dentre eles Braidwood, colocam que
a cultura tem elementos que a caracteriza:

• Adquirida pela aprendizagem, e não herdada pelos


instintos;
• Transmitida de geração a geração, através da
linguagem, nas diferentes sociedades;
• Criação exclusiva dos seres humanos, incluindo a
produção material e não-material;
• Múltipla e variável, no tempo e no espaço, de
sociedade para sociedade.
O agir humano: a cultura
O agir humano: a cultura
Em geral, vivemos dentro de nossa cultura num fluir
contínuo, como se nosso modo de ser fosse igual para
todas as pessoas e as diversas coisas do mundo fossem
sempre assim como as experimentamos. Somos como um
peixe que nasceu dentro de um aquário e toma essa
ambiente como sendo o mundo. Esse estado habitual de
nossas vidas se vê confrontado, por exemplo, quando
viajamos para fora do país. Aí percebemos uma série de
diferenças no modo de falar, comer, vestir e cumprimentar
daqueles que estão fora da nossa cultura. Neste instante,
ocorre um estranhamento em relação a esses elementos
culturais que estão fora de nós, quebrando a invisibilidade
da nossa própria cultura.
O agir humano: a cultura

O problema desta invisibilidade está, no entanto,


em que, como os integrantes de uma cultura
compartilham a mesma maneira de ver e viver as
coisas, comumente acreditamos que essa visão
compartilhada constitui uma realidade única ou a
verdade absoluta.
O agir humano: a cultura
E, por conta disso, podemos, equivocadamente:

• Desprezar grupos culturais com visões distintas e entrar em confronto


com eles, sendo intolerantes em relação à diferença;
• Não encontrar saídas para as dificuldades ou novos desafios que surjam
em nossa família, escola, trabalho e sociedade. Não vemos alternativas
porque, muitas vezes, estamos condicionados pelo padrão cultural em
que vivemos. Isso é fonte de conformismo expresso em frases como “o
mundo foi sempre assim”, “todas as pessoas são desse jeito”.
Antropologia Filosófica

Acredita-se que a filosofia pode ser um bom apoio nesse


processo de transformação cultural, pois filosofar é
promover uma reflexão profunda sobre a natureza e o ser
humano, analisando o que fazemos, sentimos, pensamos e
manifestamos. Aprender a filosofar contribui para a
compreensão do mundo e nos impulsiona a desempenhar
um papel mais consciente e ativo dentro dele.
Antropologia Filosófica

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