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Bolsista: Rafael Santos de Araújo Pereira

O contexto do PIBID no ano de 2021 já começa com um novo desafio: a


necessidade de se encaixar na nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC),
já prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) do ano
de 1996, porém apenas em 2015 a sua primeira versão fora lançada causando
mobilização nas escolas que exigiam debater o documento, debate esse que
se prolongou até o ano de 2018, quando finalmente fora homologada a lei. A
BNCC tem como objetivo definir as competências essenciais que devem ser
desenvolvidas por cada aluno, servindo de referência para a formulação do
currículo.
A lei causou muita polêmica por diversos fatores, entre eles está a sensação
que o documento causara de que tinha como objetivo ser apenas mais um
instrumento de manipulação nas mãos do governo, pois, teoricamente, seria
removido as matérias de filosofia e sociologia da grade obrigatória, uma atitude
que, com razão, gera a impressão, que talvez não fosse apenas um
pressentimento, de que o poder quer alienar a população, lhes privando do
senso crítico. Além disso, o documento era tido por parte dos educadores como
algo desnecessário, levando a imediata recusa da escritura por parte dos
mesmos.
Independente da opinião negativa que causara, o documento ainda sim fora
desenvolvido e, sem outra opção, os educadores participaram da elaboração
da lei com o intuito de fazer um documento que fosse, ao menos, aceitável e
condizente com a situação do Brasil e suas carências. Dessa forma um pouco
conturbada a BNCC foi desenvolvida e hoje há de ser estudada e criticada para
termos o exercício pleno da educação básica.
A BNCC tem como ideia central o desenvolvimento de aptidões, sendo listado
no geral as 10 competências básicas e dentro de cada área do conhecimento
existem domínios específicos que se espera ser ensinada aos alunos. Na
prática a diferença mais gritante pode ser vista no ensino médio, onde, ao
chegar no primeiro ano, o aluno decide quais serão os focos de metade de sua
grade, a outra metade permanece obrigatória com as disciplinas de costume.
No meio da grade opcional serão ofertadas disciplinas com temas específicos
decididos de acordo com o contexto do colégio em questão. O documento visa
também uma maior interdisciplinaridade sendo exigida um planejamento em
conjunto entre professores de diferentes matérias. Além disso surge também o
Projeto de Vida, que visa trazer aos alunos os questionamentos “quem sou?”
“quem eu quero ser?” para que assim seja desenvolvido autoconhecimento no
estudante. A lei se expande para além das escolas e visa trazer mudanças
também na formação de professores e no método de ingresso nas
universidades.
No primeiro momento a opinião que tinha era negativa, muito por causa de toda
polêmica causada com relação a retirada da filosofia e sociologia da grade
obrigatória. Quando em contato com o texto pela primeira vez todo sentimento
negativo radicalmente se tornara sentimento positivo recheado de esperança.
Com a familiarização, a presença em debates sobre o documento, fora
surgindo cada vez mais críticas e insatisfações que em breve será justificada.
Um grande questionamento que surgiu para todos bolsistas do PIBID de
filosofia foi: “qual o espaço da filosofia na BNCC?”. Logo de cara vale ressaltar
que a filosofia ainda existe e, se bem aplicada, com mais força ainda. No
documento não está previsto uma importância maior para a filosofia nem nada
do tipo, o que ocorre é uma provável conquista de espaço ao acaso, pois a
filosofia se encaixa, muito provavelmente de forma inconsciente, em vários
aspectos do documento, por exemplo o projeto de vida que, por motivos
óbvios, tem muito a ver com a filosofia, pois a mesma se ocupa de várias
questões essenciais que vão ser levadas em consideração durante o processo.
Além disso, o fato de os questionamentos filosóficas serem de natureza
macrocósmica, unido ao fato de ser a mãe de todas as ciências, a torna uma
matéria de essência interdisciplinar, ou seja, ela tem muito a oferecer para os
projetos que visam trabalhar com mais de uma área de conhecimento em
questão.
A existência de matérias de temas específicos pode vir a ser um benefício para
o ensino de filosofia, principalmente nas escolas públicas, onde os alunos não
estão familiarizados com a matéria, pois não faz parte do currículo do
fundamental. É possível utilizar de vários métodos e temáticas diferente para
enriquecer o repertório filosófico do aluno, planejando aulas que estejam
diretamente associadas ao contexto dos estudantes, o que, automaticamente,
torna a aula mais interessante pra o adolescente. Temas como hip hop, que
pode trazer uma reflexão crítica da situação sociopolítica, ou até aulas voltadas
para exibição e meditação de um filme com presença marcante de reflexões
filosóficas podem ser cartas na manga para facilitar a compreensão do
estudante a respeito da matéria e, naturalmente, enriquecer as aulas de
filosofia.
Com relação ao PIBID, é possível que haja uma facilidade, talvez um incentivo
maior, para que seja implementada atividades extracurriculares, afinal agora é
