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RESUMO

Marisa Amaral de Almeida


FREITAS Jr.; PERUCELLI. Cultura e Identidade: compreendendo o processo de
construção/desconstrução do conceito de identidade cultural. In: Cadernos de estudos
culturais, Campo Grande, MS, v. 2, p. 111-133, jul./dez. 2019.

Freitas Jr. e Perucelli (2019) propõem discutir a identidade cultural a partir da


relação existente entre os conceitos de identidade e cultura. Para isso, analisam como se
deu o processo de construção histórica de cada um, além de, pela ótica de uma
abordagem desconstrutivista - que rompe com algumas de suas ideias tradicionais e dá
abertura para novos diálogos, nos quais se incluem discussões sobre o multiculturalismo
-, buscar entender como eles convergem favoravelmente às novas identificações
culturais.
A princípio, compreendemos que os conceitos de identidade e cultura são
complementares. A identidade diz respeito ao sentimento de pertencimento dos
indivíduos a determinada cultura, às simbologias que o representam de alguma forma, à
toda sua bagagem de valores e crenças (FREITAS Jr.; PERUCELLI, 2019, p.112). A
cultura, portanto, é o pilar básico que sustenta sua definição. Para apurar mais o
conceito, também podemos pensar na identidade pelas visões do essencialismo e da
construção social. Segundo Escosteguy (2010 apud FREITAS Jr.; PERUCELLI, 2019,
p.114), no primeiro caso, o conceito remete à organização de grupos/comunidades; no
segundo, se refere à identidade como produto do meio sociocultural. Ambas não
enxergam o ser humano em sua individualidade despida do meio, visto que sempre o
colocam em determinada posição subalterna; o que também contribui para a
diferenciação e manutenção de hierarquias. Nesse sentido, quando se fala em “crise da
identidade”, devemos ter em mente o declínio de “velhas identidades” antes fixadas
como modelos, e que não mais correspondem às identificações que vão surgindo nos
inúmeros e complexos contextos da vida humana pós-moderna. Ao invés de algo
formatado e acabado, a identidade passa a ser compreendida como algo em andamento,
num processo de constante mudança, adaptação e significação.
Os primeiros estudos culturais remetem ao contexto do pós-guerra na Inglaterra.
Certas mudanças no padrão sociocultural da época implicaram na necessidade de
compreensão das relações que dali surgiam/se modificavam no eixo sociedade/cultura
(FREITAS Jr.; PERUCELLI, 2019, p.114). Mais recentemente, dentre as discussões
que partem de várias correntes de conhecimento das Ciências Humanas, tais como a
Filosofia, a Sociologia, a História, dentre outras, o sub campo dos Estudos Culturais
incluiu nessas discussões a perspectiva de uma abordagem multicultural sobre o tema.
Para Hall (2003), partindo desses estudos, o entendimento do conceito de cultura era e é
bastante amplo e complexo, uma vez que envolve todo um conjunto de produtos das
relações humanas; tais como a distinção entre grupos e classes, suas tradições, seus
valores e práticas, entre outros. A definição de cultura, conforme essa ótica, não poderia
caber em discursos que não a reconhecem em sua pluralidade.
No contexto clássico da história, cultura foi entendida como algo oposto à
selvageria. Segundo essa perspectiva, uma civilização só poderia ser aquela cujos
homens preservassem determinados códigos sociais e morais, num “processo de
progressão intelectual, espiritual e material” (EAGLETON, 2011 apud FREITAS Jr.;
PERUCELLI, 2019, p.122). Quando fala de desconstrução, nesse sentido, Jacques
Derrida (2001) reconhece a necessidade de se romper com certos conceitos separatistas
que surgem da abertura que essa interpretação dá para visões polarizadas, hierárquicas e
que contribuem para diversos problemas que povoam a vida humana em sociedade. Tais
problemas, a exemplo da desigualdade, dos estigmas e preconceitos, devem ser
contestados por não coincidirem com uma projeção de coexistência pacífica. Esse
movimento resulta na subversão da ideia inicial que o conceito traz, de forma que esta
se torne passível de novas interpretações e diálogos sob outros pontos de vista.

Em abordagens pós modernistas, de autores como Zygmunt Bauman (2013),


Chauí (2008) e Kuper (2002), por exemplo, essa perspectiva é ampliada em novos
sentidos. Para Bauman (2003), cultura deveria ser uma “ferramenta básica para a
construção de um Estado ou Nação, e de um Estado-nação” (FREITAS Jr.;
PERUCELLI, 2019, p.122). Nesse sentido, deveria ser compreendida como uma
oposição direta ao status quo, ao invés de ser reduzida meramente a algo voltado para a
formação de massas e refinamento de costumes. Já Chauí (2008), investiga a relação
entre cultura e progresso, da qual se depreende a interpretação de cultura como
sinônimo do avanço de uma civilização. Uma sociedade que não fosse constituída por
um Estado ou mercado organizado, por exemplo, ou que não dominasse a escrita e
meios de comunicação - conforme determinados aspectos da cultura ocidental -, seria
classificada como ‘sem cultura’, ‘pouco evoluída’, ou mesmo primitiva (FREITAS Jr.;
PERUCELLI, 2019, p.123). A autora também discorre sobre a interpretação de cultura
pela perspectiva da antropologia sócia e histórica, segundo a qual esta incluiria aspectos
como a expressão histórica e material humana, além de seu simbolismo e
individualidade (CHAUÍ, 2008 apud FREITAS Jr.; PERUCELLI, 2019, p.126). Essa
visão inclui fatores como a linguagem, a religião, a sexualidade, costumes, entre outros,
como integrantes de “um campo no qual os humanos são responsáveis por: criação de
símbolos e signos, instituição de práticas e valores (...), dar sentido ao tempo (passado,
presente e futuro), diferenças estabelecidas neste espaço, ideia de lei, do permitido e
proibido, etc.” (CHAUÍ, 2008, p. 57 apud FREITAS Jr.; PERUCELLI, 2019, p.126).
Kuper (2002), por sua vez, aborda o conceito pelo olhar do multiculturalismo, segundo
o qual cultura poderia ser entendida por dois ângulos: através da diferenciação cultural,
ou por sua oposição e crítica.

Mas como os estudos sobre identidade e cultura podem contribuir para o


conceito de identidade cultural? Segundo os autores, a partir de pontos de vista nos
quais se enquadram os seguintes conceitos: a epistemologia da pós modernidade, que é
o estudo científico, crítico e detalhado de princípios e hipóteses levantados sobre
determinada questão, numa abordagem que, diferentemente dos moldes modernistas,
leva em conta seu objeto de estudo por uma perspectiva desconstrutivista, que
contempla todas as suas particularidades e sentidos; o conceito de civilização, que não é
um consenso, mas pode ser resumido como a forma em que a sociedade lida com
questões que atribuem significados a seus integrantes; e pelo processo de globalização,
que envolve esse constante transformar das engrenagens que operam as relações entre
indivíduos e sociedade.

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