se espera que sejam feitas tarefas dessa natureza. Ainda há muitas dúvidas
nos possíveis impactos que o PIBID e a residência pedagógica vão sofrer, em
tese a BNCC visa trazer mudança em todos os aspectos que estão em volta da
escola, e esses programas não estão fora dessa lista.
Já os alunos que vão experienciar essa nova formatação do ensino médio
talvez tenham uma experiência mais relevante para o que planeja para seu
futuro, afinal de contas vão existir mais de uma opção de itinerário com
possibilidade de escolher as áreas de interesse, podendo escolher as grades
que dão mais ênfase pra o que deseja estudar, seja humanas, exatas,
linguagem ou ciências naturais, pode existir também outros formatos de
itinerário, variando de escola pra escola, de contexto pra contexto.
A respeito dos professores, a BNCC trouxe algumas polêmicas quando se trata
da sua formação, seja ela a sua graduação, seja ela a formação continuada.
Existe uma forte opinião, que não reflete precisamente a realidade, de que a
formação de professores seria um dos grandes motivos pelo qual a situação da
educação brasileira se encontra nesse estado atualmente, quando na realidade
é possível enxergar, ao menos nas principais universidades brasileiras, uma
formação rica para os professores. É claro que existem sim pontos a serem
aprimorados, mas essas evoluções potenciais não podem ser taxadas como
causadoras dos aspectos negativos da educação brasileira, porque o que se
enxerga de fato é uma falta de interesse do poder público num maior
investimento nas escolas e em elaboração de leis eficientes para o avanço da
educação brasileira. É cobrado também que a grade de formação de
licenciatura trabalhe como ensinar os conteúdos básicos do ensino
fundamental, o que é uma mentalidade atrasada, afinal o que deve ser passado
para o graduando é o processo educativo como um todo, as formas de
transformar as crianças e os adolescentes em seres pensantes e protagonistas
de sua própria história.
A BNCC está longe de ser um documento satisfatório pra opinião dos
educadores em geral. Muito se é criticado a respeito de sua natureza neoliberal
que pouco se preocupa com o subjetivo. O documento assume que educação é
sinônimo de ensino, se preocupando em demasia com a “transmissão” de
conhecimento e nada se preocupa com a criação de um ambiente pedagógico
por completo, afinal a educação não está presente apenas no ensino de
conteúdo. Fazer da escola um meio onde a criança tenha aprendizados para
além da acumulação de conhecimento é essencial para que as crianças saiam
dos colégios como seres críticos, sabendo se comunicar, resolver problemas,
se conhecendo, entre outros tantos critérios que a vida vai exigir daquele ser
humano. Os conteúdos ensinados tem como objetivo, para além da mera
informação, trazer reflexões em sala de aula que sejam de relevância para o
amadurecimento dos jovens e, para isso, é necessário um planejamento do
professor, que deve se ocupar de trazer reflexões e transformar, nem que seja
minimamente, o aluno que tem contato com tal informação. É aí que uma
formação rica em processos educativos se destaca, o mesmo não seria
possível caso esse mesmo professor tivesse uma formação extremamente
prática voltada apenas para o ensino de conteúdo.
Nota-se no documento uma esperança que foge do real. A BNCC parece crer
que ela por si só vai transformar a educação brasileira, que a partir daí vai
mudar todo o Brasil como uma espécie de super herói. A educação de fato ela
é transformadora, sem ela um país não tem o que é necessário para evoluir,
afinal é ela quem vai moldar os seres humanos que ali nascem, porém ela não
vai salvar o mundo caso não seja acompanhada de uma estrutura de leis
satisfatórias, que criem uma situação equilibrada o suficiente para que a
educação transforme o status quo. De nada adianta uma escola que atenda
perfeitamente seu aluno, se o mesmo vive em condições precárias sem ter ao
menos um saneamento básico, se em sua casa a violência reina, se ele vai pra
escola com o único intuito de se alimentar. É necessário também que
simultaneamente seja dada atenção para a satisfação de todos os direitos
básicos do cidadão, caso contrário dificilmente será possível ver a
transformação radical que se espera.
Diante de todo conteúdo o qual tive acesso, a minha impressão é que a
educação brasileira ainda caminha em passos lentos, que existe um
documento que não é nem de longe o que se precisava e que a transformação
real vai ter que ser feita pelos próprios professores em um movimento que, de
forma irônica, busca dar mínima importância a lei aprovada. O que enxergo é a
falta de compreensão do contexto brasileiro como um todo, pois o documento
segue o padrão que se espera de um país fruto de colonização, o padrão de
importação de políticas públicas, pouco se importando com a dinâmica cultural
brasileira e, mais uma vez, cedendo para a lógica neoliberal. Ainda sim espero
que algumas transformações sejam vistas e que, aos poucos, os professores
conseguirão reverter o que está escrito em algo benéfico para a sociedade,
através de muita luta e debate.

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